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JORNAL ANO XII – Nº 93 MARÇO 2018

O homem que ensinou a amar os livros e as palavras O professor Geraldo Campos tornou-se referência no ensino pelo uso de métodos inovadores capazes de estimular o aluno a fazer uma leitura crítica da realidade, para além da gramática. p. 8 e 9

Reitor e vice-reitora da UFG falam das perspectivas para a gestão; conheça também quem integra a nova equipe p. 3-4

Pesquisadores sequenciam pela primeira vez o genoma de uma árvore nativa do Cerrado p. 4

Saiba como a Capes faz a avaliação dos cursos de mestrado e doutorado brasileiros p. 11


Universidade

2 EDITORIAL

Quebrando a Teoria do Espelho

Magno Medeiros A socióloga Gaye Tuchman ajudou a quebrar a Teoria do Espelho, segundo a qual o jornalismo retrata fielmente a realidade factual. Ocorre que não existe o espelho verdadeiro dos fatos. Segundo a autora – uma das mais importantes teóricas do Newsmaking -, o relato jornalístico é entrecortado e constituído pelo olhar que caracteriza uma dada cultura, pelo ponto de vista que sustenta o olhar observador, pelo conjunto de princípios e valores que marcam as formas de interpretação dos jornalistas, situados em um determinado tempo e espaço históricos. Nesse contexto, vale ressaltar a importância das rotinas produtivas que interferem no modo de ver, de fazer, de apreender e de relatar o mundo vivido e apreendido. No artigo “As notícias como uma realidade construída”, escrito em 2002, Tuchman afirma: “Por um lado, a sociedade ajuda a moldar a consciência. Por outro lado, mediante uma apreensão intencional dos fenômenos do mundo social compartilhado – por meio do seu trabalho ativo -, os homens e as mulheres constroem e constituem coletivamente os fenômenos sociais” (tradução livre). Nessa perspectiva, relatar significa contar histórias (ou estórias). Não no sentido negativo, mas no sentido de que todo relato requer uma determinada dose de intencionalidade, de subjetividade, de enquadramento e de interpretação da realidade. Afinal, trata-se de um recorte ou de uma versão da realidade, cujo olhar constitui e constrói a realidade. E isso se faz por homens e mulheres, desde o ponto de vista de sua cultura e em face dos fenômenos sociais compartilhados coletivamente.

No jornalismo não é diferente. Longe de ser um retrato fiel da realidade, o jornalismo é uma construção

social. No fazer profissional, são impossíveis a neutralidade do narrador e a reprodução fidedigna dos fatos relatados. Embora se persiga a objetividade, a realidade contada possui a seletividade que se inicia na pauta, passando pelas nuances discursivas do narrador, pela ênfase no enquadramento do editor e, por fim, pela polissemia propiciada pelos olhares díspares do leitor. Portanto, o que marca o jornalismo é, sobretudo, o enquadramento discursivo da realidade. Nessa seara, o pressuposto básico é a ética aplicada às formas de se relatar e de interpretar a realidade. Além da técnica que o caracteriza, vale destacar a premência do respeito aos princípios do jornalismo como comunicação pública, cujos aspectos fundamentais são a relação dialógica, o interesse coletivo, a garantia de participação comunitária, o fortalecimento da democracia, a pluralidade de ideias, a diversidade cultural, o respeito aos direitos humanos e a luta permanente pela construção da cidadania. Entendemos que a presente edição do Jornal da UFG conta histórias marcantes, seja no campo da produção do conhecimento e da divulgação científica, seja na área administrativa, que esboça um projeto de Universidade. São histórias comoventes, instigantes ou edificantes, fruto de práticas e experiências que engrandecem o ensino, a pesquisa, a extensão, a cultura e a gestão no contexto universitário. E, por se tratar de um relato posicionado histórica e institucionalmente, buscamos nos pautar pela postura ética e pela responsabilidade social, ingredientes fundamentais de uma sociedade cidadã e democrática. Isso implica uma construção social necessariamente focada no interesse público. Secretário de Comunicação da UFG e professor da FIC

COMUNIDADE PERGUNTA

Como a Secretaria de Comunicação da UFG (Secom) pode me ajudar a organizar um evento? Na UFG, de acordo com a finalidade, os eventos são classificados como: institucionais, científicos, culturais e de extensão. O cerimonial da UFG destina-se exclusivamente aos eventos institucionais: colações de grau, posses, inaugurações e entregas de títulos honoríficos.

Para auxiliar os organizadores de eventos acadêmicos e técnico-científicos, a Secom possui uma equipe multidisciplinar destinada ao assessoramento de unidades e órgãos sobre o planejamento, a organização e a divulgação de seus eventos. Poderão ser solicitados à Secom os seguintes serviços: orienta-

ção quanto à condução da solenidade e elaboração de roteiro de cerimonial (Relações Públicas); orientação quanto às formas de divulgação utilizando os canais de comunicação da UFG e contatos com a imprensa (Jornalismo); e ainda o planejamento de material de publicidade institucional como identidade visual, fôlderes e cartazes (Publicidade Institucional).

As solicitações podem ser realizadas pelos telefones (62)3521-1706/1310/1978, ou ainda pelos formulários disponíveis no site <www.ascom.ufg.br>. Os prazos para as solicitações variam de 7 a 10 dias úteis. Nayara Pacheco, bolsista de Relações Públicas da Secom UFG

Direto do Instagram @ufg_oficial @brauliovinicius

JORNAL

Publicação da Assessoria de Comunicação Universidade Federal de Goiás ANO XII – Nº 93– MAR 2018 Reitor: Edward Madureira Brasil Vice-Reitor: Sandramara Matias Chaves Pró-Reitora de Graduação: Flávia Aparecida de Oliveira Pró-Reitor de Pós-Graduação: Laerte Guimarães Ferreira Júnior Pró-Reitora de Pesquisa e Inovação: Jesiel Freitas Carvalho Pró-Reitora de Extensão e Cultura: Lucilene Maria de Sousa Pró-Reitor de Administração e Finanças: Robson Maia Geraldine Pró-Reitor de Gestão de Pessoas: Everton Wirbitzki Pró-Reitora de Assuntos Estudantis: Maísa Miralva da Silva – Jornal UFG – Secretário de Comunicação: Magno Medeiros Secretária Adjunta de Comunicação: Daiana Stasiak Editora: Carolina Melo Editor Assistente: Luiz Felipe Fernandes Conselho editorial: Angelita Pereira de Lima, Cleomar Rocha, Estael de Lima Gonçalves (Jataí), Luís Maurício Bini, Pablo Fabião Lisboa, Reinaldo Gonçalves Nogueira, Silvana Coleta Santos Pereira, Thiago Jabur (Catalão) e Weberson Dias (Cidade de Goiás) Suplente: Mariana Pires de Campos Telles Editoração: Frede Aldama Fotografia: Carlos Siqueira Reportagem: Carolina Melo, Carolina Pires, Kharen Steca, Luiz Felipe Fernandes, Patrícia da Veiga, Versanna Carvalho Bolsistas: Amanda de Oliveira e Ana Fortunato (Fotografia), Vinicius Paiva (Jornalismo) Impressão: Centro Editorial e Gráfico (Cegraf ) da UFG Revisão: Maria Lucia Kons Tiragem: 6.000 exemplares SECOM Reitoria da UFG – Câmpus Samambaia Caixa Postal: 131 – CEP 74001-970 – Goiânia – GO Tel.: (62) 3521-1310 /3521-1311 www.ufg.br – www.ascom.ufg.br jornalismo.ascom@ufg.br

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Ana Fortunato

Os compromissos da nova gestão Reitor Edward Madureira e vice-reitora Sandramara Matias falam dos planos para a UFG nos próximos quatro anos Luiz Felipe Fernandes

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nova gestão da Universidade Federal de Goiás (UFG) assume com desafios que atingem as instituições públicas de ensino superior de todo o país: além dos sucessivos cortes no orçamento, um discurso de deslegitimação ameaça o modelo de universidade pública e gratuita. Apesar do cenário adverso, os professores Edward Madureira Brasil e Sandramara Matias Chaves – reitor e vice-reitora da UFG, respectivamente – afirmam o compromisso de reorganizar a estrutura da Universidade, valorizando servidores e estudantes, e de se aproximar cada vez mais da sociedade. Confira na entrevista. Que princípios norteiam a atual gestão da UFG?

Edward Madureira – São duas linhas de ação que vão receber a maior atenção por parte da gestão. Uma delas é a reorganização interna da instituição, que atinge todas as áreas da Universidade. As mais visíveis inicialmente serão as áreas de gestão de pessoas e de assuntos estudantis. Estamos modificando a estrutura de pró-reitorias que existe hoje. Com a Pró-Reitoria de Gestão de Pessoas, queremos colocar literalmente as pessoas no centro de todas as atividades. Entendemos que a Universidade vai avançar muito melhor se tivermos pessoas reconhecidas, valorizadas e trabalhando de maneira mais harmoniosa. Também criamos a Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis, que vai ter o foco nos estudantes, só que em mais vertentes. A questão da assistência estudantil é preocupante e fundamental, porque a falta de assistência estudantil contribui para o abandono dos cursos; então estamos muito preocupados com tudo o que envolve a permanência, seja no apoio acadêmico, seja no apoio à saúde mental. Também haverá uma área voltada para o protagonismo estudantil. Vemos muitas iniciativas dos estudantes na Universidade, como grupos de estudos, ligas acadêmicas, atléticas, organizações de evento, para além dos centros acadêmicos e do DCE (Diretório Central dos Estudantes), que são elementos que mobilizam e aglutinam os estudantes. Precisamos estar atentos a isso para auxiliar na medida do possível. Do ponto de vista do dia a dia da Universidade, precisamos nos preocupar mais com o planejamento em tudo o que fazemos, pois isso tem reflexo nos indicadores institucionais. Uma grande preocupação é a organização didático-pedagógica da Universidade como um todo, para conseguirmos racionalizar mais o trabalho docente e, com isso, permitir que os professores e os técnicos possam se dedicar também às outras atividades da instituição, como pesquisa, extensão, inovação e, inclusive, gestão. Que isso também seja valorizado, mas sem sobrecarga. E a outra tônica é justamente o olhar cuidadoso para a sociedade. A sociedade é quem nos mantém, é com quem devemos ter as relações mais fortes, e aí eu falo da sociedade na sua inteira complexidade. Entendo que a sociedade será fundamental na discussão sobre o

futuro da Universidade, uma discussão que começa pelo papel da Universidade no país.

Sandramara Matias – Além desses dois pilares, desse olhar para dentro e desse olhar para fora, trazemos alguns princípios que para nós são fundamentais e que vão nos ajudar a alicerçar essa gestão: o diálogo, que para nós é um princípio fundamental, a participação, o trabalho em equipe, o respeito às diferenças e à diversidade que são esta Universidade e a sua composição, a valorização de todas as dimensões da UFG, substituindo o “ou” pelo “e”. Nossa perspectiva é de que é possível valorizar essas diferentes dimensões da mesma forma, por exemplo: ensino e pesquisa, internacionalização e regionalização, educação presencial e educação a distância. Com o papel que a instituição tem e com a sua função social, todas essas dimensões são extremamente importantes e nós devemos valorizá-las. É possível valorizar a extensão, é possível valorizar a pesquisa, é possível valorizar a pós-graduação, a graduação, a educação a distância, a educação presencial, a internacionalização, a regionalização, sem perder de vista a importância de cada uma dessas dimensões, mas sem também secundarizar uma em detrimento de outra. O modelo de universidade pública e gratuita vem sofrendo sucessivos ataques. A defesa da universidade pública é uma bandeira da gestão?

EM – Sem dúvida. Defendemos de forma muito convicta a universidade pública, gratuita e de qualidade, mas também de forma muito racional, ou seja, olhar também para as críticas e os questionamentos que são feitos com relação à universidade, ver aqueles que são pertinentes e os que não são e, claro, naquilo que for pertinente, estar atento para corrigir. Queremos uma instituição ágil, eficiente, mas que tenha os princípios que são os mais caros para a Universidade, que são a liberdade de pensamento, sua autonomia e sua independência. A gestão está pronta para discutir, mesmo as questões mais difíceis.

SM – Com certeza. Acreditamos que a sociedade é quem vai poder nos ajudar a fortalecer essa luta em defesa da Universidade e do sistema federal de educação superior e do papel que essas universidades têm no país, tanto no que elas expandiram quanto no que incluíram e estão incluindo. Queremos aprimorar e aperfeiçoar cada vez mais essa relação com a sociedade, para que ela nos reconheça e reconheça o nosso papel e possa nos defender e entender o papel que a Universidade tem no contexto, no caso da UFG, no estado de Goiás e na Região Centro-Oeste. Precisamos ter a sociedade do nosso lado, para que possamos fazer frente a todo esse desmonte que está sendo colocado para as universidades públicas, a todo esse discurso que está sendo construído em torno do papel das universidades públicas no país, especialmente as federais.

