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JORNAL ANO XI – Nº 91 OUTUBRO 2017

A Matemática está em tudo

Ingrid Costa

Tema do 14º Conpeex, a área do conhecimento é o assunto principal desta edição. Confira o editorial, a entrevista, o artigo e a coluna “Eu faço a UFG”. p. 2, 3 e 15

Em mesa-redonda especialistas debatem o uso da maconha para fins medicinais p. 6 e 7

Conheça as plantas alimentícias não convencionais, alternativas para uma alimentação saudável p. 8 e 9

Você conhece o método de Constelações Familiares? Reportagem explica como funciona o tratamento p. 14


Universidade

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JORNAL

EDITORIAL

Muito além dos números Claci Fátima Weirich Rosso Perceber a Matemática de forma leve, bela e atraente não faz parte da forma como vemos, pensamos e vivemos esta ciência em nosso cotidiano, principalmente pelo desconhecimento da presença da matemática em praticamente tudo que realizamos. A matemática é uma ferramenta transversal que possibilita avanços, porém se faz necessário melhorar o ensino da disciplina em todos os níveis, com destaque para o ensino básico. Nesse sentido, o Jornal UFG destaca o assunto nesta edição, com a entrevista do professor da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Krerley Oliveira, conferencista de abertura do 14º Congresso de Pesquisa, Ensino e Extensão (Conpeex), que terá como temática central “A matemática está em tudo”, em consonância com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações e Comunicações (MCTIC). A entrevista destaca a escolha deste tema pelo MCTI, considerando os dois grandes eventos internacionais que acontecerão no Brasil em 2017 e 2018: a Olimpíada Internacional de Matemática e o Congresso Internacional de Matemáticos, que formam o Biênio da Matemática. O professor Krerley Oliveira também traz uma reflexão sobre a preocupação com o ensino da Matemática quando diz: “A face mais importante e difícil de atacar é a que envolve a melhoria da Ma-

temática oferecida em nosso ensino básico. Não há fórmulas mágicas, nem planos e programas mirabolantes que resolvam esse problema em poucos anos”.

Teremos oportunidade para aprofundar as discussões e debates sobre a Matemática no Conpeex, que ocorrerá nos dias 16, 17 e 18 de outubro na Regional Goiânia e nos dia 23, 24 e 25 de outubro nas Regionais Catalão e Jataí. Este é o quarto ano em que a Pró-Reitoria de Extensão e Cultura (Proec) coordena o Conpeex, considerado o principal evento acadêmico da UFG, pois promove o intercâmbio e a divulgação da produção científica e cultural, contribuindo para a discussão de temáticas que subsidiem novos projetos e avanços tecnológicos. O Conpeex recebeu em média 5 mil inscrições por edição e cerca de 1,8 mil trabalhos acadêmicos-científicos inscritos em cada uma delas. Essa produção científica-cultural é apresentada e avaliada durante o evento e publicada em anais específicos para este fim. O fato de ser realizado de forma descentralizada nas regionais da UFG, amplia a oportunidade de participação da comunidade acadêmica e comunidade externa nos demais municípios. Pró-Reitora Adjunta de Extensão e Cultura e Coordenadora Geral do Conpeex 2017

COMUNIDADE PERGUNTA

Pergunta enviada via Fale Conosco

Como publicar livros no Cegraf? Qualquer membro da comunidade universitária da UFG pode encaminhar ao Centro Editorial e Gráfico da UFG (Cegraf ) as suas solicitações de publicação de produtos de pesquisa, de trabalhos de conclusão de projetos de extensão e/ ou cultura, de trabalhos de divulgação científica ou de produtos de criação literária. Há três formas de publicação diferenciadas.

Saiba mais no site do CEGRAF

Para publicações que recebem o selo Editora UFG, que segue as diretrizes da Capes para o Qualis livros, existe um Conselho Editorial que avalia os trabalhos apresentados conforme normas específicas. Essa avaliação é criteriosa e leva em média cinco meses. Nesse caso, o custo da publicação é da UFG e os termos de publicação são definidos por ela. Há também a possibilidade de publicação com o selo Editora da Imprensa Universitária, que tem seus critérios de seleção e Conselho Editorial próprios.

Destina-se a obras de autores ou organizadores que não podem aguardar o período que demora o processo de avaliação das suas obras se submetidas à Editora UFG e que não precisam que os seus trabalhos respondam estritamente aos critérios da Capes. Nesse caso o Conselho Editorial responde em cerca de um mês sobre a publicação. Quanto ao custo, os livros publicados pela Editora da Imprensa Universitária são financiados, ou seja, os recursos não saem do Cegraf. O solicitante irá indicar a fonte dos recursos (Programas de pós-graduação, CNPq, entidades de apoio etc.). Há ainda a possibilidade de publicação pela Gráfica UFG; nesse caso não há avaliação prévia do material e, portanto, a publicação não tem o respaldo de um Conselho Editorial do Cegraf. O financiamento é indicado pelo autor (agência de fomento, unidade, órgãos, programas de pós-graduação etc.). Antonio Corbacho Quintela, diretor do Cegraf

Publicação da Assessoria de Comunicação Universidade Federal de Goiás ANO XI – Nº 91– OUTUBRO DE 2017 Reitor: Orlando Afonso Valle do Amaral; Vice-Reitor: Manoel Rodrigues Chaves; Pró-Reitora de Graduação: Gisele Gusmão; Pró-Reitor de Pós-Graduação: Jesiel Freitas Carvalho; Pró-Reitora de Pesquisa e Inovação: Maria Clorinda Soares Fioravanti; Pró-Reitora de Extensão e Cultura: Giselle Ferreira Ottoni Cândido; Pró-Reitor de Administração e Finanças: Carlito Lariucci; Pró-Reitor de Desenvolvimento Institucional e Recursos Humanos: Geci José Pereira da Silva; Pró-Reitor de Assuntos da Comunidade Universitária: Elson Ferreira de Morais. – Jornal UFG – Coordenador de Jornalismo: Luiz Felipe Fernandes; Editora: Kharen Stecca; Editora-Assistente: Angélica Queiroz; Conselho editorial: Angelita Pereira de Lima, Cleomar Rocha, Estael de Lima Gonçalves (Jataí), Luís Maurício Bini, Pablo Fabião Lisboa, Reinaldo Gonçalves Nogueira, Silvana Coleta Santos Pereira, Thiago Jabur (Catalão) e Weberson Dias (Cidade de Goiás); Suplente: Mariana Pires de Campos Telles; Projeto gráfico : Reuben Lago; Editoração: Frede Aldama; Fotografia: Carlos Siqueira; Reportagem: Angélica Queiroz, Carolina Melo e Patrícia da Veiga; Bolsistas: Adriana Silva e Ana Fortunato (Fotografia), Luciana Gomides e Vinicius Paiva (Jornalismo); Impressão: Centro Editorial e Gráfico (Cegraf ) da UFG; Revisão: Bruna Mundim, Fabiene Azevedo e Maria Lucia Kons; Tiragem: 6.000 exemplares ASCOM Reitoria da UFG – Câmpus Samambaia Caixa Postal: 131 – CEP 74001-970 – Goiânia – GO Tel.: (62) 3521-1310 /3521-1311 www.ufg.br – www.ascom.ufg.br jornalismo.ascom@ufg.br

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Matemática: uma ciência estratégica para o bem-estar Angélica Queiroz

O

tema do 14º Congresso de Pesquisa, Ensino e Extensão da UFG (Conpeex) e da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia é “A matemática está em tudo”. A escolha baseia-se no fato de que dois dos maiores eventos com esse tema acontecerão no Brasil nos próximos anos: a Olimpíada Internacional de Matemática e o Congresso Internacional de Matemáticos. Juntos, eles formam o Biênio da Matemática 2017-2018. Às vésperas de vir à UFG proferir a palestra de abertura do Conpeex, o professor da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Krerley Oliveira, conversou com o Jornal UFG. Qual a importância da escolha desse tema?

Cada vez mais, a matemática e suas aplicações estão presentes em nossa vida cotidiana. Infelizmente, com frequência não percebemos que estamos utilizando a matemática e deixamos de aproveitar sua beleza. Seja quando queremos ouvir nossa música preferida no MP3 do carro ou quando estamos perdidos e recorremos ao GPS de nosso celular, há uma bela porção de matemática sendo aplicada. Em viagens de avião, criação de porcos, combate ao crime, reconhecimento de faces, redes sociais, tratamento de câncer, gestão de trânsito, combate à sonegação fiscal, até mesmo no namoro quando você usa aplicativos como Tinder, o uso do conhecimento matemático traz vantagens importantes. Boa parte da eficiência da sociedade moderna depende da gestão de recursos e processos complexos e a matemática é a ferramenta certa para isso. Mas não basta difundir e usar a matemática nos meios acadêmicos, industriais e tecnológicos, é necessário apresentá-la à população, para que todas as gerações possam apreciar e cultivar o desenvolvimento dessa ciência, que é estratégica para o bem-estar social. Ao desenvolver esse tema temos uma grande oportunidade de apresentar à sociedade partes da matemática, bem como a sua importância e beleza. O que significa para o Brasil sediar o Congresso Internacional de Matemáticos?

O Congresso Internacional de Matemáticos é o mais importante evento da matemática mundial. Ele acontece desde 1897, tendo grande influência no desenvolvimento da matemática nos séculos 20 e 21. Pela primeira vez na história, esse even-

to ocorrerá em um país do Hemisfério Sul. Para o Brasil, isso significa o reconhecimento de um sólido trabalho desenvolvido há mais de 70 anos por gerações de grandes matemáticos brasileiros, liderados pelo Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada, (IMPA) e da qualidade do nível da pesquisa na área da matemática desenvolvida em nossas fronteiras. Nesse congresso são distribuídos os principais prêmios da área, inclusive o mais prestigioso deles, chamado de “Medalha Fields”. Qual o papel das Olimpíadas de Matemática para a população e para a escola?

As minhas participações nas olimpíadas me trouxeram oportunidades para conhecer e desenvolver o gosto por uma matemática interessante, em que a criatividade é bastante valorizada. Além disso, tive o privilégio de interagir com os melhores alunos de minha geração, que compartilhavam o mesmo gosto e prazer em estudar matemática. Creio que isso me influenciou a devolver um pouco os ensinamentos que recebi quando era estudante aos alunos de meu estado. É um privilégio poder ensinar aos jovens alunos que participam dos nossos treinamentos, uma vez que tenho a oportunidade de renovar a fascinação, o prazer, e contemplar a beleza que conheci um dia quando comecei a estudar a matemática. Para a população em geral, as olimpíadas têm um importante papel no estímulo ao estudo. É uma oportunidade de desafiar os alunos que querem ir além e oferecer algo mais, que muitas escolas não oferecem, mesmo não ganhando prêmios ou honraria. Isso ajuda a aumentar a autoestima e o interesse desses alunos e os prepara para outros desafios em matemática ou em qualquer outra área, criando um clima muito positivo de crescimento mútuo baseado no esforço diligente. Há muito preconceito com relação à matemática no Brasil. O que é preciso para mudar esse quadro?

Quando tratamos da matemática, há várias faces do mesmo prisma. Penso rapidamente em três delas: pesquisa, aplicações no setor produtivo e ensino básico. Na pesquisa, evoluímos sensivelmente nos últimos 30 anos. Há um número crescente de ótimos pesquisadores formados no Brasil, atuando no país e no exterior. Recentemente, o professor Marcelo Viana, do IMPA, recebeu o maior prêmio científico da França,

o Gran Prix Scientifique Louis D., outorgado pela Academia Francesa de Ciências. Isso exemplifica o nível da matemática nacional, que hoje se equipara a países como a Austrália, Suécia, Suíça, Holanda e Coreia do Sul, segundo a classificação da União Internacional de Matemáticos. Contudo, há um corte de recursos sem precedentes para a pesquisa científica no país, que coloca em risco todo o trabalho e resultados que gerações se comprometeram a construir. Não podemos deixar que isso aconteça. No setor produtivo, há uma grande oportunidade sendo perdida. Enquanto países desenvolvidos utilizam massivamente conhecimentos matemáticos para garantir a eficiência dos processos e produtos, no Brasil não há ainda uma cultura empresarial e informação quanto aos retornos financeiro e social massivos que a aplicação da matemática proporciona. Cito dois estudos recentes para ilustrar esse fato, ambos desenvolvidos pela empresa de consultoria Delloite. Neles, foi constatado que mais de 10% do PIB do Reino Unido e da França são produzidos por setores que utilizam a matemática de modo intensivo. Mesmo no setor público, não há uso de matemáticos para resolver ou mitigar problemas importantes do nosso cotidiano. Isso precisa mudar urgentemente. A face mais importante e difícil de atacar é a que envolve a melhoria da matemática oferecida em nosso ensino básico. Não há fórmulas mágicas que resolvam o problema em poucos anos. É necessário um pacto social e um plano de estado de longo prazo. Dito isso, creio que estamos avançando, especialmente nos últimos 10 anos. Contudo, precisamos ir mais rapidamente, pois estamos muito atrás dos países desenvolvidos, os quais são nossos concorrentes no palco mundial. Creio que o principal ponto que precisa ser abordado é valorizar, preparar e oferecer condições aos professores. É utópico pedir para um professor malremunerado, que mesmo trabalhando 50 horas em sala de aula por semana, não consegue manter dignamente sua família, que ofereça aulas bem-preparadas e com o mais moderno conhecimento. Mas nem tudo se resume ao baixo salário. As condições em sala de aula, a falta de educação familiar e do comprometimento dos pais, a gestão precária das escolas, entre outros, desestimulam até mesmo os professores mais idealistas. Como surgiu seu interesse pela matemática?

