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NOV O n.º 6 | Junho 2013 | € 4.95

MatchPoint Portugal

RAFAEL NADAL QuE futuro?

ENTREVISTA Gastão Elias (2.ª partE)

ROLAND GARROS as mElhorEs fotos

ROGER FEDERER

10.º aniversário sem festa fb.com/matchpointportugal www.matchpointportugal.com


SUMÁRIO

MatchPoint Portugal

ARTIGOS

n.º 6 Junho 2013

16 26 Propriedade

OPINIÃO

Director Pedro Keul Redactores e colaboradores Redactores e colaboradores: Hugo Ribeiro, Jorge Cardoso, João Carlos Silva, José Pedro Correia e Luís

SECÇÕES

Damasceno

Cynthia Lum (excepto indicação em contrário)

Henriqueta Ramos

50 51

Mobile / Webdesign

Contactos 96 3078672 portugalmatchpoint@gmail.com matchpointportugal


EDITORIAL

No aproveitar é que está

Pedro Keul

As recentes boas exibições dos jogadores portugueses nos principais palcos do ténis mundial têm-me levado a pensar no seu impacto na modalidade em Portugal e levantado duas questões, já pontualmente repetidas desde há alguns anos: que aproveitamento poderá ser feito desta exposição nos meios de comunicação social nacionais? Como é que a Federação Portuguesa de Ténis, responsável pelo fomento e divulgação da modalidade, pode atrair e motivar os jovens atletas, através do mediatismo dos nossos tenistas? Rui Machado e Frederico Gil há muito que vem alertando para a necessidade de se tirar partido da melhor geração do ténis português de sempre. Inserido nessa geração está igualmente João Sousa, que dizia em entrevista na nossa primeira edição que era “uma pena a FPT não aproveitar este momento tão belo do nosso ténis”, realçando mais à frente que “ídolos nacionais não tive… internacionais sim”. E a falta de referências no nosso ténis sempre foi uma das número de praticantes – uma questão cara às últimas Open em 2010 não foi devidamente aproveitada, houve pelo menos tempo para se pensar numa estratégia de promoção alicerçada nos nossos melhores jogadores... ou não! Não valendo a pena procurar os responsáveis dessa inépcia, tenho fé que o façam agora e de forma ambiciosa, de acordo com a atitude que os nossos compatriotas colocam sempre que competem no circuito mundial e nos deixam bastante orgulhosos.

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BOLAS CURTAS

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desporto muito social e gera dinheiro”, caracterizou Miguel Medina. Entretanto, Vítor Cabral, o Director do Departamento de Desenvolvimento da FPT, que gere o sector da formação, alertou para as exigências do Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ) na

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A presença do presidente da Federação Espanhola de Padel (FEP), Miguel Medina, e a declaração do presidente da Federação Portuguesa de Ténis, Vasco Costa, sublinhando o esforço que a FPT está a colocar nas relações com as federações europeia e internacional, marcaram o peso institucional do I Encontro Nacional de Padel (ENP). Foi no passado dia 15 de Junho que a sede do Comité Olímpico de Portugal (COP) acolheu a iniciativa organizada pela FPT, sob o lema de “Pensar o Padel”, com numerosa e interessada assistência, o que era esperado por ser um dos mais “quentes” temas,

dada a existência de duas instituições que desejam gerir o padel em Portugal. Neste contexto, foi importante a presença de Margarida Dias Ferreira, vicepresidente do COP, no ENP promovido pela FPT e aquela que “o padel já chega a muita gente em Portugal e poderá chegar a muito mais”. Vasco Costa não teve dúvidas em assegurar que “o padel é a grande prioridade” da sua Direcção e o seu homólogo espanhol avisou-o logo que “há clubes em Espanha em que o ténis estava a passar por uma padel salvou-os”. “O padel movimenta muita gente, há 140 mil praticantes

sem os quais é impossível desenvolver a modalidade. De acordo com Vítor Cabral, o IPDJ prefere que tenha de padel quem já tiver a de ténis, mas apresenta a alternativa de uma formação de três níveis (1-2-3) com a obrigatoriedade de se completar os três níveis. H. R. (com www.tenis.pt)

https://www.youtube.com/ watch?feature=player_ embedded&v=_iMA-y_4KwA Com um logo historial de equipamentos usados e originais, Bethanie MattekSands também surpreende pela tecnologia. De facto, a norte-americana apareceu em Wimbledon com uns novos Google Glass, os óculos equipados com uma câmara que fotografa ou


Nicolas Mahut é o sexto trintão a vencer um torneio do ATP World Tour em 2013, mas o primeiro com 30 ou mais anos a conquistar o primeiro título desde que o australiano Wayne Arthurs se estreou em Scottsdale, com 33 anos. O francês de 31 anos já era conhecido por ter sido derrotado no mais longo encontro de sempre (11 horas e cinco minutos), mas agora também inscreveu o seu nome na história do ténis na coluna dos vencedores. Desse épico duelo realizado em Wimbledon em 2010, nasceu uma bela amizade com o vencedor, John Isner, que não o hesitou em felicitar pelo seu êxito recente, através do twitter: “Congrats to @nmahut on his title in Holland! No one deserves it more than him. Well done!”

Vilela do que qualquer outra: a Medalha da cidade do Porto. Portuense convicto, o popular Zé Vilela foi agraciado há poucos dias com a Medalha Municipal de Valor Desportivo - Grau Ouro, por ser, segundo os

óculos há cerca de duas semanas, integrada num restrito grupo de cerca de mil pessoas que estão a testar a novidade da Google. Segundo a tenista, a nova ferramenta de trabalho ajuda-a a encontrar o melhor ponto de contacto com a bola, o timing no split-step e o posicionamento da cabeça.

a homenagem da cidade do Porto, onde José Vilela Brito nasceu há 61 anos.

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Mattek-Sands recebeu os

Das muitas homenagens que recebeu e que merece vir a receber, há uma que

um “símbolo do ténis nacional”. Enquanto se aguarda um reconhecimento mais de acordo com esse

EDwiN VERhOEf

nos treinos. “Quando inicialmente os descobri, pensei que a vantagem de gravar quando estou a treinar-me ou a bater bolas, daria a fantástica oportunidade de ver os que os meus olhos vêem”,

“O meu treinador gosta mesmo deste ponto de vista. Temos a oportunidade de o ver no computador e é uma

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BOLAS CURTAS a Genebra e capitaneada por Santos Costa e Daniel

da Austrália, mas de

sua mentora. 6

pelo apelido, a ligação a João Cunha e Silva é imediata. Trata-se do Felipe Cunha e Silva foi convocado para o próximo Campeonato da Europa de sub16, a disputar em Moscovo, em Julho. Como se percebe imediatamente

internacional de Portugal que segue as pisadas do pai, representante da nossa selecção no mesmo escalão em 1983. Dessa deslocação

parte José Guilherme, Fátima Santiago, Sandra Marques e no escalão de juniores, José Maria Santiago, João Maio e Marta Varanda. João e Felipe são a primeira dupla de tenistas com este grau de parentesco a jogarem numa selecção jovem de Portugal.