EM – Essa deve ser uma preocupação permanente, uma aproximação da Reitoria com as unidades e regionais, mas também para fortalecer a relação entre eles, entre as regionais e as unidades acadêmicas, porque a Universidade é um todo, a Universidade é um organismo que precisa trabalhar de maneira harmônica, e isso vale também para os órgãos. A distância física que temos entre a sede da administração em Goiânia e os municípios onde temos regionais ou câmpus, como no caso de Aparecida, é um fator que dificulta a integração, então temos de trabalhar na lógica de quebrar essa distância com a maior aproximação das pessoas, no dia a dia da Universidade. SM – Essa é outra meta que colocamos desde a campanha e agora o plano de gestão também vai se pautar nisso, em uma relação bastante próxima com as regionais. Isso está sendo colocado para toda a equipe. Esse é um início de trabalho para que as regionais conheçam a nova equipe e a ideia é que as equipes, por áreas, estejam cada vez mais presentes nas regionais e tragam as regionais para participar das discussões, das decisões, dos encaminhamentos. Porque só assim nós vamos fortalecer o papel das regionais e criar uma articulação e uma proximidade que vai fortalecer a UFG cada vez mais. Nós somos Universidade Federal de Goiás e precisamos romper cada vez mais os limites entre regionais, entre unidades acadêmicas, para que possamos pensar como uma universidade grande que é hoje a UFG. O trabalho articulado, integrado, em equipe e que leve em consideração as especificidades de cada regional e de cada unidade acadêmica, mas que também não perca de vista que a integração e a articulação dessas regionais e dessas unidades acadêmicas são fundamentais para o fortalecimento da UFG nas suas diferentes dimensões.

Entrevista – Edward Madureira e Sandramara Matias

Nesse início de gestão foram feitas visitas às regionais da UFG. Qual a importância dessa aproximação com a realidade da instituição?

Que mensagem vocês deixam para os novos estudantes da UFG?

EM – Quero dizer aos nossos novos estudantes que eles chegam em uma instituição que prima pela qualidade acima de tudo, mas que tem o olhar cuidadoso para a inclusão e a permanência. E convidá-los a viverem a Universidade na sua plenitude. A Universidade é muito mais do que o lugar onde você vem assistir aulas. Universidade é o lugar onde você tem acesso à cultura, a projetos de extensão, a atividades outras que complementam toda a formação do cidadão. Queremos cada vez mais um estudante proativo e que participe, inclusive propondo soluções para o nosso cotidiano, mas que também tenha aqui um espaço de fazer a sua formação profissional na plenitude. Então teremos mais espaços de empreendedorismo e mais espaços culturais. Diversas iniciativas estão sendo pensadas e, lógico, sempre junto com outros parceiros, para que tornemos esse ambiente o mais adequado possível para a formação do cidadão.

SM – O que nós desejamos para quem está chegando são as boas-vindas e que usufruam ao máximo o que esta Universidade pode oferecer, não só no campo da formação profissional, mas de tudo o que ela pode propiciar em termos de vivências no âmbito da cultura, da extensão e da pesquisa. Porque universidade é isso, é essa diversidade de saberes, é a diversidade de pessoas que fazem a riqueza do que é um ambiente universitário. Nós temos muito o que oferecer nas diferentes regionais e eu convido os estudantes a usufruírem de todas essas possibilidades, e não só da formação técnico-científica específica, que é fundamental; mas que esse momento também seja um momento que possa ampliar horizontes e que possa trazer novas perspectivas a partir de todas as vivências que a Universidade permite.

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Carlos Siqueira

Universidade

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Da esq. para a dir.: Laerte Guimarães, Lucilene de Sousa, Jesiel Carvalho, Flávia de Oliveira, Edward Madureira, Sandramara Matias, Everton Wirbitzki, Maísa da Silva e Robson Geraldine

Conheça os novos pró-reitores da UFG Equipe é composta por professores e técnicoadministrativos de diferentes áreas da Universidade Luiz Felipe Fernandes

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unto ao reitor e à vice-reitora, tomaram posse os novos pró-reitores da Universidade Federa de Goiás (UFG). Conheça os novos integrantes da equipe e a atribuição básica de cada Pró-Reitoria.

Pró-Reitoria de Graduação (Prograd)

Flávia Aparecida de Oliveira é graduada em Enfermagem, com mestrado e doutorado em Patologia Geral. Professora da UFG desde 2004, ocupou a direção do Instituto de Patologia Tropical e Saúde Pública (IPTSP) entre 2014-2017. A Prograd supervisiona e coordena as políticas de ensino da graduação, como estruturação dos currículos dos cursos, processos de avaliação e formação dos estudantes. É composta pelas seguintes coordenações: Estágio; Currículo e Avaliação; Licenciatura e Educação Básica; Programas e Projetos; Apoio Técnico à Graduação. Todo ano promove o Espaço das Profissões, que apresenta aos estudantes de ensino médio os cursos oferecidos pela UFG.

Pró-Reitoria de Pós-Graduação (PRPG)

Confira as entrevistas com os gestores no canal da TV UFG

Laerte Guimarães Ferreira Júnior é geólogo e mestre em Geologia Econômica, com doutorado em Ciência do Solo/Sensoriamento Remoto. Professor da UFG desde 1994, ano em que criou o Laboratório de Processamento de Imagens e Geoprocessamento (Lapig), do qual foi coordenador até 2017. A PRPG é responsável pela qualificação e expansão dos cursos de mestrado e doutorado e dos cursos de pós-graduação lato sensu, atuando para ampliar bolsas de estudo, expandir o contingente de professores mestres e doutores e qualificar técnico-administrativos em nível de pós-graduação. Internacionalizar a pós-graduação está entre os desafios da gestão.

Pró-Reitoria de Pesquisa e Inovação (PRPI)

Jesiel Freitas Carvalho é graduado e mestre em Física e doutor em Ci-

ência e Engenharia de Materiais. Professor da UFG desde 1997, coordenou o processo de implantação do Laboratório Multiusuário de Microscopia de Alta Resolução (LabMic) e do Centro Regional para o Desenvolvimento Tecnológico e Inovação (CRTI), do qual foi coordenador entre 2013 e 2017. Foi pró-reitor de Pós-Graduação no último ano da gestão passada. A PRPI coordena e promove as atividades de pesquisa científica e tecnológica e de inovação. É responsável, também, por promover a transferência de tecnologias para a sociedade. Um dos compromissos da PRPI é dar continuidade à implantação do Parque Tecnológico Samambaia e de seus similares nas regionais.

Pró-Reitoria de Extensão e Cultura (Proec)

Lucilene Maria de Sousa é nutricionista e mestra e doutora em Ciências da Saúde. Integra o quadro docente da UFG desde 2002. Já foi diretora e coordenadora de curso. A Proec se encarrega da extensão universitária, que tem como princípio a interação com a sociedade por meio de atividades e projetos educativos, culturais e científicos, envolvendo professores, estudantes e técnico-administrativos. Na UFG, a Proec é responsável por grandes eventos, como o Conpeex e o Música no Câmpus.

Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis (Prae)

Maísa Miralva da Silva é graduada em Serviço Social, com mestrado e doutorado em Política Social. É professora universitária e está na UFG desde 1996 como servidora técnico-administrativa, no cargo de assistente social. A Prae, antiga Procom, é responsável por ações de assistência e permanência voltadas para a comunidade universitária, essencial para a democratização do acesso ao ensino superior. Cabe a esta Pró-reitoria implementar a política social da Universidade, fazendo que o cumprimento da Lei de Reserva de Vagas seja acompanhado por ações insti-

tucionais que garantam a formação de estudantes de baixa renda. São de sua responsabilidade, por exemplo, os restaurantes universitários e as casas de estudante.

Pró-Reitoria de Administração e Finanças (Proad)

Robson Maia Geraldine é agrônomo, mestre e doutor em Ciência e Tecnologia de Alimentos. Ingressou na UFG como pesquisador em 2004, tornando-se professor em 2006. Até o ano passado estava na direção da Escola de Agronomia. A Proad tem como principal atribuição o planejamento e a execução orçamentária e financeira da UFG. Também estão sob sua responsabilidade serviços como transporte, documentação e arquivo, contratos e convênios, manutenção de equipamentos, aquisição de materiais e orientação sobre elaboração de projetos.

Pró-Reitoria de Gestão de Pessoas (Pró-Pessoas)

Everton Wirbitzki da Silveira é graduado em Ciências Econômicas, com mestrado em Integração Latino-Americana e doutorado em Economia. É servidor técnico-administrativo da UFG desde 2008, no cargo de Economista. Já integrava os quadros da Prodirh como assessor especial. A Pró-Reitoria promove o desenvolvimento humano e institucional por meio da gestão do planejamento, da avaliação, da informação institucional, das pessoas e do ambiente de trabalho. Dentro da reforma administrativa, a Pró-Reitoria de Gestão de Pessoas ocupará o lugar da Prodirh, priorizando uma relação mais humanizada com os mais de 6 mil servidores da Universidade.

Secretaria de Planejamento e Avaliação Tem o objetivo de consolidar a cultura de planejamento na Universidade, tanto com relação ao orçamento quanto às demais atividades. A intenção é fazer do planejamento uma fonte de informações que se materialize em um instrumento para a tomada de decisão na Instituição. Secretário: Vicente Ferreira. Secretaria de Tecnologia e Informação Incorpora o Cercomp, a Divisão de Telecomunicações e o Cidarq. O objetivo, além de melhor planejar o desenvolvimento e a implantação de sistemas, é antecipar as tendências da tecnologia de informação, trabalhando menos na resolução de problemas já estabelecidos e mais na antecipação desse tipo de problema, sempre atento aos avanços tecnológicos. Secretário: Leandro Luís Oliveira. Secretaria de Projetos Especiais Será encarregada tanto de propor quanto de prospectar grandes projetos de interesse da sociedade. Prevê articulação com outras esferas governamentais, empresas, organizações do terceiro setor, no sentido de apresentar a Universidade como um agente que pode contribuir no desenvolvimento desses projetos. Secretário: Manoel Rodrigues Chaves. Secretaria de Infraestrutura Substitui o atual Cegef, que acabou absorvendo atribuições de setores diversos que geram acúmulo de atividades. Será responsável, basicamente, pelos projetos de infraestrutura, manutenção e conservação, dando mais agilidade à área. Secretário: Marco Antônio de Oliveira. Secretaria de Comunicação Tem por objetivo desenvolver produtos e serviços comunicacionais no âmbito da UFG, articulando a área de comunicação da Universidade. Deverá executar uma comunicação pública efetivamente dialógica, interativa e transparente e que zele pela imagem institucional da UFG. Secretário: Magno Medeiros Secretária adjunta: Daiana Stasiak

Universidade terá novas secretarias

Outros integrantes da administração superior

Secretaria de Promoção da Segurança e Direitos Humanos Decorre da Política de Segurança da UFG, que sugere uma estrutura para lidar com as questões do dia a dia da Universidade. Absorve o antigo Setor de Vigilância e vai traçar, junto com o Conselho de Segurança, as políticas de segurança e de direitos humanos, incluindo os protocolos com os órgãos de segurança. Secretário: Ricardo Barbosa de Lima.

Leonardo Barra Chefe de Gabinete Leandro Pinho Chefe de Gabinete Adjunto Tasso Leite Coord. de Assuntos Institucionais Eriberto Beviláqua Marín Coord. de Assuntos Administrativos Marlini Dorneles de Lima Coord. de Ações Afirmativas Marília de Goyaz Dir. do Centro de Aprendizagem em Rede


5 A falta de financiamento é um dos motivos pelo qual não há outras espécies de árvores sequenciadas. “Há pouco interesse em financiar esse tipo de estudo, pois os recursos vão em geral para plantas utilizadas na agricultura e há pouco interesse em financiar estudos de árvores que não são cultivadas em larga escala”. Ela ressalta que foram necessários recursos de três projetos para que fosse possível realizar esse sequenciamento. “Com isso perdemos muitas vezes a oportunidade de melhorar o aproveitamento de espécies e de produzir dados inéditos na pesquisa”, completa.

