TFG_ MODOS DE FAZER-JUNTO NAS RELAÇÕES DA CIDADE

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Experimentos metodológicos insurgentes na prática de Arquitetura e Urbanismo ou Modos de fazer-junto nas relações da cidade

Flora Menezes Tavares

Glória Cecília dos Santos Figueiredo [orientação] Junia Cambraia Mortimer [co-orientação] Banca examinadora: Gabriela Leandro Pereira [profa. FAUFBA] Thaís Troncon Rosa [profa. FAUFBA] Suzany Varela [convidada externa] Marcela Brandão [convidada externa] Universidade Federal da Bahia Curso de Arquitetura e Urbanismo Trabalho Final de Graduação Salvador, Junho de 2022


a


agradecimentos


À Glória Cecília, orientadora querida, que trouxe contribuições provocadoras e pertinentes na leitura atenta deste trabalho. Nossos caminhos se cruzaram em 2016, e de lá pra cá, os aprendizados coletivos que dividimos foram imensuráveis. Obrigada por marcar minha formação de forma tão transformadora e amorosa. À Junia Mortimer, que recebe o título de co-orientadora por mera formalidade, e dividiu com Glória esse papel. Agradeço pela parceria, pelas referências partilhadas e pela sensibilidade instigante nos seus ensinamentos. À banca examinadora, um grupo de mulheres incríveis com as quais me sinto honrada de dividir esse momento: a professora Thaís Rosa, parceira de tantas conversas e trocas que alimentaram meu percurso; a professora Gaia, a quem tenho grande admiração, e a professora Marcela Brandão, convidada para esse momento, com quem espero iniciar trocas férteis. Um agradecimento especial a Suzany Varela, que topou compor essa banca e estar presente na apresentação intermediária do trabalho, trazendo importantes considerações. Agradeço por poder contar com seu olhar nesses aprendizados. Aos integrantes do TRAMA, Atailon Matos, Lucas Ribeiro, Luisa Caria, Marina Muniz, Marina Novais, Matheus Tanajura e Zara Rodrigues. Esse trabalho é nosso, e sem vocês, ele não existiria. Agradeço a cada um pelo incentivo e pelo fortalecimento nesse processo. Que juntas e juntos possamos construir novos sentidos para esse TFG, desdobrando ações, aprofundando aprendizados, e usando dos acúmulos desse material para tudo que sei que ainda está por vir. Agradeço especialmente a Matheus, uma referência que tenho a sorte de chamar de amigo. Obrigada pelas contribuições valiosas e por me apoiar sempre. A todos os movimentos que também tecem essa trama: à Articulação do Centro Antigo, aos moradores/as do Subúrbio, aos moradores/as do Tororó, aos moradores/as da 7ª Etapa (São Dâmaso). Em especial, agradeço a Sandra Regina, Vilma Santos, Irmã Jacira, Ana Caminha, Maria de Xindó e Suzany Varela, 04 | Experimentos metodólogicos insurgentes na prática de Arq. e Urb.


mulheres que fizeram parte do podcast Elas Fazem Cidade, uma experiência extremamente rica que contribuiu muito no brotar deste trabalho. Aos integrantes do grupo LEIA (Laboratório de Estudos da Imagem e Arquitetura), que propiciaram um espaço de estudo, pesquisa e trocas que foram fundamentais para este trabalho. Agradeço especialmente à Deise Lima, colega de pesquisa que se tornou uma grande amiga no último ano. Que prazer ver seu trabalho nascer no mesmo momento que o meu, e poder aprender também com o seu processo. À Natália Lessa, minha parceira de jornada nessa graduação, com quem dividi tantos momentos importantes nos últimos anos, inclusive este de conclusão do curso. Que bonito é poder nos formarmos juntas. Agradeço pelas tardes de trabalho coletivas e pelo carinho. À Alyssa Volpini, por todo afeto e incentivo. À Luiza e Julia, minhas amigas irmãs, que me dão força e me acompanham em todos momentos. À Victor, pela escuta, pela presença, pelo cuidado, e pelo amor que nutriu os meus dias. Por ter acompanhado os altos e baixos desse processo, e por ter sido colo sempre que precisei, agradeço profundamente. À minha família. A Greice, Bebeto e Caio, por estarem do meu lado e por sempre torcerem por mim. Obrigada por terem contribuiído para a minha formação das mais diversas formas. Aprendo muito com vocês. Agradeço especialmente a minha mãe, Greice, pela generosidade em revisar e discutir o texto desse trabalho comigo. À FAUFBA e a Salvador, meus lugares. Apesar das assimetrias e dos conflitos, por estes serem espaços de aprendizado e por terem me permitido tantos encontros que me fizeram ser quem sou hoje. Agradecimentos | 05


sumário Introdução______ 10

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Arquitetura e Urbanismo enquanto prática política______ 18 I. Tornar-se arquiteta______ 24 II. Da universidade para cidade______ 31 III. Ensino, pesquisa, extensão: ao encontro de territórios populares e negros de Salvador______ 37 IV. Campo ampliado, campo implicado______ 45

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A construção do TFG I. TFG coletivo: “Quando o eu vira nós” - tramando outras atuações possíveis______ 53 II. TFG multilinguagem: Comunicação nas lutas pelo direito à cidade______ 63 III. TFG pandêmico: Imaginando outros mundos a partir das crises______ 79


3

Costurando trajetória: aprendizados em trama I. Apreendendo (com) experiências______ 89 II. Experiências gerais______ 100 III. Aprofundamento: TRAMA______ 126

4

Experimentos metodológicos I. Colagens______ 183 II. Jogo de cintura______ 190 III. Escuta______ 192 IV. Como as experiências se alimentam?______ 194 V. Buracos e pontas soltas da trama______ 197

5

Aberturas, limites, continuidades, horizontes______ 202

Referências



introdução


Gestos tecidos por muitas mãos. Metodologias esculpidas a partir de trocas. Saber compartilhado que se aprende fazendo, continuamente. Tramas de encontros, afetos, escutas, e enfim, proposição. Jogo de cintura para amarrar essa dança. Na encruzilhada entre o ontem, o hoje e o amanhã, desembocam perguntas: Como iniciar algo que já teve começo? Como dar fim a uma etapa, ressignificando o que se espera desse dito final? Construir um rito de passagem envolve um quê de encanto. Na esquina das dúvidas, a certeza de que aprender cidade não é coisa que se faz sozinha. Não cabe — somente — em sala de aula e em livros, mas também, vai além deles. O saber acadêmico não é o único saber, e rompendo com a gramática da supremacia (SANDOVAL, 2000, p.2), é preciso provocar conhecimentos a interagirem entre si — somando-se, acumulando-se, complementando-se. Para saber ler as carto-corpo-grafias da vida urbana, e assim, entender como também escrevê-las (e inscrevê-las), necessita-se de ouvidos sensíveis e olhares atentos. Na companhia deles, percorrer as ruas que são arquivos, as pessoas que são acervos vivos, as memórias que são mares profundos. Missão diária, urgente, é desaprender o colonialismo que cruzou os oceanos. Recontar a história, mas sobretudo, criar novas histórias também. Inventar novos mundos em que caibam outras práticas de vida. Disputar o futuro. Repovoar imaginários. Insurgir. Sonhar.

Movida por essas inquietações, tento, com esse trabalho, apresentar e refletir sobre um repertório de práticas e experimentos metodológicos insurgentes no campo da Arquitetura e Urbanismo, ou, em termos mais simples: modos de fazer-junto nas relações da cidade. Tomo como ponto de partida, de forma mais ampla, experiências coletivas diversas que fizeram parte da minha trajetória na Universidade, e em recorte específico, atuações recentes do TRAMA, grupo do qual faço parte, e que se configura como principal núcleo de adensamento das 10 | Experimentos metodólogicos insurgentes na prática de Arq. e Urb.


reflexões deste trabalho. O TRAMA é uma rede que, através do entrecruzamento entre comunicação, arquitetura-urbanismo, educação e artes, tece ativismos criativos e ações de impacto social junto a movimentos urbanos, universidade e instituições implicadas nos enfrentamentos às injustiças socioterritoriais e no combate ao racismo. O surgimento do grupo ocorreu em 2020, a partir da união de uma coletividade de estudantes, mestrandas/os, arquitetas/os e pesquisadoras/ es, do qual faço parte, e será narrado de forma mais aprofundada no decorrer do trabalho. Nas experiências abordadas neste TFG, apostas éticas e alianças políticas, também sensíveis e afetivas (CADENA, KRENAK, 2020), vem se formando na pesquisa acadêmica, em parceria com diferentes instâncias da sociedade civil, especificamente em territórios populares e negros1, na cidade de Salvador. A partir do encontro entre essa rede de agentes, eventos, conflitos e coexistências, quais formas de fazer cidade emergem? Quais ferramentas, análises e teorias estão sendo mobilizadas nesses outros modos de praticar Arquitetura e Urbanismo? Que mundos essas experiências potencializam, imaginam, constroem? O capítulo 1, “Arquitetura e Urbanismo, enquanto prática política e reflexões sobre o TFG”, possui um caráter introdutório. Nele, argumento sobre a prática profissional na qual acredito: uma prática que tem potência enquanto ação política e coletiva. Busco tensionar o “produto” TFG que se apresenta, partindo de uma avaliação crítica sobre ambiente acadêmico de onde falo. Discorro sobre os conceitos de campo ampliado e campo expandido/em expansão da

1 No presente trabalho, o uso do termo “popular” será mobilizado para caracterizar as diferentes matrizes étnico raciais predominantemente não brancas e de baixa renda, constituintes da sociedade brasileira, devido ao imbricamento histórico entre raça e classe. No entanto, o termo merece ser questionado por seu possível caráter reducionista, comprimindo diversas identidades e existências em um só conceito homogêneo — tema que será discutido ao longo do texto. Introdução | 11


Arquitetura e Urbanismo, buscando atualizá-lo a partir do seu entrecruzamento com a implicação, partindo de atividades de pesquisa e extensão no contexto da Universidade em diálogo com a sociedade. No capítulo 2, caracterizo o trabalho a partir de três pontos. O primeiro trata sobre seu caráter coletivo, afirmando a importância das trocas e partilhas que compõem os conhecimentos elaborados no TFG, explicitando também o TRAMA enquanto lugar de ação através do qual proposições e atuações profissionais vêm sendo construídas. O segundo diz respeito à multilinguagem, defendendo a comunicação também como prática estratégica e fundamental de uma atuação engajada em Arquitetura e Urbanismo. O terceiro e último situa o presente trabalho na conjuntura sociopolítica atual, marcada pela pandemia da Covid-19, o que nos convoca a repensar nossas formas de interagir e transformar o mundo a partir das crises. No capítulo 3, “Costurando trajetória: Aprendizados em trama”, me debruço sobre experiências selecionadas da minha trajetória individual e dos coletivos que participei nos últimos anos. O conjunto abarca um universo amplo, de mais de 20 experiências, que apresenta o percurso acadêmico que me conduz até o TFG. Destas, 11 são selecionadas para serem estudadas através da elaboração de fichas de análise, tendo sido utilizado como critério o aporte metodológico que suscitam (isto é, as experimentações nas formas de fazer, as reflexões sobre abordagens, condutas e práticas conduzidas); além disso, expressam a pluralidade das posições que ocupei (desde monitora de disciplina, até pesquisadora, prestadora de serviços, dentre outras). Dentre as experiências selecionadas faço um recorte de 5 delas, nas quais estive atuando através do TRAMA. Em uma perspectiva analítica e prospectiva, estas 5 experiências, tomadas como disparadores de reflexões e imaginações, serão abordadas e discutidas mais detidamente, expandindo e adensando a discussão do material contido nas fichas. Por fim, aponto e discuto dificuldades, equívocos e limites 12 | Experimentos metodólogicos insurgentes na prática de Arq. e Urb.


enfrentados. No capítulo 4, “Experimentos metodológicos”, um repertório de experimentos e aprendizados metodológicos resulta das 5 experiências apresentadas anteriormente. Ao olhar retrospectivamente para essa trajetória, posso elaborar reflexões teórico-crítico-criativas a partir de práticas (pesquisas, atividades de extensão, ações coletivas, eventos), num gesto prospectivo que tem potencial de suscitar importantes aprendizados. Sustentando o argumento de um pensar em trama e em rede, busco elaborar como os “modos de fazer” das experiências apresentadas alimentam-se e enriquecem-se mutuamente, indicando não “modelos de como fazer”, mas irradiando possibilidades, fabulações e desdobramentos, a partir dos referentes que criam. Não se trata apenas de uma reflexão em retrospecto, mas da ativação de pensamentos que, situados desde práticas, também incidem no presente e indicam caminhos futuros. No capítulo 5, “Aberturas, limites, continuidades, horizontes”, concluo situando a contribuição do trabalho ao campo da arquitetura e do urbanismo e trazendo para o horizonte as questões que se desdobraram por meio deste processo de TFG. Após tudo que foi exposto, como se comportam as perguntas que orientam o início do trabalho? São as mesmas, ou se desdobram em novas indagações? O que ainda permanece a ser respondido? O gesto de apresentar lacunas, e tratar do que não pôde ser feito, é também uma forma de anunciar o caráter de continuidade deste trabalho, que não se finda quando de sua entrega. Ademais, (auto)criticidades são registradas, sem deixar também de reconhecer as potências ativadas, em um registro que busca ser aberto e “poroso”.

Introdução | 13



Abertura da Escola de Verão no Acervo da Laje. Acervo da autora, 2020.


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arquitetura e urbanismo enquanto prática política I. Tornar-se arquiteta II. Da universidade para cidade III. Ensino, pesquisa, extensão: ao encontro de territórios populares e negros de Salvador IV. Campo ampliado, campo implicado


Como construir metodologias de atuação na cidade que escapem de moldes engessados, buscando refletir e (re)elaborar experiências práticas, pensamentos e imaginações, amadurecendo e se modificando continuamente a partir da troca entre diferentes saberes? Como ampliar a abordagem do espaço acadêmico com uma produção intelectual que contemple a interação entre diversos tipos de conhecimentos e de existências, e se transforme a partir dessa co-presença? De que forma a arte e suas multilinguagens podem ser aliadas na busca por novos modos — coletivos e processuais — na construção do conhecimento? Como situar meu trabalho em um momento de virada epistêmica, somando-se às ampliações e reconfigurações necessárias no campo da Arquitetura e Urbanismo?

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Iniciar este trabalho com um apanhado de questões foi como escolhi delinear o espectro de discussões que pretendo desenvolver aqui. Utilizo do exercício de formular perguntas1 como um ato que não guarda em si a pretensão de buscar por respostas “corretas”, consensos ou verdades únicas. Questionar é, acima de tudo, um gesto que abre um leque de possibilidades, instaurando novos lugares de pensamento. Uma pergunta pode sugerir aproximações epistemológicas inéditas, pode deslocar ideias, provocar desvios ou inaugurar novos sentidos. Todas as questões anteriores, no entanto, confluem para um questionamento maior, que diz respeito à escolha do que propor como trabalho final de graduação, no curso de Arquitetura e Urbanismo, na Universidade Federal da Bahia, em 2022. Muito antes de situar essa pergunta no momento presente, sinto que venho construindo sua resposta ao longo dos últimos anos, e é isso — também — que esse trabalho se propõe: entender que o TFG nasce a partir do recorte de uma atuação contínua que vem sido tecida por mim, mas sobretudo por coletividades das quais faço parte, em especial, o TRAMA. Considero que olhar retrospectivamente para essa trajetória, elaborando reflexões teóricocrítico-criativas a partir de práticas (pesquisas, atividades de extensão, ações coletivas, eventos), é um gesto que tem potencial de suscitar importantes aprendizados. Dessa forma, elencar um repertório de experiências e refletir sobre elas — conteúdo que se concentra no capítulo 3 através das “fichas de análise”

1 Em 2021 fui monitora da disciplina/curso de extensão livre “Imagem e etc conversas em torno da fotografia”, ofertada no âmbito do PPGAU/FAUFBA (Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo) pela professora Junia Mortimer. Neste ciclo de debates, a cada encontro, um/a ou mais convidados/as expunham suas pesquisas, e então, abria-se um espaço de diálogo no qual estudantes faziam perguntas elaboradas previamente, a partir do estudo dos materiais enviados pelas/os convidadas/ os. Essa experiência foi extremamente rica e transformadora — não apenas pelas trocas e interlocuções, mas pela bagagem que esse exercício deixou —, na exploração de um pensamento relacional e desenvolvimento de um estudo aprofundado e atento que o ato da formulação de perguntas exigia. 1. Arquitetura e Urbanismo como prática política | 19


das experiências e suas posteriores análises — foi um caminho inescapável para entender os modos de fazer-junto que emergem a partir dessas ações coletivas, apresentados no capítulo 4. Ademais, uso também deste espaço para refletir sobre o que ele representa. Ao fim da graduação, espera-se que o projeto final de uma/um estudante reúna os aprendizados e habilidades acumulados ao longo da sua trajetória acadêmica. No entanto, neste trabalho, encaro o TFG como um espaço que vai além de um mero atestado de competências e habilidades. Acredito que esse momento deve comprometer-se a refletir criticamente sobre meu processo de formação, sobre a faculdade que me educou — suas limitações e insuficiências, mas também suas potencialidades — além de apontar para a continuidade das práticas profissionais nas quais acredito. Busco, com esse trabalho, quebrar com a representação do que “é” o TFG e o re-apresentar, des/ trans/refigurando a convenção posta, e abrindo outras possibilidades. Mais do que técnico, este trabalho é também político. A energia e o tempo despendidos no desenvolvimento do TFG configuram uma oportunidade única que se tem, enquanto estudante de uma rede pública de ensino, de contribuir para a discussão acerca da prática de Arquitetura e Urbanismo na atualidade. Abre também a possibilidade de articular proposições e alternativas que buscam re-apresentar novos rumos e possíveis respostas para as problemáticas e desafios contemporâneos das cidades. A intenção deste trabalho é de somar aos esforços da construção de novas possibilidades de teorias e práticas da Arquitetura e Urbanismo que pretendem articular ciência, experiência e conhecimentos partilhados, direcionando a futuros que corporifiquem um urbanismo humano (MIRAFTAB, 2016). Acredito a escolha desse caminho aponta para uma atuação profissional mais engajada, sensível e coletiva, com um repertório de modos de fazer projetos para “remundizar”, isto é, “criar mundos” de maneiras diferentes, que já não correspondem às maneiras 20 | Experimentos metodólogicos insurgentes na prática de Arq. e Urb.


de mundo que herdamos — o que não significa que não herdamos o mundo que herdamos, mas sim, que o fazemos de maneira diferente2. (CADENA; KRENAK, 2020)

Atividade de imersão do TRAMA. Acervo da autora, 2022.

2 Texto transcrito da live “Políticas cosmológicas”, diálogo de abertura do Festival Seres Rios, em 2021, no qual foram convidados Ailton Krenak e Marisol de la Cadena, com mediação de Ana Gomes, para discutir questões urgentes na construção de presentes e futuros de convivência com as águas e o planeta. 1. Arquitetura e Urbanismo como prática política | 21


São João do Cabrito. Acervo da autora, 2020.


São João do Cabrito. Acervo da autora, 2020.


I. Tornar-se arquiteta No cenário de ensino da Faculdade, muitos são os TFGs que se dedicam exclusivamente ao exercício da Arquitetura projetual, configurando uma certa tradição do que se espera como produto final para validação da finalização dessa etapa. Desviando de uma abordagem dicotômica, não pretendo argumentar aqui que a dedicação à arquitetura projetual é uma só — a priori ruim e engessada — e trabalhos de cunho téorico-crítico são necessariamente mais relevantes ou interessantes por auto-denominação. Acredito, em realidade, ser de extrema importância (e urgência), um fazer de projeto que se engaje com as problemáticas urbanas contemporâneas (sociopolíticas e ambientais), amplie sua força de trabalho para uma clientela mais plural (especialmente aquela que não acessa os serviços de arquitetos-urbanistas) e atualize as práticas construtivas a partir de premissas que assumam um compromisso ético com a sociedade. Mais do que substituir ou excluir um ao outro, a interrelacionalidade do fazer projetual e o fazer teórico-crítico é fundamental para que ambos possam se fortalecer. 24 | Experimentos metodólogicos insurgentes na prática de Arq. e Urb.


No entanto, cabe analisar que, muitas vezes, nos trabalhos de cunho projetual, as metodologias e técnicas aplicadas costumam se restringir apenas ao saber acadêmico aprendido na Faculdade; ou, mesmo quando acessam outros conhecimentos, são incapazes de criar as condições para que diferentes saberes possam interagir. É imprescindível reconhecer a insuficiência do fazer técnico projetual para lidar com a complexidade das questões urbanas, quando não articulado a outros saberes. Ademais, a dimensão projetual, quando descolada de um pensamento crítico e reflexivo, tende a encarar o projeto como “solução” única que dará conta de problemas previamente “diagnosticados”, expressando a perspectiva herdada da concepção moderna do Urbanismo, que reproduz um modelo hegemônico orientado por uma noção de desenvolvimento associada à ideia de progresso (BEREINSTEIN, ROSA, 2017). Como exemplo para ilustrar o que argumento, poderia mencionar que a esmagadora maioria dos TFGs de projeto que são criados por estudantes universitários não “sai do papel”, e portanto, não propicia uma convivência construtiva com outros profissionais e seus conhecimentos (mestres de obras, pedreiros, e afins), fundamentais para a disciplina. Ademais, o contato com as especificidades cotidianas do local/território no qual a edificação pretende ser implantada (fluxo de pessoas e seus hábitos de apropriação do espaço, a vida que vem da rua, e mesmo as características ambientais e políticas específicas), acaba por ser muitas vezes negligenciada, ou assume uma posição coadjuvante na dinâmica projetual. A visão acadêmica de projeto, frequentemente distanciada da realidade construtiva ou das necessidades de quem habita e pratica a cidade, acaba apresentando uma espécie de ficção arquitetônica (NETO, 2007), que tanto “despolitiza” ações projetuais pretendidas, quanto não propicia aos profissionais a habilidade para encararam problemáticas reais, ausentes na abstração universitária.

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Se a Universidade pública reproduz essa lógica problemática, nas Universidades particulares e no mercado de trabalho essas questões são muito mais presentes, visto que estes dois últimos caminham de mãos dadas. Isto é, faculdades particulares, frequentemente, funcionam extremamente condicionadas a moldarem a formação de estudantes para que estes sejam profissionais que facilmente se insiram no mercado de trabalho, e o mercado de trabalho, por sua vez, responde aos interesses privados e a acumulação de poder e de capital dos segmentos mais ricos. As brechas de atuação que desviam dessa norma hegemônica não são raras, mas ainda constituem uma minoria na conjuntura atual, situando-se nas “margens” da formação. Inúmeros projetos têm buscado promover a aproximação entre a realidade popular e a academia, proporcionando trocas entre conhecimentos populares, práticos, acadêmicos e técnicos. Como referência nessa temática, destaco a Tese de Doutorado de Daniel Marostergan e Carneiro (2021). Esta apresenta um conjunto de práticas e experiências de assessoria e assistência técnica, projetos de extensão e ações coletivas em contextos urbanos da cidade de Salvador, agenciadas através daquilo que o autor define como “arranjos extensionistas”, no seu estudo de caso de colaborações com a comunidade Gamboa de Baixo. Carneiro defende “a necessidade de uma postura de experimentação metodológica para tornar viável a extensão como forma de ensino”, confluindo com o que pretendo apresentar neste TFG (Carneiro, 2021: p. 245). Uma vez que construí críticas acerca da natureza do projeto, julgo importante também tecer uma análise sobre as proposições teórico-críticas, nas quais outras diferentes complexidades se impõem. Formulações teóricas e suas abstrações podem também estar igualmente descoladas da realidade. Muitas refletem uma produção de conhecimento de uma minoria acadêmica, encerrada em sua “bolha”, sem condições de diálogo e partilha com a sociedade 26 | Experimentos metodólogicos insurgentes na prática de Arq. e Urb.


e seus habitantes, o que é igualmente problemático. Nesse sentido, códigos, linguagens e possibilidades de formulação de um trabalho teórico-crítico parecem apresentar uma abertura, sendo espaços de maior experimentação e investigação. No âmbito da Faculdade, outras teorias, criticidades e práticas de pesquisa e ação estão sendo desenvolvidas, buscando apreender a multiplicidade, heterogeneidade e complexidade da cidade, com aportes metodológicos e “ofícios de pensar”, nos termos de Luiz Antonio Souza1, discutido por Bereinstein e Rosa (2017). Novas possibilidades de formatos, proposições e produtos têm sido explorados por estudantes, agora já arquitetas/os2, em seus trabalhos finais de graduação. A construção de planos de bairro e intervenções urbanas baseados em experiências dialógicas com grupos da sociedade — associações, movimentos sociais, ou comunidades em territórios populares (ALMEIDA; SABÓIA; STEQUE, 2012; ARAÚJO; PARDO, 2019; VALOIS, 2018; NOVAIS, 2021); a elaboração de auto etnobiografias que se debruçam sobre arquivos familiares, memória, ancestralidade e oralidade (RODRIGUES, 2020; COSTA, 2019; FERREIRA, 2021);

1 Essa ideia foi mobilizada pelo professor de Urbanismo Luis Antonio de Souza (UNEB), em uma banca de Trabalho Final de Graduação na FAUFBA, da aluna Janaína Lisiak. Na sua fala, Luiz Antonio defendeu que o ofício do arquiteto urbanista é pensar criticamente — a cidade, o espaço, as construções — mais do que cumprir tarefas já estabelecidas. Nesse sentido, deve-se reconhecer a importância do princípio básico deste ofício, uma vez que, de forma equivocada, estudantes recorrentemente são treinados a resolver problemas já dados, ao invés de construir novos questionamentos e possibilidades nos seus campos de atuação. 2 Para os que vieram antes de mim, agradeço pelos trabalhos inspiradores que abriram caminhos e me mostraram um mar de possibilidades do que se cabe fazer em um TFG: Matheus Tanajura, Marina Muniz, Zara Rodrigues, Sofia Costa, Jones Nascimento, Mariana Pardo e Ana Clara Araújo, Pedro Alban, Gabriela Rabelo, Andressa Mascarenhas, Igor Liberato, Elisa Caribé, Milena Ferreira, Daniel Sabóia, Patrícia Almeida e Fábio Esteque, Vinicius Lyra, Vitória Matos, Marina Novais, Igor Queiroz, e tantas outras e outros. 1. Arquitetura e Urbanismo como prática política | 27


proposições de expografia, cenografia, experimentos de autoconstrução (LIBERATO, 2018; MASCARENHAS, 2019; RABELO, 2017; ALBAN, 2018) e intervenções político-artísticas no meio urbano (TANAJURA, 2017) são alguns dos exemplos e possibilidades que emergem a partir de novos entendimentos do que pode ser um projeto de conclusão de curso na Faculdade. Tais trabalhos provocam deslocamentos e tensionamentos apresentando um campo de atuação que não está dado, mas sim, que se abre para novos questionamentos. Mais do que isso, são proposições que reforçam um compromisso ético e uma diversidade epistêmica, uma vez que buscam produzir ciência no cotidiano (CORDEIRO et al., 2021), testando novos arranjos e alargamentos na construção de conhecimentos.

