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SETEMBRO 2018 - #06

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UNIVERSIDADE CRIATIVA Jandrei Cunha Gallas FEEVALE (NOVO HAMBURGO - RS)

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HOTEL VITALITÄT Andrieli Lunelli FACULDADE LEONARDO DA VINCI (TIMBÓ - SC)

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BIBLIOTECA MUNICIPAL CIDADE CANÇÃO Conrado Carvalho Guilherme Barros Samuel Gonçalves Fonseca UNIFAMMA (MARINGÁ - PR)

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DESCOBRINDO ANTOFAGASTA Doraline de Queiroz UCDB – UNIVERSIDADE CATÓLICA DOM BOSCO (CAMPO GRANDE - MS)

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PROJETO ALUNO JANDREI CUNHA GALLAS PROFESSORAS ADRIANA SILVA | LUCIANA MARTINS FEEVALE (NOVO HAMBURGO - RS)

UNIVERSIDADE CRIATIVA

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A proposta da disciplina de Projeto Arquitetônico III, da Universidade Feevale, foi o projeto da Universidade Criativa. Entre as necessidades do programa estavam espaços para salas de aula, biblioteca, salas de estudos, laboratórios de informática, estúdio fotográfico e auditório. Além disso, os edifícios da universidade deveriam comportar centros de convivência para seus cursos de arquitetura, design e fotografia. O terreno com grande densidade de vegetação fica próximo à RS 239, o que facilita o acesso dos alunos de municípios vizinhos. O contexto urbano está em consolidação. A paisagem é composta por áreas verdes com árvores de médio e grande porte e campos abertos. Há um desnível de 15 metros dentro do lote. A Rua Carlos de Laet fica na área mais alta, a leste, de característica mais residencial. A rua de maior movimento é a Avenida Bento Gonçalves, a oeste. Ao norte fica a rua Bento Manoel, que vai se conectar com a Carlos de Laet, formando uma extremidade com um talude dentro do lote. Para elaborar o projeto, o estudante Jandrei Cunha Gallas, em seus estudos, analisou a seguintes referências arquitetônicas: a Biblioteca do Campus e Centro Estudantil da Centennial College Ashtonbee, de Maclennan Jaunkalns Miller Architects; a South Region Ementary School #9, de HMC

Architects; o Complexo Escolar em Serris, de Ameller Dubois & Associés; e o Colegio Los Nogales, de Daniel Bonilla Arquitectos.

Bento Gonçalves e sobe até a Rua Carlos de Laet. Um trajeto composto por rampas leva os usuários da área administrativa até a área de ensino, passando pela porção ao norte do terreno.

No projeto, Jandrei propôs como conceito trabalhar a ideia de Quebra-cabeça. “Uma universidade criativa, que forme profissionais competentes e de sucesso, precisa que todas as áreas compartilhem conhecimento entre si, como peças de um quebracabeça que, unidas, formam uma sociedade ideal”. Dentre as diretrizes que o estudante adotou estão o uso de formas retangulares, escalonamento dos volumes, criando terraços verdes ideais para áreas criativas, e dispor os edifícios de forma que possam “abraçar os alunos”.

Foram destacados dois acessos à universidade: o acesso direto ao setor administrativo, pela rua Bento Gonçalves; e o acesso ao setor de ensino, pela Rua Carlos de Laet. Nesse sentido, o zoneamento foi organizado de forma a reservar a área mais silenciosa ao alto do lote para o setor de ensino, enquanto o setor administrativo, que tem como rotina também lidar com o público externo à instituição, foi posicionado junto à avenida. Devido ao partido linear retangular dos edifícios, a circulação interna é quase que inteiramente periférica. Já a circulação vertical está disposta nas regiões centrais de cada um dos edifícios.

Dessa forma, o partido é composto por 3 conjuntos de blocos lineares dispostos em formato de C, permitindo a criação de uma grande área verde ao centro. Assim, “o partido se dá em volumes em fitas aproveitando o declive com deslocamento das fitas. Gerando plantas retangulares, de fácil acessibilidade e layouts”.

Chegando pela Bento Gonçalves, o acesso principal leva à recepção e um amplo espaço de circulação. Nesse primeiro pavimento, os ambientes de trabalho estão mais ao centro do lote, escapando dos ruídos da rua. Ali ficam salas importantes, como a biblioteca, a livraria, a coordenação e a administração. Com um acesso exclusivo, o visitante também pode ir para o auditório, sem a necessidade de passar pela recepção da universidade. Essa estratégia permite que

Um dos objetivos era modificar a topografia o menos possível. O escalonamento dos edifícios proporcionou, então, os terraços e telhados verdes, conforme diretriz do projeto. O paisagismo conta com poucas árvores de médio porte centralizadas nas áreas vazias do terreno. O principal eixo de circulação parte da Avenida

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sejam realizados eventos no auditório sem a necessidade de coincidir com o horário de funcionamento da instituição de ensino. No segundo pavimento está o terraço de convivência, com algumas mesas e bancos, aproveitando a paisagem e a insolação do fim de tarde. A sala de professores e a sala de reuniões estão situadas próximas ao espaço aberto entre os edifícios. No terceiro pavimento está o bar/café e os centros de convivência dos cursos. Através da passarela metálica junto ao auditório é feita a ligação com o segundo conjunto de edifícios, chegando ao estúdio de fotografia, laboratórios de informática, salas de estudo e salas de aula. No último pavimento, acessível também pela rua mais alta, estão espaços importantes como o atelier de design, sala de conforto e helioscópio, alguns laboratórios de informática, salas de aula, sala de teoria, sala de fotografia e atelier de arquitetura. Os principais elementos compositivos das fachadas são os brises metálicos, com um tom azulado. Na fachada norte, esses mecanismos de proteção solar estão dispostos na horizontal enquanto na fachada oeste são verticais. O auditório é construído em alvenaria e revestido com chapas de aço corten. Outro material importante na


fachada é o concreto aparente. Jandrei trabalhou a estrutura com laje nervurada protendida para vencer os grandes vãos internos do edifício. Elas são ótimas para vãos em torno de 20 metros, diminuindo os efeitos das cargas permanentes. As passarelas que ligam os edifícios são outro elemento importante, construídas com um sistema estrutural de treliças metálicas. Quanto às estratégias de climatização interna adotadas no projeto podemos citar as coberturas verdes nos terraços e o escalonamento dos edifícios, que permitiu aproveitar o máximo de ventilação cruzada nas salas e ambientes internos.

