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JORNAL ANO XI – Nº 90 SETEMBRO 2017

A cultura da permanência

Ingrid Costa

Uma vida mais responsável e conectada com o ambiente é o que propõe o princípio da Permacultura que, incluído no espaço acadêmico, estimula a visão holística do conhecimento. p. 8 e 9

No mês de prevenção ao suicídio, reportagem mostra que assunto ainda é tratado como tabu p. 5

Em mesa-redonda especialistas discutem consequências do acidente com o Césio-137, após 30 anos p. 6 e 7

Produção e consumo da pamonha em Goiânia é motivo de investigação na Sociologia e na Comunicação p. 10


Universidade

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JORNAL

EDITORIAL

Pensar e sentir Luiz Felipe Fernandes

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sta edição do Jornal UFG está sensorial. A matéria de capa é sobre a permacultura – uma alternativa de relacionamento mais harmônica entre seres humanos e natureza, de forma a gerar menos impactos ambientais. A reportagem aborda iniciativas da Regional Jataí da UFG, que disponibiliza o Núcleo Livre sobre Permacultura e Sistemas Agroflorestais, e da Regional Goiânia, que promove ações e atividades voltadas a esses princípios. São propostas que extrapolam o meio acadêmico e que retomam os verdadeiros princípios da sustentabilidade – conceito banalizado no discurso contemporâneo. Sensibilidade no relacionamento com a natureza é também sensibilidade no relacionamento com o outro. O Setembro Amarelo nos convida a refletir sobre o suicídio, cuja prevenção passa pela disposição em escutar aqueles que nos cercam, de forma a perceber que alguma coisa não vai bem. A empatia – outra palavra bastante utilizada atualmente – envolve também o falar sobre o assunto. Especialistas consultados para a matéria reforçam a necessidade de superar esse tabu e discutir o assunto com honestidade e atenção.

Na área da pesquisa e da extensão, outras duas reportagens têm a música como pano de fundo. Na Regional Goiás, o projeto Audição - a música ensina cria narrativas audiovisuais para refletir sobre diferentes assuntos. Já o rock é tema de duas pesquisas realizadas na Escola de Música e Artes Cênicas (Emac). A reportagem é assinada pela jornalista Adriana Silva, bolsista de fotografia da Assessoria de Comunicação da UFG que estreia como repórter nas páginas do jornal. As pesquisas abordam o estilo musical em diferentes perspectivas e ainda retrata o cenário do rock em Goiás.

E por que não aguçar também nosso paladar falando da goianíssima pamonha? Pesquisa do mestrado em Sociologia investigou a identidade do pamonheiro e as relações de sentido estabelecidas pelos profissionais que produzem esse prato tão apreciado. Portanto, nesta edição, convidamos você, leitor, a ir além do pensar. Fazemos um convite ao sentir! Coordenador de Jornalismo da Ascom

O setembro que nos incentiva a exercer a empatia é também o mês que faz recordar o acidente radiológico com o Césio-137, que completa 30 anos. Chamamos a atenção para a participação de Natercio Ivo da Paixão na mesa-redonda que discute o assunto. Natercio era servidor do Consórcio Rodoviário Intermunicipal (Crisa) na época do acidente e trabalhou na retirada dos rejeitos. Três décadas depois, revela descaso na assistência às vítimas e clama para que o episódio não caia no esquecimento.

Adriana Silva é jornalista e bolsista de fotografia na Assessoria de Comunicação da UFG.

COMUNIDADE PERGUNTA De onde vieram os macacos do Câmpus? Pergunta enviada via Fale Conosco Os macacos do Câmpus provavelmente habitam as matas dessa região, que está próxima ao Rio Meia Ponte e outros córregos, há muitos anos, mesmo antes da construção da Universidade

neste local. Este local era uma fazenda e como tal fragmentou as matas para garantir o plantio de pasto para o gado. A partir de então, os macacos passaram a habitar esses fragmentos de área verde em bandos separados uns dos outros, a exemplo do que se encontra no bosque Saint Hilaire. Marilda Shuvartz, professora do Instituto de Ciências Biológicas da UFG

Direto do Instagram @ufg_oficial

Publicação da Assessoria de Comunicação Universidade Federal de Goiás ANO XI – Nº 90– SETEMBRO DE 2017 Reitor: Orlando Afonso Valle do Amaral; Vice-Reitor: Manoel Rodrigues Chaves; Pró-Reitora de Graduação: Gisele Gusmão; Pró-Reitor de Pós-Graduação: Jesiel Freitas Carvalho; Pró-Reitora de Pesquisa e Inovação: Maria Clorinda Soares Fioravanti; Pró-Reitora de Extensão e Cultura: Giselle Ferreira Ottoni Cândido; Pró-Reitor de Administração e Finanças: Carlito Lariucci; Pró-Reitor de Desenvolvimento Institucional e Recursos Humanos: Geci José Pereira da Silva; Pró-Reitor de Assuntos da Comunidade Universitária: Elson Ferreira de Morais. – Jornal UFG – Coordenador de Jornalismo: Luiz Felipe Fernandes; Editora: Kharen Stecca; Editora-Assistente: Angélica Queiroz; Conselho editorial: Angelita Pereira de Lima, Cleomar Rocha, Estael de Lima Gonçalves (Jataí), Luís Maurício Bini, Pablo Fabião Lisboa, Reinaldo Gonçalves Nogueira, Silvana Coleta Santos Pereira, Thiago Jabur (Catalão) e Weberson Dias (Cidade de Goiás); Suplente: Mariana Pires de Campos Telles; Projeto gráfico : Reuben Lago; Editoração: Frede Aldama; Fotografia: Carlos Siqueira; Reportagem: Angélica Queiroz, Carolina Melo e Patrícia da Veiga; Bolsistas: Adriana Silva e Ana Fortunato (Fotografia), Luciana Gomides e Vinicius Paiva (Jornalismo); Impressão: Centro Editorial e Gráfico (Cegraf ) da UFG; Revisão: Bruna Mundim, Fabiene Azevedo e Maria Lucia Kons; Tiragem: 6.000 exemplares ASCOM Reitoria da UFG – Câmpus Samambaia Caixa Postal: 131 – CEP 74001-970 – Goiânia – GO Tel.: (62) 3521-1310 /3521-1311 www.ufg.br – www.ascom.ufg.br jornalismo.ascom@ufg.br

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Ana Fortunato

Uma carreira transformada em ensinamentos Angélica Queiroz

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servidora técnico-administrativa aposentada do Instituto de Ciências Biológicas (ICB), Ekaterina Akimovna Botovchenco Rivera, recebeu, no mês de julho, em sessão solene da Assembleia Universitária, o título de Notório Saber, reconhecimento pelo seu trabalho em várias disciplinas das Ciências Biológicas e da Saúde, como Medicina, Farmácia, Odontologia, Medicina Veterinária e Biologia. Como primeira pessoa na história da instituição a conquistar tal reconhecimento, Ekaterina conversou com o Jornal UFG. Quais direcionamentos o trabalho no Biotério Central da UFG, que você coordenou de 1979 a 2014, deram para a sua carreira?

Quando ingressei na UFG e fui designada para coordenar o Biotério Central, entrei em pânico, pois meus conhecimentos sobre criação de animais de laboratório eram mínimos e toda minha formação em Medicina Veterinária não era suficiente para administrar um ambiente onde os animais eram de espécies com as quais eu nunca tinha trabalhado. Como cuidar de um rato ou de um camundongo? Sabia fazer partos em vacas, tratar cavalos e cães, mas ratos... Foi quando tive a oportunidade de fazer meu mestrado na Inglaterra que um novo horizonte se abriu à minha frente, porque o uso ético e o bem-estar dos animais eram os pontos principais de nosso estudo. Voltando ao Brasil procurei divulgar e aplicar esses princípios tanto na criação de animais quanto no seu uso em pesquisa e ensino na UFG. Esta era uma atividade nova e, para melhor estabelecer esta cultura de cuidado, ministrei cursos e palestras sobre o tema, que começou a despertar o interesse e a se difundir por várias outras universidades e instituições. A UFG foi muito generosa, pois me permitiu levar esses conhecimentos e, principalmente, a ideia da formação de Comissões de Ética a outras partes do país e da América Latina. Essa atitude de respeito pelos animais aplicada a um Biotério foi se difundindo e mudando a cara do uso de animais em pesquisa e ensino em nosso país. Esse direcionamento me deu a oportunidade de desenvolver uma carreira extremamente gratificante, pois pude transformá-la em ensinamentos. O que é ser técnica e pesquisadora na universidade pública brasileira?

Quando iniciei minha carreira na UFG, ser técnica e trabalhar na área de pesquisa com animais não era

nada fácil. Era uma maneira nova de fazer ciência e muitos professores tinham resistência em aceitar os novos conceitos, ainda mais pregados por uma médica veterinária. A concepção era de que qualquer um saberia criar animais para experimentação, aos quais não era dada a devida importância. Hoje já se sabe que uma boa ciência só pode ser realizada com animais de alta qualidade e que, para isto, necessitamos de técnicos especializados na área. Principalmente com o advento da lei que rege a experimentação animal, técnicos especializados na área da Ciência de Animais de Laboratório são parte essencial de qualquer pesquisa que envolva animais e com isto há uma valorização da classe. Mas não é uma lei que dá credibilidade aos técnicos, ela só pode ser adquirida se o profissional demonstrar que possui sólidos conhecimentos das técnicas e da filosofia do manejo e cuidado dos animais utilizados. Busquei enfrentar os preconceitos demonstrando conhecimento na minha área. Quando estes conhecimentos eram solicitados, procurava auxiliar, indistintamente, desde o aluno iniciante até o professor mais qualificado. Creio que, com conhecimento e respeito, fui granjeando credibilidade e derrubando preconceitos. Como foi trabalhar em tantas áreas? Quais os principais aprendizados?

A área da Ciência de Animais de Laboratório abrange várias disciplinas. Em todas elas os animais são usados em pesquisa e eram também em ensino, hoje quase abolidos nesta área. Como muitos pesquisadores das áreas destas ciências não tinham conhecimento do animal com o qual iriam trabalhar, buscavam meu auxílio. Por essa razão transitei em diversas áreas, nas quais os aprendizados são incontáveis. Creio que o principal aprendizado foi o de ser um pouco aluna da pessoa que estava me consultando, buscando respostas aos seus questionamentos, participando do entusiasmo pelo seu trabalho e da vontade enorme de conduzir seu estudo da melhor forma possível. Isto me ensinou que há sempre uma esperança em nosso futuro enquanto houver pessoas que, contra todas as dificuldades, se dispõem a doar um pouco de sua vida para uma ciência melhor e, consequentemente, um mundo melhor para o homem e os animais. Você trouxe para o Brasil o debate do bem -estar animal e teve participação decisiva na elaboração da Lei n° 11.794/2008, que regulamenta o uso de animais para fins científicos. Pode nos contar um pouco sobre esse debate?

[...] há sempre uma esperança em nosso futuro enquanto houver pessoas que, contra todas as dificuldades, se dispõem a doar um pouco de sua vida para uma ciência melhor e, consequentemente, um mundo melhor para o homem e os animais. É possível fazer pesquisa sem causar dor e sofrimento aos animais? Atualmente não só é possível como também é mandatório por lei e pelos princípios éticos que regem o uso de animais em pesquisa, ensino e testes. Temos o Princípio Ético dos 3 R´s (3 palavras inglesas que começam pela letra R: replacement, reduction e refinement), segundo o qual devemos sempre buscar alternativas ao uso de animais em pesquisa, ensino ou testes, utilizar o menor número possível e evitar que tenham dor e sofrimento. Esses princípios são a base de todas as leis existentes relativas ao uso de animais em experimentação. Cabe ressaltar que a maioria das pesquisas com animais não causa sofrimento ou dor a eles. Para que um pesquisador possa conduzir um projeto de estudo que envolva animais deve seguir vários passos até que seu projeto seja aprovado, garantindo minimizar esses danos. Como avalia o cenário da produção científica no Brasil? Em que aspectos é preciso avançar?

