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NOV O

MatchPoint n.º 5 | Maio 2013 | € 4.95

Portugal

Sucesso francês em Paris Faites vos jeux!

Roland Garros Quem é o Rei da terra batida

Gastão Elias

“O meu objectivo neste momento é ser top-100”

fb.com/matchpointportugal www.matchpointportugal.com


SUMÁRIO

MatchPoint

NOV O

MatchPoint n.º 5 | Maio 2013 | € 4.95

Portugal

SUCESSO FRANCÊS EM PARIS FAITES VOS JEUX!

Portugal

ROLAND GARROS QUEM É O REI DA TERRA BATIDA

Gastão Elias

ARTIGOS   4 Bolas curtas  12 Portugal Open em fotos

“O meu objectivo neste momento é ser top-100”

fb.com/matchpointportugal www.matchpointportugal.com

n.º 5 Maio 2013

 20 30 anos depois de Yannick Noah  26 Quem é o Rei da terra batida  34 Entrevista: Gastão Elias (1.ª parte)

Propriedade

OPINIÃO

Director

  3 Editorial

Redactores e colaboradores

 18 Court & Costura

Cardoso, João Carlos Silva, José

SECÇÕES  48 Equipamento  50 Arbitragem  51 Medical Timeout

Pedro Keul

Hugo Ribeiro, Miguel Seabra, Jorge Pedro Correia e Luís Damasceno Fotografia Cynthia Lum (excepto indicação em contrário) Projecto gráfico e paginação Henriqueta Ramos Mobile / Webdesign

 52 Táctica  53 Bola na tela

Contactos 96 3078672 portugalmatchpoint@gmail.com matchpointportugal Foto da capa Gaspar Nóbrega/Inovafoto


EDITORIAL

O FUTURO COMEÇA NO PRESENTE

Pedro Keul

Depois de um longo interregno, Portugal vai receber três torneios challengers. Sabendo, evidentemente, que os responsáveis pela organização destes torneios não têm qualquer responsabilidade sobre a ausência de eventos desta categoria no nosso calendário, não consigo evitar de pensar que a sua realização é de inteira justiça para a actual geração de tenistas portugueses. O que os tenistas lusos classificados no ranking ATP têm feitos nos últimos meses, é mais que suficiente para merecerem estas oportunidades de ganhar pontos importantes para ascenderem no ranking mundial. Mas não se pode esquecer do presente. E os torneios internacionais do circuito profissional existentes, embora de menor cotação, são de igual importância. Que o digam Frederico Silva e João Domingues que conquistaram os seus primeiros títulos em Monfortinho e Coimbra, onde se realizaram torneios da categoria future. Para além dos efeitos directos e imediatos, há que saber capitalizar esta vaga de torneios, pouco esperada, dada a crise económica, com reflexos acentuados nos patrocínios de eventos desportivos. Os torneios internacionais são das melhores ocasiões para aproximar as “estrelas” do ténis português dos adeptos, em especial os mais jovens, para quem é essencial terem referências para alimentar os sonhos. E para os alcançar, basta persegui-los.

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DR

BOLAS CURTAS

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Campeões da Foz fazem 100 anos

Connors ainda é polémico

No passado dia 16 de maio, o Lawn Ténis Clube da Foz celebrou um centenário singular: comemorou-se os 60 anos desde o último de 14 títulos de campeão nacional de José Roquette e 40 anos desde o primeiro de cinco títulos consecutivos de José Vilela no Campeonato Nacional. A homenagem teve uma breve apresentação dos dois campeões a cargo dos jornalistas Norberto Santos e Manuel Perez, perante duas dezenas de convidados, entre os quais José Vilela e três filhos de José Roquette (José, Jorge e António). Uma homenagem merecida a dois grandes campeões e senhores do nosso ténis para que perdurem para sempre nas nossas memórias.

Foram negativas a maioria das reacções ao último livro de Jimmy Connors, nomeadamente à revelação feito antigo tenista de que Chris Evert, com quem formava um par amoroso nos anos 70, tinha abortado aos 19 anos. O norteamericano, que tinha tanto de rebelde como de espírito competitivo, revelou em “The Outsider” pormenores desse momento por que passaram ambos, numa altura em que ambos lideravam os respectivos rankings mundiais. “Um problema devido a uma paixão de juventude apareceu e uma decisão do casal teve de ser tomada. Chrissie ligoume para me dizer que ela tratava disso. Do meu lado, estava pronto para

deixar a natureza seguir o seu caminho e assumir essa responsabilidade, mas Chrissie já tinha tomado a sua decisão: o momento era mau e ela tinha outros planos para o seu futuro”, afirmou Connors. Segundo o autor, essa decisão ditou o fim da relação com a compatriota: “Foi horrível mas sabia que estava terminado. Casar não teria sido bom nem para ela nem para mim. E depois, colocava-se sempre a mesma questão: será que pode haver dois números um na mesma família?” Evert demorou alguns dias a reagir, acabando por se mostrar desgostosa com Connors, através de um comunicado difundido através da agência noticiosa Reuters. “No seu livro, Jimmy Connors revelou um momento da nossa relação muito pessoal e muito doloroso. Estou extremamente desiludida por ele ter utilizado este livro para deformar uma história relevante da vida privada que teve lugar há 40 anos e torná-la pública sem me ter dito”, frisou Evert.

Ténis internacional volta à Foz

Como não há duas sem três, Portugal vai receber uma


Portugal (dos pequeninos) Open Ao mesmo tempo que alguns dos melhores tenistas do mundo se digladiavam nos principais courts do Jamor, também os mais pequenos disputaram o “seu” Portugal Open. Uma dezena de jogadores “sub 10” de seis países tiveram a oportunidade de competir e conhecer alguns dos craques nacionais como Gastão Elias e Pedro Sousa. A final, ganha por Miguel Lopes a Vasco Prata, teve honras de se realizar no Centralito sob o olhar de bastante público. A cerimónia de entrega de prémios contou com a presença da vice-presidente da FPT, Cristina Oliveira, da supervisora do WTA Martina Lutkova, e de três elementos do staff do ATP, o supervisor Carlos Sanches e os árbitros Carlos Bernardes e Cédric Mourier.

Fernado Correia/JLS

terceira prova challenger este ano, a juntar às de Lisboa (organizada por Manuel de Sousa em parceria com a João Lagos Sports) e Guimarães (Open Village Ténis Sports). O torneio terá lugar no Lawn Ténis Clube da Foz, a partir de 30 de Setembro, e tem como director Pedro Cordeiro. A organização do evento será da The Bee Was Bean com o apoio da Porto Lazer e vai oferecer um prize-money de 30 mil euros e hospitalidade. O nome do patrocinador principal será conhecido em breve.

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BOLAS CURTAS Portugal vai jogar em rápido

A Moldávia, que recebe Portugal, entre 13 e 15 de setembro, em confronto da terceira eliminatória do Grupo II da Zona Europa/ África da Taça Davis, já anunciou a sua escolha de piso. Segundo informação chegada à Federação Portuguesa de Ténis, os encontros serão jogados em piso rápido indoor, no Manejul de Atletica Usoara, pavilhão na capital moldava, Chisinau. Recorde-se que estará em jogo a subida ao grupo I da Zona Europa/ África, em 2014.

WTA Tour vai terminar em Singapura

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Singapura bateu os concorrentes Tianjin (China) e Monterrey (México) e ganhou o direito de receber o WTA Championships de 2014 a 2018. O evento que encerra a época, e é mais conhecido por Masters, vai distribuir cinco milhões de euros pelas oito melhores jogadoras e oito melhores duplas do circuito feminino. Uma razão forte para Stacey Allaster, presidente executiva do WTA Tour, afirmar que esta é “a maior

e mais significativa parceria na nossa história”. O WTA Championships irá realizarse no novíssimo Sports Hub que deverá estar terminado no primeiro trimestre de 2014 com um custo de quase 800 milhões de euros. O complexo vai integrar um estádio de 55 mil lugares com tecto amovível, um outro com 13 mil lugares, um centro aquático e um centro de desportos náuticos. O último grande evento tenístico em Singapura data de 1999, quando se realizou a Heineken Cup do circuito ATP. O primeiro Masters do WTA Tour teve lugar em 1972 e ficou nos EUA (Nova Iorque e Los Angeles) até 2001, quando passou a viajar pelo mundo (Munique, Madrid, Doha e Istanbul, cuja terceira e última edição terá lugar em Outubro).

Padel no Portugal Open

Stefano Valenti, Director do Valténis Country Club, idealizou e João Lagos aprovou. Um

campo de padel foi erguido junto à chamada Avenida das Palmeiras do complexo de ténis do Jamor e durante a semana do Portugal Open, arrancou a Liga de Padel, com provas de pares femininos, masculinos e mistos, e ainda um Pro-Am. Entre os muitos inscritos, contaram-se alguns dos melhores praticantes nacionais, como Filipa Caldeira, Kátia Rodrigues, Bárbara Corte-Real, Isabel Costa, Sandra Marques, Pedro Sousa (ex-tenista campeão nacional de pares), Eduardo Carona, Vasco Pascoal e Pedro Plantier (multicampeão de padel).

Wawrinka e Vesnina adaptaram-se ao vento No fim-de-semana antes de entrarem em acção, Stanislas Wawrinka e Elena Vesnina embarcaram no veleiro Patrão Mor, na Marina de Oeiras para um passeio à vela no rio Tejo. Vindo de um país sem mar (mas com lagos), Wawrinka mostrou-se à vontade a manejar o leme, ao contrário de Vesnina, que aproveitou para aprender algumas noções da arte de velejar. A russa acabou por não fazer um grande torneio por culpa da compatriota e futura vencedora, Anastasia


O Jantar é oficial

Fernado Correia/JLS

Como é tradição, durante o Portugal Open realizou-se o Jantar Oficial dos Jogadores, que este ano decorreu no Forte de São Julião da Barra, em Paço d’Arcos. O evento só foi tornado possível graças ao

Fernado Correia/JLS

Fernado Correia/JLS

Pavliuchenkova – que a eliminou nos quartos-de-final (no tie-break do terceiro set!) –, mas Wawrinka adaptouse bem ao vento que se fez sentir nos primeiros dias da prova no Jamor e manteve-se imbatível ao longo de toda a semana.

