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João Sena

O CAÇADOR DE BRUMAS João Sena

parte 1-2

Mais inesperado ainda, é absolutamente imperioso ler este romance apaixonante, escrito por um veterano da guerra colonial (1961-1974), que mantém uma lembrança nostálgica do Leste de Angola, nomeadamente da zona compreendida entre o Dilolo e a fronteira do Congo, e do Alto Zambeze. ...... Que eu tenha conhecimento, nunca nenhum autor penetrou tão intimamente na vida colonial das pequenas cidades do Centro de Angola que, com a chegada do comboio, conhecem um certo desenvolvimento, dos postos “esquecidos”, administrados ao longe pelo governador do Moxico (D. António de Almeida), ou de uma missão católica dirigida por um padre que “aportuguesava com o pénis” a região dos luenas. O autor dá-nos uma visão inesquecível da vida africana – um pouco optimista, na nossa opinião – e das relações entre dominadores e dominados, desta vez sem sentimentos excessivos. René Pelissier

O CAÇADOR DE BRUMAS

JOÃO SENA só depois de uma carreira militar, se viu confrontado com a arte de contar estórias. No seu jeito de beirão, transporta-as para as páginas dos seus livros onde foi encontrando outras vidas e outras experiências com que se foi enriquecendo. Como os bons vinhos aguardaram anos até serem editados.

POR ESTA VIDA ACIMA QUANDO AS ÁRVORES CRESCERAM

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FICHA TÉCNICA Edição: Vírgula Título: O Caçador de Brumas – parte 1-2 Autor: João Sena Revisão editorial, Paginação: Paulo Silva Resende Capa: Arq. José Eduardo Pires-Marques 1.ª EDIÇÃO LISBOA, Setembro 2011 Impressão e Acabamento: Publidisa ISBN: 978-989-8413-47-5 Depósito Legal: 331930/11 © JOÃO SENA Publicação e Comercialização Sítio do Livro, Lda. Lg. Machado de Assis, lote 2, porta C — 1700-116 Lisboa www.sitiodolivro.pt


À memória do meu pai e do tio José Miguel, bem assim a quantos morreram com sede de Justiça.

Aos meus filhos, João Pedro e à Maria João


PREFÁCIO Agora com renovado fôlego e num arrojado formato, eis que insiste o autor (não o sabia tão teimoso) em que continue a ser eu a apadrinhar esta sua leonina entrada no mundo das letras, consubstanciada em três títulos, só eles, já por si, a reclamarem toda uma aturada e ousada hermenêutica – porque cada um deles se integra, de forma diferenciada, mas alusivamente unitária, no universo denso de uma humanidade ardente de O Caçador de Brumas, onde acontece uma espécie de nomadização dos afectos, uma dramática itinerância do sonho, um sonho, em todo o caso, que se dissolve, inconsequente, por entre as «brumas» de um horizonte furtivo de interpelação. E é, curiosamente, esse paradoxo entre a intensidade de uma comunhão telúrica com a quentura magmática dos trópicos em fogo e essa ausência pálida de um triunfo que se omite e a que o autor obstinadamente se furta, é, dizia, esse paradoxo que, minando subtilmente toda a trama narrativa, a torna magnética e irresistível – uma vez nela entrados, já dela não logramos sair, a não ser pela porta dos fundos, que é, apesar de tudo, a porta do atalho. Nesta trilogia, única, na forma e no estilo, no panorama da literatura portuguesa, vai-nos apanhando, como uma droga, a descrição multiprismática da saga, heróica e miserável, de gerações de uma família que, sendo concreta, é pelo autor elevada à condição de paradigma vivencial do colono exemplar que se apaixona pelo solo argiloso e flamejante de Angola, designadamente do Luena, mas que, nesse mergulho aculturante, não perde de vista jamais o eco saudoso do chão que, no Portugal profundo da primeira


metade do século vinte, lhe cinzelou a alma – é bem uma certa geminação mítica de terra e gentes o que assim acontece. À família e a ele próprio, o autor, que, a coberto do narrador diegético em que se disfarça, vai tecendo muitas das histórias da sua própria vida. Há, sem dúvida, na tópica dos subtítulos uma intersticial denúncia de uma venturosa incandescência que se dissolve nas cinzas do capim ardido, no rescaldo de uma amargurante e frustrante queimada que dizima a sonhada grandeza de um paraíso feito do encontro múltiplo dos afectos: «A gente que esperávamos para desenvolver a cidade dos afectos que a Clarinha tanto sonhara não tem chegado». De resto, o enterro desta mulher, paradigma da união mítica dos contrários, «no mesmo local onde tínhamos construído a nossa primeira casa» exemplifica, de forma trágica, o destino enigmático desse grande sonho – enigmático porque quem sabe se esse corpo assim dado àquela terra a não irá fertilizar com as sementes ignoradas de um renovado sonho que teime em despertar, uma vez resgatadas as almas das grilhetas de uma memória, hoje, se calhar, quente ainda de um sangue enraivecido e magoado. Neste sentido, há nesta narrativa, simultaneamente heróica e singela e que se desenvolve ao ritmo de um galope fluido e por vezes torrencial, uma estranha (di)sonância entre o que é narrado e o que, nessa narração, omitido embora, se insinua. De facto, sendo o autor um militar que viveu a dolorosa experiência da guerra, ele obstina-se na intencional omissão desse cruento período. Sabemos bem, porém, como se nos pega à alma aquilo que insistimos em afugentar – há, por via dessa obsessiva negação, uma presença em bruma desse fantasma obsidiante. E, nessa medida, é paradoxal o estatuto do autor: ele não é um romancista, como outros, da guerra colonial, porque simplesmente ele nada escreve sobre ela, mas, paradoxalmente, não deixa de o ser, sem dúvida, uma vez que é sobre tudo o que a envolveu e, de algum modo, a motivou, que ele realmente escreve. E esta espécie de interdito emocional que lhe flagela o coração, de tão flagrante e ostensivamente evitado, o que faz é realçar o que, assim, se quereria apagado. Dir-se-ia, pois, o seguinte: o militar que mora no autor João Sena é indissociável da guerra que viveu e é a partir dessa vivência que convoca tantos portugueses, e não só, para uma leitura ávida desta obra, mas o


João Sena, que Miguel Casteleiro e a sua saga consubstanciam, supera, como acontecia na catarse vivida na tragédia grega, esse trauma da guerra e, de algum modo, une, no dramático desencontro dos afectos, as gentes que, aquém e além – mar, a eles se querem de novo entregar – e, nessa medida, a não referência à guerra, supondo-a embora, funciona porventura como elo de religação afectiva entre os povos de Portugal e de Angola. Mas há mais: a duplicidade significativa deste salto factológico não nos impede, bem pelo contrário, que consideremos esta original trilogia como um verdadeiro mosaico vivo da nossa recente experiência colectiva. Ela brinda-nos com elementos que, entretecidos no interior da dinâmica fluida e suspirativa da narração, exprime, em sangue, a nossa mais ancestral identidade – e, nesse sentido, é uma obra que, falando-nos ao coração, é da alma de nós que verdadeiramente fala. Trata-se de um caleidoscópio de vivências em turbilhão e que em momentos diferenciados pela emoção única de acontecimentos diversos se concentram no ápice axial desta nossa misteriosa condição de povo, incorrigível neste nosso inimitável jeito para o sonho e para a dádiva. E, aqui, retomo o que já escrevera a propósito do primeiro livro desta trilogia – que o sucesso desta obra, que o terá, ficará a dever-se, mais que tudo, ao carácter especular e paradigmático da narrativa, do seu teor marcadamente evocativo: revemo-nos nas suas páginas todos os que por Angola passámos. Algo que marca indelevelmente, porque por Angola nunca se passa – fica-se para sempre lá. E é por lá termos deixado todos um pouco da alma, que Angola nos habita e habitará sempre – e, creio, que habitaremos também o coração do povo angolano. Eis, por isso, um livro que nenhum português que tenha estado em Angola deve deixar de ler. Mas que o leiam os outros também, os que nunca lá foram, e verão como se lhes fará clara a razão de tantos portugueses terem aquela terra no coração. É um livro muito bem escrito, ao sabor das emoções em aluvião, fortemente impregnado de ressonâncias de uma ruralidade ancestral do país pré”25 de Abril” e do animismo profundo do povo luena, sempre densamente povoado de termos que resituam o leitor, em ecos de imprevista presença, no cenário luxuriante e encantatório de uma África mítica, mas dramaticamente concreta. Sem deixar de afoitar-se também


em tempos agitados pelos ventos de uma revolução que veio queimar o que restava do sonho de uma grande pátria dos afectos. Mas é precisamente por isso, se calhar, que não há guerra neste romance – porque o autor não quer contribuir para a queimada definitiva desses afectos. E é este também o efeito das páginas que se seguem – uma certa reconciliação catártica com a memória: no fim, sobrevém o aceno de uma paz limpa de um reencontro cordial. E, nesse rumor evocativo e nostálgico do narrador, também a pacificação, quiçá pelo cansaço, do tumulto do sangue – tudo na harmonia redonda de um destino que se acolhe. É no contexto deste desígnio pacificador e reconciliatório que ganha força simbólica o contraste trágico entre o Conapa, protótipo da perfídia, e o Tchimgôma que, para vingar a morte da filha, o mata a tiros de carabina e o abandona para ser comido pelas formigas. E a figura das formigas famintas, chupando em silenciosos haustos de humilhação e vingança o que resta do tutano do malvado colono, exorciza, no contexto ficcional, um certo e creio que marginal arquétipo de colonialismo que, não tendo, de forma alguma, correspondido ao que resultou da presença de Portugal em África, foi, no entanto, brandido até à diabolização pelo poder petrificador e manipulatório da ideologia. Só que não há pedra, por muito dura que seja, que resista ao poder dissolvente e alquímico do amor. E esta trilogia de João Sena o bem se poderia ver também como um poema de amor – por Angola, pelo povo luena, por Portugal. Num mosaico vivo, afinal, de «lusotropicalidade» «amorável», um pouco na senda de um Gilberto Freire, de um Jaime Cortesão ou de um Agostinho Neto – eis o que é também esta obra. Das suas páginas tingidas de sangue evolam, como se disse, pedaços de duas ancestralidades – a do Portugal profundo e rural (e da sua vivência mesmo em contexto urbano) e a do povo Luena – num encontro dramático no íntimo oceânico de Miguel Casteleiro, configurando uma unidade afectiva, exemplarmente expressa na polaridade, quase sapiencial, entre a vivência telúrica das Beiras e a imersão dionisíaca da vida do kimbo, onde aquela, de algum modo, se prolonga. Na transatlanticidade daquele balanço suspirativo do narrador entre a saudade da “santa terrinha” e o enfeitiçamento voluptuoso pelas gentes


daquelas terras de fogo, é todo um paradigma de uma condição de destino que, em sangue, se nos oferece – o da nossa própria natureza. E sabemos como é dela este nosso caminhar «vida acima», mesmo que, nessa escalada, alguns sonhos vão ficando para trás. Porque dos escombros do sonho que se desfez assoma sempre um ínvio vislumbre de um outro sonho que no horizonte se insinua – sempre o horizonte da esperança.

José Antunes de Sousa1

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Militar e professor universitário.


CONFESSO QUE… Assim Deus seja servido e me dê vida, é minha intenção escrever uma trilogia dos tempos em Angola. Serão aguarelas pintadas sobre a tela humana de hoje, mas reflexo dos tempos vividos na Angola que conheci e amei. Digo aguarelas porque, não obstante serem reais, falta-lhes a consistência do óleo. Como as aguarelas os acontecimentos perdem cor e diluem-se com as águas que vão correndo. Esquecem-se ou nem se lembram porque se desenrolaram na imensidão da planície ou no privado. Em qualquer dos casos sempre restritas a poucos observadores que pela sua condição, ou as esqueceram ou nunca as divulgaram. Aguarelas difusas, transparentes e diáfanas. Falta-lhes o rigor do traço mas sobra-lhes, penso eu, a fantasia incutida por um apaixonado como eu. Aqui me confesso: sou um apaixonado de África, das suas gentes e paisagens, conhecendo-lhe bem todos os defeitos e virtudes Àqueles que tiverem a generosidade de as ler peço, do fundo do meu coração, que não lhe encontrem outras pretensões, senão as que transparecem de uma simples carta de amor: exclusividade de dedicação, sinceridade, realidade e paixão. A saga romanceada que se estende por estas páginas é a história, junta em planos sobrepostos, que fiz coincidir, de muitos emigrantes, e, em particular, de muitos dos meus familiares que a viveram. Com as suas grandezas e misérias, foram onde ninguém antes tinha ido, encharcaram a terra com sangue, lágrimas e suor, criaram fazendas, abriram trilhos e estradas, construíram pontes, escolas, jardins e hospitais, universidades,


aldeias, vilas e cidades e, no fim, regressaram de mãos vazias. Na sua maneira particular de amar aquela terra, criaram os alicerces do tempo novo e do futuro. Os factos de fundo histórico que lhe servem de base ou me foram contado por testemunhas, que reputo de idóneas, ou são fruto de uma intensa pesquisa feita na Biblioteca Nacional de Lisboa e nos jornais da época, de Angola e Lisboa. Gostaria que estas estórias fossem apenas “cartas de amor”. “Todas as cartas de amor são ridículas… Afinal só as criaturas que nunca escreveram cartas de amor é que são ridículas” – disse um dia o Poeta. Eu sou assim. Cresci, combati, amei, e odiei… para voltar a amar! Hoje tenho profunda saudade de Angola, das suas terras e das suas gentes. Que Deus Todo-Poderoso, Misericordioso e Eterno, abençoe Angola, os seus mares e essa terra morena, seus rios, vales, desertos e montanhas e dê, para sempre, Independência, Paz e Prosperidade à sua gente e a esta grande Pátria. Amen.

João Sena


Não há acto mais corajoso nem mais belo do que o da partida. Isabelle Eberhardt

1.ª PARTE

POR ESTA VIDA ACIMA


o caçador de brumas

1. ABRIL DE 1930 Começo aqui este meu diário ao longo do qual vou tentar narrar as ocorrências que vivi de forma directa ou indirecta. Escrevo do que me vou lembrando sobre factos, circunstâncias e pessoas. Nem sei por que o faço. Vou registar no papel as agruras que aqui vivi, os sentimentos que me invadiram, as memórias que me atormentaram ou me consolaram. Vou escrever consoante o registo cronológico arquivado no meu cérebro sem datas precisas, pois aqui, neste imenso espaço, cada dia parece o reflexo do antecedente. Isto faz-nos perder a noção do tempo. Sinto-me perdido nesta terra que nem sei se desejei mas que me propus amar. Como me sinto só, escrevo para mim como quem conversa. Há mais de dois dias que chove sem parar. As botas há muito que ficaram incapazes; as solas estão gastas e descosidas. Sinto-me muitíssimo cansado, tenho a barba grande, o peito seco e descarnado pelas febres e agruras por que tenho passado. Chego a ter frio durante uma hora e logo depois estouro com imensa febre, fico enjoado, tenho dores nas pernas e muita sede – náuseas que me provocam vómitos e ânsias de tudo deitar fora sem que algo tenha comido. Bebo litros de água. Os leões da anhara2 rugem durante toda a noite. Tenho de estar atento, não vão eles atacar o acampamento. Com esta preocupação e ansiedade durmo pouco e mal. Ando nervoso e irritadiço. 2

Grande extensão de planícies cobertas de erva rasteira, a Leste do Planalto Angolano.

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joão sena Nestes últimos tempos houve guerra permanente com o encarregado dos trabalhos da linha, agora promovido a capataz. É um sujeito inqualificável. Veio para Angola, segundo sei, como condenado. Para esse tal Conapa, como gosta que lhe chamem, todos os nativos são bandidos, mandriões, madraços e ladrões. O chefe da aldeia detesta-o, mas como é branco, lá tem que aguentar com ele. Os problemas surgem uns atrás dos outros. Desde o dia em que cheguei que venho adiando o inevitável confronto com esse Chico Conapa. Tinham-me dito que todos os negros eram preguiçosos, lentos e desinteressados e que só com insistência faziam alguma coisa. O Conapa segue estes princípios a rigor. Já o vi zurzir um pobre trabalhador por uma falta que eu sabia ele não tinha cometido. Na minha boa fé disse-lhe isso mesmo e o bandido, deitando fogo pelas ventas, retorquiu-me: – Vá à merda seu fedelho. O que é que você sabe de mato? Para não arranjar maior confusão calei-me e fiquei a aguardar melhor oportunidade. Há dias fingi que não ouvi quando estavam a deitar brita ao longo da via; e, porque o obriguei a ir a pé, pois necessitava da vagoneta para carregar o material, teve o bandido o topete de me ameaçar. Rugindo entre dentes, chamou-me garoto e rosnou que não deveria tardar que me cosesse as costas com o chicote. O salafrário malha nos operários como em centeio verde. Por dá-cá-aquela-palha, arreia nos desgraçados como se estivessem nas galeras e gaba-se de que, se não fosse assim, nunca se tinha construído um metro da via. Mas o pior de tudo é que eu, por vezes, hesito e interrogo-me se o alma do diabo não terá uma certa razão – Deus me perdoe. Claro que de forma alguma aprovo os métodos deste safardana de merda. Seja como for, à luz dos meus princípios, chamei-lhe a atenção dizendo-lhe que não autorizava que ele batesse nos trabalhadores na minha ausência, quanto mais na minha presença. Atirou com o capacete colonial ao chão mesmo na minha frente e desatou a disparatar que “embora eu fosse branco, não era mais do que um garoto, um rapazelho...” Iria tomar conta de mim, pois não seria um fedelho como eu que lhe haveria de botar gamarra.

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o caçador de brumas Era a hora! Tinha de pegar o pião à unha. Encarei-o de frente e olhei-o bem nos olhos. O cabrão era baixo como eu. Desafiando-o nas próprias barbas, disse-lhe muito baixinho: – Fique sabendo, seu filho do diabo, ordinário de puta-madre, que se me levantar o chicote, eu estouro-lhe os cornos com uma bala da minha Kropatscheck. Você, seu condenado da merda, nunca mais volta a falar-me assim. Tome bem nota do que lhe estou dizendo: eu sou inspector de via e portanto seu superior directo. Estou-me marimbando bem alto para a sua rópia de condenado. A mim você não me assusta. Vi o ódio saltar-lhe pelos olhos; senti o cheiro do seu bafo quando, de raivoso, rangeu os dentes. Dentes? Os poucos que tinha naquela boca infecta. Quando padecia dos dentes, arrancava-os a sangue frio com uma navalha. Na altura cheguei a ter medo dele. Dizia-se que tinha morto a mulher e o amante com o machado de crestar pinheiros. Por isso fora condenado e degredado. Decidi que tinha de me afastar de tal bandido se queria continuar a viver por ali.

A arma fora adquirida na altura em que estive a percorrer a linha desde o Huambo e passei muitos dias no posto do Munhango. Estavam a acabar os trabalhos da ponte no rio Kwanza. Nas muitas horas de folga íamos beber cerveja à cantina do Vieira de Alcafozes que se transferira para Camacupa – hoje, em honra do grande homem que mandou construir o caminho-de-ferro, chamada Vila General Machado. Um dia apareceu um sargento de sipaios3, um tal Eça, gordo, batoteiro e bêbado. Queria à viva força jogar à batota. Tinha a mania do sete-e-meio, jogo em que o Vieira era um profissional. Durante três dias e outras tantas noites jogou com o Fortunato – chefe da estação, o Frias –, capataz da linha, um tal de Mendes Toucinho – trabalhador nos Armazéns Gerais do CFB4, e o Koen, mulato gordo, bem divertido, que ajudava os topógrafos 3 4

Polícias administrativos. Caminhos-de-ferro de Benguela.

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joão sena nos trabalhos de linha. Deixaram-no a tinir sem cheta, mais tesinho do que um carapau frito mas bem encharcado em cerveja. Com o vício entranhado nos cornos, o maluco do sargento não esteve com mais demasias. Perguntou-me se lhe queria comprar uma Kropatscheck, das da tropa. Ao princípio julguei que estava a mangar comigo, mas depressa me apercebi que falava a sério. Respondi que não tinha dinheiro para mandar cantar um cego, pois acabara de chegar da metrópole. O homem nunca mais me largou. Perguntou-me quanto ganhava, quanto tinha e se, por empréstimo de um daqueles gajos, não podia arranjar o restante – afinal eu era inspector de via... Vendo que resistia, pediu, suplicou para que, pelo menos, lhe fizesse uma oferta. Caí na esparrela e ofereci-lhe cem angolares. De olhos bem abertos e brilhantes, a reluzir de júbilo, apanhou a arma do chão e entregou-ma. Passei a ser dono da espingarda. Foi, como se diz, um bom negócio. Ficámos todos contentes. Fiquei com a arma e o sargento continuou a jogatina. O exército iria ser informado que se perdera mais uma arma na travessia de um rio, e uma espingarda a mais ou a menos pouca coisa importava. Logo ali, ao cantineiro, comprei umas vinte caixas de cartuchos calibre oito. Ele trocava as munições por tabaco e umas pingas de vinho aos sipaios. Tive de passar vale, pois já não tinha dinheiro. Na posse de uma arma pensei na hipótese de vir a ser caçador. Tinha que deixar de andar atrás daquela cegada das obras para as quais não tinha jeito nem competência e, muito menos, capacidade de aturar aquela chusma de gente. Passei a andar com a arma às costas e o cinturão à cinta. No capacete colonial coloquei uma pena de perdiz como os caçadores lá da terra. Comecei por atirar a um papel que espetava num embondeiro nos arredores do acampamento. Precisava de treinar muito para evitar que se apercebessem de que, em toda a minha vida, só dera tiros, poucos, quando o meu pai me emprestava a sua caçadeira para atirar a um ou outro coelho. Nessa altura, para afinar a pontaria, comecei por apontar aos pássaros grandes e depois a coelhos, falhando quase sempre. Um dia de tarde, o Manuel Canela Fina, filho do cozinheiro do acampamento com quem fizera amizade e muito conversava – o ganapo falava bem português – levou-me a

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o caçador de brumas uma planície que distava quilómetro e meio do acampamento. Ficava para lá da elevação do terreno, na base da qual estava o acampamento. Vi um bando de gazelas, antílopes, impalas e muitos bois-cavalo, ou gnus, como se queira. Pastavam no capim baixo. O meu coração desatou a bater mais forte e descontrolado. Seguindo as instruções do Manuel, conseguimos, sem fazer barulho, dar uma volta posicionando-nos contra o vento para que os animais não se espantassem e fosse possível chegar a menos de cem metros. Continuavam a pastar sem pressentirem o perigo. Ficámos deitados a espreitá-los durante uns momentos que me pareceram uma eternidade. Manuel ia fazendo gestos sobre o que eu deveria fazer. Ajustei a alça da Kropatscheck, afastei as pernas para fazer melhor pontaria, escolhi uma das gazelas, apontei e… A malvada da mira tremia tanto que até deixei de ver o animal. O Manuel, pressentindo o meu drama, disse em sussurro: – Respira fundo patrão, aponta bem. Depois, sem saber como, soou o tiro, a arma arrimou-me um coice maior que o de uma mula. Manuel, de catana empunhada, correu em direcção da presa. A gazela estava morta. O resto da manada, aos saltos, esfumou-se entre o mato e o capim alto. Por fim, cheio de orgulho e alegria por ter conseguido matar a gazela, também eu corri. Com a catana muito afiada para a sangrar bem, o Manuel cortou-lhe o pescoço e, para lhe extrair as tripas, esventrou-a enquanto dizia: – Tem que se fazer sempre assim patrão senão carne no vai prestar. Ao almoço do dia seguinte, carregada de jindungo5, comemos uma caldeirada. Toda a gente me deu grandes palmadas nas costas. Senti-me feliz.

Bem diferentes têm sido estes meus últimos tempos. Lembro-me dos trabalhos passados nas deslocações de bens e pessoas. Os machileiros6, por 5 6

Piripiri malagueta africana. Carregadoras da maxila, espécie de maca

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joão sena vezes, não queriam atravessar as chanas7 da Cameia8 por receio e medo dos leões. Uma vez as feras eram tantas que, para controlar a chusma, foi necessário requisitar no Moxico a tropa indígena em ajuda dos sipaios. As mulheres dos trabalhadores, só com uns trapos na cintura, quase nuas, seguiam sempre na retaguarda. Altas, esguias, muito elegantes, tatuadas na cara e na barriga, carregavam – apertados numa pele de cabrito – os filhos às costas. Na cabeça, os cestos e panelas para fazerem a chima9. Os carregadores, com as imbambas10 às costas, aproveitavam as paragens para se deitarem de costas na areia negra. Na planura da estepe pareciam uma multidão. Há dias, vindo do Huambo, veio cá um dos engenheiros que mandam na linha. Acompanhava-o um vedor – o Joaquim Termina – beirão muito entendido que, para abrir poços destinados a abastecer as locomotivas com água, procurou encontrar, ao longo da linha, veios de água fortes. Nesses lugares, onde fosse encontrada água, seriam construídas as futuras estações ou apeadeiros, consoante o interesse dos administrativos em aí nascerem povoações. Tive uma conversa com o engenheiro sobre o Chico Conapa. Disse-lhe que nos últimos tempos eu tinha andado a caçar para alimentar o pessoal; e, assim, evitava mais conversas com o dito cujo jagodes. Respondeu-me, porém, que pouco importava o que eu fazia. Se andava a caçar ou a acompanhar as obras era igual. O trabalho não acabava e toda a gente da CFB sabia que eu tinha as costas bem quentes. O importante eram as folhas dos salários e eu que tinha de as assinar por ser o inspector de linha. Quanto ao Conapa o assunto era só comigo. A qualquer hora podia despachá-lo para Vila Luso. Depois, para amansar, ou iria já para a rua, ou seria transferido para o Lobito onde lhe poriam cabresto bem forte. De qualquer forma, tencionava chamá-lo à pedra. Para acabar com equívocos e faltas de respeito, sempre péssimos exemplos para os naturais, iria pôr-lhe os pontos nos “is”. O problema do Conapa ficaria resolvido, parecia-me. 7 8 9 10

Planícies da savana que ficam alagadas na época das chuvas. Reserva de caça no Leste de Angola. Massa alimentícia feita com água e farinha de mandioca. Utensílios domésticos.

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o caçador de brumas Já se passaram tantos meses desde a manhã em que desembarquei no Lobito. Parece que foi ontem à tarde que deixei a minha aldeia. Sem saber porquê, como filme na minha mente, desenrolam-se as cenas ocorridas. Talvez seja a saudade dos bons momentos da vida em família, da amizade de toda aquela gente. Quando o moço de ganhão tocou o carro das vacas onde seguiam os baús de madeira e as malas de lata – aquilo a que a minha mãe chamava o bragal do filho – não pude conter as lágrimas. As criaditas da minha mãe faziam um berreiro, como se de enterro se tratasse. Todas vieram acompanhar-me até ao cimo do povo, acenando com lenços brancos ao menino que ia para as Áfricas. Até o meu pai tinha os olhos húmidos enquanto, sentado ao meu lado nas traseiras e com as pernas caídas do carro de bois, dizia: – Os amigos são para as ocasiões. O amigo Deodoro cuidará de ti como um pai. A minha mãe mostrara inteireza no lauto jantar de despedida. Compareceram os amigos da família: o senhor Ferreira, o senhor Barradas, amigos de sempre, o padre Fatela, nosso prior. Ela fora sempre a trave-mestra da família. Levantava-se ainda noite, preparava tudo, e dava as ordens à minha irmã Gracinda. Depois ia para a escola ensinar, desde as primeiras letras ao segundo grau. Vinha dar-nos o almoço e regressava pronto para fazer a parte da tarde. Estava na escola até às quatro, no Inverno, e até às cinco, no Verão. Só nas férias tínhamos mãe em casa. Naquele fim de tarde beijou-me repetidas vezes nas faces molhadas. Apertou-me contra o peito largo. Sussurrando com voz terna mas serena, deu-me a bênção e disse: – Vai filho querido É preciso… é preciso e necessário. És valente e vais ter sorte. Aqui nunca poderias ser empregado de ninguém. Lá é muito diferente. A África é longe. Depois, do bolso do avental de seda preta que colocava por cima da saia, tirou o relógio que guardava e fora do seu pai, sargento na Guarda Real. Meteu-mo na mão e disse: – Guarda-o bem… era do teu avô. Serás, como ele foi, um homem de carácter.

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joão sena Era o tempo em que os rebanhos pastavam pelas encostas. Descendo as canatas, as veredas dos pastores lá da serra, ao som dos chocalhos, iam beber água no ribeiro. Ao fim da tarde dirigiam-se para a ordenha. Os ganhões e os da jorna lá do povo, homens irmãos das pedras na rudeza e no carácter, enfrentavam em silêncio as tempestades e as agruras, regressando ao povo dos trabalhos e das vindimas só ao pôr do sol. Todos se descobriram e, abanando os chapéus, disseram-me adeus. Os simples são sempre generosos na solidariedade. Há muito se tinham acostumado a não ver passar a charrete onde o meu pai nos fazia deslocar à Guarda. Desses belos tempos já pouco restava. O cavalo morrera com uma cólica de velho e nunca mais fora substituído. Os mais reles, comprados na feira aos ciganos, custavam muitas notas. Que fazer? A charrete foi ficando num dos currais da casa, ao canto, junto dos galinheiros. Ao princípio ainda era limpa de tempos a tempos. Depois, sem perspectivas, quedou-se abandonada. As galinhas a empoleirarem-se nela sujaram-na por todo o lado. Um dia o meu pai levou para casa os candeeiros da charrete. Tinham vidros de cristal e eram muito bonitos. Passaram a servir de ornamentação, um de cada lado, na nossa sala de visitas, a ladear o espelho. A pobre da charrete morreu naquele dia. Os arreios e as cabeçadas do cavalo continuam abandonados e pendurados num grampo de madeira que o meu pai pregou na parede da adega. Lembro-me eu dos tempos em que, tanto eu como meus irmãos e minhas irmãs mais velhas, passávamos um dia inteiro a arear e polir todas as ferragens da cabeçada e dos loros! Primeiro, tínhamos de as lavar em água corrente; depois havia que lhes dar forte com um polidor em tudo o que era ferragens amarelas. A seguir punha-se a solarina e puxávamos bem o lustro com um pano de lã até ficarem a brilhar. Só no fim tínhamos de engraxar um ror de vezes os loros, os tirantes e as rédeas. Ficavam bem melhor do que os sapatos para ir à missa. Enfim, tudo na vida tem o seu momento de glória. Depois… depois vem o esquecimento.

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o caçador de brumas Quando chegámos ao cimo do Madanelo, já a caminho da Guarda, pude ver, num derradeiro olhar, a aldeia com as casas de granito, semeadas entre as verduras dos castanheiros e dos pinheiros do vale. Estas casas de xisto e de granito, – anagalhadas11 no vale entre os carvalhos velhos – enrugadas como os homens, são, na história escrita em cada uma das pedras, testemunhas silenciosas das penas daquelas gentes. Impassíveis, sofrem as inclemências do sol a queimar no estio e os frios dos ventos depois dos nevões nos prolongados Invernos. Assemelham-se algumas das gentes, que por ali se foram quedando e resistindo, aos penedos frios e velhos que também não têm sonho nem lamento. Passaram anos a ser mandados, viram nascer e morrer animais, árvores e homens. Naquele beco do mundo, onde a rotina há muito ganhou musgo, olhavam os que chegavam e os que partiam. Senti um baque no peito e tive a real certeza que a coisa era comigo, muito mais do que alguma vez pensara. Aqueles meses de preparação pareceram-me até divertidos. Os dias decorriam e eu era o centro das atenções. Muito tempo haveria agora de correr até que um dia eu ali pudesse voltar. Só Deus sabia se alguma vez ou nunca mais. Mas a quantos isto aconteceu num tempo a que a memória há muito perdeu o rasto? Quantos tiveram de partir em busca de terras distantes onde lhes fosse assegurado o futuro? Não fui o primeiro nem o último. Só Deus sabe quantos, um dia, sentirão como eu a amargura da partida. Durante mais de uma hora de viagem ninguém disse palavra. O nosso Tó conduzia as vacas e o carro em silêncio. Vigiavam os caminhos, os enormes pedregulhos que foram arredondados pelos séculos. Nem os eixos soavam. Contornámos a cidade e fomos directos para a estação. O meu pai acompanhou-me no comboio-correio desde a Guarda até Lisboa. Como de costume, sempre que saía de casa, vestia o fato preto impecável e asseado sem uma partícula de pó. Punha a gravata da mesma cor com uma camisa branca por baixo do colete onde sobressaía atravessada a corrente em ouro com que prendia o relógio. 11

Regionalismo, sinónimo de apertadas.

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joão sena Enquanto passavam as horas fomos comendo o farnel que a minha mãe ajeitara. Bebemos água de um garrafão e, de uma “botelha”, as pingas da nossa pipa. Foi então que o meu pai disse as primeiras palavras. O resto do tempo ficara a olhar para mim ou a fixar-se nos seus pensamentos. Olhava as árvores e as serras que iam correndo na janela. Quando passámos a serra do Caramulo começou a chover. Daquelas chuvadas rápidas de fim do Verão. Pareceu-me então que o seu olhar ainda tinha ficado mais triste. Era de poucas palavras e parco nos gestos carinhosos, mas nós sabíamos quanto nos queria bem. Reparei melhor. Envelhecera a olhos vistos. O cabelo, de súbito, ficara branco; os olhos azuis, serenos mas fundos, estavam presos numa emaranhada teia de rugas vincadas e profundas – fruto das muitas idas à Guarda a caminho do tribunal – para concertar ou dilatar prazos de pagamento e promissórias. A fábrica da lã, que tecia cobertores de papa, mantas farrapeiras12, malhas de Saragoça13 e até telas de sarrobeco, fora morrendo durante vários anos. A chegada da electricidade e a nova indústria da Covilhã, muito mais rica, produtiva e moderna, com operários a trabalharem em vários turnos dia, foram as causas mais visíveis e directas. O meu pai julgou ser moda passageira. Quando teve de enfrentar a concorrência em preços, só para não fechar o engenho, foi-se endividando e um dia teve mesmo de fechar. Eu estava pronto para ir para o liceu. Tinha até feito a quinta classe mas, face à nova perspectiva de vida, fui trabalhar com ele. Vendíamos o que tínhamos no armazém em feiras, romarias e mercados, para ver se salvávamos algum dinheiro. Um dia, para pagar uma letra, o meu pai teve que vender a furgoneta. Até os mercados tinham acabado. Ficámos reduzidos ao senhorio, que sempre mantivemos lá na aldeia, à pequena loja de retalho e às leiras herdadas que só garantiam o passadio. Ao fim do dia, já noite cerrada, chegámos ao Rossio. Apeámo-nos e, carregando as malas, fomos andando até à pensão Alcobia, no Poço do Borratém. No Rossio, só estavam uns vagabundos e dois ou três táxis à espera de clientes. A Praça da Figueira, toda cercada por portas de ferro, parecia uma enorme gaiola – portas fechadas e sem vivalma. Só os gatos 12 13

Tecidas com fitas de diferentes cores de outros tecidos já usados. Tecido grosseiro de lã escura usada nos meios rurais pelas mulheres.

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o caçador de brumas se abrigavam dos pingos da chuva e centos de grilos cantavam. Cheirava a flores e peixe ao mesmo tempo. Até Lisboa me pareceu triste e chorosa na véspera da minha partida. No dia seguinte, visitámos um conterrâneo muito amigo de meu pai, o senhor doutor Patrício da Fonseca. Morava no Bairro da Lapa – onde fomos de carro eléctrico – e era muito amigo do novo ministro, senhor doutor Salazar, que fazia parte do ministério do general Ivens Ferraz. Os dois perus e a grande alcofa amanhada pela minha mãe talvez tenham ajudado a que o senhor doutor me desse uma carta de recomendação para entregar em Luanda ao senhor governador-geral – “O que manda em Angola.” –, disse. À saída, o senhor doutor, com muita gentileza e amizade, acompanhou o meu pai à porta. Porém, a maior surpresa sobre a influência e amizade do senhor doutor estaria reservada para a manhã do dia seguinte quando chegássemos ao navio “Quanza” que, ainda a cheirar a novo, carregava para a África na doca de Santos. Antes de seguirmos para o cais, o meu pai foi a uma loja da Baixa. Ali comprou uma caixa com meia dúzia de garrafas de vinho do Porto para eu levar de lembrança ao amigo Deodoro Faria. Passámos depois pela Casa Africana, com um preto sempre à porta, onde o meu pai comprou uns sapatos pretos e brancos todos rendilhados e segundo me disseram, “ made in England ” – coisa fina. Custaram duzentos mil réis, duas notas. Eram para o nosso amigo e meu futuro patrão. – O Doro é muito dado a estes luxos! Disse o meu pai sorrindo.

Ao entregarmos o bilhete de terceira suplementar – um lugar nos beliches dos porões do vapor onde viajavam os passageiros pobres, que custava menos de vinte notas, dois contos de réis – apareceu logo um senhor fardado. Olhou para o meu nome, depois consultou um papel que tinha tirado do bolso e disse para eu o seguir. Descemos as escadas do navio e foi-me instalar num dos melhores camarotes da segunda classe. Poderia

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joão sena ir comer à sala de jantar da primeira classe pois era convidado do comandante. Um rapaz de cor, o camareiro, de pronto me ajudou a arrumar debaixo da minha cama a mala, a caixa do vinho do Porto e o embrulho com os sapatos. – Aqui vão melhor durante a viagem –, dizia o rapaz muito prestável. Estavam no camarote mais dois passageiros. Demos fortes mãozadas. Um era sargento e o outro marçano num armazém em Luanda. Acabavam de se instalar, um por cima e outro por baixo, nas duas camas do outro beliche. Assim que o comissário saiu, os meus novos companheiros de viagem quiseram saber qual era a minha importância para tamanha distinção. Em poucas palavras, já que me sentia muito enjoado com o cheiro do vapor, lá lhes consegui dizer da amizade de meu pai com o tal doutor importante que era lá dos nossos sítios. Para experimentar, deitei-me na cama que iria ter durante a viagem. Deitado, de olhar vago, vieram-me à ideia os últimos tempos da minha curta vida… No último abraço, com as derradeiras recomendações que dali para diante teria de ser um homem, o meu pai deu-me muito discretamente uma bolsa de veludo, dizendo baixinho: – Isto é para uma grave… mas muito grave emergência. Eram quinze libras em ouro. A minha garantia de regresso a Portugal em caso de força maior – a minha sorte na herança. Mas tinha de ir ao convés para uma última despedida. O meu pai permanecia no cais, olhando. O cheiro do navio, o baloiçar nas vagas do Tejo e as casas a subirem e a baixarem na margem deixaram-me com ânsias de vomitar. O “Quanza” principiou a mover-se. Quando estava a dizer adeus ao meu querido pai, cada vez mais pequenino aos meus olhos ceguinhos de choro, veio-me um vómito das entranhas. A muito custo, só para não sujar um outro passageiro que ali estava a meu lado, sustive-o. Tive então muita vontade de chorar alto, bem alto, mas estava ali tanta gente… Quis ir deitar-me para o tal camarote, mas já nem sabia ao certo onde ficava. O importante era o saquito de veludo e ter de o guardar bem no fundo do bolso. Sorvi, uma a uma, as lágrimas bem amargas da partida.

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o caçador de brumas O barco afastava-se e o Tejo era cada vez mais largo e negro. Uns peixes enormes, a quem ouvi chamar golfinhos, iam acompanhando o barco. Mergulhavam, apareciam e desapareciam, e depois, em saltos sincronizados, voltavam a emergir aos pares um pouco mais adiante. Num pronto a cidade ficou pequena e as serras quedaram-se mais longe e mais cinzentas. Turvou-se-me a vista e foi uma vergonha: vomitei ali mesmo junto de tanta gente. A viagem até à Madeira foi um pavor. A tempestade começou logo ao sairmos da barra e nunca mais parou. As vagas varriam de cabo a rabo tudo o que encontravam e o navio dava pulos como os galgos atrás das lebres. O barco abanava por todos os lados e as paredes rangiam como se fossem desfazer-se. No primeiro dia da viagem tiveram de ser os companheiros – de quem nem sequer sabia os nomes – a alcançarem-me a toalha molhada onde afogava os vómitos e limpava a boca e a testa. Deram-me uma data de comprimidos e só acordei no outro dia já em alto mar. Nas poucas vezes que tentei sentar-me no beliche sentia o mareio e logo os vómitos num estômago vazio. Julguei que morria. Parecia que as tripas me iam saltar pela boca. Temeroso para mim era o ranger e o abanar de todos os componentes do navio; prometiam desfazer-se a qualquer momento. A ajuda do camareiro Soares, muito útil, não pode ser esquecida. Acudia logo que tocava a campainha da cama, alcançava-me os remédios e cuidava da minha roupa. Mesmo nos momentos de maior aflição, tinha sempre o cuidado de lhe perguntar se as minhas botas-de-elástico estavam bem arrumadas no armário. Logo que chegara ao camarote, eu tinha metido numa delas a bolsa de veludo com as libras. Vi-me no espelho. Nem me reconheci… estava escanzelado e cheio de olheiras. Mandaram-me tomar um banho de duche. A água saía a ferver. O meu espanto foi maior quando verifiquei ser água salgada. Quem haveria de acreditar? Com um sabonete especial lavei-me. O banho fez-me bem. Lá em casa, no Inverno, só tomávamos banho de quinze em quinze dias. Aqui querem que se tome banho todos os dias. Se não fazemos nada porque raio de coisa haveríamos de transpirar?

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joão sena Na nossa casa, tomar banho era um ritual. Cada um tinha o seu dia. O meu calhava aos sábados de tarde. Chovesse ou nevasse, começava por ter de ir buscar ao poço no quintal duas latas grandes de água. Depois, com bons modos, pedia à minha irmã Gracinda que deixasse aquecer a água no fogão. Se estava de má catadura obrigava-me a ter de aquecê-la na lareira. Tal obrigava a ter de colocar na trempe um caldeirão grande e pesado, chegar-lhe a lenha necessária e, enquanto a água aquecia no fogão ou na lareira, ainda tinha de colocar a banheira de lata no meu quarto. Lavava-me como podia na banheira onde apenas podia estar sentado. Quando terminava, embrulhava-me no toalhão turco e ia deitar-me na cama durante meia hora, fosse Verão ou Inverno, para não apanhar uma pneumonia que podia acabar em tuberculose no Sanatório da Guarda. Neste luxuoso paquete tudo era moderno. Bastava entrar na casa de banho e abrir as torneiras para sair água a ferver ou água fria salgada do mar, com uma força que até picava a pele. Uma delícia!

Nem sei se, apesar de ser uma linda terra, gostei da Madeira. Os meus companheiros ajudaram-me a levantar e vestir para ir a terra. Fazia-me bem ir tomar ares. Descendo as escadas do navio, que balouçavam com’ó raio, embarcámos numa lancha a remos sempre cercados pela canalha que, em pelota, nadava e pedia umas “pataquinhas” aos passageiros. Como os tais golfinhos, mergulhavam e iam apanhar as moedas. Quando eram cinco tostões de prata, era uma guerra danada. Almoçámos umas postas de peixe-espada. Foi o senhor Pires que disse ser um petisco da Madeira. Soube-me bem e foi a primeira vez que tal comi. Caminhámos a pé e vimos os jardins, os parques de uma beleza infinda, subimos as encostas até ao Paúl da Serra e dali vimos toda a cidade. Nas ruelas, empinadas e húmidas, cobertas de flores e arrimadas às levadas, corria água aos cachões. Já noite, regressámos ao inferno do balouçar do “Quanza”. A minha primeira atitude foi verificar se as botas estavam no armário com o seu recheio intacto. Graças a Deus que sim.

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o caçador de brumas Um dia disseram-nos que a hora tinha mudado. Não entendi. Para que raio havia de mudar a hora? Fiz a primeira tentativa para jantar com os meus amigos no refeitório da segunda classe. Estive, a bem dizer, uns três minutos sentado. Um malvado vómito fez-me correr para os lavabos e num instante para o camarote. Só deitado tornei a ter algum sossego. Entretanto veio o bom tempo. O vapor seguia num mar calmo, sem ondas, sem balanços. O calor apertava, o céu estava carregado de nuvens que de repente despencavam grossas cordas de chuva para parar logo num segundo. Inacreditável. Passava então horas a apanhar ar nas cobertas traseiras e a conversar com os outros passageiros. Uns por curiosidade; outros, ao saberem que eu viajava só, metiam conversa e pareciam ter pena de mim. É impressionante a quantidade de gente vinda dos mais variados sítios. Vão à procura de fortuna, de mudança de vida. Têm uma fé cega na esperança de melhores dias. O curioso é que os mais pobres vêm à sorte e são os mais felizes. Encontrei dois casais de Trás-os-Montes que, com carta de chamada mandada por outros familiares ou conterrâneos, iam trabalhar na lavoura ou no que calhar. Conversei também com dois casais de professores que, bem novos, iam para ficar. Havia mais três sargentos que pertenciam aos coloniais e, com as mulheres e filhos, iam para a outra costa – Moçambique. Havia um outro, o Armindo, algarvio de S. Brás, rapazote da minha idade que ia para se casar com uma rapariga da Huíla. Tinha a certeza: queria ser muito rico. Para pagar a viagem e os preparos do tal casamento tinha vendido o pouco que tinha e ainda ficou empenhado. Eu olhava e ficava impressionado com tanto amor e fé. Vinham outros que estavam de volta a Angola ou a Moçambique. Tinham estado a passar férias na metrópole. Havia duas enormes famílias de enfermeiros, os Van-Dunen e os Palhares, gente divertida de Angola, óptimos companheiros, melhores conversadores e bebedores de cerveja. Os filhos e filhas estudaram e passaram de ano nos liceus de Viseu e Lisboa. Contavam-no a toda a gente e reviviam as aventuras em detalhes. Nos bailaricos a que assisti no convés, as filhas e amigas delas, moças muito bonitas e danadas para dançar, animavam as farras como eles diziam. Embora umas trigueiras e

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joão sena outras quase brancas, puseram a cabeça à roda aos homens que as queriam namorar. Até a mim me fizeram dançar. Numa noite, a Gabi, teria catorze anos, estava sentada ao meu lado e à viva força quis dançar comigo. A música era lenta e suave; quase parados, senti a sua perna e o bico de uma das mamas, tão arrimados nós estávamos. Numa das voltas encostou a cara à minha; senti como um choque eléctrico, nunca tinha estado tão arrimado a uma rapariga séria. Tinha bailado duas ou três vezes lá nas danças de roda que se faziam no terreiro da minha terra ao som do harmónio do Ti Bernardino. Ali, no meio do mar, as coisas eram bem diferentes. Tentei acertar com a música e fui eu que, numa segunda volta, arrimei a cara à pequena. Senti-me com calores e vontade de a apertar e senti-la mais juntinha a mim. Foi sol de pouca dura. Numa noite em que toda a gente espreitava as estrelas, uns e outras nos cantos do convés do navio davam beijos e apalpões, ouvi a delambida dizer à prima Lili que eu mais não era do que um besugo. Fiquei uns mais momentos a escutar a conversa sem que elas me vissem e dei conta pelos meus próprios ouvidos de que, na gíria delas, um besugo era um parolo. Jurei que nunca mais dançaria com aquelas gajas tão sabidas e atrevidas. O meu amigo sargento Pires bem me atiçava para que voltasse a dançar com a Lili, que podia vir a ser um bom partido para mim. Dançar um tango era fácil e permitia uns “arrimanços”. Eu sorria, olhava-o, nada explicava, mas não dançava. Ela até era prima da outra. O Gilberto Carapeto estava na casa dos trinta, era bem apessoado e muito descarado com as raparigas. Contava histórias, mentiras ratadas sobre os mais variados assuntos. No final, mesmo que tivesse sido ouvido com aparente credibilidade, rematava que tudo o que tinha dito eram só petas para a gente se divertir e passar o tempo. Uma das suas com maior sucesso era aquela de se intitular engenheiro de máquinas pelo facto de ter sido aprendiz de barbeiro lá na terra. Nesse tempo de grandes necessidades, aprendeu a lidar com as máquinas zero, um, dois, três e quatro. O descarado, assim que entrou no navio, meteu conversa com duas jovens senhoras na casa dos trinta anos que seguiam para Lourenço

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o caçador de brumas Marques. Eram cabeleireiras e na bela cidade do Índico queriam montar um negócio do seu ramo. Ambas eram solteiras divertidas e iam à procura de marido rico. Entrementes gozavam a vida. Foi assim que num folgo se fez íntimo da Gabriela, a mais bonita das duas. Conversavam largas horas, dançavam os tangos quase grudados e as valsas rodopiando pelo salão, viam o mar nas madrugadas e… eu sei lá… O tipo nunca se descosia, entrava altas horas da noite no camarote, pé ante pé, – Para não incomodar... – dizia. O sargento Pires perguntava, insinuava, tentava tirar nabos da púcara, mas pouco troco obtinha. O Gilberto Carapeto ria, encolhia os ombros e nada adiantava. Eu assistia a tudo aquilo mas faltava-me a coragem para também fazer perguntas. Fazia-me dormido, limitava-me a observar, sorrateiro, quando ele mirava no espelho as arranhadelas vermelhas que tinha nas costas. Dizia então entre dentes: – Aquilo é que é uma fera! Será que o descarado andava a pôr-se na gaja?

No barco havia muito mais divertimentos. Cartas, jogo do loto, onde se ganhava quase quinhentos mil réis e, todas as noites, cinema, a que eu nunca faltava. Um dia, depois do jantar, na coberta, sentou-se a meu lado uma senhora. Era sogra de um dos sargentos das tropas coloniais e vivia em Angola há mais de vinte anos. Quando soube que eu emigrava sozinho e sem família ficou muito apiedada e passou a tratar-me como se fosse minha mãe. Entendia dar-me bons conselhos e até chegou a fazer-me festas na cabeça como se eu fosse um garoto. Aos poucos, acabei por lhe contar a minha vida com todos os detalhes. Recordar e desabafar fazia-me bem. A dona Isaurinha – como gostava que lhe chamassem – escutava-me em silêncio e, se interrompia, era para aclarar ou esclarecer detalhe mal contado. Contei-lhe que o nosso amigo Deodoro Faria, importante proprietário no Lobito, me tinha mandado a carta de chamada. Iria trabalhar com ele, talvez como marçano numa das lojas. Queria também mandar algum dinheiro para casa a fim de ajudar o

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joão sena meu pai a desencravar-se da má sorte que lhe havia tocado nos últimos anos e, se Deus quisesse, haveria de ficar para sempre em Angola. Perguntou-me então a boa senhora se eu já tinha “prometida”. Deixei-me rir, encabulado. Apenas tinha um derriço com a Clarinha, a neta do senhor Barradas. Era só coisas de garotos, nas férias grandes, sem quaisquer compromissos. Acrescentei que talvez viesse a casar com alguma moça que encontrasse. O que é que eu fui dizer! A dona Isaurinha nunca mais parou de me dar conselhos. Este era um assunto fundamental para a minha vida. Contou-me histórias que dizia e garantia terem sucedido em resultado do feitiço das mulatas – umas desavergonhadas. Em narrativa trágica, falou-me das maleitas que se agarravam quando o homem branco se metia com as negras. Havia histórias de cortar o coração, dizia, acontecidas no meio do mato ou no sertão. Contava-se que jovens e bonitos rapazes se finaram por se terem amancebado com as negras. Ao fim de poucos anos todos ficavam cafrializados, velhos, carecas, desdentados, carregados de filhos e sem vintém. Mas o pior dos piores nem eram as negras ou as mulatas, eram as malvadas das cabritas14. Essas eram quase brancas e quase sempre muito bonitas. Tinham o diabo no corpo, tinham feitiço. Persignava-se três vezes para esconjurar a terrível lembrança. Eu ia ouvindo, ouvindo... sem nada dizer. Fechava ela os avisados conselhos sempre com a mesma certeza: que eu devia mandar vir para junto de mim, quanto antes melhor, essa tal Clarinha. Devia ser moça direita e por isso mesmo era o que me convinha para a vida. Porém, um dia a conversa tocou-me fundo. A dona Isaurinha, falando da vida nas cidades que absorviam tantos colonos, tirou umas sábias palavras que guardei. Disse que eu, como marçano ou empregado, nunca conseguiria ter nada. Com ordenados nunca ninguém enriquecera. Quem não tinha profissão ou arte para se estabelecer numa cidade, precisava de crédito e dinheiro, o que nem sempre era fácil de conseguir. Assim sendo, que não tivesse medo e entrasse pelo mato dentro. Ali sim, havia espaço e oportunidades para não ser empregado de ninguém. Que trabalhasse 14

Filhas de mãe mulata e pai branco ou vice-versa.

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o caçador de brumas a terra úbere e generosa no interior no planalto, montasse um pequeno negócio, uma taberna e loja, pois já sabia como era; mandasse vir a Clarinha e juntos, em poucos anos, faríamos fortuna. Nessa noite, antes de me deitar, fui ver as botas e procurei no seu interior o saco com as libras. Ao tocá-lo tive o pressentimento que tudo iria correr bem.

Com o passar dos dias fui-me acostumando à rotina de bordo. Quando me senti com mais coragem e mais adaptado no vapor, fui dar um passeio. Queria ir ver como era o vapor e como seriam esses tais porões da terceira classe. Desejava só ver como teria sido a minha situação se não fosse a influência do senhor doutor Patrício da Fonseca. O que vi pôs-me os cabelos em pé. As pessoas passavam o tempo deitadas, enjoadas, vomitando ali mesmo. O cheiro era nauseabundo, mesmo asfixiante. Nem dá para descrever. Muitos vomitavam no chão quando iam a caminhar para as retretes sitas no meio do porão; outros ali mesmo ao pé da tarimba. As mulheres gemiam e choravam baixo; os garotos, despidos ou sem calças, gatinhavam perdidos naquele escuro labirinto. Para comerem, tinham de subir umas escadas para um refeitório onde, em mesas grandes, sem lugares marcados, se sentavam conforme chegavam. Durante o dia podiam vir tomar ar ao convés do navio, mesmo rente ao mar. Era então que se podia ver aquela gente descalça, muito branca, de camisas de estopa, e calças de gorgorão ou sarrobeco amarradas com uma guita, de olhar esbugalhado perdido na imensidão do mar. Ao fim da tarde, quando não chovia e ao pôr do sol – rezavam. As palavras de fé, os mistérios do Rosário, as plegárias, por aqueles que eles pensavam estar ainda mais necessitados, eram arrastados na espuma do navio, como no vento ficavam os cânticos em honra de Nossa Senhora da Fátima, a Padroeira de Portugal. Devia também eu pôr as mãos ao céu e agradecer a Deus a boa sorte.