Creio que o ambiente em que fui criado permitiu que meu interesse pelo questionamento e argumentação aflorasse. Meus pais sempre tiveram um diálogo franco e aberto conosco e, para convencê-los de qualquer coisa, era necessário usar a lógica e a argumentação. Na escola sempre fui um bom aluno, talvez não ideal, pois nunca gostei de fazer dever de casa! Mas adorava as aulas e aprender era sempre um prazer para mim. A minha decisão de ser um matemático profissional foi tomada já no começo do treinamento para olimpíadas. Naquele momento, não pensava nas questões práticas, como salário. Foi uma alegria para mim descobrir que poderia ter uma boa remuneração como matemático profissional e o fato de que a carreira é uma das mais cobiçadas no mundo.

As condições em sala de aula, a falta de educação familiar e do comprometimento dos pais, a gestão precária das escolas, entre outros, desestimulam até mesmo os professores mais idealistas

Entrevista Krerley Oliveira

Rita Moura

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Pesquisa

4 normalmente são designados para cuidar desses equipamentos. Desse modo, poucas ações de incentivo à leitura e uso da biblioteca são desenvolvidas”.

encontros com escritores, contação de histórias, teatros, debates, saraus literários e rodas de leitura, por exemplo”.

Fotos: Carlos Siqueira

Legislação exige biblioteca Biblioteca precisa ser espa- nas instituições escolares ço de sociabilidade

Rede pública estadual de ensino têm bibliotecas, mas falta estrutura Diagnóstico realizado pelo curso de Biblioteconomia da UFG apresenta necessidades das bibliotecas de escolas estaduais Angélica Queiroz e Frederico Ramos Oliveira

A

biblioteca ideal deve contar com espaço físico em que seja possível abrigar o acervo, e organizar ambientes para estudo em grupo, estudo individual, laboratório de informática, serviço de busca por informação e orientação às normas da ABNT. Necessita ser gerenciada por profissionais bibliotecários e contar com outros auxiliares possibilitando a prestação de todos os serviços. Mas essa não é a realidade da maior parte das escolas da rede pública de Goiás, conforme aponta pesquisa do curso de Biblioteconomia da Faculdade de Informação e Comunicação da UFG (FIC). Segundo o estudo, a maior parte das escolas da rede pública estadual tem bibliotecas, mas enfrenta a ausência de pessoal qualificado, falta de equipamentos e insumos, assim como estrutura física inadequada. Coordenada pela professora do curso de Biblioteconomia, Andréa Pereira dos Santos, a pesquisa encaminhou, entre maio e dezembro de 2016, um questionário aos diretores das 1.150 escolas da rede pública estadual de ensino. As 982 instituições que responderam foram tabuladas e analisadas com base na adaptação dos Parâmetros para bibliotecas escolares, documento produzido pelo Grupo de Pesquisa em Biblioteca Escolar da UFMG (Gebe–UFMG). Entre as escolas que responderam, 78% têm biblioteca. Apenas 22% destas, no entanto, têm espaço físico entre 50 e 100 m², tamanho mínimo necessário para acomodar uma classe inteira ao mesmo tempo.

Além disso, a maior parte dos diretores salientou que o espaço físico é insuficiente e não comporta as atividades de pesquisa escolar, além de não haver controle do acervo dessas bibliotecas. “Na falta de sistemas de catalogação e tombamento, o empréstimo é manual. A maioria das escolas não sabe quantos itens possui em suas bibliotecas. Também faltam computadores e acesso à internet para os usuários”, detalha Andréa. A falta de pessoal qualificado é outro problema. “Embora o Conselho Estadual de Educação exija a presença do bibliotecário na biblioteca escolar, a realidade da rede estadual de ensino é diferente. Professores com problemas de saúde

Pesquisas anteriores, realizadas pelo curso de Biblioteconomia, demonstram que muitos docentes não compreendem o papel da biblioteca escolar na formação do estudante. Os alunos, por sua vez, não têm suas necessidades informativas atendidas. “Neste sentido, é necessário ampliar a discussão do papel da biblioteca escolar nas licenciaturas”, lembra Andréa dos Santos. Atenta a isso, a reforma curricular do curso de Biblioteconomia da UFG, realizada em 2016, prioriza a formação do bibliotecário para atuação no âmbito educacional, social e cultural. “Com essa formação, o profissional se integra à equipe pedagógica a fim de planejar as atividades da biblioteca em função do projeto pedagógico da escola, implantando programas de letramento informacional na escola que contribuirão para que as pesquisas realizadas pelo corpo discente possam ir além do copia e cola da internet, preparando o estudante para o uso competente e ético da informação”.

Segundo a professora, tais competências estão ligadas à capacidade de reconhecer as necessidades de informação, saber quais fontes são confiáveis, realizar leitura crítica, transformar esses dados em novos conhecimentos e, por fim, estruturar formalmente seu trabalho. “Acima de tudo, a biblioteca precisa ser um espaço de sociabilidade. Assim, esse estudante chegará mais preparado para a universidade”. explica Andréa, lembrando que o papel da biblioteca não se limita a formar leitores, precisa formar pesquisadores. “Logicamente, para ser um bom pesquisador, a competência leitora é primordial. A biblioteca, então, deve promover ações culturais cíclicas, e não pontuais, como

Publicada em 2010, a Lei n° 12.244 estabelece que toda instituição de ensino brasileira deve contar com bibliotecas. O acervo deve ser composto por livros, materiais videográficos e documentos em outros suportes, que possam ser utilizados na pesquisa escolar. As bibliotecas devem ter, pelo menos, um título para cada estudante matriculado. A lei ainda aponta que os sistemas de ensino brasileiros devem cumprir suas determinações até 2020. Em Goiás, resolução do Conselho Estadual de Educação exige que as novas escolas tenham espaço destinado para a biblioteca escolar e, também, bibliotecário para a gestão do espaço. Apesar disso, o cargo de bibliotecário ainda não existe no Executivo estadual e poucas escolas contam com o profissional. O diagnóstico feito pela pesquisa da UFG foi apresentado à Superintendência de Educação da Secretaria de Estado de Educação, Cultura e Esporte (Seduce). Os professores da UFG sugeriram a criação da Rede Estadual de Bibliotecas Escolares, com quinze diferentes modelos de biblioteca, definidos com base no tipo de usuário e de escola, o que exige mudanças nos acervos, na estrutura física, nos serviços oferecidos, de pessoal e nos horários de funcionamento. “A necessidade de adequação do espaço físico, ampliação e informatização dos acervos, assim como a criação do cargo de bibliotecário na rede estadual de ensino foram temas discutidos e a Seduce informou que está trabalhando para atender às demandas, na medida do possível”, detalha Andréa dos Santos. Segundo ela, o órgão também se comprometeu a apoiar a realização do fórum de bibliotecários no Pensar 2018.

Para a professora Andréa Santos, a biblioteca do Cepae tem um excelente potencial para ser uma biblioteca modelo.


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Dia C da Ciência será uma mobilização nacional para sensibilizar a população sobre a importância da pesquisa, da tecnologia e da inovação desenvolvida nas universidades, centros e institutos de ensino, ciência e tecnologia Luiz Felipe Fernandes

A

s universidades e os institutos tecnológicos são responsáveis por 90% da pesquisa produzida no Brasil. No entanto, esse importante papel desempenhado pelas instituições de ensino superior está ameaçado pelo atual cenário de cortes no investimento público, o que inviabiliza o fomento da ciência, da tecnologia e da inovação. Além disso, o modelo de ensino público de qualidade e acessível a todos encontra-se fortemente ameaçado. Reverter esse cenário exige não só a mobilização dos pesquisadores, mas também o envolvimento de toda a sociedade. A população precisa conhecer o que tem sido produzido dentro das universidades e dos centros e institutos de ensino, ciência e tecnologia e compreender a importância da pesquisa científica na vida de cada cidadão. Para isso, será realizado, no próximo dia 25 de outubro, o Dia C da Ciência, uma mobilização nacional que envolve as instituições de ensino superior do país.

As instituições de cada estado estão elaborando uma intensa programação. O objetivo é realizar um dia de atividades em escolas, museus, espaços públicos e ambientes institucionais próprios e externos, para mostrar à comunidade a importância das pesquisas desenvolvidas por essas instituições e como elas estão presentes no cotidiano. As atividades serão desenvolvidas pela comunidade universitária. A ideia é que o

Dia C da Ciência passe a ser realizado todos os anos.

Iniciativa

A Pró-Reitora de Pesquisa e Inovação da Universidade Federal de Goiás (UFG), Maria Clorinda Soares Fioravanti, explica que a ideia de um movimento nacional de mobilização foi apresentada pelo Colégio de Pró-Reitores de Pesquisa, PósGraduação e Inovação (Copropi), do qual ela é coordenadora. A iniciativa foi imediatamente incorporada pela Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes) e pelo Fórum de Pró-Reitores de Pesquisa e Pós-Graduação (Foprop). A data escolhida foi um dos dias da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, que esse ano acontece de 23 a 29 de outubro. Em Goiás, além do envolvimento das instituições de ensino superior, a ação envolve as secretarias estadual e municipal de educação, a Fundação de Amparo à Pesquisa de Goiás (Fapeg), a Fundação de Apoio à Pesquisa (Funape) e o Sindicato dos Docentes das Universidades Federais de Goiás (Adufg). Dessa forma, pesquisadores e estudantes de pós-graduação das diferentes áreas do conhecimento vão até as escolas públicas conversar com os estudantes sobre a ciência, a tecnologia e a inovação que estão produzindo. Assim, o Dia C da Ciência mostrará que a pesquisa científica brasileira muda para melhor a vida de muitas pessoas.

Um dos objetivos do Dia C da Ciência é diminuir a distância entre o conhecimento produzido de forma contínua nas universidades, centros e institutos de ensino, ciência e tecnologia e a compreensão que a sociedade possui sobre a importância dessas pesquisas no dia a dia. No blog Imagine Só!, o jornalista Herton Escobar aborda de forma didática essa relação, citando alguns exemplos de avanços tecnológicos propiciados pela ciência brasileira, a começar por alimentos como o café, a laranja, a soja e o gado de corte, passando pelos remédios, combustíveis, entre outros. Os exemplos práticos servem de argumento para reivindicar a recuperação dos investimentos públicos em pesquisa, mesmo em um cenário de crise – ou justamente por causa dele. No começo de agosto, o presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Mario Neto Borges, foi enfático: “Acabou o dinheiro!”. A notícia de que não haveria mais recursos para o pagamento de bolsas já a partir de setembro provocou apreensão no meio acadêmico e obrigou o ministro da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, Gilberto Kassab, a dar garantias de que não haveria cortes no financiamento de pesquisas.

Divulgação científica na UFG

A UFG possui importantes iniciativas de divulgação de sua produção científica. Anualmente é promovido o Congresso de Pesquisa, Ensino e Extensão (Conpeex). O evento é gratuito e aberto a toda a comunidade, mas apenas estudantes e servidores da Universidade podem apresentar trabalhos. O objetivo é divulgar a produção acadêmica, científica e cultural da instituição.

de Ciência e Tecnologia, que este ano é “A matemática está em tudo”. A temática está relacionada a dois grandes eventos da área da Matemática que serão sediados no Brasil – a Olimpíada Internacional de Matemática 2017 e o Congresso Internacional de Matemáticos 2018.