Goffin e Kuz foram MastersChefs Qualquer tenista profissional gosta de um bom desafio e David Goffin e Svetlana Kuznetsova estiveram á altura daquele que lhes foi proposto durante o Portugal Open: um show de live cooking. Para ambos, pouco conhecedores da haut cuisine, foi uma nova e muito divertida experiência, digna do popular concurso MastersChef. E, ao contrário do que acontece nos courts, houve dois vencedores. apoio da Câmara Municipal de Oeiras, que se tem revelado um fiel e importante aliado de João Lagos, na realização anual do maior evento tenístico nacional. Daí que o seu presidente em exercício, Paulo Vistas, tenha sido presença assídua no Jamor e não tenha faltado ao jantar, nem à foto da praxe com dois tenistas… do século XVII.

CSI investiga ténis Elizabeth Shue é uma das estrelas da famosa série CSI e como grande

fã de ténis convenceu os argumentistas a escreverem um episódio que envolvesse a modalidade. Assim, o episódio 12 da temporada 13 recebeu o nome de “Double Fault” (Dupla Falta) e contou com a presença de três antigos jogadores que representaram-se a si mesmos: Chris Evert, Lindsay Davenport e Justin Gimelstob. Para memória futura fica uma frase proferida pela outra estrela da série, Ted Danson: “Quem disse que o ténis não é um desporto sangrento?”

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BOLAS CURTAS

Cocktail João Lagos

Parabéns a Robredo O dia 1 de Maio foi dos que mais afluência levou ao Jamor em 24 anos de Portugal Open, com mais de sete mil visitantes. Alguns deles juntaram-se na praça Break

O Chef Nuno Queiroz Ribeiro é adepto da máxima “se não sois capaz de um pouco de feitiçaria, não vale a pena meter-vos a cozinheiro”. Fiel a essa convicção surpreendeu muitos no último dia do Portugal Open ao tirar da cartola (de Chef), com a ajuda de Martim Lagos, uma sobremesa com as cores da terra batida e das bolas de ténis. Tecnicamente falando, tratou-se de um Crocante de terra batida com gelado de bola de ténis, um Bombom de bola de ténis fluorescentes com recheio de manjericão e uma Poncha de terra batida com especiarias e gelo seco.

Fernado Correia/JLS

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Ténis, Associação de Ténis de Lisboa, Centro de Ténis de Monsanto e Escola de Ténis Manuel de Sousa.

Fernado Correia/JLS

A Sport Flow Seniors Cup vai organizar pela primeira vez este ano em Portugal três torneios integrados no calendário da Federação Internacional de Ténis (ITF), destinados a maiores de 35 anos: Centro de Ténis de Monsanto (Lisboa), de 20 a

23 de Junho; Clube de Ténis de Guimarães, entre 19 e 21 de Julho; e no CIF (Lisboa), de 10 a 13 de Outubro. A prova de Monsanto deverá contar com mais de 70 inscrições para as 21 categorias em prova (singulares e pares masculinos e femininos e pares mistos) e conta com o apoio da Tennis Europe, Federação Portuguesa de

Fernado Correia/JLS

Três torneios internacionais para veteranos


Fernado Correia/JLS

Point para cantar os parabéns a Tommy Robredo que completou 31 anos. O tenista espanhol tem igualmente razões desportivas para ser parabenizado, pois iniciou o ano fora do top 100 e está agora o 34.º lugar do ranking, embora ainda longe do quinto posto que ocupou em 2006.

“Ela é a Martina Hingis”

A química entre Anastasia Pavlyuchenkova e Martina Hingis foi imediata quando se conheceram em Setembro passado, mas só no mês passado é que a antiga campeã de cinco torneios do Grand Slam assumiu o cargo de treinadora da

russa. E os resultados não demoraram a aparecer, com Pavlyuchenkova a triunfar no Portugal Open. Mas mesmo antes erguer o troféu no Jamor, as duas falaram da sua relação para o site do WTA Tour e a tenista russa disse que ouve tudo o que a treinador lhe diz porque “ela é a Martina Hingis”.

Kuznetsova com imitação de Air Jordan

Depois de uma década ligada à marca Fila, Svetlana Kuznetsova assinou contrato este ano com a empresa chinesa Qiaodan, nome que em chinês significa Jordan. As semelhanças com a marca lançada pela antiga estrela do ténis norte-americana não se ficam por aqui: o logo da marca chinesa é uma imitação da utilizada na linha criada por Michael Jordan, que entretanto já colocou um processo num tribunal chinês por utilização ilegal do seu nome.

“Troicki camera” Sabendo que não existe o sistema Hawk-Eye nos torneios de terra batida, Viktor Troicki teve a peregrina ideia de recorrer á câmara de televisão mais perto,

para mostrar ao mundo que a decisão do árbitro Cédric Mourier era errada. Aconteceu em Roma durante o seu encontro com Ernests Gulbis, quando Mourier corrigiu a decisão do juiz de linha que tinha dado a bola do sérvio como boa. Troicki foi ver com os seus olhos e não concordou com o árbitro. Agarrou então no cameraman e levou-o a filmar a eventual marca, sob os risos do público italiano, amante de uma boa comédia. E esta rábula, nem John McEnroe alguma vez se lembrou.

Andy Roddick agora comenta

O antigo número um mundial, Andy Roddick, foi contratado pela cadeia Fox para comentador desportivo. A primeira abordagem foi feita poucas semanas depois de Roddick anunciar o seu abandono do ténis profissional, em Setembro passado, no Open dos EUA, mas há um mês, o convite

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BOLAS CURTAS Agassi regressa à Nike O crescimento de Andre Agassi enquanto tenista profissional esteve sempre ligado á Nike, mais concretamente desde 1988. Mas desde que abandonou os courts, em 2005, e dedicouse à sua fundação e à escola em Las Vegas (Andre Agassi College Preparatory Academy), o antigo número um mundial e campeão de oito títulos do Grand Slam e a sua mulher, Steffi Graf, optaram pela Adidas, que efectuou uma substancial contribuição para aqueles projectos. Oito anos, a Nike volta a contratar Agassi para a sua campanha Designed to Move, que visa acabar com a “epidemia de inactividade física”

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foi oficialmente feito e o extenista de 30 anos aceitou de forma entusiasmada as funções de comentador no Fox Sports Live, um programa diário de três horas que irá para o ar a partir de Agosto. Os responsáveis da cadeia norte-americana gostam do seu estilo bastante directo e opinativo e ofereceramlhe um contrato de vários anos. O mais curioso, é que Roddick não deverá comentar ténis mas sim outros desportos, com base

na sua experiência de atleta.

Não há pai para Tomic

Não se sabe bem em que estado é Bernard Tomic vai disputar o torneio de Roland Garros. O australiano de 20 anos só ganhou um encontro nos três torneios que disputou sobre terra batida mas o pior aconteceu num hotel de Madrid: o pai e treinador agrediu o parceiro de treino, Thomas Drouet, com uma cabeçada,

partindo-lhe o nariz e provocando uma comoção ao nível das cervicais. John Tomic foi detido na altura, mas um tribunal madrileno adiou para Outubro o seu julgamento, o qual aguardará em liberdade. Para já, o pai de Bernard está impedido de entrar em qualquer torneio oficial.

O bluff de Rafa Na teoria, é mais uma lição com vista a tornar-se num (ainda) melhor tenista. Mas acima na prática, o vídeo em que Rafael Nadal transformase em actor por uns minutos passou a ser um dos mais vistos no mundo do ténis online. Trata-se de uma acção publicitária do site PokerStars.com, patrocinador do jogador espanhol, em que Nadal pretende aprender a arte do bluff. Mas um par de óculos não chega para enganar os fãs!


PORTFOLIO

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PORTUGAL OPEN em imagens Fotos: JosĂŠ Sarmento Matos


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Court & Costura

Falta de coragem francesa no caso de Rafael Nadal A discussão pública sobre um eventual favorecimento de Rafael Nadal na atribuição dos cabeças-de-série em Roland Garros deveria ter sido mais aprofundada e levada às últimas consequências. A superficialidade com que a questão foi tratada impediu de se fazer história e jurisprudência na modalidade. Um dos problemas do ténis mundial é a existência de várias entidades reguladoras, impedindo a homogeneidade de regras, regulamentos e procedimentos. O estabelecimento dos cabeças-de-série é vítima dessa realidade. Nos circuitos ATP, WTA e ITF, considera-se que o ranking deve definir os cabeças-de-série. A única excepção são os torneios do Grand Slam, aos quais é permitida a salvaguarda de a organização (ou uma comissão da mesma) poder atribuir arbitrariamente esses postos prédesignados, embora levando em consideração os rankings. Na realidade, essa regra foi criada pela teimosia do All England Club em considerar-se acima da ATP e WTA e gostar de provar sempre que possível quem manda no torneio de Wimbledon, uma vez que as federações norte-americana, francesa e australiana há muito aceitaram a ditadura do ranking nos restantes Majors. Lamento que o escasso espaço desta coluna não me permita explicar todas as razões históricas e políticas que deveriam ter levado os jogadores a apoiarem em massa a indicação de Rafa para 1.º ou 2.º cabeça-de-série em Roland Garros, mas garanto que, uma vez mais, o All England Club saiu indirectamente a ganhar… e a rir-se dos franceses.

