O que fAltA AO nOssO futebOl pArA ser umA indústriA
maio 2018 • ano 01 • no 2
Preço 200 mZn
6
Observação
Trânsito
Uma imagem que relembra a importância dos planos para acabar com o tráfego em Maputo
8 Radar
Panorama economia, banca, Finanças, Infraestruturas, Investimento, País, agenda
14 Macro
ENQUADRAMENTO
14 FMI Uma análise macro do representante do FMI em Moçambique, ari aisen
18 Moçambola as contas difíceis do campeonato, que se joga sem facturar
24 Nação
MADE IN MOçAMbIQUE
24 Orgulho ou preconceito? o que é preciso para a produção nacional poder fazer reerguer a economia e o orgulho da nação.
34 Na voz de... Lourenço sambo, director-geral do aPIeX fala da necessidade “de estratégia”
38 ProvÍncIa
Niassa
Há planos para que, a província mais esquecida do país, se torne uma das mais lembradas
42 Mercado e FInanças
banca o crédito malparado duplicou no último ano. e agora, o que se segue?
46 EMPresas
PME
Print4You Uma empresa líder do segmento dos serviços de outsourcing de impressão, que trabalha com as maiores empresas nacionais
48 MegaFone
Marketing o que está a acontecer no mundo das marcas em Moçambique e lá por fora
65 ócio
66 Escape O encanto do silêncio, do Diamonds Mequifi beach, em Cabo Delgado 68 Gourmet Uma visita do Marketn on Main, em Joburg 69 Adega a arte da refinada bolha portuguesa 70 Agenda Música,livros, filmes 71 Arte Homenagem a um mestre da fotografia 72 Ao volante Koleos da Renault chega a Moçambique
50 FIgUra do MÊs
Liderança alexandra Machado, general manager da girl Move Foundation
52 SocIedade
Urbanismo a transformação da baixa está no papel, mas falta dinheiro para implementar o projecto
58 LÁ Fora
África do Sul cyril ramaphosa sucedeu ao ‘odiado’ Zuma. agora, reformas económicas precisam-se
Made in…
estimado leitor. Esta é a segunda edição da Economia & Mercado (E&M), uma nova revista no mercado moçambicano, de publicação mensal orientada para a informação económica, empresarial e financeira, de pulicidade e lazer, procurando também olhar e reflectir sobre a generalidade dos acontecimentos com impacto na economia e na sociedade moçambicana em geral, tal como nos referimos no editorial da primeira edição. Dedicamos nesta edição especial atenção aos produtos ‘made in Moçambique’ onde abordamos a forma como os empreendedores encaram as adversidades da actual conjuntura económica do país. Estes têm o desafio de, nos dias que correm e mais do que nunca, continuarem a produzir com a qualidade que faz jus ao selo que ostentam - ‘Made in Mozambique, orgulhosamente moçambicano’. Desenvolvemos outros temas com destaque para a grande entrevista com o representante do FMI em Moçambique em que analisa o panorama económico do país e olhamos ainda para as recentes mudanças políticas na África do Sul, e os enormes desafios que esse país nosso vizinho tem pela frente.
A difícil situação económica em que vivemos desafia a nossa capacidade de inovar, criar e buscar soluções alternativas para a continuidade dos negócios, dos processos e serviços, ainda que a níveis modestos, bem como para a sustentabilidade das nossas famílias. Entretanto, importa mencionar as medidas que vêm sendo tomadas pelo Banco de Moçambique. Muito recentemente, considerando as perspectivas de inflação de curto e médio prazo, e ponderados os riscos associados, o Comité de Política Monetária (CPMO) decidiu reduzir a taxa de juro de política monetária, taxa MIMO, em 150 pontos base, para 16,5%; reduzir a taxa da Facilidade Permanente de Cedência (FPC) em 100 pontos base, para 18%; manter a taxa da Facilidade Permanente de Depósitos (FPD) em 12,5% e o coeficiente de Reservas Obrigatórias (RO) para os passivos em moeda nacional em 14,0%, e em moeda estrangeira em 22%.
Estas medidas denotam optimismo quanto às perspectivas do comportamento da economia moçambicana, com base na avaliação dos indicadores económico-financeiros e ponderados os factores de risco por um lado, do outro estimula os bancos comerciais a reverem em baixa as taxas de juro praticadas no mercado para tornar o custo do dinheiro mais acessível. É com este tipo de informação e abordagem que disponibilizamos a E&M, aos estimados leitores, como um instrumento de tomada de decisão pois ‘quem lê sabe mais’.
EDITOR EXECUTIVO Pedro Cativelos JORnAlIsTAs Celso Chambisso; Hermenegildo Langa; Elmano Madaíl; Rui Trindade; Bruno Faria Lopes PAGInAÇÃO José Mundundo FOTOGRAFIA Jay Garrido; Vasco Célio PRODUÇÃO Iona - Comunicação e Marketing, Lda (Grupo Executive) PUBlICIDADE DEPARTAmEnTO COmERCIAl Ana Antunes (Moçambique) ana.antunes@executive-mozambique. com; iona@iona.pt/contacto@iona.pt (Portugal)
ADmInIsTRAÇÃO, REDACÇÃO E PUBlICIDADE Executive Moçambique; Rua do Telégrafo, nº 109 – Sala 6, Bairro Polana Cimento, Maputo – Moçambique; Tel.: +258 21 485 652; Tlm.: +258 84 311 9150; geral@executive-mozambique.com DElEGAÇÃO Em lIsBOA Rua Filipe Folque, nº 10 J – 2º drtº,1050-113 Lisboa; Tel.:+351 213 813 566; Fax: +351 213 813 569; iona@iona.pt ImPREssÃO E ACABAmEnTO Minerva Print - Maputo - Moçambique TIRAGEm 4 500 exemplares númERO DE REGIsTO 01/GABINFO-DEPC/2018
Iacumba Ali Aiuba
observação
A horA do corre-corre continuA pArAdA
MoÇAMBiQUE, ArrEdorEs dE MAPUTo, ABril dE 2018
As horas de ponta desenham a ponte necessária para um futuro diferente. Ou, pelo menos, é pelo que desesperam as largas centenas de milhares de pessoas que, diariamente, sobrevivem a este cenário com um pé no acelerador, e dois no travão. Afinal, o número de automóveis está a aumentar (estima-se que existam 500 mil viaturas só em Maputo) e o crescimento populacional (dos actuais 2,2 milhões de habitantes para 3,7 milhões, em 2035) na área metropolitana não deixa via aberta à fluidez da circulação.
Nesse sentido, foi apresentado em Fevereiro, o estudo de viabilidade do projecto Automated Guideway Transit (AGT), um sistema de transporte não pilotado, cuja operação é feita com recurso a sistemas informáticos, e que se projecta que possa ser implementado em Maputo, a partir de 2023.
Ele irá abranger uma extensão de 18 quilómetros, terá capacidade prevista para transportar 112 mil passageiros por dia, e deverá ser implementado no corredor Baixa-Zimpeto em duas fases, (Baixa-Missão Roque e Missão Roque-Zimpeto).
A sua concretização final resulta de um acordo assinado em Abril de 2017, entre os governos de Moçambique e do Japão.
TrânsiTo
FOTOGRAFiA Istock Photo
RADAR
BANCA
Academia PME+. O universo das MPME nacionais já tem uma academia própria de formação em vários domínios da gestão de negócios.
Lançado a 19 de Abril pelo Banco Único, em parceria com a Financial Sector Deepening (FDS Moçambique – voltada para a promoção da inclusão financeira), a Academia PME+ apresenta-se como um primeiro passo da solução de alguns dos principais obstáculos aos negócios deste segmento empresarial, nomeadamente o fraco domínio das técnicas de gestão e a consequente dificuldade de acesso ao financiamento e ao melhor capital humano.
Por isso, espera-se que, através de mais esta ferramenta, as MPME possam ampliar significativamente o seu efeito multiplicador na economia, visto tratar-se do segmento com maior potencial de geração de postos de trabalho e por representar cerca de 98% do tecido empresarial do país.
A Academia PME+ será ministrada pela portuguesa Nova School of Business & Economics (Nova SBE), a mais importante escola de negócios em Portugal.
Direccionada a clientes (e também não clientes do Banco Único), a academia é dirigida a gestores de topo das PME, quadros superiores e jovens empreendedores
Relatório e contas. O Millennium bim, anunciou, em Relatório e Contas, um resultado líquido po-
sitivo na ordem de 5,5 mil milhões de meticais em 2017, um crescimento de 23,6%, face ao período homólogo.
O Millenium bim reconhece que “os efeitos dos choques económicos” que o banco enfrentou desde 2016 “implicaram a adopção de uma postura creditícia conservadora do sistema, com reflexos “no arrefecimento do crédito à economia ao longo de 2017”. Após anos de crescimento, o crédito a clientes caiu assim 21,6% no ano passado, fixando-se em 61 mil milhões de meticais.
A percentagem de crédito em incumprimento sofreu com isso, e subiu de 4,04% para 5,55% em 2017, sendo que o custo de risco escalou de 188 pontos base para 262.
Distinção. O Standard Bank foi, pela terceira vez consecutiva, distinguido pela Autoridade Tributária de Moçambique (AT) como o 2º maior contribuinte fiscal moçambicano, em 2017, na categoria do “Imposto sobre o Rendimento de Pessoas Colectivas Liquidado sobre o Lucro”. A instituição recebeu da AT uma menção honrosa pelas suas contribuições fiscais.
FINANÇAS
Dívida externa. A China e a Índia alargaram de 2028 para 2033 o período de graça concedido a Moçambique para pagar a dívida bilateral que supera os 2,2 mil milhões de dólares.
Segundo a directora-adjunta de Coordenação Institucional e Imagem do Ministério da Economia e Finanças, Stélia Neta, os períodos de amortização foram mantidos, bem como as taxas de juro, que são de 1,75% no caso da China e de 2% no caso da Índia. A dívida de Moçambique para com a Índia era de mais de 177,3 milhões de dólares no final de 2017. Com a China, país que perdoou 34 milhões da
dívida nacional no ano passado, situava-se nos 2,02 mil milhões de dólares.
Negócios. As consultoras Mergermarket e Control Risks assinalam que o risco político e as preocupações com a transparência são os “principais obstáculos aos negócios em África,” continente onde as fusões e aquisições desceram 26% na primeira metade de 2017, período em que foram registadas 101 transacções que valeram 13 mil milhões de dólares, o que representa uma queda de 25% em volume comparativamente com a segunda metade de 2016.
O maior negócio em África no ano passado foi feito precisamente em Moçambique, com uma operação financeira no valor de 2,8 mil milhões de dólares, representada pela entrada da Exxon Mobil no capital do consórcio de exploração de gás natural liderado pela ENI na Área 4 da Bacia do Rovuma, em Cabo Delgado.
INDÚStrIA
Rubis. A empresa australiana Mustang Resources anunciou a descoberta de um novo depósito de rubis localizado a apenas 3 500 metros da sua unidade de processamento do projecto de Montepuez, província de Cabo Delgado, informou a empresa em comunicado. A descoberta ocorreu no decurso de uma campanha alargada de escavação de 196 poços de exploração, efectuada na região durante o passado mês de Março . O rubi de Moçambique é reco-
nhecido internacionalmente e tem rendido várias dezenas de milhões de dólares em leilões, sobretudo nos mercados orientais, sendo que o depósito de Cabo Delgado é um dos maiores do mundo.
Concessões. A empresa australiana MRG Metals anunciou a aquisição de três concessões de exploração de areias pesadas, depois de assinar um acordo com a também australiana Sofala Resources Pty Ltd. O presidente da empresa australiana, Andrew Van Der Zwan afirma, em comunicado, que a empresa analisou mais de 70 possíveis negócios “tendo esta aquisição potencial para responder aos objectivos estabelecidos.”
INFrA-eStruturAS
Linha férrea. Botsuana e Zimbabué movimentaram-se nas últimas semanas para avançar com o projecto do porto de Techobanine, Maputo.
A notícia surge na sequência de conversações inter-governamentais que, parecem dar sequência ao ambicioso projecto ferroviário de 1 500 quilómetros (custo anunciado de 600 milhões de dólares), que vai ligar Francistown, no Botswana, Bulawayo, no Zimbabué, e o porto moçambicano de Techobanine (Maputo), para promover o reforço do comércio inter-regional.
De acordo com o memorando assinado pelos três países, espera-se que cada um invista 200 milhões de dólares no custo do projecto.
Após a conclusão, o empreendimento facilitará o comércio através do movimento do tráfego ferroviário de passageiros e até 12 milhões de toneladas de mercadorias por ano através dos três países. “Este é um projeto que ainda está na fase inicial mas o encontro mantido serve como uma forma de aferir como as discussões podem ser levadas ao próximo nível para que o
projecto possa efectivamente iniciar-se”, disse à imprensa Gaeimelwe Goitsemang, secretário permanente do ministro dos negócios estrangeiros do Botsuana.
Solar. Arrancam já este mês as obras de instalação da primeira central solar em Moçambique, na província da Zambézia, zona Centro do país. O projecto conta com financiamento garantido, no valor de 76 milhões de dólares e deverá estar operacional no início de 2019, scontribuindo para a minimização do défice energético do país, actualmente estimado em 74%. A central vai ser instalada numa área total de 126 hectares, no distrito de Mocuba.
Espera-se que a obra empregue 200 pessoas ao longo da fase de construção.
Porto de Maputo. A portuguesa Mota-Engil garantiu a realização da obra de reabilitação de um quilómetro de cais de acostagem (orçada em cerca de 60 milhões de dólares) no Porto de Maputo.
A Sociedade de Desenvolvimento do Porto de Maputo (MPDC, sigla em inglês) anunciou que estes trabalhos permitirão um aumento de 40% da capacidade de carga em Maputo e de 55% da capacidade de carga na Matola.
A sociedade que gere a infra-estrutura registou em 2017 um aumento de 22% dos volumes manuseados, com 18,2 milhões de toneladas de carga face aos 14,9 milhões do ano anterior. Este ano, prevêm-se 22 milhões de toneladas de carga.
Hidroeléctrica. A Hidroeléctrica de Cahora Bassa anunciou um prejuízo avaliado em 1 milhão de dólares causado pela interrupção do fornecimento de energia nas regiões Centro e Norte do país e em alguns países vizinhos (África do Sul e Zimbabué), ocorrida ao longo de alguns dias de Abril último.
O corte foi causado por uma perturbação no processo de modernização dos servidores do sistema de controlo dos grupos geradores da empresa.
Nos últimos meses, a HCB vem desenvolvendo um programa de investimentos denominado Capex Vital, que visa restabelecer a vitalidade do sistema electroprodutor que está no limite de vida útil, advertendo, no entanto, para “eventuais falhas” que o processo possa causar aos utentes.
INVeStIMeNtO
Sector privado. O Reino Unido vai disponibilizar cerca de 2 mil milhões de libras esterlinas (cerca de 171 mil milhões de meticais) para um pacote de investimento no sector privado em Moçambique, anunciou o Secretário de Estado britânico para o Comércio Internacional, Liam Fox. Durante um encontro das delegações de Moçambique (chefiadas pelo Presidente Filipe Nyusi) e da Grã Bretanha, ficou expressa a intenção de multiplicar os investimentos britânicos nas áreas do turismo, agro-negócio, educação, gás e petróleo.
PerSPeCtIVAS De PrODuÇãO e PreÇO De MIlhO NA ZAMBéZIA
A BMM realizou, entre Março e Abril de 2018, um Inquérito aos produtores dos distritos de Alto Molócué, Gurué, Mocuba e Milange na Província da Zambézia.
O objectivo do inquérito era colher as expectativas dos produtores sobre a colheita e a sua comercialização face ao ataque da praga de funil.
Usando uma metodologia de baixo custo (convenience sampling), foi possível apurar que a praga de funil é uma praga migratória e, que deu os primeiros sinais da sua presença em Moçambique na época passada nos distritos fronteiriços (com Malawi).
Ficou evidente o alto nível de danos na região de Milange onde se espera uma queda na produção de milho. Para os restantes distritos visitados, a praga chegou mais tarde tendo afectado apenas o milho semeado tardiamente (princípios de Janeiro), onde pode considerar-se baixo o nível de danos e consequentemente a queda poderá não ser significativa.
No que tange aos preços, estes poderão ser afectados principalmente pelo facto da comercialização de produtos agrícolas em Milange (onde o ataque foi elevado), ser na sua maioria suportada pelos malawianos que oferecem preços ligeiramente mais altos. Este cenário pode fazer com que a preferência dos produtores para venda ao exterior aumente (quer directamente, quer por via de intermediários nacionais).
O outro factor que poderá afectar o nível de preços deste cereal é a especulação. Foi comum ouvir no seio dos comerciantes locais a ascensão no preço de milho como resultado do ataque da praga de funil mesmo não sabendo a total dimensão dos estragos.
Stock de mercadoria S exi Stente no S c omplexo S de Silo S
RADAR
Agricultura. O Banco Mundial anunciou o desembolso de 80 milhões de dólares direccionados para o Projecto de Irrigação e Acesso a Mercados para Agricultores, a partir de Julho deste ano, no Centro e Norte do país. Com o desenvolvimento da irrigação, espera-se que os produtores deixem de depender apenas da estação das chuvas para a sua actividade, passando a produzir durante todo o ano, (o que tem sido desafiador devido às mudanças climáticas). O incentivo será desembolsado ao longo de um período de seis anos e o projecto vai abranger uma área decerca de sete mil hectares em benefício de aproximadamente 14 mil agricultores e respectivas famílias.
Turismo. A VI edição da Feira Internacional de Turismo de Moçambique ainda não tem data marcada mas, tem já um lema definitivo: “Reflectir sobre as tendências do mercado de viagens assim como impulsionar a criação de novos pólos turísticos, bem como o desenvolvimento dos já existentes no país”. Assim, promete-se a reflexão sobre a maximização do potencial do sector por parte da entidade organizadora do evento - o Ministério da Cultura e Turismo através do INATUR. Para o presente ano, o evento, que se realiza desde 2013, promete, “inovar adicionando criatividade na maneira como os agentes turísticos expõem os seus produtos”.
Ambiente. A Universidade Eduardo Mondlane (UEM) lançou em Abril o curso online de Adaptação às Mudanças Climáticas, anunciado como tendo “o abjectivo de promover e facilitar o acesso ao conhecimento sobre as medidas de adaptação a esta situação.” Esta área de conhecimento, será financiada pelo governo dos Estados Unidos de América através da USAID.
PAÍS
Salário mínimo. O rendimento mínimo nacional aumentou entre 6% e 18% na sequência dos acordos dos principais sindicatos com o Governo. De acordo com o secretário-geral da Confederação dos Sindicatos Independentes e Livres de Moçambique (CONSILMO), Jeremias Timana, os números acordados entre Governo, empregadores e sindicatos em sede da Comissão Consultiva de Trabalho, tomaram em conta a situação pouco favorável da economia nacional. Ainda assim, as negociações dos sindicatos para os aumentos salariais vão continuar ao nível dos oito sectores existentes no país .
Actualmente, o salário mínimo mais baixo no país está fixado em 4 142 meticais para os sectores da agricultura, pecuária, caça e silvicultura e o mais elevado é de 11 897 meticais para o sector dos serviços financeiros.
Emprego. O Instituto Nacional de Emprego anunciou a criação de 957 mil postos de trabalho nos últimos três anos, um volume aquém do previsto, que seriam 1,4 milhões de novos postos de trabalho para o quinquénio 2015-2019. Do total dos postos de emprego já criados, 9 mil foram resultado da alocação de 3 200 kits de auto-emprego, iniciativa que está a ser desenvolvida através de Parceria Público-Privada à escala nacional. Estes dados foram tornados públicos a 9 de Abril passado,
em Maputo, durante a realização da primeira reunião entre o INEP e os seus parceiros, evento que decorreu sob o lema “Criando Sinergias para a Promoção do Emprego em Moçambique”.
Combustíveis. A Importadora Moçambicana de Petróleos (IMOPETRO) anunciou o lançamento de um concurso público internacional para a contratação de um fornecedor de produtos petrolíferos refinados.
A previsão é de que o país importe 912 mil toneladas métricas de produtos petrolíferos, a serem descarregados nos portos de Maputo, Beira, Nacala e Pemba.
Em Moçambique, o concurso internacional para seleccionar o fornecedor de petróleos tem lugar duas vezes por ano.
Em 2017, o país importou combustíveis líquidos no valor de 794 milhões de dólares norte-americanos, contra os 584 milhões de dólares em 2016.
Segurança alimentar. Um estudo recente (de 2017) intitulado “O custo da fome em África”, concluiu que Moçambique perde mais de 10,9% do Produto Interno Bruto (PIB) anual devido à desnutrição crónica. Para ajudar a superar esta realidade, o Secretariado Técnico de Segurança Alimentar e Nutricional (SETSAN) e o Programa Mundial da Alimentação apresentaram os resultados da análise “Preencher a lacuna de nutrientes” que fornece recomendações do caminho a seguir.
Empreendedorismo. A seguradora Fidelidade Moçambique está a promover um concurso nacional para incentivar o empreendedorismo na área das tecnologias, através de um programa denominado “Protechting”, que será apresentado na MozTech.
O “Protechting” é uma iniciativa conjunta da Fidelidade Portugal e da Fosun.
EMATUM. Os 24 barcos da frota adquirida pela Empresa Moçambicana de Atum (EMATUM) ancorados no Porto de Maputo, poderão operar a partir deste ano, através da Tunamar, uma empresa criada pela EMATUM e pela Frontier Services Group, empresa do norte-americano Erik Prince (fundador da Blackwater, empresa de segurança privada norte-americana). Ao avançar com esta informação, em Abril passado, o primeiro-ministro, Carlos Agostinho do Rosário não especificou para que fim serão utilizadas as embarcações, nem os pormenores financeiros da operação.
AgeNDA
CE-CPLP. Realiza-se a 9 e 10 de Maio, em Maputo, a “1ª Conferência Económica do Mercado CPLP”. A Confederação Empresarial da CPLP (CE-CPLP) organiza esta conferência para abordar “a caracterização do mercado e a criação de grupos de trabalho para as áreas do reconhecimento e mobilidade profissional, harmonização das relações fiscais; e a constituição de um Centro de Arbitragem.”