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Uma recente entrevista de Serena Williams à revista norteamericana Rolling Stone veio estragar um pouco o estado de graça em que a número um do ranking se encontrava. Dos tópicos comentados por Serena, o mais polémico referiu-se a uma jovem de 16 que foi recentemente violada, quando se encontrava fortemente alcoolizada. Serena criticou a rapariga por se ter colocado naquela situação, o que originou imensos comentários negativos para a tenista nas redes sociais. Serena fala igualmente das rivais, nomeadamente (mas sem referir o seu nome), de Maria Sharapova e da sua relação com Grigor Dimitrov, a quem apelida de “coração de pedra”. E também da jovem Sloane Stephens, que a derrotou nos quartos-

O K-Open Smashtour continua a percorrer todo o país, promovendo o ténis entre os mais novos, divididos nos escalões de bola vermelha (até aos 7 anos), bola laranja (9 anos) e bola verde (10 anos). No Centro de Ténis de Faro, realizou-se a quinta etapa do circuito de menores de 10 anos com um número recorde de 83 inscrições. No Centro Internacional de Ténis de Leiria, estiveram mais de 90 atletas. No Clube


carismáticas do circuito durante 22 anos. “A minha carreira foi dividida em três partes: em 1998, retireime, voltei em 2000 e joguei bem em singulares. Na terceira parte, nos últimos anos, centrei-me nos pares e diverti-me muito também”, disse Norman, após o último encontro disputado no Topshelf Open, em ‘s-Hertogenbosch, ao lado do compatriota

novo. “É uma bela vida no circuito e de certeza que vou ter saudades do sol, pois via-o nove meses por ano. Em casa, vou só vêlo dois meses por ano”, acrescentou Norman, número 10 no ranking pares, em Abril de 2010. Nesta variante, conquistou – a mais prestigiante foi a de Roland Garros, em 2009, ano em que foi igualmente Open, com 38 anos. Em

singulares, atingiu o 85.º lugar do ranking, em 2006, e teve como ponto alto a estreia em Wimbledon, em 1995, em que chegou aos eliminar Pat Cash, Stefan Edberg e Todd Woodbridge. “Não irei desistir do ténis porque é a minha paixão e quero partilhá-la com as pessoas. Vou organizar ferias de ténis e clínicas de pares para as pessoas que querem melhorar o seu jogo”, adiantou “Big D”.

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EDwiN VERhOEf

Aos 42 anos, Dick Norman achou que era altura de reformar-se. O belga de 2,03m de altura era

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de Ténis de São Miguel, reuniram-se 33 jovens, do clube da casa e também da Escola de Ténis de Vila Franca do Campo e da Escola de Ténis da Ribeira


No circuito

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Pedro Keul Não foi a melhor forma de comemorar um 10.º aniversário de enorme importância para Roger Federer, mas a derrota precoce nesta edição do torneio de Wimbledon não apaga os capítulos da história do ténis que o suíço escreveu através da sua raqueta. A pressão de defender o título e poder almejar um oitavo na relva londrina – um feito em Grand Slam conseguido uma única vez, 15 dias antes, em Roland Garros, por Rafael Nadal –, poderá ter sido demasiada. Mas não há dúvida que foi em 2003 que o estatuto de melhor tenista de todos os tempos começou a tomar forma. Quando há 10 anos chegou ao All England Club, Federer já carregava sobre si as expectativas de ganhar o torneio, criadas dois anos antes quando derrotou Pete Sampras, campeão por sete vezes. Número cinco do

“O TíTuLO DE 2003 FOI O pRImEIRO mAS já ERA AGuARDADO” -

nar mais, mas a derrota em três sets frente a Mario Ancic na ronda inaugural da edição anterior, ainda colocava alguns pontos de interrogação. Mas Federer esteve dominador em todas as rondas – apenas cedeu um set, na terceira eliminatória frente ao norte-americano Mardy Fish – e 10 anos depois do primeiro título de Sampras (e exactamente com a mesma idade, 21 anos e 10 meses), Federer conquiaustraliano Mark Philippoussis a quem não permitiu um único break-point: 7-6 (7/5), 6-2 e 7-6 (7/3). Em 2004, Federer reapareceu em Wimbledon como número um do ranking. Teve problemas para passar Lleyton Hewitt nos quartos-

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No circuito a ajuda da chuva para travar os ímpetos de Andy Roddick, que liderava por 6-4, 5-7, 4-2. Após uma paragem de quarenta minutos, Federer recomeçou a recuperação para triunfar com os parciais de 4-6, 7-5, 7-6 (7/3) e 6-4. Com sete títulos conquistados nos cinco primeiros meses de 2005, Federer era o incontestável líder do circuito masculino quando chegou a Wimbledon. Contudo, nos dois torneios do Grand Slam disputados, Austrália e Roland Garros, não passou alemão Nicolas Kiefer quase que o obridominou mais facilmente o reincidente Roddick, em três sets: 6-2, 7-6 (7/2) e 6-4. “Tenho montes de respeito por ele como pessoa. Já lhe disse antes: ‘gostava de te odiar, mas és mesmo simpático’”, lamentou-se Roddick, com o seu bom sentido de humor. A vitória de Federer na primeira ronda da

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O triunfo em 2012, quando era apontado como terceiro ou quarto favorito, foi um feito enorme para Federer

“OS CINCO [TíTuLOS] Em WImBLEDON E A SEXTA FINAL É ALGO pARA ALÉm DAS pOSSIBILIDADES DE QuALQuER jOGADOR” edição de 2006, sobre Richard Gasquet foi a 42.ª em relva, ultrapassando o recorde de 41 de Bjorn Borg, registadas entre 1976 e além das possibilidades de qualquer jogador. Para mim, Borg conticom um recorde na Era Open de somente 52 jogos cedidos nas seis rondas anteriores, o suíço travou a série de cinco derrotas diante


que se encontraram, incluindo a de Roland Garros, quatro semanas antes – e venceu, por 6-0, 7-6 (7/5), 6-7 (2/7) e 6-3. “Estou muito ciente de quão importante para mim foi este encontro. Sabia que Wimbledon era o local para lhe conseguir ganhar mais facilmente mas acabou por ser duro”, diria Federer. Em 2007, a chuva e a desistência de Tommy Haas nos oitavos-deperdeu um set – nos “quartos”, frente a Juan Carlos Ferrero – até quatro semanas depois de novo desaire na decisão do título em Paris. Desta vez, o espanhol apareceu com uma maior ambição, simter quatro break-points em dois jogos diferentes, mas o suíço anu7-6 (9/7), 4-6, 7-6 (7/3), 2-6 e 6-2. Após o derradeiro smash, Fede-