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Hugo Ribeiro


DR

Roland Garros

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Le jour de gloire

est arrivé…


Tem havido momentos incrivelmente emotivos ao longo das últimas décadas em Roland Garros – cada campeão ou campeã celebrou à sua maneira, de modo mais ou menos memorável, sempre com a felicidade inerente ao triunfo no maior torneio do mundo em terra batida. Mas nenhuma vitória foi tão feliz e tão celebrada como a de Yannick Noah, há precisamente 30 anos. Como serão as celebrações do dia de glória da edição de 2013? Miguel Seabra

No ano em que o maior torneio de ténis luso passou a denominar-se Portugal Open, cumpriu-se o 30.º aniversário sobre o tal Portugal Open de 1983 que foi o único evento tenístico realizado em solo nacional a integrar o escalão principal do circuito profissional até ao advento do Estoril Open, em 1990. Foi um caso singular, essa edição de 1983, trazida para o Jamor por um promotor alemão (William Bungert) que desapareceu de cena tão depressa como apareceu. Mas foi uma edição desportivamente memorável e que teve reflexos decisivos em Roland Garros algumas semanas depois. No Jamor, Yannick Noah dispôs de match-points mas acabou por perder com Mats Wilander numa dramática final que até mereceu placa comemorativa à porta dos balneários do complexo de ténis do Estádio Nacional. Semanas depois, na decisão do título de Roland Garros, o francês vingou-se do sueco com um convincente triunfo em apenas três partidas que emocionou não só toda uma nação como também o planeta tenístico – e essa edição de 1983 constituiu um marco a vários níveis que ainda não foram ultrapassados.

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Roland Garros Do pesadelo à realidade A derrota em solo luso foi tão traumática para Noah que ele sonhou na véspera da final de Roland Garros que tinha perdido novamente com Wilander. O pesadelo acabou por dar frutos positivos: ao dar-se conta de que a derrota não passara de um sonho, o francês de origem camaronesa ficou feliz por ter uma “segunda” hipótese de ganhar. E foi com toda a sua garra que asfixiou ofensivamente Mats Wilander, ganhando o encontro por 6-2, 7-5 e 7-6 (7/3) às custas do seu grande serviço e atleticismo à rede. Desde então, e apesar de os courts de Roland Garros terem a fama de serem os mais rápidos em terra batida no circuito, nunca outro puro-sangue atacante logrou vencer o torneio com base no sistemático binómio serviço-vólei – logo no ano seguinte, John McEnroe cedeu ingloriamente a vantagem de dois sets a zero diante de Ivan Lendl devido a uma birra; em 1985, Mats Wilander até voleou frequentemente para bater Ivan Lendl mas não pode ser integrado na categoria dos voleadores; Stefan Edberg também não conseguiu acabar com Michael Chang na equilibrada final de 1989; Michael Stich cedeu face a Yevgeny Kafelnikov em 1996; Roger Federer quebrou a sua malapata parisiense em 2009, mas prefere acabar os pontos com a sua direita e até parece estar a volear pior. Também nenhum francês logrou repetir a façanha de Yannick Noah, apesar da final de Henri Leconte (que também era um atacante nato) em 1988, face a Mats Wilander, e da presença de Cédric Pioline, Sébastien Grosjean ou Gaël Monfils nas meias-finais. A pressão suplementar de jogar perante o caprichoso público francês tem pesado sobremaneira sobre a prestação dos representantes locais, com a única excepção a pertencer ao lado feminino – através de uma jogadora que, para além de francesa, era sobretudo americana e também um pouco canadiana: Mary Pierce, campeã em 2000.

“A herança de Yannick Noah perdura” 22

Será que o triunfo de Yannick Noah, o “Grande Feiticeiro”, representa uma espécie de “Maldição de Bela Guttman”? No dia da final, o L’Équipe intitulava “50 Milhões de Noahs” – para repercutir a completa adesão nacional ao novo herói nacional. Logo após o match-point e o quebrar de um jejum de 37 anos que datava desde


João Pires

o triunfo de Marcel Bernard em 1946, o court central de Roland Garros (que não altura não se chamava Philippe Chatrier e que tinha o próprio Philippe Chatrier a assistir) foi invadido por uma multidão em delírio, com Yannick em comunhão com o seu pai camaronês e a sua mãe francesa a representarem a nova França multi-cultural. Até Mats Wilander, o derrotado, ficou contente por ele! Com 1,93m, perfeito físico felino e cabeleira rasta esvoaçante, tornou-se numa imensa vedeta – tão grande que, meses depois, foi forçado a “ fugir” da fama e do vazio que subitamente começou a sentir: “Uma vitória que eu pensei que representasse ‘tudo’ para mim, subitamente pareceu-me ser ‘nada’ aos meus olhos; choquei contra um muro e fui para Nova Iorque viver lá o meu anonimato”. E não, a sua raça nunca teve a ver com a transferência intercontinental: “nunca senti racismo: um preto rico é como se fosse um branco”, confessaria. A lenda de Noah passou também para a selecção nacional, que sob a sua batuta ganhou em Lyon a Taça Davis de 1991 aos Estados Unidos de Pete Sampras e Andre Agassi para cinco anos depois ir a Malmoe derrotar a Suécia graças a um triunfo no

Yannick Noah continua a ser muito popular, tendo sido nomeado a maior personalidade francesa em nove anos consecutivos

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Roland Garros quinto set do quinto encontro que nunca antes tinha acontecido no historial da competição fundada em 1900. O carisma de Noah enquanto jogador, capitão e até líder espiritual transcendeu o ténis e o próprio desporto – tornando-se num cantor de sucesso em França com milhões de discos vendidos e sendo nomeado maior personalidade francesa em nove anos consecutivos.

A arca de Noah

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A herança de Yannick Noah perdura e é especialmente recordada na comemoração dos 30 anos sobre o seu épico feito parisiense. Gaël Monfils e Jo-Wilfried Tsonga, que em 2002 perderam diante de Frederico Gil e Leonardo Tavares na primeira ronda de pares juniores em Roland Garros, são os dois “filhos de Noah” que mais perto estiveram de o imitar – Monfils com presença nas meias-finais, Tsonga a dispor de quatro match-points para derrotar Novak Djokovic nos quartos-de-final da edição transacta. Ambos carismáticos e espectaculares, mas nascidos numa era extraordinariamente competitiva em que pontificam o maior jogador de todos os tempos em terra batida, o melhor tenista de todos os tempos e ainda um outro que já está entre os melhores de sempre. O grande tema da edição de 2013 prende-se com a colocação de Nadal e Djokovic no mesmo lado do quadro e Federer na metade oposta, mas todos aqueles que presenciaram o milagre de 1983, in loco ou pela televisão, não deixarão de sentir a influência de Noah ao longo da quinzena. E, já agora, outra recordação tirada do baú de memórias dessa edição: tal como Serena Williams este ano, também Martina Navratilova era esmagadoramente favorita à conquista do título feminino… e perdeu nos oitavos-de-final com Kathy Horvath – a sua única derrota em 84 encontros que jogou nessa temporada. Ao cabo de 15 dias e no fim-de-semana das finais, a quem pertencerá o dia de glória? Faites vos jeux!


NO CIRCUITO

Quem é o melhor de sempre no piso ocre?

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Rafael Nadal

pode coroar-se Imperador da terra


Rafael Nadal não é invencível na terra batida, mas ganhar-lhe à melhor de cinco partidas neste piso, é uma tarefa digna dos 12 trabalhos de Hércules. Hugo Ribeiro Se não contarmos com feitos quase míticos como os dois Grand Slams de Rod Laver e o Golden Slam de Steffi Graf, o maior desafio do ténis é defrontar Rafael Nadal em terra batida num encontro à melhor de cinco sets. É possível batê-lo e Robin Soderling provou-o em Roland Garros em 2009, o único desaire do espanhol face a 67 encontros ganhos à melhor de cinco partidas neste piso, mas é uma tarefa digna dos 12 trabalhos de Hércules. Rafa não é invencível na terra batida, mas é o jogador que mais se aproximou dessa perfeição e não admira que Novak Djokovic tenha exultado pela vitória obtida na final do último Open de Monte Carlo, numa celebração quase exagerada, olvidando que seria impossível o seu adversário estar no seu melhor depois da mais longa paragem da sua carreira. Compreende-se a reacção do n.º1 mundial apenas porque uma grave lesão num tornozelo não permitiu a Nole estar a 100% no Mónaco e também por saber que impediu o seu rival de somar um 9.º título no principado, o que seria um novo recorde de vitórias de um jogador em torneios do ATP World Tour. “Estou muito excitado, cheio de alegria por este momento. Não poderia ter pedido por um melhor arranque da época de terra batida. Derrotei o melhor jogador sobre terra batida de sempre na história deste desporto e todos sabemos como é bom o seu registo em Monte Carlo, com 8 títulos consecutivos”, disse.

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NO CIRCUITO

Com os triunfos em Madrid e Roma, Nadal estendeu o seu recorde de títulos da categoria Masters 1000 para 24

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Na Era Open, ou seja, na história do ténis profissional, só três jogadores lograram ganhar um torneio do Grand Slam em sete ocasiões. Pete Sampras e Roger Federer fizeramno em Wimbledon e o suíço acredita que poderá apoderar-se isoladamente desse recorde até ao final da sua carreira, mas praticamente todos os analistas entendem que, mais tarde ou mais cedo, esse será um máximo que ficará na posse de Nadal. O espanhol elevou a Taça dos Mosqueteiros em 7 ocasiões e não deverá parar por aí. A verdade é que durante anos os jogadores olharam para um confronto com Rafa em Roland Garros como mais complicado do que um duelo com ‘Pistol Pete’ ou ‘King Roger’ em Wimbledon no auge das suas carreiras. O espanhol infundia um medo irracional que levou o antigo n.º1 mundial Mats Wilander a comentar no Eurosport que “mais de 90% dos encontros de Nadal em terra batida são ganhos no balneário, antes de entrar em campo”. O sueco, que também venceu três vezes em Paris, chegou a


criticar duramente Roger Federer pela falência psicológica na final de Roland Garros de 2008, mas Mats acreditava que essa vantagem do heptacampeão iria desaparecer em 2013, fruto da sua ausência de sete meses e de todos saberem da fragilidade dos seus joelhos. “Afinal, o medo mantém-se”, espantouse o agora comentador televisivo, embora admita a excepção de Novak Djokovic. Mas porque razão era mais inverosímil para a concorrência superar Rafa na capital francesa sobre pó-de-tijolo do que Sampras ou Federer na relva do All England Club? A diferença é que o norte-americano e o suíço, apesar de serem comummente considerados os dois melhores de sempre na Era Open, os dois melhores especialistas de relva e dois talentos de levantar as bancadas, ambos deram igualmente provas de serem mais vulneráveis nos chamados ‘dias-não’. Federer soma 66 encontros ganhos e 7 perdidos na Catedral do ténis, muito próximo do registo de 63-7 de Sampras. Já Nadal apresenta um incrível índice de 52-1 em Roland Garros e, apesar de todo o mérito táctico de Robin Soderling na vitória em 2009, os outros jogadores têm no subconsciente que essa proeza foi facilitada pelo estado deplorável dos joelhos do espanhol nessa edição do torneio. Tal como Federer e Sampras em relva, também Nadal é o especialista supremo em terra batida, mas ao contrário deles apresenta outra equação aos adversários que advém da sua intensidade constante e regularidade exibicional. Daí ter ganho duas vezes em Paris sem perder qualquer set, algo que nem Federer nem Sampras conseguiram em Londres – títulos imaculados! “Eu tento fazer com que o meu adversário acredite que não pode ultrapassar-me. E a minha atitude fria no campo ajuda. Nunca