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ENTREVISTA Conte-nos um pouco sobre como eram as aulas na disciplina Projeto Arquitetônico III. Como o projeto foi organizado e conduzido em sala de aula? Como é a metodologia das professoras? Como foram trabalhadas as etapas do projeto? Projeto Arquitetônico III seguia um cronograma proposto pelas professoras. Iniciamos estudos em cima de referências relacionadas com o tema do projeto, buscando algumas soluções. Com estes estudos, começamos a rabiscar, pensar e projetar ideias iniciais baseada em um conceito para a proposta. Logo aviso, rabisquem sem medo. Croquis iniciais te ajudam a expressar uma ideia inicial e o segmento se torna mais prático e fácil. Os assessoramentos eram dinâmicos. Como eram duas professoras, cada semana era tratado com uma delas. Na outra trocava a professora e assim sucessivamente. A primeira entrega era a respeito da ideia inicial junto ao conceito proposto em uma prancha síntese, com ideias de volumetria através de maquete. A segunda entrega trabalhamos com plantas baixas, cortes e fachadas, com imagens do projeto em 3d. A terceira entrega ficou a cargo de detalhamentos mais aprofundados do projeto. Cada disciplina de projeto nos faz aprofundar cada vez mais no processo de composição e análises. Por

exemplo, no começo da faculdade aprendemos as relações hierárquicas entre os volumes de uma edificação, a analisar o entorno, etc. Aos poucos são introduzidos novas condicionantes, como o estudo da legislação municipal e a inclusão de elementos estruturais utilizados atualmente no mercado. Qual foi o foco da disciplina Projeto Arquitetônico III? O que ela trouxe de novidade dentro daquilo que já foi visto até então nas disciplinas anteriores?

raciocínio criativo para chegar até ele?

Em Projeto Arquitetônico III a primeira dificuldade é o terreno. Trabalhar em cima de um terreno com um desnível considerado e com uma área grande, nos trouxe desafios. Isso já era algo novo pra nós. Outro desafio eram os fluxos. Projetar uma universidade abrange muita coisa e relacionar fluxos com a edificação num todo foi um grande desafio também. Além de ter uma série de condicionantes que temos que levar em conta, como acessibilidade, condicionantes ambientais, visuais entre outros.

Os brises na fachada oeste e norte e os pilotis em V que sustentam o volume das salas de aulas proporcionam uma sobriedade e racionalidade ao complexo. Foram ótimas decisões criativas. Podemos encontrar esse tipo de arquitetura em muitos projetos institucionais. Você poderia comentar um pouco sobre as suas referências arquitetônicas? Como o estudo delas ajudou na composição da Universidade Criativa?

Em todos os Projetos que cursei até o momento tínhamos que projetar em cima de um conceito, uma "ideia inicial". Trouxe o conceito quebracabeça como ideia inicial para relacionar com o tema do projeto. Além disso, como o terreno era em declive, através dos croquis iniciais, tive a ideia de escalonar os volumes e dispor eles em diferentes níveis para dar a ideia de quebra-cabeça.

Busquei em complexos comerciais e institucionais referências sobre a estrutura dos mesmos.

O conceito “quebra-cabeça” tem uma excelente relação com o tema Universidade Criativa e foi muito bem trabalhado com a disposição dos volumes arquitetônicos, como se fossem blocos de montagem dispostos no terreno. Você já havia trabalhado com conceito antes na faculdade? Poderia nos contar um pouco mais sobre a criação desse conceito? Como foi o seu

Como no projeto tinha todo o volume deslocado do terreno, não queria que o mesmo fosse em pilotis com pilares comuns normalmente utilizados. Tinha a intenção de agredir o mínimo o terreno. Então trouxe a solução de pilotis em V, trazendo algo imponente, funcional e que atendesse toda a estrutura do volume.

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Você comentou que o terreno com um desnível de até 15 metros foi um grande desafio. Além disso, para vencer os vãos maiores do projeto foram utilizadas lajes nervuradas. Comente um pouco mais sobre os principais desafios que a proposta da Universidade Criativa proporcionou. Sempre gostei muito de ambientes projetados utilizando lajes nervuradas, principalmente em projetos comerciais. Gosto muito. Eu acho que dá uma ideia de imponência, algo elegante. No projeto eu tinha vãos de até 10 metros. Conseguiria usar a laje nervurada sem problemas, até porque ela era protendida, então atendia ao projeto. Seu projeto se adequou muito bem no contexto e toda disposição das funções do programa funcionou de forma muito agradável e racional, além de um conceito inspirador na sua criação. Qual foi a parte mais divertida de trabalhar nesse projeto? Gostei muito de trabalhar o interior da Universidade Criativa. O programa exigia centros de convivência dos cursos. Desenvolvi estes espaços com conceito de coworking, com trocas de ideias e conhecimento. Trabalhei com arte pura nestes espaços, trazendo as obras do artista COBRA nas paredes do ambiente, deixando o local com um ar de criação, inovação e alegria. No bar/café, que ficava no mesmo volume, também haviam obras do artista COBRA.


Depois de todo o seu aprendizado com a Universidade Criativa, quais são os conselhos que você daria aos demais estudantes que ainda irão projetar edificações de ensino na faculdade? O que levar em consideração no momento de projetar uma escola ou universidade? Eu diria para sair da "casinha". Pense adiante. Não caia no mesmo. Faça do seu projeto único e inovador, um diferencial. Mas seja racional e pense em tudo. Acredito que o mais importante em uma universidade são os fluxos de diferentes funções que nela existem. Conseguir deixar tudo muito claro e funcional é o essencial.

