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Com muita satisfação, apresentamos na Genoa.estudantes #5 dois trabalhos de TCC e dois projetos acadêmicos que mostram o quão abrangente é a profissão de arquiteto, podendo valorizar o passado de uma cidade ou pensar o futuro de um país. Ananda Visentin Neri Coutinho trabalhou o restauro e reabilitação da Villa Iracema, em Juiz de Fora (MG). Em seu TCC, propôs ainda um novo complexo gastronômico que valoriza a edificação histórica tornando-a um belo atrativo para a região. Vinícius Ferzeli refletiu sobre a importância do transporte intermodal no Brasil em seu artigo para o TCC. Buscando chamar a atenção para o assunto e aproveitar modernas ferramentas de modelagem 3D, seu projeto final foi uma proposta de estação férrea em Campo Grande (MS), que equipara-se à grandes obras de arquitetura espetacular pelo mundo. Gisele Klein, em Canoas (RS), apresentou o projeto de uma escola de ensino médio com excelente uso de elementos pré-fabricados. A setorização do programa garante que as portas da escola possam ser abertas para a comunidade nos finais de semana sem que isso interfira no setor de ensino. Em Seropédica (RJ), Roberto Terra e Rodolfo Egarter, num projeto lúdico e criativo que explora as cores como forma de estimular o conhecimento e a curiosidade das crianças, trouxeram a proposta arquitetônica do Educandário Lapidarte. O domínio do tema foi tão profundo que os estudantes apresentaram, inclusive, propostas de metodologias pedagógicas de acordo com a faixa etária dos alunos, trabalhando a educação como o processo de lapidação de um diamante. Bem vindos à Genoa.estudantes! Leonardo Juchem

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MARÇO 2018 - #05

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PROJETO DE RESTAURO E REABILITAÇÃO DE VILLA IRACEMA + COMPLEXO GASTRONÔMICO Ananda Visentin Neri Coutinho CENTRO DE ENSINO SUPERIOR DE JUIZ DE FORA (JUIZ DE FORA - MG)

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ESTAÇÃO FERROVIÁRIA - INTERMODALIDADE A SERVIÇO DO DESENVOLVIMENTO LOCAL Vinicius Ferzeli UNIVERSIDADE CATÓLICA DOM BOSCO (CAMPO GRANDE - MS)

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ESCOLA DE ENSINO MÉDIO ARMANDO FAJARDO Gisele Klein ULBRA (CANOAS - RS)

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EDUCANDÁRIO LAPIDARTE – ESCOLA INTEGRAL DE ENSINO FUNDAMENTAL Roberto Terra Rodolfo Egarter UFRRJ (SEROPÉDICA - RJ)

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PROJETO ALUNA ANANDA VISENTIN NERI COUTINHO PROFESSORA MILENA ANDREOLA DE SOUZA CENTRO DE ENSINO SUPERIOR DE JUIZ DE FORA (JUIZ DE FORA - MG)

PROJETO DE RESTAURO E REABILITAÇÃO DE VILLA IRACEMA + COMPLEXO GASTRONÔMICO

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Graduada pelo Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora (MG), Ananda Visentin Neri Coutinho desenvolveu em seu TCC o projeto de restauro e reabilitação da Villa Iracema, edificação histórica em Juiz de Fora, integrada a um novo complexo gastronômico. Com orientação da Professora Milena Andreola, Ananda elaborou um trabalho rico no detalhamento gráfico e fotográfico das patologias da edificação e uma proposta de intervenção que, com simplicidade e delicadeza, garante o protagonismo da residência e proporciona novos atrativos para a região. O Trabalho de Conclusão de Ananda seguiu as orientações constantes no Manual de Elaboração de Projetos Monumenta, programa do Ministério da Cultura para a reforma e resgate do patrimônio cultural urbano do Brasil. O manual descreve o projeto de restauro em três etapas: identificação e conhecimento do bem; diagnóstico da edificação; e proposta de intervenção. A Villa Iracema, originalmente chamada de Villa Olympia, foi construída em 1914. Projeto de Rafael Arcuri, arquiteto com formação em Napoli, na Itália, a edificação possui estilo Art Noveau e pertenceu a uma família abastada que desejava mostrar seu poderio econômico na sociedade. O luxo da residência se equiparava aos palacetes dos barões do café da

época. Foi a primeira casa construída com piscina em Juiz de Fora (MG). Na época, o entorno era composto por edificações de um e dois pavimentos e a casa possuía uma visão privilegiada para a parte baixa da Rua Espirito Santo, onde estava a maior concentração comercial, as principais fábricas do município e o transporte ferroviário.

sustentada pelo conhecimento da técnica a ser empregada e pelo domínio da história estética e filosófica, assegurando a legitimidade das escolhas efetuadas no processo, sem depender do gosto de um único indivíduo. A intervenção deve ser facilmente reconhecível, sem desrespeitar a unidade que se busca reconstruir, e deve facilitar eventuais intervenções futuras.

A residência foi tombada em 1999, preservando volumetrias, fachadas, gradis, jardins, canteiros frontais, portões, chafariz, estátuas que servem de luminária e os demais elementos decorativos, além de um afastamento de 06 metros entre o prédio e qualquer outra construção futura.

Como a região possui uma ocupação de uso misto, próxima a um núcleo cultural e histórico da cidade, composto por outras edificações tombadas pelo patrimônio histórico, como a Biblioteca Municipal junto ao Centro Cultural Bernardo de Mascarenhas, Ananda desenvolveu uma proposta que busca manter essas características locais. A estudante propôs um espaço para café e salas de exposição temporárias ligadas ao tema do patrimônio cultural para instruir a população a respeito do assunto. A arquitetura europeia da residência trouxe a inspiração das vilas italianas. Dessa forma, a estudante sugere um pequeno átrio formado por novas edificações para restaurante, pizzaria, sorveteria e livraria, criando um centro gastronômico e cultural que complementa o novo uso proposto para a Villa Iracema.

