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jornal literário Número 12 - ano II - abril de 2015


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Editorial

A

cidade dormia quando o urso apareceu. Suas patas mal fizeram barulho no asfalto. Dos bueiros saia uma luz esverdeada que grudava nas coisas. O urso viera de longe, de uma floresta mágica e perdida. Passou pela praça, os mendigos deitados nos bancos apenas se encolheram embaixo dos jornais e observaram o urso abrir com patadas os portões do zoológico e ouviram os animais fugindo. As gazelas foram as primeiras a sair, seguida das hienas e das zebras. O trotar dos elefantes trincou o asfalto e derrubou postes. Os urros dos leões quebraram vitrines mostrando manequins desnudos, em poses eróticas. Quando a lua surgiu os bueiros estavam apagados e não havia mais nenhum som selvagem ecoando na cidade. O zoológico estava aberto e vazio. Na entrada havia apenas um rastro da passagem do urso: Jornal Olaria das Letras n.12. Agradeço a todos pela colaboração. Boa leitura. Henrique Vale

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edição: Henrique Vale textos: Henrique Vale, Elias Antunes, Lívia Pizauro Sanches, Izabela Ramos,Rui Werneck de Capistrano, Rômulo Reis de Oliveira,Edweine Loureiro, Timóteo Pernas, Wlange Keindé, Adilson Roberto Gonçalves, Wallace Nunes, Denivaldo Piaia, Andressa Takao, João Batista dos Santos,Cláudio da Cruz Francisco, Caroline Velasco,Pedro Gustavo Moreira, Bianca Ferraz Bitencourt, José Ronaldo Siqueira Mendes, Sabrina Dalbelo, Priscila Queiroz, Aline Borba, Sonia Regina Rocha Rodrigues ilustrações: Izabela Ramos, Orion (Márcio Oliveira)


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olaria das letras Coração baderneiro Lívia Pizauro Sanchez Coração baderneiro faz bagunça em mim... Tira tudo do lugar: roupas, medos, certezas, sapatos e desejos. Faz emaranhado dos fios, Interrompe a comunicação – são entradas e saídas sem fim. Perde meus cabos, meus adaptadores Tenho que sozinha me carregar Vira a alma de ponta-cabeça, chacoalha. Revira gavetas, amores, cabides, dores. Coração baderneiro faz uma baita bagunça em mim, e quando organizo as coisas tenho mania de jogar tudo fora Depois fico procurando, em cantinhos de mim: - Cadê aquilo que precisava tanto, agora? E quem não se importa em viver assim? Pode me atrapalhar a arrumação. Imploro: - Venha, junte seus entulhos, bote tudo no lugar de uma vez! Mas não... Faz bagunça, coração! Que é tentando te ajeitar que a vida vem! Mas bagunça de mim mesma Que quando mãe arruma o quarto A gente se perde na sua organização, tão perfeita. tão alheia. Vamos brincar de guerra de travesseiros? Porque o lençol que sai da cama espalha penas e sentimentos. Coração baderneiro, faz bagunça em mim!

Lívia Pizauro Sanchez é Pedagoga e Mestre em Mudança Social e Participação Política pela USP. Professora de Educação Infantil, escreve de forma amadora, e administra a página Diários de Viagem Interior, em que publica textos e reflexões sobre o autoconhecimento.

AU-AUTORRETRATO Elias Antunes O elias antunes é um cachorro pequeno, Às vezes correr atrás do próprio rabo é tudo o que vemos; é pequeno e vira-latas, pensa que todos os nós se desatam; é odiento e cheio de pulgas, só funciona quando está em fugas; já levou tanto cuspe, tanto chute, tanto: saia! Que não se move, Mesmo que a casa caia;

© asmakar - Fotolia.com

Os pelos caindo, o rabo baixo, Porretes, pedras, para-choques, Venenos, calhaus, balas... Toda arma contra ele é pouco, E só desse jeito veremos o fim Desse cachorro louco.