CRÉDITOS FEEVALE (NOVO HAMBURGO - RS) 2018/01 DISCIPLINA PROJETO ARQUITETÔNICO III PROFESSORAS ADRIANA SILVA | LUCIANA MARTINS ALUNO JANDREI CUNHA GALLAS | jandreicunha@gmail.com

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PROJETO ALUNA ANDRIELI LUNELLI PROFESSORES ANA CAROLINA BEDUSCHI | EDILSON PEREIRA FACULDADE LEONARDO DA VINCI (TIMBÓ - SC)

HOTEL VITALITÄT

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Andrieli Lunelli é estudante de arquitetura na Faculdade Leonardo da Vinci (SC). No primeiro semestre de 2018 apresentou o projeto do Hotel Vitalität na disciplina Ateliê de Projeto de Arquitetura VII, com orientação dos Professores Ana Carolina Beduschi e Edilson Pereira. Vitalidade foi o conceito de Andrieli para o hotel, “algo que tem vida”, vivacidade, dinamismo e interesse. O principal disparador desse conceito foi o fato do projeto estar localizado numa região central da cidade de Blumenau. O terreno está no meio da quadra, tendo como vizinhança um contexto de classe média, onde predominam edificações mista, comercial e residencial, de médio porte em torno de 6 pavimentos, salvo algumas exceções. Localizado próximo ao Rio Itajaí-açu, o local sofre com cheias constantes. Isso motivou a estudante a elevar o nível térreo 80 cm e trabalhar a acessibilidade com rampas conforme as normas técnicas. São utilizadas desde o acesso principal até o acesso de serviço. O partido arquitetônico consiste em dois blocos conectados pela estrutura envidraçada do jardim de inverno. Hierarquicamente superior, o prédio dos dormitórios possui altura de 03 pavimentos e apresenta uma projeção no térreo para marcar o acesso da recepção.

A construção menor é destinada ao café. Andrieli valorizou muito bem esse espaço com o seu trabalho nas áreas verdes. Utilizando uma composição quadriculada em detalhes pontuais, o paisagismo possui vegetação de grande porte, como a Palmeira Real, que pode chegar até 20 metros de altura, médio porte, como o Alfeneiro e a Palmeira Fênix, e pequeno porte, como o Buxinho, de no máximo 1 metro de altura.

hóspede segue para os elevadores, passando pelo lobby e sala de bagagem. A circulação interna principal segue esse eixo até os elevadores e escadas. Essa área divide o fluxo de visitantes para o café, ao oeste, e os espaços coworking ao sul. Os funcionários do hotel podem seguir no sentido contrário ao café para chegar até a sala da segurança e o almoxarifado. O espaço coworking é formado por duas salas de trabalho, uma sala de estar e sanitários. Tanto os funcionários do hotel quanto os usuários do espaço coworking podem usufruir do jardim dos funcionários, que possui total privacidade enquanto mantém a ventilação natural graças ao fechamento com cobogós.

A paginação de piso faz uma eficaz separação das áreas e trajetos destinadas às pessoas daqueles que são destinados aos veículos. São 32 vagas no estacionamento, sendo 03 para PNE. O piso nessa área é pavimentado com Paver Cinza, deixando as áreas de circulação e permanência de pessoas preenchidas com Paver Hexagonal Amarelo. Próximo à recepção, a estudante ainda criou uma área de embarque e desembarque através de uma reentrância na calçada, aproveitando o recuo de ajardinamento amplo que marca o acesso à recepção. Destacada pela projeção do volume, pela escadaria e pela marquise com estrutura metálica e revestimento de ACM, a recepção do hotel, além de servir para o check-in dos hóspedes e encaminhá-los aos dormitórios, também serve como controle e acesso ao setor administrativo, formado pelas salas da Administração e Diretoria. Da recepção o

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m² e 25 m². Todos articulados em torno do núcleo de circulação vertical e corredor central. Esse corredor é marcado nas fachadas norte e sul pela pele de vidro basculante, que proporciona iluminação e ventilação natural. No pavimento 05 ficam a casa de máquinas e o sistema de ar condicionado VRF, em um número reduzido para atender aos dormitórios. Para a estrutura, Andrieli utilizou lajes treliçadas. “Levando em consideração os vãos para encaixe dos quartos com o andar térreo, foi escolhido o sistema estrutural de laje treliçada com fechamento em EPS”.

Seguindo na direção oposta há o jardim de inverno, um espaço fechado com uma estrutura metálica e vidro, onde o visitante pode acessar o café, o deck descoberto e a área de estacionamento. Por tratarse de uma edificação independente, com vestiários, cozinhas e área de serviço, o café proporciona privacidade aos frequentadores, e os decks permitem usufruir do exterior e áreas verdes do complexo.

Quanto às fachadas, estas recebem pintura com tinta para área externa nas cores branca e carvão. A estudante usou essas cores para uma releitura da arquitetura local, com influência germânica, uma marca da cidade. As faixas escuras fazem uma conexão das aberturas dos dormitórios com o eixo de pele de vidro dos corredores centrais dos pavimentos tipo. As aberturas possuem esquadrias metálicas com pintura chumbo e vidro temperado e o acesso à recepção e o café apresentam portas de vidro.

Nos andares superiores, os pavimentos tipos, que se repetem do 2º ao 4º, possuem 09 dormitórios e um espaço para governança cada um. São 05 tipos de quartos, que variam aproximadamente entre 12

Outro aspecto importante nas fachadas é o sistema de brises móveis que barra as insolações leste e oeste e, juntamente com o sistema de ar condicionado VRF, ajuda a amenizar as temperaturas internas.


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ENTREVISTA O conceito em arquitetura é algo difícil para alguns estudantes. Elaborar um bom conceito e diretrizes de projeto é algo que envolve uma série de fatores, entre os quais podemos citar a inspiração, as sensações obtidas no estudo do local, a pesquisa sobre o tema e, inclusive, a vivência pessoal do autor sobre o assunto. No projeto do Hotel Vitalität você utilizou como conceito Vitalidade, algo que tem vida. Poderia contar um pouco sobre seu processo para chegar nesse conceito e como você trabalhou ele no projeto? O projeto está inserido em uma região central que por si só tem bastante vida e movimento. Logo pensei em algo que remetesse a essa característica de forma que o Hotel se encaixasse na localização e transmitisse a identidade do mesmo. O conceito Vitalidade é imposto principalmente no movimento da fachada, através dos brises móveis, e em conjunto com a diferença de alturas dos volumes, proporcionando vida ao Hotel que está sempre mudando para acompanhar o ritmo dos usuários. A arquitetura de influência alemã na cidade de Blumenau serviu de

inspiração para compor a volumetria do hotel. Você comentou que ela foi desenvolvida de forma a inspirar a evolução nesses padrões. Explique um pouco sobre como você trabalhou esse aspecto no Hotel Vitalität?

como o estudo delas ajudou no projeto? A ideia do jardim de inverno foi efetuada para que a separação fosse possível e agradável em um jogo bem pensado de forma e função. As principais referências projetuais foram o Hotel Ibis Bourbon em Limeira (SP), e o Hotel Arjuna Batu em Timur, Indonesia. Ambos possuem um programa reduzido que era o requisito principal para a proposta.