Creio que o Brasil tem uma grande e consistente produção científica em várias áreas, mas esbarramos em um grande empecilho que é a pouca importância dada à ciência por nossos gestores maiores. Nunca foi grande o aporte de verbas para a pesquisa e a cada ano vemos mais e mais cortes serem feitos. Como produzir sem este apoio econômico? Felizmente, os próprios pesquisadores têm nos dado esta resposta continuando a buscar alternativas aos grandes problemas que lhes são apresentados para que possamos ter um mundo melhor: uma melhor saúde para o homem, para os animais e para o meio ambiente. A estes, todo meu respeito e minha admiração. Como avançar? Para que possamos nos tornar um país melhor, devemos dar mais importância à ciência, que é a mola propulsora do progresso. Sabe-se que todos os países mais desenvolvidos ou em maior processo de desenvolvimento investiram em educação, tecnologia e ciência.

Entrevista Ekaterina Akimovna Botovchenco Rivera

Não haver regulamentação alguma fazia com que os animais usados em experimentação fossem usados de forma aleatória, em grande número e sem uma harmonização dos procedimentos realizados. Porém já havia a inquietação em ter algum recurso normativo que regulamentasse o uso de animais em ensino, pesquisa e testes. Em 1995, Sérgio Arouca, pesquisador da Fiocruz, elaborou, junto com outros pesquisadores, um projeto de lei (PL) regulamentando o uso de animais em experimentação. No início de 2008, com o apoio da bancada goiana, o PL foi aprovado por unanimidade. Em seguida, fui convidada a fazer parte do grupo de trabalho que elaborou o Decreto Lei n° 6.899/09 que regulamenta esta lei. Como a lei tramitou por 13 anos, Arouca faleceu em 2003 sem ter visto sua aprovação, e ela foi batizada em sua homenagem como Lei Arouca.


Universidade

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Audição a música ensina Projeto de extensão e cultura da Regional Goiás utiliza música como ferramenta de reflexão e aprendizado Weberson Dias

Fábio Gaio

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estudo fosse feito em laboratório, utilizando métodos de tentativas, o custo da pesquisa seria bastante elevado. A modelagem atua justamente no sentido de direcionar o experimento, para que não se gaste tanto dinheiro na obtenção de novos materiais e na sua aplicação”, completa.

Segundo o professor de Arquitetura e Urbanismo, Edinardo Lucas, a ideia é coletiva. “A ideia é que a música por si só ensine. Em tempos

Estudos feitos com compostos de material metálico são importantes para chegar a novos materiais com características específicas, como durabilidade e leveza

studar fenômenos encontrados na natureza, que podem ser reproduzidos por meio de modelos matemáticos. Essa é a finalidade da mecânica computacional, uma área da engenharia que trabalha com a tentativa de modelar o comportamento de materiais. Na Regional Catalão da Universidade Federal de Goiás, o trabalho de um grupo de professores e estudantes que atua em duas vertentes da modelagem computacional tem gerado bons resultados, com a publicação

ganhando grande importância em aplicações na área de Engenharia Estrutural, sobretudo aeronáutica e automobilística.

Quem também abraçou o projeto foi a professora Fabiana Itaci Araújo, do curso de Administração. Segundo ela, a interdisciplinaridade foi o que a atraiu para compartilhar da ideia. “Qualquer projeto que tenha essa concepção deve ser acolhido, pois dá possibilidades para estudantes

em ouvir músicas que são selecionadas para criar uma narrativa que pretende refletir sobre o tema em questão. A audição pode ser acompanhada de projeções que trazem algumas informações que ajudam a entender a narrativa proposta.

Grupo estuda criação de novos materiais a partir de sistema de modelagem

Fábio Gaio

de diferentes cursos, comunidade e pessoas de diferentes faixas etárias. A música também é uma ferramenta pouco utilizada no ensino, embora ela tenha a potência de sensibilizar, provocar afeto e estimular reflexões sobre o tema proposto. É uma proposta diferente e bacana”.

de artigos em importantes revistas científicas da área de Engenharias I.

Foram pelo menos três artigos publicados em revistas científicas de destaque internacional, com ênfase para o trabalho do estudante de iniciação científica Wanderson Ferreira dos Santos. No estudo publicado em uma revista científica de circulação mundial, a proposta foi trabalhar com uma ferramenta de análise das microestruturas, a fim de propor equações de resistência para diferentes compostos de matriz metálica. Esses materiais vêm

A estudante do primeiro período de Educação do Campo, Sirlene Dutra, participou da primeira edição do projeto e analisou a iniciativa como proveitosa e ousada. “Foi muito bom para nós, que estamos chegando agora no curso, gostei demais da ideia. É interessante porque nessa edição as músicas foram mostrando os contextos que formaram as cidades. Quero vir nos próximos!”.

Fotos: Divulgação/Regional Goiás

Visite a pagina do projeto no Facebook

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arpetes, almofadas e luzes dão o tom ao ambiente de um projeto de extensão da Regional Goiás da UFG, que utiliza música como ferramenta de reflexão e aprendizado. O projeto Audiçãoa música ensina, estreou em julho e prevê outras cinco edições ainda este ano, uma por mês. Os encontros são temáticos e a dinâmica consiste

de tanta informação visual é difícil parar para ouvir. O projeto nos leva a repensar questões através das letras das músicas e como cada música dialoga com a outra. Após ouvir, cada um pode tirar diferentes conclusões”, explica. O professor destaca, ainda, que cada edição do projeto será realizada em um ambiente diferente da cidade, no intuito de envolver toda a comunidade.

Professor do curso de Engenharia Civil da Regional Catalão e integrante do Núcleo de Pesquisa em Modelagem de Materiais e Estruturas e do Laboratório de Mecânica Computacional, José Júlio de Cerqueira Pituba explica que a sequência do trabalho começa com o estudo teórico, que visa conhecer o material o mais profundamente possível. Posteriormente, é proposto um modelo teórico do comportamento desse material, que logo em seguida, com a implementação computacional, transforma o modelo em algo que o computador possa entender, ou seja, um sistema de equações. Por fim, os resultados são validados em testes, para verificar a aplicação ou não do modelo proposto. O professor cita o exemplo de um metal, como o alumínio, que adicionado ao tungstênio ou ao titânio, pode gerar características como leveza e boa capacidade de deformação, ao mesmo tempo em que o material adquire maior resistência, pelo fato de ter sido adicionado um metal mais resistente.

“O comportamento de um determinado material, que de forma geral só pode ser visto a olho nu, na realidade, tem seu início na microestrutura do material”, conforme explica o professor, que cita o exemplo de uma fissura, que apesar de ser vista externamente no material, na realidade teve seu início na microestrutura, na parte interna. “Caso não houvesse a modelagem e se o

O problema desse tipo de trabalho com compostos de matriz metálica, segundo Júlio, é a chamada fase de descolamento desses materiais, que pode levar ao seu enfraquecimento. A modelagem atua justamente nesse sentido, de saber até que ponto o material será resistente o suficiente para uma determinada aplicação. “Essa modelagem auxilia na obtenção de novos materiais e na sua aplicação. Se pensarmos em um carro, antigamente a lataria era mais rígida e quem sofria o impacto era o motorista. Hoje em dia temos um composto que proporciona leveza ao carro e segurança para quem usa, pois, ao ser amassado quem absorve o impacto é a peça, e não o condutor”, explica o docente.

Os próximos passos a ser trilhados pelos pesquisadores é dar prosseguimento a um outro estudo, que pesquisa o concreto, considerado um dos materiais mais difíceis para modelagem. Recentemente, o Núcleo recebeu um recurso que será utilizado para montar uma associação de computadores voltados ao processamento pesado de análises numéricas complexas que demandam muito tempo para sua solução, o chamado custo computacional.


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Ingrid Costa

Suicídio: conhecer para prevenir Crescimento do número de jovens que tiram a própria vida preocupa especialistas, que alertam para a necessidade de identificar fatores de risco Angélica Queiroz, com informações da TV UFG

Confira programa completo

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ma jovem de 19 anos, de Rio Branco, no Acre, se enforcou ao vivo pelo Instagram. Alguns dias depois seus pais também se mataram, o que gerou comoção na internet. A tragédia, alarmante por si só, não é um fato isolado. O jogo Baleia Azul, que como desafio final, incentiva jovens a cometerem suicídio, assustou pais e autoridades no início do ano. A série da Netflix “Os 13 Porquês” (do inglês, 13 Reasons Why), na qual a protagonista comete suicídio, também ajudou a trazer o assunto suicídio a tona. Um assunto bastante complexo que precisa deixar de ser tratado como tabu.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que, anualmente, um milhão de pessoas morram desta forma, uma a cada 40 segundos, e entre os jovens a situação é ainda mais preocupante: hoje o suicídio já é a segunda causa de morte entre 14 e 24 anos. Mas, também de acordo com a OMS, 9 em cada 10 casos poderiam ser evitados se a pessoa tivesse ajuda e atenção de quem está a sua volta. Mas como e onde buscar ajuda? E como é possível oferecer ajuda?

A sociedade não quer falar disso, mas deveria

A psicóloga Célia Ferreira explica que falar de morte ainda constitui um grande tabu na nossa sociedade e, por isso, falar sobre suicídio é também um tabu, nesse caso ainda maior. “Há um estigma social do suicídio. Em muitas culturas ele é percebido como vergonhoso.

A pessoa que se suicida é vista como fraca, egoísta, ou manipuladora. Essas crenças são tanto da sociedade como um todo, como daqueles que experimentam pensamentos suicidas. Tudo isso contribui para reforçar o sigilo e o silêncio”, explica. O psiquiatra Rodolfo Campos acredita que o suicídio é um tabu porque vai contra a vida rotineira e as crenças, especialmente religiosas, e, por conta disso, faz que, muitas vezes, a própria família não abra espaço para essa discussão.

E abrir espaço para essa discussão, especialmente em casa e na escola, é a principal aposta, de quem estuda o assunto, para conter o crescimento do número de casos de suicídio. Célia Ferreira afirma que a crença de que falar com uma pessoa deprimida sobre suicídio irá provavelmente fazê-la cometer suicídio é um mito. “Ao contrário, sabe-se que muitas pessoas deprimidas que têm planos ou pensamentos suicidas ficam aliviadas quando alguém toma conhecimento de tais planos e é capaz de ajudá-las quanto a isso”, explica. “Quanto mais próximos os pais ou amigos estiverem dos adolescentes, mais condições de identificar esses comportamentos. O grande problema é um jogo como esse da Baleia Azul passar despercebido até chegar ao seu momento final”, observa Rodolfo Campos. Contudo, há importantes aspectos que devem ser considerados na interação com uma pessoa potencialmente suicida, como ser empático e ouvir com atenção, sem julgamento. “Isso implica em possuir habilidade na escuta e saber encaminhar essa pessoa para um profissional médico e psicólogo”, orienta Célia Ferreira. “A pessoa vê o suicídio como solução para o desespero em que se encontra, quando o estado de sofrimento é tão profundo que ela acha que morrer é a solução. Quando ela é compreendida no seu sofrimento, ela resgata o desejo de viver”, completa. Para a psicóloga, o suicídio é uma morte evitável. “Não há como garantir que pessoa em alto risco não chegue a concretizar o ato. Mas uma pessoa que está em acompanhamento, que tem uma família que a aju-

da, tem muitas chances de mudar de ideia. Existem vários fatores de proteção que têm que ser ativados para que se evite uma situação mais grave”, afirma. O psiquiatra Rodolfo Campos acredita que, se os fatores de risco determinantes para aquele indivíduo são conhecidos, é possível intervir e diminuir muito as chances de suicídio. “Temos de individualizar quais são os fatores determinantes para aquela pessoa e quais podemos tentar modificar”.