Atualmente o gabarito urbano da região conta com prédios de 02 a 05 pavimentos. No terreno funciona um estacionamento rotativo adquirido juntamente com o imóvel pelo Hospital 09 de Julho. Em 2014 uma obra irregular substituiu uma guarita, removeu o portão tombado soldando outro ao gradil, também tombado, e instalou uma grande cobertura metálica. Para a proposta de intervenção, Ananda seguiu as premissas do pensamento de Cesare Brandi, um dos grandes nomes da restauração. Para Brandi, a restauração: deve buscar recuperar a unidade potencial da obra, sem cometer um falso artístico; não pode abolir a história nem considerar o tempo reversível; e deve ser

Nesse átrio externo, o desenho sinuoso da paginação de piso, formado por pedras, decks de

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madeira e canteiros, marcam a circulação até o restaurante e demais atrativos. Os decks de madeira e a tonalidade das pedras ainda ajudam e definir algumas áreas de permanências com mesas e cadeiras. O paisagismo original do projeto no acesso à edificação foi mantido. Árvores e palmeiras ajudam a criar regiões de sombra no átrio, que proporcionam maior conforto térmico. O acesso à edificação tombada é marcado pela escadaria e colunas da varanda. Internamente a circulação é organizada pelos halls de cada pavimento, que distribuem o fluxo de visitante para cada uma das alas da residência, com partido em “L”, e para a escadaria no centro. No pavimento térreo fica o café. No subsolo foi criado um espaço para adega e um depósito. No pavimento superior estão as salas de exposição e a sala de informática. O hall, nesse andar, ainda leva até a sacada sobre a varanda de acesso, proporcionando uma vista para o jardim e para a rua. Do café no pavimento térreo, o visitante pode acessar o deck de madeira e o pergolado com brises deslizantes que leva até os sanitários e o restaurante na área externa. As novas edificações para o restaurante, a livraria, a pizzaria e a sorveteria foram projetadas para garantir o protagonismo do edifício da Villa Iracema. Com esse


objetivo, Ananda trabalhou propositalmente a materialidade e paisagismo do projeto. O restaurante de dois pavimentos é construído em estrutura metálica, com fechamentos em vídro e terraço jardim. Assim como a área de transição para a edificação principal, a entrada possui pérgolas

deslizantes. Ananda, fazendo uma referência ao art noveau do edifício da Villa, utilizou guarda corpos com os marcantes arabescos do estilo.

com o telhado aparente, exibindo as telhas cerâmicas italianas, possui um aspecto rústico que dialoga com o paisagismo criado pela estudante.

Nos fundos do lote ficam os espaços da pizzaria e sorveteria, com cozinha, sanitários para clientes e vestiários para os funcionários. Essa edificação

A livraria, com partido linear, também é uma construção em metal e vidro que conta com tecido acrílico para proteger os livros da ação do clima e da

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insolação. Tanto a livraria e a área externa da pizzaria e sorveteria foram trabalhadas com uma cobertura móvel, tornando esses espaços versáteis e proporcionando aos usuários a escolha por mantê-los abertos ou fechados.


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ENTREVISTA O trabalho de restauro exige uma pesquisa técnica e histórica muito detalhada. A pesquisa de campo também, além de apresentar perigos físicos na visita técnica para levantamento das patologias, como estruturas debilitadas, com pisos e coberturas frágeis. Quais foram os principais desafios nesse projeto? Um dos principais desafios foi conseguir a autorização para entrar na edificação e poder fazer o levantamento detalhado da mesma. Como já foi dito, a edificação apresentava muitas patologias e foi complicado adentra-la, devido à instabilidade dos pisos. Em edificações como a Villa Iracema, que possui a estrutura intacta, mas madeiramento instável, é muito importante o uso de equipamentos de segurança. Já em relação ao projeto em si, o maior desafio foi adequar o espaço tentando intervir minimamente nele, de forma que este mantivesse seu aspecto residencial, mesmo que o novo uso fosse comercial, gastronômico e cultural. Isso traria para ele a sensação de aconchego, não seria só um local de passagem. Outro desafio foi adequar o entorno, para que este fosse parte integrante da edificação restaurada. Todas as edificações foram pensadas de forma a valorizar e integrar o bem tombado. Você realizou alguma pesquisa junto à

comunidade local para determinar o tipo de ocupação do lote?

para fazer esse serviço, e veio a calhar que eu trabalhava como colaboradora nesta. Com isso além de eu ter acesso a todo o material, o que não é difícil, pois na divisão de patrimônio do meu município a população pode acessar toda a documentação das edificações tombadas, eu pude fazer o levantamento mais preciso e detectar patologias que não constavam na documentação da divisão de patrimônio, tornando assim o trabalho bem mais completo.

Mesmo antes de iniciar meu TFG, sempre conversei com a população sobre o espaço onde a Villa Iracema está inserida. A maior parte dessas pessoas sentem-se pertencentes ao espaço, mesmo sem nunca terem entrado nele. Pelo menos 90% das pessoas, tinham o desejo da edificação ser aberta para o público de alguma forma. O público de mais idade imaginava a Villa como os antigos e luxuosos cafés europeus, já os mais novos como uma lanchonete com área de leitura.

Na Genoa.estudantes #3, também foi apresentado um TCC com um projeto de restauro em Juiz de Fora, inclusive com orientação da professora Milena. Assim como você, o colega mencionou o pouco estudo de projetos dessa natureza durante a faculdade. Como os TCC’s de restauro tem sido vistos nos últimos semestres no CESJF? O que a banca comenta a respeito desse interesse dos alunos? E os colegas que estão iniciando os cursos?

Levando em conta os usos existentes no entorno e essa pesquisa, cheguei à conclusão que daria pra juntar todas essas ideias em um único projeto, de forma a atender todas as faixas etárias. Os atuais proprietários do imóvel mostraram-se abertos à sua proposta de TCC? Como foi conseguir acesso à residência para levantamento das patologias e registro fotográfico? Você possuía acesso ao projeto arquitetônico da edificação para auxiliar os seus estudos?

