__MAIN_TEXT__
feature-image

Page 1


Uma ideia é como uma semente. Quando plantada em um terreno fértil, cresce, floresce e gera seus frutos. A qualidade do fruto dependerá da qualidade e dosagem de suas fontes energéticas. A luz solar não pode secar e queimar a frágil muda. A água deve irrigar a terra sem afogá-la. O solo precisa ser rico em nutrientes e sempre bem adubado. Para que uma boa semente resulte em um bom projeto acadêmico é necessário também cuidar da qualidade das suas fontes. Essas fontes variam de acordo com a etapa da faculdade onde o estudante se encontra e ao longo dos anos vão se ampliando de forma a moldar o futuro arquiteto. Conhecer as fontes não é o bastante. É necessário pensar de uma forma que nunca se havia pensado até o momento e isso advém da profunda análise e estudo. Um amplo repertório de referências arquitetônicas é um dessas fontes das quais se alimenta a semente do projeto. Aqui não se trata de copiar o desenho de um belo partido arquitetônico, de uma planta ou de uma abertura zenital. Trata-se do estudo profundo da obra. Tão profundo que ultrapassa o estudo da edificação e parte para o estudo do arquiteto, da sua forma de pensar, de analisar e de compor estratégias. Trata-se de aprender com o projeto, introduzir um conhecimento gerador de novos conhecimentos na mente do estudante. O terreno onde será implantado o projeto também será o terreno onde a ideia florescerá. Uma turma de 20 alunos apresentará 20 propostas diferentes. Os projetos de maior qualidade são aqueles que souberam analisar profundamente o contexto que o terreno apresenta, todas a possibilidades e limitações que ele oferece. Essas análises assemelham-se ao preparo da terra antes de semeá-la. O estudo da proposta do exercício, além do enunciado do professor, dará embasamento para o estudante avaliar as melhores escolhas para o projeto. Dessa análise surgirão novas referências arquitetônicas para o seu repertório e o poder de argumentar sobre suas decisões, sabendo discernir as melhores estratégias adotadas para cada tipo de programa. O conjunto desses fatores, dessas fontes de inspiração, forma o solo fértil para que a semente possa enfim ser plantada. Escolher a semente, por sinal, é o processo mais complexo, difícil de explicar, pois cada autor, cada estudante, possui o seu método. Pode demorar semanas de reflexão como também pode surgir de uma simples meditação em 05 minutos. A semente é o conceito do projeto. Nasce do conhecimento prévio, das experiências pessoais de cada autor e de sua capacidade criação, sua criatividade. Por isso a definição do conceito torna-se um processo complexo, por tratar de um processo pessoal. Um bom conceito, com analogias claras, trabalhado da forma adequada, com profundas análises de referências, análises de contexto, estudos da proposta, enfim, dá origem a um projeto de qualidade. Bem vindos à revista Genoa.estudantes!

Leonardo Juchem


AGOSTO 2016 - #02 04

PROJETO Espaço Ecumênico, por Amanda Griebeler, Angelita Rosa e Dieuvana Pommer da Silva Unisinos (RS)

12

INTERCÂMBIO Arquitetura da Espanha ao Japão, por Marina Cruz Machado Unisinos (RS)

Página 02: Pantheon, em Roma. Página 03: Duomo de Bruneleschi, em Florença. Fotos: Marina Cruz Machado


PROJETO ESPAÇO ECUMÊNICO Utilizando o slogan da universidade, estudantes de arquitetura trabalharam o projeto utilizando o infinito como proposta conceitual, traçando um paralelo entre a vida acadêmica e os caminhos sinuosos, de altos e baixos, da vida humana. 04


projeto das alunas Amanda Griebeler, Angelita Rosa e Dieuvana Pommer da Silva, grupo que apresentou trabalho sobre o arquiteto Le Corbusier, com a orientação do professor Marcos Mithieckie, contou com uma proposta conceitual inspirada pelo slogan da universidade e resultou em um edifício com desenho icônico em meio à uma das paisagens mais bela do campus. O terreno fica próximo ao lago nos fundos da biblioteca, limitando-o a oeste e a norte. No sul fica o estacionamento do prédio da universidade. A leste, situado em um patamar 3 metros mais alto, está o pavimento térreo do edifício da biblioteca, onde existe um complexo de lojas com espaço de exposição, terminando numa cafeteria com acesso a uma área externa concretada e vista para o lago. Muito arborizado, o conjunto proporciona um belo cenário para o espaço ecumênico.