Aplicações da pesquisa

Projeto sequencia genoma do Ipê-Roxo É a primeira vez que uma árvore Neotropical tem o genoma sequenciado. Pesquisa pode gerar melhoramento da espécie para usos comerciais e ambientais Kharen Stecca

Segundo a professora Rosane Collevatti, as árvores têm importância ecológica e prática, pois detêm a maior quantidade de biomassa no mundo e retêm carbono, com importância marcante nos ecossistemas. A escolha do ipê-roxo não veio por acaso. A árvore escolhida está localizada dentro da Escola de Agronomia da UFG. “O ipê-roxo ou pau-d´arco, como é também conhecida, é uma das madeiras mais exploradas no Brasil, com alta densidade e durabilidade. Assim como a aroeira, são madeiras que não apodrecem”. A árvore é a segunda com maior valor econômico no país, atrás apenas do mogno. Sua explo-

O serviço de sequenciamento foi realizado nos Estados Unidos por uma empresa. Segundo a professora, o que demora a ser feito é a análise dos dados: “Foram dois anos para essa análise, pois essa espécie tem alta diversidade genética”. O genoma foi depositado em um banco de dados públicos. “Qualquer pessoa que quiser trabalhar com esses dados posterior-

esquisa da Universidade Federal de Goiás (UFG) realizou um feito inédito: o sequenciamento do genoma de uma árvore nativa do Cerrado, o Handroanthus impetiginosus, conhecida como ipê-roxo. O trabalho foi realizado pela professora Rosane Collevatti do Instituto de Ciências Biológicas (ICB/UFG) e pelo professor Evandro Novaes da Escola de Agronomia da UFG (EA /UFG), com a participação de pesquisadores da Embrapa. O estudo teve financiamento de dois projetos do CNPq e também da Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal (FAP-DF). Essa é a primeira árvore Neotropical a ter o genoma completo sequenciado.

Rosane explica que conhecer o genoma é a primeira frente de trabalho da pesquisa. “Saber como ele se organiza permite-nos conhecer melhor o perfil da espécie”, esclarece a professora. A partir dos dados levantados, foi possível comparar o genoma do ipê-roxo com outros genomas já conhecidos, como o do carvalho, o do tomate, o da batata e o da Arabidopsis thaliana, uma espécie modelo em genética. Segundo a professora, não há espécies parecidas sequenciadas. A falta de modelos parecidos com o ipê-roxo mostra a necessidade de estudar mais espécies. Já está sendo feito o estudo de marcadores moleculares, que permitirá estudos de associação e de melhoramento genético.

O estudo completo pode ser acessado no site.

Divulgação

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ração econômica move milhares de dólares e ainda há componentes medicinais na planta: “Ela produz o composto lapaxol, que tem atividade anti-cancerígena comprovada”, afirma. Por esses e outros motivos, a população de ipês-roxos, que é nativa, tem diminuído.

mente, poderá usá-los gratuitamente. Informação gera informação e mais conhecimento. Essa é uma filosofia da genética e da genômica”, ressalta. O material está disponível no National Center for Biotechnology Information (NCBI).

Os ipês demoram cerca de 50 anos para chegar ao estágio para exploração da madeira, o que torna difícil plantá-los em escala industrial. “Com os estudos podemos, por melhoramento genético, acelerar o processo de crescimento e permitir o plantio das árvores para exploração”, afirma Rosane. Outra possibilidade é o combate à exploração clandestina de madeira sem manejo certificado. A genotipagem pode permitir o rastreamento das árvores exploradas. Em outra frente, a seleção de genótipos pode auxiliar na conservação e uso sustentável da espécie.

Pesquisa

Financiamento


Mesa-redonda

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Foto: Lucas Jordano

passa a ser ocupada por grupos marginalizados e isso perpassa para a sociedade que tem que demolir, tem que fazer qualquer coisa para reestruturar. Acho que nada é feito de maneira inconsciente.

Disputa põe em xeque futuro do Jóquei Clube Secom, TV UFG e Rádio Universitária

A preservação do mais antigo clube de Goiânia vem sendo reivindicada em resposta ao anúncio de sua venda, realizado pela atual diretoria do Jóquei Clube de Goiás no fim do ano passado. A venda do prédio, localizado no Centro, entre a Avenida Anhanguera e a Rua 3, foi a solução encontrada para o pagamento das dívidas que, segundo o presidente do clube, Manoel de Oliveira Mota, somam R$ 40 milhões. De lá para cá, acadêmicos, associados e representantes da sociedade civil começaram a se mobilizar em defesa da sede social. O impasse se arrasta. A venda foi suspensa pela Justiça em razão dos débitos do clube com a prefeitura de Goiânia, e o Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Goiás (CAU-GO) protocolou pedido de tombamento do Jóquei em nível federal. Por sua vez, um alvará de demolição do edifício foi solicitado pela direção do clube e avança no Paço; enquanto isso, um grupo de joqueanos busca o apoio de sócios remidos para destituir a atual diretoria e impedir a venda e a demolição. Para falar sobre esse assunto, a mesa-redonda convidou o professor de Arquitetura e Urbanismo da UFG, Lucas Jordano, a representante do CAU-GO, Maria Ester Souza, e o professor de museologia da UFG, Rildo Bento. O que está envolvido nessa disputa? Lucas Jordano - A área do Jóquei Clube é muito nobre. Dentro do perímetro histórico do Centro de Goiânia é a maior quadra. É a que está mais bem localizada em termos de sistema viário. De um lado, passa o eixo Anhanguera, do outro lado, o eixo da Rua 3. É uma área que está em interface com o Centro e o setor Oeste, que é mais valorizado economicamente. O tamanho da área e sua localização dão um valor monetário muito grande. E o mercado

imobiliário sempre fica de olho nisso. Com relação a outros tipos de empreendimentos, também se beneficiam da localização privilegiada. Do ponto de vista do patrimônio, tem a questão da construção da identidade goianiense, que não é muito clara, porque a nossa cidade é muito jovem. Temos certo apego com as construções iniciais, que se classificam popularmente pelo termo art déco, mas que não são produções elevadas em termos de qualidade. Temos uma produção, especialmente, de arquitetos forasteiros, das décadas de 1950, 1960 e 1970, que, talvez, tenham uma relevância maior no cenário nacional. A questão é colocar isso em debate. E não deixar apenas a questão monetária prevalecer.

Maria Ester - Todo esse patrimônio - e vamos chamar de patrimônio não só o histórico, mas a propriedade - sempre será alvo de disputa na cidade. Quando você tem um equipamento do tipo BRT, um grande hospital e um centro de comércio, servidos por meio de um sistema viário, essa propriedade tem muito valor. Como uma primeira questão, o que estaria em jogo nessa disputa é isso, a instalação de um ou outro segmento da iniciativa privada, que teria a capacidade de produzir e de gerar mais e mais renda. Essa é a grande disputa. E temos a sorte de ter arquitetos na cidade, que estudam o assunto e têm documento produzido sobre o edifício do Jóquei, e a gente precisa se mobilizar para defender. Rildo Bento - O que está em jogo, principalmente, é a disputa de poder, que perpassa a esfera econômica, política e se constitui na esfera social, sobre qual cidade nós queremos, o que nós elegemos para lembrar e para esquecer. O que vamos eleger que se mantenha para gerações posteriores e o que vamos demolir. O Jóquei é o ponto máximo de um processo de desmantelamento do Centro de Goiânia que já vem ocorrendo há muito tempo. A demolição das casas da Rua 20, a construção do complexo do Centro Cultural Cora Coralina, ou seja, a região central está passando por uma série de processos que visam descaracterizá-la. O próprio fato de já ter tido projetos para preservar as fachadas em estilo arte déco, e que não foi para frente. De um lado, têm grupos que querem a preservação e, do outro lado, grupos que se aliam ao poder político e ao poder econômico e, agora, ao poder religioso, que visam exatamente frear a construção desse patrimônio cultural que a gente quer para Goiânia. Essa disputa é responsável pelo abandono desses prédios históricos?

Rildo Bento - Sim. O abandono é um processo consciente: como você faz para poder tornar aquela área imprópria, improdutiva ou até mesmo economicamente inviável. Você pega e você abandona. Ela

Lucas Jordano - Quando a gente fala de proteção de um bem, de construção do patrimônio, a gente fala da construção de identidade. No geral, o sistema capitalista trabalha para destruir isso. Porque se você tem uma identidade específica, você tem que vender um produto muito específico. Quando você destrói todas as identidades e constrói o genérico em substituição a isso, você faz um produto só e vende para todo lugar. Então é muito mais fácil, mais lucrativo, mais rentável. O trabalho com o patrimônio é de construção de identidade. E isso vai contra qualquer tipo de artimanha mercadológica ou de instalação de um poder específico.

Rildo Bento

O Jóquei é o ponto máximo de um processo de desmantelamento do Centro de Goiânia que já vem ocorrendo há muito tempo.

Maria Ester - Porque tem que fazer de novo, fazer diferente, construir, trazer tecnologia, inovar. Nós estamos dentro da discussão de elaboração do Plano Diretor de Goiânia e há um projeto para o Centro da cidade, que permeia esse assunto: vamos reconstruir, vamos fazer de novo. E como fazer isso em cima de um lugar que já está estabelecido ou consolidado? É preciso haver um tipo de entendimento, de quem está na gestão, de que isso é importante, ou vamos ver ser arrasado o que chamamos de identidade arquitetônica da nossa cidade. Por que o Jóquei deve ser preservado?

Rildo Bento - Quando se fala em patrimônio e preservação, além da disputa de poder, está em jogo o sentido que aquilo faz para a cidade, para a população. Embora os patrimônios pareçam eleitos, eles têm que passar pela esfera pública, pela esfera do poder, que no caso do Brasil é o Iphan, que tem a chancela de tombar ou não, e isso passa pelo poder político. Nós temos que entender que o patrimônio tem que fazer sentido para aquela comunidade. E o Jóquei Clube foi o primeiro clube de Goiânia, construído no final da década de 1930 e início da década de 1940. Não é o mesmo prédio da década de 1940, não é a mesma proposta, mas está ali numa área que é pública. Em último caso, aquilo é do poder público e tinha que ser mais valorizado por essa esfera de poder. O Jóquei foi muito importante para a vida social de Goiânia. Tanto o Jóquei como o Lago das Rosas foram espaços de socialização mui-


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Lucas Jordano

Maria Ester - Há duas respostas para essa pergunta. Uma vem do proprietário, que é o associado que não deseja que o seu clube seja demolido, porque é uma propriedade dele, ele tem o título, ele tem uma vivência, tem uma infância vinculada à memória do Jóquei. Essa pessoa tem a resposta do porquê o clube não deveria ser demolido. Ele gostaria de ir ao clube, por exemplo, e permanecer com os direitos que entende que tem, e tem mesmo, de ser sócio-proprietário daquele edifício. Outra questão é a arquitetura. Vou fazer uma comparação. Ali onde é o Mutirama, existiam umas casas, cerca de 10, 20 casas que, para a execução do projeto de um grande parque, idealizado na segunda gestão do Paulo Garcia (PT) ⎼ com a inclusão de uma passarela ⎼ foram desapropriadas. As pessoas foram retiradas dali e suas casas foram demolidas para a construção de um parque, que não se concretizou. Algumas daquelas pessoas morreram. E eu acho que elas morreram porque suas casas foram demolidas. Isso é um tipo de relação que temos com nosso lugar, que pode ser chamado de identidade, que é visceral. Não deve ser demolido por isso também. Porque a gente nasceu em Goiânia, pelo menos algumas dessas pessoas, a gente conviveu nesse lugar e a paisagem está montada ali como lugar de passagem. Quando ela é demolida, uma parte de um sentimento nosso é demolido também.