O meu TCC e o do Tiago foram os precursores na área de restauro no CESJF, após nossas apresentações o interesse aumentou, mas ainda vemos poucas pessoas que realmente se interessam pelo tema. Muitos ainda acham que é absurdo manter uma edificação histórica, que o legal é modernizar e trazer novas tecnologias, que só com elas haverá progresso, que quando se tomba algo, o valor monetário é perdido.

Os proprietários já possuíam uma proposta em mente, e tal proposta deve sair do papel em breve. Infelizmente não tive oportunidade de apresentar a minha a eles. O acesso eu consegui pois na época que a empresa contratada pelos donos foi iniciar o levantamento, ela terceirizou outra empresa

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E por mais que a gente estude os benefícios de mantermos nossa história, nossa memória, que existem formas de lucrar com bens tombados sem precisar demoli-los, esse pensamento ainda impregna as pessoas. Toda semana da arquitetura tentamos levar esse tipo de trabalho para mostrar que é possível, que nossa história vale muito, e espero que pouco a pouco, a gente consiga conquistar mais colegas que respeitem e amem essa área. Quais os conselhos que você pode dar aos estudantes que pretendem realizar projetos de restauração? Quais livros você pode sugerir? Em quais conteúdos o estudante deve se focar? O conselho que dou é que patrimônio e restauro é uma área complexa, que exige muita dedicação e amor. E por mais que as vezes pareça impossível trabalhar com patrimônio, nunca desista, é uma das áreas da arquitetura que mais nos permite lidar com o passado, presente e futuro das pessoas, cada trabalho é uma vivência única, com aprendizados que vão além do que um dia pude imaginar. Livros eu sugiro muito a coleção Artes & Ofícios do Ateliê Editorial, que dá uma visão geral das diferentes linhas de pensamento sobre restauro, Alegoria do Patrimônio, de Françoise Choay, O Culto Moderno dos Monumentos, de Alois Riegl, entre outros. Muito sobre o assunto pode ser


encontrado também no site do IPHAN. Para quem pretende seguir a área de restauro, história é fundamental, seja da arte ou da arquitetura, elas sempre vão dar parte do embasamento necessário. Fora isso é estudar a teoria do restauro, o que vem a ser patrimônio e como foi a evolução do pensamento sobre o mesmo. E ter noção

que cada caso será um caso, sempre demandará muito estudo para que as tomadas de decisão sejam as melhores possíveis.

Foi um inclinação bem pessoal. No início do curso de arquitetura, eu me perguntava todos os dias o que eu estava fazendo com a minha vida, eu odiava. Quando estava no terceiro período consegui um estágio e tive contato com a área de patrimônio e restauro, e tudo começou a fazer sentido na minha vida. Haha

A escolha por restauração foi tomada por uma inclinação pessoal? Agora, como profissional, você tem trabalhado com edificações históricas na sua cidade ou buscado projetos nessa área?

CRÉDITOS CENTRO DE ENSINO SUPERIOR DE JUIZ DE FORA (JUIS DE FORA - MG) 2017/01 DISCIPLINA TRABALHO DE CONCLUSÃO DE CURSO PROFESSORA MILENA ANDREOLA DE SOUZA ALUNA ANANDA VISENTIN NERI COUTINHO | anandavarquitetura@gmail.com

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Agora como profissional eu tenho trabalhado na área de patrimônio histórico e restauro. Porém na minha região é bem complicado, tendo em vista que firmas de arquitetura fazem reformas disfarçadas de restauro para todos os lados. Fora isso, trabalho com arquitetura de interiores, paisagismo e desenvolvimento de modelos digitais.


PROJETO ALUNO VINICIUS FERZELI PROFESSOR FERNANDO CAMILO JR. UNIVERSIDADE CATÓLICA DOM BOSCO (CAMPO GRANDE - MS)

ESTAÇÃO FERROVIÁRIA - INTERMODALIDADE A SERVIÇO DO DESENVOLVIMENTO LOCAL

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O estudante Vinicius Ferzeli, em seu TCC pela Universidade Católica Dom Bosco, trabalhou o tema Estação ferroviária Intermodalidade a serviço do desenvolvimento local, com orientação do Professor Fernando Camilo Jr. Aliado a um artigo apresentando sua pesquisa sobre o tema, inspirada na sua experiência de intercâmbio pelo programa Ciência Sem Fronteiras, O estudante projetou um complexo terminal ferroviário implantado em um terreno ao sul de Campo Grande (MS), em uma área entre o Anel Rodoviário (BR262) e a linha férrea. O objetivo principal do projeto foi chamar a atenção da sociedade para a importância do transporte férreo e como um sistema integrado de transporte é uma solução ideal para um país de proporções continentais como o Brasil. Para isso, Vinícius trabalhou seu TCC gerando uma arquitetura espetacular, que lhe exigiu o estudo e aperfeiçoamento de técnicas de modelagem 3D em ferramentas como o Fusion360 e programas em plataforma BIM. Essa arquitetura espetacular tem como conceito o “movimento”, o que

norteou a concepção da volumetria. O resultado foi um partido com desenho orgânico, onde formas sinuosas vão sobrepondo-se umas às outras gerando um formato aerodinâmico, muito semelhante aos trens e veículos de alta velocidade.

A circulação principal no interior da estação acompanha o movimento de crescimento da volumetria do edifício, no sentido noroeste-sudeste, em direção aos terminais de embarque. Circulações secundárias são criadas entre os núcleos de diversas salas comerciais que compõem a porção noroeste da estação. Os espaços das praça de alimentação no térreo estão voltados para as grandes aberturas envidraçadas do sul, que proporcionam uma vista para os demais edifícios de arquitetura espetacular do complexo. As bilheterias e demais espaços administrativos estão alocadas próximas aos terminais de embarque e carga e descarga de mercadorias.