Blumenau é conhecida como a Alemanha do Brasil. Logo é notável a influência destes padrões também na arquitetura. É comum você encontrar estruturas enxaimel conforme passeia pela cidade. Na concepção do projeto quis trazer este valor para o mesmo, porém sem ser mais uma cópia. Logo trabalhei com materiais que geralmente são encontrados nesta cultura alemã, como estruturas marcadas, e foi através de detalhes na pintura e uso da madeira que alcancei este objetivo.

No Hotel Arjuna Batu os setores são bem marcados, assim como no meu projeto. O serviço está fora da vista porém bem posicionado para não prejudicar o fluxo de trabalho no local. Todo projeto é um desafio principalmente se é um tema que o arquiteto não tem afinidade. Logo a pesquisa de boas referências é necessária para que o projeto não se torne algo disfuncional. No caso do meu projeto a principal ajuda foi na questão dos fluxos e ligação dos setores.

O programa de necessidades foi muito bem trabalhado. A separação do café do conjunto principal do edifício e a utilização do jardim de inverno coberto como elemento integrador valoriza esse espaço gastronômico. Geralmente isso mostra um forte estudo de referências programáticas e o uso de fluxogramas de acordo com a função do edifício. Quais foram as suas principais referências arquitetônicas e

Você comentou que a dimensão reduzida e compor algo que se relacione com o padrão do entorno, um bairro de classe média, foram os principais desafios do projeto. Conte-nos um pouco sobre como você superou esses desafios, e outros que possam ter

aparecido, e quais foram seus grandes aprendizados no projeto do Hotel Vitalität. Devido ao terreno ser de um tamanho reduzido, e a verticalização não se tornaria agradável neste caso, compor o Hotel de forma que ele se impusesse no meio do ritmo intenso da cidade foi o maior desafio. Logo, para solucionar esta questão, tentei deixar o térreo bem distribuído no terreno. O maior aprendizado deste projeto foi a elaboração de hotel como um sistema vivo, algo que sempre se movimenta, e que tem que acompanhar o ritmo dos usuários. Com a finalização do mesmo consegui aproveitar ao máximo a construção de um bom programa e a importância de uma setorização adequada. Quais são as suas dicas para ajudar os colegas nos seus projetos para hotéis? O primeiro passo é entender como funciona um hotel. Faça uma visita técnica, entenda o que acontece e o que não vemos quando somos hóspedes. Procure boas referências, que se adequem ao seu estilo arquitetônico. Escolha um bom conceito e o transmita no partido. E acima de tudo projete com amor!

CRÉDITOS FACULDADE LEONARDO DA VINCI (TIMBÓ - SC) 2018/01 DISCIPLINA ATELIÊ DE PROJETO DE ARQUITETURA VII PROFESSORES ANA CAROLINA BEDUSCHI | EDILSON PEREIRA ALUNA ANDRIELI LUNELLI | andri.lunelli@gmail.com

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PROJETO ALUNOS CONRADO CARVALHO | GUILHERME BARROS | SAMUEL GONÇALVES FONSECA PROFESSOR BRUNO EDUARDO MAZETTO DOMINGOS UNIFAMMA (MARINGÁ - PR)

BIBLIOTECA MUNICIPAL CIDADE CANÇÃO

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Projetar uma biblioteca municipal para a cidade de Maringá. Essa era a proposta do exercício da disciplina Projeto de Grande Porte em Arquitetura. Utilizando o conceito Cidade Canção, os alunos Conrado Carvalho, Guilherme Barros e Samuel Fonseca apresentaram seu projeto no primeiro semestre de 2018, contando com a orientação do Professor Bruno Eduardo Mazetto Domingos. O terreno fica localizado na quadra formada pela Rua Joubert de Carvalho, Travessa Guilherme de Almeida, Avenida Tamandaré e a Travessa Júlio de Mesquita Filho. No local atualmente funciona o terminal metropolitano, servindo como estacionamento para os ônibus. De frente ao lote, na Joubert de Carvalho, fica a Praça Raposo Tavares, uma potencial vista. Seguindo ao sul é possível contemplar a Catedral de Maringá. O partido desenvolvido pelos estudantes consiste em uma grande laje sustentada por pilares em V. No sentido Leste-Oeste são erguidos dois pavimentos com terraços, outro importante elemento do partido. O projeto, assim, possui uma simetria rígida

tanto em fachada quanto em planta.

controle de funcionários, recepção de cargas, cadastramento, acervo inativo, catalogação e almoxarifado.

Todo o térreo é uma grande área de convivência externa. É possível acessar o subsolo por rampas nas fachadas norte e sul. Nesse sentido, um eixo formado através dos furos para área permeável e os jardins para os espelhos d’agua reforça o caráter simétrico do projeto. Nessa imensa área de 2.000 m² foram dispostos alguns mobiliários, como mesas, cadeiras e bancos. A cobertura possui aberturas de formato orgânico, que criam belos efeitos com a insolação e as sombras projetadas no ambiente, uma das características mais marcantes do edifício. Com acesso pelo leste e pelo oeste, estão os dois núcleos de circulação vertical e os sanitários. Nesse pavimento térreo ainda foram criadas 06 lojas, um espaço para crianças e uma sala de mídia.

O acervo principal da biblioteca foi colocado também no subsolo, um pavimento acima do estacionamento, ficando na cota de nível -4,00. É organizado por meio do corredor central de 4 metros de largura, criando duas grandes faixas de zoneamento no leste e no oeste. De um lado temos os ambientes próprios da biblioteca, tais como acervo, biblioteca infantil, área de leitura, área de acesso à internet, salas de estudo e hemeroteca, todos com acesso controlado. Do outro lado temos alguns ambientes destinados à eventos, como o auditório e a área de exposições, além de alguns ambientes técnicos, como o laboratório de pequenos restauros e os periódicos, e outros mais sociais como o espaço da cafeteria.