PROJETO

A disciplina de Teoria e História da Arquitetura II, da Unisinos, trata sobre as principais mudanças oriundas das novas técnicas e materiais surgidos com a Revolução Industrial, passando pela discussão das propostas modernistas do início do século XX e o estudo da obra dos principais arquitetos do período, como Mies van der Rohe, Le Corbusier e Frank Lloyd Wright. Após os trabalhos da primeira fase do semestre, onde foram criados grupos para ministrar apresentações sobre a vida e obra de cada arquiteto, foi proposto aos alunos, como forma de amadurecer o conhecimento, que fizessem uma releitura de uma obra do arquiteto estudado e projetassem um espaço ecumênico nas dependências da universidade. O exercício foi ditado na forma de concurso acadêmico onde os estudantes apresentariam seu conceito na forma de pranchas e maquetes para que a turma avaliasse e escolhesse a proposta vencedora. O

05


PROJETO

A principal referência para o projeto das alunas foi a Igreja Saint-Pierre de Firminy, na França, projeto do arquiteto Le Corbusier, arquiteto estudado pelo grupo. A igreja é uma obra completada em 2006 e tem como material predominante o concreto. A simplicidade e o brutalismo das fachadas rivalizam com os efeitos luminosos no seu interior. Pequenas aberturas fechadas com vitrais coloridos, localizadas em pontos estratégicos no teto da igreja, criam feixes de luz que se movem com a trajetória do Sol e geram uma beleza dramática no ambiente interno. Outro conjunto de fenestrações criam feixes de luz controlados de forma a projetar o desenho de constelações na parede ao fundo do altar principal.

Église Saint-Pierre de Firminy IMAGENS: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/en/0/07/EgliseSaintPierreLeCorbusierFirminy.jpg https://upload.wikimedia.org/wikipedia/fr/thumb/4/46/Constellation_d'Orion_%C3%A9glise_Saint_Pierre.jpg/300pxConstellation_d'Orion_%C3%A9glise_Saint_Pierre.jpg

06


PROJETO Baseando-se no slogan da Unisinos, “Somos Infinitas Possibilidades”, as alunas trabalharam o projeto utilizando o infinito como proposta conceitual, traçando um paralelo entre a vida acadêmica e os caminhos sinuosos, de altos e baixos, da vida humana. O partido arquitetônico da proposta de espaço ecumênico consiste em dois cilindros ovais dispostos no sentido leste-oeste, em direção às águas do lago, lembrando um processo de divisão celular, origem e renovação da vida. Do primeiro volume nasce uma rampa, que o contorna e cruza em direção ao segundo. Esse trajeto faz referência ao desenho de um 8, símbolo do infinito, e leva o visitante por um caminho que percorre todo o complexo. Tal simbolismo remete aos processos e experiências da vida e termina em um mirante na laje de cobertura do segundo cilindro. universitários.

07


PROJETO As árvores existentes foram mantidas no projeto das estudantes. O prédio, assim ganha a privacidade o silêncio da natureza do campus. Uma escadaria com rampas foi adicionada para facilitar o acesso do público vindo da biblioteca da universidade. Os visitantes também podem chegar ao espaço ecumênico por um caminho implantado ao sul, direto do estacionamento. Bancos e mesas foram dispostos junto às árvores para criar espaços de lazer aos universitários.

08

O acesso ao interior dos edifícios é situado no espaço existente entre os dois, onde também começa a rampa que leva ao terraço. O prédio próximo ao lago, além de mirante, abriga o espaço ecumênico em si, um lugar para reflexão, contemplação e celebração. A área para exposições artísticas e debates ficou destinado ao segundo volume, a leste, onde foram colocados os banheiros. Um par de escadarias junto às paredes ovais leva ao topo de um mezanino.