O movimento gerado pela volumetria é reproduzido nos acessos e circulações externos. As principais áreas verdes estão localizadas no acesso de pedestres. As árvores de grande porte também estão presentes no interior do edifício, em uma faixa de área verde próximas da abertura ao sul. Os trens acessam à estação terminal pelo sudeste, através de uma bifurcação na ferrovia existente, direcionando quatro trilhos até a área de embarque. Com todas as demais edificações do complexo localizadas na porção sul do terreno, as docas e áreas de carga e descarga de caminhões estão dispostas nessa fachada para facilitar o transporte até os locais de armazenagem e comércio de mercadorias. O acesso de visitantes e passageiros ocorre pelo norte e noroeste, onde está o terminal de ônibus e a rodovia.

Nos pavimentos superiores há recuos nas lajes, gerando mezaninos que permitem ao visitante uma visão total e espetacular da estação. Nesses pavimentos estão salas dos setores administrativos e salas para os órgãos de controle e segurança. No pavimento 03, último pavimento, fica um espaço para o Memorial da Ferrovia, com visual para o sul. Ao centro estão algumas salas comerciais

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enquanto a praça de alimentação está ao norte, contemplando a vista para a rodovia, a paisagem local e a cidade de Campo Grande ao longo do horizonte. As aberturas da estação são parte importante da aerodinâmica da fachada e da volumetria. Tratam-se de grandes janelas piso-teto que preenchem os espaços entre as coberturas. Elas proporcionam transparência e reflexividade que complementam o efeito do concreto reforçado com fibra de vidro (GRC – Glass Reinforced Concrete), material das fachadas externas. O revestimento das paredes internas é gesso reforçado com fibra de vidro (FRG Fiberglass Reinforced Gypsum), na cor branca, e o piso também possui material reflexivo. Assim eles refletem a luz que entra pelas aberturas laterais e zenitais que, graças à diferença de altura das coberturas, fazem com que a luz rebata nas superfícies reflexivas externas e penetre de forma difusa no interior da estação. O resultado é uma potencialização do uso da luz natural numa das regiões de maior insolação do país.


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ENTREVISTA Como você definiu uma estação ferroviária como seu tema de TCC? A escolha por esse tema teve grande influência do intercâmbio que realizei através do Programa Ciência Sem Fronteiras, na França em 2015/2016. Lá e em países vizinhos, pude observar vários aspectos positivos, na prática, de como um sistema de transporte ferroviário eficiente pode trazer inúmeros ganhos para sociedade, em termos de qualidade de vida, através de aspectos como mobilidade, otimização de tempo e redução de custos para malha de transportes. Isso me gerou angústia quando voltei, pois o Brasil, com sua escala continental, se beneficiaria muito de uma gestão de transportes integrada. Eu não entendia como isso tenha ficado para trás, e o porquê do sistema ferroviária ter virado sinônimo de transporte ultrapassado. Quando comecei a estudar a respeito, vi que o problema era mais geral e envolvia toda a malha de transportes, e por isso o tema do artigo é “Intermodalidade a Serviço do Desenvolvimento Local”, focando não só no transporte ferroviário como ferramenta de desenvolvimento, mas principalmente na sua integração com outros modais e como isso afetaria o desenvolvimento local de Campo Grande e Mato Grosso do Sul.

Seu projeto possui um estilo semelhante com os da arquiteta Zaha Hadid. As obras dela foram algumas das suas referências? Contenos um pouco sobre as referências utilizadas no projeto e um pouco do seu aprendizado estudando essas obras. Foram sim, principalmente o projeto realizado pelo seu escritório para a Roca London Gallery. Utilizei esse projeto como referência estética para a volumetria, para a parte interna da estação e sua materialidade, pois buscava materiais que possibilitassem a execução de formas não lineares. Outro projeto que foi referência para a parte estética e, principalmente, de fluxos foi a Estação Saint Exupéry de trens TGV, em Lyon. Nesse projeto, que é conectado a um dos aeroportos da cidade, Santiago Calatrava utilizou a volumetria como maneira de guiar os usuários. Sua arquitetura já funcionava como um sistema de sinalização, e logo no salão de entrada os passageiros já assimilavam, pela espacialidade, para onde deveriam ir.

quais você trabalha e se já havia feito tentativas mais ousadas como essa em seus projetos de semestres anteriores.

interoperabilidade entre softwares da mesma empresa (Autodesk) seria mais confiável, além do software ser livre.

Na realidade, essa foi a minha primeira tentativa de sair da modelagem convencional que utilizamos na maioria dos cursos de Arquitetura. Por também ser formado em Design, fiquei com vontade de trazer um pouco da metodologia e das ferramentas de criação do Design de Produto para a Arquitetura.

Como foi sua organização para aprender o Fusion360? A faculdade oferece cursos de modelagem 3D? Você chegou a cogitar outros softwares 3D que poderiam trazer resultados semelhantes?

A necessidade de ferramentas mais complexas surgiu pela direção na qual o partido arquitetônico estava se encaminhando nos primeiros rascunhos? Ou a forma nasceu em decorrência da liberdade criativa que o software de modelagem Fusion360 lhe proporcionou? Conte-nos um pouco mais sobre o nascimento do partido do projeto. Acredito que a necessidade surgiu pela direção que o partido estava seguindo. Nos sketches iniciais já havia certa referência, e comecei a fazer estudos volumétricos no 3ds Max, mas percebi que haveria maior facilidade na modelagem se utilizasse softwares mais voltados para o sistema NURBS. Mesmo que o 3ds Max ofereça esse tipo de modelagem em seu sistema, acreditei que outras ferramentas poderiam ser mais otimizadas para a volumetria que pretendia. As alternativas eram o Rhino e o Fusion360, e acabei optando pela segunda, acreditando que a

Você comentou que um dos maiores desafios desse projeto foi aprender novos softwares e relacioná-los em uma plataforma BIM. Além disso, trazer novas tecnologias para a concepção foi um de seus objetivos. Conte-nos um pouco sobre como surgiu esse interesse pela modelagem eletrônica, sobre os softwares com os