Quando se preocupar?

Embora depressão e ansiedade sejam transtornos muito comuns nos casos de suicídio, é importante pensarmos numa cadeia circular de fatores: existe algo que é do sujeito, mas também algo que é da interação dele com o ambiente, como fatores sociodemográficos, psicológicos, psiquiátricos e étnicos. “Muitos fatores devem ser avaliados. Se conseguíssemos isolar um fator, seria mais fácil. Por exem-

Por esse motivo, além do tratamento de uma possível doença mental de base que possa levar ao suicídio, é preciso que familiares e amigos estejam atentos a qualquer sinal. “O que temos de fazer é investigar. Pergunte, converse, veja o que está acontecendo, veja se pode ajudar de alguma forma, até mesmo perguntando especificamente sobre suicídio”, orienta Rodolfo Campos. “Além de isolamento e mudanças de comportamento, muitas frases que o sujeito emite quando está com desesperança ou um sofrimento psíquico grande são sinais de alerta. Frases como ‘a vida não serve para nada’ ou ‘eu sou um fardo pras pessoas’”, completa Célia Ferreira.

Setembro Amarelo

Setembro Amarelo é uma campanha de conscientização sobre a prevenção do suicídio, com o objetivo direto de alertar a população a respeito da realidade do suicídio no Brasil e no mundo. Ocorre no mês de setembro, desde 2014, por meio de identificação de locais públicos e particulares com a cor amarela e ampla divulgação de informações.

Há diversos mitos a respeito do comportamento suicida. E eles precisam ser desfeitos para a prevenção. Entenda alguns dos mais comuns: • As pessoas que falam sobre o suicídio querem apenas chamar a atenção. Todas as ameaças de se fazer mal devem ser levadas muito a sério.

Saiba mais

• O suicídio é sempre impulsivo e acontece sem aviso. O suicídio pode ter sido ponderado durante algum tempo. Muitos indivíduos suicidas comunicam algum tipo de mensagem verbal ou comportamental sobre as suas ideações da intenção de se fazerem mal. • Os indivíduos suicidas querem mesmo morrer ou estão decididos a matar-se. A maioria das pessoas que se sentem suicidas partilham os seus pensamentos com pelo menos uma outra pessoa, ou ligam para uma linha telefônica de emergência ou para um médico, o que constitui prova de ambivalência, e não de empenhamento em se matar. • Quando um indivíduo sobrevive a uma tentativa de suicídio, está fora de perigo. Na verdade, um dos períodos mais perigosos é imediatamente depois da crise, ou quando a pessoa está no hospital, na sequência de uma tentativa. Muitas vezes a pessoa continua em risco. • Os indivíduos que tentam ou cometem suicídio têm alguma perturbação mental. Os comportamentos suicidas têm sido associados à depressão, ao abuso de substâncias, à esquizofrenia e outras perturbações mentais, comportamentos destrutivos e agressivos. No entanto, a proporção relativa dessas perturbações varia de lugar para lugar e há casos em que nenhuma perturbação mental foi detectada. • O suicídio só acontece “àqueles outros tipos de pessoas,” não a nós. O suicídio acontece a todos os tipos de pessoas e encontra-se em todos os tipos de sistemas sociais e de famílias. Centro de Valorização da Vida (CVV) O CVV é um programa sem vínculo político ou religioso que valoriza a vida e previne o suicídio. É oferecido gratuitamente e sigilosamente 24h por dia ininterruptamente, inclusive nos sábados, domingos e feriados, pelo telefone 141 e pelo site: <www.cvv.org.br>.

Fonte: Organização Mundial de Saúde

“A melhor forma de entender o suicídio não é estudando o cérebro, e sim, as emoções. As perguntas a fazer são: ‘onde dói?’ e ‘como posso ajudá-lo?’”. A frase é do psicólogo, Edwin Schneidman, que estudou por muitos anos o comportamento suicida e a orientação é consenso entre quem estuda o assunto. Especialistas alertam para a necessidade de que todos estejam atentos para identificar pessoas que estejam com pensamentos de morte, para que ações de prevenção possam impedir a concretização do ato.

Sociedade

plo, tem depressão, trata-se a depressão e o sujeito estaria fora de risco, mas não é assim. O tratamento é extremamente importante, mas existem outros fatores que precisam ser observados para um tratamento conjunto, tanto medicamentoso, como psicoterápico”, explica Célia Ferreira.


Arquivo digital

Mesa-redonda

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Goiânia, 30 anos depois... e o Césio-137? Ascom, TV UFG e Rádio Universitária

Em 2017, o acidente com a cápsula radioativa de Césio-137, considerado o maior acidente radiológico do mundo, completa 30 anos. A contaminação teve início em 13 de setembro de 1987, quando um aparelho utilizado em radioterapias foi encontrado dentro de uma clínica abandonada, no centro de Goiânia. Uma tragédia que impactou a cidade de forma significativa e fez centenas de vítimas. Para discutir as consequências desse acidente na atualidade, convidamos o coordenador do Fórum Permanente sobre o Césio, Julio Nascimento, o diretor do Centro de Assistência aos Radioacidentados (CARA), André Luiz de Souza, e Natercio Ivo da Paixão, vítima do acidente. Como as vítimas têm sido vistas e atendidas?

Natercio Ivo – Durante esses 30 anos, nós, vítimas do Césio-137, temos percebido um esquecimento por parte da comunidade e do governo, onde nos sentimos prejudicados pelo trabalho de tamanha relevância que prestamos, com muita ignorância nossa de termos aceito efetuar aquele trabalho na oportunidade do acidente. Acho de suma importância a imprensa hoje voltar a esse assunto, por conta da data comemorativa, e queremos falar um pouco mais do acontecido em 1987.

André Luiz – O CARA sucedeu a extinta Fundação Leide das Neves e a Superintendência Leide das Neves. Nós temos 28 profissionais de saúde, uma equipe multidisciplinar, com odontólogos, psicólogos, assistentes sociais, mais de sete especialidades médicas, profissionais que o Estado designa para atender exclusivamente a população radioacidentada. Com um público atual de 1.134 pacientes radioacidentados, eu confesso que temos um atendimento excepcional. Quando a gente busca o serviço público, pensamos em filas longas e demora de atendimento, o que não acontece com aqueles que demandam a nossa unidade. Se a gente faz sempre essa comparação, diluindo esses mil pacientes que devem estar lá pelo menos uma vez ao ano, teremos, considerando os dias úteis do ano, cinco pacientes por dia. Então, temos mais profissionais que a própria demanda que os pacientes nos fazem lá no dia a dia. A unidade foi criada para atender a um protocolo americano, aprovado pela associação americana em 1922 e, respaldado na época pela Agência Internacional de Energia Atômica, com sede na Suíça. O que fazemos hoje é justamente seguir esse protocolo e nós vamos manter a unidade, garantindo esse atendimento aos grupos 1 e 2, até a terceira geração. Julio Nascimento – O Fórum é, antes de tudo, um lugar de debate, reflexão social e representa uma posição política em relação a isso. Os relatos que temos das vítimas de todos os grupos contrariam um pouco essa versão de estarem sendo atendidos a contento. Se considerarmos a qualidade de vida dessas pessoas, dos pontos de vista físico e psicológico, é muito fácil perceber que há uma insatisfação. Eu não sei o que é que pode estar havendo de errado, não sei se esse protocolo ao que o André se refere pode não estar adequado, mas o fato é que, concretamente, o relato das vítimas em nossas reuniões e debates contradizem muito uma apreciação positiva sobre esse atendimento.

Natercio Ivo – O representante do CARA falou do atendimento ao grupo 1 e ao grupo 2. Eu estou hoje aqui representando o grupo 3, que me parece, então, que não é nem reconhecido pelo CARA.

André Luiz – Muito pelo contrário. Nós temos o número exato do grupo 3, que se refere aos trabalhadores bombeiros e militares, ao Consórcio Rodoviário Intermunicipal (Crisa) e aos próprios colegas da Secretaria de Estado da Saúde. Esse é o maior grupo que nós temos hoje: 950 pessoas. A eles é concedido o tratamento, e aí talvez as associações tenham de fazer o trabalho político no sentido de buscar equidade. O que não é prestado aos pacientes do grupo 3 talvez seja a disponibilidade de veículo para transporte, mas a própria lei que cria o transporte diz que ele é exclusivo para pacientes em estado mais grave, o que não chega a ser uma afronta, porque temos veículos de passeio que se prestam apenas a atender aquele paciente com demanda de exames e consultas, além do período de recadastramento que ocorre sempre no mês de aniversário. Nos primeiros anos após o acidente havia receio, medo e repulsa com os goianos, mas 30 anos depois, aparentemente, há um esquecimento do que ocorreu e até desinformação por parte da população mais jovem. O que esse esquecimento pode ocasionar?

Julio Nascimento – Não é uma ação meramente do tempo. Há, de fato, uma busca de, propositadamente, zerar essa memória. Vejamos que, muito embora pareça que a população esqueceu, no imaginário ainda há um receio e um medo muito grande quando falamos disso, exatamente porque o pecado original dessa questão toda foi a desinformação que permanece, em parte por desconhecimento, o que foi o caso. Júlio Rozental disse no início “não sabemos e ninguém no mundo sabe os efeitos do Césio”. Então, imagina, toda aquela arruaça que tivemos em função de uma substância cujos efeitos não conhecíamos causou, sim, muito pânico e muito medo real. Mas, além disso, há o medo imaginário que fica porque não foi informado às pessoas sobre o que estava acontecendo.


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Natercio Ivo – Para nós, que vivemos e participamos da retirada dos rejeitos e vivemos na época da recusa que Goiás teve diante de outros estados, é difícil. Ainda hoje me lembro da indiferença que vem ocorrendo ano a ano, apesar de nós termos vivido nos primeiros quinze anos numa estranheza e total abandono. Mas veio o Governo atual e criou a Lei n° 14.226 para nos proteger porque, na realidade, quem retirou todos os rejeitos de todas as áreas foi o pessoal do Crisa e seus equipamentos. Nós vivemos em recusas, vivemos participando de realidades e sendo rejeitados. Isso não pode jamais ser esquecido, principalmente entre os jovens, que não viveram essa época. O acidente não pode cair no esquecimento porque nós vivemos situações constrangedoras de chegar em determinado departamento e sermos deixados, muitas vezes, falando sozinhos, porque a gente andava com aquele macacão. Isso aconteceu comigo.

de 50 funcionários, incluindo 28 profissionais da área da saúde, exclusivamente trabalhando para dar esse atendimento. A questão de definir a unidade como Leide das Neves ou não, está esquecido pelo Julio e talvez, como ele não é paciente nosso, a ele não foi dada essa oportunidade de conhecimento. Existe um centro de pesquisa denominado Centro de Excelência em Ensino, Pesquisa e Projetos, que funciona dentro de umas das principais superintendências da secretaria da saúde, exatamente para desenvolver esses trabalhos. Dizem que não temos pesquisa e estudos que demonstrem esse acompanhamento ao radioacidentado, mas nós temos mais de 40 estudos feitos por profissionais aqui da Universidade Federal de Goiás, da Unicamp, da Fiocruz, todas pesquisas que vocês podem encontrar na internet. A verdade não é aquilo que estão dizendo, a verdade é que a nossa unidade é pública, aberta. As mídias nacional e internacional que estão nos demandando em razão dos 30 anos, estão levando essa verdadeira informação que, como eu disse, talvez até pecamos, por não divulgar essas ações. O nosso slogan nesses 30 anos é: relembrar para prevenir. E isso está sendo feito com competência pelos nossos profissionais.