Além disso, a Assessoria de Comunicação da Universidade desenvolve, desde 2014, o Projeto Visibilidade UFG. Trata-se de uma ação integrada e estratégica de divulgação de ações e atividades de ensino, pesquisa e extensão, por meio de notícias nos veículos de comunicação. Com o projeto, as notícias geradas pelas sugestões de pauta enviadas à imprensa, relacionadas à pesquisa, aumentaram 26% entre 2015 e 2016. Outra iniciativa de divulgação do conhecimento científico produzido na Universidade é o programa Viver Ciência, produzido pela TV UFG. A produção visa aproximar o conhecimento científico da vida cotidiana por meio de entrevistas com pesquisadores sobre estudos desenvolvidos na UFG e seu impacto na sociedade. O Viver Ciência é exibido todas às quartas-feiras, às 21h, com reapresentações às quintas-feiras, às 12h30, e aos domingos, às 8h30.

Dia C da Ciência • Data: 25 de outubro de 2017 • Acompanhe a programação pelo site do evento e pela fanpage. • Escolas interessadas em receber atividades do Dia C da Ciência podem entrar em contato pelo (62) 3521-1155 ou pelo e-mail <diacciencia@ gmail.com>.

O tema da 14ª edição do Conpeex alinha-se ao da Semana Nacional

o r b u t u o e d 5 2 Cura de doenças!

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Produçã o de aliment os!

Conheça o que as instituições de ensino e pesquisa fazem para melhorar sua vida e o País. Realização:

Universidades, Faculdades, Institutos e Centros de Ensino, Ciência e Tecnologia

Pesquisa

Todos pela ciência brasileira

A ciência está em tudo


Mesa-redonda

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Maconha medicinal no Brasil? Pode? Ascom e Rádio Universitária

Por seus efeitos alucinógenos, o cultivo e o consumo da maconha são proibidos em muitos países, inclusive no Brasil. Mas, a comprovação dos efeitos medicinais das substâncias presentes na maconha, canabidiol (CBD) e tetraidrocanabinol (THC), tem reacendido o debate em todo o mundo sobre sua proibição. Recentemente, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária decidiu incluir a Cannabis sativa, nome científico da maconha, em sua relação de plantas medicinais. Agora, a planta consta na lista completa das Denominações Comuns Brasileiras (DCB), que serve como base para o pedido de registro de medicamentos. Isso não significa a liberação do uso, do plantio e da comercialização da Cannabis ou de produtos derivados. Contudo, é a primeira vez que o Órgão reconhece a planta como contendo propriedades terapêuticas. A medida facilita a importação de medicamentos que contenham substâncias presentes na maconha e pode facilitar o registro de novos medicamentos à base da planta. Segundo a Anvisa, pesquisas clínicas também podem ser facilitadas com a decisão. Para debater o assunto, a Rádio Universitária e a Assessoria de Comunicação da UFG convidaram, nesta edição da mesa-redonda, a professora do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Goiás, Renata Mazaro, o advogado especialista na área de saúde, Ricardo Mendonça e o naturólogo Derick Rezende. Que substâncias a maconha contém? O que diz a lei em relação ao uso dessa planta? Renata Mazaro – A Cannabis pode se apresentar em três variedades: sativa, indica e ruderalis. Cada uma tem suas características de quantidades, tanto de CBD quanto de THC, que são os dois canabinoides mais estudados na literatura científica. Essas plantas têm uma característica de distribuição em áreas tropicais e são ricas em ficanabinoides, que são extraídos para uso medicinal e recreativo, este último envolvendo seus efeitos alucinógenos. Como uso medicinal, o nosso foco é no CBD e no THC, que têm eficácia e segurança já bem estabelecidas. Para a medicina, em termos de eficácia e segurança, essas duas substâncias são indicadas para o tratamento de dores crônicas e oncológicas, controle de vômito e convulsões, além de doenças como esclerose múltipla. Já existem medicamentos com essas substâncias, já bem explorados dentro da literatura. Temos hoje o uso dessas substâncias com prescrição compassiva,

que é quando o médico já tentou vários tratamentos dentro da literatura médica tradicional e o paciente não teve resposta. Nesses casos o médico pode prescrever essas substâncias. São situações clínicas em que há a possibilidade de eficácia e efeitos adversos, como qualquer outro medicamento.

em conjunto com os órgãos de regulação de vigilância sanitária de países com legislação mais avançada que a nossa, como o Canadá, para que seja elaborada no Brasil uma legislação específica para a pesquisa, para o uso medicinal, e isso deve ficar a cargo de laboratórios e universidades, com rigoroso controle. Hoje não temos legislação que regule a pesquisa e não temos liberação de plantio, nem para uso medicinal. O que temos é uma série de decisões judiciais que autorizam famílias a promover o cultivo domiciliar para utilização própria, mas decisões esparsas que acontecem justamente pela falta de legislação. Em caso de não haver substância registrada e comercializada no Brasil, as decisões devem ser individualizadas. O Brasil não pode ficar a mercê de um poder legislativo ineficiente que não analisa, que protela, que fica apegado a questões meramente políticas e esquece das necessidades do cidadão. Mas acredito que os avanços que nos acompanham com essa nova legislação fatalmente levarão a uma regulação da utilização da maconha para pesquisa, visto que sua eficiência já foi comprovada. Há estudos confiáveis para embasar a liberação da maconha no Brasil? Como tem se dado esse processo?

Renata Mazaro

Não vai existir um pacote mágico da maconha, vão existir substâncias com efeitos positivos e negativos. Por isso temos de investir em pesquisa para garantir eficácia e segurança para quem precisa desses medicamentos”

Ricardo Mendonça – O cultivo e a distribuição da maconha são proibidos no Brasil. Nós não temos uma liberação na legislação brasileira. A Lei n° 11.343, de 2006, estabelece as penas, as formas de criminalização do cultivo, da distribuição, da venda e do fornecimento, com penas duras, de 5 a 15 anos de prisão, em diferentes graus. O que estamos experimentando, e a legislação brasileira está evoluindo, seguindo países como Canadá, Estados Unidos, Inglaterra e Israel, é o uso medicinal da maconha, destinado ao bem-estar de pacientes em tratamentos cujas terapias convencionais autorizadas não surtem mais efeitos. Estamos trabalhando em cima de uma legislação para regulamentar o uso de THC e CBD, para ampliar as pesquisas. O que ocorria é que as pesquisas com maconha para fins medicinais podiam ser realizadas no Brasil, mas com material importado, que tem custo elevado. Não tínhamos condição de cultivar essa planta para nossos próprios estudos, mesmo que fosse regulado e fiscalizado. Em 2014, o Conselho Federal de Medicina reconheceu o uso medicinal para tratamento de epilepsias, especialmente em crianças. Houve então a evolução dessa legislação. A Anvisa, há pouco tempo, trouxe a reclassificação da maconha, retirando-a de uma substância totalmente proibida para uma planta medicinal. Isso causou uma reação imediata do Conselho Federal de Medicina, sobretudo por uma provocação da Sociedade Brasileira de Psiquiatria, que reprovou a reclassificação justamente pelo desconhecimento dos efeitos psiquiátricos que a droga poderia causar, porque ainda estamos em fase de experimentos. Estamos estudando uma nova legislação,

Derick Rezende – Quando entramos nesse debate estamos falando também de sofrimento familiar. E quando temos um quadro desse dentro da família, vemos a urgência dessa liberação. O preconceito que existe é recente. Há cem anos, qualquer farmácia do mundo tinha remédios feitos da Cannabis. Os canabinoides extraídos da maconha são indicados para tratar várias síndromes e doenças. Vários desses benefícios ainda não estão comprovados justamente pela dificuldade que os pesquisadores encontram de publicar para comprovar, por conta da burocracia. Há inclusive estudos que falam que o uso recreativo, mesmo o não controlado, é uma atitude quase inconsciente de automedicação, porque mesmo essas pessoas já percebem um bem-estar. Então precisamos colocar luz sobre esse assunto para que deixe de causar gritantes horrores dentro do imaginário coletivo. A maconha é uma planta como qualquer uma e, se usada com sabedoria, é muito benéfica. Renata Mazaro – A maconha em si é um problema, porque caímos em outra discussão séria, que é a fitoterapia no Brasil. Temos de garantir a qualidade. O paciente tem de saber que se ele for usar a maconha medicinal tem de ter a garantia da fonte, que ele vai comprar aquela maconha sempre com a quantidade de CBD e THC que ele precisa para o tratamento. As vantagens dependem muito se ela vai controlar o quadro. Se os sintomas do paciente não melhoraram com os anticonvulsivantes que existem no mercado, a opção é ir para o canabidiol, por exemplo. Por quê? Porque ele vai controlar e dar uma condição melhor para o tratamento. Mas qualquer droga, seja de origem vegetal ou sintética, vai ter efeitos adversos. Então é cobertor curto: eu resolvo uma situação e posso agravar outras. O que acontece com o canabidiol é que estamos em processo de entrar no mercado e aí vamos começar a ter mais estudos com pessoas, porque hoje a maioria dos testes foi feito em animais. Os testes numa gama grande de pacientes vão começar mundialmente agora. Vamos começar a estabelecer os efeitos adversos mais frequentes como alterações gástricas e associadas ao sistema nervoso central. Mas essas situações só vão ser delimitadas melhor quando esse medicamento entrar com mais impacto dentro da sociedade. Apesar disso, para alguns pacientes, o tratamento com medicamentos a base de maconha ainda é muito melhor que os convencionais, porque o tradicional não está controlando aqueles sintomas. Ricardo Mendonça – Nós temos a cultura de tratar a maconha apenas como substância alucinógena. Somos um país com culturas dimensionais, até mesmo pelo tamanho do Brasil. E a evolução da legislação, por isso mesmo, é um tanto quanto difícil se com-


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Ricardo Mendonça

A medicina está preparada para prescrever? Renata Mazaro – Precisamos lembrar que a maconha induz dependência e tem um sério problema de interação com o álcool, mas não devemos encarar isso como uma bandeira negativa porque vários outros medicamentos, que hoje são vendidos indiscriminadamente, fazem a mesma coisa. A associação da maconha com outras drogas é um problema para o usuário quando ele pede a maconha como medicinal, porque não conseguimos separar até que ponto o efeito adverso é por conta da maconha medicinal ou dos usos associados de substâncias lícitas e ilícitas. Então, temos de conhecer mais sobre a maconha e abrir essa discussão para a sociedade. O médico precisa sempre estar em contato com o paciente para ter essa habilidade. Muitas vezes o médico não quer prescrever porque não conhece a droga naquele paciente. O que acontece é que a família do paciente vê a reportagem e fica insistindo, e o médico, que muitas vezes não tem aquele conhecimento, vai ficar na defensiva, para se resguardar. E essa é outra discussão: a formação médica no Brasil tem de incluir fitoterapia no currículo porque os representantes farmacêuticos oferecem os fitoterápicos como se fossem drogas naturais e que não fazem mal, a mesma situação dos derivados da maconha. Não vai existir um pacote mágico da maconha, vão existir substâncias com efeitos positivos e negativos. Por isso temos de investir em pesquisa para garantir eficácia e segurança para quem precisa desses medicamentos. Ricardo Mendonça – A maconha não deve ser prescrita pelo médico indiscriminadamente. Ele irá investigar esse paciente, se ele tem algum problema psicótico anterior, pregresso ou familiar, para que a

A discussão sobre a legalização da maconha para uso medicinal deve realmente ser separada do uso recreativo? Ou a discussão deve ser unificada?