Quando, em 2003, chegou a Wimbledon, o suíço era conhecido por ser o jovem que derrotara Pete Sampras dois anos antes

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No circuito

“Em 2012, NA SuA 14.ª pRESENçA Em WImBLEDON, FEDERER já NãO É O pRINCIpAL FAVORITO” 12

que sentira ao longo da quinzena; sob o olhar de Borg, sentado na Royal Box, o suíço tinha conquistado o quinto título consecutivo, igualando o feito do sueco, entre 1976 e 1980. A edição de 2009 começou num cenário bem diferente: Federer chegou ao All England Club sem ser o número um do ranking, nem o detentor do título, mas como recém campeão de Roland Garros – o único troféu do Grand Slam que lhe faltava – e sem contar com nal com um set cedido – na terceira eliminatória, frente a Philipp Kohlschreiber – e reencontrou pela terceira vez Andy Roddick. E


de jogos (77), ganha pelos parciais de 5-7, 7-6 (8/6), 7-6 (7/5), 3-6 e 16-14, é que Federer conquistou um inédito 15.º título do Grand Slam e recuperou o primeiro lugar do ranking. Em 2012, na sua 14.ª presença em Wimbledon, Federer já não é o teriores edições e não ganha um major desde Janeiro de 2010. Na terceira eliminatória, passou por seis vezes a dois pontos da derrota frente a Julien Benneteau, que ganhou os dois sets iniciais. Nos “oitavos”, lesionou-se nas costas, mas recuperou a tempo de elimiinicialmente dominada por Andy Murray, que liderou por um set e um break de vantagem no segundo. Federer conseguiu igualar ao vencer o segundo set, antes de a chuva obrigar ao encerramento do tecto amovível. Em condições mais rápidas, Federer impõe-se, pelos parciais de 4-6, 7-5, 6-3 e 6-4, deixando Murray em lágrimas. “Ainda me custa a acreditar. Desta vez, tenho a impressão que é pras em Wimbledon e assegurar mais um regresso ao topo do ranking. A edição de 2013 decorreu longe do desejado por Federer e só foi memorável por se celebrar o 10.º aniversário do primeiro dos seus 17 títulos do Grand Slam.

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Após sete títulos, Wimbledon e Roger Federer para sempre associados


Court & Costura

Frederico Silva não gostou do resultado e da exibição no torneio de singulares de Roland Garros no escalão de sub-18. Era 14.º cabeça-de-série e perdeu na segunda ronda. É o seu segundo e último ano neste escalão e foi a última oportunidade de brilhar nos juniores do Open de França, depois de optar não jogar no Open da Austrália, decisão “ajudada” por uma lesão. O seu treinador, Pedro Felner, também não apreciou e é que têm consciência do trabalho efectuado e que as ambições são naturalmente maiores. “Kiko” tem ainda Wimbledon e o Open dos Estados Unidos para arrancar um resultado num torneio juvenil do Grand Slam e só vejo vantagens em que insista, mesmo depois de

Magazine” que a maioria dos jovens promissores deveria frequentar o circuito ITF de sub-18. Explicava a vencedora de 18 títulos de singulares do Grand Slam e ex-n.º1 mundial que foi ali que aprendeu a suportar a enorme pressão de ser a esmagadora favorita em todos os torneios e não apenas favorita de vez em quando. Quando lidar com ela. Frederico é o único jogador português com dois títulos do Grand Slam (pares sub-18 no US Open 2012 e Roland Garros 2013), mas os seus objectivos de carreira são bem mais elevados e desilusões como a de Paris, há poucas semanas, torná-lo-ão mais forte.

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Hugo ribeiro


PORTFOLIO

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em imAgenS


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No circuito

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Hugo Ribeiro Não há memória de um jogador parar sete meses devido a uma lesão que perigou a sua carreira, ter perdido tantas referências espaciais ao ponto de necessitar de reaprender a correr, regressar à e conquistar sete, distribuídos por um do Grand Slam, três Masters 1000, dois ATP 500 e um ATP 250! O que Rafael Nadal fez entre Fevereiro e Junho é inédito na história na frente da “Race to London” com sete mil pontos, mais dois mil do que o n.º1 mundial Novak Djokovic. O cenário mais parecido passou-se com Monica Seles. A norteamericana de origem jugoslava foi alvo de um atentado de um

cumprimento de serviço cívico. Seles foi atingida por uma faca nas costas em Abril de 1993, no torneio de Hamburgo, a recuperação psicológica foi mais

Nessa época de 1995, disputou apenas dois torneios: ganhou o Open Em 1996, logo em Janeiro, arrebatou de rajada os Opens de Sydney e da Austrália. arrecadados, um deles do Grand Slam e outro equivalente aos Masters 1000 masculinos, batendo pelo caminho sete jogadoras do Rafa, como vimos, fez melhor em relação ao número e à qualidade de títulos e também já averbou pelo caminho 11 vitórias frente a top10 em 2013, sofrendo apenas uma derrota com adversários deste O que logrou o maiorquino é de tal modo surpreendente que o próprio declarou em Roland Garros que qualquer época seria

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No circuito excelente se conseguisse o que já fez em apenas cinco meses. Numa dúzia de anos de carreira, só em duas temporadas é que foi melhor sucedido do que nestes cinco meses. Em 2005 somou 11 títulos, incluindo um do Grand Slam e quatro Masters 1000. Em 2008 adicionou oito troféus, entre os quais dois do Grand Slam, o ouro olímpico e três Masters 1000. É, pois, possível que Nadal venha a conhecer a sua melhor temporada de sempre. Não é impensável acreditar que possa vencer mais um Major, mais um Masters 1000 e acabar a época com 12 troféus. Mas para tal, precisaria de manter a saúde que lhe tem faltado no joelho esquerdo. No Open de Itália avisou os jornalistas que não responderia mais a questões sobre o joelho promessa. Mesmo depois de bater Novak Djokovic na

