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NĂşmero 2 - ano I -Junho de 2014

henrique vale laisa felĂ­ssimo marco llobus

leonel ferreira jair barbosa thiago aquino

lederson nascimento vinicĂ­us fernandes cardoso


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Revista infantojuvenil

Editorial

A

tormenta sacoleja o mar e ondas agigantam-se sobre o convés enchendo os aposentos com água salgada. O capitão veste o escafandro de segurança e observa as luzes vermelhas piscando no painel. Os sensores alertam o rompimento do casco. Ele se encaminha para o bote salva-vidas e o desamarra. Um silvo fura-tímpano o interrompe forçando-o a levar as mãos aos ouvidos: um gigantesco gafanhoto-baleia salta d'água, esguichando seiva de algas pelo seu orifício respiratório enquanto se afasta em direção a terra. (continua p.8) Agradeço a todos os participantes, escritores e ilustradores que ajudaram na confecção do segundo número da revista.

Boa leitura.

Henrique Vale

Índice Ventania ..................................................................03 Trocados que valem ouro........................................06 . O coelho poeta........................................................09 Noite Feliz................................................................13 O vaga-lume .......................................................... 15 . O gato da sorte .......................................................17 Portal das Oliveiras .................................................20 A boneca quebrada..................................................25 Eu posso ver estrelas do chapéu sem imaginação..............................................................27 Aninha e a Fadinha..................................................30 As papas do moleiro profeta ...................................35 Basco, o cãozinho...................................................38

© dzm1try - Fotolia.com

edição: Henrique de Almeida Barbosa do Vale (Henrique Vale) textos: Henrique Vale, Rita de Cássia M. Alcaraz, Rô Mierling, Maria Melo,Edweine Loureiro da Silva, Carol Manzoli Palma,Adriana Quezado,Mariana Bortoletti,Gladis Barriel, Arthur willians Camilo da Silva, Maria Santino, Joaquim José Semeano, Naira Taiwo ilustrações: Orion (Márcio Oliveira), João Victor de Pauli, Henrique Vale


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Ventania Rita de Cassia M. Alcaraz

Ilustração João Victor de Pauli Meu nome é Rita de Cassia M. Alcaraz, sou licenciada em Letras, Pós Graduada em Educação Infantil, Mestre em Letras e Doutoranda em Políticas Publicas pela UFPR. Sou autora de material didático e de Literatura infantojuvenil, com três títulos publicados Catito um bruxinho divertido, A galinha Coró-Coró e Barbatana Roxa. Sou Professora de Pós graduação em Curitiba e mãe de duas lindas crianças que encantam meu mundo e povoam minha imaginação com muitas histórias.


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No início do Universo quando ainda estavam sendo criados os planetas e a terra a energia de Nhanderuvuçú já existia. Essa energia foi a grande responsável pela criação do homem e da mulher e de todas as coisas na terra. Tupã, mensageiro de Nhanderuvuçú, foi quem criou a terra, o homem e a mulher e a organizou em porções, uma parte com terras com muitas árvores para os animais que possuem pés, e em porções líquidas organizada pelas águas para os animais que nadam. Alguns desses animais podem viver nas duas porções, eles são os encantados. Para cuidar de cada reino Nhanderuvuçú chamou alguns deuses, responsáveis por manter o equilíbrio e a harmonia entre os animais, as plantas, o homem e o seu reino. Nos reinos foram criados dois planos um deles o dos homens feito de barro e em outro o dos seres alados regidos por Tupã. Ambos, os reinos coexistem em harmonia com a energia criadora de Nhanderuvuçú, mas nem a todos os homens feitos de barro foi permitido que vissem tais deuses. Os deuses observam os homens, e os inspiram a cuidar da natureza. Dessa forma, no reino das águas claras, foi ordenado aos peixes, botos e outros parentes viverem. Apesar de diferentes, esses animais possuem a harmonia para se equilibrarem em partes iguais. Para cuidar desses animais e da porção líquida chamada de rios, a deusa Iara guardiã do reino das águas doces foi convocada. Iara é uma bela sereia metade peixe e metade mulher seu canto hipnotiza as pessoas e as leva para o seu reino, mas nem todas as pessoas conseguem ouvir Iara. Muitas embarcações passam em seu reino, algumas chegam ao seu destino, no entanto algumas embarcações ficam muito velhas para longas distâncias e ficam no meio do caminho. Quando isso ocorre algumas sereias cantam e hipnotizam alguns homens e mulheres para eles irem aprender no reino da grande sereia como cuidar melhor da natureza. Em uma noite sem lua, com muitas estrelas, uma embarcação trouxe muitas pessoas ao reino de Iara como aprendizes. Dentre eles, ela observou um pequeno menino em uma cesta sobre as águas. Geralmente, as pessoas que se perdem no reino de Iara são transformados em sereia ou em aprendizes de ervas e chás. Tais pessoas se misturam a água e lá ficam aprendendo durante muito tempo os segredos da cura de doenças, o poder das ervas e dos alimentos. E assim quando elas aprenderam muito, elas podem voltar na forma humana para habitar o reino dos homens por meio do nascimento de um bebê. Alguns deles tornam-se grandes curadores, na tribo são denominados de pajés. Os pajés em uma tribo possuem grande conhecimento, eles são curandeiros, pois são aqueles que tem uma ligação com os deuses mensageiros de Tupã. Os pajés curam seu povo com ervas, oração, músicas, conselhos e muita alegria, pois um sorriso sempre contagia. Iara ao olhar aquele bebê em seu reino não permitiu que ele se misturasse a água, tão pequeno, tão indefeso, ela pediu para ser mãe. Contudo, Tupã, cortou o grande céu com um raio de desaprovação e anunciou que como deuses, eles não podiam se misturar com os homens que habitam a terra, a interferência em cuidar de um bebê poderia ter consequências sérias para a humanidade, o limite entre os mundos seria rompido, trazendo uma série de desequilíbrios entre os reinos, a natureza iria sofrer podendo desaparecer e os dois reinos poderiam não mais existir.


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Tupã lembrou a Iara que apesar de os homens também possuírem em si um pouco de energia criadora, a orientação é que os homens devem fazer uma passagem entre a forma física para tornarem-se essência de Nhanderuvuçú e tornarem-se aprendizes no reino alado, levando um pouco do conhecimento da natureza em si por ora do nascimento. Assim, ambos decidiram cuidar daquele pequeno até ele chegar em uma tribo próxima. Tupã se afeiçoou ao pequeno que corria no rio e em segredo deu sua benção, ele teria em parte o poder do vento, não como um deus, mas como uma pessoa especial, um encantado. Assim, quando o pequeno levantava um braço ou uma perna, mais rápido ele seguia no rio. Todos os animais silenciaram, pois os deuses assim o pediram, quando o pequeno Ventania chegou a margem do rio da tribo Tupinambá, os ventos trataram de ficar tão fortes que acordaram o pajé e alguns irmãos. Na margem do rio, na noite sem lua, a tribo recebeu o pequeno com muita alegria, um raio rasgou a noite escura, confirmando a proteção de Tupã. O pajé recebeu o bebê que logo menino se tornou. Todos sabiam que Ventania tinha sido enviado pelas águas com a proteção de Iara, com a benção de Tupã, na força do vento e da correnteza Ventania cresceu, unindo com força, alegria e amor a tribo aos deuses Tupis-guaranis.


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Trocados que valem ouro Rô Mierling

© tiero - Fotolia.com

Rô Mierling, gaúcha, escritora, ghost writer e assessora. Está lançando seu livro Contos e Crônicas do Absurdo e organizando a 1ª Antologia Amor e Morte. A autora participa como produtora de conteúdo do site Divulga Escritor, Varal do Brasil, Recanto das Letras, Portal da Literatura e Arca Literária, filiada da REBRA. Foi premiada pela Câmara Brasileira de Jovens Autores em 2014. Participou da antologia Contos Premiados, Confissões, Nada será como antes e Florisbela Espanca e Convidados (Portugal).