André Luiz

O nosso slogan nesses 30 anos é: relembrar para prevenir. E isso está sendo feito com competência pelos nossos profissionais.

As áreas que foram contaminadas com o Césio ainda apresentam algum tipo de risco? Hoje ainda haveria a possibilidade de ocorrer um acidente como o que ocorreu em 1987?

Nós vivemos em recusas, vivemos participando de realidades e sendo rejeitados. Isso não pode jamais ser esquecido, principalmente entre os jovens... André Luiz – Temos de agradecer aos 30 anos exatamente por isso. A secretaria tem pecado e talvez a instituição Estado também, no sentido de que a comunicação não tem sido adequada para informar o que ocorre em relação ao acompanhamento de pacientes radioacidentados. Nós temos mais

O Governo Federal concedeu até hoje 265 pensões. Atualmente, temos um público de 751 pensionistas, dos quais 113 radioacidentados recebem, cumulativamente, as duas pensões. Mas ainda há pacientes sem receber? Sim, talvez nós tenhamos 300 radioacidentados que ainda não preenchem os requisitos que a lei exige para ele ser reconhecido como tal. Natercio Ivo – Eu discordo porque entre nós – servidores do Crisa, que compomos o grupo 3, que retirou os rejeitos - há muitos companheiros vindo a óbito praticamente desassistidos. A assistência do CARA para nós do grupo 3 é uma vez ao ano porque nós vamos lá. Não nos fornecem medicamentos e tem uma dentista que não nos atende, faz um orçamento e encaminha para um dentista do Ipasgo. Então nós precisamos realmente de uma assistência mais presente. Por outro lado, nessa questão dos pensionistas, nós recebemos a pensão estipulada pela Lei, o governo nos deu esse direito, mas estamos ainda recebendo o salário de 2014. Está ficando pendente um reajuste e nós não queremos entrar nessa briga com o Estado para reaver esse passado. Eu mesmo não entro na área jurídica, acho que fica na consciência do governo. Queremos que esse episódio constrangedor não caia no esquecimento.

Julio Nascimento – Há contradições de informação desde o início. A coisa não é unilateral. Eu vejo que o Estado cuida com descaso de coisas importantes. O nome Leide não é apenas um nome, é um ícone, é um marco de uma história, que jamais poderia ter sido retirado, denotando sim uma intenção de esquecimento. Eu não falei em momento algum das pesquisas que são feitas no CARA, eu disse que há pesquisadores com os quais nós deveremos contar, mas levando em conta que essa ciência tem de ser humanizada, não pode ser uma ciência burocratizada que fica escondida lá. O grande paradoxo que se apresenta é que tanta pesquisa não está resultando na melhora da qualidade de vida das vítimas, numa sensação de segurança maior em relação a tanta ciência que se faz. A ciência deve realmente chegar a esse ponto de fornecer ao cidadão um bem-estar, uma segurança e a devolução de sua qualidade de vida. Tem de haver uma intersecção entre ciência e sua aplicação humana. O Fórum quer refletir exatamente sobre isso, sobre que tipo de ciência estamos fazendo e pra que é que ela está servindo. A ciência tem de estar a serviço dessas pessoas por inteiro, tratando de seres humanos, a ponto que eles se sintam realmente reintegrados à sociedade e não fiquem sendo discriminados ou se sentindo passageiros de segunda classe. Fotos: Carlos Siqueira

Natercio Ivo

André Luiz – Nenhuma. A gente fala isso com a garantia de laudos que a gente tem. As áreas que foram contaminadas na época foram todas limpas e descontaminadas. É feito um acompanhamento pela regional da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), estabelecida aqui no município de Abadia de Goiás, bem próximo à região metropolitana. Mediante esse acompanhamento, a gente afirma isso com a segurança de laudos técnicos extremamente confiáveis. O que ocorreu nos últimos anos, e aí devemos agradecer, é que as redes pública e particular de ensino têm incluído nos livros didáticos de ensino fundamental e médio, matérias que falam desse acompanhamento e a necessidade de manter essa fiscalização. O que ocorreu depois do acidente com o Césio é que criou-se uma legislação muito segura em relação a isso. O aparelho de radioterapia usado atualmente já não contém mais o Césio. Hoje usamos aparelhos novos que dependem de energia elétrica e, quando desligados da tomada, são aparelhos sem nenhum risco para o manuseio eventual, numa perda, que foi o que ocorreu em 1987. É importante adiantarmos também que o estado de Goiás, a partir de 2002, com a edição da Lei n° 14.226, concedeu praticamente 500 pensões a pacientes radioacidentados, incluindo o grupo 3.

Mesa-redonda

Foram tomadas atitudes e condutas e a população ficou no meio desse fogo cruzado. Até hoje nós padecemos disso. A função do fórum é exatamente essa: queremos retomar essa memória histórica, contada não pelo discurso oficial, mas pela voz das vítimas, de quem realmente se envolve naquilo ali, e na voz de uma ciência. Nós temos muitos estudiosos e muitos documentos e pretendemos juntar isso. É importante que a sociedade junte seus saberes e conhecimentos para retomar essa memória e, evidentemente, passar para as próximas gerações uma história tranquila, limpa, com verdade real sobre o que aconteceu, com responsabilidades que devem ser assumidas pelas pessoas. Mas infelizmente há uma tentativa, sim, de solapar essa memória. Não creio que hoje o termo CARA devesse ser utilizado. Por que é que foi retirado o nome de Leide? Ela é o ícone dessa questão. Então nós vemos muito claramente, e digo como porta-voz de uma entidade que se formou, que há uma tentativa de jogar assunto para debaixo do tapete, e isso é muito perigoso, porque as vítimas acabam sofrendo e o estado cada vez mais vai se retirando de suas responsabilidades, na medida em que o holofote sai desse fato. Então, queremos retomar isso com a intenção de restaurar essa cidadania e reeditar essa história a limpo.

Julio Nascimento

O grande paradoxo que se apresenta é que tanta pesquisa não está resultando na melhora da qualidade de vida das vítimas...

Confira o programa completo no canal da TV UFG no Youtube


Vida em harmonia com a natureza No espaço acadêmico, a permacultura estimula a visão holística do conhecimento

Carolina Melo

N

o corre-corre do cotidiano, o tempo de reflexão sobre as consequências de nossas ações individuais, rotineiras, é cada vez mais suprimido. Produzimos lixo, contaminamos o ar, o solo e a água e na maioria das vezes nem nos damos conta do impacto que geramos. Mas é possível um olhar mais sensível para a própria vida, partilhada com o outro e a natureza, capaz de promover a mudança e gerar ações mais responsáveis em práticas diárias tanto na cidade, como no campo. É o que acredita o princípio da permacultura, que valoriza a ocupação dos espaços e a convivência com o verde, os animais e as pessoas de forma harmônica.

As ações permaculturais têm por finalidade a criação de ambientes humanos sustentáveis e produtivos em equilíbrio com a natureza, por meio de três princípios éticos. São eles: cuidar da terra, cuidar das pessoas e compartilhar excedentes. “Traduzida como a cultura da permanência, a permacultura tem

o quadro ético que pressupõe assumir a responsabilidade pela própria existência”, afirma a professora da Unidade Acadêmica Especial de Estudos Geográficos da Regional Jataí da UFG, Mariana Crepaldi de Paula. Na prática, a permacultura utiliza técnicas não impactantes na construção de casas e espaços de convivência, na gestão da agricultura, e na utilização e aproveitamento da água. Funcionalmente replica algumas iniciativas, tais como os sistemas agroflorestais sucessionais sintrópicos e as hortas de mandala. O primeiro é um método de plantio em que espécies arbóreas são plantadas junto a culturas agrícolas. Por sua vez, a horta, com canteiros dispostos em círculos e um galinheiro ou um reservatório de água no centro, permite o reaproveitamento e a circulação do material orgânico. A bioconstrução é outra aplicação da permacultura. Materiais como o barro, madeira, palha, areia e bambu são utilizados para erguer habitações. Banheiros secos, construções com ferrocimento, de taipa e taipa

Forno construído com barro e materiais locais de pilão, fossas com canteiro biosséptico – a fossa de bananeira –, e sistemas de aproveitamento da água da chuva também estão entre algumas soluções de ocupação do espaço rural e urbano propostas pelo princípio. Basicamente, são ações que utilizam matérias-primas fornecidas pelo próprio ambiente, a partir do princípio do reuso e da reciclagem e captação e armazenamento de energia. “A definição de sistema sustentável é aquela que acumula ou gera mais energia do que aquela que foi necessária para mantê-la e é dentro desta definição que procuramos propor soluções”, explica a professora Mariana Crepaldi. Incluído no espaço acadêmico, o princípio estimula a integração dos conhecimentos, cada vez mais especializados, dentro da universidade. “Essa integração é uma demanda histórica tanto da comunidade

quanto dos alunos, pois o elevado grau de especialização do conhecimento acadêmico leva, de certa forma, a uma perda de conhecimento”, observa Mariana. Além disso, de acordo com a docente, há uma preocupação em se aprofundar no estudo de conceitos que são usados indiscriminadamente pela comunidade acadêmica. “Como a sustentabilidade, que sem uma reflexão crítica pode ser esvaziada ou ter sentidos discordantes”, exemplifica. Na avaliação do acadêmico de Geografia, Matheus Jucá, que atua na área de Agroecologia e energia solar fotovoltaica, a permacultura vem influir na mudança de paradigma do pensamento científico a partir de uma visão holística. “Levanta a reflexão para uma possível revisão metodológica do conhecimento científico, especialmente nas áreas de Arquitetura, Engenharia Civil e Agricultura. Dialoga com autores da abordagem sistêmica e da complexidade, como Edgar Moran e Fritjof Capra”, acredita.

Permacultura na universidade

Na Regional Jataí da Universidade Federal de Goiás o curso de Geografia disponibiliza desde 2011 o Núcleo Livre sobre Permacultura e Sistemas Agroflorestais. Desde então, no mínimo 40 alunos por ano são formados pela disciplina. “O que é uma revolução em conhecimentos sustentáveis nesta microcomunidade”, afirma a professora Mariana. Ela explica que, com a forte presença de agricultores entre os alunos, o ensino da permacultura é associado a sistemas agroflorestais sintrópicos, pois se adapta às necessidades regionais.

Em Goiás, o Ecocentro Instituto de Permacultura e Ecovilas do Cerrado (IPEC) é referência na área Fotos: Ecocentro IPEC

Carlos Siqueira

Sustentabilidade

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Entre as iniciativas da disciplina, já foram construídos na área do Centro Vocacional Tecnológico em Agroecologia (Ciagro), no Câmpus Jatobá da Regional Jataí, um galpão com o telhado e pequena geodésia, uma caixa d´água com ferrocimento e pequenas construções de adobe. Projetos de implantação de sistemas agroflorestais sintrópicos são realizados tanto na área do Ciagro quanto em parceria com agricultores do assentamento Santa Rita, do Retiro Ecológico Barrufada e da Fazenda Tamanduá Bandeira, esses dois últimos de Mineiros, além da Fazenda Olho do Céu em Chapadão do Céu. Em Jataí, foram implantadas duas fossas de bananeiras. “Na cidade, uma quantidade assombrosa de casas não é ligada ao sistema de esgoto da Saneago. A adoção do canteiro biossépti-


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Iniciativas em Goiânia

Dentro do Centro de Agroecologia da Escola de Agronomia (EA) da UFG, no Câmpus Samambaia, em Goiânia, docentes e acadêmicos trabalham com técnicas de permacultura em agriculturas de base ecológica. “O objetivo é gerar autonomia do agricultor e dar condições aos alunos para que possam orientar agricultores a buscar essa autonomia”, afirma a professora Gislene Auxiliadora Ferreira. Nas dependências da EA é possível encontrar algumas pequenas bioconstruções, como um forno, uma fornalha e o início da construção de um palco,

além da produção de uma horta. “Os acadêmicos são estimulados a construir e pensar o seu próprio espaço, utilizando os recursos disponíveis e se responsabilizando pelas suas próprias escolhas”, diz.