Imagens do TFG de Matheus Tanajura (superior esquerdo), Marina Muniz (superio direito), Zara Rodrigues (inferior esquerdo) e Mariana Pardo e Ana Clara Araújo (inferior direito)

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Acredito que as novas possibilidades de formatos e proposições que mencionei estão ligadas a mudanças no campo disciplinar da Arquitetura e Urbanismo (que argumentarei mais adiante em “Campo ampliado, campo implicado”), mas também, podem ser conectadas à transformação do quadro discente e docente. Ao entrar na FAUFBA, testemunhei a chegada de um novo quadro de professoras/es, mais jovens e de perfis plurais, aportando renovações nas dinâmicas de aula e nas metodologias aplicadas. Mais importante ainda, talvez, seja olhar a transformação desse ambiente a partir dos estudantes. Após uma importante luta travada por movimentos sociais, especialmente movimentos negros, a consolidação da política de cotas com a lei nº 12.711, em agosto de 2012, vem “mudando a cara” da Faculdade, desembranquecendo as salas de aula. Muitos destas/es universitárias/os, negros e indígenas, configuram a primeira geração em suas famílias a acessarem o ensino superior, e terem contato com a pesquisa científica. De distintas realidades e territórios, essas/esses jovens, além de partilharem suas experiências urbanas, trazendo perspectivas de vida de muitas cidades dentro de uma mesma Salvador, reivindicam também sentiremse representadas/os pelas bibliografias estudadas, temáticas trabalhadas, e formas de aprender. No entanto, ainda que ocorram mudanças nos aspectos mencionados, os mecanismos de dominação, hierarquizações e dispositivos da racialidade seguem se reinventando e permanecendo incrustados na raiz das práticas, sendo extremamente difíceis de serem superados, visto que são estruturantes da sociedade. Desse modo, ao mesmo tempo em que é válido reconhecer o avanço histórico — simbólico e material — que a presença desses sujeitos e suas demandas aportam, é necessário também ter criticidade a respeito das armadilhas de uma certa política da representação.

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Lambe do Simpósio Outros Fazeres da Cidade em São João do Cabrito. Acervo da autora, 2020.


II. Da Universidade para cidade

A arquiteta e professora Gabriela Leandro (2021) propõe pensar o projeto na arquitetura como “isca”, tratando-o enquanto um dispositivo, uma plataforma inserida no mundo com o qual constrói interlocuções para a sua existência. A arquitetura, enquanto campo disciplinar, dentro do aparato da modernidade ocidental, reproduz uma clara separação entre intelecto e corpo. Para Leandro, o projeto representa uma intenção que informa sobre um desejo de ação e intervenção no mundo. Ao mesmo tempo que nasce do um empenho de uma ação intelectual (mais valorizada, pois realizada por especialistas que dominam uma certa técnica), sua materialização remete a um fazer manual (subvalorizada, realizada por sujeitos supostamente “menos intelectualizados”). Tendo consciência dessa distinção hierárquica, a autora discute a natureza indissocialvemente política desse dispositivo: A quem, ao quê, e como o projeto interage com o mundo? Que ordem de mundo é essa a qual o projeto responde, constrói, intenciona, transforma? (LEANDRO, 2021)1

1 Fala transcrita da publicação online “Deslocar o projeto e Imaginar outros mundos” acessado em Tirante.Org no contexto da Ação Bate-Papo+Hipótese, exposição virtual no Museu de Arte do Espírito Santo (MAES), 2021. 1. Arquitetura e Urbanismo como prática política | 31


No meu percurso acadêmico, sempre senti certo desconforto ao detalhar, em inúmeras pranchas técnicas e memoriais descritivos, edificações situadas em terrenos fictícios para clientes imaginários, baseadas em parâmetros criados a partir de um contexto burguês2, refletindo a realidade de vida de uma minoria das cidades brasileiras. Esse ensino de projeto, presente principalmente em alguns programas da disciplina Ateliê, pressupõe um papel centralizado da arquiteta/o, enquadrando-a/o enquanto profissional que dita como um espaço deveria ser, incluindo tanto sua materialidade como seus usos. Adicionalmente, esta lógica termina muitas vezes por desconsiderar diversas/ os outras/os autoras/es e agentes do fazer cidade que deveriam ser ouvidos e partícipes desse processo. Nesse sentido, o modelo de ensino descrito acima segue a base de transmissão do conhecimento ocidental-colonial, e atende a um mercado profissional sujeito à lógica predatória do setor imobiliário, da especulação financeira, e dos interesses privados. Em um país onde 85% das construções ou reformas são realizadas sem a contratação de um profissional da área (DATAFOLHA, 2015), reforça-se o lugar de arquitetos e urbanistas como objetos de luxo, que associam uma carreira bem sucedida ao reconhecimento pela fama de grandes escritórios que carregam seus nomes. Nesse sentido, Zaida Muxí e Josep Maria Montaner, no livro “Arquitetura e Política: ensaios para mundos alternativos” (2015: pág. 38) argumentam que:

2 Anteriormente, havia construído a frase em questão usando o termo “elitizado” ao invés de “burguês” para caracterizar o contexto das classes médias-altas da sociedade. Optei por substituir o termo “elite” e seus derivados após ter contato com uma crítica feita pelo músico Emicida, na qual ele alega que “elite é o que uma categoria tem de melhor, e se referir a pessoas que tem dinheiro como a elite da categoria humana parece que a pirâmide da humanidade é definida pelo acúmulo”. Dessa forma, Emicida sugere a substituição pelo termo “burguês”, cuja definição está diretamente relacionada a grupos sociais que gozam de certos privilégios. 32 | Experimentos metodólogicos insurgentes na prática de Arq. e Urb.


“Os perfis profissionais que se formam continuam a se basear na falsa pertença a um grupo de excelência, que trabalha para um dos setores mais favorecidos, educando-se, portanto, servidores do poder, cuja atuação perante os “outros” sempre é assistencial e feita a partir de instâncias superiores. O grande desafio atual é formar universitários que fortaleçam as sociedades democráticas e mais justas do século XXI.”

No entanto, não seria correto afirmar que o modelo de ensino e aprendizado em Arquitetura e Urbanismo é único, normativo, hegemônico, monológico. É preciso reconhecer que dentro dessa formação convencional há campos distintos, com diferentes abordagens de projeto e estudos urbanos, que convivem, mesmo que assimetricamente. Linhas de pesquisa, professoras/ es e diferentes coletividades disputam formas de produzir conhecimento diariamente. Esse ambiente plural da Universidade possibilita e possibilitou desvios dentro da minha trajetória acadêmica, que me conduziram a um outro percurso formativo e ético, o qual irei me aprofundar mais adiante. Da universidade para a cidade, a lógica descrita e criticada anteriormente se mantém quando das intervenções urbanas. Salvador, assim como outras cidades brasileiras, têm sido palco de processos de planejamento e gestão que ocorrem de forma autoritária, nos quais a participação popular acaba por não ser efetivada devido à burocratização estratégica dos mecanismos que são acionados nos momentos da tomada de decisões públicas. Essas práticas, validadas por profissionais da área, mantêm e reforçam desigualdades sociais, raciais e espaciais na formulação das políticas relativas ao espaço. As intervenções, de modo geral, ao mesmo tempo em que não dialogam com os contextos onde buscam intervir, são acompanhadas de enunciados discursivos e argumentos, predominantemente com uma linguagem tecnicista inacessível e, mesmo propagandista, que desrespeitam memórias e histórias locais. Caberia ressaltar ainda a falta de transparência nas ações institucionais realizadas em 1. Arquitetura e Urbanismo como prática política | 33


territórios historicamente expostos a processos de vulnerabilização (SILVA et al., 2022). A atuação do(a)s arquiteto(a)s e urbanistas nas decisões projetuais expressa, portanto, defasagens do ensino nas universidades. A priorização de funcionalismos e tecnicismos evidencia como o tecido urbano continua a ser encarado como tábula rasa ou território da abstração (VELLOSO, 2018), destituído de memórias e relações sociais. O Urbanismo, que emerge como enquanto disciplina teórica e prática no século XIX, é tido como um campo de intervenção sobre o território para “ordená-lo e controlá-lo” (MUXI, MONTANER, 2015), através de lógicas higienistas que reproduzem a segregação espacial, sendo agenciado enquanto estratégia de poder para salvaguardar os interesses das classes dominantes (MIRAFTAB, 2016). Frente aos modos autoritários de produção neoliberal da cidade, do contexto político atual de perdas de direitos e criminalização de mobilizações sociais, reconhecer a prática do(a) arquiteto(a) e urbanista como prática política na disputa de outros Urbanismos possíveis é urgente. É necessário repensar o fazer urbanístico que está inscrito na conjuntura atual de crise contemporânea generalizada (crise do capitalismo que se mistura com crises econômicas, éticas, políticas, ambientais, em escalas globais), e imaginar práticas de descolonização que tornem possível um urbanismo humano (MIRAFTAB, 2016). Nesse sentido, é importante que cada vez sejam estimulados espaços em que estudantes possam se relacionar com instâncias da sociedade a partir de outras premissas, que superem o lugar de cliente ou objeto de estudo, experienciando um repertório de aproximações que encarem o fazer da cidade enquanto uma construção coletiva. Acredito que a atuação profissional se torna mais justa e mais humana, quando são incorporados outros campos e fluxos do conhecimento, para além de uma suposta linearidade de transmissão de saber ou de execução de serviços técnicos. 34 | Experimentos metodólogicos insurgentes na prática de Arq. e Urb.


Lambe do Simpósio Outros Fazeres da Cidade na Rua Chile. Acervo da autora, 2019


Lambe do Simpósio Outros Fazeres da Cidade no Acervo da Laje. Acervo da autora, 2019


III. Ensino, pesquisa, extensão: ao encontro de território negros e populares de Salvador

Diante dessas inquietações, meus interesses no âmbito da Faculdade foram encontrando lugar à medida em que pude explorar o princípio constitucional que rege a Educação Superior: o tripé acadêmico, caracterizado pela “indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão” (art. 207 da Constituição Brasileira de 1988). Articulando conteúdos aprendidos no contexto de algumas disciplinas teóricas, mas sobretudo em atividades teórico-práticas que não se limitaram à sala de aula, pude ampliar os horizontes de aprendizado na minha formação. Antes de tratar sobre este assunto, é fundamental pontuar que as experiências trazidas neste trabalho, bem como toda minha trajetória como estudante universitária (que se inicia em 2016 e vai até o momento atual de 2022) 1. Arquitetura e Urbanismo como prática política | 37


devem ser lidas em perspectiva e em diálogo com a conjuntura sociopolítica do país, visto que emergem em relação com importantes acontecimentos. No contexto ampliado, desde o golpe de 2016, resultando no impeachment da presidente Dilma Rousseff, o Brasil vive um cenário de instabilidade política, e de crescimento da extrema direita com pautas neoliberais e valores conservadores. Em 2017, o Governo Temer implementou reformas (trabalhista e previdenciária) que resultaram na intensificação da precarização do serviço público e na retirada de direitos da sociedade civil. Em 2018, a prisão de Lula e a indefinição da corrida eleitoral para o PT contribuem para o crescimento da popularidade e posterior eleição de Bolsonaro, que configura, até o momento presente, a instauração de um governo de retrocessos, caracterizado pelo desmonte dos direitos sociais e por ataques ao serviço público e ao meio ambiente (PINHEIRO, 2021). Nessa conjuntura, o campo da Educação é um dos mais atingidos. Presenciamos o descrédito às instituições, com especial ataque às Universidades, a desvalorização da Ciência, o sucateamento de órgãos da Cultura, propostas de “escola sem partido”, demonização da “ideologia de gênero”, entre tantos outros absurdos. Nesse contexto, complexificado pela emergência da Pandemia da COVID-19, se acentuam desigualdades sociais e o debate político, frequentemente polarizado, se acirra; por outro lado, estratégias de mobilização social e de luta por uma agenda democrática emergem, em reação aos desafios da realidade posta. Esse TFG parte de ações coletivas engajadas com a transformação dessa realidade. Experiências diversas de ensino,, pesquisa e extensão buscam estimular debates na construção coletiva de uma consciência crítica. Dentre elas, algumas das quais serão aprofundadas mais adiante destaco: as atividades de extensão “Perícia Popular no Centro Histórico de Salvador” [ver pág. 102], e o “Simpósio Produção Imobiliária e Outros Fazeres da Cidade” [ver pág. 114], ambas

38 | Experimentos metodólogicos insurgentes na prática de Arq. e Urb.


sob orientação da professora Glória Cecília no âmbito do grupo de pesquisa Lugar Comum; o Atelier V com as professoras Paola Berenstein e Thais Rosa; as disciplinas optativas “Tópicos de Arquitetura — Imaginários da cidade e outras visibilidades”, com a professora Junia Mortimer, e “Entre margens e imagens” também com Mortimer e Rosa.

Cartografia coletiva com a AMACH, durante a Perícia Popular Acervo da autora, 2016

1. Arquitetura e Urbanismo como prática política | 39


Aponto como denominador comum dessas atividades o fato de buscarem reposicionar a abordagem da universidade, tentando escapar de práticas tecnicistas e hierarquizantes, rearticulando criticamente modos de pensar e narrar cidades e territórios. Essas experiências buscam tensionar a práxis do urbanismo, almejando uma aproximação das formas de habitar, fazer e conhecer a cidade cotidianamente pelos sujeitos que a vivenciam e a produzem, mais do que uma forma de pensar exclusiva de profissionais e especialistas. Para isso, essas práticas se ancoram, principalmente, na tentativa de realizar experimentações coletivas, aplicando metodologias abertas e partilhadas, na formulação de imaginações críticas e sensibilidades sobre o espaço urbano e seus habitantes (FIGUEIREDO et al., 2022). Em suma, são experiências em que o trabalho acadêmico não é produzido sobre as pessoas, mas com as pessoas. Que não busca narrar as pessoas, mas constrói formas de narrar junto às pessoas.

Percurso de Aprendizagem no Centro Histórico, durante o Simpósio Fazeres da Cidade Matheus Tanajura, 2019 40 | Experimentos metodólogicos insurgentes na prática de Arq. e Urb.


Nesse momento, acredito também ser importante situar de onde falo, explicitando o ponto de partida da autoria do presente trabalho. Sou uma mulher branca que vem de uma família de classe média, e sempre vivi em bairros também habitados e planejados por uma maioria branca, como eu. Trazer territórios populares e negros para o centro do debate desse trabalho é também refletir sobre a relação que tenho construído com minha própria cidade, Salvador, de população majoritariamente negra, com uma cultura fundada a partir da diáspora africana. Enquanto “agente externa” 1a esses territórios, entendo a importância de construir uma posicionalidade, e de evitar qualquer tipo de performatização da culpa branca (NASCIMENTO, 2020) que atue de forma paralisante, gerando uma incapacidade de ação e de compromisso com uma postura ativa, reflexiva, transformadora. É preciso encarar de frente o constrangimento e desconforto inerentes à convivência com violências raciais. Para isso, tenho apostado no letramento racial e na constante (e infindável) busca por desaprender e desmantelar práticas racistas que estão presentes na minha formação, para assim, poder fazer parte da construção de ações de reparação histórica. Muitas foram as vezes em que ouvi de lideranças comunitárias, membros de associações de bairros e moradores de bairros populares negros, relatos sobre como a Universidade era equivocada em suas aproximações, reforçando uma forma extrativista de interagir com os territórios. Essa “forma extrativista” é marcada por um modus operandi da branquitude que se coloca em uma perspectiva de centralidade, e se relaciona com a “outridade” através de

1

Nesse caso, me caracterizo como “agente externa” por não habitar territórios populares e negros de Salvador. No entanto, acho válido comentar que o uso do termo “externo” guarda consigo a complexidade de reiterar fronteiras e limites, especialmente quando usado para caracterizar pessoas da academia. Reforça-se a ideia da Universidade rigidamente pensada enquanto uma instituição que está no “fora”, quando, na realidade, a Universidade é composta por uma multiplicidade de pessoas, opiniões, e linhas de produção de conhecimento, podendo ser muitas coisas. 1. Arquitetura e Urbanismo como prática política | 41


premissas utilitárias. Isto é, a academia se aproxima, colhe informações, digase de passagem, tomando um tempo considerável do cotidiano de pessoas que se dispõe a contribuir com relatos, memórias, ou guianças pelas ruas da cidade, para então produzir artigos, teses e afins que raramente retornam de alguma forma às comunidades. Ademais, ao lançar olhares sobre esses territórios, a produção hegemônica do conhecimento acadêmico, muitas vezes, também reproduz práticas colonialistas e eurocêntricas ao encarar tais espaços apenas pela perspectiva da pobreza ou da precariedade, reproduzindo uma perspectiva homogeneizante que corrobora para uma história única (ADICHIE, 2019) sobre esses lugares. O mesmo acontece, em grande frequência, nas mídias tradicionais, em que diariamente programas policialescos veiculam informações que estigmatizam e criminalizam os territórios negros e populares, criando uma narrativa que traz como tônica a violência. A escritora novaiorquina Saidiya Hartman, negando-se a encarar a negritude enquanto um “problema a ser resolvido”, nos apresenta diversas estratégias e possibilidades de construção de pensamento e escrita da história, como o pensamento especulativo, narrativa radical, documentalismo poético, e fabulação crítica (HARTMAN, 2019). Mais do que entrar nas especificidades de cada uma das abordagens citadas, interessa destacar que estas se constituem enquanto formas de improvisar e expandir as narrativas a partir de documentos oficiais, levando em conta limites, omissões, inverdades e “fabricações” que são disseminados numa dita “história oficial”, contada sempre pelos “vencedores”. Falar da complexidade destes territórios, que também são pulsantes em seus fazeres cotidianos e tradicionais, suas práticas culturais atuais e ancestrais de subsistência, moradia, cuidado coletivo, economia solidária, memória, e cultura é fundamental, como forma de combater e disputar as narrativas reducionistas e mesmo violentas que são criadas sobre áreas marginalizadas da cidade. 42 | Experimentos metodólogicos insurgentes na prática de Arq. e Urb.


Nas experiências e práticas de arquitetura e urbanismo que citei, com as quais me alinho, territórios, comunidades e movimentos populares negros, com os quais a academia dialoga e colabora, não são pensados apenas como paisagem, contexto, ou lócus de práticas em si mesmas, mas sim como espaços de produção de conhecimento (FIGUEIREDO et al., 2022).

Encontro da Escola de Verão II Acervo da autora, 2022

1. Arquitetura e Urbanismo como prática política | 43


IV: Camplo ampliado, campo implicado Tendo uma rotina de disciplinas que abrangem desde Matemática e Física básicas, até estudo teórico de Estética das Artes, ensino de softwares de desenho técnico e modelagem 3d, passando por discussões de História e Patrimônio, além dos ateliês de projeto, a/o estudante de Arquitetura vivencia um cotidiano de aprendizado essencialmente múltiplo, diversificado e complexo. A ideia de um “campo ampliado” da Arquitetura parece ser inescapável diante de uma inerente inter/trans/multidisciplinaridade que resulta das muitas áreas de conhecimento com as quais essa profissão não só dialoga, mas ancora suas bases para construir sua atuação.


O surgimento do conceito de “campo ampliado”, no entanto, remonta a 1979, quando Rosalind Krauss publica um artigo pioneiro colocando em perspectiva a condição de existência da escultura dos anos 1960 com uma “polaridade binária” de artes não escultóricas, Arquitetura e paisagismo. A partir desses “não lugares”, a escultura, à época, é entendida enquanto uma soma de exclusões: nem Arquitetura, nem paisagem; existia então como uma espécie de experimentação nômade entre esses campos (KRAUSS, 1979). Situado no século 20, nos Estados Unidos, o debate sobre a ampliação do campo ainda aparece distante e relativamente tímido no que tange à Arquitetura. Passados 30 anos, a discussão acerca de uma nova epistemologia da arquitetura, tecida por Anthony Vidler, dialoga diretamente com o conceito utilizado pela teórica norte-americana, mencionada acima, no texto “O campo ampliado da Arquitetura” (2010). No escrito desse autor, são apontadas explorações recentes da construção de uma outra condição dessa prática, agora com “nova inspiração formal e programática num conjunto de disciplinas e tecnologias que vão do paisagismo à animação digital” (VIDLER, 2010, p:247), incorporando concepções de distintos campos de saber. O debate agora parece se atualizar e ganhar mais consistência. Finalmente, em 2013, o livro originalmente publicado como “Constructing a New Agenda: Architectural Theory 1993-2009” (em tradução literal nossa: “Construindo uma nova agenda: teoria arquitetônica 1993-2009), da escritora Krista Sykes, é traduzido pela editora como “O campo ampliado da Arquitetura: Antologia teórica 1993-2009”, atestando a difusão desse conceito e sua discussão emergente no Brasil. Nos 28 textos que compõem essa antologia, cujo material tem origem na recuperação de debates ocorridos em eventos, universidades e centros de pesquisas, localizados majoritariamente nos Estados Unidos, a autora elabora uma revisão da teoria crítica sobre Arquitetura, mas também aponta caminhos para uma produção arquitetônica capaz de lidar com os desafios da 1. Arquitetura e Urbanismo como prática política | 45


contemporaneidade. Com o conceito de campo ampliado (ou campo expandido, se preferirmos) consolidado, teorizações ainda mais recentes seguem adicionando novas camadas às análises e aos questionamentos acerca da temática. Em “Arquiteturas do olhar”, Junia Mortimer (2017) discute um novo campo de visão entre a imagem fotográfica e o objeto arquitetônico. Mortimer nos apresenta a ideia de “campo em expansão”, uma vez que a polaridade binária que caracteriza o campo ampliado já não cabe mais nos lugares de tensão que a autora enuncia (olhar, corpo-objeto e espaço-tempo), ao tratar do avanço da fotografia sob o espaço construído. Em 2021, Eduardo Costa publica “Mudanças epistemológicas na Arquitetura: entre arquivos, exposições e publicações”, chamando atenção para a emergência dos três domínios de atuação citados no título do artigo, defendendo que as influências ocorridas no campo da Arquitetura provêm de mudanças nas ciências humanas, com sensível atenção à cultura visual. A partir desse breve levantamento de trabalhos selecionados acerca dos conceitos de “campo ampliado/expandido” e “campo em expansão”, busco evidenciar como o debate sobre as fronteiras e os domínios da prática da Arquitetura e Urbanismo configuram um tema significativo e incontornável para a disciplina aqui estudada, no momento e no lugar em que está situado o presente trabalho. Ainda que esse debate trate sobre um campo que segue em disputa, não parece mais ser necessário argumentar que a Arquitetura e o Urbanismo não se resumem apenas ao objeto construído, à materialidade e à tectônica. Suas práticas também se configuram enquanto atos críticos e interpretativos, como diria Beatriz Colomina (COLOMINA, 1988). Dessa maneira, alinhada com essa perspectiva teórica, busco atualizar a discussão sobre o conceito de campo ampliado, expandido ou em expansão, questionando: como situar esse debate a 46 | Experimentos metodólogicos insurgentes na prática de Arq. e Urb.


partir da realidade da qual falo, da cidade de Salvador? Argumento aqui que o campo se amplia quando contempla, em suas formulações teóricas outras fontes de conhecimento, e quando reconhece ser imprescindível que seja valorizada uma ecologia de saberes que vai além da academia. Nesse momento, a ampliação assume também uma implicação. Incidir em um campo implicado significa posicionar-se politicamente. Significa entender, sobretudo, que a formação profissional será inevitavelmente e diretamente afetada pelos encontros com realidades urbanas complexas. A convivência com outros sujeitos, modos de se relacionar e habitar a cidade, ou como pode-se dizer, com uma “outridade”, instaura um lugar capaz de romper com certo estado geral de indiferença. Isto é, o encontro com o outro pode provocar um (re)estabelecimento e uma (re)formulação de relações e posicionalidades entre as diferentes pessoas envolvidas, ao acionar convivências (im)possíveis (FIGUEIREDO et al., 2017). Não cabe mais dizer que é preciso “romper os muros da universidade” para ampliar as formas de apreensão e produção de conhecimentos. Em realidade, esses muros já foram e seguem sendo rompidos por diversos grupos, diariamente. Ao mesmo tempo, convive-se ainda com uma universidade que persiste em construir muros cada vez mais altos.

Incidir em um campo implicado significa posicionar-se politicamente.

1. Arquitetura e Urbanismo como prática política | 47


Nesse sentido, é por meio de “uma política transgressora fundada no envolvimento” (ROY, ROLNIK, 2017, p. 18) e da ideia de “implicação como competência epistemológica e qualidade investigativa” (MACEDO; MACEDO DE SÁ, 2018, p. 332) que buscamos outras formas de produção científica. Uma produção que se abre e se atravessa por elaborações criativas, estratégias e tecnologias sociais advindas das pessoas que, histórica e cotidianamente, transformam, refazem e recriam o espaço urbano, reivindicando cidades mais igualitárias. E isso pode ser possível por meio de experimentações metodológicas que buscam articular teoria e empiria, enxergando a produção de ciência no cotidiano. Assim, a “pesquisa implicada não é apenas uma opção teórico-metodológica, mas também um fundamento ético e político” (CORDEIRO et al., 2021, p. 6).

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Percuso de Aprendizagem no Subúrbio, durante o Simpósio Fazeres da Cidade Matheus Tanajura, 2019

1. Arquitetura e Urbanismo como prática política | 49


2


a construção do TFG I. TFG coletivo: “Quando o eu vira nós” - tramando outras atuações possíveis II. TFG multilinguagem: Comunicação nas lutas urbanas pelo direito à cidade III. TFG pandêmico: Imaginando outros mundos a partir das crises


Abertura da Escola de Verão no Acervo da Laje. Acervo da autora, 2020. 52 | Experimentos metodólogicos insurgentes na prática de Arq. e Urb.


Situo o presente trabalho a partir de três tópicos: a coletividade, a multilinguagem, e a condição de sua realização em tempos da pandemia da COVID-19, que expressam a visão expandida a respeito da noção do “produto” aqui apresentado como TFG.

I. TFG coletivo: “Quando o eu vira nós” - tramando outras atuações possíveis Reforçando o que já foi dito anteriormente, mais do que uma pesquisa autoral-individual, esse trabalho se faz a partir de trocas. Encaro a atividade da/o profissional de Arquitetura e Urbanismo enquanto algo essencialmente coletivo e colaborativo. As discussões, complementaridades e acúmulos que fazem parte da natureza do trabalho em grupo são fundamentais para desmanchar consensos e desestabilizar ideias rígidas, enriquecendo tanto o processo quanto os resultados do trabalho (ALMEIDA; SABÓIA; STEQUE, 2012). Trabalhar em grupo oportuniza espaços de formação coletiva, com aprendizados mútuos entre os envolvidos, pela possibilidade de agir e conviver juntos (FIGUEIREDO et al., 2017). No espaço acadêmico, essa prática também se insere enquanto um gesto disruptivo, uma vez que no ambiente universitário a individualidade e a competitividade são extremamente comuns, e ações de autoria compartilhada costumam ser desvalorizadas1.

1 Complexificando essa discussão, caberia ainda uma análise sobre como, em contextos de autorias compartilhadas ou projetos coletivos, existe um processo de invisibilização que recai sobre corpos dentro de recortes interseccionais (gênero/raça/ classe), tendo o reconhecimento de seus nomes muitas vezes apagados - discussão que não irei me deter, mas que não poderia deixar de mencionar. 2. A construção do TFG | 53


Assim, desenvolver o TFG individualmente não seria nem um pouco condizente com a atuação que já venho trilhando, tampouco com a que pretendo exercer ao me formar. Nesse sentido, o entendimento deste trabalho enquanto fruto de um esforço coletivo é um desdobramento da maneira que venho construindo meu lugar nessa profissão, bem como, representa um posicionamento convergente com o fazer de Arquitetura e Urbanismo que acredito: uma atuação que tem potência enquanto ação política coletiva. Ademais, cabe também levantar uma discussão e crítica a respeito dos regulamentos proibitivos 2que enquadram os trabalhos finais de graduação (bem como dissertações e teses) do curso de Arquitetura e Urbanismo como projetos individuais. No meu percurso acadêmico, a intenção desse fazer coletivo se concretizou de forma mais expressiva no ano de 2020, quando surgiu o TRAMA. Anteriormente entendido enquanto um coletivo, e agora em processo de formalização para tornar-se organização sem fins lucrativos, TRAMA dá nome a um movimento que existia antes mesmo do grupo se entender como tal. Descrever sua criação implica narrar uma rede composta por diversos agentes, eventos e territórios que, nos últimos anos, vem se articulando para incidir e disputar as narrativas da cidade de Salvador através de ações de enfrentamento às injustiças socioterritoriais. Um ponto de partida possível para descrever essa experiência é a Escola de Verão Monotrilho em Disputa (ver pág. 138), em janeiro de 2020, um encontro entre grupos de pesquisa da FAUFBA, associações de moradores e movimentos

2 O regulamento oficial de Trabalho de Fim Graduação da FAUFBA, no seu Artigo 2º, afirma que: “O TFG – Trabalho Final de Graduação corresponde a um exercício propositivo e projetual, de caráter individual, com temática escolhida livremente pelo aluno, desde que relacionada às atribuições profissionais do Arquiteto e Urbanista e destinada a demonstrar sua qualificação para o exercício profissional como Arquiteto e Urbanista.” 54 | Experimentos metodólogicos insurgentes na prática de Arq. e Urb.


sociais com o objetivo de incidir nas controvérsias em torno da intervenção do Monotrilho. Proposto em substituição ao Trem do Subúrbio Ferroviário de Salvador pelo Governo do Estado da Bahia, por meio de uma Parceria Público Privada, a obra do Monotrilho — um modal de transporte elevado e sobre pneus — se consolidou como uma intervenção polêmica, superfaturada, e carregada de violências. A Escola de Verão se colocou como um espaço de formação e ação, articulando Comunicação Comunitária e Avaliação de Políticas Urbanas, representando uma reação em resposta aos processos autoritários desse conflito.