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Ela era uma menina de sete anos, muito pobre. Não tinha muitos brinquedos e mesmo os poucos brinquedos que tinha não podiam ser usados para brincar com seus amiguinhos, pois não tinha amiguinhos. Seu pai e sua mãe tinham um regime de criação rigoroso e a menina vivia em isolamento social. Em uma tarde, sua mãe a manda para a escola com uns trocados para comprar uma merenda na escola, caso raro. A menina sai feliz rumo à escola, pensando em qual doce diferente poderá comprar com aqueles trocados. - Compre algo saudável – diz sua mãe. Mas ela pensa em um enorme pirulito ou quem sabe um pacote gigante de pipoca doce. De repente, no caminho da menina surge um lugar diferente, colorido, enigmático que ela nunca tinha notado. Lugar onde páginas com fantasia, cores e personagens estavam penduradas como um varal, um varal de magia e encanto. A menina para e fica olhando aquelas páginas coloridas, com letras e figuras, com personagens sorridentes. A menina olha e vê um senhor atrás do balcão do lugar mágico. A menina aponta para uma revistinha que está pendurada no varal da banca de revistas e pergunta: - Moço, essa revistinha é para vender? - Sim, é – diz o moço, informando o preço da revistinha que a menina encantada apontava. Era mais caro que os trocados que ela tinha para merenda, uma pena. Ela segue para o colégio, pensativa e um pouco triste. Os dias passam e na semana seguinte a mãe dá novamente a ela uns trocados para merenda, ela rapidamente soma com o que tinha guardado, ainda não dá para comprar a revistinha da banca de jornais, ela espera. Três semanas depois a mãe de novo dá a ela uns trocados para a merenda, na soma de tudo que a menina tinha guardado dá o valor exato da revistinha. A menina no caminho do colégio vai feliz, sorridente quase eufórica, para na frente da banca e percebe que a revistinha já não está mais lá. Ela sente seu coração apertar e pergunta pela revista. - Foi vendida – diz o moço Ela sente os olhos se encherem de lágrimas, mas o moço vendo a cena diz: - Chegou uma edição nova - mostrando outra, mais colorida, mais atraente. Ela pergunta o preço, ele diz o valor, ela faz as contas e vê que não tem mais o valor necessário, aumentou ou ela fez as contas erradas. A menina abaixa os olhos e sai andando, mas o moço tendo percebido suas passagens diárias pela banca de jornal e seus olhos sonhadores para a revista em questão, à chama de volta, pergunta quanto ela tem, ela diz, ele então sorrindo, pega a revistinha edição nova, grossa, quase um livro e dá para a menina pelo valor que ela tem, dizendo a ela que o resto não precisa. Um novo mundo se descortina para a pequena menina, ela sai andando devagar, folheando com calma a revista, encantada, sonhadora, aproxima a revista do rosto, cheira, sentindo o cheiro de encantamento, de conhecimento, de magia, cheiro de livro. Ela acabara de comprar seu primeiro livro, de uma infinidade que ainda ia conhecer.


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Desafio literário

A fera pousa no meio da plantação balançando as nadadeiras sobre o trigo e emitindo estalidos metálicos e agudos enquanto pasta. As escamas verde-azuladas brilham. O senhor da torre observa ao longe o visitante da janela do seu quarto, depois segue para a sala de armas e escolhe a maior lança...Flemingue ganhara o posto para proteger a colheita custasse o que custasse. (continua p. 19)

O segundo Desafio Literário da Revista Farol Fantástico contou com 166 inscrições. Dessas 10 textos foram selecionados .


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1º Lugar

O Coelho Poeta Maria Melo

©HenriqueVale

Nasci no Porto, onde estudei até o 2º ano do Liceu; dos 12 aos 14 anos na Alemanha, idade com que fui para Angola onde completei o 7º ano do liceu, trabalhei como secretária tendo regressado definitivamente para a Europa em 1984. Depois de passar por vários países europeus, numa tentativa de adaptação, fixei-me em Portugal a partir de 1989. Tirei vários cursos ligados às letras e um de contabilidade e gestão. Profissionalmente desempenhei funções de administrativa; secretária; directora; gerente financeira, etc. Tenho organizado algumas feiras de livros de autor. Escrevo desde os 14 anos mas quase tudo o que escrevi até aos 35 ficou, fisicamente, em Luanda, juntamente com um sonho de vida, mas continuou no meu subconsciente donde vai brotando amiúde.


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Cenário: Uma quinta, com um monte onde se escavou uma lura, uma capoeira de patos e, se possível, uma simulação de lago. Intérpretes: Narrador – Uma voz D. Coelha Branquinha – mãe D. Pata - Vizinha Coelhinho Poeta – filho + 5 Coelhinhos Branquinhos Narrador: Da família dos coelhinhos, O Dominó e o Bolinha Passaram pela minha caneta Agora, meus amiguinhos Preparem a cabecinha P'ra falarmos do Poeta D. Branquinha medita D. Coelha Branquinha - O que irão fazer meus coelhos Quando forem, assim... mais velhos? Cada qual terá seu dom Seguirão os meus conselhos?… Para arranjar profissão Vão todos ter de saber Qual será a vocação Escolhendo muito antes O que cada um quer ser Quando eles forem grandes Narrador: Um certo dia à conversa Com D. Pata, sua amiga Preocupada confessa: D. Coelha Branquinha: - Não sei mesmo que lhe diga Ando aqui a magicar: Aquele meu filho… ali Por nada se há-de interessar Só gosta de meditar De olhar para as estrelas Sempre de cabeça no ar Nem sei mesmo o que vê nelas D. Pata - Ora, não se apoquente ele ainda é novo, está a ver? Logo verá o que sente Vontade de vir a ser Quando a idade chegar Para o seu curso escolher De certo ele vai encontrar O que melhor sabe fazer

Revista infantojuvenil D. Coelha Branquinha: - Mas se ele só quer escrever Essas arte parece lazer Isso não dá dinheiro Melhor que fora engenheiro D. Pata: - Olhe que não minha amiga Até há por aí quem diga Que escrever é um oficio É um dom que ele tem Fará algum sacrifício Mas vai ver que se sente bem Porque afinal o que importa É gostar do que se faz A vida, às vezes é torta E se ele não for capaz - Ouça bem o que ele diz Pode não fazer perfeito Aquilo que não lhe dá jeito E logo será infeliz! D. Coelha Branquinha: - Pois pois, já cá me parecia Que a amiga é das tais Que gosta de poesia Você não lê os jornais? D. Pata: - Leio, claro que sim Mas também leio com calma Poemas, flores de jardim Que alimentam a alma D. Coelha Branquinha: E prá'limentar a barriga? Com o pão de todos os dias? Diga lá, vizinha, diga Se é das rimadas poesias Ou de qualquer outra cantiga? E já um poeta dizia Ou digo eu e estou certa Que difícil é ser poeta Se a barriga está vazia D. Pata Pode ter muita razão Quem sou eu para desmentir? Mas olhe que também são Os poetas necessários Como as preces dos rosários. Se alimentam o coração Que mais queremos da vida? Agora e em qualquer idade? A profissão deve servir Para dar felicidade