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Sim, cogitei também aprender o Rhinoceros, mas já tinha realizado um projeto no Fusion360 e me senti mais apto a realizar um trabalho de maior complexidade nele. A Universidade - dentro da sua estrutura curricular - oferece somente disciplinas que abordam modelagem básica com o Sketchup, então aprendi a modelar estruturas mais complexas no Fusion360 através vídeos em canais livres e na prática. Como o sistema de modelagem segue a mesma dinâmica de high poly do 3ds Max, tive facilidade e soube como operar o software para construir malhas confiáveis. A maior dificuldade foi quando transferi o modelo - através de códigos prontos - do Fusion360 para o Dynamo, e depois para o Revit, onde pude “traduzir” a volumetria em um projeto arquitetônico, definindo a materialidade e a estrutura. Foi necessário apresentar maquete física na sua apresentação de TCC? Nesse caso, você contratou serviços de impressão 3D? A maquete física não era obrigatória, e cogitei a


impressão em 3D. Porém, como aqui em Campo Grande ainda não há um mercado muito experiente em impressão 3D para maquetes desse estilo e a escala me obrigava a dividir o modelo em 3 partes para ser minimamente didática, resolvi focar mais nos diagramas e imagens virtuais para a apresentação. Quanto à materialidade, as fachadas são trabalhadas com concreto reforçado com fibras de vidro (GRC). Quais outros materiais foram utilizados no projeto? A materialidade, que tem como referência o projeto da arquiteta Zaha Hadid para a Roca London Gallery, consiste no uso de CRF (concreto reforçado com fibras ou GRC: glass reinforced concrete) para as formas da partes externa, e para os elementos da parte interna, o gesso reforçado com fibras de vidro (GRC, em português, e FRG Fiberglass Reinforced Gypsum em inglês). Os

materiais foram escolhidos devido a sua maleabilidade e moldabilidade, defendendo que as forma eram executáveis.

principalmente o investimento do transporte ferroviário, primeiro para cargas e posteriormente para pessoas. Diminuir substancialmente a dependência matricial do sistema rodoviário levaria a uma série de consequências positivas, entre elas: diminuição do número de caminhões nas estradas, do desgaste prematuros destas, dos acidentes, da porcentagem de perda de produtos transportados por carretas, além do aumento da qualidade de vida e segurança dos trabalhadores envolvidos nessa dinâmica e dos passageiros que teriam um transporte muito mais seguro e eficiente. O projeto inusitado da edificação teve como principal objetivo esse que estou fazendo aqui, abrir caminhos para discutirmos essa questão, de que uma arquitetura espetacular pode ser uma ferramenta catalisadora para o incentivo ao transporte ferroviário e a essa intermodalidade. Um assunto tão difundido em

Arquiteturas espetaculares pelo mundo costumam utilizar sistemas de alta tecnologia para garantir conforto térmico de uma forma sustentável. O Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, por exemplo, faz uso da água do mar para resfriamento do edifício e placas fotovoltaicas para captar energia solar em sua estrutura. Você chegou a detalhar no seu projeto algumas soluções sustentáveis ou sistemas de refrigeração do edifício para o clima de Campo Grande? Na realidade o próprio tema da intermodalidade nos transportes faz parte de uma solução sustentável em escala muito maior que a que o projeto resolveria com outras soluções tecnológicas da edificação. Trata-se da otimização da malha de transportes e aumento da sua eficiência, defendendo

CRÉDITOS UNIVERSIDADE CATÓLICA DOM BOSCO (CAMPO GRANDE - MS) 2017/02 DISCIPLINA TRABALHO DE CONCLUSÃO DE CURSO PROFESSOR FERNANDO CAMILO JR. ALUNO VINICIUS FERZELI | vnfz12@gmail.com

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outros países e que no Brasil ainda se vê com os olhos dúbios. Que conselhos você pode dar aos colegas que desejam explorar a ferramentas de modelagem 3D mais complexas em seus projetos? Não há melhor conselho se não a tentativa e erro. Veja projetos semelhantes e tente entender como ele foi concebido, tenha sempre em mente o conceito que está levantando, não trate o projeto como uma massa de modelar e apresente sempre o seu caminho, como chegou a tal solução. O software de modelagem é apenas uma ferramenta, não servirá para nada se não houver uma proposta consistente carregada de conceitos e norteadores. Com isso em vista, teste, aprenda o software que tiver interesse, mas aprenda principalmente como ele se comporta com os outros softwares que você já utiliza para os projetos.


PROJETO ALUNA GISELE KLEIN PROFESSORES ENALDO | SAMANTHA ULBRA (CANOAS - RS)

ESCOLA DE ENSINO MÉDIO ARMANDO FAJARDO

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A estudante Gisele Klein projetou uma escola de ensino médio, seguindo o padrão da Fundação de Desenvolvimento da Educação (FDE). O programa consistia em setores administrativo, social, esportivo, serviços e pedagógico. Ainda previa que a escola seria aberta aos finais de semana para receber a comunidade e promover eventos. O projeto foi desenvolvido na disciplina de Prática de Projeto II e contou com a orientação dos professores Enaldo e Samantha.

a circulação vertical que se configura no elemento de união dos dois blocos principais do complexo, fato que influenciou diretamente o projeto da estudante. Outras referências também ajudaram na composição da fachada, como a Escola de Línguas Estrangeira Jiangbei, na China, do DC Alliance, e o Parque Educativo Mi Yuma, na Colômbia, do Plan:b Arquitectos. O primeiro apresenta uma fachada com tijolos desalinhados em vão. O segundo mostra os fechamentos dos vãos com grades personalizadas.

O terreno de 9.265 m² está localizado na esquina das Ruas Armando Fajardo, ao norte, e Rua Xingu, a oeste. O Bairro São José possui um caráter fortemente residencial, com edificações de 01 a 02 pavimentos em sua maioria. No entanto já começam a surgir empreendimentos imobiliários com mais 08 pavimentos, o que evidencia o crescimento urbano local. Nas proximidades existem escolas infantis, escolas de ensino fundamental e uma universidade. O bairro ainda conta com praças e áreas verdes.