É, pOIS, pOSSíVEL QuE NADAL VENhA A CONhECER A SuA mELhOR TEmpORADA DE SEmpRE 28

replicou que seria ridículo “explicar sobre como o joelho está limitado, tendo ganho em França”. Tem havido algum criticismo latente sobre as supostas desculpas que apresenta, dizendo que está sempre com dores e depois vai ganhando torneios. O silêncio foi a melhor resposta a tais alegações. Rafa é demasiado correcto para entrar em jogos psicológicos desse tipo e

provou-o em Paris. recorde de títulos num mesmo Major, elevando pela oitava vez a Taça dos Mosqueteiros. “Eu não vos digo mentiras. Quando digo que vivo dia-a-dia é porque

imensas dores no meu joelho. Ele jogou muito bem e eu estive a dois pontos de vencer o encontro. Eu joguei a cem por cento com o que bater um grande jogador como o Zeballos. Ele jogou melhor do que


eu e felicitei-o. Eu estava mais preocupado com outras coisas do que vencer ou perder aquele encontro. O processo teve de ser diário. quando cheguei a Monte Carlo não pensava em Roland Garros. (…) Quanto ao meu joelho, em algumas semanas não me senti bem, mas nas últimas semanas comecei a sentir-me melhor. (…) A verdade é que em Barcelona estava muito pessimista em relação ao joelho e é por isso que tenho de ir vivendo com isto numa base de dia-adefrontar o Gulbis e o Ferrer em dias consecutivos em Roma. E aqui, em Paris, tive uma dura batalha com o Djokovic e no dia seguinte não estava com uma sensação terrível, o que encarei como notícias positivas”. O modo como sincera e abertamente aceitou dissecar este problema, permite aos jornalistas e analistas entenderam que há sempre um risco em prever o que será a segunda metade da época daquele que foi inquestionavelmente o melhor jogador do mundo na primeira metade. Em qualquer momento o joelho pode ceder e deitar tudo por terra.

Cada encontro que Rafa realiza, é um teste ao seu joelho esquerdo

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No circuito sublinhar enfaticamente que o joelho tinha sido submetido a um enorme esforço na época de terra batida e que era imperativo descansar. Estamos perante o campeão de Wimbledon de 2008 e 2010, e ainda vice-campeão em 2006, 2007 e 2011. Subestimá-lo seria um erro terrível, até porque Bjorn Borg provou que é possível ganhar de rajada Roland Garros e Wimbledon sem disputar qualquer torneio entre os dois. Mas o espanhol nunca chegou tão vulnerável ao All England Club. “Terei de ir fazendo exames ao corpo e desejo realmente estar pronto para Wimbledon. Não jogarei um torneio antes de Wimbledon e isso não é a situação ideal antes de um torneio do Grand Slam como este, por ser em relva e por as condições serem muito diferentes. É essa a razão que o leva a ser o torneio mais imprevisível, mas tentarei chegar em boa forma”, disse em inglês. Em castelhano acrescentou: “Em toda a minha vida joguei sempre um torneio de preparação e não disputar nenhum antes de preparação para a próxima etapa do Grand Slam. (…) Um torneio antes permite-me jogar melhor em relva e preparar-me melhor”. série, pelo que poderá começar a defrontar os melhores do mundo

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tem habituado. E o sorteio piorou o cenário, ao colocá-lo na metade do quadro principal teoricamente mais complicada, com potenciais adversários como Roger Federer, Jo-Wilfried Tsonga e Andy Murray, para além de outros perigos como John Isner, Stanislas Wawrinka, Jerzy Janowicz e Marin Cilic. Mas a campanha começa diante do bem mais macio Steve Darcis e o Rafa, sempre ambicioso, avisa que “se passar algumas rondas em Wimbledon, a situação altera-se”. Por outras palavras, se chegar à segunda semana, cuidado com ele. Independentemente do que acontecer em Londres, é irrealista acreditar que o toiro de Manacor manterá

O ESpANhOL NuNCA ChEGOu TãO VuLNERáVEL AO ALL ENGLAND CLuB

que participe. Para mais quando se sabe que o resto da época decorrerá em relva e hardcourts, pisos mais


complicados para o joelho e para o seu estilo de jogo. Daí que se tenha revelado mais cauteloso quando em Paris insistiram à exaustão que ele é o principal candidato a terminar a época como n.º1 do ranking mundial. “Há ainda seis meses à nossa frente. Tenho uma vantagem, mas não é muito grande. Sim, é verdade, Poderei ser n.º1 outra vez se continuar a jogar a este nível e se não me lesionar. Mas isso não é cem por cento seguro, tudo pode acontecer e terei de aceitar o que vier. Ser n.º1 dá um enorme entusiasmo, mas será a maior felicidade na carreira de um atleta? Não! Disputar um encontro Roland Garros) dá-me muito mais prazer do que ser n.º1”. Repare-se como há um acento tónico na expressão “aceitar o que vier”. A lesão, quiçá crónica, limita-o e força-o a encarar e a planear a sua carreira de forma diferente, aos 27 anos. “Hoje em dia vejo as coisas de modo mais descontraído. Antigamente queria treinar todos os dias a cem por cento para ter a certeza de que estava pronto, mas nos dias de hoje isso já não é possível. Anseio que seja possível um dia, no futuro, mas não actualmente. Creio que mentalmente aceitei essa situação. Quando nos tornamos mais experientes no circuito e à medida que envelhecemos, percebemos que talvez não necessitemos de treinar tanto como quando eramos juniores ou quando tínhamos 19 ou 20 anos. Aos 20 ou 21 anos, estava no topo do ranking e se parava de jogar ténis durante duas semanas, ao regressar, sentia que precisava de algum tempo até voltar ao um rendimento de cem por cento. Não é isso que sucede hoje em dia e isso é positivo. Deve-se, provavelmente, ao facto de ter melhorado muito a minha técnica e de ter progredido no meu jogo em geral”. A explicação de Rafa é plausível, mas, apesar de este ano já ter conquistado o Masters 1000 de Indian Wells em hardcourts, numa altura em que tal parecia impossível, resta saber se essa

Aos 27 anos, a lesão crónica força-o a encarar e a planear a sua carreira de forma diferente

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No circuito recuperação mais rápida dos automatismos e do nível competitivo que Rafa sentiu na terra batida, irá repetir-se na relva e nos pisos mais rápidos. E é bem provável que o joelho esquerdo o force a paragens competitivas mais frequentes durante o US Open Series do que na época do pó-de-tijolo. Mas com este campeão de 12 Majors já se sabe que as questões

A humildade de Rafa tem vezes, a relação com os media

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forte que alguma vez o ténis conheceu: “Quando chegas a um ponto em que sentes que já não podes melhorar, então é porque não compreendes nada da vida, porque nada é perfeito. Estou sempre a melhorar em todos os aspectos do meu jogo e só assim progrido. Mas essas melhorias não garantem que irás ganhar mais vezes. A vitória ou a derrota depende de outros factores, como questões mentais, alguma sorte e frescura psicológica”. Doravante, a gestão da sua carreira será feita dia-a-dia e os Daí que só a muito custo tenha mantido a seriedade quando um jornalista compatriota lhe pediu para comentar a declaração do antigo campeão espanhol Manolo Santana – o actual director do Masters 1000 de Madrid –, segundo o qual irá ultrapassar os 17 títulos do Grand Slam de Roger Federer: “As minhas perspectivas são normais. Claro que, neste contexto, ganhar 17 títulos do Grand Slam é algo que está a milhas de mim. Nem sequer penso nisso”. Ele já avisou, não anda por aí a contar mentiras aos media. Podem acreditar, Rafa sonha com nova vitória em Wimbledon, mesmo sabendo-a muito grande candidato a n.º1 mundial de 2013, mas nem lhe passa pela cabeça apoderar-se nos tempos mais próximos do estatuto de melhor tenista de todos os tempos, que considera muito bem atribuído a “King Roger”.