As rampas para veículos levam até o estacionamento no subsolo, na cota de nível -8,00. Setores importantes nos bastidores na biblioteca estão localizados nesse pavimento. Cabe destacar a forma como esses espaços foram interligados. Do estacionamento de carga e descarga com sala de espera, passando pelo

Logo após o térreo, o 1º pavimento, na cota 10,00, possui grandes terraços voltados para o norte e para o sul. A principal circulação acontece no eixo LesteOeste, conectando os dois núcleos de circulação vertical. O zoneamento nesse pavimento ocorre

através de duas importantes faixas. No sul foram implantados o acervo internacional, a cafeteria e setores administrativos. Ao norte, há alguns espaços também destinados aos funcionários da biblioteca, além da livraria, local de acesso à internet e o palco para apresentações. No 2º pavimento, projetado na cota 15,00, o mesmo eixo Leste-Oeste de circulação se repete, assim como o zoneamento por faixas. Os terraços abertos estão com tamanho reduzidos, porém mantendo as visuais para a cidade, especialmente a praça e a catedral. Ao sul estão duas cafeterias e no norte, algumas salas de reunião e os espaços da audioteca e da videoteca. O vermelho se destaca nas fachadas, passando a ser, também, um elemento compositivo. Ele marca os pilares, a cobertura e as paredes dos volumes elevados, os elementos estruturais mais importantes do projeto. Assim, a biblioteca ganha um caráter de monumento, praticamente contrapondose à Catedral de Maringá, ao Sul, valorizando-a e criando um importante eixo urbanístico.

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ENTREVISTA A Biblioteca Municipal Cidade Canção possui elementos marcantes, como o efeito da luz, graças às formas orgânicas da cobertura, e o partido arquitetônico realçado pela cor vermelha. Em determinados momentos, a sensação que ele causa remete um pouco ao MASP, da arquiteta Lina Bo Bardi. Quais foram as referência que o grupo escolheu e como seu estudo influenciou na composição do projeto? Exatamente. O projeto do MASP, foi nosso guia de partido e conceito. Neste terreno, temos o eixo monumental da cidade indo em direção da Catedral de Maringá. No centro do projeto, preferimos deixar uma grande passagem de pedestres, para que circulassem no interior do edifício, buscando a atração

quando circular, poder subir à biblioteca.

para detalhamento individual. Como vocês trabalharam?

Já na Genoa.estudantes #04, onde o grupo apresentou o projeto do Edifício Torre da Índia, percebe-se o cuidado com os detalhes e a presença de um conceito bem trabalhado. Falem um pouco sobre o conceito da Cidade Canção? Como vocês chegaram nesse conceito e quais foram as suas principais diretrizes?

Nossa equipe é formada por 4 integrantes. Um estudante cuidou de desenvolver o 3d, seu formato. Outro cuidou dos detalhes em 2d. Outro cuidou das imagens renderizadas. E o outro do vídeo de apresentação. Como funcionou o processo compositivo do grupo? A fachada do edifício é bem marcante e muitas vezes um projeto pode nascer a partir de um rascunho de fachada ou corte, ao invés de uma planta. Isso aconteceu com vocês?

O conceito seguiu a leveza de materiais, sua forma artística no teto, transmitindo suavidade e conexão ao meio urbano. O vento predominante também foi estudado, passando pelo interior do térreo de um lado para o outro.

Sim. Fizemos vários estudos de forma, esboços, volumes geométricos para encaixar o fluxograma e o cronograma. Nos inspiramos no arquiteto Frank Gehry, que desenvolve com formas geométricas seus ambientes, quem conversa com quem, sua logística.

Como foi a organização interna do grupo para a elaboração do projeto? Tem muitos grupos que preferem tomar as decisões juntos e separar áreas do projeto

Outro elemento importante no projeto da biblioteca é o sistema de pilares. Como vocês determinaram a estrutura? Foram realizados cálculos e pesquisas para determinar como a estrutura trabalharia no projeto? Sim. Com a assessoria do professor, tivemos o cuidado para que a estrutura ficasse correta e evitasse algo utópico. Quais foram os principais desafios que o grupo enfrentou nesse projeto? A partir deles, falem um pouco sobre o aprendizado que eles trouxeram. A forma estrutural nos trouxe bastante aprendizado, em relação às cargas e descarregamento de forças nos pilares e o vão livre no térreo. Também percebemos que um projeto deve, além da beleza, ser conveniente, prático e objetivo.

CRÉDITOS UNIFAMMA (MARINGÁ - PR) 2018/01 DISCIPLINA PROJETO DE GRANDE PORTE EM ARQUITETURA PROFESSOR BRUNO EDUARDO MAZETTO DOMINGOS ALUNOS CONRADO CARVALHO | conradocarvalho33@gmail.com GUILHERME BARROS | guilherme.sbarros92@gmail.com SAMUEL GONÇALVES FONSECA | samuelgf@superig.com.br

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INTERCÂMBIO ALUNA DORALINE DE QUEIROZ UCDB – UNIVERSIDADE CATÓLICA DOM BOSCO (CAMPO GRANDE - MS)

DESCOBRINDO ANTOFAGASTA Em 2015, Doraline de Queiroz ganhou uma bolsa para intercâmbio acadêmico do Santander Ibero-Americanas. Ao escolher seu destino, optou por um desafio: viver numa cidade um tanto desconhecida pelos brasileiros. Sair da zona de conforto proporcionou, além das dificuldades inerentes a uma escolha diferente, um grande aprendizado de vida, amigos espalhados pelo mundo e belas memórias. Doraline conheceu lugares incríveis e estudou numa excelente universidade. A estudante passou por San Pedro de Atacama, Iquique, La Serena, Coquimbo, Santiago, Viña del Mar, Valparaíso, no Chile, e ainda realizou um projeto de urbanismo no Peru, visitando Lima, Cusco e Machu Picchu nesse processo.