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joão sena Quando deambulava pelo “deck ” encontrei o tal oficial do “Quanza” que tinha sido tão simpático comigo. Fez questão de me convidar a jantar no salão da primeira classe, pois era esse o desejo do comandante. Por mais que agradecesse ou tentasse adiar lá tive de aceitar. Confesso que aquilo não me agradou. Eram muitas as cerimónias, os salamaleques dos criados. A ementa, que eu não entendia, era enorme e estava cheia de nomes em francês. A mesa tinha muitos copos e muitos talheres. O meu melhor fato de brim branco, – mandado fazer no nosso alfaiate da Guarda –, parecia um jaleco comparado com as roupas dos cavalheiros que ali abancavam. O comissário fez-me sentar numa larga mesa redonda, entre casais janotas e senhoras carregadas de anéis e jóias, como só vira no cinema ou nas montras das ourivesarias lá na cidade da Guarda. Enquanto comia, quatro músicos em cima de um pequeno estrado tocavam piano, flauta, violino e um rabecão grande. Eu, aflito, tentava imitar os gestos das outras pessoas sem levantar os olhos do prato. O senhor a meu lado apresentou-se, disse-me o seu nome, que estranhava só então ver-me à mesa e perguntou se eu tinha estado doente, pois parecia um pouquinho amarelo. Disse-lhe que sim. Depois, arrependido da mentirita, contei-lhe que viajava em segunda classe e tinha sido convidado pelo senhor comissário. O senhor Mota quase fez um discurso. Disse que não me devia envergonhar. A maioria dos colonos que tinham ido para Angola, muitos dos quais estavam agora a emigrar para o Brasil e para a Venezuela, fazendo lá falta, tinham vindo em terceira classe. Mais tarde, quando voltavam, em férias de graciosa, já viajavam em primeira pelo fruto do seu trabalho. Fora esse o seu caso – disse – batendo-me nas costas. O senhor Mota, com a mulher e as filhas, mais uma criada angolana pouco mais velha que elas – fardada de bata e crista branca sempre plantada ali ao lado da mesa para lhes dar de comer e limpar os moncos enquanto as meninas comiam – regressava a Luanda depois de ter estado mais de um ano de férias na metrópole. O sujeito só falava dos seus muitos empregados, das suas muitas fazendas, não sei com quantas centenas ou milhares de hectares onde pastavam milhares de reses, etc., etc. Iria agora mandar desmatar as baixas

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o caçador de brumas e as encostas, deixar crescer o pasto para mais animais pastarem; depois, aproveitando o estrume e revirando fundo a terra para arrancar as raízes dos troncos decepados, plantaria mais uns milhares de árvores do café. Assim ficaria muito mais rico. Para rematar a sua bela antevisão do futuro fez de mim mangação, dizendo e chalaceando que estivesse descansado, pois em Luanda não havia leões nas ruas e os naturais não andavam nus nem de zagaia em punho. Só por ser novo e viajar de navio pela primeira vez, eu era algum parvo? Agradeci muito ao senhor comissário Manta e pensei em não voltar a pôr lá os pés. Era muito mais agradável e divertido comer com o sargento e o Gilberto. A comida na segunda classe era mais à nossa maneira. Belos cozidos, excelentes caldeiradas, para não falar dos enormes bifes de carne muito tenra, que davam a qualquer hora e que nós rebatíamos com uns valentes copos de vinho. As pingas reduziam os enjoos.

Uma noite em que ficámos até mais tarde a jogar à sueca, apareceu o tal comissário que nos levou a comer a sopa dos fogueiros, os que faziam andar as máquinas alimentadas por seis fornalhas e três caldeiras. Descemos escadas e mais escadas de ferro, empinadas e estreitas como as dos bombeiros, até chegarmos aos fundos do navio. Foi uma noitada. O chefe das máquinas, o senhor Reis, em fato-macaco e a transpirar por todos os poros, foi o nosso anfitrião. A sopa – chamada a sopa do fogo – era uma espécie de sopa de pedra mas para melhor. Foi acompanhada por um vinhaço de primeiríssima categoria; depois, no meio daquele calor e do permanente barulho, continuámos a conversar e a comer queijo da serra bem curado. Às tantas, trouxeram uma cafezada bem quente, aguardente e brandy francês. Uma patuscada das antigas. As anedotas, cada uma mais brava que a anterior, contadas pelos fogueiros e os outros maquinistas, ajudaram à digestão. Foi o que se poderia chamar de uma “noitada atlântica”. Quando me fui deitar, já ia tão alegre e contente como acontecera uma vez na romaria da Senhora da Póvoa, quando lá fui a convite do tio Firmino, grande comerciante numa terra junto do Sabugal.

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joão sena O meu pai tinha feito questão em mandar o nosso carro de bois ornamentado com belas colchas e puxado por dois enormes animais conduzidos pelo nosso Tó, o ganhão. Estreava na ocasião um chapéu novo com a imagem da santinha entalada na fita, umas calças pretas e camisa branca. Fazíamos uma “figuraça” nas aldeias por onde fomos passando. Ríamos e cantávamos cantigas ao som do adufe bem tocado pela Gracinda, ou dos harmónios, realejos ou zamburras de outros alegres romeiros, peregrinos de outras terras, noutros carros, por outras estradas e caminhos, todos para o santuário da Senhora da Póvoa, no Vale de Lobo.

Um dia, bem cedo, senti o vapor parar. Antes tinha dado uns roncos com as sirenes. Parecia estar aflito. Os meus companheiros dormiam a sono solto. Acordei o Gilberto. O homem esfregou os olhos e mirou-me meio pisco, ouviu a minha aflição e, voltando-se para o outro lado, disse: – Não se aflija nem se chateie… Devemos estar a chegar a Dakar. Calei-me. Mas… eu ainda não estava descansado. Vesti-me e fui ver à coberta. À minha frente, estava a grande cidade, a capital do Senegal, cheia de edifícios e casas entre muitas árvores e palmeiras. Havia um cais enorme, como o de Lisboa, cheio de guindastes e um molho de gente. Atracados estavam amarrados cinco cargueiros. Um grande cruzador da marinha com bandeira francesa fumegava como um forno nos dias de nevoeiro. Os marinheiros, todos de branco, com os pompons vermelhos nos bonés, camisas às riscas azuis e brancas, corriam aos magotes pelas escadas. Viam-se navios, barcaças, e muitas pirogas feitas em troncos de árvores que, tocadas por nativos quase nus e carregadas de frutas tropicais, rasgavam as águas negras da baía. Passados uns minutos, o nosso barco foi encostando ao molhe e, num pronto, amarrado ao cais. Quando botaram as escadas, já ao meu lado estavam os meus companheiros bem engomados e cheirosos prontos a desembarcar. Queriam ir dar uma volta pela cidade, fazer compras e mudar o óleo. Quase em coro diziam: – Isto assim a seco não pode continuar … Tiveram de esperar que eu fosse ao camarote para acabar de me ajeitar, fazer a barba e recolher os escudos que sobejavam. Acabámos por ir ao

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o caçador de brumas salão tomar o “matabicho”, como eles chamavam ao pequeno-almoço e, radiantes e bem comidos, descemos as escadas do portaló. Ligeiros, fomos descobrir a cidade. A manhã quente estava magnífica. As avenidas, bordejadas de palmeiras, coqueiros, buganvílias e acácias floridas, pareciam não ter fim. Os edifícios altos do porto e da parte comercial da cidade tinham três e quatro andares e, nos telhados ou varandas cimeiras, erguiam a bandeira francesa. Os passeios estavam cheios de gente a caminhar em todos os sentidos. Dakar era uma cidade a sério. Nas muitas lojas os vendedores pareciam diferentes. Trajavam largas vestimentas brancas e um copo de feltro vermelho na cabeça, a fazer de chapéu. Não eram brancos, mas também não eram negros e tinham o cabelo grande e liso. O sargento Pires disse-me que eram libaneses. Eu fiquei na mesma, embora tenha feito um ar de entendido. Cruzámo-nos com negros trajando vestimentas largas até aos pés, muito ataviados de branco, que se misturavam com outros de cabeça coberta por turbantes e envoltos em panos brancos, azuis e outras cores escuras. Entre eles apareciam mulheres também envoltas em panos da cabeça aos pés e com a cara tapada. Eram os mouros; assim dissera o meu amigo sargento Pires. Andavam assim por causa da religião. Passavam também algumas sultanas – aprendi este nome naquele dia – de olhos tristes e de longas vestes alvas. Iriam rezar à grande Mesquita de Dakar, a oração do meio-dia. Nas esplanadas encontrámos europeus que falavam em francês. Disseram-nos haver na cidade e na Ilha de Gorée mais de três mil brancos. Tinham maneiras formais e descontraídas, pareciam gente feliz em férias, apesar de parecerem discutir. Bebiam café ou cerveja que lhes serviam os criados negros de calções até aos joelhos, camisas brancas, alto barrete vermelho na cabeça, mas todos descalços. Cirandámos pela cidade; vimos o Mercado Kermel que abastecia quase trinta e quatro mil habitantes e fomos visitar a Catedral então há pouco inaugurada. Numa das esplanadas bebemos cervejas e o Gilberto Carapeto aproveitou para trocar escudos por francos franceses no balcão do café. Instantes passados, o amigo Gilberto regressou radiante. Já sabia onde era a melhor e a mais fina casa de meninas mulatas da capital, quanto

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joão sena custava um desafogo e com a informação que a melhor hora para o efeito era o findar da manhã por haver menos freguesia. Eu estava muito apreensivo pela falta de dinheiro e pela pouca experiência na matéria. Só uma vez tinha ido com uns primos às casas de passe na Guarda. Quando um dia quis lá voltar, logo dei de caras com um polícia que sabia ser eu sobrinho do chefe da esquadra. Ele era casado com uma irmã da minha mãe. O polícia deu-me uma bronca das antigas, gritando aos quatro ventos que me levava preso se me voltasse encontrar por aqueles sítios. Nem tentei adiar o que não era para adiar. Eles queriam, desejavam, necessitavam, gostavam e nem que um raio os partisse tinham mesmo de ir às putas. Pronto. Caminho que se faz tarde. A dita casa, na comuna de Hann Bel-Ah, era um chalé rodeado de um belo jardim. Estava no final da avenida onde começavam os armazéns do porto. À nossa frente lá estava a Ilha de Gorée. Empurrámos a cancela do jardim e fomos entrando sem cerimónia. Fomos atendidos por um negro de turbante, tronco nu e umas sapatas arrebitadas na biqueira. No interior da casa cheirava a incenso e estava cheio de véus que caíam em arco até aos tapetes. Fomos encaminhados para uma sala repleta de espelhos e bancos de veludo encarnado. Parecia que estávamos dentro da tenda das mil e uma noites que eu vira no cinema da Guarda. Uma senhora francesa, aparentando ter cinquenta anos, vinha envolta num robe de seda transparente, quando chegou ao nosso encontro. Tinha os cabelos muito louros e fumava por uma longa boquilha. Saudou-nos como se fôssemos amigos de toda a vida. Madame para cá, madame para lá, mais uns gestos elegantes que diziam do pretendido, suprimos a carência do não sabermos o idioma francês. Um bater de palmas e a sala, num pronto, ficou cheia com uma dúzia de mulatas lindíssimas e risonhas, tapadas por um véu de tule que nada escondia. Um luxo. Conforme a tal madame ia dizendo os nomes, faziam uma pequena vénia como no teatro e depois iam sentar-se esparramadas, com as pernas ao léu nos sofás vermelhos, reflectindo-se a sua imagem nos inúmeros espelhos.

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o caçador de brumas Eu estava sem fala. Nunca na minha vida tinha visto tantas raparigas belas só com um véu de tule que lhes cobria a cara e quase nuas. Os calores, fossem da minha fornalha central fossem da sala onde a grande ventoinha rodava, apoquentavam-me de tal forma que o suor me corria pelas costas e ensopava o fato de linho grosseiro. Cheguei a pensar o pior quando vi nas várias imagens que os espelhos reflectiam a minha triste figura. Como dizia o meu amigo Bernardino Pinto, estava roxinho de tesão… O Gilberto Carapeto, homem mundano, fino e prático, fazendo um sinal com os dedos, ficou a saber quanto custava o ver de perto. Os vinte francos cambiados para escudos eram muito mais do que as minhas posses. Eram mais ou menos vinte mil réis. O suor agora parecia que iria escorrer por fora do casaco. A aflição era tal que por momentos julguei ver tudo turvo. Adelino Pires, talvez porque tivesse dado conta da minha aflição, puxou de um molho de notas que entregou à madame e num português que tentou afrancesar disse: – Eu tenho aqui francos que chegam. Dá para que sejam servidos os meus amigos; depois fazemos contas. Uma das lindas meninas sorriu e eu, aparvalhado, sorri também. Ao sinal da madame, ela levantou-se, pegou-me pela mão e, meio atordoado, lá fui. Subimos as escadas até a um quarto cor de tabaco onde estava uma larga cama com colchão de penas e ao lado um pequeno biombo. Deslumbrado com a novidade da situação, a riqueza do enorme quarto de paredes pintadas com deuses e mulheres nuas, fiquei estático junto da cama. A minha companheira fechou a porta, sorriu, tirou o véu de tule que lhe cobria o rosto e deixou cair aos pés as calças de seda. Ficou nua. Parecia uma estátua bela e cheia. A pele, canela clarinha; os olhos verdes de água sorriram para mim; os seios erectos com os mamilos escuros eram a guarda avançada de um ventre aplainado entre as ancas onde o oásis negro e denso era sustido pelas duas colunas das adornadas pernas. Caminhou suavemente e enquanto me ajudava a despir o casaco encharcado em suor, os seus lábios húmidos e quentes iam mordiscando as minhas orelhas. Com os longos dedos de unhas compridas, devagar, muito lentamente, acariciou-me o pescoço e depois as costas.

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joão sena Os movimentos eram suaves e longos. Um calor que nunca sentira na minha vida tomou conta de mim, enquanto ela me tirava a gravata e a camisa. Já na minha frente senti o quente bafo do seu hálito de hortelã. Não me pude conter mais. As minhas mãos trementes tocaram aquela pele de cetim e apertei-a com força contra mim. As mãos dela desapertaram-me o cinto e as calças caíram arrastando as ceroulas. Não sei se caí sobre a cama se foi ela que me derrubou. Já nu, senti o contacto daquele corpo quente; os seus lábios corriam como lava escaldante pelo meu corpo, arrastando os medos e as frustrações de uma adolescência reprimida. Tive a certeza que pronto iria explodir. Apertei-a com mais força. As últimas fronteiras foram derrubadas e… entrei no paraíso que me haviam dito ser a terra do pecado. – Explodi! Propunha-me vagar até ao infinito, pensar prolongar aquele idílio … e rebentei! Não me consegui controlar e como um chibato vim-me na cabra sabichona… A deusa, o pecado, o talismã de um conto de fadas, o paraíso encontrado tinha os seus olhos de água bem perto dos meus e sempre sorrindo levantou-se da cama. De trás do biombo trouxe uma toalha com água quente, com que foi apagando a inépcia da minha pouca experiência de derrubes rápidos, perigosos e furtivos com as criaditas lá de casa. Num espelho que reflectia a cama vi projectada a minha imagem e corei. Tive mesmo vergonha de mim. A imagem era de um rapazito muito branco, horrível de branco. Reconheci as minhas pernitas magras, peludas e ainda por cima as malditas botas de atanado preto, feitas na Guarda, que julguei serem o máximo da elegância. Ali estavam elas, sem pudor a porem o ponto final nos meus pés, encimadas pelas meias de algodão, feitas em croché pela tia Camila. Para fugir do pesadelo e ao pesadelo, olhei ao lado. A tragédia continuava com as minhas ceroulas de estopa caídas e enrodilhadas. Tudo contrastava com a finura e a elegância da rapariga, sempre sorridente e carinhosa, que se deitara de novo a meu lado. Tive pena de mim mesmo. Mais que pena: raiva, vergonha… até piedade!

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o caçador de brumas Se não fosse um assunto tão sério, até dava vontade de rir. O troféu que tanto me orgulhava, quando no Verão íamos nadar para as represas do rio Mondego, lá na Misarela, ali estava prostrado e flácido. Era bem a minha mágoa e a completa desonra. Se calhar, os vinte francos já estavam esgotados; teria de pagar nova experiência… Uma profunda tristeza e a tal íntima prostração – que falava o Poeta, lá da Guarda15 – entraram em mim. Nem sei até se a cara mostrava o meu drama. A mão dela, mão da misericórdia, começou a acariciar os meus cabelos; depois, mais suavemente, a minha face, o meu peito; cada vez mais serena foi baixando, baixando… Senti de novo aquele calor subir ao mesmo ritmo que os dedos esguios com longas unhas vermelhas tacteavam a minha carne. O regressar da anestesia começou quando ela se encurvou e os seus cabelos negros caíram sobre mim tapando-lhe o rosto. A boca a escaldar foi beijando os meus mamilos, roçando por entre os pelos do meu corpo. Lentamente fez o percurso descendente, beijou o meu umbigo e… A boca, a língua, os dedos conseguiram fazer-me explodir de novo. Estivera passivo, surpreso, agora… sentia-me de novo macho. Apertei, mordi, beijei, afaguei, penetrei, suei, morri e renasci numa apertada luta onde os suores se misturaram em ais e gritos. Os sinos tocaram por dois corpos jovens perdidos entre quimeras e sonhos. A realidade era igual aos sonhos que me acudiam nas noites mais frias, aos pesadelos de ter pecado que também me aconteciam e que tinham de ser contados ao cónego espanhol, surdo e refugiado da Guerra Civil de Espanha, na confissão da Santa Missão16. Por fim o repouso. Os instantes de ternura comprada à vendedora competente tinham terminado. Eis que ela salta de novo para trás do tal biombo. Ouvi o cantar da água derramada, o assobiar suave de uma música e com o tal sorriso, desta vez envolta no mesmo tule, fez-me sinal que era a minha vez de me arranjar. Quando regressámos ao salão da casa os meus companheiros já lá estavam. Bem dispostos, riam, bebiam cerveja, pitavam uns cigarros e – 15 16

Augusto Gil. Pregações Pascais

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joão sena ainda que só por gestos – em amena cavaqueira com as garotas. O Gilberto Carapeto já era íntimo da madame. Ao pôr-do-sol regressámos ao barco. Mas o dia das surpresas não acabara. Na vasta praça que adornava o porto, centenas de negros ajoelhados, de rabo no ar, face na terra e os olhos voltados para o distante túmulo do Profeta, rezavam a oração da tarde como manda o Alcorão. Entre pilhérias, dichotes, anedotas e a euforia de machos saciados, entrámos no vapor e a viagem continuou sem sobressaltos. Doces namoricos no convés do navio. Muitas madrugadas à espera de poder ver o sol raiar, entre eternas juras de amor que durariam só até Luanda.

Chegámos, dias depois, às Ilhas de São Tomé. O navio apitou três vezes ao dobrar o cabo e a deslizar como um cisne nas águas mansas da Baía de Ana Chaves – o amor proibido de um Rei – que para ali fora degredada. Pelo menos foi assim que me contou o Soares. A ilha verde, a rica ilha do cacau, tão disputada pelos ingleses, apareceu como um presépio sem figuras. Tudo verde, muito verde de variados tons e – perdidas entre aquela mancha mesmo à beira da água serena e transparente – lá estavam umas quantas pequeninas casas brancas. As árvores entravam pelo mar adentro. O ar parecia mais grosso, tinha um cheiro raro muito especial; ouvi chamar-lhe de clorofila; era quente e o suor ensopava a minha camisa de estopa. Espreitando pelos binóculos do comissário, vi amontoadas na orla da praia, junto ao ancoradouro, milhares de formigas que se iam transformando em homens. Se não fora pecado, pensaria que o Paraíso tinha sido num local como aquele que os meus olhos viam. O navio ficou ao largo. Num pronto, começou o vai e vem dos gasolinas a levar e a trazer de terra senhoras e cavalheiros. Os feitores das roças Boa Entrada, Rio do Ouro, Prado, Monte Café e o da roça Água Izé, roças pertencentes ao marquês de Valle-Flor, homem muito rico que vivia entre Lisboa e Paris, mais os senhores administradores da roça Bela Vista, convidaram o comandante e todos os passageiros que quisessem ir almoçar a terra. Assaram carnes de cabrito e porco, beberam

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o caçador de brumas cerveja inglesa e assistiriam a uma festa feita pelos contratados de Angola em honra de tão ilustres viajantes. Eu nem sequer quis desembarcar com o medo da chata que carregava os passageiros e de poder voltar a enjoar. Nada quis com a aventura e a comezaina monumental proporcionada pelos colonos, que há muito se falava. Quem também foi a terra, carregado de malas e embrulhos, foi o nosso criado de camarote, o Soares. Sempre que o navio ali tinha paragem levava para os seus familiares presentes, mimos e as lembranças que juntava durante as viagens, pois nem em todas o navio ali fazia escala. Quando regressou, trouxe-me uma caixa de banana seca e outras frutas tropicais. Uma maravilha. Vinha muito animado, pois, segundo nos disse, tinha estado todo o dia a beber cerveja de palma com a família e os amigos. Nunca tinha passado por nada tão emocionante como aquela viagem, – aqueles dias sem terra à vista, aquele vento e aquele brilho do sol agora entupido de nuvens baixas, prenhas de humidade, que nos faziam suar. A vida a bordo seguia a sua rota normal; ainda não se tinha esquecido uma, já surgia outra grande festa, a passagem do equador. Ao meio da tarde, nos altifalantes de bordo, o comissário Manta reiterava o convite para que todos os passageiros que nunca tinham passado o equador se reunissem nas cobertas já que, para atravessar tal linha, o navio daria um salto… Os meus amigos do camarote, muito sérios, abanaram a cabeça e disseram que era assim mesmo. Como nos exercícios feitos para sabermos a baleeira que deveríamos tomar para abandonar o navio em caso de naufrágio, assim era também preciso quando se atravessava pela primeira vez a linha do equador. Mas como é que o vapor dava um salto? Lembrava-me bem o que o senhor professor José Maria – que em paz descanse – com o auxílio da vara de marmeleiro ou da palmatória me ensinara, explicando com todos os detalhes que essas linhas da geografia eram apenas imaginárias. O Gilberto, manhoso, sorria e o Pires encolhia os ombros. Lá nos juntámos aos demais passageiros. O comissário Manta era quem mandava na festa. Estava vestido com umas vestimentas de Neptuno, um deus qualquer das águas, disseram. Tinha na mão uma vara com um tridente de prata no extremo, vestia calções de banho e, caindo

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joão sena dos ombros ao solo, uma capa bordada com ondas azuis, da cor dos calções. Acolitavam-no o Gilberto, já em calção de banho, uns quantos marinheiros do navio, a tal Lili e as amigas, todas com vestimentas brancas, talvez camisas de dormir. Ao som de músicas animadas pela banda do navio fomo-nos juntando, rapazes e raparigas que viajávamos pela primeira vez. No centro estava uma mesa cheia de doces e copos de champanhe. Manta começou a chamar-nos pelos nomes. Chegados junto dele, dizia umas palavras, não sei se em latim, se num outro qualquer idioma e, como se fosse o baptismo, despejava-nos na cabeça o líquido da taça de champanhe. As primeiras foram a Gabi e a amiga Ester, depois eu e mais uns quantos, todos gente nova. Foi anunciado pelos altifalantes do navio que naquele preciso instante tínhamos cruzado o equador e entrávamos no hemisfério sul. Muitas palmas e vivas aos neófitos, com ordem para começarmos a comer os biscoitos e a beber a nossa taça de champanhe. De repente, uns marinheiros que tinham estado de lado a ver o espectáculo, apareceram com umas mangueiras grossas como as dos bombeiros e zás… vai de atirar jactos de água para cima de nós. Ficámos todos molhados. A escorrer água. As meninas batiam palmas de contentes. Manuela perdeu a compostura e, agarrada ao Gilberto e este a ela, davam grandes beijocas na boca. Ester também toda excitada olhou à volta e como não encontrasse nada de jeito, suponho, agarrou-se a mim aos beijos. Senti as suas mamas enormes apertarem-se contra mim. Fiquei bem enrascado. Ela olhou para mim e disse-me: – Que pena seres tão inocente! Tivesse sido hoje e outro galo lhe cantaria… Toda a gente estava a rir e a aplaudir enquanto nós, molhados como uns pintos, tentávamos fugir das mangueiradas. No fim, tudo acabou em bem. Fomos recebidos pelo senhor comandante que nos entregou um diploma em papel do navio, com selo e carimbo, do qual constava que, a tantos do tantos, tínhamos atravessado o equador. Houve depois festa rija no salão. Até eu dancei um tango com a menina Lili. Por sinal bem agarradinhos.

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o caçador de brumas Os meus companheiros tinham feito intervalo numa das infindáveis partidas de King; bebiam cerveja e faziam comentários brejeiros sobre o meu desempenho.

Comecei a pressentir que aqueles doze dias de felicidade entre o mar e o céu estariam a ponto de terminar. O visível nervosismo das pessoas arrastava-se nas águas escuras que turbilhavam, rasgadas pelo navio prestes a chegar a Matadi. Era o rio que, um dia, os tais portugueses de quinhentos, já a caminho das terras da Índia, tomaram pelo mar que punha fim à África. O “Quanza” ancorou ao largo. Em curtos minutos começaram a desembarcar e carregar mercadorias para batelões. Entraram e saíram autoridades, – julgo que portuguesas e belgas –, uns quanto negros fardados de marinheiros, e nem sequer autorizaram que viesse gente de terra visitar o navio devido ao mau tempo. Foi assim coisa rápida, pois o temporal fez com que muita gente não saísse dos camarotes por se sentir enjoada. O mar voltou com ondas altas e largas. Chovia muito e o calor apertava. Trovões ribombantes e relâmpagos imensos aos ziguezagues, imponentes, amedrontavam e iluminavam a noite. Aproximámo-nos de Luanda. Na entrada da barra o vapor deu o ronco. A manhã estava radiosa, sem uma nuvem. Depois de uma noite de tempestade o astro brilhante de anil dominador tingia em azul-marinho as águas quietas da baía. Passados minutos o navio começou a deslizar naquele lago. Eu, de olhos escancarados, não queria perder pitada daquela terra e daquele tempo que a sorte, o meu fado, me tinham determinado. As barreiras vermelhas corriam à minha esquerda, altas e recortadas pelo mar e pelo vento. Olhei para o meu relógio: eram seis horas da manhã. Pela primeira vez e de perto, eu via a terra prometida. A terra onde, se Deus quisesse, um dia haveria de morrer. Estava à minha frente a silhueta de um pequeno morro com um castelo rodeado de pequenas casas. O morro esbatia-se à direita para aterrar numa ilha debruada a espuma. As casas brancas jogavam às escondidas entre o verde das palmeiras e as cubatas negras, que se iam definindo no arvoredo. A cidade aparecia mesmo ali à frente. O amontoado das casas e o recortar das palmeiras ficavam cada vez mais nítidos.

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joão sena Por fim o ”Quanza” estacionou no meio da baía. Como em Dakar as pirogas cirandavam à sua volta e, com dezenas de nativos, foram-se aproximando os batelões. Os silvos da manobra misturavam-se com a expectativa dos passageiros. As barcaças iam-se encostando ao bojo do vapor. As escadas do navio foram arreadas; os primeiros funcionários da capitania entraram no navio depois do gasolina, que os transportara a grande velocidade, ter estacionado junto às escadas. Dos escaleres da Marinha subiram a bordo várias pessoas e um senhor fardado. Espreitando nas amuradas do convés íamos dando conta de tudo o que se passava, ansiosos por desembarcar. Quando acostaram as barcaças para a segunda classe, o meu amigo Pires estava todo aprumado com o seu uniforme de caqui, balalaica e calção até aos joelhos, tudo bem engomado, mais o capacete colonial, botas de bezerra e meias altas. Conseguiu que eu e o Gilberto fôssemos juntos, pois os que ficavam em Luanda saíam primeiro. Desequilibrei-me ao entrar na “chata” – como chamavam à barcaça – e, se não fosse agarrar-me bem ao Gilberto, teria malhado com os costados na água. Minutos mais tarde punha os pés na bendita terra de Angola. Tive o cuidado de pôr o pé direito, como repetidas vezes me tinha dito a minha santa mãe. Em terra, na enorme estação arrimada à murada, os comboios em manobras cirandavam para trás e para a frente. A algazarra dos negros gesticulando e falando um idioma meio cantado, as buzinas das camionetas e automóveis, o apitar dos barcos, a alegria dos brancos que esperavam na estação marítima, ajudaram a encobrir a emoção que me ia na alma. As palmadas do Adelino Pires e do Gilberto Carapeto nas costas a desejar-me boa sorte foram recebidas com um sorriso e o profundo sentimento que tudo haveria de correr bem naquela abençoada terra. Já no Cais das Portas do Mar fui despedir-me da dona Isaurinha. Estava ladeada pelos filhos e netos enquanto se instalava num automóvel da praça. A querida senhora pespegou-me dois sonoros beijos em cada face, e tratando-me por tu pela primeira vez, disse-me:

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o caçador de brumas – Meu filho, que Deus te proteja. Toma bem conta de ti e toma tento no que eu te disse. Se precisares de alguma coisa, a nossa casa está sempre aberta. Somos agora a tua família… Não é verdade, Joaquim? Deu-me então um grande abraço e outros tantos beijos, ajeitou o chapéu e em passo decidido caminhou para o táxi. Estava tudo dito. Era igual à minha mãe. O sargento Pires, em passo estugado, encaminhou-se para uma zona onde estavam os tropas, fez uma continência toda emproada a um tenente e entregou-lhe as guias da licença. Ao sinal de um soldado africano, uma chusma de soldados negros fardados com camisa e calções azuis, acudiu a apanhar as bagagens e os caixotes. Carregaram-nos num grande carro de duas juntas de uns bois meio esquisitos. Gilberto disse-me que aquilo era um carro dos boers. Fiquei na mesma. Estávamos em África e ponto final. Por minutos fiquei contemplando em silêncio a enorme estação de caminhos-de-ferro. Qual Guarda, qual Rossio! Ali mesmo, arrimadas ao mar, as linhas eram muitas e as locomotivas e vagões estavam espalhados por toda a parte. Havia muitas pessoas, senhoras e senhores todos vestidos de branco, à nossa espera. Cheguei a pensar que talvez fosse dia de mercado ou até feriado aquele dia de quarta-feira. Lembro-me de ter ouvido alguém dizer ser dia de “São Navio”. Não entendi, mas achei graça. Entre abraços de vários amigos fomos para uma camioneta da tropa pois, como disse o Pires, eu tinha de entregar a tal carta no palácio do governador que ficava no caminho da Fortaleza de S Miguel. Assim que saímos do porto foi o deslumbramento. A manhã surgira como um sol. O calor agradável, a maresia, o cheiro a sal e peixe seco, as buganvílias e acácias rubras que debruavam a baía e se entremeavam com as palmeiras e os coqueiros, eram algo novo para mim. Na caixa da camioneta que seguia devagar, eu olhava para as pessoas brancas e negras, quase todas vestidas de branco, circulando nos passeios para cá e para lá, sem pressas nem atropelos. Na minha aldeia, quase toda a gente andava de preto. O luto era eterno. A Avenida Salvador Correia era o coração de Luanda. Muita gente, muitas lojas, muito calor e muitas mulatas, quase todas bonitas. Para não destoar do que era hábito entre os luandenses, parámos na Cervejaria Bijou

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joão sena para tomarmos a primeira cerveja. – A dar boas vindas. – disse o Gilberto. Encontraram vários amigos da sua república: o Zé da Vela17, o Toninho Toucinho e o Manuel Verdete, mais outros companheiros de ofício e fornecedores do comércio em que trabalhavam. Havia alguns bem divertidos. Eram os mulatos. No final de cada história que contavam – eu não entendia a maior parte – davam grandes gargalhadas, rindo com as mãos e os pés, mas os mais divertidos foram o Mário Luís, o Manuel Valente e o Carlos Cardona, grandes jogadores de futebol. As cervejas “Home Brand”, a transpirar de frias, eram servidas por rapazes negros – um chamava-se Manuel Nem Lhe Vi! –, com os dentes muito brancos a brilhar, entre as chalaças e os risos dos clientes. Para fazer boca iam trazendo pratinhos com moelas e pipis de frango, amendoins torrados e camarões pequeninos, tudo picante como o raio que os parta. O Zé da Vela sentou-se ao meu lado. Eu, timidamente, pois acabara de o conhecer, perguntei-lhe se por acaso ele não era de uma aldeia ao pé da Guarda que tinha esse nome. A resposta foi pronta: – Qual quê? Esses sacanas chamam-me assim porque quando falta a luz em Luanda sou eu que tenho de acudir aos motores… e lá tenho de andar com a vela na mão… Outro, dos que chegaram, muito engraçado, redondo e baixo, era o Toninho Toucinho que trabalhava na Casa Americana. Como correra para chegar rápido, a transpiração corria-lhe em bica pelo rosto e brotava em todo o corpo, pois a camisa estava encharcada. De imediato se prontificou a arranjar-me lugar e enxerga na república. Agradeci e informei que seguiria para o Lobito, ao que retorquiu: – Eu bem queria arranjar um homem sério lá para casa. Ainda não é desta. Pela sua reacção pude constatar surpresa e desapontamento. O Manuel Verdete, adepto do Benfica, segundo me disseram, refilou logo: 17

Também nome de uma freguesia do concelho da Guarda.

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o caçador de brumas – O gordo está sempre a implicar comigo. À viva força quer correr comigo lá do quarto só porque, diz ele, cheiro mal dos pés. Verdete era assim chamado por de facto tal parecer. Tinha uma cor doentia e foi o único que bebeu água. Andava mal do fígado por causa das febres, disse-me o Toninho ao ouvido, acrescentando: – Este não chega a chambaril… Minutos depois apareceram o Spínola, caçador profissional, e o Zé Moca, muito dado à praia e que trabalhava – isto é um modo de dizer – pouco e mal, com várias pausas e feriados, na Fazenda Pública. As novidades eram muitas e as conversas cruzadas. Falava-se ao mesmo tempo sobre Lisboa e as terras de cada um, das histórias da viagem, da nossa epopeia em Dakar – bem contada e aumentada – já se vê, etc., etc. Sabiam-se as notícias dos que tinham morrido, dos que, em licença graciosa, estavam para lá. Vieram as larachas, as piadas e os dichotes sobre as coristas e as farsas de uma companhia de teatro que por ali estivera com a Adelina Fernandes. As perguntas, mais ou menos libidinosas, e os comentários chulos de competentes desempenhos foram uma constante enquanto o assunto teatro esteve na mesa. Contaram-se também outras novidades sobre a cidade. Que tinha progredido muito com o Américo Verdades em presidente, e que a polícia só dormia e chateava. Em resumo, tudo o que de bom estava a acontecer em Angola tinha sido feito ou mandado fazer pelo grande Norton de Matos. Eu ouvia e ficava maravilhado enquanto as garrafas de cerveja vazias coalhavam nas mesas. Quando nos levantámos, eu devia ter deitado abaixo umas três garrafas. Gostara da cidade, daquela gente e dos copitos da cerveja que cada vez mais me deliciavam. Que grande diferença da minha terra! Lá nas tabernas, só os ricos, os que eram muito ricos, bebiam cerveja. Os pobres, ou mesmo os remediados, pediam meio litro de vinho; o ti Jaime enchia um jarro de barro negro à medida, punha um púcaro em cima do balcão e todos bebiam. Os mais asseados limpavam os beiços e deitavam o fundo do púcaro na terra húmida. Era por isso que as tascas cheiravam tanto a vinho. Já estávamos de pé prontos para sair quando um dos empregados, que já andava de sapatilhas, trouxe um livro de vales para assinar. O Gilberto Carapeto fez um rabisco enquanto me dizia:

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joão sena – Aqui é assim… só se paga no fim do mês. Dirigimo-nos para a porta onde parámos. Na rua a gente não parava, parecia o Rossio de Lisboa. Caminhando para a paragem do machibombo – os autocarros da cidade – vinha a Didi. Uma beleza… uma estampa! A morena, de blusa verde e saia branca muito travada, sapatos altos, parecia uma rainha. Eu e os demais estávamos sem fala. Só o Gordo gritou com os olhos arregalados: – Viva o Sporting! Na torre dos Correios bateram as onze da manhã.

Subimos à cidade alta e parámos junto do Palácio do Governo. Os sentinelas – dois soldados negros de cófió vermelho enterrado na cabeça –, dormiam ao sol encostados às duas armas. Quando já estávamos a cruzar a porta, depois do Pires lhes ter dado um berro, fizeram ao mesmo tempo a continência ao sargento. Como se fôssemos duas pessoas importantes entrámos no palácio para entregar a carta que eu trazia para o senhor comandante Filomeno da Câmara, o governador-geral de Angola. O meu amigo Pires conhecia o contínuo, pois deu-lhe grandes abraços de boas-vindas antes de subirmos escadaria acima pisando um fofo tapete encarnado até ao primeiro andar. No gabinete a que nos dirigimos estava o tenente Noronha de Campos, o ajudante de campo de sua excelência. Pires fez os cumprimentos militares, disse ao que vinha e nas mãos do oficial ajudante de campo deixámos a dita carta, bem como as direcções do Pires e do nosso amigo Deodoro Faria no Lobito, bem como a informação que eu seguiria no outro dia a bordo do “Quanza”. Mais cumprimentos, mais continências e eis que chegámos à Fortaleza de S. Miguel. Tínhamos visto na cidade alta os edifícios do Paço Episcopal, do Quartel-General do Liceu e várias outras residências apalaçadas. A descarregar os caixotes e as malas do Pires e do Gilberto vi pela primeira vez brancos misturados com os negros. Eram os condenados, como me disse o meu amigo. À nossa chegada, os negros deram muitos vivas e os brancos, com as roupas de ganga azuis como as dos negros, pararam e, com todo o respeito, vieram cumprimentar o meu amigo Adelino Pires.

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o caçador de brumas Para mim tudo era novidade; constatar a muita importância do meu amigo, as caras dos condenados sem bolas de ferro nos pés e, sobretudo, o poder contemplar de perto a imponente fortaleza carregada de história. Das suas ameias pude admirar a magnífica vista da cidade de Luanda. Mesmo por baixo, como um lago azul, a enorme baía e a cidade ali estavam. Dali, Luanda, cheia de tons ocres dos telhados entre os verdes das muitas árvores, com rasgadas avenidas e imponentes edifícios, parecia um presépio. À esquerda, a Ilha do Cabo e a restinga, com o mar à volta. Do outro lado e a poente, entre o promontório da Samba e o mar, as praias estendiam-se a perder de vista, como que despregadas das barreiras vermelhas até ao horizonte. Pequenas ilhotas tinham-se distribuído pelo azul-escuro das águas. Nunca na minha vida sonhara com tanta e tamanha beleza! Almoçámos no forte. Tínhamos preparada a moamba18 de galinha feita pelo cozinheiro privativo do sargento, um pobre homem já de carapinha branca. Na juventude, o cozinheiro tivera maus fígados e pior vinho. Em tempos idos, para celebrar a boa colheita de algodão na sua terra, na Baixa do Cassange, apanhou uma enorme bebedeira e, descontrolado, “suicidara” uma das suas mulheres e ainda tivera vagar para queimar vivos, na cubata, uns parentes menos divertidos. Apanhou vinte e tal anos de degredo. Mas essa história fora há tantos anos que já se tinha esquecido. Agora andava por ali em liberdade. Ia fazer o rancho à cantina e discutia com as quitandeiras19 a qualidade das hortaliças e dos outros frescos, “Para patrão nosso comandante”. Nos últimos anos, em vez das masmorras do forte, dormia nos fundos do quintal da residência do Pires. Não resisti à curiosidade e perguntei quantos homens e mulheres brancos ali estavam a cumprir pena. A resposta deixou-me meio atordoado. Eram quinhentos e dezassete os condenados e deles, quarenta eram brancos. Haviam ainda a trabalhar em Luanda, por decisão do senhor governador-geral, os condenados políticos que habitavam na cidade. 18 19

Guisado angolano. Vendedeiras de hortaliças.

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joão sena Bem comidos e melhor bebidos – despachámos o garrafão de cinco litros do Cartaxo –, fomos na carrinha militar dar uma volta para eu conhecer a cidade. Vimos a cidade burocrática, já fechada àquela hora. Trabalhava-se na parte da manhã; as tardes eram reservadas para a sesta e ao pôr-do-sol bebiam-se uns copos com os amigos. Na Luanda moderna havia ruas bem traçadas, limpas e ladeadas de pequenos chalés à antiga portuguesa, com quintais cuidados, cheios de papaieiras e mangueiras. As sombras das árvores seculares abrigavam as residências de madeira com telhados de zinco e varandas a toda a volta. Havia algumas modernas, feitas de tijolo, rebocadas, caiadas de branco e cobertas por telha portuguesa. Na parede frontal ostentavam um painel de azulejos, representando santos ou, então, frases de boas vindas para quem chegava. Acabámos a ronda pela cidade. Na Ilha do Cabo, perto da tasca da Ermelinda, ali mesmo ao lado, nas cubatas, dançava-se ao som de grafonola. O Pires levou-me a ver a dança. Eram negrinhas novas, vestidas com panos garridos, que dançavam. O ritmo era endiabrado e os bailarinos roçavam-se uns nos outros misturando corpos e suor. Para acalmar o sangue a ferver-me nas veias lá foram mais umas quantas cervejas geladas. Ainda houve alguém que sugeriu irmos acabar na casa da Mariazinha. Tinha lá, a exercer, mulatinhas de truz. Mas eu estava demasiado borracho para o efeito. O dia tinha sido longo e bem agitado. Dormi em casa do sargento Pires como se tivesse chegado a casa; fui agasalhado pela mulher Adosinda e os dois filhos, uma rapariga, a Paula, e o rapaz mais novo, o Manuel; ambos andavam na escola. Acordei tarde e almoçámos cozido à portuguesa. Para rebater deram-me arroz doce semelhante ao da minha casa. Ao fim da tarde, já a caminho do porto e de regresso ao barco, atravessámos as terras das ingombotas cheias de cardos, matorrais e piteiras onde, pela noite, vinham os mabecos – uns cães bravos feios e fedorentos –, disseram-me. Vimos os bairros indígenas cheios de rumor das muitas gentes, com cores garridas, de onde sobressaía a vozearia do falar rápido no seu idioma. Nos bairros periféricos havia muito mau cheiro e pobreza por toda a parte. As despedidas no cais foram sinceras e curtas. Adelino Pires apertou-me nos braços e parece-me que nem disse palavra. Gilberto Carapeto, com

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o caçador de brumas forte abraço e muitas palmadas nas costas para desejar boa sorte, meteu-me no bolso um papel com direcções de gente amiga que me poderiam ser prestáveis no Lobito. Prometemos escrever. A emoção foi forte. Tinham vindo também Zé da Vela, Toninho Toucinho, Mário Luís, Manuel Verdete e o Zé Moca. De novo a bordo, senti-me só. O barco apitou e os motores roncaram forte. Estava de novo em marcha na direcção do sul. Encostado à amurada do navio, vi perderem-se ao longe as luzes de Luanda. Fiquei horas sentado numa das cadeiras do convés. O luar, resplandecente da lua cheia, fazia das águas um espelho. Senti-me triste e só como nunca tinha estado na minha vida, perdido na imensa África que me espreitava no escuro. Os pensamentos levavam-me para bem longe, para a minha casa, onde, quem sabe, já teria começado a nevar. Lembrei-me das noites da minha terra, onde o luar se reflectia no manto de neve. Veio-me à memória o meu velho pai, a pensar de olhar perdido, por detrás dos vidros. A neve caía e ele, depois de ter enrolado o tabaco na mortalha, fumava. A minha querida mãe, a velha mestre-escola, aparecia-me a fiar ou a dobar, com as criaditas ao lume. A memória vinha nas labaredas ou nas brasas a esmorecerem no borralho. Pareceu-me ouvi-la gritar para a minha irmã Gracinda. Esta desgraçada, por ser a mais velha, era a nossa segunda mãe. Acudia à freguesia da loja sem se enganar nos pesos, nos trocos, ou no apontar dos calotes no livro. Tinha ainda de ajudar o nosso pai a arquivar as facturas, as letras e os descontos. As mais novas, a Maria – a nossa Russinha –, depois de fazer os deveres, saltava a corda e a Aida brincava no chão com uma boneca velha de trapos. Os meus outros dois irmãos – o Firmino e o Manuel –, ao voltarem da escola, em vez de fazerem os deveres ficavam a jogar à bilharda, ou a ver se havia tordos nas abuizes e costís armados nos olivais da várzea. Não tardará muito que, também eles tenham de partir à procura da sorte e do emprego que ali nunca poderão arranjar só por serem filhos do senhor Jerónimo Casteleiro, o rico industrial que, honradamente, faliu. A saudade vinha-me de dentro. As lágrimas corriam serenas. Não havia ninguém para ver e, assim, pude chorar à vontade.

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joão sena Quando, horas ou minutos depois, regressei ao camarote vazio, procurei nas botas o saco das libras e, de relance, vi-me no espelho. Não podia acreditar. Parecia o filho da comadre Balbina, ranhoso e a chorar como um bezerro desmamado. Deus me livre! Sentei-me na cama com o saco de veludo bem apertado entre as mãos e fiz uma jura sagrada: nunca mais voltaria a chorar por ter medo ou pior ainda, por ter piedade de mim. Tinha vindo para África e havia de vencer. Esta era a minha terra.

2 Passei as primeiras horas da manhã caminhando pelos corredores do tombadilho da segunda classe; dava voltas como os burros nas noras, nas regas de Verão. O navio seguia agora com menos de metade dos passageiros para os portos do sul, para a África do Sul e, por fim para os portos de Moçambique. À hora do almoço, assim como quem não quer a coisa, aproximei-me do balcão onde deveria estar o comissário Manta. Não esperei muito. Chegou e vinha sorridente. Contei-lhe que os meus amigos tinham desembarcado em Luanda e, como estava só, perguntei-lhe a medo se, caso ele não se importasse, eu poderia almoçar com ele. Não me largou mais. Fomos juntos até ao bar da primeira. Perguntou-me se queria tomar um aperitivo. Mandou vir dois whiskies com soda. Eu já sabia que era uma bebida fina, mas nunca a tinha bebido. Quando provei, a mistela soube-me a remédio, a tintura de iodo. Já ia dizer que não gostava quando me lembrei do conselho que meu pai me dava. Parecia ouvi-lo: – Nunca se diz “não gosto”. Só se aprende experimentando. Na lembrança, o segundo golo daquela mistela soube-me muito melhor…

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o caçador de brumas Estavam já sentadas outras pessoas na sala de jantar. A mesa do meio, reservada ao comandante Vasconcelos, estava vazia. Numa, ao lado, estava sentada uma família que tinha entrado em Luanda. – Dirigia-se ao Lobito para passar uns dias – disse-me o senhor comissário. Era a família do senhor Jaime de Almeida, administrador de uma grande companhia de açúcar, próximo de Luanda. Ia visitar as plantações e engenhos de açúcar numa fazenda próxima de Benguela. Na outra mesa, com as senhoras, estavam três importantes médicos que iam ao Lobito e Moçâmedes passar férias a convite da companhia. Nas restantes, cavalheiros e senhoras, familiares de militares e altos funcionários, em conversa animada; seguiam para Lourenço Marques. Os criados brancos, todos enfarpelados, acudiam ao mínimo gesto. Sentei-me ao lado do comissário Manta numa mesa com várias cadeiras vazias. Foram chegando; primeiro o imediato Óscar – já pronto para ser comandante –, o chefe de máquinas, senhor Reis, vinha logo atrás dele, com a camisa e as calças brancas engomadas, e até trazia os três galões dourados nos ombros. Chegou depois um padre missionário, capelão militar em Moçambique – o padre Joaquim Cruz –, depois um tenente que ia para a Índia e por último, o doutor juiz, magro e de bigodinho, natural de Portalegre, conterrâneo do comissário Manta. Quando começámos a comer chegou, como sempre atrasado, o médico do navio, dr. Spínola Gonçalves, madeirense, alto e gordo – com mais de cem quilos – que se gabava de ser capaz de comer um queijo inteiro, desses de bola, acompanhado de várias litradas de água. O imediato Óscar, sempre brincalhão, foi-me dizendo que aquele “navio-cisterna” andava mais a água, mas sempre à procura de uma veterana passageira e, se possível, viúva e rica. Ao contrário do que acontecera na primeira vez, não foi preciso fingir que lia a ementa. O almoço seria da responsabilidade do comissário. O imediato Óscar chalaceou dizendo que, se o soubesse antes, teria preferido ir comer à messe de oficiais. O padre Cruz aconselhou-o a confiar no comissário, pois ele nunca falhara.

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joão sena Um criado de luvas brancas ia servindo vinho branco. Provei; estava frio e era muito bom. Um outro, empurrando um carrito com diferentes tabuleiros repletos de comidas variadas, perguntou-me o que eu desejava. O juiz, dando ao dente e escorropichando copos, começou a contar anedotas bravas para chocar o padre. Este continuava a comer sossegado. Todos tiveram comigo gestos de simpatia; mas sobre a minha terra e os meus, foi com o padre Cruz que mais falei. Gostava de desabafar. Olhei de novo a sala; entrava o senhor comandante. Vinham com ele damas e cavalheiros. Tomaram assento. Ele fardava de branco, ostentando nos ombros os quatro galões dourados. Inclinou a cabeça para as outras mesas. Os seus convidados deviam ser todos pessoas importantes pois sentaram-se com o à-vontade de quem está acostumado àquelas cerimónias. A chusma de criados acudiu. Momentos depois, a sala de jantar voltou à normalidade. Na nossa mesa os criados serviram os doces e a fruta; um deles – que julguei ser o chefe – perguntou-me se aceitava um cálice de vinho do Porto. Para lhe não fazer desfeita disse que sim, não obstante sentir-me já tonto com tanta bebida. O café foi tomado no bar e tive o bom senso de dizer que não queria o conhaque nem os charutos e assim, ficámos sentados nos fofos cadeirões de cabedal em amena cavaqueira. O padre Cruz foi o primeiro a debandar; disse ir rezar o Breviarium20 e depois fazer repouso. Perguntou-me se não queria fazer o mesmo. Aproveitei e fui para o meu camarote dormir. Estava por demais precisado. Sentia-me grosso… Num pronto fiquei a dormir. Acordei e olhei o relógio do meu avô. Marcava quase cinco da tarde. Arranjei-me e fui de novo até ao salão da primeira classe. Os médicos jogavam às cartas, um jogo que não entendia e me disseram ser bridge. As senhoras, em mesas próximas, tomavam chá e conversavam. Uma delas fez questão que me sentasse e eu aceitei. Fiquei então a saber que um dos 20

Livro de orações diárias dos clérigos católicos.

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o caçador de brumas médicos ia para o hospital do Lobito, o outro iria ser o delegado de saúde em Benguela e o médico da companhia ia de férias até Moçâmedes. Naquela noite, a minha última a bordo, teria o jantar de gala. Vesti o meu fato de brim branco, ajeitei a minha única gravata e, por ser uma noite especial, coloquei no bolso do casaco, pendurando na corrente de ouro, presa à carcela, o relógio do meu avô. Olhei-me ao espelho e pareceu-me ver um cavalheiro. Ao subir as escadas para a primeira classe, o comissário Manta já me esperava. Estava radiante e entregou-me um telegrama que acabara de chegar. Peguei no papel temendo o pior. Mas nada de mau poderia ser, pela cara do comissário. Remetido pelo Governo-Geral de Angola para o barco, vinha endereçado ao excelentíssimo senhor Miguel Casteleiro, ilustre passageiro do N/M “Quanza”, da companhia Nacional de Navegação. O excelentíssimo era eu – quem diria! – e rezava assim: Sua Excelência Governador-Geral encarrega-me de comunicar: V. Ex.ª deverá contactar Lobito Excelentíssimo Senhor comandante Álvaro de Mello Machado (virgula) mui ilustre Presidente Caminhos Ferro Benguela (ponto) Sua Excelência Governador-Geral envidou melhores esforços sentido seja resolvida desde já sua situação profissional (ponto) Melhores cumprimentos (ponto) Chefe Gabinete (ponto) (ponto) Pedro Augusto de Sousa e Silva Tenente-Coronel Infantaria (ponto). Terminei a leitura e olhei o comissário. Um sorriso de orelha a orelha iluminava-o. Deu-me um grande abraço enquanto, comovido, dizia: – Você está safo, meu caro. Vai ter um tacho dos antigos quando chegar ao Lobito. Isto merece uma grande celebração. Vamos beber champanhe. Mas o que para mim tinha sido a maior das surpresas, já era do conhecimento de toda a gente. Tanto assim que todos se tinham preparado para ver a minha cara de pessoa sortuda e com tão grandes influências. De braço dado com o comissário Mantas, entrei no salão. Todos os passageiros estavam vestidos com casacos brancos e calças escuras, azuis ou pretas; as senhoras, com elegantes vestidos compridos, cheias de jóias,

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joão sena tinham flores no cabelo. O comandante Vasconcelos, todo elegante, ao ver-nos entrar, deu uns passos na minha direcção. Ao contrário do primeiro encontro, em que mal tinha reparado em mim, abriu um sorriso e, num apertado abraço, disse: – Muitos parabéns. O interesse de sua excelência o alto-comissário é como se lhe tivesse saído a sorte grande! Em seguida, apresentou-me a toda a gente que viajava na primeira classe. Quando acabaram as apresentações, tendo eu percorrido o salão acompanhado pelo senhor comandante, este, no final, pediu uns instantes de silêncio. Todos se calaram. Ergueu a sua taça e pediu que brindassem à minha saúde e ao meu futuro. Antes de levantar a taça de champanhe perguntou-me baixinho e apressadamente: – Mas como é mesmo ao certo o seu nome, jovem cavalheiro? Respondi-lhe sussurrando: – Miguel Casteleiro, senhor comandante. Nem podia acreditar que tudo aquilo me estivesse a acontecer. Eu, pobre diabo, com bilhete de terceira suplementar, apertado no meu triste fatinho de brim, no meio de todas aquelas elegâncias, estava a ser o rei da festa! O comandante mandou-me sentar ao lado da senhora do sujeito muito rico de Moçambique. O jantar de gala foi extraordinário. As comidas, as bebidas, os doces, tudo delicioso. No final, apagaram as luzes e os criados entraram com um enorme bolo iluminado e enfeitado, um navio feito em gelo! Era tal e qual o nosso navio, o “Quanza”. Houve estrondosa salva de palmas e os músicos atacaram a marcha triunfal. Seguiram-se os discursos. Todos gabaram a excelência da companhia e do comandante com mais palmas, muitas palmas. Com o café, vieram vários conhaques franceses e, no final, todos se levantaram e dirigiram-se ao salão de baile. Conversei com todos aqueles cavalheiros enquanto nos iam servindo champanhe. Até às tantas da

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o caçador de brumas manhã dancei o melhor que pude e sabia, tangos e valsas, pasodobles e viras, com uma quantidade de senhoras. Quando me recolhi ao camarote ia bêbado, mas muito feliz. Se pudesse e Deus Todo-Poderoso mo permitisse, teria parado o tempo e prolongado para sempre este viver e este sonho. Despi-me, arrumei o meu fatinho e dormi. Sonhei muito. Coisas boas, vividas ou presenciadas, dos tempos de menino. Coisas da escola da minha mãe e dos pastores que levavam os rebanhos a pastar para as terras quentes do sul, as festa do Natal, da Páscoa, das amêndoas, dos figos; dos meus irmãos e das minhas irmãs, que apareciam e desapareciam por detrás do meu pai, com o seu ar sério e digno e ainda, com aquele sorriso doce, cheio de amor e ternura, que sempre havia nos olhos da minha mãe. Pela manhã chegaríamos ao Lobito.

