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NOV O

MatchPoint n.º 2 | Fevereiro 2013 | € 4.95

Portugal

OPEN DA AUSTRÁLIA EM BALANÇO

ENTREVISTA PEDRO FRAZÃO

Rafael Nadal

O seu regresso fez bem ao ténis

fb.com/matchpointportugal www.matchpointportugal.com


SUMÁRIO

MatchPoint Portugal

ARTIGOS   4 Bolas curtas  12 Open da Austrália em balanço

n.º 2 Fevereiro 2013

 22 Rafael Nadal está de regresso  28 Entrevista: Pedro Frazão  38 Selecções em acção

Propriedade

 42 Perfil: André Murta

do Ténis

 48 Memória: Appleton Figueira

OPINIÃO   3 Editorial

Associação para a Promoção

Director Pedro Keul Redactores e colaboradores Hugo Ribeiro, Miguel Seabra, Jorge Cardoso, João Carlos Silva, José Pedro Correia e Luís Damasceno

 37 Court & Costura

Fotografia

 52 Vantagem de…

(excepto indicação em contrário)

Cynthia Lum

Projecto gráfico e paginação

SECÇÕES  53 Equipamento

Henriqueta Ramos Mobile / Webdesign

 54 Medical Timeout

Contactos

 55 Táctica

matchpointportugal@gmail.com;

 56 Arbitragem  57 Bola na tela

Tel. 96 3078672; www.matchpointportugal.com; fb.com/matchpointportugal Foto da capa Mariela Sotomayor/VTR Open


EDITORIAL

DISCRETOS E EMPREENDEDORES

Pedro Keul

Discreto, Appleton Figueira marcou o ténis em Portugal nos últimos 60 anos. Não nos cabe a nós fazer a merecida homenagem, mas é nossa intenção recordar, em poucas linhas e fotos, o muito que fez pela modalidade. Discreto é também o adjectivo que melhor se adequa a Pedro Frazão, mas talvez mesmo por isso, o empresário merece que seja dado a conhecer o excelente trabalho que continua a realizar, agora no Brasil, à falta de melhores oportunidades em Portugal. A entrevista a Pedro Frazão já estava agendada quando se soube que o jovem André Murta se ia estrear na selecção da Taça Davis. Durante a eliminatória, soube-se igualmente que era uma estreia para o árbitro Marco Romão. Se acrescentarmos o regresso de Rui Machado à competição, ficaremos com a sensação que esta edição da MatchPoint Portugal é dedicada ao ténis no Algarve – e logo no mês em que aí decorrem os habituais torneios ITF. Mas não é mais que uma feliz coincidência. Contudo, é verdade que o Algarve está a dar cada vez maior contributo ao ténis português. E com as condições climatéricas, sobejamente reconhecidas, não se ficará por aqui. Também as selecções, lideradas por Pedro Cordeiro, estão de parabéns, pois cumpriram os objectivos a que se propuseram. Além-fronteiras e no rescaldo do Open da Austrália, o regresso de Rafael Nadal marcou a agenda internacional neste mês de Fevereiro.

“É VERDADE QUE O ALGARVE ESTÁ A DAR CADA VEZ MAIOR CONTRIBUTO AO TÉNIS PORTUGUÊS”

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BOLAS CURTAS Já se ouve falar de Duck Hee Lee

Jason Lockett

Nascido há 14 anos em Jechon City, o coreano Duck Hee Lee já ocupa o 75.º no ranking mundial de sub 18. Mas o que o distingue dos demais jovens aspirantes a um lugar no topo do ténis mundial não é sua precocidade, mas sim uma deficiência de nascença: é totalmente surdo. “O que é difícil é a comunicação com os árbitros, tanto os de cadeira como os juízes de linha. Não ouço as chamadas, em especial as que são ‘fora’, por

isso às vezes… continuo. É difícil mas nada de especial”, disse Lee ao site oficial da Federação Internacional de Ténis (ITF). “O árbitro de cadeira diz ‘espera’ mas não o consigo ouvir, por isso há muitos ‘lets’. Gostava de ver maiores gestos do árbitro durante o encontro”, diz Lee, que desde muito cedo desenvolveu a capacidade de ler nos lábios. É assim que se entende com o seu treinador, Hoon Park-kyung, com quem tem uma forte relação. “Apenas quis que jogássemos juntos, não apenas ensiná-lo, é

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essa a prioridade, mas vou dizendo umas coisinhas e, se há dificuldades, digo tudo o que é necessário dizer”, confirmou Hoon. Não ouvir é uma grande desvantagem já que o barulho da bola batida do outro lado da rede permite aos jogadores avaliar a potência e efeito e assim rapidamente preparar a sua devolução. Mas tem um lado bom: “Na verdade, nunca me preocupo com a minha deficiência e, no court, é mais fácil concentrarme no encontro porque não ouço nada, é mais conveniente.” Contando já no currículo com um título conquistado, em 2010, no prestigiado Eddie Herr International na categoria de sub 12, Lee tem apostado no escalão júnior e no Open da Austrália, ganhou as duas rondas do qualifying e venceu outra já no quadro principal. Tendo em conta os seus objectivos para 2013, Lee vai querer voltar a Melbourne no top 10 do ranking mundial de sub 18 e ser reconhecido por Roger Federer, com quem, aos oito anos, bateu umas bolas numa exibição realizada na Coreia, momento que preserva através de uma foto guardada no seu telemóvel.


Szavay abandona aos 24 anos

A húngara Agnes Szavay não quis submeter-se a uma operação cirúrgica que não garantia a recuperação total de um problema nas costas (uma vértebra partida) e o regresso á competição e decidiu abandonar a competição. “Este é um momento da minha vida muito emocional e, de certa forma, trágico. Durante mais de 10 anos, a minha vida centrou-se no ténis. É nisso que eu sou boa, adoro jogar e acredito que ainda tinha muito para dar, já que tenho somente 24 anos. Levei muito tempo a tomar esta decisão, mas não tive escolha, não quero colocar a minha saúde em risco”, frisou a húngara. Szavay foi contemporânea de Victoria Azarenka, Agnieszka Radwanska e Alisa Kleybanova no circuito júnior, no qual somou três títulos do Grand Slam: Roland Garros em singulares (derrotou Olaru na final), Wimbledon e Roland Garros em pares (ambos ao lado de Azarenka). O primeiro torneio profissional foi um ITF em Carcavelos, no ano de 2003, (passou pelo Estoril Open em 2010). Mais tarde, conquistou cinco títulos de singulares no WTA Tour (Palermo e Pequim, em 2007; Budapeste em 2009; Budapeste e Praga em 2010,) e mais dois de pares. Atingiu o 13.º lugar do ranking WTA em 2008 e obteve cinco vitórias sobre adversárias que ocupavam o primeiro lugar da hierarquia mundial (Venus Williams, Dinara Safina, Victoria Azarenka, Ana Ivanovic e Jelena Jankovic) e, em 2007, foi votada como a melhor estreante no WTA Tour e recebeu o prémio de melhor desportista da Hungria. O futuro passa pela carreira de treinadora. “Tenho a certeza que irão ouvir muito sobre a Szávay Tennis Academy.”

Eurosport oferece canal a Nadal Rafael Nadal não pôde acompanhar a final do Open da Austrália porque os pacotes de canais

recebidos por satélite foram alterados. O assessor de imprensa Benito Perez-Barbadillo confirmou: “Sabendo do que se passava, o Eurosport

enviou-me os códigos de acesso de modo a que rafa pudesse ver directamente os programas do canal desportivo na Internet.” Pelo que se conhece de Nadal, o que o espanhol menos espera é acompanhar as próximas finais do Grand Slam de outro lugar senão de um dos lados do campo.

Kiefer emparceira com Sharapova

A lesão no tornozelo do bielorrusso Vladimir Voltchkov levou Maria Sharapova a procurar um substituto para os próximos meses. A escolha recaiu no alemão e ex-top 5, Nicolas Kiefer, que assumirá as funções de parceiro de treino da russa. “Nicolas foi simpático o suficiente de concordar em treinar com Maria pelas próximas três semanas. Depois teremos outro ‘sparring’ a juntar-se à equipa em Indian Wells até Vladimir regressar de forma saudável e pronto para trabalhar”, disse Max Eisenbud, agente de Sharapova, ao site Tennis. com. A escolha de Kiefer teve certamente a influência do treinador de Sharapova, Thomas Hogstedt, que já trabalhou com o alemão.

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BOLAS CURTAS Nadal presidenciável

A presença de Rafael Nadal no Chile foi devidamente aproveitada para fins promocionais do torneio e do país. Até os políticos não quiseram deixar a oportunidade de aparecer junto do campeoníssimo espanhol. Seis dias antes de iniciar oficialmente o torneio ATP 250 de Viña Del Mar, Nadal foi recebido em Santiago pelo presidente do Chile, Sebastián Piñera. Na visita ao Palácio La Moneda, Nadal foi acompanhado pelos ídolos locais Fernando Gonzalez e Nicolas Massu, que conquistaram medalhas de ouro nos Jogos Olímpicos de Atenas, em 2004.