Abertura da Escola de Verão no Acervo da Laje. Acervo da autora, 2020.

2. A construção do TFG | 55


Nesse contexto, um grupo de pesquisadores/as, graduandos/as, mestrandos/as e profissionais, com um histórico de envolvimento em atividades de extensão, pesquisa e projetos em territórios populares negros da cidade, se implica não apenas em participar, mas também em apoiar a organização dessa atividade. Como parte da programação, foram realizadas oficinas de comunicação comunitária com o intuito de mapear as questões prioritárias frente à intervenção do Monotrilho e as ferramentas de comunicação e linguagem mais utilizadas localmente. Um dos desafios desse processo foi a tentativa de alcançar um equilíbrio entre o estabelecimento de um planejamento mínimo, necessário para a organização de qualquer evento, e ao mesmo tempo buscar acolher os acasos, as dinâmicas comunitárias nos territórios ameaçados e demais imprevisibilidades que surgiram no decorrer da atividade. Como

resultados

foram

elaborados

materiais

multilinguagens

(jornalzinho, cartazes, lambe-lambe, vídeos, colagens), aproveitando as ferramentas já utilizadas pelas/os moradoras/es, especialmente por meio do whatsapp. Outros desdobramentos foram a construção de uma página do instagram − @aitremcoisa − criada como canal de divulgação e denúncia a partir das discussões sobre a temática, e um dossiê coletivo comunitário encaminhado ao Ministério Público da Bahia. Importante mencionar que essas peças foram elaboradas em colaboração com moradores, e a utilização das multilinguagens (que será abordada no próximo tópico) teve grande destaque, abarcando tanto materiais de caráter mais técnico, como um dossiê, quanto produções que se situam no campo do sensível artístico, a exemplo das colagens feitas coletivamente.

56 | Experimentos metodólogicos insurgentes na prática de Arq. e Urb.


Produtos multilinguagens Acervo da Escola de Verão, 2020.

Além dos resultados citados, a Escola de Verão possibilitou uma “juntança” de pessoas,nos termos de Linda Kayongo, moradora da Vila Coração, integrante Movimento Nosso Bairro é 2 de Julho e da Articulação do Centro Antigo. Pessoas que, em suas diferentes trajetórias, não haviam tido a possibilidade de trabalhar juntas, o que fez com que a Escola de Verão tecesse também, enquanto desdobramento, redes e articulações entre estudantes, professoras/ es e organizações locais, como foi o caso do TRAMA. Finda a atividade, após uma semana intensa de atividades, uma fagulha foi acesa no desejo de continuidade da atuação coletiva que tinha ganhado corpo ali. Inquietas/os e insatisfeitas/os em relação às maneiras pelas quais a formação profissional, desde a universidade até a atuação, se distancia da sociedade e dos seus territórios, o grupo — agora unido também por laços de afeto e amizade — vislumbra a criação do TRAMA como um espaço de experimentação política e artística, uma oportunidade de mesclar ativismo social, produção intelectual e prática profissional engajada. 2. A construção do TFG | 57


Dessa forma, o TRAMA surge no fazer junto, a partir de escutas, diálogos, trocas e práticas coletivas. Consideramos que o grupo não é composto apenas pelos integrantes que, em um dado momento, decidem denominar-se enquanto coletividade, mas sim, abarca todos os movimentos urbanos com os quais partilhamos lutas, em sua maioria, organizações sociais que enfrentam processos violentos de exclusão e subalternização política, econômica e social na cidade. Além de movimentos sociais, associações de bairros e coletivos periféricos, a trama é tecida também com grupos de pesquisa universitários, instituições sociais ligadas aos direitos humanos e assessorias técnicas populares. Buscamos contribuir com todos esses grupos, co-criando campanhas de mobilização social e de engajamento comunitário, atividades de formação, criações gráficas, audiovisuais, plataformas digitais, podcasts, intervenções urbanas e denúncias de impactos de projetos, programas e legislações que violam o direito à cidade em territórios negros e populares de Salvador. Antes de passar para o próximo tópico, acredito ser preciso explicitar que nossa atuação se inscreve em um conjunto de outras tantas articulações coletivas em escala regional e nacional. A inquietação que atravessa o surgimento do TRAMA tem se tornado cada vez mais pulsante no campo da Arquitetura e Urbanismo. Seja pela constatação da insuficiência dos currículos e das políticas formativas das Faculdades em assumirem o campo implicado como eixo estruturante das práticas e aprendizados, seja pelo momento de crise do país, como já dito anteriormente, em que diversas mobilizações emergiram nas últimas décadas. Escritórios modelos, práticas que se inscrevem dentro do que denominamos Assistência Técnica de Habitação de Interesse Social (ATHIS), atuações coletivas por meio de assessorias populares, arranjos extensionistas, entre outras colaborações, configuram um repertório coletivo no campo multifacetado de atuação inter-entre-cruzada entre Universidade, movimentos e coletivos sociais, comunidades e territórios negros e populares.

58 | Experimentos metodólogicos insurgentes na prática de Arq. e Urb.


Desde 2020, tivemos a oportunidade de conversar com algumas destas coletividades através da participação em eventos, mesas de debate e aulas, partilhando experiências e ampliando as conexões com uma rede de movimentos que nos inspiram (Figura 1). Ao mesmo tempo, identificamos que é necessário criar meios para conseguir um maior acesso a informações, análises e desdobramentos das ações realizadas por essas coletividades, a fim de potencializar parcerias e trocas entre projetos e experiências. Com isso, encontra-se em fase de elaboração (para além da temporalidade da entrega deste TFG) um mapeamento regional e nacional 3de instituições, ONGS, agências e coletividades com as quais pretendemos dialogar, construindo interlocuções e futuras colaborações. Como possibilidade de desdobramento, vislumbramos a criação de uma plataforma ou dispositivo que apresente essa rede mapeada, servindo como ferramenta para disseminar trabalhos e ampliar conexões. Pensando na multiplicidade de existências, corpos e trajetórias que caracterizam o fazer-cidade e suas coletividades, uma outra multiplicidade constituiu-se enquanto parte da atuação do TRAMA: a multilinguagem, tratada a seguir.

3 O mapeamento “Tramas de atuação”, ainda em fase de elaboração, pode ser acessado através do link público: https://docs.google.com/document/ d/1XZJ5oBlnC5wOdU2bF0LsdzHEIIXk-mugiED2aAnfIr0/edit?usp=sharing. Nosso desejo é que, futuramente, essa pesquisa possa se transformar em uma plataforma de maior alcance, que visibilize e divulgue ações em curso no país, conectando coletividades e gerando novos arranjos a partir de trocas entre projetos. 2. A construção do TFG | 59


WEBINÁRIO CULTURA E LUTAS URBANAS - INDISCIPLINAR (UFMG) com: COLETIVO AQUI FORA (AL) :

Coletivo urbano que busca reativar espaços públicos

COLETIVO OCUPARTHE (PI):

Coletivo que atua no cruzamento entre arte, cidade, memória

COLETIVO A-BRAÇO (CE):

Coletivo de urbanismo voltado a ações de intervenção colaborativa no espaço público

EVENTO PREPARATÓRIO PARA A CONFERÊNCIA POPULAR PELO DIREITO À CIDADE com: LIDERANÇAS DA ARTICULAÇÃO DO CENTRO ANTIGO OBSERVATÓRIO DAS CIDADES, POLÍTICAS PÚBLICAS E MOVIMENTOS SOCIAIS (UESB) Pesquisa é norteada por temáticas,

como moradia, violência urbana, mobilidade urbana, arte urbana como demonstração do direito à cidade justa

Figura 1: Conexões, parcerias, inspirações


AULA DA DISCIPLINA CULTURA VISUAL, CIDADE E ARQUITETURA (PPGA-AU FAUFBA E FAUUSP) com: GOMA (SP): Coletivo interdisciplinar de arquitetos, designers, fotógrafos, produtores e educadores. GRU.A (RJ): Escritório que elabora projetos e obras com especial interesse na interseção entre os campos da arquitetura e das artes plásticas MICRÓPOLIS (BH): Micrópolis é um grupo de arquitetos que atua nos cruzamentos entre espaço, design e educação

MESA DO CICLO DE DEBATES RAU+E/UFBA, “EXPERIÊNCIAS DE ASSISTÊNCIA E ASSESSORIA TÉCNICA NO CONTEXTO DA PANDEMIA” com RESIDÊNCIA AU+E/UFBA: Curso de Especialização em Assistência Técnica, Habitação e Direito à Cidade Apoio institucional da ONU HABITAT outros participantes do evento: GEOCOMBATE COVID-19 SSA/UFBA (BA) FÓRUM DE ASSESSORIAS DO NORDESTE LABRUA (PB) CENTRO DE DEFESA FERREIRA DE SOUSA (PI) PROJETO DE EXTENSÃO CONJUNTO JOSÉ MONTEIRO SOBRAL/UFS (SE) EMAU TRAPICHE/UFS (SE)


Colagens para plataforma Pipoco Acervo da autora, 2020.


II. TFG multilinguagem: Comunicação nas lutas urbanas pelo direito à cidade1

Vive-se hoje um caos informacional. Uma profusão gigante de informações em todos os canais, mídias e veículos, muitas delas sem qualidade, nos confundem a todo tempo. A velocidade fugaz da internet permite um acesso

1 Parte dos conteúdos discutidos nesse tópico foram abordado no âmbito do Evento preparatório para Conferência Popular das Cidades, ocorrido em 5 de Maio de 2022, reunindo diversas lideranças comunitárias, pesquisadores, parceiros e coletivos acerca do tema “Perspectivas da luta pela permanência negra e popular no Centro Antigo de Salvador”. Nesse evento, o TRAMA, representado por mim e pelo arquiteto e urbanista Matheus Tanajura, foi convidado a compor a mesa de debate, realizando uma fala sobre “Ações colaborativas em comunicação nas lutas urbanas pelo direito à cidade”, que buscou refletir a respeito de novos ativismos e práticas comunicativas como centrais no enfrentamento às desigualdades em Salvador. A confluência desse evento com a elaboração do presente trabalho representou um momento de trocas ricas e ampliação de discussões que já vinham sido tecidas no processo de pesquisa e escrita do TFG. 2. A construção do TFG | 63


mais ágil a notícias e opiniões, mas também faz com que fatos complexos sejam resumidos em 140 caracteres do Twitter, e fakenews possam ser repercutidas em questão de segundos. Ao mesmo tempo, diante desse excesso, vemos uma falta de transparência de informações, muitas vezes fragmentadas e ocultas, sobretudo aquelas de interesses públicos. Os portais da transparência, contraditoriamente, não são tão transparentes e acessíveis assim. Como, então, acessar informações de maneira segura e eficiente? O termo multilinguagem vem sendo usado pelo TRAMA para expressar a busca por um modo processual e coletivo de produção de conhecimento e ação, pelo uso da arte como uma forma de ativismo, e pela luta pelo acesso democrático à informação. Através do cruzamentos entre diferentes formas de expressão, uma série de linguagens possíveis é explorada: fotografia, vídeo, gifs, colagens, podcasts, graffitis, textos e poesias, constituem um repertório de instrumentos de comunicação que vem sendo articulados às lutas urbanas, especialmente nas disputas de narrativa da cidade (SILVA et al., 2022). A heterogeneidade de meios, suportes e formas comunicacionais intrínsecos às multilinguagens também nos informam sobre uma heterogeneidade de linguagens sociais. Nas atuações coletivas em que o TRAMA está envolvido, observamos um diálogo de conteúdos e estéticas que vêm de uma cultura universitária, do meio técnico e de uma atmosfera artística mais formalizada, ao mesmo em que também coexistem linguagens coloquiais, gírias e formas de expressão populares, advindas não apenas do contato com movimentos sociais parceiros, mas também das vivências de/algumas/alguns da/os integrantes do coletivo oriunda/os de bairros populares de Salvador. No entanto, a ideia de “multilinguagem”, enquanto conceito, não é inédita nem inovadora; em realidade, parte da tentativa de potenciar as estratégias de comunicação que diversos territórios já articulam cotidianamente em suas dinâmicas. 64 | Experimentos metodólogicos insurgentes na prática de Arq. e Urb.


Nesse sentido, uma série de iniciativas multilinguagens vêm sendo exploradas em Salvador, em diversos territórios da cidade. Encontros de rap e poesia como o Slam das Mina2 e Sarau da Onça3 promovem encontros culturais e políticos visando a democratização do acesso à poesia e a desestigmatização de bairros periféricos através da arte; coletivos de graffiti como o grupo Musas 4e o projeto Ancestralidade e Novas Narrativas5 usam da pintura para promover debates, conscientização política e mobilização comunitária, grupos de skate como o coletivo de mulheres Dendê Crew6 e o projeto multimídia SSALITRE 7ocupam e se apropriam de espaço público gerando novos locais de convivência e narrativas sobre a cidade; rádios comunitárias em diversos bairros populares e negros (Paripe, São João do Cabrito, Vale das Pedrinhas, Pernambués, Boca do Rio, Cajazeiras) indicam usos e mobilizações dos meios de comunicação pelas comunidades8, divulgando a cultura, noticiando os acontecimentos e promovendo

2 Para conhecer mais sobre o projeto, acessar: https://linktr.ee/slamdasminasba 3 Para conhecer mais sobre o projeto, acessar: https://www.instagram.com/saraudaonca/?hl=pt 4 Para conhecer mais sobre o projeto, acessar: https://www.instagram.com/ilovemusas/ 5 Para conhecer mais sobre o projeto, acessar: https://www.ancestralidadesnovasnarrativas.com/pagina-inicial 6 Para conhece mais sobre o projeto, acessar: https://www.instagram.com/dendecrew/ 7 Para conhecer mais sobre o projeto, acessar: https://www.instagram.com/ssalitre_/ 8 Leia mais sobre em: “A atuação das rádios comunitárias em bairros populares de Salvador-BA: notas para uma abaordagem geográfica”; GEOGRAFIA, Rio Claro, v. 34, n. 2, 2. A construção do TFG | 65


atividades educacionais; podcasts como o Afrontravas9 e Pele preta Salvador10; e projetos de comunicação como a Revista Aglomeradores11, a Biblioteca Zeferina Beiru 12contribuem para a criação de acervos afrorreferenciados com narrativas literárias representativas para a formação sociocultural dos territórios. A convivência com esses e tantos outros projetos e movimentos orienta e inspira caminhos de atuação do TRAMA. Um estudo que conflui com o tema abordado e que se debruça sobre um mapeamento de iniciativas é a tese de doutorado de Bruna Hercog, denominada “Rumo às epistemologias das quebradas: iniciativas juvenis em arte e comunicação em Salvador (Bahia, Brasil) e Cali (Valle del Cauca, Colômbia)”. Nesse trabalho, Hercog constata como as “juventudes em movimento”, em suas atuações, tendo a arte e a comunicação como alicerces pedagógicos, elaboram “dribles epistêmicos” e “mais do que resistir, colocam em xeque cânones diversos, refazendo perguntas e questionando o que se convencionou chamar de conhecimento legítimo” (HERGOC, 2022).

p. 384-394, mai./ago. 2009. 9 Para conhecer mais sobre o projetto, acessar: https://www.instagram.com/afrontravas/ 10 Para conhecer mais sobre o projeto, acessar: https://open.spotify.com/show/0MAhRyfL7Firt7DyoZ47ot?si=e068be76bd1547eb 11 Para conhecer mais sobre o projeto, acessar: https://www.instagram.com/revistaaglomeradores/ 12 Para conhecer mais sobre o projeto, acessar: https://www.instagram.com/bibliotecazeferina_beiru/?igshid=YmMyMTA2M2Y%3D 66 | Experimentos metodólogicos insurgentes na prática de Arq. e Urb.


Alinhadas/os com essa ideia, acreditamos que ferramentas de comunicação são importantes instrumentos de luta quando agenciados para pautar o direito à cidade, formas de resistência, processos de mobilização e engajamento da população, direito ao acesso à informação e, para além disso, reelaboração da vida. Dessa maneira, a comunicação, quando articulada inter/ trans/multidisciplinariamente com o urbanismo e as discussões da cidade, pode ser pensada enquanto um recurso que atua na construção de possibilidades e ações dialógicas (FREIRE, 2005), contribuindo para construção de estratégias na elaboração de pedagogias engajadas e libertadoras (FREIRE, 2001; HOOKS, 2013).

Oficina de comunicação comunitária. Acervo da autora, 2020.

Na Arquitetura e Urbanismo, a prática de comunicação pode ser utilizada também como forma de articulação local, de cooperação comunitária e de autonomia. Portanto, ao ser acionada como instrumento de construção compartilhada e de mobilização, pode ser uma aliada das lutas sociais por direitos, favorecendo o engajamento de sujeitos e grupos em pautas comuns, ampliando a agenda democrática e disputando o campo das narrativas e discussões urbanas. Ao entender que a cidade (suas disputas, coexistências e complexidades) também é feita do movimento das narrativas, o cruzamento 2. A construção do TFG | 67


entre as interfaces da Arquitetura, Urbanismo, Comunicação e Arte revela um caminho de atuação possível para assessorias técnicas, de modo a contribuir com comunidades e movimentos sociais. Um contexto recente (e ainda atual) em que a comunicação mostrou-se uma importante aliada nas lutas urbanas foi a campanha “Tororó Resiste” (ver pág. 166) que vem ocorrendo em apoio aos habitantes do bairro do Tororó13. Construído pelos seus próprios moradores e moradoras, o Tororó cresceu e ganhou maior densidade populacional a partir dos anos 2000, nunca tendo havido, seja por parte de agentes públicos ou privados, qualquer tipo de ação que impedisse a ocupação da área. Dessa forma, há mais de 15 anos habitam ali famílias de mulheres e homens negros(as) que, em sua maioria, vive de trabalhos informais. Em 2016, o Tororó foi legalmente reconhecido como Zona Especial de Interesse Social (ZEIS)14, fazendo parte de áreas demarcadas na cidade para assentamentos habitacionais de população de baixa renda, onde se prioriza a permanência e a melhoria das condições de vida dos seus moradores e moradoras por meio de políticas públicas (TORORÓ RESISTE, 2021)15. No entanto, no ano de 2017, um conflito se impôs: a Prefeitura Municipal de Salvador realizou ações de reintegração de imóveis na Rua Monsenhor Rubens Mesquita, localizada ao lado do terminal da Estação da Lapa, ameaçando cerca de 40 famílias de serem expulsas de suas casas. Diretamente relacionada a essas

13 Tororó é um bairro popular de Salvador, conhecido por abrigar o Dique do Tororó e ser vizinho da Arena Fonte Nova e da Estação da Lapa. 14

Para ler mais sobre ZEIS, acesse: https://www.zeisja.org/

15 O que está acontecendo no Tororó?.Tororó resiste, 2021.. Disponível em: https://zeistororo.wixsite.com/torororesiste. Acesso em: 10 de Maio de 2022 68 | Experimentos metodólogicos insurgentes na prática de Arq. e Urb.


movimentações judiciais, há em jogo a construção do Shopping Nova Estação, obra até então sem projeto formalmente apresentado, porém, tendo a referida rua enquanto local previsto de implantação do estacionamento do novo centro comercial. Após duas tentativas mal sucedidas de obtenção de uma liminar para desocupar a área, a Prefeitura conseguiu no final de 2020, através de uma medida judicial, a permissão de desapropriar os moradores. Atropelando a decisão do Supremo Tribunal Federal de proibir despejos na pandemia16, em 2021, as casas começaram a ser demolidas sem aviso prévio, em um processo envolvendo pressão psicológica e violência institucional por parte da gestão municipal, que não explicou o real interesse ou motivo da intervenção, marcadamente drástica, violenta e equivocada.

1. FOTO AQUI

Demolições no Tororó Luisa Caria, 2021. 16 “A Lei Nº14.216 estabelece medidas excepcionais, em razão da Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional (Espin) decorrente da infecção humana pelo coronavírus SARS-CoV-2, para suspender até 31 de dezembro de 2021 o cumprimento de medida judicial, extrajudicial ou administrativa que resulte em desocupação ou remoção forçada coletiva em imóvel privado ou público, exclusivamente urbano (...)”, Diário Oficial da União, 7 de Outubro de 2021. 2. A construção do TFG | 69


Lambe-lambe denúncia da campanha Tororó Resiste. Luísa Caria, 2021.


Registro de demolições no Tororó. Luísa Caria, 2021.


Frente a esse cenário, uma série de movimentos sociais, coletivos e organizações da Universidade se reúnem em apoio à comunidade do Tororó. Mobilizações diversas formam uma rede colaborativa: apoio jurídico, união de moradores e apoiadores da causa, e ações de divulgação do caso são desenvolvidas de forma integrada. O TRAMA assume a tarefa de organizar uma campanha de comunicação e mobilização social, em 3 (três) frentes: > Criação de uma plataforma online com as principais informações sobre o conflito, com um apanhado geral da situação com dados históricos, mapas e materiais audiovisuais diversos que apresentam informações, de forma objetiva e elucidativa. Um chamado para colaborar com a luta dos moradores é feito, com direcionamentos para pressionar as páginas online da prefeitura e do prefeito Bruno Reis em busca de informações. “Kits denúncia” com as peças gráficas de divulgação do conflito são enviados para influencers e pessoas públicas, a fim de potencializar o alcance da luta. > Monitoramento e pressão política a partir da presença no território de assessorias jurídicas, parceiros da Universidade e demais colaboradores, para acompanhar as movimentações pré e pós demolições. O TRAMA se ocupa de registrar os acontecimentos, gerando materiais audiovisuais de impacto (fotografias, vídeos, depoimentos dos moradores) que circulam nas redes, incluindo peças gráficas amplamente compartilhados para divulgar a operação para público maior. > Confecção de cartazes tipo lambe-lambes com mensagens de denúncia e um “QR code” que direciona ao site criado, espalhados pelos arredores do bairro e outras regiões da cidade, buscando ampliar a comunicação para além do meio digital.

72 | Experimentos metodólogicos insurgentes na prática de Arq. e Urb.


Ocupando ruas e redes, com ações de comunicação integradas virtual e fisicamente, multilinguagens, dessa forma, se combinam para atuar nestas lutas urbanas. No decorrer do processo, algumas famílias cedem aos acordos de indenização — expressando as dificuldades financeiras decorrentes do cenário econômico precarizado que a pandemia da Covid-19 aprofundou — e outras poucas conseguem ainda resistir, o que representa uma conquista simbólica diante de um processo tão devastador. Até o presente momento, os entulhos das demolições nunca foram retirados da Rua Monsenhor Rubens Mesquita, causando alagamentos, tornando o ambiente insalubre com riscos de disseminação de doenças em um período de fortes chuvas em Salvador. As imagens dos escombros gritam, enquanto a Prefeitura se silencia, mesmo após diversas solicitações e protestos dos moradores.

Site da campanha Tororó Resiste. Luísa Caria, 2021.

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A falta de participação popular na tomada de decisões de interesse público, especialmente em intervenções situadas em territórios populares e negros, como no caso do Tororó, é uma constante no cenário urbano brasileiro. Uma chave importante para entender esse processo está também atrelada à linguagem. “Liminar”, “primeira e segunda instância”, “ZEIS”, “tramitação’’, “reintegração de posse’’, “regularização fundiária” são termos e vocabulários que dificultam a compreensão das pessoas sobre o que está ocorrendo, pela ausência de domínio acerca destes códigos técnicos. Além disso, impedem essas pessoas, justamente aquelas que mais sofrem com as consequências dessas ações, de adotarem medidas legais e efetivas de reação a esses processos. Para que a população possa ter acesso às discussões e exercer o direito de participar de decisões importantes que impactam suas vidas, muito deve ser feito. Além de criar espaços democráticos nos quais esse debate possa ocorrer (audiências públicas, fóruns populares, e afins, acontecendo em dias/horários adequados para que seja possível uma ampla adesão popular), o diálogo deve também acontecer em bases mais igualitárias, ou seja, utilizando uma linguagem capaz de ser entendida pela população, ao contrário da linguagem jurídica técnica, erudita, própria do jargão profissional, ou da retórica dos políticos. Disputar a linguagem é também uma forma de criar mecanismos para ampliar o acesso à informação. É importante reconhecer o papel fundamental que o léxico técnico exerce ao situar as lutas urbanas nas disputas em instâncias formais jurídicas e políticas. No entanto, para democratizar essa luta, é preciso “pensar de maneira híbrida. Roubar coisas da academia, e refazê-las com inspirações múltiplas”, como disse Marisol de la Cadena (2021)17.

17 Texto transcrito da live “Políticas cosmológicas”, diálogo de abertura do Festival Seres Rios, em 2021, no qual foram convidados Ailton Krenak e Marisol de la Cadena, com mediação de Ana Gomes, para discutir questões urgentes na construção de presentes e futuros de convivência com as águas e o planeta. 74 | Experimentos metodólogicos insurgentes na prática de Arq. e Urb.