Não obstante as surpresas acontecidas nas últimas horas levantei-me cedo. Olhei pela vigia do camarote. O dia estava sem nuvens. Após a noite de chuva e de temporal que sentira cair, vinha a bonança para o iniciar de uma nova vida. Arrumei as coisas, meti no bolso das calças o saco de veludo com as libras e toquei a campainha. O Soares apareceu. Entre palavras sentidas de agradecimento, meti-lhe na mão uma nota de vinte mil réis. Sabíamos que era pouco. De qualquer forma eram quase vinte cinco tostões por dia – muito mais do que eu alguma vez tivera. Era, além do abraço, o que eu lhe podia dar como prova da minha gratidão. O rapaz estava tão comovido quanto eu. Ajudou-me a carregar os volumes até à recepção junto da porta de saída do navio. Recontei os tostões. Toda a minha fortuna era de cento e oitenta e sete escudos e cinquenta centavos. Dei-lhe mais os sete mil e quinhentos com o espírito de quem apenas quer dezenas completas; fiquei com cento e oitenta escudos. Sem me estender a mão desejou boa sorte. Bem precisava dela. Iria começar a minha vida em África com cento e oitenta “paus”. Enquanto esperávamos que as escadas acostassem, encontrei o Armindo. Também ele iria ficar no Lobito; de lá seguiria para Sá da

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joão sena Bandeira à procura da sonhada noiva e das manadas de gado do sogro. O nosso abraço foi tão forte como a sua fé em vir a ser muito rico. Deu-me a sua futura direcção num papel que meti no bolso sem ler. Procurei o comissário Manta para lhe agradecer o quanto tinha feito por mim. Disse-lhe: – Senhor comissário, sinceramente, os meus agradecimentos por tudo. Bem-haja. O senhor comissário deu-me um forte abraço: – Você é bom rapaz. Tenha juízo e seja trabalhador. O resto eu sei que também irá ter. Um dia haveremos de nos encontrar neste mesmo navio e beberemos então uma garrafa de champanhe para comemorarmos. Deus o abençoe, meu amigo. Pedi-lhe que me levasse ao comandante, para me despedir e agradecer. Informou-me que estava muito ocupado na ponte de comando com as manobras da atracação, mas que, de qualquer forma, ele se encarregaria de lhe fazer chegar o meu obrigado. Ia a manhã a meio quando o “Quanza” entrou no porto do Lobito. Encostámos ao cais. As escadas, para o meu desembarque final, foram arreadas. A chegada de outros passageiros, já prontos para desembarcarem, fez terminar as minhas despedidas. O Manta era boa pessoa e amável para todos. Os abraços e os agradecimentos sucediam-se. Quando cheguei às portas do navio levei uma lufada de calor tórrido. Parecia que tinha entrado num forno. Estava muito mais calor que em Luanda. Cumprindo a recomendação do meu pai – que não andasse de cabeça ao léu –, coloquei o chapéu de palha com a fita branca, que trouxera para o desembarque em terras de África. Vi a quantidade de gente que estava no cais e pensei: no meio desta multidão, qual será o nosso amigo Deodoro Faria? De mala na mão, comecei a descer as escadas. Chegado ao último degrau parei para descer com o pé direito e não com o esquerdo como ia calhar na sequência dos passos. O passageiro que me seguia, não reparando na minha paragem, desceu para o mesmo degrau empurrando-me com a mala que trazia na mão. Atabalhoado e quase a cair de bruços, consegui poisar o pé direito primeiro, enquanto a minha mala caía da mão.

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o caçador de brumas Atravessei amontoados de gente ouvindo pronunciar muitos nomes que não o meu. Clamavam por diversos nomes. Quando se encontravam, eram abraços, beijos e palmadas de carinho, à mistura com lágrimas de alegria pelo reencontro. Eu sorria e caminhava. Uns metros depois deste montão de gente, pousei as malas, tirei o chapéu e procurei o lenço para limpar o suor que me corria da testa. Um homem de mediana estatura, mais ou menos da minha altura, aproximou-se. Bastou olhar. Vi como me tinha enganado nas minhas tontas suposições. Sempre o imaginara alto, forte e arredondado, com uma corrente de ouro atravessando o colete, como todos os ricos e poderosos lá da minha terra – um homenzarrão! Enganara-me. Era seco, trigueiro, tinha o rosto tisnado, muito crestado pelo sol, coxeava, e teria à volta de cinquenta anos. Abriu os braços e perguntou: – Tu és o Miguel, o filho do meu amigo Jerónimo Casteleiro? Mas que raio de pergunta, se tens escarrapachada a cara do teu pai… és a sua cópia chapada… és igualzinho a ele! Fui colhido de surpresa. Nunca imaginara assim o nosso encontro. No grande abraço senti forte a amizade. Faltaram-me as palavras, não consegui dizer nada. Como um “parvalhoto” qualquer, entreguei-lhe a caixa do vinho do Porto e a embalagem onde vinham os sapatos, ao mesmo tempo que dizia: – Tome, senhor Deodoro, foi o meu pai que mandou. O nosso amigo chamou um homem que estava perto. Disse-lhe para guardar as encomendas e a minha mala e que cuidasse dos talões das bagagens que sairiam mais tarde pela alfândega. Nós os dois iríamos almoçar. Andando e chalaceando sobre o calor e a viagem passámos pelos polícias e pela alfândega sem parar. Não foi preciso mostrar os documentos que – tinha atado com um elástico para os não perder – eu guardara religiosamente no bolso interior do jaleco branco. Esperavam-me cá fora os irmãos do meu futuro patrão. Todos me abraçaram como se fossemos família. O senhor António com sua esposa e irmã, respectivamente, dona Julieta e Maria Júlia, que se fazia acompanhar pelo marido, senhor Nóbrega, e pelas filhas pequenas, Cila e Lena, deram-me

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joão sena grandes abraços e beijos. Seriam a minha nova família. Desde logo ficámos combinados, iríamos almoçar a casa deles num dos próximos dias. Já fora da estação marítima, dirigimo-nos a um Ford descapotável. À segunda tentativa pegou e, a alta velocidade, partimos. O senhor Deodoro falou toda a viagem. As perguntas – a que eu nem tive tempo de responder – eram misturadas com as descrições dos sítios por onde passávamos. Acelerava, prego ao fundo, e cumprimentava toda a gente tirando o chapéu. Os peões mais distraídos, os garotos, cães, gatos e galinhas saltavam à nossa frente apavorados. Nunca na minha vida tinha andado a cem à hora! O carro estacou de repente. Estávamos à porta do Hotel. O porteiro, um homem de meia-idade, encartolado e de fraque, tomou conta do automóvel. No átrio, uma senhora a quem o senhor Deodoro chamou Esterzinha, veio dar-me dois sonoros beijos em cada face dizendo: – O senhor Faria já tinha dito que hoje chegava o sobrinho. Seja, pois, muito bem-vindo, cavalheiro. O raio da mulher falava de uma forma arrevesada. Devia ser estrangeira! Soube depois que era da Checoslováquia. Onde raio seria tal país? Mais um lanço de escadas, salões com cadeirões, lustres de cristal, carpetes, ventoinhas e hei-nos no bar. O senhor Faria, sem mais nada dizer, pediu: – Duas águas da Escócia. Num instante, foi servida a tal bebida a saber a iodo. Enquanto bebíamos aumentaram as perguntas. Como estava o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs; se a Gracinda já se casara ou se ao menos já tinha “prometido”; se os meus irmãos mais novos andavam no liceu, se a viagem tinha corrido bem, como estava o tempo em Portugal, se tinha gostado de Luanda e de Angola, etc., etc. E desabafava em tom mais baixo, com dicção rápida: – Angola é que é terra! Que pena não mandarem mais gente, gente a passar mal em Portugal, em vez de os mandarem para o Brasil. Já lá têm tantos!… Nos intervalos das muitas perguntas – reflexo das suas infinitas saudades – eu ia respondendo. Repetidas vezes fez questão de afirmar que não podia esquecer o muito que ele devia ao meu pai; que sem a ajuda do

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o caçador de brumas meu pai nunca teria vindo para Angola e muito menos escapado à Justiça. Ele que nem fizera mal algum à cachopa – uma de Lamego, grande galdéria. Os irmãos, uns cria-musgo, faquistas amaldiçoados, queriam-no capar como se fosse um gato. Não tivesse sido a ajuda do meu pai, o verdadeiro amigo, como é que ele teria fugido? O meu patrão estava contente. Sentámo-nos na mesa do restaurante. Um criado alto, já de carapinha branca, aproximou-se com o menu na mão. O senhor Deodoro perguntou-lhe o que havia para o almoço, acabando por me dizer: – Olha Miguel, já ficas a saber que se eu morrer envenenado foi este meu velho amigo, o Palanca, o responsável. É ele quem escolhe sempre a minha comida. Os criados trouxeram na grande travessa de prata os afamados camarões. Perante a minha indecisão, enquanto me serviram um vinho verde gelado, muito bom, o senhor Deodoro ensinou-me a descascá-los, dizendo-me: – Pega-lhe com a mão, que é como estas coisas sabem bem. Depois trouxeram mais camarões, muito maiores e acabados de grelhar, regados com molho de jindungo. Eram mesmo muito saborosos e mais picantes que os infernos, a queimarem a língua. Seguiu-se frango de churrasco, também com picante mas misturado com limão. Os criados levantaram os pratos, trazendo uma bacia com água com bocados de limão e uma toalha de linho para os dedos. Tínhamos comido tudo à mão. Num carrinho chegaram as sobremesas. Esperámos uns minutos. Palanca, tinha ido à cave fazer o café. – Tem um segredo que nunca revelou a ninguém, este alma do diabo! O café apareceu a fumegar. Era saborosíssimo. Em dois balões de cristal bebemos conhaque. Com a coragem das pingas resolvi contar-lhe do telegrama do governador-geral. Procurei-o no bolso de dentro do casaco e mostrei-lho entusiasmado. O senhor Faria pitou um cigarro como o fazia o meu pai e tirou umas fumaças. Seguiu depois com o olhar o fumo que as pás das ventoinhas,

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joão sena a rolarem lentas no tecto, faziam desaparecer. Pegou no papel e leu com atenção. Decorridos alguns instantes disse: – Amanhã vamos falar ao comandante Álvaro Machado. Tem piada, eu também comecei a minha vida de empreiteiro nas obras do caminho-de-ferro, já lá vão uns anos, quando iniciámos os aterros para a subida do planalto. Fez uns segundos de reflexão e continuou sem que eu dissesse alguma coisa: – Hoje é dia de te instalares, pois vens de uma longa viagem. Vais lá para casa, a nossa casa. Está na hora de fazer a sesta e ainda que sejas um rapaz novo deves estar cansado com tudo isto. Eu bebericava. Em silêncio seguia-lhe os gestos e palavras. Então falou novamente: – Como sabes, o teu pai foi sempre para mim como um irmão. Portanto… és como se fosses meu sobrinho. Daqui para diante serei teu tio. Como o não sou de verdade em vez de me chamares tio Deodoro, como seria normal, passas a chamar-me de tio Faria, entendeste? – Sim, tio Faria, – respondi. E assim passou a ser. Para sempre.

A casa do tio Faria ficava sobranceira ao mar, entre coqueiros e outras árvores frondosas. Era de madeira pintada de branco e tinha o telhado em folha canelada, também caiado. A vista era esplêndida. Havia, a toda a volta, uma varanda e as janelas tinham rede por causa dos mosquitos. No jardim bem tratado uns dez criados vieram fazer “as cumprimentação”. Chamaram-me logo de “patrãozinho”. Ao fim do corredor e num dos cantos da moradia, mesmo em frente ao quarto do meu tio, ficava o meu. Tinha duas janelas com reposteiros e cortinados. A cama grande, de madeira talhada, estava coberta com um tule de renda muito fina, o mosquiteiro. Era muito importante aquele estranho objecto. Impedia que durante a noite os mosquitos nos picassem trazendo o paludismo e as febres. Parecia mesmo um altar em dia de festa.

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o caçador de brumas A um dos cantos estava a secretária e uma cadeira de braços. No outro canto, o biombo e os lavatórios. Também havia armários para as roupas e sapatos e um outro, bem maior, cheio de livros e romances. Ao ver a minha cara o tio Faria sorriu; disse que aquilo não tinha luxos mas era confortável. O Mariano, um negrito mais ou menos da minha idade, seria o meu moleque. Teria o trabalho de cuidar das minhas roupas. De futuro, seria ali a minha casa – repetiu o tio Faria – enquanto regressávamos ao salão caminhando para o sofá de couro colocado ao lado da mesita em madeira de cerejeira onde estava a telefonia Zenith para ouvir música do Brasil, em onda média, e em onda curta, o noticiário da BBC e as notícias das Rodésias e da África do Sul. Era o último modelo, julgo. A inauguração do meu quarto, à hora da sesta, veio a calhar. Dormi até às quatro. Quando acordei, dei um jeito ao cabelo desalinhado e saí até ao jardim. Debaixo de grande e frondosa árvore – um frondoso cajueiro de fruto amarelo –, sentado na sua cadeira de lona, o tio Faria lia o jornal. Estranhei não ver nenhuma mulher, nem branca nem negra, pelo que perguntei onde estava a tia Aurora. – Está lá no Balombo a criar os filhos pequenos. Havemos de lá ir um destes dias. Passámos o resto da tarde conversando debaixo da frondosa árvore. Meu tio disse que era um tamarindo secular. Estava radiante com os presentes que o meu pai enviara, a caixa do vinho do Porto – um “vintage” de rara qualidade – e os sapatos, lindíssimos e modernos. Dizia que tinham chegado em boa altura, pois seriam estreados no Natal. Depois de um pequeno momento de silêncio, acrescentou: – Mas o que se há-de fazer? O teu pai é mesmo assim. Por um amigo dá até a camisa. Qual a necessidade de ele me mandar os sapatos. Com tantas necessidades por lá… Vi como o tio Faria estava contente. Falámos de mim. Quis saber do que eu gostava e a minha opinião sobre variados assuntos da minha família, como estava a situação financeira do meu pai, sobre a qual quis saber pormenores, etc., etc. Estranhou que

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joão sena nunca lhe tivéssemos escrito a contar o que se passava, pois alguma coisa teria sido feita. Depois veio à conversa o tal telegrama. Contei em detalhes como tudo sucedera e, quando terminei, o tio Faria disse: – Aqui, nesta bendita terra, é ele que em tudo manda, e manda muito. E continuou: – Amanhã pode haver uma surpresa. O comandante Álvaro Mello Machado é meu amigo. Costumamos tomar o aperitivo naquele hotel junto ao mar onde almoçámos hoje. Mas agora, como dizem lá nos nossos sítios, quando há cadeiras baixam-se os bancos. A prosa seguia agradável. O tio Faria era bom conversador. Falou-me das suas dificuldades quando chegou – uma história divertida sobre os muitos trabalhos e amarguras por que tinha passado. Por detrás daquelas palavras contadas em paródia eu percebi bem o muito que ele havia penado. Eram outros tempos. Muito mais difíceis. Falou na crise da guerra, no poder dos alemães que vinham do Sudoeste Africano e do Tanganica Alemão, dos seus negócios, do muito que havia para fazer nas lojas, nas fazendas, e até numa exploração de águas que pareciam ser muito boas para a saúde. – Apareceram numa nossa propriedade no Balombo. São águas quentes, assim meio sulfatadas e gasosas. Quando se come ou bebe demais, são muito boas para a digestão. Curaram até um cão sarnoso que por lá andava a deitar-se na lama. – disse, ajudando com o gesto de enrolar a mão, a sua admiração. Depois de uns segundos acrescentou: – Já vários amigos me aconselharam a mandar analisar as referidas águas e, se se confirmar tudo o que se imagina, terei de arranjar maneira de as engarrafar e vender. Se calhar, mando fazer lá um grande balneário como os das termas de Chaves, de Melgaço ou de Monfortinho. Como estás vendo, meu filho, há muita coisa para fazer. Tens aqui muito onde trabalhar. Temos de dar duro se queremos que esta nossa terra um dia venha a ser a melhor terra do mundo. Bembe, o criado do meu tio – já com algumas brancas na carapinha –, que permanecia especado a uns cinco metros, avançou e trocou o copo

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o caçador de brumas da “água da Escócia” por um outro que trazia já preparado na bandeja de prata. Eu agradeci e disse que não queria, pois já tinha bebido o suficiente ao almoço. O tio olhou-me e acenou com a cabeça em sinal de aprovação. Num pronto, o sol sumiu-se e a noite caiu. Ali não havia aquele pôr-do-sol tão bonito e arrastado como no Verão da nossa terra. Acenderam as luzes na casa e mais umas pequenas lâmpadas no jardim. Falei então no saco de veludo. Ao princípio, escolhendo as palavras, depois mais animadamente e em detalhe contei tudo. A minha surpresa, o meu receio, a minha gratidão, a minha admiração e o meu respeito por aquele grande homem que era meu pai. Sincero e comovido, acabei por dizer que ainda há pouco as tinha guardado no armário na mesma bota em que vieram na viagem. O tio Faria olhou bem para mim e sorriu. Levantou-se, pegou numa bengala que tinha o punho de prata, deu-me uma palmada carinhosa nas costas e disse: – Amanhã pomos o teu saco das libras de ouro no meu cofre. Eram sete horas. O jantar, rápido e frugal, servido debaixo de uma das árvores do jardim, foi sopa, pão e queijo, um copo de vinho e fruta. O tio Faria, logo a seguir, foi dormir; teria de se levantar bem cedo.

Levantei-me e arranjei-me, vesti o fato branco de brim e dirigi-me à sala de jantar. Eram seis da manhã. Ao contrário do que eu pensara, todos os criados estavam aprumados e a bulir, impecáveis nas suas fardas brancas, mas descalços. O tio Faria estava sentado a fumar e a ler o jornal. Acabara de “matabichar”. Achei piada ao termo. Aproximei-me. Não sabia como o havia de cumprimentar. Deveria estender-lhe a mão como se fosse um estranho? Dizer só bom dia e depois sentar-me? Ou como costumava todas as manhãs fazer ao meu pai? Foi no último instante que me decidi. Dei-lhe um beijo na face e ele disse:

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joão sena – Bom dia meu filho… Habitua-te a comer logo de manhã uma papaia, é muito boa para a saúde. Sentei-me e, enquanto estendia o guardanapo, lancei uma vista de olhos sobre a mesa. Havia de tudo. Frutas de variadas qualidades, queijos, diversas compotas, um grande pão-de-ló e muito sumo de laranja nas jarras de cristal. O criado, Bembe, aproximou-se e perguntou-me: – Minino, como queres os ovos? Bem ou mal passados? Mas que raio de pergunta? Como se os ovos fossem toalha ou roupa… Não queria ser desagradável ou indelicado e calei-me. E tal pouco importou. Trouxeram-me num prato quente dois ovos estrelados com toucinho entremeado frito e torradas acabadas de fazer; num bule e cafeteira de prata, café e leite a fazer espuma. Do outro lado da mesa o tio Faria aconselhava: – Em África temos de nos alimentar muito bem porque o clima puxa muito e as febres podem ser fatais. Outra vez as malditas febres. Mas que raio de febres seriam essas que tanto se falava? Antes de sairmos, o Bembe trouxe a bengala e o capacete colonial do meu tio. O automóvel, agora com a capota de lona posta, pois ameaçava chover, estava ali mesmo. O Zézinho-motorista perguntou se seria preciso ir. O tio Faria, movimentando a cabeça, respondeu que não e arrancou suavemente com o automóvel, deu a volta ao jardim, passou a cancela e… pum, pum! Parecia um foguete! Nas curvas eu andava de um lado para o outro e o pó vermelho na retaguarda fazia uma nuvem como se fôssemos um cometa. Entrámos na cidade. Vira à esquerda, vira à direita, outra vez para a direita, contornámos uma praça; fugiam muitos mais cães, desviavam-se garotos que brincavam na rua e um que outro passeante distraído. O tio, sempre a buzinar e a acenar a toda a gente, lá seguia. A entrada do porto, passámo-la na brasa, levantando imenso pó. O tio sacudiu o pó da roupa, pôs o capacete na cabeça, arrimou-se à bengala e, risonho e feliz, disse-me: – Tem de ser assim, senão o pó passa à nossa frente…

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o caçador de brumas Defronte a nós estava o grande e majestoso edifício dos Caminhosde-Ferro de Benguela. O tio Faria deu os bons dias a um rapaz sentado à entrada, que se levantou para o cumprimentar. Sem se deter e andando pelo largo salão, perguntou se o senhor comandante já tinha chegado. O contínuo confirmou. Caminhávamos por um corredor pisando uma grossa carpete. Numa das portas bateu e abriu logo dizendo: – Isso é que é vontade de trabalhar! Ainda não são sete horas… Licença para mim e aqui para o meu sobrinho, senhor comandante. O cavalheiro, também vestido de branco, estava sentado num cadeirão enorme lendo o jornal. Levantou-se, abriu os braços e foi ao encontro do tio, exclamando: – Não contava com uma sua visita logo ao raiar da aurora, meu querido Deodoro. Mas venha. Acomode-se que eu vou providenciar um cafezinho. A mim estendeu-me a mão e perguntou: – E o nosso sobrinho também quer um café? Tenho a certeza que nem olhou para mim. Aproximou-se da grande secretária e tocou uma campainha. Imediatamente surgiu um criado de uniforme, luvas brancas, mas descalço. O comandante pediu os cafés, sentou-se no outro cadeirão de pele ao lado daquele onde o tio estava e, com a maior das intimidades, ignorando a minha presença, perguntou: – Mas, meu amigo, qual é o motivo de tão agradável visita? Em poucas palavras o tio disse quem eu era e ao que vinha, a fim de cumprir a ordem do senhor governador-geral de Angola. Tal foi a surpresa que, por instantes, julguei que ele iria derramar o cafezinho que tinha na mão. Olhou para mim. Penso que pela primeira vez reparou que eu estava ali. Porém, a surpresa fora momentânea. Ergueu-se da cadeira de pele e entre os papéis disse: – Acabei de receber um cable de sua excelência e até já estranhara ainda não ter sido contactado. Não calcula, meu caro Deodoro, quanta satisfação tenho em saber que aqui o nosso amigo… como é mesmo o seu nome, meu caro jovem? Nem o meu nome tinha lido. Ou então seria aquela a maneira fina dos comandantes perguntarem o nome? Foi o tio que respondeu:

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joão sena – Miguel Duarte Casteleiro. Entrara naquele momento no gabinete, também sem bater à porta, um outro senhor dizendo: – Já sabia que nos estava a visitar, meu caro Deodoro. Com a licença aqui do nosso querido senhor presidente e meu ilustre camarada, vim para lhe dar aquele fraternal abraço. De relance olhou para mim. O senhor presidente tocou de novo a campainha. O tal criado serviu mais um café, enquanto o ilustre senhor continuava: – Até foi bem que viesses, querido José Francisco, pois temos de resolver e já aquele assunto de sua excelência, o governador-geral. Olhando para mim continuou: – Trata-se aqui do nosso amigo que, por feliz coincidência, é sobrinho do nosso fraternal Deodoro Faria. Eu continuava em nada interferir, pois também nada me fora perguntado. O tio e os senhores durante alguns minutos conversaram, trocaram opiniões e a dada altura o senhor comandante Monteiro fez dois telefonemas. Enquanto ia falando, levantou os olhos para mim e perguntou: – É claro que você tem o Curso do Instituto Industrial? O tio, sem dar tempo a que eu pudesse responder, acrescentou, dando uma gargalhada: – Ó meu fraternal comandante, então o rapaz anda com o diploma no bolso? – Também não é importante, mais tarde junta-se ao processo o tal diploma quando chegar da metrópole. O senhor presidente, naquele tom de voz de quem está habituado a mandar, rematou: – Então está tudo arranjado, muito folgo. O outro comandante, agora já a falar para mim, continuava: – Foi fácil arranjar o lugar. No troço da via entre Vila Luso e Vila Teixeira de Sousa ainda não temos inspector, pelo que o nosso amigo... como é mesmo a sua graça, jovem cavalheiro? – Miguel Casteleiro, excelência. Agora já não tinha dúvidas. Aquela era a maneira fina dos comandantes perguntarem o nome às pessoas.

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o caçador de brumas – Nesse caso está tudo tratado, felizmente. Afinal o que é que os meus queridos amigos não conseguem fazer quando se trata de fazer bem ao próximo? – disse o tio, julgo que sem segundas intenções… Mas o radiante e eufórico comandante Monteiro continuava: – Se quiser, o nosso sobrinho – (agora também já era sobrinho dele?) – pode começar já a trabalhar. Hoje assinaremos o despacho da sua nomeação. O ilustre comandante fez uma pausa. Pensei que tornara a esquecer-se de como é que eu me chamava, mas continuou: – Tomará posse amanhã ou depois e começará a trabalhar. Talvez lhe dê mais jeito começar a princípios de Dezembro. Isso também não é problema. Aproveita estes dias para ver o Lobito e Benguela, apanhar um ar de praia, que só lhe fará bem, e conhecer a nossa companhia. Há também que fazer uns exames médicos, mas isso não tem problema, tanto mais que o médico, o doutor Freire, é muito amigo do seu tio. Voltando-se para o camarada: – Em qualquer caso, meu fraternal José Francisco, providencia tu para que ainda hoje um cabograma ou mesmo um telegrama siga para Luanda a dar conta do sucedido a sua excelência. Eu ainda esta manhã lhe vou falar, assim as condições meteorológicas o permitam, pois vi o seu pessoal empenho. Já agora aproveito para reiterar a sua excelência o nosso desejo e a nossa maior honra em que ele aceite vir passar entre nós as férias do Natal. Faremos um Natal bem marinheiro. O meu tio levantou-se. Tudo estava arranjado. Pareceu-me que até deixara de coxear. Apertou a mão aos dois comandantes – fez um outro gesto estranho que não entendi – e disse-me para eu agradecer a suas excelências. Já na porta ainda lhes disse: – A comemoração deste acto beneficente far-se-á, como é, aliás obrigatório, ao aperitivo no “nosso hotel”. Já nos corredores, o tio deu-me um abraço bem apertado e disse-me ao ouvido: – Só tenho pena que o teu pai, o meu querido Jerónimo, aqui não esteja.

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joão sena E desandou a caminhar rápido para as escadas. Nem pude confirmar se lhe vi lágrimas nos olhos. Assim que me sentei ao seu lado, perguntei o que era isso de ser inspector. Percebi então que ele estava emocionado. Quando tentou pôr o carro em movimento, o malvado só pegou à terceira vez. Com o carro em movimento, já no seu tom galhofeiro, disse-me: – Vais ser inspector de linha. Nasceste com o cu virado para a lua, meu malvado. Muito mais importante do que seres meu empregado, é que sejas meu filho. Ao fim e ao cabo não faço mais do que o teu pai faria. Não disse nada. Há momentos em que não se diz nada. Apenas o olhei. Ao contrário do que era norma, o carro ia devagar. – O tio disse que eu tinha esse tal curso, mas olhe que eu não tenho nada disso. Como é que, como ficou combinado, vamos então arranjar o tal diploma? O tio olhou para mim e sorriu: – Depois de estares nomeado pelo presidente e pelo administrador delegado dos CFB, as pessoas que mais mandam, ninguém vai ter o topete de querer saber se falta ou não esse papel lá no teu processo. – Mas, tio, quanto é que eles me vão pagar? – Muito mais do que tu alguma vez tenhas pensado. O automóvel entrou na marcha normal dos cem à hora. – Vamos para o escritório, que já são quase oito horas da manhã. O relógio da entrada do porto bateu. Eram oito horas da manhã no Lobito, eu era inspector de via dos CFB, íamos a cem à hora e fazia muito calor. Senti-me um homem muito feliz. – Um milionário!

Tinha razão, o tio Faria. É a mais maravilhosa paisagem que um homem pode contemplar. A luz do farol, à entrada da baía, corta, intermitente, as trevas densas. Tive a sorte de assistir ao nascer do dia, e de presenciar durante quinze minutos o espectáculo da natureza. Mil cantares, piares, gorjeios de milhares de lindas aves entoaram em coro o cântico da alvorada de mais

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o caçador de brumas um dia. O sol espreguiçou-se, ganhou cor e, altaneiro, subiu no firmamento. Nesta sua facécia, pintou e tingiu laivos de cores e tons nas águas quietas da baía. O azul ferrete foi-se abrindo. Depois, cada vez mais claro e dourado, começou por ser verde para em apoteose final explodir, espelhando-se nas águas bordadas a espuma, numa sinfonia de cores que só Deus poderia criar. Os meus olhos perderam-se no mar até o olhar se afundar no infinito. A vila do Lobito apareceu iluminada. A restinga, cortada num talude quase vertical, esmagava-se e, numa língua de areia, corria paralela à costa. Para o sul, na direcção de Benguela, assim que terminavam as cubatas e as casas do bairro da Canata, o verde dos palmares e dos campos cultivados era a perder de vista.

A vertigem das velocidades, que aconteciam todas as manhãs “para o pó não nos apanhar” amainou quando começaram os dias de chuva grossa. Chegávamos ao escritório do tio Faria antes das sete. Logo no primeiro dia, ensinou-me o segredo do cofre, “a burra”. Lá guardámos o saco das libras e o relógio do meu avô. Radiante pelo meu emprego, afirmou por diversas vezes que tal não obstava a que viéssemos a trabalhar juntos, pois fazia disso questão. Queria que eu, a pouco e pouco, me fosse inteirando dos seus assuntos. – Não vá o diabo tecê-las e eu vá de esticar o pernil duma hora para a outra. Combinámos que todas as manhãs, até 2 de Dezembro, dia em que começaria a trabalhar nos CFB, iríamos ao escritório ou às diferentes lojas e negócios que tinha no Lobito e em Benguela. Aos poucos fui conhecendo a vila do Lobito, as ruas e as gentes. Acompanhado pelo meu tio ou deambulando sozinho numa bicicleta que me emprestou, fui ver os edifícios da Capitania do Porto da alfândega e da Direcção Técnica do Porto. Caminhei pelos molhes e vi ultimar as obras do cais mandadas construir anos antes por Norton de Matos. Os altos guindastes pareciam gigantescas girafas a meterem o focinho na barriga dos barcos. Vi os enormes armazéns de mercadorias para a exportação e para as importações.

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joão sena Os navios passavam rasteirinhos à praia. Nos mangues que cercavam a cidade – terrenos de lama e cheios de mosquitos – haviam aves belas aos milhares, altas e rosadas a que chamavam flamingos. Ao pôr-do-sol compunham um quadro maravilhoso que contrastava com o cheiro nauseabundo dos lamaçais. Naqueles dias, conheci os empregados do tio e pessoas amigas, engenheiros, chefes de serviços, empregados nos escritórios e capatazes de linha que seriam meus futuros colegas nos CFB. Pareciam gente feliz. Trabalhavam, ganhavam bem, tinham criados para tratarem das roupas, moleques para criados dos meninos pequenos e cozinheiros que não sei se seriam também felizes. À tarde, quando chegavam a casa, tomavam banho, vestiam calções com camisas brancas e meias altas à inglesa – como diziam – e com os da minha idade, iam ao Lobito Sport Clube dançar, jogar ténis ou cartas. Nalguns fins de tarde, por volta das sete, pegávamos nas bicicletas e íamos todos dar uma volta pela Restinga. Nas casas de uns e outros ouvíamos música nas telefonias ou os discos de jazz, a grande moda que vinha da América. Um dia também haveria de ter um gramofone. Adorava ouvir música, mas nem toda. A primeira vez que ouvi uma ópera quase que meu deu o sono. Aos sábados, além do baile do Lobito Sport Clube, dançava-se na casa deste ou daquele amigo. Três vezes por semana havia cinema, a que ninguém faltava. As meninas tinham os cabelos curtos, vestiam calções, andavam de bicicleta por todo o lado, falavam aos rapazes e, quando havia intimidade nas famílias, até davam beijinhos. Nas matinés do clube chegavam a desafiar-me para dançar uma música endiabrada e maluca, o “charleston”, que eu nunca escutara em minha vida. Elas davam pulos, reviravoltas, cambalhotas e uns gestos assim bem malucos. Mas quando tocavam um tango ou uma valsa lá me ia desenrascando, fazendo por acertar. As espanholadas e outras músicas mais aceleradas ficavam para mais tarde. Nos campos de jogos havia sempre gente a jogar basquetebol, voleibol ou futebol e, na baía, muitos passavam tardes e manhãs a remar ou a velejar. As senhoras, de cabelo curto, usavam roupas leves. Passavam

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o caçador de brumas horas sentadas nas varandas do clube, debaixo de grandes guarda-sóis, a conversar e até a fumar. Tal como se via nos filmes. Nos salões do Clube ou nas varandas estavam reservadas as mesas dos engenheiros. Eles vinham ao fim da tarde trajando camisas de popelina e calções de linho – tudo engomado – com as meias, as tais meias altas, fumando cachimbos bem engraçados. Pareciam os janotas das fitas americanas. Tudo bem diferente do que, até então, tinha vivido lá na minha aldeia. Salvo as moças que por vezes vinham lá a casa a receberem explicações da minha mãe ou a passar uns bocados com minhas irmãs, era preciso vir o domingo para as poder mirar uns instantes à saída da missa… e se não estivesse a chover ou a nevar. Mesmo em pleno Verão os xailes negros cobriam-lhes o corpo da cabeça até aos pés. Só nos arraiais das festas, ao som das sanfonas, podiam ver-se umas quantas moças casadoiras a bailarem com os “prometidos”. Acertavam, mais ou menos, viras, chulas, contradanças, bailes de roda e valsas ou, na maior das animações, os viras do Minho. As mães e as velhas, sentadas em bancos que traziam de casa ou especadas, vigiavam para que não houvesse roçanços ou apalpadelas. Na Guarda havia mais raparigas nas ruas. A tirar as sopeiritas das casas e aquelas que vinham fazer as compras, apareciam já as que estudavam no liceu ou na Escola Normal. Mas todas tinham modos iguais às cachopas do nosso povo. Eram de aldeias iguais à minha. Os rapazolas, os mirones, ficavam nas esquinas a espreitar o sol e a ver quem passava. Então elas aceleravam o passo e não lhes davam troco. Rapariga honrada não dá “cúnfia”21 a estranhos e metediços. Para mim, aqui tudo era novidade: um novo mundo se abria aos meus olhos. Fui-me acostumando à cerveja, ao whisky e aos conhaques. Provei novas comidas, como caril de camarões e de frango; comi camarões de diversas maneiras, com relevo para os camarões à baiana, muito picantes mas deliciosos; caldeiradas de peixe; moamba de peixe seco e galinha; churrascos de todos os tipos, bacalhau, muito alto, cozido ou assado na brasa, etc. Tudo bem diferente das comidas da Beira; lá vivia-se do que a terra dava, das carnes do fumeiro, mais das da salgadeira, ou das sardinhas e 21

Confiança. Termo regional.

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joão sena chicharros, bem salgados e transportados na albarda do burro lazarento em caixas amarelentas pelo homem do peixe. O prato mais parecido com os do Lobito era talvez o cozido à portuguesa. Passei a frequentar o Hotel Turismo, junto do Comissariado da Polícia. Na mesma rua havia o clube de solteiros da Cassequel. Encontrei-me lá com um da Guarda, o Meia-Leca, empregado na Vacum. Solteiro e bom rapaz, como dizia, vivia na república dos beirões. Passámos a andar juntos com o Telmo, muito conhecido por ser o campeão de natação do Lobito e filho do doutor Freire, médico chefe dos CFB; tinha terminado o liceu e estava à espera de emprego. Prometeu-me que logo me ensinaria a nadar na piscina do clube. Eu nadava muito mal e só à “cão” como era moda lá na terra. Muitas vezes, nos fins de tarde, fomos juntos a uma data de botecos, lugares parecidos com as tabernas, onde estavam mulatas muito bonitas. Perdi-me na noite, com as negrinhas fogosas no bairro da Canata.

Eu andava inquieto, demasiado inquieto, e ansioso por saber quanto é que iria ganhar. O tio Faria amolava na conversa e nada, nunca me dava uma resposta. Numa manhã fomos tomar café perto dos escritórios dos CFB. O meu tio apresentou-me ao senhor Arroteia. Era guarda-livros e já lá trabalhava havia anos. Pareceu-me ser pessoa simpática. Falou muito comigo sobre a grandeza da companhia e da muita visão de um tal Sir Robert Williams, o grande homem que tinha mandado fazer o caminho-de-ferro. Um homem muito importante e podre de rico. Falou da quantidade de anos que tinham levado a construir a linha devido à Grande Guerra e depois pela sua enorme extensão – atravessava Angola até ao Congo Belga. Na mesma linha foram-se criando novas terras que o senhor Arroteia enumerava. Desenvolveu-se a cidade de Nova Lisboa como queria o grande general Norton de Matos, para fazer dela a futura capital de Angola. Havia, por toda a parte onde a linha passava, muita pecuária e novas culturas em fazendas a perder de vista. Enquanto conversávamos, o meu tio afastou-se. Ainda me contive por uns instantes. Depois, como quem não quer a coisa e aproveitando uma palavra que me pareceu mais azada, arrisquei: – Afinal, senhor Arroteia, quanto é que a CFB paga aos inspectores?

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o caçador de brumas A gesticular com os dedos respondeu: – Não sei exactamente. Os ordenados variam consoante a residência e os locais de trabalho, o número de dias que se anda fora e, obviamente, umas cotas de rendimento pelos trabalhos feitos… franziu a testa e tomou um ar de profunda meditação. Mas, bem vistas as coisas, mais ou menos… fora outras regalias assaz da maior importância – gostei mesmo daquela palavra fina do “assaz” – quer na actual circunstância, quer numa futura e previsível mudança decorrente de nova situação familiar e tendo em conta as suas legítimas e naturais consequências com o nascimento de filhos mais os criados domésticos e outras despesas decorrentes, até porque um funcionário poder vir a ter de assumir outras responsabilidades com ascendentes que venham a ter de ser socorridos e acarinhados, a faculdade de ter casa e assistência médica garantida pelos CFB mais ou menos… a coisa andará à volta de… mais ou menos… aproximadamente umas vinte e tal… trinta… trinta e pico libras, talvez… Disse de supetão. Fiquei atordoado. Quando vim a mim pensei: Este tipo é mesmo um guarda-livros. De tanto lidar com os números e saber fazer grandes somas sem se enganar, deve estar maluco. Completamente maluco. Faço-lhe uma pergunta concreta e o homem responde-me com uma ladainha e remata com um valor indefinido e ainda mais, em libras. – E quanto vale uma libra senhor Arroteia? – atalhei. – Mais ou menos cem escudos, cem angolares. Lá fora deixara de chover. Em África chove e faz calor, realçando o cheiro forte da terra molhada. O sol fez brilhar as calçadas. Como no conto da Gata Borralheira, onde a fada madrinha transforma a abóbora e os ratos, a minha hora de sorte estava aí. Num relâmpago, vi-me no Banco de Angola muito elegante, de fraque e cartola, a mandar ao meu pai, todos os meses, quinze libras esterlinas, o fruto do meu trabalho e da minha gratidão. No filme mudo que passava na minha mente, pude vê-lo já com um chapéu novo da loja dos Simões, daqueles debruados, como os dos ministros, a entrar no banco na Guarda, levantar o contra-valor e contar as notas de cem mil réis. O tal gerente, reles onzeneiro22, 22

Fingido e falso.

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joão sena cínico e ordinário, que lhe tinha feito a vida num inferno a ter de vir agora acompanhá-lo à porta para, com toda a cerimónia, cumprimentar a minha mãe. Tudo como nos bons velhos tempos. Não dei por conta do senhor Arroteia se ter ido embora nem do meu tio ter chegado. Estava ele agora ali especado na minha frente e a perguntar-me se me tinha “dado alguma coisa”. Eu estava apenas aparvalhado. – Anda embora Miguel. Vamos almoçar a Benguela.

Da viagem para Benguela nem é bom falar. Fomos na brasa. Tinha parado de chover e não havia poeira. O trânsito não era muito. Os indígenas que encontrávamos a caminhar em fila, acordados pelo som da buzina, saltavam para as bermas. O tio Faria adorava buzinar. Subimos o morro da Kileva. Ali, à direita, estavam as amplas instalações da companhia de Atiradores Indígenas. Falava-se que, à esquerda, iria ser construída uma fábrica de cimento. Atravessámos o Caponte, onde nasceram os primeiros armazéns. Seguimos até à Canata, espécie de bairro indígena. Nos seus arruamentos estreitos acotovelava-se uma densa população de assimilados, operários de todas as artes e indústrias citadinas. Os palmares e as plantações da cana-de-açúcar da Cassequel e a Catumbela espraiavam-se nos dois lados do rio. As palmeiras alinhadas ao longo da estrada iam ficando para trás. Em menos de uma hora estávamos em Benguela e demos uma volta pela cidade para eu ficar com uma ideia. Pude ver a Igreja de Nossa Senhora do Pópulo, o Palácio dos Bolos onde morava o governador; passámos no Largo da Vitória, na Porta da alfândega. Vimos a Rua Governador Moutinho, o Hotel Paris, o Teatro e o Banco Nacional Ultramarino. Fomos à Estação do Cabo Submarino, ao Hospital D. Carlos e à Câmara Municipal, onde conheci o presidente Sant’Ana. O edifício da Fazenda ficou para o fim onde o tio tinha uns assuntos a tratar. Uma beleza de cidade e gentes boas. Por toda a parte a garotada – meninos brancos e negros – jogava a bola ou fazia correrias. A praia estava cheia; parecia ser feriado.

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o caçador de brumas Era quase meio-dia quando parámos na Avenida da Liberdade. À entrada do chalé, o tio escreveu o meu nome num livro. Era norma que ficasse registada a visita dos convidados. No salão do bar fez as apresentações. Disse ser eu o seu novo filho, apresentando-me ao doutor Jonas, o único que estava de fato creme e gravata. Qual não foi o meu espanto quando reconheci o doutor Bernardino Faria e o senhor Jaime de Almeida, o tal manda-chuva dos açúcares que tinha conhecido no “Quanza”. Reconheceram-me de imediato e trocámos palavras de simpatia. Minutos depois estávamos à mesa. Ao centro, a presidir, o senhor Serafim Mesquita. Segundo o tio me disse, era um velho amigo e um homem muito importante, dono de uma loja de fotografias, a Foto-Bazar. Mas qual seria o grande poder dum fotógrafo? À sua direita, o presidente da Câmara, Domingos Sant’Ana, mais o tio Faria, os senhores Jaime Almeida, o António Costa, seu grande amigo e dono da companhia de Benguela, mais o doutor Bernardino Faria. À sua esquerda, o senhor Amzalak, presidente da Associação Comercial de Benguela, o doutor Amílcar Barca, o senhor Burnay, o senhor Cabral e mais dois ou três senhores cujo nome já não recordo. Reparei que todos eles tratavam o tio por Doro. À caldeirada de peixe bem picante sucedeu-se um arroz de perdiz no forno. Cada qual dava a sua opinião. Começaram por recordar o falecimento de Magalhães Lima. Eu nunca ouvira tal nome, mas fiz de conta que sabia. O funeral fora em Lisboa e todos os jornais disseram ter sido a mais sentida manifestação de pesar. – Reuniram-se mais de cem mil republicanos! - Disse o senhor Burnay que estivera presente. Ainda hoje me recordo das conversas, todas novidades para mim. Falaram do cinema sonoro que estava acabando com as fitas mudas; da grave crise acabada de passar nos Estados Unidos da América, onde só havia fome, desemprego e falência das maiores companhias do mundo; do que estava a acontecer na Alemanha, onde as manifestações e os tumultos não paravam; de um tal Hitler, um austríaco meio maluco que discursava nas cervejarias; da Itália e de Mussolini, a fazer guerra à Abissínia; das permanentes quedas dos governos em Espanha, onde Alfonso XIII não tinha mão no povo, e do governo do general Ivens Ferraz, agora com o

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joão sena novo ministro das Finanças, o doutor Salazar, a querer apertar os “colarinhos” aos republicanos. Previam que, em poucos meses, Salazar fosse o Presidente do Ministério. Houve também quem lembrasse que fora ele quem salvara o país da banca rota e que Portugal começara a endireitar a economia. Os orçamentos dos Ministérios eram controlados sob a máxima de produzir e poupar. A conversa acabou nos problemas de Angola. Foi feita menção à quantidade de alemães que chegavam para se instalarem em grandes roças, lá para os lados de Sá da Bandeira, da Ganda e do Cubal. Foram criticadas a subida dos impostos e a falta de autonomia para se poder exportar o café, as madeiras e outras riquezas. Mas o pior de tudo era a quantidade de problemas que não eram resolvidos pelo governador-geral, onde tudo encalhava, não fora marinheiro o ilustre governante. Nunca na minha vida tinha assistido a uma reunião de tanta gente sabedora. Tinham opinião sem se insultarem, mesmo com opiniões contrárias. Recordei-me dos azedos comentários do meu pai sobre o Parlamento da República onde os deputados e os partidos chegavam a andar à porrada e das constantes revoluções acontecidas em Lisboa. Se fossem gente como eram estes senhores, as coisas seriam bem diferentes. Vieram os cafés e a divertida e pícara cavaqueira sobre umas senhoras, talvez meninas que em Benguela tinham por hábito irem banhar-se nuas na Baía das Vacas, em sua honra assim chamada. Contaram-se outras histórias bem engraçadas. Eu pouco tinha para contar; estava ali só para aprender. Feitas as despedidas, voltámos ao Lobito. No caminho passámos por duas casas comerciais do tio Faria nos arredores de Benguela. Já na estrada asfaltada, o tio falou que os gerentes eram seus sócios; já há muitos anos que lhes dera sociedade. Consoante os sócios lhe mereciam maior ou menor confiança, dava sessenta ou quarenta por cento. Desta forma, tinha sociedade em muitas das lojas na periferia de Benguela e do Lobito. Mudando bruscamente, perguntou-me o que é que eu achara do almoço, dos seus amigos e das conversas. Respondi, com sinceridade, que tinha gostado muito. O tio rematou: – Ainda bem.

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o caçador de brumas Acabara de conhecer o clube Kuribeca que ele e uns amigos tinham fundado. – Um local onde os homens livres podem falar e fraternalmente aprender uns com os outros. Aqui, como timbre e código fundamental, cultiva-se a Justiça, a Verdade, a Honra e o Progresso, dentro dos sãos princípios da Revolução Francesa da Liberdade, Igualdade e Fraternidade. O tio Faria tanto era estroina e boémio, como sabia conversar com pessoas importantes, discutir política e fazer bons negócios. Estava sempre pronto a convidar toda a gente e nunca o vi pagar com dinheiro; só assinava contas. Em família, em casa ou entre amigos, com gestos vivos e belas gargalhadas, contava histórias divertidas. Não fosse o coxear, que tanto o incomodava, ele parecia ser um homem feliz.

E chegou o tão ambicionado dia. Às oito da manhã em ponto, eu e o meu tio estávamos na entrada dos CFB, para começar a minha nova vida. Dirigimo-nos ao gabinete do director geral, o engenheiro Gonçalo Cabral. Grandes abraços ao meu tio e a mim um distraído aperto de mão. Eu conhecia o senhor engenheiro de um serão na casa do doutor Freire. Acompanhou-nos ao gabinete do engenheiro director da Divisão de Via e Obras onde continuaram os cumprimentos. O eng.º Gonçalves, que seria o meu futuro director, falou da grandiosidade do projecto que tinha sido inaugurado no dia 10 de Junho do ano anterior. O tio Faria despediu-se, dizendo que já era tarde, e foi à sua vida. Então o eng.º Gonçalves mandou chamar o inspector Santiago e disse-lhe que iria ser o meu mestre. O inspector iria começar por me mostrar os diferentes serviços ali existentes. Começámos na Divisão da Contabilidade onde, em diferentes salas, os funcionários pareciam abelhas. Estavam preocupados com as contas do fim do ano, com os saldos das facturações das mercadorias e com as minas do Congo Belga. Na Secção de Pessoal deram-me o número que de futuro passaria a usar em todos os documentos – Miguel Casteleiro. Visitámos a Divisão de Agricultura e Florestas que garantia o fornecimento de lenha. Tinham, ao longo da linha, diferentes zonas de corte e muitas plantações

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joão sena de árvores. Na Divisão de Material Circulante vi as locomotivas em manutenção. Naturalmente, recordei as poucas viagens de comboio que tinha feito na metrópole. Adorava ver a máquina a soprar fumo, ouvir o pouca-terra-pouca-terra, o apitar fino ou grosso quando chegava às estações. Gostava das caras enfarruscadas dos maquinistas, dos apitos dos chefes de estação, de boné branco, a darem as partidas com as bandeiras ou as lanternas na mão, e dos carregadores, que diziam os nomes das estações e “partiiiidaaa”. O meu coração batia mais forte quando de dia se acendiam as luzes para atravessar um túnel, ou o revisor vinha pedir os bilhetes para os furar com um alicate. Mas do que eu gostava era de ir à janela e, se possível, com o vidro aberto, mesmo que fosse Inverno ou estivesse a chover, correndo o risco das faúlhas me fazerem chorar. Mas a suprema felicidade acontecia quando tínhamos de fazer uma viagem que metesse farnel. Ainda não tínhamos saído da estação da Guarda e já perguntava quando comíamos. A minha mãe marcava a hora da merenda para depois de uma determinada estação a meio do trajecto ou para a hora normal das refeições. Começava então a seca: – Para onde vamos? É muito longe? Quando tempo falta para chegarmos? É ainda muito longe? Quantas estações têm de se passar? Ó mãe, eu tenho fome. – Cala-te e está sossegado. – Ó mãe a estação fica antes ou depois de Mangualde? – Cala-te, sossega e deixa-me dormir. – Mas ó mãe, eu tenho muita fome. – Se não te calas levas um estalo na cara. – Mas eu tenho muita sede. – Bebe água da bilha e fica quieto. – Mas eu tenho fome; estou mesmo mortinho de fome. – Se não sossegas levas uma lambada na cara. Das três, uma: ou a minha teimosia era vencida pelo cansaço; ou, para me calar a minha mãe abria o cesto de verga e dava-me uma das deliciosas sandes de presunto, de ovo com chouriça, de queijo, ou mesmo de marmelada; ou a ameaça tornava-se realidade e nas bochechas dava-me a prome-

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o caçador de brumas tida lambada. Choramingava e, com o monco a cair do nariz, ficava sossegado e adormecia. Felizes tempos. Agora, os meus sonhos de menino tinham sido realizados. Aqui, nesta abençoada Angola, tinha à minha frente e à minha disposição para ver tudo o que quisesse, a máquina “Garratt”, feita em Manchester, com capacidade para rebocar 500 toneladas, como disse o meu novo mestre. O CFB tinha já cinquenta destas máquinas a funcionar. Fomos depois ver por dentro o comboio “mala”, a última moda. Estava a ser organizado e equipado para seguir nessa noite para a fronteira do Luau, a poucos quilómetros de Vila Teixeira de Sousa. Várias camionetas carregavam o vagão-restaurante e uma brigada de trabalhadores limpava as carruagens deixando tudo a brilhar. Entrámos pelo vagão-restaurante que comportava sala de jantar, dispensas, bar cozinha e ainda um grande frigorífico. As cadeiras em carvalho inglês e forradas a verde com coiro de búfalo eram como as de outros restaurantes. As janelas tinham cortinas de crina verde e do tecto pendiam ventoinhas amarelas. Nos lados, havia campainhas eléctricas. Todas as carruagens, tinham filtros de água e extintores de incêndio, eram iluminadas a electricidade. O “mala” não levava vagões de carga, com excepção do furgão. Santiago revelou ser boa pessoa embora de poucos sorrisos. Explicava claro e com muita calma. Mandou-me arranjar um bloco onde tomava notas, em folhas separadas, conforme a Divisão a que os assuntos dissessem respeito. Durante a tarde, como se fossem coisa sua, falou dos CFB. Lembro-me de ele dizer: – Sempre que uma linha-férrea penetra em regiões não civilizadas o desenvolvimento activa-se. Em Angola, que tem uma área de 510 000 milhas quadradas e uma população de 4 milhões de almas aproximadamente, provou-se não ser uma excepção a esta regra. Todos os distritos servidos pelo Caminho-de-Ferro estavam a desenvolver-se. Surgiram centros comerciais em Cuma, Lépi, Kaala, Huambo, Boas Águas, Vila Nova, Bela Vista, Chinguar, Catabola, e Camacupa. Angola, num futuro próximo, será um dos grandes fornecedores agrícolas e pastoris de África, podendo mesmo vir a ser um dos fornecedores dos distritos mineiros do Katanga.