Serena e Azarenka seguidos no Instagram

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Uma pesquisa feita pela Sports Illustrated revelou 60 celebridades que os utilizadores do Instagram devem seguir. Do top 20, destacam-se Serena Williams e Victoria Azarenka. Serena, habitual frequentadora do Facebook e Twitter, surge no segundo lugar, atrás do basquetebolista Kevin Durant. Já Azarenka aparece

Wozniacki muda de visual

Pode ter deixado de ser notícia pela falta de resultados sonantes, mas nem por isso Caroline Wozniacki deixa de ser falada e seguida pelos milhares de adeptos. Só que desta vez deixou mesmo em choque alguns fãs quando postou na sua conta do twitter uma foto, dando conta do seu novo visual, morena e com um corte de cabelo “chanel” (https:// twitter.com/CaroWozniacki/ status/296966039298793472/ photo/1). “Novo estilo de cabelo! O que vocês acham?”, perguntava Wozniacki ao jeito de sondagem. Os resultados parecem ter sido negativos, pois a dinamarquesa rapidamente voltou ao seu “look” habitual. na 19.ª posição da lista, onde pontificam o velocista Usain Bolt, o ex-boxeur Mike Tyson, outro basquetebolista Lebron James, o surfista Kelly Slater e os futebolistas Neymar e Kaká. O Instagram foi a rede social que mais cresceu em 2012, com cerca de 90 milhões a partilhar diariamente 40 milhões de fotos.

China, Singapura e México na final

A presidente da WTA, Stacey Allaster, vai visitar brevemente Tianjin (China), Cidade de Singapura e Monterrey (México), antes

de anunciar, em Abril, qual a cidade que irá receber o Masters feminino (WTA Championship) a partir de 2014. Na derradeira etapa do processo de selecção, a cidade russa de Kazan foi eliminada, enquanto Monterrey foi aceite a substituir a Cidade do México. “Estou muito contente com o interesse por receber o torneio através do mundo. Quero conversar pessoalmente com as cidades e rever os detalhes do que cada uma está oferecendo”, disse Allaster. O Masters, que este ano vai decorrer pelo terceiro ano


instituição foi feita na qualidade de presidente da Novak Djokovic Foundation que doou 50 mil euros para a reconstrução do pátio. “Fomos à escola ‘Anton Djokovic doa 50 mil Skala’ para crianças com deficiência, a fim de anunciar o euros nosso apoio no fornecimento Depois de conquistar o de equipamentos de ginástica quarto título no Open da e ferramentas especiais, Austrália e de ter liderado para que os alunos tenham a selecção na deslocação a oportunidade de aprender vitoriosa à Bélgica na enquanto brincam. Eles ficaram primeira eliminatória da Taça Davis, Novak Djokovic muito felizes e empolgados em regressou à Belgardo natal, mostrar-me a sua escola e até onde visitou uma escola parabrincámos e cantámos juntos”, escreveu o sérvio na sua página crianças com deficiência, do Facebook. “Anton Skala”. A visita à consecutivo em Istambul (Turquia) já passou, desde 1972, pelos EUA, Alemanha, Espanha e Qatar.

Cinco com 20 na Taça Davis

São 299 os que, por todo o mundo, estão qualificados para receber o Davis Cup Commitment Award, que premeia os tenistas que já competiram um mínimo de 20 eliminatórias da prova. No segundo dia do embate entre Portugal e Benim, foram entregues aos cinco portugueses que cumprem os requisitos: João Cunha e Silva (30 eliminatórias), Nuno Marques (27), Leonardo Tavares (21), Emanuel Couto (20) e Rui Machado (20). O troféu é personalizado com o nome do jogador, o número de anos em que competiu e a respectiva nação. Todos os nomeados terão o seu nome inscrito num quadro na sede da ITF em Londres e numa secção especial do site oficial. Frederico Gil precisa de ser convocado mais uma vez para receber este troféu, criado como parte das comemorações do centenário da Federação Internacional de Ténis (ITF).

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BOLAS CURTAS Van Grichen com funções alargadas

Além de continuar a acompanhar Jarmila Gajdosova no circuito e de exercer as funções de treinador da selecção da Austrália na Fed Cup, António Van Grichen viu as suas responsabilidades na federação australiana alargadas. O treinador português vai passar a assumir igualmente a função de consultor no desenvolvimento de atletas mais jovens (ou seja, na transição de juniores para profissionais) e dos seus treinadores. Entretanto, a Tennis Australia continua a investir fortemente e ainda no início do ano inaugurou em Melbourne um novo Centro Nacional de Treino, de onde se destaca oito courts em terra batida. Esta aposta no pó de tijolo italiano estendese também a Brisbane (quatro courts) e Sydney (dois). Para além de permitir o desenvolvimento dos tenistas australianos em pisos mais lentos, a terra batida tentará igualmente abrandar o assustador número de lesões que os mais jovens têm apresentado nos últimos anos.

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Ex-Top jogam “futures” Se o nível qualitativo do circuito “challenger” está reconhecidamente mais forte, que dizer dos “futures”, que nas últimas semanas contaram com a participação do conhecidos

Robby Ginepri e Brenda Schultz-McCarthy. Ambos ainda não “mataram” o bichinho do ténis e não tiveram quaisquer problemas em participar em torneios profissionais mais baixos. Aos 30 anos, Ginepri (15.º em 2005, ano em que

foi semifinalista no Open dos EUA), que não jogava desde a primeira ronda do Open dos EUA de 2012, ganhou mesmo o torneio de Sunrise, o primeiro deste nível que disputou desde Junho de 2001, quando conquistou o seu primeiro título profissional. Também na Florida, Brenda SchultzMcCarthy, de 42 anos, jogou em Port St. Lucie. A holandesa que foi número nove do ranking em 1996 e finalista em pares do Open dos EUA em 1995, quebrou o jejum competitivo que durava desde 2008, ao fazer dupla com a sobrinha Jainy Scheepens, 22 anos mais nova, mas perderam na ronda inicial com as futuras campeãs.

Verger não quer ganhar mais

Aos 31 anos, Esther Vergeer colocou fim a uma carreira extraordinária. Paraplégica desde os oito anos, no seguimento de uma operação à medula espinal, a holandesa não se deixou limitar pela cadeira de rodas e praticou basquetebol (foi campeã da Europa pela Holanda em 1997), voleibol e ténis. Foi nesta última modalidade, a que se


dedicou totalmente a partir de 1998, que protagonizou a carreira mais brilhante que algum tenista pode sonhar: 700 vitórias (contra 25 derrotas), das quais 470 obtidas consecutivamente desde 30 de Janeiro de 2003; 21 títulos do Grand Slam em singulares (mais 23 em pares); e sete medalhas de ouro nos Jogos Paralímpicos! Vergeer vai agora dedicar-se à sua fundação que tem por objectivo ajudar as crianças em cadeira de rodas a praticar um desporto.

Presidência em peso

O público aderiu em grande número ao CIF, para assistir à eliminatória da Taça Davis, entre Portugal e o Benim. De entre os espectadores, destacaram-se antigos presidentes da Federação Portuguesa de Ténis (FPT). Nesta foto, ladeando o secretário de Estado do Desporto e Juventude, Alexandre Mestre, estão (da esquerda para a direita) Manuel Valle-Domingues (presidente da FPT entre 20032005), Vasco Costa (em exercício), Manuel José Marques da Silva (1993-1997) e José Maria Calheiros (2009-2011). José Corrêa Sampaio (2005-2009 e 2011-2012) foi também um espectador atento da eliminatória bem como o presidente do Comité Olímpico Português (COP), José Vicente de Moura. Aliás, Marques da Silva é um dos dois candidatos à presidência do COP, contando com o voto da Federação Portuguesa de Ténis, cujo presidente, Vasco Costa, está indicado para a comissão executiva.

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BOLAS CURTAS Raqueta de Nadal voou até à estratosfera

Mais novo que a FPT Carlos Figueiredo não sabia com certeza absoluta quantas Primaveras é que já tinha vivido, mas nem por isso a Federação Portuguesa de Ténis (FPT) quis deixar a oportunidade para celebrar os seus 87 anos, durante o jantar oficial da Taça Davis. Não se sabe se foi

esse o desejo expressado pelo aniversariante quando soprou a vela do respectivo bolo, mas o que é certo é que fez questão de tirar esta foto com as ultra simpáticas funcionárias da FPT (da esquerda para a direita), Luísa Neto, Filomena Graça e Ana Fernandes.

Numa acção original de um dos seus patrocinadores, a Kia, foi criada a “Missão Nadal” para dar ânimo ao tenista espanhol no seu regresso à competição. Assim, o site www.misionnadal.com recolheu mensagens de apoio a Rafael Nadal para encher um balão que levou a nova raqueta do jogador até à estratosfera. O lançamento foi feito em Segovia (Espanha) e a raqueta subiu amarrada a um balão de hélio, chegando a alcançar uma velocidade de 156km/h. Menos de três horas depois, a raqueta pousou a 120 km, em Toledo (http://www.youtube.com/watch?v=dQ931Dav_ uU). Antes de viajar para o Chile, nadal recebeu a raqueta de volta para que “sinta nas suas mãos toda a força, alento e apoio dos seus fiéis seguidores”

Francisco Dias de anel

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Se bem que tenha apresentado a namorada à família no último Natal, não foi pela razão mais prosaica que Francisco Dias passou a ostentar orgulhosamente um anel no dedo. Trata-se isso sim do reconhecimento pela vitória da equipa da Universidade George Washington na conferência do Atlântico, na época 2011-2012. Graças ao tenista de 20 anos, que ocupa o 76.º lugar no ranking individual, e ao recém-transferido Nikita Fomin (96.º), os “Colonials” têm, pela primeira vez na sua história, dois jogadores no top 100 do circuito universitário dos EUA.