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D. Coelha Branquinha Pois, pois, amiguinha Pata Fala bem mas não convence Neste ata e desata Só o mais forte é que vence Eu bem quero acreditar Que o meu poeta tem futuro Ponho-me a meditar E a solução procuro: Mas anúncio ainda não vi Para poeta admitir De tudo o que sempre li E não lhe posso mentir Querem: médicos, sapateiros Jornalistas, jornaleiros, Alfaiates, carpinteiros Nessas páginas traçadas Pedreiros para calçadas Tudo isso é profissão Poeta, escritor, NÃO! D. Pata - Como eu lhe disse há pouco Ele é jovem, crescerá E não seja um sonho louco Que o mundo se vire do avesso E um dia alguém pagará Ao poeta, cada verso. D. Coelha Branquinha: - Ora Patinha, minha amiga Não tenhamos ilusões Só se vê por aí quem diga Que de versos e canções Ninguém enche a barriga Desculpe a desconfiança Mas diga-me lá, diga O que ensinar a uma criança Que não escolhe um futuro Nas profissões que conheço E assim eu lhe asseguro Não sei, por isso, peço Dê-me a sua opinião Que muito lhe agradeço Do fundo do coração D. Pata: - De qualquer forma, lhe digo Se poeta tiver de ser Traga a enciclopédia consigo Tudo ele vai ter de aprender Para poder divagar Não só do seu interior Com mágoas a lamentar

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Descreva as ondas do mar As nuvens que há lá no céu Do amor e desamor E se de tudo isto falar Será um BOM ESCRITOR! Mas chame lá o rapaz Perguntemos-lhe então Ele dirá se é capaz De mostrar sua razão

D. Coelha Branquinha - Anda cá meu Poetinha Que D. Pata quer falar-te Para dar uma ajudinha Escolhendo-te uma arte Coelhinho Poeta: - Qual arte, qual carapuça? Tu queres que eu seja artista? Nem que a vaca tussa Nem que eu coma alpista Não sou como a amiga ursa Que anda armada em fadista! D. Coelha Branquinha: - Não, meu filho não é, não! Nós só queremos perguntar Qual a tua vocação Para em adulto trabalhar? Assim, quando fores maior Tiveres de te sustentar Poderás ser um doutor Pedreiro, até professor Quem sabe, mesmo pintor?

Coelhinho Poeta: - Ó minha querida mãezinha Que achas que quero ser? Se acordo de manhãzinha E logo me ponho a escrever? E até vos digo assim Desde que a luz eu vi Puseram este nome em mim E Poeta eu serei, sim! Desde o dia em que nasci Até chegar o meu fim Cantarei silencioso Até doer a caneta Se resultar desditoso


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Serei um triste poeta Andarei aos trambolhões Alguns dirão: - é pateta! Segue a escola de Camões E escreve coisas à toa Querendo imitar o Pessoa! Mas fiquem vocês a saber Que tudo eu sofrerei Desde que possa ser Aquilo que sempre sonhei! D. Branquinha De mim, que sou tua mãe Terás toda a minha ajuda Mas aviso-te também Que irás ter dificuldades E não haverá quem te acuda Se tu não escreveres bem Deverás ter, antes de mais nada A gramática bem estudada Não confundir nenhum verbo Pois a nossa língua falada É demasiado importante Não pode ser estragada Por poeta ignorante Coelhinho Poeta Mãezinha, fica tranquila Eu gosto de português Palavras são como argila Que se molda ao sentimento Dão a voz ao coração Serão o meu alimento D. Pata: - Eu já cá desconfiava Que para ti só isso importa Nem outra coisa esperava Vais bater de porta em porta A ver se os teus poemas Não serão de letra morta Mas sim de bonitos temas Para alegres cantorias Ou outras mais fantasias Que enchem o coração E se poeta, queres ser Seja essa, se Deus quiser UMA BOA PROFISSÃO!

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2º Lugar

Noite Feliz Edweine Loureiro da Silva

Ilustração: Órion EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus em 1975. É advogado e professor, residindo no Japão desde 2001. Premiado em mais de cem concursos literários no Brasil, Portugal, Espanha, Estados Unidos e Japão, é autor dos livros: “Sonhador Sim Senhor!” (2000), “Clandestinos” (2011), “Em Curto Espaço” (2012) e “No Mínimo, o Infinito” (2013). Página: https://www.facebook.com/edweine.loureiro


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Sentado nas escadarias da igreja, o pequeno Jesus tremia de frio… e de fome! ―Já não sabia dizer há quanto tempo estava sem se alimentar decentemente; apenas comendo migalhas, restos deixados em lixeiras ou pelas ruas da cidade. Ergueu a cabeça, as lágrimas escorrendo pelo rosto, e olhou para a alegria que tomava conta da praça: crianças sorrindo, brincando, acompanhadas dos pais, da família― era noite de Natal. Feliz Natal! — era a frase que ecoava por todos os cantos da cidade. E ele — pensou — quando realmente conhecera um Natal feliz? Sabia ― porque lhe disseram ― que havia nascido na mesma data, recebendo, por esta razão, o nome do Cristo. Teria recebido também o mesmo destino? Crucificado todos os dias… pela fome, pela miséria, pela solidão… O pai, jamais soube quem era. A mãe, alcoólatra, morrera quando ele tinha apenas três anos. Jogado por um tio em um orfanato, conhecera o inferno pelas mãos das freiras: submetido a maus-tratos e abusos de toda sorte. Até que, aos sete anos de idade, fugiu. E, desde então, vivia assim, nas ruas, mendigando, roubando… sobrevivendo! Que idade teria agora? Nove? Dez?… Perdera as contas. Para falar a verdade, nem saberia contar! Sua única escola havia sido a vida. Tudo o que sabia aprendera nas ruas. Estava ainda mergulhado nestas tristes memórias, quando, de repente, escutou os gritos vindos da praça: era a grande árvore de Natal que acendia, para a alegria da multidão. E, diante daquele mundo de luzes, cores, Jesus, pela primeira vez naquele dia, esqueceu o sofrimento e esboçou um sorriso. Até que uma voz fê-lo despertar novamente para a realidade: ― Sai daí, garoto! Não vê que as pessoas querem entrar na igreja?! Não atrapalha a passagem! Vamos, sai, sai! Voltou-se para os lados e viu o sacristão que, colérico, mandava-o sair das escadarias do templo. Resolveu não discutir — não tinha mais forças para isto. Apenas levantou-se e começou a caminhar. Os sinos badalavam a meia-noite enquanto o menino Jesus cruzava a praça. Em silêncio: a alma ferida. Mas sem perder a esperança de que dias melhores estariam por vir. Afinal de contas ― concluiu ―, merecia também a felicidade. E Deus não lhe negaria este direito. Não numa noite de Natal. E, vendo o céu estrelado, sorriu, pela segunda vez naquela noite. Interpretando, naquele instante, que Deus sim o escutava. Mais: que lhe respondia. Dizendo ao menino para não perder as esperanças: e que, mesmo em meio a mais assustadora escuridão, ainda havia espaço para o intenso brilho das estrelas.


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3ºLugar

O vaga-lume Carol Manzoli Palma

©HenriqueVale

Carol Manzoli Palma é advogada, Mestre em Direito e Doutoranda em Educação.Trabalha como professora de educação ambiental e organiza workshops/projetos para adultos e crianças sobre um novo olhar para o meio ambiente e para as relações humanas. Tem livros e artigos publicados e também escreve crônicas para o jornal local.


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Era uma vez um vaga-lume conhecido como Pirineu, que nasceu diferente, ele não emitia uma luz sequer. O pobrezinho vagou na escuridão. "Que valor poderia ter um vaga-lume sem brilho?" - pensava desolado. Certo dia ele se apaixonou por uma vaga-lume chamada Zaira, mas ela não lhe dava bola. Torcia o nariz e dizia “quem não ilumina a noite, não brilha pra mim”. Um dia uns meninos foram caçar e capturaram todos os insetos com uma rede, inclusive Zaira. O nosso mocinho aproveitou-se do escuro para abrir um buraquinho na tela e por ali eles fugiram um a um. Todos lhe deram uma festa. Zaira lhe disse “você não brilha, mas tem uma luz interior. Obrigada por nos salvar!”. Pirineu sentiu que era hora de partir para outras florestas e mostrar para novos amigos que cada ser vivo é único e especial.