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joão sena O acesso proporciona admiráveis oportunidades ao Planalto Central com uma largura de 600 km e uma altitude média de 1 400 metros. Ali encontram-se boas florestas e um bem determinado sistema de chuvas. Naquelas terras podiam criar-se com espantoso sucesso porcos, carneiros, burros e cavalos. No Bié a colheita do trigo. No Moxico havia o mel e a cera das abelhas que eram vendidos a bom preço. A sul do rio Kwanza, já eram cultivados grandes campos de arroz. No litoral, o açúcar é a principal cultura e por ano estavam a ser produzidos muitos milhares de toneladas. As possibilidades agrícolas de Angola permitem cultivar café, milho, centeio, limões, laranjas, tangerinas, maçãs, peras, nêsperas, ameixas, etc. Dizia isto tudo com a convicção de um vidente. Amava Angola. Como acontece a todos os enamorados era para ele a mais bonita. Depois destas conversas regressava rápido ao seu ofício: – Se cada um cumprir as suas obrigações, esta nossa terra morena será mais rica. E voltava a ensinar-me: – A via-férrea começou a ser construída no primeiro de Maio de 1903 e foi alargada até Benguela nos dois anos seguintes. Era já uma cidade com quatro mil habitantes e com governo de distrito, tribunais e hospital militar. Os trabalhos e as dificuldades surgiram quando chegaram ao monte Sahoa. Depois de construídos 60 km, a linha começava a subir o planalto central. Tiveram de ser vencidas as gargantas do Lengue. Nesta epopeia, com peças que pesavam mais de 650 toneladas, foram construídos três viadutos metálicos, um deles com mais de 76 metros de comprimento. Tiveram ainda de ser feitos trabalhos especiais para proteger a linha das grandes chuvadas. Na junção dos dois rios Lengue e São Pedro foi construída a primeira ponte com vinte e dois metros de comprimento e uma segunda de trinta metros. Mas a grande epopeia veio ao atravessar a “terra da sede”. Ali raramente caía um pingo de água. Tendo em conta que todos os trabalhos eram feitos por nativos, aqueles foram tempos muito difíceis. Para poderem enquadrar os trabalhadores angolanos tiveram de ser recrutados na Libéria quinhentos trabalhadores. Para além destas e de muitas mais dificuldades havia graves problemas para o abastecimento de água às locomotivas. Durante séculos tinham sido estas terras o grande obstáculo para

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o caçador de brumas a penetração no continente africano. Lendas e mitos… o comboio venceu. Na zona subtropical a vegetação intensa estava povoada de animais selvagens Em Catengue havia até a conhecida passagem de elefantes. Seguindo o vale de Coroteva, a linha ainda atravessava o rio nove vezes. Para evitar os precipícios e o vale de Catengue, muito arborizado, subia e descia várias vezes até atingir o Cubal a uma altitude de 900 metros. Ali já se cultivava, em grandes e pequenas fazendas, algodão, milho, trigo, e arroz. A linha chegara ali em 1908 e estavam construídos 197 km. As luzes da cidade do Lobito já estavam acesas quando terminámos a viagem-lição. Sentia-me eufórico e ansioso pelo dia seguinte. Santiago dissera-me que iríamos andar no comboio de mercadorias até ao Cubal. Com a porta do vagão escancarada pude ver a África entrar pelos meus olhos. O filme desenrolava-se a uma velocidade que dava tempo para tudo contemplar e escutar. Tudo girava à volta do crescimento recente da Sociedade Agrícola do Cassequel. Nos tempos da alta da borracha fora neste empório comercial onde confluíam as caravanas do interior. O declínio chegou quando mudaram o município para o Lobito. Conheci o chefe da estação da Catumbela e bebemos cerveja. Pouco tardou para que, após as duas pontes do rio Cavaco, aparecesse a cidade de Benguela com a estação em madeira. Novos conhecimentos e manobras feitas debaixo de um sol impiedoso. No Cubal, pernoitámos na pensão do Campos, depois da jantarada em casa do chefe da estação, o Tarico Murcho, alentejano de Borba. O serão foi passado à volta dos chouriços assados, há pouco recebidos da terra, e das garrafas de vinho que o chefe de posto, Joaquim Fernandes, ribatejano do Cartaxo, ainda tinha de reserva. Uma grande paródia! Até me obrigaram a cantar a Senhora do Almortão. Para o assossega, deitávamos abaixo a garrafa de whisky do Santiago. No dia seguinte regressámos ao Lobito. Para se atingir o planalto de Nova Lisboa tínhamos subido 1400 metros de altitude e passado o Monte Lepi para chegar ao Huambo, hoje Nova Lisboa. Nos campos verdes pastavam manadas de gado. Tínhamos percorrido mais de quatrocentos quilómetros de linha, ou seja, quase ir e voltar da Guarda a Lisboa. A gare estava pejada. A chegada do “mala” era hábito social a que todos os colonos

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joão sena compareciam. Fora, em frente à estação, cheguei a contar mais de dez automóveis. Com o Santiago passei dez dias nas oficinas dos CFB. Os termos técnicos, como “bitola da linha”, “junta de dilatação”, “travessas e chulipas”, “brita”, “bita” – uma picareta sem bico –, “moto-fuba” – uma vagoneta para os trabalhos de linha tocada, como se fosse uma bicicleta pelos operários que só comiam fuba23–, passaram a ser-me comuns. Nas Oficinas Gerais, providas com modernos maquinismos iguais ou superiores às melhores oficinas existentes em África, reparavam-se máquinas, carruagens e vagões. Durante a minha permanência, com constantes viagens nos comboios, foram-se tornando familiares os chefes das estações do Cubal, da Ganda e do Cuma. Nova Lisboa fora preparada e planeada pelo general Norton de Matos para vir a ser a capital de Angola. Tinha jardins bem tratados e muitas árvores plantadas nas largas avenidas. Na Avenida 5 de Outubro funcionavam o Cinema e o Hotel Ruacaná; na Rua do Comércio, boas lojas e armazéns; nas escolas do ensino primário, quase no final da cidade, quatro professores brancos leccionavam. No bairro do Caminho-de-Ferro as casas ainda eram de madeira com tectos de zinco. A par destas, feitas de pau a pique e cobertas de capim, tinham sido construídas casas de colonos. Nos arredores da cidade, a Estação de TSF e a Estação Agronómica tinham ligações por boas estradas. Mas o máximo do modernismo era o aeródromo. Disseram-me que muitos fazendeiros já tinham comprado aeroplanos para se deslocarem em Angola. Nem quis acreditar, mas pude constatar, no dia em que o Santiago me levou ao campo de aviação, que o movimento de aviões era grande. Cada vez que se encontrava um patrício era uma festa. Encontrei, nestas terras, famílias lá da Guarda. Recordavam-se as terras, os parentes e as pessoas que ficaram por lá e ficava-se amigo na hora como se o fôssemos de toda a vida. Assim conheci o professor Osório, de Mangualde; os Campos de Oliveira, do Oliveira do Hospital; Silveira da Cunha, o chefe de posto natural de Belmonte; e a família Fonseca, de uma aldeia perto do Sabugal. Proporcionaram-me dias de grande amizade e fiquei-lhes ligado 23

Farinha de mandioca.

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o caçador de brumas para toda a vida. Na deslocação ao Chinguar dormi na casa dos Campos de Oliveira. Tinham grandes fazendas e uma indústria de moagem que esperavam modernizar e aumentar com máquinas da Alemanha. Aproveitando todas as oportunidades e os meios mais sinuosos, a Alemanha imperial conseguira meter Angola dentro da sua esfera político-comercial e vigiava todos os trabalhos da construção da linha. Dizia-se que até tinham querido financiar a linha, mas que Sir Robert Williams nunca tal permitira. Em redor de Nova Lisboa e até no Chinguar, os alemães, instalados em grandes fazendas, trabalhavam de sol a sol, ao lado de negros e dos brancos portugueses. Aos sábados à tarde e domingos, caíam nos bares a beber cerveja e a fazer perguntas sobre isto e aquilo. Ouvi várias vezes que queriam à força ficar com Angola e correr com os portugueses. Santiago avisou-me que estivesse de bico calado e me fizesse mais parvo do que era; nunca dar “troco” aos teutões. Que raio de nome o homem chamou aos alemães! Regressámos de Nova Lisboa no comboio “mala”. O meu amigo falou com o chefe da estação – um tipo simpático de Chaves –, o Zé Rabeca, para nos arranjar uma couchette, pequeno compartimento para duas pessoas, na 1.ª Classe. Foi a primeira vez que tomei banho na grande banheira de esmalte enquanto o comboio seguia a alta velocidade. Na primeira carta que escrevi aos meus fiz questão de contar isto às minhas irmãs, só para as enfadar, pois de certo diriam que era peta minha. Nas estações em que o “mala” parava era a festa. Foi assim em Benguela, Catumbela e Lobito. Toda a gente branca, em romaria, vinha ver o comboio. O gentio olhava estarrecido para aquela máquina, a deitar fumo por todos os lados. Não admira. Outro tanto tinha também acontecido lá nas Beiras. Segundo contava o meu avô Jerónimo Casteleiro, a primeira vez que os campónios viram o comboio, acudiram à linha com grandes mantas para se não constiparem. O motorista Zézinho esperava-me na estação. Demos boleia ao Santiago e ala!, direitinhos para casa. Em casa, à nossa espera, sentados na varanda, estavam o tio Faria e a tia Aurora, e os pequenos que pulavam no jardim. A primeira impressão que tive da tia Aurora foi ser ela alta, bonita e elegante. Mas o que ainda hoje guardo na lembrança são os seus profundos

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joão sena olhos negros e o lindo sorriso num rosto sereno onde brilhavam dentes brancos. Sem dizer nada, como se já me conhecesse de toda a vida, veio ao meu encontro e abraçou-me. Aquele abraço gostoso ainda hoje guardo na memória. O tio Faria chamou os pequenos: – Meninos, venham dar um beijo ao primo Miguel. O Antoninho e o João vieram a correr. Bembe serviu a “água da Escócia” e a tia Aurora foi ao interior da casa; na volta, sem deixar de sorrir, disse-me: – Miguel, isto é carne seca com muito jindungo, azeite e vinagre. Prova que é uma maravilha. E era. Bebemos à saúde dos ausentes e dos presentes, como dizia sempre o tio. Quando fazia estes votos dava às palavras uma estranha entoação que me arrepiava. Eu sentia no tom da sua voz o desejo e a força sincera que brotavam do seu íntimo. Penso que pensava no meu pai. O tio Faria não era homem religioso, embora fosse à missa com a tia e os pequenos. Tratava com respeito os padres da missão e quando os visitava ia de casaco e gravata. Ouvi-lhe também dizer que as religiões, em vez de unirem, só dividiam. Em nome de Deus, ao longo da história e nas diferentes religiões, tinham-se feito grandes patifarias. Dizia que as missões em Angola faziam um trabalho extraordinário: curavam os corpos e ensinavam, mas também obrigavam as consciências com a doutrina, tantas vezes contrária aos usos e costumes dos povos nativos. Referia também serem as missões protestantes as que melhor funcionavam: tinham disciplina, missionários competentes, muitos médicos, bons hospitais e muito dinheiro. Não tinham que andar a pedir de kimbo24 em kimbo ou fazer como o padre Simão que, para sobreviver e arranjar o necessário para o passadio dos seus doentes, vendia imagens de uma santa. O tio acreditava na amizade entre os homens livres, na solidariedade e na gratidão, por quem nos fez bem. Assim procedia um homem honrado. Fui-me preparar para jantarmos. Oh!, o meu quarto parecia outro. A tia tinha posto flores e fartos ramos verdes na jarra; mandara substi24

Aldeia indígena.

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o caçador de brumas tuir o mosquiteiro por outro a estrear; a colcha fora trocada por uma de seda verde velho e as minhas roupas estavam cuidadas e arrumadas nos guarda-fatos. Nas gavetas haviam mais camisas de popelina, com dois bolsos. Havia mais roupa branca: as minhas ceroulas de popelina, feitas pela menina Felismina que trabalhava muito bem e ia a dias lá para nossa casa, tinham as pernas cortadas; eram agora cuecas, distintas e elegantes. Na gaveta estavam vários pares de calções e noutra havia meia dúzia de meias altas, novinhas em folha, como as dos meus amigos. Poucas vezes tivera coragem de andar em calções, pois só tinha ceroulas. No futuro, já poderia meter na meia da perna o lápis de tinta do CFB. Já nada me faltava para parecer africanista. Quando agradeci à tia, ela respondeu com uma festa na cabeça dizendo: – Fui fazer compras cá para casa e para os pequenos; aproveitei e comprei também umas tralhas sem importância para ti. Quero que faças boa figura nas próximas festas da nossa família.

3 Chegou a época do Natal. As pessoas pareciam mais simpáticas e amigas e ouviam-se músicas e cânticos de Natividade. Só o calor e a torreira do sol me enganavam. Por vezes dava comigo a pensar que esta do Natal com tanto calor… deveriam estar a mangar comigo. Para mim o Natal tinha de ter frio, neve, madeiro a arder no adro como na minha aldeia, missa do galo e chocolate quente que se bebia antes de irmos para a cama. A nossa casa tinha de estar cheia de família e amigos e com as velhas cepas a arderem na lareira a fumarem os enchidos do último porco. Faltava-me agora o cheiro das filhós, as faces rosadas da minha mãe, a alegria das minhas irmãs e dos meus irmãos, e o ar solene mas radiante do meu pai, sentado no cadeirão. Recordo também quando, de madrugada, íamos descalços ver o que é que o Menino Jesus nos tinha posto no sapatinho. As lembranças jorravam do fundo da minha alma. Uma saudade profunda invadiu-me o coração e as lágrimas da memória turvaram-me.

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joão sena Reagi. Nunca mais. Nunca mais… Nunca mais havia de passar a vergonha que me acontecera no barco, a chorar como um bezerro desmamado. Não queria sequer pensar em tais misérias. Eu era um fulano com sorte. Estava na terra que escolhera e encontrara uma família que me queria bem. Deveria pôr as mãos aos céus e agradecer a Deus; tinha família, emprego, um ordenado maior do que merecia, e poderia passar a enviar todos os meses um conto e meio de réis – quinze libras – ao meu querido pai. Com o Natal, o trabalho nos CFB amainara. Santiago passava mais tempo a conversar. Saímos uma tarde para fazer compras. Ele queria mandar prendas para a filha que tinha em Portugal. Perguntei-lhe se não mandava nada para a mulher. Respondeu-me secamente que estava divorciado. Devo ter feito tal cara! Nunca tinha conhecido alguém que fosse divorciado. Ele sorriu e acrescentou: – Olha que isso não é nenhum bicho-de-sete-cabeças. Depois, se calhar e para mudar de assunto, perguntou-me se não ia comprar as minhas prendas para os meus tios e pequenos. Fiquei atarantado. Nunca fizera compras. Mas pior: só me sobravam uns poucos angolares dos duzentos que o meu tio me tinha dado à chegada. Santiago sorriu e disse-me: – Miguel, nós estamos em África. Aqui você pode comprar, quer tenha ou não dinheiro. Em Angola toda a gente tem crédito. E constatei ser bem verdade. O Santiago levou-me a uma loja no centro do Lobito. Comprei, para dar ao meu tio, um livro sobre a caça em África; para a tia Aurora escolhi uma blusa de seda que me disseram ter vindo de Inglaterra; para os pequenos, dois brinquedos de lata, uma moto com o homem em cima para o Antoninho e uma corneta para o Joãozinho. Numa das estantes encontrei um livro de Eça de Queiroz intitulado “Uma campanha alegre”. Mandei-o embrulhar no papel de Natal e ofereci-o ao Santiago. Foi a minha vez de o ver sem jeito e comovido ao dizer: – Nestes últimos anos é esta a primeira prenda de Natal que me oferecem.

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o caçador de brumas Quem haveria de imaginar que aquele homem sério, digno e trabalhador, que parecia despreocupado e até feliz, tinha amargura escondida? Muito se engana quem cuida. Forte mãozada do dono da loja e o dito tradicional: – Volte sempre. Aqui, tem uma casa ao seu dispor. Um grande abraço ao senhor seu tio… Aquilo é que é um carácter! Agradeci, assinei o vale e, desejando Feliz Natal a toda a gente que estava na loja, saímos porta fora.

No dia 23 já havia dispensa de ponto. Só voltaríamos a trabalhar no dia 30. A manhã desse dia foi destinada à praia nos areais da Restinga, com a tia Aurora e os pequenos. Antes do Telmo se prontificar a dar-me umas lições de natação na piscina do Lobito Sport Club eu nadava muito mal e tinha medo das ondas. Depois passei a adorar a praia. Foi ele quem me emprestou o “maillot”, antes da tia Aurora me comprou um de malha, azul-escuro. Lembrar-me eu que nas ribeiras lá da terra, ou quando íamos ao rio na Misarela, nadávamos em pelota... Durante a manhã brinquei com os pequenos: fizemos castelos, bolos de areia molhada e até jogamos ao prego. A tia, com aquela sua linda cor cobreada, besuntou-se com manteiga de cacau e debaixo do enorme guarda-sol, espetado à sombra das palmeiras arrimadas ao mar, lia um livro. Eu, caminhando sobre a areia molhada, fui ver a faina dos pescadores a recolherem o peixe pescado durante a noite. Ficava de olhar regalado e em silêncio a contemplar aquelas figuras de ébano, esguias e fortes, envernizadas de suor, com trapos à cintura e panos na cabeça a puxarem as cordas para retirarem do mar as pirogas carregadas ou as redes prenhas de peixe. Em esforço conjugado com as mulheres e as crianças, diligentes e ritmados, iam cantando uma melopeia lenta. As mulheres, para que os barcos pudessem rolar sem se enterrarem, colocavam troncos de madeira na areia. Ali, em silêncio, olhava os pescadores, as mulheres, as ondas e o horizonte. Tentava adivinhar o que haveria para lá daquela linha onde acabava o mar e começa o céu. Imaginava praias, gentes, serras, cidades e mundos…

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joão sena Talvez por ter nascido na serra, muito longe do mar, tinha fascínio, atracção e deslumbramento por aquele mar que nunca fui capaz de explicar; bastava-me contemplá-lo para me dar paz e serenidade, tal como acontecia todos os anos quando via cair o primeiro nevão. Regalava-me a ver os farrapos gordos de neve a tombarem serra acima, confundindo-se no céu esbranquiçado. Na linha do horizonte da praia, pelo meio-dia, começaram a formar-se as nuvens; ao meio da tarde, descarregavam grandes chuvadas e traziam as muitas trovoadas que troavam durante a noite. Regressámos a casa para almoçarmos com o tio e uma caterva de amigos que ele convidara. Nesse dia, o Santiago também foi almoçar lá a casa e, pela primeira vez, vi-o rir divertido com uma das histórias do tio. Uma delas que deixou-me de boca aberta.

Num belo dia, depois de um almoço, daqueles à moda antiga em que também estava um dos pilotos de aeroplano meu amigo, lembrámo-nos de ir jantar ao Balombo. Coisas dos copos! Dito e feito. Em três tempos estávamos a descolar na avioneta e a seguir, mais ou menos, o caminho-de-ferro e a estrada. Voávamos na paz do deus Baco bebendo da garrafa de whisky. Depois de darmos uma data de voltas nunca mais encontrávamos esse tal Balombo para aterrar. Mais voltas, mais umas olhadelas, mais valentes tragos na “botelha” e nada. A gasolina acabou e vai daí tivemos de aterrar o pássaro em terreno tão plano quanto possível. O zingarelho foi perdendo cada vez mais altitude e vai de aterrar em cima do que parecia ser terreno plano. Ou fora pela neblina ou pelos vapores, demos conta que estávamos a derrubar troncos e pernadas. A pobre da avioneta começou por deixar as asas para trás e ficou como o chapéu de um pobre: cada bocado para seu lado. Quando tudo parou estávamos em cima dos telhados da missão católica e, ao abrir o olho, estava à minha frente um velho com longas barbas brancas. Estou bem tramado… Cá está o tal S. Pedro à minha espera! Quis falar, mas nada.

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o caçador de brumas Apurei melhor o ouvido porque o tal Santo Porteiro dizia qualquer coisa. Escutei… Eram agora claras as suas palavras: “Coitadinhos, estão ambos mortos e borrachos. Valha-lhes Santo Hilário, protector dos foliões.” Disse fodilhões ou fui eu que ouvi mal? Não podia acreditar que até no Céu se falasse assim! Mas eu estava vivinho da silva e bem o queria contrariar mas… falar não podia… mexer-me ou levantar-me… nem pensar! A única coisa que consegui fazer para acenar que ainda estava vivo foi mover um dos dedos da mão. A trancos e barrancos lá nos conseguiram levar numa tipóia carregada aos ombros pelos nativos para o hospital do Balombo. Não fora a muita e bendita “água da Escócia” e eu não teria resistido a tantas dores. Mas durante a caminhada, com a perna em miserável estado, perdi o liquido que há dentro dos ossos. Só resisti com a ajuda do enfermeiro Traça e a permanente anestesia da bendita “água da Escócia” que o meu querido sogro – o grande soba branco do Balombo, o Cariata, – nunca me deixara faltar. De outro modo, teria esticado o pernil como aconteceu com o meu velho amigo piloto. Divinal foi também a acção do tchimbandas Mauwet. Foi ele quem me aplicou fortes sinapismos com as águas santas do Balombo. Naquelas benditas águas fervera as ervas que nasciam ao lado da fonte; depois, a ferverem, punha-as em cima das muitas feridas. E foi assim que me salvou. Doutra forma teria morrido de septicemia. Quando terminou a narrativa voltou-se para mim: Aqui tens, Miguel, a razão por que eu às vezes sou um bocadinho “pé de carimbo”.

Ao princípio da noite de Natal fomos todos para casa do tio António e da tia Ju. Chovia grande carga de água. A árvore de Natal, enorme, estava ornamentada com luzes pequeninas, bolas de todas as cores, compridos fios de oiro e, para parecer neve, tinham colocado farinha nas ramagens do pinheiro.

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joão sena De Luanda chegara o outro filho que estava a estudar no liceu. Era pouco mais velho que eu e de pronto fizemos amizade. A Lena e a Cila organizaram na varanda – por causa da chuva não podiam brincar no quintal – uma roda com os primos e os moleques, filhos dos criados. Cantavam cânticos de Natal. Eu e o António fomos ver a colecção de selos do pai dele. Os tios e os amigos Eduardo Pimentel Botelho e o Fernando Cabral, convidados por ambos serem solteiros, conversavam e tomavam o aperitivo. As senhoras ultimavam o jantar e do gramofone ouviam-se canções de Natal. Àquela hora, também lá na terra havia alegria e animação. No adro da igreja, homens e rapazes aqueciam-se à volta das labaredas do madeiro, cantavam ao Deus Menino e bebiam aguardente com mel. Os garotos esgravatavam nas brasas, escolhiam uma média, e punham-na em cima de uma pedra. Com um maço de madeira com largo cabo davam-lhe uma cacetada e faziam-na dar um estouro como uma peça. Mesmo que nevasse e o frio enregelasse os ossos, a rapaziada que “iria às sortes”25 ia contando e aumentando a aventura que fora o trazer durante as anteriores madrugadas, do meio da serra, os enormes troncos de carvalho e freixo, em dois ou três carros de bois “subtraídos” aos lavradores do povo. Ao tocar da “última” no sino da igreja para a missa do galo já iam bem animados e quentes para aguentarem o frio de rachar. Quando soaram as nove horas no relógio da sala estávamos todos à mesa. Presidiam nos topos o tio Deodoro Faria e o tio António. A toalha, toda de renda, estava ornamentada com dois candelabros de prata, centros de cristal com flores e verdura e pratinhos de porcelana com pinhões, figos e passas secas. Ao lado, numa mesa de apoio, pastéis de bacalhau e ovos verdes. Com os tios em pé nos topos da mesa, primeiro as senhoras depois os convidados e nós os da casa, eu, o filho do tio António e os mais novos, muito penteados e de roupas novas a luzir, sentámo-nos em lugares dispersos entre todos os que estavam já sentados. Os criados, impecáveis nas engomadas fardas brancas, serviram champanhe Taittinger e Kruger Heidsick comprado nos paquetes belgas que vinham ao Lobito. 25

Inspecção militar.

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o caçador de brumas O calor e a humidade atormentavam. Lá fora, a chuva batia com força no telhado, soando mais forte no silêncio em que todos estávamos. O tio Faria ergueu a taça e com todos de pé discursou. Começou por agradecer a Deus mais este Natal de Paz e Amor. As suas palavras foram para o mano António e querida Ju, sua irmã do coração, seguindo-se referências ao empenho que tinham posto na festa da família. Lembrou a irmã Maria que vivia em Chaves e todos os familiares que, por estarem longe, não podiam compartilhar e os demais amigos que em Portugal nos teriam no pensamento e no coração. Depois, com emoção, lembrou aqueles muitos que já tinham partido. Após breve pausa, olhando para mim, ergueu mais alto a taça e disse que estavam todos muito felizes por eu ali estar, que na minha pessoa saudava o amigo distante, amigo do coração – o meu pai – e toda a minha família. Terminou, brindando pelos presentes e pelos ausentes com um Feliz Natal. Trocámos beijos abraços e votos de felicidade. Os tios abraçaram os criados. Todos estavam comovidos. Como diferentes eram os Natais em nossa casa! A massa das filhós amassada pela minha mãe e pelas minhas irmãs, depois de levedada era arrimada à perna da minha mãe sentada num dos bancos da cozinha. Com as mãos estendia num joelho a massa de cada uma das filhós, pondo-as a fritar na sertã. Gracinda voltava-as no azeite a ferver com dois paus chamados “sovinas”. Eu e os meus irmãos queríamos prová-las desde logo, mas a minha mãe sacudia-nos dali dizendo: – As filhós quentes fazem dor de barriga. O Avozinho, que toda a vida teve a cabeça coberta de neve, ensinara-nos a pôr as mãos e a rezar. Orávamos nessa noite por todos aqueles que tinham plantado as árvores cujas achas ardiam na lareira e por aqueles que tinham contribuído para que a nossa ceia da consoada fosse tão feliz. Depois havia breves momentos de silêncio e meditação. Naqueles instantes de recolhimento sentia-se presente a sombra dos nossos antepassados. Reposta a alegria, começávamos a comer as batatas e as couves plantadas com a finalidade primeira de serem comidas neste dia com o bacalhau especial a acompanhar. A voz do tio Faria sacudiu o meu sonho quando se dirigiu aos criados:

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joão sena – Deixai de para aí estar a chorar como as mulheres e tratai de servir rápido a canja bem quente, seus chorões. O riso e a animação voltaram para ficar. Em travessas, veio o bacalhau e o polvo cozido acompanhados por batatas e regados pelo melhor azeite português. Depois veio um arroz de polvo a reluzir ao azeite, bem tostado e solto, acompanhado de bocados de polvo frito. Acompanhavam os melhores vinhos brancos de Colares, guardados, pois havia poucos vinhos portugueses à venda em Angola. Os pudins, as tartes, o leite-creme e o arroz doce deram passo às fatias de ananás, privilégio daquelas terras tropicais. O vinho do Porto adubou as filhós e as orelhas-de-abade. Entre conversas intermináveis, com as memórias e recordações de outros tempos e outras latitudes, foi-se passando a noite. Minutos antes da meia-noite fomos à missa do galo que o velho missionário capuchinho rezava na casa do engenheiro Gonçalo Cabral. No Lobito ainda não havia igreja. Deixara de chover. O calor da noite tornava único, muito diferente dos que passara, o meu Natal nesta África já por mim tão amada.

Os dias decorridos sem o compromisso de comparecer ao emprego foram óptimos. Com os amigos aproveitávamos, sempre que possível, as manhãs luminosas para irmos à praia, ou dar umas voltas. À tarde, as nuvens carregavam e grandes chuvadas tombavam alagando as ruas e os caminhos. No Clube ouvíamos os discos chegados da metrópole e aprendíamos a dançar aquela dança amalucada, o tal “charleston” e uma outra ainda mais moderna, o “swing”. Quando não estávamos para as aturar, íamos jogar o king. À noite, íamos ao cinema. Muito eu gostava de ver filmes de gangsters e cowboys e muito me ria com os filmes cómicos do Charlot e dos irmãos Marx. Com a convivência, fui abrindo os olhos, ganhando maneiras finas e aprendendo as frases da moda que me soavam bem. Ao princípio das manhãs costumavam jogar ténis duas lindas moças, a Milocas e a Alda, altas e esguias e com um par de pernas espectaculares. Eu ficava deslumbrado e a espreitar de longe durante largo tempo. A Milocas

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o caçador de brumas jogava melhor e não tinha ocupação, enquanto a Alda escrevia poesias no Jornal do Lobito. Enquanto olhava, vinham-me à ideia as coisas mais absurdas do mundo. Imaginava que um dia uma delas me convidaria para tomar um refresco ou ir ao cinema, ou dar uma volta depois do jantar até à Restinga. Eu sei lá o que mais me passava pela cabeça quando nos cruzávamos no bar ou nas varandas… A Milocas era uma brasa, mas nem ela, e muito menos a Alda, uma intelectual e poetisa, reparavam em mim. Não era culto nem democrata, sabia poucas poesias, não sabia falar francês, não era alto nem loiro, não sabia jogar bem o ténis e, por mais que me esforçasse, toda a gente via logo que tinha chegado há pouco tempo. Se fosse engenheiro como o pai da Milocas, ou como era a Alda, filho de gente rica e importante, talvez a cantiga fosse outra. A Alda, como diziam quando se lhe referiam, era a futura grande poetisa e eu era só o Miguel – aquele que ainda falava “axim”. Além disso, ambas iriam em breve para a metrópole fazer os estudos universitários. Um dia estive toda a manhã a jogar o ténis com o Telmo e o seu irmão Alexandre que, para minha surpresa, era assim a modos que mais escuro, talvez mulato. O Telmo, porque tenha notado em mim surpresa ou admiração, mais tarde explicou-me que o Alexandre era também filho do doutor Figueira Freire e de uma enfermeira de São Tomé que morrera quando ele nascera. O pai, no princípio da carreira médica, tinha estado colocado naquela ilha. Quando terminámos de jogar estava sedento. Para não dar a volta pelas escadas do terraço onde estavam as moças, subi o muro. Preparava-me para beber água numa das torneiras da casa de banho dos homens, arrimada à das senhoras, quando ouvi risadas. A tal Mimi, a amiga das primas e da Milocas, conversava com uma outra moça e tive a percepção que estavam a falar de mim. Apurei as orelhas e pude ouvir clarinho a Mimi dizer que eu era ainda muito saloio, muito matreco, pois não sabia dançar, nadava mal e até nem sabia jogar ténis. Se calhar, até nem saberia… ao menos namorar e muito menos beijar… Deram uma gargalhada. Já uma vez escutara uma conversa parecida quando aquela delambida da Lili me chamou besugo. Fiquei fulo com as gajas e fornicado com tais

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joão sena comentários. Se aparecesse uma oportunidade, ela haveria de sentir a diferença que há entre inchaço e gordura. Antes de jantar, contei ao tio Faria. Ele deu outra gargalhada e disse-me: – Nunca ouviste dizer que quem fala na barca quer embarcar? Fiz para mim mesmo uma jura: Só voltaria ao Clube quando soubesse dançar e jogar ténis. Aquelas do besugo e do saloio… O aporrinhamento passou-me rápido e a jura varreu-se-me por completo. Telmo era o meu melhor amigo e por sua vontade eu ia comer lá a casa todos os dias. Só não ia por considerar que era abuso e porque os meus tios não gostariam. A casa do doutor Figueira Freire parecia um palácio como nos filmes. A mãe do Telmo, senhora dona Ângela, tinha olhos azuis, era alta muito bonita. Tratava-me com carinho e achava graça a certos termos que eu usava e à minha maneira de falar. Ensinava-me coisas de África e divertia-se ao ouvir-me contar coisas lá da terra e certas aflições que eu já passara em África. O senhor doutor era um médico distinto, conversava muito comigo, queria saber se eu estava bem e até perguntava se já me tinha adaptado ao clima tropical. Para ter saúde – dizia – era necessária uma boa alimentação e tomar sempre as hóstias do quinino. Como em casa do tio, as mesas eram enormes e as refeições eram servidas com mais cerimónia! À mesa contavam-se histórias divertidas e a propósito de qualquer conversa o doutor falava de coisas passadas na vida dele. Quando acabava a refeição e nos davam ordem para nos levantarmos, filhos e amigos dos filhos íamos todos dar um beijo na face da senhora dona Ângela, como se fazia em nossa casa. O Telmo era mesmo um bom amigo. Jamais se enfadava e tinha uma paciência infinita para me explicar tudo, apesar de eu ser mais velho. Era ele quem, com os seus modos calmos e educados me corrigia, fosse uma palavra mal dita, fosse a chamar a atenção para endireitar as meias que trazia tortas. Foi ele quem me levou à barbearia para cortar o cabelo. Passei a gostar muito de ir ao barbeiro, ainda que ele me parecesse ser um pouco amaricado.

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o caçador de brumas O senhor João “Caolho” – como lhe chamavam nas costas com safadeza devido ao ter um olho arregalado por uma deficiência na pálpebra – pontificava no seu estabelecimento comercial que, no seu dizer, estava ao serviço das mais finas gentes do Lobito. Cada cliente que entrava era logo tratado por “senhor engenheiro ”. Eram todos seus grandes amigos. Raríssimas vezes acertava, apesar de haver mais engenheiros no Lobito do que em qualquer outra terra de Portugal. Quando era esclarecido da ausência do título, contava uma larga história que se poderia resumir ao ditado: “O futuro só a Deus pertence”. A barbearia era um luxo. Tinha luzes, espelhos e uma ventoinha enorme que rodava para refrescar o ar. Em frente aos espelhos, estavam colocadas três cadeiras repletas de cromados onde se deitavam os clientes para serem barbeados. Na primeira, operava o mestre Caolha; na outra o empregado Carreira, mulato de bigodinho e muito calado, a última estava de reserva. De bata branca e muito pintada, uma menina loira recém-chegada de Portugal arranjava as unhas aos clientes. Rosinha, assim se chamava a moçoila, ganhava boas gorjetas com os senhores quarentões do Lobito. A finória puxava-lhes a mão para cima das grandes mamas e falando baixinho cortava, aparava as peles e punha verniz nas unhas aos mais modernaços. Já então se comentava que no seu apartamento ela dava as melhores e mais competentes “massagens”. O moleque Bino, divertido e simpático, engraxava os sapatos dando ao ritmo da melhor batucada grandes estalidos com o pano de polir e fazia recados aos clientes. Lembrar-me eu da barbearia do ti João Ribeiro. Ficava no adro da Igreja, lá na minha terra e só abria aos domingos de manhã. Ele, além de barbeiro antigo, era entendido nas consultas. Arrancava dentes, dava injecções, fazia sangrias, colocava sinapismos e punha as ventosas quando alguém apanhava um golpe de ar. A única concorrência em matérias sanitárias vinha do anarquista e pedreiro-livre – Alvino Simão, de seu nome –, o herege ferrador mas muito temente a Deus, que se arrogava de curar homens e sarar bestas. Mas essa era fraca concorrência. O homem, sempre que encontrava o tio João Ribeiro, desbarretava-se todo e até o convidava a tomar um traça-

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joão sena dito26 na venda do Casta-Pequena, para lhe renovar, uma vez mais, a sua humilde subordinação e admiração profunda. A avó Ana Madeiras, companheira de meio século do tio João Ribeiro, para além das suas fadigas domésticas resultantes do aturar oito filhos, tratar da venda e avisar o povo das cartas recebidas, ainda era parteira – apanhadeira dos garotos que nasciam lá no povo. Ambos tratavam das leiras e atendiam a pouca clientela na venda. Vendiam chitas, riscados, petróleo, sabão, mercearias e até vinho a copo. Três dias por semana recebiam o estafeta do correio que vinha a pé desde a Guarda e seguia viagem pelas aldeias vizinhas. Aos domingos, o Ti João Ribeiro abria a barbearia. Não tinha soalho; o chão era de terra batida, as paredes de reboco amarelado pelos anos e pejado de cagadelas das moscas. Nunca tinham sido caiadas. A arca onde o mestre apoiava as navalhas, o pincel, um bocado de espelho, máquinas de assentador – uma correia, navalha de barbear, pentes e uma bacia de água que ia ficando cheia de espuma –, servia de tulha para guardar o centeio. Logo ao bater da primeira,27 os clientes começavam a tomar vez sentando-se no banco corrido. Quando já estava lotado, arrumavam-se por ali ou esperavam fora, fumando os costumeiros “mata-ratos” e conversando sobre a vida com a beata apagada nos queixos. Falavam das colheitas, das maleitas tidas pelos próprios ou acontecidas lá em casa, da família ou do gado. Se havia romarias próximas falavam dos que lá iriam; se a festa já era passada contavam as aventuras e peripécias vividas, inventadas ou escutadas. Chegada a vez de cada um, o filho do mestre barbeiro começava por lhes arrodilhar ao pescoço uma velha toalha de estopa para depois começar com um pincel enorme a ensaboar com espuma de sabão azul o rosto tisnado do amigo freguês. O mestre actuava em seguida. Passava a navalha no assentador, enquanto iniciava uma conversa com o cliente que entretanto se sentara na cadeira e, com uma só passagem e sem qualquer pausa, raspava queixos e faces com barba de uma semana. – Uma limpeza! – Aos 26 27

Mistura de aguardente e ginjinha. N A : Os sinos tocavam três vezes para a missa a primeira duas horas antes a segunda uma hora antes a última um quarto de hora antes da celebração.

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o caçador de brumas que queriam cortar o cabelo, rapava-os com a máquina zero, ou punha uma malga nas cabeças rapando quanto ficasse de fora. A conversar com os clientes que pagavam ao ano com um alqueire de centeio, uns quilos de queijos ou umas quartas de azeite, ia ensinando a arte ao Zeca, um dos filhos. Sabe-se lá se um dia não lhe iria fazer falta perceber da arte. Connosco era diferente. O Ti João Ribeiro ia a nossa casa servir o meu pai e os garotos aproveitavam. Antes, a minha mãe mandava pôr uma cadeira e um lavatório na varanda e, em vez do sabão azul, tínhamos direito ao pincel de seda do meu pai, a sabonete e álcool no pescoço para desinfectar. O nosso pai pagava o serviço, a amizade e simpatia, bem como a personalização de serviço ao domicilio, com mais umas quartas de centeio que os demais fregueses. Mas isto são outras histórias. Ao tocar da última, a função terminava para irem todos à missa. Vestiam-se os jalecos ou os capotes, punham nas cabeças os cambados chapéus de todos os dias e lá iam ouvir deslumbrados, mas sem entenderem, o sermão do senhor prior. O padre Fatela, imaginando estar no púlpito da maior Sé do mundo, fazia mais um sermão rebuscado de imagens poéticas e na melhor oratória eclesiástica, indiferente aos bocejos dos seus paroquianos que o escutavam de olhos arregalados. Era um dos maiores pregadores da diocese. Sempre chamado para pregar nas mais afamadas festas e selectivos púlpitos das redondezas, era-lhe reservado o sermão da Saudade que na Sexta-Feira Santa se fazia no Calvário da cidade da Guarda. Aí fazia chorar as pedras da calçada… Terminada a missa, as mulheres envoltas em xailes negros corriam para casa a acabar o almoço. Os homens em grupos diversos ficavam no adro da igreja charlando, comentando as colheitas, as sementeiras, as mondas, as podas, as limpezas dos pinhais de onde obtinham a lenha para o Inverno. Até que um desafiava o grupo para um copo na taverna do Jaime ou do pipo que tinha na adega.

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joão sena Deviam ser quatro horas da madrugada quando o Mariano me bateu à porta. Estava escuro como breu e chovera toda a noite. Mal dormira devido à ansiedade do passeio e ao ruído do malhar das grossas bátegas de água no zinco do telhado. Vesti-me e sem fazer a barba apresentei-me para matabichar. Estavam todos sentados à mesa. De braços abertos, a tia Aurora, há muito arranjada, enquanto dava as últimas ordens aos criados que já tinham carregado o automóvel, beijou-me nas duas faces. O tio Faria, barbeado e a cheirar a água-de-colónia, já tinha comido quatro ovos estrelados com bacon e bebia a segunda chávena de café escuro acabadinho de ser passado. Em dado momento, levantou-se e perguntou ao Bembe se as espingardas já estavam no carro. Reparei que ao cinto colocara um coldre com uma pistola. No carro tudo fora bem amarrado com grossas cordas e uma corrente de ferro por cima das maletas e dos cabazes. Dois bidões de gasolina foram atados ao pára-choques traseiro. Todas as precauções eram poucas na época das chuvas que tornavam as picadas enlameadas. Os dois miúdos, aprumados nos fatitos de safari muito à inglesa, continuavam sentados à mesa choramingando. O moleque não se cansava de repetir vezes sem fim: – Cómi minino, comi… Não queriam regressar ao Balombo. Tão emocionado estava com a viagem que comi num pronto. Em poucos minutos, estava já no carro com o Antoninho sentado nas minhas pernas e bem mais animado. Ao meu lado, a Tia Aurora aninhava no colo o Joãozinho pronto a adormecer. O tio Faria, sentado ao lado do Zézinho-motorista, colocara na cabeça um estranho gorro de cabedal com duas enormes orelhas. Para se prevenir contra o pó, ajustava os óculos de borracha de aviador. Estávamos todos prontos. Olhei para o meu relógio; eram quatro e meia da madrugada. As jornadas em África começavam muito cedo. Quando o sol nasceu, aproveitando a boa estrada, já estávamos a muitos quilómetros do Lobito. Em minutos passámos pela variante do Biópio. O automóvel seguia devagar sob a condução firme do Zezinho, contornando os buracos e poças de água. O tio Faria fumava um dos seus cigarros ingleses. Eu e a tia Aurora conversávamos. Os pequenos dormiam

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o caçador de brumas aconchegados entre nós, e se a tradição se mantivesse, acordariam ao meio da manhã quando se parasse para o lanche matinal. O sol inclemente subiu no arrebol e as plantações de cana, como pequenas ilhas na vastidão do terreno verde, ficaram mais para trás dando passo ao capim e a tufos de árvores. Para atravessarmos o primeiro riacho o tio saiu do carro e indicou ao Zézinho por onde deveria atravessar, enquanto punha uns ramos de arbustos debaixo das rodas que patinavam na lama. O carro forçou um pouco e sem maiores dramas continuámos a viagem, fazendo adeus aos muitos negros que, vindos dos Kimbos, tinham acudido ao barulho do automóvel. A picada ficou seca e o calor aumentou. O tio carregou uma das armas caçadeiras, trocou o seu gorro de aviador pelo capacete colonial e disse qualquer coisa ao Zézinho. Percebi que falavam de caça. A tia Aurora amarrara um lenço de seda e colocara uns óculos escuros. O pó começara a afligir. Não tardou que também ela adormecesse. Devia estar cansada. O tio Faria há muito fizera o mesmo. Passámos pequenas povoações e campos verdes de palmeiras. Atravessámos matas mais ou menos cerradas. Vimos, em grupos na picada, os macacos com as crias às costas. Eu gostava muito de ver a África ali mesmo ao estender da mão. Nas carruagens dos comboios a coisa passava-se mais ao longe e, fosse pela velocidade ou pelo ruído das máquinas e do próprio comboio, tudo ficava mais distante e mais fugidio. Não era a mesma coisa. Ali sentia o cheiro do capim, podia seguir o trilho da picada na terra vermelha, olhar bem à volta aquele imenso horizonte e sentir o suor escorrer em bica pela minha face e costas devido ao intenso calor emanado do sol. Lentamente começámos a subir os Montes Quileos. Já na anhara, o Zézinho-motorista comentou que, se o pontão do ribeiro tivesse sido levado pelas águas, iríamos ter o primeiro problema. Pouco importava; ali bem perto estava a fazenda do seu amigo Cabral, disse o tio. Nem teve tempo de esclarecer como é que o pontão poderia ser levado pelo riacho. O carro estacou mesmo à beira da água, a correr caudalosa e barrenta, num leito com largura de mais de quinze metros. Saímos todos do carro. O tio, o Zézinho-motorista e eu inspeccionávamos o local; a tia e os pequenos afastaram-se uns metros procurando abrigo debaixo de

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joão sena uma frondosa árvore. O Zézinho ainda procurou mais abaixo, não fosse o pontão por ali ter ficado encalhado no intenso arvoredo; mas nem rastos… Tinham de ser tomadas as providências necessárias. Nós três não tínhamos maneira de resolver aquele problema. Menos mal, pois bem perto havia um grande Kimbo e o soba era amigo do tio. Aquilo é que era um carácter! Até no fim do mundo tinha amigos. Enquanto o Zézinho foi por auxílio eu e os tios aproveitámos para, à sombra de uma árvore, estendermos a toalha para a merenda confeccionada pela tia Aurora. Vinha num dos cabazes. O tio foi encher um bocado de uma câmara-de-ar com água para deitar no radiador. Também o carro já tinha sede. Não parecia enfadado com o passar das horas nem com as contrariedades que tinham surgido. Para ele o que não se podia arranjar, arranjado estava. Referenciou o local onde teríamos de reconstruir o pontão. De todas as árvores próximas, apontou umas quatro ou cinco, bem altas, que tinham de ser derrubadas. Com os troncos e as ramagens faríamos a ligação entre as duas margens. Tudo fora dito enquanto caminhava para o carro. Da bagageira tirou um serrote e dois machados que colocou no solo. Nunca pudera imaginar que no carro andassem aquelas ferramentas. Pegou na espingarda e afastou-se uns metros. Iria matar uma ou duas galinhas do mato para fazermos uma canja ao chegarmos ao Balombo. A tia Aurora já tinha tudo preparado para comermos. Os miúdos faziam carreiras, montados nos ramos de uma árvore, a fazerem de cavalos. Tudo corria às mil maravilhas. Passada mais de uma hora, chegaram duas dúzias de homens. Derrubaram as árvores, arrastaram-nas para o ribeiro e cortaram cascas de outras árvores para fazerem lianas com que amarraram os toros. Uma quantidade de mulheres, com os filhos às costas, bem amarrados nas nangas, rindo e fumando, observava os trabalhos. Nós, bem sentados nas mantas de viagem e à sombra, trincávamos as deliciosas sandes de ovo, chouriço e fiambre, acompanhadas de café com leite quente que vinha na térmus. O tio bebeu vinho de uma garrafa. No final deu um largo golo no whisky do frasco de prata que trazia no bolso. Zézinho comia junto do automóvel e acabou a garrafa que lhe estendeu o tio. Comemoravam a boa pontaria e as três galinhas de mato que o motorista estripou.

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o caçador de brumas Tudo terminou em bem: depois de mais de três horas de espera, o tio, eu e o soba inaugurámos com pompa e circunstância mais uma obra em Angola. O automóvel podia atravessar para o outro lado… A tia e os primitos também atravessaram a pé, sem problema, por cima da sólida ponte. Houve muitos agradecimentos a todos. O tio Faria deu cinquenta angolares ao soba da povoação para vinho para todos, comprado na venda do Freitas madeirense que, com grande mágoa sua, não pudera vir ajudar; estava derreado com uma carrada de paludismo, disse a preta que vivia com ele. Lá partimos ao nosso destino. A verdadeira aventura estava reservada para a subida da serra do Pundo. Até atingirmos o planalto, mais ou menos a mil metros de altitude, tínhamos de suar as estopinhas e pedir a Deus que não acontecesse uma tragédia. A picada, cheia de pedras, parecia lavrada. As apertadas curvas e as contracurvas eram umas a seguir às outras. Os precipícios, mesmo arrimados à picada, eram assustadores. Quando olhava para baixo até os pêlos se me arrepiavam. Tinha mesmo de fechar os olhos e rezar a Deus Todo-poderoso. Constantemente tínhamos de parar e escutar se vinha alguém em sentido contrário, pois já muitas tinham sido as mortes por choque frontal. Os carros só se davam conta um do outro quando nada podia evitar o acidente. Tudo tem um fim. O planalto foi atingido, ia já a tarde longa. Estávamos felizes e contentes, pois nada de mau nos tinha tocado. Agora só faltava atravessar mais uns quantos ribeiros para chegarmos ao Bocóio, uma pequena população com bastantes casas comerciais de brancos e muitas fazendas. Depois de mais algumas dificuldades ultrapassadas lá chegamos ao Bocóio. Assim que paramos o tio disse-me para o acompanhar, pois ia cumprimentar os habitantes conhecidos. Ali vendia-se de tudo e tudo se comprava entre nativos e fazendeiros que já estavam por ali instalados. Já lá havia um hotel que me fez lembrar aqueles que apareciam nas fitas de cowboys. Tinha até uma bomba de gasolina. Só não tinha o tal bar dos tiroteios e das cenas de pancadaria. Muitos dos comerciantes que lá encontrámos durante as visitas feitas com o tio de porta em porta para cumprimentar e saber das suas vidas vieram depois despedir-se de nós como se fosse uma romaria. Viviam ali

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joão sena amancebados com negras vendo o negócio prosperar a par do aumento populacional com os meninos mulatos que iam crescendo misturados com meninos negros. Começou a escurecer na Caluita. O tio disse que estavam a ser demarcadas grandes extensões de terras para colonos alemães fazerem ali plantações de sisal. Muitos mais pontões, rios e riachos tivemos que atravessar até podermos chegar ao Balombo, quase a duas centenas de quilómetros do Lobito. Era já noite dentro quando entrámos no Balombo. Chovia que Deus a dava. A viagem fora cansativa, atravessámos muitos riachos e correntes de água, reparámos e colocámos pontões derrubados ou levados pela corrente enfurecida e turva. Eu estava contente com a aventura. Fora até divertido ver o automóvel, cai não cai, a atravessar os ribeiros e ouvir as cantorias dos negros quando puxavam pelas cordas. As tormentas de terem de carregar a tia e os miúdos às costas para atravessarem as correntes acastanhadas a estourarem de água, fazia-os rir em gargalhadas sonoras e tão sadias que só os simples as podem ter. Mas o melhor e mais divertido foi apreciar os macacos saltando de árvore em árvore ou correndo e chiando com as crias às costas e os rabos pelados como carecas em brasa a atravessarem a picada. Iria agora ver, pela primeira vez, aquela terra tão importante para a minha gente e em particular para o tio Faria. A chuva sem cessar malhava forte na capota do automóvel. Na escuridão começaram a avistar-se as luzes acesas ao longo da larga estrada de terra batida. Esta, alagada e a reflectir a luz fraca das diversas lâmpadas, assemelhava-se a um rio visto numa noite de luar. Ainda não eram sete horas e parecia já não haver vivalma. Em África as pessoas deitam-se muito cedo. O automóvel estacionou. A tia Aurora e os pequenos, embrulhados num xaile-manta inglês, já dormiam. O tio Faria gritou pelo Caipemba que não tardou em aparecer com um luminoso petromax e dois ou três chapéus-de-chuva. Ficámos encandeados com a potente luz e, num ápice, saímos do carro. O Zézinho-motorista e o Caipemba agarraram nos pequenos ao colo e correram para a varanda; eu protegi a tia Aurora com um dos guarda-chuvas que me deram. De pouco valeram as boas intenções pois a chuva era tanta, que, naqueles curtos metros, ficámos que nem pintos. Abrigados na varanda,

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o caçador de brumas recebemos toalhas e camisolas de lã para todos. Fazia muito mal ficar-se com a roupa molhada ou húmida no corpo. Assim que entrámos na casa, apareceram numa grande bandeja de prata chávenas de porcelana inglesa e um bule com chá inglês forte e a ferver, bem como a omnipresente garrafa da “água da Escócia” que motivou o radiante desabafo do tio Faria: – Em alturas como esta é uma autêntica bênção do céu. Nada tardou a chegada do velho Cariata. Vinha amparado num cajado como o dos pastores e embrulhado na larga capa de borracha amarela a praguejar contra o mau tempo e os malvados dos criados; tinham obrigação de ter visto as luzes do automóvel ao longe para logo o avisarem que estávamos a chegar. Quando o enxerguei bem, à luz da sala, pareceu-me que estava diante de uma dessas figuras bíblicas que aparecem pintadas nos santinhos e nos quadros da igreja. O homem era meão de altura. Na cara enrugada sobressaíam uns olhitos piscos. A cabeça e as barbas, quase de palmo, pareciam ainda mais brancas em contraste com o tisnado da pele. Movia-se ligeiro como um gato. Beijou a filha e os netos, correu para apanhar um dos copos da bandeja, encheu-o de whisky e enfrentando o tio Faria com um vozeirão disse: – Oh Doro logo os havias de trazer numa noite destas! Mortos de fome, depressa abancámos à volta da mesa. Nas cabeceiras sentaram-se o velho Cariata e o tio Faria. Eu fiquei à direita do velho. Atarantado, nem uma palavra dizia; limitava-me a olhar, fascinado, para a personagem e para o que se passava. A tia Aurora andava numa roda-viva. Tinha ido deitar os pequenos e, entre gargalhadas, ordens e falas aos criados, inteirava-se das novidades ocorridas na sua ausência. Retomava o comando doméstico. A ceia foi servida logo que a tia se sentou. Eram postas enormes de bacalhau assado. Eu adorava aquela comida e devia ter estampado no rosto a gula que me ia por dentro. O velho Cariata, talvez por isso mesmo, acudiu-me e entre gracejos despejou no meu prato duas postas dizendo: – Come, rapaz… para ver se cresces e ficas velho e rijo como aqui o avô Alfredo. Olha que quem não come não presta para trabalhar.

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joão sena Se já simpatizava com ele, também sabia como lhe haveria de chamar. Seria por avô... avô Alfredo? Não era assim que lhe chamavam os netos?... Vieram borrachos assados na brasa e com eles a garrafa de vinho francês Saint Emmillion, comprada pelo avô Alfredo Cariata num dos barcos belgas que aportavam no Lobito. Eu já estava cheio que nem um odre mas atrevi-me a fazer uma perna… Pareciam fogo, tão carregados estavam de jindungo … Mais uns copos, mais um pudim de ovos e as conversas à mesa animaram-se. Reparei que o velho Cariata tinha gostado quando lhe chamei avô. Fez-me uma festa na cabeça e tocando o meu copo bebeu de um trago. Depois, a cheirar à distância, veio o café acabado de ser passado e… mais a garrafa de conhaque francês. Falaram de tudo. Disseram que as obras nas termas do Cota-Cota28 iam devagar mas em ritmo certo. Tratava-se de uma construção do tipo termas. Já tinham chegado da Ganda as novas mobílias para a casa do outro filho, irmão da tia Aurora – o Gilberto. Em dois carros boers tinham vindo de Nova Lisboa os materiais de construção para a capela que a tia Ju queria construir ao cimo da avenida. O chefe de posto, de nome Lourenço, já mandara pôr palmeiras, jacarandás, lilases brancas e até vermelhas, quatro pés de magnólias e três de acácias rubras. Também já estavam plantados tamarindos no meio das duas praças da avenida, pois, para as feiras, eram precisas sombras nos largos. As águas do Cota-Cota continuavam a fazer bem a uma data de gente que vinha da Ganda a passar as férias do Natal. Até tinham curado as feridas de uma das vacas do enfermeiro Raimundo Traça. Contaram-se as novidades do Lobito e de Benguela, falaram dos amigos do Kuribeca e… eu sei lá... de uma data de assuntos que nem entendi. Estava já com muito sono. Acudiu-me a tia Aurora levantando-se para me indicar o meu quarto. Pedi a bênção ao avô Alfredo, dei um beijo ao tio e fui-me deitar. No outro dia acordei cedo. Não sei se sonhei, se tive algum pesadelo. Pareceu-me sentir que a terra tinha tremido ou a minha cama abanara com se tivesse paludismo. A recordação era tão absurda! Fiz por não lhe 28

O nome originário destas águas termais dado pelos nativos era Cuta-Cota ( água quente)

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o caçador de brumas dar atenção. Arranjei-me e, como não tivesse encontrado ninguém, fui andando pelo longo corredor até à sala onde tínhamos ceado. A mesa já estava pronta para o matabicho. Da cozinha, nos anexos da casa, vinha o ruído da algazarra dos criados. Na sala, dispersas por diversos pontos e nos corredores, havia várias panelas de barro onde caía a água que o telhado de zinco deixava infiltrar. Estranhei não ver os tios. Abri a porta para a varanda. A manhã estava carregada de nuvens, mas a chuva deixara de cair. Na África, pela primeira vez, senti uma certa tristeza. Dei uns passos até à cancela da vedação e olhei a avenida. Era um caminho de terra batida cheio de buracos. Devia ter sido há pouco tempo desmatada pois ainda tinha rebentos de raízes por todo o lado e o mato crescia nos intervalos das casas. Quase em frente estava o hotel Cota-Cota que, ano a ano, era ampliado. A grande construção pareceu-me mais um barracão. Mesmo ao lado, acabado de construir em tijolo, estava o palacete do Gilberto. Tinha o telhado de zinco, as paredes caiadas de branco e as janelas pintadas de vermelho. Um luxo. O tio Faria, sem que me tivesse apercebido de onde, surgiu-me por ali. Enquanto o cumprimentava disse-me que há muito tinha matabichado e, uma vez que estava ali, iríamos ver as obras que se estavam a fazer nas suas termas. Apoiado na bengala e cumprimentando quantos iam aparecendo, negros e brancos, fomos caminhando avenida abaixo. Em frente da casa da tia Ju metemos ao caminho que nos levava às termas. Parámos na casa do avô Alfredo de onde se avistava a administração, uma construção grande rodeada de várias casas. Mesmo em frente, à porta de uma casa de adobes, estavam sentados nos calcanhares uma data de negros e na mesma postura, outros grupos dispersos fumavam e conversavam. Arrimados às paredes ou nas bermas da avenida, havia, espalhados por todos os lados, sacos com milho ou amendoim. Do lado contrário, nas poucas casas comerciais, mais alguns gatos-pingados embrulhados nas mantas a abrigarem-se da chuva. No largo fundeiro onde a mata começava, as quitandeiras sentadas junto aos tabuleiros e cestos artesanais davam corpo ao mercado indígena. Tudo muito triste, tudo a escorrer água. Nem sequer havia calor. Também a África tinha dias bons e dias maus. Afinal, aquele lugarejo era o tão falado Balombo, a terra criada pelo Cariata, amigo de Norton de Matos e homem rude que ajudara, anos

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joão sena atrás, os indianos e os chineses a fazerem o levantamento topográfico do planalto. Fora ele, um dos primeiros empreiteiros do caminho-de-ferro que rasgara o Planalto trazendo o progresso desejado pelo estadista. Nunca ninguém me explicou como fora ali parar o dito Cariata. Uns quantos diziam ter sido mais um deportado que chegara a Angola há muitos anos. Mais insinuavam que viera condenado por crime político, outros diziam ser ele igual a tantos outros que aportaram nas galés. Havia quem aventasse que tinha sido, na mocidade, o temido chefe de uma quadrilha de salteadores de caminhos, palácios e quintas actuando no Minho e nas revoltas populares ao lado dos liberais. Havia ainda quem contasse uma história misteriosa de sangue e amores proibidos com uma afamada dama da cidade de Guimarães. Tudo isso pouco importava. Certo é que o velho Cariata ali vivia e negava-se a ir ao Lobito ou a Nova Lisboa. Era dono de tudo. Tinha, além dos que registara, uma caterva de filhos espalhados pelos Kimbos. Vivia só desde o falecimento da sua última mulher que há muito tempo falecera da biliosa. Dizia-se que fora uma linda negra. As águas do Cota-Cota ficam no rio Chissoem, afluente do Balombo. Falava-se que o velho Cariata, em tempos que ninguém já recordava, ao aperceber-se da qualidade das águas, mandara fazer dois tanques ao lado do ribeiro. A água saía a ferver e nas charcas que formava podíamos ver trevos de quatro folhas, uma raridade que não acontecida em qualquer outro lugar de Angola ou mesmo do mundo. No rio, por todo ele, nadavam e emergiam jacarés. Contava-se que um negro, atacado por um sáurio, ficara sem uma perna quando pescava. O velho Cariata construíra mais tarde três balneários equipados com uma tina em cimento afagado por mor da comodidade dos utentes. Para melhor servir os banhistas, escolheu um homem delicado e atencioso, o rapaz Viagem, trabalhador e diligente. Este, porque a maior parte dos pacientes traziam doenças de pele, depois de cada tratamento limpava com soda cáustica as banheiras. Quando havia menos clientela para as termas e para o hotel, faziam-se obras e melhoravam-se as instalações. Ano após ano, com o aumento da população branca em Angola, o negócio e as termas foram-se desenvolvendo.