No curso de Geografia, o interesse pela temática ocorreu durante uma oficina no Encontro Nacional de Estudantes de Geografia em 2013. Na ocasião foi implantada uma horta sucessional próximo ao prédio do Instituto de Estudos Sócio-Ambientais (Iesa). A partir de então, o grupo de estudos sobre Permacultura foi instituído pelo Núcleo de Pesquisas e Estudos em Educação Ambiental e Transdisciplinaridade (Nupeat), com participação de estudantes da Geografia, Engenharia Florestal, Biologia e Ciências Sociais, entre outros. O grupo fez a articulação de uma rede de trabalho que atua em escolas, bairros, propriedades e na própria universidade. Já concretizaram hortas escolares, horta de pneus na Casa do Estudante (CEU), viveiros sazonais durante o período de chuvas para produção e distribuição de mudas nativas e frutíferas, produção em pequena escala de alimentos orgânicos e plantio de árvores nativas e frutíferas em praças e na universidade. “Trabalhamos também com o desenvolvimento de tecnologias sociais, como forno e desidratador solares, uso de microrganismos eficientes na agricultura, captação de água da chuva e bioconstrução”, completa o acadêmico Matheus Jucá.

Forno e desidratador solar são tecnologias sociais aplicadas pela Permacultura Fotos: Arquivo pessoal

As sementes de transformação estimuladas pela disciplina são perceptíveis. Segundo a docente, na região há dois produtores de agrofloresta sintrópica, que construíram suas casas com bioconstrução, além de se organizarem com outros parceiros para trabalhar em mutirões e multiplicar o conhecimento. Alunos da disciplina também começaram a compostar o seu lixo e pelo menos dois deles construíram fossas de bananeiras para suas casas. “Um ex-aluno, proprietário de uma firma de construção na cidade, começou a utilizar o canteiro biosséptico em todas as casas que constrói”, conta a professora.

Sustentabilidade

co como sistema de tratamento não permite nenhum vazamento de água contaminada para o lençol freático, não gera excedente ou resíduo, não requer manutenção, tem potencial paisagístico e ainda produz banana”, afirma Mariana Crepaldi.

Ações coletivas concretizam bioconstruções e hortas em espaços de convivência

Saiba Mais - A Permacultura foi criada nos anos 1970 pelos australianos Bill Mollison e David Holmgren, no sentido de se criar uma Agricultura Permanente. Eles se basearam no modo de vida integrado à natureza das comunidades aborígines, da Austrália. Desde então, o termo evoluiu e hoje abriga uma grande multidisciplinaridade. - O agricultor suíço Ernst Götsch é o criador do conjunto de princípios e técnicas que compõem a Agricultura Sintrópica. Ele desenvolveu uma agricultura que concilia produção agrícola e recuperação de áreas degradadas, baseada em processos que mimetizam a regeneração natural e os processos sintrópicos da vida no planeta. Reside desde 1982 no Brasil, onde fez rebrotar 14 nascentes em uma terra degradada na Bahia.

Os 12 princípios de design da Permacultura, elaborados por David Holmgren, são:

Ingrid Costa

1. observe e interaja; 2. capte e armazene energia; 3. obtenha rendimento; 4. pratique auto-regulação e aceite retornos; 5. utilize e valorize recursos e serviços renováveis; 6. evite o desperdício; 7. projete dos padrões aos detalhes; 8. integre ao invés de segregar; 9. utilize soluções pequenas e lentas; 10. utilize e valorize a diversidade; 11. utilize bordas e valorize elementos marginais; 12. utilize e responda criativamente às mudanças.


Comportamento

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Olha a pamonha! Estudos da UFG analisam relações estabelecidas no processo de produção e consumo de um dos pratos preferidos do goiano. Ocupação do “pamonheiro” é destaque Patrícia da Veiga

Costuma dizer (e escrever) o escritor e folclorista Bariani Ortêncio que no Brasil não há pamonha tão bem feita quanto a goiana. Ele se refere ao senso comum que paira por estas terras. Condizente ou não com a realidade, o que esse pensamento guarda é um querer profundo pelo quitute, feito com milho verde ralado e cozido na própria palha. O apreço atravessa gerações, campos e cidades, passa pelo comércio local e volta e meia está no prato, na panela, nas rodas de conversa, nos fins de tarde. “De sal, de doce, à moda e com queijo”, a pamonha é uma comida e também uma possibilidade de vinculação. Isso tem despertado o interesse de jovens pesquisadores da Universidade Federal de Goiás (UFG), como Tayme Pereira da Silva, egressa da Faculdade de Ciências Sociais (FCS), que durante o mestrado no Programa de Pós-Graduação em Sociologia (PPGS) se dedicou a estudar a ocupação do “pamonheiro”, trabalhador envolvido no processo de produção e comercialização da pamonha. Em 2015 e 2016, ela percorreu estabelecimentos comerciais, acompanhou ambulantes, entrevistou 16 pessoas e traçou uma rede que vai do negócio familiar à informalidade. Seus objetivos foram conhecer as condições de trabalho dessas pessoas e compreender que relações são construídas a partir do ambiente laboral. Além disso, considerando que o trabalho pode ser um definidor importante da identidade dos sujeitos, a pesquisadora buscou apreender de que modo o “pamonheiro” enxerga a si próprio e se reconhece na função que exerce.

No que diz respeito à constituição de uma identidade de “pamonheiro”, Tayme constatou que é mais comum os trabalhadores fixos a assumirem. Entre os ambulantes, a ocupação é associada a algo transitório ou apenas como mais um “bico”, uma fonte de renda. Há ainda outros fatores destacados pela pesquisadora: “quando instigados a pensar sobre a primeira imagem que teriam de seu trabalho, os vendedores remeteram logo à matériaprima principal, o milho. Nesse movimento de reflexão, eles não deixaram de elucidar também os processos de produção, o sucesso nas vendas e a qualidade do produto comercializado”.

Conforme os registros de Tayme em sua dissertação, um de seus entrevistados considerou ter o “pamonheiro” o traço de uma pessoa agradável e comprometida, muito em razão das dinâmicas de sua atuação. “Vendedor de pamonha é uma pessoa amiga de todo mundo, como se diz é uma pessoa que trata todo mundo bem, é um bom vendedor, tem que ter jogo de cintura, oferecer o produto de qualidade”, disse a ela José (nome fictício), de 51 anos. Para a pesquisadora, uma surpresa negativa nessa investigação foi reconhecer papéis bem definidos no que concerne à participação das mulheres. “Elas estão nos bastidores, atuando nas cozinhas, na limpeza e em outros tipos de serviços apontados como subalternos”, acrescentou. Tayme entrevistou apenas uma senhora que atua como vendedora e, ao sondar com as demais, ouviu que mulheres são frágeis e mais cuidadosas, por isso assumem tais funções.

Por que o “pamonheiro”? Um dos motivos que fez Tayme Silva escolher o tema foi o fato de a pamonha ser uma comida tradicional e, ao mesmo tempo, muito consumida pelos goianos – que a transformaram em opção de lanche e comida rápida. “Com o passar do tempo, a pamonha deixou de ser uma iguaria simbólica das tradicionais reuniões familiares no campo e começou a ser produzida e comercializada em pamonharias, restaurantes e, sobretudo, entre os vendedores de rua [...]. Os processos de urbanização, as mudanças de estilo de vida dos goianos e as transformações socioeconômicas foram fatores preponderantes para impulsionar o aumento significativo do consumo de alimentos fora de casa e, com isto, o desenvolvimento de serviços de alimentação tornou a pamonha uma das alternativas”, escreveu a pesquisadora em sua dissertação. A procura pela pamonha acontece, segundo ela, porque em Goiás há uma “política cultural” construída em torno do alimento. Ou seja, uma espécie de esforço simbólico – empreendido, sobretudo, pela mídia local – de valorizar a comida como parte da identidade do povo goiano e, portanto, um patrimônio imaterial.

Tayme também percebeu que, no campo da Sociologia do Trabalho, poucos são os estudos dedicados às representações sociais dos trabalhadores que compõem o comércio de alimentos. “É importante valorizá-los, reconhecê-los e expor suas condições”, afirmou Tayme que, na graduação, investigou a atuação do vendedor de churrasquinho. “São ocupações pouco prestigiadas pela sociedade, porém, carregadas de identidades”, complementou o professor da FCS Jordão Horta Nunes, quem a orientou nas duas etapas de formação.

A “cultura da pamonha” em imagens e relatos

Caroline Almeida e Alex Maia, graduados em Comunicação Social/ Jornalismo pela UFG, apresentaram em 2016 um trabalho de conclusão de curso (TCC) no formato de livroreportagem fotográfico cujo foco foi, justamente, a pamonha – ou o que os dois chamam de “cultura da pamonha”. A princípio, os autores estavam interessados em compreender como a alimentação poderia ser motivo de encontro e construção de laços. À medida que foram investigando o tema, lendo e observando o próprio cotidiano, constataram que o gosto pelo que é feito de milho diz de um hábito

da cidade. “Não se faz pamonha sozinho. É preciso que as pessoas se reúnam. Essa foi uma característica que nos chamou a atenção. Também nos perguntávamos: como um prato de comida representa tanto na vida das pessoas?”, comentou a jornalista.

Foi então que a dupla, orientada pela professora Rosana Borges, atravessou Goiânia em busca de narrativas que estivessem entranhadas no processo de produção e consumo do prato típico. Uma delas é a trajetória de dona Maria e seu Jorcelim (foto), que há 19 anos trabalham juntos, em casa, produzindo pamonha e curau para vender na rua. Segundo contam Caroline e Alex, o casal já chegou a vender até 500 unidades por dia, percorrendo um total de dez quilômetros pelos bairros da Região Sul da capital. Atualmente, menos acelerados, eles garantem a produção de aproximadamente 150 pamonhas diárias, e seu Jorcelim não abre mão de oferecê-las ao público montado em uma bicicleta. “Nossas pamonhas mataram a fome de muita gente, porque nós não trabalhamos só pelo dinheiro, não. Não teve um dia, nesses 19 anos, que eu não desse pelo menos uma pamonha. Quem precisou, eu dei”, relatou o pamonheiro para os jornalistas, no livro. Além dessa história, Caroline e Alex produzem texto e imagens que contemplam o consumo da pamonha na feira livre, na pamonharia e na pamonhada de final de semana (entre parentes, amigos e/ou vizinhos). “Quisemos demonstrar que é algo dinâmico, resiste na metrópole, é passado de geração em geração e ainda pode ser vivido de várias formas”, explicou a jornalista. O livroreportagem, cujo título é o mesmo reproduzido no início deste texto (“Olha a pamonha!”, o bordão dos vendedores) e cujas fotos ilustram esta matéria, ainda não está disponível para o público e aguarda possibilidades de publicação.

Fotos: Caroline Almeida e Alex Maia

Tayme reconheceu uma maioria masculina, com média de idade oscilando entre 20 e 50 anos, baixa escolaridade e, na maior parte das vezes, oriunda do interior de Goiás. Ela dividiu seus entrevistados em dois grandes grupos: os que trabalham nas ruas e os que atuam em locais fixos. Os primeiros são vendedores autônomos, cumprem exaustivas jornadas e não possuem garantias no que diz respeito à seguridade social. Já os segundos são proprietários de pamonharias, pa-

rentes dos “donos” ou empregados registrados com carteira assinada – todos cumprindo oito ou mais horas por dia. Boa parte dos “pamonheiros”, informais ou formais, também colabora na produção da pamonha e trazem em suas trajetórias de vida alguma identificação com esse fazer: ou foram ensinados por familiares ou tinham esse costume em tempos passados.