“Ele vai ter de bater mil como aquela para derrotar-me”

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NO CIRCUITO

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aplaudo nem elogio um bom ponto de um adversário. Mantenho a minha rotina de trabalho e preparo logo o ponto seguinte. É a minha maneira de dizer-lhe que não me interessa quão espectacular uma pancada é. Ele vai ter de bater mil como aquela para derrotar-me”. Esta frase foi proferida por Bjorn Borg quando ainda competia mas poderia ser decalcada para explicar o que vai na cabeça dos adversários de Rafa em Roland Garros. Ice-Borg foi apelidado pelo antigo nº1 mundial Ilie Nastase de “extraterrestre” mas foi na final de 2006 que Roger Federer desbobinou o melhor ténis de terra batida alguma vez visto neste planeta. Pena que tenha durado apenas um set! Vergou Nadal por 6-1, mas o espanhol seguiu à risca a cartilha de Borg, manteve a rotina, não se mostrou impressionado e venceu os três sets seguintes por 6-1, 6-4 e 7-6. Quando Nadal entra em campo em Roland Garros em condições físicas aceitáveis os opositores são incapazes de esquecer alguns recordes mundiais impressionantes que o seu próprio tio e treinador Toni ainda julga “impensáveis serem verdadeiros”: Rafa esteve invencível em terra batida em duas épocas inteiras em 2006 e 2010; somou 81 encontros consecutivos sem perder neste piso entre 2005 e 2007 (mesmo noutros pisos, nenhum jogador chegou perto); é o único na história a ter-se apoderado do ‘Clay Slam’ (Monte Carlo, Roma, Madrid e Roland Garros, em 2010); conquistou Roland Garros por 7 vezes, duas das quais sem perder qualquer set; soma 18 Masters 1000 em pó-de-tijolo: 8 anos seguidos no Open de Monte Carlo e em anos alternados 7 no Open de Itália (Roma), 2 em Madrid e 1 no Open da Alemanha (Hamburgo); e não podemos esquecer os 8 do prestigiado Open de Barcelona. Quando Roger Federer igualou o recorde de cinco títulos consecutivos de Bjorn Borg em Wimbledon, o sueco de gelo estava no camarote real do All England Club a assistir a essa maravilhos a final de cinco sets ganha a Nadal em 2007. Quando em 2011 Nadal derrotou Federer na final de Roland Garros e juntou-se a Borg como os únicos hexacampeões do Major de terra batida, o escandinavo estava de novo no camarote presidencial do Stade Philippe Chatrier.

“Rafa esteve invencível em terra batida em duas épocas inteiras, em 2006 e 2010”


Este ano, durante o Open de Monte Carlo, Borg admitiu ter sido suplantado por ambos nas sempre aliciantes discussões de quem é o melhor tenista de todos os tempos e de qual o mestre dos mestres na terra batida: “Para mim, Roger é o maior jogador da história. (…) Nadal é o maior de todos os tempos na terra batida. O que ele faz é divertido, é inimaginável. As pessoas não se apercebem, não sabem a que ponto ele é um artista sobre a terra. Ele quer sempre ganhar mais e ganhará mais torneios do Grand Slam. Quando Rafa bateu o meu recorde em Paris no ano passado fiquei feliz por ele. Conheço-o bem e gosto dele como pessoa. Fui o primeiro a felicitá-lo pela sua sétima vitória e espero que ele ganhe a oitava este ano”. Bjorn Borg foi o primeiro jogador a ser coroado consensualmente pelos media como “Rei da terra batida” e possui algumas semelhanças estonteantes com Nadal: também ganhou o seu primeiro título em Roland Garros com 18 anos, ambos tiveram uma série de 4 títulos seguidos em Paris e somaram o 6.º com

Bjorn Borg ficou feliz quando Nadal bateu o seu recorde em Paris

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NO CIRCUITO

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25 anos; Borg apresenta um registo no torneio parisiense de 49 vitórias e 2 derrotas (Nadal 52-1), sendo que os dois desaires foram com o mesmo jogador, Adriano Panatta, pelo que pode, como Rafa, dizer que só um jogador o bateu no evento; conquistou duas Taças dos Mosqueteiros sem perder qualquer partida, em 1978 e 1980 (Nadal em 2008 e 2010, exactamente com 30 anos de diferença); e se Nadal arrasou o seu principal rival, Federer, na final de 2008 (6-1, 6-3, 6-0), também Borg, 30 anos antes, esmagara Guillermo Vilas (o campeão do ano anterior) na final de 1978 por 6-1, 6-1, 6-3. Borg só tem um recorde que não foi quebrado por Nadal: o de 41 sets seguidos ganhos desde a final de 1979 até à final de 1981. Depois de Borg, houve outros reis da terra batida – Mats Wilander, Ivan Lendl, Sergi Bruguera, Thomas Muster, Gustavo Kuerten – mas nenhum lhe fez sombra até passar ele próprio a ficar na penumbra de Nadal. É certo que Guillermo Vilas mantém três importantes recordes mundiais na superfície teoricamente mais lenta do circuito, a saber, 46 títulos (Nadal adicionou o seu 41.º em Roma), 639 encontros ganhos e ser o único a triunfar em dois torneios do Grand Slam diferentes, pois juntou o de Roland Garros de 1977 ao do US Open que no mesmo ano se disputou na peculiar terra batida norte-americana de cor esverdeada. Não obstante essas marcas do tenista-poeta-cantor argentino, Rafael Nadal e Bjorn Borg massacram qualquer outra rivalidade histórica no que se refere à estatística que melhor define o domínio de um especialista, a relação entre vitórias e derrotas, a eficácia de cada vez que se pisa a terra prometida: 281V-21D para o espanhol, 93%, e 245V-39D para o sueco, 86%. Quer um, quer outro, sobressaíram pelo ‘heavy-spin’ das suas pancadas, ou seja, um efeito super-acentuado do tradicional ‘topspin’; por direitas arrasadoras e esquerdas a duas mãos infalíveis; por um jogo defensivo (passing-shots e lobs) de levar qualquer um do outro lado da rede à frustração; por uma condição física de eleição, que mistura a resistência de um maratonista com a explosão de um sprinter; e por uma força mental descomunal,


embora a atitude gelada e estóica do nórdico contraste claramente com fúria do toiro latino. Portanto, se Borg, o escandinavo destro de longos cabelos louros presos por uma fita, foi o primeiro “Rei da terra batida”, Nadal, o maiorquino canhoto de compridos cabelos negros agarrados por um lenço, ganhou o direito de fazer como Napoleão – pode segurar a coroa com as duas mãos e proclamar-se “Imperador do pó-de-tijolo”. Há, contudo, uma diferença avassaladora entre ambos. Borg foi um Deus em Roland Garros e idolatrado como nenhum estrangeiro. Ajustou-se que nem uma luva que essa história de amor terminasse com o seu 6.º e último título. Não mais voltou a Paris para competir e saiu como Sampras do US Open, como campeão. Já Nadal ressente-se intimamente da falta de apreço que sente por parte do público francês e reza para que a sua despedida de Roland Garros não seja igual à Sampras em Wimbledon, eliminado por um qualquer George Bastl na segunda ronda de 2002. Convenhamos que Rafa merece mais. Mas sabem qual é a maior das ironias quando se vasculha as memórias de Bjorn Borg e Rafael Nadal? É que os maiores campeões da história sobre terra batida sonhavam, quando eram miúdos, com uma vitória em Wimbledon! E não é que ambos conseguiram-no?