Esse refazimento das coisas da academia implica uma produção de conhecimento por meio do acesso à informação. É uma realidade das comunidades a necessidade de lutar pelo acesso à informação. Além da falta de transparência nos processos urbanos que impactam os territórios populares negros, e do tecnicismo que afasta a linguagem formal da linguagem cotidiana, já mencionados, existe também uma carência na produção de documentos, tais como laudos e levantamentos quantitativos, também técnicos, sociais e científicos,

capazes de gerar autoconhecimento político comunitário

(VARELA, 2022) . Tais documentos somam forças na disputa pela interrupção 18

de processos violentos do Estado, por permitirem que as comunidades, ao terem acesso a esse material, possam apropriar-se e fazerem uso e gestão de informações úteis para seus projetos, iniciativas e ações de resistência. Ter acesso a informações e produzir conhecimentos re/con/figura as redes de poder. Nesse sentido, projetos como a Perícia Popular (ver página XX) no Centro Histórico de Salvador e o Censo “Da gente para gente” da Ladeira da Preguiça são iniciativas que, através de ações ligadas à extensão universitária, resultaram na produção de documentos que se tornaram ferramentas de luta e mobilização para as comunidades. Pensando de forma mais ampla, e retomando as questões sobre a disputa da linguagem, pode-se situar essa discussão nos termos de uma virada linguística. Em “Pedagogia das encruzilhadas”, Luiz Rufino defende uma “virada linguística epistemológica que seja implicada na luta por justiça cognitiva e pela pluriversalização do mundo” (2019, p. 18), credibilizando gramáticas produzidas por outras presenças e outros atores. Isto é, a transformação da linguagem

18 Referência à fala realizada por Suzany Varela, moradora da Ladeira da Preguiça e colaboradora do Centro Cultural Que Ladeira É Essa?, transcrita durante a discussão da pré banca deste TFG, realizada em 18 de Maio de 2022. 2. A construção do TFG | 75


apresenta-se enquanto um processo necessário de alterar gramáticas e inventar novos vocabulários para construção de uma crítica ao colonialismo. Um aspecto fundamental nesse debate é a perspectiva das relações raciais no campo da geografia urbana brasileira. Em meio às narrativas diversas e complexas que compõem a cidade, é preciso também reconhecer as múltiplas grafias ali presentes. O geógrafo Renato Emerson (2018, p.44) nos convoca a pensar que “as relações raciais grafam o espaço, produzem ‘grafias’, referências materiais e simbólicas racializadas no espaço, heranças do passado ou fruto de ações e construções do presente”. Dessa forma, conectado ao movimento de inventar novos termos para inaugurar novas práticas, é necessário também criar mecanismos de reconhecimento e relação com as grafias dessas outridades. Outro importante ponto que merece ser discutido é o reconhecimento de que o pensar e fazer multilinguagem é um caminho inescapável diante da complexidade dos objetos que lidamos ao tratar dos estudos urbanos e da historiografia das cidades. Isto é, torna-se imprescindível o uso de outras linguagens, pois o saber técnico da Arquitetura e os códigos por ela produzidos, já não são (ou talvez nunca tenham sido) suficientes. A emergência de um pensamento crítico decolonial impõe a missão de revisitar e recontar a história, buscando visibilizar atores e eventos que foram apagados por estruturas de poder. A ideia de história oficial, narrativa única (ADICHIE, 2014) e homogeneizante que conta apenas o lado daqueles tidos como “vencedores” e que não contempla as diversas narrativas e as múltiplas cosmopolíticas, vem sendo rompida a partir das perspectivas dos povos originários, do povo negro, de grupos detentores de saberes tradicionais e comunidades periféricas que, cada vez mais, têm ocupado espaços físicos e virtuais, conferindo visibilidade às suas trajetórias e histórias de vida e luta. Para isso, documentos de naturezas diversas — desenhos, cartas, mapas, fotografias, 76 | Experimentos metodólogicos insurgentes na prática de Arq. e Urb.


filmes, objetos ritualísticos — são fundamentais na tarefa de resgatar ou recriar narrativas. Nesse processo, não basta apenas uma ampliação dos tipos de linguagens e reconhecimento da especificidade de cada uma delas, mas, também, é importante identificar os agenciamentos suscitados por elas, os circuitos de produção, circulação, controle e consumo, os modos culturais de visibilidade e invisibilidade, além das distintas maneiras de olhar (COSTA, 2021). Para finalizar esse tópico, retomo a importância de pensar a comunicação como uma prática de incidência política central e estratégica nos contextos conflitivos-colaborativos. Como discutido, práticas comunicativas ganham força quando são agenciadas como mobilização comunitária e engajamento social, como forma de denunciar violações de direitos, de dar visibilidade à luta e sensibilização da sociedade, de construir mecanismos de acesso à informação, de atuar nos registros de memórias e criação de acervos da luta, e, finalmente, de fortalecer pertencimentos de moradores em seus territórios. Reconhecer a heterogeneidade de modos de se comunicar é fundamental, fortalecendo, sobretudo, as redes que já existem. No entanto, para que essas potências se efetivem, é imprescindível que as práticas comunicativas estejam aliadas ao reconhecimento e combate da exclusão digital. Nesse sentido, somos conduzidos a pensar nos desafios debatidos no próximo tópico, que trata, dentre outras coisas, como o contexto de pandemia nos convocou a desenvolver outras formas de estar junto que respeitassem o distanciamento social, dando protagonismo à esfera online − e portanto, acentuando também as desigualdades de acesso à internet, a equipamentos (celular, notebook, tablet) e também ao uso dos dispositivos digitais.

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Cartazes da Campanha Xô Corona em moradia no Centro Histórico xxx, 2021.


III. TFG pandêmico: Imaginando outros mundos a partir das crises Com a emergência da pandemia da COVID-19, constata-se a insuficiência de ferramentas para lidar com as problemáticas urbanas, diante das limitações impostas pelas medidas adotadas para o controle da doença. Em meio e para além da crise vivida, em suas dimensões sociopolíticas, sanitárias e informacionais, somos convocados a reinventar as formas de estar juntos. Nesse sentido, a pandemia pode ser entendida enquanto um marco que põe em debate os limites conceituais, metodológicos, interpretativos do mundo, e a nossa “crise imaginativa” para pensar, com eles e a partir deles, outros mundos possíveis (LEANDRO, 2022). “O desafio atual é um chamado à invenção”, afirma Diego Viana (2020:PAG), convidando-nos a olhar para a pandemia enquanto um ponto de virada, que nos convoca a finalmente encarar as transformações necessárias para que haja um futuro possível de se viver.

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Atravessada pela morte de George Floyd, a pandemia também propiciou uma maior visibilidade e projeção mundial para o debate sobre o genocídio negro — tema que nunca deixou de estar presente. Como reflexo desse acontecimento emblemático e violento, o Ato Cortejo 2020 (ver pág. 158), manifestação tradicional das comunidades do Centro Antigo de Salvador no dia 2 Julho, data da independência da Bahia, acontece pela primeira vez de forma virtual, e tem como lema: “O povo negro do Centro Antigo luta para respirar: Nem covid, nem racismo, poderão nos sufocar”. Com este chamado, moradores, agentes culturais e mobilizadores comunitários fazem uma alusão ao grito de socorro dito por Floyd, explicitando também que a luta por sobrevivência está além da pandemia.

Card de divulgação do Ato Cortejo Virtual 2020 Acervo do TRAMA, 2020 80 | Experimentos metodólogicos insurgentes na prática de Arq. e Urb.


Muito antes de 2020, diversos grupos (indígenas, quilombolas, comunidades tradicionais) já vinham lidando com a política de morte do colonialismo. Grupos que já sobreviveram a outros “fins de mundo”, como anuncia Krenak (2019), e que criam cotidianamente soluções, estratégias e enfrentamentos criativos (ainda que instáveis e precários) para manter a vida das suas comunidades. Mais do que querer buscar respostas capazes de dar conta de problemas estruturais, é importante que possamos pensar como aprender como esses gestos, saberes e cosmopolíticas, e como esses aprendizados podem ser mútuos. É fato que com as medidas de distanciamento social impostas pela pandemia, as ferramentas virtuais ganham importância, e, junto com elas os desafios da precarização do acesso à internet e do domínio de mecanismos digitais se impõem. “Ocupar a ciber-cidade”, “hackear os sistemas” e usar as redes de forma politizada têm sido cada vez mais uma pauta dos movimentos sociais contemporâneos. A comunicação online e offline é usada como instrumento de luta necessária nesse momento de distanciamento e as multilinguagens articulam diversas ferramentas e meios de comunicação para ampliar o acesso à informação - o que foi e continua sendo fundamental para divulgar, por exemplo, as medidas protetivas contra o vírus da COVID e também a campanha de vacinação. Em territórios populares e negros, o impacto da pandemia é sentido de forma ainda mais séria. As diversas precarizações de infraestrutura e a negação de direitos básicos que as comunidades têm enfrentado historicamente, como, por exemplo, o acesso à água e aos serviços de saúde, agravam a situação. O poder público carece em fornecer o básico. Diante disso, projetos coletivos surgem como forma de articular proposições para fortalecer as redes de cuidado dos territórios. Um desses projetos foi a Campanha Xô Corona (ver página XX) que uniu comunidades do Centro Antigo e Subúrbio em parceria com grupos 2. A construção do TFG | 81


da UFBA e outras coletividades. As ações se dividiram em três frentes: pontos comunitários de higienização das mãos, desenvolvido pela Mobiliza RAU+E (Grupo da Residência da Faculdade de Arquitetura da UFBA), distribuição de cestas básicas e campanhas de comunicação comunitária, desenvolvido pelo Trama com colaboração das parcerias. Nesse contexto, respeitando o distanciamento, elaboramos um guia de conversa e, através de ligações por celular com representantes de cada um dos territórios, foram abordadas questões necessárias para o desenvolvimento de uma campanha condizente com as realidades locais. Como resultado, foi possível esboçar um panorama das necessidades gerais e específicas frente à pandemia e das ferramentas de comunicação utilizadas por cada comunidade. Em 90% das respostas sobre meios de comunicação, o WhatsApp mostrouse o mais usado. Dessa forma, a estratégia adotada foi de fazer uso da rede de comunicação comunitária já existente para divulgar os conteúdos produzidos e dispará-los pelos agentes comunitários que conhecem o território, e em quem as/os moradoras/es confiam como fonte segura de informação. Além disso, nas interlocuções, foram identificadas outras demandas de informação que as comunidades estavam enfrentando, decorrentes das epidemias de Dengue, Chikungunya e Zika. Essas demandas foram contempladas na campanha de comunicação que englobou peças digitais, cartilhas físicas que foram distribuídas junto às cestas básicas, além de cartazes espalhados em áreas estratégias de grande circulação nos territórios, buscando ampliar o alcance das informações, ao combinar comunicação online e offline. Além da exclusão digital, o diálogo com Camila Aragão, do Grupo Ginga Movimento de Mulheres do Subúrbio, uma mulher portadora de deficiência visual, nos convocou a repensar as peças da campanha de forma mais inclusiva, o que nos conduziu a criar chamadas de áudio, além de conteúdos escritos.

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Cards da campanha Xô Corona Acervo do TRAMA, 2020

A importância do projeto foi reconhecida pelos envolvidos, entretanto constatou-se a insuficiência do impacto de ações pontuais, de curta duração, como foi o caso da Campanha Xô Corona. Como aprendizado, reforça-se a necessidade de construir juntos projetos e trabalhos que possam incidir na cidade de forma consistente e prolongada, reverberando na construção de políticas públicas e multiplicando iniciativas em uma escala mais ampla, em rede. Até o presente capítulo, procurei colocar em pauta debates que considero essenciais para a discussão de uma prática contemporânea politicamente engajada em Arquitetura e Urbanismo, por meio da construção de uma posicionalidade. Situo este trabalho enquanto parte de um movimento epistemológico que busca reeditar o papel da/o arquiteta/o e urbanista a partir de um fazer-cidade partilhado, reconfigurando as competências dessa profissão. Até então, elenquei algumas experiências que me ajudaram a sedimentar 2. A construção do TFG | 83


aprendizados e criticidades sobre essa atuação, tendo o TRAMA como eixo condutor e lugar de ação. No próximo capítulo, apresento um panorama destas e outras experiências, e enfim, fazendo um recorte a partir de 5 projetos do TRAMA, a partir dos quais busco aprofundar reflexões e sedimentar a discussão sobre experimentos metodológicos insurgentes.

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3


costurando trajetória: aprendizados em trama I. Apreendendo (com) experiências II. Experiências gerais III. Adensamento: TRAMA


Variação do painel “Aprendizados em TRAMA” impresso Acervo da autora, 2022. 88 | Experimentos metodólogicos insurgentes na prática de Arq. e Urb.


I. Apreendendo (com) experiências Colocar-se diante de uma rede de acontecimentos, projetos, aprendizados, interlocuções. Provocar aproximações, entender limites, fazer costuras, e enfim, apontar caminhos futuros. “Aprendizados em Trama” (Figura 1) é um painel cronológico que tem como eixos orientadores os anos de 2016 (ano seguinte ao meu ingresso na Universidade, quando começo a me envolver em atividades e projetos coletivos) até 2022 (momento atual de feitura desse trabalho). Buscando quebrar com a linearidade e ordenamento progressivo das linhas do tempo, um universo de mais de 20 experiências é disposto de forma orgânica. Dentre elas, reúnem-se atividades de extensão, projetos de pesquisas, participação em disciplinas optativas, estágios, eventos acadêmicos, workshops, oficinas, exposições, e ações em parcerias com movimentos sociais. 3. Costurando trajetória | 89


2016 2018

2019

2017 VIVA-CIDADE

RMOTA CENOGRAFIA

INCAPTURÁVEL

PERÍCIA POPULAR NO CENTRO HISTÓRICO DE SALVADOR

SIMPÓSIO OUT FAZERES DA CI ANALOG 53 DIBUJO Y PATRIMONIO/ Y VANGUARDIA

RESIDÊNCIA ARTÍSTICA RASGO

EXPOSIÇÃO RASTROS + SOBREPOSIÇÕES

XÔ CORONA

PLATAFORMA O DA MOBILIDA

Figura 2: Costurando trajetória.


2022 2021

2020

PODCAST ELAS FAZEM CIDADE PIPOCO: OUTRO MAPA DE SALVADOR

COLLAGEPALLOZA + EXPOSIÇÃO RECORTES TRANSVERSAIS

MANDATO MARIA MARIGHELLA CIDADE, IMAGEM, ARQUIVO

TROS IDADE

ENTRE MARGENS E IMAGENS

TRAMA

CICLO DE CONVERSAS IMAGEM ETC

ESCOLA DE VERÃO: MONOTRILHO EM DISPUTA

CAMPANHA TORORÓ RESISTE

OFICINA VIRTUAL ENANPARQ

WKS DE PROJETO FAUFBA CAMPANHA DESPEJO ZERO BAHIA

OBSERVATÓRIO ADE URBANA ATO CORTEJO 2020/2021

WEBSÉRIE: CIDADE CHÃO DE LUTAS


Trazer o registro desse percurso foi um gesto inaugural e de muita importância para o desenvolvimento deste TFG, porque busquei, através de um olhar crítico-reflexivo-imaginativo, avaliar a posteriori os caminhos que me conduziram até aqui. Revisitar e analisar, bem como prospectar articulações e adensamentos dos aprendizados diversos acumulados a partir das experiências vividas ao longo dos anos da Faculdade era algo que me inquietava. Talvez por ter me envolvido em muitos projetos e ter entendido, com o tempo, que a potência da minha atuação (individual e coletiva) estava justamente nessa multiplicidade: de pessoas, de linguagens, de disciplinas - o que constitui o fazer do TRAMA inclusive. Com o tempo, entendi que nem sempre é preciso escolher uma coisa só, apesar de entender a importância de aprofundamentos, e “mergulhos”, que só um certo tipo de foco permite. Mas sim,optei aqui um pensar em rede, multifocal, e o exercício de uma habilidade de atuar em trama. No entanto, ainda assim, escolhas tiveram de ser feitas. A temporalidade de execução do TFG, relativamente curta, impôs um limite do que seria possível ser executado. Em meio a feitura desse trabalho, houve a conciliação com atividades do TRAMA, com um projeto de pesquisa de PIBIC, e com outras inserções profissionais que já atravessavam o meu cotidiano, como de tantas/ os estudantes e pesquisadoras/es que se desdobram para articular produções acadêmicas, trabalhos remunerados, projetos autorais, entre outras demandas. Além do limite do tempo, havia o desejo de que o trabalho tivesse como tema principal os “modos de fazer junto” nas relações da cidade, refletindo e (re) apresentando experimentos metodológicos coletivos.

92 | Experimentos metodólogicos insurgentes na prática de Arq. e Urb.


Dessa forma, uma seleção que reduzisse o material a ser estudado mostrou-se necessária, construindo um equilíbrio entre o pensar/ler as experiências em trama e o aprofundamento, ao mesmo tempo que tentando ocupar uma entreidade, um limiar entre essas duas qualidades de análise. A partir das mais de 20 experiências que aparecem como registro dessa trajetória, selecionei inicialmente 11 (onze) projetos (Figura 3).

Com o tempo, entendi que nem sempre é preciso escolher uma coisa só, apesar de entender a importância de aprofundamentos, e “mergulhos”, que só um certo tipo de foco permite. Mas sim,optei aqui um pensar em rede, multifocal, e o exercício de uma habilidade de atuar em trama.

3. Costurando trajetória | 93


2016 2018

2019

2017 VIVA-CIDADE

RMOTA CENOGRAFIA

INCAPTURÁVEL

PERÍCIA POPULAR NO CENTRO HISTÓRICO DE SALVADOR

SIMPÓSIO OUT FAZERES DA CI ANALOG 53 DIBUJO Y PATRIMONIO/ Y VANGUARDIA

RESIDÊNCIA ARTÍSTICA RASGO

EXPOSIÇÃO RASTROS + SOBREPOSIÇÕES

XÔ CORONA

PLATAFORMA O DA MOBILIDA

Figura 3: Costurando trajetória, primeira curadoria.


2022 2021

2020

PODCAST ELAS FAZEM CIDADE PIPOCO: OUTRO MAPA DE SALVADOR

COLLAGEPALLOZA + EXPOSIÇÃO RECORTES TRANSVERSAIS

MANDATO MARIA MARIGHELLA CIDADE, IMAGEM, ARQUIVO

TROS IDADE

ENTRE MARGENS E IMAGENS

TRAMA

CICLO DE CONVERSAS IMAGEM ETC

ESCOLA DE VERÃO: MONOTRILHO EM DISPUTA

CAMPANHA TORORÓ RESISTE

OFICINA VIRTUAL ENANPARQ

WKS DE PROJETO FAUFBA CAMPANHA DESPEJO ZERO BAHIA

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O critério de seleção desse primeiro recorte se baseou nas seguintes premissas: primeiramente, me interessava a pluralidade de lugares que ocupei em cada atividade (monitora de disciplina, pesquisadora, facilitadora de oficina, designer, organizadora de evento e afins). A partir dessas diferentes posições e posicionalidades, busquei entender a atuação que fui construindo ao longo do tempo, refletindo como cada função que desempenhei trazia aprendizados que se alimentavam e complementavam; em segundo lugar — e talvez, o mais importante — busquei evidenciar atividades que disparavam aprendizados em suas metodologias e enunciavam algum caráter de experimentação nos “modos de fazer-junto”. Assim, eventos e projetos em que o aporte metodológico ou o caráter coletivo não fossem expressivos (a exemplo da participação individual em uma exposição, ou elaboração individual de um trabalho final para uma disciplina), acabaram não entrando. Ainda assim, pontuo que as reverberações das contribuições dessas atividades estão indiretamente presentes nas análises e reflexões que são realizadas no decorrer deste trabalho. Também ficou explícito, como critério de escolha das experiências, o desejo por me debruçar em experiências nas quais as trocas de conhecimentos acadêmicos e populares, ou entre “saberes orgânicos” e “saberes sintéticos”, nos termos de Nego Bispo (2018), estiveram presentes.

Inicialmente, havia escolhido apresentar 11 (onze) experiências, propondo uma estrutura comum a todas elas. Através da elaboração de fichas de análise, preenchi uma série de categorias de forma textual e gráfica, que me auxiliaram a analisar e produzir reflexões sobre os eventos e projetos. No entanto, me deparei com duas questões:

96 | Experimentos metodólogicos insurgentes na prática de Arq. e Urb.


1. O total de onze experiências era ainda um número grande para o adensamento desejado no trabalho. Era necessário “chegar mais perto” de uma (ou algumas) delas. No decorrer deste processo, pude percber que o TRAMA não se comporta apenas como um agente coletivo que atua nas colaborações, mas, sim, que o TRAMA conforma um lugar atravessado, se constituindo por e através de importantes experiências e experimentos metodológicos, que me interessa aprofundar. Guiando-me a partir das questões trazidas neste TFG, as práticas dessa coletividade revelaram-se um núcleo significativo de adensamento. Dessa forma, escolhi realizar um último gesto de seleção: das 11 experiências apresentadas por meio do registro em fichas, as 5 desenvolvidas no âmbito da atuação do TRAMA são analisadas de forma mais detida (Figura 4). As outras 6 apresento de forma mais resumida, mas julguei importante mantêlas, na medida em que estas indicam aprendizados que, inclusive, alimentam e referenciam os projetos do TRAMA apresentados em seguida. 2. Finalmente, a segunda questão diz respeito ao risco que existe na elaboração de fichas, ao se tentar padronizar, através das mesmas categorias, experiências plurais e diversas entre si, achatando e homogeneizando dimensões complexas da realidade e suas análises. Dessa forma, seja nas primeiras 6 fichas, seja nas 5 fichas do TRAMA, há uma mínima estrutura comum (explicada mais adiante) que busca organizar a apresentação dos projetos, mas também, abre-se espaço para que as singularidades de cada experiência possam aparecer.

3. Costurando trajetória | 97


EXPERIÊNCIAS GERAIS

1.

PERÍCIA POPULAR NO CENTRO HISTÓRICO DE SALVADOR

2.

RMOTA CENOGRAFIA

3.

ANALOG 53

4.

5.

6.

SIMPÓSIO OUTROS FAZERES DA CIDADE

CIDADE, IMAGEM, ARQUIVO

PIPOCO: OUTRO MAPA DE SALVADOR

Figura 4: Costurando trajetória, curadoria final.


APROFUNDAMENTO

7.

8.

9.

10.

11.

ESCOLA DE VERÃO: MONOTRILHO EM DISPUTA

CAMPANHA XÔ CORONA

ATO CORTEJO 2020/2021

CAMPANHA TORORÓ RESISTE

PODCAST ELAS FAZEM CIDADE


EXPERIÊNCIAS GERAIS LEITURA DAS FICHAS Nas fichas apresentadas a seguir, são estabelecidas categorias descritoras e caracterizadoras das experiências. No entanto, estas categorias não são estáticas: informam sobre processos, questões e conteúdos situados, assumindo diferentes nuances de acordo com as especificidades de cada experiência. São elas: TÍTULO: Nome do projeto/evento/ação, ano de realização e ano em que estive envolvida.

DESCRIÇÃO Aqui, três perguntas são realizadas a fim de descrever a experiência: nomeando os agentes envolvidos (Quem fez acontecer?), relatando brevemente o contexto (O que foi e em que contexto buscou incidir?), e dando pistas sobre as metodologias aplicadas (Quais foram os modos de fazer junto?) articuladas no projeto/evento/ação.

PRÁTICAS e RESULTANTES Esta é uma categoria mutável, assumindo diferentes títulos de acordo com cada experiência. Essa categoria aborda as práticas, seus processos e resultantes.

100 | Experimentos metodólogicos insurgentes na prática de Arq. e Urb.


POTÊNCIAS ATIVADAS, APRENDIZADOS, DESAFIOS Essa também é uma categoria variável. Aqui, um espaço de reflexão é proposto. Apontam-se aprendizados, desafios, desfechos, sucessos, insucessos, fracassos, e demais dimensões suscitadas a partir de um olhar retrospectivo, que pela sua dimensão téorico-crítico-criativa é também um olhar prospectivo

VOZES Aqui, busco trazer uma polifonia que contemple outras vozes além da minha, participantes das experiências. Em alguns casos, recorri a arquivos antigos — transcrições de eventos, relatorias, vídeos e afins — para resgatar relatos e citações dos agentes envolvidos. Dessa forma, busquei não onerar o tempo de moradores/as, mas sim, revisitar e expandir um rico acervo de registros já existentes. Em outros, contactei pessoas durante o processo de elaboração das fichas, realizando perguntas que me ajudassem a trazer suas questões e reflexões para o trabalho. Sem uma ordem específica, as vozes surgem nas fichas auxiliando e embasando argumentos expostos, e fazendo uma costura com outras questões presentes.

IMAGENS Fragmentos visuais diversos articulam texto e imagem. Colagens, fotografias e peças gráficas são mobilizadas também como lugar de pensamento, compondo as análises propostas.

3. Costurando trajetória | 101


ACCS PERÍCIA POPULAR NO CENTRO HISTÓRICO DE SALVADOR

EXPERIÊNCIA 1

participação: 2016-2017 duração: 2016-2018

Quem fez acontecer? Parceria entre a Associação de Moradores e Amigos do Centro Histórico de Salvador (AMACH) e um grupo de estudantes, professoras e pesquisadoras da Universidade Federal da Bahia (UFBA) – principalmente da Faculdade de Arquitetura (FAUFBA). O que foi e em qual contexto buscou incidir? O projeto se estabeleceu como uma disciplina de extensão universitária, ofertada durante quatro semestres. Espaço de colaboração, experimentação política e prática investigativa, a Perícia Popular se consolidou, sobretudo, como instrumento de ação coletiva. Aliando conhecimentos científicos e populares, voltou-se para o reconhecimento e a avaliação de situações de vida dos moradores/as da 7ª etapa do Pelourinho, após uma série de violações dos direitos conquistados pelas 108 famílias beneficiárias de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), firmado no ano de 2005, por intermédio do Ministério Público. Com o intuito de sustentar e potencializar o TAC e de obter respostas jurídicas para os moradores, a Perícia se apoiou na prática de intercâmbio de saberes. Quais foram as formas de fazer junto? Na proposta da ACCS (Ação Curricular em Comunidade e em Sociedade), a Perícia foi construída entre a FAUFBA e os espaços coletivos de organização política da 7ª Etapa (Sede da AMACH e Cozinha Comunitária). Participamos de reuniões da Associação e, se buscou, através de uma escuta sensível, ativa, qualificada, entender as problemáticas e reivindicações dos moradores, propondo também atividades e espaços de troca.

Foto: Oficina de cartografia coletiva

Foto: Intervenção urbana no dia das crianças

102 | Experimentos metodólogicos insurgentes na prática de Arq. e Urb.


Imagem: Fotocolagem Perícia Popular.

“De que forma a Perícia Popular vai nos ajudar a mobilizar e articular a retomada de ações dentro da AMACH e a nossa própria auto-estima em frente ao Governo do Estado e CONDER. [...] Onde está o TAC, Comitê Gestor, a Associação? Quem pode cobrar a CONDER? Quem é responsável pela violação do TAC? Será um instrumento descartável onde o governo faz e desfaz sem nenhum pudor?” (AMACH, in PERÍCIA POPULAR: 2017)

Buscando responder a demandas dos moradores/as, na tentativa de fortalecer a sua mobilização e o autoconhecimento comunitário, a Perícia se propôs a:

PRÁTICAS RESULTANTES Uma série de ações foram realizadas na AMACH − oficinas, cartografias, entrevistas, leituras territoriais e vistorias de habitações − propiciou a produção de conhecimento coletivo, envolvendo moradores/as e alunos/as, por meio de pedagogias de pensar/fazer juntes. A elaboração coletiva de um livro (ebook) foi outro importante fruto desse processo, contendo avaliações das condições de vida dos habitantes vulnerabilizados pelo descumprimento do tac da 7a etapa. O livro foi distribuído na Audiência Cidadã, evento convocado pela AMACH, levando reivindicações da Associação às instituições da estrutura do Estado. Ademais, integraram a programação da ACCS a realização de intervenções urbanas de caráter lúdico, como stencils e desenhos na rua, no Dia das Crianças. Por fim, a criação gráfica para redes sociais, registrando e divulgando ações. 3. Costurando trajetória | 103


“Acreditamos que o aprendizado mútuo entre moradores e estudantes, proposto para a construção da Perícia, foi, de fato, mais apropriado pelos estudantes. Quanto aos moradores, as entrevistas, a partir da ação da escuta, levantaram questões quanto à precariedade habitacional, contradições e problemas com o Poder Público, no entanto, compreendemos que é difícil a efetivação do interconhecimento com seus diferentes saberes partilhados.” Estudantes da disciplina “Política, Democracia e Direito à Cidade”, participantes da Perícia, em artigo “PERÍCIA POPULAR NO CENTRO HISTÓRICO DE SALVADOR: Reflexões sobre a experiência do interconhecimento na construção da ação coletiva”, 2017.

POTÊNCIAS ATIVADAS, APRENDIZADOS, INSUFICIÊNCIAS - O conceito de uma “perícia” (instrumento técnico) + “popular” (baseada nos saberes dos moradores) tratava sobre subversão e reapropriação de ferramentas acadêmicas a partir de construções coletivas com os moradores da 7ª etapa. Nesse sentido, cartografias, laudos e relatórios foram (re)criados, expandido as noções que muitos estudantes, como eu, tinham como referência desses instrumentos. Esse gesto de reapropriação de ferramentas alimentou elaborações que aparecem posteriormente na Plataforma Pipoco [pág. XX], que por sua vez, buscou construir, dentre outras ferramentas, uma cartografia multilinguagem e um glossário informativo sobre os termos técnicos comuns na linguagem jurídica de processos urbanos. - A Perícia foi a primeira experiência de extensão que tive dentro da Universidade, e nesse sentido, foi a prática formativa que inaugurou possibilidades de atuações profissionais engajadas. Como monitora, pude colaborar com a elaboração das dinâmicas das aulas e organização das atividades. No entanto, sinto que o maior aprendizado foi a construção de uma consciência crítica sobre formas de não reprodução de uma postura extrativista nas abordagens acadêmicas. Os relatos dos moradores demonstravam a consideração dos estudantes e professores da UFBA como parceiros; e, ao mesmo tempo, não se furtaram A explicitar o cansaço e desgaste que já haviam vivenciado ao terem seus tempos onerados no envolvimento de atividades acadêmicas que não traziam retornos imediatos para a comunidade. 104 | Experimentos metodólogicos insurgentes na prática de Arq. e Urb.