A modulação estrutural, compatível com a construção com elementos pré-fabricados, gerou um partido regular que consiste em dois blocos principais prolongando-se em direção à Rua Xingu, acompanhando o desenho do terreno. A altura de dois pavimentos foi determinada por não causar grande impacto no entorno. Esses dois volumes são articulados pelo bloco central que abriga a circulação vertical e cria um grande saguão no acesso.

Uma das referências adotadas por Gisele foi a Escola em Votorantim (SP), projeto do Grupo SP, que apresenta um volume para

conforto térmico e visual. Toda a ocupação do lote foi trabalhada de forma a evitar espaços residuais. O acesso principal é destinado aos estudantes e visitantes pela Rua Xingu, de forma a facilitar a integração com o transporte público, e é marcado pela trajeto que leva até o saguão. Um estacionamento para professores e vagas para acesso rápido foram colocados ao norte. O estacionamento continua na área leste do terreno. O saguão do acesso principal foi todo aberto para receber estudantes em período de aula e a comunidade aos finais de semana para que possam usufruir do auditório, da biblioteca, do refeitório, da cantina e da quadra de esportes da escola. Todos os setores circundam o saguão. Ele integra todos os espaços gerando uma grande área de convivência. O térreo foi reservado para os setores administrativo e social, o que facilita o atendimento à comunidade. Já o pavimento superior está reservado para o setor pedagógico composto de 13 salas de aulas, 04 salas de reforço, laboratório de informática, laboratório de química e biologia, laboratório de matemática e física e laboratório de artes.

Árvores foram colocadas em frente à fachada norte e na esquina, a oeste, áreas essas que recebem grande insolação. Essa estratégia acaba protegendo assim os setores pedagógicos e administrativos, gerando

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As salas de aula possuem classes em duplas para incentivar o cooperativismo e possuem quadro negro no pano de toda a parede. Além da escada, o saguão ainda conta com um conjunto de rampas que garante o acesso de todos os estudantes às salas de aula. As fachadas dos setores de permanência prolongada, como o pedagógico e o administrativo foram trabalhadas de forma a ajudar no conforto climático. No norte, foram usados brises metálicos horizontais com recorte na altura dos olhos para permitir a vista para o exterior. No oeste, foram usados blocos de concreto vazado (cobogós). A ventilação cruzada, assim, foi bem trabalhada no saguão e circulação vertical. A estrutura da quadra esportiva possui fachadas revestidas com placas cimentícias pré-fabricadas. Sendo a estrutura racional e modular, Gisele trabalhou as divisórias internas e algumas paredes externas com steel frame. Assim, o processo de construção é mais rápido e desperdiça menos material, além de garantir um desempenho térmico e acústico.


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ELEVAÇÃO NORTE

ELEVAÇÃO LESTE

ELEVAÇÃO SUL

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ENTREVISTA Conte-nos um pouco sobre como eram as aulas na disciplina de Prática de Projeto II. Como era a metodologia dos professores e como foram trabalhadas as etapas do projeto? Eram 2 professores assessorando. Tínhamos 2 aulas por semana sendo uma para trabalharmos em cima do projeto, assessorando com os professores, e outra com aula teórica, dando suporte e informações técnicas sobre as necessidades e uso do pré-fabricado. Conforme o andamento fazíamos painéis apresentando a evolução do projeto. Seu projeto atingiu um alto nível de racionalidade,

mostrando um ótimo estudo da estrutura pré-moldada. A opção pelos materiais préfabricados foi uma escolha pessoal baseada nas suas referências ou fazia parte do programa de estudos da disciplina?

buscar informações com um fabricante, saber quais as dimensões das peças comerciais, vão livre máximo que a viga suporta e sempre utilizar a malha estrutural. Com base na sua experiência com o projeto da escola de ensino médio, quais conselhos você pode dar aos colegas que ainda vão projetar escolas durante a faculdade? O que levar em consideração no momento de projetar uma escola?

Tanto a estrutura de préfabricado como o uso para escola de ensino médio são exigências da cadeira PPII, também a utilização dos catálogos e normas do FDE. Quais dicas você pode dar para os estudantes dominarem o uso de estruturas pré-fabricadas?

Como em qualquer outro projeto tu tens que conhecer o cliente e suas necessidades. Como todos já passamos pelo ensino médio, é legal tu olhar para trás e ver os prós e contras da escola que tu estudou. E

Os professores nos levaram para visitar uma fábrica de pré-fabricados. Foi muito bom conhecer o processo de fabricação. Para o projeto o importante é

CRÉDITOS ULBRA (CANOAS - RS) 2017/02 DISCIPLINA PRÁTRICA DE PROJETO II PROFESSORES ENALDO | SAMANTHA ALUNA GISELE KLEIN | tec.gisele@gmail.com

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como é um projeto institucional, deve se seguir a norma de segurança. Isso é imprescindível. Qual foi o maior desafio que você encontrou no projeto da escola e como você conseguiu superá-lo? A utilização da malha estrutural, que é rígida. Nada pode estar fora da malha ou da sub-malha. Portas, janelas, piso... Juntamente com o material do FDE, foi bem cansativo. Só trabalhando em cima, pensando todo dia um pouquinho. Assim, as coisas iam se resolvendo e, no final, deu tudo certo.