Apesar dos sete títulos, Nadal não é idolatrado em Roland Garros como Borg

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José Sarmento Matos

ENTREVISTA

GASTÃO ELIAS (1.ª parte) 34

«Não dei importância a ter sido número seis mundial» Hugo Ribeiro, com Pedro Keul


disciplina desportiva. Premonição ou não, o certo é que muito Gastão herdou do pai homónimo o gosto antes de Gastão Elias se ter transformado pelo ténis e a coragem de enfrentar as num dos heróis do 24º Portugal Open, dificuldades e defender as suas opiniões chegando aos quartos-de-final com as suas e não se furtou a comentar a polémica, duas primeiras vitórias sobre top-50 do embora se tenha notado uma constante ranking mundial, e também muito antes de preocupação em gerar consensos, como o jovem de Casal Novo, na Lourinhã ter-se agora está na moda na política nacional. transformado no novo nº1 nacional e andar Sendo um jogador que já treinou com às portas do top-100 mundial, já o director Federer, Nadal, Roddick e Haas, fala-nos da MatchPoint Portugal, andava a pedir-me dessas experiências, bem como de como para combinar uma entrevista com ele. Qualquer jornalista que acompanhe de perto o ténis anda a ouvir há uns seis ou sete anos que o jogador português Gastão José Ministro Elias com mais hipóteses de vir a ser Alcunha: Pêpê ou Pepe lá fora, com sotaques diferentes um grande campeão é Gastão Idade: 22 anos Elias – o Grande Elias como Datas de Nascimento: 24 de Novembro de 1990 lhe chamou o Jornal do Ténis Naturalidade: Lourinhã ou Pêpê como é conhecido em Residência: “Mais são Paulo, Brasil, mas também Portugal. Bradentton, Estados Unidos, bem menos Lourinhã, Nesta entrevista explica porque Portugal” levou tanto tempo a fazer a Ranking: 108º transição entre o estrelato Melhor ranking: 103º (a 6 de Maio) mundial nos sub-18 e um Melhor ranking de sub-18: 6º relativo anonimato no início Títulos profissionais: Future 11 do México em 2007, da carreira profissional, mas a Future 3 dos Estados Unidos em 2008, Future 1 do entrevista foi concedida num Brasil e Future-2 da Colômbia em 2011, Challenger do Rio de Janeiro em 2012, Challenger de Santos em 2013. momento particularmente Melhor resultado no ATP World Tour: Quartos-de-final quente da carreira do jovem que no Portugal Open 2013 ainda adolescente emigrou para Registo na Taça Davis: 4 Vitórias-9 Derrotas os Estados Unidos, Florida, e Treinadores: Luís Miguel Nascimento, IMG/Nick há cerca de três anos reside no Bollettieri Academy, Ricardo Ycasa, Rodrigo Nascimento Brasil, São Paulo. e Jaime Oncins. Quente por ser efectuada Clubes de Ténis: “CT Peniche e actualmente CIF, não tenho a certeza de ter jogado pelo de Caldas da na exacta altura em que Rainha”. regressava à selecção nacional Torneio preferido: Portugal Open Oeiras depois de se ter ausentado da Piso preferido: Hardcourts primeira eliminatória da Taça Ídolo: Roger Federer e James Blake Davis, criando um “caso” de

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ENTREVISTA é viver na mais famosa academia de ténis do Mundo, mas também conversou sobre temas mais triviais, como telenovelas e namoros. Se João Sousa, o nosso primeiro entrevistado e grande amigo de Gastão, é um português feliz em Espanha, Gastão Elias é um orgulhoso luso bem contente no Brasil, com capacidade de mudar de pronúncia, consoante fale de um lado ou do outro do Atlântico, do mesmo modo como puxa pelo Sporting em Lisboa e torce pelo Corinthians em São Paulo.

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PP:Esta entrevista é feita mesmo antes da eliminatória da Taça Davis com a Lituânia. Tens um recorde de 2 vitórias e 9 derrotas na Taça Davis (Ndr. Agora tem 4V-9D). Também é verdade que jogaste fora, às vezes em pisos muito rápidos, mas é qualquer coisa para qual deves olhar com estranheza. Por outro lado, houve um hiato muito grande, não jogando entre 2008 e 2012, uma vez mais, a tal lesão. RR:Não me guio muito por esse número. Em muitos desses confrontos era muito novo e não se poderia exigir que ganhasse, tinha pouca experiência, mas também lembro-me que na Geórgia apanhei uma carpete que, enfim, nem digo mais nada, mas aí até ganhei. Na Holanda apanhei pela frente um jogador muito bom e num

piso que era muito difícil de jogar e mesmo assim nunca mais me esqueço de quando ganhei o 4º set como ficou a cara do outro. Nessa Taça Davis, é engraçado, lembrome que havia um treinador português em Roterdão, ele estava connosco na equipa e eles não sabiam que ele contava-nos o que iam dizendo no banco. Nessa a eliminatória era o Gil e eu, o Rui e o Leo. O Gil era titular e havia indecisão entre eu e o Leo, mas na quarta-feira, a meio da noite, o Leo sentiu dores, levantou-se para fazer gelo e bateu com a porta no pé. Aí ficou decidido que seria eu. Quando no sorteio os holandeses viram que eu, que era a quarta opção da equipa, iria jogar o singular, fizeram um comentário a rir, dizendo que eu tinha 16 anos e estava no papo. Então, quando ganhei o 4º set, olhei para eles e o outro, o Robin Haase, estava quase branco. Foi uma experiência engraçada. PP:Em pares, na Taça Davis, já jogaste com o Leo, o Gil, o João


Fernando Correia/FPT

Sousa, agora vais jogar com o Rui, há algum que seja um parceiro preferido? És pau para toda a obra nos pares da selecção?

RR:São todos diferentes. Gosto muito de jogar com o João porque jogo com ele há muito tempo e somos muito amigos. Mas gostei de jogar com o Leo e com o Fred e até tivemos bons resultados em challengers. Adapto-me bem aos meus parceiros e não me queixo de nada. O Leo e o Fred têm muita experiência na Taça Davis e eu fui o elo mais fraco da parceria, o mais novo. Eles é que mandavam ali. Tenho de agradecer pelas experiências que eles me transmitiram.

PP:Falando agora de um dos temas quentes deste início de época, as tuas ausências da Taça Davis. Em 2008 foi anunciado à FPT que não irias jogar a eliminatória com a Ucrânia, mas depois jogaste, depois voltaste a não estar disponível para a eliminatória com o Chipre, e nessa altura ficou a ideia de que teria sido mais uma imposição do IMG, que não queria que viesses jogar… RR:… Eu era muito novo, não tinha muita noção das coisas, não opinava muito, era mais o que o meu treinador achava e o meu agente, eles é que resolviam mais ou menos as coisas e por isso desse tempo não tenho muito a dizer. PP:Eu fiquei com a ideia de que haveria uma insensibilidade dos norte-americanos em relação

à necessidade de representares Portugal na Taça Davis num grupo inferior. Era isso? RR:Não tem a ver com o facto de ser um grupo inferior. Lá, eles não valorizam realmente muito a Taça Davis. Eu valorizo bastante e gosto muito de jogar a Taça Davis. PP:E sentias que eras muito jovem, tinhas um contrato com eles, não poderias ir contra a vontade deles? RR:Não era isso. Eu sou uma pessoa que gosta de ouvir opiniões e obviamente que quando isso aconteceu não fui eu a decidir. Eu perguntei o que achavam que era melhor para mim e depois fomos por aí. Eu estava com o treinador Ricardo Ycaza e nem foi só o meu agente Ben Crandell a decidir. Todas as opiniões iam mais ou menos no mesmo sentido. Como jogador novo, com pouca experiência, não queria tomar uma decisão errada. Eles queriam o melhor para mim e eu acreditava nisso. Não teve mesmo nada a ver com ter problemas com a FPT, com outros jogadores ou com o treinador, nada disso! Teve só a ver com o que eles achavam que era melhor para mim. PP:Este ano a situação foi completamente diferente porque já és adulto, tens 22 anos, estás num enquadramento diferente, qual a razão que te levou a não jogar com o Benim. Neste caso, por já ser a segunda vez, a dada altura, foi legítimo questionar o teu patriotismo ou o teu interesse

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ENTREVISTA na Taça Davis, como não sendo um objectivo importante para ti.

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RR:Não tem nada a ver com isso! Nunca tive problemas com a FPT e também não é por ser contra o Benim e por achar que era uma equipa menos forte. Não teve nada a ver com isso, até porque, se calhar, esta equipa da Lituânia é menos forte e eu estou aqui! O que tem a ver é que estou num período da minha carreira que é muito importante e, nessa altura da Taça Davis, eu não tinha pontos a defender, estava muito perto de jogar em Viña del Mar, estava a apenas dois lugares de fora do quadro principal desse ATP World Tour, nunca entrei num quadro directo sem ser por wild card, era uma oportunidade única e achei que era um torneio muito bom para mim. Depois, a FPT teve sempre alguns problemas em manter os pagamentos em dia, mas eu nunca exigi nada, se me pagarem cinco meses depois, um ano ou dois anos depois, não tem problema nenhum, mas essa eliminatória iria prejudicar-me muito e isso levou-me a conversar com o meu treinador Jaime Oncins, com outros atletas, com outros treinadores, com o meu agente, portanto, não decidi sozinho que não queria vir. Pedi opinião a várias pessoas. Como achei que a FPT não estava a cumprir os deveres de manter o pagamento em dia, mesmo entendendo a situação da FPT e a situação do país – aliás, com as dívidas nunca estive preocupado porque sei que pagarão mais cedo ou mais tarde e sei da situação difícil –, só achei que poderia falar com o capitão (Pedro Cordeiro), como fiz. Disse-lhe que não esperava que gostassem ou não da minha decisão, mas pedi que entendessem o meu

ponto de vista e que o respeitassem. Disseram-me que um atleta tem deveres para com a FPT porque recebe e tem de saber que tem de fazer estas coisas e o Jaime até falou com o Santos Costa (secretáriogeral da FPT) pelo telefone. Lembro-me de lhe dizermos que concordávamos que um jogador tinha de acartar com os deveres mas a FPT também não poderia exigir uma coisa quando não cumpria com a sua parte. Não sei como explicar isto da melhor maneira, não tem a ver com não querer jogar pelo país na Taça Davis, foi só em termos de calendário ser uma semana muito má para mim. Entretanto, o Rui Machado, presidente da Associação dos Jogadores, já teve uma reunião com o presidente da FPT e chegámos um acordo, sem ressentimentos e deixei claro que se achassem que me deveriam retirar os apoios que acarretaria as consequências, mesmo que pudesse não achar correcto. A FPT tem o direito de fazêlo mas eu não acharia correcto. Mas não há problemas entre nós. E o como qualquer outro que está aqui o sonho é de levar Portugal ao Grupo Mundial da Taça Davis. Todos temos isso na cabeça e é um objectivo de todos. PP:Tiveste uma excelente carreira de sub-18. Foste número seis do ranking mundial, Ganhaste o Eddie Herr International, quartos-de-final no Orange Bowl e em Wimbledon, vitória em Halle. A dada altura pensaste: sou um dos melhores do Mundo, sou um grande jogador? Alguma vez ficaste “cabeçudo”?


e não tanto em ter de ganhar. Nunca pensei, como tantos outros, que não podia perder. Foi algo que aprendi desde pequeno com o (treinador) Luís Miguel Nascimento, que muitos jogadores novos têm tendências de em pontos importantes jogarem para não perder o ponto. Eu, do modo que fui ensinado, é agarrar a oportunidade sempre que a tiver. Para mim o importante foi manter essa disciplina técnica e táctica. Nunca pensei em ser bom aos sub-14 ou sub-16, mas sim em fazer as coisas direitas para o futuro. Foi bom em termos de contratos, ter sido um bom júnior, em termos de visibilidade, ganhei aquele prémio de Gillette que teve bastante prestígio.