OPINIÃO
Quem põe o guizo ao gato
Rogério Samo Gudo • PCA da Escopil Internacional
numa das suas fábulas o escritor francês Jean de La Fontaine (1621-1695) conta que os ratos decidiram em assembleia pôr um guizo no pescoço do gato, o eterno inimigo. Assim, quando o gato se aproximasse, eles fugiriam a tempo de não serem apanhados. Um rato velho, calado durante toda discussão, endossou o plano, mas fez uma pergunta que tornou-se famosa: quem vai pôr o guizo no pescoço do gato?
Assim a expressão “quem vai pôr o guizo no gato?” ficou consagrada como aquele que em prol do bem comum, mesmo diante de um risco pessoal, procura evitar que este continue a apanhar todos de surpresa.
O mercado Moçambicano é constituído por vários circuitos económicos e também por vários intervenientes, o Estado como regulador, os grandes investimentos em recursos naturais, e por fim a economia doméstica, maioritariamente dominada pelas Micro Pequenas e Médias Empresas, portanto cada segmento constitui um circuito com interesses próprios e com enorme potencial na contribuição para o crescimento do mercado nacional. E é assim, no contexto da economia Moçambicana que a analogia com o Gato representa o risco do mercado. A frustração nestes circuitos económicos em fóruns de discussão sobre os desafios do mercado são evidentes, e a pergunta que não quer calar é quem vai pôr o Guizo no Gato. Sob o ponto de vista estrutural, quem tem poder e instrumentos para estruturar o mercado é o regulador, através de reformas contínuas de políticas pro desenvolvimento, incluindo as que estimulam o Financiamento Directo Estrangeiro e o desenvolvimento de infraestruturas através de PPP’s. Com mais de 40 anos de independência, a economia Moçambicana foi mais uma vez posta à prova através do contexto das dívidas ocultas e ficou claro que a contribuição externa de mais de 50% sobre o Orçamento do Estado não só é crítica, bem como foi o factor determinante para a tornar frágil. A falta da resiliência da economia, expõe também a fragilidade institucional, o que claramente leva a concluir que a contribuição do Estado na resolução dos problemas do mercado ainda está longe de ser alcançada.
Por outro lado temos os grandes investimentos de exploração de recursos naturais, que identificam Moçambique como um dos seus mercados para operar, onde esperam que os custos dos factores de produção (e de fazer negócio) sejam mais competitivos, como os custos de distribuição, de matéria-prima, de energia eléctrica, de mão-de-obra local, de água, etc.
O Mercado Moçambicano, compete com mais 53 países africanos para atrair estes investimentos, onde na maioria destes os problemas encontrados são similares, sendo a diferença, na forma como cada Estado lida com os problemas, o que constitui uma vantagem comparativa na atracção destes investimentos. No caso de Moçambique, o acesso à matéria-prima e a sua posição geográfica face aos principais mercados internacionais é uma vantagem comparativa, o que tem atraído diversos investimentos.
Portanto os problemas do mercado podem encontrar solução se estes investimentos comprarem os seus bens e serviços localmente, onde a consolidação do volume de compras locais, é suficiente para criar uma massa critica que vai viabilizar a cadeia de valor na economia Moçambicana.
Por fim, temos a economia doméstica, dominada pelas MPME’s, com vários desafios em como sair da sua extrema dependência, tendo como único cliente o Estado, que no contexto actual em que está, não consegue cumprir com os seus deveres contratuais, no pagamento de bens e serviços fornecidos, uma das razões para a situação de falência em que a maioria das empresas se encontra.
As MPME’S são hoje, factores incontornavelmente determinantes para as economias de todo o mundo em desenvolvimento, e no caso de Moçambique, as ligações entre estes e os grandes investimentos, representarão um enorme potencial de desenvolvimento do mercado, o que possibilitará a que os grandes investimentos através das compras locais possam servir de factor catalisador, na criação da cadeia de valores de processamento de matéria-prima (industrialização), sobretudo no sector de agro-processamento que estimula o crescimento da MPME’s moçambicanas.
Os problemas do mercado podem encontrar solução se estes investimentos comprarem os seus bens e serviços localmente, onde a consolidação do volume de compras locais é suficiente para criar uma massa crítica que vai viabilizar a cadeia de valor na economia Moçambicana
“É difícil prever quando retomaremos o programa de apoio financeiro a moçambique”
O FMI reitera que só voltará a prestar apoio financeiro após “o devido esclarecimento do processo das dívidas ocultas”. No entanto, deixa um elogio ao “esforço” do Governo na realização de reformas importantes para a consolidação orçamental e melhoria do ambiente de negócios
cumprem-se neste mês de maio, dois anos sobre a suspensão do financiamento a Moçambique do Fundo Monetário Internacional (FMI). Consequência desse facto, o Banco Mundial, o G-14, (grupo dos países que financiavam o Orçamento do Estado, à época liderado por Portugal), e o Reino Unido suspenderam a ajuda a Moçambique. De lá para cá, é o que sabemos, o país tornou-se no mais endividado em África (122% do PIB) e classificado pelas agências de rating como estando “em incumprimento restrito”. Recentemente, a missão anual do FMI em Moçambique apresentou a sua análise sobre estágio actual da economia moçambicana – “fortemente ‘sacudida’ pela crise nos últimos anos, mas já demonstrando sinais de alguma recuperação.” . O relatório lembra que tudo terá começado com “a queda nos preços das commodities e as condições climáticas adversas”, situação que “piorou após a divulgação de empréstimos ocultos na primavera de 2016 e o consequente congelamento do apoio dos doadores e do FMI”, pode ler-se.
Depois, reconhece-se que a política monetária ajudou “a estabilizar a taxa de câmbio e a reduzir a inflação”, mas ainda assim, entende o FMI, a política fiscal ainda é “muito frouxa”, e prejudicial ao pleno desenvolvimento de um sector privado, necessário ao crescimento económico como porventura nunca antes, na história do país. Assim, o momento parece ideal para um ponto da situação, em que para lá de um balanço dos avanços entretanto alcançados, não se esquecem os obstáculos ainda por ultrapassar na busca pela estabilização económica. Numa entrevista exclusiva à E&M, Ari Aisen, representante-residente do FMI em Moçambique, analisa o estado da arte da economia nacional e releva a “importância de uma cooperação estreita e saudável com o Governo”, com a intenção comum de ajudar a promover a estabilidade macroeconómica “o mais brevemente possível”.
A retoma macroeconómica divide opiniões: o Banco Central é mais optimista, a Economist Intelligence Unit, por exemplo, não. Qual a visão do FMI considerando todos os pressupostos actuais de recuperação e os riscos conjunturais ainda prevalecentes? Há dois ingredientes fundamentais nessa questão: estabilidade interna e externa. De ponto de vista da balança de pagamentos (todas as relações económicas do país com o exterior) e de contas externas, houve estabilização, daí que o ajustamento foi importante para restaurar as contas externas. As exportações também cresceram, influenciadas pelo aumento da produção e preço do carvão. Na parte doméstica, a política monetária e fiscal um pouco mais fortes também promoveram o ajustamento macroeconómico. Houve redução da inflação e o nível actual tenderá a estar em torno dos 5% em termos anuais. E o país está a crescer na casa dos 3,5% a 4%. Para uma economia que tem crescido em torno de 7%, o nível actual é muito modesto, mesmo em função do crescimento demográ-
fico que se antevê para os próximos anos Então, não dá para dizer que o país está completamente estável no sentido amplo, quando não está a crescer muito, tem riscos fiscais ainda elevados (o Governo continua a cumular défices que têm de ser financiados) e numa situação em que o stock da dívida é insustentável. O país ainda tem indicadores importantes que não estão estabilizados e que não permitem concluir de maneira inequívoca que a estabilidade voltou.
Ao nível da concessão de crédito, como observa as medidas que têm vindo a ser tomadas pelo Banco Central? Achamos importante que a política monetária tenha sido muito agressiva e haja espaço para reduzir as taxas de juro porque o crédito privado está a reduzir (10% ao ano). Para que isso aconteça, sugerimos uma mudança na combinação entre política fiscal e monetária. Assim, a monetária poderia tornar-se um pouco mais branda com redução de juros e a política fiscal deveria também consolidar-se, no sentido de que a despesa corrente reduza para apoiar a redução de juros pelo Banco Central. O alargamento da base tributária é condição indispensável para a retoma.
13,4
mil milhões de dÓlARes É o valor todal da dívida pública de MoçaMbique. avaliada actualMente eM 124%, É uMa dez Mais elevadas do Mundo, eM percentageM do pib portugal, são toMÉ e cabo verde estão taMbÉM nesta lista
A Autoridade Tributária tem levado a cabo esforços para cobrir o défice orçamental que se agudizou com a suspensão do apoio externo, como a fiscalização das unidades económicas porta-a-porta, a selagem de bebidas e tabaco, ou um aperto à fiscalização nas empresas. Na percepção do FMI, até que ponto estas medidas são de facto eficazes?
O ajuste fiscal tem dois lados: o da receita e o da despesa. Do lado da despesa (massa salarial, compra de bens e serviços diversos) ainda existe pressão sobre a área fiscal. Algum esforço foi feito com a eliminação de benefícios para funcionários públicos; eliminação de subsídios gerais (não específicos para os que mais
precisam, que são as classes mais pobres); e estas decisões foram corajosas. Mas, infelizmente, muita despesa pública ainda poderia, e deveria ser reduzida porque talvez não esteja a contribuir tanto para a economia nacional sobretudo porque acaba por resultar em taxas de juro muito elevadas que limitam o acesso ao crédito para a iniciativa privada, que precisa de estímulos para poder expandir os seus negócios.
Quando fala em isenções refere-se a subsídios?
Há diversas fórmulas para estabelecer isenções ao Imposto sobre o Valor Acrescentado (IVA) e outros impostos, algumas mais justificadas do que outras. E o argumento que, em geral, se coloca para as estabelecer é que as isenções promovem investimento. Na nossa opinião, é questionável este argumento, até pelo que vemos em outros países. Os investidores, em geral, têm muitos elementos que ponderam para fazer investimentos e contribuir para a actividade económica, como as perspectivas a médio-prazo, a estabilidade macroeconómica, ou o bom ambiente de negócios.
Há ainda muitas dúvidas sobre o papel do FMI em Moçambique. A instituição deve ser entendida como parceira do Governo ou um conselheiro em determinadas reformas?
Até ao final de 2015 e início de 2016, quando foi suspenso o programa de financiamento devido à situação das dívidas ocultas, o nosso papel era um pouco mais claro e óbvio porque tínhamos metas acordadas. Houve financiamento externo que o FMI concedeu ao país (direccionado às reservas internacionais em moeda externa, geralmente em dólares que serve para realizar transacções com o resto do mundo através do Banco Central) que deixou de ser concedido. Esse desembolso financeiro decorria à luz do chamado Standby Credit Facility (SCF). Mas havia outro programa que não era financeiro, denominado Policy Support Instrument (PSI). Agora não temos nenhum programa conjunto nem financeiro nem não financeiro. Então a relação que temos é igual à que existe com todos os 189 países membros do FMI – que é o direito de uma consulta de Artigo 4, que acontece a cada dois anos e que de agora em diante será anual. Na missão de Artigo 4, o FMI
câmbios ajudaram inflação a acalmar
A taxa de câmbio desvalorizou de forma acentuada ao longo de 2016, elevando os custos de importação e conduzindo a um aumento geral de preços. Com a estabilização cambial, a tendência inflacionária abrandou
FMI mantém estatudo de observador da economia nacional: “Continuamos a cooperar com o Governo de Moçambique”, diz Ari Aisen
Câmbio Mt/USD taxa de inflação
Macro
analisaa economia, discute com o Governo, e divulga um relatório em que deixa recomendações. Neste tipo de relação nós somos parceiros, mas não há quaisquer compromissos do Governo acordados com o FMI.
Quando prevê que o FMI volte a apoiar o crescimento e o desenvolvimento económico do país?
Creio que é importante esclarecer que, apesar de tudo, o FMI nunca parou de trabalhar com Moçambique. Como disse, temos um relacionamento de Artigo 4. Mas além disso, temos um vasto programa de assistência técnica para a Autoridade Tributária, o Instituto Nacional de Estatística, o Ministério da Economia e Finanças e o Banco Central. Temos consultores-residentes nestas instituições que contribuem para que elas se fortaleçam. Porque o nosso compromisso com o país é de muito longo prazo.
Com a Procuradoria Geral da República (PGR) a investigar o processo das dívidas ocultas, pergunto-lhe se está dependente da conclusão do processo a retoma do programa de apoio à economia nacional?
O processo judicial é uma decisão soberana do país e nós não podemos condicionar um programa à finalização desse processo. Por outro lado, em termos de transparência, é importante entender onde os recursos oriundos desses empréstimos foram utilizados. Isso dá-me a oportunidade de notar que o Governo já está a implantar um plano de acções com diversas medidas positivas em vários aspectos. Por exemplo: novos decretos que foram emitidos no fim do ano passado sobre como garantias de dívidas podem ou deveriam ser emitidas, ou a lei do sector empresarial do Estado. Isso vai definir o novo marco legal para operações de empresas do sector público e talvez impedir a ocorrência de novos escândalos como este.
Na sua opinião, essas mudanças são suficientes para o FMI e outros parceiros voltarem aos programas de apoio financeiro? E isso poderá acontecer, mesmo que não sejam apontados culpados no processo de contratação das dívidas?
Como disse, a responsabilização de indivíduos particulares é uma decisão soberana de uma instituição soberana que é a PGR. O mais importante de tudo é a apropriação, por parte de Moçambique
Os INdICAdOres dA eCONOMIA NACIONAl
Se, por um lado, a boa notícia é que o défice da conta corrente externa continuou a diminuir em 2017, influenciada pelo boom nas exportações mineiras, pela tendência de contração nas importações de serviços de megaprojectos, e igualmente pelo influxo pontual de renda associado ao imposto extraordinário sobre ganhos de capital proveniente da venda da participação da ENI no campo de gás natural de Coral South para a Exxon Mobil; já do lado da dívida a situação permanece “perigosa” pois o stock da dívida do sector público em relação ao PIB mantém-se na casa dos 120% do PIB real.
Assim, escreve a equipa de análise
CresCIMeNtO reAl dO PIB CONtINuA leNtO
O FMI prevê que o crescimento real do PIB não vá além dos 3%, dando sequência à tendência de abrandamento sentida desde 2016. A equipa de analistas do FMI atribui a quebra “ao aumento do défice público” e às medidas para fortalecimento do sector privado “não estarem ainda a produzir os devidos efeitos na economia.”
ÍNdICe de PreçOs dO
PúBlICA
em milhares de milhões de meticais
do FMI, “as perspectiva continuam desafiadoras”, deixando um alerta para “a urgência de novas ações políticas, porque se espera que o crescimento do PIB real diminua ainda mais nos próximos anos, enquanto a inflação permanecerá nos níveis actuais.
O déficit fiscal irá expandir-se (devido aos pagamentos da obrigação da dívida), levando a uma maior acumulação de dívida pública e a uma crescente exposição do sector privado, especialmente dos bancos ao governo que, combinada com altas taxas de juros, cria potenciais vulnerabilidades macrofinanceiras”, pode ler-se no relatório emitido em Março deste ano.
PIB
dÍvIdA PúBlICA exterNA
em milhares de milhões de dólares
CONtA COrreNte exterNA
em milhares de milhões de dólares
reservAs lÍquIdAs INterNACIONAIs
em milhares de milhões de dólares
“O FMI entende que, se as lacunas de informação ainda não forem transparentes, é difícil retomar o apoio financeiro no quadro de um programa, porque há uma grande quantidade de dinheiro cujo destino é desconhecido”
das políticas que quer adoptar. Portugal, por exemplo, fez demonstração de grandes apropriações no programa com o FMI. Parece que quanto maior a apropriação das medidas, maior a facilidade com que os governos podem implementá-las porque reconhecem a necessidade de as fazer, não para agradar qualquer agente interno ou externo, mas às expectativas de médio-prazdo de toda a sua população. Digo isso porque quando se coloca a pergunta sobre “se é suficiente ou não”, essa apropriação está questionada. O FMI entende que, se as lacunas de informação não forem ultrapassadas, é difícil retomar o apoio financeiro no quadro de um programa como o que foi interrompido porque há uma grande quantidade de dinheiro cujo destino é desconhecido. E seria importante um compromisso para que a transparência na utilização de recursos públicos se manifeste para toda a população, algo até muito mais importante do que para o FMI. Mas, para responder directamente, é difícil saber quando é que o programa de apoio, financeiro ou não, poderá ser implementado. Vai depender do desenvolvimento dos acontecimentos. Particularmente gosto de Moçambique, e torço para que as coisas sigam para uma direcção favorável. É um desejo pessoal e institucional.
Olhando a essa tal perspectiva mais institucional, Moçambique terá feito, porventura mais, em termos da sua estrutura administrativa e legal nos últimos dois anos graças a uma série de medidas que nunca tinha tomado antes, e que teve de assumir quando deixou de ter apoio dos parceiros externos. O que nos leva a questionar sobre como poderão evoluir as formas de apoio ao desenvolvimento económico: irão, um dia, continuar a entrar nas contas do Orçamento do Estado ou destinar-se-ão cada vez mais a instituições de promoção do desenvolvimento, e projectos específicos?
Há muitos trabalhos de economia política que oferecem uma visão bastante clara de que as crises são bem-vindas, no sentido de que oferecem oportunidades de reformas que, em tempos normais de mudança, não têm incentivos para se realizarem. Ou seja, se está tudo bem, ninguém ‘mexe no jogo’. Assim, e de forma muito clara, o nosso desejo é que a crise que Moçambique enfrenta ofereça uma oportunidade única para o país, independentemente da intervenção dos doadores e do próprio FMI. É nosso desejo que, por si próprio, o país possa aprender com o que ocorreu e, obviamente, tomar uma nova direcção. O abranda-
mento económico ofereceu, creio que isso é um facto, uma oportunidade real de Moçambique definir até, qual deverá ser o papel dos parceiros e agentes externos do país daqui para frente.
Fica a ideia de que o FMI não quer “deixar cair” Moçambique. Porquê? Terá isso a ver com o que está em jogo no futuro do país?
O FMI não quer que nenhum país membro “caia” e faz grande esforço para que as relações se mantenham boas e as possibilidades de assistência, sejam de que formato forem, continuem sempre a existir.
O FMI tem ‘má fama’ em muitos países e por vezes nota-se a politização da forma como se olha para a instituição: quem é de direita gosta e quem é de esquerda não. Porque é que isso acontece? Terá a ver com o timing em que por norma surge, no contexto da vida económica dos países em que intervém?
É uma pergunta interessante essa (sorri). Bem, quando o bombeiro chega para apagar as chamas, o que acontece em muitas situações, é que logo após as chamas baixarem ele é confundido com o próprio fogo e as suas consequências nefastas. Esta metáfora serve para explicar exactamente a questão que me coloca. Quando a situação é de facto muito negativa e os governos requisitam a nossa presença, obviamente que é fácil estabelecer-se uma ligação entre esse apoio que concedemos, as medidas que propomos, e as consequências ou resultados desse processo que, infelizmente, provoca efeitos indesejáveis. Na maioria das vezes, directamente relacionadas com a vida diária das pessoas que são quem mais sofre durante as crises. Sabemos que isso acontece, e posso dizer que tem sido feito um grande esfoço interno de repensar o engajamento, e focar muito a questão nos efeitos destas políticas. Acredito que evoluímos em relação ao que éramos no passado, e parece-me que esse é um processo natural. Porque no fundo, queremos continuar a melhorar a nossa imagem para que os países membros do FMI se sintam orgulhosos do papel que a instituição lhes pode prestar.
tExtO pedro cativelos & celso chambisso FOtOgrAFIA Jay garrido
Crise, desordem e oportunidades perdidas. eis a eConomia do futebol naCional
O futebol é hoje uma indústria de biliões, a nível global. De espectadores, dólares e euros. Em Moçambique, a escala é diferente e o Moçambola tem-se visto assolado por problemas financeiros que afectam clubes, Federação e patrocinadores. A E&M foi tentar perceber o que falta ao futebol nacional para ser uma força produtiva na economia
seria bom que fosse possível revelar quanto dinheiro movimenta o futebol em Moçambique. De forma cabal e explícita. Como acontece no mundo empresarial, com um balanço de investimentos, receitas, despesas, e eventuais lucros. Mas, esse exercício ou, porque falamos de futebol, concretizar esta jogada em golo, é bem mais complicado do que o que parece.
À semelhança do que acontece no contexto onde o futebol é rei, e movimenta milhares de milhões de dólares. Como em Inglaterra, onde se disputa o campeonato mais valioso do mundo, a Premier League que vale (para a Sky e a BT Sport que garantiram três anos de direitos exclusivos de transmissão dos jogos, entre 2019 e 2022) cerca de 6,3 mil milhões de dólares, uma soma a que se chega com base no valor de merca-
do dos futebolistas que participam no campeonato, nas audiências globais geradas, e na competitividade da própria Liga, conhecida pela imprevisibilidade dos resultados em cada jornada (uma das excepções aconteceu este ano, com a vitória do City de Guardiola, detido pelo sheik Mansour bin Zayed Al Nahyan dos Emiratos Árabes Unidos que já investiu 1200 milhões de dólares desde que comprou o clube, em 2008). Ali, este exemplo, é a excepção que confirma a regra. O futebol é um manjar apetecível, a grandes investidores externos, e os principais clubes (e nao só), são detidos por grandes empresas multinacionais. Porquê? Bem. Porque o palco mediático é global, e a competição tem um modelo bem definido de partilha das tais receitas televisivas por todos os competidores do campeonato, que rece-
milhões de dólares É o orçamento para organizar a temporada do moçambola. mas o que se conseguiu para a presente temporada está em torno dos 500 mil dólares. o resto fica por mobilizar atravÉs da consecução de novas parcerias
bem a sua fatia anual, de acordo com a posição alcançada no ano anterior. Depois, as contas são claras e ajudam, elas próprias, a gerar interesse em torno da grandeza do campeonato. E do futebol. Visibilidade é o que se procura, e quanto maior presença nos media, melhor para a competição, e seus participantes. Já em Moçambique, os clubes fecham-se. Não revelam os valores que movimentam, o que porventura tem a ver com a falta de um trabalho de base que permita levantar dados económicos sobre o Moçambola e os seus intervenientes. É o próprio presidente da Federação Moçambicana de Futebol (FMF), Alberto Simango Júnior quem alerta para esta realidade.