Renata Mazaro – Creio que essa discussão deve ser separada, por características do próprio uso. Primeiro, pela urgência, porque as famílias se sentem, por conta da própria legislação, fora da lei. Tem muitos relatos de pessoas que dizem “estou recebendo esse óleo dessa organização, mas eles estão se arriscando pelo meu filho”. Algumas famílias estão se organizando para garantir que outras famílias que não conseguem a planta e não têm a liminar para plantar também tenham acesso, mas elas se sentem fora da lei, quando só querem tratar alguém da família numa situação de desespero. Para uso recreacional, liberar a maconha é sempre liberar a matéria-prima. O que eu vou garantir de matéria-prima para aquele usuário? Hoje o Brasil não tem como fiscalizar a qualidade dessa maconha que vai chegar para o usuário. E quanto isso vai custar? Então essa é outra discussão. Além disso, para um médico é muito mais fácil prescrever o canabidiol, que é uma molécula só, do que a maconha, que é um fitocomplexo. Se formos trazer as duas discussões para a sociedade, e eu acho que temos de trazer, devem ser discussões separadas. E eu começaria no medicinal por conta do desespero a que essas famílias estão expostas. Ricardo Mendonça – O brasileiro é movido a paixões, então a discussão conjunta seria muito complicada. Acredito que se a discussão medicinal estiver a frente desmistificará as impressões negativas que o país tem sobre a maconha. Essa regulamentação deve vir por lei e não por decisão judicial. Vejo com muito receio o que será uma decisão futura, com conceitos abertos, que dê margem para o desvio da finalidade que é o uso medicinal, mas acho que a legislação deve avançar e é a partir daí que vamos abrir a cabeça da sociedade com relação a esse assunto. O Brasil só não avançou mais nesse assunto ainda pela dificuldade de acesso ao setor de pesquisa. E é mais fácil fiscalizar liberando para alguns institutos de pesquisa do que indiscriminadamente.

Derick Rezende – Também acredito que a medicinal deve vir a frente, pela urgência, para garantir não só o acesso como também a qualidade. Uma coisa que aconteceu recentemente e é muito triste: foi uma luta para conseguir liberar o Sativex no Brasil e ele chegou às farmácias custando quase R$2,5 mil reais. É um produto a base de uma planta que foi liberado, mas não garantiu o acesso. Se acompanharmos no mundo o histórico dos estados e países que liberaram a maconha, a questão medicinal veio primeiro, principalmente por essa urgência. Depois dessa urgência atendida, quando as pessoas começam a ver que a planta não é o diabo ou uma coisa assim, a população também vai se educando para aceitar aquilo. Naturalmente, os países que já conseguiram avanços na questão medicinal também estão votando o uso recreativo e social, porque a população já foi informada e já consegue lidar com tranquilidade com essa liberdade. A própria Holanda, que foi o país pioneiro no mundo a liberar o uso recreativo, já está repensando para criar uma cultura de medicação. E onde deu certo, o recreativo já está sendo discutido e legalizado de uma maneira madura para todos.

Teremos sucesso na pesquisa de novos medicamentos? Ricardo Mendonça – A Anvisa agora está buscando regulamentar o acesso da maconha para pesquisas medicinais. Vários estudos estão sendo feitos para que ela aconteça com muita maturidade e, assim, os avanços virão. Aí estaremos em um novo patamar para descobertas de novas tecnologias com a finalidade de dar à população amplo acesso a elas. Não adianta eu ter medicamentos a base de maconha se eles chegam na farmácia a preços absurdos. Não adianta para o Brasil um desgaste político e social tão grande se esse medicamento não chega a todos. Derick Rezende – Percebo um caminho interessante, mas dentro do próprio SUS existe a lei de práticas integrativas, em que eles reconhecem as medicinas tradicionais, principalmente a chinesa. Então, o fato de a maconha ter sido colocada na lista de plantas medicinais e já existir essa abertura das práticas complementares da fitoterapia, leva a crer que estamos pavimentando um caminho muito saudável, diferente do resto do mundo. Com todas as pessoas que são “amigas da causa” engajadas, observando também os exemplos de fora, acho que o futuro do Brasil é bem promissor. Isso sem falar do nosso clima, que é ideal, e baratearia o cultivo, porque não precisaríamos gastar com estufas e iluminação especial como os grandes laboratórios europeus, que agregam muito preço por conta disso. Aqui, acredito, vamos conseguir fazer o modelo mais social do mundo.

Fotos: Ana Fortunato

O Brasil não pode ficar a mercê de um poder legislativo ineficiente que não analisa, que protela, que fica apegado a questões meramente políticas e esquece das necessidades do cidadão

maconha seja indicada quando for a melhor forma de tratamento, mas o médico é o responsável. A grande preocupação que temos hoje acerca dessa utilização é a de não haver um desvio da finalidade do uso, tanto por prescrição quanto por autorização do poder judiciário. A discussão ampla da legislação deve ser observada justamente por envolver tantos fatores. É preciso que a população saiba que o Brasil possui agências de regulação de medicação rigorosíssimas, criteriosas e que se destacam entre as melhores do mundo. Então, quando esses medicamentos chegam à sociedade é porque são eficazes e seguros.

Mesa-redonda

pararmos com países de dimensões muito menores. Essa questão da não liberação vem mesmo do uso indiscriminado de forma recreativa, até mesmo porque precisamos inicialmente quebrar paradigmas, entender que agora estamos falando de efeitos medicinais e de bem-estar. Às vezes trata-se de uma droga que não traz a cura do paciente, mas traz condições de melhor sobrevida e bem-estar. A gente não tem de trabalhar apenas com cura. Dependendo do estado do paciente, ele não tem mais cura, mas precisamos dar vida digna a ele, que é inclusive um direito garantido pela Constituição.

Derick Rezende

... o fato de a maconha ter sido colocada na lista de plantas medicinais e já existir essa abertura das práticas complementares da fitoterapia, leva a crer que estamos pavimentando um caminho muito saudável, diferente do resto do mundo Renata Mazaro – Temos de trazer isso para dentro dos cursos de Medicina, para eles saberem prescrever. O prescritor no SUS é o médico e essa saída é muito interessante. É uma instrumentalização legal que vamos ter e pode ser utilizada. Precisamos de políticas públicas que invistam em cultivo de qualidade para termos uma matéria-prima com menor valor agregado. Temos de começar a fazer essa análise e trazer a fitoterapia mais intensamente para a educação do prescritor, para criar uma cultura do uso seguro e benéfico. Temos de garantir mais pesquisas, aumentar a comprovação científica, a fim de garantir à população a segurança para utilizar essa planta de forma adequada e ser autossuficiente. E no Brasil temos as farmácias vivas que podem ser aliadas nesse processo.

Confira o programa da TV UFG sobre o tema


Pesquisa

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Fotos: José Verneck

tenção de áreas verdes. “Sujar as mãos de terra, talvez tenha adquirido sentido demeritoso a ponto de ser classificado como coisa de ‘caipira’, sendo mais cômodo e ‘chique’, concretar o piso e se produzir vestualmente para ir fazer compras no supermercado”, observa José Verneck. Segundo o consultor em sustentabilidade, até mesmo as feiras livres tiveram o perfil alterado. “Poucos feirantes continuam a produzir e vender. São muitos os que passam a adquirir os produtos nas Centrais de Abastecimento”.

Do mato ao prato Para além do sistema agroalimentar global, as plantas alimentícias não convencionais são uma alternativa de alimentação saudável

Carolina Melo

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á imaginou saborear uma flor de ipê amarelo? E pegar aquele matinho infestante pra fazer uma sopa refogada e nutritiva? São muitos os “matos”, “inços”, “chicórias” e “ervas daninhas” que podem compor uma rica refeição. Mas o pouco conhecimento das propriedades nutritivas de plantas acessíveis faz que a maioria da população se limite aos produtos disponibilizados pelo sistema agroalimentar global e pelas redes de supermercado.

Para quem descobre as ricas possibilidades alimentares das plantas, cozinhar se torna uma experiência política, cultural, ambiental e revolucionária. Ali mesmo, no quintal de casa, a baixo custo, é possível encontrar plantas que podem estar na mesa. As Plantas Alimentícias Não Convencionais (Panc), como atualmente são conhecidas, contribuem para transpor a padronização e a monotonia da alimentação diária, além de garantir a apreciação de diferentes sabores, texturas e combinações.

Árvores, trepadeiras, arbustos, cipós e até mesmo aquele matinho desprezado ou considerado invasor. São várias as espécies que podem ser consumidas, apesar de não serem conhecidas ou produzidas em grande escala. O termo “Panc”, no entanto, depende de quem está lidando com a planta. “São plantas presentes em determinadas localidades e regiões e que já exerceram ou ainda exercem grande influência na alimentação de populações tradicionais, mas que em algum momento foram perdendo espaço para o consumo de hortaliças produzidas pelo mercado”, explica a professora de Agronomia da UFG, Abadia dos Reis Nascimento. Vão desde plantas nativas até aquelas que não são produzidas pela agricultura industrial e compõem o universo de alimentos não utilizados no dia a dia de uma população.

As mudanças de comportamento alimentar fizeram que o cultivo dessas plantas passasse a ter expressões econômicas, sociais e culturais reduzidas. Já são muitas as que estão esquecidas e não são mais vistas como alimento, podendo até ser extintas. Para se ter ideia, estima-se que 30 mil plantas possuem partes comestíveis, mas cerca de 90% do alimento mundial provém de menos de 40 espécies vegetais. “A retomada do cultivo, além de preservar e valorizar as espécies nativas e a produção local, recupera as origens de uma sociedade histórica, seja nos encontros e feiras para a venda ou troca de sementes, seja na troca de conhecimentos passada por gerações. O consumo nos possibilita uma nova experiência alimentar, mais saudável e uma alternativa sustentável para os alimentos convencionais industrializados”, acredita Abadia dos Reis.

Cultivo afetivo na cidade

A horticultura doméstica e a utilização de plantas não convencionais no repertório alimentar era uma prática mais comum, de uma cultura urbana que ainda carregava o vínculo afetivo e a vivência com o campo. Entretanto, a diminuição da agricultura urbana, em diálogo com a transformação no modo de habitar a cidade, impulsionou a dependência às grandes redes de comércio de alimentos. “Essa atual realidade contribuiu para que o conhecimento sobre as Panc fosse desprezado por algumas gerações”, avalia o consultor em sustentabilidade, José André Verneck, aluno do curso de Fruticultura no Programa de Pós-Graduação em Agronomia da UFG.

Os quintais de outrora passaram a ter outros usos comuns, como estacionamento, áreas de circulação e lazer coletivo em edifícios, com ajardinamento restrito por falta de espaço físico ou para reduzir tarefas braçais requeridas pela manu-

Mas o aproveitamento das áreas verdes domiciliares para o cultivo de alimentos saudáveis é uma possibilidade viável para todos os tipos e tamanhos de espaço. “Em qualquer pequeno espaço onde bata sol, com pouco trabalho por dia, é possível cultivar plantas não convencionais e ter fartas colheitas. As Panc são menos suscetíveis a pragas e requerem menos tratos do que as hortaliças convencionais. Jardins, minijardins, são muitas as possibilidades para quem tem o interesse”, afirma José Verneck. Mais do que isso, o cultivo doméstico pode estimular a adoção de tecnologias sustentáveis, como a compostagem orgânica, o uso de defensivos naturais e biofertilizantes, o reaproveitamento de materiais, a captação e uso de água pluvial. “Além de ampliar as áreas verdes no espaço urbano”, avalia o consultor.

Ao plantar, cuidar e acompanhar o desenvolvimento das plantas, criase uma relação afetiva com o alimento, com o ambiente e a sociedade, diferente daquela que se tem nos corredores do supermercado. Em feiras, na troca de sementes, no conhecimento compartilhado, a experiência alimentar é incrementada pelo resgate de uma memória ancestral e pela autonomia. “Cultivar alimentos em casa, sem agrotóxicos, significa soberania alimentar e menor dependência de alimentos processados. A obtenção de mudas e sementes tende a ser ampliada quando a prática se irradia a outras famílias da localidade e entre regiões distintas”, afirma José Verneck.

Acesso igualitário De acordo com a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), as famílias urbanas pobres gastam até 80% de sua renda com alimentos, o que as torna mais vulneráveis quando os preços sobem ou a renda diminui. Nesse sentido, a horticultura urbana e não convencional tem potencial para contribuir com os desafios da segurança alimentar e nutricional. “Amplia-se a capacidade de resiliência familiar”, ressalta José Verneck, que acredita que as Panc deveriam ser incluídas na merenda escolar, no cardápio dos asilos e demais organizações focadas em populações que estejam em condições de vulnerabilidade.

A percepção sobre o valor socioambiental representado pela produção caseira vem ampliando o interesse e o número de adeptos. “Pessoas e organizações têm empreendido projetos na área, com expressivos resultados educativos e na sedimentação de ciclos de capacitação, de tomada de consciência e formação de redes cooperativas em prol do alimento produzido na urbe, de modo justo, solidário e sustentável”, observa o consultor em sustentabilidade. Segundo a professora de Agronomia da UFG, Abadia dos Reis, com a ampliação do conhecimento sobre as Panc, elas podem tornar-se uma alternativa viável para agricultores familiares. “Para isso, estratégias são necessárias para chamar a atenção e contribuir com a elaboração de políticas públicas em prol das hortaliças não convencionais”, acredita. Entre os benefícios, as espécies de plantas não convencionais podem ser selecionadas com base na adaptação às condições de solo e clima da região, possibilitando o cultivo sem a dependência de soluções sofisticadas. “Os agricultores familiares precisam dessa autonomia. Não dá para eles ficarem dependentes da compra de insumos e sementes todo ano”, acrescenta José Verneck.