- As turmas da Perícia Popular foram as mais diversas que experienciei na Faculdade. Alunas/os de diferentes idades e diferentes cursos (Bacheralado Interdisciplinar, Geografia, Direito, entre outros) tornavam a sala de aula um espaço extremamente plural, enriquecendo as discussões. Campo ampliado e implicado caminhavam juntos. - Apesar da Perícia ter se estendido por um tempo considerável, havendo uma programação das atividades e uma ação continuada, o tempo das urgências dos territórios sempre se fez presente. A realização da Audiência Cidadã e elaboração/ distribuição do livro da Perícia representaram conquistas importantes para a AMACH. No entanto, o projeto, por lidar com uma realidade complexa e com problemas estruturais, apresentava diversos limites. Ao mesmo tempo que a Perícia identificava problemáticas, não estava no seu escopo ações de caráter mais pragmático ou resolutivo, como por exemplo, melhorias e reparos em habitações com condições insalubres. Também, como apontado pelos estudantes no artigo citado anteriormente, há um grande desafio em se firmar um equilíbrio de aprendizados no contexto de práticas de interconhecimento. Findado o projeto, questões fundamentais como a falta de mobilização de moradores e a ausência de regularização fundiária seguem fazendo parte da realidade da 7ª etapa.


RMOTA CENOGRAFIA

EXPERIÊNCIA 2

participação: 2019-2020.1

Quem fez acontecer? Cenógrafa Renata Mota e sua equipe de trabalho, composta por um arquiteto recém formado, marceneiros, cenotécnicos, estagiárias de Arquitetura e Urbanismo, entre outros profissionais da área. O que foi e em qual contexto buscou incidir? Trabalhando na maioria das vezes com orçamentos baixos e prazos curtos, soluções criativas que mesclavam arquitetura, arte e “mão na massa” davam vida a projetos cenográficos de ramos diversos, tais como shows, espetáculos, eventos. Defendendo a importância do fazer cenográfico aliado à reuso de materiais, à criação de identidade própria de cada projeto, e ao acompanhamento da execução, o fazer da RMOTA Cenografia disputava espaço em um mercado desvalorizado no cenário soteropolitano. Quais foram as formas de fazer junto? A convivência no canteiro do Centro Técnico do Teatro Castro Alves, onde aconteciam os testes de materiais e pré-montagens dos cenários, propiciava diálogos e trocas contínuas entre os saberes dos profissionais envolvidos. No “fazer junto” cotidiano, o alinhamento da equipe foi extremamente necessário para o fluxo do projeto, sem minimizar a importância da função desempenhada por cada um da equipe. “Hoje em dia eu tenho uma visão diferente de Arquitetura e Urbanismo, a partir da Cenografia, porque tudo está conectado com essa relação do corpo no espaço. Não entendo arquitetura só como a estética, ou como a educação ali descolada. Só existe arquitetura e urbanismo porque existe gente. Então essa percepção do espaço, do espaço no tempo, mudou. O contato com a executabilidade (orçamento, viabilidade, interesses) também traz uma maturidade. O saber dos cenotécnicos, autenticidade da forma de criar, capacidade de improvisar.” Luiza Dahia, estudante de Arquitetura, em diálogo provocado para elaboração deste TFG 106 | Experimentos metodólogicos insurgentes na prática de Arq. e Urb.

Foto: Montagem


Foto: Reunião da equipe para discussão do projeto

ROTINA E PROCESSOS O envolvimento com cenografia exigia acompanhamento de todas as etapas do projeto. Iniciava-se com pesquisa de referências e criação partilhada da conceituação da identidade, que orientava a materialidade do cenário. Em seguida, a compra de materiais envolvia uma busca em diferentes espaços da cidade: desde lojas de materiais no Centro (Tabuão, Sete Portas) e Mares (Rua Barão de Cotegipe) até visitas a Ferro Velhos. Depois, reuniões para decisões práticas acerca da viabilidade de execução e testagem no canteiro iniciavam o processo de materialização. Finalmente, a montagem e desmontagem concluíam o processo, consolidando aprendizados integrados entre as etapas.

m de cenário no Centro Técnico do TCA

“Na questão de método, cada projeto é um projeto. Mas uma coisa que é fundamental, que a gente sempre faz − que é importante, e que acaba lá na frente fazendo com que a coisa seja realizada com qualidade − é estar sempre testando. A gente busca trabalhar com reciclagem, então a gente tem que testar pra ver se funciona. E no meio do caminho a gente vai descobrindo as melhores formas de executar. Na correria, na luta. Primeiro pensa, depois faz o teste, e já encontra as dificuldades que pode passar, e vai afinando a forma melhor de desenvolver aquilo Paulo Florêncio, ex-taxista, vitrinista e cenotécnico, em diálogo provocado para elaboração deste TFG 3. Costurando trajetória | 107


REFLEXÕES, CORRESPONDÊNCIAS, LIMITES - Experienciar o cotidiano de uma empresa de cenografia explicitou a interdependência entre o saber acadêmico dos profissionais graduados em Arquitetura e o saber prático advindo da experiência dos cenotécnicos, muitos sem ensino superior. Mais do que viabilizar a execução de uma ideia, a experiência e inteligência dos cenotécnicos no canteiro − sobretudo na realização de testes para verificar o comportamento do material, entendendo os limites da montagem − provocavam redesenhos e ajustes cruciais para concretização do projeto. A ideia de um arquiteto desenhar uma edificação, ser reconhecido enquanto único “autor” da obra, sem acompanhar a execução da obra − uma prática um tanto comum no mercado − distancia-se em muito do que vivenciei nesta experiência com Cenografia. - Infelizmente, é frequente que a Cenografia seja encarada enquanto uma parte “supérflua” na indústria da arte − especialmente no cenário soteropolitano, e em menores proporções, no âmbito nacional. Com o sucateamento das instituições de cultura, a destinação de recursos e incentivo aos fazeres artísticos − o que inclui o fazer cenográfico − configura um quadro de precarização do trabalho. A grande carga horária de trabalho e a pouca remuneração fazem deste um meio desafiador para sustentação financeira, no qual poucos profissionais conseguem estabilidade. - O processo de criação do cenário dita como irá se alcançar o “resultado final”. As metodologias de criação e execução são flexíveis, mutáveis: apenas no momento de teste da materialidade do cenário é que se comprova como, e se, este se sustenta. Como apontado no relato de Paulo Florêncio, “no meio do caminho a gente vai descobrindo as melhores formas de executar”. Acredito que esse modus operandi da Cenografia se relaciona com o desenvolvimento de pensamentos crítico-criativos, de construção de conhecimento, e inclusive, da elaboração do presente TFG. As vicissitudes do processo são definidoras do que se alcança como “produto”, uma vez que este não é um objeto fixo, previamente definido, e sim, surge no decorrer do caminho. O fazer-junto é imprescindível.

108 | Experimentos metodólogicos insurgentes na prática de Arq. e Urb.


- Ademais, há um “jogo de cintura”, no qual o planejamento do projeto encontra múltiplos obstáculos para sua concretização. É necessário que haja uma conciliação e compatibilização entre a parte criativa e abstrata da ideia projetual e as possibilidades concretas da execução do cenário, inclusive a partir do que está disponível no mercado. Era muito comum nos depararmos com uma dificuldade em encontrar materiais disponíveis em grande quantidade, o que nos obrigava a recorrer a soluções criativas. Como exemplo, as imagens abaixo mostram o processo de recolhimento de lâmpadas queimadas (desde buscas em sucatas até campanhas de doação na internet) para um cenário de um show.


ANALOG 53

EXPERIÊNCIA 3

participação: 2018-2020

Quem fez acontecer? Coletivo formado por fotógrafos e fotógrafas, alguns membros do grupo Mouraria 53. O que foi e em qual contexto buscou incidir? O Analog 53 se entende como coletivo ao decidir montar um laboratório de revelação analógica, ocupando um espaço subutilizado do casarão Mouraria 53, um experimento em arquitetura e habitação no bairro de Nazaré, conduzido como TFG de Pedro Alban, então graduando em arquitetura. Durante a lenta reforma do espaço, o Analog se estabelece como grupo de estudos, com interesse em fotografia, revelação e construção. Enquanto única estudante de arquitetura do grupo, conduzo a parte projetual. O laboratório não chega a ser concluído, mas cria-se um espaço de formação coletiva, colocando em prática o processo de revelação, ao mesmo tempo contribuindo para os registros fotográficos da casa em constante fase de obras e transformação de espaços. Quais foram as formas de fazer junto? O aprendizado prático da autoconstrução e a experimentação dos processos de revelação analógica talvez tenham sido as principais “formas de fazer junto”. A ideia do fortalecimento coletivo para estudo e aprendizado de algo novo conduziu o coletivo a acreditar na possibilidade de uma formação autônoma. A disciplina em registrar os encontros através de atas, fotografias e buscar uma organização das atividades do grupo trouxe grandes aprendizados para as metodologias de gestão de um coletivo (o que mais tarde me foi útil na experiência com o TRAMA).


ATIVIDADES DO COLETIVO Na constituição do grupo, eram realizadas reuniões semanais para discussão das ações coletivas, além de seminários para estudo de referências da fotografia e dos processos de revelação. Mutirões de construção aconteciam periodicamente, em paralelo aos estudos teóricos. Neste processo, elaborei um caderno como instrumento de registro e memória das atividades do coletivo, buscando também trazer um caráter analógico-manual para identidade do projeto. Por fim, chegamos a criar uma página no instagram, para divulgar ações do grupo e criar conexões com outros coletivos de fotografia analógica.

Foto: preparação de portas para piso do espaço na Mouraria 53

““Quando a gente se junta com outras pessoas, a gente é capaz de expandir muito nossos horizontes. Aprendizados que não se conseguem sozinhos. (...) Todos tiveram que aprender a sair um pouco das suas próprias cabeças, das suas próprias ideias, e tivemos que aprender a fazer as coisas em conjunto. Não dava para ninguém fazer nada sozinho. Isso foi uma habilidade que todo mundo precisou desenvolver.” Milena Abreu, fotógrafa, assitente de câmera, motion designer. 3. Costurando trajetória | 111


“Eu acho que todos os processos que vivenciamos com o Analog até aqui, foram principalmente efetivos por aguçar a percepção de que é possível alcançar muitos objetivos práticos quando se tem organização, método, colaboratividade aliados a recursos. Sendo o fator recurso algo que influencia bastante nessa equação, as vezes como limitante mas também como um catalisador para soluções criativas para as situações. (...) Metodologicamente o registro em imagens e texto foi algo que veio desse processo junto, e pra melhorar nossa sinergia, gosto muito de como chegamos a um manifesto, uma logo, um google drive e também um caderno que tem um manual de revelação p&b que até hoje eu consulto vez em quando.” Alan dos Anjos, diretor de fotografia, operador e assistente de câmera, skatista.

112 | Experimentos metodólogicos insurgentes na prática de Arq. e Urb.


O QUE NÃO PÔDE E O QUE NÃO PÔDE SER FEITO - A escolha ousada por construir um laboratório sem qualquer conhecimento prévio sobre o tema, apoio financeiro ou dedicação exclusiva dos integrantes (que conciliavam comparecimento às reuniões e os mutirões com diversas outras atividades) foram empecilhos para a viabilidade do projeto. A reforma lenta do espaço, pela pouca disponibilidade de tempo, ausência de recursos financeiros e, chegada da pandemia da COVID-19 fizeram com o que o laboratório não ficasse pronto. No entanto, o Analog53 existiu, acima de tudo, como um espaço de encontro e formação coletiva, alimentando a vontade do grupo de trocar e se inspirar mutuamente. Ademais, consolidou-se um interesse comum nos processos de revelação, o que reverberou em práticas individuais e coletivas dos integrantes, que seguiram fotografando e, alguns inclusive, revelando seus próprios filmes. - Ter feito parte do Analog me apresentou as potencialidades e dificuldades da gestão de um coletivo, aprendizados esses que pude levar para o TRAMA. Seja nas ferramentas de organização e registro de atividades, seja na quebra de expectativa e reconfiguração dos objetivos alcançados pela coletividade, a convivência em grupo ensina, sobretudo, a potencializar habilidades quando partilhadas com outros.

“Queremos construir aquilo que sentimos falta, realizar o que gostaríamos que existisse nessa cidade. Unimos aqui desejos e demandas (principalmente) no campo da fotografia, mas para além dela, vivendo-a como ponto de partida para ampliarmos nosso campo de visão e ação. (...) Através da construção de um laboratório de revelação e ampliação analógica, estamos chegando a um espaço colaborativo, de estudos que vão desde aspectos técnicos e processuais da fotografia a outras infinitas possibilidades individuais e coletivas. Seguindo o modus operandi da Mouraria 53, vivemos o aprendizado de construir com materiais reutilizados, o que tem nos ensinado a planejar, repensar desperdícios e unir pensamentos em busca de soluções criativas. (...) Investigamos os processos analógicos para poder construir novas narrativas nas nossas fotografias. Buscamos uns aos outros como fortalecimento e oportunidade de compartilhar novos conhecimentos e inquietações. Acordamos as curiosidades que estavam adormecidas e estamos buscando compreender o que já foi feito para encontrar nossas outras formas de fazer” Manifesto Analog 53: Alan dos Anjos, Ana Gabriela, Fernando Gomes, Flora Tavares, Milena Abreu, Rafael Ramos 3. Costurando trajetória | 113


SIMPÓSIO PRODUÇÃO IMOBILIÁRIA E OUTROS FAZERES DA CIDADE

EXPERIÊNCIA 4

2019

Quem fez acontecer? Grupo de Pesquisa Lugar Comum, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal da Bahia (UFBA), com apoio do Acervo da Laje, Articulação das Comunidades e Movimentos do Centro Antigo de Salvador, Associação dos Moradores e Amigos do Centro Histórico de Salvador (AMACH). O que foi e em qual contexto buscou incidir? O Simpósio buscou ser um espaço de reflexão crítica e elaboração coletiva de conhecimentos sobre a produção imobiliária latino-americana em (des)articulação com outros fazeres da Cidade. Torna-se importante, portanto, uma aproximação e (re)conhecimento dos agentes que fazem a Cidade, não se limitando á ação das empresas imobiliárias, mas sim, a um conjunto mais diverso de agentes que atuam a partir de outras lógicas de produção do espaço urbano. Propondo uma atividade multilocalizada, as discussões ocorreram na Faculdade, mas também, deslocaram debates e atividades para territórios populares e negros de Salvador. Quais foram as formas de fazer junto? Professores(as), estudantes, pesquisadores(as) de Grupos de Pesquisa do campo de estudos urbanos; coletivos e ativistas urbanos; grupos musicais e profissionais ligados á temática dividiram espaços de fala e escuta durante 4 (quatro) dias de atividades. A “forma de fazer junto” mais expressiva desse evento talvez tenha sido, justamente, a provocação do diálogo entre esses múltiplos sujeitos e saberes. Imagem: Colagem para identidade visual do Simpósio

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Foto: Vilma Santos, segurando um lambe de divulgação do evento durante visita prévia ao Acervo da Laje

Foto:Afrocidade em mesa de provocações, abertura do evento

ESTRUTURA DO EVENTO: Metodologicamente contou quatro tipos de atividades articuladas: 1) Mesa de provocações, abrindo o evento com debate de convidado(a)s de diferentes perspectivas e campos (professores, grupos musicais e movimentos sociais); 2) Percursos de Aprendizagem (PA): momentos de encontros-caminhadas no Centro Histórico e Subúrbio de Salvador, voltados para uma elaboração coletiva de conhecimentos, pelos participantes, a partir das questões suscitadas nesses debates em campo; 3) Rodas de Diálogo, momentos de discussão coletiva, contando com a presença de pesquisadores(as) e membros de coletivos urbanos, convidados(as) de referência sobre o tema em questão; 4) Oficinas, espaços de trabalho e formulação coletiva propostos, através de submissão de propostas para o Simpósio, dentro dos seus eixos temáticos.

“a gente tá tensionando outra forma de fazer a universidade, essa relação com os movimentos (...) a nossa formação que está passando por eles, e eles assumem esse lugar de formadores. De manhã tivemos uma aula com Maura [MSTB], com Pró Cida e Sandra [AMACH]. Elas não são da universidade, mas estamos construindo essa prática, reconhecendo e pensando em arranjos nos quais a gente possa dar mais suporte e qualificar essa relação, sem também querer instrumentalizar, garantindo-se a autonomia. Mas elas já são formadores e são formadoras a partir da experiência, das formas de conhecimento próprias” Glória Cecília, professora da UFBA e organizadora do Simpósio 3. Costurando trajetória | 115


“ (...) tem que ter essa coligação pra misturar as pessoas, para derrubar mesmo com todas as grades. Mas a gente tem que aprender a respeitar o espaço do próximo, e entender ou tentar entender pelo menos... Porque se um professor da Universidade ele ingressa na comunidade tentando fazer um projeto, e não tem o mínimo de respeito com os que estão ali, eu acho que não vale de nada, de nada mesmo, mesmo que seja feito.” Vírus, cantor, performer, integrante do antigo Coletivo Roupa Suja (um dos grupos convidados do Simpósio)v

“(...) a gente está ouvindo, dando ouvido, mostrando que o saber empírico da academia não é superior, e é por isso que eu digo: a gente não precisa que a UFBA chegue nas nossas comunidades, a gente precisa que a gente chegue na UFBA, a gente precisa que a gente chegue na UNEB, nas universidades (...). Quando a gente tomar de assalto mesmo, aí a gente vai falar como a gente quiser, sobre nossos espaços, sobre o que a gente vive, que é o que o RAP já faz, só que com outros instrumentos” Mariene Oliveira, advogada e organizadora do Simpósio

POTÊNCIAS ATIVADAS, APRENDIZADOS, LIMITES - O Simpósio instaurou um espaço de discussões extremamente importantes através dos diálogos provocados. O debate tensionou, principalmente, um tema muito caro para o presente TFG: a relação da Universidade na produção de conhecimento em colaboração com comunidades e territórios populares e negros. Falas como as de Vírus e Mariane tiveram um caráter formativo, geraram conflitos e mesmo desconfortos nas interlocuções com um dos debatedores, professor da UFBA. As divergências suscitadas pelo debate atestaram a complexidade do tema em questão, revelando a necessidade de que mais espaços como estes sejam fomentados, amplificando as discussões.

116 | Experimentos metodólogicos insurgentes na prática de Arq. e Urb.


- O trabalho de elaboração identidade visual do Simpósio envolveu a realização de colagens, registros audiovisuais e criação de peças gráficas, uma experiência que reverberou em muitos outros projetos futuros, e contribuiu para o pensamento multilinguagens. O diálogo com coletivos urbanos jovens e grupos musicais também se mostrou extremamente fértil, e aponta para possibilidades de caminhos futuros, tecendo novas parcerias e projetos colaborativos. - Estava previsto, como registro da memória do evento, um livro elaborado a partir das transcrições das falas realizadas nas mesas e rodas de conversa. Infelizmente, a sobreposição com outras demandas e projetos fizeram com que a publicação não fosse concluída, apesar de ainda contarmos com esses arquivos. O processo de criação das fichas aqui apresentadas envolveu o resgaste de documentos como este, que guardam importantes reflexões e merecem ser revisitados para (re)elaborar pensamentos críticos compartilhados.


CIDADE, IMAGEM, ARQUIVO (+EXPOSIÇÃO ZUMVI ACERVO AFROFOTOGRÁFICO)

EXPERIÊNCIA 5

2021-2022

O que foi e em qual contexto buscou incidir? O projeto “Cidade, imagem, arquivo: práticas urbanas em fotografias soteropolitanas”, aprovado no Edital PIBIC de 2021, propõe pesquisar arquivos fotográficos de Salvador na segunda metade do século XX que registram práticas urbanas no ambiente da cidade. Dessa forma, busca-se explorar a história da cidade e suas práticas de constituição dos sujeitos, especialmente nas décadas de 1970 a 1990, por meio de narrativas visuais. Atualmente os arquivos escolhidos para a pesquisa são os acervos fotográficos do Arlete Soares [correspondente ao plano de trabalho da minha pesquisa no âmbito da bolsa PIBIC] e do ZUMVI Arquivo Fotográfico [plano de trabalho da estudante Deise Lima no âmbito da bolsa FABESP]. O foco da investigação é a busca pelo registro de práticas urbanas que nos permitam acessar outras historiografias da cidade de Salvador, especialmente aquelas que extrapolam as narrativas de registros e documentos oficiais, revelando as vivências do espaço urbano e sua ocupação pelas pessoas.

A EXPOSIÇÃO Dentre as atividades do projeto, além da pesquisa e auxílio nas ações de preservação dos Acervos, houve uma colaboração na inauguração do novo espaço expositivo do Zumvi. Conduzida por Deise Lima, estudante bolsista, a construção coletiva de um projeto expográfico para a nova galeria envolveu diálogos para a curadoria de imagens, e o exercício da prática projetual de organização das obras no espaço.

Foto:Artigos a venda na galera do ZUM


MVI.

Foto: Lázaro Roberto, fundador do Zumvi, na abertura da galeria.

“Trabalhar na expografia da galeria do Zumvi ampliou os meus horizontes para o fazer arquitetônico. Pude colocar em prática atividades mais comuns de projeto como levantamento cadastral e modelo 3D do espaço físico, como pude também contribuir na elaboração de todo o conceito da galeria. (...) Hoje a galeria, com maior visibilidade, pois localizada numa área de grande circulação de baianos e turistas, na Ladeira do Carmo, Pelourinho, funciona como um espaço de exposição permanente do arquivo, bem como uma loja das próprias fotografias e artigos relacionados. (...) Identificamos também essa localização como um ato de resistência continuado, pois traz para o centro da cidade o registro imagético elaborado por lentes de fotógrafos negros, sobre pessoas negras. O arquivo se desloca da Fazenda Grande do Retiro, periferia de Salvador, para o Centro antigo da Cidade, com isso novas pessoas estão tendo acesso às imagens e compreendendo sua importância, quanto há também a manutenção do Arquivo que também necessita de recursos financeiros para a sua existência.” Deise Lima, bolsista no Cidade, Imagem, Arquivo, em relatório parcial da pesquisa FABESP.

3. Costurando trajetória | 119



“ (...) eu sempre estive aí, mas nunca estive, nunca fui chamado. (...). Quando você é um fotógrafo … que você fotografa o racismo, não é bem visto no cenário… “Lá vem o chato que vai falar sobre o racismo…”. Acredito que não necessariamente a figura negra tem que aparecer sorrindo, sambando, sempre mostrando a sensualidade dos corpos, então essa fotografia que os brancos fazem muito, que eles tem os canais de vender mais fácil, eu enxergo isso. (...) eu sempre estive preocupado com a questão mesmo de mostrar a caminhada, da luta, como essas pessoas vivem, onde vivem, as manifestações, a cultura, e é isso que o Zumvi vem mostrando. (…) Não que eu não fotografe a capoeira, mas com outra visão. Outro ângulo…” Lázaro Roberto, em entrevista concedida a Deise Lima

APRENDIZADOS, POSSIBILIDADES, DESDOBRAMENTOS - Realizar coletivamente um projeto expográfico para uma galeria dentro de uma pesquisa significou pôr em prática ferramentas e habilidades que detínhamos − enquanto estudantes de Arquitetura − porém que nunca havíamos mobilizado no âmbito da pesquisa. Esse fazer integrado mostrouse um rico exercício formativo, como apontou Deise, e despertou um desejo de continuidade desta prática, inaugurando possíveis caminhos futuros para nós, enquanto arquitetas urbanistas pesquisadoras da imagem. - O posicionamento do ZUMVI, tal como expresso na fala de Lázaro, reforça a importância de expandir as narrativas sobre a cidade de Salvador e sobre o povo negro,tema central na pesquisa Cidade, Imagem, Arquivo, e mobilizado também no presente TFG. Ações de fomento, valorização e visibilização do trabalho do Acervo são importantes, porém necessitam acontecer de forma contínua e integrada com projetos de maior porte, para então, poderem atuar no sentido de uma reparação histórica necessária.

3. Costurando trajetória | 121


PLATAFORMA PIPOCO: UM OUTRO MAPA DE SALVADOR

EXPERIÊNCIA 6

2020-...

Quem fez acontecer? Grupo de Pesquisa Lugar Comum, Ministério Público do Estado da Bahia, Promotoria de Justiça de Habitação e Urbanismo, Articulação do Centro Antigo, Coletivo TRAMA. O que foi e em qual contexto buscou incidir? Pipoco é uma plataforma que compartilha um conjunto de mapeamentos, informações e conhecimentos sobre conflitos urbanos que aconteceram de 2013 a 2020 em territórios de Salvador. Foram mapeados quatro territórios afetados − de fato ou potencialmente − por grandes intervenções urbanas de parcerias público privada (PPP), quais sejam: o Centro Antigo, o Subúrbio Ferroviário, a Paralela e a BR 324. Quais foram as formas de fazer junto? - Identificação, sistematização e elaboração de informações e conhecimentos a partir das amostras de conflitos dos territórios trabalhados na pesquisa; - Incorporação de informações enviadas por usuária(o)s da plataforma interativa: parceira(o)s, moradora(e)s e membros de associações, coletivos e movimentos urbanos atuantes nos territórios; - Reuniões coletivas para criação da identidade visual lúdica, buscando articulações multilinguagens [texto, imagem, audiovisual, gif, ilustrações, infográficos, mapas] e customização da plataforma, visando ampliar o acesso e uma melhor comunicação com o público usuário.

Abaixo: Oficina de cartografia coletiva


Abaixo: Oficina de cartografia coletiva

AINDA SOBRE O PROJETO... A plataforma Pipoco foi lançada e está no ar, com rico conteúdo disponível. A partir do recebimento de feedbacks dos usuários, diversos aprimoramentos foram sendo implementados, transformando e adicionando novas camadas ao website. Uma importante mudança foi a criação da seção “Pipocando” que trata sobre conflitos ativos. Dessa forma, além de conter o registro e a memória de eventos passados, objetiva-se que a plataforma possa também repercutir problemáticas e lutas recentes ou ainda em curso. O projeto foi renovado no edital de apoio financeiro do Ministério Público e encontra-se atualmente em fase de pré lançamento de novos mapeamentos, entre outros desdobramentos.

“Os conflitos urbanos são aqui entendidos como divergências ligadas a diferentes dimensões da vida comum, envolvendo diferentes pessoas, grupos, associações, coletivos e movimentos urbanos, agentes públicos e privados, que mobilizam distintas lógicas, modos de vida e fazeres da cidade. Os conflitos dizem respeito a confrontações diretas, mas também a cooperações e solidariedades que reagem às desigualdades sociais.” texto contido na apresentação da Plataforma, equipe Pipoco 3. Costurando trajetória | 123


DIFICULDADES, APRENDIZADOS, CONTINUIDADES - Um dos maiores desafios do Pipoco é fazer com que a plataforma seja usada e apropriada por um circuito que ultrapasse os limites da academia. De fato, Pipoco atualmente ainda funciona mais como uma fonte de pesquisa para interessados no tema de estudos urbanos, do que como instrumento de mobilização e de luta útil a movimentos sociais e coletivos. Atravessado pela pandemia, o projeto não conseguiu viabilizar atividades previstas (construção de cartografias coletivas, registro de conflitos através de entrevistas e afins) capazes de levar a plataforma presencialmente aos territórios para amplificar seus usos, buscando inclusive construir formas de combater a exclusão digital. Atualmente, essa dimensão ainda se encontra “por fazer”, tendo já sido iniciado um movimento de encontros/ oficinas com membros da Articulação do Centro Antigo, a fim de construir estratégias e maneiras de realizá-la. - A visibilização de conflitos é um tema delicado, uma vez que as informações disponíveis podem ser cooptadas por agentes que tenham como intuito a criminalização de movimentos sociais. Após sermos alertados desse risco, optou-se por ocultar nomes de pessoas físicas de integrantes dos movimentos, preservando identidades e partilhando apenas os nomes e siglas dos movimentos. - A seção “Pipocando” aporta o desafio de atualização de conflitos em tempo real, um trabalho continuado que exige uma dedicação de carga horária maior do que os recursos disponíveis de remuneração disponíveis no projeto.