09

PROJETO


PROJETO

Inspiradas pelo projeto da Igreja Saint-Pierre de Firminy, as alunas trabalharam com a luz para compor as fachadas dos edifícios. O prédio ecumênico possui janelas em fita que se abrem nas laterais norte e sul, tomando o cuidado de livrar o espaço da rampa. Já, para o espaço de caráter mais artísticos, adotaram fenestração por furos estratégicos próximos das escadarias e do mezanino. “As janelas do cilindro artístico brincam de arte”, como mencionam as autoras, “misturando a luz e o concreto em forma de quadros na parede”. Além desse jogo de aberturas, criaram uma grande claraboia para a cobertura. Assim, deixam a luz solar do oeste entrar no edifício. Essa estratégia foi adotada por se tratar de um terreno localizado numa área muito sombreada, devido à densidade da vegetação local e à proximidade com prédio alto da biblioteca. O projeto é todo resolvido em concreto, tal como a Igreja projetada por Le Corbusier em Firminy. Também foi previsto um sistema de reutilização da água da chuva através da calha inclinada que circula o prédio de exposições artísticas. A proximidade com as águas do lago, sendo a água a origem da vida, e com a biblioteca do campus, local de riqueza e iluminação intelectual, onde é guardado todo o conhecimento da humanidade, aliados à forma simples como o conceito de infinito foi trabalhado pelas alunas, de forma a fazer uma referência à vida e uma homenagem à universidade, gerou um projeto com uma arquitetura forte e marcante. É um belo exemplo de como os conhecimentos do passado histórico podem ser utilizados para trazer qualidade às construções contemporâneas.

UNISINOS - São Leopoldo (RS) 2016/01 Disciplina: Teoria e História da Arquitetura II Prof.: Marcos Mithiecki Alunas: Amanda Griebeler, Angelita Rosa e Dieuvana Pommer da Silva Contato: mandygriebeler@gmail.com anghrosa@gmail.com dpommer@outlook.com

10


PROJETO Apresentação do projeto no dia da entrega e avaliação em sala de aula

11


INTERCÂMBIO ARQUITETURA DA ESPANHA AO JAPÃO Marina Cruz Machado é aluna da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Unisinos, em São Leopoldo. Através do programa Ciência sem Fronteiras, realizou intercâmbio para estudar na Universidad de Sevilla, na Espanha, escolhendo bem as disciplinas para complementar sua formação como arquiteta. Além disso, aproveitou a oportunidade para conhecer vários países e obras arquitetônicas importantes na Europa, Marrocos e Japão. 12


INTERCÂMBIO

Qual a universidade você estudou no período em que esteve no intercâmbio? Qual critério você utilizou para escolher estudar lá? Estudei por 2 semestres na Universidad de Sevilla, em Sevilla na Espanha. Meu intercâmbio foi pelo programa do governo Ciências Sem Fronteiras e para a Espanha são as Universidades que escolhem os estudantes. Nós temos disponível a relação das Universidades participantes do programa. Podemos ordena-las pela nossa preferência e então esperar ser notificado pela universidade que nos escolheu. Na escolha dessa ordem utilizei por critério as cidades, as que mais me agradaram, pois na lista de universidade todas eram bem conceituadas e acredito que me acrescentariam em conhecimento. Como foi a sua adaptação ao idioma local? Chegou a passar algum período de adaptação em curso preparatório? Cheguei em Sevilla duas semanas antes de começarem as aulas na US, então não tive um período de adaptação longo e acredito que nem seja necessário. Ao longo dos dois semestres tivemos aulas de Espanhol em paralelo com as aulas da faculdade. A única diferença de idioma acho que se deu por estar na Andaluzia e lá as pessoas tem um sotaque muito forte. Por exemplo, "comem" o som do "s" no final e no meio das palavras, mas logo se acostuma e se entende perfeitamente o espanhol andaluz. Há uma diferença no ensino de arquitetura em relação à forma de ensino na sua universidade aqui no Brasil? De que forma funciona o programa de ensino? Como são os estudantes de arquitetura lá? Acho que uma grande diferença é a divisão dos semestres. Lá o ano letivo pega o segundo semestre de um ano e o primeiro do próximo ano, no meu caso cursei o ano 2014-2015. E sempre que acaba um ano letivo se tem a chance de fazer uma segunda chamada, ou seja, uma recuperação de todas as cadeiras cursadas nos 2 semestres. Em relação ao ensino de arquitetura em si, acho que lá existe uma menor cobrança dos professores e parece que o estudo da matéria não é tão aprofundado quanto aqui. Os estudantes ficam mais por conta em buscar aprender e se envolver com o assunto. Em relação a convivência com os estudantes espanhóis, parece que eles são só colegas e não fazem amizade entre si, já com os estudantes estrangeiros (de vários países) se cria uma amizade além da sala de aula.