Lucas Jordano - A arquitetura do Jóquei, para nós hoje, é um pouco banal. O movimento moderno construiu a cidade industrial brasileira, porque o Brasil se industrializou tardiamente. A nossa arquitetura moderna coincide com a gestação dessa indústria. A grande massa, que saiu do campo e foi para a cidade, foi morar nesse tipo de arquitetura. Então é o que massivamente a gente vê. Quando estamos diante da nossa realidade, ela não é excepcional. É diferente de ir para o centro de Paris, onde um edifício moderno é excepcional, porque o tecido está preservado, porque a industrialização foi muito mais antiga, e aconteceu antes da arquitetura moderna aparecer por lá. Então, há uma dificuldade do cidadão de se identifi-

deles bastante galardoado e premiado no mundo. Se a gente tivesse o mesmo fetiche pela arquitetura como tem por um quadro... se a gente pegar um rabisco qualquer de Picasso, já vale uma fortuna. Se isso valesse para a arquitetura, esses R$ 40 milhões já teriam sido vencidos há muito. Então é muito complicado a gente falar desses valores monetários nessa pressa de querer vender, porque pega-se a dívida e diz que ela equivale exatamente ao patrimônio, e não é verdade. O prédio valeria muito mais. E o terreno também. As duas questões são muito importantes. E aí a gente tem umas propagandas que perpassam toda nossa vida social, que são parte de toda essa cultura de venda, que destrói o valor das coisas. Por exemplo, tem a frase da juventude hoje, “quem se define se limita”, que é uma bobagem imensa, porque, primeiro, “definição” e “limitação” são a mesma coisa, é como se você tivesse falando “quem se define, se define”. E o valor das coisas se dá pelo limite, pelo fim. Eu tenho uma cadeira e eu posso dizer se ela é ou não confortável, se o braço é alto demais, baixo demais, se o estofado é bom, porque tem um limite. Se a cadeira é uma superfície sem fim, não é mais cadeira. E se não é nada, não posso avaliar, não posso fazer juízo de valor. O valor só vem pela distinção. É a única forma de dar valor às coisas. Então há uma tentativa de destruir as distinções. Não está se falando daquele terreno, daquele edifício, daquelas características. Estão falando de um clube como se fosse um equipamento genérico, então a gente não consegue dar valor. Fotos: Amanda de Oliveira

Quando um edifício como o Jóquei é preterido pelo mercado, a primeira ação é destruir sua beleza. (...) Porque aí deixa de ser aquela esperança de felicidade.

car com aquilo que é banal. Ele procura o excepcional, porque quer fugir da banalidade da sua vida. Há dificuldade de associar o Jóquei a uma coisa positiva. Mas há grande qualidade na sua arquitetura, porque tem uma identidade da década de 1950 do movimento de arquitetura moderna, que é a tentativa dos arquitetos brasileiros de conseguir um espaço para um povo que vivia à margem das discussões e à margem da construção de um repertório cultural. As músicas, a conversa de boteco, essa coisa toda, acontecem na periferia e nunca no grande edifício, num espaço central, que é o palco visível da cidade. Então, os arquitetos brasileiros passaram a construir edifícios um pouco mais generosos, com certos espaços flexíveis, que não têm uma função definida. Eles conseguem amparar, e é um discurso de um dos arquitetos do Jóquei Clube, a imprevisibilidade da vida. Você não tem, como arquiteto, a visão de algo específico a ser desenvolvido ali. É uma cobertura, com espaço enorme, que dentro dele pode ser feita qualquer coisa. Essa é a ideia do arquiteto. A ideia é de amparar a diversidade embaixo de um abrigo. Agora, é importante a gente voltar para a questão do capital identitário, porque normalmente as pessoas precisam de um pouco de beleza na vida. Todo mundo hoje diz que a beleza é secundária. E fala da beleza interior. Mas quando você vai à casa de uma pessoa que não tem nenhuma sobra financeira depois de dar comida para os seus filhos, ela tem o cuidado de limpar o fogão, a pia, colocar um paninho em cima, um vaso de flor. Porque o mundo é muito cruel. E quando a gente vê beleza, a gente acredita que não é possível que uma pessoa que seja capaz de produzir a beleza seja de todo ruim. Procuramos a beleza como se fosse a esperança da felicidade. Quando um edifício como o Jóquei é preterido pelo mercado, pelo poder, a primeira ação é destruir sua beleza. É começar a alterar as fachadas, o espaço, a pintar, a colocar outdoor, destruir árvores, para ele ter uma aparência de sucata, porque aí deixa de ser aquela esperança de felicidade, e todo mundo concorda que ele deva ser demolido. Há as perspectivas de tombamento como patrimônio, da venda do imóvel, e da dívida de cerca de R$40 milhões de reais. O que fazer?

Maria Ester - Nós do Conselho de Arquitetura (CAU) fizemos várias reuniões, convidamos o Lucas Jordano, na época, para elaborar o parecer que protocolou o pedido de tombamento no Iphan, estivemos com a secretária de Educação Cultura e Esporte (Seduce) Raquel Teixeira e, mais recentemente, o grupo interessado na preservação do edifício esteve com o prefeito Iris Rezende. Quando vamos a esse tipo de conversa, entendemos que demos um passo na direção de consolidar uma proteção para o edifício. O tombamento foi protocolado em dezembro de 2017 e já está em Brasília, porque a solicitação foi para que fosse tombado em nível federal, em nível nacional. É um processo que demora. Entendemos que, por lei, ele garante o acautelamento do edifício, ou seja, um advogado poderia solicitar uma liminar para que o edifício não fosse demolido. E isso é até onde podemos chegar. No final deste mês ainda esperamos levar para o Ministério Público e pedir a parceria, para que ele também se envolva e nos ajude do ponto de vista legal a proteger o edifício. Porque com relação à dívida, isso já entra no âmbito da propriedade, e o pessoal do grupo que encampa essa defesa do clube, da presença do joqueano como proprietário, tem alternativas, tem projetos, de como utilizar os espaços. De nossa parte, o conselho tenta buscar esse aparato legal, esse suporte da instituição, para ajudar o lado do joqueano, que pretende manter o seu clube e impedir que o edifício seja demolido. Lucas Jordano - A questão do valor monetário, eu acho um pouco discutível os R$ 40 milhões de dívida. Seria necessário avaliar qual seria o valor do terreno, que talvez ultrapasse isso. E o valor do edifício, tanto na sua possibilidade de uso como na questão autoral, embora o brasileiro não tenha muito vínculo mais com a arquitetura. Ninguém sabe mais quais foram os arquitetos que projetaram o edifício. E um

Maria Ester

“Todo esse patrimônio não só o histórico, mas a propriedade - sempre será alvo de disputa na cidade.”

Rildo Bento - Essa questão que envolve valores é muito complicada. Mas num sentido mais geral, uma vez patrimonializado, aquele edifício, aquele prédio, o que fazer com ele? Ele volta a ser clube, ou não é interesse? Já tem a parte que foi toda concretada. O que resta é o prédio, aquele prédio belíssimo lá do Jóquei. E o que fazer com ele? Nós temos prédios patrimonializados que foram restaurados e que não têm função social alguma naquela sociedade. O patrimônio também é uma fonte de geração de renda, ele tem que ser entendido assim. Nesse sentido, eu acho que tem que buscar a possibilidade, junto ao poder público e à sociedade civil, de alternativas para que ele se mantenha. Porque como a gente fala, patrimônio, não é que aquilo lá vai perder o seu uso, pelo contrário. Tem que se buscar alternativas para que ele se mantenha, para que ele possa gerar uma renda. Só para ilustrar, temos aqui no estado de Goiás vários terminais ferroviários, estações ferroviárias, que foram patrimonializadas, que foram tombadas, restauradas e que hoje, as cidades, que tanto lutaram para que aquilo fosse restaurado, estão deixando às moscas. Então, ocorre esse problema também.

Mesa-redonda

to interessantes na cidade. Têm várias pessoas que falam “ah, mas era só da elite”. Mas a gente fala de Goiânia com 30, 40 mil habitantes, ou seja, era uma cidade muito pequena. E clube atendia diversas camadas da população. Fica o registro da memória, das pessoas, dos bailes, das festas de final de ano, é um lugar com muitas histórias. E esses lugares de memória devem ser preservados.


Educação

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A trajetória de uma vida dedicada ao ensino

Métodos inovadores e paixão pelo ensino fizeram do professor Geraldo Campos uma referência na história da educação goiana; ex-alunos, amigos e colegas relembram a convivência com o educador dentro e fora da sala de aula Versanna Carvalho

O

ano de 2018 começou com a perda de um dos expoentes do Centro de Ensino e Pesquisa Aplicada à Educação da Universidade Federal de Goiás (Cepae/UFG), o professor Geraldo Faria Campos, aos 81 anos, no dia 12 de janeiro. Formado em Letras Neolatinas pela então Universidade Católica de Goiás, hoje Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO), e especialista em Educação pela UFG, o educador ganhou notoriedade junto aos alunos, ao corpo docente e também à academia pela dedicação e métodos diferenciados que utilizava em sala de aula para despertar no aluno o prazer de escrever bem e buscar progredir sempre. O empenho de Geraldo Campos, também conhecido como Alemão, rendeu a ele inúmeras homenagens

durante a sua longa trajetória profissional, encerrada em 2002 aos 65 anos. Uma dessas homenagens foi o título inédito de Professor Emérito, concedido pela UFG a um docente do Cepae, no ano de 2013.

tamente a falar sobre a trajetória do professor e também indicavam uma série de outras possíveis fontes para entrevistas.

Agora, depois de sua morte, a mobilização continuou ocorrendo nas redes sociais e jornais. Quando a equipe de reportagem do Jornal UFG começou a apurar informações para uma reportagem sobre o educador, junto a antigos colegas de trabalho e ex-alunos, as pessoas contatadas se dispunham pron-

Rosana comenta que a lembrança do professor na dissertação é pautada pelo fato de ele ter influenciado toda uma geração na prática da leitura e da escrita. “Em sala de aula ele ultrapassava a barreira de aluno e professor e mantinha relação muito afetiva e dialógica, muito próxima com todos em um processo que hoje

“Quando assumi a diretoria do Cepae, as pessoas, sobretudo antigos ex-alunos, cobravam de mim uma homenagem ao professor Geraldo. Foi no meu mandato que eu fiz a indicação de Professor Emérito da UFG”, recorda-se a ex-diretora e professora de Química aposentada do Cepae, Maria José Oliveira Almeida.

Rede afetiva

Uma das integrantes dessa rede afetiva informal é a coordenadora da Faculdade de Informação e Comunicação (FIC), Rosana Borges, ex-aluna do professor Geraldo. “Ele foi meu professor na quinta ou sexta série e mantivemos contato vida afora. A minha dissertação de mestrado nos anos 2000 é dedicada a ele”, destaca.

eu entendo ser o de humanização da própria sala de aula”, acredita. Quem também foi influenciado pelo professor Geraldo, formando-se em Letras e exercendo o ofício de professor por algum tempo na rede pública estadual, é o hoje secretário da Coordenação de Pós-Graduação do Instituto de Física da Universidade, Gustavo Henrique Pessoa Chaves. “Eu devo a ele a atividade mais prazerosa que tenho [a leitura]. Posso dizer que vim a gostar muito de literatura e de escrever porque lá na sexta série do primeiro grau ele me estimulou com essas atividades”, ressalta.

No período no qual deu aulas, o servidor percebeu que havia uma discrepância “muito grande” no nível educacional dos alunos do ensino médio e tentou levar um pouco dos ensinamentos do mestre, que acreditava que valia mais uma grande evolução em um aluno com baixo desempenho, do que naquele que parecia saber mais, mas estava estacionado em uma zona de conforto. “A gramática normativa era um subsídio utilizado [pelo professor Geraldo] conforme o nível de conhecimento e necessidade do estudante”, recorda-se Gustavo, que até hoje guarda um dos cadernos da oitava série, com anotações e comentários do educador ao final de cada texto produzido pelo aluno.


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A

influência do professor Geraldo se estendia também aos colegas de trabalho e aos estudantes da Faculdade de Letras da UFG. A primeira vez em que a professora aposentada do Cepae, Telma Maria dos Santos de Faria Mota, ouviu falar do professor Geraldo foi há mais de 30 anos quando cursava Letras. Interessada pelo método inovador e pouco comum adotado em sala de aula, a então estudante quis fazer estágio com ele. Não conseguiu, pois o educador já era muito procurado pelos docentes de Letras. Depois de alguma insistência, conseguiu participar como ouvinte e pode conhecer como eram as suas aulas.