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Fernando Correia JLS

RR:Nunca pensei dessa forma. Até porque sei que os juniores não querem dizer muito em termos profissionais. Se todos os bons juniores fossem bons profissionais, o circuito estaria completamente diferente. Foi sempre uma coisa que tive na cabeça, não me encostar, não me relaxar, só porque tinha sido um bom júnior. Nunca deixar de trabalhar a sério e bem. Não dei demasiada importância a ter sido sexto do mundo. Se assim fosse, teria jogado mais um ano nos sub-18 e teria lutado pelo nº1, com muitas hipóteses porque mais de metade dos que estavam à minha frente no ano seguinte já não estavam nos sub-18. Se fosse pelo prestígio teria jogado esse ano, mas eu jogava juniores a pensar mais à frente, a pensar no futuro, a pensar no meu ténis, nas coisas que tinha de melhorar


ENTREVISTA

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PP:Alguma vez pensaste que tiveste azar em aparecer numa época em que a transição dos juniores para o profissionalismo é mais difícil e mais lenta? Porque há uns 20 anos acontecia bem mais frequentemente jovens de 17 e 18 anos imporemse ao mais alto nível. Por exemplo, dos tipos que defrontaste nos teus tempos de sub-18, só o Milos Raonic é jogador top-30 mundial.

PP:Por falar no Raonic, ele já era impressionante nessa altura dos juniores?

RR:Cada vez vai ser mais difícil isso acontecer. Um Nadal que aos 17 ou 18 anos ganha Roland Garros, como o Michael Chang, isso vai deixar de acontecer. Eu tenho sempre essa discussão com o Jaime, porque digo-lhe que quando ele jogava havia uns 200 jogadores, mas ele vem logo com a conversa que quando ele jogava não havia futures todas as semanas, não havia tantos torneios. É uma discussão que nunca dá para ir para um lado ou para outro. É muito discutível. Sem dúvida que na minha época havia muitos bons juniores, mas tirando o Raonic e o Nishikori – embora nunca tenha apanhado o Nishikori pela frente nos juniores – é difícil. Não sei se a média de idades do top-100 não andará pelos 24 ou 25 anos e não me parece que vá descer. É muito exigente e quando se é novo ainda não se chegou a um nível de maturidade e de atributos físicos que permitam chegar a esse ponto tão alto no ranking. O Raonic aos 20 anos já tinha ganho um ou dois torneios do ATP World Tour mas ele é só um. Ele não é a realidade. Só tenho é que estar tranquilo e fazer o que posso para chegar lá.

PP:Que objectivos estabeleces a curto prazo? Ser top-100 mundial? Ser o nº1 português? De alguma forma, teres jogadores como o Frederico, o Rui e o João a entrarem no top-100 fez com que acreditasses ser mais possível?

RR:Não, era muito normal. Jogava bem mas cresceu muito rápido. Ele não tinha a altura de hoje e aos 18 deu um pulo, ficou descoordenado, mas parece que apanhou o jeito da coisa (risos) e tem uma arma muito boa porque com um serviço daqueles podemos defrontar qualquer jogador.

RR:O meu objectivo neste momento é ser top-100, não é ser top-100 para ser nº1 português é para atingir o meu objectivo, portanto, ter tido o Rui ou o Gil à minha frente, parabéns, óptimo para eles, estão a fazer um bom trabalho mas eu vou continuar a fazer o meu. PP:Como te defines enquanto jogador de ténis? RR:Sou um jogador bastante completo em termos técnicos e sempre trabalhei nesse sentido. Sou um jogador muito rápido, tenho melhorado muito fisicamente ao longo do tempo o que faz com que me considere forte fisicamente. Já ganhei muitos encontros no final do ano passado por ser mais forte fisicamente e isso faz com que também melhore mentalmente e essa é a parte


PP:Estive a ver algumas estatísticas cumulativas de carreira, portanto, não de algum encontro em particular, e surges com apenas 50% de primeiros serviços válidos… RR:… Esse é um aspecto em que ando a trabalhar, porque tenho tendência em ir para o ás em todos os serviços. Considerome uma pessoa que serve bem, forte, consigo servir constantemente acima dos 200 km/h e no primeiro serviço vou demais para o ás. Estou a trabalhar para jogar mais com o meu primeiro serviço porque tenho a noção de que a minha percentagem é às vezes muito baixa.

RR:Sim, considero-me uma pessoa corajosa. É óbvio que houve pontos na minha carreira em que fiquei mais nervoso, em que poderia ter feito coisas diferentes, mas tenho de tentar ficar sempre na mesma linha de agressividade e consistência. PP:Quais os feitos desportivos que valorizas mais? Ganhaste challengers, o último título no Rio de Janeiro pareceu ser emotivo, jogaste qualifyings de três dos quatro torneios do Grand Slam, derrotaste três top-100 no ano passado, no total da tua carreira já lá vão seis [NDR: oito depois do Portugal Open].

“O meu objectivo neste momento é ser top-100, não é ser top-100 para ser nº1 português”

PP:Tens 61% de pontos ganhos no 1º serviço, 48% no segundo e esta não é uma percentagem negativa… RR:… Sim, sim, e muitas vezes os pontos que perco não é pelo serviço, é por incompetência do jogo de fundo. PP:E depois tens 55% de pontos de break salvos e 52% de pontos de break convertidos. São situações em que parece que não acusas serem os chamados pontos importantes.

RR:Para mim, o mais importante foi sem dúvida a vitória no Rio de Janeiro. Já tinha feito umas quatro finais e essa vitória foi importante para passar essa barreira das finais. Perdi essas finais não tanto por nervosismo mas por o adversário ter jogado melhor, houve uma das quatro finais em que tive uma má prestação que foi a primeira em Belo Horizonte, mas nas outras poderia ter caído para qualquer um dos lados. Essa vitória no Rio foi importante para ganhar mais confiança nas finais. E isso viu-se logo na semana seguinte porque consegui continuar numa boa sequência de nível tenístico, voltando a outra final. Foi importante a vitória num Future após a lesão, que foi em São Paulo, de um torneio

DR

fundamental. Em termos técnicos, tácticos acho que sou bastante completo, não tenho nenhum ponto mesmo fraco, talvez possa melhorar o jogo de rede.

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ENTREVISTA

PP:E conta lá que história foi essa que os media do Rio de Janeiro contaram que imitaste uma personagem (Zezé) de uma telenovela na cerimónia de entrega de prémios?

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RR:(Gargalhadas) Essa telenovela que agora passa cá, Avenida Brasil, na altura do torneio do Rio era a semana em que acabava a novela. Em casa do Jaime não temos muita coisa para fazer e vemos muita televisão e assistimos a essa novela. Houve um episódio em que achei muito engraçado uma mulata que faz a limpeza em casa, que anda vestida de vermelho, começou a limpar a casa e a cantar uma música, que é uma versão que ela fez de outra música brasileira. E a letra que ela meteu naquela música ficou muito engraçada, porque ela é multa e canta “quero ver você me chamar de amendoim”. E então, nessa semana no torneio do Rio eu estava com essa música na cabeça todos os dias e na final, antes de entrar para o jogo, estava a cantar essa

zsda Joao Pires

de 15 mil dólares, em 2011. Em futures já tinha ganho na Colômbia, Estados Unidos e México. No México e Estados Unidos ganhei com 16 ou 17 anos e depois da lesão foram São Paulo e na Colômbia. Tudo é importante, mas esses dois foram os mais importantes. É como se fosse o início de um ciclo novo.

música e o Jaime disse assim para mim: “não te calas com isso, se ganhares quero que cantes essa música e vais cantá-la e dançar”. Eu respondi: “Jaime, final de um challenger e vou fazer isso?” Ele prometeu que se eu fizesse ele pagaria com 50 flexões. Eu fui para o campo, ganhei a final e está no You Tube, agarrei o microfone, agradeci a toda a gente e depois disse: “agora quero fazer uma coisa que apostei com o Jaime se ganhasse, mas estou com muita vergonha”. Nessa altura começou toda a gente a rir e eu acalmei um pouco e cantei o refrão da música e o pessoal, como assistia todo à novela, toda a gente sabia a música e começou a rir. PP:E exigiste que ele pagasse as flexões? RR:Sim mas ainda não as pagou. Fez dez e diz que paga em prestações. Até hoje estou à espera. Mas pelo menos fez essas dez lá no campo, não fui só eu a fazer figura de…