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Freepik

Pesquisa

Medicando sob medida Farmacogenética pode auxiliar no tratamento personalizado indicando o fármaco e a dose adequados de acordo com o perfil de cada paciente

Angélica Queiroz, com informações da TV UFG

Confira programa completo

U

m medicamento indicado para uma pessoa nem sempre é eficaz para outra que sofra da mesma doença. Uma droga que tem efeito positivo em um paciente é capaz de desencadear efeitos indesejáveis em outro. Outras vezes, uma pequena dose poucas vezes por dia resulta em boa resposta, enquanto para outra pessoa uma dose muito maior é necessária para se obter algum efeito. Já se perguntaram por que isso acontece? Entre os diversos fatores que podem explicar essas variações está o genético. Um ramo da ciência se dedica a estudar as variações associadas ao fator genético auxiliar na escolha do tratamento com características mais apropriadas ao perfil de cada indivíduo: é a farmacogenética, que é uma das áres em pesquisas para desenvolvimento de medicamentos e tem sido estudada por diversos pesquisadores da Universidade Federal de Goiás (UFG).

Não somos iguais

O mestre em Ciências Farmacêuticas, Lucas Pereira, explica de uma maneira simples sobre essas variações genéticas: cada pessoa responde de um jeito à cada fármaco porque não somos iguais. “Cada pessoa tem uma impressão digital que é só sua. O DNA é assim também”. Um conjunto de fatores pode provocar

uma resposta individual diferente a um determinado medicamento, como sexo, idade e massa corporal do paciente, além de doenças concomitantes, interação com outros fármacos e também as variações genéticas, conforme explica o professor do Departamento de Farmacologia do Instituto de Ciências Biológicas da UFG, Paulo César Ghedini. “As variações genéticas existem nos genes que codificam determinadas proteínas que são alvos dos fármacos”, afirma. Os pacientes que possuem essas variações não respondem aos tratamentos conforme o padrão estipulado pela indústria farmacêutica. E medicamentos inadequados podem gerar efeitos colaterais ou tornar o tratamento menos eficaz. Segundo os pesquisadores da área, a farmacogenética pode reduzir os custos e o tempo de internação, melhorando a resposta dos tratamentos. “A farmacogenética pode diminuir o desperdício de medicamentos fazendo que a pessoa receba o medicamento certo para aquele grupo de pacientes com características genéticas parecidas desde o início”, completa Lucas Pereira.

Isso já está sendo feito no Brasil?

Elisângela Lacerda, doutora em Genética e Bioquímica e professora do Departamento de Genética da UFG,

explica que a farmacogenética tem sido bem promissora em algumas áreas da Medicina como oncologia, cardiologia e hematologia. Segundo ela, há testes genéticos específicos para verificar se o paciente vai responder bem ao medicamento antes de começar o tratamento. “Temos o sequenciamento do DNA, por exemplo, que é de alto custo. Mas há testes mais simples com a técnica de amplificação do DNA que podem ser usados em algumas áreas, como neurologia ou quimioterapia”, detalha.

No entanto, a farmacogenética ainda não é aplicada na maioria dos hospitais brasileiros, especialmente por conta do alto custo da maior parte dos exames. “Existe a pesquisa, mas ainda falta uma transição para o dia a dia do profissional. Nos hospitais brasileiros só temos tratamentos em nível particular e na rede pública só temos em nível de pesquisa”, lamenta Elisângela Lacerda. Para a pesquisadora, o que falta é mais informação sobre o assunto, especialmente na formação dos profissionais de saúde. “Ainda estamos falando de uma área nova, que só foi introduzida nas graduações aqui no Brasil a partir de 2005. Então, o principal ponto é a formação de especialistas, de médicos geneticistas que possam solicitar esse tipo de diagnóstico. Nosso grupo de pesquisa aqui na UFG pretende contribuir com trabalhos para alavancar a farmacogenética”.

CONSULTA PÚBLICA

14/07 a 13/10

Conheça a proposta da Política de Comunicação da UFG e colabore com críticas e/ou sugestões. Participe!


Tem rock na academia, baby!

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Pesquisadores da Emac/UFG desenvolveram estudos em torno de um dos estilos musicais mais universais e fascinantes das últimas décadas Adriana Silva

O

rock é uma paixão mundial! E claro, não poderia ser diferente na terra do pequi. Todos os anos, Goiânia é palco de festivais como o Grito Rock, Go Rock, Tattoo Rock Fest, Goiânia Rock Fest, entre outros eventos. O estilo também é encontrado em casas de shows e bares com uma pegada mais alternativa como Vai Tomar no Kuka Bar, Don Guina, Woodstock, República, Trip e por aí vai. Para explicar a influência do estilo musical entre os goianos e os processos identitários do rock alternativo produzido na cidade, um estudo da Escola de Música e Artes Cênicas (Emac) da UFG foi realizado pelo músico Pedro Bernardi e orientado pela professora Magda Clímaco. O autor coletou dados de 2012 a 2016, das bandas goianas Black Drawing Chalks, Hellbenders e Overfuzz, reconhecidas pelo caráter alternativo e pela presença nos principais festivais do gênero. A pesquisa revelou que o som dessas bandas é essencialmente inspirado na produção internacional, principalmente dos Estados Unidos e da Inglaterra. Nas músicas analisadas, ao contrário do encadeamento de acordes recorrentes na produção do rock nacional, a exemplo de Legião Urbana, Titãs e Nação Zumbi, são encontradas composições à base de ostinatos, popularmente conhecidos como riffs, termo referente à repetição insistente de um elemento musical rítmico ou melódico. Na análise também foram notados tonalidades menores e som mais “sujo” e “agressivo”, evidenciado especialmente nas guitarras, nas baterias e no vocal, este com gritos e “expressões pouco afáveis”.

Sensações auditivas e conexões cerebrais

Em outro estudo, feito pelo aluno Rodrigo Invernizzi e orientado pelo professor Wolney Unes, também da Emac, foram analisadas as sensações auditivas e as conexões cerebrais causadas em quem ouve rock. Segundo a pesquisa, a intensidade do volume é uma das principais causas do efeito prazeroso que a música proporciona aos ouvintes. Partindo de uma análise psicoacústica, Rodrigo ressalta em sua pesquisa que “o rock and roll está constantemente relacionado ao volume próximo ao limiar da dor. Essa parece ser uma característica principal desse gênero musical. Dificilmente se ouvirá de um roqueiro algo como ‘abaixe o som’ ou até mesmo ‘não suporto som alto’. A marca do roqueiro continua sendo ouvir música no volume máximo”, afirma Rodrigo Invernizzi no estudo.

Ao escutar uma música, o ser humano é envolvido por sensações e experiências físicas e psicológicas, que alteram os sentidos táteis, emocionais e visuais. Na pesquisa, Rodrigo Invernizzi explica que, se ouvida em alto volume, essas sensações tendem a se intensificar e envolver todo o corpo. As ondas sonoras em níveis altos de intensidade liberam no organismo humano hormônios do prazer, como a endorfina e a dopamina, em decorrência do esforço muscular prolongado provocado pelo reflexo acústico. “Outros fatores que contribuem para essa sensação de prazer são a sociabilização, a dança, ou mesmo o prazer intelectual resultado da antecipação de ouvir uma música conhecida”, completa.

Universo do desconhecido

Goiano, apaixonado pela cidade natal e pela música de qualidade, André Adonis, 29 anos, é cantor, instrumentista e compositor de rock, atuando na banda Sunroad, além do projeto “Mal necessário”, do qual é mentor, um tributo à banda Secos e Molhados e ao Ney Matogrosso. Formado em Filosofia pela Fafil/ UFG, desde 2015, Adonis também trabalha como professor de Humanidades na iniciativa privada. Sua história no rock começa ainda na infância. Um dos bilhetes de entrada para o “universo do desconhecido”, como ele mesmo define, foi uma fita cassete do Raul Seixas que

ganhou do pai aos sete anos de idade: “Ver o cara falando do diabo era surpreendente”.

Das idas aos cultos com a família, na Igreja Pentecostal, quando criança, ele conta que observava atentamente o baterista ao tocar as músicas no momento do louvor, “foi assim que aprendi a tocar meu primeiro instrumento, era a única coisa que eu realmente gostava na igreja”, relembra o músico. Assim, o rapaz foi crescendo e se interessando pelo hard rock, heavy metal e música erudita, como Deep Purple, Johann Sebastian Bach, Ritchie Blackmore e Jon Lord. No início dos anos 2000, sem Youtube e Spotify, Adonis buscava nos sebos do centro de Goiânia suas principais inspirações e referências musicais: “Naquela época o vinil não valia nada, então comprei

André Adonis à frente da Sunroad

inúmeras coisas boas a um bom preço”. Aos 14 anos ganhou um violão e logo passou também a tocar guitarra elétrica, aos 18 anos participou de bandas como o Quadro Negro e Sevent, mas na época ele não tinha grandes perspectivas no mercado da música. “Desisti da vida musical por um longo tempo, não queria me profissionalizar, pois era difícil encontrar bons músicos e o único trabalho que consegui foi em uma banda de forró, era a única forma de ganhar uns vinténs na época”.

Hoje, André Adonis é o novo vocalista da Sunroad, considerada atualmente a melhor banda de hard rock do Centro-Oeste brasileiro. Fundada em 1996 pelos primos e músicos Danillo Vee e Fred Mika, o grupo lançou recentemente o álbum Wing Seven, nos EUA pela Roxx Record e no Brasil pela Musik Records. Adonis participou de todo o processo de produção do trabalho que vem sendo elogiado, tanto pela crítica nacional quanto pela internacional. Para o músico, o rock pode ser definido como um “estado identitário de existência, um elo de fomento às paixões e doenças da alma e palco dos sonhos e anseios que consideramos falidos, mas que ainda acreditamos e pelo qual você expressa sua vontade de viver”. E é por essa paixão que esse estilo musical ainda fascina, influencia e move tanta gente ao redor do mundo.

Rodrigo Gianesi

Esses dados revelam uma das características principais do rock alternativo que é o seu distanciamento do modus operandi da indústria cultural. Segundo o autor, “muitos goianos costumam privilegiar esse tipo de produção, por não se identificarem com as representações ligadas ao campo. A música sertaneja, por sua vez, carrega justamente essas representações, e o rock, ao se colocar como gênero ligado ao urbano e ao moderno a antagoniza”. Assim, a opção das bandas de cantar letras em inglês, não produzir baladas ou melodias “açucaradas” nem composições que remetam a valores rurais é uma forma de se oporem à produção de música de massa. Outra característica do rock alternativo é que “ele não paga suas contas”, assim, grande parte dos músicos possuem carreiras paralelas, o próprio Pedro Bernardi, além

de atuar como guitarrista nas bandas Dry, Sixxen e Mazombo, trabalha como professor de inglês e alemão nas horas livres.

Edu Lawless

Comportamento

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Black Drawing Chalks e Hellbenders no Bananada 2017


13 Extensão

Humanizando o Instituto de Informática Programa computAÇÃO HUMANA busca aumentar qualidade de vida em sua comunidade, promovendo o bem-estar físico, social e emocional

Angélica Queiroz

M Saiba mais

O Programa, que teve início no primeiro semestre de 2017, pretende trabalhar dentro de três eixos: físico, mental e social. No primeiro deles, uma parceria com a Faculdade de Educação Física e Dança da UFG (FEFD) deve viabilizar, já para o próximo semestre, atividades como ginástica laboral e incentivar a boa

“Queremos mudar a cultura porque a rotina acaba nos deixando muito mecânicos, técnicos, e acabamos deixando a parte humana de lado”, explica a professora Elisângela Dias, uma das fundadoras e atual coordenadora do Programa. Segundo ela, apesar de novo, o Programa já está conseguindo envolver os alunos que se voluntariam para fazer parte dos projetos. “Além das horas e dos certificados, muitos estudantes já entenderam que as empresas valorizam aluno que faz algo diferente do que é obrigatório no currículo e querem participar”, afirma, lembrando ainda do ganho pessoal que os estudantes relatam, sobre se sentirem úteis ao realizar os trabalhos voluntários.