PROJETO ALUNOS ROBERTO TERRA | RODOLFO EGARTER PROFESSORA SIVA BIANCHI UFRRJ (SEROPÉDICA - RJ)

EDUCANDÁRIO LAPIDARTE – ESCOLA INTEGRAL DE ENSINO FUNDAMENTAL

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O Educandário Lapidarte foi o projeto que Roberto Terra e Rodolfo Egarter, alunos da UFRRJ, de Seropédica (RJ), desenvolveram para a disciplina de Projeto Arquitetônico III, com a Professora Siva Bianchi. Trata-se de uma escola de ensino fundamental em tempo integral e apresenta uma proposta conceitual e lúdica que guiou todo o desenvolvimento do trabalho, inclusive a representação gráfica. Os alunos se aprofundaram no tema da escola e no programa de necessidades. Os quatro setores básicos eram: pedagógico; vivência e assistência; administrativo, de apoio técnico-pedagógico e de saúde; e serviços gerais. A rotina escolar foi estudada detalhadamente a ponto de os estudantes proporem inclusive um programa pedagógico e a metodologia de ensino através dos métodos Waldorf, Construtivista e ensino técnico, intercalados em diferentes etapas dos 9 anos escolares. O terreno fica localizado na Zona Rural do município de Seropédica (RJ), às margens da BR 465. Sua topografia apresenta considerável declive, explorado pelos estudantes no zoneamento do projeto. Algumas árvores nativas são encontradas no lote. Os primeiros esboços de zoneamento e circulação no terreno revelaram uma forma repleta de ângulos que inspirou os estudantes

a trabalhar o conceito de pedra preciosa. Foi então que exploraram esse tema profundamente, justificando todas as decisões arquitetônicas. Todo o ser humano é um diamante a ser lapidado. Esse é o papel da escola na formação: lapidar, refinar arestas, acentuar qualidades e preparar o futuro através do conhecimento e novas perspectivas. O diamante também representa evolução e desenvolvimento, vindo do material mais simples até tornar-se a mais sublime das materializações.

nível mais baixo ficou reservado para o refeitório e a área de serviço. O acesso principal, a administração e o auditório estão no nível intermediário. Na parte mais alta do terreno ficou a quadra poliesportiva e o castelo d’água, que substitui os reservatórios, abastecendo todo o complexo. A comunidade pode participar ativamente da vida escolar. Por isso o auditório, local onde acontecem peças de teatro, palestras e apresentações foi projetado no centro da edificação principal, próximo ao acesso, passando pelo jardim interno do hall.

“A forma surgiu de maneira intuitiva, estudando os atributos do terreno e como deveriam ser os acessos, os fluxos e a setorização. Conseguimos assim uma volumetria bruta, repleta de ângulos e faces: aos nossos olhos era uma pedra preciosa que necessitava apenas de polimento.”

No último pavimento, acima do ambiente de pé direito duplo do auditório, está o pátio principal, coberto por uma claraboia. Um local de convivência e troca de ideias, considerado, assim, o coração da escola. As salas de aula foram distribuídas no segundo e terceiro pavimento, bem como os ateliês, oficinas e laboratórios.

Na área externa, Roberto e Rodolfo adicionaram mais algumas árvores junto às árvores nativas já existentes. O acesso à escola pode ser feito pela BR 465 ou por uma estrada secundária próxima ao Bairro da Ecologia. Para a chegada dos estudantes foi desenhada uma baia de ônibus e vagas para o estacionamento.

A claraboia da cobertura do pátio principal, além de possuir vidro low-e como algumas das janelas, foi separada do corpo do edifício para permitir a ventilação, criando um bolsão de ar entre a cobertura e as salas que impede o calor de causar incômodos extremos nesses espaços.

Devido à declividade do terreno, o pavimento térreo foi distribuído em diversas alturas. Essa foi uma estratégia adota pela dupla para evitar movimentos de terra desnecessários. O

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Além de contar com referências para a volumetria da escola – onde foram utilizados a Diamond House em Singapura, de Formwerkz Architects, a Les Closiaux na França, de Dominique Coulon, e o London Metropolitan University Graduate Centre, de Daniel Libeskind – Roberto e Rodolfo contaram com referências importantes para definir materialidade, revestimento e aberturas. “As aberturas acontecem de diferentes modos: ora fractais, retiradas das seções do diamante e com fechamento inspirado no SESC de Lina Bo Bardi; ora quadrados sortidos aos moldes daqueles da obra de Wang Shu (Ningbo History Museum, na China). Ainda usamos aberturas em fita, neutras, servindo como pano de fundo para as outras tão chamativas.” O concreto armado, cujo edifício da Fundação Iberê Camargo foi referência, foi definido pela facilidade na construção de formas irregulares. A madeira foi utilizada para quebrar a frieza e gerar aconchego. Assim o exterior do edifício é branco, inclusive para refletir os raios solares, diminuir a temperatura interna e permitir que fossem coloridas as aberturas das fachadas. No interior, as cores são abundantes, referência a Luis Barragán. Criando espaços lúdicos, dinâmicos e estimulando os alunos a explorá-los.


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ENTREVISTA Seu trabalho em dupla impressiona pela riqueza de detalhes e excelente qualidade gráfica, tanto de render quanto de desenhos técnicos. Podemos citar o exemplo das elevações 2D que, mesmo com uma geometria extraordinária, apresenta inclusive as sombras da insolação. Esse fato demonstra uma grande organização e trabalho em equipe. Poderiam nos descrever de que forma vocês se organizaram para a elaboração do projeto? Por exemplo: quais programas utilizaram; como organizaram a rotina relacionando as tarefas da disciplina de projeto com as das demais disciplinas do curso; quantas disciplinas estavam cursando na época; etc. A organização para a elaboração deste projeto ocorreu de forma orgânica e natural. Estamos acostumados a fazer trabalhos juntos, e, desse modo, sabemos quais são as responsabilidades e expertises de cada um. À época do projeto cursávamos 30 créditos na Universidade, distribuídos em 8 disciplinas, numa faculdade de período integral. Conciliar toda essa carga acadêmica com atividades extraclasse e vida íntima não foi fácil, mas conseguimos resolver todos os desafios através da confiança no trabalho do outro. A cada semana elegíamos o que era prioridade para o bom andamento dos ofícios,

e, não é necessário dizer que passamos algumas noites em claro.

para o entendimento do projeto. Ademais, vale dizer que o processo de composição foi quase artesanal. Recortávamos, retorcíamos, colávamos, explodíamos e rotacionávamos o volume como uma maquete física, a fim de conseguir formas e visadas mais interessantes. Essa lógica se rebateu no mobiliário, que foi concebido através de esboços, e depois modelado e testado através de softwares 3D.