A professora Telma Mota também vivenciou a experiência de mãe de um dos alunos do professor Geraldo. Ela conta que ele deu aulas para o seu filho, em uma época em que a criança gostava mais de revistas e jornais do que de literatura propriamente dita. “É aí que a metodologia do Geraldo entrava. Ele perguntava o que o aluno havia lido naquela semana e pedia para que escrevesse um pouco sobre o tema no caderno. E eu sabia que ele não fazia isso apenas com o meu e sim com todos os alunos, principalmente os que não queriam escrever”, recorda-se A partir desse texto inicial, originado da leitura de uma notícia de jornal, revista, poesia ou de um livro, o professor Geraldo iniciava um diálogo com o aluno, sempre por escrito, no caderno. Ele questionava o porquê da escolha do artigo lido. Depois de receber uma resposta, ele voltava a perguntar o que o artigo havia despertado no estudante, procurava confirmar o sentido dado a uma determinada expressão utilizada. Ao final do diálogo havia duas ou três páginas escritas. “Então o Geraldo orientava o aluno a unir todas as informações de forma estruturada com introdução, desenvolvimento e conclusão e ainda dizia: ‘você escreveu um tex-

A professora de Geografia no Cepae e no Instituto de Estudos Socioambientais (Iesa) da UFG, Rusvênia Luiza Batista Rodrigues da Silva, é de uma geração mais nova de docentes do Cepae e não trabalhou diretamente com o professor Geraldo. No entanto ela percebeu a influência do educador na área de Língua Portuguesa e em outros campos do conhecimento. De acordo com a geógrafa, no Cepae, os gêneros do discurso são norteadores do processo de leitura e escrita. “É como se o Geraldo tivesse criado um sistema de leitura e escrita em que o pronome, o verbo e o substantivo aparecem numa rede viva de significação. Aglutinar a gramática aos componentes da composição dos textos e das leituras parece ser um indicativo para se pensar a dimensão humana da linguagem e vetor linguístico do humano, posto na trama social, afetiva e política. Embora eu não seja desse campo, esse aspecto me tocou profundamente. É uma ideia muito forte”, constata.

O professor Geraldo Faria Campos concedeu sua última entrevista em 27 de outubro do ano passado, pouco mais de dois meses antes de sua morte em 12 de janeiro de 2018. A conversa foi longa e fluiu como um encontro entre amigos. Participaram do encontro, cujos trechos estão transcritos a seguir, as professoras Rusvênia Silva, Telma Mota e Lívia Mendes Reis e a estudante de Geografia do Iesa e bolsista Gabriella Lins. Sobre o Aplicação/Cepae Gostei muito de trabalhar lá. Criei um sistema de ensino de Língua Portuguesa que trabalhava a leitura e a escrita. Eles davam aula de Português, ensinando conceitos e regras do que é pronome, adjetivo, substantivo. O pronome, o substantivo, o adjetivo, o verbo são importantes desde que tenham significado [para o aluno]. Eu fui descobrindo que a minha maneira de dar aulas era diferente das aulas que eles davam. Porque eles pegavam os livros e iam da primeira à última página. Eu não usava livro. Os meninos tinham livro, mas a gente não usava. Eu ia trabalhando coisa na sala de aula, aí um menino me dava uma tarefa e descobria algo nela, o outro me dava uma tarefa e descobria coisas dela. Então eu trabalhava muito, mais muito mesmo. Mas comecei a criar umas aulas diferentes e aquilo chamou a atenção do pessoal. Fiz uma carreira de 30 anos no Colégio de Aplicação, e eu achei bom demais porque o colégio me ajudava e eu ajudava o colégio. Saudade É justamente da convivência. Com a convivência eu aprendia a descobrir o aluno, a descobrir o professor, a descobrir o colégio, a descobrir o que a gente estava fazendo. Então essa convivência pra mim é muito boa. Relação com os alunos Olha, eu não sei. Pelo que tenho hoje, eu acho que fui um professor que marcou alguma coisa no colégio, porque o encontro que eu tenho com ex-alunos é formidável. “Ah, seu Geraldo, eu não ligava muito para as aulas do senhor, mas o senhor trabalhava muito com a gente, o senhor se preocupava”, eles lembram as figuras, “o senhor trazia aquele mundo de livro pra sala de aula”. E era isso mesmo, às vezes eu tinha tanto livro que eu ia arrastando os livros pelo chão. Sobre Bakhtin, Vygotsky e Paulo Freire Não [no início a metodologia não era intencionalmente baseada nesses teóricos], mas era porque eu não sabia. Eu pensava a aula e a escola e muita coisa coincidia com eles. Acho que eles me copiaram (risos).

Fotos: Carlos Siqueira

Telma disse que compreendeu como ele trabalha a língua portuguesa, mas também ética e cidadania. A charge era uma das ferramentas adotadas pelo professor. Além da interpretação de texto e da gramática, os alunos começavam a interpretar também o contexto social, econômico e político da época. “Ele não tinha mestrado, mas o Geraldo tinha toda a teoria interacionista de Bakhtin [o filósofo e pensador russo Mikhail Mikhailovich Bakhtin] e Vygotsky [o psicólogo russo Lev Semyonovich Vygotsky]. Ele não tinha a teoria, ele vivia a teoria na sala”, ressalta. Anos depois, passou em um concurso para ser professora do Cepae, tornando-se posteriormente sua colega de trabalho e amiga.

to’”, conta. O aluno ficava surpreso, pois, até então, pensava estar apenas respondendo às perguntas do professor. “Ele era totalmente dialógico. É o que o Bakhtin fala, que a aprendizagem passa pelo dialogismo e pela imitação. O Geraldo fazia isso. Ele escrevia para o aluno imitar mais ou menos o que ele estava falando e depois o aluno se desvencilhava e escrevia sozinho”, pontua a educadora para mostrar que o fundamento do Geraldo era leitura, escrita e interpretação de texto. “Ele ia de carteira em carteira e fazia correções gramaticais e ao final o aluno entregava um texto maravilhoso”.

Um professor com significado

Depois disso, Rusvênia afirma que começou a pensar na importância dessa referência e fez algumas experiências na escola com base nessa inspiração. “Foi trabalhando com a professora Telma, uma amiga e também colega do Geraldo, que articulamos um trabalho interdisciplinar entre as áreas, sempre pensando no texto como expressão do pensamento. Tínhamos como desafio envolver as áreas do conhecimento, sempre de maneira heterodoxa, a Geografia, a História, a Matemática, a Educação Física, a Música e a Ciências, não importando a parceria que fosse possível. Fizemos coisas bonitas sob essa inspiração”, acredita.

Quando decidiu fazer uma pesquisa sobre a história do Cepae com base em documentos e nos diários de classe, a professora foi aconselhada a dar prioridade às entrevistas com os educadores dos primeiros anos da escola, como o professor Geraldo.

No canto superior esquerdo, Geraldo com a esposa Aparecida Cerrado Faria Campos; abaixo, com a professora da FIC Rosana Borges

Educação

Teoria de grandes pensadores da educação vivenciada em sala de aula


Ana Fortunato

Educação

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Consulte nossos mestres Dicionário organizado e publicado pela UFG converte a história da Educação de Goiás em 104 verbetes biográficos

Patrícia da Veiga

A

escrita da História se dá de diversos modos e um deles passa pela biografia. Em suas linhas, a trajetória dos sujeitos se entrelaça às práticas sociais, ganha um sentido coletivo e torna-se a própria narrativa de determinado tempo, lugar, processo, fazer. Na área da Educação, nomes como Aldaíza, Anna, Bernardo, Dalísia, Egídio, Eli, Flora, Hugo, José, Luis, Marietta, Paulo, Peter, Verbena, Zoroastro, entre tantos outros, têm muito o que contar. Desde o fim de 2017, suas vidas estão reunidas no Dicionário de educadores e educadoras em Goiás: séculos XVIII ao XXI, organizado pela professora da Faculdade de Educação (FE) Diane Valdez e publicado pela Editora da Imprensa Universitária.

De A a Z, cada notação do dicionário revela um nome, uma pequena biografia e muitas pistas sobre a história da Educação em Goiás. Ao todo, são 104 verbetes em mais de 600 páginas. Sem se limitar à escola formal, aos currículos e aos grandes nomes da docência, a coletânea localiza mestras e mestres que atuaram em movimentos sociais, literários, artísticos, sindicais, religiosos e jornalísticos. Parte da antiga capital, alcança a metrópole, retorna a cidadelas, vilarejos e roças. Percorre mais de três séculos, da escola régia ao ensino superior. Contempla 45 mulheres e 59 homens forjados por sonhos, ideais, contradições e dificuldades; pessoas formadas, sobretudo, pelos magistérios da vida. Partilharam a tarefa dessa escrita 129 autores, entre pesquisadores, professores universitários e da rede básica estadual e municipal. No total, foram seis anos de investigação coordenada pelo Grupo de Estudos e Pesquisas em História da Educação (GEPHE). Para a organizadora, que adotou como critérios a referência póstuma e a variedade de atuações, a obra é também uma ação política. “Em tempos em que o passado parece não ter importância no presente, onde os fatos históricos são distorcidos, moídos e atirados longe das vistas do direito ao conhecimento, onde a ignorância sobre a história traz de volta sujeitos e práticas que achávamos superadas, este material quer ir na contramão disso”, descreve Diane no texto de apresentação. A íntegra do dicionário está disponível para consulta em bibliotecas

públicas de Goiás e, também, pela internet, no site do Centro Editorial e Gráfico da UFG (www.cegraf.ufg.br). Para instigar o leitor, o Jornal UFG reuniu algumas das personagens que se tornaram verbetes.

O legado de Aldaíza

Aldaíza Maia da Silva Viana nasceu em 1958 na cidade de Cachoeira Alta (GO) e faleceu em 2003, em Goiânia. Foi educada nas bases da Igreja Católica, tendo pertencido à Congregação das Irmãs de Jesus Crucificado até 1984. Ao deixar a instituição, fundou o Centro de Educação Comunitária de Meninas e Meninos (Cecom), no Jardim Nova Esperança. Estimulada pelas ideias de Paulo Freire e inserida nos movimentos sociais, iniciou um trabalho de educação popular com a juventude que residia em uma região marginalizada da capital goiana, conhecida como “alto da poeira”. A ocasião era de luta por direitos e o Nova Esperança abrigava importantes frentes do movimento pela moradia. Aldaíza trabalhou para retirar crianças e jovens da zona do extermínio e inseri-las na sociedade. Entre as décadas de 1980 e 1990, o contexto se abriu para a Nova Constituinte e para a reformulação de entendimentos sobre direitos, cidadania, política, assistência social. Nesse bojo, o Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua (MNMMR) pautou a criação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), aprovado em 1991, depois de muito debate. Aldaíza esteve presente. Sônia Maria Rodrigues, professora da Faculdade de Educação da UFG, à ocasião estudante de Pedagogia e militante, também. Juntamente com Glacy Queirós de Roure, ela assina o verbete de Aldaíza e se sensibiliza ao considerar que sua trajetória, em muitos aspectos, se cruzou com a da homenageada. Sônia dá ênfase à palavra legado, reforçando o papel da biografada como educadora para a vida, comprometida com as questões sociais. “Foi o que ela deixou: um legado. Não há como falar do Nova Esperança sem mencionar o Cecom. E é uma coisa dolorosa de falar, pois algumas das conquistas daquela época, hoje, estão sendo retiradas, banidas”, lamenta.

Alfabetizadora da Campininha

“Era uma mulher religiosa, moderna, vaidosa, gostava de viajar com a

família, amava a praia e tinha o espírito independente”. Assim Glacy Queirós de Roure apresenta Edna de Roure Aguiar, sua tia, no dicionário. Com apenas 22 anos, ela fundou a Escola Patriarca, o primeiro grupo escolar registrado pela Secretaria de Educação do Estado de Goiás no bairro de Campinas. Era 1944 e Edna iniciava um caminho marcante como alfabetizadora e educadora infantil. Nasceu em 1922, faleceu em 1960, formou-se à medida que ensinou, dividiu a rotina entre a família, as tarefas domésticas e as múltiplas funções da escola (professora, coordenadora, administradora etc.). Conforme aponta Glacy, evidenciando registros acadêmicos, mais de dez mil crianças estudaram na Patriarca. Além do ensino, Edna garantia aos estudantes revisão de suas tarefas, aulas de reforço e promovia atividades que iam além do espaço da escola. “A professora tinha a prática de realizar com os alunos piqueniques e excursões ao Jardim Zoológico de Goiânia, ao ribeirão Fazendinha, situado no município de Trindade, ao ribeirão Anicuns e outros”, escreve Glacy. Sua morte precoce, aos 38 anos, causou comoção em toda a “Campininha”.

Flora e a disciplina

Natural de Carmo do Paranaíba (MG), Flora Augusta de Alencar mudou-se para Itapuranga (GO) em 1957, mesmo ano em que começou a lecionar. Formou-se no Magistério na década de 1960, assumiu turmas no campo e na cidade, tornou-se diretora escolar e trabalhou até bem perto de sua morte. Para o professor Sebastião Gontijo, da Universidade Estadual de Goiás (UEG), que conviveu com ela e, também, um dos autores de sua biografia, a marca de Flora é a conduta rígida em sala de aula. “Trabalhamos juntos e eu dei aula para todos os filhos dela. Discutíamos muito, às vezes não concordávamos em nossas ideias. Mas, não há como negar: foi uma pessoa que a vida toda se dedicou ao município de Itapuranga.”, destaca.