PP:E em Portugal, houve algo que te tenha marcado (Ndr. mais tarde, ao atingir os quartos-de-final do Portugal Open, batendo dois top-50 pela primeira vez, Gastão considerou esse o maior feito da sua carreira)? RR:O Campeonato Nacional é sempre importante e dou muito valor a isso. É o melhor português na modalidade. Daí ter dado valor a Campeonatos Nacionais. Na Taça Davis, a estreia foi de boa memória embora não tenha sido num local bonito ou confortável (em Tibilisi, Geórgia), depois com a Holanda foi importante porque eu tinha 16 anos e perdi em 5 sets com o Robin Haase, e essas memórias são todas importantes. PP:Estive a ver os teus registos em Futures, Challengers e ATP World Tour e tens registos semelhantes em terra batida e hardcourts… RR:… Eu acho que tenho até melhores em terra batida. Isto de eu dizer que prefiro os hardcourts não quer dizer que jogue mal ou não goste de jogar em terra. Nestes últimos anos até tem sido um piso bastante importante para mim para melhorar certos aspectos do meu jogo que são mais fáceis de trabalhar em terra do que no piso rápido… PP:… Como por exemplo? RR:Como por exemplo a consistência. Uma pessoa a treinar sempre em piso rápido é diferente de passar algum tempo na terra batida onde os pontos são mais longos. A treinar na terra batida também se fica

mais forte mentalmente para se manter nos pontos porque cada ponto demora obviamente mais tempo. PP:Concordas com alguns analistas que dizem que a terra batida permite um desenvolvimento técnico maior e mais completo de um jogador? RR:Acho o contrário. O piso rápido exige mais tecnicamente porque é um jogo mais rápido e se não se tem uma técnica bem apurada, por exemplo um jogo de pés apurado, por poucas coisas irá falhar. PP:A tua relação com a relva é quase nula. Gostas ou não? RR:Gosto bastante de jogar na relva mas é um período muito curto por ano. Tive algumas boas experiências, com os quartosde-final de Wimbledon, ganhei um torneio em Halle e fui à final do Queen’s, sempre em juniores. Em seniores só tive oportunidade de jogar uma vez, em Wimbledon, mas continuo a gostar. PP:Porque idolatraste o Roger Federer? Porque via-lo a ganhar sempre? RR:Não, não, acho que o Roger Federer é o favorito de qualquer pessoa que entenda de ténis mais ou menos. É um dos jogadores mais completos de todos os tempos, com melhor técnica. Também gosto do James Blake, quando estava no auge gostava de assistir aos seus encontros porque é um jogador explosivo e bonito de ver. Agora

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ENTREVISTA estão mais velhos, todos eles, mas também gostava de ver o Lleyton Hewitt pela vontade que metia nos jogos, pela raça que mostrava. PP:A tua opinião sobre o Federer mudou depois de o conheceres melhor e de treinares com ele?

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RR:Passei a gostar ainda mais dele (risada). É uma pessoa espectacular. Tenho um episódio que conto sempre, que se passou quando estive uma semana com ele em Monte Carlo. Ele convidou-me para ir ao quarto dele almoçar. Ele estava alojado num daqueles quartos de cinema, uma suíte mas só tinha uma mesa e duas cadeiras. Numa cadeira estava a mulher dele e noutra estava ele. Quando cheguei já estava a comida na mesa, ele virou-se para mim e disse-me: “Gastão, senta, come aí que eu como em pé”. Eu fiquei sem saber o que dizer… o nº1 do mundo, campeão de sei lá quantos torneios do Grand Slam naquela altura, o tipo mais respeitado no mundo do ténis e fazer isto assim, tem de ser uma pessoa muito humilde e isso foi bom para eu ver como é possível continuar-se com as mesmas raízes, apesar de se chegar tão longe. PP:Das coisas mais badaladas na tua carreira foram esses momentos em que treinaste com alguns dos melhores jogadores do Mundo, com o Federer, o Nadal, o Haas, houve outros? RR:Sim, com o Haas foi bastantes vezes, treinei também com o Roddick e acho

que foi bastante importante para mim e é importante para qualquer júnior a tentar tornar-se profissional comparar-se ao circuito e ver até mais ou menos onde precisa de chegar se quiser ser um dos melhores do Mundo. Todos os juniores que têm oportunidade de treinar com jogadores desses não devem desperdiçar porque pode ficar para a vida. PP:E o que podes dizer-nos de cada um deles? Já nos contaste um episódio do Federer, e o Nadal? É tão intenso a treinar como se diz? RR:Sim, o Nadal mete sempre muita garra em todas as bolas que bate mesmo em treino. O Nadal também é uma pessoa muito simpática, cinco estrelas como o Federer, só que é mais tímido. Com ele falava em espanhol e com o Federer em inglês. Pela forma como joga, pelos gritos, pode não parecer, mas achei-o tímido, educado, sempre preocupado comigo. Às vezes, poderia pensar-se que um nº2 do Mundo a treinar com um miúdo de 16 anos não vai dar muita importância à outra pessoa, mas não, ele preocupa-se com todos. PP:E o Tommy Haas? Lembro-me de dizeres que não foi tão agradável como os outros… RR:… Foi uma experiência… apesar de os treinos serem bons, sem dúvida nenhuma (hesitação), é complicado, mesmo um treinador tem às vezes dificuldade em lidar ele porque tem umas características meio difíceis. Ele foi nº2 do mundo e temos de respeitar isso e ele também sabe valorizar-se


Fernando Correia JLS

por isso. Mas havia treinos inteiros em que não ouvia a voz dele. Eu entrava, o treinador vinha falar comigo e dava-me os bons dias, explicava-me o que íamos fazer no treino e o que queria que eu fizesse, depois, no final do treino o treinador agradecia, às vezes marcava para outro dia outra sessão… as primeiras vezes acho quem nem sabia como era a voz dele. Mas mesmo assim, nunca deixou de ser um bom treino e uma boa experiência. E até acredito que possa ser uma pessoa simpática mas eu não tive essa sorte, talvez com as pessoas com quem ele tem mais intimidade, mas pronto, cada um tem a sua personalidade. PP:E o Andy Roddick, para nós, jornalistas, ele é dos mais divertidos, é cáustico, irónico, sabe comunicar, isso também se via nos treinos?

RR:Ele teve um episódio muito engraçado comigo. Eu teria uns 16 ou 17 anos e o IMG conseguiu-me um wild card para o Sony Ericsson [Masters 1000 de Miami]. Eu ainda não estava no circuito e fui lá jogar o qualifying como júnior. Também me arranjaram um treino com o Roddick. Começámos pelo aquecimento, depois batemos umas bolas, depois fomos para o serviço e um júnior ainda não tem bem a noção de como funcionam as coisas no mundo profissional. Nos juniores respondemos ao serviço uns bons dois metros dentro do campo e não temos bem a noção das coisas, do rigor táctico. Então ele começou a servir e eu, à júnior, pensei que ia ficar dentro da linha para responder ao serviço do Roddick. “Ele diz que tem um serviço bom, vamos lá ver o que vai sair daqui”. Ele fez um serviço a 200 Km/h

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ENTREVISTA e eu, quase em half-volei, mandei-lhe um bilhete que foi dentro. Mas não estávamos a jogar pontos, era só a aquecer. No segundo serviço ele faz a mesma coisa e eu, dentro. Lembro-me que foram assim umas cinco respostas seguidas que acertaram bem no meio da raquete e seriam cinco winners. Ele vira-se para mim: “Se responderes a mais alguma bola dentro do campo eu mandote uma bola à cabeça” (risos). Eu pensei: “ele estava a brincar comigo, no próximo serviço vou, obviamente, estar uns dois ou três metros dentro do campo”. Ele vai, serve e eu, pumba, outra! Deve ter sido o dia em que respondi melhor, foi perfeito, estava nas nuvens. Ele ficou assim a olhar para mim, de repente pega na bola, prepara-se para servir e manda-me um serviço, uma bola directa à cabeça, aí a uns 400 Km/h. Vi a bola mesmo na linha dos meus olhos, se não me baixasse, teria ficado estendido no campo. A bola estatelou-se na vedação. Obviamente que a partir daí não meti mais uma resposta dentro. E dá para ver que ele é um bocadinho assim nos jogos. Já houve umas trocas de campo em que ele deu uns encontrões de ombro. Mas pelos vistos aquilo resulta. 46

PP:E a conversa entre ambos no final do treino? RR:Ficou tudo bem, mas percebi a mensagem. PP:Como falaste desses jogadores conta-me como viste aspectos das carreiras deles que se passaram recentemente, se foi uma surpresa o Federer voltar a nº1, o regresso do

Nadal à boa forma após sete meses parado, o Roddick a pendurar de vez as raquetes e as vitórias recentes do Haas, aos 35 anos. RR:Em relação ao Haas pode ser uma surpresa por causa da idade dele, mas tive oportunidade de passar muito tempo a treinar com ele e vi que a disciplina que tem, o profissional que é, a metodologia de treino que segue, por isso tem estes resultados. Todos os dias ele está no ginásio a fazer alongamentos, a treinar o físico, tudo certinho a cuidar do corpo. Mas claro que

“O Nadal, a palavra que tenho para descrevê-lo é impressionante.” aos 35 anos não esperava que ele tivesse resultados tão bons. O Federer, da forma que joga, enquanto se mantiver bem fisicamente pode ser nº1 em qualquer altura. Realmente não tem lacunas, faz muito pouco esforço para jogar, achei normal voltar a nº1. O Nadal, a palavra que tenho para descrevêlo é impressionante. É difícil explicar como é possível isso. Eu também tive uma lesão, fiquei quase nove meses sem competir e para voltar à competição, bem sei que a um nível bem mais baixo, mas foi uma dificuldade tremenda. Uma pessoa joga os pontos sem ritmo, falha bolas que não falhava, mentalmente tem de ser muito forte para aguentar isso porque ao voltares de uma lesão, chegas a certos pontos de


Fernando Correia JLS

um jogo em que farias uma coisa e nesse momento não sai nada parecido, é duro mentalmente para um jogador. Há que ser forte para aguentar as asneiras que se vai fazer em muitos jogos. Mas ele parece estar noutro patamar, completamente, ele não deve ter sentido essas dificuldades mentais ao recomeçar os torneios. Vamos ver como vai continuar, se os joelhos aguentam, mas em termos tenísticos e psicológicos, sempre que estiver fisicamente vai ser um problema para qualquer adversário. O Roddick poderia ter jogado mais alguns anos, mas também é preciso ver quais os objectivos que tem para a sua carreira. Se calhar era ser top-ten ou top-15 e ele via que já não tinha capacidade para chegar a esse nível e achou que sacrificar-se para não estar perto desse nível não valeria a pena. Mas é a decisão de cada um. PP:Falando ainda de outros jogadores, tu ganhaste e perdeste

com o Horacio Zeballos. Quando o vês ser apenas um dos dois jogadores que derrotaram este ano o Nadal, passate pela cabeça coisas como se ele faz isto também eu posso.