JOsテゥ saRmENtO matOs

gASTテグ eLiAS (2.ツェ parte) 34

Hugo Ribeiro, com Pedro Keul


Não tenho tido tantas lesões assim. Tive uma complicada, nas costas, sete meses parado, um período complicado da minha carreira, um período em que normalmente os jogadores têm como bastante importante que é de transição dos juniores para o anos, isso prejudicou-me, mas faz parte. Dois anos depois tive um recomeço dessas mesmas dores por duas ou três semanas, mas aprendi a lidar com isso, já sei o que tenho de fazer, preciso de algumas precauções, de uns reforços diferentes que outros jogadores não precisam, é um sempre à volta disso. Mas tenho-me mantido com vários quiroprácticos que me ajudam, um aqui em Portugal e outro em São Paulo. Sempre que posso, todos os meses tento fazer o alinhamento da postura para tratar antes de aparecerem as dores. Se andar

à noite. Mexia-me e acordava com dores. É uma lesão que muita gente tem, porque o ténis hoje em dia exige muito das costas, muitas rotações, mas os jogadores não deixam chegar ao ponto que eu deixei. Ignorei as dores e por causa disso acabei por tomar uma má decisão.

Nessa lesão não foram só os sete meses, foi o que disse há pouco, depois, voltar ao nível leva tempo. Não estava tão preocupado com o ranking porque sei que tenho um bom nível de ténis. O ranking era uma questão de tempo até voltar a subir. A preocupação era poder, realmente, voltar a jogar sem dores. A certa altura foi-me diagnosticado um encondroma (tumor benigno) numa costela, dentro do osso, tive de fazer muitos exames, depois quiseram fazer-me uma biópsia mas diziam que estava num local muito perigoso porque poderia perfurar algum pulmão, então andámos muito tempo sem saber o

falaram em remover um pedaço da costela…

Ouvi falar apenas por alto e eu sei o que é isso porque diria que joguei à vontade uns cinco meses com dores. Ia jogando esperança que a dor fosse diminuindo, mas nunca aconteceu e chegou a um ponto em que já nem conseguia respirar ou dormir

minha família. Eu era e sou novo, não tinha e não tenho tanto a noção das coisas como um pai de 50 anos tem. Durante esse tempo, diziam-me isso e eu encarava como se não fosse nada de mais enquanto os meus pais nem dormiam. Depois da lesão, o tempo até voltar a um bom nível de competição, tirando o Nadal, é longo. É igual ao Rui Machado. O Rui já não está lesionado mas

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ENTREVISTA já poderia estar a jogar há três meses ou mais. Só que tem de ir devagar, com calma, com tempo, jogar um torneio e descansar, é o que o Nadal também fez, não pode ser tudo de uma vez. Depois voltamos à competição e dói-nos tudo, os joelhos, os ombros, a cabeça, dói tudo o que tem para doer no corpo… quem lidar com isso mais rapidamente

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A iniciação ao ténis foi com o Luís e o meu pai [NDR: Igualmente Gastão]. O meu pai tinha aulas com o Luís Miguel. Comecei a jogar aos quatro anos com o meu pai e o Luís foi o meu primeiro treinador. Mas não era um treinador para todos os dias porque aos quatro anos não é nada disso. Era uma vez por semana, ele sempre viveu perto da minha zona. Às vezes ia ao clube onde eu treinava, lembro-me de ter treinado aí também com o José Mário Silva. Depois tornou-se mais sério com o Luís e já viajava com ele para torneios até aos 16 anos. Nessa idade fui para a Bollettieri e parámos com o Luís. O Luís é muito bom para a fase inicial de um atleta. Ele entende, realmente, muito de ténis, de técnica e sabe ensinar muito bem. Há quem entenda mas não saiba passar para o jogador, mas ele consegue. Em oportunidade de viajar tanto com ele, não consigo saber como reagiria a esse mundo diferente do ténis. Na altura em que treinei

com o Luís também vinha umas duas vezes por semana ao CIF, cheguei a treinar com o Fernando Tocha, com o Manecas [Manuel de Sousa] e talvez com alguns de que não me lembro. Entretanto, como disse, aos 16 anos fui para a Bollettieri e lá os jogadores são agrupados em níveis. Eu fui logo directamente como jogador do IMG para o grupo de elite. Aí estão o que eles chamam de treinadores de elite. Nós não somos muitos e portanto não necessitamos de muitos treinadores, são uns dois ou três. Eles não viajavam para os torneios, mas ajudavam nas semanas de


treino. Qualquer um deles era muito bom. Havia um da República Dominicana de

Tommy Haas, Taylor Dent e Kei Nishikori] que chegou a ser contratado pelo Nishikori. Ele entretanto saiu e apareceu outro de que gostei, o Dante Bottini [NDR: Mais conhecido por ter viajado com Nishikori], mas eu não tinha os milhões que o Nishikori tem para pagar a um treinador.

… É uma pessoa espectacular. Para além de ter e manter uma imagem muito boa… há quem seja capaz de manter uma imagem pública que é diferente da realidade mas ele é mesmo uma pessoa extraordinária e esforça-se mesmo no trabalho que faz. Ele entra no campo e está cem por cento do tempo a tentar ajudar os jogadores. Há muitos treinadores pelo mundo fora que entram no campo e quando acaba o horário fecha-se tudo, mas ele preocupa-se mesmo com os atletas. Não era um treinador que estava nesse grupo de elite, porque nestes últimos anos ele virou-se mais para o social, embora ainda ajude umas crianças. Mas muitas vezes ia lá ao nosso grupo e sem pedirmos nada queria ajudar-nos.

… Sim, sim, ele tem muitos anos de ténis, não precisa de analisar um jogador durante um ano inteiro para saber mais ou menos no que tem de trabalhar. Tem uns olhos muito bons e em alguns minutos já vê o que tem de melhorar. Por outro lado, consegue transmitir bem isso aos jogadores. Ele não nos conta o segredo da pólvora (risos) de os teus problemas do ténis resolvidos. Ele talvez tivesse esse segredo há uns anos. Mas hoje em dia o ténis está muito globalizado e todas as pessoas mais ou menos conseguem estar actualizadas em todas as partes do mundo. Ele é muito bom em termos motivacionais. Só de ouvir a voz dele… se é ele a dizer para baixarmos as pernas, o jogador baixa logo e ainda mais, é assim que funciona. Não é que ele seja um treinador de outro mundo, é muito bom a diagnosticar e a transmitir.