Fale Aí Voltado para a saúde mental, o Fale Aí, é uma ponte para o diálogo, e coloca em pauta assuntos relacionados com problemas emocionais e psicológicos, cada vez mais comuns na vida cotidiana. Em reuniões quinzenais oferecidas para alunos, professores e servidores, um tema é proposto, incentivando a

troca de ideias e fornecendo uma possibilidade de interlocução e de escuta entre os membros da comunidade do INF. Desde abril são realizados encontros que, segundo a coordenação do projeto, já estão dando resultados e diminuindo o abismo entre estudantes, docentes e técnicos no Instituto. Fotos: Programa ComputAÇÃO HUMANA

uita gente ainda associa os estudantes da área de informática com aquela figura americanizada de um cara nerd, magricela e de óculos que passa o dia todo no computador e interage pouco socialmente. Para desmistificar essa imagem e deixar o Instituto de Informática da UFG (INF) mais humano, a unidade criou o Programa computAÇÃO HUMANA. Com projetos de extensão voltados para os alunos de graduação e pós-graduação, técnico-administrativos, terceirizados e professores, a intenção é levar para o INF a cultura do voluntariado e a preocupação com a saúde, além de promover o debate.

alimentação e a prática de esportes. No eixo mental, o Programa quer ser um espaço para conversa sobre temas como questões de gênero, raça, depressão e ansiedade, que afetam o desempenho e a permanência na universidade, especialmente dos alunos. No eixo social, alguns projetos já em andamento integram as comunidades externa e interna.

Playground da Programação Apresentar noções básicas de programação para crianças de 6 a 14 anos. Esse é o objetivo do Playground da Programação, que utiliza estratégias lúdicas para ensinar aos alunos de um colégio municipal no setor Jardim Nova Esperança como solu-

Ada’s Acabar com a ideia de que computação é para homem é a intenção do projeto Ada’s, cujo nome faz referência a Ada Lovelace, considerada a primeira programadora da história. Por meio de palestras e eventos, como o Espaço das Profissões, e outras atividades, o gru-

cionar problemas, alcançar objetivos e trabalhar em equipe, e para transmitir-lhes noções de interatividade e linguagem tecnológica. O projeto piloto foi executado no mês de junho e deve continuar na mesma escola no segundo semestre.

po divulga a história de mulheres que se destacaram na área da tecnologia e mostra que elas também podem fazer computação, despertando o interesse de mais mulheres para as áreas e valorizando as que foram fundamentais para o desenvolvimento da computação.

Educação Digital

Mundo na Ponta dos Dedos Garantir acesso à informática para crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social e formar mão de obra capacitada a entrar no mercado de trabalho. Esses são os principais objetivos do Mundo na Ponta dos Dedos, que oferta cursos de informática

básica e profissionalizante a crianças do Centro de Educação Comunitária de Meninas e Meninos (Cecom). As duas primeiras turmas, com aulas ministradas por alunos voluntários do INF, começaram em maio, mas o plano é ofertar vagas semestralmente.

Idealizado pela servidora técnica em assuntos educacionais, Raimunda Delfino, o Educação Digital: Políticas, Leitura, Produção Textual, Identidade e Letramento Digital com trabalhadoras/ es terceirizadas/os da UFG quer melhorar a capacidade de ler e escrever do trabalhadores terceirizados da UFG, especialmente mulheres que trabalham na limpeza e na segurança. Uma equipe interdisciplinar com alunos dos cursos de Pedagogia, Letras, Ciência da Computação e Sistemas de Informação vai ministrar aulas de computação bá-

sica, a partir da leitura e discussão de textos de diversos gêneros discursivos. As aulas estão inseridas na jornada de trabalho, promovendo a inclusão social e a integração desses sujeitos com a Universidade, por meio do letramento digital. O projeto também visa problematizar as identidades desses trabalhadores, sobretudo no que tange aos aspectos étnicos, sociais e de gênero dos sujeitos participantes. A primeira turma, com 30 vagas, começou em agosto e oferece cinco vagas para a comunidade externa.


Mineração pode aumentar impacto em áreas de proteção

Ilustração: Gabrielle Carneiro

Pesquisa

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Se aprovados três projetos de lei, 23 áreas podem ser perdidas em sua totalidade para atividades de extração Carolina Melo

O

s danos ambientais gerados pela mineração implicam a supressão de vegetações, exposição do solo aos processos erosivos e alterações na quantidade e qualidade dos recursos hídricos. No Brasil, os impactos causados pela atividade podem ser ainda maiores em um futuro próximo. De acordo com uma pesquisa da Universidade Federal de Goiás (UFG), em apenas oito anos pode ocorrer a perda de cinco milhões de hectares de áreas protegidas, caso três projetos de lei, com potencial de retirar as restrições sobre a execução de mineração no País, sejam aprovados no Congresso. Os projetos permitem ou fornecem brechas para a atividade mineradora em unidades de conservação de uso sustentável (PL 37/2011), em unidades de conservação de proteção integral (PL 3.682/2012) e em terras indígenas (PL 1.610/1996). Se aprovados, liberariam a mineração em 100% das áreas de uso sustentável e das terras indígenas e em 10% das unidades de conservação integral.

O estudo avaliou todas as propostas de mineração registradas no então Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM) e observou que algumas fariam que áreas protegidas fossem totalmente cobertas por atividades de extração, caso a legislação permitir. Ao todo, são 2.400 propostas de mineração planejadas em áreas onde a atividade é proibida atualmente. Além de 11.200 projetos em Áreas de Proteção Ambiental (APA), onde a mineração é permitida, e em Áreas de Relevante Interesse Ecológico (Arie). No caso das Arie, a falta de consenso sobre a possibilidade de mineração pode facilitar sua exploração. “Para se ter ideia, se os projetos direcionados apenas às APA e Arie forem desenvolvidos, como é o esperado, considerando a pressão das empresas nesse sentido, a extensão ocupada por mineração pode aumentar em 30 vezes”, afirma o pesquisador Paulo De Marco Júnior, professor do Departamento de Ecologia da Universidade Federal de Goiás.

Em áreas onde a mineração não é permitida hoje, são 46 projetos direcionados às unidades de conservação de uso sustentável, capazes de promover um impacto de 3,7 milhões de hectares. Por sua vez, os 1.851 projetos direcionados às áreas de proteção integral impactariam 700 mil hectares. E, de outra forma, 114 milhões de hectares de terras indígenas ficariam à disposição dos interesses de mineradoras. “A aprovação do PL

1.610/1996, por exemplo, significaria a vitória das empresas mineradoras sobre os interesses indígenas, após uma batalha legal de 20 anos”, alerta Caroline Nóbrega, uma das pesquisadoras do projeto. Atualmente, 541 projetos têm sido direcionados a essas terras, cujo desenvolvimento custaria a perda de 600 mil hectares. A pesquisa ainda mostra que existem diferentes graus de interesse das empresas mineradoras nas áreas protegidas. Enquanto as empresas não mostraram interesse em investir em algumas, outras poderiam ficar cobertas na sua totalidade por atividades mineradoras. “Encontramos 23 áreas protegidas no Brasil que serão perdidas na sua totalidade em um futuro próximo se esses projetos de lei forem aprovados e os projetos de mineração planejados forem desenvolvidos”, afirma a pesquisadora Sara Villén.

Instabilidade política

“A existência de propostas para minerar em áreas para as quais a atual legislação não permite é uma evidência de que as empresas apostam na instabilidade jurídica e na possibilidade de mudanças ao médio prazo”, avaliam os pesquisadores. Segundo o estudo, a primeira versão do PL 37/2011 continha a permissão para a mineração em seu artigo 36. Atualmente o projeto, que foi retirado de avaliação pelos congressistas, não contém mais essa permissão. O PL 3.682/2012 também foi arquivado. Por enquanto, somente o PL 1.610/1996 está em tramitação no Congresso. “Mas em razão da instabilidade política

do país, os projetos podem ser recuperados a qualquer momento”, alertam os pesquisadores. Mais do que recuperados, as alterações na legislação ambiental podem ocorrer via instrumento menos democrático, como, por exemplo, por meio de Medidas Provisórias (MP). O instrumento foi utilizado recentemente para alterar as regras de mineração no País. A revisão do Código Mineral Brasileiro, datado de 1967, foi proposta pelo Projeto de Lei 6.360/2013, que recebeu críticas negativas de todos os lados. “Empresários, ambientalistas, consultores em mineração, geólogos. Todos tinham críticas extensas e fundamentadas ao projeto de lei”, lembra a professora do Instituto de Estudos Socioambientais (Iesa), Luciana Tibiriçá. Em 2017, as diversas revisões e mudanças de relator deixaram o projeto sem condições de ser votado. “Em junho, percebendo o impasse, o presidente Temer alterou a estratégia. Retirou da discussão o PL e seus apensados e avisou que as alterações consideradas necessárias ocorreriam por Medida Provisória. Assim, aprovou o que não conseguiu com o projeto de lei”, observa a docente do Iesa. No dia 25 de julho, as três medidas provisórias foram publicadas alterando a mineração no País. A MP 789/2017 alterou as alíquotas de recolhimento da Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais (CFEM), com o objetivo de aumentar o recolhimento dos royalties minerais. A MP

790/2017 fez alterações referentes ao regime de concessão e licenciamento mineral. E a MP 791/2017 extinguiu o Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM) e criou a Agência Nacional de Mineração (ANM) com a intenção de desburocratizar os procedimentos, a gestão de informações e a fiscalização mineral. “A insegurança saiu da Educação, foi para o sistema previdenciário e chegou à mineração. É uma insegurança institucional. Mudaram uma lei gerada por um processo democrático por meio de medidas provisórias. Isso gera insegurança. Podem também querer flexibilizar as exigências de licenciamento ambiental”, avalia a professora Luciana Tibiriçá.

Segundo o estudo realizado pelo Laboratório de Teoria, Metacomunidades e Ecologia de Paisagens do Departamento de Ecologia da UFG, as mudanças na legislação brasileira afetam a posição brasileira nos acordos internacionais já assinados pelo Brasil, que se comprometeu a preservar 17% do seu território e reduzir o risco de extinção de espécies ameaçadas até 2020. “A perda de área em unidades de conservação diretamente impede que essas metas sejam alcançadas”, acreditam os pesquisadores. O estudo, realizado em cooperação com o Instituto de Pesquisas Ambientais (Ipam) e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), foi aceito na revista internacional Environmental Conservation, da Cambridge University Press.


15 Opinião

ARTIGO

Flávia Martins dos Santos é professora da Faculdade de Informação e Comunicação, mestre em Comunicação pela UFG e doutoranda em Psicologia pela PUC-GO. Autora do livro Do segundo corpo: investimentos na imaterialidade.

Ana Fortunato

Escolhas são possíveis em ambientes onde prevalecem as liberdades *Luciana de Oliveira Dias

R

ealizar um estudo aprofundado demanda, de quem o realiza, liberdade de pensamento, o que implica em horizontalidade epistêmica entre todos os pensamentos (inclusive os referentes ao sujeito que pesquisa) que ocupam o cenário de produção de conhecimento. A liberdade de pensamento é necessária para que a imaginação intelectual seja aguçada, as escolhas sejam feitas e, assim, horizontes epistêmicos plurais sejam vislumbrados com mais nitidez e proximidade.