Página 12: Real Alcazar, em Sevilla. Acima: Marina com amigas do intercâmbio. Abaixo: Catedral de Sevilla.

13


INTERCÂMBIO

Quais as disciplinas você cursou enquanto estava no intercâmbio? Você quem definiu as matérias ou já estava definido no Ciência Sem Fronteiras? Eu que escolhi as disciplinas e preferi cursar matérias que me interessam e que não tenho aqui na Unisinos. Cursei Intervenção no Patrimônio Histórico, essa cadeira teve duração de dois semestres e desenvolvemos em grupos dois projetos de intervenção; Desenho a mão livre, onde aprendemos técnicas de desenho; Arqueologia, que foi uma das cadeiras que eu mais gostei, que aprendemos a fazer pesquisas e análises arqueológicas; História da Construção, que aprendemos a evolução dos sistemas construtivos ao longo da história; Infografia, na qual aprendemos o Archicad; Tratamento digital de Imagens, que é mais voltada para marketing e desenvolvemos uma logo e cartões e site; Construção V, na Europa já existe legislação para insumos e descartes da construção civil e nessa cadeira aprendemos a calcular e destinar todos os resíduos, pois não se pode gerar lixo e é necessário para a autorização de obra apresentar o projeto de tratamento de resíduos. Eu gostei de todas as escolhas e todas me acrescentaram na formação de arquiteta e urbanista, conhecimentos que não são proporcionados aqui no Brasil na minha universidade. Como foi o relacionamento com seus novos colegas de arquitetura? Acabei me aproximando mais de outros intercambistas, brasileiros e de outros países, do que com os espanhóis. Acredito que eles não sejam tão abertos com estrangeiros na sala de aula do que são fora da universidade. Mas mesmo assim a relação com os professores e os colegas foi muito boa e mantenho contato até hoje. Fale um pouco sobre a sua rotina de estudos no intercâmbio? Havia tempo para conhecer outros lugares? Seus amigos eram na maioria brasileiros, espanhóis ou de nacionalidades diversas? Como você utilizava o tempo em que não estava na universidade? As aulas e as horas de estudo não exigiam muito tempo do meu dia, geralmente eram 2 horas de aula por dia, então enquanto não estava na faculdade durante o dia podia aproveitar a cidade, que é linda e cheia de lugares pra visitar. Em Sevilla tem vários parques e espaços abertos para utilizar. O comércio também é farto e diverso, o que proporciona várias horas de lazer. Meus amigos eram variados, muitos brasileiros e muitos italianos, mas também havia uruguaios, alemães, espanhóis e colombianos.

Acima: Escultura Maman, em Bilbao, e Museu Guggenheim. Ao lado: Notre Dame, Paris.