Open da Austrรกlia

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VIRA O ANO E TOCA O MESMO


A época mal arrancou e já está realizado um torneio do Grand Slam. O Open da Austrália teve os mesmos vencedores do ano anterior e consagrou os dois número um do mundo da actualidade. Mas também forneceu muitas outras indicações. Miguel Seabra Um ano depois, Novak Djokovic e Victoria Azarenka voltaram a sair de Melbourne com o título do Open da Austrália e a liderança no ranking. A repetição significa que reforçaram o seu estatuto na linha da frente do ténis mundial e confirmaram a inexorável tendência para uma nova era – embora numa diferente conjuntura. Para Novak Dokovic, foi o sexto título do Grand Slam e já se começa a vislumbrar a possibilidade de o sérvio chegar aos dois dígitos para entrar numa elite muito restrita da qual fazem parte os seus recentes antecessores Roger Federer e Rafael Nadal; para Victoria Azarenka foi apenas o segundo e também é expectável que ganhe mais, mas sobretudo voltou a pairar a sensação de que será a tenista com mais argumentos para pegar no ceptro de Serena Williams. Se os vencedores foram os mesmos e a liderança do ranking se manteve, o que nos ensinou de diferente a 111ª edição do Open da Austrália? Mostrou-nos algo de novo, confirmou-nos tendências e ofereceu sensações distintas. A primeira certeza prende-se com a grandeza do torneio, que ainda há três décadas lutava para ser considerado um evento do Grand Slam digno desse nome e se via ameaçado pela gula financeira do Japão ou da Alemanha. O Open da Austrália cumpriu brilhantemente o 25º aniversário desde a inauguração das novas instalações em Melbourne Park e, depois de ter mostrado o rumo aos seus parceiros do Grand Slam, continua a pensar no futuro através de um programa de actualização de infrastruturas que contempla um terceiro court

Azarenka confirmou o título e o primeiro lugar do ranking

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Open da Austrália dotado de tecto amovível e que já está em marcha. Que o diga o contente técnico português António Van Grichen, actualmente ao serviço da federação australiana, e que tem em Melbourne Park novos ginásios e novos courts cobertos e de terra batida para trabalhar. E feliz também, já que a sua actual pupila Jarmila Gajdosova lhe ‘deu’ um terceiro título do Grand Slam com o triunfo em pares mistos ao lado de Matt Ebden (os outros dois também foram mistos e conseguidos quando era técnico de Victoria Azarenka).

Os homens (mates, em australiano)

“Vika” soube vencer as adversárias e os nervos

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Depois da bicefalia Roger Federer/Rafael Nadal, da passagem para os chamados “Big 3” entretanto tornados “Big 4”, sente-se que o futuro próximo vai ser sobretudo dominado pelos dois jogadores que protagonizaram as duas últimas finais de torneios do Grand Slam. Mas mais Novak Djokovic, não tanto Andy Murray – sendo que Roger Federer irá continuar a apresentar a sua qualidade mas de modo intermitente e também Rafael Nadal, apesar dos sete meses de ausência, deverá continuar a ser o “hombre” a abater em terra batida. Mas sentese que o suíço e o espanhol já passaram o auge das respectivas carreiras (afinal de contas, é a lei da vida e do tempo) mesmo que continuem candidatos a títulos do Grand Slam, ao passo que o sérvio e o escocês parecem estar mais no pico das suas capacidades. Será a rivalidade entre Djokovic e Murray tão interessante como as anteriores, principalmente a tão celebrada rivalidade entre Federer e Nadal, mas também entre Federer e Djokovic e entre Djokovic e Nadal? Após uma final do US Open que foi um difícil parto devido à ventania, o derradeiro encontro do Open da Austrália também deixou algo a desejar, sendo sobretudo um confronto físico em que Novak mostrou porque é melhor do que todos os outros nesse patamar (força, elasticidade, resistência) e no qual Andy se revelou demasiado sóbrio para poder fazer a diferença (ganhou em competitividade e eficácia com Ivan Lendl, mas perdeu em brilhantismo).


Não há dúvida de que Novak Djokovic é o patrão do ténis actual, tendo jogado sete finais nos últimos nove torneios do Grand Slam com um saldo de quatro títulos que, para um total de seis, o colocam no mesmo patamar de Stefan Edberg e Boris Becker. Fisicamente e mentalmente está à frente dos demais, cobrindo o court como ninguém e passando num ápice da defesa para o ataque. Andy Murray continua a melhorar, sobretudo na direita e na atitude, mas talvez esteja a construir um físico que não é propriamente o ideal para o ténis (aparentemente a seguir o rumo muscular de um Fernando Verdasco) e isso pode torná-lo

“Murray continua a melhorar, sobretudo na direita e na atitude”

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Open da Austrália

Djokovic é o patrão do ténis actual 16

mais propenso a lesões; na final pareceu mesmo ter sucumbido fisicamente, ficando por saber quanto é que foi realmente afectado por problemas nos pés (e sabe-se como uma simples bolha pode arruinar pretensões ao título). O certo é que já não desaparece no Triângulo das Bermudas formado pelo trio Federer-Nadal-Djokovic em torneios do Grand Slam e também já não se contenta em jogar finais: os seus objectivos estão justificadamente mais elevados. Roger Federer teve um dos mais duros quadros de que há memória para um dos favoritos à conquista de um torneio do Grand Slam e os cinco sets dos quartos-de-final com Jo-Wilfried Tsonga terão


condicionado o trintão helvético no quinto set da meia-final com Andy Murray. De certo modo, torna-se emblemático o facto de a quinzena melbourniana ter determinado que os 17 títulos do Grand Slam do campeoníssimo fossem finalmente ultrapassados pelo total dos títulos do Grand Slam dos outros “Três Grandes” (que passa agora a ser 18: 11 de Nadal, seis de Djokovic e um de Murray). Mas convém não esquecer que ainda é número dois mundial e continua a ter muito ténis para oferecer, sendo mesmo que apresenta picos de brilhantismo que não são igualados pelos restantes. Mas também tem mais quebras de intensidade. A ausência de Rafael Nadal foi muito sentida – afinal de contas, trata-se de uma superestrela da galáxia desportiva. O seu lugar entre os quatro grandes foi ocupado por David Ferrer, que também lhe roubou o quarto lugar no ranking, mas mais uma vez se viu o aguerrido tenista de Jávea facilmente travado nas meias-finais de um torneio do Grand Slam: o correctivo que levou de Novak Djokovic quase meteu dó. E o mais curioso é que “Ferru” ganha com frequência aos que estão imediatamente atrás de si no ranking (entre o 6.º e o 10.º posto), sendo que esses mesmos Jo-Wilfried Tsonga, Tomas Berdych e Juan Martin del Potro se revelam bem mais perigosos do que ele diante do quarteto da frente. Talvez Nicolas Almagro fizesse melhor do que o compatriota; mostrou estar à altura do seu fulgurante talento precisamente diante de David Ferrer e serviu três vezes (!) para o derrotar – acabando murcho num quinto set que nunca devia ter jogado. Stanislas Wawrinka também esteve muito perto de contrariar as hierarquias pré-estabelecidas e logo diante do líder do ranking, perdendo in extremis numa longa quinta partida após ter suplantado Novak Djokovic durante grande parte do encontro. Tanto um como o outro jogaram como nunca… e perderam como sempre. Entre os jovens, houve um que se destacou mais: Bernard Tomic revelou melhor atitude e tem pormenores tenísticos deliciosos; se não tivesse enfrentado um Roger Federer nos seus melhores dias talvez pudesse ter atingido a segunda semana da competição.

“Tomic revelou melhor atitude e tem pormenores tenísticos deliciosos”

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Open da Austrália Na variante de pares, fez-se história: os gémeos americanos Bob e Mike Bryan chegaram ao 13º título do Grand Slam bateram o recorde que partilhavam com a dupla australiana John Newcombe/Tony Roche.

As senhoras (sheilas, em australiano) Victoria Azarenka tem uma personalidade abrasiva, mas tem fibra, tem garra, é uma ganhadora – e tem sido a única a contrariar o estatuto de melhor jogadora do mundo que Serena Williams ainda tem. Não lhe tem ganho em confrontos directos, mas oferecelhe luta e não andou longe de a derrotar na final do US Open. No Open da Austrália não teve de a defrontar sequer, beneficiando de uma conjugação de factores para revalidar o título e manter a liderança do ranking – que até poderá perder em breve porque tem muitos pontos a defender nos primeiros meses do ano, mas um segundo título do Grand Slam já ninguém lho tira. Foi um troféu conquistado a ferros e sem a simpatia do público, sobretudo após um polémico “toilet break” numa altura crucial das meias-finais diante da jovem americana Sloane Stephens e consequentes declarações polémicas que comprovaram a escolha cirúrgica do momento para sair do court e acalmarse perante os nervos. Foi necessário pôr em marcha uma campanha de relações públicas para reduzir os danos, mas durante a final cheia de peripécias o público estava claramente do lado de Li Na. Não interessa: Victoria Azarenka é uma dura e o que aconteceu em Melbourne torná-la-á ainda mais dura. E continua com margem de progressão no seu jogo. E a grande ilação a retirar é que tanto Victoria Azarenka como Li Na (que durante muito tempo até foi a melhor jogadora até sofrer duas entorses e dar uma cabeçada no solo), Maria

“Durante muito tempo na final, Li Na foi a melhor jogadora”