124 | Experimentos metodólogicos insurgentes na prática de Arq. e Urb.


3. Costurando trajetória | 125


APROFUNDAMENTO Findadas as experiências gerais, passamos ao recorte de aprofundamento. Antes de entrar propriamente na descrição, caracterização e análise das 5 experiências do TRAMA, três gestos de apreensão do material foram realizados. Através da elaboração de textos que continham a descrição sucinta sobre as experiências eleitas, uma nuvem de palavras1 foi criada enquanto primeiro gesto de síntese (Figura 5).

Figura 5: Nuvem de palavras 1 “Nuvem de palavras” é um recurso que consiste em uma síntese gráfico-textual. Através de uma hierarquia visual, palavras-chaves derivadas de um texto-base são dispostas em um formato nebuloso. O tamanho das palavras é proporcional a frequência com que elas se repetem no texto. Dessa forma, nuvens de palavras podem ser usadas para obter insights imediatos sobre os termos mais importantes em um determinado conjunto de dados. 126 | Experimentos metodólogicos insurgentes na prática de Arq. e Urb.


A partir desta nuvem, algumas observações mostraram-se relevantes: 1.

“A Comunicação” possui um destaque considerável (aparecendo maior do que “Arquitetura” e “Urbanismo”, inclusive), o que revela como a atuação nesse campo tem sido expressiva.

2. O protagonismo das palavras “Salvador” e “Território” são gritantes na nuvem. Talvez, de fato, a cidade da qual falo seja o maior denominador comum de todas as experiências. Aqui cabe a definição do conceito de território, tal como proposto por Milton Santos (2005, pág x): “o território são formas, mas o território usado são objetos e ações, sinônimo de espaço humano, espaço habitado”, ou ainda “o território, hoje, pode ser formado de lugares contíguos e de lugares em rede” Neste conceito, território se apresenta enquanto um aglutinador de experiências. Isto porque, de fato, falo do espaço geográfico da cidade e dos seus bairros, considerando que estes devem ser lidos através de pessoas que o habitam e o praticam, pelas suas identidades, e também, por sua capacidade de articulação em rede, partilhando lutas, estratégias de sobrevivência, e gestos de cuidado. Nesse sentido, perceber a força que esses termos tiveram me conduziu ao segundo gesto: cartografar experiências. Estas são re-apresentadas nas próximas figuras (Figura 6 e 6.1).

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TRAMA DE EXPERIÊNCIAS Escola de Verão

Faculdade de Arquitetura, Acervo da Laje, Rua Voluntários da Pátria

SUBÚRB FERROVIÁ

Xô Corona

Faculdade de Arquitetura, Acervo da Laje, Rua Voluntários da Pátria e Santa Luzia, Centro Cultural que Ladeira é essa, Solar do Unhão, Gamboa de Baixo, Comunidade Baixa das Pedreiras, (Santa Luzia), Quilombo Vista Alegre (Paripe), AMACH

Ato Cortejo Virtual 2020/2021

Ladeira da Conceição da Praia, Gamboa de Baixo, Centro Cultural Que Ladeira é Essa?, 2 de Julho, Vila Coração de Maria

Campanha Tororó Resiste

Rua Monsenhor Rubens Mesquita

Podcast Elas Fazem Cidade

Valéria, São Dâmaso (AMACH), Gamboa, Ladeira da Preguiça (Centro Cultural Que Ladeira é Essa?), Itapuã, Subúrbio (Acervo da Laje)

Regiões de atuação

CENTRO ANTIGO

Baía de Todos os Santos

CENTRO HISTÓRICO

Faculdade de Arquitetura


BIO ÁRIO

VALÉRIA

ITAPUÃ

Oceano Atlântico

N 0km 1km

5km

FIGURA 6: CARTOGRAFANDO EXPERIÊNCIAS - SALVADOR


TRAMA DE EXPERIÊNCIAS Escola de Verão

Faculdade de Arquitetura, Acervo da Laje, Rua Voluntários da Pátria

SUBÚRB FERROVIÁ

Xô Corona

Faculdade de Arquitetura, Acervo da Laje, Rua Voluntários da Pátria e Santa Luzia, Centro Cultural que Ladeira é essa, Solar do Unhão, Gamboa de Baixo, Comunidade Baixa das Pedreiras, (Santa Luzia), Quilombo Vista Alegre (Paripe), AMACH

Ato Cortejo Virtual 2020/2021

Ladeira da Conceição da Praia, Gamboa de Baixo, Centro Cultural Que Ladeira é Essa?, 2 de Julho, Vila Coração de Maria

Campanha Tororó Resiste

Rua Monsenhor Rubens Mesquita

Podcast Elas Fazem Cidade

Rua Voluntários da Pátria

Valéria, São Dâmaso (AMACH), Gamboa, Ladeira da Preguiça (Centro Cultural Que Ladeira é Essa?), Itapuã, Subúrbio (Acervo da Laje)

CENTRO ANTIGO

TORORÓ

Faculdade de Arquitetura


BIO ÁRIO

VALÉRIA

ITAPUÃ

N 0km 1km

5km

FIGURA 6.1: CARTOGRAFANDO EXPERIÊNCIAS - SALVADOR REDES DE COLABORAÇÃO


Ao localizar geograficamente as experiências na cidade de Salvador, o mapa destaca: - A concentração de eventos na região do Centro Histórico e do Centro Antigo de Salvador, o que revela como essa área tem sido um foco de tensões urbanas. Ao mesmo tempo, territórios outros como Subúrbio e Cajazeiras têm pouca publicização dos seus conflitos e questões, o que parece evidenciar um regime de (in)visibilidade que enfatiza o centro em detrimento de outros territórios e lugares. Dessa maneira precisamos pensar e interrogar esses sentidos, cabendo uma autocrítica ou uma convocação a uma atuação colaborativa também mais descentralizada. - Não apenas lendo essas experiências pela lógica da disputa e das situações de conflito, os movimentos do Centro e suas relações com a Universidade e outras instituições se articulam também através de espaços de colaboração, visto que estas situações, que estão emaranhadas em violências e violações, disparam também práticas de fortalecimento comunitário, das redes de cuidado coletivo e solidariedade. - No recorte aqui mostrado, vê-se uma repetição de territórios/movimentos: parceiros consolidados como Acervo, Articulação [Gamboa, AMACH] − que estiverem presentes no Fazeres, Xô Corona, Pipoco, Podcast Elas Fazem, dentre outros específicos − demonstram como uma rede de colaboração vem se formando. Territórios com parcerias mais recentes também se delinearam, como Valéria e Itapuã, através do Podcast Elas Fazem, o que mostra novas possibilidades, e revela a necessidade de expandir colaborações para além do Centro Histórico. .

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O terceiro e último gesto de síntese foi a elaboração de uma cronologia das 5 experiências (Figura 7). Os anos de 2020, 2021 e 2022 aparecem como eixos orientadores. Uma mancha gráfica colorida, referente à experiência, indica não apenas o período de realização, mas também abarca acontecimentos prévios e desdobramentos que se relacionam a ela. A escolha por um traçado instável, com altos e baixos, simboliza a natureza incerta e descontínua dos eventos. Em eventos como a Escola de Verão e o Tororó, o acontecimento pontual dos projetos (encontros da Escola e Campanha Tororó Resiste) se relacionam com uma série de outros acontecimentos que se desdobram a partir e além do projeto. Já no Xô Corona e no Ato Cortejo, há uma delimitação maior das ações, sendo possível esboçar um começo, meio e fim, ainda que também identifiquemos reverberações que seguem ressoando após o encerramento. Ademais, na cronologia, acontecimentos históricos do cenário local e nacional que se relacionam com as experiências também são pontuados, buscando situar a conjuntura sociopolítica dentro da qual os projetos são desenvolvidos. Outro ponto que merece ser mencionado, e que fica evidente na cronologia, é a sobreposição entre os projetos. Atuar no TRAMA significou, desde seu início, conciliar a dedicação a diversos eventos (e suas urgências) que se acumulam. Essa dinâmica condicionou um ritmo de atividades intenso, impossibilitando momentos de pausa e exercícios reflexivos sobre o trabalho que vínhamos desenvolvendo. O desenvolvimento deste TFG é também uma tentativa de responder a essa necessidade.

3. Costurando trajetória | 133


2020 Pandemia da COVID-19 26.02

Desativa do tre

15.02.2

Escola de Verão I

Desapropriações

Estudos técnicos são cobrados através d e petição do MP 26.01.2021

Escola de Verão Liberação do recurso do projeto Ações Xô Corona

Finalização

Campanha Xô Corona

Ato Cortejo Virtual

Ato Cortejo Virtual 02.07. 2020

Mostra au deba 07.2

Dem

06

Tororó Resiste

Elas Fazem Cidade

Figura 7: Cronologia de experiências


2022

2021 PL Sancionada Despejo Zero aprovada Lei Aldir Blanc 14.07 29.06

Bolsonaro veta Aldir Blanc 2 05.05

ação em

2022

23.02.2021

II Audiência Pública da Câmara 09.03.2021

Frente Parlamentar Ambientalista 09.11.2021

udiovisual, ates... 2021

Ato Cortejo Virtual 02.07. 2021

molições

6.2021

I Audiência Pública da Câmara

Obra do Monotrilho emperra por falta de financiamento 09.2021 Audiência Pública

Ato em proteção 30.07.2021

Campanha Tororó Resiste 08.2021

Prêmio FNA 2021 11.2021

Lançamento do Prêmio Riachão ( Lei Aldir Blanc) 17.09.2021

Audiência Pública MP 10.06.2021

Gravação do Divulgação Resultado podcast 04.2022 do edital 20 e 21 .02.2022 04.11.2021

Escola de Verão II


APROFUNDAMENTO LEITURA DAS FICHAS Assim como nas fichas apresentadas anteriormente, as seguintes categorias que caracterizam o projeto compõem uma estrutura mutável de análise. Nesse sentido, as fichas se organizam em:

CAPA: Nome do projeto/evento/ação, ano de realização e ano em que estive envolvida, localização no mapa de Salvador. Ademais, há também uma colagem, além de uma constelação de palavras que mostram termos, conceitos e palavras-chaves que a experiência mobiliza.

DESCRIÇÃO Aqui, novamente, três perguntas são realizadas a fim de descrever a experiência: nomeando os agentes envolvidos (Quem fez acontecer?), relatando brevemente o contexto (O que foi e em que contexto buscou incidir?), e dando pistas sobre as metodologias aplicadas (Quais foram os modos de fazer junto?) articuladas no projeto/evento/ação

PRÁTICAS E RESULTANTES “Práticas e resultantes” segue sendo uma categoria que varia de acordo com cada experiência, abordando ações, atividades, e processos, de diferentes naturezas.

136 | Experimentos metodólogicos insurgentes na prática de Arq. e Urb.


DESAFIOS, LIMITES, APRENDIZADOSEssa segue sendo uma categoria variável, que assume diferentes títulos dependendo da experiência. Um espaço de reflexão é proposto. Apontam-se aprendizados, desfechos, sucessos e insucessos, e demais dimensões suscitadas a partir de um olhar crítico a posteri.

ABERTURAS Nesse tópico, são apontados desfechos e continuidades que experiência permite vislumbrar, através de uma perspectiva crítica e imaginativa, reverberações das ações propostas. As “pontas soltas” da trama são expostas, indicando realizações e horizonte de atuação.

VOZES As vozes seguem aparecendo, no papel fundamental de amarrar reflexões, trazendo densidade para argumentos e visões críticas apresentadas.

IMAGENS Fragmentos visuais diversos articulam texto e imagem. Colagens, fotografias e peças gráficas são mobilizadas também como lugar de pensamento, compondo as análises propostas.

3. Costurando trajetória | 137


EXPERIÊNCIA 7

INTER-MULTI-TRAN

DISPUTA DE NARRATIVA

ESCOLA DE VERÃO MONOTRILHO EM DISPUTA:

FAZER

PESQUISA IM

Articulando comunicação comunitária e avaliação de políticas urbanas 2020-... *parte das reflexões dessa experiência foram alimentadas pela elaboração coletiva do artigo: “Escola de Verão Monotrilho em disputa: articulando comunicação comunitária e avaliação de políticas urbanas em Salvador/BA/ Brasil. Limites, desafios e potências de uma aposta ético-político-epistêmica em torno das colaborações urbanas”, publicado em xx, no qual contribuo como uma das co-autoras. 138 | Experimentos metodólogicos insurgentes na prática de Arq. e Urb.


ACESSO À INFORMAÇÃO

URGÊNCIA TERRITORIALIDADE

NSDISCIPLINARIDADE

ARTIVISMO MOBILIDADE URBANA

CIDADE

ORALIDADE

MULTILINGUAGEM

MPLICADA

ESCUTA MEMÓRIA

ENCONTRO

COMUNICAÇÃO

CULTURA

DIVERGÊNCIA

COLABORAÇÃO

DESAPROPRIAÇÕES

3. Costurando trajetória | 139


Quem fez acontecer? Diversas coletividades se articularam na construção da Escola de Verão: o Acervo da Laje; a Associação dos Moradores da Rua Voluntários da Pátria e Santa Luzia; o Projeto Verde Trem, no âmbito da Sociedade Nacional Movimento Trem de Ferro; moradoras e moradores do Subúrbio Ferroviário, incluindo pescadoras/es e marisqueiras do Porto da Sardinha, a comunidade da Escola Municipal Santa Luzia do Lobato e o grupo de mulheres do fuxico, do bairro de Plataforma; o Coletivo Trama; o grupo de pesquisa Lugar Comum, o grupo de estudos Urbanidades Liminares (recém renomeado como Margear) e o grupo de pesquisa EtniCidades, estes dois últimos, da Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal da Bahia (FAUFBA); o grupo de pesquisa Colapso, do Instituto de Geociências da UFBA (IGEO); e outras/os colaboradoras/es, tendo contado com o apoio da Promotoria de Habitação e Urbanismo do Ministério Público do Estado da Bahia (MP/BA).

Foto: Trocas na Escola de Verão.

O que foi e em qual contexto buscou incidir? A escola de verão se colocou como um espaço de FORM.AÇÃO, articulando Comunicação Comunitária e Avaliação de Políticas Urbanas nas controvérsias e conflitos em torno da intervenção do Monotrilho, um modal de transporte proposto em substituição ao Trem do Subúrbio Ferroviário de Salvador, pelo Governo do Estado da Bahia, em uma Parceria Público Privada com a Metrogreen Skyrail Bahia. Diante do contexto de falta de transparência sobre essa intervenção, buscou-se ampliar a publicização dos seus conflitos. Elaborou-se uma crítica aos modos autoritários que caracterizaram a conduta do projeto (falta de diálogo com as comunidades, desapropriação de moradores, insuficiência de estudos de impacto do projeto, para citar alguns), além dos desdobramentos que implica, ameaças e violações aos modos de vida do Subúrbio Ferroviário (a exemplo da retirada do trem e aumento da tarifa do transporte). 140 | Experimentos metodólogicos insurgentes na prática de Arq. e Urb.


A gente aqui do Porto fica se perguntando: vai melhorar? O que sai e o que fica? Pra onde vai? E onde ficam os barcos? Em Fazenda Grande 3? Vai tirar a gente do nosso habitat natural de ganho. Quais são as garantias para comerciantes e pescadores? Depoimento de pescador do Porto da Sardinha em Plataforma, durante a Escola de Verão. “Não tem resposta, não tem quem nos pergunte nada, e não tem a quem perguntar. A desinformação é uma grande falta de respeito. A invisibilização é constante. Chegaram, mediram sua casa, falaram que ali seria uma estação, e nada mais.” Depoimento de trabalhadora e moradora de Plataforma, durante a Escola de Verão. Preservar o trem é valorizar a nossa cultura, memória e relações. A ferrovia é o coração da região. Coração que faz pulsar. Gilson, membro do Projeto Verde Trem e da Sociedade Nacional Movimento Trem de Ferro.

Imagem: Fotomontagem representando a Escola de Verão

3. Costurando trajetória | 141


Quais foram as formas de fazer junto? A “forma de fazer” que conduziu toda a atividade foi a aposta no encontro, na ativação de espaços formativos, colaborativos, práticos e políticos, transitando entre a universidade e territórios negros do Subúrbio Ferroviário de Salvador e construindo oportunidades de trocas e construções partilhadas entre estes e seus diferentes sujeitos.

ATIVIDADES REALIZADAS - A Escola de Verão transcorreu durante 6 dias de atividade. Nos três primeiros dias foram exibidos de curta-metragens sobre o território do Subúrbio, e realizadas duas rodas de diálogo e três oficinas. - As rodas de diálogo centraram-se especialmente em torno da apresentação do projeto do Monotrilho, “decifrando” sua proposta, buscando debater e superar as limitações impostas pela linguagem tecnocrática que dificulta o entendimento dos moradores e moradoras. - Nas oficinas, foram mapeadas coletivamente questões prioritárias, nas perspectivas da/os moradora/es presentes, frente à intervenção do Monotrilho — que variaram de acordo com os seus distintos posicionamentos e inserções territoriais. Foram identificadas, ainda, as diferentes ferramentas de comunicação e linguagem mobilizadas, incluindo aquelas mais utilizadas pelas comunidades locais. Cabe destacar o papel central que a comunicação comunitária assumiu nessa atividade, sendo mobilizada como instrumento de disseminação de informações e mobilização social local. - Nos três dias finais, após todas discussões, passou-se à elaboração de materiais de comunicação multilinguagens que alimentaram instrumentos de comunicação comunitária utilizados pela/os moradora/es, como jornalzinho, cartazes, lambe-lambe, vídeos, colagens. Combatendo a desinformação, mensagens denominadas de “true news” (uma crítica às “fakenews”), com informações embasadas e acessíveis, foram disparadas pelo WhatsApp, meio de comunicação mais usado entre os moradores. Outros produtos foram a construção de uma página no instagram— @aitremcoisa —, como canal de divulgação e denúncia, e de um dossiê coletivo comunitário que foi encaminhado ao Ministério Público da Bahia. Importante salientar a diversidade desses “produtos”, abarcando materiais de caráter mais técnico, como o dossiê, até produções que se situam no campo do sensível artístico, a exemplo das colagens feitas coletivamente. 142 | Experimentos metodólogicos insurgentes na prática de Arq. e Urb.


DESAFIOS, LIMITES, APRENDIZADOS - Um dos desafios desse processo foi a tentativa de alcançar um equilíbrio entre o estabelecimento de um planejamento mínimo — necessário para a organização de qualquer evento — e a abertura para processos que iam surgindo no decorrer da atividade, buscando jogar com os acasos, as dinâmicas comunitárias e demais imprevisibilidades. Nesse sentido, mobilizamos o que chamamos de metodologia “jogo de cintura”.

“A partir das interações, das trocas e afetações que foram surgindo ao longo das atividades, o esquema metodológico provisório inicial foi sendo transformado, de forma relacional e dinâmica. As atividades formativas foram metodologicamente se moldando e sendo moldadas pelas participações e envolvimentos da/os participantes por meio do diálogo, mas também de uma escuta ativa. A preponderância das falas acadêmicas foi assim tensionada, com uma articulação e partilha de conhecimentos plurais, orientando as decisões e possibilidades sobre o que, como e com quem fazer.” Trecho do artigo: “Escola de Verão Monotrilho em disputa: articulando comunicação comunitária e avaliação de políticas urbanas em Salvador/BA/Brasil. Limites, desafios e potências de uma aposta ético-político-epistêmica em torno das colaborações urbanas”

Imagem: Jornalzinho elaborado a partir das oficinas


- A emergência da pandemia da COVID-19, um mês após a realização da Escola, dificultou e interrompeu alguns desdobramentos em curso que estavam definidos coletivamente para acontecerem nos meses seguintes. Ações de divulgação de materiais impressos no território, como a distribuição do jornalzinho e colagem de lambe-lambes não puderam ser efetivadas. Ademais, com o agravamento das desigualdades geradas pela crise da pandemia da COVID-19, as dinâmicas de trabalho e da vida cotidiana de moradoras/es do Subúrbio foram ainda mais precarizadas, impactando as já difíceis condições de mobilização e engajamento das coletividades de moradoras/es do território. -O local de produção dos materiais multilinguagens foi a Faculdade de Arquitetura (no bairro da Federação), utilizando-se a infraestrutura pública de wifi, acesso a equipamentos, entre outros recursos que este espaço dispõe. Diferentemente das atividades ocorridas no Subúrbio, a presença de moradores/as nesse momento foi mais reduzida, o que repercutiu também em uma menor incidência na produção mais direta das peças gráficas e materialidades dos dispositivos comunicacionais. Aqui, vale refletir sobre a ideia de que “todos/as devem participar de tudo” enquanto premissa para efetivação de ações “verdadeiramente coletivas”. Dada as circunstâncias de um projeto que se estendeu por 6 (seis) dias, avalia-se que a disponibilidade dos moradores/as em interromperem seus ritmos de trabalho e demandas diárias para se fazerem presentes em todos os momentos era algo impraticável.

Foto: Intervenção na abertura da Escola de Verão

Foto: Oficina de comunicação comunitária

144 | Experimentos metodólogicos insurgentes na prática de Arq. e Urb.


- Ainda que, ao final, a produção dos materiais gráficos e audiovisuais tenha sido realizada principalmente pelas/os estudantes e professoras/es universitárias/os envolvidas/os, as questões enunciadas nos momentos de maior audiência foram orientadoras desse processo (FIGUEIREDO et al. ANO). Todas as produções tiveram como ponto de partida os conteúdos discutidos nos três primeiros dias da atividade, o que pôde ser absorvido pelo exercício de uma escuta sensível, ativa, engajada. - Um dos objetivos da Escola de Verão era a articulação com mídias pretas dos territórios, já atuantes em instâncias e presentes nas ações de comunicação nos bairros do Subúrbio. Dado os poucos dias de evento, não foi possível se aproximar desses outros movimentos. Afinal, uma efetiva articulação não implica apenas uma simples interlocução, mas sim, uma articulação política, o que requer tempo. - A continuidade da alimentação da página do instagram @aitremcoisa não se concretizou. Durante a Escola de Verão, a divulgação dos materiais produzidos ocorreu de forma expressiva. Ainda que reconheçamos a importância da memória e dos registros ali contidos, constatou-se a dificuldade em se sustentar um trabalho contínuo de comunicação (produção de peças gráficas, escrita de legendas, dinâmicas de postagem), que não foi efetivamente apropriado por nenhum dos grupos envolvidos no período da atividade. No entanto, o grupo de WhatsApp, criado neste período, seguiu sendo um espaço de articulação, divulgação de ações e continuidade de interlocuções.


“Aqui trem de tudo: Trem famílias negras, Trem pescadores, Trem marisqueiras, Trem até doutores. Trem pluralidade. Trem ar fresco E liberdade. Trem liga o Subúrbio à cidade” Versos escritos pelo rapper Mano Xandão, morador do Subúrbio e participante da Escola de Verão

ABERTURAS - Uma importante reflexão derivada dessa experiência foi a constatação da “ciclicidade entre mobilizações políticas nos territórios populares, conjugada com os movimentos da urgência”. Findada a Escola de Verão, uma série de desdobramentos tiveram início. Destacamos a realização de reuniões entre as coletividades ativadoras da Escola de Verão para realização de uma avaliação conjunta e identificação de possíveis ações coletivas subsequentes; a realização de reuniões junto ao Ministério Público, bem como a participação em audiências públicas; a participação em mesas redondas e outros espaços de debate público sobre a experiência da escola e os enfrentamentos à intervenção do Monotrilho.

“A composição da Escola de Verão por atividades diversas, sobrepostas e de modo revezado entre universidade e territórios — ao invés de segmentadas e sequenciais, como se estruturam a própria universidade e a ciência moderna —, nos informam sobre um modo de articular capacidades coletivas a partir de um engajamento com formas criativas e implicadas de interrupção das violências e ameaças que a intervenção do Monotrilho dirige aos territórios do Subúrbio Ferroviário.” Trecho do artigo: “Escola de Verão Monotrilho em disputa: articulando comunicação comunitária e avaliação de políticas urbanas em Salvador/BA/Brasil. Limites, desafios e potências de uma aposta ético-político-epistêmica em torno das colaborações urbanas” 146 | Experimentos metodólogicos insurgentes na prática de Arq. e Urb.


- Atualmente, encontra-se em andamento a realização de ações que configuram uma segunda edição atividade Escola de Verão, que continua a colaboração iniciada, buscando reativar e ampliar as redes entre coletividades e moradoras/es do Subúrbio Ferroviário de Salvador, atualizando as demandas e propondo novos contornos para o projeto.

Foto: Encontros preparatórios para Escola de Verão II.

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EXPERIÊNCIA 8

COMUNICA COLABORAÇÃO

MULTILINGUAGEM

CAMPANHA XÔ CORONA

ORALIDADE

2020 *parte das reflexões dessa experiência foram alimentadas pela elaboração coletiva de um relatório de atividades, no qual contribuo como uma das coautoras, enviado para as instituições que viabilizaram apoio financeiro ao projeto (CESE e Fundo Socioambiental Casa). 148 | Experimentos metodólogicos insurgentes na prática de Arq. e Urb.


AÇÃO

ESTRATÉGIA ACESSO À INFORMAÇÃO ONLINE/OFFLINE

URGÊNCIA FAZER CIDADE

INTER-MULTI-TRANSDISCIPLINARIDADE

ESCUTA

MOBILIZAÇÃO

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Quem fez acontecer? Uma série de coletivos se uniram para tornar o projeto possível: Acervo da Laje, Associação de Moradores da rua Voluntários da Pátria e Santa Luzia, Grupo de mulheres GINGA, Associação de Moradores e Amigos do Centro Histórico, Centro Cultural que Ladeira é essa?, Articulação do Centro Antigo, Associação dos Moradores da comunidade Solar do Unhão, Associação Amigos do Gegê dos moradores da Gamboa de Baixo, Mobiliza RAU+E (Ação coletiva promovida no âmbito da Especialização em Assistência Técnica, Habitação e Direito à Cidade), CEAS (Centro de Estudos e Ação Social), TEIA casa de criação e TRAMA. O projeto recebeu apoio financeiro da CESE (Coordenadoria Ecumênica de Serviços) e do Fundo SocioAmbiental Casa, potencializando os recursos para viabilização das atividades. O que foi e em qual contexto buscou incidir? Com a pandemia da COVID-19, territórios negros de Salvador enfrentaram o agravamento de situações de vulnerabilidade social, especialmente pela amplificação do isolamento social já existente na dinâmica urbana da cidade, que afetou fortemente o trabalho informal, fonte de renda de parte significativa de residentes destes territórios, deixando muitas famílias sem condições de obter o seu sustento. Ademais, dificuldades em conter a disseminação do novo coronavírus se intensificaram devido às condições de precariedade estrutural, historicamente presentes, tais como insalubridade sanitária e o adensamento habitacional. Somado a isso, a falta de informações confiáveis e acessíveis que auxiliassem na conscientização em relação aos riscos da pandemia e às formas de enfrentamento também eram uma realidade nos territórios. Nesse cenário, as comunidades ainda sofrem os efeitos do questionável processo de elaboração de projetos de regulamentação e urbanização da ZEIS. Nesse sentido, a campanha Xô Corona tentou subsidiar minimamente o que o poder público careceu em fornecer. Quais foram as formas de fazer junto? As limitações da pandemia da COVID-19 impuseram o desafio de desenvolver outras metodologias que respeitassem o distanciamento social e permitissem entender, junto aos moradores, as dificuldades enfrentadas. Foram realizadas reuniões online, diálogo por grupos de WhatsApp entre os envolvidos, e pontualmente, momentos de atividades presenciais nas comunidades. No âmbito da campanha de comunicação, foi elaborado um guia de conversa e, através de ligações com representantes de cada um dos territórios, foram identificadas questões e elementos necessários para o desenvolvimento de uma campanha condizente com as realidades locais. 150 | Experimentos metodólogicos insurgentes na prática de Arq. e Urb.