A academia mudou um bocadinho. Expandiu-se muito, tem muitos desportos. Há um tempo que não vou lá, não sei como está, se ainda dão a mesma atenção no ténis que davam anteriormente. Saí de lá em 2010. Até essa altura era perfeito. Em termos de infraestruturas melhorou, porque sei que dois campos de basquetebol, dois campos de golfe, mesmo à americana.

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ENTREVISTA Eu fui para lá sem pagar nada. Davamme a alimentação, alojamento, treinos,

sem pagar. Só pagava se quisesse ter um treinador particular. Aí pagaria o salário dele. E pagava as idas a torneios: viagens, hotéis, comidas, fora da academia. Dentro da academia nunca paguei nada e ainda hoje não pago nada se for lá. Com dez zeros tinhas de ir lavar os pratos, o que nos levava a seguir as regras. É importante para jovens em crescimento. passaram por essa fase, não é preciso. Um jogador que é 150, 100 ou 50, não faz sentido levantar-se às 6 da manhã para ir trabalhar

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(Risos) Aquela academia é muito importante para uma certa fase de um jogador. Quando ainda se é jovem e tem de se aprender a ter disciplina, seguir regras, fazer as coisas que nos mandam. Uma pessoa vai para lá e é como se fosse um escravo. Amanhã tens de estar aqui às 7 horas, depois tens isto às 11, daqui aqui vais treinar, depois é estudar e às 21 tens de estar no quarto senão levas um zero. Quando levavas com cinco zeros tinhas de, por exemplo, ir apanhar o lixo da academia.

Eu não sou amigo do Berankis por causa da academia. Conheci-o aos 12 anos. Eu estava com o Luís e o Berankis com um treinador chamado Remis Balzekas, que era o capitão da Taça Davis na Lituânia. Ficámos amigos, antes de ir para a Bollettieri ainda passei uns tempos na Academia de Saddlebrook, a


antiga Hopman Academy, e emprestavamsempre juntos nesses períodos de treino e como fomos dos melhores juniores em todos os escalões, encontrávamo-nos em todos os torneios. Foi uma amizade construída ao longo dos anos. Depois tivemos a sorte de o mesmo agente [empresário] se interessar por nós, o Ben Crandell. Ali deu para criar algumas amizades, aconteceu também com o americano Austin Krajicek, o Devin Britton que era e ainda é uma esperança nos Estados Unidos, muitos outros que foram para a universidade, tive até alguns amigos que entretanto já foram presos (risada), tenho todo o tipo de amigos. Conheci muita gente de outros desportos. Há um português que jogava golfe, havia muitos brasileiros a jogar futebol.

Não foi bem assim que tomei a decisão. Na Academia ainda tive um treinador equatoriano, o Ricardo Ycasa, ainda no enquadramento da academia e até vim ao Estoril Open com ele. Depois tive outro brasileiro que era o Rodrigo Nascimento, isto tudo ainda na Bollettieri. Depois o meu agente disse-me que conhecia um treinador brasileiro que tinha sido jogador, que falou com ele sobre mim e da possibilidade de ele me treinar durante Roland Garros e que ele se ofereceu para tentar. O Ben perguntou-me se eu não queria ir a São Paulo à experiência. Não fui deixando a academia, aliás, tenho dez malas de roupa na academia até hoje. Porque saí dizendo que iria experimentar

mas poderia estar de volta passadas duas semanas. Eu gostei dele, ele gostou de mim, lá até agora. É o Jaime Oncins que me treina agora.

Foram duas semanas. Foi uma experiência. Eu não tinha ninguém, viajava sozinho, o Pitti ofereceu-se, eu levei-o para os Estados Unidos, fomos para um torneio e não resultou entre nós. Gosto muito dele

Senti porque o Jaime é muito parecido comigo. É muito tranquilo e tem muita paciência. Nunca tivemos uma discussão até hoje. Houve discussões tenísticas mas nunca pessoais. Somos pessoas fáceis de lidar e isso foi bom para os dois. Tenho muito respeito por tudo o que ele fez e, neste tempo que estive com ele, apercebi-me do quanto ele percebe de ténis. Isso foi importante para mim nos momentos menos bons. Eu fui para ele vindo daquela lesão que falámos há pouco. Comecei praticamente do zero com ele. Ele também teve um período da carreira lesionado e sabe em termos emocionais como reagir e como recuperar o mais alto nível.

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ENTREVISTA anos e estou num ambiente que os meus pais conhecem, porque já lá foram visitar

Sim, sinto-me assim por ele, pelas coisas que ele fez por mim até hoje. Eu moro com dou-me bem com eles, o mais velho tem 15 anos e noto que para ele é importante ter por perto uma pessoa como eu, mais velha, eles divertem-se muito comigo, batem-me à vontade e eu não posso fazer nada (risos).

Nunca falámos sobre isso. Eu cheguei lá numa sexta-feira à noite, no sábado fomos para um torneio de carro, sete horas a conduzir, foi esquisito, ele foi-me buscar ao aeroporto, levou-me para casa e no dia seguinte estive sete horas fechado num carro com alguém que nunca tinha visto. Depois por lá, fui treinando e estou lá até agora.

casa de Portugal, o meu pai e ele dão-se bem, isso faz com que os meus pais não tenham tanto com que se preocupar, sabem que estou como se estivesse em casa. E comunicar.

A minha família apoiou-me sempre e cada vez que ligo para casa dizem o mesmo, vamos lá, é para a frente, mesmo quando perco, acreditamos em ti, força…

Não, nunca, pelo contrário, ele sempre me disse que queria que eu fosse feliz e que ajudo-te até não poder mais. Se quiseres estudar também te apoio. A decisão de jogar ténis foi totalmente minha.

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São situações diferentes. Eu tinha 16 anos quando fui para a academia e estava sozinho. Com o Jaime já tinha 19 ou 20


(Gargalhada) Se os meus pais tivessem um décimo do que tem o Gulbis não estaria nada preocupado aqui! Os meus pais são pessoas muito humildes. O meu pai veio praticamente do nada e a casa que tem hoje foi construída por ele. Os meus pais dão muito valor ao que se tem na vida, nunca me

não vivemos com piscinas e coqueiros no jardim… A casa que temos hoje era uma adega do meu avô. Os meus pais sempre me deram a entender que a vida não é nada fácil, que é preciso trabalhar, deram-me aqueles conselhos de pais, portanto, procurei sair o mais rapidamente possível de uma

amigos. Se tive algum amigo que soubesse que tinha um campo de ténis em casa já era muito! E ter um campo de ténis em Casal Novo não é nada do outro mundo porque há muito terreno por ali.

