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amore ad infinitum Amadeu Frade Ferreira


FICHA TÉCNICA Edição: Vírgula® (Chancela Sítio do Livro) Título: Amore ad Infinitum Autor: Amadeu Frade Ferreira Capa: Patrícia Andrade Paginação: Nuno Remígio 1.ª Edição Lisboa, 2013 Depósito legal: 362789/13 ISBN: 978-989-8678-16-4 © Amadeu Frade Ferreira PUBLICAÇÃO E COMERCIALIZAÇÃO Sítio do Livro, Lda. Av. de Roma n.º 11 – 1.º Dt.º | 1000-261 Lisboa www.sitiodolivro.pt


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Nunca tive sonhos nem certezas. Apenas certezas ténues que escondem o fulguroso passar dos tempos. Já não são mágoas de doer no fundo de todos os seres. A incompreensão generalizou-se. A revolta abate-se sobre os pérfidos. Os instintos animais vacilam e debilmente escutam ao longe o rugido do mar. Na floresta do sonho. Nasce o dia, morre o dia, cai a noite, levanta-se a manhã, e sempre esta sensação de vazio inerte e sujo que desemboca no paradigma do meu ser. Sempre estas reflexões imensas que transbordam patéticos sentimentos onde a humanidade caminha tranquila. E é este o pé de igualdade. Só esta semelhança exterior. Os olhos raiados de raiva e ainda e sempre, a incompreensão. E se o desejo é este grito mudo e inquieto que faz oscilar o pensamento no além. Quero ouvir a música parar o seu som e quebrar a melancolia da vida. Está aí outro século. Correm as pessoas pequeninas no seu juízo vulgar a pensar, a pensar. Mas nada muda, o céu está 5


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no seu lugar, a terra também, e o rico e o poderoso conseguem ainda dominar a força tempestuosa do mar. E esta fúria incontida de sonhar as palavras iguais num paradigma de igualdade. E quando a maldade que lenta e vil arrasta na voz da multidão esse grito mudo que sofre na lentidão do tempo que passa. A massa do pão que alimenta as bocas do mundo inteiro transpira a humidade. E quando o sonho esquecido passar a ser só um lamento, um uivo perdido na floresta do sonho, as crianças brincando e o papagaio ao vento voando, recortam figuras para serem recordadas. E esta paixão dos homens que acelera a vida na procura da morte. Pára. As flores que no jarro se encontram paradas no espaço procuram respirar. As guelras das rosas que secam e morrem, desprendem o sonho que triste morre. Como se chama? As palavras recortadas no silêncio da noite espumam a raiva dos inocentes. Os bordões da polícia golpeiam a carne dilacerada do povo. A luta dos sexos envolve-se na tragédia humana. E lá longe o sol esconde-se no horizonte vazio de amor. As páginas esquecidas em cima do leito. Os cobertores estendidos em cima dos lençóis, e as lágrimas rolando pela face podre dos dias que são sempre iguais. O beijo dado às escondidas da 6


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mãe. O dinheiro para os cigarros e para o bilhar. E o sonho da floresta que brilha. Reluzentes as folhas verdes. O martírio de pensar. Acendem-se as luzes da cidade e lá dentro o vomitado de todas as injustiças. E o regaço da mãe. Estou protegido do sol por esta sombra amiga. Os pinheiros elevam-se em direcção ao céu. A brincar às escondidas. A saltar o muro da vivenda da sua imaginação, parte a cabeça. Esta ferida que não sara. Esta fonte inesgotável de sofrimento que perdura um século e outro, e outro e ainda outro. Estou na margem do rio. Os barcos passam velozes e as crianças fogem dos carros que passam rápidos. A cerveja que aquece dentro do copo. O uísque que já não tem gelo. Oiço o murmúrio das palavras que senis encontram a explicação dos factos. Esta doce miragem. Este falso planeta. Esta verdadeira irrealidade. Nos domingos celebra-se a missa. E a Fé do povo que anda confuso, procura a medo a salvação. Estou nesta baía, junto do centro do universo filosofando filosofices. Estou numa de retórica cediça. A sobrecarga de consumo de energia faz rebentar os fusíveis. PUM. Escuridão. E a ignorância que passa por obrigação. E o consenso de todos unidos decidirmos coisas que na prática não se cumprem. A estúpida tradição do poder. Ser inteligente é uma condição humana. A obsessiva construção imperial. Todos nós, 7