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4ºLugar

Gato da Sorte Adriana Quezado

© makar - Fotolia.com

Sempre gostei de ler. Tenho preferência pelos romances adaptados para filmes e novelas. Com inúmeras leituras, sentia que precisava desabrochar algo que estava em meu interior. Mas o quê? Não sabia que era assim que começava o talento. Minha mãe conta vários causos de sua infância. Foi quando comecei a escrever. Descobri vários concursos culturais e literários. Participo de todos eles como forma de mostrar as minhas escritas, sendo selecionada em uns e classificada em outros. Fiz o curso de Criação Literária na Universidade Sem Fronteiras, onde aprimorei meu conhecimento literário e lapidei a escrita, que antes era apenas diamante bruto. Publico textos no site Recanto das Letras, recebendo vários comentários, mostrando que a literatura é o meu lugar.


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Gato da Sorte Faria um poema: Meu gato não é de botas, É meu personagem inspirador. Não é mágico, mas age como tal. Quando fala miau, miau, Já sei o quê ele deseja: Mingau, mingau. Quando não é isso, São afagos e chamegos. Agradecendo, ele me lambe o rosto E me leva ao lugar da rua, Onde me inspiro e crio histórias, Contos, poesias, piadas, paródias. Coloco a sacolinha no chão, O gato ganha mimos de seus fãs, E eu dinheiro na caixinha, Muito dinheiro com meu gatinho, Premiado com meu amor.


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Flemingue aproxima-se agachado pelo mato alto, sente o cheiro de maresia arder no pulmão . Um movimento rápido, a lança descreve um arco e se crava na coxa de queratina. Uma corda amarrada no antebraço é rodada e o laço circunda o pescoço da criatura que como um boi bravo salta e o arrasta para o alto. Pouco depois mergulham nas águas do mar. Flemingue procura a faca na cintura com a mão livre, sentindo a pressão da água zumbir em seus ouvidos. O gafanhoto-baleia adentra um navio naufragado, espreme-se até uma câmara onde se formou uma bolha de ar. Fungos agarrados as paredes emanam uma luminosidade avermelhada enquanto realizam a renovação do oxigênio. (continua p. 29)


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5ºLugar

Portal das Oliveiras Mariana Bortoletti

© george kuna - Fotolia.com

Mariana gosta de contar e inventar histórias desde sempre, mas apenas descobriu o que queria ser quando crescesse, e fazer essas duas coisas profissionalmente, depois de adulta e formada em museologia. Se inspira em lendas e mitologias para escrever histórias de fantasia, mas está aprendendo a observar melhor o mundo e as pessoas ao seu redor para escrever mais sobre a vida. Atualmente, divide seu tempo entre a literatura e os antiquários.


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Antes de começar a trabalhar naquele antiquário, acho que eu nunca tinha escutado tantos barulhos diferentes soarem ao mesmo tempo; era o motor dos carros, sirenes de polícia, ambulâncias para lá e para cá, além das pessoas que passavam pela calçada da loja sem entrar. De vez em quando eu conseguia captar um fragmento de alguma conversa e me perdia imaginando qual era o restante dela. De onde aquelas pessoas vinham? Para onde iam? Eram felizes? Estavam miseráveis? Constantemente eu imaginava que a porta estreita do antiquário era como um corredor com diversas portas e, cada vez que uma pessoa passava pela frente era como eu tivesse aberto uma porta em questão para escutar o que havia lá dentro por apenas um segundo. - Que dia é hoje? – me perguntou o Seu Epaminondas pela terceira vez naquela manhã. Ele estava sentado em frente à mesa onde eu normalmente trabalhava e me lançava um olhar verdadeiramente confuso por trás dos óculos de lentes amarelas, o que deixava seus olhos gigantes, parecidos com os de um inseto. - Dia vinte e quatro – eu respondi sem tirar os olhos da porta, na esperança de que alguém entrasse naquele antiquário e me distraísse um pouco. Ou eu acabaria dormindo em pé, já que eu não tinha conseguido me acostumar com a rotina de uma trabalhadora ainda e estava com o sono atrasado. – E estamos em março. Fui obrigada a acrescentar o mês do ano em que estávamos porque, como das outras duas vezes naquela manhã, o Seu Epaminondas me diria que “o ano tinha corrido e que era impressionante que já estivéssemos em junho!”. Quando coisas assim aconteciam, eu não conseguia ficar brava ou irritada, eu apenas me sentia mal pelo Seu Epaminondas, realmente mal e triste. Antes da minha contratação, eu tinha sido avisada pela Dona Elenita, gerente do antiquário e esposa do Seu Epaminondas, que era muito frequente que ele se esquecesse das coisas, que contasse a mesma história várias vezes ao dia e que inventasse coisas que nunca tinham acontecido. Ela enfatizou bastante essa última parte, justificando que Seu Epaminondas tinha sido escritor antes de ser pego pelo Alzheimer, então ele confundia a realidade com a ficção o tempo todo agora. - Ah, minha mãe estaria de aniversário hoje – ele disse a frase com um suspiro, tirando os óculos para passar os dedos pelos olhos, como quem se emocionava. Eu olhei para ele e percebi que o Seu Epaminondas realmente estava emocionado, que tinha começado a derramar lágrimas fininhas pelos olhos escuros. - O senhor está bem? – perguntei, me aproximando da cadeira dele. - Claro – ele me respondeu e, de repente, abriu um sorriso singelo, arqueando o bigode longo e largo úmido de lágrimas. – É só que eu sinto muita saudade dela porque eu não a vejo desde que vim morar nessa cidade... Você sabe, desde que ela se viu obrigada a me expulsar de casa por causa da Elenita.


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Uma das coisas mais frequentes na doença do Seu Epaminondas eram aquelas informações que ele jogava para mim, e para todas as pessoas, achando que eu sabia de tudo o que houvesse para se saber sobre ele. Agora, por exemplo, eu nunca tinha imaginado que um rapaz poderia ser expulso de casa por causa de uma moça, ainda mais lá nos anos sessenta, que, pelas minhas contas, era quando os dois tinham se conhecido. Quando ele jogava essas informações para mim, o normal era que eu apenas concordasse com a cabeça, soltasse um sonoro “hum”, e voltasse ao trabalho, mas ele tinha me deixado curiosa dessa vez. - Como assim, o senhor foi expulso de casa? - Você não sabia? – ele perguntou, arregalando ainda mais os olhos por trás dos óculos e arqueando o corpo para trás, visivelmente abismado. Eu neguei com a cabeça e ele continuou: - Eu devia ter uns dezoito anos, no máximo vinte, quando eu resolvi que desafiar a minha mãe e atravessar o Portal das Oliveiras era uma boa ideia. - Portal das Oliveiras? – eu perguntei, porque mesmo não morando na cidade, eu sabia que ali não existia um local com esse nome. – Fica no interior? - Fica em outro mundo, menina – ele disse, abrindo um largo sorriso. – É um lugar lindo, com mais cachoeiras, florestas, fauna e flora do que você é capaz de imaginar. As pessoas são gentis e bondosas, inteligentes e preocupadas com o próximo, além disso, todas elas são especiais... Especiais no sentido de não serem como os humanos comuns – Ele fez uma pausa para suspirar profundamente. - Eu costumava ter asas enquanto vivia lá, voava e manipulava o ar, mas também existiam pessoas que manipulavam o fogo e a água... E eu era um príncipe. Eu não consegui decidir qual era a coisa mais absurda naquele discurso inédito do Seu Epaminondas; se era o fato de ele dizer que nasceu em um mundo mágico, se era o fato de ele tentar me fazer acreditar que ele podia voar nesse outro mundo ou se era o fato de ele acreditar ter sido um membro da realeza. Era tudo tão irreal, tão surreal e tão incrível, no sentido verdadeiro da palavra, que eu não sabia o que dizer ou o que pensar. Dona Elenita tinha me preparado para esse momento, mas, se por um lado eu sabia que ele estava confundindo ficção com realidade, por outro eu queria que ele continuasse a me contar porque seria maravilhoso se fosse verdade. - Acho que eu era um pouco burro – ele observou, coçando o bigode. – Eu desafiava minha mãe, dava pouca importância para o império que ela tinha ajudado a erguer e só pensava em me divertir... Houve uma guerra pouco antes de eu nascer e, você sabia que minha mãe lutou grávida de mim pela liberdade do Povo do Ar? – ele realmente estava me perguntando, então eu neguei com a cabeça. – Eu não contei nada a você sobre a minha expulsão?