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Sharapova (que mostrou melhorias técnicas e na sua deslocação, mas voltou a evidenciar a falta de um Plano B diante de Li Na) e até Serena Williams (diminuída fisicamente diante de Sloane Stephens) estão a provar que vale a pena o investimento numa equipa técnica competente e profissional… em vez dos improvisados técnicos de família tão comuns no circuito feminino. Elena Dementieva reformou-se cedo demais… Azarenka continua a progredir sob a batuta de Samuel Sumyk, Li Na surgiu melhor na sua pancada de direita, no seu serviço e no seu jogo de pés por influência de Carlos Rodriguez (tanto que até aponta o top 3 como objectivo da temporada) e Maria Sharapova também denotou muito trabalho de Inverno ao apresentar-se tecnicamente melhor precisamente nessas mesmas três áreas (e acabou de contratar o ex-número quatro mundial Nicolas Kiefer para a sua entourage); Serena Williams parece igualmente mais motivada e determinada a melhorar fisicamente, mas a extensão dos seus mais recentes progressos com Patrick Mouratoglou não pôde ser devidamente avaliada em Melbourne Park devido à entorse contraída precocemente na primeira ronda e que, ao contrário do que se pensava, a foi diminuindo ao longo do torneio. A beneficiada desse deteriorar físico (e grande surpresa do torneio) acabou por ser a norte-americana Sloane Stephens – que,

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Open da Austrália

Apesar de lutador e desinibido, Sousa não teve hipóteses diante de Murray

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pelo seu atleticismo (e também pelo facto de ser afro-americana…), já é encarada como a sucessora das irmãs Williams. Será impossível que consiga uma carreira à altura de Venus e sobretudo de Serena, mas para já estreou-se nas meias-finais de um torneio do Grand Slam e entrou no top 20. E promete ser a ponta-de-lança da próxima geração. Quanto à presente geração, e enquanto Agnieszka Radwanska não ganha mais potência para poder contrariar as adversárias mais agressivas nas fases mais adiantadas de torneios do Grand Slam, duas credenciadas representantes têm desiludido: Caroline Wozniacki, que um ano antes tinha chegado como número um mundial ao Open da Austrália, esteve muito perto de perder na ronda inaugural e não chegou assim tão mais longe, mas a verdade nua e crua é que não tem muito ténis para além das suas qualidades físicas e competitivas; Petra Kvitova é mais asmática do que se pensa e não se desculpa com a doença porque é demasiado boa jogadora/rapariga para isso, mas está a ser


de uma irregularidade constrangedora e é uma pena ver desaproveitado tanto potencial tenístico. Nos pares, as Chiqui-Chiqui confirmaram a sua valia: Sara Errani e Roberta Vinci somaram o terceiro título nos quatro últimos torneios do Grand Slam jogados.

Portugueses (toogas, em australiano)

DR

A colheita portuguesa no Open da Austrália não foi má. Apenas pela segunda vez na história do ténis nacional houve um “casal” luso na segunda ronda de um torneio do Grand Slam (após Michelle Larcher de Brito e Rui Machado em Roland Garros 2009). Mas se um lutador e desinibido João Sousa não teve grande hipótese perante Andy Murray, já Maria João Koehler deixou passar uma excelente oportunidade diante de Jelena Jankovic – a portuense partiu para o encontro sem nada a perder mas quando teve tudo a ganhar não esteve tão bem, esquecendo-se de jogar mais para a direita menos forte da adversária e acusando o momento. De qualquer das formas, valeu a lição e a experiência – e os pontos que aproximaram Maria João do top 100 mundial, o seu primeiro grande objectivo de carreira, que poderia ter já sido alcançado se tivesse chegado à terceira eliminatória. Tal como a portuense, também Michelle Larcher de Brito conseguiu ultrapassar o qualifying, mas não passou da ronda inaugural. E a neo-lusa Nina Bratchikova Pereira também, ficando longe do brilharete da terceira ronda de um ano antes. Daqui a um ano, quantos portugueses conseguirão jogar o quadro principal do Open da Austrália?

Os Bryan celebraram pela 13.ª vez e Van Grichen festejou com a sua atleta

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Cesar Pincheira VTR Open

No circuito

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UM REGRESSO MITIGADO


Após quase oito meses de ausência, Rafael Nadal voltou ao circuito num torneio feito à medida do seu regresso. Esteve perto de arrecadar o título, mas não ganhou a final e mostrou alguns sinais que podem ser preocupantes. Enquanto isso, há questões que continuarão sem resposta. Miguel Seabra

Paixão. Sempre foi o que mais caracterizou Rafael Nadal: a paixão pelo jogo, pela competição, pelo sacrifício, pelo trabalho, pela melhoria contínua. E não vi essa a chispa característica do maiorquino no calor da batalha em que se transformou a final do torneio de Viña del Mar diante do ‘modesto’ Horácio Zeballos – vi-o sobretudo taciturno, preocupado, a jogar curto e sem a pujança que o transformou numa lenda viva do desporto mundial. É claro que é muito fácil conjecturar e quase impossível antever como será o futuro do campeoníssimo espanhol após a mais longa interrupção da sua carreira e depois de somente um torneio, embora todos esperassem que saísse de Viña del Mar com o título individual. Pode dizerse que Rafa esteve longe do seu melhor na final, mas convém frisar que o adversário jogou especialmente bem e resistiu tanto mentalmente como fisicamente para além do expectável; também se pode relembrar que Nadal se mostrou menos exuberante do que habitual, mas vale a pena recordar que para um atleta com as suas credenciais os índices de motivação para jogar um evento 250 não serão os mesmos que apresenta num Masters 1000 ou num torneio do Grand Slam. O busílis da questão reside precisamente aí: se o maiorquino não mostrou a sua lendária chama após tanto tempo de ausência, será que ele a perdeu?

“A verdadeira resposta só pode ser dada nos torneios seguintes”

Questões em aberto Os optimistas dirão que foi um bom resultado após uma tal ausência, os pessimistas que foi mau. A verdadeira resposta só pode ser dada nos torneios seguintes, nas próximas semanas.

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No circuito

Cesar Pincheira VTR Open

Espera-se que, quando começar a época europeia de terra batida, já esteja a carburar em pleno – se não o estiver é porque terá mesmo perdido a tal centelha que fez dele um tenista quase único na história da modalidade. Porque não é fácil, mesmo para alguém com as suas características psicológicas, estar sete meses seguidos fora depois de em 2009 já ter saído de cena durante um trimestre. Não é fácil lidar com problemas físicos crónicos e ter de seguir um aturado programa diário de reabilitação que vai moendo moralmente. E, com o avançar da idade e a abertura de horizontes, também não é fácil manter o mesmo perfil psicológico da juventude. Rafael Nadal ganhou maturidade e, com ela e com os repetidos problemas com lesões, surge inevitavelmente a dúvida: já não tem aquela confiança cega de antigamente. E a consciência das suas limitações médicas. As declarações após a final foram de encontro ao que se vislumbrou. «Falta-me a velocidade de reacção, energia e força de pernas de que preciso para dar ao meu jogo maior profundidade, coisas que sempre tive ao longo da minha carreira. Joguei com tudo o que tinha e hoje não tinha nada», confessou o espanhol com a sua habitual candura. «Há dias em que o joelho está melhor, noutros dias está pior e afecta a minha prestação. Não sabíamos como o corpo e o joelho iriam responder; pelo menos agora sei que posso competir a um determinado nível». Apesar da admissão de

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Cesar Pincheira VTR Open

“As explicações sobre o estado dos joelhos sempre foram algo nebulosas” Rafa, há muitas questões que ficam por responder e continuarão a pairar no ar relativamente à sua ausência e ao timing do seu regresso. Os problemas nos joelhos são constantemente relatados e publicitados, mas a verdade é que, ao contrário de muitos outros jogadores, o espanhol nunca teve propriamente de recorrer a cirurgias. As explicações sobre o estado dos joelhos sempre foram algo nebulosas, mesmo sabendo-se que o violento estilo de jogo sempre indiciou problemas físicos e eventualmente uma carreira menos longa. Nos bastidores especulou-se e continua a especular-se muito relativamente ao motivo de tão prolongada ausência. Ele responde dizendo que não tem nada a temer, que tem sido frequentemente submetido a controlos anti-

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No circuito doping e que quer que tudo seja esclarecido e revelados os nomes dos atletas clientes no caso Fuentes.

Timing e novidades

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O que parece certo é o “timing” do regresso ter sido criteriosamente escolhido. Em torneios pequenos, sem adversários de grande nomeada e jogados na terra batida que continua a ser a sua terra prometida. Primeiro Viña del Mar, depois São Paulo e finalmente Acapulco. O facto de serem torneios jogados em mercados emergentes capazes de pagar o elevadíssimo cachet de presença a que o espanhol está habituado é um aspecto lateral. Porque Rafael Nadal precisa de ganhar ritmo, ganhar cadência, ganhar automatismos e sobretudo ganhar confiança – talvez por isso tivesse sido bem melhor o regresso na terra batida da América do Sul do que propriamente nos “hardcourts” e logo com a exigência do Open da Austrália ao virar da esquina. E se não ganhasse, seria fácil apresentar

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a justificação da falta de competição. Não ganhou. Sim, o espanhol apresentou algo de novo no regresso: uma nova versão do seu relógio Richard Mille de meio milhão de euros (agora com 19 gramas em vez das 20 da versão anterior), uns calções mais curtos, uma nova raqueta e uma nova encordoação (para potenciar ainda mais o seu “topspin” extremo). Alguns vícios antigos vieram ao de cima na final, com a tensão do momento a prender-lhe os movimentos e a perder profundidade de bola. Acabou por piorar o seu registo, quase imaculado, em terra batida (antes só havia perdido quatro finais no pó de tijolo, duas para Roger Federer e outras duas para Novak Djokovic) e mostrou-se longe do estatuto de “Deus” que o próprio Horácio Zeballos lhe havia atribuído. Ausente dos Jogos Olímpicos, do US Open, do Masters, da final da Taça Davis e do Open da Austrália, o regresso de Rafael Nadal fez bem à modalidade. Foi notícia em todo o mundo e subitamente o circuito sul-americano ganhou uma enorme projecção mediática – e os adeptos mal podem esperar por ver de novo os chamados “Big 4” em forma nos melhores torneios. Mas Rafa precisa de recuperar a sua paixão, as suas sensações no court, a sua eficácia – porque nesta altura Novak Djokovic deverá estar a salivar tendo Roland Garros em perspectiva. E Roger Federer. E Andy Murray..