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o caçador de brumas A experiência de plantar café feita pelos alemães nas terras do Andulo atraíra muitos colonos. No planalto ainda não tinha tido sucesso. Porém, o velho Cariata, junto aos moinhos do rio Salomão, plantou os primeiros pés de café que conseguira de um alemão. Andava radiante na expectativa de ver os resultados. Dava grandes caminhadas ao longo do rio a fim de encontrar um adequado pedaço de terra com árvores frondosas que dessem sombra e, ao mesmo tempo, garantissem a humidade fundamental para o plantio dos pés do café. Num dia de Maio – ia o cacimbo a meio – caminhou errante entre os pedregulhos do rio. Na areia de aluvião que a baixa das águas pusera a descoberto pareceu-lhe ver o reflexo do sol projectado por um bocadinho de espelho. Estranhou e, por curiosidade, aproximou-se. Nas areias retidas entre os arbustos da margem e os pedregulhos, arredondados ao longo dos milénios pela erosão das águas, apanhou e vasculhou um punhado de areia. Encontrou uma pedrita vermelha como se fosse um bocadito de um vidro. Lavou-a na água corrente olhou-a contra o sol e viu que era transparente – Era um pequeno rubi. Apenas com as mãos, esgravatou mais fundo e, num instante, encontrou outro bocadito de vidro, também vermelho cor de sangue. Não podia conter a surpresa e o nervoso. Com a ajuda de um pau, cavou na areia cada vez mais fundo, alargou aos poucos a área da pesquisa e, deslumbrado, foi encontrando, cada vez mais nervoso, um maior número de pedritas. Deveriam ser pedras preciosas iguais a outras missangas que vira antes. Pela emoção ou pelo nervoso sentiu uma tontura. Arrimou-se a uma das pedras maiores e respirou fundo várias vezes. O seu velho coração batia à desfilada como um cavalo louco. Sentiu correr suor frio na fronte e sentou-se. Não podia deixar-se tolher por todas aquelas surpresas. Tinha de continuar a cavar. Sempre ouvira dizer que onde há jacarés há diamantes. Com outro pau maior e com as próprias unhas continuou a escavar a escavar até que encontrou algo que lhe pareceu ser o tal diamante com o tamanho de um grão de arroz. Lavou a pedrita bem lavada nas águas quase paradas e esfregou-a no caqui dos calções. Quando, já limpa e polida a expôs ao sol, ela faiscou. Ou era quartzo ou, então, seria um diamante. Mal contendo a respiração, incrédulo e muito nervoso, esgravatou mais uns metros nas areias e encontrou outra pedrita mais pequena, mas ainda

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joão sena mais brilhante. Respirou fundo para serenar. Numa laje que a torrente pusera a descoberto havia um grande buraco cavado pela água nos longos tempos decorridos. Meteu a mão no que chamavam uma chaminé e, muito nervoso, foi deitando o entulho no lenço de assoar. Apareceram umas quantas já do tamanho de um grão; duas ou três – as maiores – seriam do tamanho de um ovo de codorniz e eram acastanhadas. Com as mãos a tremer pegou na maior e fez o teste que há muito já tinha ouvido relatar. Colocou-a sobre uma das zonas mais lisas do pedregulho e com uma outra pedra, que a custo lhe cabia na mão, deu-lhe uma valente pancada. A malvada não se partiu, – devia ser mesmo um diamante. Num instante sentiu-se borracho de tanta emoção. O coração batia forte. Ainda era capaz de lhe dar um tranco. Deve ter tido a mesma sensação do pobre a quem tocou a sorte grande na cautela que encontrou perdida na rua. Sentou-se e respirou fundo várias vezes. Emoção forte e menos fortes, tivera-as toda a sua vida. Esta era mais uma, mas diferente porque iria fazer mudar muito a sua forma de estar na vida. A sorte tinha-lhe batido à porta. Vale mais tarde que nunca – pensou. Felizmente estava só. Não havia testemunhas e muito menos invejosos. Meteu as pedras no bolso e guardou o segredo. Continuou a falar sempre da fazenda e do café. A frase maquinal para quem quisesse ouvir era sempre a mesma: – O café… Discreto, como quem não quer a coisa, passou a ir ao local do milagre mais vezes. Um dia levou consigo o Viagem, uns sachos e duas joeiras – uma mais fina que a outra. As ferramentas passaram a ficar escondidas debaixo de um arbusto para não despertar suspeitas. Com mais ou menos sucesso foram encontrando pedras parecidas. À noite, à luz mortiça de um candeeiro de petróleo, separava-as. Tinha a certeza que a maior parte era quartzo ou diamantes industriais. O tal “feijão branco” passou a ser apartado para um trapo de algodão. Com as frequentes idas à apanha daquele cascalho não tardou tivesse uma garrafita quase cheia. Diluiu em água um bocado de ácido sulfúrico para fazer o tal ácido que ouvira falar – dizia-se que fazia bem à conservação das pedras. As outras pedras, aquelas coloridas, guardou-as. Mandaria fazer no Lobito, ou em Benguela, um colar para oferecer à sua Aurora. Quando ela quisesse fazer banga1... havia de gostar.

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o caçador de brumas Entretanto, o Deodoro pedira-lhe o alambamento da Aurora. Disse logo que sim. Gostava do homem e do seu modo de ser. Era independente e honrado, uma pessoa de bem, que conseguia ser estimado e querido por toda a parte no Lobito, onde tinha várias casas de comércio. Um dia chamou-o à parte e mostrou-lhe as pedras. Diz-se que o Deodoro as despejou numa bacia, lavou-as com água corrente, pegou numa ao acaso, entalou-a num grande alicate, apertou quanto pode e a pedra não se partiu. Depois virando-a para o sol concluiu: – Meu sogro, isto são diamantes e dos bons! A dita garrafita foi levada para o Lobito e, segundo se dizia o tio Faria, vendeu o conteúdo a um judeu holandês seu conhecido por trezentas libras – uma fortuna. Se a história foi assim ou não, não sei – nunca tive a confirmação do tio Faria. Quando se falava neste tema ele dava uma gargalhada e dizia ser pena isso nunca ter acontecido. Contudo, deixou de ser empreiteiro dos CFB, onde tinha de aturar uma caterva de negros, e passou a ocupar-se apenas dos seus negócios. O velho Cariata e ele – diziam as más-línguas – passaram a ser sócios em tudo quanto tinham, houvesse ou não escrituras. Sem pressas, sem alardes ou festanças de novos-ricos, foram desenvolvendo o Balombo. Nas lojas e negócios em que se envolveram no Lobito e Benguela deram emprego a todos os familiares e amigos. A vida seguia igual mas com mais dinheiro. Entretanto, os negócios passaram também a ser em Luanda onde tomaram de sociedade lojas e escritórios. No Lobito abriram um escritório de representações de companhias de navegação e fundaram uma empresa de construção. Eram eles que faziam as novas casas na Restinga. Toda a gente importante do Lobito e dos CFB sonhava um dia ter ali uma casa. Nos últimos tempos, em Benguela, tinham sido demarcados talhões que a administração punha à venda por uma tuta-e-meia. Muitos desses terrenos ficaram para o tio. Como ele os tinha conseguido era um segredo bem guardado. – Favores dos amigos! – comentava. Com o tempo, o segredo das pedras acabou por se quebrar. No Balombo já toda a gente sabia que os rios cheios de crocodilos tinham diamantes; era

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joão sena só procurá-los. Outro caminho para o “feijão branco” era ter as boas relações com os sobas. Estes, em segredo, tinham sempre umas garrafinhas de “feijão branco” para adquirir sal – a mercadoria mais rara e cara no interior de Angola – ou permutar com roupa, medicamentos e peixe seco. Com o correr dos anos foram chegando ao Balombo emigrantes brancos, na sua maioria analfabetos. Chegavam famintos e esfarrapados, sem rumo na vida e crédito desfeito. Apareceram aventureiros, deserdados, degredados, gente sem alma: a escória da sociedade. Pela má sorte, por sua má cabeça ou ganância, ali estavam correndo rio abaixo e rio acima, procurando no garimpo os tão desejados diamantes. Alguns deles acabavam por se perder no meio do mato com mordeduras de cobra ou abocanhados pelos crocodilos camuflados nas águas baixas e negras do rio. Outros, ante a oportunidade que ali lhes era oferecida com terra úbere por toda a parte, assentavam arraiais, construíam uma casa de pau a pique – quase idêntica às palhotas dos negros – e amigavam com uma jovem negra. Ao fim de pouco tempo estavam ricos de filhos. Havia também os que chegavam e partiam, fosse pelo seu carácter, pela falta de saúde, ou por mais não serem que judeus errantes. Mas o sonho que todos acalentavam era encontrar as pedras, o tal “feijão branco”. Ficariam milionários do dia para a noite. Com maior ou menor discrição e medo dos jacarés, procuravam nas margens do rio Chissoen, ou mais longe nas do rio Balombo, o ansiado Eldorado. Poucos tiveram sorte. Na miragem do sol que cega, estes caçadores de brumas confundiram as pedras e venderam gato por lebre. De boa ou má fé criaram por muito tempo a desconfiança sobre o que eram ou não eram diamantes. Pela vida acima arrastaram no sonho outros pobres e incautos que caíram na ruína ou no suicídio. Outros por ali ficaram encharcados em cachipemba29, marufo,30 quibombo31 e outras bebidas cafreais. Acabaram por desaparecer no meio da mata aqui ou ali. Deles restaram apenas os esqueletos descarnados pelos abutres e outras feras. Fazem parte do pó que cobre 29 30 31

Aguardente de milho. Bebida fermentada de milho. Bebida fermentada de mandioca.

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o caçador de brumas esta santa terra. Deles nem há memória – só mesmo pó. Aos que quiseram trabalhar, foi-lhes dada oportunidade pelo Cariata, o soba branco. Deu emprego nas pequenas fazendas, lugares nas lojas e, aos que tinham ofício próprio, garantiu-lhes a instalação e o capital para o arranque da profissão. Tudo isto me foi contado pelo velho Cariata quando um dia deambulávamos pelo meio do bairro das casas de pau a pique no bairro dos garimpeiros. A miséria e o sonho – espelhados nos olhos dos meninos mulatos barrigudos e famintos – tinham por ali assentado arraiais. Com a construção do caminho-de-ferro, já no meio do Planalto, surgiram novas oportunidades de emprego. Muita gente passou a viver nas recentes povoações ao longo da linha. Fizeram-se apeadeiros para a manobra e surgiram aldeias, vilas, cidades, fazendas e pequenos comércios. Todos, com o seu trabalho anónimo e abnegado, ajudaram a construir Angola. Não pararam as surpresas nos dias em que ficámos no Balombo. Soube pela primeira vez na minha vida o que era um tremor de terra. Fiquei sem fala. Vi mesmo tremer as árvores da avenida e um formigueiro de medo fez-me tremer as pernas como os juncos do rio. O tio Faria sossegou-me. Ali a terra tremia muitas vezes e já estavam acostumados. – São terras vulcânicas – disse. As explicações mais detalhadas vieram depois quando, conduzidos pelo Zézinho-motorista, regressámos ao Lobito.

A epopeia da viagem de regresso foi dura; bem pior do que fora a de ida. Tinha chovido muito nas últimas semanas. Os terrenos estavam ensopados e as grandes chuvadas que tinham caído deixaram nas picadas profundos sulcos abertos pelo correr da água. Na maior parte das vezes nem sequer sabíamos onde ficava a picada. Outro tanto tinha acontecido aos pontões. O termos de atravessar revoltosas e lamacentas linhas de água, largas e caudalosas como rios, arrastou-se durante três dias. Em bastas ocasiões esperámos longas horas por socorro. Muito suámos para derrubar árvores e arrastar o automóvel no matope. O carro patinava, dava de rabo e não

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joão sena saía do mesmo lugar, afundando-se cada vez mais. Todos atolados na lama até à cintura, pudemos constatar a calma e segurança do tio. Nunca se enfadou, jamais gritou com alguém; nunca disse que estava cansado ou molesto, mesmo quando se acabou o farnel e tivemos de comer com os nativos umas galinhas de churrasco, bebendo água das suas moringas. Em todas as horas ele conservou seu bom humor. A descida da serra do Pondo foi de medo. Não fosse a perícia do Zézinho, várias vezes poderíamos ter ido pelas ribanceiras abaixo. Ainda hoje sinto a boca seca e o estômago apertar quando me lembro daquelas horas. Uma vez mais pudemos comprovar a hospitalidade das gentes do mato. Brancos ou negros, todos foram inexcedíveis. Tanto no Bocóio como na Caluita, nunca nos faltou pão, amizade, cama e roupas secas para nos agasalharmos. É no mato que está a grande escola da vida. Pude também entender melhor a amizade do Zézinho-motorista, a importância do seu saber, fosse para contactar os sobas dos Kimbos, fosse para conduzir bem o automóvel nas piores condições. Era evidente o seu saber de anos a fio. Prestava constante atenção ao que se passava com o meu tio Faria e comigo. Nas duas noites que tivemos de dormir num Kimbo e no parrot de um comerciante amigo, foi ele quem desenrascou tudo. Da imensa mala do automóvel, que parecia não ter fundo, saíram os objectos e ferramentas mais inesperados para as piores situações. Fazia-me lembrar um mágico que há anos vira num circo na feira da Guarda que também tirava tudo de uma cartola: pombas, lenços, fitas e até um coelho! O tio Faria muito conversou comigo naqueles dias. Foi a melhor aula prática sobre o muito que eu tinha de aprender como viver no mato. Quando chegámos a casa e nos prepararam um enorme banho de água bem quente dei graças a Deus. Já no Lobito, na tranquilidade da tarde que caía e antes do recomeço da chuva, em nossa casa debaixo do cajueiro do jardim, bebemos uma “água da Escócia” da reservada para as grandes ocasiões. Os dias de despreocupação e passeio, pelo menos por agora, estavam terminados. No próximo “mala” teria de seguir para Vila Luso onde iniciaria as minhas funções de inspector. Para encerrar tempos de tão gratas memórias, ainda vi passar, muito baixinho e quase rente aos telhados do Lobito, o aeroplano dos aviadores

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o caçador de brumas portugueses que tinham feito a ligação aérea entre Portugal e Angola. Dias antes, em Benguela, haviam sido recebidos como heróis. Quando o avião aterrou no aeródromo, as entidades oficiais e convidados dirigiram-se-lhe e, quando menos se esperava, gritando vivas aos aeronautas, a multidão de gentes de Benguela correu a rodear a aeronave. À tarde, na Câmara Municipal, foi-lhes feita uma enorme recepção e grande festa. Depois, no Hotel Turismo, foram obsequiados com um fausto banquete, para o qual o tio também foi convidado. Quando me contou estes detalhes, acrescentou que os aviadores Carlos Bleck e o tenente Humberto Cruz tinham feito questão de tirar uma fotografia com ele por ele ser seu colega nas aviações. Foi mesmo assim a confidência do tio. Como a hora da partida estava próxima, sentia saudades de tudo e todos. Nos vários departamentos dos AV comprei o que o tio me aconselhou e me podia fazer falta. Comprei muita roupa de caqui e até ganga para os trabalhos mais duros. Santiago aconselhou-me a comprar umas botas e polainas altas por mor das cobras. Só comprei as polainas. As botas tinha-as trazido lá da terra, feitas em bezerra pelo Chico Miguel, haviam de durar a vida inteira. Tive diversos almoços e jantares de despedida oferecidos pelos meus amigos. Foram bocados bem divertidos. Na verdade, reparando bem, eu nunca tinha estado sozinho, nem antes nem depois de chegar a Angola. De miúdo e de rapaz tivera sempre a protecção do meu pai, o carinho da minha mãe, dos meus irmãos e dos meus amigos. Mesmo naquela noite em que me deu a “travadinha” e desatei a chorar como um garoto, eu não estava só. Perto de mim estavam pessoas amigas que me poderiam ajudar. Dali para diante a coisa iria mudar de figura. Teria de ser eu mesmo, teria de ter coragem e capacidade para enfrentar muitas adversidades. Não vira eu como tinha sido a viagem ao Balombo? Difícil, mas no dizer do tio Faria, aquilo fora uma brincadeira de crianças. Meditava nisto tudo a todo o momento, e sentia um aperto no coração. Tinha medo. Medo e constrangimento. Toda a minha vida fora mimado – um menino da mamã… Em África encontrara emprego e família, mas no mato como seria?

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joão sena Passei a dormir mal, tinha sonhos estranhos – para não dizer ruins –, secava-me a boca, o suor corria-me nas mãos geladas, cortava-me quando fazia a barba. As malvadas das meias altas andavam sempre tortas, mais tortas do que era hábito, e vinham-me à memória só as coisas más que me tinham acontecido. As pequenas brincadeiras dos meus amigos enfadavam-me e, para não parecer muito mais “matreco” ou “besugo” do que era, engolia em seco e, a custo e bem doído por dentro, disfarçava. A verdade é que eu estava borrado de medo…

4 Tem sido difícil escrever tudo isto. Falta-me tempo e saúde. Também não é fácil narrar o que nos acontece ou presenciamos. Umas vezes dá-se importância ao que não a tem; noutras alturas, distraídos, nem reparamos no fundamental. Sinto o que escrevo, nada mais, e sem pretensões. Relato com sinceridade, como se conversasse só comigo. Neste kimbo, base donde parto para ir caçar, tudo é difícil e isolado. Passo dias em que não vejo outro branco. Caço para as gentes que estão a construir o apeadeiro do Luacano. A minha ausência não causa problemas. O Conapa já sabe que tenho as costas quentes no CFB e, se me fizer guerra, não será ganhador. Entre Vila Luso e a fronteira do Congo Belga, o Luau, a construção das estações avançam a bom ritmo. Uma ou duas vezes em cada mês, percorro a linha para ver os trabalhos nos partidos32 e falar com os respectivos capatazes que, sabedores do assunto, não precisam das minhas opiniões. Bebo uns copos com eles e regresso ao Luacano. É o mínimo que devo fazer. Sem saber bem porquê, reparei que tem vindo a melhorar o ambiente entre o pessoal. Além da caça, assino as folhas dos salários do pessoal, em meados de cada mês, e envio-as no comboio mala para o Lobito a fim de serem preparados. 32

Troços de linha da responsabilidade do Capataz.

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o caçador de brumas No último sábado de cada mês vem o comboio pagador. Traz o pagador de salários para toda a gente, um médico – boa pessoa e atencioso com aquelas gentes –, dois ou três enfermeiros e um posto de socorros onde nada falta. Na carruagem em que vem a loja do AV33 vendem sal, sabão e petróleo, colchetes, linhas, agulhas, muitas e variadas nangas34 ou pintados, mantas, caquis e chapéus, óculos de sol e óleo de palma. Enfim, um pouco de tudo o que há nos Armazéns de Viveres da companhia, no Lobito. É nesta altura que compro as hóstias de quinino ou as pastilhas da resoquina no vagão enfermaria-farmácia. É uma alegria generalizada quando se ouvem os apitos característicos deste comboio – apita forte e muito, como os ricos. Fica nas estações ou apeadeiros o tempo que for necessário e o povo faz arraial e a desejada festa. Depois de recebido o salário, juntam-se em grupos, correm, dançam, conversam e dão gritos. Os homens, as suas mulheres e familiares aproveitam para beber, tornando a alegria ainda maior. No mato fui-me acostumando a esta gente alegre, sorridente, desconfiada e tímida, que aos poucos vou entendendo. Também já não me causa qualquer arrepio ouvir os urros dos leões ou o choro das hienas. Nesta interminável planície, infindável savana, aparecem raramente ligeiras colinas. Aqui ou ali, existem tufos de arbustos e espinheiras a que chamam muchitos. Os muchitos, quando junto das nascentes dos ribeiros ou dos riachos, tornam-se maiores ou menores e mais ou menos densos, quebrando a monotonia da chana. É necessária muita atenção. Só o conselho dos nativos ajuda o viajante desprevenido e sem referências que num instante se pode perder naquele mar verde. Em Maio, o capim assemelha-se a uma imensa seara madura; em Junho fica ressequido e em Agosto as queimadas dizimam a anhara e os animais. Será depois alagado na época das chuvas, que dura de Janeiro a Abril, quando o milagre da vida voltará a garantir a sobrevivência desta gente. Constroem as palhotas nas pequenas elevações, para que a água não as invada e onde abunda terra para fazer a lavra35. Aqui a terra é tanta que não 33 34 35

Armazéns de Viveres dos CFB. Panos garridos para as mulheres vestirem. Pequena extensão de terra cultivada pelas mulheres.

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joão sena tem valor. A única coisa que conta para eles são as lavras. A cada ano mudam as culturas. Só permanecem aquelas que estão próximas das povoações, junto do rio ou do regato. É uma região riquíssima em peixe. Permite que os luenas apanhem sem grandes canseiras um dos seus principais alimentos. Logo que findam as grandes chuvas e as águas escoam nos rios, os nativos constroem pequenas represas de lama e capim. Deixam estreitas aberturas onde colocam sacos feitos com palhas – uma espécie de galrichos – onde um peixe, com dois a cinco centímetros, chamado de toqueia, fica. Enchem-se várias vezes num só dia. As toqueias também podem ser apanhadas nas poças de água; agarram-nas às mãos cheias. Secam-nas ao sol e sem sal, para depois as venderem em sacos cilíndricos, feitos de palhiço, com dez quilos cada um. Nas águas dos rios, entre os meses de Fevereiro e Abril, pescam também o missonge, um peixe bem maior, talvez com dez a vinte centímetros de tamanho dos barbos do Mondego. Comem-no fresco ou seco. A primeira vez que provei a comida daquela gente, mesmo morto de fome, ia vomitando as tripas. A chima, a massa de mandioca, parecia cola dos sapateiros. Mais tarde, verifiquei que, com um bocado de jindungo, a dita massa, bem ensopada nos molhos, não era má de todo. Hoje já como tanto a comida a que fui habituado como a dos negros. No Lumege, a conselho do Santos, funcionário da agricultura e responsável pela Reserva de Caça da Cameia, principiei a constituir a minha equipa de caça. Ofereci bastante mais do que era costume não só em dinheiro como em percentagem nas carnes, já que os troféus e as peles são do caçador. Tchingôma ficou como meu rastejador de caça. Contratei mais dez homens para cortarem e amanharem as carnes que precisávamos secar. Comprei calções e camisas para todos na loja do comerciante branco, onde havia um montão de roupa usada que vinha em fardos das Américas. Comecei assim a minha vida de caçador. Tento aprender com os pisteiros e os rastejadores sobre animais e homens. São eles que conhecem os segredos desta África apaixonante. Acampando aqui e ali, fomos descendo esta terra dos luenas, delimitada a norte pelo rio Kassaie – um grande afluente do Lui e do Zaire –, a oriente pelas nascentes do rio Zambeze, em Caquengue, e a sul e poente pelo grande rio Luêna, pai de toda esta gente.

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o caçador de brumas A caça na Cameia é muita e encontra-se por todo o lado. As manadas de gnus – búfalos com mais de trezentos quilos – e de antílopes – de farta crineira e longa cauda preta levantada, quando correm –, misturam-se com as palancas, cácus36 e gazelas, também aqui chamados de nunce, songue e capage. As manadas destes herbívoros cobrem por completo o horizonte até onde o céu toca a terra. Nunca na minha vida imaginei poder ver tantos bichos selvagens. Pastam e correm uns atrás dos outros em grandes rodas animadas para, num instante, cessarem e voltarem a pastar ao lado dos cabritos de mato, a muinha e a caia. Eu tinha de aprender a atirar bem. Caçar era, pelo menos, a maneira de justificar o ordenado. Furtava-me à caça grossa para desgosto e desconsolo dos meus ajudantes. Faziam parte dela os leopardos (a quem eles chamam canhar), as onças (coluâna) e os leões, os dumbas. Em África só se diz ser caçador, mas verdadeiro caçador digno de admiração e respeito, aquele que matou um dumba. Tchingôma crescera com o prazer da caça. Ele farejava, rastejava, corria, ficava estático só para abordar a peça de caça. Verifiquei ser ele o chefe dos negros. Era quem dava ordens para a instalação dos acampamentos, as posições nas batidas, distribuía a caça e degolava e estripava os bichos para depois mandar salgar as peles. Falava mal o português mas num ápice começamo-nos a entender. Os trabalhos da preparação das banquetas elevadas, onde é colocada a linha, avançavam para leste e o nosso acampamento também seguia. Chegámos à zona de caça perto do Luacano, já dentro do sobado do Lago Dilolo. Tchingôma conhecia tudo na anhara. Matávamos antílopes em tal quantidade que dava para abastecer os trabalhadores, secar a carne, comprar sal, sabão, fósforos, batatas e vinho na venda do Janela, um caçador profissional de crocodilos a viver no Luacano. Ainda dava para distribuir alguma pelos kimbos. Numa das nossas surtidas, a meio da manhã e depois de havermos caminhado toda a noite, chegámos a um grande kimbo. À nossa chegada, as mulheres fizeram grande alarido batendo as palmas em sinal de boas vindas. Reparei que, ao contrário do costume, me deram uma das cubatas 36

Cabritos selvagens.

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joão sena de adobes caiadas, isolada das demais. Era espaçosa e tinha duas janelas tapadas por bocados de fina rede de pesca. A porta revestida de lata já tinha dobradiças. Como era hábito, estava asseada e tinha a esteira nova ao lado do sítio do fogo. Tudo muito limpo. Havia água fresca na moringa – uma bacia de esmalte branca – e até uma toalha. Fiquei estupefacto. Nunca em todos aqueles meses de mato tivera direito a tamanhas fidalguias. Chamei o Tchingôma e indaguei daqueles luxos. Com o seu sorriso tímido falou assim: – Nós ser tchilolo deste kimbo patrão Mamã de nosso grande soba Nacarada filha de Muatiânvua rei dos Luenas Mamã ter a ganda37 no Cavungo perto de fortaleza velha e no Lago Dilolo patrão. Ela muito mandar em soba Catema e soba Mazeze. Esta ser meu povo. Ali estava a explicação. Afinal, também aqui, no coração da Mãe África, o óbvio é bem difícil de ver. Veio a tarde e pressenti que ia haver festa. As mulheres largaram o pilão e andavam mais apressadas do que era costume – pressa é coisa que não há em África… O Tchingôma e outros homens faziam grande braseiro com lenha grossa no parrot dos homens – a “tchiota,”38 – bem ao lado da grande cubata da escola ainda feita de pau a pique. Tchingôma, com as quatro mulheres ali à sua volta, assumira o seu papel de controlo – dava ordens gesticulando e gritando. O kimbo entrara em polvorosa para a grande festa. Ao pôr-do-sol, já o lume era enorme braseiro onde pequenos antílopes, grandes bocados de gnus e dois leitões estavam a assar, atravessados por paus a servirem de espeto. Na aldeia, as palhotas construídas à volta do terreiro quadrangular e alinhadas ao longo de três lados deixavam aberto o caminho de acesso. No lado contrário, bem ao meio, estavam as das mulheres de Tchingôma ladeadas pelas dos filhos dos sobrinhos e outros parentes. A meio do terreiro havia duas cubatas circulares, uma de cada lado, de tecto cónico coberto de palha e com paredes de estacas mal unidas. Eram as tchiotas, uma para os homens e outra para as mulheres. A da esquerda onde as mulheres fazem lume e as refeições, servia para lá se reunirem, conver37 38

Aldeamento da residência da soba. Cubata redonda de maiores dimensões e pouca altura onde se juntam os homens e as mulheres. Há uma para cada sexo, separadamente.

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o caçador de brumas sarem, fumarem e receberem as mulheres das outras aldeias, de visita ou de viagem. A da direita era reservada aos homens que, fumando a mutopa – um cachimbo de água feito numa cabaça – ali passavam os dias sentados, comiam as refeições trazidas pelas mulheres e, sempre em amena conversa em redor do fogo, recebiam os hóspedes ou viajantes. Junto da tchiota das mulheres assente sobre quatro estacas estava o celeiro da família. Nele se guardavam as colheitas, a carne, o peixe seco e outros géneros. A conservação dos géneros armazenados era mantida pelo fumo das fogueiras acesas. Um pouco à frente da casa central, onde o Tchingôma tratava dos negócios e recebia os chefes vizinhos, destacava-se uma árvore de basta sombra. Também era ali que a soba Nacarada, sua mãe, quando de visita, recebia as saudações e dava audiência. O kimbo estava cercado de árvores. Em pequenos muchitos dispersos havia árvores com frutos carnudos de cor roxos e doces a que chamavam apáua. Havia outras parecidas com nespereiras que davam o mupópolo, fruto agridoce. As que mais abundavam eram as árvores muri – parecidas com as amendoeiras – e cujos frutos não eram comestíveis. A resina e as folhas serviam para os quibandeiros fazerem remédios e as suas rezas contra os maus espíritos. As palmeiras davam as fibras para se fazerem esteiras e o mangue como bebida. Quando eram de grande porte, eram a madeira com que os indígenas faziam os barcos, os dongos e os instrumentos musicais como o tchinfungo e o goma, os tambores dos batuques que se ouviam a grande distância. A árvore que vi com maior envergadura foi o muchibi. Tinha vinte a trinta metros de alto e dava uma semente vermelha semelhante ao feijão de onde se extraía óleo muito fino. A madeira era de cor vermelha bem sanguínea, rija e magnífica para construções, pois a formiga branca – a salalé – não a atacava. Nas lavras, entre as bananeiras e carregadas de frutos, misturavam-se as da papaia e do mamão. À sombra, entre altos tapumes de aduelas de pipos, chulipas do caminho-de-ferro (roubadas no CFB) enterradas na vertical e troncos de árvore unidos por lianas para a defesa das feras, ficavam os currais dos bois e das cabras. Os porcos, de todos os feitios e

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joão sena idades, andavam à solta por entre as palhotas, chafurdando nas poças de água e nos detritos, compartindo-os com os muitos cães que existiam nos kimbos. No riacho, para apanharem a toqueia, estavam montados os galrichos. Mas tenho que aclarar um detalhe antes de avançar. Sempre que ia assinar as folhas dos trabalhadores, eu passava horas na tasca ambulante do Xavier, cada vez mais fixa, a conversar e saber das novidades. Nunca ninguém me explicou ao certo se ele era funcionário dos CFB e eu, confesso, também nunca reparei se constava das folhas de salários. Talvez fosse um adventício que, com a sua taverna ambulante, acompanhava os trabalhos na via-férrea; ou, bem mais certo, seria sócio do Conapa, pois eram muito amigos. Vendia na improvisada tasca – loja coberta com uma lona – produtos de primeira necessidade como sal, garridas nangas, vindas do Congo Belga, caqui, alpergatas, sabão e petróleo. Também aviava refrigerantes e cerveja que comprava ou mandava vir de Vila Luso. Por ficar mais perto, ia de comboio fazer compras na importante povoação comercial chamada Dilolo, no Congo Belga, arrimada ao rio Luau que define a fronteira. Comprava peixe, toqueia e missonge, produtos da terra, nangas, etc.. Depois de muito regatear preços, pesava mal e media pior. Como havia falta de gelo, o Xavier taberneiro metia as cervejas na terra fresca. O forte do negócio era vender a beberagem a que chamavam vinho – a “água de Lisboa”. Dizia-se por brincadeira e como justificação para os efeitos do álcool que a “água de Lisboa” era uma mistura explosiva de pólvora, tabaco, muita água e umas pingas de vinho para lhe dar a cor. Como o Xavier me tinha medo e respeito, fizemos um trato: os garrafões de vinho OR39 de cinquenta litros que me vendesse, queria-os sem serem crestados, inteiros e com a rolha de origem. Ele fazia o preço e eu não discutia nem refilava. Pagava e pronto. Nunca houve problemas de transporte para o garrafão de vinho. Apareciam, ou nos carros de bois ou com os carregadores necessários para a viagem. Depois no kimbo, desde o primeiro dia, foi sempre Tchingôma quem se encarregou da distribuição da parte que eu dava para assinalar 39

Vinho de Portugal, origem reconhecida.

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o caçador de brumas data ou ocorrência importante ou festiva. Num desses dias de festa soube que o meu pisteiro Tchingôma era o chefe do kimbo que tão bem me recebia. Chamei-o e abri o garrafão OR que tinha recebido. Para tão assinalado evento redobrei a dose usual dizendo logo que não haveria mais. Tinha estabelecido uma regra fundamental com aquela gente: quando falava dizia a verdade e não voltava atrás.

A festa foi de arromba. As carnes bem salgadas estavam uma delícia, acompanhadas com vinho sem ser “baptizado”. Como de costume, fizeram o batuque que durou até de madrugada e beberam até cair. Quando se acabou o vinho que lhes dera passaram ao “mbulu”, à “bitaba”, a cerveja de palma, e ao vinho de milho feito pelas mulheres. Fui-me deitar minutos após o começo do batuque. Não entendia nada daquelas danças e saltos e fazia questão de não me imiscuir na cultura que me era estranha mas respeitava. Ao entrar na cubata vi o lume aceso e as mantas coloridas dobradas em cima da esteira. As bolsas de caça e as minhas malas de lata – compradas na Guarda e que sempre me acompanharam – estavam ali arrumadas. Sorri com mais esta prova de amizade do Tchingôma. Tirei as botas e, preparando-me para dormir, fui-me despindo sem pressas. Quando estendia as mantas na esteira pressenti algo no escuro. Levantei os olhos e reparei que a porta estava aberta. Um vulto caminhava em minha direcção. Fiquei incapaz de reagir e apercebi-me que era um vulto de mulher. Quando ficou mais próximo notei que estava envolta em nangas coloridas próprias de rapariga nova. Uma sensação inexplicável invadiu-me e desde logo tive a noção do que ocorria. Sabia ser costume nos kimbos luenas obsequiarem o convidado com uma das raparigas mais novas e sem marido. Tinha vindo a evitar tais intimidades. Sempre que tal assunto era aflorado, agradecia e furtava-me a aceitar com a explicação que a minha religião não permitia, ou que estava doente ou demasiado cansado – muito obrigado, “kigica40 mesmo –, e as coisas ficavam por aí. Tudo tinha de ser feito com delicadeza, pois ficariam 40

Muito obrigado em Luena.

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joão sena ofendidos caso eu rejeitasse. Porém, aquela era uma noite especial. Dei uns passos e puxei-a docemente para o interior. Ela entrou serena. Como se já fosse hábito, sem qualquer pedido meu, tirou a nanga em que enrolava o corpo. No escuro da cubata, com a luz das brasas que moinhavam no borralho, pude vislumbrar o corpo alto e delgado da estátua de ébano. Sem dizer palavra, a moça – um caféco41 talvez com dezasseis anos – sorriu para mim e sentou-se nua na minha esteira. Lá fora o ritmo dos tambores inundava a noite escura. O cheiro da carne assada vinha misturado com os risos e os sons da batucada. Em África a minha lua-de-mel ia acontecer.

Acordei ia a manhã alta. Era a primeira vez, desde que caçávamos, que eu não partia de madrugada. Olhei à minha volta. Na cubata tudo arrumado. De Monámi nem rasto – tinha sumido. Vesti-me, enfiei o capacete na cabeça e sem arrumar as mantas saí para o terreiro. Tudo estava calmo, muito calmo. Os homens e as mulheres sentados de cócoras, como o faziam sempre à sombra dos tchiota, conversavam em voz baixa. Tchingôma, na sua cantina com uma das sobrinhas ou filha mais nova, já com marido, vendia às mulheres. Ao ver-me, perguntou se ainda íamos à caça. Respondi que não. Decretara no momento que o dia era feriado. Mas que raio me estava a acontecer? Em vez de estar furioso comigo próprio por haver dado tão mau exemplo sentia-me alegre e bem disposto como há muito não me acontecia. Lembrei-me duma moda que se cantava lá na terra e principiei a assobiar regressando à cubata. Numa das caixas tinha pão duro que todas as semanas me mandavam do Léua. A mulher do capataz fazia todas as semanas uma fornada de óptimo pão de trigo, a estalar, no forno a lenha que o marido construíra. Enviava-mo por um qualquer maquinista que o deixava no apeadeiro. 41

Jovem virgem.

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o caçador de brumas Estava com fome. Cortei um bom bocado e chamei Tchingôma. Perguntei se haveria algum bocado de lombo de javali que pudesse ser assado. Virou costas e quase de imediato apareceu com a carne. Espetou-a em dois paus. Calculando o ângulo certo face às brasas disponíveis no borralho colocou-a a assar sobre as brasas. Entretanto, do garrafão de vinho que tinha na cubata enchi dois copos de esmalte. Passados minutos, a carne estava pronta. Cortei-a ao meio e dei um bocado ao Tchingôma com o respectivo copo cheio de vinho. Na sombra de uma das mangueiras comemos como príncipes. Olhei diversas vezes procurando ver Monámi entre as cubatas. Não tive sucesso. No kimbo a vida corria sem pressas. Os homens estavam a preparar a carne para, depois de besuntada com sal e jindungo, uma parte ser posta a secar nos varais e a restante ser fumada, depois de retalhada em bocados não muito espessos em forma de franja. Também se preparavam as peles que iriam ser secas, salgando-as e esticando-as bem. Os homens, sem interromper o trabalho, cumprimentaram “Moio ióbe” sempre que passavam. Conheci nessa manhã o professor Sitóie, o catequista e mestre-escola; teria mais ou menos a minha idade e falava português correcto. Fiquei desde logo com a sensação que seria óptimo auxiliar. Estava de partida na sua bicicleta para a embala da soba do Lago Dilolo, mãe de Tchingôma; iria encontrar-se com o missionário e receber livros para os alunos. Mas a imagem de Monámi não me saía da ideia. Sabia que ela só tinha ido ter comigo à cubata com a autorização de Tchingôma. Este, ali ao meu lado, nada deixava transparecer. A páginas tantas e talvez para dissimular começou a contar-me uma história, daquelas intermináveis – estava mesmo a mangar comigo, o alma do diabo! Percebi que falava do tal Conapa e das folhas dos trabalhadores. Mas o que é que o Conapa tinha a ver com a caça, a pesca da toqueia, os leões que rugiam de noite, ou com o tal garoto que estava com feitiço e com as folhas dos ordenados do caminho-de-ferro? Que ele era bandido… eu já sabia. Mas o homem não se calava e eu não a esquecia. Queria ver a rapariga, necessitava de a ver. Mas… nada. Nem rasto de Monámi.

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joão sena Já que era feriado e eu tinha ficado no kimbo, aproveitaria o dia. Comecei por escrever aos meus pais, dizendo-lhes que estava bem. Ao tio Faria escrevi outra carta para lhe pedir se me poderia comprar uma carabina de repetição. Mencionei diversas e entre elas a “Mauser” 10,75, a Lee Enfield e uma espingarda americana muito gabada, a Winchester. Eram armas que por vezes apareciam à venda no Lobito. Também lhe pedi, para a minha carabina, um cunhete de cartuchos 9.3. Precisava já de meias de lã, de um fato de caqui, talvez dois pares de calções e mais umas botas. No final da carta solicitei também uns quantos livros, os que ele entendesse que eu devia ler. E como não havia novidades, rematei, como sempre, com muitas saudades e beijos. Mas… não teria mesmo novidades para contar? Era melhor ficarmos assim. As encomendas chegariam de pronto ao apeadeiro do Luacano. O tio Faria nunca se descuidava. Aproveitei a tarde para limpar a carabina, verificar os fardos de carne seca já embalados e prontos para seguirem para o Lobito onde o meu tio os mandaria vender. Terminei as tarefas pessoais quando os fogos eram acesos para a chima da noite. Caminhei entre as cubatas em direcção à do Tchingôma e nada, nem rastos da Monámi. Onde diabo é que se teria metido a rapariga? Comi a chima com o Tchingôma e não resisti a perguntar-lhe por Monámi. Com a maior naturalidade respondeu que ela estava bem, com a mãe e as tias dentro das cubatas a cuidar da vida e dos irmãos. Eu bem tentava, mas… cada vez entendia menos esta gente. Comi e sentei-me à porta da cubata, gozando o fresco, enquanto houve claridade. Depois, fiquei mais um bom bocado a ver as estrelas do céu infinito de África. Entrei na cubata onde já estava colocada a lenha para me aquecer. Acendi o fogo e preparei-me para dormir. O dia seguinte não seria feriado. O sono não chegava. Os leões rugiam ao longe. Não sei se para se afirmarem a alguma fêmea em cio, ou se gritavam de fome por falta de presas, ou até – quem sabe? – para dizerem que estavam vivos. Fiquei acordado durante horas à espera…

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o caçador de brumas Ela não veio. Ardeu a lenha. Acabou-se o fogo. Esmoreceram as brasas. Arrefeceu a cinza. Acabei por dormir.

Cada dia sentia-me mais acomodado. Gostava do kimbo, do Tchingôma, do professor Sitóie e até do tchimbanda42 Kalupteca. Uma tarde, debaixo da mulemba, perguntei ao professor como é que ele tinha aprendido a falar tão bem o português. Sitóie sorriu e contou-me a sua história. Era filho da irmã do sipaio Makelele da administração do Lago Dilolo. Desde que nascera estivera na casa do tio. A esposa do senhor administrador, a dona Ida, gostava muito dele. Uma vez, quando esteve doente, ela levou-o lá para casa e nunca mais de lá saiu. A filha, a menina Mané, que na altura teria dez anos, brincava com ele e dava-lhe muito carinho. Depois ela foi estudar para Nova Lisboa. Quando vinha de férias trazia-lhe sempre uma prenda: um boneco, uma roupa nova e mais tarde livros com bonecos. Era muito sua amiga e até o ensinou a nadar. A senhora mandou-o baptizar por frei Serapião, o missionário do Lago Dilolo, e a menina Mané quis por força ser madrinha. Ficou com o nome de Carlos mas para os seus seria sempre o Sitóie. Foi crescendo e aprendendo a ler e a escrever com a senhora. Passavam-se semanas em que nem ia dormir à palhota. A senhora educava-o mas fazia questão de nunca o afastar da sua família, pois queria que ele fosse um bom luena. Ela e o senhor administrador ensinaram-no a falar português. Fora até com ele que o seu papá, Makelele, aprendera a escrever quase sem erros. Entretanto, passaram-se os anos. A madrinha Mané terminou os estudos em Nova Lisboa e foi estudar para Portugal e nunca mais veio de férias. Ele entrou na mucanda43 e, graças à senhora – nunca quis que ele aprendesse de criado –, começou a trabalhar na administração. Na missão de frei Serapião aprendeu na ponta da língua a doutrina e chegou a ser catequista. Depois, tirou o curso de professor rural e passou a ensinar na missão. Continuou a ser o Carlos quando ia a casa do senhor 42 43

Feiticeiro e curandeiro. Cerimónia da circuncisão que marca o fim da infância.

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joão sena administrador e no kimbo, o Sitóie. Agora era o professor Sitóie, disse com orgulho. Perguntei-lhe então como queria que o chamasse ao que me respondeu: – Sitóe. Fiquei esclarecido. Nos dias livres e despreocupados divertia-me a falar com os homens do kimbo. Passava grandes bocados a conversar na tchiota. Assim que chegava, havia sempre alguém que me alcançava uma espécie de cadeira baixa, feita com aduelas dos pipos. Era a distinção de senhor importante. Assistia aos longos diálogos sem entender patavina. O importante era estar, assistir e confraternizar. Outras vezes, em silêncio, fumávamos: eu, cigarros negros, eles, cachimbos com ervas ou tabaco das “lavras”.44 O mundo das mulheres ficava do outro lado, na outra tchiota. Se me aproximava, davam a conversa por finda e cada uma seguia para os seus afazeres. Às vezes via Monámi. Ela sorria e eu sorria. Eu fazia uma pergunta e ela respondia com um monossílabo, seguindo. O sonho de uma noite parecia ser só isso – um sonho. Recordei-me da dona Isaurinha e sorri. Ainda não fora desta que o feitiço ou o bruxedo da negra me tinham destroçado. De tempos a tempos ia ao Luacano, a Vila Teixeira de Sousa, ou mesmo ao Luau para ver como as coisas corriam. Dava uma volta num dos comboios de mercadorias até ao Lumeje e sempre que era possível regressava no “mala”. Aproveitava a viagem para tomar um bom banho de imersão numa das “suites” das carruagens de primeira classe e comer no vagão-restaurante as especialidades que o João Salema, o chefe de mesa, mandava cozinhar para mim. Adorava o bacalhau dourado feito pelo João, um enorme negro de sorriso cativante, impecável no garboso uniforme de cozinheiro – barrete branco, avental engomado e, até como sinal da sua categoria de chefe, um lenço branco ao pescoço e sapatos de pano brancos. Gostava muito de conversar com o alentejano de Elvas, o João Salema. Ainda tenho presente a sua forma de falar, repetindo sempre o senhor inspector para cá, o senhor inspector para lá. Conversávamos durante a noite deitando abaixo a garrafa de conhaque. Ensinou-me os truques dos 44

Terras de cultivo.

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o caçador de brumas capatazes de via e contou-me histórias do CFB e dos comboios “mala”. Narrando baixinho, não fosse alguém escutar, falava dos últimos tempos – os comboios vinham carregados de belgas para passarem as férias ao Lobito. Contou-me cada história… As belgas tinham fogo no rabo. Depois de beberem várias taças de champanhe ou valentes copas de conhaque, ficavam como o sável – em vinha-d’alhos e sem espinhas! Falou-me sobre a construção da via, das manias dos engenheiros, dos pecados dos chefes de estação e, com mais detalhes, das grandiosas festas da inauguração da linha até ao Congo Belga, no ano transacto. Num relato que caracterizava um invulgar espírito de observação, contava detalhes dos ilustres hóspedes: – Estiveram presentes o ministro das Colónias, comandante Bacelar Bebiano, Sua Alteza Real o Príncipe de Connaugh, Sir e Lady Williams, o senhor governador-geral de Angola, um ministro da Rodésia do Sul, o governador do Katanga, toda a administração da companhia, muitos condes e ajudantes de campo, eu sei lá. Uma caterva de gente importante que deixou palavras muito elogiosas no livro de honra do comboio sobre o excelente serviço que tinham recebido na viagem inaugural! O comboio acabara por me deixar no Luacano onde tinha de cumprir a rotina, tarefa feita sempre a contra gosto de assinar as folhas dos trabalhadores no fim do mês, ter de aturar o Conapa e o seu sócio Xavier, e ainda ouvir do Janela os detalhes das caçadas aos crocodilos e aos hipopótamos. Depois, cumpridas as tarefas ferroviárias e sociais, tinha de carregar os víveres no carrão das duas parelhas de bois e regressar ao kimbo, às caçadas e à minha incomparável liberdade: não ter de ser inspector sem capacidade nem preparação para o cargo. Tinha, porém, de suportar o sabor amargo do cargo para poder arrecadar as libras que o tio Faria encaminhava para os meus pais. Tirando a surpresa dos primeiros tempos – ao ter sido feito inspector –, eu teria gostado muito mais de ter ficado a trabalhar com o tio Faria mesmo ganhando muito menos. Aquela coisa de ter aldrabado as habilitações incomodava-me bastante, como roedura das botas. Mas as libras… No kimbo, sim – ali era vida. A crescente convivência com o Sitóie ia-se transformando em amizade. Também me ajudava muito, já que falava quioco, lunda e luchaze das tribos vizinhas.

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joão sena Numa dessas muitas conversas na tchiota, o Sitóie – sempre com rodeios – falou-me da necessidade de venderem a carne seca aos CFB. Compravam quanta aparecesse. Aqui já havia fartura demais e, vendendo-a, sempre se conseguiam mais uns angolares. Caso eu não concordasse, ao menos deixasse que ele vendesse a carne que sobrava da escola. Com o dinheiro podiam comprar-se mais umas pedras, lápis, livros e cadernos para a garotada. Não estava a entender bem onde é que ele queria chegar. A escola funcionava há pouco e os garotos estavam a dar os primeiros passos na aprendizagem do português. Ele próprio fora ao Luacano buscar o material dado às missões na inauguração da via-férrea. Mas a conversa tinha mais outros contornos. O tchimbanda Kalupteca que, quase sempre bêbado, levava a vida a embrenhar-se pelo mato à procura de folhas e raízes para as suas curas e mesinhas, também se queixou que havia muita carne seca. A mensagem era explícita. Queriam vender a carne seca aos caminhos-de-ferro e o principal interessado era Tchingôma. Pensando bem, talvez aquilo fosse bom negócio para mim, quem sabe? Fiquei silencioso e mentalmente revi todos os motivos que me forçaram a esta situação. Fizera-me caçador para descargo de consciência. Aproveitando o facto de haver falta de carne para os trabalhadores sugerira e o eng.º Armando Vieira, o Vieirinha, que estava em Vila Luso, concordara: nos tempos mais chegados iria caçar e as carcaças que fosse derrubando seriam feitas chegar ao Luau, ao despenseiro Avelino, encarregado da alimentação nos acampamentos de trabalhadores ao longo da linha. Assim foi dito e assim foi feito. Trato é trato. Nunca cobrei ao CFB um angolar pela carne que enviava. Se nunca fizera candonga com o comércio das carnes, como corroborar agora com esta proposta? Não! Não deveria vender ou permitir que vendessem aos CFB, pelo menos enquanto lá trabalhasse, a carne que eu caçava. Nem pensar nisso. Por breves instantes recordei a minha situação nos CFB; qualquer um poderia ver que não tinha competência para ser inspector de linha. Quando me encontrava com colegas, percebia que nas minhas costas, mesmo com amizade, faziam mangação de mim. Todos sabiam da maneira como fora nomeado e só para me aporrinharem, bastas vezes usavam

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o caçador de brumas linguagem técnica que eu não entendia. Pouco valera eu ter ido para a zona que ninguém queria. E os meus amigos estavam ali na minha frente e em silêncio. Aguardavam resposta. Convicto do que dizia e das razões que me motivavam a fazê-lo, disse ao Sitóie que, se estivessem de acordo e fossem eles a dizer-me qual o preço que deveria propor, iria escrever ao meu tio Faria, propondo-lhe a compra da carne em excesso. Se tal viesse a ser aceite, os fardos seriam despachados para o Lobito, pagando nós o transporte de cada remessa. Todos ficámos contentes. Nos rostos pude ver que não era bem esta a decisão que queriam ouvir. O tchimbanda disse que ia procurar folhas de muri para dar a uma das mulheres que tinha pouco leite para amamentar o filho e desapareceu entre as cubatas. Um a um lá foram para as palhotas. Ao fogo, naquela noite fria de cacimbo, fiquei a sós com o Sitóie. Sem rodeios fui directo ao assunto que me atormentava. O meu amigo sorriu. Medindo bem todas as palavras, como se estivesse a fazer um ditado para os alunos, pedindo muitas desculpas, disse-me que o meu procedimento fora uma grande indelicadeza. Na manhã seguinte, deveria ter agradecido ao Tchingôma a prova de amizade e hospitalidade. Depois, e dado que Monámi era sua sobrinha, deveria tê-la gabado pela sua formosura, por ser ainda um caféco e ter cumprido com as suas obrigações. Mas, sobretudo, deveria ter elogiado o seu desempenho como fêmea. Fora para isso que ela tinha sido criada. Os meus olhos traíram o meu espanto. Não há dúvida: “cada terra com o seu uso e cada roca com seu fuso”, como dizia a minha mãe. De qualquer forma, como poderia eu agora reparar a grave ofensa? No seu modesto entendimento e sem me querer dar conselhos, a primeira coisa que deveria fazer, para remediar a grave ofensa, seria chamar o Tchingôma ali à tchiota e oferecer-lhe um prato ou uma caneca de ferro esmaltado. Seria a título de sinal, ou seja, a tchicumba.45 Ele iria aceitar e assim haver cagila.46 Deveria também dizer-lhe que tinha uma sobrinha muito prendada, que seria uma boa esposa e pedir-lhe desculpa por só agora lhe estar a agradecer. Depois, para oferecer a Monámi e à sua 45 46

Oferenda. Namoro.

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joão sena mãe, deveria mandar comprar uma ou duas capulanas bem garridas; para finalizar, deveria sugerir que se fizesse outro batuque onde – como era natural – as carnes e os vinhos seriam da minha conta. Havia maneira mais elegante e distinta de proceder, evidentemente. Caso eu estivesse interessado, evidentemente, em pagar o “alambamento”, o h’ricumba,47 além das nangas imprescindíveis, evidentemente, teria uma conversa reservosa com ele. Então, depois disso, ela seria minha propriedade. – E quanto custaria esse tal h’ricumba? Perguntei. – Considerando ser ela caféco e sobrinha do futuro soba, evidentemente, pois quando a soba do Lago Dilolo, sua mãe, morrer o herdeiro será Tchingôma, evidentemente. Sendo ela uma estampa de rapariga, evidentemente, e haver muitos interessados dentro e fora do kimbo, evidentemente na sua condição de patrão e branco, evidentemente, a coisa andaria bem à volta de dois bois, um pipo de vinho e, evidentemente, mais aquilo que fosse necessário para se fazer um batuque de sobas pois, evidentemente, viria de certeza Nacarada a presidir ao acto. Isto se não for o caso de que, evidentemente, a própria Tchizanda, a jovem rainha dos Luenas, sobrinha também ela do falecido o grande Munta-Yânvua, não quisesse vir ela mesma nos, evidentemente, a presidir às festas. Muito gostava o professor de dizer “evidentemente” – era uma palavra fina. Não acabaram por aqui os esclarecimentos nem a minha lição sobre as tradições dos Luenas. O professor fez questão de me contar a lenda do Lago Dilolo – o lago grande e profundo que deita água para o rio Lutembo. – O Lago Dilolo fora em tempos opulenta aldeia cujos habitantes, pela sua riqueza, eram orgulhosos e nada hospitaleiros. Um dia negaram-se a acudir a uma velha que lhes pediu água. Quando a velha se afastava triste e sedenta encontrou no mato, a caçar com os filhos, o muata48 do kimbo, um homem bom. Foi ele quem lhe matou a sede com a água da sua cabaça, tendo a velha falado assim: 47 48

Casamento. O chefe da povoação.