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- Nadinha – eu disse, com a voz agitada. - É que eu costumo repetir as coisas, então eu achei que já tinha contado – ele se ajeitou na cadeira e me olhou com os olhos gigantes que nunca pareciam piscar. – Um dia, e eu achei que provaria muita coisa, coragem talvez, eu decidi atravessar o Portal das Oliveiras, que separa o mundo humano do meu mundo... Eu atravessei e acabei indo parar em um parque. Tinha árvores e tinha grama, mas tinha mais pessoas e mais barulho do que eu estava acostumado. Na época eu não sabia, mas era o barulho de automóveis, da cidade se erguendo e substituindo a natureza, mas, enfim, aquilo estava me incomodando, então eu decidi dar meia volta e retornar para casa com o rabo entre as pernas... Só que eu a vi. O Seu Epaminondas sorriu mais um daqueles sorrisos singelos e eu soube que ele falaria sobre Dona Elenita, com quem estava casado há cinquenta anos e quem o aguentava pacientemente diante daquela nova realidade que era o Alzheimer. Não me importava mais se ele estava delirando, misturando realidade com ficção ou apenas me entretendo com aquela narrativa, eu sabia que tudo o que ele falaria sobre ela era verdadeiro. Não tinha como não ser, estava estampado nos olhos dele. - Acho que eu nunca vou conseguir esquecer como ela estava vestida e a careta que ela fez ao me ver – ele disse sem tirar o sorriso do rostos e, a essa altura, ele não olhava mais para mim, mas para o chão à frente dele. – Era um vestido fluído e lilás, muito parecido com aqueles que minha mãe gostava de usar. Ela estava lendo um livro muito grosso, sentada embaixo de uma árvore e se protegendo do sol com um lindo chapéu de palha decorado com fitas lilases. Ela ergueu o rosto e torceu o nariz ao reparar em mim, então fechou a cara e baixou os olhos, mas eu me aproximei e perguntei pelo nome dela. Ela foi bastante receptiva para uma moça daqueles tempos e horas depois, um tempo até ínfimo no mundo humano, mas que equivaleram a dias no meu mundo, nós conversamos sobre tudo. - Até de onde o senhor tinha vindo? – Eu me vi perguntando e acreditando que aquela era uma história real. Seu Epaminondas me confirmou com a cabeça, mas esperou um tempo considerável antes de voltar a falar. - Elenita sempre soube de tudo e guardou o meu segredo – ele disse depois do minuto em silêncio, voltando a me olhar. – Guarda até hoje. - O que é que eu guardo? – a voz estridente de Dona Elenita soou atrás de mim e eu dei um pulo para encontrar o rosto dela vermelho e exaltado.


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Em todo o tempo em que eu estava ali, ela nunca tinha erguido a voz para mim ou me olhado com outra expressão que não a de uma avó preocupada, porém, naquele momento, eu parecia estar vendo outra Dona Elenita. Os olhos injetados, as sobrancelhas apertadas e os lábios pressionados. Ao vê-la, Seu Epaminondas se encolheu sutilmente na cadeira e soltou um exagerado “hã?”, como quem não tinha entendido ou escutado o que ela falara. - Ele já está inventando histórias novamente! – ela disse, um pouco mais controlada e tentando soar engraçada, mas os olhos ainda estavam enfurecidos. – Não sei quantas vezes ele já contou versões dessa história para as pessoas! Releve, é o esquecimento dele... Venha Epaminondas, vamos almoçar. Dito isso, ela esperou que ele se levantasse da cadeira para começar a caminhar, mas o Seu Epaminondas não a seguiu imediatamente; primeiro ele se certificou de que sua guardiã não estava ouvindo e acrescentou para mim, em voz baixa: - E eu nem sei de onde ela tirou o nome Epaminondas, porque eu era conhecido apenas como Príncipe Jihad – e seguiu caminhando, me deixando sem saber no que acreditar; se era na versão fantástica dele, naquele mundo fascinante com um portal para o nosso mundo ou na versão cruel de uma doença que confunde tanto a sua cabeça que a ficção e a realidade se misturam.


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6º Lugar

A boneca quebrada Gladis Barriel

© bokononist - Fotolia.com

Gladis Berriel vive em Canoas/RS e é graduada em Letras pela Unisinos. Foi bancária e professora de Português e Espanhol. A leitora voraz e apaixonada pela escrita buscou aperfeiçoamento e experiência em oficinas literárias de renomados escritores gaúchos. Começou sua trajetória em 2009, através de concursos literários, obtendo diversas premiações nacionais e participação em várias antologias. Dedica-se à escrita de narrativas curtas para crianças, jovens e adultos, além de crônicas que revelam um olhar atento, às vezes crítico, do cotidiano e suas simplicidades e/ou complexidades.


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No Hospital de Brinquedos tinha uma linda boneca. Ela era de louça, tinha olhos azuis e lindos cachos dourados. Como já estava ali há muito tempo, no alto da prateleira, ninguém mais percebia sua presença. A bonequinha, porém, não perdia a esperança de encontrar uma dona, uma menina que a adotasse e a amasse. Sua antiga dona gostava muito dela, mas outra boneca, má e ciumenta, fez um buraco no seu coração de louça. A mãe da menina levou-a para o hospital, mas Pepe, o doutor de bonecas, disse que o buraco era muito grande e que o tratamento seria muito caro. E foi assim que a boneca que tinha um buraco no coração foi abandonada lá mesmo. Pepe, que também consertava brinquedos doados para presentear crianças carentes, pensou que ninguém mais se interessaria por esta antiga boneca de louça e o trabalho para consertá-la não valeria a pena. Com dó de jogá-la no lixo, deixou-a na prateleira, para ser esquecida. Um dia, entrou no Hospital de Brinquedos uma menina que vinha com a mãe, trazendo jogos antigos do irmão para doar. A linda boneca de cachos dourados se encantou com a menina e desejou que ela fosse sua dona. Queria muito chamar a atenção, pensou até em jogar-se lá de cima, mas, como era uma simples boneca, não tinha lá muita habilidade. Laura, este era o nome da menina, era muito curiosa e de tanto olhar para lá, chafurdar para cá, prestar a atenção em tudo, acabou descobrindo a boneca esquecida. ―Veja mãe, ela é igual a mim. ―É mesmo filha, e que linda! A mãe contou ao Pepe que Laura tinha um buraco no coração, igual ao da boneca, marca de uma cirurgia que ela fizera quando ainda era um bebê. O homem que consertava brinquedos decidiu presentear a menina com aquela boneca que não lhe faria falta nenhuma. Laura deu um longo e agradecido abraço em Pepe e levou embora a boneca, tirando-a do esquecimento e do abandono. Logo ela ganhou um vestido novo e um nome: Lilica E foi assim que a menina e a boneca que tinham um buraco igual no coração se tornaram grandes amigas e companheiras de muitas aventuras.