“Alguns vícios antigos vieram ao de cima na final”

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DR

ENTREVISTA

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Pedro Frazão

SISTEMA DE ENSINO IMPEDE FABRICAR CAMPEÕES Hugo Ribeiro


Paulo, em 2012 o Rio Grand Champions e Um dos circuitos satélites (os antepassados neste mês decorre o seu Future em Vale do dos Futures) que se realizavam por todo Lobo. o país no início dos anos 90 do século XX Em Londres 2001 e Monte Carlo 2002 vi-o passou pelo Algarve e, uma das etapas, por à mesa em amena cavaqueira com Bjorn Vilamoura. Borg, John McEnroe, Guillermo Vilas, Jim Foi aí, no Vilamouraténis, que conheci Pedro Courier e outros tantos craques. Não havia Frazão, então um jovem treinador, exoutros directores de torneios pelo meio. jogador de bom nível no Algarve. Durante Pedro Frazão tem um estatuto especial algum tempo pensei que era o encordoador no ATP Champions Tour, onde é o único da competição. Naqueles tempos, havia promotor de dois torneios e é membro sempre mais de uma centena de jogadores por semana, eram centenas de raquetes para do ‘Board’ (Conselho de Administração). Uma vez mais, em Portugal, poucos sabem tratar e não o via fazer outra coisa. ou se interessam. A maioria até pensava Só mais tarde percebi que, afinal, era um que o Vale do Lobo Grand Champions era treinador, discreto mas ambicioso, a quem organizado por Sander van Gelder ou Diogo não faltava iniciativa. Pouco tempo depois, o Gaspar Ferreira, tal como em São Paulo e Vilamouraténis era explorado por ele (hoje no Rio o público julga que é o ex-jogador em dia é mesmo propriedade sua) e dez anos Dácio Campos quem organiza os eventos da depois tinha a concessão de Vale do Lobo. Premier Sports Brasil. A carreira de Pedro Frazão tem sido assim, discreta, mas sólida. A meio dos anos 90 já organizava etapas de circuitos satélites e no final Pedro Manuel Martins da década entrava nos torneios de Aguiar Frazão femininos de 10 mil dólares. Em 2000 encontrei-o em Miami, eu Idade: 47 anos ia para o Masters Series de Key Data nascimento: 3 de Junho de 1965 Biscayne e ele já ostentava uma Naturalidade: Loulé Residência: Vilamoura forte formação internacional Profissão: Gestor, treinador e promotor de eventos como treinador, mas poucos desportivos sabiam-no. Formação de treinador: Portugal, Espanha e Estados Em 2001 arrancou com o Vale Unidos do Lobo Grand Champions, Eventos internacionais da Algarveténis/Premier Sports em 2004 foi convidado para Laureus World Sports Awards, Vale do Lobo Grand organizar o evento de ténis dos Champions, Open de Portugal Beach Tennis, Grand Champions Brasil, Rio Grand Champions, European Laureus World Sports Awards Seniors Championship, Vale do Lobo Ladies Open, em Portugal e também nesse Vilamoura Ladies Open, Vale do Lobo Future, etapas ano criou o Open de Portugal do circuito satélite do Algarve, Vilamoura International de Beach Tennis, em 2007 veio o sub-14. Grand Champions Brasil em São

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Pedro Frazão prefere que não falem tanto dele. Fui press officer de muitos dos seus eventos na década de 2000, sinto que os media portugueses têm optado por não valorizar este empresário português e por isso propus ao director da Match Point Portugal esta entrevista.

DR

ENTREVISTA

PP:O Vale do Lobo Grand Champions foi o teu grande projecto. Foram dez anos. Como olhas agora para eles? RR:Boas memórias. Passou muito rápido. Estou a trabalhar para que a prova volte o mais rapidamente possível. Não é um projecto terminado… assim as condições o permitam. Em 2011, quando tive de cancelálo em cima da data, tive a noção real da repercussão que o evento tinha. Ainda hoje sinto esse retorno. Não foi o nosso caso, mas as entidades e as pessoas só se apercebem do verdadeiro impacto das coisas quando se perdem – o que é uma pena. Toda a gente percebeu agora que foi uma grande perda para a promoção turística do Algarve. Era um evento com alcance mundial.

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PP:O Grand Champions só faz sentido em Vale do Lobo? RR:Nasceu em Vale do Lobo, foi feito para Vale do Lobo. Em Portugal não o vejo noutro lado. É a cara do torneio, Vale do Lobo e o Algarve. PP:O torneio foi vítima da crise? RR:Claro que sim. Tínhamos alguns acordos com entidades públicas e semi-públicas que

foram congelados a partir do momento em que a troika entrou em Portugal. PP:E a iniciativa privada? O torneio foi sempre apoiado por bancos fortes como o Millennium bcp e a Caixa Geral de Depósitos. RR:Ter um banco como patrocinador é importante mas só o banco não chega. São precisos muito mais patrocinadores. A própria banca passou por um mau bocado, passando de lucros para perdas. A juntar-se veio a crise no imobiliário. Não há nenhuma actividade económica imune à crise. O dinheiro não desapareceu e há empresas com capacidade para patrocinar grandes eventos, mas estão a aproveitar esta conjuntura para emagrecer estruturas e pode surgir como contra-senso entrar em projectos novos quando estão a despedir pessoas e a reduzir custos. Temos de esperar. PP:Não organizares o torneio em 2011 e 2012 não te faz correr o risco de outro promotor avançar com o projecto noutra região do país?


RR:Não acredito. Mantenho os direitos da prova no Algarve, está congelada. Infelizmente, aconteceu o mesmo noutros países, como França e Espanha que também fizeram uma pausa. Mas nós, Premier Sports, compensámos com os dois eventos no Brasil. São eventos fechados, puramente “corporate”, não vendemos ingressos, são só abertos a patrocinadores e convidados da família do ténis, como federados, associados do clube. Têm esgotado sempre. PP:Sendo de características tão diferentes, é normal que sintas saudades de um evento mais aberto como o de Vale do Lobo. RR:Até os jogadores. Estão sempre a perguntar-me quando é que volto, porque era uma data obrigatória no calendário deles. O ATP Champions Tour sente a falta da prova no Algarve.

constituição dos dois grupos, ele olhou e disse-me: “no mínimo, eu jogava essa final”. PP:Conversas com eles sobre o ténis actual? RR:Sim, mas a análise do ténis contemporâneo é mais feita com jogadores que seguem regularmente o circuito como o McEnroe e o Wilander, o Emílio (Sanchez) e o Leconte. O Borg, por exemplo, aparece esporadicamente no circuito. As nossas conversas são quase sempre de ténis, mas é sobretudo reviver memórias.

“Um português de 18 anos treina menos três mil horas”

PP:Que jogadores te marcaram mais? RR:Borg e McEnroe. Cada um com personalidades diferentes. Qualquer um deles não é tão frio nem fechado como a imagem que passam para o público. Ficou uma boa amizade, ainda hoje quando nos cruzamos passamos bons momentos. Tenho muitas histórias com eles. A última foi em Dezembro, em Londres, com o McEnroe, dois dias antes de eu ir para o Rio de Janeiro. Ele perguntou-me quem eram os jogadores do torneio. Mostrei-lhe no telefone a

PP:Houve algum destes antigos jogadores que te desagradasse ao ponto de dizeres que não voltarás a contratá-lo para os teus torneios? RR:Não. Fiquei com um amigo em cada um deles.

PP:Como é o teu trabalho no ‘Board’ do ATP Champions Tour? RR:Reunimos três vezes por ano, gerimos o circuito, temos de analisar novas propostas, olhar para novos mercados. As pessoas do ‘Board’ têm bastante experiência do circuito. Somos quatro: o vice-presidente do ATP World Tour, o vice-presidente da IMG (as duas entidades que partilham a propriedade do circuito) e dois directores de torneios. Eu sou o que estou lá há mais tempo. Temos conseguido dirigir o circuito nesta altura difícil. Sobretudo na Europa.

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ENTREVISTA PP:Tem-se a ideia de que o ATP World Tour não valoriza muito o ATP Champions Tour. Sentes o mesmo? RR:Todos concordam que é importante manter os ex-campeões ligados à modalidade. Este circuito permite às pessoas rever os seus ídolos e é importante para a passagem de experiências para as gerações mais jovens. Cada vez vemos mais encontros entre os jogadores actuais e os ex-campeões. PP:Alguma razão para não vermos tantos jogadores norte-americanos no ATP Champions Tour? RR:Há poucos jogadores com apelo do grande público. Acredito que dentro de algum tempo teremos o Roddick, ele sim. Claro que o Sampras e o Agassi jogaram alguns torneios e têm um enorme apelo mas têm um custo muito elevado e não há muitos torneios com orçamento para poder contratá-los.