Ainda assim, assegura que “o futebol tem evoluído muito na componente económica e é hoje uma indústria aqui tal como em vários países no mundo”. Para argumentar o poder que o futebol tem de gerar riqueza, o presidente da FMF refere que, de há alguns anos a esta parte, “o campeonato nacional tem estado a atrair futebolistas e treinadores estrangeiros e a colocar jogadores nacionais em mercados mais competitivos, o que não se consegue sem que se tenha visibilidade.“
Para Alberto Simango Júnior, “o crescimento do interesse dos empresários em agenciar futebolistas e de firmar contratos com clubes de campeonatos como o da África do Sul, Portugal, França, resulta do desenvolvimento da consciência de que o futebol dá dinheiro”. E dá de diversas formas, prossegue. “Directa e indirectamente, o futebol emprega e põe pão à mesa de muitas famílias. É hoje praticamente impossível imaginar a vida sem o futebol (joga-se durante 10 meses no ano e nenhuma outra modalidade faz isso)”, justifica.
as contas do moçambola Já o presidente da Liga Moçambicana de Futebol (LMF) apresenta duas faces contrárias da realidade, em relação à economia que é gerada e circula pelo futebol: “Sabemos que há realidades muito díspares. Tenho informações de que há clubes que pagam aos treinadores até 800 mil meticais por mês, e jogadores que auferem 60 a 70 mil meticais mensalmente. Mas a realidade do nosso futebol também indica que há outros treinadores que ganham 60 mil meticais e jogadores que ganham entre 5 e 10 mil meticais” revelou, reconhecendo que não há informação transparente sobre o
O DEsEnhO DO FinAnciAMEntO DO MOçAMbOlA
Passe
Existem duas fontes de receita para a Liga Moçambicana de Futebol (LMF) entidade responsável pela organização do campeonato nacional – o Moçambola
cruzamento
Se os patrocinadores detêm a maior comparticipação no orçamento do Moçambola, já os clubes pagam a chamada jóia de participação e a inspecção para participarem no campeonato
Remate
Na época em curso, houve sete empresas que não entraram com patrocínios ou apoios ao campeonato nacional, o que dificultou as contas da organização e dos clubes.O problema vem na sequência do que se passou na época anterior, em que existiam compromissos de 158 milhões de meticais, dos quais apenas 44 milhões entraram nos confres da organização da prova
Mas nem todos os patrocínios são pecuniários. Se a ZAP, por exemplo, paga o direito das transmissões televisivas, (120 milhões de meticais no ano passado) entidades como a Aeroportos de Moçambique, por exemplo, realizam descontos nas taxas de embarque.
Já a companhia Linhas Aéreas de Moçambique (LAM) também oferece descontos nas passagens aéreas dos clubes
valor que é movimentado, porque os clubes não partilham a informação. Por se tratar de uma actividade que sobrevive, em mais de 80%, dos fundos de patrocínios, drenados para as entidades organizadoras dos campeonatos e para os clubes, é por aqui que iremos centrar a abordagem da economia do futebol nas suas diversas vertentes.
Uma pesquisa da E&M junto de vários actores importantes da “família futebol”, concluiu que a acção empresarial é muito fraca e isso traduz-se no fluxo limitado de recursos que a modalidade gera e faz circular em relação ao potencial que pode ser produzido, tendo-se tornado unânime a ideia de que o investimento das empresas no futebol em Moçambique não gera retorno. Ele existe apenas por “boa vontade” das empresas.
O jornalista desportivo Sérgio Marcos, membro da Comissão de Imprensa da Confederação Africana de Futebol (CAF) e com larga experiência no acompanhamento de campeonatos de futebol a nível interno, em África e no mundo, confirma esta ideia.
Ele revela que “nunca houve acção empresarial no desporto, no sentido de organizar espectáculos desportivos para que as empresas anunciantes vejam interesse em associar as suas marcas a esses espectáculos, buscando espaço para que possam valorizar as suas marcas e acções de marketing”, explica.
E prossegue: “Os dirigentes desportivos limitam-se a organizar as competições, gerem os calendários e aguardam que o público compareça, que os patrocinadores adiram e que haja alguma cobertura pela comunicação social”.
E para o jornalista, isto não chega, porque o que deveria acontecer, “seria uma acção organizada seguindo passos e padrões que vão ao encontro da estratégia de comunicação e visão de mercado de determinada empresa anunciante.”
Nada do que aqui se fala, se trata de “inventar a roda”, ou a bola no caso. Sérgio Marcos dá o exemplo da África do Sul, onde os maiores patrocinadores (Grupo ABSA, Vodacom, Sasol) se envolvem no futebol pelo facto de o espectáculo ser organizado para acomodar a exposição e criar a apetência dessas marcas. Mas porque em Moçambique não é assim, “as empresas não veem valor nenhum em se associarem a estas competições, logo, o patrocínio que aparece não é empresarial, mas sim de apoio. Ou seja, as empresas que apoiam o desporto não estão à espera de retornos dessa inter-
MACRO
venção. É o papel do gestor desportivo orientar a organização do espectáculo para a satisfação do anunciante, e esse deve ser um contínuo exercício de criatividade e de estudo do mercado.”
O especialista lamenta ainda a ausência dos requisitos na construção da atmosfera apropriada de ponto de vista empresarial em Moçambique, nomeadamente estádios cheios, posição das câmaras em pontos tecnicamente apropriados para dar o melhor panorama do jogo e da disposição dos patrocínios nos estádios e a consciência de que o principal aliado de um espectáculo de futebol, hoje em dia, é a televisão. “Em Moçambique ainda não percebemos isso e continuamos a construir estádios sem posição para câmaras e com poucas condições para os parceiros de media, e para os adeptos”, critica.
investimento precisa-se No entanto, o problema é mais complicado do que parece. Para haver investimento, tem de melhorar a organização, que irá permitir mais público e acima de tudo mais patrocinadores. Mas para que isso aconteça, é preciso mais investimento. Ananias Couana, presidente da Liga Moçambicana de Futebol (LMF), a entidade organizadora do Moçambola tem noção das limitações do campeonato nacional. E atribui o facto de a organização não ser feita de modo adequado a exponenciar a atenção dos potenciais patrocinadores “às limitações financeiras existentes. As condições que se nos oferecem não dão a possibilidade de fazer além do que se consegue realizar. Por exemplo, os clubes ou a LMF poderiam ter um spot publicitário na comunicação social que diz que há um derby neste sábado, mas não temos condições para isso. Não há uma linha no orçamento que esteja direcionada às despesas com marketing”, explica Ananias Couana. Para este dirigente, “se o futebol pode ser considerado um veículo catalisador da economia, mesmo que não esteja em igualdade de circunstâncias com as outras actividades, precisa de uma política clara em termos de investimentos, à semelhança do que sucede no futebol da África do Sul, Quénia, entre outros países africanos.
Em Moçambique não temos essa política e vamos funcionando graças à boa vontade das empresas, particularmente do gestor de topo dessas empresas, porque se este não gosta de futebol, é livre de retirar o apoio da sua matriz de prioridades. Para mim não faz sentido que em-
PAtROcíniOs cAíRAM...
Abrandamento económico teve impacto na estratégia dos patrocinadores, que deixaram de financiar o Moçambola. Outros reduziram significativamente as injecções financeiras para o futebol
presas como a Mozal, a Sasol, Anadarko e outras de grande dimensão não apoiarem o futebol, que é uma actividade que cria emprego formal e informal, e dinamiza a economia”, critica o presidente da LMF.
Crise reduziu patrocínios
A falta de retorno do futebol nacional (patrocínios reduziram seis vezes nos últimos dois anos) tem abalado o Moçambola.
Porque a economia abrandou, e as empresas patrocinadoras tiveram de redimensionar as suas prioridades, sendo que as regras de austeridade (e da boa gestão) mandam cortar onde não haja retorno evidente. No contacto com os clubes, torna-se evidente a falta de números concretos, mas generaliza-se o discurso das dificuldades de tesouraria. “Estamos numa fase má da economia. Tínhamos quatro principais patrocinadores e ficamos com a penas um, o BCI, que patrocina a equipa sénior feminina de basquetebol. Tínhamos a Mcel, MPDC, Petromoc, que deixaram de patrocinar o clube”, lamenta o presidente do Ferroviário de Maputo, Sancho Quipiço.
...E As FOntEs nãO DivERsiFicARAM
Clubes sobrevivem das contribuições dos sponsors. O Moçambola tem 500 mil dólares dos 2 milhões de que precisa, e os patrocinadores não se chegam à frente
outras receitas
“Sentimos a crise. Até 2014, o Costa do Sol tinha quatro parceiros fortes, dos quais dois saíram (um dos quais a Mcel) um reduziu o apoio financeiro em 40% (o BCI), o que levou a que o apoio global caísse na ordem de quase 50%”, revelou Amosse Chicualacuala, presidente do Costa do Sol. Actuamente, é a Electricidade de Moçambique o patrocinador principal, que mantém o apoio que cobre 75% das necessidades do clube.
E porque é preciso levar avante as competições, os clubes desdobram-se na busca de alternativas. O Ferroviário de Maputo, por exemplo, anda em busca de parceiros para investir e rentabilizar o espaço exterior do estádio da Machava, na província de Maputo.
Já o Costa do Sol viu-se obrigado a identificar novos patrocinadores que entraram com apoio directo ao futebol. Casos da Matola Gas Company ou da Gigawatt. Graças a estes apoios, o clube consegue pagar salários aos profissionais e subsídios aos atletas não profissionais, além de contratar jogadores estrangeiros (da Nigéria, Libéria ou Malawi).
Uma outra importante fonte de receita, é a bilheteira.
Ou deveria ser. Grosso modo, e de acordo com o que apurámos junto dos clubes, tem gerado prejuízos, porque a adesão de espectadores é fraca e não cobre
mil dólares
em milhões de meticais
fonte Liga Moçambicana de futebol
fonte Liga Moçambicana de futebol
os custos com a organização dos jogos. Segundo o presidente da LMF, a Empresa Nacional de Hidrocarbonetos (ENH), Electricidade de Moçambique (EDM) e Mcel estão entre as empresas que deixaram de patrocinar a prova. O resultado é que dos 1,2 milhões de dólares necessários para a realização de um campeonato, a LMF arrancou a nova época dispondo de apenas 500 mil dólares.
O mais grave é que esta situação gera incumprimento de pagamentos, sobretudo com passagens aéreas na deslocação das equipas. Grave, ao ponto de a continuidade da competição na presente época, à semelhança das três edições anteriores, estar fortemente ameaçada. O campeonato acabou por ser interrompido nas primeiras semanas do mês passado, por tempo indeterminado, por causa da dívida que a LMF contraiu junto à LAM com passagens aéreas das equipas.
agenciamento de jogadores ainda não é devidamente aproveitado
No entanto, dentro do negócio futebol há segmentos que até nem precisam de muito para serem lucrativos. Quem não ouviu falar de Jorge Mendes, super-agente que apostou, no início do século num jovem de 17 anos chamado Cristiano Ronaldo e o levou ao topo do mundo. E há muitos outros que fazem do agenciamento de jogadores um negócio extremamente rentável, até em países africanos com tradição na ‘produção’ de craques da bola, casos da Nigéria, Gana ou a Costa do Marfim, mercados que alimentam as ligas francesa, belga, e holandesa, como porta de entrada europeia nas maiores ligas como a Premier Inglesa, ou a La Liga, de Espanha.
E se, atentos ao potencial do mercado nacional, já existem em Moçambique as escolas de formação do Benfica, (abriu em 2017 e já conta com 200 jovens) e até uma Academia do Real Madrid, no sentido inverso, de Moçambique para o mundo, são ainda poucos os empresários nacionais a apostarem nesta vertente da formação e ‘exportação’ de talentos’ nacionais. E até podiam fazê-lo, utilizando a Liga Portuguesa para tal. Um dos poucos que seguiu esse caminho
é Jonas Nhaca, director da Futesportmoz, uma empresa de prospecção de talentos no futebol moçambicano, quer nos clubes quer no futebol dos bairros. A ideia é simples de explicar. Detectar talento, e levá-los ao profissionalismo, primeiro a nível interno, e depois internacionalmente. Nhaca considera que há uma certa “cegueira da classe empresarial em olhar para o futebol como oportunidade de negócio, porque não há muita expectativa em termos do retorno que isso possa geral, visto que uma aposta feste género não dá resultados imediatos.”
Pela qualidade dos recursos, não será. Moçambique “produziu” talentos que ficaram na história do futebol, como Eusébio, ou Coluna.
Mais recentemente, exemplos de mo-
Dívida com a lAM provocou a interrupção do Moçambola na sétima jornada. Depois de uma semana de paragem, a liga decidiu que as equipas passam a viajar de autocarro, solução de recurso que permitiu que a competição retomasse
çambicanos que renderam fortunas a empresários com a sua venda para o exterior incluem Mexer (França), Zainadine Júnior (Portugal), Dominguês (África do Sul). Mas têm sido as excepções. As tais que confirmam uma regra difícil de aceitar. Até porque, para o empresário, jovens de qualidade e talento para o futebol é algo que não falta um pouco por todo o Moçambique.
Isto, assinala, “a avaliar pelo potencial individual de jogadores que vemos nos bairros periféricos de todo o país, e que observamos no próprio Moçambola. Só que esta teria de ser uma aposta feita a pensar no longo prazo. Se olharmos para tudo isto com responsabilidade, podemos ter bom retorno num horizonte de cinco a dez anos e entendo que isso para muitos, pode ser tempo demasiado”, sublinha o empresário. “Mas, compensa.”
tExtO Celso Chambisso FOtOgrAFiA Jay Garrido
Alberto simango Júnior: “Apesar das dificuldades, o futebol é o pão de muitas famílias”
Números em conta
EUA-MoçAMbiqUE , o coMércio vAi
as trocas comerciais entre Moçambique e os Estados Unidos cresceram para 325,5 milhões de dólares em 2017, de acordo com os últimos dados do Census Bureau dos EUA, que recolhe a informação de todos os parceiros comerciais norte-americanos. Assim, o volume de trocas comerciais apresenta um percentual de 26,24 acima do total do comércio no ano anterior. Se olharmos ao desempenho das importações oriundas dos Estados Unidos, verificamos um aumento de 22,45%. Já do lado das exportações nacionais com destino ao mercado norte-americano, elas cresceram 31,26%, sendo que Moçambique ficou no 126º lugar entre o
5
MiAMi
Trade: 28 milhões de dólares
Variação: +346,2%
Importações: 15 milhões de dólares
Exportações: 13 milhões de dólares
Variação: + 8 794,3%
4
MobilE
Trade: 30 milhões de dólares
Variação: +3,15%
Importações: N/A
Exportações: 30 milhões
Variação: + 3,71%
dE vEnto EM popA
total dos parceiros comerciais dos Estados Unidos durante o período actual (no mesmo período há um ano, ficou em 139º).
No entanto, a balança comercial entre ambos os mercados é deficitária em 34,39 milhões de dólares, uma tendência que, nos últimos anos tem estado a inverter-se, fruto do aumento de saídas de metais e pedras preciosas.
Analisando os produtos do trade Moçambique-EUA, as cinco principais importações em valor até Dezembro passado (50,8 % do total) aconteceram nas categorias de produtos petrolíferos e hidrocarbonetos gasosos; compressores e bombas; trigo; e aeronaves civis (nomeadamente peças), e tiveram como principais destinos, portos (na
2 novA iorqUE
Trade: 51 milhões de dólares
Variação: +65,78%
Importações: 6 milhões de dólares
Exportações: 45 milhões de dólares
Variação: +93,98
sua maioria) e alguns aeroportos dos EUA (ver infografia).
Do lado dos produtos exportados, pedras preciosas (nomeadamente rúbis de Montepuez), titânio, castanha de caju, coco, tabaco, frutas e nozes, minérios (areias pesadas), e até artesanato, constam da lista dos produtos mais vendidos por Moçambique aos Estados Unidos. Na sua maioria (os produzidos ou manufacturados em território nacional) eles saíram do país ao abrigo do AGOA, que permite o acesso de aproximadamente 7 000 posições pautais de produtos diversos, originários de países da África Subsariana dos quais se destacam produtos agrícolas, pesqueiros, químicos e equipamento de transporte.
HoUston
Trade: 66 milhões de dólares
Variação: -3,3%
Importações: 58milhões de dólares
Exportações: 8 milhões de dólares
Variação: - 56,24%
Trade: 39 milhões de dólares
Variação: + 5,57%,
Importações: 37 milhões
Exportações: 2 milhões de dólares
Variação: + 303,2% 3
179 000 000 dE dólArEs
Valor das importações provenientes dos Estados Unidos aumentou 22,45%
325 000 000
dE dólArEs
Foi o valor final das trocas comerciais entre Moçambique e Estados Unidos, em 2017
145 600 000 dE dólArEs
As exportações de Moçambique aumentaram 31,26% ao longo de 2017
O quE VEndEmOs…
Pedras preciosas, minérios de titânio coco, castanha do Brasil e de caju, cana, açúcar de beterraba, e derivados de petróleo respondem por 92,16% de todas as exportações para os EUA
em milhões de dólares
pedras preciosas minérios de titânio
coco, castanha do brasil, castanha de caju
cana, açúcar de beterraba
óleos
moçambique
34 390 000 dE dólArEs
O deficit da balança comercial entre Moçambique e Estados Unidos
O lugar de Moçambique entre os parceiros comerciais dos Estados Unidos
… E O quE ImpOrTámOs
Para lá do petróleo e derivados, que lideram a lista das compras, óleo de soja, cacau e motores, são alguns dos itens que pesam nesta lista
em milhões de dólares
produtos de petróleo
gases de pretróleo, outros hidrocarbonetos gasosos
compressores e bombas
trigo
aviões civis (peças)
VAriAções fAce A 2016 foNte: census Bureau dos eUA, UstDA - U.s trade and Development Agency
Nação
Made in MoçaMbique orgulho
ou preconceito?
O que falta para que hajam mais produtos nacionais, em quantidade e qualidade, e como é que o conteúdo local pode ser efectivo nos grandes projectos. Ou como colocar as PME a subirem de patamar, melhorando o ambiente de negócios para então, voltar ao começo e fazer aumentar a captação de investimento reinvestindo na economia nacional. É este o caminho para fazer crescer o orgulho e a confiança de que o que é nacional, pode ser mesmo bom
o que é feito em moçambique padece de um mal comum, noutros países. Luciano Pavarotti, um dos maiores tenores de todos os tempos, costumava dizer que “só havia um sítio no mundo inteiro”, onde ele não era considerado o melhor: em Modena, Itália, a sua terra natal. Por aqui se vê que, gostar mais do que vem de longe, do que aquilo que temos perto todos os dias, é um comportamento humano, e não apenas um mal nacional. E os divórcios estão aí para o provar. Ao nível dos países, também é assim. Nos últimos anos, o branding de uma nação tornou-se um negócio bilionário mas nem sempre ele foi feito por agências. Exemplos, mais ou menos famosos não faltam ao longo da história: desde a primeira pessoa que chamou a Israel de ‘a terra prometida’; ou aos Estados Unidos de ‘a terra da oportunidade’, passando pelo viking ‘Erik, o vermelho’, que nomeou um grande bloco de gelo como
‘Greeneland’ (a terra verde). na esperança de atrair mais colonos para lá.
Sem querer, Milton Glaser inventou o famoso “I love NY’ impresso num bilião de t’shirts; e mais de propósito uma agência de publicidade de Las Vegas ‘determinou’ que o que ‘acontece em Vegas”, fica mesmo em Vegas. O mundo foi sempre mudando, mas a nossa percepção dele, ainda mais. Hoje, na era globalizada onde todos querem conquistar o seu lugar, pequenas aldeias, vilas, cidades, regiões e até países estão cada vez mais ávidos pela resposta à questão: o que faz uma nação ser uma nação?
Sabendo que todos os países foram construídos em torno de algum tipo de ideia ou ideal, mas olhando para eles como se de marcas (que precisam de interagir com outras, atrair visitantes, investidores, ou mediatismo) se tratassem, eles precisam de uma forma de identidade
considerada única, mesmo que tenha apenas alguns salpicos de verdade e outros tantos de muito exagero. E é claro que é por isso que quem está perto, e conhece a realidade por inteiro, não se deixa, na maior parte das vezes, seduzir por esta ideia.
Claro que, pelo meio, há a economia. Se na América, o que é americano é o melhor, na China acontece o contrário. Mas ambos têm na indústria (e nos seus vários segmentos) o motivo de serem as duas maiores economias do mundo. Mas, há outros exemplos: como a Coreia do Sul onde estão as mundialmente reconhecidas (porventura até mais que o país) Samsung e Hyundai. E até Espanha, um país fortemente industrializado, onde o orgulho nacional (numa nação fortemente dividida pelo regionalismo) foi construído em torno dos produtos ‘made in España’, e em que, até certos aspectos culturais,
Nação
PrOduçãO cOncEntrada
alumínio e o carvão tiveram um grande ano e são responsávels por quase 70% das exportações. Madeira, camarão, lagosta, banana, algodão e coco (outros) não chegam aos 200 milhões
indústria MExE POucO
o ano passado mostrou as exportações a crescer mais que as importações. no entanto, a tendência é alavancada pelos mega projectos e não por melhor desempenho da manufactura
de tão fortes que eram, como o flamenco ou as touradas foram exportados para o mundo, como símbolos mais visíveis de uma determinada identidade. Ninguém melhor que a economia para saber cavalgar estas ondas, e muitas vezes até é ela própria, a sua causadora. Até porque tudo é, afinal, economia. Olhando a Moçambique, o saldo entre o orgulho e o preconceito do que é feito em território nacional, é ainda diminuto. Acima de tudo, porque o que se faz, é ainda muito pouco.
Nas economias em desenvolvimento e emergentes, (incluindo a China), o valor médio adicionado pela indústria de transformação ao PIB tem aumentado consistentemente na última década, atingindo em média os 21% (de acordo com um relatório da Unido. das Nações Unidas de 2017).