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Sorrisos congelados Somos cópias, corpos clonados, carne e cor, coragem e covardia, somos seres especiais em busca da felicidade plena. Sabe-se do valor da vida, existência e tudo mais, porém ter ciência não é vivenciar esse fato, ao menos sei que cospem vidas por aí, como folhas se desprendem de árvores, tamanha ingratidão jamais poderá ser comparada, afinal, nós é que a inventamos em meio ao costume de ter tudo o que quer e desprezar tudo o que pode. Números não contam, quantificam; a diferença mora no conceito, um inclui, o outro mede. Com isso percebo que conto amizades e quantifico pessoas, conto meus lápis, quantifico suas cores e que não posso contar amores, nem mesmo quantificá-los, pois considero como fatos "unitários" da vida. Mesmo sendo uma cópia do passado, mesmo vivendo entre irmãos, e, mesmo abusando com os olhos todas as diferenças existentes, sinto que o tempo se arrasta em uma subida íngreme e que os segundos e a eternidade são lendas dos homens pré-históricos. Eu vivo no tempo do homem, sonhando com o tempo da vida. De repente é Sol e do outro lado, Lua e então nota-se as metáforas que a vida incita. Hoje somos Luz, mais tarde, sombra; faces pouco controladas que moldam nossa personalidade infame. Hora dia, hora noite, circunstâncias da plenitude do tempo, do medo do escuro ou das pragas dos céticos. Ironia não é a transmutação das cores, e sim a inconstância das nossas ideias; hoje eu sigo, amanhã eu paro, outrora sumo e de repente é dia, por fim, prefiro esperar a noite. Despido do mundo, resolvo meu trajeto em um jogo de sorte e sinto o frio chegar como uma onda furiosa, me congelo no vácuo que escolhi como destino e me sinto como um animal preso por sua dona em uma coleira apertada, e o cômico disso tudo é que então me sinto mais próxima das outras pessoas, preparada para responder aos comandos com disciplina e precisão e receber um agrado no fim. Contudo, saiba que as almas querem sair e sentir o que é pleno; querem o paradoxo da vida terrena e além disso querem fazer o uso correto das palavras e seus significados. Talvez muitos não saibam ainda que através do que se é e do que se sente existe um espelho, e que no fundo de tudo sempre há um começo. Vejo um presente como um círculo, mas lembro-me dele como um espiral; sorte é um pensamento irônico da alma, enquanto sorrimos no frio.

Izabela Ramos, 17 anos, autora do livro Alma e estudante do Ensino Médio.


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"Chamados da chuva e da memória" de Elias Antunes ganhou o 1ª lugar no prêmio il Convivio, da Itaília, do ano de 2014, para melhor livro publicado em língua portuguesa. O livro do Divino Damasceno, "Baú de Cinzas" ganhou o 3º lugar do mesmo prêmio.


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Desafio Literário

O

desafio-tema do mês de setembro-outubro foi «vento». Publicamos as poesias e os minicontos selecionados.


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POESIA

INVASÃO

no princípio

Elias Antunes Rui Werneck de Capistrano

Solta os cachorros para a procura, mas não se encontra entre as pedras ou entre os bois ou nos olhos que calam à noite ou nos vitrais do tempo incandescente ou na fúria do vento ou debaixo das moscas que derruem o tempo e as feridas ou na distância dos

no princípio era o ar pra gente respirar veio a brisa e me disse eis o vento e logo que gritou rede mo inho pé de v e n to e v e n t a n i a voltei pra caverna me abrigando pois virou

tu fão TOR na clo

corvos ou na prefiguração da aurora ou no labirinto do corpo. Ó,

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CÃO

ladrões de fogo, arrastando os ferros como uma cauda de dragão. E a rebelião caminha, mas não se encontra, dentro de garrafas, uma outra linguagem e que na solidão povoa.

Ventania de poesia Rômulo Reis Oliveira O vento tanto leva como traz No sopro percebe-se a sensibilidade Descendo num paraquedas voraz Flutuando nas asas da liberdade O prazer sentido na brisa Respira transpirando as emoções Do poeta ou da bela poetisa Na ponta dos dedos corações O deus Atrasou Odisseu Nosso essencial quarto elemento Tornado de emoção invadiu Romeu A poesia é como o vento Na partida retorna o regresso Vai e volta da ventania A vela da embarcação o “Verso” O vento é com a poesia.


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FUNERAL Edweine Loureiro

Quando o caixão e as lágrimas descem, rumo ao esquecimento, até as velas ofertadas são apagadas pelo vento.

O que fará, então, às flores a implacável ação do tempo?

Ó vento... Timóteo Pernas Ó vento leva o tempo Não posso mais ficar Ó tempo lembra o vento De outro alguém por amar O tempo que passou Nada dura para sempre O tempo que nos levou Num breve instante, der repente O vento que passou Preso nos braços do mar Quis amar quem tanto amou Outro alguém foi abraçar Ó vento leva o tempo Não posso mais ficar Ó tempo lembra o vento De outro alguém por amar O tempo diz ao vento Nunca é tarde para amar Ó vento ainda lembro Outro alguém fui encontrar Ó mote diz ao norte A vida que tenho para dar Vou para sul diz a sorte Esse amor vou desejar Ó vento leva o tempo Não posso mais ficar Ó tempo lembra o vento De outro alguém por amar O passado já passou O futuro ai vem Ganha quem mais amou Por gostar de alguém

Novo destino Wlange Keindé Eu cansei de escrever cartas de amor Escreverei portanto sobre o vento Sobre esta brisa calma, este momento Que me faz esquecer o anterior Tentei me apaixonar, não vi provento Por isso me afastei desse setor Agora sou poeta, meu leitor Encontrei na amargura meu talento Com traços tortos, ponho no papel Aquilo que me trás admiração E ao resto eu digo: não me causa mal De hoje em diante vou viver melhor Só me importarei com minhas estrofes E assim darei adeus ao que é banal

O vento tudo levou O tempo já não conta Por amor tudo deixou Ao passado já não volta Ó vento leva o tempo Não posso mais ficar Ó tempo lembra o vento De outro alguém por amar.