9 Pesquisa

Conheça algumas Panc O valor nutricional das alimentícias não convencionais varia de espécie para espécie e está relacionado com a quantidade significativa de vitaminas, sais minerais, fibras, carboidratos e proteínas, além de substâncias funcionais (antioxidantes, carotenoides, flavonoides e antocianinas).

Bertalha (Basella alba)

Fotos: Flickr, Wikimedia Commons

Feijão-borboleta (Clitoria ternatea “double form”)

Também conhecida como espinafre-indiano, é uma planta nutritiva, saudável e medicinal. As folhas são ricas em cálcio, ferro, magnésio, manganês, potássio, sódio, zinco, fósforo, clorofila e vitaminas A, B, B2, B5 e C. Seu consumo cru não é recomendável, especialmente para as pessoas que sofrem do sistema renal.

A trepadeira, originária da Ásia tropical, pode atingir até quatro metros de comprimento. Produz vagens que contêm cerca de seis a 10 sementes e são comestíveis quando bem jovens. Suas flores azuis também comestíveis são o maior atrativo, não pelo sabor, que é neutro, mas pela cor. São corantes e tem finalidades terapêuticas.

Moringa (Moringa oleífera)

Maria sem vergonha (Impatiens walleriana)

Cresce muito rápido e tem fácil propagação. Cultivada para fins ornamentais, suas flores podem ser consumidas tanto cruas como cozidas. As flores jovens devem ser evitadas, pois apresentam um pouco de ráfides de oxalato de cálcio. Sementes podem ser consumidas cruas ou torradas, em coberturas de pães e saladas.

Considerada a árvore da vida em razão de seu potencial nutricional, a moringa disponibiliza para o consumo humano as suas folhas, flores, sementes secas e verdes e até batatas (antes de se formarem as raízes). Possui sete vezes mais vitamina C do que a laranja, quatro vezes mais cálcio do que o leite, mais potássio do que a banana e mais ferro do que o espinafre. As suas folhas são importantes fontes de vitamina A, C e ferro e ainda são utilizadas para purificar a água para o consumo humano.

Serralha (Sonchus oleraceus)

Cará do Ar (Dioscorea bulbifera) De origem africana, desenvolve suas batatas fora da terra. Há variedades amarelas, verdes e roxas, sendo levemente adocicado, com um sabor acastanhado e a mesma textura do cará. Pode substituir a batata em purês, cremes e até mesmo em chips.

Parente do alface, do almeirão e da chicória, as folhas têm formato de lança, serrilhada. Apresentam o sabor ligeiramente amargo e são ricas em vitamina C, carotenoides, fibras e ômega 3. Não devem ser colhidas em locais com poluentes, pois a espécie absorve muitos minerais, inclusive o chumbo do solo.

Jasmim manga (Plumeria rubra)

Assa-peixe (Vernonanthura phosphorica)

Suas flores são perfumadas como as do jasmim e a árvore tem folhas que lembram as da mangueira. De fácil propagação, suas flores são comestíveis. Uma dica é o sorvete de banana com flor de jasmim manga.

Planta nativa, encontrada em beiras de estrada, pastagens e terrenos baldios. Suas folhas, fritas à milanesa, são comestíveis e tem sabor de peixe. Tanto as folhas, quanto as raízes também são utilizadas pela medicina caseira. José Verneck


Sociedade

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Adriana Silva

variadas tecnologias, dentro de uma escola de comunicação. “O Pindoba também desenvolve estudos e pesquisas buscando as interseccionalidades de gênero, classe, raça/etnia, sexualidades e geração, lançando mão da Comunicação enquanto técnica, teoria e metodologia”, completa. Outros grupos como o Núcleo de Estudos Afrodescendentes e Indígenas (Neadi), o Laboratório de Pesquisas em Educação Química e Inclusão (LEPQI) e o Laboratório de Estudos de Gênero, Étnico-Raciais e Espacialidades (Lagente) também abordam o feminismo negro.

Precisamos conhecer as pesquisadoras negras

Protagonismo para as mulheres negras Feminismo negro busca visibilidade para pautas específicas e combate não só o machismo, como também o racismo Angélica Queiroz, com informações da TV UFG

M

achismo  e racismo são dois comportamentos consolidados que se perpetuam no Brasil desde o período colonial, promovendo a inferiorização das mulheres negras em relação aos homens e também em relação às mulheres brancas. Vítimas desse duplo preconceito, as mulheres negras sentiram a necessidade de se organizar e protagonizar um movimento social que não apenas lute por igualdade de direitos para homens e mulheres, principal bandeira do feminismo hegemônico, mas também combata o racismo que se perpetua e violenta expressiva parcela da sociedade brasileira.

Além da dominação masculina

O movimento, conhecido como feminismo negro, surgiu porque, no movimento negro, as relações de gênero acabam funcionando como repressoras da autonomia feminina e, no movimento feminista, as discussões de recorte racial são, muitas vezes, preteridas, privilegiando as pautas que contemplam somente as mulheres brancas. “Existe um imaginário de sub-representação da mulher negra em relação à branca que é vista como ideal de feminino, de beleza. Então, a questão da mulher negra, além da dominação masculina, também tem essa relação de poder que vem da mulher branca”, explica a militante do movimento de mulheres negras, Márcia Carvalho. Nesse contexto, as dificuldades enfrentadas pelas mulheres negras em relação às brancas, em diversos espaços, sobretudo no mercado de trabalho, são ainda maiores. Para a antropóloga e professora do Núcleo Takinahaky e do Mestrado em Direitos Humanos da UFG, Luciana Dias, o feminismo negro teve origem

na primeira reação da primeira mulher negra que foi vítima de violências decorrentes do machismo e do racismo. “O feminismo negro pode ser compreendido como uma reação de mulheres negras violentadas por essas ideologias”, afirma. Como movimento social, a professora Luciana de Oliveira Dias explica que o feminismo negro, no Brasil, teve origem na década de 1980, mais precisamente em 1985, durante o Encontro Latino-Americano de Feministas, em São Paulo, quando notou-se a ausência de mulheres negras participantes do feminismo naquele momento, o que fez emergir as questões periféricas repudiadas pelo status quo.

Discussão na UFG

Para Luciana Dias a transformação passa por uma educação antirracista e antimachista e pelo empoderamento das mulheres negras. Objetivando um espaço que promova essa educação no âmbito da UFG, o Coletivo Rosa Parks, desenvolve estudos sobre questões de raça, etnia, gênero e sexualidade. O nome da rede de pesquisadoras negras homenageia a costureira negra norte-americana que entrou para a história ao se recusar a ceder o assento em um ônibus a um homem branco, no Alabama, em 1955, quando a segregação racial nos Estados Unidos era amparada por leis que restringiam o acesso de negros ao transporte coletivo e locais públicos. “As pesquisadoras do Coletivo Rosa Parks ocuparam o coletivo e não vão dele descer, porque é um direito que seus corpos ocupem o lugar de pesquisa, ensino e ativismo”, afirma a professora, que coordena o Coletivo.

Além de desenvolver pesquisas sobre raça, etnia, gênero e sexualidade, o Coletivo Rosa Parks, que começou a se articular coletivamente em agosto de 2016 na UFG, é também

local de ativismo e militância e promove atividades junto à comunidade acadêmica e em geral, para levar adiante as bandeiras da resistência e da superação. São promovidas palestras em escolas, oficinas de turbantes e eventos abertos à comunidade, para que as pessoas negras, especialmente, possam entender que esses espaços também são delas e ocupá-los. O Coletivo Rosa Parks representa também uma rede de apoio na qual as mulheres negras relatam suas vivências e encontram suporte para o combate diário ao racismo e ao machismo. “É um projeto guarda-chuva, que hoje tem mais de 30 pesquisadoras desenvolvendo pesquisas em diferentes temáticas e áreas de conhecimento, e que apresentam como tema central o feminismo negro”, explica Luciana Dias, que destaca ainda que não é vetada a participação de homens e pessoas brancas, mas a maior parte dos participantes são mulheres negras. “Quando a temática central é feminismo negro, não desperta a atenção de qualquer pesquisador ou pesquisadora”, justifica a pouca adesão de homens e mulheres brancas. Além do Rosa Parks, o Núcleo de Pesquisa em Comunicação e Diferença - Pindoba, da Faculdade de Informação e Comunicação da UFG, atua, desde 2012, no sentido de complexificar a discussão sobre ações afirmativas e políticas de inclusão na Faculdade de Informação e Comunicação. “Pindoba é o nome atribuído às palmeirinhas jovens com característica bastante peculiar. Após o período de queimada realizado para o plantio da monocultura que deveria eliminá-la é exatamente a condição em que a pindoba desponta, esse ‘renascer das cinzas’ nos remete ao conceito de resiliência característica própria das mulheres negras que se reinventam a medida que as relações sociais insistem em agir com racismo e sexismo perversos”, explica a mestranda em comunicação Elisângela Oliveira, que integra o núcleo.

De acordo com Elisângela Oliveira a concepção do Pindoba está orientada pela perspectiva das narrativas, uma vez que prioriza o ato de contar histórias a partir de diferentes plataformas, com o uso das mais

Elisângela Oliveira destaca que o racismo e o machismo estão muito presentes também na academia. “Sabemos que, no Brasil, o processo de escolarização da população negra foi durante muito tempo negado, fazendo com que os próprios movimentos tivessem que fazer a gestão da própria educação. Esse sintoma se reflete no baixo número de pesquisadores e pesquisadoras negras”, afirma, lembrando que as condições sociais e econômicas também não foram asseguradas pelo estado e a consequência disso está na dificuldade da maior parte dos jovens negros e negras que entram na universidade e precisam conciliar trabalho, cuidado da casa e da família e longas distâncias percorridas de transporte público para chegar ao câmpus com as exigências acadêmicas.

“Precisamos salientar que a atualização da matriz curricular dos cursos ainda está alicerçada em valores eurocêntricos causando um epistemicídio, ou seja, o aniquilamento da capacidade cognitiva e da confiança intelectual negra através do racismo da desvalorização, negação ou ocultamento das contribuições do Continente Africano e da diáspora africana para a construção do conhecimento. Esse fator também é impeditivo inclusive, de desenvolver pesquisas relacionadas às temáticas étnico-raciais e não raros são os casos em que muitos jovens desistem do ensino”, detalha Elisângela. Para ela, falta orientar o olhar para essas referências, pois elas existem A professora Luciana de Oliveira Dias realça que é urgente a necessidade de se conhecer os trabalhos desenvolvidos por pesquisadoras negras nas mais variadas áreas de conhecimento. Mas adverte que ainda gravita no campo da exceção a presença de mulheres negras pesquisadoras nas universidades brasileiras. “Necessário se faz que tenhamos sensibilidades e ações afirmativas para que as universidades brasileiras não sigam reproduzindo um conhecimento marcado por fazeres brancos e masculinos e nos quais as mulheres negras não escapam do campo objeto de pesquisa”, opina. A professora anseia por tempos em que a presença de mulheres negras nas universidades na condição de pesquisadoras seja uma regra e não uma exceção. “Ainda há muito o que avançar!”.


Divulgação/Regional Goías

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Alimentos doados foram arrecadados pelo I Seminário de Acessibilidade

Weberson Dias

O

Núcleo de Acessibilidade da Regional Goiás da UFG realizou, em setembro, a doação de mantimentos à Comunidade Terapêutica Paraíso. Os alimentos doados foram arrecadados durante o período de inscrições do I Seminário de Acessibilidade da UFG na Cidade de Goiás e entregues para a unidade de recuperação de dependentes químicos. Durante a entrega, os internos em tratamento deram depoimentos emocionantes.

As drogadições mais comuns na comunidade são álcool e crack. A chácara está sob a tutela da Igreja Católica e sobrevive de doações, oferecendo atendimento médico e

Fábio Gaio

Localizada a 14 quilômetros da cidade, na saída para Faina, a chácara

onde funciona a comunidade, desde 2002, trata dependentes químicos. Conta com uma estrutura de cinco quartos, auditório, capela, cozinha, biblioteca, além de áreas para atividades agropecuárias e de lazer. Atualmente, encontram-se em recuperação 20 homens maiores de 18 anos, que passam pelo tratamento de nove meses, ofertado gratuitamente para pessoas carentes da região.