Foto: Ponto de higiene

Imagem: Card da campanha de comunicação

PRÁTICAS RESULTANTES De forma mais ampla, a organização comunitária foi fortalecida, através do estímulo à atuação de agentes comunitárias/os e voluntárias/os, bem como da troca de conhecimentos entre moradoras/es e assessoras/es. Ademais, as comunidades envolvidas no projeto tiverem oportunidade de trocar e dialogar sobre respectivas estratégias de enfrentamento à pandemia. De

forma

específica,

o

projeto

se

dividiu

em

3

(três)

frentes:

1. Instalação de pontos de higiene, utilizados como base para higienização cotidiana das/os moradoras/es na chegada e saída das comunidades, antes do acesso às moradias, e durante atividades corriqueiras realizadas nos espaços públicos das comunidades, bem como pela população em situação de rua. Os pontos foram construídos pelo grupo Mobiliza RAU+E em parceria com os moradores, sendo sinalizada a transferência de tecnologia acerca da implantação e funcionamento dos pontos, potencializando a manutenção destes na comunidade;

3. Costurando trajetória | 151


2. Distribuição de cestas básicas e material de higiene, realizada por agentes comunitários, contribuindo para a promoção da segurança alimentar, em caráter emergencial, de famílias mais vulneráveis das comunidades. 3. Campanha de comunicação, desenvolvida pelo TRAMA, que buscou aportar informações qualificadas, acessíveis e adequadas à realidade das comunidades, divulgando cuidados e formas de prevenção da contaminação da COVID-19, boas práticas de higiene, medidas simples de adaptação das moradias, e orientações em caso de infecção. A rede de comunicação comunitária já existente nos territórios foi usada para distribuir os conteúdos produzidos [cards para WhatsApp], sendo disparado pelos agentes comunitários de saúde que tinham maior conhecimento e legitimidade como fonte de informação nas comunidades. A estratégia de produção da campanha foi apostar em peças facilmente replicáveis, que chamassem atenção, e pudessem ser rapidamente elaboradas através de ilustrações simples. O uso de linguagem acessível, coloquial, e marcadamente baiana, também foi uma estratégia adotada, buscando aproximar as pessoas do conteúdo que estavam lendo, e estimulando-as para que a peça fosse compartilhada e repassada. Além disso, foi elaborada uma cartilha que buscava aprofundar conteúdos e informações sobre a pandemia, mas abrangendo também outro tema demandado pelos grupos, agentes comunitários de saúde e moradoras/ es, referente a aos surtos por Zika, Dengue e Chikungunya,doenças que ocorrem nas comunidades, de forma simultânea com a pandemia, .

“Foi muito positivo porque terminou envolvendo algumas pessoas da localidade. Morador, vizinho, dono da casa da porta que teve que ceder pra colocação do ponto, onde podia pegar água e onde não podia, e envolveu de uma forma ou de outra os moradores. [..] Tá sendo positivo por vários motivos. As pessoas tão utilizando para higienização das mãos, mais até do que morador esse pessoal que anda muito na rua e transita muito na Gamboa tem utilizado como forma de higienizar; também tem utilizado como sendo um ponto de água que eles podem beber porque muitos deles têm hora que não acha um copo de água pra beber, né? E eu acho que tá sendo positivo porque a Gamboa percebeu que ela também tá sendo vista nesse sentido de que igual às outras comunidades [...]”. Morador da Gamboa, em depoimento sobre o projeto. 152 | Experimentos metodólogicos insurgentes na prática de Arq. e Urb.


“Achei muito boa a campanha de comunicação! A abordagem, a linguagem, a produção gráfica. Acho que poderia ter mais inclusão para pessoas com baixa visão. Texto às vezes muito longo mas as informações já estavam na imagem então não teve problema. Poderia ter mais material impresso, mas funcionou muito bem. É realmente muito difícil trabalhar com comunidade, são muitos contextos diferentes, muito perrengues.” Camila Aragão, da ONG Grupo de Mulheres Ginga, em depoimento sobre o projeto.

Fotos: Cartazes e cartilhas nos territórios

3. Costurando trajetória | 153


APRENDIZADOS, LIMITES “A dimensão dialógica entre lideranças, agentes, estudantes e profissionais, o uso das redes e internet para interação e tomada de decisões, a superação de limites no uso das tecnologias e acesso às atividades virtuais de forma ampliada foram destacadas por todos os/as participantes como capacidades estimuladas pelo projeto, com aprendizados para todos os atores envolvidos, e fortalecendo a organização comunitária, mesmo em um momento tão difícil.” trecho extraído de relatório do projeto, elaborado coletivamente pelos parceiros/as envolvidos/as, enviado para CESE/Fundo CASA.

Um dos maiores aprendizados deste projeto foi a capacidade de articulação e cooperação comunitária, diante de um cenário de crise gerado pandemia da COVID-19. A criação de dinâmicas de mobilização e tomada de decisão coletivas a partir das ferramentas virtuais fortaleceram os grupos envolvidos, permitindo a partilha de estratégias e ampliação de uma rede de solidariedade entre territórios populares e negros de Salvador.

“Todas [ações da campanha de comunicação] integradas funcionaram bem, por atingir públicos diferentes. O público que não tem internet pôde ter contato com os cartazes na rua, e as pessoas próximas que a AMACH tem contato receberam pelas redes virtuais.” Cícero Mello (AMACH), em depoimento sobre o projeto. A articulação da campanha online e offline foi um ponto fundamental na potencialização do impacto das ações. Com os materiais impressos, às lideranças e agentes comunitárias/os somaram-se outras/os mobilizadores locais, que realizaram a colagem dos cartazes nas principais ruas das comunidades, aproveitando o momento para dialogar com moradoras/es sobre os riscos de contaminação e as formas de prevenção. Esses momentos de distribuição da cartilha e colagem dos cartazes se mostraram formas importantes de amplificar o alcance da campanha de comunicação, para além das redes sociais e do formato digital.

154 | Experimentos metodólogicos insurgentes na prática de Arq. e Urb.


Fotos: Cartazes nos territórios

“Seria importante buscar formas de continuação do projeto! Tentar algum contato com o Ministério Público ou Secretaria da Saúde para dar outros desdobramentos ao trabalho. Importante publicar um livro, um dossiê, um artigo, para ter uma síntese. Importante publicizar!”. José Eduardo Ferreira (Acervo da Laje) - Mais uma vez, reforça-se aqui a reflexão sobre a insuficiência de ações pontuais, e a importância de se desenvolverem projetos continuados, com uma incidência mais prolongada nos territórios. Um desafio talvez seja investigar formas de consolidar essa continuidade, mesmo quando urgências como a pandemia da COVID-19 e ameaças como as de expulsão, em uma intervenção como a do Monotrilho, não estão na iminência de acontecer, o que normalmente faz com que as mobilizações arrefeçam. - Para o TRAMA, esta foi a primeira iniciativa em que atuamos como grupo consolidado. Distribuindo de forma orgânica (e não tão organizada) as demandas e funções do projeto, pudemos entender, a partir da prática, as competências e fragilidades da atuação individual e coletiva que estava sendo experimentada. A criação de peças gráficas simples e replicáveis permitiu que integrantes do grupo, que não possuem um amplo domínio em ferramentas de design, pudessem contribuir na execução dos materiais. Os recursos do projeto foram destinados majoritariamente para compra das cestas básicas, impressões, e remuneração de agentes comunitários. O pagamento recebido pelo TRAMA foi simbólico, e como sua divisão entre todos os integrantes reverteria um valor pouco expressivo individualmente, decidiu-se abrir um “caixa TRAMA”, iniciando um processo de organização financeira do grupo.


ABERTURAS - Um importante desdobramento do projeto foi a participação no encontro virtual para intercâmbio entre lideranças de ZEIS costeiras/comunidades tradicionais pesqueiras, realizado e documentado, em parceria com o Ciclo de Debates RAU+E/UFBA “Ampliando Campos de Atuação: ideias e práticas contemporâneas em assistência e assessoria técnica no Brasil. A atividade envolveu lideranças de Zeis Costeiras do Nordeste e assessores populares dos campos do Direito e de Arquitetura e Urbanismo atuantes junto às mesmas. Advindas de contextos socioambientais relativamente similares, as comunidades usaram este espaço de articulação política para potencializar mobilizações conjuntas de enfrentamento comunitário aos impactos da pandemia. Assessorias populares atuantes nestes territórios também puderam partilhar experiências e estratégias comuns. O fato de ter sido inserido na programação do Ciclo de Debates RAU+E/ UFBA proporcionou ampla visibilidade ao encontro virtual, publicizando suas lutas.

Imagem: Card de divulgação do evento

156 | Experimentos metodólogicos insurgentes na prática de Arq. e Urb.


3. Costurando trajetória | 157


EXPERIÊNCIA 9

L

MANI.FEST.A

DISPUTA DE NA

ATO CORTEJO VIRTUAL 2020/2021 158 | Experimentos metodólogicos insurgentes na prática de Arq. e Urb.


MANI.FEST.A.ÇÃO

LUTA COLETIVA

A.ÇÃO

ESCUTA

ARTIVISMO

MULTILINGUAGEM

ORALIDADE

ARRATIVA FAZER CIDADE

INTER-MULTI-TRANSDISCIPLINARIDADE

MEMÓRIA PROTESTO

ARTICULAÇÃO

ESTRATÉGIA 3. Costurando trajetória | 159


Quem fez acontecer? Articulação dos Movimentos e Comunidades do Centro Antigo de Salvador, composta por: Artífices da Ladeira da Conceição da Praia, Associação Amigos de Gegê dos Moradores da Gamboa de Baixo, Centro Cultural Que Ladeira é Essa?, Movimento Nosso Bairro é 2 de Julho, Movimento dos Sem Teto da Bahia [MSTB], Coletivo Vila Coração de Maria. Ademais, contou com outros grupos parceiros, tais como Cine Janela, Projetemos, CESE, TRAMA e os colaboradores Caetano Britto, Andrea Martins. O que foi e em qual contexto buscou incidir? A região do Centro Antigo de Salvador vem sofrendo impactos de velhas e novas tiranias. Escavadeiras que promovem expulsões, remoções, desapropriações e demolições. Leis e projetos de revitalização feitos para priorizar o mercado hoteleiro e imobiliário, sem participação popular, junto à violência policial, à criminalização dos moradores e à falta de regulamentação dos territórios. Apesar de sofrerem sistematicamente com as expulsões no Centro, os movimentos seguem propondo soluções, mas não são ouvidos pelo poder público. Vozes e histórias continuam a ser silenciadas, diante de um processo veloz de elitização do Centro Antigo, seja pela relação perversa entre poder público e mercado imobiliário, construindo um modelo privatista de cidade. Entre as comemorações do 2 de Julho, dia da Independência da Bahia, o Ato Cortejo se consolidou como uma importante manifestação dos movimentos e comunidades do Centro Antigo de Salvador na luta pelo direito à cidade. É no Ato Cortejo que as comunidades conferem visibilidade às suas lutas pelo direito à vida, à permanência e à moradia adequada nos seus territórios, com gritos de protesto, música, performances e demais intervenções artísticas. Importante salientar que esse evento vai além de um momento de cobranças às instituições públicas frente às ameaças de permanência e modos de viver que as comunidades têm enfrentado historicamente. O Ato é uma mani(festa)ação em que o caráter político da arte, da festa e da alegria traz denúncia a partir da celebração da vida.

160 | Experimentos metodólogicos insurgentes na prática de Arq. e Urb.


Quais foram as formas de fazer junto? Em 2020 e 2021, por conta da pandemia da COVID-19, o Ato se redesenhou, ocupando as redes digitais, em formato virtual, mas anunciando como a potência das ruas seguia pulsante, a despeito das ameaças cotidianas à vida das moradoras/es do CAS. Foi desenvolvida de forma compartilhada a operacionalização do evento, passando por criação de roteiros, imagens, vídeos, produção de conteúdo para as redes sociais e também para intervenções urbanas artísticas junto aos movimentos Projetemos, Rede Nacional de Projetistas Livres.

Imagem: Card de divulgação do edição 2020 e print da live

3. Costurando trajetória | 161


PRÁTICAS RESULTANTES - A edição do Ato Cortejo Virtual 2020 contou com performances artísticas e depoimentos de lideranças comunitárias do Centro Antigo e de organizações parceiras na defesa do Direito à Cidade e no enfrentamento ao racismo; além de um sarau de encerramento, convidando artistas parceiros para intervenções ao vivo. - Paralelamente, ocorreu a mostra virtual de filmes que sobre outras histórias sobre o Centro Histórico e o Centro Antigo de Salvador, com olhares sensíveis de diversos/as diretores/as a partir de narrativas de quem mora, trabalha e vive nesse território, lutando por direito à cidade, à moradia e à vida. A mostra reuniu audiovisuais relevantes para a luta contra o apagamento de memórias e de pessoas no Centro Antigo, trazendo histórias muitas vezes invisibilizadas pelos projetos e discursos oficiais. - As comemorações ao 2 de Julho se estenderam durante todo o mês, com debates virtuais sobre direito à cidade, racismo e pandemia, entre outras atividades. Também houve intervenções em parceria com o Cine Janela, iniciativa que realizou projeção de filmes em fachadas de prédios da cidade durante a pandemia

Imagem: Card de divulgação da mostra


- Em 2021, a falta de recurso e a sobreposição da data com outras demandas da Articulação condicionou um formato reduzido do evento, se comparado com a edição anterior. A live, com depoimentos e vídeos sobre a trajetória de luta dos movimentos, foi transmitida no dia 2 de Julho, marcando a importância desta data. - Um dos principais resultados das duas edições é, sem dúvida, o registro das autonarrativas dos movimentos de luta urbana no Centro, documento audiovisual disponível para acesso online no canal do youtube da Articulação do Centro Antigo, contribuindo para a disseminação dessas reivindicações e existências. A luta não se resume à garantia de moradias dignas, mas sim, abrange uma gama de direitos que abarcam reinvindicação de serviços públicos de qualidade, que por sua vez, remetem às políticas públicas em suas mais variadas instâncias: infraestrutura, saneamento, transporte, saúde, educação, dentre tantas outras. Mais do que uma abordagem assistencialista ou projetos que se resumem à transferência de renda, o que está em jogo é a desautorização do projeto de genocídio e racismo estrutural vigente, e a imaginação de outros mundos nos quais a vida seja possível.

Imagem: Print da live

“Direito à cidade é respeitar as histórias construídas no centro da cidade, nas comunidades periféricas de Salvador” Ana Caminha, Associação Amigos do Gegê da Gamboa de Baixo “Não é só moradia. É para além da moradia. É moradia digna, direito à cidade, à escola, educação, saúde, mobilidade. É direito de viver com dignidade. E é isso que nos é tirado, e nós não podemos esquecer que isso tem haver com racismo estrutural” Maura Cristina, MSTB


DESAFIOS, APRENDIZADOS “Neste dia 2 de julho e sempre, saudamos nossa ancestralidade negra, quilombola, indígena, que nos inspiram nas resistências contra as opressões dos tiranos! Saudamos a Cabocla que com a lança em punho representa o povo guerreiro dessa cidade, na batalha de Pirajá! Saudamos Maria Felipa, que da Ilha de Itaparica, ao lado de outras 40 mulheres negras, expulsaram os portugueses, com suas folhas de cansanção! Saudamos Zumbi, rei do Quilombo de Palmares, inspiração constante das nossas lutas!” Articulação do Centro Antigo A criação da identidade visual dos Atos Cortejos foi um processo de partilha de referências e elaboração estética-política coletiva que trouxe muitos aprendizados. A luta ancestral do povo negro se atualiza nas reivindicações atuais movimentos da Articulação. Nessa conexão entre passado, presente e imaginações de futuro, referenciamos e reverenciamos figuras históricas que se fazem sempre presentes nas falas e memórias da Articulação, como Maria Felipa, Cabocla, Zumbi, além de homenagear também Ivana Chastinet, antiga parceira que faleceu. Usando a ferramenta colagem como recurso criativo, deslocamos esses personagens para o contexto atual das casas e ruas do Centro, buscando ilustrar esses corpos que ocupam, existem e resistem nesse território de forma continuada e pulsante. Todo o processo de composição das peças conta com a revisão de diversas lideranças dos movimentos, garantindo que todas/os sintamse representados pelas criações.e a imaginação de outros mundos nos quais a vida seja possível.

Imagem: Card de divulgação da edição 2021


- Um aspecto pontuado pela Articulação, que configura um importante ponto a ser considerado, é a criação de mecanismos que promovam mais autonomia nos processos colaborativos. Como exemplo disso, uma tarefa ainda “por fazer” do TRAMA é a de organizar e compartilhar todos os arquivos já produzidos por nós, que sejam de interesse das comunidades, para estarem disponíveis de forma fácil e acessível. Nesse sentido, a coletivização de processos (diferentes pessoas do TRAMA manipulando peças gráficas, arquivos e documentos de forma simultânea), e o processo ainda incipiente de organização interna dificultam essa a resposta a essa demanda.


EXPERIÊNCIA 10

DENÚ

ACESSO À INFORM

MU

CAMPANHA TORORÓ RESISTE 2020-... 166 | Experimentos metodólogicos insurgentes na prática de Arq. e Urb.


MORADIA

ARTIVISMO

ÚNCIA

URGÊNCIA

MAÇÃO

ONLINE/OFFLINE

ULTILINGUAGEM COLABORAÇÃO

INTER-MULTI-TRANSDISCIPLINARIDADE MEMÓRIA

DESAPROPRIAÇÕES

MULTILINGUAGEM 3. Costurando trajetória | 167


Quem fez acontecer? Moradores do Tororó, SAJU (Serviço de Apoio Jurídico da UFBA), TRAMA, entre outras entidades parceiras que foram somando esforços à causa. O que foi e em qual contexto buscou incidir? Cerca de 40 famílias da Comunidade do Tororó, que moram desde o final dos anos 1990 na Rua Monsenhor Rubens Mesquita, foram ameaçadas de perderem suas casas. Ainda que, em 2016, o Tororó tenha sido legalmente considerado uma Zona Especial de Interesse Social (ZEIS), a Prefeitura Municipal de Salvador entrou com uma reintegração de posse desses moradores e moradoras — fato que se relaciona com a construção do Shopping Nova Estação. Quais foram as formas de fazer junto? Movimentos sociais locais tentam evitar os despejos no Tororó. A campanha configura-se como uma das ações de resistência, denúncia e mobilização social, realizada pela Associação dos Moradores da Rua Rubens Mesquita, junto a outros movimentos sociais e entidades que se associaram pela garantia da permanência da comunidade do Tororó. O TRAMA se articula com o SAJU e outras coletividades parceiras da luta, dialogando com moradores a fim de entender a problemática, por meio de reuniões online, idas presenciais ao território para acompanhamento do conflito, e registros audiovisuais.

AÇÕES DESENVOLVIDAS As ações que fizeram parte da Campanha, relatadas de forma detalhada no capítulo “TFG MULTILINGUAGEM: COMUNICAÇÃO NAS LUTAS URBANAS PELO DIREITO À CIDADE” (pg. XX) deste TFG, consistiram em: - Criação de um website reunindo conteúdos sobre esse conflito, com chamada de ação para uma campanha de pressão dos órgãos públicos. - Elaboração de uma campanha de comunicação online e offline, objetivando a publicização e o registro dos protestos e demolições. - Monitoramento e pressão política, a partir da presença no território de assessorias jurídicas, parceiros da Universidade e demais colaboradores, para acompanhar as movimentações pré e pós demolições “Nós precisamos de moradia, não de estacionamento, nem de docas para carga e descarga. Onde é que nós vamos parar? O município não respeita uma área de ZEIS”. Bau, morador do Tororó e articulador comunitário, em depoimento publicado nas redes sociais.


“Nós descobrimos isso aqui. Limpando mato, lixo. E aí foi surgindo as moradias”. Marizete, aposentada, em depoimento no documentário “Nascidos e vivos na Fonte do Tororó” “Em 2002, quando eu tava chegando por aqui, isso aqui era um matagal. Ninguém conseguia passar. Se estivesse na Lapa, e olhasse para o lado, era tudo mapa. A forma da gente vir, foi abrindo a rua, abrindo o bairro. O bairro só fez se expandir. O progresso chegou (...) E agora ninguém explica o verdadeiro motivo da história por trás de querem desapropriar”. Nal, comerciante, morador do Tororó, em depoimento no documentário “Nascidos e vivos na Fonte do Tororó”.

Foto: Cartaz de protesto nas demolições

Imagem: Print do site da campanha“Tororó Resiste”


CONQUISTAS, FRACASSOS E APRENDIZADOS - A Campanha do Tororó gerou visibilidade de grupos e instituições, entre outros apoiadores da causa. O movimento passou a ser convidado para participar de encontros, e inserido como parte da pauta de reuniões acerca de conflitos urbanos e lutas sociais em Salvador. A situação segue sendo muito desfavorável para os moradores, com poucas conquistas, relativamente ao grau de gravidade das violências sofridas. No entanto, novas articulações políticas fortaleceram e evidenciaram a importância das poucas famílias que resistiram e permaneceram em suas casas. - Recentemente, pela primeira vez, foi apresentado o projeto do Shopping que envolveu a desapropriação das casas. O projeto já foi apresentado no formato executivo, ou seja, com definições fechadas sobre sua execução. Não houve estudo preliminar, diálogo com organizações comunitárias ou qualquer tipo de envolvimento de moradores nas decisões que os afetam e impactam diretamente. - Conseguiu-se entregar ao Ministério Público um estudo de impacto da intervenção, além de outros documentos relacionados. A realização de uma audiência pública recentemente, nesta instituição, colocou em cheque a Prefeitura e a Concessionária envolvidas no conflito. - O projeto Tororó, no âmbito das ZEIS, foi reconhecido pela Federação Nacional dos Arquitetos e Urbanistas (FNA), sendo indicado a receber uma premiação no 45º ENSA (Encontro Nacional de Sindicatos de Arquitetura e Urbanismo). Como resultado dessa luta social, uma conquista é alcançada: o Supremo Tribunal Federal decide prorrogar a liminar de Despejo Zero até junho de 2022, o que representa um avanço legal na luta de comunidades populares por moradia e permanência nos seus territórios.


CONTINUIDADES, HORIZONTES - O desafio atual do conflito no Tororó é continuar assegurando a moradia das famílias que resistem, além de manter o engajamento da comunidade. O movimento de moradores/as segue na busca de construir acordos para reverter a área de concessão, diminuindo o perímetro no qual a obra pretende intervir. - A relação com TRAMA seguiu se desdobrando, e atualmente, existe uma ação contínua de assessoria sendo conduzida.


EXPERIÊNCIA 11

CUIDA

ORALIDADE

CUIDADO

PODCAST ELAS FAZEM CIDADE 2022 172 | Experimentos metodólogicos insurgentes na prática de Arq. e Urb.


PERTENCIMENTO ESCUTA

FEMINISMO NEGRO INTER-MULTI-TRANSDISCIPLINARIDADE

ADO

O

MULTILINGUAGEM MEMÓRIA

MULTILINGUAGEM FEMINISMO NEGRO FERRAMENTA DISPUTA DE NARRATIVA 3. Costurando trajetória | 173


Quem fez acontecer? Coordenação de projeto do TRAMA, entrevistando: Ana Cristina da Silva Caminha (líder comunitária da Associação Amigos de Gegê dos Moradores da Gamboa de Baixo), Maria do Xindó (ganhadeira de Itapuã), Vilma sobrenome (educadora Popular, fundadora do Acervo da Laje no Subúrbio Ferroviário de Salvador), Sandra Regina Santos (líder comunitária da Associação de Moradores e Amigos do Centro Histórico), Irmã Jacira Queiroz (diretora, educadora, representante sociopolítica de Valéria), Suzany Varela (colaboradora do Centro Cultural Que Ladeira é Essa?). Captação de som por Victor Brasileiro, apoio da Casa Rosa, e financiamento. O Elas Fazem Cidade foi contemplado pelo Prêmio Riachão – Projetos de Pequeno Porte, da Fundação Gregório de Mattos, da Prefeitura Municipal de Salvador, por meio da Lei de Emergência Cultural Aldir Blanc, destinado pela Secretaria Especial da Cultura do Ministério do Turismo, Governo Federal. O que foi e em qual contexto buscou incidir? A proposta consistiu em produzir um podcast de entrevistas contando as histórias de Salvador e dos seus territórios populares negros através de diálogos com lideranças femininas de movimentos sociais ou de referência nestes espaços. O projeto buscou fortalecer o protagonismo dessas mulheres negras que cotidianamente exercem um papel central na produção da cidade a partir de suas vivências e re-existências. O podcast é um espaço de conexões, diálogos, tensionamentos e contação de memórias. Em cada um dos 3 (três) episódios, uma dupla de mulheres dialoga sobre suas experiências na cidade, totalizando 6 (seis) entrevistadas. Estas interlocuções mobilizaram territórios estratégicos que contribuem em uma costura para compreender diversos momentos históricos da cidade. São eles: Gamboa, Pelourinho, Ladeira da Preguiça, Valéria, Itapuã e Subúrbio Ferroviário. Quais foram as formas de fazer junto? Uma vez que havíamos contatado as entrevistadas, realizamos uma série de conversas antes da gravação, a fim de entender como tecer conexões/ desconexões sobre suas histórias, definindo o agrupamento de duplas em cada um dos 3 (três) episódios. Além da criação de um espaço fértil de escuta e de “contação” dessas histórias, houve também a realização de registros audiovisuais das mulheres em seus territórios, contribuindo para a identidade visual do projeto, que buscou retratar seus locais de origem. 174 | Experimentos metodólogicos insurgentes na prática de Arq. e Urb.


PRÁTICAS RESULTANTES - O podcast já está no ar, com os 6 (seis) episódios mencionados, disponíveis publicamente, podendo ser acessados a qualquer momento. O objetivo é que esse material possa ser utilizado como referencial bibliográfico para estudos em escolas, em pesquisas acadêmicas, em projetos culturais, até mesmo em ações dentro dos próprios territórios abordados, com o intuito de proporcionar a representatividade nos registros históricos para novas gerações, reconhecendo a escuta como um instrumento acessível. - Um dos principais resultados foi visibilizar outras narrativas que também contam a história da cidade, para além daquelas definidas em registros/ referenciais oficiais comuns, criando senso de pertencimento e enraizamento das populações que fazem parte de territórios populares e negros da cidade, ao compreenderem seu lugar e sua relevância. Desta forma, elabora-se uma ferramenta afetiva de (re)conexão destas moradoras e moradores com seu próprio espaço, possibilitando assim, inaugurar outras perspectivas de criação de futuro e presente para a cidade. Ademais, nas entrevistas, buscamos abordar perspectivas das vidas das mulheres que ultrapassam relatos de luta e enfrentamento, criando um espaço em que outras temáticas possam emergir: sonhos, desejos, imaginações.

Foto: Gravação do episódio 1 do podcast

3. Costurando trajetória | 175


“A mulher negra é figura estruturante dos modos de ser, habitar e viver na Cidade. Sobretudo aqui em Salvador, onde nossas raízes ancestrais continuam emaranhando atos alternativos às formas de dominação, atos esses protagonizados, na maioria das vezes, por essas mulheres negras. (...) Contar memórias é um ato ancestral, é por meio delas que as pessoas mais velhas partilham vivências, fabulam histórias e imaginam futuros. (...) Ouvir as narrativas de quem faz, vive e mantém esses espaços, é colocar as memórias enquanto fio condutor na criação de outras narrativas sobre os territórios negros, rompendo silenciamentos, criando identidades e novos olhares, fazendo insurgir força, vozes de enfrentamento, manifestações políticas e de afeto.” Zara Rodrigues, urbanista arquitetura de Valéria, integrante do TRAMA e mediadora do podcast

Imagem: Colagem da identidade visual do projeto

Foto: Registro das gravações com Sandra e Vilma

APRENDIZADOS, LIMITES - Inicialmente, o número de mulheres e territórios inscrito no edital a serem entrevistadas era de apenas 3 nos seus respectivos territórios. Nas discussões do projeto, percebemos que este número seria insuficiente para abarcar a complexidade e pluralidade da cidade de Salvador. Dessa forma, optamos por escolher 3 moradoras no Centro Histórico e 3 moradoras de fora desta poligonal (Itapuã, Plataforma e Valéria) proporcionando um diálogo entre elas, e buscando ampliar um horizonte de atuação e aproximação além do Centro Histórico — área que já concentra uma grande visibilidade dos seus conflitos, lutas e movimentos.