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7ºLugar

Eu Posso Ver Estrelas Através Do Chapéu Sem Imaginação Arthur Willians Camilo da Silva

Arthur Willians nasceu em São Paulo, capital, em 1990. Entrou em contato com a poesia durante o ensino com os poemas belos e sombrios de Augusto dos anjos, desde então não parou de escrever. Formado em design digital, trabalha, atualmente, como frellancer. Foi vencedor do concurso literário Alcatéia- Kodama 2011 na categoria fanfic, e participou das antologias poéticas: prêmio Sarau Brasil (2012) e Palavra em Prisma (2013). Ser um designer só o torna mais versátil e maluco, por isso além de projetos gráficos e digitais administra o blog literário www.amassandolivros.com.br. Contato com o autor: arthur.willians@gmail.com


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Você sabia que podemos viajar até cidades feitas de papel e chocolate? A Imaginação é uma porta aberta para todos os lugares divertidos do mundo! Quando mamãe enchia a banheira de água, e o meu patinho de borracha se movimentava para lá e para cá como se estivesse se divertindo, aquele cenário se transformava em um oceano no qual um grande navio navegava em águas turbulentas movimentadas por um gigante sem nome. Na cozinha durante o almoço, as panelas se tornavam um grande caldeirão que fervia com fogo azul. Fumaças e vapores se erguiam, e enfim quando a poção estava pronta, eu talvez conseguisse ganhar asas, ou me tornar invisível só por bebê-la. Da mesma forma, um pequeno tubo vazio de pasta de dente às vezes era um microfone no qual um famoso artista podia cantar por horas; o sofá servia como um palco gigantesco, e Gatuno, o meu gatinho, era a plateia. Esses mundos secretos eram tão divertidos porque neles habitavam todos os tipos de seres: alienígenas, dragões, piratas e fadas que adoravam, cada um a sua maneira, buscar tesouros e brincar com crianças. Uma vez me disseram que não é possível usar a imaginação com todo tipo de coisa; na época, não soube o que aquilo queria dizer, mas recordo de uma noite sem estrelas na qual a lua se escondia e mamãe chorava enquanto apertava o chapéu de papai contra o peito. O chapéu já tinha uma memória, de modo que por mais que eu tentasse não conseguia abrir a porta escondida que sempre me levou a outros mundos. Deve ser por isso que ele assombrava os meus pensamentos, e enquanto os dragões me levavam para um passeio em suas asas, continuava sozinho e esquecido em um canto como se tivesse medo de brincar. Pensei que talvez pudesse escondê-lo dentro do pote de ouro do duende que ficava entre minha cama e a cômoda do quarto, só que o duende me disse que se eu o coloca-se dentro do pote de ouro, uma parte do ouro cairia, e ele não poderia perder ouro porque gostava muito da cor dourada. Mamãe ficava brava sempre que me via brincando com o chapéu e depois o escondia. O engraçado era que sempre consegui elaborar um plano de resgate: Uma vez tive que tira-lo de dentro de uma caverna cheia de vampiros, outra vez utilizei o meu cavalo para perseguir um trem até conseguir resgatá-lo de dentro do vagão. Depois de todas as missões de resgate percebi duas coisas: 1) A memória do chapéu de papai estava cansada demais para brincar, 2) Talvez papai estivesse sentido falta de seu chapéu! Por isso, peguei um pouco de linha dourada e amarrei o chapéu em três estrelas que brilhavam muito, garanti que elas fossem bem leves para poder viajar até bem longe, quando as soltei, elas começaram a subir devagar, depois mais rápido até se perderem de vista. Foi a última vez que vi o chapéu! Nem eu, nem mamãe tocamos mais no assunto, como se o tal chapéu fosse um monstro escondido embaixo da cama, mas um dia, quando depois de muitos anos ela me perguntou sobre ele, respondi que olhasse para as estrelas, pois papai deveria estar feliz enquanto protegia a sua cabeça do frio do espaço.


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© punit9128 - Fotolia.com

Flemingue finalmente saca a lâmina e se desprende. Tenta firmar-se sobre as pernas bambas. O gafanhoto-baleia arranca com a mandíbula a lança e a devora em segundos. Ao olhar ao redor Flemingue vê um ninho cheio de ovos rodeado de esqueletos humanos. A criatura se aproxima. Ele recua, tropeça, a faca cai de sua mão. Uma gosma marrom pinga da boca da fera, corroendo a madeira como ácido. (continua p.34)


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Aninha e a Fadinha (A história da ave encantada) Maria Santino

© beaubelle - Fotolia.com

Natural de Manaus/Am. Estudante de Ciências Biológicas. Escritora amadora nas horas vagas (e não vagas). Participou da Antologia Flores do Recanto em Março de 2014.


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No grande pátio da escola, as crianças esperavam pela chegada dos seus pais, correndo de lá para cá em uma algazarra feliz que enchia o lugar de alegria. As férias de verão haviam chegado e aquele era o último dia de aula. Aninha não brincava com os outros naquele momento, pois algo roubava toda a sua atenção: em meio aos arbustos do pequeno jardim na ala esquerda do pátio, uma fadinha se encontrava caída no chão. A menina bonita, de pele morena, olhos grandes e castanhos e de traços suaves, se agachou próximo aos pedregulhos espalhados por ali e observou aquela curiosa figura. A criaturinha de aproximadamente dez centímetros de comprimento tinha orelhas pontiagudas, cabelos negros, pele brilhosa e alva, e usava um lindo vestido azul celeste. - Você é uma fada? – perguntou Aninha com o rosto muito próximo da fadinha que se mostrava enferma. - Sim, você consegue me ver? – respondia a fada tentando ficar em pé. - É claro que consigo. Você é linda! – Aninha, sorria mostrando seus dentes muito brancos e alinhados que possuía. A menina percebia que aquele ser não estava bem, e logo, questionava preocupada. - Aconteceu algo? - a fada virou-se de lado e a garota ficou condoída com o que via. – Oh! Meu Deus! O que aconteceu com seu braço? Não houve tempo para a resposta, o carro da mãe de Aninha buzinou na frente dos portões da escola, e rapidamente a menina correu agindo rápido para não ser interrompida nem questionada. Pegou no porta luvas uma pequena caixa que a mãe possuía, e então, regressou até o jardim onde a fada de vestido azul permanecia deitada com aquele machucado no braço direito. A garota, com gentileza, colocou sua nova amiguinha dentro da caixa, vedando cuidadosamente com a tampa. - Mamãe, eu encontrei uma fada! – dizia sentando-se no banco do passageiro e levantando a tampa para que a mãe pudesse ver o seu achado. - Oh, que lindo! Um colibri. – exclamava a mãe da menina sorrindo e ligando o carro. - O que? – perguntava Aninha observando o ser que dormia. -Um colibri, minha filha. Espere. – momentos depois, com o carro parado próximo ao semáforo, a mulher mexia no celular, procurando uma imagem no site de buscas para mostrar a filha. Em seguida, Aninha olhava intrigada para a figura de um lindo beija flor azul, sem entender o porquê daquela confusão. A fadinha era tão bela quanto à ave, mas a diferença era gritante. ******