Tive bons contratos, a Adidas, a Dunlop e durante algum tempo não acartava com cem por cento das despesas, mas a maior parte era eu que dava conta. Desde então que me tenho aguentado. Daqui para a frente veremos.

para não ser um peso. Nunca me passou pais. Nem sequer falava disso com os meus Agora estou sem contratos. Nada de nada, a não ser com a IMG, que é automaticamente renovável. Mas também não tenho contratos por opção do Ben Crandell. Porque eu acredito que se quisesse alguma marca de roupa que ele conseguiria. Material não preciso porque tenho muita roupa que recebi das marcas que me apoiaram. E agora, que estou perto do top-100 o meu empresário não quer que assine contratos neste momento porque uma coisa é assinar a 130.º e outra bem distinta é assinálos a 90.º ou 80.º do ranking.

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ENTREVISTA Bem, se ele não acreditasse e se eu não acreditasse, então mais valia a pena ter ido jogar hóquei no gelo ou algo assim (risadas).

americanos, mas gostava mesmo de hóquei no gelo. coisa constante e que me faça entrar em depressão.

Há uma pressãozita de querer subir no ranking para ganhar mais algumas coisas. Mas sinto que dou cem por cento em todos os treinos, faço as coisas direitas, mais do que estou a fazer não é possível, dou tudo o que tenho. Já perdi muitos encontros que deveria ter ganho, se não os tivesse perdido estaria no top-100, como por exemplo uma 42

sei como perdi, tal como a derrota com o dólares. Mas também houve encontros que deveria ter perdido e ganhei. É ela por ela. Não posso queixar-me de tudo. Como me diz o Jaime, nunca se pode jogar a pensar no dinheiro ou nos pontos. Joga-se a pensar em fazer o melhor e em divertir-se a jogar ténis porque de boa vontade tira-se melhor rendimento. É óbvio que essa preocupação às vezes entra na cabeça, mas não é uma

Eu sinto-me muito bem lá no Brasil. Os brasileiros têm um carinho especial pelos portugueses, somos sempre bem-vindos. Os jogadores brasileiros, quando digo que sou português, eles já dizem que não sou nada, que sou brasileiro, tanto é que o título de foi “Gastão Elias quase brasileiro”. Sinto-me muito bem lá em casa, mas obviamente que quando me dizem que deveria naturalizarme brasileiro eu respondo que nem pensar.


Sim, mas que está lá muito para a frente. Eu disse isso porque me perguntaram se gostaria de representar Portugal ou o Brasil no Rio. Não é um objectivo que tenha agora na cabeça, ainda falta muito tempo.

Sou do Corinthians. Sigo os jogos do Real Madrid porque adoro o Cristiano Ronaldo, tenho-o como um ídolo, tenho alguns ídolos, outro é o Ricardo Araújo Pereira (risos), quando não tenho nada para fazer entro no

Tive um pouco dessa noção no Estoril Open, porque saiu numa revista nós sentados a ver um jogo e também porque a Célia Lourenço [NDR: Jornalista de A Bola] veio logo falar comigo para eu contar-lhe a história. Mas depois dessa semana, saí de Portugal e não dei muita importância a isso.

surf vem dos tempos em que o meu melhor amigo fazia muito surf e eu comecei a fazer com ele desde os meus 12 anos, sempre que podia ia com ele surfar em Peniche. Também tive uma fase do skate, da natação, do karaté. O surf, quando posso sim, embora Digamos que eles sabem bem meter um para estar com os amigos, estar no mar, conversar, relaxar. Claro que gosto do Kelly Slater e vi muitos vídeos dele, nos tempos de adolescente. E agora também comecei a praticar golfe. Às vezes vejo quando estou em zapping e vejo num canal. Antes não suportava ver golfe, achava muito chato, depois comecei a bater bolas, durante um future nos Estados Unidos. Fui para um driving-range e tive ali umas duas bolas em que batei mesmo muito bem e aquilo deume um gozo… e então sempre que tenho oportunidade aproveito.

bonita mas… é diferente, realmente, elas lá cuidam-se muito, mesmo que não seja bonita para a escola com maquilhagem, salto alto, saia curta, aos 15 e 16 anos já são muito vaidosas, andam imenso no ginásio, andam com roupas tão apertadas que quase parece não passar o sangue pelas veias, claro que chama mais à atenção. Houve uma altura no Brasil em que namorei, terminou há pouco tempo. Tenho pouca experiência comparado com pessoas que andam no ténis há muito tempo e tento ouvir os outros. E uma dessas pessoas é o Jaime. Perguntava-lhe muito se deveria ou não sair esta ou aquela noite, se estaria a falar demasiado tempo com ela ou não, se ela estava a distrair-me e o Jaime

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ENTREVISTA guiava-me porque também se recordava de uma experiência má com uma antiga namorada. O Jaime não decide nada, dá-me conselhos e ele avisou-me que nesta fase tão importante da carreira em que estou a perseguir um objectivo de há muito, que é o top-100, é importante ter todas as energias para atingi-lo. Não é que uma namorada me distraísse, mas há momentos em que deveremos aproveitar as oportunidades e fazer tudo o que é possível para chegar lá. Portanto, enquanto namorei, sempre expliquei que o ténis é a prioridade na minha vida e ela entendeu isso.

morar ali, tenho essa opção e vejo-a como tal. O Brasil está em desenvolvimento e no Brasil há agora muita pessoa rica. Há também muita pobreza mas nota-se que o nível de vida está a aumentar. A comida é boa, o clima é bom, vive-se feliz, à brasileira. Em qualquer um desses dois lugares vejo-me morar com agrado. Se tivesse oportunidade de viver bem em Portugal, claro que equacionaria, mas não é algo que veja evidente no curto prazo. Como tenista viajar pelo Mundo fora e residir e treinar boas infraestruturas, e não é por aí que há lacunas para não termos jogadores de ténis. O problema principal para não treinar cá é a falta de parceiros de treino. Há alguns jogadores, mas esses viajam. Portugal tem muito pouca gente a jogar ténis a este nível. Não é como no Brasil ou nos Estados Unidos onde temos à nossa disposição 20 bons juniores se quisermos. No Brasil tenho 10 opções diferentes de treino por dia. O Brasil ranking mundial! Nota: A 1.ª parte desta entrevista foi publicada na MatchPoint Portugal de Maio

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Sim, sim, concordo plenamente. Se tivesse a opção entre Brasil e Estados Unidos, escolheria Estados Unidos, porque é um país que, realmente, quando vivemos lá, parece que tudo funciona bem, a vida está bem pensada, uma pessoa sente-se bem, tem o que precisa, confortável, as casas são óptimas. Também gosto muito do Brasil, a zona onde estou é muito boa e vejo-me a