Por cá, a indústria transformadora (aquela que pode colocar a tal etiqueta que quase nunca vemos, com a inscrição ‘made in Moçambique’) representa apenas 8,6% do PIB nacional, e até caiu no ano passado.
4,1 mil milhões de dólares
Volume total de exportações em 2017 cresceu 27% devido ao carvão
idE dOs grandEs PrOjEctOs dá frutOs
Gráfico mostra que o ide injectado nos grandes projectos começa a dar frutos, mas expõe a fragilidade do sector transformador à falta de investimento
Para além disso, a quase totalidade desse valor, advém dos chamados mega-projectos (com a Mozal e HCB à cabeça, sem esquecer os cimentos, ou as petroquímicas). Sobram os tais produtos de consumo ‘made in Moçambique’ que, todos juntos, não valerão hoje de acordo com as nossas contas, mais do que 1,5% a 2% do PIB (qualquer coisa como 250 milhões de dólares).
o que falta ao conteúdo local
Com a difusão das grandes empresas multinacionais por todo o globo, tornouse evidente a necessidade de reduzir custos em importações, o que impulsionou o desenvolvimento industrial, e mudou a direcção dos investimentos para produção local, de modo a abastecer o próprio mercado. Em Moçambique, o modelo de desenvolvimento económico seguido foi impulsionado por fluxos de Investimento Directo Estrangeiro (IDE) direccionados aos megaprojectos de indústria (alumínio, energia) e do sector extractivo (carvão, gás e areias pesadas).
São várias, as vozes que já alertaram para este problema que, se por um lado fez entrar grandes volumes de capital na economia fazendo-a crescer, por outro, não é de todo o mais indicado para a motivar a desenvolver-se.
Se projectos como estes podem promover o intercâmbio com o estrangeiro, e o aumento do número de postos de emprego
indústria Transformadora
indústria extractiva
em milhares de milhões de dólares
Nação
e do volume de receitas em impostos, assim como a possibilidade de promoção de firmas locais, nomeadamente as PME. no mercado, muito há ainda por fazer a este respeito.
A começar pela tão propalada questão do conteúdo local, ao qual falta “capacidade técnica, humana, financeira, e algum desconhecimento (em muitos casos) dos requisitos de qualidade e calendarização.”
São os próprios agentes quem assume serem estes, os principais factores que reprimem a participação das empresas nacionais nos mega-projectos. “Não basta que as empresas nacionais demostrem a ambição de prestar serviços às multinacionais. É preciso que, numa primeira fase, sejam dotadas de uma boa estrutura
técnica e capacidade de produzir em grande escala para além de previamente se prestarem a satisfazer o consumo doméstico, antes do industrial”, aponta o economista Thomas Selemane, à E&M. Há também estudos desenvolvidos ao longo dos últimos anos, que comprovam esta ideia, multiplicada por inúmeros documentos publicados pelo Instituto dos Estudos Sociais e Económicos (IESE) e até pelo Mozambique Support Program for Economic and Enterprise Development (programa SPEED) e que falam “das poucas oportunidades que são concedidas às empresas nacionais nos mega-projectos devido às fragilidades que elas apresentam.”
Na proposta de lei do conteúdo local que
deficiências na gestão de grande parte das PME nacionais impedem-nas de trabalhar com as multinacionais. É por isso que muitas delas estão a optar pela certificação
vem, de há muito, a ser discutida, pode ler-se que “nos termos contratuais, as empresas multinacionais que operam na área mineira e de hidrocarbonetos têm a obrigação de privilegiar a contratação da mão-de-obra moçambicana. Sendo que o recurso à mão-de-obra estrangeira só deve acontecer depois de esgotada a busca de trabalhadores nacionais qualificados. Para o efeito, as empresas devem comunicar com o Governo através do Ministério que superintende a sua área. Na fase de prospecção e pesquisa, as empresas podem contratar até 40% de trabalhadores estrangeiros do número total da força de trabalho necessária. Nas fases de desenvolvimento e exploração os limites vão de 30% a 20%, respectivamente, nos primeiros cinco anos. Depois de cinco anos, a quota é fixada em 10%.” E para lá da mão-de-obra, há também quotas indicadoras para o que deverá ser produzido e utilizado em Moçambique.
imagem ainda pouco vista: a integração de quadros nacionais nos grandes projectos será, em breve, transposta para lei
No entanto, a estratégia peca pelo lado da oferta, como confirma um estudo do ano passado, da Fundação Friedrich-Ebert, sobre “Indústria Extractiva em Moçambique - Perspectivas para o desenvolvimento do país”, que revelava que “continua a prevalecer a escassez de mão-de-obra altamente qualificada para a indústria extractiva assim como para outras áreas que exijam uma tecnologia de ponta”.
Nas suas conclusões, pode ainda ler-se que “a baixa qualificação é um dos grandes factores que contribui para a fraca competitividade das empresas nacionais”.
Assim, com ou sem lei, a participação das PME nacionais é vista como “um enorme desafio, na medida em que ainda não existem claramente ligações empresariais entre os mega-projectos e as PME”.
Porém, o estudo justifica que, “as empresas nacionais, carecem de incentivos tais como de crédito barato, isenções fiscais, e redução de impostos para poderem responder com qualidade às exigências que os grandes projectos da indústria extractiva lhes impõem.”
Voltando a Selemane, o economista deixa uma pergunta comum a muitos dos que pensam Moçambique de forma integrada: “porque temos tanta terra arável, um enorme potencial hidrográfico, mas não conseguimos produzir a nossa própria comida? E como é que as empresas vão conseguir produzir alface e tomate para fornecer os mega-projectos quando nem conseguem satisfazer o consumo interno”, questiona. Recorrendo a um estudo feito em 2013, ele explica que olhando às multinacionais que operam na exploração de carvão na província de Tete, “das 17 empresas que prestavam serviços e bens para elas, apenas duas eram nacionais, sendo uma de escavação e outra de transporte.”
Para a Câmara de Comércio de Moçambique (CCM), que serve de elo de ligação do empresariado nacional com as empresas estrangeiras, o problema está na “falta de políticas de incentivo e de protecção das empresas nacionais para que estas possam trabalhar com as multinacionais”. E é por isso que, de acordo com o consultor da CCM, Salimo Hanifo, as empresas “partem sempre em desvantagem para poder participar nos mega-projectos, dada a falta de preparação para lidarem com as exigências das multinacionais. Não existe no país essa política efectiva que possa a ser implementada de forma a que o conteúdo
Os sEctOrEs na EcOnOMia…
agricultura continua a ser maior contribuinte do Pib nacional
… E cOMO cOntribuiraM Para O crEsciMEntO
Performance das extractivas foi decisivo para o crescimento do Pib
0,8%
Foi quanto caiu o sector da indústria transFormadora em 2018. com um peso de 8,6% na criação de riqueza nacional, tem perdido terreno para a indústria extractiva que, alavancada pelo aumento da exportação de carvão, Foi a a que mais cresceu ao longo do ano passado
local seja efectivamente levado a sério”, defende o consultor, à E&M.
a importância da certificação
No entanto, esta tendência apresenta alguns traços de mudança nos últimos dois anos, em que já existem mais PME que estão a trabalhar com multinacionais, em áreas como a consultoria, ou o fornecimento de bens e serviços, casos da First Metical, da MB Consulting, da GMSC, ou da Transcrane, Mas há mais a chegar. Nesse sentido, há um ramo de negócio que tem vindo a crescer: a certificação. Só nos últimos 18 meses, o número de empresas certificadas quase que duplicou, em Moçambique, especialmente através da norma ‘ISO 9001’ que certifica os sistemas de gestão de qualidade. Através do INNOQ, instituto estatal que regulamenta o sector, percebemos que “a certificação de produtos e serviços agrega valor às marcas e facilita a introdução de novos produtos no mercado. Tecnicamente, garante a conformidade, qualidade e segurança, elevando o nível de produtos e serviços, reduzindo perdas e melhorando a gestão de todo o processo produtivo.”
Célia Vieira, executive-manager da Sigwise - soluções integradas de gestão, é uma das pessoas que melhor conhece os mecanismos da certificação no mercado nacional. Para ela “é absolutamente decisiva a necessidade de aumentar os níveis e qualidade de procedimentos de gestão das empresas nacionais. Isso tem vindo a ser feito por muitas das empresas que têm maior capacidade para implementar sistemas de gestão certificados em áreas como a construção, a indústira das águas, ou a logística por exemplo”, assinala. No entanto, diz, “há ainda muitas dificuldades, que passam pela preparação dos quadros ao nível da gestão, do enquadramento da actividade, e dos objectivos das empresas”, complementa. No entanto, não deixa de assinalar que “se cada vez mais PME querem de facto entrar nos grandes projectos que estão por vir, nomeadamente na área de ‘oil and gas’, necessitarão cada vez mais de estar certificados, pois é isso que vai ser exigido pelas grandes multinacionais e, de forma geral, ainda há um longo caminho pela frente a este respeito.”
Selemane, vai mais longe, e diz mesmo que “seria um verdadeiro milagre se as empresas nacionais o conseguissem, uma vez que a distância ainda é muita, entre o que é nacional, e o que não é. Não basta demostrarem vontade
FONTE Banco de Moçambique
Nação
de cooperar com as multinacionais, é preciso que haja competências e capacidade produtiva para lidarem com os projectos de grande envergadura”, diz. No entanto, e de acordo com um relatório do SPEED sobre políticas do desenvolvimento do conteúdo local, “essas razões são várias e muitas vezes, também não dependem só das empresas nacionais: “até ao momento, as empresas estrangeiras que operam no país, não partilham de forma sistemática os seus planos de aquisição e estimativas de compras de bens e serviços, requisitos e necessidades de emprego, normas e classes de bens e serviços a adquirir, bem como anúncios de concursos. Esta informação assimétrica resulta na incapacidade das empresas locais em competir de forma justa, devido à ausência de um conjunto de informações que lhes permita ajustar o seu comportamento empresarial face ao mercado”, justifica o SPEED. E há outros estudos que apontam a ligação entre o sector empresarial nacional com as multinacionais como sendo “considerada
Hanifo ,ConS u l t ro mCCad
“aS empreSaS naCionaiS partem Sempre em deSvantagem para poder participar nos megaprojectos, dada a falta de preparação para lidarem com as exigências das multinacionais”
fraco, situando-o abaixo dos 10%, percentagem considerada “insuficiente” para a Confederação das Associações Económicas de Moçambique (CTA), “tomando em consideração que qualquer contrato, subcontrato ou licença de prestação de bens e serviços na indústria nacional deveria incluir uma percentagem mínima de participação nacional de 25%”, defende Florival Mucave, Presidente da Comissão de Conteúdo Nacional e Ligações Empresariais e também Vice-presidente do Pelouro dos Recursos Minerais, Hidrocarbonetos e Energia na CTA.
Perde-se assim a hipótese de limar as arestasqueferem acapacidadedeatingir um efeito multiplicador que faça crescer a tão falada cadeia de valores da indústria extractiva com o impacto desejado ao nível dos mercados locais. Contactadas pela E&M, Andarko, Vale, e Sasol entenderam não ser o momento adequado para dar a conhecer as suas posições sobre o tema.
contexto difícil
Como vemos, a vida não é fácil para as empresas nacionais. Especialmente as que pretendem ser produtivas. Num panorama composto principalmente por micro-empresas, na sua maioria com pouco desenvolvimento tecnológico (indústria metálica, química, construção, produtos e serviços industriais, silvicultura, sectores de produção de papel e embalagens, têxtil e alimentar). A indústria encara inúmeros desafios que vão da concorrência com a importação da África do Sul, à deficiente rede de distribuição de energia. Depois, há a questão do financiamento, e das taxas de juro demasiadamente elevadas, mesmo quando os produtos financeiros são desenhados para o efeito. Resta-lhes o capital privado, uma solução que, com o reordenamento do apoio à economia, destinado a projectos (em vez de para o Orçamento de Estado) está a ganhar espaço.
A Global Impact Investing Network (GIIN) descreve Moçambique relativamente ao investimento de impacto, como “uma área de pouca actividade mas de abundante potencial”, nomeadamente na agricultura, e na pequena indústria. E depois, é claro, que todo o ecossistema empresarial não tem sido favorável para as empresas que operam na economia nacional. O tão falado ambiente de negócios, que é “dispendioso e bastante burocrático”. É o que se lê no relatório “Doing Business” do Banco Mundial, ano após ano. Dos dez indicadores analisados sobre a
Salimo
Empresas nacionais ainda só participam em cerca de 10% de todos os grandes projectos
actividade económica, Moçambique tem perdido posições praticamente em todos eles, estando agora em número 138, de entre 190 economias avaliadas.
E com a quebra do apoio por parte dos doadores, e a redução do IDE dos últimos anos, esta surge como uma das questões mais importantes para serem resolvidas. É por isso que existe um Conselho de Monitoria do Ambiente de Negócios (CMAN), dirigido pelo primeiro-ministro e participado por representantes do sector privado, que já levaram a cabo algumas medidas, no sentido da redução dos procedimentos de abertura de empresas, clarificação da exigência do depósito do capital social e protecção de sócios minoritários ou até, noutro contexto, a aprovação da medida de concessão dos vistos de fronteira.
Mas, as mudanças não ficam por aqui, como explica à E&M o director-nacional de Apoio ao Desenvolvimento do Sector Privado, Nicolau Sululo, um dos responsáveis pela coordenação da EMAN III (20182023), a estratégia nacional de melhoria
É a posição da economia moçambicana no ranking doing business que avalia a Facilidade de Fazer negócios. o governo já começou a implementar medidas para a simpliFicação de procedimentos de atribuição de licenças para o exercício da actividade económica, e a revisão do código comercial, e do registo predial. mas ainda Faltam muito para chegar aos 100 primeiros
do ambiente de negócios e do diálogo com o sector privado. “Estamos a preparar um conjunto de medidas que vão da revisão do Còdigo Comercial aos registos prediais, passando pela criação de uma central de garantias mobiliárias, e a introdução de serviços de mediação no Tribunal de Maputo, como forma de reduzir o tempo de resolução dos litígios comerciais. Olhamos cada vez com mais atenção para o ranking do Doing Business e estamos apostados em melhorar os principais indicadores de desempenho do país. Devo também dizer que nesta estratégia que entrará em vigor, quando aprovada, no segundo semestre do ano, também está contida a proposta de lei do conteúdo nacional, como um instrumento legal para equilibrar as empresas nacionais e as estrangeiras naquilo que devem ser os seus espaços de colaboração dentro de um quadro de deveres e direitos”, explica o responsável. Até lá, as empresas vão fazendo o seu trabalho. E se olharmos à conjuntura actual, a verdade é que há algumas que
Nação
parecem sobrepor-se a tudo, e apresentar bons produtos, e excelentes resultados.
Made in... aqui mesmo
Em meados da década passada, foi lançado o selo ‘Orgulho Moçambicano - Made in Mozambique’. No início, a expectativa era grande, mas com o passar dos anos, perdeu o embalo inicial. No entanto, para Ivone Macuácua, coordenadora do departamento para promoção dos produtos nacionais, inserido na Direcção Nacional de Indústria, “há uma vontade renovada de avivar este projecto”, diz à E&M. “Já com o cumprimento dos novos requisitos de acordo com a legislação em vigor, posso dizer que há de novo um crescente interesse das empresas em aderirem.”
Da listagem das empresas que usam o selo ‘Made in Mozambique’, as mais recentes são a Coca-Cola, a EnviroServ Wast Management e a Limak Cimentos. Juntam-se assim às quase 400 que já ostentam o selo nas suas embalagens ou portfolios de apresentações ao mercado. E há outros bons exemplos que podem ajudar a levantar o orgulho no que é nacional. A Bongani Cigars é um deles. Quando ouvimos falar de charutos, pensamos em cubanos ou dominicanos. Mas, e moçambicanos?! Seria algo que daria, há dois anos, para uma boa gargalhada, pensar que este produto de luxo habitualmente enrolado à mão (entre as coxas de uma cubana) começou a passar pelas mãos de uma equipa de mulheres moçambicanas, em plena baixa da capital, perto da 25 de Setembro. É ali a unidade de produção dos Bongani Cigars, um produto premium moçambicano, actualmente vendido em vários pontos da SADC (de Nairobi a Joanesburgo, até Luanda).
O homem por detrás do fumo é Kamal Moukheiber, um antigo banqueiro de investimentos há já alguns anos em Moçambique. “Bongani é uma palavra que significa gratidão, em zulu. E é isso que sinto em relação a Moçambique”, explica, sem esconder o orgulho por conseguir colocar como moçambicano, “o primeiro charuto de luxo em toda a África.”
Kamal agradece os elogios públicos feitos pelo próprio presidente, Filipe Nyusi. Mas a inspiração inicial, foi outra: “África não tem a tradição de se apresentar ao mundo com produtos transformados, ainda por cima premium, direccionados aos mercados ricos. Estamos sempre nesta visão das matérias-primas como
Havendo ainda poucos produtos nacionais, alguns deles são marcantes e já contribuem para a diversificação económica. dos charutos à cerveja, passando pelo piri-piri e pelos crocodilos
identificadoras de todo um continente. É preciso mudar esse paradigma”,assinala. Assim, aquela que seria uma desvantagem, foi transformada precisamente no oposto. “Li um dia a biografia de Robert Mondavi, o homem que estabeleceu as primeiras vinhas de alta qualidade nos Estados Unidos. Ele levou sementes dos melhores vinhedos franceses e semeou-as em Napa Valley, na Califórnia”. Isso aconteceu numa altura em que os vinhos franceses eram considerados os únicos que valiam a pena beber. Só que depois de Mondavi, tudo mudou, e o velho mundo, teve de prestar homenagem aos vinhos do novo mundo, da Califórnia, à África do Sul, ou à Nova Zelândia. E é esse o paradigma que este empresário nascido no líbano está a implementar, aqui mesmo em Moçambique. “O país já é um forte produtor de tabaco, mesmo a nível da região. Limitei-me a aproveitar um bom produto que já existe, contratei pessoas das maiores marcas de charutos no mundo para virem dar formação durante vários meses, e acrescentei à qualidade do produto aquilo que tinha,da minha ex-
periência profissional de muitos anos: a gestão, o criação de uma marca com conteúdo e uma imagem de referência, e a identificação de mercados alvo com crescimento económico e target específico para este produto que está feito de acordo com os padrões de qualidade do que há de melhor em todo o mundo”, conta. A receita, parece simples mas requer tempo para se apurar. No entanto outras marcas, produtos e empresas há no mercado que já o fazem, e que são, claramente diferenciadoras. Ou quem não tem orgulho na 2M ou na Laurentina Preta, no Café do Niassa, no Frango Nacional ou no Piri-Piri semeado em Marracuene que abastece a cadeia multinacional Nando’s. Ou até na criação de crocodilos de Manuel Guimarães, que a partir da Beira, serve algumas das maiores marcas da moda internacional. São tudo modas, é preciso é criar a nossa, e ter orgulho nela.
TexTo Pedro Cativelos & Hermenegildo langa foToGrafia istoCk PHoto
fábrica de capulana na nigéria: um dos grandes símbolos nacionais, não tem ainda uma indústria nacional
Na voz de...
“É preciso uma estratÉgia”
Lourenço sambo Director-geral da APIEX
Agência para a Promoção de Investimento e Exportações
Um caminho claro e definido, para fazer aumentar a produção interna. Ou a estratégia que muitos pedem, para actuar sobre o conteúdo local, enquanto forma de estimular o empresariado nacional, salvaguardando toda a cadeia de valores e respectivos benefícios económicos que daí advirão.
Criado em 2016, fruto da extinção de três instituições (Centro de Promoção de Investimentos-CPI, Gabinete das Zonas Económicas de Desenvolvimento Acelerado - GAZEDA e Instituto para a Promoção de Exportações - IPEX), o APIEX tem duas grandes missões: a fazer aumentar as exportações, e abrir a porta ao Investimento Directo Estrangeiro (IDE) fundamental para a transferência de tecnologia e instalação de uma verdadeira rede transformadora no país. E não apenas de grandes indústrias ou mega-projectos. Em entrevista exclusiva à E&M, Lourenço Sambo fala da importância de criar uma verdadeira lógica de produção ‘made in Moçambique’.
Qual é, para si, a importância de fazer aumentar as exportações, num quadro em que o investimento externo reduziu sobremaneira nos últimos três anos?
É fundamental! E é por isso que estamos a construir uma estratégia de promoção de investimentos que vai determinar os próximos anos, a esse nível.
Promover exportações deve, necessariamente, implicar níveis elevados de produção interna com standard de qualidade competitivos. Moçambique apresenta algum défice a este nível. Será que existe uma matriz de produtos de exportação satisfatórios para as necessidades da economia?
Os principais aspectos que influenciam a competitividade das exportações no país incluem falta de capital, limitada capacidade de adicionar valor aos produtos; fraca modernização das técnicas e práticas agrícolas, insuficiente desenvolvimento do capital humano ou má organização e coordenação das
EXPOrTAr TODA A GrAFITE, TODO O GáS, E TODOS OS OuTrOS rECurSOS MINErAIS Ou AGríCOLAS DE QuE DISPOMOS
SEM TEr
CAPACIDADE DE TrANSFOrMAçãO DE Sub-PrODuTOS QuE DEPOIS, AINDA POr CIMA VAMOS TEr DE IMPOrTAr, É uM CrIME ECONóMICO A LONGO PrAZO
cadeias de valor, o que resulta numa insuficiente diversificação das nossas exportações. Primeiro, o país precisa então de aumentar o valor dos seus produtos para poder aumentar a competitividade das exportações.
E como se chega aí?
Vamos falar em dois níveis: o macro e micro. No primeiro, estamos a falar de projectos públicos, e aí é nossa tarefa (do APIEX) promover investimentos que o Orçamento do Estado não financia e que entram por via de parcerias público-privadas. Nesse sentido temos um Programa Integrado de Investimento Público que actualizamos de três em três meses. Quanto ao nível micro, recebemos mensalmente empresários que têm projectos de investimento. Fazemos o mapeamento, trabalhamos com a própria CTA, com as Câmaras do Comércio e com todo sector privado. E também recebemos intenções de investimento vindas do exterior. Ainda agora estamos a ir para a China com um mapa de projectos concretos identificados,
Na voz de...