O sistema BIM facilitou nossa tarefa em certos aspectos, permitindo agilidade na etapa da representação gráfica. Utilizamos o programa ArchiCAD para criar os desenhos técnicos, que permitia ao mesmo tempo visualizar as alterações na volumetria e os efeitos da luz dentro do projeto, racionalizando a produção. Além da apresentação, a criatividade do projeto também chama a atenção. Ele possui uma liberdade compositiva que foge da regularidade formal de alguns projetos inteiramente criados no computador. Vocês tinham o hábito de desenhar muitos esboços à mão livre ou o projeto já foi criado diretamente em programa de modelagem 3D? Como isso influenciou a composição?

Um dos maiores desafios de trabalho em grupo é conciliar a diversidade de opiniões e estilos para criar um projeto coerente. Como a dupla conseguiu gerenciar isso? É possível dizer quem foi o autor de cada aspecto do projeto? Seja partido, composição de imagem, conceito, layout de plantas, etc. Ou o entrosamento da dupla não gerou tais divergências?

A princípio, trabalhamos muito com esboços. Nossa primeira ideia envolvia certa modulação, então era mais fácil desenhar. Quando o projeto foi evoluindo e rumando para uma forma mais complexa, vimos a necessidade de utilizar ferramentas 3D para uma visualização mais satisfatória.

Nas primeiras semanas tivemos embates ideológicos sobre como esse objeto deveria se comportar, tanto em questão de forma, como em questão de metodologia pedagógica. Nossas perspectivas foram mudando com o decorrer dos atendimentos e através do diálogo. Boa parte das conversas se pautava em discussões onde cada uma mostrava os prós e os contras de cada direção a ser tomada.

Além do modelo tridimensional, procuramos trabalhar muito com os cortes. A escola se dispõe em níveis diferentes, e, em alguns momentos, os pés direitos são completamente díspares, fazendo dessa visualização imprescindível

Definir o autor de cada aspecto é impossível. Nenhuma ideia permaneceu pura até o final, sem que o

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outro desse retoques para que os dois entrassem em acordo. Podemos dizer com honestidade que o projeto abrange com equivalência as personalidades e os gostos de cada um. As referências utilizadas para o projeto possuem partidos irregulares. É possível identificar esse aspecto na volumetria dos edifícios da escola. Ainda assim, as referências são sóbrias, enquanto a escola tem um estilo muito lúdico e colorido. Quais as suas inspirações e quais conselhos vocês podem dar para os colegas para desenvolver essa liberdade de pensamento na composição do projeto? Buscar referências foi uma das partes mais divertidas do projeto. Nós literalmente abríamos a página de sites especializados em arquitetura e íamos visualizando os projetos até a página 100. Em alguns momentos nos interessava a volumetria, em outros as cores, as vezes as soluções de conforto, ou os revestimentos, as relações com o entorno, etc. Qualquer coisa que pudesse agregar em nosso trabalho. De todas as referências salvas, selecionamos as que estavam em maior sintonia com as nossas ideias originais. A partir daí, passamos a combinar a solução de um com a paleta de cores do outro, a fim de criar algo único e que fosse adequado para a realidade da nossa obra. Podemos salientar também que os arquitetos mais


referenciados no projeto (Lina Bo Bardi, Barragán, Libeskind, Álvaro Siza) são alguns de nossos favoritos, por variados motivos, tornando nossa procura por modelos quase que intuitiva. Se pudermos dar um conselho, diríamos que é imprescindível que o aluno de arquitetura não tenha preconceitos ou amarras, e procure orientação para o seu trabalho em todas as tipologias possíveis, e que

não tenha medo de combiná-las. É importante testar tudo, sair da zona de conforto e se permitir ousar.

Também foi importante para nos introduzir à uma série de condicionantes referente à legislações específicas para cada tipo de construção. Ainda, lançou uma reflexão a respeito da humanização da arquitetura e da criação de atmosferas para melhorar o rendimento das atividades produzidas em diferentes locais.

Quais foram os principais ensinamentos que projetar uma escola trouxe para vocês? Bom, primeiro nos ensinou a trabalhar numa escala que ainda não era conhecida por nós, tanto no aspecto físico, como no aspecto de logística do espaço.

Nos fez pensar sobre a escola no Brasil, e, em como

CRÉDITOS UFRRJ – UNIVERSIDADE FEDERAL RURAL DO RIO DE JANEIRO (SEROPÉDICA - RJ) 2017/02 DISCIPLINA PROJETO ARQUITETÔNICO III PROFESSORA SIVA BIANCHI ALUNOS ROBERTO TERRA | robertojterra@gmail.com | RODOLFO EGARTER | rodolfoegarter@gmail.com

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essa instituição permanece muito semelhante ao que era anos atrás, sendo nosso papel introduzi-la à novas tecnologias e à novas maneiras de se pensar o espaço de aprendizagem. Sem dúvidas, participar desse projeto foi uma experiência ímpar, que contribuiu para expandir nossos horizontes e nos lembrar do porquê gostamos tanto de fazer o que fazemos.


Genoa.estudantes é uma publicação da Genoa Maquetes Eletrônicas. As imagens publicadas nos artigos pertencem a seus respectivos autores. Para a Genoa.estudantes #5, a Genoa Maquetes Eletrônicas desenvolveu a arte para a capa da publicação utilizando o projeto acadêmico dos estudantes Roberto Terra e Rodolfo Egarter como inspiração. Telefone / WhatsApp: +55 51 99839 2912 e-mail: genoa-arq@outlook.com Skype: genoa-arq

Rua Manorel de Souza Moraes, 214 Bairro Progresso Montenegro - RS - Brasil CEP 95780-000

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