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estúpidos a fornicarmos a imagem... Quem pensa que Deus existe? Eu sei que existe algo acima de todos nós e que nos governa. Governar é pôr ordem nas coisas. Por isso eu sei que Deus não existe. E assim a criação é o fruto ignóbil do poder. As margens do rio estreitam. Paro o carro. Saio. As mulheres caminham na estrada tolhidas de pensamentos. Liberdade. Liberdade. Liberdade. Liberdade. Liberdade. Liberdade. Liberdade. Liberdade. Liberdade. Liberdade. Da cega paixão nasce a guerra. Belo. O ódio que cresce nos ventres descobrem as amarras da solidão. Belo. Prendem-se ao medo com cabos de aço e inventamse mil provações. Belo. O que é preciso, o importante mesmo, é que esta sombra de árvore se mantenha. Belo. Que este sol radioso ilumine a planície cinzenta. Que este prado verde e viscoso se limite à sua própria insignificância. São os temores esbatidos no silêncio das almas que reclamam sôfregas, a multidão. São os sentidos vazios que originam esta subserviência a Deus. A esse Deus homem que não foi pregado na cruz. Não há mulheres, não há homens, há uma massa de trabalho que é necessário aproveitar. Quero construir uma nave espacial. Quero comprar um refúgio anti-nuclear. Nos passeios das avenidas a multidão esconde os seus sentimentos. Repressão. Repressão. Dez colinas, vinte montes, trinta serras e 8


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poluição. Carradas de poluição. Rios negros, mares cinzentos e os bolsos cheios do patrão. Está aí um novo século. Vem aí a rebelião. Os corpos queimados pelo sol espalham-se ao longo da praia da nossa imaginação. O combóio apita três vezes UU UU UU e segue rumo à destruição. Pensa o homem do lado, que bela paisagem! A ordem esquecida nos tempos imemoriais, esconde-se atrás da traição. Assim é impossível. Tem razão. As bestas quadradas puxam as carroças que as gentes seguram pela mão. As árvores que tombam recordam-me a solidão. Rico. As lágrimas não têm razão. Rico. De existir, a riqueza mal dividida comunga a inflexão. Rico. Mais dois beijos na criança que corre atrás do balão. E a humanidade a correr atrás da sua própria perdição. O corvo à beira do lago. A frondosa árvore que cerca os arrabaldes da floresta do sonho. E esta pura dedução, chama-se Valentino. Ela chama-se Mónica e seu amor perdese no infinito da noite, nas estrelas que se contam. Valentino homem, deduzido valentão. As horas não passam na memória do tempo. As aves não se cansam de cantar as aventuras da vida. Os beijos esquecemse no meio da multidão e a paz que não regressa. Os sonhos esbatidos florescem em jardins escuros. O 9


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frio conquista a intangível distância do ser. E a morrer, lentamente, de agonia crónica o próprio tempo de reflexão. E estas cores sempre iguais, desbotadas e cinzentas. Estou à porta do sonho, no fim da floresta encantada. Uma princesa sorri e ilumina a população que amedrontada enfrenta a escuridão. Que doce é a vida e que suave é a ilusão. Encontro-me parado no meio da estrada que liga para o além. Na frente do estádio inconcreto da sabedoria estaquei e pensei. Que horas são isto? O relógio na parede do quarto sussurra as horas que um dia tem. Mas mais agudizante ainda é a simultânea incompreensão. As águas do rio paradas no barco veloz que ao mar se dirige. E as lágrimas da multidão anónima que engrossam o caudal do leito estático em comunhão de almas. Eu juro que vi. Estava um pássaro no molhe e a doca vazia recordava-me a solidão. E volto a acharme, nem aqui, nem acolá, apenas a meio caminho do infinito. Estas imagens projectadas na televisão que adormeceu o espírito de encontro ao sofá. Os candeeiros cintilantes transmitem a fragilidade da vida. Ele há momentos assim. Dois momentos de esperança, vinte de desespero e momentos de felicidade incontáveis. Jogos de sedução. Primeiro a magia, depois a inflação. Já não há coerência nos modos de praticar o ultraje, a traição. Duas carícias 10


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de desejo perdidas na sensação passageira de bem-estar. Sim, a vida tem as suas compensações. Que interessa o trabalho mal pago, as condições inumanas, em suma, a exploração. O que é preciso é dar a felicidade às pessoas, embrulhada em papel de sedução. E chamam a isto, imaginação! Calcule-se o desprezo, a revolta, a imensa descontracção. Não é estranho o delírio de não pensar. De saber prolongar ao infinito este sentimento ambíguo que é não gostar. Mónica é menina de sonhos celestes e brandos. Os olhos claros e amenos procuram a companhia que reclama a si todo o pensamento de solidão. Páginas esquecidas no molhe de lágrimas feito à base de estradas de alcatrão. Um tinteiro azul esconde as palavras que a pena transporta de sua mão. Mónica mente, Valentino descobre, final de sessão. A vida não pára na floresta do sonho. Estou aqui parado à espera que me venham buscar. Virão? Não virão? O que importa agora e sempre é sempre o sonho lírico e a perseguição. Estou perdido no tempo e sem espaço de manobra para avançar no seio da ingratidão. Como é difícil conseguir convencer a estupidez momentânea do vilão. Jogos de sedução. Mónica vestida de noite a brilhar fulgurante escutando a breve entoação. 11


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