14


INTERCÂMBIO

Chegou a visitar edifícios importantes na história da arquitetura? Quais foram? O que mais lhe impressionou nessas obras? Claro!! Visitei todos que foram possíveis. Na real quando é viagem de estudante de arquitetura sempre tem edifícios importantes no roteiro, e as vezes esse é o motivo principal da viagem. Na cidade que morava haviam prédios históricos, como o Alcázar de Sevilla, que é maravilhoso e como quem mora na cidade tem livre acesso, eu adorava ir passar o dia nos jardins do Alcázar (que por curiosidade é um dos cenários do seriado Game of Thrones). E a Catedral de Sevilla que é a terceira maior do mundo. Além destes ainda existe uma ponte do Calatrava e um intervenção no centro histórico que se chama Metropol ou "Las Setas de Sevilla" para os espanhóis. Pelo resto do mundo conheci as ruínas romanas como o Coliseu e o Foro Romano. Ainda em Roma conheci o MAXXI Museum da arquiteta Zaha Hadid e o Vaticano. Pela Itália subi a torre de Pisa e andei por dentro da famosa Cúpula de Brunelleschi em Florença. Já em Milão, o Duomo de Milano e por sorte os pavilhões da Expo de Milano que deram um show de arquitetura em 2015. Na Espanha conheci as obras de Gaudi, La Pedrera, Parque Guell, Casa Batlló e a Sagrada Família, alem do plano Cerdá, a Caixa Fórum de Madrid, O Guggenheim de Bilbao. Lógico que subi a Torre Eiffel até o topo e passei um dia no Museu do Louvre. Entrar na Notre Dame foi mágico e depois passei no irreverente Pompidou com suas escadas externas. A Cúpula do Reichstag de Norman Foster, o Museu Judaico de Berlin do Daniel Libeskind, a Neue Galerie do Mies Van Der Rohe e subi na Torre de Berlin, que dá pra ver a cidade inteira. A arquitetura Árabe no Marrocos, desde o aeroporto simplesmente maravilhoso e surpreendente de Marrakech até as simples casas de barro das cidades pequenas são encantadoras e recomendo a visita. Depois, dando um salto pro outro lado, fui conhecer toda a tecnologia de Tókio e os edifícios maravilhosos dos mais variados arquitetos. Incluindo: a Tokio Sky Tree e o Yoyogi National Stadium do Kenzo Tange; os prédios de arquitetos famosos de Omotesando como a Audi Forum Tokyo do Creative Designers International; o Cartier Building dos arquitetos Bruno Moinard and Jun Mitsui & Associates; a Prada Building de Herzog & de Meuron; TOD'S Building do Toyo Ito; Gyre, um predio comercial do MVRDV; Tokyu Plaza do Hiroshi Nakamura & NAP; a Hugo Boss do arquiteto japonês Norihiko Dan, entre outros. Em resumo acho que estes seriam os mais conhecidos, e deve ter algum que me esqueci. Mas valeu muito a experiência de entrar e interagir com estas obras. Acima: Reichstag, em Berlin. Centro: Mercado de temperos no Marrocos. Abaixo: Tokyo Metropolitan Government Building, em Shinjuku, Japão.

15


INTERCÂMBIO

Como foi projetar, ler e estudar em uma língua estrangeira? Isso em algum momento atrapalhou na compreensão da matéria ou na realização dos trabalhos acadêmicos?

O contato com uma cultura diferente pode causar situações inusitadas e até engraçadas. Como é a cultura na região onde esteve? Chegou a passar por alguma situação curiosa?

Pela língua foi super tranquilo. A dificuldade foi no entendimento de arquitetura que é diferente do nosso, o jeito de conceber um projeto e as prioridades no layout. Por exemplo, na aula de projeto eu e outra brasileira fizemos todos os sanitários com ventilação natural e o professor achou horrível, disse que os sanitários tinham que ter ventilação artificial. O que aqui aprendemos a sempre priorizar a ventilação natural nessa área, lá eles não acham importante. O estilo de graficação também é bem diferente, tanto que este mesmo professor falou para os brasileiros que ele não conseguia entender nossas plantas e o que estávamos pensando, (acho que o que ele tinha mesmo era birra com estrangeiros, mas não vem ao caso). Mas pelo contrário tive professores que adoravam ter alunos de intercâmbio, que pediam pra aprender nossa língua e gostavam de conhecer sobre a cultura e arquitetura dos países dos alunos.