RR:Se fosse só o Zeballos… o Victor Hanescu a quem ganhei também está no top60 do Mundo… é claro que passam coisas dessas pela cabeça. Vi alguns pontos dessa final, mais tarde, e é duro ver isso, mas, ao mesmo tempo, dá confiança. Perdi com ele na meia-final de São Paulo, em Janeiro [Ndr. Depois ganhoulhe no Portugal Open], em que por acaso estava doente, e mesmo assim tive muitas oportunidades e se tivesse ganho poderia hoje estar muito mais perto do top-100. Mas o Zeballos é um jogador que faz as coisas certas, não dá menos num treino por estar cansado e esses são os que chegam lá em cima. Apesar de ficar surpreendido pelo tão rápido a que chegou lá acima, pelo trabalho que fez, merece.

Nota: A 2.ª parte da entrevista será publicada na MatchPoint Portugal de Junho

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Equipamento

NIKE REVELA “LOOKS” PARA ROLAND GARROS A Nike Tennis apresenta os novos looks que Rafael Nadal, Roger Federer e Maria Sharapova vão usar no court do Roland Garros, no final deste mês. A última colecção que incorpora o tecido Dri-FIT e costuras planas vai proporcionar aos atletas o máximo de conforto, ventilação e estilo, para fazer face a um torneio tão exigente como o de Paris.

Rafael Nadal

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O vencedor do ano passado, Rafael Nadal vai tentar vencer em Paris com o Nike Premier Rafa Crew. Projetado para o máximo conforto, o equipamento apresenta costuras planas para minimizar a irritação causada pela fricção; painéis de malha DriFIT nas axilas e costas para uma ventilação melhorada - tecido Dri-FIT com protecção UVA e UVB. Agradável e simples, o Nike Premier Rafa Crew apresenta um ajuste perfeito para o “Rei da Terra”.

Maria Sharapova

A campeã Maria Sharapova irá exibir o seu estilo característico no court

com o Nike Premier Maria Dress. Fabricado em Dri-FIT, o vestido combina uma silhueta suave com uma apresentação invencível. O sutiã interno sem definição fornece uma cobertura discreta, enquanto quatro tiras de estiramento oferecem conforto, apoio e um look distintivo. O vestido Premier Maria é uma mistura de estilo e performance.

Roger Federer

Federer vai usar o Nike Premier RF Crew: um pólo em tecido Dri-FIT, que utiliza tecnologia de ponta inspirada na verdadeira lenda do ténis e incorpora costuras laterais (seladas de forma ultrassónica) para um ajuste confortável. Federer também vai usar o Nike Premier RF Knit Jacket,


MÁRMORES E PRODUTOS AGRÍCOLAS ZEXA LDA de José Basílio Pinto Basto

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ARBITRAGEM

Falta de comparência Uma das situações que mais celeuma provoca durante a realização de eventos de ténis é a marcação de FC (Falta de Comparência). Este JORGE CARDOSO Árbitro aspecto pouco visto em eventos profissionais, é no entanto recorrente em provas do calendário nacional. Um atleta que não esteja pronto para jogar 15 minutos após o seu encontro ter sido chamado, poderá ser desclassificado pelo Juiz Árbitro, a não ser que este considere existirem razões que motivem a

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EM PROVAS AMADORAS, COM FREQUÊNCIA ASSISTIMOS A SITUAÇÕES EM QUE OS ATLETAS APROVEITAM O TEMPO DE TOLERÂNCIA COMO SENDO “O SEU TEMPO”, OU SEJA, ACREDITAM QUE SE CHEGAREM ATRASADOS 7 MINUTOS AO LOCAL DE COMPETIÇÃO ESTÃO “A HORAS”. NADA MAIS ERRADO!

não penalização, as quais justifiquem um eventual atraso. Esta decisão é apenas sua, não podendo outros agentes, como o jogador oponente ou o director da prova interferirem nesta matéria. O atleta é responsável por se apresentar no local de competição à hora estipulada, sendo que eventuais atrasos motivados nomeadamente por atraso de transporte oficial não são razões justificáveis. No circuito profissional atrasos ainda que dentro dos 15 minutos de tolerância, são contemplados com multa. Em provas amadoras, com frequência assistimos a situações em que os atletas aproveitam o tempo de tolerância como sendo “o seu tempo”, ou seja, acreditam que se chegarem atrasados 7 minutos ao local de competição estão “a horas”. Nada mais errado! E se a isto ainda juntarmos, o facto de ter que se equipar, facilmente constatamos que 15 minutos após ter sido chamado o seu encontro, o atleta em questão não está pronto para jogar. Situações como esta provocam atrasos na programação e atritos perfeitamente evitáveis entre árbitro e jogadores. Caberá pois a todos os agentes cumprir escrupulosamente com os horários, cientes que o ténis é muitas vezes um jogo de espera e paciência, onde uma atempada chegada ao local de competição potencia e premeia desempenhos positivos.


MEDICAL TIMEOUT

Lesões abdominais As lesões do recto abdominal (RA, o músculo segmentado da região anterior do tórax) são relativamente comuns em tenistas. Normalmente, manifestam-se por dor na zona abaixo do umbigo, no lado não dominante. A causa destas lesões está frequentemente relacionada com o serviço. Antes da fase de aceleração, ocorre uma hiperextensão e rotação da coluna; nesta fase, é necessária uma grande activação do RA (sobretudo do lado não dominante), o que predispõe o músculo à lesão. Esta exigência é aumentada durante a execução do serviço com kick, uma vez que ocorre um maior movimento de extensão da coluna, e da direita em open stance, que também impõe um maior esforço de estabilização por parte da parede abdominal. Numa fase inicial, a lesão deve ser controlada com a aplicação de gelo e limitação da actividade desportiva (o que colide, frequentemente, com as necessidades competitivas do atleta). A aplicação de anti-inflamatórios deve ser reservada aos casos em que o atleta apresente sintomas fora da actividade desportiva. Em situações de lesão durante um torneio, a situação pode ser controlada com recurso, para além dos meios já referidos, a ligaduras que controlem o alongamento e diminuam a carga imposta no músculo durante os gestos técnicos. Pequenos ajustes na execução do serviço podem também ajudar a ter um desempenho com menos sintomas. Estas lesões apresentam uma grande probabilidade de recorrência. Assim, depois da fase inicial de reabilitação, é essencial a realização de exercícios que potenciem a actividade da musculatura estabilizadora local, bem como de exercícios de fortalecimento que reflictam as necessidades funcionais do atleta na execução, sobretudo, do serviço.

JOSÉ PEDRO CORREIA Fisioterapeuta

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TÁCTICA

Bata com topspin

É o melhor efeito para aplicar ao passing shot por três motivos: - permite bater a bola com Luís Damasceno mais velocidade sem perda Treinador de controlo. - permite maiores ângulos de passe. - permite manter a bola muito baixa, obrigando o adversário a volear em dificuldade.

José Sarmento Matos

Passing shot

Colocação

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A colocação do adversário na rede, os espaços “abertos”, o posicionamento no court, as condições climatéricas e o vólei mais fraco do adversário são alguns dos factores determinantes na opção a tomar. Mas há algumas situações em que certas pancadas são mais aconselháveis: - Se a bola do adversário vem curta, pode jogar cruzado ou ao longo do corredor; se a bola vem comprida, deve jogar ao longo ou ultra-cruzado. - Se o adversário é lento na rede, é preferível um passing cruzado; se o jogador cobre bem a rede, é melhor optar por um passing ao longo do corredor. Tendo sempre em conta que, quando se joga ao longo do corredor, deve jogar-se comprido e quando se joga cruzado, deve jogar-se curto, (meio court).

Passing shot a dois tempos

Quando se está muito pressionado, deve-se

jogar a bola muito baixa, como se tratasse de um amortie, para obrigar o adversário a volear muito em baixo e permitindo a recolocação para executar o passing na pancada seguinte.


BOLA NA TELA

Woody Allen

Annie Hall João Carlos Silva

Um jogo de ténis? Bem, na verdade são no máximo umas seis pancadas na bola e não estamos mais de meio minuto dentro do pavilhão do Wall Street Racquet Club de Nova Iorque – que hoje já é um sítio com história e faz 40 anos, mas era então uma novidade, aberto há quatro anos. Bom, mas é num jogo de ténis que Alvy (Woody Allen) encontra Annie (Diane Keaton) – é o momento zero de um dos mais fascinantes casais da história do cinema. Joga-se a pares, Alvy e uma amiga desconhecida versus Annie e Max, o melhor amigo de Alvy. Ela tem jeito, ele talvez nem por isso, é mais ou menos isso que se percebe (em http://www.youtube.com/ watch?v=KFCe1wQeXA0) Em 1977, Woody Allen realizou o que muitos consideram ser o seu melhor filme de sempre. Chamou de novo para o papel principal Diane Keaton, com quem se envolvera romanticamente em 1970 mas com quem já não namorava há três anos, e o resultado foram dezenas de prémios, incluindo quatro Oscares – Filme, Realizador, Argumento e Actriz. Nomeado como melhor actor, Woody Allen acabou por perder na categoria para Richard Dreyfuss. A cena do autêntico blind date no ténis

Annie Hall, 1977 Realizador: Woody Allen Quatro Oscares (Melhor Filme, Realizador, Argumento Original e Melhor Actriz)

antecede o encontro crucial entre Alvy e Annie. Há diálogos desajeitados, um interesse mútuo mal disfarçado, uma boleia que surge apesar de irem para lados opostos. Afinal, ela odeia conduzir sozinha.

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Revista de Ténis MatchPoint Portugal Maio 2013  

Revista de Ténis / Tennis Magazine 1a Revista de ténis digital em Portugal.

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