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EquipamEnto

A HEAD Tennis uniu-se à organização (RED) na luta contra a SIDA e lançou a linha (HEAD) RED Special Edition, que inclui um saco para raquetas de ténis e uma mochila. O objectivo desta colaboração é apelar á consciência das pessoas e angariar dinheiro para lutar contra esta doença, graças aos 40 por cento das receitas das vendas de cada saco (HEAD) RED. A iniciativa foi apoiada por muitos dos principais tenistas da marca que levaram esses sacos para os courts de Roland Garros, como Maria Sharapova, Novak Djokovic, Andy Murray, Tomas

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Berdych, Marin Cilic, Gilles Simon e Sloane Stephens. “Sentimo-nos muito orgulhosos de pertencer a um grupo de marcas líderes no mundo que apoiaram a (RED) na luta por conseguir uma geração sem SIDA. Quero agradecer aos nossos tenistas pelo seu apoio e convidar os adeptos e jogadores de ténis de todo o mundo a que colaborem com HEAD e (RED) nesta causa tão digna e importante”, disse Johan Eliasch, director-geral da HEAD. Os tenistas da marca gravaram um vídeo que passou nas redes sociais e nos meios de comunicação digitais e os adeptos também tiveram a oportunidade de ganhar um saco (HEAD)RED Special Edition, com artigos pessoais e assinados por algumas das estrelas da equipa de ténis da HEAD, através da página www.facebook.com/headtennis. “É fantástico ver uma marca tão simbólica como a HEAD a colaborar com a (RED) para recolher fundos e fomentar a consciencialização na luta contra a SIDA num evento com tanta importância como Roland encantados como estes fantásticos sacos”, (RED).


ARBITRAGEM

Na maioria das provas do circuito profissional, a simpática presença de apanha-bolas torna mais rápido e escorreito o desenrolar das partidas de Jorge CArdoSo Árbitro ténis. Existem no entanto variadíssimos torneios, inclusive de índole profissional, onde não existe a presença sempre bem-disposta destes jovens. O que fazer então quando se disputam encontros sem esta preciosa ajuda? Quando se joga um encontro de ténis nestas circunstâncias, a presença de bolas dentro do terreno de jogo, são toleradas e permitidas, isto desde que nenhum dos atletas se sinta prejudicado. Se existir Árbitro de Cadeira, ele deverá estar atento a situações que possam colocar em perigo a integridade física dos jogadores, como sejam bolas próximas dos pés, e não permitir que se inicie qualquer ponto sem que estejam garantidas as condições ideais. Caso uma bola se encontre no campo do adversário, o opositor pode pedir para que seja retirada, sendo que a bola em questão terá mesmo que ser removida para fora do campo de jogo. Como proceder se durante uma jogada uma bola bate numa pré-existente dentro do campo de jogo? Esta é uma situação recorrente em que muitas vezes e erradamente, vemos ser jogado um “let” (repetição do ponto). A

verdade é que o atleta é responsável pela sua metade do campo, e se não conseguir devolver corretamente a bola de jogo perde o ponto, não podendo invocar estorvo ou perturbação na sua acção, pois foi risco seu não ter removido a bola que o viria a prejudicar. Se ambas as bolas se moverem de tal maneira que os jogadores ou o árbitro (caso exista), não tenham a certeza de qual é a bola do jogo, então sim, deve ser repetido o ponto.

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MEDICAL TIMEOUT

No decorrer de um encontro, o tenista pode efectuar até 1000 mudanças de direcção, cada uma com impactos que podem superar duas vezes o peso corporal. A pele da planta do pé está assim sujeita a grandes níveis de fricção, aumentando quanto mais abrasivo for o piso e quanto maior a temperatura. É portanto essencial prestar atenção aos a hidratação da pele e remover os calos formados (tendo Tendo conhecimento das zonas onde costuma acumular mais fricção, o atleta pode optar por palmilhas que ajudem a evitar calos e formação de bolhas por baixo destes é especialmente frequente. Uma vez formada a bolha, e supondo que não há acumulação de sangue, esta pode ser furada, mas a pele não deve ser removida até que se forme uma nova camada por baixo. A zona onde a bolha for furada deve também ser desinfectada frequentemente. Outros cuidados preventivos incluem também o uso de calçado adequado às condições atmosféricas e a mudança frequente de meias durante os mais frágil com o suor. limitação e distracção para o jogador, impedindo-o de atingir um desempenho ideal mesmo na presença de todas as suas impõe-se assim uma atenção redobrada a este problema!

JoSÉ Pedro CorreiA Fisioterapeuta

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TÁCTICA

O lob defensivo deve ser executado quando nos encontramos luíS dAmASCeno em desequilíbrio Treinador ou completamente “desenquadrados”, com a bola e não nos é Por outro lado, o lob ofensivo deve ser utilizado quando não estamos numa posição tão desfavorável e temos capacidade técnica e

- Efeito surpresa - Ilusão ou capacidade de disfarce Nunca mostre as suas intenções e, quando o adversário menos espera, execute o lob com determinação. Se o seu lob obrigar o adversário a virar costas, então deve entrar no court e subir à rede para tentar concluir o ponto.

e pretendemos adicionar variedade no nosso contra-ataque.

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O lob defensivo deve jogar-se sobretudo cruzado, pelos seguintes motivos: - permite ter uma área-objectivo consideravelmente superior - permite ter mais tempo para recuperar - permite uma maior segurança - limita o ângulo de decisão do eventual smash adversário

“NuNCA mOSTRE AS SuAS INTENçõES E, QuANDO O ADVERSáRIO mENOS ESpERA, EXECuTE O LOB COm DETERmINAçãO”


BOLA NA TELA

Richard Loncraine João CArloS SilvA

Este mês tinha de ser

uma comédia romântica que teve um êxito apenas razoável, apesar das credenciais dos seus criadores, que vinham de fazer Notting Hill e Os Diários de Bridget Jones. Com acção, emoção, uma história de amor e muitas cenas de ténis, o (Paul Bettany) e Lizzie Bradbury (Kirsten Dunst) o casal de tenistas apaixonados. Ele, que Wimbledon, 2004 em tempos foi o 17.º Realizador: Richard Loncraine do mundo (perdão, o Paul Bettany foi 11.º), vai abandonar nomeado para a modalidade em melhor Actor nos prémios da revista Wimbledon – até empire que ela aparece e ele renasce. Ela é como uma espécie de John McEnroe em rapariga. Na altura da estreia, as publicações de aparecerem tenistas veteranos (o próprio McEnroe, como comentador, além de Chris Evert) emprestou-lhe peso. Além disso, o inesperado percurso de sucesso de Peter Colt

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transmite um elemento essencial de qualquer modalidade: a euforia da vitória. Ele chega àquele ponto em que, “por um momento, o mundo está ali para tu o conquistares”. Wimbledon não vamos dizer mais.


Revista Ténis MatchPoint Portugal Junho 2013  

Revista de Ténis / Tennis Magazine 1a Revista de ténis digital em Portugal.

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