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o caçador de brumas – Moio ióbe. Passei esta manhã pelo teu kimbo onde ninguém teve um pouco de água para mitigar a minha sede. Hoje à noite, antes de o galo cantar a última vez, hão-de ter tanta que a todos vai mesmo fartar. A velha sumiu-se. O pai e os filhos continuaram a caçar chegando dois dias depois ao kimbo. O que viram horrorizou-os. A sua grande e rica aldeia, as verdejantes lavras e todas as pessoas haviam desaparecido. No mesmo lugar havia um lago tão grande que nem se lhe via o limite e no meio tinha um remoinho que matava quantos se aproximavam. Finalizou dizendo que nas noites de luar e no meio do lago se ouve cantar o galo. Acabámos de fumar. No outro dia repararia a minha falta. A coisa poderia custar uns centos de réis, mas… isso era o menos. Com a venda da carne, as muitas peles secas que já tinha e os quinhentos angolares com que eu ficava todos os meses, as contas seriam equilibradas. Tinha de honrar a minha palavra. Acordei muito cedo. Eram quatro e meia da manhã. Boa hora para despertar e ir à caça. Dentro de minutos amanheceria. Olhei o firmamento todo coalhado de estrelas e chamei: – Tchingôma. Naquele silêncio, pareceu um grito. Estávamos já a caminhar quando amanheceu. Íamos iniciar a batida aos antílopes e palancas. Para caçar gnus a volta seria diferente. Olhei Tchingôma e disse-lhe de surpresa: – Vamos aos leões? O riso indicava bem a alegria. Qualquer luena sonha caçar um leão. Tinha planeado que só iria aos leões depois de ter carabinas novas e, por questão de segurança, só quando fôssemos dois a atirar às feras. Mas hoje eu queria mudar: queria ser mesmo o caçador. Depois de largas horas de caminhada – Tchingôma espalhou os homens que, de zagaias envenenadas em riste –, começaram a procurar rastos entre o mato e o capim da chana. O sol inclemente varria a savana. As primeiras pegadas apareceram e, como previra, iam na direcção da tal charca. A partir dali, em qualquer tufo de vegetação ou à sombra, dormindo durante o dia para despertarem ao pôr-do-sol, poderíamos encontrar leões.

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joão sena Tchingôma mirava e remirava cada pegada. Media com uma palha as dimensões, as distâncias e, a olhar para mim, sorridente e pleno de alegria, dizia baixinho, serem quatro fêmeas e um macho. As certezas dele enervavam-me e faziam-me suores. Os batedores e pisteiros avançavam com todas as cautelas como desenhos animados em “slow motion”. Era bem claro o perigo da aventura. Agora era tarde. Dizer àqueles homens para voltarem atrás seria o pior que poderia fazer. Se os arrependimentos matassem, eu seria já cadáver. Mas que grande estupidez, tentar matar leões com uma única carabina e fiado na competência de um nativo. Na minha vida, eu só tinha visto leões nos livros ou no cinema. Que grande animal era eu! Ao aproximarmo-nos da terra húmida, as pegadas tornaram-se evidentes, Tchingôma aproximou-se e ao ouvido disse-me que as fêmeas estavam prenhas e bem pesadas, pois o leão – o dumba –, era pequeno e novo e, pelos rastos, não deveriam estar muito longe. As novidades punham-me os cabelos em pé. Como é que o malvado sabia todas aquelas coisas? Num gesto instintivo, segurei a carabina e contei as balas que tinha nos bolsos. Não seria por falta de munições que perderia a guerra. Chegámos à charca. Tchingôma, deitado rente ao solo, com o olhar parado, varria o espaço que estava à sua frente, perscrutava o mínimo movimento nas sombras das árvores. As gazelas bebiam no rio. O meu guia sorriu e falou alto: – Patrão os dumba não estar aqui. Suspirei de alívio. Graças a Deus! Tchingôma, por sinais, reuniu os homens. A batida tinha terminado. Tagarelaram, gesticularam, palmadas nas costas, bateram as mãos e contentes como rapazes, correram a beber a água da charca. Depois, sem que nada lhes dissesse, quase em coro informaram-me: – Onde feras bebe nós pode beber Tchingôma pediu-me a carabina apontou e disparou. Correram dois homens que pegaram nas pernas do antílope caído e arrastaram-no até nós. Perante o meu espanto, começaram a abrir a cova onde, sem lhe tirar as tripas, o enterraram, para que as hienas e os abutres o não comessem. Teríamos de ali voltar três ou quatro dias para o desenterrar; depois teriam

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o caçador de brumas de o arrastar num círculo de quilómetro e meio para espalhar o cheiro e atrair as feras. No dia da nova caçada o animal, já em decomposição, seria amarrado à árvore velha. Reconfortou-me o saber de Tchingôma. Ele sabia tudo quanto tinha de se fazer enquanto eu continuava possuído de grande cagaço. Seria o que Deus quisesse! Afinal que haveria eu ter medo? Eles, durante séculos, não mataram leões com zagaias, dardos e – quantas vezes “à unha” – com a mesma coragem com que se pegam os touros na lezíria ou se faziam as capeias no Soito? No regresso ao kimbo, vi de novo Monámi a apanhar alfaces nas lavras. Ergueu-se e esboçou um sorriso. Os garotos do kimbo, acudiram a gritarem e como os antílopes, aos pulos e pinotes, atropelavam os porcos que corriam em liberdade. As mulheres assomaram nas cubatas. Na minha África não havia sobressaltos.

Decorreu uma semana. Era madrugada e a minha equipa estava toda reunida. Tchingôma esperava o que eu dissesse. Afastando-me do grupo, dei uns passos para o meio do kimbo e com um gesto chamei o Sitóie. Pedi-lhe para que fosse intérprete. Nunca tal acontecera. O insólito estava nas caras dos homens. Comecei por agradecer a hospitalidade do Tchingôma e das gentes. Depois, disse que iríamos matar um ou dois antílopes para serem assados no batuque e tencionava oferecer um garrafão de vinho. A ovação foi geral. Os homens desataram a falar e gesticular. Peguei na mão de Tchingôma para lhe dizer que o batuque seria em sua honra. Pedi-lhe muitas desculpas por ainda não ter agradecido o presente com que ele me obsequiara na primeira noite. Tinha sido importante e denotara amizade. Tardara em agradecer, dado haver estado a pensar – mas a pensar muito –, em ter de lhe pedir novo favor. Gostava que ele, o futuro soba do Lago Dilolo, grande chefe luena, senhor poderoso e o melhor caçador que tinha visto, me concedesse a honra do h’ricumba de Monámi. Dissesse as condições e eu, homem de palavra, cumpriria. Tudo isto porque achava a sobrinha muito competente como mulher e estar em

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joão sena condições para eu fazer filho macho e que tinha também a certeza que ela cuidaria muito bem da lavra. Sitóie foi traduzindo as minhas palavras. Tchingôma ficou por momentos em silêncio. Pousou a arma que construíra e fixando-me nos olhos respondeu: – Vai pensar… tchinhanga muânèputo.49 Sitóie continuou a falar e eu afastei-me em direcção à minha cubata. Fui buscar a carabina e os apetrechos de caça. Não sei qual terá sido a conversa entre eles, mas quando regressei estavam radiantes. Sitóie disse-me que ele já dera o consentimento e que, após a caçada aos leões, diria quanto era justo ele receber. O negócio estava apalavrado. Uma palmada nas costas nuas do meu pisteiro selou o contrato. Metemo-nos depois ao trilho e fomos aos leões – um homem só é caçador quando tem “tomates” para matar um leão. Bem próximo do kimbo, pastavam os gnus que tinham acasalado. Os animais domésticos, bois e vacas, espalhavam-se entre eles na maior das harmonias. Todos pastavam as ervas verdes e tenras. Escolhi um antílope macho de bom peso, apontei, fiz fogo e o animal caiu. A manada dos gnus alvoroçou-se mas de pronto voltou a pastar tranquila. Apontei a um dos gnus que estava mais perto e atirei de novo. O animal arreou, mas preparava-se para fugir quando lhe atirei novo tiro. Caiu fulminado. Já estava a atirar menos mal. Enquanto Tchingôma estripava os dois animais, um homem foi ao kimbo pedir reforços para levarem a carne destinada ao batuque. Era manhã alta quando chegámos à charca dos leões. Ao sentirem o ruído da nossa chegada, os crocodilos esparramados ao sol mergulharam nas águas paradas. Tchingôma molhou os dedos na água para depois ver a direcção do vento. Estava de feição. Os leões deveriam estar a dormir à sombra das árvores do muchito porque as gazelas do outro lado do rio pastavam com as crias. Tchingôma dirigiu-se ao local onde enterrara o antílope e começou a retirar a terra. O bicho já cheirava muito mal. Pegando-lhe pelas patas 49

Caçador português.

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o caçador de brumas traseiras e arrastando-o durante mais de uma hora, percorreram um círculo à volta da charca com cerca de um quilómetro de diâmetro. Depois procuraram a árvore que estava mais perto da água da charca e, com uma liana bem forte, ataram o animal ao tronco. Agora era só esperar pelo pôr-do-sol e que os leões acudissem ao rasto. Procurámos a posição com melhor ângulo de tiro. Os homens fizeram a cova para eu e o Tchingôma nos ocultarmos. Distava quarenta metros. Cobrimo-nos com os ramos de árvore e espinheiras. Com o bornal e terra fiz um apoio mais forte para poder apontar melhor, pois o tiro teria de ser mortal. Os pisteiros, ali ao nosso lado, enterraram-se também noutras covas. Penso que a pior coisa que há na vida é a angústia da espera. A incerteza e a expectativa atormentam-me tanto que as minhas mãos começam a transpirar e dá-me uma vontade enorme de mijar. O meditar começou a deixar-me incomodado. Naqueles momentos de angústia e espera tudo me passou pela cabeça. Desde a hipótese de falhar o tiro e o leão ferido carregar, matar-nos a mim ou aos outros homens, enfim… só tormentos e o enorme aperto no coração. As horas passavam lentamente. Tchingôma deitado a meu lado parecia uma estátua. Seria que ele não tinha medo? Se o tinha disfarçava bem. Eu, para amparar a minha coragem ou a falta dela – o que muito me afligia –, acostumara-me a recorrer ao filme que fazia correr no meu cérebro. Nele revia os melhores pedaços da vida. Na minha fantasia dourava e empolava as lembranças, parecendo sentir os cheiros, os sabores, as sensações e as alegrias. As mais lindas eram as da minha infância, da minha aldeia distante e do meu pai sempre presente. O ter de estar atento e o permanente olhar para o que estava à minha frente cansava-me. Só o vaivém dos crocodilos, arrastando-se preguiçosos até às covas, rentes ao solo, cortava a monotonia da espera. Tchingôma disse-me baixinho: – Patrão, nós vir noite com pilha e matar muitos jacarés. Este grande alma-do-diabo até sabia o que eu estava a pensar. As horas foram passando. O sol, já cansado de tanto brilhar, projectava no arrebol cores fantásticas que se diluíam. Cores que iam desde o azul celeste ao azul opalino e ao verde pálido para depois se esbaterem

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joão sena em amarelos suaves, cada vez mais fortes, e a terminaram no vermelho, intenso e quente. A ténue brisa trazia-nos o fétido da carne podre. Apareceram, primeiro, uma família de javalis com as crias. Depois, uma nuvem de pássaros coloridos e alegres no seu chilrear. Vieram impalas e antílopes grandes e pequenos. Estes últimos bebiam nervosamente e correram apavorados quando, a passo, se aproximaram os gnus. Tchingôma tocou no meu braço e apontou em direcção ao rio. Todos os herbívoros desapareceram em segundos. Duas leoas caminhavam a passo, logo seguidas de três filhotes, que brincavam como gatos. Rebolaram-se na água e traquinaram à volta da mãe ou, se calhar, da tia. As leoas beberam lado a lado e uma delas, a mais corpulenta, levantou a cabeça e olhou para a árvore onde estava amarrado o antílope. A matriarca continuou a beber. Ambas se rebolaram na terra húmida, espreguiçaram-se por uns momentos e depois encaminharam-se para a carne morta. Uma delas estava bem prenha. Deveria parir quando recomeçassem as chuvas. Eu nunca tinha visto feras. A surpresa da aparição das leoas e a sua presença a menos de oitenta metros quase me deixaram gago. Os olhos estouravam-me de arregalados, a boca secara-me e a minha língua ficara de cortiça. O meu coração batia com tanta força que até o Tchingôma o deveria ouvir. Senti os cabelos em pé e o suor frio corria-me pela espinha abaixo. Senti que ia mijar-me pelas pernas abaixo. Tentei apontar a arma, mas ela tremia tanto que até deixei de ver as feras. Tchingôma abanou-me outra vez e apontou com a mão. Na orla do capim, caminhando majestoso, apareceu o leão. Sem pressas, aproximou-se da carniça já esventrada pelas leoas e começou a comer. Ouvi o rilhar dos ossos quebrados do antílope. As leoas e os filhotes brincavam como gatos. Apontei. A arma parecia que estava viva. A minha mão esquerda no fuste da carabina abanava como castanholas. Olhei ao lado. Tchingôma continuava tranquilo. A minha mão tremia… Os leões devoravam a carne do antílope. A minha mão tremia…

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o caçador de brumas O leão afastou uma das leoas com uma cabeçada. O dedo no gatilho tremia… As leoas voltaram a comer ao lado do leão. A minha mão tremia… Uma das leoas deu a volta e arrancou grande bocado de carne. A minha mão tremia… A outra leoa deu uma corrida na nossa direcção. A minha mão tremia… O meu coração estalava… Pela primeira vez pensei nos outros que estariam por ali escondidos, talvez borrados de medo, pois nem a arma tinham nas mãos. Quem me mandara meter naqueles assados… Tchingôma ao meu ouvido: – Patrão não dar tiro, não dar tiro. Ser muito perigo, perigo mesmo patrão. A minha cobardia até ele a tinha visto – mal haja quem é cagado. A vergonha veio-me do fundo da alma. A minha mão deixou de tremer. Ajustei a alça, apontei bem… O dedo no gatilho já não tremia. Tirei a folga. Corrigi a posição dos pés e apontei. – Patrão não dar tiro mesmo. Nós só ter uma arma. Muito perigoso se nós falhar dumba,50 tchinhanga-muânèputo. Os leões terminavam de esventrar o antílope que iam soltando das lianas. Acabaram por desamarrar o que restava da carcaça. No céu, como se fossem atraídos por um foco na escuridão, os abutres pairavam. Os leões saciados voltavam ao rio para beber. Sustive o tiro e olhei o Tchingôma. Eu devia estar muito pálido, sem pinga de sangue. – Nós vir outro dia patrão… fugir rápido. Tchingôma levantou os arbustos que nos tapavam, deu um assobio e, a correr como gamos, procurámos o trilho. Os pisteiros ao fugirem das tocas pareciam ter fogo no rabo. Julgo que só ele, Tchingôma, estava sem medo.

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Leão.

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joão sena

Nunca soube da história que eles contaram sobre esta triste aventura. Também nunca esclareci se Tchingôma me disse para não atirar com medo de eu falhar o tiro, ou porque o medo que eu tinha chapado nas trombas lhe dera sinal que tudo ia terminar em tragédia. Só faltou borrar-me pelas pernas abaixo. De qualquer maneira foi ele quem me salvou da vergonha, ou até da morte. Ainda não fora desta que tinha sido feito caçador. Pelo trilho adiante, uns atrás dos outros, fui afogando os medos em suor. O andamento dos pisteiros era endiabrado. Para os acompanhar tinha de dar até uma carreirinha. O medo, pensava eu, era comum. Seria? Naquele instante, já só as hienas e talvez os chacais se banqueteassem com os restos deixados pelos leões. De manhã, bem cedo, viriam os abutres e o seu voo chamaria as hienas. Em poucas horas, do antílope só restariam ossos dispersos e limpos. Depois, seriam arrastados pelo vento e, quando transformados em pó, adubariam o capim para outros antílopes se alimentarem e voltarem a ser devorados pelas feras. O ciclo da vida e da morte continuaria na savana. É assim há milhões de anos! Chegámos alta noite ao kimbo. Tudo dormia. Só os cães ladraram.

5 Dormi pouco e mal. Os pesadelos e o bafo quente da savana não me deixaram dormir. Mal o sol rompeu, fui ao Luacano na bicicleta do professor. Tinha de ir ver como corriam as obras e recolher o correio. Enquanto pedalava não conseguia tirar da memória o que me tinha acontecido. Raios me partissem pela ideia de querer matar um leão. Que haveria de fazer para apagar toda aquela sujeira? No kimbo haveria de ser bem comentada a minha cobardia. Para tal não havia espaço nos códigos de honra dos luenas. Pedalava, fazia por não pensar; pedalava mais e mais e a cada metro percorrido o arrependimento não ficava para trás.

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o caçador de brumas Conapa estava à minha espera na estação. Entregou-me o correio da companhia e a carta do tio Faria. Trazia dentro uma outra, vinda de Portugal – era da minha irmã Gracinda. Abria-a em sobressalto. Pelas minhas contas e pela data do carimbo nos selos da carta, tinham decorrido três meses desde que fora escrita. Na sua letra arredondada, firme e sem rasuras, contava das melhorias que iam lá por casa. (…) Todos estão bem, o pai voltou a sorrir e já começou a pagar umas letras vencidas, os manos falam muito de ti a toda a hora e cá na aldeia fala-se que já és muito rico. Em Espanha o rei caiu – deve ter-se magoado muito – e agora têm lá a república. A Clarinha manda muitas recomendações e faz questão de perguntar por ti sempre que nos vê. Muitos beijos e um abraço de muito amor e carinho desta tua irmã que se assina como Maria Gracinda Duarte Casteleiro. Nem mais nem menos. Sorri e meti a carta no bolso. Conapa permanecia à minha frente. Quando deu conta que eu o voltara a ver disse-me que no “mala” também tinha chegado uma encomenda para mim – um caixote. Num instante, pus a descoberto a carabina Winchester, a carabina com lente telescópica 3,75 Magnum e a caçadeira de 12 mm, mais várias caixas com munições e cartuchos que me dariam para largo tempo. Vinha também uma carabina Mauser 9.3, emprestada pelo tio. Tudo muito bem embalado. No fundo do caixote os livros e a roupa. Trazia ainda uma grande carta do tio onde dava notícias sobre os negócios e do envio pontual das libras ao meu pai. Pedia-me para enviar mais carne seca e, se possível – para serem vendidos aos alemães, que vinham passar as férias ao Lobito –, as peles e os troféus maiores. Os bandidos dos alemães compravam tudo, como antes da Grande Guerra. A minha satisfação era evidente. Tivera boas notícias da terra e o tio Faria não falhava. Para celebrar fomos beber cervejas ao Xavier. Janela apareceu mais tarde e bebeu connosco. Examinou as armas e disse que dali para o futuro eu já poderia matar galinhas de mato, coelhos e pássaros diversos – muito bons para se fazerem ricas canjas –, e até poderia vir a

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joão sena atirar aos jacarés, aos hipopótamos e às onças. Isto para não falar nos leões que, com a Magnum, cairiam “redondos que nem tordos ” ao primeiro tiro. Conversámos e bebemos durante toda a manhã. Na hora que quis regressar ao kimbo e levar a minha rica encomenda, apercebi-me que o peso e a dimensão eram demasiados para a “ginga” e para mim. Também esse problema foi solucionado. O Janela logo se prontificou a mandar um carro de bois que usava para a caça dos jacarés. Levaria, assim, o caixote e o garrafão de vinho para o batuque. Duas horas depois, estava de volta ao kimbo. Para completar a minha felicidade até nas lavras vi a Monámi. Ela sorriu. Parei e perguntei-lhe por onde tinha andado pois nunca mais a vira. Voltou a sorrir, fez que não entendeu e sem dar resposta continuou com os afazeres. Eu não soube dizer mais nada. Todos me esperavam no kimbo. Mostrei as minhas novas armas. A começar pelo professor e pelo Tchingôma todos as quiseram tocar – eram a maior riqueza do mundo. No meio da algazarra, descarregaram o vinho e acenderam o fogo para o churrasco. Quando acabassem de assar as carnes, e antes de começar a distribuição do vinho, eu pediria ao Tchingôma o h’ricumba da Monámi. Para tal faria um pequeno discurso, que o professor traduziria, e só depois começaria o batuque. O cacimbo que caía com o pôr-do-sol e a névoa iam adornando o kimbo. Penso que estavam todos os homens e os rapazes que já tinham feito a cerimónia da puberdade. As mulheres, recolhidas nas palhotas, iam dando conta do sucedido. Tinham já preparado as bebidas cafreais e esperavam as carnes e o vinho que os homens lhes haveriam de alcançar. Quando principiei a falar, fez-se silêncio. Ao meu lado tinha o professor, que nem à noite dispensava os óculos de sol comprados numa das lojas do Dilolo. Tentei falar claro e com frases curtas. Falei do muito contente que estava, das grandes caçadas que tínhamos feito e do respeito que me merecia o chefe de povoação e futuro soba, Tchingôma. Queria que todos soubessem que, no futuro, viria a viver entre eles. Porém, para um homem fazer a vida tinha de ter mulher. Era isso mesmo o que eu queria propor ao grande chefe Tchingôma. Que me desse a honra do alambamento da Monámi, a linda luena que honrava a mãe e os tios que a tinham tão bem

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o caçador de brumas criado e a raça a que pertencia. Pagaria o que fosse justo. Gostaria desde já adiantar que Tchingôma passaria a caçar a meu lado. Não como pisteiro, mas como caçador de arma fina, a Kropatschek. O alarido foi geral quando acabou a tradução. Tchingôma com os olhos a brilhar de felicidade e emoção disse: – Muito obrigado patrão! Kijica mesmo. Nunca soube se a sua emoção fora pelo alambamento da filha, se por vir a atirar com a carabina. Passados os cumprimentos e com o silêncio restabelecido, ele falou e falou muito. Penso que o professor não traduziu nem metade do que disse: – Ele mesmo “propriamente dito” estava muito contente no seu coração pois Monámi ia ter “bom marido” e que faria grande festa de tal ordem e grandeza que todo o povo luena se haveria de recordar para sempre. O tchimbanda Kalupeteca, o feiticeiro do kimbo, nem esperou que me fosse feita a tradução. Iniciou um estranho bailado, aos saltos e aos pinotes, que fez irromper o som dos tambores e das marimbas. Vestido com uma pele de onça e com a pele de um leão às costas movia-se endiabradamente ao som ritmado dos tambores cada vez mais acelerado. Um a um, os homens foram entrando na roda e dois rapazes, quase nus, bailavam e saltavam à volta do braseiro. Sentado no meu banco de aduelas, assistia àqueles ritmos e costumes. Era já noite alta quando me recolhi na cubata. De Monámi, nem rastos. Naquela noite, tinha bebido umas canecas da bebida cafreal e estava demasiado contente para me deixar tomar por maleitas de amor. Seria? Nunca fui capaz de distinguir entre desejo e amor. Talvez porque nunca tivesse amado e o desejo, que na maior parte das vezes tinha de reprimir, era pecado. Lembrei-me da Clarinha. Perdida nas fragas da serra, entre aldeões incultos e preconceitos arreigados, já teria, por certo, dado corpo e estaria mulher feita. Teria de acontecer milagre para arranjar prometido. Os rapazes da aldeia não eram da sua igualha, eram analfabetos e rústicos. Os prometidos da sua igualha – aqueles que seriam aceites pelos seus – não apareciam. Nem na Guarda conseguiria arranjar namorado. O seu aspecto

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joão sena de moçoila, rosada e sadia, afastava os pipis da tabela, aqueles que, como os lagartos ao sol, se especavam nas esquinas. Também eles sonhavam com o dia em que poderiam partir e nunca mais voltar àquelas terras. Recordei-me uma vez mais da dona Isaurinha e sorri. Tinha sido rápido este meu fado. Eu já estava a viver cafrializado. Só quando estava de maré cozinhava para mim e invariavelmente comia batatas cozidas com bacalhau, muitas vezes sem azeite porque me esquecia de o comprar no comboio pagador. A minha roupa aparecia lavada e passada na minha cubata. Deveria ser a Monámi, a mãe ou uma das tias que me faziam aqueles trabalhos. Se assim não fosse, andaria a maior parte dos dias como os meus companheiros: de calção ou de tanga e seria mais um nativo. Ai dona Isaurinha! Que saudades dos tempos do “Quanza”… Virei-me para o lado e adormeci. De manhã, bem cedo, o professor apareceu na minha cubata. Vinha trazer-me a resposta do Tchingôma. Ele estava de acordo com o dote, a h’ricumba da filha – queria dois bois, duas peças de riscado e um pipo de vinho, daqueles que eu comprava ao Xavier; queria ainda um chapéu dos meus e uma saca de dez quilos de sal. Fazia este preço de amigo, pois queria retribuir o favor de passar a caçar com a carabina. O casamento seria antes do findar do ano, numa noite de lua cheia. Havia assim tempo para ele mandar emissários a convidar a rainha Tchizanda, sua prima e rainha dos Luenas. Fazia questão que fosse ela a fazer o casamento, dando honra ilustre a sua mãe, a grande soba Nhacatolo, tia da rainha, e a toda a sua grande família com terras no rio Kassaie e para lá do rio Luau, no Congo Belga. Fiz as contas mentalmente de quanto tudo me iria custar. Com quinhentos angolares arranjaria mulher. Barata feira… O negócio estava encerrado. Faltava esclarecer se Tchingôma me queria vender os bois ou se os teria de os comprar no Lago ou no Luacano. Não sei se foi pela emoção, senti o arrepio de pequena febre. Muitas vezes esquecia-me de tomar as hóstias do quinino e já tivera um outro sintoma de frio quando vinha a caminho do kimbo. Cortei a conversa

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o caçador de brumas dizendo que me ia deitar. Tinha na palhota um cantil com vinho e levei-o aos lábios para ingerir as hóstias de quinino. Assim dormiria melhor. Acordei assustado e abri os olhos. Ainda era noite. – Patrão… nós precisa caçar muita carne. Meu gente comer muito… e vem todos nosso casamento. Tchingôma sorria na minha frente com os dentes a brilharem. Era a primeira vez que ele me despertava na cubata. Estava demasiado ansioso para experimentar a carabina. Pouco nos tivemos de afastar do kimbo. Apareceu um bando de impalas que pastavam junto de umas árvores. Aproximámo-nos… Fiz sinal ao Tchingôma para que ele atirasse primeiro. Eu experimentava também a minha nova Mauser, uma carabina magnífica. Soaram dois tiros e caíram duas impalas. Tchingôma deu um grito de alegria. Os dois pisteiros que nos acompanhavam correram para junto dos animais: estavam ambos mortos. Mais adiante, com a caçadeira, atirei a uma galinha de mato e acertei de novo. Já tinha a canja garantida. Eram magníficas as minhas novas espingardas.

Não sei quantos dias estive sem dar acordo de mim. Devem ter sido muitos. Tinha a barba enorme e as minhas mãos estavam mais finas e amarelentas. Tentei sentar-me no catre, a metala51. O corpo não ajudou e caí para trás. Estava muito fraco e tinha a cabeça à roda. No terreiro soavam os tchingufo e três gomas numa batucada infernal. Os meus anfitriões imploravam aos deuses a minha cura. Para esconjurarem o feitiço que me atormentava faziam mahamba, danças de cunho religioso, a pedirem a protecção divina – a protecção de Kalunga, o deus das águas e dos homens. Aos poucos a realidade ia entrando na minha mente. Sentia-me a levitar. Corri a mão pelo meu corpo. Só ossos… Também se foram definindo as imagens na memória. Lembrava-me do muito frio e dos arrepios, devidos à febre e imensa transpiração. Tinha a 51

Cama feita com cascas de árvores, que funcionam de molas, são de extrema comodidade.

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joão sena imagem do tchimbanda, aos saltos a fazer os seus feitiços, e da Monámi a colocar-me o pano molhado com água fria nas frontes para baixar a febre. Onde estaria ela agora? Quantos dias se teriam passado? O sol entrava pela porta. A minha cubata estava como de costume, arrumada e limpa, com o fogo mortiço das noites do cacimbo. Ouvi passos. Sitóie com aquele sorriso que lhe brilhava nos olhos vinha saber se eu estava melhor. Tinha ainda dificuldades em conversar. Cansava-me alinhar os raciocínios e as palavras. Com frases curtas agradeci e pedi que o transmitisse ao tchimbanda, ao tchilolo – grande chefe Tchingôma – e a todo o povo, os cuidados com que me tinham tratado. Ele, sentado à minha frente, naquela posição de cócoras e com os braços cruzados sobre os joelhos – posição em que podia estar o dia inteiro – começou a falar. Estava vestido à europeia: com sandálias, calças e camisa, mais os seus inevitáveis óculos de sol, já sem uma lente. Falou que tinha sido o cazumbir que me tolhera. Não fosse a acção poderosa dos Ma-dumba – os deuses bons – e o grande saber do tchimbanda que organizou as mahambas necessárias, e eu teria morrido. Nunca antes tivera oportunidade de lhe fazer a pergunta evidente. Como é que ele, um professor feito na Missão, catequista, católico baptizado, que até sabia ajudar à missa, me estava a contar aquelas coisas nas quais também acreditava. Com a naturalidade dos simples, respondeu-me que cada coisa tinha o seu lugar. Ali no kimbo ele era mais um luena. Na Missão era o catequista e cumpria com os rituais que o frei Serapião, o missionário, queria e mandava. Na escola ensinava aquilo que o senhor administrador queria. Fácil. Não é? E por ali ficou a contar-me as novidades ocorridas durante a minha doença. Já tinham partido os emissários para convidar os sobas, amigos e parentes. Nhacamboi, soba nas nascentes do Lutembo, Nhamacano, soba do rio Luacano, a soba Tginhama, filha do soba Nhamuchiri e herdeira do sobado de Cangombe, estavam entre os principais. Explicava com tanto entusiasmo e detalhe como se eu os conhecesse a todos. Eu escutava com atenção e em silêncio enquanto ele prosseguia. Com grande admiração referiu que até a soba Nhacatolo, irmã da soba Nacarada,

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o caçador de brumas já mandara o seu mucuètunga52 convidar a sobrinha Tchizanda, rainha dos Luenas de Angola e do Congo Belga, neta do grande rei Muatiânvua, senhor das anharas do Leste. Os mesmos que tanta água pela barba deram aos portugueses na colonização, e mais uma vez me explicou ser a Tchizanda, filha da irmã do rei e sobrinha de Nacarada, a soba mãe de Tchingôma.53 Falou, para me informar, de como muito apreciara o comportamento da Monámi. Ela tratara-me já como minha mulher, preparando as sopas de papaia, os chás de brututo e de muri que me fortaleceram. Como não podia deixar de ser, vieram as novidades e a velha arenga dos que tinham passado no kimbo, tinham comido e dormido na tchiota. Eram quase todos homens que já estavam a preparar as redes e as artes para irem caçar as lontras e as toqueias. Disse-me ainda que Tchingôma estava ansioso por ir à caça com a carabina e que ele mesmo tinha ido ao posto do Luacano buscar as cartas e saber novidades – tudo decorria na normalidade. A nossa conversa foi interrompida pela entrada da Monámi. Trazia um dos meus pratos com a chima acabada de fazer e um lombinho de javali assado. Sorriu, deixou a comida e saiu. O meu amigo Sitóie levantou-se rapidamente e, como tivesse sido apanhado em falta, despediu-se dizendo que voltaria mais tarde. Compreendi. Como eu já era noivo de Monámi, já tinha todos os direitos e ele não podia ali ficar a empatar. Peguei no prato e tentei comer a carne e a chima. Senti-me bem melhor.

São muitas as vezes que dou comigo a meditar sobre estas gentes. As crianças, de ambos os sexos, depois dos três anos de idade, são criadas em completa liberdade, entregues a si próprias e aos seus instintos. Mal rompia o dia, completamente nuas, rebolavam-se na terra ou chapinhavam nos charcos. Durante o dia, iam em busca de frutos bravios e à procura de tocas de ralos, que escavavam com as mãos; procuravam ainda os formi52 53

Marido. N.A. Estas explicações, sempre repetidas da mesma forma, eram um sinal, inequívoco, de muito respeito e consideração entre os Luenas.

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joão sena gueiros de salalé – a formiga branca – que comiam com gula. Só por volta dos oito anos, é que as raparigas punham um trapo e os rapazes a pequena pele de gato, em ambos os casos presos por um fio atado à volta dos rins. Serão eles inocentes? Inocentes julgo que não, pois se aqui não há virtude, também não há pecado. A vida é só para ser vivida. As mulheres adultas, tatuadas no ventre, pouco mais tapavam no corpo. Ao contrário do que dizem acontecer noutras tribos africanas, a virgindade e o pudor da mulher em nenhuma conta são tidos. Também não servem de apreço ou depreciação. As mulheres, sem complexos ou culpas, vivem para o sexo. Tal como as colheitas são propriedade dos maridos e por isso, trabalham nas lavras. Os filhos são sempre da família da mãe e cuidados por um irmão que funciona de pai e tutor. Os homens ajudam-se uns aos outros, consoante as necessidades. Os velhos são respeitados e ouvidos. Não se toma uma decisão sem que eles digam de sua justiça. Aqui o tempo e a terra não têm dono. O tempo é medido pelo ciclo das culturas, das chuvas, dos cacimbos, pelos viajantes que passam, pelos que nascem, pelos que morrem, pelas cerimónias da circuncisão, pelas mucandas das raparigas ao iniciarem a puberdade, pelas batucadas em louvor dos deuses, pelas histórias que se contam – sem pressas – debaixo dos tectos das tchiotas, etc.. A terra é de todos. Cada um pode mandar as mulheres cultivar o que lhe apetecer para, depois da colheita, escolher outro local produtivo. Esta gente tem maior preocupação em viver do que ganhar dinheiro. A venda das peles, dos cestos de toqueias, da carne seca, etc., só existe e tem alguma importância porque lhes permite adquirir coisas que lhes fazem falta, como o sal – o produto mais raro e desejado – e a manta que os abriga. Para eles viver, amar, caçar, conversar e, sobretudo, preguiçar à sombra de um tecto ou de uma árvore, são coisas muito mais importantes. Havendo algo para comer, sal para secar a carne e peixe, basta. Será que estão errados?

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o caçador de brumas Seria já meio-dia quando Monámi regressou à minha cubata. Sorriu e sentou-se ao fogo sem nada dizer. Era talvez a única rapariga do kimbo que andava vestida de nanga colorida, amarrada por cima dos seios erectos. Contemplei a sua face perfeita, os olhos negros brilhantes e a elegância do pescoço alto, onde pendurara um fio com contas de missanga vermelha ou talvez pequenas pedras preciosas. Era bela a minha negra! Sorri e fiz-lhe sinal para que se sentasse no meu catre. Deixei correr os dedos brancos pelas suas faces e cheguei-a a mim. Ela sorriu e disse umas palavras enquanto afagava o meu peito descarnado. Afastei a manta que me cobria e o meu corpo nu e, procurando avidamente o quente do seu corpo, liberto da nanga, rolei em cima dela. O desejo incendiou os corpos. A ingenuidade infantil desapareceu. A mulher luena reapareceu conhecedora de si própria, do seu corpo, das suas necessidades e dos seus impulsos. Toda a sua feminilidade veio em vaga bem alta. A fêmea criada para servir o macho foi mais ardente do que na primeira noite. Naquela manhã esconjurei febres e pesadelos, a morte e as trevas que me tinham envolvido. Estava vivo e bem vivo. Quando serenou e novamente o suor cobriu meu corpo débil, foi ela quem aumentou a lenha no fogo e me ajudou a deitar no catre, cobrindo-me com a manta. Senti-me muito bem, ainda que um pouco zonzo. Lembrei-me então da dona Isaurinha e sorri. Estava já muito cafrializado! Naquele momento decidi definir três prioridades para futuro: tinha de a ensinar a falar português assim que me casasse com ela, amigasse, ou sei lá eu o quê; depois iria viver para o Luacano e faria a minha própria vida, a cultivar as minhas terras; por fim deixaria de vez de ser empregado dos CFB. Era tempo de começar uma vida a sério.

Levei ainda alguns dias, nem eu sei bem quantos, até ficar restabelecido. Da estação do Luacano trouxeram-me pão fresco com que acompanhei a carne que Monámi assava. Fiz gemadas com ovos e vinho, evitando

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joão sena beber água que não fosse fervida, bebi grandes quantidades de chá de muri e, por causa das águas, também evitei a comida nativa. Quase todos os dias de manhã pegava na caçadeira e tentava matar alguma java. A java, coberta de penas negras, do tamanho de um ganso, tinha carne muito saborosa para fazer canjas. Outras vezes atirava a uma espécie de cegonha – a panda –, cujo saco biliar era tido pelo tchibanda como um dos remédios mais activos. Vim depois a saber ser poderoso veneno que utilizavam nas flechas e nas feitiçarias. Naquelas belas manhãs Monámi ia comigo. Ela gostava de me ver caçar e eu muito mais da sua companhia. Aos poucos, fui-lhe ensinando algumas palavras em português, que ela ficava repetindo vezes sem conta. Falei com o Sitóie e pedi-lhe para que a ensinasse a ler e escrever. Eu, além de não saber ensinar, tinha de recomeçar a minha vida de caçador e cumprir com o meu emprego. Monámi vivia já na minha palhota. As relações sexuais são tidas entre os Luenas como a coisa mais natural do mundo. Era frequente saber de mulheres que praticavam o adultério. Faziam-no com o primo que as iniciara. Tinham também vários namorados nas aldeias das famílias e outros amantes que o acaso proporcionava. Tal acontecia nos batuques e nos encontros de estrada. Fui reparando que nos caminhos das lavras ou no trilho, quando as mulheres se cruzavam com algum conhecido ou mesmo desconhecido, depois de trocarem a costumada saudação “moio ióbe” de cumprimento, estendiam a mão direita deslizando-a pela mão do homem. Davam em seguida um estalinho com o dedo polegar e médio, levando depois a mão ao peito enquanto trocavam umas palavras, poisavam as cargas e entravam no mato. Antes de se separarem, davam ambos um nó no capim do caminho para que os outros, ao passarem, soubessem que um par ali tinha sido feliz… O importante era que o homem desse à mulher uma prenda, um presente, uma compensação, um pagamento. Esta, ao chegar a casa, exibiria a prenda e contaria ao marido todos os detalhes e pormenores. Desde que não tivesse havido abuso de utilização, sem pagamento da “propriedade,” não havia impedimento. Simples e normal… para os luenas.

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o caçador de brumas Aproveitei o tempo para ler os jornais bem atrasados e escrever ao tio Faria. Tinha de lhe pedir pelo Adelino Pires. Recebera carta dele a dizer-me quanto estava farto de condenados e de aturar a tropa. Queria dedicar-se ao comércio e mudar de vida. O tio arranjaria para ele alguma coisa. Finalmente, acabei de ler o romance de Eça de Queiroz “Os Maias”. Não entendi muitas coisas e foi complicado ler o livro todo, mas sempre aprendi mais. Agora vou começar a ler um outro – dizem ser um livro proibido – “O crime do Padre Amaro”. Em África, longe dos padres, não vai ser grande pecado… Tive vontade, de ir à missão conhecer o tal frei Serapião – o velho missionário. Está há muitos anos a residir no distrito do Lago Dilolo e Alto Zambeze. É bem verdade que se lá estivesse o administrador – que dizem estar para a metrópole de graciosa –, eu já teria arranjado tempo. Aqui, em África, nada se pode fazer sem a bênção ou até o compadrio dos “administrativos”, como aqui são chamados. Tenho remorsos de nunca ter ido à missa e raramente rezar. Por estranho que pareça, não perdi a fé. Vejo até mais nítida a mão de Deus, encontro-a nas muitas formas e paisagens. Só podem ser obra divina este pôr-do-sol, as madrugadas límpidas de firmamento azul, sem uma nuvem, que se seguem à noite de tormenta com chuva diluviana. Durante os temporais, o astro é riscado por sucessivos raios e coriscos que alumiam a noite. O ribombar dos trovões, que parecem ameaçar derrubar céus e terra, é medonho. Deve ter sido assim que Deus criou o mundo, fez este lindo céu coalhado de estrelas brilhantes, e fez esta terra abençoada onde qualquer estaca pelintra pega imediatamente e num pronto dá folhas. Nos muitos minutos de solidão e silêncio que brota desta imensidão posso ouvir a voz de Deus. Posso até falar com Ele, sem ter necessidade de rezar aquelas ladainhas longas e chatas que tive de aprender na catequese. Lembro-me de ter remorsos dos pecados que fazia lá na terra quando ia às mulheres, ou espreitava as raparigas a mijarem na cortelha. Pouco se via, é certo, mas… era o suficiente. Depois, o cónego Ludovico, mouco como uma porta, dava-nos de penitência uma data de Padre Nossos!

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joão sena Em África as coisas parecem diferentes. Se calhar, é pelo contágio destas gentes que nem sei se têm Deus ou pecados. Naquelas noites em que o sono não vem e o calor me obriga a sair da palhota, o silêncio é absoluto, sem vento e sem feras e, sentado, contemplo o céu estrelado. Pareço estar sozinho no centro do infinito e apercebo-me da minha ínfima pequenez: um mísero e ínfimo grão de pó. Excepto os familiares e um ou outro amigo a quem mais no mundo preocupa saber se estou vivo ou morto? Contudo, faço parte deste mesmo Cosmo que Deus criou. Sou, ou penso que sou, também o Universo. Estou vivo, sinto, penso, tenho sentimentos, desejos, saudades e as lágrimas correm-me pelo rosto sem eu saber porquê. E se soubesse, o que é que isso alteraria?... Agora que me vou casar, amigar – sei lá eu o que será – pouco importa, tenho de me preocupar com a festa desta gente boa. Quero uma grande festa, uma festa que lhes fique na memória. Será de futuro contada, de kimbo em kimbo, de geração em geração. Ficará na lenda como tantas outras que aqui me contaram. Dirão, talvez, que foi a primeira em que um branco – um “muânéputo” miserável – pagou o alambamento com o mesmo cerimonial dos gentios. Já encomendei ao Conapa o garrafão de vinho e as nangas para pagamento do dote ao Tchingôma. Quanto aos bois, já está decidido – compro as vacas a ele, ao meu futuro sogro, ou melhor dito, tio, ou pai, da minha futura mulher, meu amigo e companheiro de caça, o Tchingôma. Dentro de dias iremos à embala da mãe, a soba Nacarada, para a convidar. Penso levar-lhe de presente dois antílopes para a comida do batuque, uma peça de riscado, que comprei no Xavier, e uns óculos escuros que nunca uso. A soba vai adorar. A prima de Monámi entrou na mucanda, ou seja, a garota teve a primeira menstruação. Meteram-na na pequena palhota cónica, construída fora do kimbo expressamente para o efeito. Passará meio ano na dita palhota. Durante esse período, será ensinada a ser mulher por uma das anciãs do kimbo. Ser-lhe-ão feitas tatuagens no

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o caçador de brumas baixo-ventre e completamente rapados os pêlos púbicos, porque a mulher luena é asseada e limpa. Decorridos seis meses, sairá da palhota em completa nudez e será iniciada no cerimonial religioso onde, ao ritmo de canções, executará danças de ventre, tão “imorais” como as canções que as mulheres cantam. Muito temo que a poligamia e a imoralidade, segundo o nosso conceito, possa levá-los ao desaparecimento como povo. A sífilis vai contagiando-os e matando. Há carradas dela por toda a parte, tanto nos homens como nas mulheres. Para esquecer todas estas desgraças, nas manhãs em que não chove, pego na caçadeira e num livro e vou sentar-me à sombra das árvores do muchito. Aí fico a escutar o silêncio da chana, o barulho das ramagens impelidas pelo vento, absorvendo o odor da terra que a chuva fecundou. Leio um bocado e fico largos momentos a olhar o horizonte. Apesar de ter de passar estas amarguras por causa das febres e pelo desconforto de viver no kimbo, sinto-me muito mais feliz. Não fosse a pensão dos meus pais e há muito teria mandador tudo às ortigas. Mas, um dia destes, vou fazê-lo, de certeza. Tenho de amassar o pão que hei-de comer e traçar com as próprias mãos o meu destino, sem cartas de recomendação, sem a protecção do tio Faria e sem apoios seja de quem for. Só Deus sabe quanto quero bem ao tio Faria e a toda a família. Mas sem renegar nada e a todos estando para sempre grato, tenho de meter as mãos na terra, tenho de plantar o meu próprio chão, tenho de construir a minha própria vida. Se quero peixe tenho de molhar o rabo, como dizia o meu amigo Manel Gonçalves, lá da Misarela.

A chuva parou ao nascer do sol. Sentei-me a ler na orla do muchito sobre um monte de salalé. A aragem corria pela chana. De vez em quando levantava o olhar do livro e eis que, a uns duzentos metros, me pareceu ver bulir um tufo de capim derreado. Na chana, já a rapar o verde que acabara de surgir com as primeiras chuvas, pastava sossegadamente a manada de antílopes.

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joão sena A rastejar, vejo sair do capim uma chita54 enorme. Os meus olhos ficaram como que paralisados, olhando o dorso pintado do enorme gato. Primeiro, em movimento lento e arrastado, depois quedando-se imóvel, por minutos, a fera montava o seu plano de ataque. Os antílopes, alheios ao perigo, continuavam serenamente a pastar. De novo em movimento, devagar muito devagar, a fera ia-se aproximando, tirando partido das dobras do terreno e de qualquer tufo de capim que a pudesse camuflar. Depois de cada mudança quedava-se estática por infindáveis minutos. A manada dos antílopes – um macho, quatro fêmeas e cinco ou seis crias – ia-se estendendo e distanciando à procura de erva nova. De repente, o predador arrancou em alta velocidade. Como um raio, atacou um dos cabritinhos que, recebendo o choque, foi cair a seis ou sete metros de distância, sendo logo abocanhado no pescoço pela fera. A manada, saltando e pulando em todas as direcções, fugiu em debandada. A chita sem pressas arrastou a cria morta para junto da espinheira. Com a presa na boca pulou, trepando até à primeira bifurcação das pernadas, onde ficou a sugar-lhe o sangue do pescoço. Senti uma estranha sensação de impotência. Não sei se foi a surpresa da morte, se a crueldade que vitimou a cria, se a velocidade felina do predador, se tudo isto misturado. Certo é que me arrepiei e fiquei com a chamada pele de galinha. A África e as suas leis ainda me são muito estranhas… Quando regressava ao kimbo, o remorso ou a cobardia voltaram a apoquentar-me. Se ao menos tivesse dado um tiro, o pobre cabrito ainda estaria vivo. Evitei os homens, o Tchingôma e o Sitóie, e recolhi-me na minha palhota. Nem a presença de Monámi, silenciosa e calma, aliviou a minha mágoa. De madrugada, à luz das brasas acesas no borralho, os fantasmas e remorsos foram enfim derrubados, tal a força do desejo. 54

Felino parecido com os leopardos.

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o caçador de brumas E o esperado dia chegou. Ao nascer do sol iniciámos a caminhada para a embala da Nacarada. Além de Tchingôma e do Sitóie levámos rastejadores da minha equipa de caça, armados com arcos, flechas e zagaias, e homens do kimbo, transportando um enorme gnu, para darmos de presente à soba. Uma real comitiva! Durante a caminhada atirei com a minha carabina Mauser nas cabras. Falhei os tiros e Tchingôma sorriu depreciativamente. Como resposta, disse-lhe que seria ele a atirar nas próximas presas. Os sorrisos foram maiores e mais rasgados. A noite chegou. Todos exaustos, acabámos por dormir num improvisado acampamento de caça, a duas ou três horas do posto administrativo do Lago. Ia a manhã alta quando entrámos nos primeiros kimbos do Lago. Já levávamos mais três antílopes pendurados em varas para oferecer à soba. Foi estranha a sensação de entrar na povoação do Lago. Talvez fosse por ir ali encontrar, perdidos no meio do mato, dois ou três brancos. Mas isso era um perfeito disparate. Embora poucos, é certo, havia brancos por toda a parte. Havia-os no Luacano, a terriola nova a crescer todos os dias, em Vila Teixeira de Sousa, no Lumeje e no Luau. Como as novidades por ali corriam depressa, muito haveriam de comentar e troçar de mim e das minhas bizarrias aqueles brancos, quase todos cafrealizados. Mas eu estava-me positivamente nas tintas. Seria porque iria conhecer finalmente a importante soba do Alto Zambéze, Nacarada, neta de Muatiânvua, rei dos Luenas e mãe de Tchingôma, meu futuro sogro? Não seria ela mais uma negra nas anharas do Leste de Angola? Foi Sitóie quem quebrou este embezerrar estúpido, apontando entre as árvores frondosas a ganda. Avistei logo o Lago e parei. Nunca imaginara que fosse tão grande. A margem oposta perdia-se na bruma do fim da tarde – parecia o mar… A ganda ali estava também semelhante a outros kimbos. Tinha mais palhotas e enorme paliçada. A frondosa mulemba fora plantada quando a soba era ainda menina. Era ali, à sua sombra, que ela dava audiências e fazia reunir o tribunal. Para maior evidência, a árvore estava alinhada com o eixo maior da ganda. Mesmo à frente da cubata da soba, estavam quatro

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joão sena estacas de mulemba, bem enroupadas, com rebentos grandes e miombos, em honra e memória dos espíritos. Os miombos floridos são a expressão maior da felicidade no reinado de Nacarada. Com Tchingôma à frente, a minha comitiva nupcial parou a uns quatro ou cinco metros da mulemba. Nacarada estava sentada numa cadeira velha de braços, debaixo do guarda-sol ruço e cambado. Era gorda, lustrosa e parecia divertida a enxotar as moscas com o rabo da zebra – o sinal do seu poder e senhorio. Em frente da soba todos ajoelharam; dobraram-se até tocarem no chão com a cabeça por várias vezes. Depois apanharam um pouco de terra e esfregaram o peito. A soba disse qualquer coisa e eles responderam em coro sem mudar de posição. Avançaram então os carregadores, que estavam na cauda, com as peças de caça de presente. Eu permaneci em pé. Mas por uma razão que ainda hoje não sei explicar, tirei o capacete colonial. Nem eu mesmo fiquei insensível ao poder daquela mulher! Nacarada fez um gesto discreto e por detrás da sua cubata surgiram três mulheres – as suas servas. Vieram recolher as peças de carne, alinhadas no chão avermelhado e batido. Só depois da caça recolhida é que Tchingôma avançou. Estendeu no chão uma pele de leopardo, que levara na bolsa, e sentou-se em frente da mãe. Todos os demais permaneciam ajoelhados na terra. Uma das servas da soba, uma catuma, trouxe um banco forrado de pele para eu me sentar à sombra e ao lado da soba. Esta, bem gorda, já com os óculos postos, estava visivelmente maravilhada, com os espelhos, missangas, pentes, dois panos garridos e um garrafão de vinho que eu lhe tinha oferecido. Depois de largos minutos de palestra em que, de tempos a tempos, todos diziam “ai ô ai ô,” a audiência terminou. Mãe e filho entraram na cubata da soba. Fiquei ali mais uns momentos conversando com Sitóie. Tentava compreender o que se havia passado. Sem lhe perguntar, ele explicou-me o acontecido. A soba disse que tinha muito prazer em ir ao casamento, mas várias vezes perguntou se eu – “muânéputo” – já falara com o administrador Silva Marques e se o grande capitão D. António de Almeida sabia do que estava a acontecer. Queria

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o caçador de brumas saber à viva força se eu já estava autorizado, pois não queria sarilhos com os “muânéputo”. Ela não queria “makas55” com o grande capitão – era temível. Mas o que é que o governador do Moxico e esse tal administrador Silva Marques, que nem cá estava, tinham a ver com a minha vida? A resposta conclusiva da soba, transmitida pelo Sitóie, foi um bom pretexto para ir à minha vida. Tinha as minhas obrigações com os outros portugueses a quem há muito deveria ter ido cumprimentar. Abandonei o terreiro da embala e dirigi-me à povoação administrativa. Bem mais perto do Lago Dilolo e em construções de pau a pique, já à maneira europeia, ficavam os edifícios da administração: a residência do administrador Silva Marques, a escola primária, as casas do secretário da administração e do chefe de posto. Na administração estava só o chefe do posto do Dilolo, um tal Libório Montenegro, ou o Libório “monta negras”, como lhe ouvira chamar no Luacano. Por incrível que pareça e sem que o tivesse visto, já ouvira variadas descrições a seu respeito. Dizia-se ser muito doente, mas que, na verdade, tinha uma saúde de ferro apesar de ser magro como um cão. Vivia no Alto Zambeze há mais de uma dúzia de anos, sem férias e com poucas e contadas idas a Vila Luso ou a Teixeira de Sousa. Fizera parte da companhia do capitão D. António de Almeida aquando da pacificação e da instalação da soberania portuguesa naquelas terras. Por ali ficara como administrativo. Passava dias a pescar no lago e – diziam as más-línguas – nos intervalos, fornicava com quantas pretitas lhe fossem aparecendo. Seria para fazer jus à alcunha ou tentar apagar a imagem da mulher, da esposa, como ele dizia. Tentava talvez apagar a fama – que a “querida esposa”, apregoava aos ventos – da sua crónica incapacidade física. Na sua frente, dizia ele, resignado: – C’est du quinine... O administrador Silva Marques aturava-o. Era servil, bajulador, disciplinado e parecia ser bom burocrata. Tinha boa letra e os papéis sempre em dia. No trato com os indígenas era ríspido, autoritário e déspota – como convinha para melhor cobrar os impostos. 55

Conflitos.