A LOGíSTICA É uMA DAS GrANDES NECESSIDADES DE uMA ECONOMIA QuE
SE QuEr EXPANDIr, MAS AO QuAL FALTAM INFrA-ESTruTurAS DE bASE
A China, que é um crónico investidor em África, tem alterado a sua lógica de investimentos. Como é que isso se pode reflectir em Moçambique, em que tradicionalmente apostam mais na área da construção, por exemplo? É verdade. Comecemos por olhar para a última cimeira China-áfrica, em que a China deixou claro que o objectivo é aumentar a capacidade produtiva dos países africanos. É onde aparece o programa PIGA, uma ramificação de parcerias de negócios e investimentos entre empresas africanas e investidores chineses, que dá origem a um conjunto de projectos concretos a nível bilateral. No caso de Moçambique, há hoje investimentos chineses nas areias pesadas, na indústria do cimento (Niassa) na agricultura, mas também estão a desenhar aquilo que eles chamam de par-
ques industriais. A China está numa velocidade muito acelerado naquilo que podemos chamar de quarta revolução industrial. E quem descobriu grande parte das reservas que estão em Niassa foi a China, por exemplo.
O nível do IDE, que foi sempre direccionado para os grandes projectos tem caído, e isso tem efeitos sobre a agricultura e a manufatura. Como é que se contorna este facto?
O gráfico começou a descer em 2015, e continua a descer. Antes, tínhamos em média, 3,5 mil milhões de dólares de IDE, e em 2017 só tivemos mil milhões. A verdade é que a oferta está extremamente pobre, estamos a exportar muito pouco. Tirando naturalmente a Mozal, a EDM e o carvão, olhando aquilo que se chama diversificação económica de um país rico em recursos naturais,
MILHÕES DE DóLARES
O InvestImentO DIrectO estrangeIrO ‘InjectaDO’ na ecOnOmIa nacIOnal chegOu a ser DOs maIOres em áfrIca em 2014, e rOnDava Os 8 mIl mIlhões De Dólares, em granDe parte DIreccIOnaDOs a granDes prOjectOs. hOje, nãO passa DOs mIl mIlhões
que devia exportar produtos processados, não o estamos a fazer porque não temos indústria ligeira, nem pesada fora dos grandes projectos. O IDE serve para fechar os espaços vazios em termos de conhecimento e capital financeiro. E é por isso um desafio enorme que o APIEX tem pela frente de olhar para a necessidade de termos mais investimentos para promover a transferência de tecnologia e o saber. Para isso, é também necessária uma estratégia forte ao nível do tão falado conteúdo local, porque não podemos ter grandes recursos naturais, agricultura e indústria, se não houver um programa muito bem estruturado. E não falo da lei, porque a lei é muito complicada.
Então, o que é preciso se não for a lei, uma estratégia? Tem de haver um programa do conteúdo local, para o caso
de Moçambique. O que está a acontecer, se for a reparar, é que a estratégia existe, mas não está globalizada por todos os sectores de actividade. Falamos da incorporação daquilo que pode ser feito ao nível nacional, através dos produtos, do conhecimento, da participação empresarial, até que ponto as empresas podem fazer. Há regiões que já o fizeram, o Qatar, ou o Vietname que há 50 anos, estava bem atrás de Moçambique e hoje, já estão a investir no nosso país. Porque polarizaram todo o país, em zonas económicas especiais e favoreceram a produçao nacional, com base na agro-indústria. É um modelo extremamente interessante, É um pouco para tudo isto que é preciso olhar, porque não temos, de facto, de inventar outros modelos porque já existem, mas apenas ir buscar a experiência, e por em prática.
Porque não foi ainda?
É preciso entender que o nosso modelo é o de uma economia sectorizada, em que cada ministério tinham a sua política e estratégia. Felizmente o governo já está a trazer uma lógica de integração de uma mesma estratégia nos vários organismos. O APIEX surge aliás, nessa sequência. O desafio é grande. Precisamos de preparar todo um sector agrícola familiar, para os desafios do mercado, de erguer toda uma base logística de estradas, telecomunicações, entrepostos comerciais. E os financiadores acreditam em nós. Agora falta que também nós confiemos em nós próprios. E que por exemplo 25% do gás extraído no rovuma seja processado, e direccionado para o desenvolvimento do país.
O que é que entusiasma mais os investidores sobre Moçambique, digamos assim? Promovemos quatro grandes áreas: agricultura e agro-processamento, infra-estruturas, energia (hídrica, eólica, solar e
biomassa), e turismo. Moçambique tem tudo para dar certo, e nós, APIEX existimos para mostrar aos mercados externos este potencial. Sabemos que, começando a exploração de alguns recursos fundamentais como a grafite, areias pesadas, carvão e o gás a economia vai mudar radicalmente em quatro e cinco anos, mas é necessário, repito, um alinhamento macro-económico em termos de estratégias para utilizar os recursos de uma forma eficiente.
É a falta desse alinhamento, na sua opinião, o grande obstáculo ao crescimento económico, mas também ao desenvolvimento do país? Neste momento sim. Temos a exportação bruta de matéria-prima principal, aquela que se pode transformar no país. Exportar toda a grafite, todo o gás, e todos os outros recursos minerais ou agrícolas de que dispomos sem ter a capacidade de transformação de sub-produtos que depois, ainda por cima vamos ter de importar é um crime económico a longo prazo. A industrialização tem que passar necessariamente, pela transformação dos produtos estratégicos. É aí que poremos mudar a economia moçambicana. Temos de determinar uma percentagem obrigatória para ser transformada cá. Em áfrica, o conteúdo local não passa 30%, e isso está errado. Há países em áfrica, que fazem diferença, temos os casos do ruanda e Congo que foram a Singapura em busca de um modelo de gestão dos seus recursos minerais. Temos o conhecimento e a visão. E há vontade de ir por aí. O nosso trabalho como APIEX passa também por aí, pela divulgação do que há, porque com o potencial que temos, haverá sempre empresas estrangeiras a quererem investir.
tExto Pedro Cativelos fotogrAfIA Jay Garrido
O futurO ainda é lOnge. Mas já se pOde Olhar
Niassa é uma província que tem tudo para dar certo, mas onde quase tudo está errado. Pelo menos se olharmos para o estado das infra-estruturas básicas, que acabam por condicionar o crescimento
como o nome indica, infra-estruturas são a base indispensável ao desenvolvimento, e um pré-requisito inquestionável para o crescimento acelerado de qualquer ambiente económico, seja ele local, ou nacional.
Muito se tem falado de vias de acesso ao longo dos últimos anos, como o caminho que irá levar Moçambique a tornar-se um verdadeiro player competitivo a nível regional em diversos sectores de actividade. Para isso, são necessárias cadeias de valor produtivo que dependem de uma base de sustentação. E se há lugar, onde essa falha se torna demasiado evidente é na Província do Niassa, que enfrenta problemas graves ao nível da diminuta (e muito degradada) rede de estradas, considerada como “o principal problema que enferma o sector empre-
sarial, assim como toda a população daquela província.
Há quem diga que o Niassa é a Província onde se podem encontrar “todos os problemas do país”, conta Fanequisso Maurício, empresário local no ramo de prestação de serviços à E&M.
a província que está lá longe
“É preciso ter muita coragem para investir nesta província”. É uma frase, que poderia ser dita (e é) por muitos empresários que nunca colocam o Niassa, no seu plano de investimentos.
A começar pela tal falta de infra-esturutras em que deveria assentar o desenvolvimento de uma região que tem 460 quilómetros de vias, mas em que apenas 6% estão asfaltadas, de acordo com o Plano Estratégico do Niassa (PEN) 2018/2029.
capital Lichinga área 122 827 km² população 1,1 miLhões região nORTe província niassa
Estas fragilidades têm colocado a Província lá de longe, também distante dos investidores.
Celso Aleixo, Assessor do Governador do Niassa garante, sem adiantar muitos detalhes, que “num período de cinco anos a rede viária será melhorada de forma a
motivar a entrada de novos investidores”. E para isso, diz estar em curso “uma busca de financiamentos para o arranque das obras de melhoramento de algumas vias de acesso essenciais à Província.”
Mas, não são só as vias de acesso o problema. A burocracia, é outra das quesque tem motivado queixas, de muitos empresários. Para Inocêncio Sotomane, presidente do Conselho Empresarial Provincial (CEP) do Niassa, são ainda muitas as barreiras que “afugentam” os investidores, uma vez que “o Governo não facilita para que haja um bom ambiente de negócios. As questões burocráticas para a implementação de unidades industriais, por exemplo, indústrias, não têm a mesma flexibilidade que noutras províncias” salienta Sotomane. Foi, de resto, uma das grandes questões debatidas na Conferência de Investidores (realizada em Abril), que reuniu representantes do governo, parceiros de cooperação, e dezenas de empresários nacionais, que foram unânimes em afirmar a intenção de assistir “à melhoria do ambiente de negócios, removendo as barreiras aos investimentos.”
Os grandes desafios
Dessa reunião magna, que colocou o Niassa “mais perto” de todos nós, por assim dizer, as metas de desenvolvimento debatidas passam pelo desenvolvimento da agricultura (sector que mais contribui para o PIB da região, com 80%) e agro-negócio, turismo e conservação natural, e concessão de licenças de exploração de recursos minerais. São estas, de resto, as prioridades que encabeçam o Plano Estratégico do Niassa para os próximos dez anos e que constituem o pano de fundo dos 104 milhões de dólares anunciados para nove projectos, que irão arrancar a breve prazo, anunciados durante a Conferência de Investidores. Lourenco Sambo, líder APIEX diz mesmo que estes projectos estão a suscitar um forte apetite de investidores externos que vêm naquela província “um lugar de grandes oportunidades logísticas, especialmente pela sua localização estratégica, concretamente na área da construção de ‘portos secos’, e centros logísticos que poderão funcionar em conjugação com o sector da extracção mineral, que está a crescer exponencialmente, bem como com a agro-indústria.” No entanto, quando a tarefa é promover o desenvolvimento de uma das províncias mais subdesenvolvidas do país, é legítima a questão: mas por onde começar?
É o peso da província do niassa no piB nacional. a riqueza total ali gerada no ano passado É de 21,6 mil milhões de meticais, sendo que a agricultura É responsável por 80% desse volume
O desafiO das iNfra-estruturas
actualmente, a área pavimentada da província do Niassa é uma das mais baixas de todo o país
em quilómetros
Para Rodrigues Ussene, a região “só estará na rota do desenvolvimento se existir um investimento forte em infra-estruturas como estradas, ferrovia, rede eléctrica para poder acolher projectos de exploração industrial ou mineira, e olhar para os recursos naturais de forma sustentável. E, para aumentar a taxa de emprego há que trabalhar bem a questão dos recursos humanos”, assinala. Entre 2010 e 2015, o PIB da região aumentou 71,3% (sendo agora de cerca de 21 mil milhões de meticais).
Ainda assim, o salto não chega para deixar o último lugar de todas as províncias do país, no que concerce à contribuição para o total da riqueza nacional (3%). Os desafios continuam. “Temos de assegurar a melhoria das infra-estruturas que há e a abertura de novas vias incluindo pontes e outras infra-estruturas similares. Com sistema de transporte integrado, acessível, seguro e com vias de acesso transitáveis permanentemente teremos a possibilidade de fazer a ligação com os principais pontos estratégicos de desenvolvimento das províncias vizinhas e
dos países com quem fazemos fronteira”. Nesse sentido, estão planeados até 2024, 584 quilómetros de novas estradas asfaltadas, sendo que a intenção é chegar ao ano de 2029 com uma cobertura de 1 222 de rodovia em condições. É, pelo menos, o que consta dos planos de desenvolvimento da província. .
agricultura e agro-negócios
Com cerca de 12,9 milhões de hectares de área potencialmente agrícola e uma mancha florestal de 26,9 milhões de hectares, em que apenas 6 milhões correspondem a uma área de floresta produtiva, o Niassa é, na essência a província com maior capacidade de produção agrícola e florestal país. Olhando, essencialmente ao desenvolvimento da tal cadeia de valor, assente nessas características. Contactado pela E&M, o governo provincial advoga que a solução para este problema “é atrair investidores que pretendam promover o sector comercial agrário e agro-industrial por meio da implantação de sistemas de irrigação, uso de técnicas, equipamentos e maquinarias adequados às características do teritório; o reforço da assistência técnica aos produtores, controlo de pestes e doenças, tendo em conta as condições agro-ecológicas e gestão sustentável da terra.”
De acordo com o INE, a província do Niassa é considerada grande produtora das culturas do milho, algodão, feijão, soja e batata-reno mas a maior parte da produção não é comercializada, e é dada como perdida devido à falta de infra-estruturas para armazenar os excedentes.
A produção actual, segundo o empresariado, “nem sempre tem chegado ao consumo final devido a dificuldades de acesso aos locais de produção”.
turismo tem potencial. Mas onde é que já se ouviu isto?
O Niassa é a maior província do país e é uma das menos povoadas. Faz fronteira, a Norte, com a Tanzânia, a Oeste, com a República do Malawi, a Leste, com a província de Cabo Delgado, e a Sul com as províncias de Nampula e Zambézia. O que faz dela, um ponto nevrálgico para a circulação de bens, e pessoas.
E o turismo, claro, entra nestas contas como um factor extra de potencialização económica.
É também ali que fica o grande Lago Niassa, (terceiro maior de África e nono a nível do Mundo) ou a reserva com o nome da província, chamarizes a que se juntam a beleza natural de uma provín-
fonte Plano estratégico de niassa (Pen 2018/2029)
província
cia que é, para quem a visita, das mais belas do país. A este respeito, o governo provincial assume um objectivo audacioso de “fazer aumentar o fluxo anual de turistas dos actuais 60 mil por ano para mais de 200 mil até ao ano de 2029.”
recursos minerais precisam de energia
A expansão da rede eléctrica é um dos pontos fulcrais da estatégia de desenvolvimento de qualquer região. No Niassa, ela é ainda mais fundamental.
Para já, iniciaram-se recentemente as obras de construção de uma linha de Alta Tensão de 110 KVAs para Marrupa, a partir da Subestação de Cuamba. “Esta infra-estrutura não só vai melhorar a qualidade da energia eléctrica fornecida a Marrupa e depois ao distrito vizinho de Balama (zona mineira), em Cabo Delgado, assim como irá permitir a expansão do acesso a muitas zonas rurais”, explica fonte do governo provincial.
Essa expansão energética será fundamental para ‘amparar’ o crescimento que já se está a notar da indústria extractiva.
Com um subsolo rico em ouro, granito vermelho, amazonite, fosfato, sienitos, pedras preciosas, diamantes e granadas, é o calcário que dará azo ao maior investimento de sempre na província, com a unidade de produção de cimento em larga escala prevista para arrancar em Novembro próximo, em Chimbunila (200 milhões de dólares).
Mas a província é também rica em gra fite, um dos metais da moda e carvão. Segundo resultados das pesquisas e prospecção financiados pela Agência de Cooperação Internacional do Japão (JICA), “existem na Bacia de Lunho, posto admi nistrativo de Maniamba, distrito do Lago, quantidades estimadas em 839 milhões de toneladas de carvão mineral prontas a serem exploradas.”
O PlaNO Para deseNvOlver O Niassa
o plano de desenvolvimento 2018-2029 desenhado pelo governo provincial prevê que na próxima década o desenvolvimento da província assente em três áreas fundamentais, para as quais é essencial, no entanto, a melhoria da rede rodoviária; o aumento no abastecimento de água e energia; a redução do índice do analfabetismo principalmente nas zonas rurais; e uma maior abrangência dos serviços de saúde, bem como a expansão dos serviços financeiros.
É a principal prioridade da província, e refere-se à produção, processamento, conservação e comercialização de diferentes culturas. a ideia é abraçar a produção em grande escala por meio de uso de tecnologias apropriadas, numa base sustentável e integrada, orientada para mercados estratégicos tornando a província competitiva a nível gerional e nacional, “alimentando” outros sectores e garantindo a melhoria de vida das populações.
O Governo provincial deposita quase tudo, nestas descobertas. “Aguardamos pela decisão da empresa sobre o avanço da exploração comercial do carvão mineral, facto que vai reforçar as receitas do Estado e promover emprego no seio da população local e seu consequente desenvolvimento no contexto social”. E com todo este manancial, diga-se em abono da verdade, Niassa é uma província esquecida no país, mas com recursos suficientes, para se tornar lembrada.
agricultura e agro-negócios recursos Minerais
sendo que hoje apenas conta 2% para a conta total da riqueza produzida na província, a exploração de recursos minerais está prestes a “explodir”. Neste momento há uma reorientação estratégica virada para a exploração efectiva do enorme potencial geomineiro (53 concessões para atribuir), destacando-se as pedras preciosas e semi-preciosas, ouro, carvão mineral, calcário, grafite, granada e granito vermelho.
turismo e conservação
o objectivo passa por aumentar o fluxo anual de turistas dos actuais 60 mil (registados em 2017), para mais de 200 mil em 2029, criando uma oferta turística virada para promoção do turismo cinegético, contemplativo, safaris, ornitofilia ecoturismo nos distritos com áreas de conservação, com destaque para a reserva Nacional. a ideia é tornar Niassa num “destino turístico preferencial de nível internacional alavancado pelas suas maravilhas atrações e belezas únicas.”
Malparado duplicou no últiMo ano E agora, o quE fazEr?
Num passado recente, o crédito em incumprimento no sistema financeiro estava sob controlo. Com a crise, começou a “tirar sono” aos bancos. Hoje está pior e com perspectivas desanimadoras para os próximos meses
longe vão os tempos em que só (muito) poucos não honravam as prestações de dívidas contratadas à banca. Só que essa tendência tem vindo a acentuar-se na exacta medida do desgaste da poupança das famílias nacionais.
De acordo com o Banco de Moçambique, em apenas 12 meses, o crédito malparado duplicou: de Dezembro de 2016 ao mês homólogo do ano passado o crédito em incumprimento saltou dos 16,6 mil milhões de meticais para os 33,9 mil milhões, uma evolução de mais de 104 pontos percentuais. E em Janeiro deste ano, o incumprimento já ascendia a mais de 34,2 mil milhões de meticais.
Contactado pela E&M, o Banco de Moçambique demonstra “preocupação” pela preva-
lência deste fenómeno, e por constituir “um perigo para os esforços de estabilização macroeconómica actualmente em curso.”
cadeia de desvalor
O regulador sublinha que a cadeia de efeitos negativos para a economia, ocasionados pelo crescimento do crédito malparado: “partindo do pressuposto que, quanto maior for o crédito em incumprimento, maior será a necessidade de criação de provisões para fazer face a perdas prováveis tem um impacto natural nos resultados gerados pelos bancos.”
Isso irá contribuir para que os capitais próprios sejam também inferiores, o que levará os bancos “a uma diminuição da sua
capacidade de financiamento à economia nacional.” O que só irá agravar o cenário de “abrandamento económico em que Moçambique se encontra”.
Mas, os resultados do aumento do crédito malparado podem ser ter outros efeitos perniciosos para a economia. O Banco de Moçambique alerta que, “partindo do princípio de que a qualidade da carteira de crédito afecta os capitais próprios das instituições, o crescimento do crédito malparado no sistema pode afectar o capital que os bancos têm para fazer face a perdas, colocando em causa a sua continuidade, o que por sua vez pode contribuir para a instabilidade do sistema bancário como um todo.”
Trata-se de um risco que, a ocorrer, põe em causa “os esforços que o Banco Cen-
tral vem efectuando para conferir estabilidade ao sector financeiro.“
Para perceber o quanto a nova administração do Banco de Moçambique está preocupada com a estabilidade dos indicadores prudenciais dos bancos comerciais, basta atentar em algumas medidas que o BM tem vindo a implementar e que alteram o modo de funcionamento e de reporte dos indicadores de estabilidade dos bancos, por exemplo. Um desses exemplos foi o aumento obrigatório do capital social mínimo dos bancos de 70 milhões de meticais para 1700 milhões de meticais, o que deverá acontecer no prazo máximo de três anos (a contar desde o ano passado). Ou a subida dos rácios de solvabilidade – indicador financeiro que revela a proporção relativa dos activos financiados por capitais próprios e os financiados por capitais alheios – de um mínimo de 8% para 12%. O Banco Central assume ser sua “responsabilidade”, o reforço medidas de concessão de crédito mais prudentes para “evitar o crescimento do malparado.”
Mas, não deixa de atribuir aos bancos comerciais a “tarefa de cumprir com todas as recomendações emitidas” pelo regulador, uma vez que o Banco de Moçambique não tem uma intervenção comercial directa.
crédito ao descrédito
Os primeiros sinais sobre o aumento do incumprimento no pagamento das dívidas com os bancos soou já no ano passado, com os relatórios e contas dos principais bancos do mercado a reflectirem (todos eles) essa realidade. Mas, no final de 2017, aquando da divulgação dos resultados da Pesquisa Sobre o Sector Bancário, (estudo da consultora KPMG e da Associação Moçambicana de Bancos (AMB) – foi reportado um crescimento histórico de 66% do crédito malparado, que passou de 10,6 mil milhões de meticais em Dezembro de 2015 para 17,6 mil milhões em Dezembro de 2016. Ainda assim, e como nota, a informação do Banco de Moçambique e da pesquisa conjunta da KPMG e AMB apresentam uma diferença de mais de mil milhões de meticais relativos a imparidades face ao mesmo período. Ou seja, enquanto o estudo conjunto da KPMG e AMB revela aumento do crédito malparado em 66% em 2016, o Banco de Moçambique reporta um crescimento de 53,16%, no mesmo período.