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Em casa, a garota corria para o quarto enquanto os pais terminavam de arrumar as malas, estavam de viagem para o sítio do avô da menina que morava em uma grande fazenda no interior da cidade. Era a primeira vez que Ana iria conhecer a casa do avô, pois enfim os pais conseguiam acertar as férias do trabalho para que todos pudessem viajar juntos, e eles já se mostravam felizes em poder passar algum tempo naquele lugar e esquecer-se da correria da vida na cidade. - Você tem nome? – perguntava a menina pondo a caixinha sobre a cama do seu quarto. - Claro, mas não dá para pronunciar em sua língua, por isso, me chame de Luz Azul. - Luz Azul... – repetia Aninha pensativa observando a pequenina ensaiar alguns passinhos, se mostrando melhor. – O que machucou o seu braço? - Na verdade, a pergunta certa seria: Quem, quem machucou o meu braço. – houve um breve silencio, Aninha e Luz Azul ficaram observando o machucado, e a fada voltou a falar. – Recebi uma pedrada de um homem. Sabe, nós, as fadas, andamos por aí, neste mundo cheio de pessoas diferentes, com o propósito de espalhar a beleza e a bondade. Mas... é difícil... muito difícil. - Por quê? Por que os adultos confundem vocês com aves, como a minha mãe confundiu? – dizia a garota ouvindo a mãe subir as escadas, certamente para chamá-la para seguir viagem. - Ah! Sim, isso acontece mesmo. As pessoas crescem e tudo torna-se comum, sem magia, seco... Muitas de nós são presas em gaiolas para que nossas melodias alegrem os corações humanos. Somos vistas como adornos, meros produtos de beleza. A porta foi aberta e a mãe da menina disse: - Vem, trás o teu passarinho, talvez o teu avô ajude você a cuidar dele, ele tem vários pássaros em gaiolas. Aninha olhou para Luz Azul de olhos arregalados e recebeu em troca um aceno com a cabeça como se a outra dissesse: “Não disse?” Naquele momento, ambas sabiam que algo deveria ser feito, e por esse motivo, partiram juntas a caminho da casa do avô de Ana. No decorrer da viagem a garota observava a criaturinha dormir enquanto refletia por longos momentos, nas palavras que ouviu. “As pessoas crescem e tudo se torna comum, sem magia, seco...” “Somos vistas como adornos, meros produtos de beleza” “Teu avô [...] tem vários pássaros em gaiolas” Aninha, com o peito comprimido sentia as lágrimas chegarem ao imaginar que haveria várias fadinhas aprisionadas, chorando entristecidas na casa do avô. E pensava em abrir todas as gaiolas e deixar que aqueles seres de luz seguissem seus caminhos. ***** O avô os encontrou na passagem próxima a casa, foi cordial com todos, mas percebeu a tristeza da menina. Entretanto, sem se demorar mais nenhum minuto, Aninha correu em direção a varanda onde ficou assustada com o que viu. Dentro de várias gaiolas, tristes e com as cores desbotadas, diversas fadinhas pediam ajuda em um coro uníssono:


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- Liberte-nos! Liberte-nos! A menina agia apressada, e com a ajuda de um baquinho, abriu todas as gaiolas enquanto que as fadas partiam voando felizes no céu, ao passo que os adultos reprovavam a sua atitude e a mãe dela, se aproximava para lhe puxar a orelha e levava-la para um quarto. Minutos depois Aninha se debruçava em uma janela para olhar a beleza das flores nos campos, indiferente as palavras que traspassavam para dentro daquele recinto. “Desculpe-me não sei o que deu nela” [...] “Desculpe papai, nossa filha não é tão levada assim.” [...] Meu pássaros cantores! Meus pássaros! ****** - Você fez uma boa ação Aninha. Obrigada. – dizia Luz Azul, voando de um modo torto, e ainda assim, muito belo, passando bem próximo ao rosto da menina morena que ria satisfeita. – Serei eternamente grata a você, minha amiga. - Eu nunca vou me esquecer de você Luz Azul! - Vai, sim. Todos crescem e se esquecem de olhar a beleza da vida. Mas, isso é natural aos humanos. Lembre-se, Aninha. Seja sempre boa. ****** Quando Aninha voltou para as aulas, sentia-se triste por ter que se despedir de sua amiga, mas faria o que ela havia pedido. Assim, a professora disse para que os alunos resumissem suas férias em breves palavras, todos foram surpreendidos pela historinha em versos que a menina leu escritas pelas mãos da fadinha Luz Azul. A história da ave encantada I. Ela podia voar pelas colinas, E banhar-se em águas cristalinas, Era livre e desfrutava da beleza, Vivia em harmonia com a natureza. Mas o homem desejou mantê-la aprisionada, Sem cometer crime, da liberdade foi privada E a ave que cantava mundo afora, Engaiolada, a mesma só chora. II Aquele cantar a incomodava, Pois sabia que na verdade ela chorava, As mãos pequeninas abriram a grade, E a ave voou para liberdade. No céu festejou como quem dança, Fazendo rir a nobre criança, E grata por sua atitude tão bela, Todos os dias veio cantar em sua janela.


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© THesIMPLIFY - Fotolia.com

O som de vidro estilhaçando interrompe a marcha do inseto marinho. Água entra por uma escotilha quebrada e inunda o local. O gafanhoto silva grotescamente e se afasta em direção ao ninho, recolhe os ovos e parte. O cômodo submerge em segundos. Flemingue sem ar procura uma saída. Um escafandrista se esgueira por uma abertura segurando uma lanterna. Ele lhe passa um respirador e o leva à superfície. (continua p.41)


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As Papas do Moleiro Profeta Joaquim José Semeano

© Artur Marciniec - Fotolia.com

Joaquim Semeano, 49 anos, jornalista e escritor; natural de Lisboa, Portugal, cresceu numa pequena aldeia do interior e começou a escrever desde muito cedo, vencendo mesmo um prémio de poesia na sua escola, durante o ensino secundário; aos 18 anos, rumou a Lisboa para fazer a licenciatura em Comunicação Social; cumprido o curso, ingressou como estagiário no jornal desportivo "Record", onde acabou por ficar durante 25 anos; saiu em outubro de 2012, então já como editor de secção. Entretanto, manteve a paixão pela literatura e foi sempre escrevendo e concorrendo; em 2011, venceu o prémio literário Maria Rosa Colaço, na categoria infantil, com a obra "Era Uma Vez Um Nariz"; trata-se de um dos principais prémios literários, nesta categoria, em Portugal, e o livro seria publicado em fevereiro de 2013, pelas Edições Vieira da Silva; atualmente, está em 2.ª edição. Já este ano, Joaquim Semeano viu publicado um poema da sua autoria na colectânea "Antologia de Poesia Portuguesa Contemporânea", da Chiado Editora; outra colectânea de poesia, "A Essência do Amor", a publicar brevemente pela Vieira da Silva, integrará também quatro poemas da sua autoria. Atualmente, Joaquim Semeano é jornalista freelancer, com colaborações ocasionais em algumas revistas e sites na internet. Vive em Almada, junto a Lisboa, na companhia da sua mulher e o filho de 11 anos.


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Na pequena aldeia de Abur vivia um moleiro de quem se dizia ser pessoa muito má e capaz de grandes crueldades. Havia quem lhe chamasse o Moleiro Profeta, porque cumpria sempre aquilo que dizia, e principalmente as suas ameaças. As pessoas tinham medo dele, e não havia quem lhe pedisse algum dinheiro emprestado ou sequer um pouco de farinha, pois tinham medo que ele ameaçasse com a morte caso não pagassem na altura combinada. Uma vez apareceu na aldeia umn mendigo, muito pobrezinho, as roupas rasgadas, os pés descalços e, pior do que tudo isso, cheio de fome. A porta onde foi bater foi exactamente a do Moleiro Profeta. -- Senhor, não dará algo de comer a este pobre pecador esfomeado, que há três dias não sabe o que é uma côdea de pão? O Moleiro olhou-o bem, os olhos brilhando, a boca semi-aberta num sorriso irónico, e chamou a mulher. -- Mari, vem cá! Ela veio, era uma mulher gorda e de faces vermelhas, e teve um sorriso piedoso quando viu o mendigo. -- Pobrezinho! – exclamou – Como está fraquinho, só pele e ossos! Não tem fome? -- Tenho sim, minha rica senhora! – respondeu o mendigo, os olhos rasos de lágrimas – Uma côdea de pão e ficar-lhe-ei grato por toda a vida. -- Mari! – disse o Moleiro Profeta, com um sorriso trocista, malandro – Traz um quilo de papas de farinha para o nosso amigo! Vai comer tanto que não precisará de mendigar comida durante o resto da sua vida! Assim foi. O mendigo agradeceu efusivamente a imensa bondade do moleiro, o qual, quando Mari trouxe as papas, disse numa voz tão alta que, conta-se, toda a aldeia de Abur o ouviu: -- Agora, meu amigo, tem aqui as suas papas de trigo! E ouça bem: vai ter que comer isto tudo, caso contrário mato-o! Quero que fique saciado de uma vez por todas. Não voltará a pedir comida à porta de mais ninguém! O mendigo agradeceu, mas no seu íntimo sentia um grande medo e uma grande amargura, pois sabia que não era capaz de engolir tudo aquilo. Assim, comeu o que pôde e, antes que o moleiro voltasse, começou a enfiar as papas que restavam em todos os sítios possíveis, nos bolsos das calças, no casaco, no saco que trazia. Quando o Moleiro Profeta voltou, o prato das papas estava vazio, e o nosso amigo mendigo muito gordo, quase incapaz de se mexer. -- Muito bem! – disse o moleiro – Agora ponha-se a andar… se puder!... Deu uma grande gargalhada, enquanto o mendigo lhe virava as costas e saía, muito lentamente. Mas, quando voltou à rua e à luz do sol, algo de extraordinário aconteceu: de súbito, todas aquelas papas que levava escondidas entre as suas pobres roupas se transformaram em pepitas de ouro, de tal modo que o mendigo caiu no meio da rua, por não suportar o peso daquela riqueza.