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gosto de escrever Adilson Roberto Gonçalves uma porta adentro, afora um momento. no rosto, vento, lento. palavra em lamento invisível molhável olho do tempo carrega o ar sofreguidão sem respirar. vento acústico inodoro. ao sabor dos ventos de memória de história de agora.

Ventos iguais Denivaldo Piaia

O vento que sopra aqui é o mesmo que sobra la. P'ra la derruba caqui, Aqui cai maracujá.

VENTO Andressa Takao

Esse veneno vence? Wallace Nunes Vivo para ver você voltar Você vai vir? Ou não virá? Vacilo ao tentar dar vazão Ao vício sem vacina Que é você

Vento sul, passa pelos cabelos longos passeia pela pele dele como caracol. Vento Norte, esfria as mães e gela a alma até os pés com uma sensação de êxtase.

Vasculho a vastidão Da minha cabeça com veemência Vendo se o teu veneno Venceu.

Vento Oeste que escorre pelas veias quentes do desejo e transforma seu corpo rijo em amor e sexo.

Na varanda o vento venta no meu varal. Tia Vera vem me visitar No verão.

Vento Leste, teus olhos encontram os dela e a espuma misturada ao vento e ao cheiro do amor, transforma o ato sexual em bruma.

E você? Vai voltar E viver a vida Comigo?

A MOÇA E O VENTO JOÃO BATISTA DOS SANTOS ah a primeira moça de minissaia eu me lembro eu me lembro seu nome luzia impávida por um e(terno) momento venceria sempre o tempo (jamais envelheceria) dançava sempre ao vento nos bailes nas calçadas nas praças nas praias nas noites nas tardes super estreladas nas minhas lembranças no meu velho coração que sempre ao (re)vê-la também remoçava ah minissaia eu me lembro eu me lembro eu ardia eu ardia eu pensava tomara que caia tomara que caia


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Miniconto Sonho de consumo Rui Werneck de Capistrano

Feliz, no meio do pé de vento, o Saci-Pererê achou um pé de sapato novo.

A diversão do vento Cláudio da Cruz Francisco Ignorou o vento suave. Saiu da sala e deixou as janelas escancaradas. Quando voltou, espantou-se. Torceu o nariz. Sabia que teria muito trabalho. Aquela brisa, considerada inofensiva, se divertiu. Fez os documentos bailarem sobre a mesa.

Mar Caroline Velasco O vento misturou-se ao ar salgado. Tirou a borboleta para dançar. Soltou os meus cabelos e trouxe à minha alma, toda a calma que podia carregar.

Conto do vento do amanhecer Elias Antunes Era preciso amanhecer e o vento soprava no meu rosto. O sono pesado como uma pedra de basalto insistia em me pregar no chão. Não poderia sucumbir outra vez e mais outra. Amigo vento, socorro.

Pedro Gustavo Moreira E ele mesmo – o pobre menino – era o vento que uivava; debaixo das pontes, por cima dos telhados, que se escondia nas cavernas da humanidade. Sem direção ou visibilidade. Somente ouviam-no quando – o pobre menino – roubavam-lhe o sossego.

Ventania Bianca Ferraz Bitencourt

Se você ventar mais um pouco por aqui... Eu juro: Vai levar meu coração.


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Hurricane me José Ronaldo Siqueira Mendes Começou como um sussurro, mas terminou como um vento voraz a consumir-lhe toda a história, memória e sentimentos, quando a mulher moribunda, em seu leito derradeiro, lhe confidenciou a paternidade de sua filha.

PENSAMENTO LEVE Sabrina Dalbelo Sem aviso, o vento levou o chapéu de sua cabeça, que foi parar do outro lado da rua. Era o terceiro que voava naquela semana. Resolveu não colocar mais nada na cabeça que pudesse voar.

Priscila Queiroz A jovem alma desvendava antigos livros. Sentindo o gosto das palavras na boca e as batidas do coração. Uma seca pétala de rosa surgiu entre as páginas. O vento soprou na janela e fez voar a lembrança esquecida. Um sorriso surgiu entre rugas no olhar.

Vento: O Sopro Rebelde da Liberdade Aline Borba Escreve-se ao vento, quando o silêncio permite deixar na eternidade as falas contidas, pois voltará carregado de nuvens chorosas, pétalas de um florir entristecido, que o tempo bordou de primavera. O vento é o espírito do infinito, sopro rebelde da liberdade.

Vento Sonia Regina Rocha Rodrigues Dorothy, enraizada em seu mundinho cinzento, carregada para além do arco-íris, nem percebeu a chance de modificar sua história.


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