Ainda que diferentes, ambos os resultados não deixam dúvidas relativamente a um aumento preocupante do crédito
Crédito em iNCumprimeNto tripliCou em dois aNos
O crédito em malparado foi crescendo consideravelmente desde 2014 tanto em meticais como em moeda externa, chegando a ultrapassar o rácio mínimo de estabilidade de 5% em relação ao crédito total, em 2016. Hoje, esse rácio é superior a 12% e o Banco Central teme que cresça ainda mais nos próximos tempos
do crédito malparado e valores do incumprimento em milhares de milhões de meticais
taxas de juro fizeram aumeNtar malparado
Há uma relação directa entre o aumento das taxas de juro e o incumprimento no pagamento de dívidas à banca, o que se notou ainda mais a partir de 2016. Ou seja, particulares e empresas tiveram maiores dificuldades em amortizar a dívida à medida que as taxas de juro foram aumentando
em incumprimento, mesmo porque, pela primeira vez, este ultrapassou largamente a barreira dos 5% - o mínimo exigido para se classificar a situação como estável. Está nos 12,64% e parece não dar sinais de abrandar.
A situação económica e a erosão do rendimento familiar, bem como a situação difícil porque muitas empresas têm pasado nos últimos dois anos é a principal causa de tudo isto. “Podemos afirmar que o aumento do crédito em incumprimento tem como razão a recessão económica onde várias empresas foram obrigadas a encerrar actividades.
Partindo do pressuposto de que o Estado moçambicano é o maior cliente e devedor das empresas em questão, e não está em condições financeiras de fazer face às suas obrigações, as empresas não têm como pagar os seus créditos por falta de facturação das suas vendas”, argumenta o Banco de Moçambique, ao responder a questões da E&M.
altas taxas de juro também complicaram Mas, não foi só a economia a produzir efeitos sobre as imparidades. Ela só deu o tiro de partida. No período coberto pelo estudo da KPMG e AMB, a forte desaceleração da economia terá assim ateado um rastilho que apenas terá iniciado o processo de deterioração da qualidade de crédito da banca. Antes, a retirada do apoio ao Orçamento do Estado pela maioria da comunidade de doadores terá desenhado o cenário a que hoje assistimos, e que teve como consequência, um aumento do custo do dinheiro, através do aumento das taxas de juro de referência. Uma tendência que o Banco de Moçambique já começou a tentar modificar, sem no entanto mexer ainda na Prime Rate, algo que Rogério Zandamela justifica, dizendo que “baixar as taxas de juros não é só uma decisão do Banco Central que se toma no vazio, ele reflecte uma análise das condições em todo o momento e na sociedade”, Se for interesse dos bancos encontrar solução para o incumprimento no pagamento de dívidas, terá de ser igualmente seu o interesse em ver as taxas de juro do mercado mais comportáveis para os tomadores de crédito. Porquê? Há, como seria de esperar, uma correlação directa entre a subida das taxas de juro e o rácio do crédito em incumprimento que se nota desde 2016 (ver gráfico). Isto é, parte do aumento do crédito malparado deve ser directamente imputada ao elevado preço do dinheiro no mercado.
Metical Moeda estrangeira
FonTE Banco de Moçambique
mercado e finanças
Mas, porque é o dinheiro tão caro, em Moçambique? Porque as taxas de juro reflectem o risco do mercado.
Para a economista Fernanda Massarongo Chivulele, que estuda o comportamento das taxas de juros em Moçambique, “a política monetária protege os lucros dos bancos nos momentos em que a economia de entra em crise devido a algum choque.
Ou seja, o enfoque no controlo da inflação e as consequentes medidas monetárias restritivas, que incluem aumentos das taxas de juros de referência ou aumento de emissões de bilhetes do Tesouro, têm efeito positivo sobre os resultados dos bancos comerciais, com custos acrescidos para o sector privado e famílias”, escreve num artigo inserido numa publicação IESE “Desafios para Moçambique”, do ano passado.
concessão de crédito caiu
Do lado da banca comercial, e olhando apenas aos dois maiores bancos do mercado, a concessão de crédito caiu em torno dos 10% pela primeira vez em alguns anos. No Millennium bim, e apesar dos bons resultados financeiros do banco no exercício passado (resultado líquido de 5,5 mil milhões de meticais) registou no ano passado uma quebra de 21,6% na concessão de crédito face aoperíodo homólogo (de
acordo com o relatório e contas recentemente divulgado). No mesmo período, registou-se o nível mais elevado de crédito mal parado desde 2010, com o rácio a situar-se nos 5,5%, sendo que o custo de risco saltou de 188 pontos base, para 262. As armas do bim para lidar com o problema incluem “uma política de crédito rigorosa assente no binómio clientes-negócios de melhor perfil de risco, com cash flows sustentados em planos de negócio credíveis e adequada cobertura do risco de crédito com colaterais elegíveis”. O Banco afirma actuar de forma preventiva com o objectivo de antecipar planos alternativos de pagamento do serviço da dívida que permitem melhorar “a capacidade creditícia dos mutuários e, consequentemente mitigar o efeito do aumento do custo de provisionamento. Um outro grande player da banca nacional, o Banco Comercial e de Investimentos (BCI), também registou um disparar do incumprimento de 1,21% em 2015 para 3,38& em 2016 e depois 6,69% no ano passado.
A instituição revela que, “perante o aumento das dificuldades dos clientes no cumprimento dos serviços de dívida, o BCI viu-se obrigado a empreender um esforço de gestão do risco através de maior abertura para analisar a possibilidade de ajustar os planos de pagamento de forma a apoiar a absorção desses impactos.”
a banca nacional apresenta, na generalidade, bons desempenhos, apesar do aumento da exposição às imparidades. parece que todos aguardam que a economia faça o seu trabalho
a partir dE quE prazo o crédito SE torna Malparado?
O conceito de crédito em incumprimento como sendo o crédito vencido refere-se a um período de pelo menos 90 dias, e foi adoptado a 01 de Janeiro de 2014, com a entrada em vigor do aviso n.º 16/gBM/2013. a adopção deste conceito – em oposição ao anterior, que considerava o crédito vencido há pelo menos 30 dias – criou uma alteração estrutural na série temporal deste indicador prudencial. Com efeito, os dados sobre o crédito malparado são assumidos a partir de Janeiro de 2014.
Soluções? Há que esperar
Actualmente, a taxa média de juros de um empréstimo bancário com maturidade (prazo) mínima de um ano, está em torno dos 30% nos cinco maiores bancos. É uma das mais elevadas da África Austral e um claro obstáculo ao desenvolvimento das empresas, principalmente as Pequenas e Médias Empresas.
Mas, também é lícito entender que terá de haver da parte dos gestores nacionais, uma reforma na maneira de olhar para a banca.
Não apenas como fundo... sem fundo a quem recorrer nas dificuldades, mas como uma verdadeira alavanca de crescimento sustentado, a quem, mais tarde ou mais cedo, tem de se prestar contas. Algumas soluções têm sido propostas pelo BM. Uma das mais impactantes foi a introdução da taxa de juro (MIMO), um indexante único de todos os bancos para as operações de crédito em meticais e que actualmente está fixada em 18%.
Mas, não é ainda a que todos gostariam: a descida das taxas de juro.
Porque, como diz Zandamela, essa “não é uma decisão do BM apenas, mas sim um reflexo da nálise das condições em todo o momento e da própria sociedade.”
E essas condições ainda não são as ideais, da macro, à micro-economia. Assim, o que todos esperam mesmo, é que a economia de todos os dias recupere as forças. E que o faça o quanto antes.
textO Celso Chambisso fOtOgrafia Jay Garrido
empresas
Print4You: uma emPresa que causa semPre boa imPressão
Em actividade desde 2012, a empresa conquistou notoriedade no mercado devido à gama de soluções para impressão nas vertentes de outsourcing, assistência técnica e venda de todo o tipo de consumíveis
É um negócio que vence e convence, a Print4You. No mercado desde 2012. a empresa disponibiliza uma gama de serviços direccionados para a impressão. Fundada no mercado português, em meados da década passada, foi no entanto em Moçambique que encontrou o ecossistema de mercado ideal para desenvolver o conceito inicial do seu negócio.
Patrícia Teles, CEO da empresa, começa por identificar a impressão digital que está patente na identidade desta PME nacional, espelhada em três conceitos que são a base do crescimento que a empresa vem conhecendo: “excelência, rapidez e resiliência. São estas as bases da Print4You.”
Com um portfolio de parceiros e clientes que abrange algumas das maiores empresas em solo nacional, conta actualmente com um parque de cerca de mil impressoras multifuncionais instaladas em diversas instituições. “Disponibilizamos todo o tipo de soluções de impressão, mas o principal segmento da nossa actividade é o outsourcing de impressão, um serviço em que disponibilizamos os equipamentos, e fornecemos assistência técnica, toners, peças, configuração de equipamentos e formação dos utilizadores, para além de um acompanhamento constante, sempre que o cliente assim o solicite”, enumera.
Naturalmente, com a evolução que muitas destas empresas conheceram nos últimos anos, a Print4You, cresceu na medida das necessidades específicas de cada uma delas. “Temos clientes que vão de pequenos escritórios de contabilidade até grandes multinacionais como a Unicef, a Vodacom, Mozal, HCB, bim, Moza, ÚNICO ou o Banco Mais, o que também acaba por exigir que tenhamos uma gama de soluções direccionadas às necessidades de funcionamento de cada um.”
Caso para dizer que, papel é coisa que
não falta por ali, mesmo em tempo de retracção económica. “Não nos podemos queixar, de facto. Porque este tipo de negócio acaba por funcionar melhor em contra-ciclo, porque em tempos de austeridade, as empresas preocupam-se ainda mais em economizar despesas, recorrendo mais ao outsorcing, por exemplo. E é precisamente isso que fazemos.” Depois, há a questão da eficiência, um ponto-chave, para a jovem gestora. “Sem dúvida. Uma resposta pronta, e dentro de um período que não leva, na maioria dos casos ocorridos na cidade de Maputo, mais de 30 minutos, é essencial. E se até uma hora não conseguirmos resolver o problema, substituímos o equipamento num prazo de 24 horas”, garante. Sendo que o mundo dos negócios é, como sabemos, dominado por homens, justifica-se a questão, passado que foi o mês da Mulher Moçambicana. A gestora refuta, ainda assim a perspectiva da questão: ”Nunca encaro os negócios pela perspectiva do género. Sou empreendedora, focada e resiliente e são essas as características que procuro ver espelhadas na nossa acção junto dos clientes e parceiros”. Também a questão da responsabilidade social (a empresa está associada ao projecto Escola do Agricultor - Eu sou por Moçambique) e a formação de quadros têm sido fundamental no crescimento e no desenvolvimento corporativo da Print4You. “Creio que essas devem ser preocupações evidentes de todas as empresas. Envolvermo-nos com a sociedade a vários níveis, procurando retribuir, com acções externas. E a nível interno, promover uma boa gestão que nos permita assegurar a qualidade do serviço através de acções de formação contínua aos nossos colaboradores.”
texto HErmEnEgildo langa fotografia Vasco célio
BEmprEsa Print4You
FundaÇÃo 2012
Fundador Patrícia teles
Funcionários 70 númEro dE imprEssoras
1 000 númEro dE imprEssõEs mEnsais
2,9 milhões
Bni e eMose criaM facilidades de acesso ao crédito para as pMe
A “criação e introdução de novos produtos financeiros que possam proporcionar o apoio e facilidades do acesso ao financiamento para PME” é um dos objectivos da assinatura do acordo comercial e de parceria estratégica entre o Banco Nacional de Investimentos (BNI) e a Empresa Moçambicana de Seguros (EMOSE). A parceria visa ainda, o “provimento de serviços de seguros que permitam celeridade, flexibilidade no pagamento de prémios, para além da cobertura e pagamentos de benefícios diversos e poderá influenciar também na redução das taxas de juro.”
VodacoM cria proMoção para as redes sociais
Fazer aumentar a conectividade dos seus seis milhões de clientes nas redes sociais é o objectivo do novo serviço criado pela Vodacom Moçambique. O ‘WFT’ é uma oferta que, por 11 meticais, dá acesso ilimitado, por um período de 24 horas às plataformas Whatsapp, Facebook e Twitter.
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O serviço estará disponível através do prefixo *162#.
Marcas de excelência conhecidas eM Junho
superbrands existe no país desde 2011
é já no próximo mês de junho que serão anunciadas as marcas de excelência do mercado nacional para 2018.
A divulgação será revelada durante a 5ª Edição da Superbrands Moçambique, uma plataforma que premeia e divulga anualmente as melhores marcas no mercado nacional. Para além da divulgação, a cerimónia consiste ainda na entrega dos prémios e a revelação do guia Superbrands aos respectivos representantes das marcas. A gala de premiação vai agregar diversas personalidades do mundo empresarial e do marketing nacional, entre empresários e representantes das marcas homenageadas.
A distinção é feita através de um estudo das marcas dos mais variados sectores de actividade. Nos sete anos em que a Superbrands já está representada em Maputo pela Playground, perto de 50 marcas moçambicanas já foram distinguidas com o selo Superbrands, entre as quais o Banco Único, CDM, Mcel, KPMG, Miramar, BCI, Flor Real, South África Airways, Motorcare, Revista Capital, Barclays, Bom Garfo, CDN, Polana Serena Hotel, Moreira Chonguiça, Motorcare, LM Radio e a Vodacom.
iphone 8 red liga-se a uMa Boa causa
Angariar fundos para o combate ao vírus do VIH-SIDA em África, é um dos objectivos sociais revelados aquando do lançamento dos novos modelos Apple iPhone 8 Red e Plus Red.
Nos últimos anos, as iniciativas da Apple e RED (parceria já leva oito anos) “já contribuíram para a angariação de cerca de 160 milhões de dólares, que têm sido investidos em campanhas de prevenção e testes gratuitos, assim como em medicamentos que evitam a transmissão do vírus VIH de mãe para filhos recém-nascidos”, pode ler-se em comunicado emitido à imprensa pela empresa norte-americana.
Bci introduz serViço que rentaBiliza poupanças
A Superbrands é uma organização internacional que se dedica à promoção da politica do branding e ao reconhecimento das marcas de excelência. Está presente em 89 mercados deste 1995. Em cada edição (também acontece assim em Moçambique), um grupo de especialistas do mercado, o Conselho Superbrands, avalia as marcas que mais se destacaram no ano anterior.
Chama-se “Conta Poupa Tako”. Através deste serviço, lançado recentemente pelo Banco Comercial de Investimento (BCI), os clientes passam a ter a possibilidade de fazer depósitos a prazo que vão permitir rentabilizar as suas poupanças por um período de 90 dias. Segundo o BCI, o serviço “fornece aos clientes taxas de remuneração atractivas e possibilidade de subscrição pelo ‘Daki Internet-eBanking’”. De entre várias vantagens, o serviço oferece também a possibilidade de poder, em qualquer momento, solicitar a transferência do valor para a conta à ordem.
figura do mês
É fundAMentAl A Mulher AssuMir A liderAnçA”
AlexAndrA MAchAdo
General manager da Girl Move Foundation
a fundação ‘girl move’ é uma ONG que trabalha com jovens mulheres moçambicanas licenciadas, proporcionando-lhes um ano de transição entre os estudos académicos, e a vida profissional. Ao longo desses meses, algo se passa na vida destas meninas, jovens mulheres. E que é tão simples que até parece complicado, se olharmos à prática comum que faz a realidade díária de milhões de mulheres, em Moçambique, e por toda a África: “Fazê-las acreditar que é possível serem líderes, seja qual for o papel que escolham para o seu futuro, e dar-lhes as ferramentas de conhecimento para que isso seja possível”. Alexandra Machado, gestora com uma longa carreira associada a marcas de referência, escolheu esta como a etapa decisiva para deixar marca, através da “criação de uma academia onde mulheres de todo o país podem cultivar a liderança inata que possuem.”
A funcionar em Nampula, acolhe este ano cerca de 30 mulheres de todo o país, que no final do ano seguirão todas para Portugal, para um estágio de várias semanas em algumas das maiores empresas portuguesas. Depois, regressam, e “seguirão o seu caminho. Mas, vamos acompanhá-las, até à conquista dos seus objectivos”.
Qual é o objectivo deste ‘Girl Move Academy’?
O objectivo é promover uma nova geração de mulheres líderes. Acreditamos que Moçambique tem imensos recursos naturais mas também humanos. Só que, para potenciar o crescimento, é fundamental uma participação mais activa das mulheres a vários níveis. Há indicadores gerais que nos preocupam, e o tema da participação das raparigas na educação, em que há taxas baixíssimas de transição do ensino primário para o secundário, ou a maternidade infantil levam a um ciclo de pobreza. Estudos feitos, mostram que o impacto do crescimento económico de um ano a mais na educação de uma rapariga, pode representar um incremento de 25% do seu salário futuro. Sabendo que, estatisticamente, cerca de 90% desse salário é investido nas suas famílias, podemos ter uma ideia do impacto de tudo isto. Acreditamos que há uma nova geração de mulheres que, cada vez mais, está a ir para as universidades mas sabemos que há ainda um défice entre o mercado e as universidades e é aqui que entra a Girl Move.
Como é que a Academia preenche esse défice?
Trabalhamos com as várias universidades. Estamos foca-
dos em recrutar miúdas com elevado potencial de liderança (o processo de recrutamento leva cerca de três meses). No ano passado, tivemos cerca de 700 candidaturas, num universo de seis mil universitárias. No processo de recrutamento, procuramos que haja uma diversidade a nível dos conhecimentos e de etnia. Durante o ano, há três etapas de passagem, há uma formação de 900 horas, em várias disciplinas com o objectivo de estimular a consciência de liderança em que há todo um foco de auto-desenvolvimento para poder conhecer o seu potencial, e de trabalhar no seu próprio plano de carreira. Passamos por uma segunda etapa de 600 horas, em que elas têm de
cdesenvolver os seus skills de mentoria de jovens meninas da região (Projecto Mwaruzi), criando com isso a ideia de serem exemplos para outras mais novas. Depois, no final da formação, são convidadas a ir a Portugal, para estagiar em algumas grandes empresas durante um mês, sendo que uma segunda vertente do programa será passada na Universidade Católica, com um programa da Executivos. Todo este projecto é financiado pelo sector privado português, mas faz sentido ter cada vez mais parceiros do sector privado moçambicano a investir porque estamos a criar talento para as empresas
E depois do estágio, o que acontece?
O fundamental é interromper este ciclo de modelo de referência do papel social da mulher, introduzindo um outro modelo. Acreditamos que esta nova geração, dentro de dez anos, pode efectivamente estar no mercado de trabalho, em posições de liderança, Notamos que o nível de empregabilidade das ‘Girl Movers’ é muito alto, e começam a ter 80% de empregabilidade nos seus projectos de futuro.
formada em gestão pela Universidade Católica, alexandra Machado foi gestora de produto no sector automóvel (grupo entreposto), directora de marketing e comercial do feira Nova e mais tarde do Pingo Doce; esteve ainda na Nike Portugal, durante 10 anos, como directora-geral. em 2012, o apelo do empreendedorismo social levou-a a contruir um projecto para aplicar os conhecimentos que adquiriu na área da gestão
curriculim vitae acreditalideratransforma
texto PEdro CativElos fotografia Jay Garrido
causas que valem a pena “Tenho uma carreira longa na área da gestão, mas sempre fui movida por causas”
sociedade
Transformar a Baixa em zona alTa… num processo cheio de alTos e Baixos
O município de Maputo quis criar uma revolução para devolver o brilho de outrora à Pérola do Índico, que tão baça anda. Principalmente na zona histórica da baixa, a mais cobiçada pelos turistas que Maputo pretende seduzir. Mas, o sonho é caro, e custa cerca de 500 milhões de dólares e por isso, parece cada vez mais impossível de realizar
o plano parcial de urbanização (ppu), já delineado desde 2015, pretende injectar uma nova vitalidade, convertendo a urbe seminal, hoje em lenta agonia, num pólo de atracção também económico e residencial. Para viver, trabalhar e fruir. Agora, só falta a boa vontade dos políticos e a generosidade dos investidores – porque são precisos 500 milhões de dólares. Pelo menos. E para começar. “A Baixa será um destino multi-funcional, inclusivo e vibrante, limpo e verde, onde visitantes e residentes desfrutam do património histórico-cultural, do mar e do espaço público”, lê-se no intróito do PPU da Baixa, elaborado por técnicos do Conselho Municipal de Maputo e da Faculdade de Arquitectura da Universidade Eduardo Mondlane (UEM) com auxílio de cooperantes. O documento, enquadrado no PROMAPUTO II, colheu ainda subsídios resultantes de consultas e debates públicos ocorridos entretanto. Desse esforço nasceu a visão algo onírica de uma realida-
de que deveria materializar-se até 2025 e abarcando uma área quase tão grande como o sonho que o PPU enuncia e a verba que reclama: “Propõe-se a reordenar cerca de 650 quilómetros quadrados, entre parte do Bairro da Malanga, passando por parte do Alto Maé B e a totalidade do Bairro Central C”, enumera Elónio Cossa.
Arquitecto do Departamento de Planeamento Urbano municipal, Cossa traduz a nomenclatura administrativa: “Estamos a falar da zona que parte da nova ponte para a Catembe (Rotunda da Toyota) até à Praça Robert Mugabe, fronteira à sede do BCI e, depois, mais ou menos até ao edifício do Conselho Municípal”. Uma vastidão cujo panorama actual implica, no Centro Histórico, um trânsito infernal nas ruas prenhes de lixo; passeios irregulares saturados de carros e colonizados pelo comércio ambulante de bens e prazeres (a Rua de Bagamoio é, agora como dantes, um lupanar, mas mais decrépito); edifícios alardeando outras
MILHões de dóLares é o custo do projecto de reabILItação da baIxa de Maputo
Lançado eM 2015 peLo MunIcípIo de Maputo. será que aLguM dIa o projecto saIrá do papeL?
eras e cabedais cobertos pelas marcas indeléveis do tempo e do desleixo; e a pobreza esmoler exposta à eventual generosidade dos que passam. Um postal decadente, enfim, no qual avulta, pela escala inusitada e arquitectura dissonante, o prédio que alberga o Banco de Moçambique, à face da Avenida 25 de Setembro. “Com este PPU em vigor e à luz das regras que estabelece, aquele edifício nunca seria possível de modo algum”, afirma Cossa. Talvez não.
negócios ajardinados Mas encaixaria perfeito no PPU tripartido cujo extremo Leste, onde borbulham já os prédios JAT, prevê a construção em altura e traça contemporânea, constituindo-se como futuro centro de negócios da cidade com 1,7 milhões de metros quadrados (m2) de escritórios. Para amenizar o betão instalado, o PPU preconiza converter num imenso jardim “as escadas da Maxaquene, na zona das Barreiras, que saem do Hotel Cardoso e
sociedade
Jardim dos Professores até perto das traseiras da TVM”, assinalou Cossa.