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joão sena O administrador poderia depois, a posteriori, fazer o papel de bom, pois os impostos de palhota, cobrados aos vários sobas que viviam na circunscrição do Dilolo e Alto Zambeze, eram uma verba importante. Davam para a despesa da administração e ainda permitia mandar uns trocados para o governador em Vila Luso. Estas qualidades enumeradas eram complementadas com peixe fresco que ele ofertava ao administrador. Nos serões quentes da época das chuvas, quando ia com a mulher tomar chá na varanda da casa do administrador, fazia questão de contar ou discutir o último romance que acabara de ler. Recebia, não se sabe donde, uma caterva de livros que não emprestava a ninguém. Na posse de tantos livros reclamava-se um saber e uma cultura muito superior à de todos com quem tinha de conviver, gente burra ou analfabeta. Segundo ele, alguns acumulavam. Tinha-se por ser um intelectual, por ser “avançado”, um desfavorecido da sorte e um perdido nos matos africanos, só por ser um livre-pensador e declarado opositor de ditaduras. Era contra o governo. O outro branco que eu iria encontrar era o missionário, frei Serapião, velho residente e resistente. Estava ali no Lago há anos muitos, nem ele próprio sabia quantos. Faziam-se os cálculos pela idade dos que se dizia serem seus filhos. Logo que aqui cheguei fiquei inteirado que todos os mulatos, grandes ou pequenos, que encontrasse no Lago, eram todos eles filhos do missionário. Grande batalhão de cristãos dera já à Santa Igreja! Eram uns mais claros que os outros. Viviam por ali quase todos, ajudando na missão, no posto de socorros, nas lavras ou nas pescarias. Chamavam-lhe padrinho e pediam-lhe a bênção. Tinham sido criados pela sobrinha velha da soba que servia há anos em casa do frade. Havia grande dificuldade em saber por onde andavam as mães; à boa maneira luena, logo que os garotos deixavam de mamar elas partiam e, se por ali ficavam, em nada influíam na educação dos filhos. Frei Serapião era redondo, atarracado, quase sem pescoço e completamente careca, com barbas brancas até à cintura. Tinha os olhitos piscos,

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o caçador de brumas sempre a sorrir, aninhados no fundo de umas bochechas encarnadas, sulcadas e cavadas pelo sol. Às vezes punha na careca uma boina basca que, com hábito mais novo e mais bem alinhado, indicava ser dia de festa. Usava diariamente uma espécie de hábito, quase à altura dos joelhos, mas muito remendado, desbotado e atado por uma corda. Exibia finas e brancas canelas onde se vislumbravam os ossos, e sandálias atadas com lianas e apoiava-se num cajado. Aos domingos dizia a missa na igreja mandada fazer no tempo de Norton de Matos. Aos magros fiéis ajuntava a filharada, formando um coro que afinadamente cantava os cânticos religiosos em luena e terminava, cantando de pé e bem aprumados, o Hino Nacional. Quando algum safado e atrevido referia que, além de missionário, ele era um emérito povoador e fabricante de cristãos, dava então uma gargalhada e citava a frase bíblica: – Favores de amigos! Favores de amigos! O justo que atire a primeira pedra. Falava luena fluentemente, mas em casa, com os filhos sempre vestidos e asseados, só falava português. Certo, certo era ele manter impecável o posto de socorros onde atendia leprosos e doentes, miúdos e velhos. Tinha a funcionar, além disso, a maternidade onde já ajudara a parir milhares de mulheres, sempre com o auxílio dos seus “afilhados ou afilhadas”. Pela experiência da vida – como dizia – ia-os ensinando, socorrendo-se dos seus conhecimentos em curar corpos e salvar almas.

A administração estava fechada. Contornei os edifícios e encontrei o tal Libório que se preparava para ir deitar a linha ao Lago, tentando apanhar um barbo para o jantar. Aproximei-me. Respeitosamente, tirei o capacete e cumprimentei-o. Ele, sem parar nem me estender a mão, muito zangado, perguntou-me logo se eu queria ser o primeiro branco a casar com uma negra. Que toda a África já sabia e fazia mangação. Éramos nós, os garotos chegados da metrópole, que insubordinávamos os negros. Onde já se vira branco casar com uma preta? Se fosse na Rodésia, ou mesmo no Transval, eu levaria valentes chicotadas para ter juízo. Onde já se vira tal?

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joão sena O homem estava raivoso. Toda esta arenga fora dita em altos berros, enquanto eu caminhava, feito parvo, atrás daquele esqueleto andante. Parei. Não podia ser. Então eu vinha ali para o cumprimentar respeitosamente e o alma-do-diabo recebia-me nestes modos desabridos? Recoloquei o capacete e tentei uma vez mais ser cordato, embora a minha vontade fosse mandá-lo para os quintos dos infernos. Mas tinha de ter calma. Calma forçada e reforçada. Repeti-lhe que deveria estar mal informado... O sacana estava renitente. Voltou à mesma arenga acrescentando que se o administrador Silva Marques estivesse, eu saberia com quantos paus se fazia uma canoa. Nem queria acreditar no que aquele gajo me estava dizendo. Então o sem vergonha, que passava o tempo a montar as negritas de tenra idade, estava a pregar-me moralidades?! Furioso, arrepiei caminho. Como dizia o meu velho: “teimar com jericos era só perda de tempo”. Quem haveria de dizer que o sacana do “monta-negras” era um racista de marca tamanha? Dirigi-me à missão. Só faltava que o frei Serapião me fizesse também um sermão semelhante. Confesso que não aceitaria tanta penitência. No caminho, passei pela venda do único comerciante branco que residia no Lago. Entrei na loja do Floriano Capelo. Só estava a mulher, ele saíra por momentos. Cumprimentei-a atenciosamente e disse-lhe que vinha para saudar o marido. Mal acabara de falar, o Floriano já entrava. A carabina Magnum que eu deixara em cima do balcão foi de imediato o seu encanto. Mirou-a e remirou-a, puxou a culatra atrás várias vezes e disse-me com os olhos a brilhar: – Isto é o que se chama uma obra de arte. Com este brinquedo matamos numa noite mais de dez crocodilos na outra margem do Lago. A mulher ficou instantes a escutar. Depois, discretamente, foi para a parte da cubata que lhes servia de casa. Como se já me conhecesse, o Floriano falou-me naturalmente e sem cerimónia. Disse que há muito ouvira falar de mim, sabia que eu era inspector dos CFB, do quanto gostava de caçar e de viver com negros

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o caçador de brumas mas que toda a gente comentava o pouco tempo que passava nas minhas funções. Perante tamanho conhecimento pouparam-se muitas palavras. O homem era baixo, amarrecado e vestia trapos sujos, quase imundos. Já tinha o ar terroso dos velhos colonos e as mãos calejadas. Estava descalço, pois estivera a regar as leiras de abacaxis na horta. Disse-me que produzia as hortaliças que precisavam para casa e as que dava para as casas do administrador Silva Marques e do chefe Libório. Com frei Serapião não fazia cerimónia. Era mesmo ele, ou um dos filhos mais velhos, que passava pela horta e tirava o que lhe dava na gana; “sempre em nome de Deus e da santa caridade cristã” – disse sorrindo. Conversando e falando à moda dos transmontanos, afastou a cortina para ir mudar de roupa. Mesmo deixando de me ver, não parou de falar. Foi-me contando que já ali vivia há mais de vinte anos. Viera com o capitão António de Almeida ocupar o posto do Dilolo. Que os nativos tinham resistido muito quando começaram os trabalhos topográficos do caminho-de-ferro. Anos depois, já estava farto das grandes caminhadas a pé e, muito mais, de aturar a tropa indígena. Assim que o grande capitão foi para governador na Vila Luso, disse-lhe, muito respeitosamente, que iria ficar ali. Gostava do Lago e de estar afastado das confusões que viriam quando os comboios começassem a circular. Mandou vir a Cesaldina da terra e ali ficou estabelecido. Tinha pena de nunca terem tido filhos. Cesaldina era assim, “a modos que seca” – dizia resignado. Duas ou três vezes ao ano ia reabastecer-se a Vila Teixeira de Sousa ou ao Dilolo. Aproveitava a época do cacimbo para melhor fazer a viagem sem ter de ficar atolado no matope das picadas. Carregava os três carros boers, puxado cada um por sete juntas de bois. Fora ele mesmo que os comprara para a tropa ainda em Nova Lisboa. No final da ocupação militar tinham ficado por ordem do grande capitão. Com o passar dos anos viera a rotina. Na larga jornada que decorria durante semana e meia até Teixeira de Sousa, levava na comitiva mais de duas dúzias de nativos. Para depois vender na loja comprava sacas de sal, fardos de roupa usada, umas dúzias de nangas bem coloridas, mais quatro ou cinco barris de vinho belga ou francês – “uma merda de vinho que nenhum

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joão sena francês ou belga beberia”. Trazia da Rodésia as chitas, sacas de açúcar e de feijão e milho para semear. Nessas viagens vendia ao Luís Carvalho, um comerciante de Chaves que por ali ficara, peles dos jacarés, das lontras e dos outros animais que comprava aos nativos ou ao administrador. Vendia no Dilolo ou despachava para o Lobito os balaios de toqueia missonge e outro peixe seco que comprava durante o ano. A patroa tomava conta da venda. Ele tratava da agricultura e ia à pesca e à caça. Gostava da caça aos jacarés que havia nas margens do lago. Aproveitava-lhes a pele das barrigas que punha logo em salmoura. Vendia-as depois a bom preço ao Luís Carvalho que, por sua vez, as transaccionava com um alemão. Quando voltou de dentro da cubata, trazia na mão dois cálices e uma garrafa de vinho do Porto que guardava. Bebemos à nossa saúde. A pinga desatara-lhe a língua. Disse-me que ficasse para cear com eles, ao mesmo tempo que acrescentava: – A gente sabe como estas coisas são e o melhor é vossemecê ir cear a casa do padre ou à casa do chefe Libório. Ele é a Autoridade e representa o senhor administrador que é mesmo quem aqui manda. Ainda fiquei um bocado, conversando, bebericando e comendo de petisco lombinho de gnou carregado de jindungo. Perguntou-me onde pensava ficar a dormir, alertando-me que não deveria ficar na ganda entre os nativos, pois tal acto seria entendido como uma afronta aos brancos que ali viviam, inclusive ao frei Serapião. Para dormir teria de o fazer ali no parrot da sua palhota, ou então na casa do frade ou na do Libório. Depois, atirou-me: – Você não quer comprar-me uma data de peles que eu ali tenho? Fiquei sem fala. Não contava com a proposta e não estava prevenido para fazer negócio; trazia no bolso vinte ou trinta angolares, se tanto. Atravessámos o pequeno terreiro onde os criados estavam a fazer a comida e entrámos na grande palhota ali arrimada. Estava cheia de peles, de gnus, pacaças, antílopes e até de coiros dos bois mansos. Mesmo com a pouca visibilidade, pareciam em óptimo estado – secas, bem estendidas e sem cortes. Havia umas tantas esticadas nos paus por estarem verdes.

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o caçador de brumas Cada vez mais animado, foi de abrir a outra cubata. Pendentes de lianas bem esticadas e cheias de sal, mais de uma dúzia de peles de jacaré. O fedor era insuportável. Mirei uma e outra e notei que estavam impecáveis. Floriano continuava radiante. Um sorriso de orelha a orelha iluminava-lhe o rosto precocemente envelhecido. Na boca ostentava dois dentes assimétricos. Desde que partira das Beiras tinha jurado a mim mesmo que não podia mentir nem aldrabar nos negócios, para ser considerado um homem de bem. Agora muito menos o faria a uma pessoa que tão bem me tinha recebido e tratado. Falei então com a maior das sinceridades: – Olhe, amigo Floriano, eu não tenho nem comigo nem na minha palhota do kimbo, dinheiro suficiente para lhe poder comprar a pequena parte, sequer, destas peles que tanto dinheiro devem valer. Para não falar nas peles de crocodilo que são muito caras. Depois, quero ainda dizer-lhe que as peles que tenho vendido eram de animais mortos por mim ou compradas por aí. Despacho-as no CFB para o meu tio Faria no Lobito e é ele quem as lá vende. Fui imediatamente interrompido. Floriano lembrou-me que estávamos em África entre brancos e disse: – Aqui em Angola não é necessário dinheiro para se fazerem negócios. É assim, é assim mesmo! Estava decidido. Iria vender-me todas as peles. Se calhar, teria maior lucro do que o ir vendê-las a Teixeira de Sousa ou ao Marco 2556, na fronteira com o Congo Belga. Os ladrões dos comerciantes que lhas compravam, mesmo o Luís Carvalho, que até era bom rapaz, estavam sempre a refilar e desfazer-lhe na mercadoria. – Refilam porque estão mal curtidas, porque aquela tem uma data de cortes ou tiros, a outra não presta para nada, porque devia ter mais cuidado quando as comprava aos negros, porque os portugueses nem sequer sabem ensinar os negros a matar os animais deixando-os com a pele pouco furada – eu sei lá! Dizem-me de tudo e são brancos como eu. Veja lá vossemecê, Miguel, como aqueles filhos do diabo falam, só para ganharem mais uns cobres. Como se estas gentes precisassem que os ensinem a atirar flechas! 56

Marcos fronteiriços, numerados. Foram mandados colocar por Gago Coutinho e delimitavam os territórios de Angola e Congo Belga.

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joão sena Concluiu que tinha gostado de mim e, portanto, trato concluído. Quanto ao meu tio não era preciso dizer mais nada – era um homem de honra. Assim sendo, tinha a certeza que as iria vender pelo melhor preço e, depois, acertavam-se as contas. Bastava que dissesse por quanto as tinha vendido e pronto. Dividia-se ao meio o lucro e metade para cada um. Estendeu-me a manzorra: – Negócio fechado. Aproveitava-se já o facto de não chover para mandar comigo os carros dos bois com a carga para o Luacano, donde seguiria para o Lobito. Chamou a Cesaldina e disse-lhe que, na próxima vez, eu ficava lá em casa pois já éramos sócios. A dona Cesaldina sorriu, limpou o suor da cara com a ponta do avental e sem dizer palavra voltou para dentro. Continuámos a conversa e caímos a falar da minha vida. Quis saber do meu emprego, como é que um alto funcionário dos CFB estava amigado com uma preta, etc., etc., etc.. Fez uma quantidade de perguntas para poder entender como é que eu, um homem com tanta influência, tinha ido parar àqueles quintos dos infernos. Falou-me do seu grande capitão, o senhor D. António de Almeida, com a paixão do velho soldado pelo comandante. Acabámos a dizer mal dos administrativos para fazermos melhor a digestão.

Floriano tinha razão. Eu tinha mesmo de voltar a falar ao chefe Libório, por muito malcriado que ele fosse – era a autoridade. Pensei ir logo. Era já pôr-do-sol, ele teria regressado da pesca e estaria espojado na cadeira de lona na varanda a carregar no whisky e a discutir com a mulher… O Floriano tinha-me recomendado que principiasse por lhe falar na pescaria e lhe dissesse logo que já tinha compromisso para ir jantar a casa do frei Serapião. Assim, ele não teria de fazer o frete de me convidar. Ele, Floriano, iria avisar o missionário e não haveria problema. Na mesa de frei Serapião mais um, menos um, pouca diferença fazia. Bastava acrescentar a água da panela. Onde muitos comem também come mais um. E assim foi.

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o caçador de brumas Libório estava sentado na varanda a beber whisky. Olhou-me e nem me mandou sentar. Ouviu em silêncio as minhas explicações e só falou para me informar que iria passar uma informação confidencial para o governador. Era essa a sua obrigação e não queria responsabilidades. Disse também não querer vir a ser acusado por quaisquer desacatos que pudessem surgir da minha ideia jerica, “mesmo burrical” – acrescentou – de querer casar com uma indígena. Apareceu a mulher, madame Ivette. Era gorda, com sete arrobas de sebo. A mulheraça falava português afrancesado, estava pintada como uma máscara de Carnaval e deslocava-se como um elefante velho. Olhou para mim. A meia voz, para que eu ouvisse bem, disse: – Vagabond de merde… Rendi-me. Só viera a perder tempo. – Passem bem e… – retive a frase, mas apeteceu imenso dizer-lhes: – Diabo que os carregue, aos dois. Andei alguns metros sem destino. Precisava de espairecer e mudar de ares. A casa de frei Serapião estava arrimada ao posto de socorros da missão de onde vinham gritos lancinantes de dor. Empurrei a porta a medo e vi o missionário, com as mangas arregaçadas e de avental branco, debruçado entre as pernas de um rapaz destilado em suor. Estava o pobre amarrado a uma cadeira e para poder morder à vontade, com um pau atravessado na boca. Eram guturais os gemidos lancinantes. Ao pressentir a minha presença ou porque os três ajudantes me tivessem olhado espantados, ergueu-se e com aquele sorriso que a qualquer encantava fez-me sinal para que entrasse. O curativo estava já a terminar. O que vi ficou-me gravado na memória. O negro estava sem calças e com o enorme pénis pendurado. O missionário introduzia no flácido membro um dos arames que desinfectara no fogareiro colocado em cima da mesa como se estivesse a meter um elástico na bainha. Falando em luena ia encorajando o paciente, enquanto lhe dilatava a uretra e, pelo buraco, derramava permanganato. Enxugava com um bocado de pano branco o líquido que lhe corria pelas mãos.

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joão sena Os acólitos tinham os olhos mais abertos do que os das corujas nas noites de nevão e faziam força para segurar o enfermo na cadeira. Quando terminou o curativo, lavou as mãos com uma côdea de sabão azul numa bacia de esmalte que lhe trouxeram e, numa toalha que lhe estenderam, secou-as. Eu estava sem fala. O enfermo, cinzento, parecia desmaiado; deixara-se abandonar inerte na cadeira. O suor escorria-lhe pelo rosto e pelo corpo. O missionário limpou carinhosamente com a toalha o rosto do rapaz enquanto me dizia sorrindo: – Estes desgraçados passam o tempo a fornicar… depois queixam-se e morrem com tanto caluêna. É assim que eles chamam aos “esquentamentos”57 que apanham. A sífilis há-de acabar com esta gente. Eu bem lhes falo mas eles não fazem caso dos meus sermões. Aqui a natureza é muito mais forte que a fé. Tirou o avental branco e ficou com o hábito de frade, roto e encardido. Do vulto espesso e grosso surgiram dois braços abertos para me abraçar. Naquele quadro vivo de caridade e amor destacavam-se as finas canelas brancas que terminavam nas chanatas velhas. Com o sorriso dos Simples ou dos Santos disse-me: – Meu filho, vamos cear que já vai ficando noite e as migas já devem estar a arrefecer.

Foi uma noite bem passada em casa do missionário. Assim que chegámos fomos para debaixo de um grande tamarindeiro onde tinha sido construído o parrot. Era ali, à luz do petromax, que se comia. A enorme mesa já estava posta com a com toalha e pratos e talheres de lata; no centro, brilhava a jarra de barro com enorme ramo de flores e verduras. Tudo muito limpo e asseado. No topo a cadeira de frei Serapião e nos laterais, em bancos corridos, os demais lugares. Rindo e contando ocorrências vividas, passou a tratar-me por tu. 57

Blenorragias.

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o caçador de brumas Revelou-me andar ansioso por me conhecer. Sitóe dizia muito bem de mim, contava coisas mirabolantes de caçadas e do meu poder sobre os que trabalhavam na linha. Gabava a qualidade e quantidade de armas que eu tinha e a maneira simples com que partilhava a vida. D. Serapião interrompeu bruscamente o discurso e levantou-se. Fez-se silêncio e todos se levantaram também. Íamos agradecer a Deus. O missionário, após ter feito o sinal da cruz, rezou em português uma pequena oração. Terminou abençoando a mesa e a todos nós. Sentámo-nos novamente e, nomeando pelos nomes, foi-me apresentando os rapazes e raparigas ali sentados que, no teatro, faziam uma vénia. Os rapazes tinham os nomes dos Evangelistas, João, Marcos, Lucas e Mateus; as raparigas chamavam-se Catarina, em honra da mãe do frade – disse –, depois vinha a Maria, a Marta, a Madalena, a Ana e – a mais pequenina – a Glórinha. Embora alguns mais escuros que outros, mais ou menos parecidos, podia-se ver em todos a mistura do sangue alentejano do frade e das diferentes mães. Tinham sido todos registados na administração com o seu apelido, Monforte. Nunca soube se era esse o nome do missionário ou da sua terra natal. Enquanto comíamos a sopa de legumes, deliciosa e bem à portuguesa, os rapazes olhavam-me. As raparigas, sem correrias, retiraram os pratos da sopa e serviram o guisado de javali, água e fruta na melhor das ordens. Bem vestidos e asseados, todos com compostura à mesa, mesmo os mais pequenos. Se o frade não fosse careca e gordo parecer-se-ia muito com meu pai. Depois de acabarmos de cear e de nova reza, continuámos os dois à mesa a conversar – falámos sobre as chuvas que tinham começado a cair, o bom ano agrícola, os muitos problemas que apareciam na Missão e, sobretudo, dos muitos doentes a precisar de ajuda urgente. Graças a Deus que a Catarina – a mais velha já com uns vinte anos – e o João, o ajudavam. Como não tinham medicamentos, nem vindos da missão de Vila Luso nem da administração do Concelho ou do Governo do Distrito, só faziam o pouco que Deus queria.

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joão sena Já sentados na varanda em cadeiras feitas com aduelas, conversámos. Fez questão que bebêssemos um cálice de whisky “muito bom para a malária”. D. Serapião quis saber da minha história. Lá fui contando como tudo acontecera e como ia vivendo. Entretanto, passámos a beber cerveja pois tinha de se poupar o whisky. Os “afilhados”, após tudo arrumado, vieram despedir-se de mim e pedir a bênção ao padrinho. Ficámos sozinhos. A brisa corria húmida. Não tardaria começasse a chover. Devagar vieram as conversas sérias. A maior apreensão do frade era a dificuldade em dar outra educação aos mais velhos. Tinham de ir estudar para Vila Luso e até àquela data não tivera apoio de ninguém. O superior da ordem bem podia deixá-los ficar na missão mas nada dissera ainda. – Será o que Deus quiser, não obstante eu ser um pobre pecador… – disse sorrindo. Naquela hora jurei a mim mesmo que, se tudo corresse como eu desejava, seria eu a pagar os estudos de um dos seus mais velhos. Estudariam em Vila Luso ou em Nova Lisboa ou até mesmo no Lobito. Estava decidido. O missionário falou depois das suas outras aflições, centradas sobretudo nas dificuldades de relacionamento entre os poucos brancos que por ali viviam. Falou com simpatia do administrador. Era um velho colono, há muito por aquelas bandas. Vinha adiando de ano para ano as férias e – dizia-se agora – tinha sido o governador a obrigá-lo a ir de graciosa. Silva Marques era apaixonado pela mulher e ambos por África. A dona Ida sua mulher era distinta e tinha lindos olhos violeta. Ela criara e administrava o infantário ao lado da sua casa. Simultaneamente, na outra parte da palhota, dirigia a pequena escola de trabalhos domésticos. Era muito boa para as gentes. Com todas as acções que desenvolveu, muito tinha contribuído para que algumas raparigas falassem o português e aos poucos fossem abandonando hábitos ancestrais de promiscuidade. Porém, havia o problema do sacripanta do Libório. Era o diabo em pessoa. Tinha azia permanente e deitava bafo fedorento da boca. Se calhar por ter de aguentar a gorda mulher que se tomava de gran-fina…

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o caçador de brumas A dado momento o frade, inclinando-se para mim, tocou-me nos ombros e em tom de segredo confidenciou-me: – Vê lá tu, Miguel, que dizem por aí que a tal madame chegou aqui depois de “exercer” de porto em porto. Um dia, na Restinga do Lobito, abalroou o Libório que estava de férias. Passaram a lua-de-mel no comboio até Nova Lisboa. Depois... viajaram a pé pelos trilhos entre kimbos, povoados e postos, quase sempre de tipóia, por ele ser administrativo. Quando chegaram ao Lago já vinham “desamigados” e, ao que se diz, ela já o tinha “malhado” em diferentes ocasiões. Dizem ter ela muito mau feitio e o pobre do “monta negras” com pouco cabedal e menor competência, vai-se sujeitando a grandes sovas. Depois de uma curta pausa, adiantou mais um detalhe: – Quando se pedia qualquer coisa ao Libório, a sua primeira palavra era não! Depois, com calma, falando-lhe de negrinhas ou de pesca, o homem amaciava e acabava por fazer o que se pedia. O frade ria a bom rir. Passada a risota, aproveitei a intimidade para fazer-lhe uma pergunta que há muito gostava de ter resposta, pois tinha comigo uma grande dúvida. Ouvira, em diferentes ocasiões e a várias pessoas, dizer que os negros não tinham alma. Até o safado do Conapa várias vezes o dissera. Ouvia, mas não queria acreditar. Negava-me sequer a admitir que tal fosse verdade. Em Portugal ouvira chamar aos indígenas de infiéis; por isso havia necessidade de missões e de missionários para os civilizar. Durante todo o tempo que estive vivendo com eles habituara-me a compreendê-los. Embora tivessem do mundo uma visão muito simples, tinham sabedoria. Tinham até uma certa fé. Seria que os negros também temiam a Deus? O frade, no seu jeito terno e bondoso, disse-me palavras que, viva eu cem anos, nunca esquecerei. Falou assim: – Nós os homens, brancos ou negros, cultos, incultos, duros que nem um seixo, civilizados ou não, ricos com grandes palácios, pobres em choupanas e palhotas, miseráveis sem abrigo, quando aflitos, quando ansiosos perante o desconhecido ou as manifestações da natureza enfurecida,

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joão sena quando tudo parece derrubar todos temos medo e sentimos angústia… nesses momentos clamamos por Deus. É sempre Deus, seja o nome que lhe atribuam consoante as religiões ou até mesmo o nome de Cazumbir ou Natureza. Há também quem clame por Deus ainda que o seu grito seja o silêncio. Jesus, o filho de Deus, disse um dia que deveríamos amar a Deus e ao próximo como a nós mesmos. Portanto Miguel, eles amam a Deus, a quem chamam Cazumbir, e amam os seus irmãos. Amam até os que querem que eles não andem nus e os obrigam a trabalhar para pagar o imposto, que os fazem ir à tropa, que os obrigam a mudar de kimbo etc., etc., etc.. Se tudo aceitam porque são pacíficos, são de certeza bem-aventurados e filhos de Deus. Hoje tu próprio o sabes e és disso mesmo testemunha. Eu fiquei mudo. Olhei a esmo as goteiras do capim já ensopadas. Começara a cair uma pancada de água do iniciar das chuvas. Durante horas cairia a cântaros. Era hora de dormir. Tinha esgotado as palavras e estava perturbado. Agradeci o jantar e embrulhado num velho cobertor emprestado fui correndo para casa do meu sócio Floriano. Ali dormiria conforme estava acordado. Enquanto preparava as mantas, só e pensativo, sorri ao recordar os minutos passados com o frade. Não seria mesmo um santo? Em África não há segredos e ele sabia tudo quanto se falava sobre a minha amigação com Monámi, a propósito de casamento cafreal, mas nunca a tal se referiu. Porém, antes de sair para me ir deitar, deu-me a sua bênção e alertou-me para os danos que a informação desfavorável – a tal confidencial! – me poderiam causar. Libório, a desempenhar as funções de administrador, tinha influência junto do governador do Moxico. A chuva caía cada vez mais grossa. Em contraponto, o som do batuque iniciado ao fim da tarde aumentava. O ritmo dos goma58 e dos tchingufos59 soavam nas mohambas que estavam a ser feitas na embala de Nacarada, 58

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É um instrumento de percussão, parecido com os bombos tocados nas orquestras, cavado num tronco de árvore, normalmente mangue cilíndrico com uma só abertura coberta com uma pele retesada. É tocado com as mãos no rebordo da pele e produz um som como um tambor. Um só homem pode tocar simultaneamente três em tamanhos diferentes. É um instrumento de madeira de mangue de uma só peça em forma de um prisma cavado interiormente em funil e com mais de um metro de cumprimento. É tocado por dois homens com baquetas e o som alcança grande distância. Serve também para os sobas transmitirem sinais ou notícias de kimbo em kimbo.

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o caçador de brumas a filha de Muatiânvua rei dos Luenas. Se calhar dançavam em honra do primeiro branco matumbo que queria casar com a neta do rei cafreal. Dormi numa esteira debaixo do parrot. Embrulhei-me nas mantas quentes que o Floriano me emprestara e nem acendi o fogo. As noites estavam a ficar quentes no planalto. Acordei eram quatro da manhã. A madrugada viria num instante. Calcei as botas e dei uns passos para desentorpecer as pernas. Dobrei a manta e a esteira, verifiquei se as minhas armas estavam arrecadadas nos paus do tecto do parrot. Ali estavam a bom recato. Os criados faziam a comida no terreiro em dois ou três lumes. Cesaldina, num virote, não parava entre a casa e a venda. Dirigi-me ao exterior; o sossego era grande não obstante o movimento de vultos que caminhavam na direcção da casa do padre. Caminhei também e reparei que debaixo das mangueiras do conjunto residencial, junto do posto de socorros, agachados estáticos e mudos, estavam alguns vultos. Apenas via as silhuetas. Aproximei-me e vi gente sentada em silêncio. Estariam à espera que o posto abrisse, pensei eu. Na brisa da manhã senti o cheiro a carne podre. Vi que já havia luz dentro do posto. No silêncio da noite, ouvi o riso do missionário. Pela frincha da porta, na claridade, vi-o de lençol atado à cintura, acompanhado pela Catarina, pelo João e uma outra das suas rapariguitas. Todos de avental branco faziam curativos. Quando à luz, vi pela primeira vez o que era um leproso. Um arrepio correu-me pela espinha. Embrulhados em mantas velhas ou panos sujíssimos, dobrados sobre si próprio, não tinham nem mãos nem pés. Eram pessoas que, sem narizes, sem lábios, com cotos e úlceras infectadas, e se arrastavam apoiados em cajados. Uns tinham as caras deformadas. O cheiro a pus e carne putrefacta eram insuportáveis. Cá fora, outros, desfigurados pelas manchas claras que antecediam as mutilações, faziam pequenas covas na terra onde cuspiam, tapando-as depois.

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joão sena Pareciam máscaras de Carnaval abandonadas à chuva na noite de quarta-feira de cinzas… O frade, falando em luena, animava-os com histórias divertidas – penso eu. Ria com eles como só um Santo o pode fazer. Entretanto mudava-lhes as ligaduras e os panos das feridas a cobrirem pústulas repelentes. No final de cada tratamento, Catarina derramava-lhe nas mãos farta porção do líquido amarelado – o ácido fénico – que servia de desinfectante. Não interrompeu a tarefa ao dar conta da minha presença. Foi-me dizendo que tinha de ser assim. A gente boa e saudável que vivia nos kimbos não viria nunca ao posto de socorros e muito menos à capela se os leprosos lá estivessem. Por essa razão os curativos tinham de ser feitos de madrugada. Era também necessário saber dos que tinham morrido. Tinham de ser enterrados em covas bem fundas, não fossem os javalis e outras feras desenterrá-los e espalharem ainda mais a terrível doença. Fora dose de leão o que acabara de presenciar. Saí dali, abalado no mais íntimo do meu ser.

O arrebol trouxera a manhã coalhada de nuvens. Também a manhã chegara triste e acacimbada. No quintal, junto do parrot, encontrei Floriano a conversar em luena com Tchingôma. A minha equipa de caça esperava ordens. Floriano olhou para a minha cara. Rapidamente entendeu o que se tinha passado, pegou-me pelo braço e levou-me para dentro, para matabichar. Não disse palavra. Dentro da casa, Cesaldina tinha a mesa posta. Havia pão de trigo, manteiga, doce de papaia, goiaba e um enorme salpicão. Sorridente e de poucas falas, acabara de passar um óptimo café negro. O leite fora acabado de mugir de uma das vacas. Nem a fome saciada me trouxe o bom humor. Fomos ver a “lavra” do Floriano. Tinha de tudo, o malvado. Arrimados às cubatas onde vivia e tinha o pequeno comércio, estavam os bois e vacas. Os bezerros, guardados pelos garotos do kimbo, pastavam no capim em liberdade. Apesar dos crocodilos às vezes fazerem das suas – abocanhavam

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o caçador de brumas os novilhos ou bezerros que arrastavam para as águas fundas –, a manada não parava de crescer. A picada ao longo da “lavra” era delineada por mangueiras e tamarindeiros. Em regueiros, bem alinhados, tinha de um lado uns cinco hectares de amendoim e feijão; do outro, cobertas com capim, pequenas estufas. Ali criava em canteiros minúsculas plantas de tabaco ao lado dos viveiros de milho e outras sementeiras de ervas de cheiro para a cozinha, que tinham de ser bem protegidas do sol. Na terra húmida, tinha alfobres de hortaliças diversas, papaieiras, bananeiras, mamoeiros e outras árvores de fruto. Ali nada faltava. Andámos mais uns centos de metros até aos campos de tabaco e milho. Eram largos hectares semeados e, dizia-me, contava ampliá-los quando pudesse comprar um tractor. Parou e limpando a testa disse: – Estas terras dão tudo. Mas aqui o milho e o tabaco vão ser a maior fortuna – repetiu várias vezes –, a maior fortuna. Tudo tinha sido conseguido com muito suor e trabalho, sem dispensar a ajuda da Cesaldina, uma mulher de verdade. Não perdera ela o carrapito nem o ar da serra e negava-se a ser “dona”. A lembrança da dona Isaurinha e dos seus conselhos sobre a Clarinha não podiam ter melhor exemplo. As “lavras” da Missão ficavam logo de seguida. Estavam bem cuidadas, eram trabalhadas pelos afilhados e por outros crentes e catecúmenos. Havia muchito com papaieiras e mamoeiros, frutos muito apreciados por frei Serapião como tónicos de recuperação. As lavras da soba Nacarada ficavam do outro lado junto da embala. Perguntei ao meu novo sócio pelas lavras da administração. Ele deixou-se rir e rematou: – Para quê lavras se eles têm tudo… basta mandar colher. Combinámos que à noite iríamos pelos crocodilos e deixei o Floriano. Passei pela casa, muni-me da arma de caça e chamei Tchingôma. Antes da hora de almoço, iria cumprimentar a soba.

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joão sena

6 Frei Serapião fascinava-me. Tinha a sua parte de pecador sem arrependimento e era verdadeiro santo. Ali, no fim do mundo, espalhava misericórdia, perdoava as fraquezas dos fracos e fazia o bem entre os mais pobres de todos os pobres naquelas terras perdidas do Leste de Angola. Quando passei à porta da igreja os garotos sentados no chão e com o Missionário cantavam em luena o vira do Minho. Depois em português entoaram um cântico do Natal. Ó meu Menino Jesus, Ó meu Menino tão belo! Logo vieste nascer Nas noites do caramelo … Era a cantiga da minha terra! Naquele dia de calor a saudade atingira-me como um raio. Quando acabaram as cantigas e o frade se levantou, pude num instante confirmar aquilo que safadamente se comentava em toda a linha do caminho-de-ferro: o missionário do Dilolo não usava mais nada senão a natureza por debaixo do hábito. Era de facto verdade. O voto de pobreza estava ali bem explícito. Como eu, toda a miudagem viu certamente o detalhe. Não houve, porém, sussurro, comentário ou risota. O monge criara o hábito, o costume, a rotina. Nacarada estava sentada na sua cadeira de soba à sombra da mulemba. Sentados no chão rodeavam-na os notáveis da sua tribo. Tchingôma estava ao seu lado sentado na pele de leopardo. Deveriam estar em conferência. Depois de os ter saudado com o tradicional “moio ióbe” “maio ióbe” repetido por cada um dos presentes, chamei o Sitóie para me servir de intérprete. Queria ouvir e falar com rigor. A um gesto da soba, uma criada – a catuma – trouxe a cadeira de aduelas. Sitóie aproximou-se ajoelhou-se na frente da soba e com a cabeça rente ao chão atirou terra para as costas em profundo sinal de respeito e vassalagem.

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o caçador de brumas Em voz baixa, numa estranha ladainha a soba começou a falar. O silêncio era total. Quando terminou foi a vez do professor traduzir para mim o que ela havia dito. Tinha começado por referir o muito penar do seu povo durante as guerras da ocupação. Tinham sido muitos os mortos, os feridos e os kimbos incendiados pelos tropas. Os “muânéputo” tiveram de passar muitos anos para verem os Luenas voltarem a ter paz e sossego. Ela mesma vira e testemunhara todas as canseiras de seu pai – o grande Muatiânvua, rei dos Luenas. Tinham, a muito custo, feito a paz com o Grande Capitão e agora viviam tranquilos apesar dos Luenas jamais terem voltado a ser o grande povo que eram antes da chegada dos brancos “muânéputo”. Tivera notícia, pelo que era contado de kimbo em kimbo, ser eu boa pessoa, grande caçador e que todos me queriam bem, especialmente Tchingôma, filho das suas entranhas e futuro soba. Sabia também ter eu já pago o alambamento – o “h’ricumba” – de sua neta Monámi. Também me estava muito agradecida pelos grandes presentes que lhe tinha oferecido. Pensara em tudo isto e agora ouvira a opinião de seus conselheiros. Ela não queria nova guerra com o Grande Capitão. Não havia memória que nas terras do Alto Zambeze, ou em todas as terras de Quiocos ou Luenas, um branco alguma vez tivesse casado com uma luena. Todos os filhos dos “muânéputo” feitos nas negras eram fruto de encontro casual na picada, por isso coisa sem importância. Assim, sem a autorização do Grande Capitão, ela, soba Nacarada, não poderia autorizar semelhante desafio nem tão pouco podia convidar sua sobrinha a poderosa rainha Tchizanda. Grande Capitão poderia ficar pior que os dumbas da anhara quando acaba o cacimbo e estão mortos de fome. Atacam sempre. Bem diferente seria se eu já tivesse autorização do Grande Capitão. Então sim. Ela mandaria já a Vila Luso o seu companheiro, o mucuétunga e a comitiva, para trazerem a resposta oficial da permissão. Quando Sitóie terminou a tradução todos os presentes acenaram a concordar. Nunca soube se haviam entendido o português, ou se foi pela minha cara de espanto que aprovaram a correcção da tradução. Ainda quis argumentar, mas o professor disse-me que estava a perder tempo; a decisão estava tomada e era irreversível.

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joão sena Uma raiva incontida vinha-me da alma. Mas o que é que esse tal Grande Capitão ou o merdas do “montanegras” tinham a ver com a minha vida? Eu era livre e podia amigar, casar, fornicar ou viver com quem me desse na gana. Não era esse mesmo Grande Capitão casado, com papel passado e segundo a Santa Madre Igreja, com uma negra bem retinta, chamada de senhora dona Branca Clara das Neves? Deviam de facto estar a gozar comigo! Tomei então a decisão de contra ventos e marés amigar com Monámi já que todos pareciam estar contra. Ainda por ali ficámos uns minutos mais. Os homens vieram saudar-me com respeito e aos poucos fui-me animando. As raivas em mim são passageiras como o são as tempestades em África. Em dado momento percebi que a soba me estava a fazer um sinal. Socorri-me da ajuda do Sitóie para confirmar. Era verdade. Ela queria falar em particular. Entrei na sua cubata. Estávamos só os dois. A soba foi junto de uma das paredes da palhota e tirou um pequeno embrulho escondido no capim. Derramou o conteúdo na mão. Vi imediatamente o que era. O brilho das pedras faiscara. Eram diamantes. Sem dizer palavra fez questão de meter o pequeno embrulho no bolso da minha balalaica surrada. Arrastou-me, para fora e chamando o Sitóie disse que necessitava de dois sacos de sal. Grande favor se eu lhos mandasse. O professor sem entender bem o que se tinha passado repetiu-me: – Muânéputo, patrão… tens di verdade arranjar dois saco de sal evidentemente para dar à soba. Foi a única vez que o ouvi falar à preto. Sabia que o meu sócio – Floriano – tinha sal em armazém e decidi ir de imediato buscá-lo. Foi isso mesmo o que disse ao Sitóie e de imediato parti. Em poucos minutos estava de volta com os dois sacos para Nacarada. Ela sorriu e bateu as palmas de contente. Não compreendi semelhante negócio, nem falei a ninguém do que tinha acontecido. Se os diamantes fossem bons como eu imaginava estava rico. Bastava fazê-los chegar ao tio Faria. Os preparativos para a caçada aos jacarés começaram ao meio-dia. Floriano preparou o barco e os criados levaram a bateria do farolim até ao pontão de madeira que o Silva Marques tinha mandado construir. O barco

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o caçador de brumas era de teca, um bocado desconchavado; – fizera-o ele mesmo. A calefacção das madeiras fora feita com o algodão bruto da “lavra” e o alcatrão que trouxera de Teixeira de Sousa. Nunca metia água, disse orgulhoso Floriano. O seu maior inconveniente seria a força de remo necessária para o mover. É certo que as águas do lago são aparentemente calmas e tranquilas, mas quando se levanta a calema60 formam-se ondas largas e no meio do lago é preciso remar forte. A meio da tarde chegaram os afilhados de frei Serapião. Traziam à cabeça um enorme dongo que poisaram dentro de água. Os rapazes estavam radiantes com a caçada que se aproximava. João mirava e remirava as minhas armas, – estava fascinado. Percebi que se lhas deixasse tocar e até dar um tiro ele seria muito feliz. Não hesitei. Ele merecia e os outros meninos ficariam também contentes. Passariam a contar a façanha do irmão durante largo tempo. Passei-lhe para a mão a Winchester carregada com cinco balas. Era certeira e não dava coice. Disse-lhe para ir matar uma muinha, das muitas que tranquilamente pastavam no capim. Mas não me saía da ideia o relembrar a dádiva recebida da soba Nacarada. O embrulho dos diamantes deixara-o escondido entre as palhas do parrot. A soba falara na altura de um assunto que só agora começava a perceber. Com gestos e poucas palavras em português quis dizer-me que iria falar com a rainha Tchizanda para que, de futuro, todos os diamantes – que ela chamava de missangas – reunidos na área das suas terras serem guardados para mim, o grande tchinhanga-muânèputo. A figura e o prestígio da rainha Tchizanda eram obsidiantes. O seu nome estava em toda a parte. Para os Luenas ela era o poder maior. Eu imaginava-a uma velha inclemente e déspota, senhora da vida e da morte daquela gente. Mais tarde vim a constatar que muito se engana quem cuida. O João regressou passada meia hora e trazia a muinha às costas. Vinha esfuziante de alegria e dirigiu-se aos dois irmãos, o Marcos e o Lucas, para irem buscar mais dois nunces. Não cabia em si de contente. Não tinha desperdiçado nem uma bala. No barco do Floriano seguíamos eu, o missionário e o meu recente sócio. Como era o mais novo tive de remar. À proa, procurando sinais dos 60

Ventos originados por depressões térmicas.

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joão sena hipopótamos – o verdadeiro perigo – D. Serapião olhava as águas profundas. Os grandes animais, vendo a sombra do barco, poderiam arremeter ferozmente derrubando e abocanhado tudo quanto caísse à água. Contavam-se por centenas as vítimas dos ferozes animais. Coloquei ao meu lado as duas carabinas carregadas, enquanto o Floriano punha a bateria à frente e experimentava o farol. Tudo perfeito. Atrás de nós, a curta distância, os rapazes remavam e cantavam no dongo uma melopeia luena. Pequenas vagas da calema61 suave dificultavam a progressão. Tínhamos de procurar na outra margem alguma lagoa seca onde os jacarés estivessem a deglutir a caçada do dia. Com o aproximar da noite sairiam para nova caçada, – à mesma hora em que as zebras viriam beber. Era já noite alta quando o Floriano disse para pararmos. Varreu com o foco a franja de areia à nossa frente. Vários sinais, brilhantes e amarelos, reflectiram à passagem da luz. Havia ali mais de dez jacarés. Sem pressas chamou pelos rapazes. Mandou colocar o dongo bem por detrás do nosso barco. Não queria que houvesse desastres quando começasse a fazer fogo. Passaram-se uns largos minutos quando acendeu de novo o farol. Chamou-me para me colocar à sua frente. O farol alumiava por cima do meu ombro esquerdo. Fixou os olhos amarelos de um jacaré a reluzirem. Eu sustive a respiração, fiz pontaria e disparei a minha carabina Magnoum. Os olhos que reluziam apagaram-se e ele disse baixinho ao meu ouvido: – Este já foi para os quintos dos infernos! Ainda fiz mais dois tiros e o resultado foi idêntico. Depois, foi a vez de D. Serapião. O frade desembaraçado e lesto apontou e disparou várias vezes a carabina Magnoum. Não sei bem – nem isso interessa – qual foi de facto o resultado dos seus disparos. Os rapazes a cada tiro dado davam um grito e faziam cada vez mais algazarra: – a festa da caça estava armada. Remámos mais adiante até outra língua de areia. A lua em quarto minguante apareceu no céu. O farol, poucos mais alvos alumiou: os jacarés tinham sumido. Teríamos de aguardar fosse dia para verificarmos quantos tínhamos morto para os apanharmos e regressarmos à povoação. Até que rompesse o sol era importante estarmos quietos. Ser-nos-ia fatal se aparecesse algum hipopótamo. 61

Vento que sopra ao alvorecer e ao fim da tarde devido a diferenças térmicas.

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o caçador de brumas A aragem foi-se acentuando e arrefecendo. Com a noite o frio tornara-se intenso. O frade sempre esfuziante de alegria parecia que nem tinha frio. Em certos momentos – reparei – estava rezando. Floriano encontrara uma manta. Eu deixara a minha balalaica em casa dele. Agora estava para ali … arreganhado de frio. Tive de me enrolar como um cão no fundo do barco, sem dar parte de fraco … Pagava assim o tributo de ser novato naquelas andanças. No dongo parecia não haver vivalma. Os rapazes tinham-se deitado arrimados uns aos outros; nem sequer se mexiam. Longas horas decorreram até que a aurora começasse a surgir. Então, o sol rompeu com ferocidade entre as nuvens e o calor trouxe de novo a alegria. Tínhamos de percorrer os sítios onde atirámos para ver quantos jacarés estavam mortos. A tarefa levou fartas horas, pois era perigoso saber se estavam mesmo mortos; podiam estar apenas feridos. Encontrámos nove jacarés mortos nas areias. Floriano, com uma catana muitíssimo afiada, cortou-lhes a pele das barrigas. Dois, tinham mais de seis metros. Os demais andariam à volta de três, quatro metros. Enrolou as ditas peles depois de as esfregar na areia para lhes tirar parte das gorduras. Em casa seriam salgadas. Tínhamos ganho bem o dia. No regresso, o frade passou-se para o dongo dos rapazes. Foi a cantoria durante toda a viagem. Ouvi-os cantar a “tia Anica de Loulé” nas duas versões: luena e em português. Estavam-se nas tintas para que os hipopótamos aparecessem ou não. Mortos de fome, chegámos ao Lago ia a manhã alta. Por ali fiquei mais uns dias. Havia alturas em que não tinha paciência para as conversas do Tchingôma, e muito menos para as erudições do Sitóie. Sobrava-me a raiva incontida contra o Grande Capitão ao querer controlar o meu destino. Sentia profundo asco e raiva pela lembrança do “montanegras”. Reconfortava-me a lembrança do santo frade que, entre o pecado e a redenção, cumpria junto dos mais pobres dos pobres o mandamento fundamental da nossa fé: – Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei! Longe das vaidades, das recompensas mundanas, evangelizava no fim do mundo. Era um pecador? Talvez um santo que muito amava a Deus: ao mesmo tempo sacerdote e bom chefe de família que criava e sustentava

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joão sena os filhos; sem dramas nem preconceitos. Perdido nas anharas do Leste de Angola, ensinava-os pelo exemplo a serem portugueses de lei. Em toda a Angola poucos serão os cristãos e os colonos que, tendo-se por patriotas, possam comparar-se ao heróico missionário. Quando dele me despedi, sinceramente comovido, recomendou-me que falasse com o professor Sitóie. Ele já tinha instruções suas para ensinar a catequese à Monámi. Fazia questão de ser ele a fazer o baptismo e o Floriano disse logo que ele e a patroa seriam padrinhos. Meio aparvalhado por não ter pensado ainda nesse tema, limitei-me a concordar. Tudo isto é apenas memória; tudo isto são recordações dos bons bocados e momentos de felicidade que por aqui vou vivendo nesta África grande, avassaladora e morena; poderosa e muda; que me entra na alma, arrasa os olhos e agora me toma o coração. Se Deus Poderoso e Eterno se dignar ouvir a minha humilde prece, que lhe dirijo nestas vastidões de verde e azul, gostaria permitisse que minhas cinzas ficassem fizessem, um dia, parte do pó, deste pó que o vento arrasta antes da visita das chuvas, regeneradoras e fartas… Ao aproximar-se o dia da partida, sentia cada vez mais relutância em voltar à civilização. Mas … tinha de ser. Os compromissos eram para cumprir. Chegara a hora inadiável. Acompanhado por dois carros boers do Floriano carregados de peles secas, mais as peles de jacaré que ele tinha de salmoura e as que nós tínhamos caçado – fiz-me à picada directamente para o Luacano. As rodas dos carros tocados por três juntas de bois chiavam constantemente; – por que é que o Floriano, o desavergonhado do diabo, não mandava untar os eixos dos carros … Ao princípio o ruído era irritante. Depois, com o tempo, já o ouvia como música e com agrado. Até me fazia companhia e adoçava a minha solidão. A comitiva seguia o trilho da picada na planura da chana, a ficar verde com capim renascido. Os pesados carros atolavam-se em quase todas as poças de água e perdíamos muito mas muito tempo. Os bois puxavam e lá íamos seguindo. Tchingôma não errava um tiro. Abateu duas galinhas do mato e uma caia. O grito de vitória que então soltava ecoava sobre a anhara. Eu continuava naquela modorra, meio acordado, meio adormecido – ligado e desli-

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o caçador de brumas gado do que se passava. Devia ter tomado as hóstias do quinino durante aqueles dias, mas – vinha já sendo hábito – tinha-me esquecido. Após dois dias de viagem conseguimos atravessar a linha do caminho-de-ferro. Estávamos no Luacano. Há quantas semanas? Havia quase, um mês que eu ali não vinha, estava cada vez mais desleixado. A primeira coisa foi ir ver o Arlindo, o chefe da estação, para saber novidades. Era bom tipo. Nascera na Catumbela. Depois da escola na missão fora trabalhar para os CFB como mandarete de recados. O pai, cozinheiro de um dos engenheiros da companhia, falou com o patrão e o filho passou para o Tráfego como factor. Era melhor posição e com mais oportunidades. Ainda novo e antes de ir às sortes, casou-se com uma bela mulata – a Fáti. Com a criação das novas estações coube-lhe chefiar a do Luacano, onde, na nova residência atribuída, vivia com a mulher e a filha pequena. Fez questão de me mostrar a sua nova moradia. Feita com tijolos e coberta de telhas, a casa tinha três quartos, uma sala, casa de banho ligada a uma grande fossa, luz eléctrica e água canalizada. Um luxo. Antes de partirmos deu ordens a um criado para me ir aquecer água. Assim eu poderia tomar um bom banho de que, aliás, estava mesmo carecido. Entretanto, fomos andando e conversando até à pequena residência que os CFB tinham construído e equipado para o pessoal superior dentro do recinto da estação. A mulher e a filha não estavam. A garota andava mal dos dentes e tinham ido a Teixeira de Sousa ao médico. O Arlindo era boa pessoa e conseguia até manter com o Conapa uma espécie de amizade. Foi contando que as obras no bairro dos CFB estavam concluídas, que a circulação dos comboios se fazia sem problemas e que no último “mala” o João Salema do vagão-restaurante lhe tinha perguntado por mim. Sorri. De facto, eu andava muito arredio das minhas funções de ferroviário. Muito mais do que era costume. Mas as novidades continuaram. À administração do Luacano já tinha novo secretário, que vinha para ser o administrador que, mal desembarcara do comboio, com a ajuda do aspirante Gonçalves tinha começado logo a trabalhar no plano de construção das futuras ruas, alinhando-as com a

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joão sena futura igreja e o cemitério, já demarcados em extremos opostos. A vida e a morte. No lado oposto e bem perto, num terreno liso e sem árvores, queriam mandar construir a pista para aeroplanos … A vila tinha muito mais movimento. No próximo ano, seria para lá transferida a administração do Lago Dilolo e do Alto Zambeze. No posto do Lago só ficaria o “montanegras” mais a sua anafada esposa. O administrador Silva Marques, por ter sido promovido a intendente, iria para o Governo do Distrito em Vila Luso. O aspirante Gonçalves acabara de chegar a Angola. Seria mais um no quadro dos administrativos da mandioca62. Logo que chegara, sem qualquer experiência, desempenhara funções de administrativo, polícia, juiz, notário, autoridade militar e sanitária. Assinava os papéis oficiais na ausência do administrador, na ausência do secretário, na ausência do chefe de posto, com uma garbosa assinatura: Alfredo Gonçalves – aspirante. É assim a administração portuguesa … Para celebrar, fomos cear à tasca do Janela e encontrámo-nos lá com o dito aspirante Gonçalves. Claro; ali iniciámos uma longa amizade. Era mais ou menos da minha idade, transmontano de gema e parecia muito disponível para ajudar. Fartei-me de comer e beber. Alfredo era danado para petiscos e comida picante. Como ainda ali tinha uma data de garrafas de Portugal ou compradas em Luanda, foi uma noitada das antigas. Temo que tenha regressado à estação a trocar o passo. Até as cólicas me passaram. Não há nada melhor que uma boa paródia! Desde que a estação entrara em funcionamento, os nativos vinham vender lenha aos CFB e carradas de terra das formigas salalé, muito boa para misturar com a areia e fazer bons pavimentos. Com o bom ano agrícola traziam também muito milho e muitos quilos de toqueia e missonge para vender. As lojas do Bragado, do Xavier e do Janela compravam enormes quantidades de balaios de peixe seco que empilhavam nos quintais, para depois carregarem vagões e vagões, com destino aos armazenistas e grandes companhias das cidades do litoral de Angola. 62

Designação dos funcionários administrativos do Quadro Colonial que não tinham o Curso Superior da Escola Colonial de Lisboa estes eram destinados aos quadros superiores; começavam a carreira como Secretários de administração.

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o caçador de brumas Os trabalhos da linha, da construção das estações, dos apeadeiros e das casas de apoio estavam a ser ultimados – diria mesmo a terminar. Conapa tinha arranjado muito mais gente para trabalhar e a coisa ia de vento em popa. Pena era que se embebedasse tantas vezes e chateasse tanto aquela gente – disse o Arlindo ao entregar-me o correio. As cartas da metrópole tinham o atraso de três meses, como era costume. Abri a da minha mãe, logo reconhecida pela letra. Escrevia como falava. Que por lá todos bem. O meu pai andava bastante animado e estava prestes a liquidar todas as dívidas; que as trinta libras que recebia pontualmente tinham dado um jeitão e a todos tirado das angústias recentes. O meu irmão mais novo, o Manuelzinho, fizera a quinta classe e, se Deus quisesse, iria em Outubro para o liceu da Guarda. Já tinha regressado da Madeira o José Velho, alfaiate, que por lá andara como soldado, devido à revolta dos militares na Madeira. O José Maria Nicolau, do Benfica, tinha ganho a volta a Portugal em bicicleta. Minhas irmãs mandavam muitos beijos e a Clarinha nunca se esquecia de me mandar recomendações etc. etc. etc. Depois vinham os eternos conselhos: Ser temente a Deus, trabalhar honradamente, ser cordato com todas as pessoas, amigo das missões, dos pobres indígenas e sobretudo que fosse sempre poupado nos gastos, pois os vícios destroem o corpo e fazem a perdição da alma. Muitos agradecimentos e recomendações ao amigo Deodoro Faria e para mim muitos beijos e saudades dos pais que sempre me tinham presente nas suas orações e nos seus corações. Assinava: A tua mãe que muito te ama: Maria Antónia Duarte Casteleiro. Não me contive e dei um beijo naquela bendita carta. De repente, lembrei que minha mãe falava em trinta libras todos os meses. Tinha de haver engano. Eu só dera ordem para mandarem vinte libras do meu ordenado, pois só ganhava trinta e cinco. A minha mãe dizia que eram trinta … Abri a carta novamente para ter a certeza que não me tinha enganado. Lá estava escarrapachado: trinta libras. Fez-se luz sobre o “esperto do meu cabeça” como dizem os nativos. As outras dez libras eram postas pelo tio Faria. Estava bem claro. Sorri. Se as coisas corressem como eu tinha imaginado, a primeira coisa que faria com

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joão sena a venda dos diamantes seria pagar-lhe tudo quanto me havia emprestado. O resto, o muito que lhe devia, só poderia ser com amizade e gratidão. A outra carta vinha de Luanda, do Gilberto Carapeto: contava que o nosso amigo Adelino Pires já estava a trabalhar no Lobito, numa das lojas do meu tio. Falava das aventuras de saias e depois vinha a grande novidade: Que o tio Faria fora a Luanda e o mandara chamar, pois queria almoçar com ele no hotel. No fim da conversa séria ficara seu empregado na agência de navegação. Agora ganhava mais quinhentos escudos e casa. Mais cinco libras de ordenado, era obra! Terminei as leituras, tomei banho e fiz a barba. Arranjado e limpo, tinha de me despachar. Abri a geleira a petróleo. Bebi uma soda para tirar o mau gosto na boca que me atormentava. Estava só fresca. A malvada geleira funcionava mal. Tinha de me organizar e adaptar de novo à civilização. Para já iria pedir, ao Arlindo que mandasse um telegrama a meu tio, dizendo que seguiriam pelo João Salema no “mala” duas peles de jacaré, ainda verdes. Tencionava meter-lhes no meio o lenço com os diamantes. Esta medida excepcional haveria de alertar o meu tio. Muito poucas vezes lhe tinha mandado telegramas pelas redes dos CFB. Não queria abusar, mas o assunto agora era importante. Depois tinha de tratar dos despachos das peles para o Lobito e verificar se também já tinham descarregado os carros. Teria de os devolver ao Floriano carregados de coisas que pedira. Ainda teria de ir cumprimentar o novo secretário ou administrador e comprar no Janela as hóstias de quinino e alguma comida. As grandes compras de roupa e comida seriam feitas no comboio pagador que já estava no Lumeje. Logo à chegada, soubera pelo Arlindo que o doutor Freire vinha desta vez no comboio pagador. Aproveitaria a visita do doutor para lhe solicitar me desse uma olhadela ao esqueleto … Também queria comprar presentes no vagão dos AV para o Natal que se aproximava e umas mantas bem garridas para oferecer à soba Nacarada. Um favor com outro favor se paga. Mas o que deveras me aporrinhava eram as malditas contas do Conapa que eu tinha de assinar. Eu sei lá se o alma-do-diabo tinha a trabalhar a quantidade de gente que arrolava? Os nomes eram quase todos iguais! Raios partissem os CFB mais esta treta do ter de assinar as malditas folhas.