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Antofagasta é uma cidade grande? Como é a cidade?

que tem um visual incrível da natureza local.

Mais ou menos. Ela tem cerca de 400 mil habitantes. Fica na Região Norte do Chile e é uma cidades costeira que se prolonga no sentido norte a sul entre oceano e deserto. Possui indústria mineira desenvolvida, então é uma cidade bastante envolvida com engenharia, circula gente do mundo todo, e muitos empresários. E como circula bastante gente de fora é uma cidade que tem acaba tendo muita coisa para fazer, apesar de não ser tão grande.

Esses são poucos dos lugares turísticos relacionados ao deserto que tem para visitar já que Antofagasta é uma cidade mais empresarial. Lá tem uma exploração mineira de cobre muito grande. Por isso, há muitos estudantes de engenharias, e de arquitetura também. A cidade não é tão voltada para turismo. Nesse sentido tem San Pedro de Atacama, que fica cerca de 400 km de lá.

Ficando na costa, então ela tem montanha e mar? É só deserto e mar. A cidade é toda na borda do oceano e atrás é tudo cerro desértico. Não tem nada de verde, apenas em uma parte da orla, onde as pessoas geralmente fazem caminhada e esportes. Tem balneários para tomar banho, pois como no Oceano Pacífico a água é muito gelada e a margem muito rochosa é necessário a criação desses espaços para os banhistas. Vocês podiam visitar o deserto também? Tem algum parque ou um local para visitação? Dentro da cidade tem um museu nas ruínas de Huanchaca, que fala principalmente sobre a mineração. Tem a La Mano del Desierto, que é um monumento muito conhecido em forma de mão que fica em uma estrada próxima a cidade, e o local mais famoso é a La Portada

Cidade de Antofagasta, Chile.

É uma cidade que fica mais ao norte do Chile, isso? Sim, chegando ao Atacama. Era muito frio lá? Não. Eu achei o clima muito agradável, pra falar a verdade. Era bem mais agradável que em Santiago, por exemplo. Porque lá, durante o dia não é muito calor, tem o oceano, bate um vento refrescante. E durante a noite o clima fica fresco, não chega a fazer frio. Teve um período que eu peguei um pouco mais de frio. Mas não se compara com o frio que faz em Santiago. Já no deserto do Atacama é mais extremo. Durante o dia faz uns 40°C e à noite uns 4°C (na época que estive lá). O frio do deserto, apesar de não parecer, é mais rigoroso por ter mais vento. Em Antofagasta, por causa do oceano, eu achei bem equilibrado. É um clima muito bom.

Museu de Mineração, Antofagasta.

E você estudou na UCNUniversidade Católica Del Norte.

Universidad Católica del Norte.

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Sim, é a universidade que eu estudava. Fica na região sul da cidade, na mesma região que eu morava. Bem central, tem tudo muito próximo. A universidade tem uma localização muito boa e é a melhor universidade de Antofagasta. Eles tem uma unidade lá e outra em Coquimbo, uma cidade mais próxima do centro do Chile. Você tinha aulas pela manhã, de tarde e de noite? Como funcionava a sua rotina de estudos?

La Mano del Desierto.

Lá as matérias são eletivas, então, você não tem como escolher período. É necessário ter seu tempo voltado totalmente para a faculdade. Eu comecei com quatro matérias e terminei com três. Porque uma delas, Diseño Urbano, só dela tinha aula entre duas e três vezes por semana o dia inteiro, fora os trabalhos. Lá as entregas de trabalhos eram praticamente semanais, bem mais corrido do que a Universidade que estudei aqui no Brasil. E nesta matéria tinha mais de um professor, tínhamos aula dentro do nosso ateliê e em seminário. E foi por essa matéria que a universidade nos proporcionou uma viagem de estudos para o Peru. Nós estávamos desenvolvendo um projeto urbano no semestre, cada grupo da nossa turma desenvolveu uma proposta de intervenção em uma região de Lima, no Peru, e fomos fazer estudo de campo lá. O interessante é que a universidade pagou todo o transporte da turma entre Chile e Peru. Nós só ficamos com as despesas de

Biblioteca da universidade.

Orla em Antofagasta.

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hotel, de passeio e de alimentação. Mesmo sendo uma universidade particular eles pagam para os alunos fazerem essa experiência em outros lugares, não me lembro se são todos os anos, mas sempre tem matérias que eles levam os alunos para outros lugares da América do Sul. Quando eu fui, a programação da matéria previa uma ida ao Peru para ficar entre 16 e 20 dias lá. Vinte dias? Que legal! É muito tempo. Sim, ficamos 16 dias. Nós não ficamos 20 dias porque aconteceu um fato inesperado na cidade. Antofagasta, como fica na região desértica, não tem chuva. E depois de 20 anos choveu do nada, e aí destruiu muita coisa. Foi um certo caos porque lá não tem um sistema de drenagem eficiente para comportar o volume de chuva. Alagou muita coisa, destruiu estradas, casas, e teve alguns deslizamentos de terra. Foi um grande problema e a viagem foi adiada. Aí ficamos um pouco menos lá no Peru. Nós saímos de ônibus até a fronteira na cidade de Tacna e de lá pegamos o avião até Lima e depois também fomos de avião até Cusco. Você já sabia falar espanhol? Tinha alguma fluência ou teve que aprender na hora? Sinceramente, eu não falava bem. Estava fazendo aulas, mas na hora em que cheguei vi que não sabia nada. Daí tive que aprender no dia a dia, na marra


mesmo. Em Antofagasta eu procurei não conviver muito com brasileiros, apesar de ter alguns colegas. O meu grupo de amigos era praticamente todo de outros lugares do mundo. Na minha sala de arquitetura era eu, do Brasil, uma estudante da Áustria, uma do Uruguai e uma da Espanha e do grupo de amigos, além delas, tinham mexicanos, espanhóis e boliviano. Eu convivi com muita gente de fora, então, aprender o espanhol foi uma coisa mais natural. Na época meu espanhol estava consideravelmente bom, evitava ao máximo não falar português. Agora pela falta de prática já não está tão bom. Muita gente que fez, por exemplo, o ciência sem fronteiras sempre saía com os brasileiros e deixava os nativos de lado. Então, realmente, não conseguia aprender muito da língua local. Você teve uma atitude bem inteligente. Foi a melhor decisão que eu tive. A princípio, quando eu ganhei a bolsa junto com outras 9 pessoas, a maioria decidiu ir pra Santiago. Pensei em ir lá também, pois fiquei com medo de ir pra uma cidade que não tivesse nenhum conhecido. Existia uma certa zona de conforto nessa possibilidade, tinha gente combinando de alugar apartamento junto, dividir despesas e se ajudar. Acabei indo para um lugar em que eu tinha pouca informação. Descobri após chegar ao meu destino que tem muita gente que faz intercâmbio em