A solução “verde” previa um corredor pedonal até ao mar, ladeado pelo Circuito de Manutenção António Repinga – pulmão sob assédio dos carros e amputado por edifícios governamentais (Ministério da Economia e Finanças, Gabinete do Primeiro-Ministro e Marinha de Guerra) – e pela envolvente ao projecto imobiliário que iria ocupar o aterro da antiga FACIM, o “Maputo Bay Waterfront”. Corolário do arranjo paisagista, os arquitectos imaginaram um elevador panorâmico ligando a zona do Museu de História
Natural à Baixa.
O fomento da clorofila é, de resto, um dos princípios inscritos no PPU da Baixa. Entre parques, jardins e reservas, seriam 425 mil m2 de flora para suavizar a atmosfera e a vida urbana. Com a recuperação do Jardim Tunduro (58 mil m2) e do Jardim dos Professores, já não falta tudo – mas quase.
ramblas africanas
Com o propósito de tornar mais humana e turística a Baixa, o PPU visa converter algumas das artérias saturadas do tráfego automóvel,
o qual só abranda quando a noite cai, em zona pedonal. Para privilegiar o passeio a pé dos visitantes, proporcionando assim, na cadência da passada, o tempo necessário não só à fruição dos 314 imóveis de interesse histórico-cultural alojados no berço da cidade, mas também a frescura da brisa marítima que a baía exala.
Nesse contexto, estão nos planos do Conselho Municipal mais de 100 mil m2 de área exclusiva para peões, praticamente desde a Praça dos Trabalhadores, em frente à estação dos Caminhos de Ferro e com epicentro na granítica estátua evocativa dos mortos da I Grande Guerra, até à antiga FACIM. Vislumbram-se transeuntes circulando pelas ruas de Bagamoio, Timor-Leste, Fernão de Magalhães e Electricidade, preguiçando junto ao mar pela 10 de Novembro sem carros e rebaptizada de “Waterfront Promenade”.
O zénite do idílio pedestre ocorre na “Boulevard Samora Machel”, descendo sem pressas do edifício do Conselho Municipal até à Praça 25 de Junho deserta de viaturas e sob o olhar de bronze do fundador da nação. “O modelo adoptado foi o das ‘ramblas’
um projecTo demasiado amBicioso para se Tornar real?
Vivia-se no auge do crescimento económico dos últimos anos quando o projecto foi iniciado, tendo um custo que, para a época parecia reduzido, mas que em 2018, se afigura como quase inalcansável face à conjuntura actual
PoPulação: 44 911
ImóveIs: 314
ImóveIs PatrImónIo: 19
escrItórIos: 1,7 milhões de m²
estacIonamento: 7 000
mil meTros quadrados
É a área desTinada, nO PrOjecTO, a esPaçOs verdes
de Barcelona (capital administrativa da Região da Catalunha, em Espanha)”, diz Cossa. Mas se os carros recuam, onde aparcá-los? Segundo o arquitecto municipal, “o plano prevê aproveitar alguns
espaços para silos de estacionamento – só pode ser em altura – distanciados de tal forma que o peão não tenha de percorrer mais de 15 minutos até alcançar a sua viatura estacionada”.
Cumprido o delineado, a nova Baixa ficará com 7 000 espaços adicionais de estacionamento não-permanente.
Lugares para automóveis que sobejariam, deixando a Baixa respirar, caso a sugestão do PPU de criar uma estação multimodal – placa giratória de passageiros articulando autocarros, comboios e barcos – com ligações de transporte público entre a Baixa e a Maputo Metropolitana, fosse acolhida pelas autoridades do sector.
sangue novo em casco velho
A possibilidade torna-se suspeita, porém, quando vista a partir da caixa aberta de um “my love” apinhado de gente.
O plano era (ainda é?) ambicioso. Transformar a Baixa, na zona nobre da cidade. Mas, os custos são demasiado elevados
Gente que falta à Baixa para tornar a zona viva e mais segura após o termo do expediente, dirimindo o deserto escuro, entregue a indigentes e meliantes, em que se converte assim que o sol declina. O objectivo é transformar o extremo Ocidental do PPU, dantes pleno de actividade industrial e comercial, como é notório pela sucessão de grandes armazéns que ali existem, em zona residencial por excelência.
Para o PPU, a revitalização seria induzida através da construção de 15 mil residências, com cerca de 1400 unidades a custos controlados. A correr bem, a densidade populacional, hoje com um rácio de apenas 40 pessoas por hectare, saltaria para as 206 pessoas. As quais poderiam circular mais seguras com a instalação de “nova iluminação pública, de modo a que uma pessoa, com visão normal, possa identificar um rosto a cerca de 10 metros”. Não obstante, é para o turismo e o núcleo histórico que convergem todas as atenções. Ali, fora a Fortaleza, a sede do Standard Bank Moçambique e a Casa Amarela – que alberga o Museu Nacional da Moeda e é tida como a pimeira casa em alvenaria de Maputo – os edifícios que ostentam nas fachadas o desenho colonial do último quartel do século XIX e primeira metade da centúria seguinte perderam o esplendor de outrora. parcerias redentoras
Baços, ulcerados pela incúria e o vandalismo, vergados pela idade e maculados por enxertias sem critério que os adaptaram a novos usos, os imóveis reclamam obras. Urgentes, onerosas e incomportáveis para os cofres da Edilidade de Maputo. Até porque parte substantiva do orçamento geral (41%) teria de ser canalizada para a construção de infra-estruturas básicas, susceptíveis de su-
portar tamanha revolução e evitar, por exemplo, as cheias de Verão. “Na verdade, conta-se com a comparticipação de todos. O Município, por si só, não tem essa capacidade, pelo que vai ter de contar com parcerias, até porque alguns dos edifícios têm proprietário”, adianta Cossa, advogando a definição conjunta do devir. Assente, claro, em Parcerias Público-Privadas (PPP). E todos não serão demais para um investimento que, a preços actuais e para o tanto que há a fazer, precisa de pelo menos 500 milhões de dólares, segundo estimativa de Gaidar Chissane Lovane, especialista em urbanismo e rotinado na elaboração de termos de referência para a elaboração de PPU e pareceres.
Lovane inquieta-se não tanto pela verba assustadora mas pela possibilidade de inércia. que ela equaciona “Falta, para que alguma coisa aconteça, aprovar a Secretaria de Desenvolvimento da Baixa”. O seu propósito seria coordenar todas as actividades respeitantes ao PPU da Baixa de Maputo.
Sob alçada directa do Presidente do Município, representaria o Município em transacções e negociações com as partes interessadas – entidades governamentais, paraestatais, prestadores de serviços, ONGs e Organizações Comunitárias, instituições financeiras ou o sector privado.
Há muito que o projecto está na Assembleia da República para análise e votação. Mas, enquanto que para a Baixa nada bule nem mexe, o mesmo organismo dedicado ao PPU da Catembe, muito mais recente, que foi já aprovado mas pode vir a conhecer o mesm odestino. Prioridades. Com a especulação imobiliária à vista.
texto Elmano madaíl fotografia istock
OPINIÃO
Desenvolvimento Económico Local e as diferentes abordagens em Moçambique
Salim Cripton Valá • PCA da Bolsa de Valores de Moçambique
escrevi, no passado, que não existe um Moçambique Rural, mas distintos Moçambique´s Rurais. Também defendi, que a agricultura se não devidamente conectada com a indústria, comércio, serviços, transportes, comunicações, energia, educação, saúde, entre outras áreas, dificilmente pode vingar.
A heterogeneidade do país, das condições agro-climáticas, do solo e do subsolo, da cultura, das pessoas e das instituições, desaconselha uma estratégia de desenvolvimento única.
A abordagem de Desenvolvimento Económico Local (DEL) assenta na ideia de que as localidades e territórios dispõem de recursos económicos, humanos, sociais, institucionais, ambientais e culturais, além de economias de escala não devidamente exploradas, o seu potencial de desenvolvimento. As estratégias e as iniciativas de DEL visam estimular a diversificação da base económica local, favorecem o surgimento e a expansão de empresas, cooperativas e associações e promovem a disseminação e o uso do conhecimento em prol do desenvolvimento económico, permitindo ultrapassar as arcaicas dicotomias urbano-rural e agrícola-não agrícola. Hoje em dia, o rural, está profundamente vinculado com o urbano que lhe é contíguo, ao ponto de já não mais poder falar-se em agricultura moderna sem mencionar máquina, fertilizantes, sistemas de irrigação e todas as actividades não agrícolas que lhe dão suporte. No passado, existiam territórios do país que eram conhecidos como locais de origem de certos produtos e bens, a tal ponto que quando se falasse de Gurué, logo éramos levados a pensar no chá, da mesma forma que falar do arroz fazia pensar no Chókwè, Mogovolas e Moma remetia-nos a pensar na castanha de caju e Montepuez era, como Namialo, o centro de produção de algodão. Ontem, como hoje, existem territórios que se tornaram conhecidos em virtude dos bens ou produtos emblemáticos ali produzidos, em que há uma relação directa entre eles. É por isso que hoje se fala do ananás de Muxunguè, cabrito de Tete, arroz e tomate do Chókwè, peixe pende (kapenta e
malambe) do Vale do Zambeze, tabaco de Tsangano, batata-reno de Ulonguè, coco de Inhambane e da Zambézia, camarão do banco de Sofala, energia de Cahora Bassa, alumínio de Beluluane, areias pesadas de Moma, gás natural de Pande e Temane e da Bacia do Rovuma, bolinhos de sura de Inhambane, carvão de Moatize e Benga, piri-piri da Dona Rachida em Nhancoongo, “baby corn” de Vanduzi, entre outros territórios que são conhecidos também pelos produtos típicos. Como é óbvio, não há lugar algum de Moçambique sem potencial para coisa alguma O importante é que ele seja reconhecido e valorizado e que existam estratégias concretas delineadas para explorar o enorme potencial ainda dormente, e as vantagens competitivas que os territórios possuem, promovendo assim novos “nichos de mercado” e suas cadeias de valor. O DEL tem de estar, necessariamente, conectado com o marketing territorial, que é muito mais do que uma forma de sentir o mercado e adaptar produtos e serviços. No caso moçambicano, e com a ressalva das especificidades locais, cinco focos são importantes para o incremento dos territórios, a saber: (i) desenvolvimento e melhoria da qualidade de vida das pessoas, através da implantação de infraestruturas e serviços essenciais; (ii) reforço das identidades, no sentido de pertença, crescente auto-estima e liderança local; (iii) planeamento estratégico da economia, ordenamento do território e qualificação da mão-de-obra; (iv) estratégias concretas de DEL baseada no potencial do território e nas capacidades e necessidades dos actores locais; (v) crescente empoderamento das pessoas e instituições do território combinando o conhecimento local e o científico. A abordagem de DEL, que tem um foco marcante no território, vai quebrar os paradigmas assentes na centralização, no dirigismo, nas posturas assentes em “solução única”, fazendo com que os cidadãos do território, as suas instituições e lideranças, sonhem com o seu futuro melhor e o implementewm com criatividade e sabedoria, e não fiquem a “espera de orientações que venham da Nação”.
Ontem, como hoje, existem territórios que se tornaram conhecidos em virtude dos bens ou produtos emblemáticos produzidos, em que há uma relação directa entre ambos
LÁ Fora
E DEPOIS DA EUFORIA, ACÇÃO PRECISA-SE
A África do Sul procura reequilibrar-se depois do impacto profundo da euforia em torno da nova liderança. Reformas económicas, reduzir a corrupção e provocar um impulso no crescimento são agora o objectivo
a onda de optimismo em torno da mudança de poder na chefia do Congresso Nacional Áfricano (ANC) e da África do Sul, na pessoa de Cyril Ramaphosa, deveria ser acompanhada por uma acção real para implementar as mudanças políticas anunciadas.
Como a experiência africana tem demonstrado vezes sem conta, uma mudança de liderança em si mesma não é suficiente para atrair investidores e fomentar o crescimento económico.
Konrad Reuss, chefe da agência de rating global S&P para a África Subsaariana, que falava numa reunião de homens de negócios em Joanesburgo, advertiu que “ainda se vivem os primeiros dias… e ao mesmo tempo ocorrerão eleições no próximo ano”, adiantando que o grande vizinho do sul precisava de “desenvolver um equilíbrio entre vencer as eleições do próximo ano e implementar reformas que possam
robustecer o crescimento económico”. À medida que diminuiu a euforia teve início uma quebra do valor das acções das mais importantes empresas sul-africanas na bolsa de valores. A ascensão de Ramaphosa à presidência da África do Sul, depois da renúncia de Jacob Zuma, foi enormemente saudada pelos mercados no meio de um ambiente de fraco crescimento económico e um nível de desemprego muito elevado. Assim, no mês passado, a Standard & Poors dava uma avaliação do rand a longo prazo de BB+, ou seja, no primeiro nível de lixo. A agência de notação financeira levantava então preocupações sobre a situação financeira das empresas públicas (SOE- State Owned Entreprises), incluindo a tristemente famosa Eskom, colosso do sector energético sul-africano que em Fevereiro de 2018 tinha visto a sua classificação baixar para o nível CCC+, o sétimo escalão do grau de não-in-
27%
O nível a que a taxa de desempregO chegOu nas últimas décadas na ecOnOmia sul-africana é verdadeiramente assustadOr para qualquer país em desenvOlvimentO é pOr issO cOnsideradO um dOs principais e maiOres ObstáculOs aO gOvernO de de ramaphOsa
vestimento, com um panorama negativo. Quando Ramaphosa ascendeu ao poder estavam, ontem como hoje, identificados os seus principais desafios como novo presidente da África do Sul: primeiro, o combate efectivo à corrupção como um mal endémico no seio do Estado, sorvedouro de milhares de milhões de rands.
O grande combate
Essa luta titânica contra as teias da corrupção, não se resume ao legado do anterior presidente Zuma, de novo a contas com a Justiça, mas a um conjunto de dirigentes e agentes do estado e do qual o affair de state-capture por via da família Gupta, apenas representou o escalão mais visível e negativo. As mudanças no sistema judiciário ainda não são suficientes, nem na letra nem na forma. Segundo, eliminar o caos existente nas empresas estatais (SOE,s) tais como a Eskom, que teve de recorrer à banca devido ao enorme buraco financeiro. Mas seguem-se outros gigantes empresariais públicos em maus lençóis, tais como a companhia aérea de bandeira, SAA (South African Airways) e a PetroSA, para citar as mais renomadas, entre outras, com sucessivos resultados negativos.
Mudanças que exigem não apenas uma dança de cadeiras nos conselhos de administração, mas gestões mais eficientes. O desenvolvimento económico pode ser elencado em seguida como mais um desafio. As expectativas do plano de desenvolvimento nacional, que previa uma taxa de crescimento económico de 5,4% com vista a enfrentar uma taxa de desemprego de 27%, não se confirmam para já.
Mesmo o Banco Central apenas prevê uns meros 1,4% de crescimento para 2018 (adiante veremos outras projecções), seguido de outros escassos 1,6% em 2019.
Um grande desafio
Inverter a tendência de descida dos ratings da economia, será outro grande desafio para a liderança de Ramaphosa. Em 2017, tanto a Fitch como a S&P posicionaram a dívida sul-africana no nível de lixo, mesmo depois de Zuma ter demitido Nhlanhla Nene e depois Pravin Gordhan (este último, entretanto, regressado ao governo de Ramaphosa) como ministros das Finanças.
O desafio da nova equipa económica de Ramaphosa configura-se numa tríade gigantesca, envolvendo a luta contra a corrupção, retoma do cresci-
OS tRêS (gRAnDES)
DESAFIOS DE RAmAPhOSA
Com eleições gerais marcadas para o próximo ano, o novo governo tem várias batalhas duras pela frente para conseguir reabilitar a economia sul-africana
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COmbAtE à CORRUPÇÃO
É, indubitavelmente um dos grandes males da sociedade sul-africana (Estado incluído) e não se resume ao legado do anterior presidente Jacob Zuma, de novo a contas com a Justiça, mas a um conjunto de dirigentes e agentes do estado e do qual o affair de state-capture por via da família Gupta, apenas representou o escalão mais visível e negativo. As mudanças no sistema judiciário ainda não são suficientes, e aguardam-se medidas que façam diminuir o seu impacto na economia.
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REDUÇÃO DO DéFICE
Com um défice orçamental na casa dos 3%, muito há a ainda fazer neste campo. A começar pelo caos instalado em gigantes empresariais públicos como a Eskom, a SAA (South African Airways), ou a PetroSA.
Outra das batalhas que o presidente tem pela frente é o aumento do IVA (medida sempre impopular) em 1%, para os 15% (o que não acontecia há 25 anos) prevendo-se, de acordo com o ministro das Finanças, Malusi Gigaba, um acréscimo de 23 mil milhões de randes na receita fiscal.
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REtOmA DO CRESCImEntO
No ano passado, a economia sul-africana ficou perto do 1% de crescimento, o que ilustra bem que as expectativas do plano de desenvolvimento nacional, que previa 5,4% estão ainda bem longe de serem uma realidade. Fomentar o crescimento da economia e traduzi-lo em criação de postos de trabalho é agora o grande desafio do novo presidente mas isso exige um aumento do investimento.
mento e redução do défice orçamental. O novo inquilino do Union Buildings enfrenta ainda o controverso desafio do acesso grátis à educação, anunciado como último sopro de Zuma e retomado num conceito gradualista que não tem simplesmente suporte orçamental, mesmo com votos favoráveis no interior do ANC e outras forcas políticas. Nem o ensino universal, nem mesmo o ensino superior em si mesmo possuem garantias financeiras de suporte, o que seguramente criará novos pesadelos orçamentais.
O crescimento da economia não se afigura tão promissor como Ramaphosa alvitrou no seu plano anunciado em Novembro de 2017, anunciando criação de empregos, crescimento e combate às desigualdades.
Como vimos anteriormente, e mais adiante, em pormenor, também não se confirmam as previsões então feitas de 3% em 2018 e duvida-se que possa atingir os 5% anunciados para 2023. Fomentar o crescimento da economia e traduzir esse crescimento em criação de emprego – tal é o grande desafio de Ramaphosa e da África do Sul.
Mas como se sabe, isto exige um aumento do investimento doméstico e estrangeiro, algo apenas susceptível de alcançar com estabilidade política e um governo fiável – que não se resuma à repetida acomodação de interesses de facçõessem esquecer a pertinência do papel do sector privado.
Como se vê pelos últimos desenvolvimentos, a polémica questão da devolução da terra sem compensação, que pode solapar um dos maiores fundamentos da economia sul-africana – o sector agro-industrial – pode minar quaisquer perspectivas positivas.
A grande encruzilhada
Praticamente meio mundo concorda que a percepção da economia sul-africana melhorou positivamente depois da eleição de Cyril Ramaphosa como presidente, há alguns meses.
A taxa de crescimento da economia já foi revista em alta e pode mesmo atingir 1,8% em 2018, mesmo segundo a OCDE, com uma previsão de 2,1% em 2019 – alguns percentuais acima do próprio Tesouro Nacional.
Mas o Merchant Bank advertiu, num relatório recente, que era necessário verificar nos próximos meses se esta melhoria do ambiente económico tem sustentabilidade e se traduzirá numa
LÁ Fora
melhoria dos indicadores de consumo e confiança na própria economia ou, finalmente, se isso vai reflectir-se na sua performance.Uma tendência que segundo o Banco Mundial vai em contramão em relação ao contexto positivo global, onde se espera que as economias dos países emergentes ou em desenvolvimento possam crescer a taxas elevadas, suportadas pela alta dos produtos de base no mercado internacional.
Agricultura, indústria e serviços cresceram. A construção caiu
Segundo o referido relatório do Merchant Bank, a maior parte das indústrias não experimentam um crescimento assinalável desde 2007, com excepção das indústrias do retalho e serviços. Já os sectores primários têm demonstrado uma recuperação saudável.
A agricultura, por exemplo, conseguiu escapar às consequências da seca de 2016, atingindo níveis só observados em 2014. O sector mineiro, uma das grandes ala-
vancas económicas da África do Sul, depois de anos de fracos índices de crescimento, exibiu níveis mais positivos em 2017, mas ainda sem conseguir alcançar os níveis anteriores a 2007.
Passando em análise o desempenho da indústria transformadora, os transportes e comunicações, assim como a logística de equipamentos, todos tiveram um bom desempenho nos últimos trimestres. Contudo, salienta o Merchant Bank, “o sector da construção continua a não crescer e os serviços públicos são bastante inconsistentes. E acabou mesmo por ser o sector dos serviços que manteve a economia à ‘tona de água’ durante este período conturbado, e é ele que deve continuar com um bom desempenho à medida que a confiança e a actividade económica se expandam”.
Riscos mantém-se elevados
Apesar da melhoria em alguns indicadores económicos, a que se pode juntar o optimismo generalizado pela nova li-
Euforia deu-se mais pela saída de Zuma, do que pela melhoria do país, que agora se espera. Mas há um longo caminho pela frente
deranlça no país, o Tesouro Nacional da África do Sul avisa que “os riscos para a economia e as finanças sul-africanas permanecem”, o que inclui “as pressões que podem emergir das próximas negociações no sector público e as reformas de gestão das empresas estatais ainda pendentes”, pode ler-se.
O banco adianta que as reformas de políticas propostas pelo novo governo ainda estão por implementar, sendo igualmente muito cedo para se pronunciar sobre a durabilidade das melhorias no clima político.
O Merchant Bank estima assim que a economia sul-africana deve retornar ao desempenho da primeira década do ano 2000 e, depois, ultrapassá-lo.
Por seu lado, o Banco Africano de Desenvolvimento (BAD) prevê uma “aceleração do crescimento” na África do Sul, com um crescimento de 3,5% per capita daqui a oito anos, algo muito necessário para obstar os altos níveis de desemprego e proporcionar a elevação da qualidade de vida dos sul-africanos.
texto Mário Paiva fotografia istock
Mina de ouro na África do Sul: melhoria no desempenho do sector é fundamental para o economia sul-africana
OPINIÃO
Onde estamos e onde queremos chegar?