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PP:Sentes vontade de enveredar por outras áreas do negócio ou continuas a interessar-te sobretudo pelo ATP Champions Tour? RR:Sempre fizemos e temos feito muitas outras coisas. Obviamente sem o impacto do Grand Champions. Fazemos muitos campeonatos regionais, alguns campeonatos nacionais, torneios da Federação Internacional de Ténis. Portugal é um país pequeno, não vale a pena ter provas concorrentes…

PP:… Portanto, experiências como o Porto Open quando era do circuito WTA ou o Maia Open quando era do ATP Tour, ambas ao mesmo tempo do Estoril Open, para ti não fazem sentido? RR:Não. É preferível termos um bom torneio em cada circuito do que dois ou três medianos. Não temos dimensão para isso. Mas há lugar para mais Futures e Challengers e penso que este ano iremos ter mais a esse nível. Faz sentido porque há mais jogadores a subirem no ranking. No meu caso, para a nossa realidade no Algarve, os Futures são os adequados. São torneios realizados em época baixa, quanto muito poderemos um dia fazer mais Futures, mas os Challengers não me parecem uma maisvalia para o Algarve. PP:Na última década o Algarve tinha mais tradição de torneios de 10 mil dólares femininos do que masculinos. Porque razão este ano houve um desinvestimento nos femininos? RR:Nos últimos anos tínhamos três femininos e três masculinos. No ano passado já só foram dois femininos. Este ano Portimão não quis avançar e nós, que queríamos fazer uma semana em Vale do Lobo, não podíamos ficar isolados. PP:Qual é a saúde destes torneios? RR:Não são eventos para dar lucro. Não é esse o objectivo dos clubes que os organizam. É o nosso contributo à


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modalidade. É bom para os clubes que os organizam, traz-lhes movimento, sobretudo no Algarve na época baixa. O objectivo é não dar prejuízo.

Portugal, o nosso nível de organizações não fica nada a dever ao que de melhor se faz lá fora. Assim possamos ter as mesmas condições.

PP:Como olhas para o Estoril Open, o nosso torneio mais importante?

PP:Porque nunca te candidataste a organizar o Campeonato Nacional Absoluto. Já organizaste outros Campeonatos Nacionais, mas este está a necessitar de renovação, pelo menos de patrocínios para que haja prémios monetários?

RR:Faço votos que se mantenha pelo menos outros 20 anos. Tem-se debatido com inúmeras dificuldades desde o início, a começar pelas infra-estruturas. No estrangeiro, tudo o que oiço é positivo. Todos os jogadores gostam e gostaram de vir ao Estoril Open e guardam boas memórias. O próprio ATP World Tour premiou várias vezes o torneio e o seu promotor. Em

RR:A Premier Sports organiza os Campeonatos Nacionais de Veteranos e de sub-12. As provas têm corrido bem, sou apologista de não mexer no que corre bem

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ENTREVISTA e tem de haver outros clubes interessados em fazer outros Campeonatos Nacionais. Acredito que seja possível ao Campeonato Nacional ter patrocínios que cubram os prémios mas acredito que terá mais sucesso noutra data. É uma discussão que existe entre os responsáveis há muto tempo. Não quero opinar sobre isso. Mas lamento que não haja patrocínios para haver prize-money. Com prémios os melhores jogadores voltam. PP:Porque aceitaste ser vicepresidente da Associação de Ténis do Algarve (ATA)? RR:A Direcção da ATA é composta pelos clubes mais representativos da região. Tendo eu dois clubes de peso não poderia ficar de fora. É um trabalho que me agrada porque o ténis é a minha vida, mas daqui a uns anos estará na hora de aparecer uma nova geração de dirigentes.

“A ATA apoiou esta Direcção por serem pessoas do ténis”

PP:Tens ambições de um dia dares o salto para a Direcção da Federação Portuguesa de Ténis? 34

RR:A ATA apoiou esta Direcção por serem pessoas do ténis, que pensam o ténis há muitos anos e não de pessoas que pudessem estar no ténis temporariamente, que é o que tem acontecido nos últimos anos. Esta Direcção, sobretudo o seu presidente, esteve sempre ligado ao ténis. Ele domina todos os assuntos, não necessita de um período de aprendizagem para começar a trabalhar. Estava na altura de o ténis fazer essa transição, de arranjar soluções dentro da família do ténis e não estar à espera dos dirigentes que vêm de fora com fórmulas mágicas que nunca conseguiram vingar.

RR:Sinceramente, neste momento não faz parte dos meus planos. O futuro? Nunca se sabe, mas tenho projectos suficientes e quando estou nas coisas gosto de estar a 100%. Não tenho disponibilidade para isso. PP:Foste um dos apoiantes do actual presidente da FPT, Vasco Costa. Porquê e o que esperas deste mandato que se prevê difícil?

PP:Como olhas para o teu outro negócio, o dos clubes de ténis? Tens Vilamoura e és o concessionário do ténis em Vale do Lobo?

RR:São dois projectos completamente diferentes. Em Vale do Lobo somos líderes europeus do programa Tennis Hollydays. É um projecto de promoção turística, virado para o turismo de desporto. Os nossos clientes são maioritariamente do Reino Unido. Há uns anos o UK passou por uma crise, a libra esteve quase equiparada ao euro, mas temos arranjado fórmulas de combater isso. Temos diversificado os clientes. Vilamoura é um clube mais destinado aos residentes, mais parecido com os outros clubes, com membros, escola de ténis. PP:Numa situação de crise continua a fazer sentido o figurino clássico de sócio de clube ou cada vez mais


RR:Faz sentido o sócio-utente mas já não aquele sócio que pagava uma quota anual e depois não vinha ao clube. Há clubes que têm quotas simbólicas, têm muitos sócios e depois têm pouco movimento. Prefiro quotas com valor mais real, justo mas depois ter sócios efectivos. Por exemplo, a nossa escola de ténis tem cerca de 120 alunos. Estamos a começar a escola de padel e está a crescer. O padel veio dar uma ajuda. E temos outros tantos sócios. RR:Expandiste-te para o ténis de praia e para o padel. O primeiro falhou o

segundo parece estar a vingar. RR:O beach tennis não falhou. No Brasil joguei e tem crescido imenso. Em Portugal, infelizmente, as autoridades ainda não olham para a praia como um local por excelência para se praticar desporto. Há muitos entraves para se fazer qualquer coisa na praia. Éramos obrigados a ter muitas licenças de várias entidades, da Câmara, Capitania, Ambiente, concessionário da praia, e isso tornava os projectos muito difíceis. Cansámo-nos. O padel é um sucesso porque é fácil, divertido, muito social. O processo de aprendizagem é muito mais curto, não é tão exigente do ponto de vista técnico para se começar a poder disputar uns pontos. DR

os clubes são frequentados por praticantes que vão aparecendo de vez em quando?

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ENTREVISTA PP:Muitas vezes devem ter-te perguntado no estrangeiro porque razão não há mais campeões de ténis em Portugal, num país com sol, com muitos campos de ténis e treinadores. O que respondes?

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RR:O problema não tem a ver com o ténis. Portugal só vai ter um ténis igual ao de outros países quando conseguir um sistema de ensino que permita aos atletas conciliar o desporto com os estudos. Em quase todos os países há ensino por internet e Portugal ainda não tem. Para mim, é o futuro. Portugal tem tido sucesso em desportos onde a base de captação vem de classes mais baixas. Um miúdo que diz ao pai que deixa de estudar aos 12 anos para ser jogador de futebol pode ter o apoio do pai. Nas modalidades onde a captação é feita na classe média, é impensável – e bem – um pai permitir isso. Ou Portugal se moderniza e facilita a vida escolar dos atletas – porque a verdade é que o estatuto de alta competição não funciona nas escolas, só existe no papel – ou torna-se complicado. Um jogador português que consiga treinar duas horas por dia pode dar-se por satisfeito. Um espanhol treina quatro ou cinco. Os atletas têm um horário preferencial na escola em Espanha que lhes permite treinar essas quatro ou cinco horas. Um português treina menos 600 horas por ano do que um espanhol na mesma idade. Agora multiplique-se isso entre os 12 e 18 anos! Os nossos jovens aos 17/18 anos, na altura de fazer a aposta profissional, têm, pelo menos, um défice de três mil horas de treino.

PP:Justifica-se em Portugal um Centro de Alto Rendimento, tu que tens visto vários pelo Mundo? RR:Para qualquer desporto, antes de um CAR deve haver nas capitais de distrito uma escola só para atletas, com currículo escolar feito à medida do atleta. Mas em Portugal um jovem integra uma turma onde é o único atleta de alta competição. Obviamente que aí não há facilidades nenhumas. Só depois disso fazem sentido os CAR. PP:Sentes-te injustiçado? Que pelo que fazes em Portugal e no estrangeiro merecerias outro reconhecimento público, institucional e mediático? RR:Sinceramente não me preocupo com isso. É a minha maneira de estar na vida e no ténis. Não me sinto injustiçado. Sintome privilegiado de ter saúde, de trabalhar naquilo que gosto, no ténis. PP:Ainda há alguma coisa no ténis que gostasses de fazer? O que te falta? RR:Quando em Portugal se conseguir resolver o problema da educação de que falámos há pouco – porque esse é o principal problema, poderemos discutir tudo o resto, mas isto é a base –, então tenho o projecto de fazer uma academia de competição. Até lá, não vale a pena. Para ter sucesso tem de ser muito completa, com bons programas de treino, alojamento, estudos e só termos duas das três valências não chega. Há que reunir todas as condições.


Court & Costura

Grande erro de Elias foi apenas o “timing” “Pode Elias alegar que frente ao Benim a selecção não precisa de si? Não.”