Antofagasta, mas antes disso não encontrei quase nada, não tem muita informação na internet sobre brasileiros na cidade. Você só descobre depois que você está lá, não encontrei informação de pessoas que foram pra lá, como é, qual a melhor moradia, região, transporte, onde você vai para fazer as coisas. Fui totalmente sem feedback, tanto que cometi vários erros que dificultaram as coisas no começo. Eu não arrumei hospedagem antes de ir, o que foi um pouco errado, a universidade me indicou uma mulher para procurar hospedagem pra mim, mas como eu não queria morar em casa de família eu decidi ir alguns dias antes e procurar um lugar.

La Portada, Antofagasta.

Só que eu cheguei lá e vi que era muito diferente do que eu esperava, foi meio assustador. Você não vê árvores, verde, não vê nada. É um lugar muito estranho a princípio. Quando eu cheguei lá eu tinha alugado um apartamento na região norte por uns dias, até encontrar um lugar pra ficar. E a região norte não é uma região boa e só percebi chegando lá. É totalmente distante da universidade e dos locais principais, estava totalmente no lugar errado.

Amigos do intercâmbio.

Aí eu fiquei desesperada, peguei um taxi e fui pra universidade e peguei o contato da mulher que consegue hospedagem. Liguei pra ela e ela logo apareceu pra me ajudar e me levou em algumas casas no mesmo dia e consegui por sorte alugar um quarto

Cidade de Iquique, próxima a Antofagasta.

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em um local tipo uma república, mas de quartos separados, perto da universidade. Uma mexicana havia desistido no mesmo dia pra ir morar com outros mexicanos e deixou aquela vaga. Aí no mesmo dia já mudei pra lá. Foi um perrengue, mas deu tudo certo. Fiquei nesse lugar até o final do intercâmbio, ficava duas ou três quadras longe da universidade e foi super bom.

Sandboard em Iquique.

A melhor decisão que eu tomei, foi não ter arriscado e não ter ficado com o pessoal que foi pra Santiago, consegui me sentir mais imersa no lugar. Eu fui pra lá umas duas vezes para passear. Me encontrei com alguns colegas que estavam no país ao mesmo tempo que eu e vi que o espanhol deles não estava tão bom. Eu acredito que foi muito mais proveitoso me inserir dentro do contexto que eu estava vivendo e não conviver tanto com brasileiros.

Oficinas Salitreras Humberstone y Santa Laura.

Acho que você tomou uma ótima escolha. A cidade parece ser muito bonita pelas suas fotos. Um lugar que tem mar, deserto e uma arquitetura muita bonita. É peculiar. Quando você chega lá tem coisas que não são tão bonitas porque é muito diferente e tem um certo impacto. Na parte próxima à costa você encontra uma arquitetura mais similar com o que temos no Brasil. Porém quando vamos entrando na cidade, é muito estranho, muito diferente. É uma questão de adaptação,

Observatório Astronômico Paranal.

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depois eu me apaixonei por lá. Seus amigos moravam no mesmo lugar que você? Não. Nós morávamos todos próximos, mas ninguém morava comigo. Eu morava num lugar que eram quartos individuais e uma cozinha comunitária no último andar. Cada andar tinha um banheiro. No meu andar tinham três pessoas, cada uma com seu quarto separado, porém, eu quase não via ninguém porque o pessoal trabalhava, estudava. Era muito difícil ver alguém por lá. Você ficou 06 meses? Foram 05 meses. A universidade em si eu achei muito bonita, tem uma arquitetura bem bacana. Cada turma tem um ateliê próprio até o fim do semestre. Todos os nossos trabalhos desenvolvidos ficam dentro do nosso ateliê. Podíamos usá-lo o dia que a gente necessitasse, a hora que a gente quisesse, até de madrugada se fosse necessário para terminar os trabalhos. Então o espaço durante o semestre, é nosso. Podíamos fazer o que quiséssemos que nenhuma turma iria entrar lá, Isso era muito bom. Por exemplo, se eu precisasse ficar com o meu grupo fazendo trabalho até o outro dia de manhã nós podíamos ficar dentro da universidade, no nosso ateliê, fazendo. Por isso que digo que lá as pessoas vivem a universidade, porque a universidade permite que você faça realmente parte dela e tenha seu próprio espaço. Todas as pranchas,


maquetes e trabalhos do grupo que foram desenvolvidas desde o primeiro dia de Taller ficam no ateliê até a entrega final. Cada grupo praticamente tem a sua parede de desenvolvimento. Nosso ateliê ficava no segundo andar nós tínhamos uma vista privilegiada do mar e o pôrdo-sol. No fundo tem todos os estudos do meu grupo. Essa era nossa parede. Eram os estudos que estávamos desenvolvendo nos projetos urbanísticos do semestre. Estávamos fazendo maquetes, estudos com os mapas. Tudo era nosso. Vocês fizeram isso tudo, mandaram imprimir? Sim. Eu achei que em vários pontos da arquitetura eles se aprofundam muito mais. O projeto é estudado, do começo ao fim, tanto teoricamente quanto projetualmente de forma detalhada. Por exemplo, você vai estudar desenho urbano, você estuda desde a parte teórica de planejamento até o desenvolvimento da proposta. Por isso que a carga horária é muito maior nessa matéria, tanto que quando voltei pro Brasil eu eliminei umas três matérias só com ela. Um dos os estudos foi o mapa sensorial onde você vai passeando pelo local onde precisa ser feito o levantamento e anota as suas sensações, tira fotos, anota os cheiros que tem, o que tinha lá. Fizemos cerca de três maquetes ao longo

do semestre, algumas com escala bem ampla. Meu grupo no semestre começou com cinco pessoas. Na fase final eles dividem o grupo em dois pra conseguir fazer uma apresentação mais extensa. Essa apresentação é quando os grupos separados se juntam para explicar todo o projeto. Só que eles escolhem apenas os melhores que são dois ou três grupos para apresentar. Dessa vez, foram dois e meu grupo foi um deles. Eles fazem um seminário, chamam todos os mestres do curso de arquitetura e temos que fazer uma apresentação final pra eles. Foi um tanto diferente porque os mestres lá são muito rígidos, até com os próprios professores. O professor também vai ser “julgado” no final, pra ver se ele ensinou de forma eficaz a matéria, se conseguiu desenvolver bem a turma durante o semestre. Primeiro ele faz um seminário para esses professores explicando tudo que foi desenvolvido. E no fim é feita a apresentação dos grupos para demonstrar os resultados.