Celso Chambisso • Jornalista da Revista Economia & Mercado
quando se fala no futuro de moçambique, há sempre uma preocupação que me salta à vista: maior parte das projecções, estudos económicos e evidências arrastam a opinião pública para a prosperidade. E quando se é pessimista, poucas vezes se estabelece relação com o que devia ser, quanto a mim, a maior preocupação do país: a fraca qualidade de ensino e de formação de capital humano. Uma boa compreensão da questão impõe a necessidade de uma breve visita ao conceito de Capital Humano: “É o conjunto de conhecimentos, habilidades e atitudes que favorecem a realização de trabalho de modo a produzir valor económico. São os atributos adquiridos por um trabalhador por meio da educação, perícia e experiência”. Projecções para daqui a 10 anos, por exemplo, indicam que a produção de riqueza no país pode crescer dos cerca de 15 mil milhões de dólares que se esperam para este ano, para 30 mil milhões, impulsionada pela exploração dos diferentes recursos naturais. Uma preocupação importante, neste quadro, é que existe a noção da “maldição dos recursos”, cujo foco é reunir esforços para evitar que estas metas falhem ou que o crescimento não seja inclusivo. Consensual é que tudo depende da forma como os recursos vierem a ser geridos, mas a mim parece fraca a consciência de que a gestão é feita por pessoas. Por instituições que são feitas de pessoas. Que prosperidade se pode esperar se estas instituições estão com pessoas mal instruídas, mal preparadas? Que sociedade teremos se a transformação não acontece e não parece haver pespectivas de mudança?
Duvido que estejamos a rumar para a prosperidade, e o argumento é óbvio: o sistema de ensino apresenta lacunas que precisam de uma intervenção estrutural. Não se trata de assunto novo e nem é preciso ir ao detalhe para explicar os problemas existentes a todos os níveis: é comum o aluno da sexta classe, 12 anos de idade, não saber ler nem escrever. Aqui começa o problema. No ensino secundário, o mais comum é ler e não perceber o que se lê, o estudante não tem cultura de pesquisa. E porque não é no ensino superior que se resolvem os
problemas do ensino básico, há lá também problemas graves. Prova disso é o total despreparo que estudantes revelam ao intervir em debates sobre variados temas da vida do país em grandes conferências, por exemplo.
A falta de leitura e de informação declinam a qualidade dos debates quando se lhes passa o microfone. O mesmo acontece nas redes sociais: jovens banalizam e transformam em piadas assuntos importantes para a vida da nação, denunciando completa falta de consciência das mudanças que é preciso encetar para corrigir erros e tomar o rumo do desenvolvimento.
E é pela má qualidade dos graduados nacionais que, em Novembro do ano passado, Tomaz Salomão, antigo secretário geral da Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral (SADC) e antigo ministro dos Transportes e Comunicações, defendeu o encerramento das instituições que não reúnem condições para formar quadros competitivos.
Melhorar a qualidade de formação de capital humano, na minha óptica, é uma questão de soberania que vale todos os sacrifícios, inclusive os orçamentais. O estágio actual da educação exige que se desmonte toda a estrutura instalada e se redesenhe uma estratégia semelhante à que se instalou nos anos que se seguiram à independência nacional (1975). Naquela altura, o professor assumia papel central. Era distribuidor de competências académicas aos alunos e as habilidades linguísticas na leitura, interpretação de textos e contagem e domínio da tabuada eram maiores. E apesar do pouco material didáctico, o cometimento do professor conferia maiores habilidades aos alunos, em todas essas dimensões. Se retomarmos este ponto de partida, dificilmente teremos estudantes de ensino médio ou superior medíocres, como acontece nos dias de hoje. Mas isto exige incentivos: mais e melhores meios de trabalho e melhor remuneração para o professor (o salário do professor de nível básico varia entre 8 e 12 mil meticais). Evidências já provaram que o petróleo, o gás, carvão, areias pesadas e pedras, por si, não trazem riqueza e estabilidade. Mas o investimento na formação de pessoas faz toda a diferença. Que o diga o Japão.
Melhorar a qualidade de formação de capital humano é uma questão de soberania que vale todos os sacrifícios, inclusive os orçamentais. O estágio actual da educação exige que se desmonte toda a estrutura instalada
ócio
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O encanto do silêncio do Diamonds Mequfi Beach Resort, em Cabo Delgado
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Market On Main, uma lufada de arte fresca, e muito sabor
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A escolha do mês recai nos espumantes portugueses
(neg)ócio s.m. do latim negação do ócio
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O encantO dO silênciO
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Um silêncio feito de azuis, sempre diferentes, que as marés constroem com a ajuda das águas-marinhas e do céu. Estamos em Mecúfi, distrito da província de Cabo Delgado. O silêncio do luar acompanha as noites no novo resort que surgiu nesta praia.
Chama-se Diamonds Mequfi Beach Resort: 40 quartos deluxe e 10 suites e tem o selo da Small Luxury Hotels of the World. Requinte na decoração e nos materiais. Cá dentro, cortinas de linho, cremes de banho com óleos essenciais, lençóis imaculados, com umas conchas e uma folha de buganvília a saudar o hóspede. Lá fora, as dunas protegidas com entrelaçados
de cana. Tudo debruçando-se para o mar turquesa. Do aeroporto de Pemba, percorre-se uma picada de cerca de 40 quilómetros para chegar ao resort. A entrada é caracterizada por buganvílias de variadas cores, por um embondeiro majestoso e um edifício branco, feito de brise-soleil, o dispositivo arquitectónico utilizado em todo o complexo. As casas surgem como pequeno pontos nessa grande superfície, com os seus telhados de capim acinzentados pelo sol, pela chuva e pela maresia que se espalha no ar. São pintadas de branco, com elementos cruzados de madeira escura na parte superior. Lembram as casas da terra de Shakespeare. Ao longe, vê-se a lagoa feita de mangal,
essa vegetação tão importante para o ecossistema, abrigo dos peixes mais jovens, de camarões e caranguejos.
No estaleiro do Diamonds Mequfi Beach Resort há sete cavalos que todos os dias são levados até à praia por Sue-Mari, a jovem cavaleira que dá aulas de hipismo e acompanha os hóspedes numa das experiências mais encantadoras: nadar com os cavalos nas ondas do mar.
Claro, não é para qualquer um, é preciso ter quase tanta vontade de viver uma experiência única, como alguma experiência neste tipo de aventura.
Para quem nenhuma tem, as aulas à beira-mar até ao fundo da baía são um must. Quanto ao conforto, é a outra nota dominante, juntamen-
te com o serviço. Piscina de água doce com zona para crianças, bar, recepção com pessoal multilíngue, loja, centro de desportos náuticos, um spa. E três restaurantes. E aqui, mais uma experiência requintada.
O chef e a sua equipa tudo fazem para garantir qualidade e delicadeza nos pratos que servem. pão fabricado diariamente, peixes e mariscos, carnes, massas frescas, frutas, compotas, gelados, vegetais locais. Cozinha indiana, italiana e moçambicana nos três restaurantes, cada um decorado com elegância e bom gosto. Paisagem e silêncio, um poema para os cinco sentidos.
textO Paola rolletta
fOtOgRAfiA mauro Pinto
pela RegiãO
onde comer
Os restaurantes Brisa do Mar, Sea You Restaurant, Bela Baia Bar e Beach Bar servem especialidades gastronómicas da Índia, da itália e de Moçambique, com produtos locais.
o que fazer
Passear de catamarã, fazer windsurf, kitesurf, canoagem no mangal, hipismo à beira-mar ou snorkeling. Ver as baleias de Agosto a Outubro. fazer as excursões de avioneta na ilha do ibo. Para relaxar, pode optar por uma massagem tailandesa e holística, ou então por aulas de ioga e pilates. Para as crianças, há cursos de cozinha.
a entRada é caRacteRizada pOR Buganvílias de vaRiadas
cORes, um emBOndeiRO majestOsO e um edifíciO BRancO, feitO de BRise-sOleil. tudO feitO paRa inundaR Os sentidOs
maRket On main
Joburg Horário todos os domingos, a partir das 10 horas
g
a baixa de Joanesburgo ganhou nos últimos tempos uma nova vida que se alimenta de arte e comida fresca. Ora pensemos no Mercado de San Miguel em Madrid, em Covent Garden em Londres, ou no Time Out Market em Lisboa. O Market On Main é uma mistura de tudo isso, mas com a devida pitada de piri-piri africano.
Com um conceito criado pelos empreendedores de design Jacques van der Watt da marca Black Coffee e Bradley Kirshenbaum com o objectivo de aliar gastronomia e design num espaço diferente e com uma frequência semanal nascia em 2011, o Market on Main.
Com ele, a baixa da cidade ganhou vitalidade, e a comunidade artística mais um lugar para fazer sobressair os traços de uma nova interculturalidade latente na maior cidade sul-africana.
m a R ket On m ain,
uma lufada de aRte fResca
Caminhar pelo Mercado, afigura-se como uma viagem. Ao nível de sabores (e aqui, a música ao vivo, tocada por artistas locais, propicia a banda sonora ideal para um roteiro sem lugar de chegada), eles existem para todos os gostos, independentemente da geografia: do Extremo Oriente em que a Li Kitchen encanta cada visitante com os ‘dumplings’ mais deliciosos do quarteirão, passando pelas raízes indianas que crescem na cultura sul-africana, onde o butter chicken da cozinheira do Durban Deli é inescapável. Num pequeno salto de poucos passos, somos transportados até ao outro lado do globo. Não, não se as-
cOm O maRket On main, Os dOmingOs de jOanesBuRgO fORam RevitalizadOs
cOm a mistuRa de nOvOs talentOs e um melting pOt gastROnómicO
suste com o tamanho da paella que nos dá as boas-vindas. Ela é, ainda assim, menor do que o prazer de a degustar. Para quem gosta de doces (quem não gosta?) a referência devida para os gelados artesanais, e para o magnífico ‘Coffee on cone’, uma sobremesa em que o seu café expresso é servido num cone de bolacha juntamente com gelado. E se para si, ‘é mais é bolos’, então terá a árdua tarefa de escolher entre um arrojado ‘red velvet’, ou o bom velho amigo ‘bolo de chocolate’, neste caso ‘sprinkled’, com nozes macadamia. Mas, se é mais sisudo, e só quer um café simples, procure o ‘lounge’, onde a ‘bica’ é etíope, e ser-
vida em pequenas chávenas sem asas. A diversidade é a marca distintiva do Mercado e isso nota-se nas frutas da época que se transformam, em passes de mágica, numa mistura de sumos carregados de vitaminas com aroma de mirtilos, beterraba ou menta. Mas há, claro, outras opções para acabar com a sede. Especialmente se gostar de ousar na escolha da cerveja, já que existe um bar totalmente dedicado às artesanais, em receitas que pedem uma prova múltipla, especialmente se estiver calor. Quando atravessar a zona de restauração vai encontrar um arejado pátio onde irá perder-se nos livros sobre arte, gastronomia ou história, divertir-se com as ilustrações que vai encontrar nas paredes do atelier de cerâmica que existe mesmo ao lado ou então repousar, na esplanada e aproveitar um belo gin tónico. É só uma ideia. E também pode continuar na cerveja, porque aqui anda-se a pé e o balão não sobe.
castas Maria Gomes, Bical e Baga cor Ligeiro amarelado com alguns toques de laivos dourados aroma Frutos de polpa branca, maçãs verdes, algumas notas de tosta com final ligeiramente limonado Paladar Boa estrutura de boca, equilibrado, excelente mousse fina, bolha fina e persistente final Intenso, longo, cremoso e envolvente
temPeratura a que deve ser servido: 6º
palavRaR vinhO espumante BRutO
País Portugal
região Bairrada
castas Maria Gomes e Bical cor Ligeiro amarelo com laivos dourados, bolha fina e persistente aroma Frutos de polpa branca (maçãs brancas), algumas citinas e tropicais Paladar Bom volume de boca, equilibrado, com excelente mousse final Intenso, cremoso e envolvente temPeratura a que deve ser servido: 6º
aplausO ROsé BaiRRada dOc BRutO
País Portugal região Bairrada
castas Baga e Touriga Nacional cor Rosa Salmão aroma Muito frutado, lembrando frutos silvestres e morangos frescos Paladar Espumante de bolha muito fina, leve, com bela vivacidade e harmonia. Acidez que lhe confere grande frescura e equilíbrio final Intenso, cremoso e envolvente temPeratura a que deve ser servido: 6º
apesaR da sua pequena dimensãO teRRitORial, pORtugal está entRe Os 10 maiORes pROdutORes de vinhO a nível mundial
a aRte da Refinada
BOlha p ORtuguesa
não se pode mencionar a Bairrada sem falar da produção de espumantes pois ela é a região mais antiga e importante de Portugal na elaboração deste tipo de vinho – os espumante são ali produzidos desde 1890, e pelo método clássico, o que dá muito mais sofisticação e fineza aos vinhos.
Apesar de ser uma das mais pequenas regiões vitivinícolas, a Bairrada representa cerca de 65% da produção oficial de vinhos espumantes em Portugal. Uma das razões que contribui grandemente para a qualidade diferenciadora que os distingue tem a ver com as características desta região. A acidez é fundamental e mais do que em qualquer outro lugar pode-se aqui obter vinhos de elevada acidez mesmo com boas maturações. O resultado são espumantes com maior estrutura e envolvência de boca.
A principal uva da Bairrada é a Baga, que corresponde a pelo menos 50% das uvas plantadas na região. Trata-se de uma variedade tinta cujos taninos são muito ricos e presentes, garantindo aos seus vinhos uma longevidade elevada.
O Regateiro Doc Bairrada Branco Bruto 2013, elaborado a partir da casta Baga, foi distinguido pela “Revista de Vinhos” (publicação de referência do sector) como um dos melhores de 2015 merecendo-lhe a seguinte apreciação: “Branco feito de uvas tintas, tem uma leve tonalidade rosada e aroma bastante fino, com leves tostados a amparar a fruta fresca. Na boca surgem notas de maçã verde, num conjunto que prima pela harmonia, com final fresco, muito elegante e suave”.
A sua excelente mousse, a bolha fina e persistente e a excelente acidez são alguns dos atributos que fazem dele uma boa escolha para acompanhar, por exemplo, assados no forno.
RegateiRO dOc
BaiRRada BRancO BRutO 2013
País Portugal região Bairrada castas Baga cor Ligeiros reflexos rosa, característicos de um vinho branco feito de uvas tintas aroma frutos vermelhos, complexo Paladar excelente mousse, bolha fina e persistente, estruturado, fresco com uma excelente acidez final intenso, longo, cremoso e persistente temPeratura a que deve ser servido: 6º - 8º
textO rui trindade fOtOgRAfiA d.r.
•em destaque
“MoçaMbiQue – José Cabral”
O livro que acompanha a exposição com o mesmo título, patente no Camões – Centro Cultural Português e galeria Kulungwana, é uma obra indispensável para conhecer e compreender a obra do fotógrafo moçambicano José Cabral. trata-se de uma edição bilingue (português/inglês) da KYZ Books e da Associação Kulungwana, coordenada por Alexandre Pomar. O livro reúne mais de 100 fotografias de José Cabral e inclui textos do coordenador e de Drew thompson (estados Unidos da América).
Para Alexandre Pomar, José Cabral “é um artista fotógrafo de grande cultura visual e literária (…) que defendeu através da independência da respectiva obra e das várias exposições pessoais (…) a liberdade estética e o intimismo autoral”.
edição KYz booKs e associação Kulungwana
eXpOsiÇÕes
exposição De pintura
Centro Cultural Franco-Moçambicano
Sala de exposições inauguração: 02/05 às 18h30
Patente até 15/05 entrada gratuita
João de azevedo
exposição De esCultura “QuanDo olho para MiM não Me reConheço”
Fundação Fernando Leite Couto galeria inauguração: 09/05 às 18H00
Patente até 02/06 entrada gratuita
sara carneiro e luís santos
exposição De FotoGraFia “Capas aFriCanas”
Centro Cultural Franco-Moçambicano
Sala de exposições inauguração: 18/05 às 18h
Patente até 02/06 entrada gratuita
Youri lenquette
Joel Karabo elliott & roots GrowinG Deep
Fundação Fernando Leite Couto
03/05 às 18H00
Moreira ChonGuissa
Fundação Fernando Leite Couto 04/05 às 18H00
Deltino Guerreiro/ KonGoloti sessions
Fundação Fernando Leite Couto 11/05 às 18H00
evento De abertura
Do Festival aZGo natalie natieMbé, Flávia Coelho, Gran’Mah e KoMManDa obZ
Centro Cultural Franco-Moçambicano
Jardim e sala grande 18/05 às 20h30
Bilhetes: 500Mt/400Mt
cinema
17º CiClo de CiNeMa euroPeu
Centro Cultural Franco-Moçambicano Auditório
De 04/05 a 13/05
teatRO
Sessões às 17h e 19h30 entrada gratuita as prinCesinhas enCenação - GuilherMe roDa
Fundação Fernando Leite Couto
teatro para os mais pequenos 12/05 às 10H00
livROs
MunDo Grave
Pedro Pereira Lopes
Mundo grave, “um policial negro e arredio a exotismos, localizado num país que luta ainda pelas suas catarses” foi a obra vencedora da 1ª edição do Prémio iNCM/eugénio Lisboa 2017.
José Cabral exposição de fotografia
Camões – Centro Cultural Português (até 1 de Junho) de Segunda a Sexta das 11h às 18h
Galeria
Kulungwana
– (até 25 de Maio) de Terça a Sexta das 10h às 17h e Sábado das 10h às 15h
hOmenagem a
um mestRe da fOtOgRafia
em mOÇamBique
com curadoria de Filipe
Branquinho e Alexandre Pomar, a exposição é uma apresentação antológica inédita do trabalho do fotógrafo moçambicano José Cabral, uma das referências maiores da fotografia em Moçambique. Reunindo um conjunto alargado de fotografias, entre provas de autor e novas impressões, a exposição estará patente ao público no Camões – Centro Cultural Português até ao dia 1 de Junho. A exposição é acompanhada, em paralelo, pelo lançamento do livro “Moçambique – José Cabral”, uma edição bilingue (português/inglês) da KYZ Books e da Associação Kulungwana, coordenada por Alexandre Pomar. O livro reúne mais de 100 fotografias de José Cabral e inclui textos do coordenador e de Drew Thomp-
son (Estados Unidos da América). No seu texto, intitulado “Documentário Emocional”, Alexandre Pomar, um estudioso e profundo conhecedor da história da fotografia em Moçambique, escreve: “«José Cabral é o outro mestre da fotografia moçambicana (…) Um mestre original, irreverente, individualista, indisciplinado. Por vezes revoltado e irascível, o que as suas fotografias
não deixam adivinhar, na serenidade dos seus itinerários e na ternura com que olha as pessoas, todas elas, nos seus inúmeros retratos. Fotógrafo culto, informado pela literatura e o convívio literário, viajado, Cabral tem um perfil de excepção e de ruptura original e crítico”.
textO rui trindade
José Cabral nasceu em 1952, em Maputo. Aprendeu fotografia com o pai, técnico dos caminhos de ferro de Moçambique. A partir de 1975, trabalhou como fotógrafo no instituto Nacional de Cinema, na Agência de informação de Moçambique (AiM) e nos jornais “Notícias” e “Domingo”. De 1986 a 1990 leccionou no Centro de formação fotográfica. Conta já com dezenas de exposições em vários países, das quais se destacam: Planalto Maconde, 1998, Nas Linhas da Mão, 2006, Urban Angels/Anjos Urbanos, 2009, espelhos Quebrados, 2013. jOsé caBRal
modelo
Koleos tecnologia
4x4-i, presente em todos os modos de condução com sistema de tracção às quatro rodas que facilita a alternância entre os modos 2WD, 4WD AUtO e 4WD LOCK stand
Caetano Fórmula
Moçambique Renault
vnOvO Renault
aO meRcadO naciOnal kOleOs chega
num evento realizado no passado mês de Abril, a Caetano Fórmula Moçambique, afiliada do grupo português Salvador Caetano e distribuidora oficial da marca Renault em Moçambique, anunciou o lançamento do novo modelo Renault KOLEOS, um SUV totalmente redesenhado e tecnologicamente sofisticado. Apresentado na Exposição Internacional de Automóveis de Pequim, o Renault KOLEOS chega com um novo design, uma nova plataforma, novas dimensões e novos motores. Entre as várias características que sobressaem neste novo KOLEOS, destaca-se, em particular, a sua componente tecnológica. A tecnologia 4x4, de fácil utilização, é a
tecnologia 4x4-i, presente em todos os modos de condução com um sistema de tracção nas quatro rodas que facilita a alternância entre os modos 2WD, 4WD AUTO e 4WD LOCK. A nova transmissão KOLEOS 4x4 também garante uma maior segurança e estabilidade, neutralizando a subviragem e sobreviragem e optimizando a aderência em condições difíceis. O novo KOLEOS está apto para todos os terrenos, com uma distância do solo de 213 mm. Outro aspecto a destacar tem a ver com os sistemas avançados de assistência ao condutor. Na versão para Moçambique o KOLEOS vem equipado com um sistema de travagem de emergência activa, vários ti-
pos de alertas (aviso de afastamento da faixa, aviso de distância segura, reconhecimento de sinais de trânsito com aviso de excesso de velocidade, aviso de ‘ponto cego’, detecção de cansaço) e de sistemas auxiliares (câmara de visão traseira, faróis automáticos, faróis dianteiros, sensores de estacionamento dianteiros, traseiros e laterais, e auxiliar de estacionamento).
A conectividade do KOLEOS é outro dos pontos altos deste modelo, nomeadamente o ecrã táctil R-Link 2 com 8,7” (22 cm), com um sistema de controlo conectado, que lhe permite coordenar funcionalidades como o sistema de áudio BOSE Surround, infotainment, e navegação, telefone mãos-livres através da conectividade Bluetooth.
textO rui trindade fOtOgRAfiA d r
a tecnOlOgia 4X4-i, de fácil utilizaÇãO está pResente em tOdOs Os mOdOs de cOnduÇãO cOm um sistema de tRacÇãO às quatRO ROdas que facilita a alteRnância