Projeto ensina francês e promove a diversidade cultural Aulas ministradas por professores africanos trazem a concepção de que aprender uma língua estrangeira é também aprender sobre a cultura de um povo Fábio Gaio

U

m projeto sobre o ensino da língua francesa voltado para a capacitação de técnico-administrativos em educação, da Regional Catalão (RC) da Universidade Federal de Goiás (UFG), aberto também a estudantes e comunidade externa, tem ultrapassado o simples aprendizado e a fluência na língua, por mergulhar nos aspectos sociais, culturais e históricos de povos africanos que têm o francês como língua oficial ou como segundo idioma ensinado em escolas. Dois professores, Alexandre António Timbane, de Moçambique, e Omar Ourosalim, do Togo, país oficialmente chamado de República Togolesa, não apenas ensinam sobre suas culturas e a língua francesa, mas também aprendem sobre a cultura e os costumes dos brasileiros, em um processo de troca de experiências que tem a linguagem como motivadora. Para Omar, o fato de o francês ser uma língua latina, mesma origem da língua

portuguesa, torna o aprendizado da língua francesa mais fácil. Para o professor, que está no Brasil há quase dois anos e é aluno do Mestrado em Gestão Organizacional, no começo algumas pessoas até podem pensar que é um idioma complicado e distante da realidade brasileira; no entanto, com o tempo e o contato com a língua, é possível perceber algumas aproximações entre francês e português. Para ele, a aproximação da língua e de outras culturas é sempre válida; e pelo fato de ser ensinada por professores africanos, é possível ter um olhar mais ampliado sobre a língua francesa, que é falada em pelo menos 30 países, boa parte deles na África, inclusive o Togo. Com experiência no ensino do francês e atuando como professor de Linguística Forense na Academia de Ciências Policiais de Moçambique, Timbane está no Brasil ministrando aulas e orientando estudantes como professor visitante no Mestrado em Estudos da Linguagem. Com doutorado na área de Linguística,

O diretor da Regional Goiás, Renato Francisco dos Santos Paula, avaliou como positiva a participação da UFG na comunidade. “A UFG está de portas abertas para qualquer projeto social que tenha como intuito melhorar a qualidade de vida das pessoas. Para a Regional, este projeto possibilita uma aproximação para a reinserção dessas pessoas na sociedade e esta é a contribuição maior da universidade”, assegurou.

Parceria

De acordo com a professora Denise Alves, coordenadora do Núcleo de Acessibilidade, que escolheu a instituição para as doações, o Núcleo tem feito o esforço em realizar inúmeras o professor explica que seu trabalho no Brasil não consistia inicialmente em ensinar a língua francesa; entretanto, ele, que atua também na Sociolinguística, na descrição de línguas bantu africanas e na Linguística Forense, considera o ensino do francês a sua grande paixão, atuando na área desde 2003. Para ele, estar na condição de professor visitante possibilita o contato com estudantes de culturas diferentes, da mesma forma que os alunos também conhecem os costumes africanos.

Timbane afirma que seu maior desafio ensinando no Brasil são os aspectos culturais, uma vez que a linguagem tem forte relação com a cultura e as palavras podem mudar de sentido de acordo com o contexto cultural, social e histórico. O docente reconhece o esforço e a dedicação da turma e acredita que não exista aluno que não seja capaz. “Eu me esforço para aplicar as metodologias necessárias, o aprendizado e a utilização de estratégias pedagógicas para diferentes públicos, faz parte da formação do professor”, avalia. Além disso, o sistema educacional brasileiro é diferente do moçambicano. Em seu país, conforme Timbane, o ensino é gratuito apenas até o nível fundamental. A partir do nível médio, além de pagar mensalidades, é necessário arcar também com a aquisição dos livros. A professora responsável pela Coordenação de Pesquisa e Pós-Graduação da Regional Catalão, Maria Helena de Paula, idealizadora da proposta, explica que o Curso de Francês faz parte do Programa Inovar Ciência (PIC), coordenado por ela, desde maio de 2016. Com proposta de articular, pelo programa de extensão, ações que divulguem a ciência e a inovação feitas na Regional Catalão e oferecer possibilidades de formação para a comuni-

atividades, como projetos de extensão. “Nossa visita à Comunidade Paraíso foi muito produtiva, pois ouvindo-os surgiram várias possibilidades, inclusive de desenvolvermos um projeto de educação de jovens e adultos. Vejo que a UFG poderá desenvolver muitas ações e projetos que vão beneficiar os internos e também os estudantes, que se lançarão no mercado de forma humanizada”, destacou ela. Para o Bispo Diocesano, Dom Eugênio Rixen, a parceria com a Universidade é uma via de mão dupla de evidente valor simbólico. “A UFG pode nos ajudar muito no tratamento de jovens, principalmente através de várias disciplinas e em tudo que ajude este jovem a se encontrar consigo mesmo e sair dessa vida que geralmente leva à cadeia ou à morte”, ponderou.

Ampliação

Segundo Norma Silva, diretora da entidade, há previsão de expansão do projeto para o próximo ano. “Em abril de 2018, o tratamento deve ser ampliado também para o público feminino, a partir disso, poderemos receber seis pessoas, mulheres, em uma casa estruturada e mobiliada a cerca de um quilômetro daqui”, finalizou. dade acadêmica e externa, um curso de formação sólida em uma língua estrangeira é essencial para a divulgação científica. Segundo a professora fala-se muito em internacionalizar a pesquisa e a pós-graduação. Concorrer a editais, formação no exterior em centros de excelência, pesquisas e publicações internacionais, domínio de língua estrangeira são essenciais a professores e alunos. Contudo, o técnico-administrativo também deve ser incluído nessa política, porque ele é imprescindível nas várias formas de produção de conhecimento na Universidade. “As políticas de internacionalização dos programas de pós-graduação devem considerar a formação do técnico-administrativo que ali trabalha”, avalia.

Os resultados do projeto, que mistura o ensino da língua francesa e o aprendizado sobre novas culturas, já repercute de forma positiva na comunidade universitária. Welliton dos Reis Alves, técnico-administrativo da Regional Catalão, afirma que a didática utilizada pelo professor motiva e mantém o interesse da turma. Para Nicole Cardoso Soares da Silva, aluna do curso de Química, a curiosidade tem sido a grande motivadora para assistir às aulas, e o que parecia difícil tem se tornado mais fácil no decorrer do curso. Alessa Gomes Siqueira, membro da comunidade externa, pretende, após as aulas, se aprofundar mais no aprendizado do francês, até mesmo viajando para algum país que fale a língua francesa. A expectativa, segundo a coordenadora do projeto, é dar continuidade a esse e outros cursos em 2018: “Ante as demandas de formação de pessoal e consolidação da pesquisa na Universidade, é importante investir fortemente na formação de todos os envolvidos na produção e divulgação do conhecimento”, conclui.

Universidade

Regional Goiás realiza doações para Comunidade Terapêutica Paraíso

psicológico. A instituição já fez a reinserção de cerca de 80 homens, como Alecssandro de Sousa. Ele saiu há quatro anos do tratamento e retornou para a chácara há um ano para trabalhar com uma ajuda de custo. “Eu vivia em sofrimento, sofri a rejeição da sociedade e perdi minha família e dignidade. A Chácara Paraíso resgatou minha vida, devo muito a este lugar”, afirmou, destacando a importância do grupo de apoio Amor-Exigente.


Fotos: Divulgação

Cultura

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Moisés Patrício discute as questões raciais ao fotografar suas próprias mãos para compor a obra “Aceita” Foto: Adriana Silva

De preto para preto, entender a própria história Experiências socioculturais de afro-brasileiros trazem novas narrativas e emancipam corpos negros ao quebrarem discursos colonizadores e patriarcais Vinícius Paiva

“S

e você quiser saber mais dessas pessoas, você terá de dobrar seus joelhos”, arremata a doutora em Artes Visuais, Rosana Paulino, ao se referir a uma de suas instalações, Amas de Leite. Nela são retratadas as silhuetas das escravizadas negras que eram obrigadas a amamentar os filhos das mulheres brancas. Rosana relata que foi convidada a conhecer uma pequena senzala histórica em Campinas e percebeu que deveria usar o próprio ambiente e os recursos que o compõe para retratar aquela realidade. A artista utilizou um material que mistura argila e papel para mostrar as mãos das mulheres envoltas em fitas brancas, representando o leite que era dado aos bebês filhos dos colonizadores. “Era como se a criança fosse a dona da mulher. Mas que sociedade é essa que conseguimos perceber essas complicações ainda nos dias de hoje? Afinal, a babá cuida, educa, dizem que é como se fosse da família. Mas quando envelhece, vai para a rua. Que afetos são esses?”, indaga.

Vozes do Silêncio

Enquanto a mídia hegemônica representa, na maioria das vezes, a população afro-brasileira de uma maneira racista, com personagens pejorativos e clichês, o Centro Cultural UFG acolheu no mês de setembro a exposição Vozes do Silêncio, que promoveu um debate acerca do papel desempenhado pelos artistas negros na arte contemporânea brasileira. Antônio Obá, Dalton Paula, Hêlo Sanvoy, Janaína Barros, Moisés Patrício Paulo Nazareth e Rosana Paulino resgataram fatos escondidos e proporcionaram aos visitantes uma nova leitura sobre a população negra. Com base em suas vivências e percepções, os artistas debatem em expressões artísticas, assuntos como racismo, religiosidade e questões de gênero.

Segundo o curador da mostra, Paulo Henrique Silva, a apresentação e representação dos corpos negros que compõem a exposição dão voz a milhões de corpos que são silenciados diariamente por meio de uma invisibilidade imposta e perversa, que sutilmente é capaz de violentar. “Os trabalhos instigam a refletir sobre esse corpo negro e seu potencial de expressão, compartilhando com o público toda dor gerada por um discurso racial que nega sua existência. O uso do próprio corpo dos artistas para a produção dos trabalhos conduz à concepção curatorial da mostra”, afirma.

Corpos políticos

Rosana Paulino resolveu subverter uma imagem fortemente simbólica de uma mulher negra desconhecida que tem o intuito de validar a falsa ideia da inferioridade da etnia negra. Na fotografia da expedição Thayer capitaneada pelo cientista Louis Agassizque, a mulher representa a base da pirâmide social, que tem os brancos no topo. Na obra Assentamento, releitura da imagem, em vez de essa mulher ser a base da pirâmide, ela ganha vida na obra e se transforma num canal em que as raízes de baixo são a terra, a vida, e as raízes de cima formam uma espécie de céu, pensando, por exemplo, a ascensão das religiões de matriz africana.

Rosana, ainda na mesma obra, se atenta para a história daqueles que sofreram o trauma da escravização ao deixarem seu local de origem, familiares, costumes, e serem explorados numa nova realidade insalubre. Como esse contexto histórico perdura e impacta a sociedade até hoje, resolveu costurar as obras da peça de uma forma desencontrada, como frisa a artista. “Esse é o drama do Brasil! Enquanto a conta da escravidão não for bem equacionada, não fechará. São as nossas costuras que não fecham!”

A violência contra os corpos negros é questionada na instalação de Helô Sanvoy ao misturar carne, sal grosso e balas de arma de fogo Dalton Paula, artista negro formado pela escola de Artes Visuais da UFG, também acredita na importância de se entender a negritude e de resistir às marginalizações como corpo silenciado. Apesar de ainda produzir coisas que o incomodam, afinal muitas dessas questões já deveriam ter sido resolvidas, Dalton busca nas suas obras referências de corpos negros em diversos recortes: no terreiro, no subúrbio, na dança, entre outros espaços. “O corpo negro já é político somente pelo fato de existir e resistir”.