Precursor da historiografia

Luis Palacín Gonzáles nasceu em Valladolid, na Espanha, em 1927. Ingressou na Companhia de Jesus em 1944, passou pelas principais universidades de seu país, estudou Filosofia, História e Teologia. Em 1958, desembarcou em missão jesuíta no Brasil e, no início da década de 1960, veio transferido para Goiânia. Para Nars Fayad Chaul, professor da Faculdade de História da UFG, seu aluno e orientando, e responsável pelo verbete a seu respeito, sua vinda para o Brasil Central “seria a melhor herança que a Espanha nos legaria”. Palacin iniciou seu trabalho em Goiás no antigo Centro de Estudos Brasileiros, vinculado ao Instituto Histórico Geográfico. Em 1965, tornou-se professor da UFG e inaugurou um frutífero ciclo de investigações, sobretudo, acerca da história de Goiás e do período da Mineração. O Padre atuou nas Paróquias do Divino Espírito Santo,

no Jardim Novo Mundo, e de Santo Inácio, no bairro Riviera. Viveu na Casa da Juventude até o ano de sua morte, em 1998. Foi homenageado em vida pela UFG, que lhe conferiu o nome do auditório do antigo Instituto de Ciências Humanas e Letras (ICHL), prédio onde está a Faculdade de História.

Dom Tomás e a opção pelos pobres

Impossível falar de educação sem mencionar Dom Tomás Balduíno, nascido em 1922, no município de Posse (GO), como Paulo Balduíno de Souza Décio. Seu nome mais conhecido, uma homenagem a São Tomás de Aquino, lhe foi conferido a partir de 1943, quando professou na Ordem dos Pregadores Dominicanos. Tornou-se sacerdote em 1948, bispo em 1967 e, durante toda a sua atuação como religioso, assumiu “a opção pelos pobres”. No dicionário, quem narra sua trajetória de educador é José do Carmo Alves Siqueira, professor do curso de Direito da Regional Goiás, que conviveu com Dom Tomás em várias instâncias da vida – da sala de aula ao campo das lutas sociais. Dom Tomás estudou Filosofia, Teologia e Antropologia. Este último curso, aliás, foi feito pela necessidade de conhecer o povo brasileiro. “Ele sempre se preocupava com sua própria formação permanente, com muita dedicação à sociologia, à comunicação, à exegese bíblica, e sobretudo aos estudos sobre a conjuntura social e política, como elemento fundamental de sua atuação”, escreve José do Carmo. Um dos fundadores do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e do Movimento Fé e Política, Dom Tomás foi entusiasta da educação popular e da comunicação comunitária, estimulou as pessoas a se engajarem e se organizarem, acreditou em uma atuação política “com P maiúsculo”, ampla, com vistas à transformação social e defendeu que “Direitos Humanos não se pede de joelhos, exige-se de pé!”. Das muitas honrarias que recebeu em todo o mundo está o título de Doutor Honoris Causa da UFG, que lhe foi entregue em 2012, dois anos antes de seu falecimento.

Link para baixar dicionário em pdf.

Confira matéria que saiu no Portal UFG

Professora Diane Valdez


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Resultado da última avaliação dos cursos de mestrado e doutorado feita pela Capes foi divulgado no fim de 2017 Luiz Felipe Fernandes

P

eriodicamente, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) avalia os cursos de pós-graduação stricto sensu (mestrado e doutorado) oferecidos pelas universidades brasileiras. A avaliação é bastante aguardada por gestores, professores e estudantes, pois, além de ser o índice oficial de qualidade de um curso, é utilizada como referência para a distribuição de bolsas e recursos para fomento à pesquisa. Uma nota baixa – 1 ou 2 em uma escala que vai até 7 – também pode representar o fechamento de um curso.

No fim de 2017, a Capes divulgou o resultado da avaliação quadrienal (2013-2016). Na Universidade Federal de Goiás (UFG), de um modo geral, a expansão da oferta de cursos de mestrado e doutorado foi acompanhada por uma tendência de elevação da nota em relação às avaliações anteriores. A maioria dos 78 programas de pós-graduação – 63% – recebeu nota 4 ou 5. O resultado também destacou o nível de excelência alcançado pelos programas de Ciências Ambientais (que passou de 5 para 6) e de Ecologia e Evolução (de 6 para 7). Para a avaliação, os programas de pós-graduação são divididos por áreas. Atualmente são 49 áreas, cada uma com um documento que contém as diretrizes e as fichas de avaliação. São cinco os quesitos levados em consideração: proposta do programa; corpo docente; corpo discente, teses e dissertações; produção intelectual; inserção social. Cada quesito possui itens de avaliação com pesos diferentes, para os quais são aplicados os conceitos Muito Bom, Bom, Regular, Fraco ou Insuficiente. A coleta de informações é on-line, por meio da Plataforma Sucupira. Anual-

mente, os programas de pós-graduação abastecem o sistema com informações relacionadas aos seus cursos, que subsidiam o trabalho dos avaliadores. O professor Adriano Melo, do Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Evolução da UFG, explica que, embora os quesitos sejam iguais, cada área tem certa flexibilidade na aplicação do conceito de acordo com suas especificidades. Adriano, que em 2017 atuou como avaliador de programas da área de Biodiversidade, esclarece que os parâmetros são dinâmicos e dependem de como estão os cursos da área. O número de publicações é um exemplo desse fato: embora haja uma ideia da quantidade e da qualificação de artigos que é preciso atingir para ser bem avaliado, se a maioria dos programas atinge um parâmetro até então vigente, este é modificado de maneira a ficar mais rigoroso. Da mesma forma, um parâmetro que quase nenhum programa consegue atingir precisa ser flexibilizado. De maneira geral, os programas melhoram a cada avaliação e, portanto, os parâmetros tendem a ficar mais rigorosos. “Isso significa que um curso hoje com nota 3 (a menor para continuar aberto) talvez seja melhor que um curso ótimo há 20 anos”, explica o professor.

Quantidade x qualidade

Para o pró-reitor de Pós-Graduação da UFG, Laerte Guimarães, a avaliação da Capes é abrangente e não leva em consideração apenas aspectos quantitativos. Ele considera que há itens que avaliam a abrangência, a consistência e a coerência dos programas, de suas linhas de pesquisa e dos projetos em andamento. “Com isso, a nota reflete o nível de maturidade e organização dos programas”, pontua. Adriano Melo complementa que no quesito Proposta do Programa há li-

Com relação à quantidade de publicações de um programa exigida pela Capes, o pró-reitor Laerte Guimarães compreende que há nesse item a preocupação de validar o impacto das pesquisas realizadas nos programas de pós-graduação. Em sua opinião, publicar um artigo em uma revista bem avaliada no sistema Qualis é a garantia de que a dissertação ou a tese gerada durante aquele processo de formação foi aceita pelos pares e possui relevância científica. Embora também reconheça a relevância das publicações, Renato Moscateli

A coleta de informações para a avaliação é feita por meio da Plataforma Sucupira e o preenchimento pode influenciar a nota final de um programa de pós-graduação. Segundo o pró-reitor de Pós-Graduação da UFG, Laerte Guimarães, nem sempre a forma como os relatórios são preenchidos refletem de fato a realidade de um curso. Omissão de informações pode prejudicar um programa. Além disso, como há utilização de informações da Plataforma Lattes, professores e estudantes devem sempre estar atentos à atualização de seus currículos. Pensando nisso, a Pró-Reitoria de Pós-Graduação (PRPG) realizou, entre fevereiro e março, treinamentos para o preenchimento do Coleta Capes, que compõe a Plataforma Sucupira, nas regionais Goiânia, Catalão e Jataí. Este ano, os programas têm até o dia 13 de abril para finalizar os relatórios e submetê-los à PRPG para homologação e posterior submissão à Capes até o fim de abril. Outra medida a ser adotada pela PRPG será a de visitar os programas de pós-graduação da UFG para conhecer suas realidades e demandas.

entendeu?

rio

Denuncie:

FG

O professor Renato Moscateli, coordenador do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da UFG, pondera que, apesar de a avaliação quantitativa ser importante e necessária, o peso significativo dado a esses critérios pode passar uma ideia equivocada de total imparcialidade e objetividade na avaliação. “A própria definição desses critérios depende das escolhas feitas pelos responsáveis pela avaliação, escolhas que refletem certas concepções acerca do como e do quanto devem ser valorizados os diferentes âmbitos do trabalho desenvolvido nos programas de pós-graduação, entre eles as publicações, as orientações e a docência, por exemplo”.

Atenção ao preenchimento da Plataforma Sucupira

#nãoénão!

a

que

berdade para escrever o que se considera pertinente, evidenciando pontos positivos e aspectos que melhoraram. “Embora não tenha um peso direto na fórmula da avaliação, isso pode influenciar a interpretação dos resultados quantitativos”. Baseado nessa descrição, o avaliador pode, por exemplo, levar em consideração o esforço feito pela coordenação de um curso e que resultou numa tendência de melhora ao longo das últimas avaliações. Além disso, como observa Adriano, os critérios são definidos por professores de cada área e estão em constante revisão.

acredita que a forma como a avaliação da Capes acontece tende a estimular um produtivismo e uma competitividade exagerada entre os professores de um mesmo programa e entre os programas. O professor ressalta ainda que a grande ênfase na quantidade da produção em termos de publicações acaba por desprestigiar outras atividades que são igualmente importantes, como o ensino e as orientações. “Elas são fundamentais para a formação dos mestres e doutores nos programas, e requerem muito tempo e dedicação dos docentes, mas constituem práticas cuja qualidade é de difícil tradução para dados quantitativos ou mesmo para os conceitos como Regular, Bom ou Muito Bom utilizados nas avaliações da Capes”, observa.

Ouvidoria da UFG: ouvidoria.ufg.br (62) 3521-1149

Universidade

Entenda como a pós-graduação é avaliada

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Assédio sexual é crime.

Delegacia da Mulher: Goiânia: (62) 3201-2801 Jataí: (64) 3232-0701 Catalão: (64) 3441-1604 Goiás: (62) 3371-2784 (CEAM)

ASCOM UFG

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5 6 7 4 3

Confira resultado final da avaliação quadrienal


Coisas que não se aprende em sala de aula

Fotos: José Olimpo / Hospital Araujo Jorge

Extensão

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Projeto de extensão incentiva estudantes a despertarem o papel da Universidade no voluntariado

Caroline Pires

T

êm certas coisas que a universidade não é capaz de ensinar e, provavelmente, estas são as experiências mais impactantes para a vida dos alunos. Afinal, antes de ser universitário, cada estudante é um ser humano. Foi esse pressuposto que motivou o professor Emiliano Godoi, da Escola de Engenharia Civil e Ambiental (EECA), a criar, em 2017, o projeto de extensão Aprendendo a Ensinar. O objetivo é convidar estudantes dos cursos de Engenharia a levarem conteúdos de disciplinas da área de Exatas a crianças internadas ou que estão realizando longos tratamentos nas alas de pediatria oncológica do Hospital das Clínicas e Hospital Araújo Jorge, em Goiânia. Mas no projeto, a ação de ensinar é apenas uma pequena parte de todo o processo, que em última instância proporciona não só a aproximação do ambiente acadêmico com a sociedade, mas traz esperança e sonhos de anos melhores para cada criança atendida. No segundo semestre de 2017, o projeto contou com a participação de 45 alunos, que garantiam de cinco a oito visitas hospitalares por semana. Para o ano de 2018 a intenção é contagiar outros docentes e professores da Universidade Federal de Goiás para a importância do projeto e fomentar a abertura de novas vagas para participação da comunidade acadêmica. A ação da EECA colabora com a área de Pedagogia Hospitalar, que é mantida em diversas instituições de saúde, com o intuito de garantir a crianças, adolescentes e adultos, que estão em situação especial de saúde, o direito de continuarem seus estudos. Por meio do atendimento pedagógico, que é fundamental para a manutenção da dignidade nos pacientes, os alunos são despertados a conscientização social, sem receber nenhum tipo de contrapartida financeira ou benefício acadêmico.

A participação no trabalho voluntário convida o profissional em formação a ter um outro ponto de vista a respeito de sua vida pessoal e acadêmica, levando-o a uma realidade completamente diferente da que está habituado. “Nosso maior objetivo é formar profissionais capacitados não somente tecnicamente, mas também detentores da boa vontade, compaixão por meio da partilha de conhecimento, amor, carinho e esperança”, completa Emiliano Godoi. O projeto Aprendendo a Ensinar é realizado em parceria e com a orientação do Núcleo de Atendimento Educacional Hospitalar (NAEH) da Secretaria Estadual de Educação. A expectativa é que a cada semestre 180 pessoas sejam atendidas pelo projeto de extensão. Milvo Domenico, aluno do curso de Engenharia Ambiental e Sanitária, considera a sua participação no projeto enriquecedora não só pelo conteúdo ensinado, mas pelo significado para o público atendido. “Nós achamos que vamos ensinar algo para os pacientes, mas saímos aprendendo e impactados por eles”, completa.