Ateliê da turma, com painéis para analise ao fundo.

Apresentação final da disciplina de Diseño Urbano.

Fizemos um projeto de recuperação ambiental e regeneração urbana. Fizemos uma praça linear, novas vias, realocação de moradias e preservação de patrimônio histórico. A maquete do lado era a do outro grupo que fazia parte do nosso antes. Mas como uma ideia complementava a outra, nós fazíamos uma única apresentação para explicar tudo que estudamos desde o começo.

Maquete para apresentação final de Diseño Urbano.

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O interessante foi que os professores comentaram que não parecia que a gente tinha se separado. Acho que desenvolvemos tão bem juntos que no fim nossos trabalhos se complementaram super bem.

passear também. Eles levaram a gente para Cuzco e para Machu Picchu pra passear e falar um pouco da parte histórica. Mas foi uma parte mais livre. Tivemos muita liberdade nessa viagem pra passear e curtir as cidades.

Esse terreno era no Chile ou no Peru?

Qual foi a maior dificuldade ou o momento mais difícil que você vivenciou?

No Peru. É um rio famoso de Lima, o Rio Rímac. Um rio muito poluído com várias construções indevidas na encosta. Então nós tínhamos que fazer um projeto de realocação de moradia, de equipamento urbano e, também, de recuperação do rio e da borda. Envolvia muita coisa. Desde a parte ambiental, moradia e preservação histórica já que era um bairro que tinha uma parte tombada.

Cholitas, em Cuzco, Peru.

Então vocês foram pra lá, ficaram 16 dias, fizeram algumas entrevistas, como foi esse processo?

Museu em Lima, Peru.

Não foram todos os dias estudando. Cada grupo tinha uma região, um lugar de pesquisa. Nos primeiros dias a gente se dividia. Cada um ia para sua área, fazíamos o levantamento fotográfico, entrevistas, levantamento de dados. A área que pegamos era um pouco perigosa. Então tivemos que conversar com moradores locais para nos auxiliar. E nisso foram uns três ou quatro dias. Quando chegávamos ao hostel no fim do dia, o professor passava algumas coisas pra gente. Depois tínhamos muitos dias livres para visitar lugares e

Machu Pichu.

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Algumas coisa aconteceram comigo. Primeiro a adaptação ao local que era muito diferente, geograficamente e culturalmente. E também cometi um erro, que pode acontecer com qualquer pessoa, e complicou a vida. Na época que eu ganhei a bolsa eu pedi um cartão mas quando ele chegou percebi que não era internacional. Quando eu pedi outro eu já estava no Chile. Então eu tive que depender de correio para ter acesso ao meu próprio dinheiro até a chegada do novo cartão. Eu passei alguns perrengues nesse sentido, de planejamento e de falta de informação do local. Isso me atrapalhou um pouco porque, quando eu acessei a internet buscando informações de Antofagasta, eu não encontrei muita coisa, nem de brasileiros, nem de intercambistas. Isso dificulta um pouco. É muito mais fácil quando você vai para um lugar e tem um feedback de alguém. E isso eu não tinha. Mas, ao mesmo tempo, foi muito bom porque eu arrisquei e deu certo. Foi a


melhor opção que eu poderia ter feito pois foi o oposto do que as pessoas fazem para ficar na zona de conforto, de ir para onde já conhecem, pela segurança. Apesar disso, o diferencial foi que a universidade me mandou revistas, folhetos, manual de palavras, gírias chilenas, um monte de coisa pra ajudar. Então eles me instruíram um pouco. Algo que muitas universidades não fazem. O suporte que eles me deram foi muito importante neste começo. Acredito que mais importante do que você apenas avaliar o lugar que vai ficar, é avaliar, principalmente, a universidade para qual você vai. Porque a universidade no final das contas é um dos pontos mais importantes pro sucesso do intercâmbio. Qual foi o momento mais marcante, aquele que você nunca mais vai esquecer? Qualquer fato ou episódio que tenha te marcado pra sempre.

Tem vários, mas o momento de ir embora é algo marcante. É um momento que você vê que alguns medos que você tinha e algumas percepções, foram totalmente desconstruídas. Você vai embora como uma nova pessoa com a mente muito mais evoluída. Eu queria muito ter ficado mais tempo lá. Eu me senti muito grata por ter dado tudo certo e por ter me transformado em vários sentidos. Quando eu cheguei, eu achava que era uma coisa e estava errada e só com o tempo entendi a importância da experiência que eu estava vivendo. O intercâmbio não é só para aprendizado acadêmico, é principalmente pessoal. Você vai uma pessoa e volta outra diferente. Aprendi que não devo ter medo do novo e que experimentar coisas novas pode ser incrível. Memórias, pessoas e lugares é o que se leva de mais precioso nisso tudo.

Lago de sal, no Atacama.

Deserto do Atacama, Chile.

CRÉDITO DORALINE QUEIROZ | doraline_queiroz_@hotmail.com

Valparaíso, Chile.

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Genoa.estudantes é uma publicação da Genoa Maquetes Eletrônicas. As imagens publicadas nos artigos pertencem a seus respectivos autores. Para a Genoa.estudantes #6, a Genoa Maquetes Eletrônicas desenvolveu a arte para a capa da publicação utilizando trecho do projeto acadêmico dos estudantes Conrado Carvalho, Guilherme Barros e Samuel Gonçalves Fonseca.

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