Contar a própria história

O Brasil foi colonizado e durante esse período os exploradores massacraram milhares de indígenas, escravizaram e mataram diversos negros trazidos a força do continente africano. Mas o que os brasileiros sabem além disso? Quais histórias são fornecidas a população, em especial aos negros? Foram alguns dos questionamentos do historiador africano Elikia M’Bokolo no I Seminário de História da África e suas Diásporas, realizado na UFG em setembro. Afinal, vivemos num país onde a maior parte da população é negra e a maioria dos estudos refere-se à visão dos colonizadores, numa educação muito branca, que não traz a existência, a luta, a cultura e os costumes dos afro-brasileiros. Segundo o historiador, o mundo arquitetou uma visão estereotipada sobre o continente africano e continua perpetuando a imagem de um território tomado por coisas negativas... “mas não é assim, por lá temos muitas coisas boas e buscamos sempre melhorar”, explica. M’Bokolo ainda aproveitou para apontar três aspectos básicos para se repensar a África e se questionar o conhecimento difundido no Brasil a respeito do continente. “Os problemas geográficos entram como primeiro marcador, pois a história da África é mundial, o continente teve relações com todas as partes do mundo”.

O segundo aspecto está relacionado a temporalidade. Para o africano, não se deve definir um determinado momento histórico com um conceito que surge anos depois. “A história da África tem sua própria duração e não se resume aos períodos de colonialismo. Devemos pensar o contexto para conhecermos o passado, entendermos o presente e produzirmos ações para o futuro”. O terceiro tópico se resume às questões sociais e questiona quem são os atores da história da África. “Não são só os reis ou imperadores. É sobre a vida do povo africano. É a coisa de todos nós. Não é só dos historiadores, precisamos intercambiá-las também”.

Mas não é só de hoje

Lima Barreto, por exemplo, já fazia isso. O autor negro lutou contra diversas injustiças sociais ao publicar obras que questionam os privilégios de classe, além de tematizar os preconceitos de raça dos quais ele próprio era vítima, criando histórias com protagonistas e outros personagens negros. Nos dias de hoje, o autor foi homenageado com a biografia Lima Barreto triste visionário, da autora Lilia Moritz Schwarcz, que defende: “ele era um intérprete do Brasil e pretendia um país com mais inclusão social”.


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Fotos: Carlos Siqueira

Segundo os professores, nesse sentido, “é preciso ter em mente que alteramos drasticamente os ecossistemas que armazenam e fazem circular a água”. E eles explicam como: “as

fontes de água que utilizamos encontram-se na superfície ou abaixo dela. Quando desmatamos ou impermeabilizamos o solo, comprometemos a drenagem natural e, por vezes, aceleramos o escoamento superficial, podendo provocar assoreamento dos cursos d’água, erosão e redução do volume d’água”. Para Karla Emmanuela e Maurício, as medidas tomadas para superar a “crise hídrica” e evitar uma escassez de água na Grande Goiânia deveriam passar por uma ação conjunta entre municípios, governo estadual, setor produtivo e população. Mais do que isso, seria preciso repensar a expansão da cidade, sobretudo, no que diz respeito aos interesses imobiliários. “Não há outro caminho que não seja a proteção ambiental dos mananciais de abastecimento de água atuais e futuros”, completam.

A fonte secou? Por que falta água na Região Metropolitana de Goiânia? Estamos, de fato, diante de uma crise hídrica? Pesquisadores da UFG buscam respostas para o problema Patrícia da Veiga

C Confira o artigo completo

om a promessa de atender 100% da Região Metropolitana de Goiânia, foi inaugurada, no dia 19 de setembro, a Estação de Tratamento de Água (ETA) Mauro Borges. A unidade faz parte da terceira etapa do Sistema Produtor João Leite que, juntamente com o Sistema Meia Ponte, tem como meta abastecer 20 municípios até 2040. A ETA Mauro Borges iniciou seu funcionamento dez dias antes da solenidade oficial, em caráter emergencial, diante de um cenário de calamidade pública. O período de estiagem na Grande Goiânia durou mais de quatro meses, o Rio Meia Ponte registrou a menor vazão das últimas três décadas e o resultado foi falta d’água em mais de 50 bairros. A Vila Itatiaia, por exemplo, localizada ao lado do Câmpus Samambaia, na Região Norte da capital, ficou até três dias consecutivos sem uma gota nas torneiras.

“Não é possível garantir água para todos se não repensarmos nosso modelo de ocupação urbana”, respondem de maneira taxativa os professores Karla Emmanuela Ribeiro Hora e Maurício Martines Sales, da Escola de Engenharia Civil e Ambiental (EECA), que escreveram um texto sobre o assunto especialmente para esta edição. Ambos participam das reuniões de elaboração do Plano de Desenvolvimento Integrado da Região Metropolitana de Goiânia (PDI-RMG) e lidam com um diagnóstico preocupante. Segundo o que constataram no âmbito de um grupo de trabalho formado por UFG, Secima, Universidade Estadual de Goiás (UEG), Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO), conselhos de Engenharia e Agronomia (CREA) e Arquitetura e Urbanismo (CAU), entre outras entidades, menos de 25% da Grande Goiânia é composta por vegetação remanescente de Cerrado. Isso significa que há muitas áreas vulneráveis e, inclusive, as Áreas de Proteção Permanente situadas no entorno dos cursos d’água já possuem alto nível de degradação.

Água para quem? Muitos são os usos da água na atualidade: geração de energia, agropecuária, transporte hidroviário, abastecimento público, pesca, turismo, lazer etc. No Brasil, o mais polêmico deles tem sido a irrigação. Conforme dados da Agência Nacional de Águas (ANA), a modalidade consome 72% da água captada no país – e nem sempre o destino das lavouras é o consumo humano. Ao todo, são 19,9 mil pivôs centrais situados em uma área de 1,275 milhão de hectares. Em março de 2017, quando se comemorou o dia mundial da água, o Instituto de Estudos Socioambientais (Iesa) realizou uma mesa-redonda intitulada “Água e agronegócio: para além dos mitos do consumo urbano”. Na oportunidade, o professor Marcelo Rodrigues Mendonça, um dos convidados a compor o debate, trouxe ao público uma reflexão: “se há uma questão hídrica, e há, essa questão é precedida por uma questão agrária”. Marcelo apresentou investigações que abordam a destruição ambiental, a precarização do trabalho e a exploração dos recursos naturais (água, terra, biodiversidade) como consequências do agronegócio. E como resultado desses trabalhos citou a morte de veredas nas regiões de chapada, tanto em Goiás como em Minas Gerais, em função de desvios feitos para a irrigação de grandes lavouras. Ele lembrou, também, da poluição de mananciais em decorrência do uso excessivo de agrotóxicos nas plantações. “Se há mitos sobre a água, e há, também há o mito da modernidade tecnológica”, questionou. Para o professor, é preciso lançar outro olhar sobre o tema da escassez de água. “Há que se entender que as disputas pelos territórios têm lastro do ponto de vista do poder econômico ou das construções históricas em que os atores locais estão inseridos”, defendeu. Ele citou como exemplo o fato de assentamentos da reforma agrária localizados no município de Cristalina, no entorno do Distrito Federal, não possuírem acesso à água. “Por que os camponeses não têm água? E por que essa água, em alguma medida, está sendo usada, ou para o modelo energético, ou para o agronegócio? É o que precisamos discutir”, denunciou.

Ana Fortunato

A situação fez o governo estadual decretar medidas de emergência, limitando o uso do Meia Ponte até 12 de dezembro. Assim, de acordo com a Portaria n° 205/2017 emitida pela Secretaria de Meio Ambiente, Recursos Hídricos, Infraestrutura, Cidades e Assuntos Metropolitanos (Secima), estão suspensas emissões e renovações de outorgas; a captação para fins de irrigação fica limitada ao período noturno e até mesmo a empresa Saneamento de Goiás S.A. (Saneago) terá de limitar seu volume de distri-

buição. Ou seja, o racionamento não está descartado. Muito embora a falta d’água não seja lá uma novidade – há dois anos a Agência Nacional de Águas (ANA) vem alertando quanto ao déficit dos mananciais do Cerrado como um todo –, o Jornal UFG buscou especialistas para compreender o problema: O que está acontecendo? Há solução? Medidas como as anunciadas são suficientes?

Pesquisa

Enquanto isso, as cidades crescem, justamente, sobre os pontos de captação de água destinados ao abastecimento público. Já são quase 2,5 milhões de habitantes na Região Metropolitana e uma falta de planejamento contribui para um “desequilíbrio” entre o consumo humano e as ações de esgotamento sanitário. A poluição aumenta e o tratamento de rejeitos e resíduos não consegue acompanhar. Todos esses são fatores que, somados ao período de estiagem que é característico do bioma no qual estamos inseridos, promovem a chamada “crise hídrica”.


Extensão

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Constelação familiar como aliada em tratamentos A terapia integrativa é utilizada no Ambulatório de Ginecologia do HC Carolina Melo

T

odo segundo sábado do mês, cerca de 150 pessoas se reúnem no auditório da Faculdade de Educação (FE) da UFG para participar do Grupo de Constelações Familiares, vinculado à atividade de extensão do Hospital das Clínicas (HC). O trabalho é direcionado às pacientes com dor pélvica crônica e também às pessoas em conflitos familiares.

Segundo Vânia Meira, todo sintoma e toda doença é um mensageiro dos contextos em que estamos inseridos e de nós mesmos. “Normalmente a medicina se encarrega de matar a mensagem, sem entendê-la. E com o trabalho de constelação, ajudamos as pessoas a olharem para esse mensageiro”, diz. Para José Miguel de Deus, gerente de ensino e pesquisa e coordenador do ambulatório de dor pélvica do HC, o método contribui para trazer à consciência o que está no pano de fundo. “Trata-se de uma filosofia aplicada à vida com possíveis efeitos terapêuticos. No entanto, é necessário que se compreenda que a técnica não substitui a terapia médica ou psicológica. Ela deve ser concebida como um recurso adicional para a melhoria da qualidade de vida das pessoas”, afirma.

Qualquer pessoa pode participar do grupo de constelações do HC, desde mulheres que sentem dor pélvica até interessados da comunidade. Para isso, basta levar dois quilos de alimento não perecível e disponibilizar o nome para o sorteio de quem será constelado. A cada encontro, quatro pessoas são sorteadas. A professora de pilates, Geise Luanna Ayres Mendes, 35 anos, ficou sabendo há cerca de três meses e, com dores no ventre em razão da endometriose, resolveu conhecer o trabalho. Já em seu primeiro encontro, foi uma das escolhidas. “Alguma coisa me dizia que seria eu a sorteada.

Médico e professor da UFG, José Miguel afirma que a constelação é um auxílio para a paciente entender a mensagem da dor. “Nisso, é possível obter a melhora ou permitir às pessoas a conviverem com ela”. Para Geise Luanna, a constelação contribuiu para que ela aceitasse a doença. “Não é fácil. Quando você tem uma doença, entender é muito difícil. A gente questiona: por que tinha que ser comigo, por que tem que ser assim. Descobrir certas coisas na vida é fundamental para se libertar. Não podemos ficar olhando pra trás, resmungando. A vida é seguir em frente”, disse.

Ilustração: Ingrid Costa

Com uma abordagem sistêmica fenomenológica, a constelação familiar é uma técnica de terapia integrativa que ajuda as pessoas a se reconciliarem com as suas culpas e com os seus destinos. Aliado ao tratamento de saúde, o método contribui para um atendimento holístico do paciente. “Os currículos dos cursos de graduação na área da saúde orientam a avaliação do paciente a partir de uma perspectiva biopsicossocial e não apenas biológica. E a constelação vai propiciar o olhar para esse contexto mais completo, levando-se em conta que a doença se manifesta em um desses aspectos”, explica a médica Vânia Meira e Siqueira Campos, ex-coordenadora externa do projeto e atualmente aluna de pós-graduação da UFG.

Foi uma experiência única. Eu me entreguei, queria muito entender o meu problema. Palavras me faltam para descrever como foi importante. Até então, não compreendia como minha mãe e minha avó falecidas ainda estavam ligadas a mim, e também a minha relação com minha avó paterna e meu pai”, disse.

A origem da dor

Entender de onde vem a dor pélvica foi, inclusive, o que motivou José Miguel a incluir a constelação familiar como um projeto vinculado ao Ambulatório de Ginecologia do HC. Conforme lembra, desde quando era médico residente, na década de 1990, analisava cada paciente com dor no baixo ventre através da laparoscopia e, em um terço das mulheres, ele não encontrava nada, um terço tinha aderências pélvicas, e o restante, endometriose. Os índices observados no atendimento, segundo o médico, correspondiam com as pesquisas da literatura médica. “E quando comunicava à paciente que não tinha nada, ela ficava zangada”.