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o caçador de brumas A descarregar os carros, estavam Tchingôma e os rastejadores. As peles secas, amarradas em fardos, teriam de ser melhor empacotadas, arranjadas e pesadas na balança da estação para seguirem para o Lobito. Arlindo sentou-se na mesa do telégrafo para mandar o meu telegrama. Por ser mais fácil enderecei-o ao Santiago. Seria transmitido para Vila Luso; depois esta estação se encarregaria de o enviar ao seu destino durante a noite. No outro dia seria entregue ao tio Faria. Quando o Arlindo estava a manejar o telégrafo ouvimos lá fora uma grande confusão. Nos primeiros momentos pensámos fosse alguma discussão mais acalorada entre os homens. Uma data de palavrões, ditos em bom português, fez-nos acudir. Não queria crer no que via. Como era possível? … O Conapa espancava com um chicote o meu amigo Tchingôma. Avancei sem hesitar e meti-me no meio deles. Ainda apanhei com a ponta do chicote no braço. Tchingôma caído no chão deitava sangue da face. Mas o que era aquilo? O que motivara todos aqueles destemperos? Eu nunca tinha batido nos meus pisteiros e muito menos em Tchingôma. Segurei com força o braço do Conapa. Veio-me ao nariz o cheiro do álcool que o ordinário deveria ter emborcado durante o dia. O bafo azedo que extravasava vinha-lhe da alma. Segurei-o bem e com a ajuda do Arlindo conseguimos imobilizá-lo. Deitava fogo pelas ventas. O seu ódio e destempero eram agora contra mim. Havia muitas contas a acertar em atraso – gritava. Os palavrões e as injúrias saltavam-lhe pelos olhos. Ameaçou que mataria aquela cambada a viverem à tripa forra à custa de um incompetente. Que eu, inspector da treta, deveria estar a cuidar dos meus deveres nos CFB, onde raras vezes aparecia. Que eu era um negreiro nojento. Que todos os brancos sabiam que eu vivia amigado com a negra. Que em vez de disciplinar aqueles gentios selvagens e dar-lhes educação, os deixava “à rédea solta”. Mas com ele não brincavam. Quando lhes dizia para tirarem dali as embalagens com as peles era para o fazerem imediatamente e sem discutir. Onde já se vira trabalhador responder a chefe? Ali, era ele quem mandava – dizia aos gritos o facínora. Olhou-me bem nos olhos medindo-me de alto a baixo. Mais uma vez me peitava o alma do diabo.

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joão sena Nem sei onde fui buscar forças para o berro que lhe dei. Agarrei-lhe pelas golas da camisa e à força de braços. Quando já estava em pé disse ao Arlindo: – Senhor chefe de estação: tome conta deste capataz. Amanhã, às sete horas, o senhor Francisco Ribeiro virá falar comigo para receber guia para Vila Luso. Está suspenso de funcionário dos CFB por insubordinação e agressão. Ao ouvir estas minhas palavras o homem pareceu atordoado. Num instante percebeu que eu estava a falar muito a sério. Apanhou o capacete do chão e para não perder a face, continuou dizendo palavrões em português e quimbundo, atirando com o capacete várias vezes ao chão. Depois, caminhou pelo atalho, capim adentro, em direcção ao povoado. Ainda levei uns minutos para me recompor, poder falar com o Tchingôma e ver os efeitos do chicote. Felizmente os estragos eram de pouca monta. Além da ferida ligeira na cara, a sangrar bastante, tinha mais uns vergões nas costas. Um outro rapazito também tinha sido atingido. Disse-lhes umas palavras, lamentando o ocorrido e afirmando-lhes que estava disposto a fazer justiça e a acabar com a permanência daquele bandido. Temendo pudessem vir mais tarde as represálias do Conapa sobre aquela gente, ordenei ao Tchingôma que voltasse imediatamente ao kimbo com os carros e os fizesse chegar ao meu amigo Floriano. Depois, deveriam regressar ao Luacano trazendo Monámi. Tinha saudades dela e ao mesmo tempo queria que visse o comboio pagador onde lhe queria comprar as nangas novas. Outras roupas teria de as encomendar à mulher do Bragado que era costureira e fazia vestidos. Nunca mais ela andaria mal vestida. Acompanhado pelo Arlindo dirigi-me depois à administração para saudar o novo administrador, o secretário Pinto Pereira. Encontrei-o a cuidar do jardim e a brincar com um lindo cão inglês. O sujeito, de meã estatura, tinha precocemente o cabelo todo branco. Como era costume entre os velhos administrativos, após as cinco da tarde, tomara banho e fardara-se de branco. Pareceu-me um inglês, como os que se viam no cinema. Não foram necessárias palavras. Afinal ele também era beirão: – a conversa foi como se já nos conhecêssemos de toda a vida. Entrámos no salão para beber whisky com soda. O criado Makuta, todo de branco e de luvas mas descalço, trouxe na bandeja de prata os copos, a garrafa e o sifão.

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o caçador de brumas Até neste pormenor ele me pareceu ser um administrativo à moda antiga, dos bons administrativos da mandioca. Não porque eu tivesse visto muitos, mas sempre ouvira dizer ao tio Faria e aos amigos que os administrativos viviam no mato como reis. Conversando, recordando e bebendo, por ali ficámos até à hora de jantar. Muito embora ainda não estivesse a esposa, o administrador Pinto Pereira – era assim que toda a gente o tratava – chamou o cozinheiro Balão, fardado com avental e barrete branco como os cozinheiros do Terminus no Lobito. Depois de algumas palavras sobre um outro trabalhador, o administrador deu ordens para o arroz de cabidela do nosso jantar. De forma alguma permitia que um inspector dos CFB, e para mais, patrício bem chegado – ele era do Fundão – saísse de sua casa sem jantar. Tocou a pequena campainha de prata e pelo sipaio mandou chamar o Gonçalves. Os quatro ceámos como os cardeais em Roma. Para ajudar à festa e rebater a arrozada, na varanda, ao fresco, pedi licença para mandar o Makuta buscar a grade de cervejas frescas que estavam mergulhadas no poço do Arlindo. Essas estavam frescas de certeza enquanto as minhas, embora na geleira, pareciam mijo quente … Foi o que se chama uma noite bem passada. Quando recolhi ao apartamento ia como um odre. Já nem me lembrava do Conapa!

Na manhã seguinte o comboio “mala” chegou pontualmente às sete e vinte da manhã. Eu aguardava o Conapa desde as seis e meia. Mandara passar-lhe uma guia de marcha – onde constava que seguiria uma participação – para se apresentar em Vila Luso. Eram sete quando o patife chegou. Sem tirar o capacete da cabeça e enfrentando o meu olhar, recebeu o papel sem dizer palavra. Arlindo passara-lhe a guia de serviço na segunda classe. Tão pouca importância ele dava à minha ordem que embarcou, limitando a bagagem à simples bolsa de riscado. Para todos ouvirem, disse bem alto que breve voltaria para capar o galaripo que deixara no galinheiro de sua casa. Fiz que não ouvi. Fui dar um abraço ao Salema e o “mala” seguiu viagem. Para não perder mais tempo sentei-me na secretária e comecei a participação que seria enviada ao engº Vieira, o director dos CFB de Vila

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joão sena Luso. Aproveitaria ainda para escrever ao tio, ao Gilberto e aos meus em Portugal informando-os que tudo estava bem; só para os sossegar No domingo, logo pela manhã, o Arlindo bateu à porta do meu apartamento. Tinha recebido um telegrama do Lobito que me era destinado. Era do tio Faria. Abri-o apressadamente e li: As peles e o resto chegaram em magníficas condições. O material é de primeira qualidade e até já há compradores. Pelo Salema segue carta. Abraço de parabéns pela muita sorte que Deus te deu. Doro. Ao terminar a curta leitura dei um grito e desatei aos pulos de alegria. Arlindo, aparvalhado, julgou que tinha sido desta que eu me passara definitivamente. Não tardaram quatro dias e Tchingôma chegou com Monámi. Penso que seria das primeiras vezes que a rapariga vinha ao Luacano. Olhava para tudo espantada e até de forma hostil. Todas as coisas e pessoas pareciam ser suas inimigas. Para mim olhava como que a suplicar protecção, tal qual um animal encurralado na jaula apertada. Em várias ocasiões perguntou-me quando é que voltávamos para o kimbo. Já falava e entendia algumas frases em português, nomeadamente os termos e as expressões mais comuns, além de saber rezar o pai-Nosso. Com o maior carinho e muita paciência tentei mostrar-lhe aquele mundo diferente, ao mesmo tempo que a ensinava a viver dentro do apartamento e a dormir na cama de um quarto mobilado, sem fogo a arder durante a noite. Mas não havia remédio. Nos primeiros dias encontrei-a muitas vezes debaixo das árvores, no quintal do apartamento, sentada de cócoras a rabiscar na terra com um pau. Outras vezes, estendia a esteira na cozinha e deitava-se. Quando lhe perguntava se estava triste, respondia-me sorrindo que estava sempre contente ao lado do seu homem. Fazia-me tanta pena! Cheguei a socorrer-me do Tchingôma, para que ele lhe fizesse a pergunta em luena e eu ter a certeza da verdadeira resposta. No dia seguinte, de manhã, levei-a à mulher do Bragado para lhe tirar as medidas e fazer-lhe um vestido de chita. Queria ver como ficava vestida à europeia. A dona Marquinhas disse-lhe, falando em luena, que para tirar as medidas do vestido era preciso tirar a nanga.

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o caçador de brumas A rapariguita olhou para mim a ver o que eu dizia. Não entendia nada do que se estava a passar. Acenei com a cabeça que sim. Imediatamente ela desamarrou a nanga, deixando-a cair aos pés. Ficou nuinha. Em pelo, só de cabeção! A dona Marquinhas ficou sem fala. Eu mandara e ela obedecera sem constrangimentos ou pudor. Não andavam as luenas nuas? A dona Marquinhas continuou a falar com ela em luena enquanto pegava na fita métrica. Fui beber cerveja com o Bragado que transpirava por todos os poros. Desde manhã cedo que andava numa fona, a pesar sacos de milho e a carregar fardos de toqueia seca para o coberto de cana que tinha nas traseiras da loja a servir de armazém. A primeira coisa que o homem me disse: – O senhor inspector sabe escolher. Tem ali uma preta… hum! hum!… um cavalo de cem moedas! Fiz um sorriso amarelo. Não fui capaz de lhe dar resposta. Quando regressámos ao meu apartamento – eu caminhando adiante e ela atrás – apercebi-me que tinha ali um grande problema. Não seria fácil viver com ela no meio dos brancos, nem conseguir que ela se adaptasse. Ela sabia falar mal, já escrevia umas palavras em português e sabia viver comigo lá no kimbo, mas não no apartamento para funcionários superiores dos CFB. Era de facto um grande problema que eu tinha arranjado. Só me faltava que o Vieirinha, quando viesse ao Luacano, dissesse que dentro da casa do caminho-de-ferro não podia viver com a preta. Falei com a mulher do Armindo a pedir auxílio. Ela poderia ensinar Monámi a cuidar do apartamento ou, se fosse mais fácil, encontrar criado para o efeito. Fáti foi muito simpática e meio engasgada respondeu: – Sim senhor inspector… sim… senhor inspector Tudo faria com a maior das boas vontades não fosse a minha filhita que ainda é pequenininha… depois tenho de arranjar o matabicho para o Arlindo pois, como o senhor inspector sabe, os comboios de mercadorias e o recoveiro passam de madrugada. Além disso não conheço praticamente ninguém no Luacano; o senhor inspector sabe… estou aqui há pouco tempo…

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joão sena Nem queria acreditar no que ouvia. A mulata negava-se a ajudar-me. Agradeci e disse para ela não se incomodar. Iria resolver o assunto por outras vias. Cheguei a casa bem chateado com tudo o que se tinha passado. Abri uma cerveja. Estava quente como se não estivesse na geleira. Para apanhar ar fresco assomei à porta de rede que dava para o quintal. Lá estava debaixo da mangueira, sobre a esteira a minha preta – “um cavalo de cem moedas” – mais triste do que a morte; de cócoras e com um pau, fazia riscos na terra. Sorri e chamei-a. Fechei a porta e as portas de pau das janelas que tapavam as redes mosquiteiras. Na penumbra da tarde desamarrei-lhe o nó da capulana. A minha deusa de ébano soltou o cabeção. Em cima da cama e num bom colchão de molas, primeiro devagar, depois na galopada de puro-sangue, corremos contra preconceitos, racismos e incompreensões. Na meta da corrida venceram, a par, os dois concorrentes: pude constatar como era um verdadeiro puro-sangue “o meu cavalo de cem moedas ”…

Logo no primeiro recoveiro fui ver as obras a ultimar no apeadeiro de Mutuècai. Gostava de ir na máquina, ao lado do fogueiro, um homem rude com a cara enfarruscada – que viera do Minho; e do maquinista – um ferroviário do Barreiro. Mas muito mais gostava de poder apitar e puxar o cordel que fazia apitar a máquina as vezes que me dava na gana. Com a cumplicidade e o sorriso compreensivo dos maquinistas, eu apitava por tudo e por nada: – era uma alegria! Acabavam de terminar o pequeno ramal que permitia o cruzar das composições. Verificámos os sinais luminosos das agulhas e tudo funcionava a primor. O talude, a banqueta onde assentava a linha, tivera de ser reforçado e os canais para a drenagem das águas da chana tinham de estar desimpedidos. A via percorria centenas e centenas de quilómetros na anhara em terrenos que ficavam ao nível das linhas de água. Bastava que o volume das águas crescesse um pouco para que ficassem alagados em várias dezenas de quilómetros, de cada lado da linha. Segui para a estação do Mucussueje, ao quilómetro 1279, onde fora implantada a estação. Passava lateralmente a estrada internacional para o

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o caçador de brumas Congo Belga. Aquilo a que chamavam estrada, – cheia de curvas e troncos na sua maior parte –, era uma picada arenosa onde raramente passava qualquer viatura. Nos terrenos que circundavam a estação havia muitas charcas de água com toqueias e missonge em farta quantidade. A poucas centenas de metros para leste, havia lenha em abundância na mata que entrava no território do Congo Belga. A pequena ponte de ferro permitia que a via pudesse atravessar o rio coalhado de peixes e cercado de mangueiras. A estação fora construída numa longa recta que curvava ligeiramente na direcção a Teixeira de Sousa. Enquanto contemplava a deslumbrante paisagem ocorreu-me que, de certeza, os jardins do paraíso deveriam ser assim: até pouco calor fazia devido à altitude. As obras eram da responsabilidade do encarregado Manuel Cachadinha – um tipo bem disposto – que gostava do que fazia e tratava bem os trabalhadores. O trabalho com ele rendia. O homem era simples e atilado. Conhecia muita gente em Angola, fora cantineiro e, durante anos, estivera estabelecido na Ganda. Não me contou os motivos por que tinha deixado o negócio, mas fiquei com a ideia que deveriam ter sido as libras, o ordenado certo e atempado que o fizeram mudar de vida. Até conhecia o tio Faria, do Balombo. Embora não o dizendo claramente, sabia também quem eu era. Por aquelas terras perdidas não havia segredos. Viera para aquele “partido” do fim de linha para poder ser capataz. Nada mais certo. Eu, que precisava substituir o Conapa, como capataz do “partido”, tinha o homem certo. Gostei de ver como tudo decorria em ordem, sem gritos nem maus modos. Os trabalhadores no canto ritmado, monótono e repetitivo, executavam as tarefas quase ao mesmo tempo. Às onze da manhã fizemos a pausa para almoço. Devido à minha nova vida não tinha levado farnel e disso só dera conta quando já ia no comboio – tarde de mais. Chamei o Cachadinha e disse-lhe que não tinha que comer. Sorriu e disse-me não haver problema, pois levara comida que daria para os dois; e, caso eu quisesse, poderíamos mandar um homem comprar galinhas à embala da rainha Tchizanda, a meia-hora de caminho. Seriam assadas de churrasco e deitadas abaixo com as cervejas que ele tinha posto a refrescar nas manilhas da água. Nem escutei direito o resto da descrição do banquete. Há muito tempo que ouvia falar da rainha dos Luenas e nunca a tinha visto. Seria desta?

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joão sena Cachadinha chamou um dos homens e deu-lhes uma moeda de cinco angolares com a recomendação que fosse depressa e escolhesse bem as “penosas” pois eram para o almoço do senhor inspector. O homem chamou um outro – penso que daquela mesma embala ou kimbo próximo – e lá foram a trote, como gostavam de caminhar. Sentamo-nos à sombra das mangueiras frondosas. Depressa nos trouxeram um balaio de fruta com abacaxis colhidos à beira do rio, bananas e mangas grandes e suculentas – tudo acabadinho de apanhar. Naquelas baixas arenosas os abacaxis, aos milhares, embora pequenos eram doces como o mel. O pessoal comia quantos queria. Os troncos que restavam depois de retirar o fruto, em seis meses voltariam a dar. Só a fartura da fruta alimentava aquela gente. Por minha parte, já ficaria almoçado. Entretanto o Cachadinha mandara pôr uma tábua, para servir de mesa, e abrira a taleiga. Tirou um pão, dos do Luau, um salpicão, um naco de queijo, uma lata com omeleta de batata, a malga com goiabada, a navalha, vários pratos de alumínio, dois copos de esmalte e um pano branco que servia de guardanapo. Enquanto fazia aquela exibição de fartura no deserto, dizia-me: – Senhor inspector bem o avisei que a “bucha” dava bem para nós dois. Mas, com uma galinha à cafreal, então eu lhe digo – com todo o respeito senhor inspector – que isto vai ser um banquete. Nem vamos ter saudades do Salema. Passou uma hora e não parámos de petiscar, beber cerveja e conversar. Mal demos conta já os homens regressavam. Para nossa surpresa vinham acompanhados por muita mais gente. Tinham ido dois e agora regressavam uma data deles cantando as intermináveis loas. Quase no final, debaixo de um guarda-chuva que só tapava o sol, caminhava uma rapariga. Quando se aproximaram, vi que um homem, um rapaz novo vestindo uma velha casaca muito acanhada – das que vêm na roupa dos fardos – e por baixo, com a exígua tanga, lhe segurava o chapéu-de-sol. A moça caminhava airosamente agitando na mão direita, como se fosse um leque, um rabo de zebra. Cada um dos nossos homens trazia duas galinhas. Um elemento da comitiva da rainha transportava às costas um cabrito que não parava de berrar. Os restantes carregavam à cabeça balaios com papaias, limões, abacaxis e mangas. Quando chegaram junto de nós puseram todas aquelas coisas no chão.

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o caçador de brumas A rapariga, sempre protegida pelo chapéu, ficou plantada à nossa frente. Tinha ar altivo e o corpo coberto de óleo que a fazia resplandecer. Era bonita, alta e elegante, cabelos amarrados com missangas e um par de mamas empinadas. Atava a nanga colorida das do Congo Belga por baixo do umbigo, deixando ver no baixo-ventre as tatuagens das Luenas. Não foi necessário alguém dizer-me quem era. Senti, tive quase a certeza que era ela a Tchizanda, a poderosa rainha dos Luenas, filha de Nacarada e de Nhacabola, neta de Muatiânvua – o grande e heróico rei dos Luenas em todas as terras de Angola e do Congo Belga. De tantas vezes ouvir já sabia de cor, aquela ladainha de títulos e descendências. Vinha ela para nos cumprimentar e fazer valer o seu poder e a sua soberania. Quando a olhei nos olhos não desviou o olhar e sorriu. Num segundo percebi que estava na presença de uma fêmea de excelência, uma daquelas a quem Deus deu todos os atributos. Era a negra mais linda que eu já tinha visto em toda a minha vida. Mirou-me de alto abaixo. Ao Cachadinha penso que nem o viu. Tinha vindo só para me ver e para que eu a visse. As notícias em África corriam de boca em boca e pelos vistos eu já era falado. Um intérprete adiantou-se para traduzir. Fez questão de me dizer que estava no seu território e as pequenas ofertas que os seus súbditos traziam eram votos de boas vindas ao reino dos Luenas. Com um timbre de voz agradável, falando baixo, disse-me que sabia perfeitamente que eu era “tchinhanga-muânèputo” e quanto eu tinha feito e honrado o seu povo. Ao contrário da maioria dos brancos eu tinha tratado bem todos os Luenas. Sabia que eu queria casar com a sua prima Monámi e já a viver comigo no Luacano. Eu era, portanto, bem-vindo. Deixou bem claro que, quando fosse necessário, teria muita honra em me receber com honra na sua embala. Lá seria tratado como um amigo, tal como fora recebido pela tia Nacarada, a soba do Lago. O poder de uma africana – que nem vinha nos compêndios de História, nem constava dos tratados – estava ali à minha frente com as suas raízes e as suas tradições bem marcadas. Como nunca estivera numa corte europeia, não sabia se era ou não parecido o ritual de vassalagem. Aqui, no meio do sertão onde se julgava não haver civilização, acontecia em todo o seu

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joão sena esplendor e força. Era diferente? Talvez. Mas que era imponente e majestoso, darei disso notícia enquanto for vivo. O Cachadinha estava mudo. Os trabalhadores ajoelhados deitavam terra nas costas e escutavam em silêncio. Foi o Cachadinha quem quebrou a cena e lhe ofereceu uma cerveja. Tchizanda pegou na garrafa e esperou uns instantes olhando-me. Percebi que ela queria um copo; uma rainha não bebia pela garrafa. Sem hesitar ofereci-lhe a minha caneca de esmalte. Então ela bebeu a cerveja devagar, mirando-me bem nos olhos. Um olhar de feitiço. Por instantes julguei ver o mesmo brilho, calor e pecado que um dia, pela primeira vez, vira nos olhos da mulher em Dakar. Com a ajuda do intérprete, falámos da importância que tinha o caminho-de-ferro e de tudo o que com ele se relacionava. Tchizanda esperava que a lenha e os frutos viessem a ser comprados pelos CFB a preço justo. Esperava que, desta vez, a chegada dos brancos e do comboio não trouxessem mais desgraça e com eles viesse a hora de terem algum proveito do trabalho e esforço feito pelos homens das suas terras que, durante anos e à força, haviam sido contratados na linha. A dada altura, sem mais, disse-me que era um homem bonito. Novamente fiquei sem jeito. Surpreendido, pedi ao intérprete que repetisse o que a rainha tinha dito. Era isso mesmo: ela sabia exactamente o que me queria dizer. Fez um discreto sinal com o rabo da zebra, e toda a sua comitiva se pôs em marcha. Depois de uns passos, olhou novamente para mim, sorriu e começou a caminhar pelo trilho. Vi-a perder-se entre o capim alto. Uma aragem fresca corria no planalto e as palmeiras limpavam o ar. Eu e o Cachadinha estávamos aparvalhados. Nunca na minha vida e na curta permanência em África fora tão controlado e tão dominado por uma negra. Regressámos ao Luacano no último comboio de mercadorias que, para o porto do Lobito, levava vagões carregados com o cobre das minas de Koloezi no Congo Belga, para depois ser embarcado para o Reino Unido, não obstante as tentativas dos alemães para, à viva força, o comprarem todo. Pressentiam-se tempos de guerra.

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o caçador de brumas Durante o regresso ao Luacano, disse ao Cachadinha que seria o novo capataz, para substituir o Conapa naquele partido. Ele somente disse: – Bem-haja, senhor inspector. O homem era de poucas palavras. No Luacano estava-me reservada outra surpresa. O Arlindo, à minha espera e, de supetão disse que já tinha arranjado criado: um homem muito sabedor que, em Luanda, fora durante anos cozinheiro do comandante da Polícia; sabia cozinhar e fazer todo o trabalho de casa. Era o Vintém. Menos-mal. Menos dava uma fraga!

Ainda vinha longe quando se começaram a ouvir os primeiros apitos do comboio pagador. Toda a gente do Luacano e arredores se tinha concentrado na estação. Eram milhares. Tinham vindo os empregados dos CFB, as famílias, parentes e conhecidos. Compareciam todos na festa, mesmo os curiosos que nada tinham a comprar. Juntavam-se em grupos, celebrando reencontros, uns que não se viam há muito e outros que frequentemente se encontravam nas tarefas diárias. Mas, como bons Luenas, conversavam, contavam histórias, fumavam e bebiam bitaba vinda em grandes cabaças. O alarido aumentou quando avistaram a máquina. Era sempre assim. As palmas e os gritos tornaram-se ensurdecedores. Finalmente, o comboio estacionou na via paralela. Os factores de serviço puseram as escadas que dariam acesso ao vagão dos AV e à carruagem da pagadoria, como um escritório. A carruagem enfermaria – com gabinete médico, sala de tratamentos e quatro camas para doentes – trazia o médico e os demais auxiliares de enfermagem. As autoridades da terra – o administrador Pinto Pereira e o Alfredo Gonçalves – aproximaram-se ladeadas por mim e pelo Arlindo. Grandes abraços já que todos eram amigos ou mesmo que o não fossem passavam a ser. Eu tive a grata surpresa de abraçar o doutor Freire que raramente fazia as viagens por ser o director dos Serviços de Saúde. O doutor, todo de branco, inclusive os sapatos e o capacete colonial, trazia-me saudades de todos os amigos do Lobito e um grande cabaz com prendas e mimos enviados pela esposa, a dona Ângela e pelas minhas primas, Lena e Cila. Olhou para mim, fixamente, e disse-me, sem tirar o

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joão sena cachimbo dos dentes, que estava com má cara e que, ao fim da tarde e sem falta, me queria lá para me poder observar com calma. Fiquei verdadeiramente surpreendido quando, já minutos depois, vi sair da carruagem-salão onde se viajava, comia e dormia, nem mais nem menos que o senhor Arroteia, aquele que um dia me dissera quanto iria ganhar nos CFB. Parecia um explorador africano! Nunca tirava o capacete colonial da cabeça. Trajava um safari de caqui, novinho em folha, e no fim do ano, vinha fazer a viagem do comboio pagador para inspeccionar as contas e os gastos. Ali mesmo foi acertado o programa das festas. Iríamos todos jantar a casa do administrador Pinto Pereira e no dia seguinte almoçaríamos no salão do comboio convidados pelo doutor Freire. Eu fiquei um pouco nenho63. Como não tinha casa não os poderia convidar. Era gente que não se podia levar à tasca do Xavier ou do Janela. Terminados os cumprimentos, já os sipaios organizavam as filas para o pessoal se poder abastecer no vagão dos AV. Primeiro os ferroviários da estação e depois os trabalhadores eventuais. Eu encarregara o Arlindo de me comprar quatro pares de óculos de sol, dos mais baratos, umas mantas garridas, nangas bem coloridas e vários sacos de sal. Tudo para oferecer. Precisava também de algumas peças de roupa interior e artigos de higiene. À dona Marquinhas do Bragado pedira também o favor de me comprar uns cortes de algodão ou de chita para fazer vestidos para Monámi. Tinha sido uma boa ideia já que a senhora não desaproveitaria a oportunidade de comprar no AV mais uns quantos cortes para as suas costuras. Ao regressar aos edifícios da estação não pude deixar de sorrir. Vi o Vintém de mão dada com Monámi. Vinham radiantes. A moça, de capulana vermelha e descalça, sorria alegre por ter visto aquele lindo comboio. Batia, de contente, muitas palmas. Tinha urgência em preparar as folhas de salário para as dar ao Arroteia. O Conapa não mas tinha entregue. Ao mesmo tempo, na expectativa do João Salema me trazer a carta do tio Faria com as tão desejadas novidades, estava muito ansioso pela chegada do mala. Tinha muito que fazer. Queria escrever uma carta bem escrita a frei Serapião, pedindo-lhe que autori63

Termo regional ficar sem jeito.

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o caçador de brumas zasse o João Monforte a vir trabalhar comigo. Seria o passo importante para começar a organizar seriamente o negócio da carne e das peles. Uma outra carta seria para o meu sócio Floriano; tinha de lhe dar uma data de novidades. Entre elas a mais importante seria a transferência da administração do Lago para o Luacano. Depois, queria contar-lhe do paraíso que encontrara nas terras do Mucussueje e dizer-lhe que, se ele estivesse de acordo, era hora de se mudar para a nova povoação junto à linha. Aí, juntos iniciaríamos a grande “lavra”. Com a quantidade de água, a qualidade da terra e a vasta mata circundante, poderíamos fazer em pouco tempo uma bela fazenda. Poderíamos criar gado leiteiro e de abate, e com o fim de abastecermos toda a linha incluindo o “mala” fazermos hortas de legumes frescos. Estava ciente que o João Salema seria um dos nossos melhores clientes. Também poderíamos vender para abastecer as locomotivas quantos esteres de lenha conseguíssemos. Instalaríamos uma serração para corte de madeiras raras como o pau-santo, o pau-ferro e até girassonde, a melhor madeira de África. Seria dinheiro em caixa. Tencionava ir falar o mais breve possível com o aspirante Gonçalves ou com o administrador Pinto Pereira para ver se conseguia demarcar lá, uns cinco mil hectares de terras que dariam para tudo. Para tal bastava fazer o requerimento aos Cadastrais de Luanda, juntar-lhe um mapa à escala e obter o acordo da rainha Tchizanda que, estava convencido, facilmente o daria a troco de umas cabeças de gado como indemnização. Cada vez que me lembrava da Tchizanda, havia alguma coisa que me incomodava. A imagem dela atormentava-me. O brilho dos seus olhos era o das serpentes. A malvada da mulher enfeitiçara-me. Nada que se parecesse com o que tinha sentido com Monámi. Com esta, fora a juventude e a novidade que puxara por mim; depois, fora o quer honrar a palavra ou desejar sentir a satisfação do oleiro quando forma o barro. Às cinco da tarde chegou o “mala” e o forte abraço ao senhor inspector Miguel, meu amigo. Disse-me logo que o meu aspecto não era o melhor: deveria estar mesmo doente. E acrescentou: – Veja lá se aproveita o estar cá o doutor Freire. Olhe que homem e médico mais competente que ele não há. Receita-lhe umas hóstias e o tal

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joão sena ceregumil64 para ver se arriba, compadre, desculpe … senhor inspector. As palavras eram curtas e o tempo escasso. O comboio seguiria dentro de momentos até ao Congo Belga. Não se podia perder tempo. O meu amigo João Salema deu-me então a carta do tio e pediu desculpa por nem sequer podermos beber um copo. O comboio partiu para Teixeira de Sousa. Sentei-me à secretária para ler a carta. Ainda bem que assim foi, pois de contrário teria caído de cu. A carta começava por me explicar que “o feijão branco” era de real categoria. Tinha mostrado duas ou três pedras ao amigo Amzalak que ficara de olhos tortos. Umas, bem mais pequenitas, também haviam sido vistas por um alemão seu conhecido, com quem se podia conversar e que ficara de boca aberta. Este muito teimara que lhe aceitasse um cheque em branco, que lhe botasse preço etc., mas recusara. Havia quatro ou cinco pedras muito raras pela sua transparência e de altíssima qualidade. Estavam já lapidadas pela própria natureza e bastava apenas virem a ser polidas para acentuar as zonas facetadas. Seguidamente a frase que me fez bater o coração aceleradamente: Acredita, Miguel, que valem uma fortuna; muitos milhares de libras. Fiquei sem respiração. Depois dava notícias sobre as peles, dizendo que também eram um negócio redondo. Quantas lhe enviássemos, quantas ele venderia aos alemães. A situação de açambarcamento por parte deles ainda era maior que antes da Grande Guerra. Compravam tudo sem discutir preço. A carne seca deveria passar a mandá-la directamente para uma companhia em Leopoldeville, de uns portugueses seus amigos – os Nogueiras – de quem dava a direcção. Que não me preocupasse com o resto, pois eles pagavam no Lobito. Poderia mandá-la em qualquer comboio. Não me consegui conter e dei um grito de alegria. Estava rico. A hora de abandonar os CFB estava cada vez mais próxima. Tinha garantido o futuro do negócio e o emprego para o João e para o meu Tchingôma, caso ele quisesse mudar-se para o Luacano. Comprava-se uma ginga e ele compraria a carne seca e as peles pelos kimbos das redondezas. Mas o reverso da medalha vinha a seguir. 64

Tónico muito afamado.

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o caçador de brumas Em frases curtas e cortantes, como quando falava sério e estava enfadado, contava que lhe tinham chegado aos ouvidos umas histórias do arco-da-velha. Em todas eu era tido como um parvalhão, a viver cafrializado e a querer casar com uma negra matumba. Ele, meu tio, negara-se a acreditar em semelhante estupidez. Em África toda a gente entendia e fechava os olhos a que um branco, nas minhas condições e da minha idade, tivesse uma ou uma centena de negras, mulatas ou cabritas. Dar origem a chacota, principalmente tendo uma profissão como a que eu tinha, era de uma ignorância tamanha. Até nisso, porque me encontrava na região onde se estava a tentar implantar a civilização, eu deveria servir de exemplo e não de risota ou caçoada. Portanto: que me deixasse de ideias de jumento – assim mesmo estava escrito – terminasse imediatamente com as caçadas e me dedicasse por inteiro à minha profissão nos CFB. Tinha bem muito com que me entreter. Os negócios e as caçadas viriam a seguir. Tudo isto me estava dizendo para meu bem e do meu futuro. Não devia ter qualquer dúvida que me falava como se fosse meu pai e, como tal, ordenava. Um murro no estômago não me teria doído tanto. O Arlindo, quando me viu sair da estação para tomar ar, perguntou-me se me estava a sentir mal, tal deveria ser a minha cara. Sosseguei-o e pedi-lhe para obter a ajuda do Cachadinha para fazerem, sem falta, as folhas dos salários que teriam de ser entregues ao Arroteia. Era um assunto muito urgente para que os pagamentos aos trabalhadores se fizessem. Eu tinha a certeza que o Conapa andara a empolar o número de assalariados para depois ficar com o dinheiro. Estava muito zonzo, como dizem que ficam os lutadores de box. Necessitava com urgência de me deitar por um bocado. Tinha a cabeça à roda. As emoções e os sentimentos contraditórios eram demais para a minha capacidade. Abri a porta do apartamento e…oh! … parecia outro! Tudo arrumado, limpo e as jarras do salão com flores. O trabalho cuidado do Vintém era evidente. As minhas roupas estavam arrumadas no armário e as janelas abertas de para em par deixavam entrar o fresco da tarde que se aproximava. Antes de me ir encostar na cama fui procurar Monámi. Lá estava ela de capulana em grandes conversas com o Vintém, ambos descalços sentados

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joão sena de cócoras debaixo da mangueira. Por mais que lhe dissesse que a queria ver vestida com o vestido novo e calçada com as sapatilhas brancas, era tempo perdido. Ali estavam debaixo da árvore a passarem o tempo. Pareciam avô e neta. Eu não estava para conversas. Sentia arrepios de frio e transpirava ao mesmo tempo. Na sanita urinei sangue ou um liquido muito acastanhado. Não era a primeira vez que isto me acontecia. No espelho da casa de banho reparei que tinha os olhos amarelados. Devia estar mesmo doente. Vestido, deitei-me em cima da cama. Senti a cabeça andar à roda. Descansaria um bocado e antes do pôr-do-sol, sem falta, teria de consultar o doutor Freire.

O exame foi demorado. Mandou-me tirar a camisa e as calças; fiquei em cuecas. Mediu-me a febre, viu-me os olhos, deitei a língua de fora, auscultou-me durante vários minutos à frente e atrás. Deitei-me na marquesa e apalpou-me a barriga várias vezes, carregando mais ou menos nos sítios que entendia. Do lado direito apalpou mais detalhadamente. Observou-me as pernas, já que em certas ocasiões sentia a perna esquerda um pouco mais inchada. Tudo isto sem dizer palavra. Tomou notas num papel quando se sentou à secretária, olhou fixamente para mim e disse-me, tratando-me por tu, que eu estava mesmo doente. Com as minhas andanças pelos matos e kimbos devia ter apanhado uma bactéria que se alojara na bexiga. Devia ter a malvada bilariosa e até paludismo agudo. Já ouvira eu falar na triste doença de África, que matava? Estranhamente, fiquei calmo e sem reacção. O doutor, com aquela voz serena, perguntou-me se tomava regularmente o quinino e se já alguma vez tomara chá de brututo. Eu sabia perfeitamente que, ou por desleixo, ou por se terem acabado as hóstias, o não tomara. Quanto ao tal chá tomara-o algumas vezes como refresco; pensara que fosse só crendice das gentes do mato. Levantou-se e de um armário de vidro tirou vários frascos brancos cheios de comprimidos de atebrina. Chamou o enfermeiro Rufino. Disse-lhe para arranjar uns frascos mais pequenos, pois queria dar-me uma data de comprimidos. Mandou ainda que me fosse dada uma injecção de vitamina C misturada com óleo canforado. Encarando-me disse, muito sério:

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o caçador de brumas – Miguel, estás também com paludismo agudo. Tens de ser tratado num hospital porque estás muito doente, mesmo muito doente. Se queres, vais já para o Lobito ou pelo menos para a enfermaria de Vila Luso. Tens de ser tratado a sério. Bebe muita água sempre fervida e muito chá de brututo. Devias fazer dois clisteres por dia para ver se esse teu fígado alivia. Vou mandar-te umas caixas de champanhe para beberes todos os dias, várias vezes ao dia, pois tens de urinar muito. Tomas já estes comprimidos para ver se conseguimos evitar a fatal perniciosa. Como és novo e forte ainda talvez te safes. Mas tens de fazer dieta e deixar de andar por esse mato adentro. Já fora do vagão enfermaria, voltou a ser só o amigo; o médico ficara lá dentro. Tomou-me o braço e no seu jeito calmo fomos conversando até à casa do administrador Pinto Pereira. Perguntou-me sobre a minha vida, ouvindo em silêncio toda a minha narrativa, sem omissões ou mentiras. Achei que lhe devia contar tudo, incluindo o teor da carta que acabara de receber do tio Faria. Ouviu, ouviu e o único comentário que fez foi que as coisas têm que ser analisadas no local e no tempo em que acontecem. Eu era novo, tinha pouca experiência da vida e naqueles quintos dos infernos era natural que procurasse apoio, sexo e carinho. Ele tentaria deitar água benta junto da família no Lobito, junto do governador e do engº Vieira, em Vila Luso. Talvez por falta de assunto e muita inveja as pessoas tinham feito da minha história um conto … ou uma anedota. Tudo passaria breve e as águas rapidamente voltariam aos rios. Era importante ter em consideração que, por não termos em conta as grandes diferenças culturais, podemos ferir as pessoas sem que nos apercebamos. A mensagem fora clara e precisa. Parecia há muito estudada. Assim que entrámos na futura larga avenida que atravessaria a povoação vimos, iluminada, a varanda da residência do administrador. Na escuridão da noite, destacavam-se, ao longe, pequenas luzes que aumentavam e diminuíam de intensidade. O roncar sereno e persistente do gerador quebrava a serenidade da noite quente. Logo que nos aproximámos compreendi: eram pequenos pratos de barro espalhados pela varanda com um pequeno pavio a arder. O senhor doutor confirmou: eram pratos de barro com estearina líquida que davam aquele belo efeito.

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joão sena O administrador Pinto Pereira era um senhor a receber. Por mais isolada ou afastada que fosse a sua administração, recebia sempre os amigos de maneira fidalga e chique. Assim foi uma vez mais. O senhor administrador vestido de branco, mas sem o uniforme, aguardava-nos na varanda. O criado Makuta, impecável no uniforme engomado e de luvas brancas, esperava-nos com uma bandeja repleta de taças de cristal para o champanhe Kruger Heidsick e outro de marca Clicquot. Já tinham chegado também: o Arroteia, de fato de safari; o Alfredo Gonçalves, de branco; a dona Marquinhas, toda janota num lindo vestido de renda branca, mais o marido – o ilustre comerciante Manuel Bragado que envergava um impecável fato branco de brim; o Arlindo, de fato de linho, – o do casamento – acompanhado pela bela esposa Fáti, mais loira que nunca e com um vestido de tafetá cor de champanhe, que o marido comprara numa loja do Dilolo. O meu espanto foi maior quando vi que também tinha sido convidado o chefe Montenegro e a gorda e inefável esposa. A madame fumava por uma larga boquilha, como a dona do bordel de Dakar. Ambos me cumprimentaram cerimoniosamente, mas de relance. Estavam muito mais interessados em fazer conversa com o senhor administrador. O mais pelintra era eu. Antes de ir ao médico tinha vestido uma camisa branca lavada. Bebi o champanhe só por ser remédio. Estava abalado por dentro e por fora. Nem cheguei a provar dos muitos pratos com camarões, gambas e lagostas que estavam espalhados nas mesas da varanda. Reuni todas as forças. Embora com sacrifício, e só para fazer conversa, contei quanto me tinha impressionado D. Serapião. A surpresa foi maior quando verifiquei que todos conheciam e admiravam o grande missionário, mas mais por ele ser o D. Serapião pichalhão. O apêndice físico sobrepunha-se nas conversas brejeiras à sua estatura moral. O doutor Freire, talvez para cortar as chalaças, contou outras histórias interessantes sobre o santo homem e prometeu que na volta de Vila Teixeira de Sousa me confiaria um caixote com medicamentos para lhe entregar.

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o caçador de brumas O jantar com todas as forças vivas do Luacano principiou com uma canja de galinha velha. Depois foi servida a mayonnaise de lagosta recém chegada do Lobito no “mala”, trazida pelo Salema, expressamente para aquele jantar. Olhei para o doutor e vi que ele me fazia sinal para não comer. Outro tanto aconteceu com o lombo de vaca com mostarda, o peru recheado e o cabrito assado no forno. Tinham muita gordura. O criado servira vinho branco Mosel e um outro ainda melhor Rhein. Com as carnes bebeu-se vinho tinto francês de Bordéus e o afamado Chateaux Lafitte que fora comprado ou, se calhar, oferecido. O senhor administrador disse qualquer coisa ao Makuta. Passados minutos era-me servida a carne da galinha cozida. Comia-a por cerimónia, não tinha qualquer apetite e senti que a febre e o mal-estar se agravavam. Não queria que a indisposição provocada pela minha doença pudesse afectar tão agradável reunião. Pedi desculpa com o apoio do doutor, e fui-me deitar. Sentia-me bastante mal. Tinha febre, cólicas abdominais, sensação de peso na barriga e muita sede. Levei mais de um quarto de hora para percorrer aqueles duzentos metros. Na sala da minha casa tinha o petromax aceso. Só havia electricidade quando havia tráfego na estação. Sentei-me numa das cadeiras a pensar na minha vida. Depois de largos minutos abri a geleira para beber um copo de brututo, estava morno. O falinhas-mansas do Arlindo não conseguira pôr aquela porcaria a fazer frio. Ainda mais chateado fui-me deitar. No soalho, ao lado da cama tombada na esteira e embrulhada na manta, dormia Monámi. Não valia a pena acordá-la. Ela era mesmo assim. A sua maneira de ser livre fazia de mim livre também.

Dormi pouco e mal. Tive dores do lado esquerdo da barriga e diarreia toda a noite. Devia ser o tal pâncreas inchado. Também senti ter febre. Tinha de comprar um termómetro no Dilolo. Acordei cedo. Monámi já tinha tomado banho. Estava no quintal com a torneira do jardim aberta a lavar os dentes com um pau. Vintém tinha posto a mesa para o meu matabicho e regressava com o cesto de papaias

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joão sena acabadas de colher. O café com leite e uns biscoitos que ele tinha feito souberam-me bem. Comi e desandei para a estação sem mais conversas. Vi o Cachadinha preparar a “moto-fuba” com uma brigada de trabalhadores iam reparar e desentupir os alvanéis tapados pelo enxurro das águas. Aproveitei para fazer o controlo da hora da chegada e da partida dos recoveiros, assinando as respectivas folhas de movimento. Verifiquei que o movimento junto do comboio pagador ainda era muito. Arlindo, logo de manhã, tinha entregue as folhas dos salários para serem pagos pelo senhor Arroteia. A meio da manhã tive fome, mas não quis ir a casa comer. Não estava com paciência para aturar Monámi e as saudades do kimbo. Estava por demais curioso para saber como tinha acabado a festa em casa do senhor administrador. Ninguém melhor que a dona Marquinhas para me contar as novidades. Assim foi. Pela Marquinhas soube tudo ao pormenor. Começou por me dizer que o casal Montenegro já tinha regressado ao Lago e acrescentou: – Ao jantar, a “madama” bebeu uns copos a mais! Muitos … e deu o que se chama uma grande “barraca” quando o marido lhe chamou a atenção. A dona, na frente de todo o mundo, desancou-o. Chamou-lhe “picha-fria” e acusou-o de só prestar para enrolar negrinhas. Depois implicara com ela, a legítima esposa do senhor Manuel Bragado, dizendo que não passava de uma triste costureira, uma saloia, uma patega, que nem sabia pegar no talher e comer numa mesa fina. Fora um escândalo. Barradas, homem bom e simples, ameaçou que lhe metia a mão nas ventas gordas se o escanzelado marido a não mandasse calar. Teve de intervir o senhor administrador dizendo que aquilo era uma vergonha e uma falta de consideração das forças vivas do Luacano para com tão ilustres convidados. O doutor Freire aproveitou a confusão e saiu de fininho. O Arroteia, que se deixara dormir numa das cadeiras, acordou estremunhado ante o alarido feito. Sem mais palavra raspou-se para o salão do comboio a fim de continuar a dormir. O Montenegro, reunindo todas as suas limitadas forças e ante o seu novo administrador, ameaçou a despudorada que lhe dava com a cadeira

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o caçador de brumas nos cornos, obrigando a elefante a recolher-se nos aposentos dos convidados. Os Bragados, depois das muitas desculpas apresentadas pelo senhor administrador, agradeceram muito a gentileza do convite e rasparam-se a correr. O Gonçalves teve de aguentar a bronca até ao fim e, além de ter retirado o exaltado casal, ainda teve de ajudar a deitar abaixo uma garrafa de whisky e aturar o administrador até ao romper da alva. – O senhor inspector não pode calcular o que foi o escândalo com aquela “tripufu” a dizer asneiras ou coisas parecidas numa língua arrevesada que ninguém entendia – comentava dona Marquinhas de mão na anca. Desabafadas as ofensas e recontadas as novidades, dona Marquinhas visivelmente mais calma arranjou-me um café com leite. O marido continuava desde manhã muito cedo no quintal do comércio a pesar os balaios de toqueia que os negros em fila, desde a madrugada, lhe vendiam. A manhã estava quente e ameaçava trovoada. O cheiro do peixe seco espalhava-se por toda a parte. Inesperadamente, dona Marquinhas perguntou-me quando é que Monámi tinha a criança. – Mas que criança? – Então o senhor inspector. o pai da criança, ainda não sabe? De tal maneira fora apanhado de surpresa que me limitei a dizer que não, acenando com a cabeça. – A rapariga está prenha. Ela dera logo conta quando lhe tirou as medidas. – Como é que o senhor inspector não sabe? O senhor é o pai … Eu não sabia mesmo. Ela nunca mo havia dito. A minha cara devia espelhar o meu espanto. – Mas senhor inspector, parece – segundo o que ela me disse – que o assunto já está tratado. O garoto, depois de nascer, vai ser criado pela prima, a rainha Tchizanda. Foi o pai dela, o Tchingôma, quem decidiu. Não havia dúvidas. Os últimos tempos não me eram nada favoráveis. Como nas histórias dos “cabrões” eu era o último a saber.

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joão sena Acabei o café, o mais naturalmente que me fui possível, despedi-me e fui para casa. Queria ouvir da sua própria boca o que a Monámi tinha para me dizer. Como costume, estava debaixo da mangueira: descalça e de cócoras. Olhou para mim com aqueles olhos limpos de pecado e sorriu, como na primeira noite em que me fora oferecida pelo pai. Reuni toda a minha calma e o mais naturalmente que me foi possível perguntei-lhe se estava à espera de filho – Ai ó – respondeu sorrindo. A minha contida raiva desfez-se em calma. Acariciando-a levei-a para dentro de casa. Tinha de tratar e mimar melhor a mãe do meu filho – “o meu cavalo de cem moedas”.

Antes de o comboio partir para Vila Teixeira de Sousa o Arroteia veio falar-me no caso muito estranho que estava a acontecer. Não havia ninguém para receber e as folhas ainda apresentavam muitos mais trabalhadores com direito a salário. Talvez uns trinta! Era de facto uma situação rara e insólita. Não aparecera mais ninguém para reclamar os pagamentos. Podia tratar-se de um qualquer equívoco do Cachadinha e do Arlindo que tinham feito as folhas do mês. Chamei o Arlindo, já que o Cachadinha saíra logo ao nascer do sol para a linha com a sua turma de trabalhadores. Que não, que não podia haver engano. Ele mais não fizera que copiar as folhas deixadas alinhavadas pelo Conapa e eram rigorosamente iguais às dos últimos meses. – Se o senhor inspector tem alguma dúvida, eu vou já buscar as outras folhas para lhe mostrar. Disse e desandou em seguida. Olhei para o Arroteia. Se alguma coisa pude descortinar na sua cara de ressaca, foi um vago sorriso. Mais uma vez a minha ignorância e desconhecimento do que se passava na linha ficavam por demais evidentes. De qualquer forma e como era amigo, ele – Arroteia – iria estudar e comparar com as outras folhas de salários. Na volta do pagador quando regressassem de Teixeira de Sousa haveria de encontrar o “gato”.

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o caçador de brumas Aquilo era obra do Conapa. Já há muito que deveria estar a meter nas folhas dos salários nomes que inventava para depois ficar com a massa dos imaginários trabalhadores. Quando tudo fosse tirado a limpo seria mais um argumento para eu o correr dali para sempre. Nas despedidas do comboio-pagador estiveram toda a gente das forças vivas. Muitos abraços, muitas saudades, votos de boa viagem, cumprimentos e abraços para fulano e sicrano. O comboio, já na via principal, apitou, voltou a apitar. Primeiro com grandes folgos, a arfar, depois já com a respiração acelerada, atacou a via rumo ao Mutuècai, Mucussueje, Cafungo, Camuchito e – pouca-terrapouca-terra-pouca-terra – até à fronteira no Luau. Aí terminariam mil e trezentos e trinta e dois quilómetros da jornada.

Pela tarde chegou a comitiva com os meus amigos: Floriano e o Tchingôma vestido com roupa que eu lhe dera e o chapéu roto das tropas coloniais; o professor Sitóie, de óculos escuros capacete colonial, – roto de tanto uso e tantos donos – a pedalar na sua garbosa ginga. Com eles vinha também o meu amigo João Monforte, todo bem posto, descalço e com uma saca de roupa na mão onde vinham os sapatos. Mais atrás caminhava o tchimbanda Kalupteca ornamentado com os atuendos inerentes à sua diferenciada profissão. Logo que se aproximaram inclinaram-se repetidas vezes e disseram em coro: – Moio ióbe … Moio ióbe. Traziam dois carros carregados com peles de lontra, de vaca, de caça variada e alguns balaios cheios de carne fumada. Pela alegria e pelo brilho dos olhos deveriam ter vindo todo o caminho a beber bitaca ou o uálua – o vinho dos cereais e a fumarem a erva que reduzia o cansaço. Depois dos cumprimentos dei tempo a que arrumasse a ginga à sombra e chamei de parte o Sitóie. Perguntei-lhe se ele sabia que Monámi estava prenha. A resposta não podia ter sido mais concludente. Todas as gentes no kimbo não só sabiam, como estavam muito contentes. Até já tinham feito numa das últimas noites um grande batuque para agradecerem a Kalunga a graça recebida. Os

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joão sena tchingufos e as gomas já tinham espalhado a grande nova por toda a anhara. Tchingôma era um homem feliz pois iria ser avô – um homem velho! Não valia a pena complicar o que era simples, ainda que isso para mim fosse bastante complicado. Começara a entender o que para eles era evidente. Nascer um luena fora sempre uma oferta e uma graça dos deuses, a grande dádiva de Kalunga, o deus maior, e nunca motivo para qualquer maka. Perguntei a Tchingôma o que é que o feiticeiro Kalupteca tinha vindo fazer ao Luacano. Resposta simples e directa: – Vem curar patrão e afastar feitiço. Estavam todos muito preocupados com a minha saúde. Disse mesmo ter Kalupteca feito já umas mohambas durante a última lua cheia. Fazia questão, para me curar, de trazer remédio muito especial e raro, feito de muri, de umas outras folhas e raízes, que procurara durante a semana nos muchitos da anhara e depois moera bem no seu pequeno pilão. Ora diga lá quem quer que um dia leia estas minhas desoladas mas sinceras linhas, como é que um cristão se pode enfadar com tal gente? Com gente que nos quer bem do coração, mesmo que seja gente rude e menos preparada, é impossível ficarmos insensíveis? Chamei pelo Makuta e mandei-o buscar um garrafão de 25 litros de vinho OR à tasca do Xavier. Vendo bem, festa é festa e mais grossos do que estavam não poderiam ficar. Debaixo da mangueira eles continuariam a celebrar as boas notícias. Como tinha de os instalar por uns tempos, fui à povoação falar com o Janela. Ele construíra uma grande cubata para armazém. Poderia instalá-los lá a todos, enquanto permanecessem no Luacano. Seria situação transitória, pois queria mandar construir uma casa de pau a pique que desse para eu lá viver e montar uma loja com armazéns para os produtos que queria comercializar. Mais tarde mandaria fazer uma casa de adobes ou até de tijolos. Mas o meu grande sonho era que isso viesse a acontecer no Mucussueje. Essa era a terra dos meus sonhos. O meu paraíso na terra.

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O Caçador de Brumas | Parte 1-2  

Mais inesperado ainda, é absolutamente imperioso ler este romance apaixonante, escrito por um veterano da guerra colonial (1961-1974), que m...

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