O contemporâneo e necessário trânsito entre disciplinas, compreendidas aqui como áreas de conhecimento, tem favorecido uma espécie de reordenamento dessas mesmas áreas e tem colaborado para que seja questionada a fragmentação dos conhecimentos que fora consolidada a partir da Ciência Moderna e do racionalismo de René Descartes, no século XVII. Altos níveis de disciplinarização e especialização afirmaram também um conhecimento localizado, ocidental e eurocêntrico no sedutor formato de conhecimento universal. O conhecimento científico consolida-se de forma a manter traços colonizadores em sua estrutura avessa à liberdade. Os contornos adquiridos nesses espaços de produção do conhecimento, embora aspirantes ao universalismo e à neutralidade, são sustentados sobre práticas etnocêntricas, racistas, machistas e intolerantes às diferenças. Poderosos ideais colonizadores, tais quais os que violentaram, e violentam, povos e continentes, suprimiram liberdades também nos espaços de produção do conhecimento, instituindo padrões hegemônicos.

Sueli Carneiro, em A construção do outro como nãoser, como fundamento do ser (2005), estuda uma estrutura na qual os confins do “não-ser” são o espaço reservado para o excluído, o não cidadão, o escravizado, o estigmatizado. Todavia, o enunciado do “não-ser” pode provocar fissuras no eu hegemônico em razão do seu potencial desestabilizador. Estruturas colonizadoras, ainda vigorantes na sociedade e na universidade brasileiras, devem ser problematizadas, já que elas são responsáveis por perversos processos de hierarquização de sujeitos que são deslegitimados e aprisionados em um “não-ser” diante do padrão hegemônico colonizador.

Desenvolvi uma pesquisa sobre os avatares do metaverso Second Life, buscando analisar as implicações e influências da identidade e subjetividade das pessoas na construção de corpos virtuais. Parti da premissa de que apesar de o corpo ser cada vez mais valorizado e cultuado, especialmente dentro dos padrões estéticos, ele é negado e condenado por sua tendência natural ao envelhecimento, à doença e à morte. A virtualidade, por sua vez, consegue, conforme mostrou a pesquisa, potencializar as características desejáveis do corpo e extirpar os aspectos negativos em uma vida virtual, vivida no Second Life com bastante intensidade por seus usuários. A pesquisa de cunho etnográfico-virtual demonstrou que o avatar não é uma mera representação virtual idealizada do corpo. Ele é uma espécie de marcador de presença, o qual se encontra perpassado por fatores como o sentimento, a identidade, a subjetividade e o prazer. O avatar não é um substituto do corpo material, mas um novo lócus de experimentação, no qual suas manipulações e experiências levam a implicações no próprio corpo físico e subjetivo do indivíduo. Enfim, é um segundo corpo.”

É urgente a desconstrução da herança colonizadora das universidades que tem perpetuado estruturas hierarquizantes de áreas, sujeitos, espaços e temas. Uma cruel hierarquização que se reproduz até mesmo naquelas instâncias mais aparentemente singelas e sutis. A liberdade é um dos princípios universais que devem ser efetivados nos espaços de produção de conhecimento, em que as temáticas inovadoras, ainda que recusadas inicialmente, têm o potencial de forçar os limites disciplinares do conhecimento e as fronteiras impostas à capacidade humana de acessar saberes.

Arquivo Pessoal

O alargamento dos conhecimentos, pelo encontro de saberes plurais advindos de locus diversificados e diferenciados, é um desejo das universidades brasileiras. Atividades acadêmico-científicas vislumbram provocar ampliações e aprofundamentos nos campos de conhecimento nos quais estão alocadas. É uma tendência a abertura de canais de interação entre campos e áreas diferenciadas, em busca da geração de dimensões interdisciplinares e até transdisciplinares.

“V

ivenciar um momento histórico, social e cultural em que a corporeidade é uma temática que está em plena evidência, assim como as novas tecnologias de comunicação têm ganhado ampla adesão por um número crescente de pessoas. Isso fez despertar em mim o interesse por estudar as correlações entre essas duas temáticas.

Sobretudo com a adoção de cotas raciais, étnicas e sociais nas universidades brasileiras a partir do ano de 2003, emerge uma exigência de reconhecimento da dimensão de sujeito daquilo que se convencionou como objeto. Esses “novos sujeitos” que aspiram à liberdade demandam por uma descolonização da universidade, dos conhecimentos, dos temas e das mentes, como sugere bell hooks (1995). Somente depois da descolonização de saberes e da efetivação de liberdades será possível fazer escolhas, inclusive temáticas. *Antropóloga, pós-doutora em Direitos Humanos e Interculturalidades. Professora da Faculdade de Letras da UFG. Coordenadora do Coletivo Rosa Parks. Coordenadora de Pesquisa do Núcleo de Direitos Humanos. O Jornal UFG não endossa as opiniões dos artigos, de inteira responsabilidade de seus autores.

Quer falar sobre sua pesquisa ou projeto de extensão? Escreva um texto em primeira pessoa e envie para jornalufg@gmail.com

Confira a publicação


Marlini De lima

Cultura

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Dona Flor é uma das interlocutoras da pesquisa em dança

Os resultados da imersão na vida das mulheres do Cerrado fez que Marlini passasse a defender uma “poética da alteridade e da diversidade”, ou seja, um momento de criação artística feito em comunhão, partilhando sensações e considerando os saberes e fazeres tradicionais. “Encarei como uma vivência que atravessou o lado artístico e o lado pessoal. Isso é alteridade, é saber que o que aprendi pode estar na minha vida e me fazer bem”, complementou Marlini.

Entre raízes, corpos e fé FICHA TÉCNICA Direção de pesquisa: Marlini De Lima Direção de cena: Renata Lima Intérpretes: Cláudia Barreto, Flávia Honorato, Lorena Fonte, Marlini de Lima e Renata Lima

Produção Geral: Lorena Fonte Direção Musical: Diego Amaral Orientação Vocal: Vinicius Bolivar Figurino: Renata Caetano Fotografia: Caio de Souza Sesma Administração do projeto: Lidiane Caroline Realização: Núcleo Coletivo 22

Entre raízes, corpos e fé é uma realização do Núcleo Coletivo 22, companhia que trabalha a dança, a música e o teatro em diálogo com a cultura popular. Em setembro, a performance será apresentada em Goiânia, no âmbito do evento Corpo, Cultura e Cidade: Coletivo 22 em Circulação. Na oportunidade, o público também poderá conferir o espetáculo Por cima do mar eu vim, que estreou no Centro Cultural UFG em 2015.

Divulgação

Poética que floresce no Cerrado

etc. A professora também se deixou levar pelos modos de andar, parar, mover as mãos, falar, lidar com as plantas, rezar, parir e conduzir o parto de suas interlocutoras. Com isso, percebeu que havia uma mudança de postura entre elas, sobretudo, no momento em que eram chamadas a agir. “Elas vivem entre o cotidiano e o ritual”, acrescentou. Essa noção passou a dar sentido ao trabalho artístico que foi apresentado nas localidades pesquisadas ainda quando passava por elaboração. “As contrações que fiz foram tão intensas que as mulheres que são parteiras ou já pariram se reconheceram”, relatou. Não se trata, contudo, de representar ações, tampouco de uma composição em dança com “passos” determinados. Conforme explicou Marlini, é algo que vai além: “o ator produz uma energia para sentir o movimento e a performance sai desse lugar do espetáculo”.

Na convivência com raizeiras, parteiras e benzedeiras de Goiás e Tocantins, trabalho da UFG investiga composição em dança e elabora performance baseada em saberes e fazeres tradicionais Patrícia da Veiga

“T

odos os meninos aqui me chamam de mãe, peguei quase tudo, até os meus fui eu sozinha, só Deus e eu e mais ninguém. Eu fazia os chás de cravo com folha de laranja, raiz de gervão, fazia o copo e deixava feito [...] bebia de noite, aí eu bebia, bebia [...] aí ia aumentando, aumentando quando dava a dor mesmo aumentada, eu Pá (som) [...] fechava a porta e ficava lá dentro sozinha. Deus e eu até o menino nascer. Eu nem gritava, não, eu tinha a criança às vezes custava despachar a placenta, aí eu chamava alguém, eu mesma cortava o imbigo. Quando eu sentava para ganhar os meninos já botava a tesoura, o novelo de linha tudo encostado [...] (ela dá um sorriso), é minha fia, só foi mais derradeiro, os primeiros tinha quem oiava pra mim também”. O depoimento acima é de Dona Ramira, 79 anos, mãe de 13 filhos, viúva, habitante do povoado de São Domingos, localizado no município de Cavalcante (GO). Em sua fala, ela comenta sobre o manejo com ervas no momento do partejar, ofício que a fez “pegar” não somente seus próprios filhos, mas incontáveis crianças de sua comunidade. Em julho de 2013, ela recebeu em sua casa um grupo de andarilhos do qual fazia parte a professora Marlini Dorneles de Lima, da Faculdade de Educação Física e Dança (FEFD). Na ocasião, Marlini iniciava sua pesquisa de doutorado no Instituto de Artes da Universidade de Brasília (UnB) e caminhava na Chapada dos Veadeiros com o objetivo de observar, reconhecer e viver as

corporeidades do Cerrado, forjadas na cultura e no ambiente, no modo de ser das pessoas, na diversidade do bioma. Nesse encontro, Dona Ramira falou sobre sua vida, suas experiências, suas práticas. Marlini voltou no outro dia, conversou mais um pouco, estabeleceu convivência e teve ali a possibilidade de tecer uma investigação que, em 2016, se transformou na tese intitulada Entre raízes, corpos e fé: trajetórias de um processo de criação em busca de uma poética da alteridade.

Em suas andanças, Marlini também acompanhou o cotidiano de Dona Flor, moradora do povoado de Moinhos, em Alto Paraíso de Goiás (GO); Dona Sinésia, da localidade Kalunga de Ribeirão dos Bois, em Cavalcante (GO); e de Mydjideru, Uanaru e Dorewaru, indígenas Karajá da Aldeia Santa Isabel do Morro, na Ilha do Bananal (TO). Com elas, a professora trocou vivências e confidências, ouviu histórias de parto, fez tratamento com raízes, aprendeu sobre ervas e artesanato, se embrenhou no Cerrado. Dessa oportunidade, foram extraídos elementos para a composição de uma performance que se desdobrou, para além da tese, em um ensaio-ritual e na videodança Elas Florescem. “O corpo precisa de motivo para dançar e eu parti de um campo vivido, me entregando à experiência, para poetizar a existência dessas mulheres”, afirmou Marlini.

Os elementos encontrados na pesquisa foram transformados em matrizes estéticas: a posição do parto, o cheiro da flor, o preparo do chá, a sussa (dança Kalunga), a fogueira

Corpo, Cultura e Cidade: Coletivo 22 em Circulação POR CIMA DO MAR EU VIM 25/8/2017, às 7h30 Local: Centro de Ensino e Pesquisa Aplicada à Educação (Cepae), Câmpus Samambaia. 31/8/2017, às 7h30 Local: Colégio Estadual Colemar Natal e Silva, Rua 18-A, n° 106, Setor Aeroporto. 06/9/2017, às 19h30 Local: Colégio Estadual Francisco Maria Dantas, Alameda Córrego Fundo, s/n, Mansões Paraíso. ENTRE RAÍZES, CORPOS E FÉ 18/9/2017, às 21h30 Local: Gramado em frente à Escola de Música e Artes Cênicas (Emac/UFG), Câmpus Samambaia. 05/10/2017, às 19h30 Local: Praça da Quadra de Esportes da Vila Itatiaia, Rua R-14, em frente ao Identidade Bar. 07/10/2017, às 19h30 Local: Bosque Passarinho, Rua 118, n° 179, Setor Sul.

Jornal UFG 90  

Publicação da Assessoria de Comunicação Universidade Federal de Goiás ANO XI – Nº 90 – Setembro 2017