No tratamento da dor, José Miguel se deparava com outro dado considerado curioso. “Uma parte das mulheres com aderências, após o tratamento, não percebia melhoras, outra parte sentia a piora do quadro e havia as que obtinham melhoras por meses, mas depois a dor voltava”. No caso da endometriose, segundo ele, o controle da dor se dá por meio de medicação, mas com efeitos colaterais em muitas pacientes. “Sempre achei isso muito intrigante. Sempre fiz consultas demoradas tentando compreender o que mais ocorria com essas mulheres”. A partir de uma investigação mais minuciosa, o médico foi identificando histórias de sofrimento vin-

culadas às dores pélvicas. “Com o tempo fui percebendo que grande parte das mulheres tinha conflitos existenciais, histórias difíceis na família, dores que se associam com a culpa”. Segundo José Miguel, o início da dor quase sempre coincidia com algum evento importante e dramático na vida da mulher. Também, de acordo com o médico, a maioria delas, em torno de 58%, apresentava um quadro de depressão. “Considerei que a constelação poderia ser uma aliada do tratamento e, de fato, vem sendo. A melhora por meio do método corresponde com aquela obtida por medicamentos. E chegamos a publicar essas conclusões em 2014 em artigo científico”, conta.

O Grupo de Constelações Familiares foi criado em 2006. O primeiro encontro reuniu nove pessoas. Há quatro anos o trabalho foi cadastrado como projeto de extensão oficial e passou a ocorrer no auditório da FE, em razão do crescimento do número de interessados. Participam do projeto uma aluna do mestrado e quatro alunos da graduação em medicina da UFG, mas há oportunidades para graduandos de diferentes áreas, nas quais a constelação familiar vem tendo destaque, como psicologia, pedagogia, direito, serviço social, musicoterapia, enfermagem e administração, bem como estudantes

de outras instituições universitárias. Durante os encontros, acadêmicos dessas áreas são convidados a participarem da constelação como observadores.

O método

Popularizada pelo alemão Bert Hellinger, a constelação familiar é uma técnica de representação espacial das relações familiares que permite identificar bloqueios emocionais de gerações ou membros da família. Formado em Filosofia, Teologia e Pedagogia, Hellinger publicou a obra “O essencial é simples” em 1999, na qual relatou 63 casos de terapias breves em pacientes com os mais diversos sintomas e ou doenças crônicas graves nos cinco anos que antecederam a publicação. A finalidade não era curar os pacientes, mas auxiliá-los a lidar melhor com os seus problemas de saúde. No entanto, com as terapias, Hellinger observou, para a sua surpresa, que os sintomas apresentados inicialmente por diversas doenças desapareceram em parte dos pacientes, e outros passaram a conviver melhor com o problema de saúde. Próximos encontros Outubro: 14/10 Novembro: 11/11 Dezembro: 09/12 Horário e Local: 8h - Auditório da Faculdade de Educação


15 Opinião

ARTIGO

“A Carlos Siqueira

pesar de tão temida, a Matemática abre vários horizontes. Foi isso que me fez optar pelo curso de Matemática, em vez do de Arte, que era minha grande paixão. Na graduação cursei disciplinas e palestras que envolviam Matemática Aplicada e, nesse momento percebi que poderia vivenciar a Arte de outra maneira em minha vida. Tive a oportunidade de trabalhar com os temas aplicados no mestrado e no doutorado que foram sobre Sistema Presa-Predador (que avalia coexistência entre espécies) e o modelo Matemático da Fonação (visa entender o princípio da fala humana). Além desses temas, hoje trabalho em parceria com Modelos Estocásticos (probabilidade) e de Genomas (computacional). O que me interessa é associar temas diversos à matemática e torná-los “acessíveis e concretos” ao público. Não é isso que a Arte faz?

*Maurício Pieterzack

A matemática está onde menos esperamos

A

Atribui-se a Pitágoras a criação das palavras “filosofia” (ou “amor à sabedoria”) e “matemática” (ou “o que é aprendido”) para descrever as suas atividades. Na Grécia antiga viveu o maior matemático da antiguidade, Arquimedes. Durante o cerco dos romanos à Siracusa, Arquimedes inventou engenhosas máquinas de guerra para manter os inimigos à distância (catapultas para lançar pedras; cordas, polias e ganchos para levantar e espatifar os navios; lentes parabólicas para queimá-los, sempre utilizando conhecimentos matemáticos). Arquimedes também inventou um engenho, conhecido como parafuso de Arquimedes, que permitia levar água de regiões baixas para regiões mais altas.

Atualmente os matemáticos desempenham atividade intelectual altamente sofisticada, embora com aplicação na vida prática, de uma matemática que não é acessível ao grande público. Matemáticos foram fundamentais para a invenção e o desenvolvimento do computador e do telefone celular, bem como para a instalação das redes de comunicação e da administração de fluxo de comunicações que envolvem problemas matemáticos de relevância. A organização de dados sobre o fluxo de veículos em milhares de cruzamentos nas grandes cidades, determinando o menor tempo para abrir e fechar

semáforos depende da matemática, sem contar que ela também foi importante para criar os automóveis, trens e aviões. A matemática também está presente no estudo do clima, na otimização da irrigação das plantações e na adaptação da topografia dos terrenos, contribuindo para o desenvolvimento de novas espécies, a criação de tecnologias em equipamentos como colheitadeiras, além da fabricação de remédios e fertilizantes.

O processamento de imagens e a comunicação de dados são tecnologias dependentes da matemática. Além disso, a matemática está relacionada com a segurança nas transações bancárias, com o uso de senha e compras pela internet, que utilizam códigos corretores de erros em sistemas criptográficos. Também na medicina vemos sua importância: no estudo do comportamento das endemias; na concepção de novos medicamentos; nas técnicas de diagnóstico por imagem, como a tomografia computadorizada e a ressonância magnética; sem contar suas inúmeras aplicações na bioquímica e nas ciências biológicas de forma geral.

Kélem Gomes Lourenço é professora do Instituto de Matemática e Estatística da UFG

Arquivo Pessoal

matemática surgiu como parte da vida cotidiana do homem, para quantificar, relacionar coisas ou objetos e fazer medições de terras (como ocorria no Egito após cada inundação do rio Nilo). Há mais de 3.800 anos, matemáticos babilônicos desenvolveram uma trigonometria que podia ser usada para realizar cálculos arquitetônicos na construção de palácios, templos, canais e pirâmides, por exemplo. Os gregos, supostamente em grande parte pelas mãos de Tales de Mileto e Pitágoras de Samos, receberam esses conhecimentos. Os matemáticos gregos aprenderam essa matemática, a desenvolveram e foram os responsáveis pela sua formalização, enunciando e provando teoremas, além de utilizar a matemática para a resolução de problemas práticos, como os já mencionados.

Desde a graduação em Matemática me sentia desafiada em vários contextos: primeiro por vir de uma escola pública e sentir que pouco sabia; por ter de conciliar trabalho e estudo; e em pouquíssimos momentos tive de mostrar aos colegas de estudo que minhas habilidades não estavam associadas ao meu gênero, pois existia uma certa competição. Mas na Universidade há espaço para todos, independente de sexo, raça e cor. Senti isso ao ingressar como professora doutora no IME/UFG. Basta ter bons projetos de pesquisa, ensino e extensão e a promoção virá pelo mérito. Talvez em alguns momentos estejamos mais vulneráveis que os colegas do sexo masculino, por ter de conciliar o trabalho com a família, casa e pelo fato das mulheres em geral serem mais sensíveis, mas isso não nos impede de exercermos nossa profissão com perfeita maestria. Os desafios e obstáculos fazem parte do crescimento pessoal.”

O desenvolvimento da matemática traz benefícios a toda a sociedade. Segundo Napoleão Bonaparte, “o progresso e aperfeiçoamento da matemática estão intimamente ligados com a prosperidade do Estado”. Quanto à sua aplicabilidade, são marcantes as palavras do matemático russo Nikolai Lobachevsky: “Não há ramo da matemática, por mais abstrato que seja, que não possa um dia vir a ser aplicado aos fenômenos do mundo real”. Em 2018, o Brasil sediará o Congresso Internacional de Matemáticos, coroando o Biênio da Matemática no Brasil. Maurício Pieterzack é Diretor do Instituto de Matemática e Estatística da UFG

O Jornal UFG não endossa as opiniões dos artigos, de inteira responsabilidade de seus autores.

Quer falar sobre sua pesquisa ou projeto de extensão? Escreva um texto em primeira pessoa e envie para jornalufg@gmail.com


Cultura

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Ilustração: Gabrielle Carneiro

Dicionário Goianês Avançado Com o objetivo de registrar e preservar a memória popular, aposentados da UFG publicam livro com mais de 300 expressões goianas Patrícia da Veiga

“E

spia só”: Armando Honório da Silva e Ismael David Nogueira, ambos servidores técnico-administrativos aposentados, no tempo em que trabalharam juntos na Universidade Federal de Goiás (UFG), de tanto “jogar conversa fora”, descobriram que são “a tampa com o balaio”. Muito “ladinos”, de pronto reconheceram um no outro as origens camponesas, o apreço pela cultura popular e o sentimento saudoso em relação ao vivido. Passaram a compor músicas caipiras, rascunhar poesias e a tomar nota do modo de falar que “está no mundo”. “Atinaram” que esse é um fazer que sempre lhes fez “dar as horas”. Foi assim que a dupla “refrescou” quatro mil palavras e expressões e, “condefé”, pouco mais de 300 delas estavam organizadas em um livro eletrônico.

Confira a publicação

Termos e expressões do coloquial do cotidiano da zona rural no Brasil central no século XX (Goiânia: Gráfica UFG, 2017. 157 p.) é o título da primeira publicação virtual da Gráfica UFG, assinada por Armando e Ismael. Trata-se de um dicionário que pode ser bastante útil, sobretudo, quando dois ou mais goianos estiverem “engatados” naquela prosa afiada que ora atravessa gerações, ora fica para trás. Segundo Armando, a ideia do registro é manter a memória viva. “O que está na boca do povo vai se perdendo e nos

preocupamos com isso. Muito do que ouvíamos quando jovens, não se usa mais. Por isso, o que fizemos foi uma tentativa de preservação”, comenta.

Armando e Ismael passaram sete anos (de 2009 a 2016) “assuntando” e anotando termos que expressam o modo como as pessoas se relacionam umas com as outras, no trabalho, nos momentos de lazer, com a natureza, com a culinária, na religiosidade, na música etc. Para tanto, recorreram aos ouvidos, à atenção imediata e também às próprias recordações. “Não há registro sistemático dessa linguagem em lugar algum, sua fonte de pesquisa é a memória das pessoas mais antigas e as conversas casuais do cotidiano presente”, escreve Ismael, no livro. Nesse trabalho, o olhar de Armando e Ismael para o senso comum é sensível e apurado. No processo de elaboração do dicionário, eles adotaram métodos para resgatar as palavras. Essas, ainda de acordo com o prefácio assinado por Ismael, muitas vezes “vinham à lembrança sem nem um estímulo”. Conforme explica Armando, os cadernos de campo e o diálogo constante foram os procedimentos escolhidos: “nós anotávamos tudo,

andávamos com os caderninhos para todo canto e íamos relatando um para o outro o que havíamos escrito”.

Como a própria vida

O e-book assinado pelos servidores técnico-administrativos tem um quê de biográfico. Ismael é natural de Mato Grosso. Quando menino, ele viveu com a família perto de um garimpo, de onde retirou boa parte de seu repertório. Já Armando, nascido em Minas Gerais, veio criança para morar em Pires do Rio, trabalhou em lavoura perto de Pontalina por cinco anos e em 1967 entrou para o quadro de servidores da UFG. Atualmen-

te, mesmo aposentado desde 1994, Armando continua colaborando com a universidade, atuando nos arquivos do Departamento de Contabilidade e Finanças (DCF). Já Ismael, que se aposentou em 2017, retornou à terra natal. “O livro, na verdade, é a vida da gente”, resume Armando.

Uai, mas o que quer dizer? “A mingau ralo” – Sofrido, fraco em más condições de saúde. “Biscoitar” – Abiscoitar, pegar, tirar uma parte. “Cachorro mordido de cobra tem medo até de linguiça” A prevenção é o melhor caminho. “Coivara” – Sobras de madeira queimada em área de plantio. “Dinheiro pra sapecar porco” Muito dinheiro. “Espírito de alicate” – Pessoa de comportamento antiquado, irritante e maléfica. “Lequera” – Inverdade, embromação verbal, conversa fiada.

Jornal UFG 91  

Publicação da Assessoria de Comunicação Universidade Federal de Goiás ANO XI – Nº 91 – OUTUBRO 2017