A cultura na Andaluzia é muito marcante e os andaluzes tem muito orgulho disso, talvez se compare com os gaúchos em relação ao RS. Há alguns hábitos diferentes do nosso que tive que me adequar. Como por exemplo a divisão do dia que eles consideram. A manhã começa às 10h e antes disso o comércio não abre, somente bares (pois é comum se tomar café da manhã na rua), e vai até as 14h. Ou seja, se por exemplo eu marcar um compromisso 13h, se fala 1h da manhã e não da tarde. A tarde só começar depois das 14h, que é quando se almoça e se faz a siesta até as 17h. Até lá a cidade para e o comércio fecha. A vida só volta depois das 17h e o comércio só fecha as 21h, pois ainda não escureceu. Acho que isso foi a diferença cultural que foi engraçada até me acostumar, pois sempre queria marcar os compromissos para a tarde, na hora da siesta, e isso é um absurdo para os espanhóis.

Qual foi a maior dificuldade que você enfrentou no intercâmbio? Agora não consigo lembrar algo que tenha sido a maior dificuldade, pois todas foram superadas com sucesso. A saudade da família, amigos e namorado atrapalha um pouco, mas nada que um Skype ou uma visita não resolva. Aprender a se virar sozinha e resolver os problemas sem pai e mãe também são fáceis de superar. Talvez a vez que eu e minha prima perdemos o avião em Paris e passamos o dia tentando resolver tudo. Ou quando eu e minhas amigas voltamos de viagem e o forro de gesso do nosso apartamento tinha caído e estava todo no chão. Ou logo que cheguei que não conseguia achar lugar pra morar e no último segundo achei o lugar perfeito. Ou até quando fui sozinha pegar meu voo pra Tokyo em Paris com passaporte brasileiro e visto japonês emitido em Madrid e o moço da imigração não sabia em que língua falar comigo. Na verdade agora tudo isso são história boas para contar, e já deixaram de ser dificuldades há muito tempo. A dificuldade é a vontade de voltar no tempo e não poder.

Poderia nos relatar como foi o procedimento de intercâmbio pelo Ciência Sem Fronteiras? O que o estudante de arquitetura que gostaria de viajar pelo programa deve fazer para participar? Quais os conselhos que você pode dar para quem deseja fazer intercâmbio para a Espanha? Infelizmente não é mais possível fazer intercâmbio pelo Csf na graduação, pois o programa não abre mais edital. Mas o processo é bem simples. Se deve ter a nota mínima exigida no ENEM, e proficiência do espanhol emitida pelo DELE no nível mínimo exigido pelo programa, que no meu caso foi B1. Ter entre 10% e 80% do curso já cursado. Após a inscrição pelo site do Csf cada aluno passa por uma seleção interna em sua faculdade e, se classificado, está apto para a vaga de intercâmbio. No caso da Espanha são as faculdades que escolhem os alunos, então é só colocar uma ordem de preferência entre as opções de instituições e aguardar a aprovação. Os conselhos que eu dou é que se deve saber o mínimo de espanhol e não só achar que por ser parecido com o português será fácil, também se deve analisar a cidade em que se vai morar e a universidade, para poder tirar o maior proveito possível da experiência.

Marina Cruz Machado Acima: Museu do Louvre, em Paris. Abaixo: Audi Forum, em Tokio.

16

CONTATO: mcruzmachado@gmail.com


INTERCĂ‚MBIO Acima: Cidade das Artes do Calatrava, em Valencia Ao lado: PavilhĂŁo Barcelona do Mies van der Rohe, em Barcelona.

17


Genoa.estudantes é uma publicação da Genoa Maquetes Eletrônicas. As imagens publicadas nos artigos pertencem a seus respectivos autores. Para a Genoa.estudantes #2, a Genoa Maquetes Eletrônicos desenvolveu a arte para a capa da publicação e para as páginas finais, utilizando o projeto acadêmico das estudantes Amanda Griebeler, Angelita Rosa e Dieuvana Pommer da Silva como inspiração. Telefone / WhatsApp: +55 51 9839 2912 e-mail: genoa-arq@outlook.com Skype: genoa-arq Rua Olavo Bilac, 2183 Bairro Ferroviário Montenegro - RS - Brasil CEP 95780-000


Profile for Genoa Maquetes Eletrônicas

Genoa estudantes #2  

Genoa estudantes #2  

Advertisement