- As histórias das mulheres estão entrelaçadas às histórias dos seus próprios territórios. Isso é característico de territórios populares, onde as vivências e as relações comunitárias moldam e fazem a cidade cotidianamente. Ainda que com diferenças de localização geográfica, constatamos como tramas de cooperação, cuidado e solidariedade surgem a partir das articulações cotidianas nos diferentes territórios. Essas redes comunitárias, nas suas distintas localidades, estão ativamente colaborando para manter os modos de vida nos bairros populares de Salvador. - Avaliando o projeto, podemos dizer que alcançamos resultados satisfatórios. Tanto objetivamente, devido ao grande alcance de divulgação nos meios de comunicação (jornais e rádio) e a qualidade alcançada dos produtos entregues. Quanto subjetivamente, no que diz respeito às narrativas de memórias compartilhadas pelas mulheres, a reação de satisfação de público nos territórios narrados e a reafirmação do protagonismo feminino no fazer cidade cotidiano de Salvador, bem explicitado durante as entrevistas. - Enquanto primeiro projeto autoral do TRAMA, houve aprendizados na divisão da equipe de produção técnica, que contava com 8 integrantes ativos, conformando equipes de Produção, Roteiro, Comunicação, Financeiro, Mediação, Fotografia, Vídeo e Edição, todos integrantes do TRAMA; contouse com o apoio de uma pessoa contratada, responsável pela Produção Sonora.

Foto: Registro das gravações com Ana Caminha e Maria de Xindó


ABERTURAS - Desde o lançamento do projeto, estamos buscando espaços para partilhar e debater as reflexões suscitadas pelo podcast. Nesse sentido, está prevista a apresentação do trabalho no “III Seminário Mulher, Cidade e Arquitetura. Pós Pandemia?”. Como proposta de atividade, realizaremos a escuta de trechos selecionados dos episódios, seguidos de uma roda de conversa com debate sobre as temáticas levantadas. Além de fazer o trabalho circular em eventos acadêmicos, entendemos que é necessário seguir divulgando e criando espaços de repercussão do podcast nas comunidades. - Após realizada a primeira edição, pretendemos seguir desenvolvendo essa iniciativa. É um desejo do TRAMA ampliar a conexão de mulheres além de Salvador, e através de editais de maior porte, viabilizar uma expansão do projeto em escala regional, “Elas Fazem Nordeste”. - Também vale destacar que a expansão do projeto pretende também abarcar a inclusão de perfis cada vez mais diversos: mulheres trans, mulheres com deficiência, entre outras - algo que acabou não se concretizando nesse primeiro momento.

Imagem: Colagem da identidade visual do projeto

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3. Costurando trajetória | 179


4


experimentos metodológicos insurgentes I. Jogo de Cintura II. Escuta III. Colagens IV. Como as experiências se alimentam entre si V. Buracos e pontas soltas da trama


“Talvez o caminho didático mais interessante a seguir (“met–hodos”, caminho que segue) seja exatamente multiplicar os caminhos possíveis, tensioná-los uns aos outros, a partir de experiências metodológicas sempre desviantes, errantes, que não sabem, a priori, onde chegarão.” (BEREISTEIN, ROSA, 2018: p. 191) “Por uma submetodologia. Que vasculhe indisciplinarmente as sombras e os subterrâneos da produção teórica, hackeando os tímpanos da escuta científica para fazer passar, por eles, ruídos até então ignorados; e privilegie autorias não autorizadas, visibilizando contextos de disputas em torno das questões sobre quem e como falar.” (MOMBAÇA, 2018: p. 345) “Metodologia é política. As metodologias se baseiam em argumentos sobre o mundo e envolvem relações de poder e conhecimento. O método, por si só (...) não garante uma ética de solidariedade e o objetivo de justiça. Para alcançar esse objetivo, é necessário identificar metodologias inovadoras que estão sendo utilizadas (...) e situar esses métodos explicitamente em uma orientação comprometida com a justiça (...)” (ROY, ROLINK, 2018:p. 18) “(...) necessitamos de uma nova imaginação, um novo léxico, um novo repertório de práticas e um distinto entendimento de justiça” (MIRAFTAB, 2016: p. 367) “Metodologias (...) enquanto políticas anticoloniais para fazerem emergir outro horizonte filosófico, orientado pelo princípio da ancestralidade” (RUFINO, 2016: p. 24)

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Nesse momento, guiada pelos acúmulos e reflexões em torno das experiências apresentadas no capítulo anterior e das vivências no TRAMA, elenco 3 (três) práticas/experimentos/aprendizados metodológicos que se mostraram relevantes para se prospectar um incremento de ferramental, tendo em vista o objetivo de reimaginar as possibilidades de atuação em arquitetura e urbanismo. Reconheço, nessas práticas, denominadores comuns de muitos dos processos que me envolvi ao longo da minha trajetória como aluna, e também as pontes que este percurso me permitiu construir, o “nós” nas linhas que se emaranham na trama.

I. Colagens Mais do que uma técnica artística, a colagem é − e tem sido para o TRAMA − uma orientação estética e um lugar de pensamento. Com exceção da Campanha Xô Corona, todas as outras 4 (quatro) experiências que analisei mais detidamente (mas também tantas outras anteriormente apresentadas) mobilizaram colagens como recurso na comunicação dos projetos. Frequentemente nos deparamos com o desafio de fabular visualmente a(s) cidade(s). E as cidades, para nós aqui entendidas, são lugares plurais, heterogêneos, com uma vida urbana diversa na qual interagem múltiplas identidades e culturas. Há uma sobreposição de tempos, de práticas de espaço e de disputas. Cidades são ruidosas, fragmentadas, descontínuas. Como as colagens podem ser. Para dar conta de abarcar a complexidade dos territórios, optamos por não recorrer a uma imagem única, mas sim, buscamos compor um mosaico de visualidades, cenas, texturas. As colagens da Plataforma Pipoco e do Simpósio Fazeres da Cidade (Figuras 8 e 9) são exemplares nesse sentido.

4. Experimentos metodológicos insurgentes | 183


Figuras 8 e 9 (de cima para baixo): Colagem Simpósio Fazeres da Cidade e Colagem Plataforma Pipoco

A descontinuidade da colagem também se relaciona com a constituição das memórias, que, por sua vez, se (des)organizam a partir de fragmentos, nunca estando completamente puras ou límpidas. O filósofo camaronês Achille Mbembe (2019) argumenta que isso é uma consequência da própria experiência de colonização dos nossos povos, fazendo com que tivessem suas memórias violadas, sendo impossível reconstituí-las em sua unidade original (CORDEIRO et al., 2021, p.8).

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Além de ser uma ferramenta a ser usada para retratar o que já existe, sendo agenciada para contemplar a diversidade urbana, a colagem também é um recurso criativo para fabular novas realidades. Usada para recontar a história, a colagem pode (re)criar e subverter arquivos, como é o caso da colagem que criamos coletivamente para o material de divulgação do evento Cidades Pretas; nesta colagem, provocamos a união de um mapa colonial com o mapa do Quilombo Buraco do Tatu (Figura 10). Com essa imagem, queremos convocar a des/re/pensar e re/imaginar cidades através de fabulações im/possíveis.

Figura 10: Card de divulgação do encontro Cidades Pretas com colagem mapa colonial e Quilombo Buraco do Tatu. 4. Experimentos metodológicos insurgentes | 185


Mobilizada como uma forma de “artivismo”, a colagem também é um potente instrumento de denúncia. Na experiência da Escola de Verão, a ausência de divulgação de imagens do projeto do Monotrilho nos instigou a criar visualidades que demonstrassem o impacto da obra na paisagem (Figura 11).

Figura 11: Colagem para podcast Elas Fazem Cidade a partir de fotos do Acervo Arlete Soares

Na experiência do podcast Elas Fazem Cidade, usamos colagens para comunicar aquilo que o projeto buscava enfocar: o protagonismo feminino negro na constituição da cidade. No episódio 1, “Com e para as juventudes”, Irmã Jacira Queiroz, educadora de Valéria, relatou como a profissão de baiana de acarajé possibilitou à sua mãe a permanência no bairro, gerando renda e, sobretudo, tecendo redes de articulação com a vizinhança. O tabuleiro que se abre para a rua faz presente a convivência comunitária, característica do povo de África, segundo Jacira. Já no terceiro episódio, “Saberes das águas”, Maria de Xindó, ganhadeira de Itapuã, afirma a importância da Lagoa do Abaeté na sua vida, ao 186 | Experimentos metodólogicos insurgentes na prática de Arq. e Urb.


dizer que considera esse lugar como extensão de sua casa, sua universidade. Movida por esses dois relatos, elaborei colagens que buscaram potencializar as memórias e saberes dessas mulheres (Figuras 12 e 13). Jogando com as escalas do corpo e da cidade, as mulheres se engrandecem na imagem, suas existências são ressaltadas: elas, agentes que produzem o território. Nessa criação, recorri aos arquivos do acervo da fotógrafa Arlete Soares, baiana que registrou e registra práticas urbanas em Salvador, e que é foco de estudo no projeto de pesquisa“Cidade, imagem, arquivo”, desenvolvido no âmbito do grupo LEIA, da FAUFBA, onde sou bolsista PIBIC.

Figura 12: Colagem para podcast Elas Fazem Cidade a partir de fotos do Acervo Arlete Soares 4. Experimentos metodológicos insurgentes | 187


Figura 13: Colagem para podcast Elas Fazem Cidade a partir de fotos do Acervo Arlete Soares

O processo de feitura de uma colagem, por sua vez, talvez seja um dos pontos mais importantes no aporte metodológico. Subvertendo a ordem ocidental cartesiana, “esculhambando” a realidade, nos termos de Luiz Rufino (2019), fazer colagem abre a possibilidade para experimentar a criação de algo sem saber aprioristicamente aonde se vai chegar. Recentemente, uma atividade que contribuiu para a construção das reflexões aqui apresentadas foi a “Oficina de Colagem TRAMA”, atividade de extensão facilitada por mim e pela arquiteta 188 | Experimentos metodólogicos insurgentes na prática de Arq. e Urb.


urbanista Marina Novais (também integrante do TRAMA), no âmbito da disciplina História da Arquitetura Contemporânea na FAUFBA, a convite da professora e co-orientadora deste trabalho, Junia Mortimer. Nessa atividade, além de apresentar e discutir as possibilidades da colagem enquanto técnica, linguagem e recurso estético, propomos um momento de atividade prática, estimulando os estudantes a testarem uma criação em colagem manual.

Oficina de colagem TRAMA na FAUFBA. Acervo da autora, 2022

A partir dos relatos dos estudantes, novamente constatamos como o desenvolvimento da colagem abre possibilidades para uma experimentação metodológica flexível. O processo vai revelando seu próprio final, que é muitas vezes é incerto, pela constante sensação de inacabamento da obra; sem planejamento ou rigidez, algo de intuitivo e de íntimo, conduz a junção de fragmentos e a composição de camadas da imagem que vai sendo criada. Mais uma vez, recusa-se a ideia de que existe um procedimento correto a se seguir. Esse aspecto da colagem se relaciona diretamente à prática metodológica tratada no próximo tópico, o jogo de cintura. 4. Experimentos metodológicos insurgentes | 189


II. Jogo de cintura “Jogo de cintura” é uma expressão coloquial utilizada no Brasil, que significa ter flexibilidade e capacidade de improviso. Ter jogo de cintura se refere, portanto, a ter uma certa maleabilidade, uma adaptação às improvisações, especialmente em situações adversas e conflitivas. Pensado enquanto dimensão metodológica, o jogo de cintura evoca uma processualidade aberta, uma prática de adaptação às circunstâncias e contingências presentificadas pelos encontros. Conectado a essa ideia, o conceito de “work in process”, tratado por diversos autores/as, mas mobilizado aqui através da escritora Jota Mombaça, nos fornece mais camadas para complexificar essa discussão. “Work in process” representa a escolha por um caminho criativo “arriscado”, na qual o produto é inteiramente dependente das vicissitudes do processo. ”Uma contra-conduta criativa ’irracionalista‘ que tende ao rompimento com o modelo racional cartesiano que foi consolidado no Ocidente” (MOMBAÇA, 2016, p. 343), afirma Mombaça. Implica assumir o caos, os erros, os equívocos e os desvios como parte integrante do processo. Diferentemente de modelos em que o desenvolvimento de práticas são rigidamente controlados, trata-se aqui de uma conduta na qual “quer-se intensificar o desgoverno, como aposta numa metodologia errante porque desgovernada. Sensível à errogênese. Errogênese: criação pelo erro, pelas vias erradas” (MOMBAÇA, 2016, p. 343). Essa abordagem metodológica atravessou a construção deste TFG, na medida em que me permitiu definir os rumos do trabalho conforme fui construindo um olhar, simultaneamente retrospectivo e prospectivo, para a minha trajetória e a do TRAMA. As trocas com integrantes do grupo provocaram mudanças nos conteúdos e nas formas do texto, e, com isso, os aprendizados foram ampliados. É preciso dizer que este não é um processo fácil. Há que lidar 190 | Experimentos metodólogicos insurgentes na prática de Arq. e Urb.


com inquietações, desconfortos, e com a constante tentativa de controlar o percurso, uma vez que fomos condicionados a seguir protocolos que ordenam (e muitas vezes acabam por limitar) a produção de conhecimento nas instituições de ensino e aprendizado, e em outros diversos espaços.

Escola de Verão: Cronograma mutável e momento de encontro. Acervo da autora, 2020

Nas minhas experiências com o TRAMA, o jogo de cintura foi essencial nos momentos de facilitação de oficinas, desenvolvendo e recriando as etapas “programadas” das atividades de acordo com o que acontecia nos espaços de debate, deixando-nos afetar pela participação das pessoas, transformando as dinâmicas a partir das demandas. Na mediação de conflitos, em espaços efetivos de fala/escuta, essa conduta foi também crucial para viabilizar o diálogo com os contrastes de interesses dos próprios sujeitos que participavam das ações, por meio das costuras entre confluências e divergências de conhecimentos e perspectivas. 4. Experimentos metodológicos insurgentes | 191


III. Escuta Reconhecer a escuta como aprendizado metodológico significa assumir a postura de estar disposto a ouvir. E “estar disposto” implica que essa escuta seja sensível, ativa, qualificada. Sensível, pois deve reconhecer e valorizar o que é dito pelo outro como conhecimento válido, buscando acolher e compreender suas opiniões. Ativa, pois entende que escutar não significa esperar a sua vez de falar, e sim, reagir e se afetar ao que está sendo dito. E qualificada, pois considera o momento de troca enquanto uma partilha de saberes, e produção coletiva de conhecimento a partir do diálogo. Todas essas considerações não são relevantes apenas em experiências comunitárias, mas sim, falam sobre uma conduta que poderia orientar as relações sociais. Nesse sentido, a construção de práticas de escuta, apoiadas em uma perspectiva dialógica e na valorização dos diferentes conhecimentos e modos de vida próprios dos lugares, pode complexificar as formas de entender e atuar nos espaços construídos. Spivak (2010), buscando tensionar as práticas opressoras de interlocução com os sujeitos, sugere que, ao invés de falar pelo (ou sobre o) indivíduo, sejam construídas possibilidades nas quais os mesmos possam ser escutados. Criar condições de fala é uma carência em diversos espaços de decisão pública sobre processos urbanos. Como exemplo, pode-se citar as dinâmicas das audiência públicas, em que movimentos sociais, grupos organizados da sociedade civil, entre outros agentes, possuem pouquíssimo tempo de expor suas opiniões e reivindicações, muitas vezes sem contar com direito à réplica. O reconhecimento da importância da escuta, em todas as experiências que apresentei neste trabalho, me conduziram, e ao TRAMA, a propor um podcast como primeiro projeto “autoral”, essencialmente um instrumento que tem o “ouvir” como ação primordial. O entendimento de que mulheres negras estão no 192 | Experimentos metodólogicos insurgentes na prática de Arq. e Urb.


centro nas redes de cuidado, solidariedade e resistência nos levam ao recorte do Elas Fazem Cidade. Além de criar condições de fala, na construção de um espaço sensível durante as gravações das entrevistas, a criação de condições de escuta, para nós, foi concretizada pela divulgação e repercussão das vozes e dos saberes das entrevistadas por meio da publicização do podcast.

Gravação do podcast Elas Fazem Cidade com Suzany Varela e Irmã Jacira Acervo da autora, 2022

Partindo da premissa de que os acúmulos dos projetos anteriores nos levam a criar o Elas Fazem Cidade, como produção mais recente, busco agora seguir tecendo reflexões para pensar como as experiências se enriquecem, partilham ferramentas, criticidades e “modos de fazer” entre si. 4. Experimentos metodológicos insurgentes | 193


IV. Como as experiências se alimentam entre si, e como alimentam a trama de atuações? Acredito que as respostas para as perguntas que estão presentes no título desse subcapítulo encontram-se dissolvidas ao longo do trabalho. No entanto, considero válido fazer duas considerações que somam reflexões a esse questionamento:

1.

Muitas

das

experiências

apresentadas,

ainda

que

com

suas

especificidades, partem de lutas similares: envolvem conflitos do Município/ Estado, que a despeito das suas distintas filiações político-partidárias, se articulam com empresas e corporações privadas, tendo suas ações engendradas por práticas que reproduzem o racismo estrutural (muitas envolvendo desapropriações de moradias populares), com falta de transparência e desinformações na comunicação de seus processos. ‘“Tanto no Tororó, quanto no Subúrbio Ferroviário,

os funcionários entraram nas casas alegando

estarem fazendo avaliações do imóvel em função

de possíveis danos estruturais, mas depois

as pessoas estavam com as casas marcadas para

remoção”. (FIGUEIREDO; ROSA; VIERA et al, 2021, s/p) Construindo um paralelo entre o conflito da obra do monotrilho no Subúrbio, tema da Escola de Verão, e a luta do Tororó, tema da Campanha Tororó Resiste, podemos refletir sobre o uso da comunicação como ferramenta de luta. Nota-se uma articulação entre movimentos distintos, sejam eles:

194 | Experimentos metodólogicos insurgentes na prática de Arq. e Urb.


.

Comunicação interna, mobilizada entre moradores/as envolvidos/as

implicados no conflito e parcerias engajadas, compartilhando informações, gerando espaços de debate e fortalecimento comunitário. .

Comunicação externa, divulgando e denunciando o conflito para o

público amplo: ora dialogando com o território, no intuito de mobilizar outros moradores que não estejam participando ativamente do debate, ora ampliando a repercussão da problemática para a sociedade civil como um todo. Esses processos ocorrem de forma simultânea, e se retroalimentam. O registro das ações de comunicação interna, e os aprendizados suscitados pelos momentos de troca fornecem insumos para produzir uma comunicação externa com mais impacto e representatividade. Há, nos dois casos, uma conciliação de tempos em jogo. O tempo do fazer da urgência, que corresponde à velocidade das intervenções nos territórios e necessidades dos grupos afetados, se sobrepõe ao tempo de elaboração e sedimentação de aprendizados, de mobilização e articulação política. Ao mesmo tempo que a dissonância desses ritmos impõe certos limites, também há uma potência de exercitar um “movimento dinâmico, dialético, entre o fazer e o pensar sobre o fazer” (FREIRE, 2001 p. 42-43). Nesse sentido, o exercício de (re)elaborar sentidos e conhecimentos a posteriori mostra-se extremamente relevante, assentando os aprendizados ativados no momento das práticas e reconhecendo que o processo continua aberto.

2.

Atuar no TRAMA possibilita, em cada projeto, uma experimentação de

diferentes funções e posições ocupadas pelos integrantes. Esse trânsito de práticas e descobertas de novas aptidões tem sido para mim um espaço de caráter formativo, para além daqueles propiciados pela formação tradicional da Faculdade. Trabalhar com e para a coletividade tem sido um processo de autoconhecimento e experimentação de habilidades individuais e no coletivo.

4. Experimentos metodológicos insurgentes | 195


Os trabalhos têm permitido aprimorar e complexificar processos de criações compartilhadas de multilinguagens. Um dos pontos importantes, já citado de forma breve anteriormente, é a problematização da ideia de que “todos devem participar de tudo”. Pontuamos como compreendemos ser inviável que moradores e agentes comunitários estejam sempre presentes nas atividades e criações propostas, pela disponibilidade de tempo. Na constituição do TRAMA, enfrentamos as tensões da excessiva coletivização dos processos de construções das atividades. Após o ânimo inicial em que todos estavam ávidos por colaborar e aprender com os projetos, e também, por não saber ao certo onde cada um podia melhor atuar, com o tempo, entendemos a importância de segmentar, e mesmo hierarquizar algumas de nossas ações, organizando e otimizando nossa atuação, ainda que mantendo a horizontalidade como fundamento.

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V. Buracos e pontas soltas na trama “A rede é uma porção de buracos, amarrados com barbante”. Guimarães Rosa Na trama de atuações que tecemos, diversos fios se enredam em uma malha de coletividades, saberes, territórios e imaginações. A malha só existe pelos seus buracos, como diria Guimarães Rosa, e pelas pontas soltas que ainda estão por tecer. Desde que foi criado em 2020, a partir de demandas emergenciais no cenário urbano soteropolitano de grande impacto social, o TRAMA trilhou um caminho de atuação muito conectado a diversas ações, do mesmo caráter, que demandavam urgência, assertividade e estratégias específicas de atuação. Paralelamente, ocorria o início das medidas de distanciamento social devido à pandemia da COVID-19, como já mencionado anteriormente. Mesmo atuando por apenas 2 (dois) anos, reconhecemos que o TRAMA conseguiu contribuir e se implicar politicamente com importantes demandas e disputas comunitárias. Percebemos o amadurecimento enquanto grupo de trabalho e a responsabilidade de atuação como agentes na luta por direitos, em âmbito urbano, municipal e estadual. No entanto, cabe discutir que esta atuação profissional (ainda) não se sustenta economicamente. O contexto de militância que constitui nosso fazer, e o difícil cenário sociopolítico do momento atual — já descrito neste TFG — configuram uma realidade em que a remuneração recebida por nossos trabalhos se mostra insuficiente para uma dedicação exclusiva às ações do grupo. Dessa maneira, todas/os integrantes do TRAMA conciliam outras atividades, outros projetos e trabalhos, a fim de viabilizar as despesas cotidianas das nossas vidas. 4. Experimentos metodológicos insurgentes | 197


Por conta das demandas contínuas e a nova realidade de readaptação da vida, ao se vislumbrar o fim da pandemia, o coletivo encara a necessidade de consolidar sua estrutura, por meio da formalização do grupo. A não formalização se apresentou como um dos principais problemas enfrentados nestes dois anos de atuação e acarretou dificuldades no aprimoramento da nossa gestão interna e estratégia de ação, inviabilizando também a participação em editais, processos seletivos que exigem CNPJ, o que contribui para a insegurança financeira já mencionada. Durante a elaboração do presente TFG, pude colaborar com a escrita de um edital, tendo o TRAMA sido recentemente contemplado, visando justamente apoio financeiro para formalização do coletivo. Esse investimento, que nos permitirá formalizar o coletivo como pessoas jurídica, com um CNPJ, certamente irá potencializar nossas atividades e articulações, nos qualificando para concorrer a editais de maior porte. Esta tem sido uma aposta para ampliação das nossas atuações, de modo a alargar nossa rede de parcerias com movimentos sociais, estruturando ações de ativismo social com maior impacto e organização. Outro ponto que merece ser mencionado, e que se inclui no escopo do edital aprovado, é o desejo de realizar uma seleção para novos integrantes do grupo, na perspectiva interseccional, recebendo mais pessoas negras, pessoas trans, não binárias, indígenas, a fim de nos consolidar enquanto um grupo efetivamente mais diverso. Atualmente, o TRAMA é constituído por uma maioria branca, contando com 1 mulher negra, também habitante de um bairro periférico, e 2 homens negros. Acreditamos que a pluralidade do coletivo é fundamental para criar uma nova circulação de ideias e proposições, além de expandir o diálogo com juventudes periféricas

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Na perspectiva de médio prazo, acreditamos que, ao garantir recursos financeiros, haverá condições para maior envolvimento, atenção e dedicação exclusiva de pelo menos parte da equipe ao trabalho do grupo. Em longo prazo, pretendemos ampliar nossas redes e formas de atuação, tendo mais implicação junto aos territórios populares negros, principalmente do nordeste do país. Além disso, almejamos, ao nos institucionalizar, incorporar ensino e extensão como uma forma de mobilização e arrecadação de recursos. Trabalhamos com comunicação, mas, em realidade, temos realizado pouco investimento na “tecnologia da informação”, uma área de conhecimento vasta e muito cara à nossa atuação. Entendemos ser necessário se apropriar destes conhecimentos, a fim de amplificar e qualificar o alcance das nossas ações.

4. Experimentos metodológicos insurgentes | 199


5


aberturas, limites, continuidades,

horizontes...


O presente TFG se construiu a partir da tentativa de costura de uma trajetória acadêmica relativamente curta, porém rica em trocas e aprendizados. Antes mesmo do período de definição da temática deste trabalho, apresentou-se a tensão entre escolher uma só experiência para adensar reflexões, ou fazer uma apresentação panorâmica que abarcasse projetos e atividades desenvolvidas, buscando aproximações, contrastes e aprendizados. Foi evidente, também, o limite da temporalidade de desenvolvimento do trabalho, uma vez que, no âmbito de um TFG, não era possível aprofundar todas as experiências da forma que estas mereciam. Os projetos e atividades apresentadas refletem a natureza inter/trans/ multidisciplinar de possíveis práticas de Arquitetura e Urbanismo engajadas politicamente, (re)imaginando a construção de um perfil profissional que se amplia e se implica em problemáticas urbanas. A atuação implicada se apoia na perspectiva do interconhecimento, de aprendizados mútuos, e do reconhecimento do fazer-cidade enquanto um fazer partilhado. Nesse sentido, a coletividade e as práticas comunicacionais agenciadas através de multilinguagens são apostas epistemológicas que orientam o TRAMA. Diante dessa teia diversa de projetos e relações, o processo de refletir sobre um pensar em rede, característico da nossa atuação, trouxe contribuições para minha formação profissional e para o processo de amadurecimento do próprio grupo. Explicitar os equívocos, insuficiências e limites das experiências foi um dos grandes aprendizados desse processo. Aprender com os erros e pensar a partir dos erros foram gestos formativos, contribuindo para a elaboração de um pensamento crítico que, ao refletir sobre o passado, transforma o presente e aponta caminhos futuros. Na elaboração do título do trabalho, escolhi traduzir “Experimentos metodológicos insurgentes’’ em “modos de fazer-junto”. Se as metodologias 202 | Experimentos metodólogicos insurgentes na prática de Arq. e Urb.


equivalem aos modos de fazer, então, afirmo que a insurgência ganha corpo na feitura coletiva. Nesse sentido, concluo este trabalho entendendo que ele é um ponto de partida para a continuidade dessa trama coletiva de atuações. O TFG continuará acontecendo. As reflexões presentes aqui irão reverberar em outras tantas, e nos ajudaram a seguir entendendo essa atuação que não está dada, mas sim, que está sendo construída diariamente a partir de trocas. Algumas pontas soltas da trama irão encontrar seus nós, e outras tantas irão se desdobrar e se multiplicar em novos fios. Seguiremos tecendo.

5. Aberturas, limites, continuidades, horizontes | 203


referências



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