Hugo Ribeiro

O “caso” Gastão Elias marcou o início da campanha portuguesa na Taça Davis 2013, cujo culminar se deseja no Grupo I. Pode Elias recusar uma selecção? Pode. Nesta ronda tivemos casos de Federer, Nadal, Ferrer e Del Potro. Pode invocar que a FPT lhe deve dinheiro, que prefere o qualifying de Viña del Mar? Pode. A FPT deve a Taça Davis de 2012. E a carreira de Elias deve-se ao “paitrocínio” (Gastãopai tem gasto uma fortuna com Gastão-filho) e a apoios privados. A FPT não contribuiu de forma significativa. Elias só foi eliminado na ronda de qualificação. O acesso ao quadro principal ter-lhe-ia valido três mil euros e ele não foi ao Open da Austrália por… falta de financiamento! Pode Elias alegar que frente ao Benim a selecção não precisa de si? Não. Como disse o capitão Pedro Cordeiro, ou se está com a selecção ou não. Não é só quando convém. Pode Cordeiro respeitar a opção do jogador, mas não concordar porque a sua indisponibilidade deveria ter sido anunciada mais cedo? Pode. Foi o grande erro de Elias. Djokovic e Del Potro disseram-no em Dezembro para toda a época de 2012 e 2013, respectivamente, e houve quem considerasse tarde. Pode a FPT cortar-lhe a Bolsa de Alta Competição? Pode e deve. É uma mensagem de que um jogador pode recusar uma convocação, mas tem de assumir as consequências. Pode Cordeiro convocá-lo de novo em 2013? Pode. Se os outros jogadores aceitarem-no sem reservas e não prejudicar o espírito de grupo. Como disse o presidente da FPT, Vasco Costa, agora é dialogar.

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Fernando Correia FPT

Selecções

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MISSÕES CUMPRIDAS


Enquanto a selecção masculina respondeu de forma profissional ao que se lhe era exigido, a equipa da Fed Cup soube reagir à ausência de Maria João Koehler, adiando para 2014 ambições maiores Pedro Keul

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João Sousa estreou-se como líder da selecção portuguesa em eliminatórias da Taça Davis realizadas em casa; Pedro Sousa estreou-se como titular na prova; André Murta estreouse na selecção principal; Vasco Costa estreouse como presidente da FPT nesta competição; até o árbitro Marco Romão estreou-se pela primeira vez na cadeira na Taça Davis. Foi uma eliminatória inesquecível para muitos, incluindo os simpáticos elementos da equipa do Benim, cuja presença no Grupo II foi uma… estreia. Na parte desportiva, não houve surpresas. João Sousa e Pedro Sousa revelaram-se demasiado fortes, quer individualmente quer em pares, para os abnegados jogadores do Benim, em especial Loic Didavi e Alexis Klegou, cuja experiência competitiva se resume ao circuito universitário dos EUA. Para Didavi como para Klegou, foi também uma estreia jogar à melhor de cinco sets, o que os penalizou bastante em termos físicos. A eliminatória ficou igualmente marcada pelo regresso de Rui Machado á competição, após cinco meses de paragem devido a uma lesão no joelho. O tenista algarvio recuperou as sensações de

Selecção de Portugal ao lado das irmãs Radwanska

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Taça Davis Grupo II Portugal – Benim João Sousa - Loic Didavi Pedro Sousa - Alexis Klegou J.Sousa/P. Sousa - L. Didavi/A. Klegou Rui Machado - A. Klegou André Murta - Tunde Segodo

5-0 6-1, 6-3, 6-0 4-6, 6-1, 6-4, 6-2 6-2, 6-1, 6-1 2-6, 6-2, 6-0 6-1, 6-2


Fernando Correia FPT

Selecções

Rui Machado apresentou a determinação de sempre, mas também a ferrugem dos cinco meses de paragem

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“JOÃO SOUSA E PEDRO SOUSA REVELARAM-SE DEMASIADO FORTES, QUER INDIVIDUALMENTE QUER EM PARES” competir antes de voltar ao circuito, onde terá de competir nos torneios de menor nível. Machado “apadrinhou” o conterrâneo André Murta que fechou com chave de ouro a eliminatória. Foi um auspicioso início de campanha, para uma selecção que apresenta legítimas ambições em subir ao Grupo I. Venha a Lituânia! Em Eilat (Israel), a selecção feminina garantiu o nono lugar no Grupo I da Zona Euro/África. Desfalcada da melhor tenista portuguesa, Maria João Koehler – ainda a recuperar da lesão abdominal contraída no Open da Austrália –, era difícil repetir ou melhorar o quinto lugar de 2012. Portugal só conseguiu uma vitória na fase de grupos, apesar das


Michelle Brito antes de obter a segunda vitória em singulares

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boas exibições de Michelle Brito nas duas derrotas averbadas, diante da húngara Timea Babos (perdeu em três sets) e Heather Watson (venceu em duas partidas). Frente à mais acessível BósniaHerzegovina, Michelle foi fundamental para o sucesso luso, ganhando o singular e o par, ao lado de Bárbara Luz, o que garantiu a permanência no Grupo I. Para o nono lugar final, entre 16 equipas, Portugal contou com a desistência no “play-off” da Eslovénia, que tinha duas tenistas lesionadas. No entanto, este resultado permitiu a Portugal subir dois lugares na hierarquia mundial, para um inédito 30.º lugar do “ranking” liderado pela República Checa. No próximo ano, com Koehler e Michelle em pleno, as ambições de Portugal serão naturalmente bem maiores.

Fed Cup Grupo I Hungria – Portugal Greta Arn - Bárbara Luz Timea Babos - Michelle Larcher de Brito Reka-Luca Jani e Katalin Marosi - Margarida Moura/Joana Valle Costa

3-0 6-1, 6-2 3-6, 7-5, 7-5. 6-4, 6-2

Grã-Bretanha – Portugal 2-1 Laura Robson - Margarida Moura 6-2, 6-1, Michelle Larcher de Brito - Heather Watson 6-1, 6-4 Laura Robson/Heather Watson - Michelle Larcher de Brito/Joana Valle Costa 6-2, 6-1 Portugal – Bósnia e Herzegovina Anita Husaric - Joana Valle Costa Michelle Larcher de Brito - Jelena Simic Michelle Larcher de Brito/Bárbara Luz - Anita Husaric/Dea Herdzelas Portugal – Eslovénia v.f.c.

2-1 6-3, 6-0 6-3, 3-6, 6-2. 6-1, 6-0

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Fernando Correia/FPT

Perfil

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ASSASSINO de GIGANTES COM SORRISO DE DJOKER


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Recuemos a Abril de 2004. Em Vila Real de Santo António (VRSA) joga-se a final do 19º Open Fundação da Cidade. No court central, com as bancadas cheias, jogam Nuno Marques – no crepúsculo da carreira de jogador, mas ainda considerado o melhor português de sempre, já a abraçar a vida de treinador – e Rui Machado, o mais conceituado tenista algarvio de todos os tempos, ainda longe de se tornar no único top-60 mundial luso. A RTP enviou uma larga equipa e transmite em directo com comentários do consagrado jornalista Manuel Perez (o mesmo do Estoril Open). As apresentações dos jogadores foram efectuados por Hugo Ribeiro (este vosso escriba), press officer do Vale do Lobo Grand Champions, há representantes da FPT, do Comité Olímpico de Portugal e de instituições locais. Ao fundo do court, encostado às lonas publicitárias, apesar de a sua elevada estatura para um miúdo quase a completar 10 anos, passa completamente despercebido um jovem apanha-bolas. Chama-se André Murta. “Foi no Open Fundação da Cidade que vi os melhores portugueses durante anos e isso motivou-me”, diz-nos no início deste mês de Fevereiro, a menos de 24 horas de estrear-se na selecção nacional, agora com 18 anos e do alto do seu 1,92 metros, que levou o jornalista Norberto Santos a escrever no Record que é o mais alto jogador luso de sempre na Taça Davis. Ao longo dos anos, em VRSA, jogaram Marques, Machado, Bernardo Mota, Frederico Gil, Leonardo Tavares, verdadeiros

Fernando Correia/FPT

André Murta é o novo craque da selecção da Taça Davis. Estreou-se, ganhou e recebeu os parabéns de todos. Hugo Ribeiro

Dos courts de Vila Real de Santo António à Taça Davis, foi sempre a crescer

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Perfil

“O Estoril Open não foi uma grande influência na decisão de seguir carreira no ténis”