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As pessoas de Abur vieram todas, com grandes gritos, apanhar o tesouro espalhado pelo chão. No entanto, o Moleiro Profeta saiu de casa com uma espingarda na mão e ordenou a todos que se afastassem: -- Onde vão, seus ladrões? As papas eram minhas, logo as pepitas também me pertencem! Vá, arredem, não procurem possuir o que não vos pertence! E, debruçando-se, apanhou todo o ouro, metendo-o ora nos bolsos das calças ora do casaco. E, como era um homem forte e a ambição mais força lhe dava, não caiu com o peso daquele tesouro. Assim, voltou para dentro de casa, dando gargalhadas meio loucas e gritando à mulher que estavam ricos e jamais precisariam de voltar a trabalhar. No entanto, mal entrou dentro de casa todas as pepitas se transformaram nas papas de trigo, que se espalharam pelo seu corpo e caíram no chão. Todos os aldeões riram bastante quando o viram aparecer à porta completamente sujo, gritando furiosamente pelo mendigo. Este, no entanto, já desaparecera, já retomara o seu caminho, e foi já muito longe da aldeia de Abur que descobriu no bolso das calças uma pepita de ouro, com a qual enriqueceu, não precisando de voltar a mendigar.


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10ºLugar

Basco, o cãozinho Naira Taiwo

ueVale

©Henriq

Naira Taiwo nasceu em 1997 no Rio de Janeiro. Atualmente, cursa o 3º ano do ensino médio. Escreve por hobbie desde os doze anos e possui um poema publicado no jornal literário online Olaria das Letras, 4ª edição. No momento, trabalha em um romance ficcional e pretende escrever e publicar obras durante toda a vida.


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Era uma vez um cachorrinho chamado Basco. Basco era um filhote muito divertido, desses que adoram pular e brincar. Ele morava em um canil muito grande e bonito, que dividia com seus quatro irmãos, sua mãe e seu pai. Todos os filhotes eram muito felizes, e tanto seus pais quanto seus donos os adoravam. Todos os dias, enquanto o pai e a mãe de Basco descansavam, ele e seus irmãos iam brincar no quintal. Os cachorrinhos corriam, pulavam e se divertiam com os brinquedos que seus donos lhes davam. Às vezes, um dos donos de Basco, uma linda garotinha chamada Isabel, enterrava no quintal um osso desses bem grandes e branquinhos para os cachorros encontrarem. Quando um filhote farejava um osso, corria para desenterra-lo. Assim que o osso era desenterrado, os cachorrinhos faziam a festa! Para Basco, porém, não era assim tão bom. Todos os seus irmãos já tinham encontrado um osso enterrado, menos ele. Certo dia, Basco estava andando pelo quintal, procurando pelo cheiro de um osso enterrado. Ele queria, pelo menos uma vez, ser aquele que encontra o osso. Não era justo que só seus irmãos os encontrassem! De repente, enquanto Basco andava, ele viu Isabel chegar em casa. Ela saíra com a mãe para fazer compras. Quando Isabel passou por Basco, ele viu nas mãos da menina uma grande sacola cheia de ossos novinhos! O cãozinho, que não era nada bobo, seguiu Isabel até a cozinha, onde ela guardou a sacola no armário. Basco ganiu, latiu, implorou para que a dona lhe desse pelo menos um ossinho. - Não, Basco, você tem que achar o osso quando eu enterrar – disse Isabel, acariciando a cabeça do cachorrinho. Basco adorava carinho. – Vamos, seu bobinho, volte para o quintal. Basco voltou para o quintal e foi brincar com seus irmãos, mas agora ele tinha um plano. Ele sabia onde os ossos estavam, então, quando os donos não estivessem em casa, iria invadir o armário da cozinha e roubar um osso! No dia seguinte, Isabel foi para a escola e seus pais foram trabalhar. A casa estava vazia, era o momento perfeito para Basco realizar seu plano. Enquanto os filhotes brincavam, Basco saiu de fininho e foi em direção à casa de seus donos. Ele entrou pela portinha de cachorros e foi até a cozinha. A porta do armário não tinha fechadura e, com algum esforço, Basco conseguiu abri-la. Lá dentro, uma maravilha: a sacola de ossos estava bem à sua frente, repleta de gostosuras branquinhas prontas para serem roídas. Basco logo rasgou a sacola e todos os ossinhos caíram no chão. Ele roeu um, depois outro, depois mais um. O cãozinho se deliciou tanto com os ossos que perdeu a noção do tempo, e não percebeu que era hora de seus donos voltarem para casa.


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De repente, a luz da cozinha se acendeu, e a mãe de Isabel deu um grito. - Baaascoo!!! Saia já daí!!! Basco deu um pulo. Ele estava assustado, porque sabia que o que fizera era muito errado. Além de ter roubado os ossos na casa de seus donos, ainda estava roendo tudo sozinho, sem deixar nada para os irmãos! A mãe de Isabel pegou Basco no colo e o colocou para fora. O cachorrinho, arrependido, foi para o canil e confessou tudo aos seus pais. - Você está de castigo! – disse a mãe de Basco. – Não quero que saia deste canil até ter pensado muito bem no que você fez! Basco chorou muito. Ele ficou o resto do dia pensando no que fez, e durante todo o dia seguinte. Quando finalmente entendeu o que aquilo significava, foi falar com sua mãe. - Mamãe, eu pensei no que eu fiz – disse Basco. – Eu invadi a casa dos meus donos e roubei ossos, e isso foi muito ruim. Roubar é errado, ainda mais de alguém que confiava em mim. - Isso Basco, muito bem. – disse a mãe de Basco. – E o que mais? - Aqueles ossos eram para mim e para meus irmãos, e eu roí tudo sozinho. Se eu não tivesse feito isso, Isabel teria enterrado os ossos e eu e meus irmãos acharíamos e roeríamos todos juntos. - Isso mesmo, Basco – disse a mãe. – E agora vá pedir desculpas aos seus irmãos e aos nossos donos. Basco se desculpou com os irmãos, com Isabel e com os pais da menina. Todos aceitaram suas desculpas, e ele prometeu que nunca mais faria algo assim de novo. Foi um dia feliz para Basco, porque pela primeira vez o cãozinho encontrou o osso que Isabel enterrou. Porém, ao invés de roê-lo, deixou para que seus irmãos se esbaldassem sozinhos. Afinal, ele já roera ossos demais.


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A tempestade passou. Destroços do navio flutuam nas ondas. Os dois sobem num bote salva- vidas e uma luz parece reboca-los para terra firme...É a luz do Farol Fantástico.

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Farol fantástico 2, junho de 2014  

Revista Infantojuvenil Farol Fantástico n.02, junho de 2014

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