Rede de apoio

A médica Patrícia Brito, que há 23 anos trabalha na área de oncologia pediátrica no Hospital Araújo Jorge, reforça a importância das ações do voluntariado não só para os pacientes, mas também para os pais das crianças que estão em tratamento. Segundo ela, os pacientes atendidos no hospital são de baixa renda, “a grande maioria dos pais tem de abandonar o trabalho e chegam a passar até oito horas diárias no ambulatório para auxiliar no tratamento dos filhos. O voluntariado também é importante para eles”. Já a enfermeira Daniela Melo considera que mais do que as lições

Professor Emiliano Godoi (à dir.) com equipe de voluntários e profissionais da Equipe de Pediatria Oncológica do Hospital Araújo Jorge

Voluntários apresentam projeto e convidam paciente para participar de Matemática ou qualquer outro conteúdo didático, os voluntários universitários da UFG incentivam os pacientes a perseverarem nos seus estudos, mesmo diante das adversidades. Daniela conta que as crianças que realizam quimioterapia no ambulatório ficam esperando os voluntários voltarem. “Sem o voluntariado, a equipe médica não conseguiria a abrangência e a adesão dos pais e pacientes ao longo e desgastante tratamento de câncer”, concluiu.

Marli Oliveira, assistente social da ala de Pediatria do Hospital, complementa que esse trabalho reforça com o paciente que o tratamento uma hora irá terminar e que ele terá condições de retomar a rotina do dia a dia. “A gente recebe com muito bom grado todo projeto que vem resgatar a normalidade na vida do paciente”, reforça. Camila Vilela está acompanhando há um mês seu filho Henrique, de 4 anos, no tratamento de leucemia. “Eu achei que ia ser pior, mas o cuidado de toda a equipe e dos voluntários nos acalma e levanta a nossa autoestima para enfrentar esses próximos dois anos e meio de tratamento”, afirmou.

Como funciona?

Milvo Gabriel Prevedello, aluno do terceiro período de Engenharia Ambiental, explica que, antes de exercerem as atividades do projeto,

os estudantes passam por um treinamento sobre procedimentos de contato com os pacientes, que envolvem desde questões de higiene a abordagem diante de situações de depressão, sempre prezando pela ética na relação voluntário-paciente. Uma vez capacitados, os participantes determinam, conforme a sua disponibilidade, os dias e horários que serão dedicados ao projeto.

Por meio de um atendimento individualizado eles realizam uma sondagem dos conteúdos que estão sendo aprendidos pelas crianças internadas, sempre com muita sensibilidade e cuidado. Milvo reforça ainda a proximidade física dos hospitais onde o projeto é desenvolvido com unidades acadêmicas da UFG, o que permite que os estudantes possam atuar como voluntários inclusive no intervalo entre as aulas.

Como participar? • Ser estudante da UFG. • Participar das reuniões do projeto. • Conhecer os procedimentos básicos de conduta em ambiente hospitalar.

Jefferson Castilho é mestrando da EECA e realiza trabalho de interação e aproximação com o paciente Henrique, de 4 anos


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Pesquisa da UFG avalia que agressões fazem parte da violência contra a mulher

Carolina Melo

M

esmo sendo vítimas de agressões durante o parto, mulheres não compreendem que sofreram violência obstétrica. Segundo uma pesquisa realizada pelo Núcleo de Estudos Qualitativos em Saúde e Enfermagem (Nequase) da UFG, situações de violências no pré-natal, parto e pós-parto imediato ocorrem e são mais comuns do que se imagina. No entanto, o momento de fragilidade e vulnerabilidade vivido pela mulher faz que a grande maioria não perceba que está vivenciando uma situação de violência.

tal. “A mulher tem o direito de saber, por exemplo, que ela pode ter um acompanhante durante o parto, prováveis procedimentos a serem utilizados na medida do necessário, quando eles são necessários e o que deve fazer caso ela se sentir coagida”, ressalta.

Profissionais admitem violência

“Elas pensam que faz parte do procedimento, que o profissional de saúde fez o que precisava ser feito, mesmo tendo a percepção de que tinha algo errado no parto, de que não foi legal, gerou constrangimento, medo e afirmando que ‘o que sofreram não querem sofrer nunca mais’”, disse a pesquisadora Vittória Braz de Oliveira Alves. Segundo ela, a maioria das 14 mulheres acompanhadas pela pesquisa ainda não soube explicar o que seria uma violência obstétrica.

O significado atribuído à violência obstétrica por médicos e enfermeiros vinculados à rede pública de saúde também foi investigado pelo Nequase da Faculdade de Enfermagem da UFG em pesquisa inédita no País. Segundo a pesquisadora Mayara Guimarães, a maioria dos profissionais acompanhados pelo estudo admitiu a violência como parte do cotidiano das unidades de saúde, apesar de negar a violência como fruto de sua própria ação. A outra parcela, no entanto, mencionou a terminologia como descabida, criada para degradar os profissionais.

De acordo com o estudo, o cenário de violência começa a se delinear com um pré-natal falho, que não empodera a mulher com informações mínimas sobre o parto e pós-parto imediato. “Normalmente, são repassadas informações sobre exames, sono, pega e peso do recém-nascido. Ficam de fora, por exemplo, os sintomas de um trabalho de parto e suas fases”, afirma a pesquisadora. Na avaliação do professor da Faculdade de Enfermagem e orientador da pesquisa, Marcelo Medeiros, uma das questões que são levantadas é a necessidade de se reformular o serviço de saúde para as mulheres durante o pré-na-

Mesmo entre os profissionais que reconheceram a violência obstétrica, não foram todos os tipos de agressões percebidas como práticas rotineiras. Além do abuso físico e verbal, a pesquisa também

As principais agressões relatadas, mesmo sem a percepção de que elas estavam ocorrendo, foram a psicológica e a física. A primeira manifesta-se por meio de pressão e humilhação nas falas dos profissionais. A física afeta tanto a mulher quanto o recém-nascido e normalmente se manifesta por meio de procedimentos que podem ser utilizados sem indicação e sem a adequada informação à grávida do que está sendo realizado. “Ambas as violências estão dentro de um cenário de violência contra a mulher, que ocorre não só pelas mãos dos homens, mas também de mulher para mulher, como reflexo das desigualdades nas relações de poder”, afirma Vittória.

Os médicos e enfermeiros mais antigos e tradicionais foram os que apresentaram dificuldades para entender o que seria a violência obstétrica, de acordo com o estudo. Eles também não demonstraram compreensão aprofundada sobre a humanização do parto. “Mostraram-se inflexíveis sobre as formas de assistência que não permitem autonomia à mulher e assumiram uma postura defensiva, negando a violência”, afirma Mayara.

identificou um tipo de violência mais sutil e imperceptível, chamada de discriminação. “É aquela atitude que desqualifica a mulher, como se ela não fosse capaz de compreender o parto e sua condução”, explica Mayara. De acordo com o estudo, a conduta do profissional se move entre atitudes que buscam a humanização no atendimento e ações que tentam minimizar o protagonismo da mulher, dando margens ao aparecimento das violências. “Os profissionais conseguem enxergar a violência mais gritante, como a física, mas não percebem as nuances de discriminação e também o tom de voz grosseiro”.

Motivadores

A rotina, a alta demanda das unidades de saúde pública que exigem um atendimento rápido e um parto acelerado por procedimentos, a precariedade dos recursos humanos e físicos e a falta de capacitação foram alguns dos motivos elencados pelos profissionais como potencializadores das situações de violência. Outro condicionante citado foi a falta de informação da mulher sobre o período

da gravidez, do parto e do pós-parto, resultado de um pré-natal falho.

“Os profissionais reclamam que a mulher não tem a compreensão sobre o que é um trabalho de parto, como e quando ele se inicia. Afirmam que elas chegam sem documentos e ali na emergência não têm tempo de orientá-las da forma adequada”, afirma Mayara Guimarães. De acordo com a pesquisa, os profissionais sabem que a violência existe, vivenciam-na e, de alguma forma, naturalizam-na e a justificam como culpa da mulher. “Portanto, saiu nos resultados a culpabilização da mulher, ficando muito clara a violência de gênero”. Segundo o professor da UFG, Marcelo Medeiros, orientador de ambas as pesquisas, um caminho de rompimento desse cenário é a educação direcionada aos profissionais que atuam e aos acadêmicos. “Esse debate deve ser feito. A violência obstétrica é rotineira, banalizada. É preciso falar para poder perceber que ela, de fato, existe. É preciso falar para tentar minimizar sua prática”, afirma.

Sociedade

Vítimas nem sempre percebem situação de violência obstétrica


Pesquisa

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Ana Fortunato

saber se determinada interação pode desencadear algum sintoma físico ou não, como vermelhidão e coceira. “A partir deles, conseguimos entender a capacidade de uma substância em interagir com componentes da pele, por exemplo, com as proteínas, como sendo o primeiro evento-chave que irá culminar no efeito clínico que é a alergia”, explica Marize.

É possível evitar testes em animais Métodos inovadores desenvolvidos na UFG reduzem ou elimanm essa prática, melhoram tempo e custo de produção e fornecem melhor previsão de toxicidade Vinícius Paiva

A

Ciência utiliza diversos métodos de investigação. Ao olhar para a dinâmica histórica, constata-se que os animais são utilizados em testes desde o século XX. Cães e coelhos já foram utilizados no tratamento contra a raiva, macacos no tratamento de artrite reumática, tatus no tratamento contra lepra e gatos no desenvolvimento de anticoagulantes. O objetivo é produzir conhecimento aos seres humanos para ser utilizado na elaboração de novos fármacos, métodos cirúrgicos, vacinas e terapia gênica. Abandonar esse modelo de experimentação para a geração de conhecimento é uma certeza para o futuro, mas, sobretudo, um grande desafio para a Ciência. Como vários métodos são úteis, mas nem sempre éticos, a Ciência debate com frequência os diferentes modos de se obter conhecimento. Em especial, quando, a utilização de animais não é a forma mais humanizada nem segura para a geração de dados. A luta contra a não utilização de animais em pesquisas começou em 1980, a partir de protestos organizados por ativistas contra o Teste de Draize, desenvolvido em 1940, que aplica substâncias nos olhos de coelhos para avaliar a toxicidade ocular, o que pode levar esses animais à cegueira. As manifestações culminaram em um anúncio idealizado pelo ativista Henry Spira no jornal The New York Times: “Quantos coelhos ainda ficarão cegos em nome da beleza?”.

Por que não utilizar?

Substituir animais em pesquisas é o caminho natural da Ciência, do progresso tecnológico e do respei-

to à vida. Por isso, o Laboratório de Toxicologia e Farmacologia Celular LFTC/FarmaTec da Faculdade de Farmácia da UFG vem realizando esforços para reduzir e até mesmo eliminar o uso de animais em pesquisas, norteados pela “Toxicologia do Século XXI”. Isso exige um refinamento científico embasado em simulações computacionais; técnicas in vitro e engenharia de tecidos – ramo da ciência que utiliza conhecimentos de biologia, química e física para desenvolver tecidos humanos. Segundo a coordenadora do laboratório, Marize Campos Valadares, a crueldade chama a atenção da população, pois a maioria dos testes é praticada sem anestesia e com a introdução de substâncias tóxicas nos organismos, o que causa um sofrimento longo e contínuo. Mas a ineficácia desses testes é evidente, pois são organismos diferentes, não humanos. “O que é tóxico para um animal pode não ser para a gente, por isso a capacidade preditiva do modelo nem sempre é suficiente e satisfatória. Mas se utilizamos métodos inovadores reduzimos tempo e gastos financeiros, reavivamos o lado ético perante o sofrimento animal e obteremos dados de maior qualidade científica”, explica.

