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Contos e Lendas da Minha Inf창ncia

Ala Maria de Lurdes


CONTOS

E LENDAS DA MINHA

INFÂNCIA


MARIA DE LURDES DIONÍSIO ALA

CONTOS

E LENDAS DA MINHA

INFÂNCIA


FICHA TÉCNICA Edição: Maria de Lurdes Dionísio Ala Título: Contos e Lendas da minha Infância Autora: Maria de Lurdes Dionísio Ala Revisão editorial, Capa, Paginação: Paulo Silva Resende 1.ª EDIÇÃO LISBOA, Dezembro 2011 Impressão e Acabamento: Publidisa ISBN: 978-989-20-2698-5 Depósito Legal: 334966/11 © MARIA DE LURDES DIONÍSIO ALA Publicação e Comercialização Sítio do Livro, Lda. Lg. Machado de Assis, lote 2, porta C — 1700-116 Lisboa www.sitiodolivro.pt


MARIA DE LURDES DIONÍSIO ALA nasceu na aldeia de Vilas Boas, concelho de Vila Flor. De origem humilde, com cinco irmãos, perdeu o pai aos dois anos de idade, ficando a mãe grávida de três meses. Conheceu, por isso, uma infância difícil numa época de penosa subsistência. Estudou até à antiga 4.ª classe, e, já adulta fez o 9.º ano no programa das “Novas Oportunidades”. Desde muito nova, trabalha com crianças num jardim de infância, onde é Assistente Operacional. Em criança conviveu muito com uma tia, pessoa instruída, que a pegava ao colo e a acarinhava ao som de velhas cantigas e histórias. Teve a capacidade de fixá-las quase todas. Hoje, sempre que é preciso, no seu local de trabalho conta as que pode às crianças para as entreter e educar. Em 2010 foi convidada pelo Professor Alexandre Parafita para contar algumas das histórias que sabe e que se encontram


no livro “Património Imaterial do Douro”, Narrações orais, Contos, Lendas, Mitos, vol. 2, de 2010, tendo-lhe sido atribuído o titulo de Narradora de Memória pelo seu papel valioso na transmissão, às novas gerações, da memória cultural da sua comunidade. Os contos e lendas fazem parte da memória de um povo. A cada geração cabe a responsabilidade de passar à seguinte este valioso testemunho. E foi isto que esta narradora tentou fazer, transmitir às novas gerações os riquíssimos tesouros de um passado mágico que marca a identidade de um povo.


DEDICATÓRIA Dedico este meu sonho a toda a minha família, em especial aos meus três filhos Vânia, Tiago e António Pedro e à memória da minha tia Emília que me aconchegava e embalava no colo ao som de lendas e histórias.


AGRADECIMENTO A todos aqueles que de uma forma ou de outra me incitaram a realizar este meu sonho de transmitir às gerações mais jovens uma cultura que tende a perder-se na memória dos mais antigos. A toda a minha família, em especial aos meus filhos, pelo carinho, dedicação, ajuda, incentivo e amor que depositaram na realização deste projecto. À Junta de Freguesia de Vilas Boas, pela ajuda, apoio e disponibilidade que sempre demonstrou para que este meu sonho se tornasse realidade. E por fim, ao Professor Alexandre Parafita que despertou em mim esta vontade de deixar registadas as minhas memórias, ao convidar-me para ser narradora de memória num dos seus livros, publicado em 2010 e apresentado no Museu do Douro.


ÍNDICE 1 – A alma do avarento 2 – O touro azul 3 – A lenda do Lobisomem do Augusto 4 – O ladrão e a velhinha 5 – Jesus e S. Pedro 6 – Os dois compadres 7 – A lenda da Pala da Feiticeira 8 – Guiomar 9 – Dona Vintes 10 – A princesa Magalona 11 – A lenda do Lobisomem na Estrada da Mala 12 – O Estalajadeiro 13 – Os três concelhos 14 – A entrada no paraíso 15 – S. Tiago e as cerejas 16 – Lenda da Senhora d´Assunção


17 – Uma mulher de coragem 18 – O segredo das feiticeiras 19 – A sentença 20 – A lenda da menina das tranças 21 – O criado de servir 22 – Eu papo dois 23 – O diabo no casamento 24 – As três cidras 25 – A lenda da ronda das feiticeiras 26 – S. Pedro e o mau ladrão 27 – Os cisnes brancos 28 – O cego e o mendigo 29 – O castigo da condessa má 30 – O pinto calçudo e o rei 31 – A lenda das duas galinhas 32 – A menina encantada 33 – Que diabo de bicho és tu? 34 – História de dois irmãos 35 – A lenda dos pardais no muro 36 – A traição 37 – O bicho bonito 38 – A lenda da esposa que era bruxa 39 – O filho do padre 40 – O sapateiro e as libras 41 – A lenda do agricultor


42 – O menino afogado 43 – Os dez anõezinhos da tia Verde-Água 44 – O príncipe com orelhas de burro 45 – A guardadora de patos 46 – Não esperes por ajuda 47 – O alto 48 – A lenda dos bois 49 – Os três 50 – A entrada no purgatório 51 – Pai tirano 52 – Minha casa, meu lar 53 – Limpa Cinzas 54 – A lenda do padre e das libras de ouro


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A ALMA DO AVARENTO Era uma vez um rico, muito rico e muito avarento. Não dava uma esmola a ninguém. Muitas vezes a criada chegava ao pé dele e dizia-lhe: – Meu senhor, está ali uma velhinha muito pobrezinha a pedir esmola. E ele dizia: – Manda-a embora. Aqui não há nada para dar. A todos os pobres que por ali passavam acontecia igual. Um belo dia, apareceu lá em casa um velhinho a bater à porta. A criada diz: – Se é para pedir esmola, podes ir embora, pois o meu amo não dá esmolas! – Pois eu quero que me enchas sete sacos de centeio, sete sacos de trigo, sete sacos de aveia, sete medidas de vinho, sete de milho e sete medidas de azeite! – diz o velhinho. – O quê?! – respondeu a criada. – Com certeza que não |

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sabes como ele é. Não dá um simples bocado de pão, quanto mais estas medidas todas...! – Não me importo. Vai dizer ao teu amo que quero isto tudo! A criada, rindo, chegou ao pé do amo e disse: – Está ali um velhinho a pedir esmola e saiba meu amo que quer isto tudo, ou seja: sete sacos de centeio, sete sacos de aveia, sete sacos de trigo, sete de milho, sete medidas de vinho e sete de azeite. O amo respondeu a rir: – Dá-lhe lá isso tudo. Também quero ver o que ele vai fazer. A criada foi e disse para o velhinho: – Estou admirada. O meu amo disse para lhe dar tudo o que quer. Quando já tinham quase tudo medido, passa à frente do armazém uma lebre a fugir e um cão atrás dela. O pobre diz para a criada: – Olha! A alma do teu patrão vai ali a correr! – Como pode ser isso, se ainda agora o deixei sentado à mesa a comer? – Pois é ela. E o cão que ia atrás da alma, que é a lebre, é o demónio. Como ele nunca deu nada e era muito avarento, o demónio pensava que já lhe pertencia. Foi por isso que eu vim pedir estas esmolas, para pesarem mais na balança que os pecados dele.

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O velhinho era Jesus, que foi pedir as esmolas para que a alma dele não se perdesse.

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