Métodos inovadores

Por meio da Toxicologia moderna, várias substâncias tóxicas ao corpo humano podem ser verificadas por testes que não utilizem animais. Um dos testes do laboratório diz respeito à alergenicidade e busca compreender o efeito causado na pele humana a partir da interação com determinado produto. O objetivo é encontrar os denominados eventos-chave, que permitem

O laboratório também realiza testes de toxicidade ocular, um deles por meio da engenharia de tecidos, na qual reconstrói-se in vitro o epitélio ocular para se testar a segurança de produtos cosméticos, como a tinta de rena – utilizada em tatuagens e sobrancelhas. Se esses produtos matarem as células da camada epitelial ou liberarem fatores inflamatórios, são considerados tóxicos aos seres humanos. O outro teste utiliza córneas de bois abatidos por frigoríficos localizados no entorno de Goiânia, que seriam descartadas como lixo pelas empresas. Elas são reutilizadas como uma ferramenta de entendimento do efeito de um produto sobre o olho: se houver a destruição das células da córnea, o produto pode ser classificado como nocivo, exigindo alertas de perigo no rótulo do produto ou até mesmo inviabilizando o seu consumo por humanos. Outro modelo importante usado no LFTC utiliza a membrana vascularizada de ovos galados para avaliar se novos produtos, como cremes e rímeis, são tóxicos para os olhos. Quando estes produtos são colocados em contato com a membrana dos ovos, observa-se se há hemorragia, por exemplo. A partir disso, pode-se concluir que o produto é tóxico para os olhos. “A técnica está em processo de validação pelo Centro Brasileiro para Validação de Métodos Alternativos (BraCVAM), para sabermos o quanto essa técnica é capaz de acertar se uma substância é irritante ou não. Trata-se de um grande desafio, pois é a primeira técnica a ser validada no Brasil, e o LFTC é um dos quatro laboratórios brasileiros que participam desse estudo”, explica Marize.

O que você pode fazer para evitar o sofrimento animal? Você pode verificar se determinado produto é ou não testado em animais, acessando o site do Projeto Esperança Animal (PEA), uma Entidade Ambiental que objetiva propiciar harmonia entre os seres humanos e o planeta. Nele você pode conferir, numa enorme lista, quais empresas testam e quais empresas não testam seus produtos em animais.

Prêmios Em 2017, o LFTC foi premiado cinco vezes pelos estudos desenvolvidos para avaliar toxicidade sem a utilização de animais, como os de Renato Ávila e Artur Silva. Doutorando em Ciências da Saúde, Renato Ávila ganhou o Prêmio Lush Prize, iniciativa que apoia projetos viabilizadores do fim de pesquisas em animais. A pesquisa avalia os efeitos sensibilizadores da pele humana de substâncias e misturas da “vida real”, incluindo formulações botânicas, cosméticas e agroquímicas. “O trabalho que ganhamos foi 100% conduzido em território goiano, na UFG, com financiamentos das agências brasileiras de pesquisa. É um prêmio que saiu do eixo Rio-São Paulo. Mostramos que somos competentes e tão competitivos quanto qualquer parte do mundo”, comemorou Renato.

Artur Silva, mestrando em Ciências Farmacêuticas, também foi reconhecido no Prêmio do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) de Métodos Alternativos à Experimentação Animal, pelo seu trabalho com modelo de córnea humana realizado inteiramente na UFG. O prêmio é uma iniciativa da empresa O Boticário e conta com colaboração institucional da Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco). Segundo o pesquisador, o Brasil está revendo os protocolos de avaliação e classificação de irritantes oculares, visando se adequar aos padrões internacionais. “Dessa forma, o modelo criado se torna mais uma ferramenta do arsenal de métodos de avaliação toxicológica no país, favorecendo o suporte à inovação. Além disso, a não adequação aos protocolos internacionais torna-se uma barreira alfandegária aos produtos brasileiros”, explicou.

Você sabe quem sou eu? “Sou o produto mais consumido no mundo. Eu sou um amor, pois crianças, adolescentes, adultos e idosos, todos me adoram. Mesmo sendo seguro para o organismo humano, tenho meu vilão interior, a telbromina, substância presente no fruto do cacau capaz de afetar o cérebro e o coração do seu animalzinho de estimação. Provavelmente eu nunca teria chegado ao mercado consumidor se tivesse sido testado primeiramente em animais, afinal, para eles eu sou tóxico, mas não para você que me lê agora e, provavelmente, me ama”. R: Eu sou o chocolate. Talvez você nunca teria me experimentado se eu tivesse sido testado primeiro em animais.

Acesse o PEA e verifique se seu produto foi testado por animais

Veja a matéria completa no Jornal UFG online


A Arquivo Pessoal

s imagens sempre tiveram um lugar especial em minha vida. Desde pequenino, eu manifestara o desejo de contar histórias por meio delas. As primeiras narrativas foram materializadas nas paredes de casa, para azar de minha mãe. Não havia uma superfície em que não houvesse um registro imagético meu. O giz de cera e a imaginação eram as minhas ferramentas. A medida em que crescia, para a alegria dela, mudavam-se os suportes. Passei a me manifestar em papel de embrulhar pão e folhas de cadernos, resultando em histórias em quadrinhos autorais. Os sonhos cresciam proporcionalmente a idade.

*Tatiana Duque Martins

Autoplágio é plágio?

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ompreender as origens das más condutas no âmbito acadêmico é uma tarefa nada fácil, por ocorrerem de tantas formas, em tantas situações diversas e, em sua maioria, por falta de conhecimento dos envolvidos. Classificar tantas possibilidades de desvios de conduta, de forma que possam ser encontradas e mensuradas, é ainda mais difícil. O que se faz, nos dias de hoje, é separar as más condutas graves das menos graves, para tornar a prevenção e o combate às más condutas mais efetivos. Dentre as más condutas mais graves estão o plágio, a fabricação e a falsificação de dados; e aí sempre surge a dúvida: e o autoplágio? Como se classifica? Sem mencionar a dúvida que o termo autoplágio traz: o que é o autoplágio? Dentre as más condutas graves, o plágio é a mais comum, especialmente em dissertações, teses e artigos científicos, e é a única prevista como crime de violação aos direitos autorais (Código Penal, Art. 184. “Violar direitos de autor e os que lhe são conexos: Pena – detenção, de 3 (três) meses a 1 (um) ano, ou multa.”) E, então, o autoplágio seria um tipo de plágio? Se enquadra como uma violação à lei, uma vez que o autor é o próprio infrator? Que direitos estão sendo violados?

Alfred Hitchcock considerava que o “autoplágio é estilo” e não obstante, ao autor são reservados “os direitos morais e patrimoniais sobre a obra que criou.” ( Art. 22. da Lei nº 9.610, de 19 de fevereiro de 1998). Então, onde está a má conduta? Nas atividades acadêmicas, que compreendem produção de textos técnicos, muitas vezes ocorre o uso de metodologias já publicadas pelo autor em textos anteriores ou a contínua publicação de ideias ou pensamentos que permanecem. No entanto, uma vez que eles são mera repetição, o correto é que o próprio autor cite a primeira vez em que aquele texto ou aquela metodologia foi levada a público. Portanto, para fins de classificação de más condutas acadêmicas, o autoplágio é uma má conduta, pois quando ocorre, omite o trabalho original e leva o leitor a imaginar que o texto que está lendo corresponde à primeira publicação daquela ideia ou metodologia. Isso leva a um mal julgamento temporal e circunstancial por parte do leitor, o que pode ter consequências na execução de sua pesquisa. Não, autoplágio não se enquadra em violação à

lei de direitos autorais. Sim, é má conduta, menos grave, mas ainda assim, prejudicial ao desenvolvimento da ciência. Portanto, lembre-se, a má conduta pode sempre ser evitada, quando se tomam decisões baseadas em códigos morais elevados e se pensa de forma altruísta. A citação, ou seja, atribuir corretamente a autoria, é a melhor forma de prevenção à má conduta! Profa. Dra. Tatiana Duque Martins é Vice-Diretora do IQ e presidente do Comitê de Integridade Acadêmica da UFG (CIA-UFG)

Um relatório de 2013 da empresa iThenticate, responsável por um software de detecção de plágio, listou os dez tipos mais comuns desta conduta: 1- Expressar as mesmas ideias com outras palavras; 2- Repetir os dados usando uma mesma metodologia e resultados similares sem se referir ao trabalho anterior; 3- Usar fonte secundária, como uma metanálise, mas citar apenas fontes primárias; 4- Usar trabalhos e dados de estudos prévios; 5- Copiar texto alheio sem destacá-lo (aspas, itálico, parágrafo recuado etc.) e não indicar a referência; 6- Pesquisadores não declararem que trabalham juntos e se citarem mutuamente; 7- Não indicar todos os autores que participaram no manuscrito, negar créditos a colaboradores; 8- Enviar o trabalho a várias publicações, sendo o manuscrito publicado mais de uma vez; 9- A referência não existe, não é correta ou não tem os dados completos; 10- Copiar o manuscrito completo e enviá-lo em nome próprio.

O Jornal UFG não endossa as opiniões dos artigos, de inteira responsabilidade de seus autores.

Destarte, os sonhos passaram a permear a universidade. Não por acaso, eu ingressei na academia em um curso de graduação em Comunicação Social com o objetivo de contar histórias. Assim, na Universidade Federal de Goiás, os meus sonhos e narrativas cotidianas passaram de imagens estáticas para imagens em movimento. O trabalho que me titulou bacharel foi, como não poderia deixar de ser, um filme sobre a importância do saber popular na construção do saber científico. Eu finalmente estava fazendo cinema.

Essa experiência de realização cinematográfica foi o que me levou ao Programa de Pós-Graduação em Arte e Cultura Visual no nível de doutoramento em 2017. A curiosidade sobre como aprender e ensinar a contar histórias por meio do cinema, fora do circuito e do eixo comercial, me acompanha desde então. Para isso, eu estudo as experiências de um cineasta goiano chamado Martins Muniz e o coletivo de realização cinematográfica Sistema CooperAÇÃO Amigos do Cinema, do qual ambos fazemos parte. Nesse contexto, explanando de forma simples, eu estudo como esse senhor ajuda outras pessoas e suas respectivas comunidades a contar suas histórias através de imagens em movimento em um mundo onde essas narrativas cotidianas não possuem destaque. Além de minhas histórias, quero contribuir para que outras pessoas possam materializar as suas próprias, seja com giz de cera ou pelo cinema. Renato Cirino é doutorando do Programa de Pós-Graduação em Arte e Cultura Visual (PPGACV), inserido na linha Culturas da Imagem e Processos de Mediação

Arquivo Pessoal

atéria a no FG

ARTIGO

Opinião

o PEA ue se duto do mais

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Quer falar sobre sua pesquisa ou projeto de extensão? Escreva um texto em primeira pessoa e envie para jornalufg@gmail.com


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o i a s En

ue q i b o m h a n ç i t o e M Pr o h n do To

I

nstituído em 1972, no bairro da Boa Viagem, em Itapecerica (MG), o Moçambique do Tonho Pretinho é responsável pela Festa do Reinado de Nossa Senhora do Rosário da Boa Viagem, que remonta a uma tradição de 1818. O projeto Memórias e Cantos do Moçambique do Tonho Pretinho, realizado pelo Iphan em parceria com a UFG, busca a salvaguarda e divulgação das concepções religiosas e das práticas culturais dos descendentes de africanos na América, mostrando a tradição das danças, dos ritmos, das concepções religiosas e dos sentidos dos cantos presentes no Congado.

Nas cerimônias de coroação de reis congos nas festas de Nossa Senhora do Rosário, os tambores e as danças invocam de um modo africano os santos católicos, pretos velhos, caboclos, ancestrais, e conferem a seu culto desdobramentos e significações novas nesta manifestação híbrida do catolicismo negro de raiz banta no Brasil. Os elementos dessa espiritualidade estão presentes cotidianamente e não apenas no espaço-tempo das festas. Caboclos, pretos velhos fazem parte da vida, do dia a dia, aconselhando, protegendo.

Quando eu ficar velhinho, eu já falei pra minha esposa que eu vou acompanhar Nossa Senhora nem que seja com bengala. Tonho Pretinho

O reinado é uma brincadeira, mas é uma brincadeira muito séria. Dona Lena

O projeto reuniu pesquisadores da UFG e da Universidade de Brasília e produziu o Inventário Nacional de Referências Culturais, o livro Na Angola tem: Moçambique do Tonho Pretinho, da autoria de Talita Viana e Sebastião Rios (foto) e fotografias de Marcelo Feijó e Diana Landim; o documentário Na Angola tem; o CD Moçambique do Tonho Pretinho (ambos encartados no livro) e a exposição de fotografias de Marcelo Feijó Na Angola tem: Memórias e Cantos do Moçambique do Tonho Pretinho, que esteve em exibição no Centro Cultural da UFG.

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Jornal UFG 93  

Produzido pela Secretaria de Comunicação da UFG ANO XII - Nº 93 - MARÇO/2018

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