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craques da Taça Davis. Longe estava ele de adivinhar que nove anos depois o capitão Pedro Cordeiro iria escolhê-lo para defrontar o Benim, deixando de fora Gil, o único português a chegar à final do Estoril Open, o único torneio que André “sonha ganhar”. “O Estoril Open não foi uma grande influência na decisão de seguir carreira no ténis. Fui lá umas duas ou três vezes por lazer. Importante foi mesmo o Open Fundação da Cidade. Quando era miúdo não sonhava em ser nº1 mundial, mas em jogar os maiores torneios e poder representar Portugal na Taça Davis porque sou muito patriota, mas não sonhava ganhar nenhum desses torneios, nem o Open da Austrália, que é o meu preferido. Ganhar, quando sonhava, era o Estoril Open”. António Murta, o pai, tem um enorme peso no desejo do filho em ser tenista profissional. O engenheiro electrotécnico foi atleta de alta competição no Sporting, “sob a orientação do professor Moniz Pereira, nos 100 e 400 metros” e, mais tarde, desempenhou o cargo de presidente da Câmara Municipal de VRSA durante quatro mandatos não consecutivos, encerrando o ciclo político em 2005. É da sua responsabilidade o desafio lançado a Carlos Lança, então


presidente do clube de ténis, para relançar o Open Fundação da Cidade, já depois de ter apoiado a construção do parque desportivo da cidade, onde se inclui o ténis. Anos depois, foi ali que se iniciaram na modalidade os seus filhos, Inês (campeã nacional de singulares e pares em sub-16) e André, este último em idade tardia, entre os sete e oito anos, a fazer lembrar o antigo nº1 nacional, José Nunes. Quem começou, contudo, a levar André para o clube foi Fátima Gaspar, a mãe, arquitecta, fã de ténis “ainda com raquetes de madeira”: “O André foi para o futebol aos sete anos, no Lusitano, mas havia muitos miúdos, quase não tocavam na bola e no ténis ele jogava sempre. Um ano depois, optou pelo ténis”. André é canhoto e joga com a mão direita, como Maria Sharapova. Porquê? Recorda o pai: “Ele batia quer com uma, quer com outra mão. Talvez lhe tenham dito para jogar com a direita, talvez ele tenha visto que todos os outros batiam com a direita”. Dessa característica nasceu uma esquerda a duas mãos que foi a base do seu jogo nos primórdios, até trabalhar a direita a partir dos 14 anos, quando se mudou para o Tavira Racket Club. Mas ainda hoje um dos seus treinadores, João Blaize, nota que “sob pressão, a esquerda é mais consistente do que a direita”. Garante a mãe que não se lembra de o filho ter querido outra profissão que não a de tenista. A escolaridade não foi colocada André Gaspar Murta de lado. Em 2013 espera “concluir o 11º 18 anos ( 8 de Agosto de 1994) ano”, mas a opção familiar privilegiou o Natural de Faro ténis. Residente em Tavira Decisão complicada para qualquer pai, Clube: Tavira Racket Club mas aceite sem dramas. “Gostamos de ver os nossos filhos felizes”, diz Fátima. “Como Títulos isto está, não sei se vale a pena tirar um Campeão nacional de pares masculinos (com curso superior”, acrescenta António. “O Artur Completo) e de pares mistos (com Inês curso até pode vir aos 50 anos”, conclui Murta) no escalão de sub-18 André. “É a família ideal para um rapaz deste Ranking ATP nível que queira singrar no ténis”, 909º (o melhor de sempre) considera André Lopes, ex-internacional Melhores resultados internacionais: meiasda Taça Davis que chegou a integrar a finais do Future de Belgaum, na Índia, em equipa técnica em Tavira, hoje em dia Dezembro de 2012 treinador de Rui Machado.

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Perfil “Um dia – recorda – o Rui perguntou-lhe pelas notas e o André disse-lhe que tinha tido um 14. O Rui respondeu-lhe que estava a treinar pouco e que eram 4 valores a mais, que deveria ter tido 10 e não desperdiçar tantas horas de treino. Os pais estavam lá e concordaram, embora queiram que ele estude e passe os anos”. A aposta no ténis foi tão forte que levou a família a mudar de residência de Vila Real de Santo António para Tavira, onde residem as origens maternas e os pais tinham um lote por habitar. Um investimento que não se limita a André e se estende a Inês. Como diz o seu treinador principal, Pedro Pereira, ex-campeão nacional juvenil, “em Tavira temos uma fábrica, a Nina (Bratchikova, 106ª no ranking mundial), a Cadantu (Alexandra, 94ª), a Inês que é uma futura top-100 e o André que está no início do processo mas pode ser um belíssimo jogador, sem limites”. Os limites, no ténis, estão sistematicamente a ser superados e o actual nº1 mundial, Novak Djokovic, o autor do “Cosmic Tennis”, é o modelo de jogo de André. “Quando veio para a academia queria imitar o Berdych, jogar rápido sem tolerar o erro”, recorda Pedro Pereira. Mas os treinadores vêem muito mais de Nole, como sublinha João Blaize: “É muito bom atleta, capacidade de resistência, muito elástico, faz lembrar o Djoko, características idênticas”. A mãe relembra que “quando era miúdo, gostava de ver na televisão o Monfils e o Djokovic”, mas André não tem dúvidas de que foi o sérvio a marcá-lo: “Desde que o vi pela primeira vez na televisão que me identifiquei com ele, é relaxado e divertido”. Os pais levaram-no pela primeira vez ao Estoril Open em 2007 e quem se sagrou campeão? Djokovic, claro: “Sempre fui sportinguista e lembro-me dele com a t-shirt do Benfica mas adorei vê-lo ganhar”. Meses depois, a família levou-o ao US Open e viram o famoso duelo Djokovic-Stepanek. Passeavam-se em Nova Iorque quando, mesmo ao seu lado, estacionou um automóvel, saindo de lá… The Djoker, de telemóvel na mão. Inevitável a foto ao lado de André, que ainda hoje a guarda.

“Quando veio para a academia, queria imitar o Berdych”

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A inesquecível foto com Djokovic no US Open

DR

Mas André Insiste que “os ídolos nacionais foram mais importantes” para a sua carreira “do que os estrangeiros” e Rui Machado foi especial, “talvez por ser algarvio”. Aliás, no início, André tinha melhor esquerda e os treinadores de Tavira fizeramno estudar várias vezes a forte direita “spinada” de Machado. O seu ténis é poderoso, o potencial ilimitado, embora ainda tenha “lacunas técnicas a trabalhar”, como salientou o seleccionador nacional, Pedro Cordeiro. Muito mais haveria para contar deste fascinante jovem mas terá de ficar para outra ocasião que o seu futuro desportivo possa justificar: desde a influência do profissionalismo de Nina Bratchikova, à opção de não brilhar nos juniores para atacar os Futures, às aventuras e aos sustos de um adolescente a viajar sozinho pelo Mundo, à brilhante meia-final na Índia, em Dezembro, que levou-o a ser apelidado pela Federação Internacional de Ténis de “giant killer”, alcunha que pegou entre os colegas. Mas talvez o mais importante de tudo tenha sido revelado quando viajou há dois anos como parceiro de Nina a Roland Garros. “Via ténis de manhã à noite. Ele adora competir, é um puto com uma capacidade de trabalho fantástica”, afiança Pedro Pereira. “Sempre se entregou ao trabalho, não é nada preguiçoso”, acrescenta André Lopes. “Às vezes temos de ser nós a mandá-lo parar de treinar e forçálo a dias de folga”, corrobora João Blaize. Thomas Jefferson, um dos fundadores dos Estados Unidos da América, dos quais foi terceiro Presidente, disse um dia: “tenho constatado que, quanto mais trabalho, mais sorte tenho”. Será mesmo preciso desejar boa sorte à carreira de André Murta?

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MEMÓRIA

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APPLETON FIGUEIRA (1927 – 2013)

INSUBSTITUÍVEL MESMO SE NÃO PODE CONTINUAR AO NOSSO LADO Carlos Figueiredo


Foram de facto muito fortes os laços que, durante vários anos, me ligaram a Appleton Figueira quando a ele me juntei, há uma ou talvez duas décadas, para o lançamento do gabinete de imprensa da Copa Ibérica, quiçá a menina dos olhos de um idealista, todavia, de pés bem assente no chão. Nem tudo terminou de maneira cor-de-rosa e houve até um lamentável mal-entendido (não posso usar outro termo) que nos tornou incompatíveis. O que quero salientar, todavia, é que isso são factos que já lá vão e felizmente quis o destino que nos reencontrássemos num dos últimos Estoril Open, no Jamor, caindo nos braços um do outro. Poucos sabem que o Appleton começou como praticante de ténis de mesa e até integrou a selecção portuguesa nos Campeonatos do Mundo da modalidade, em Londres e Dortmund. Aos 22 anos, começou a jogar ténis, atingindo o nível de segundas categorias, depois de ter sido campeão nacional de “terceiras”. O tio, Afonso Vilar, que jogava ténis com o Rei D. Carlos, tinha um escritório de representações que acabou por dar origem á primeira loja especializada em desportos de raqueta. Appleton foi proprietário das lojas Spril e Guiga (sendo esta última igualmente uma marca criada por si), e representante da Dunlop durante cinco décadas – marcas através das quais patrocinou muitos jogadores portugueses. Foi também construtor de campos desde os anos 50, destacandose o primeiro de relva natural na zona de Lisboa, na embaixada de Inglaterra. No dirigismo entre 1963 e 1975, ocupou na Federação Portuguesa de Ténis as funções de vogal, tesoureiro, secretário e vice-presidente. Appleton Figueira distinguiu-se acima de tudo como organizador de eventos, com destaque, nos anos 60, para os famosos Campeonatos Internacionais de Portugal – equivalentes na altura ao Estoril Open – e também para um torneio exibição no Pavilhão dos Desportos, com Rod Laver, Lew Hoad, Andres Gimeno e Luís Ayala. Na Taça Davis, foi responsável pelo regresso de Portugal à competição após um intervalo de oito anos (ver caixa).

“Se o Appleton Figueira não era o melhor de todos, pelo menos era diferente de todos eles”

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MEMÓRIA A primeira vitória

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Portugal estreou-se na Taça Davis em 1925, só que por razões financeiras não participava desde 1955. Mas o entusiasmo e determinação de Appleton Figueira levaram a melhor em 1963 e com a ajuda do presidente da Federação Portuguesa de Ténis (FPT), José Herédia, e do presidente do Clube de Ténis do Estoril, José António Benito Garcia, que até angariou publicidade, Appleton Figueira organizou a eliminatória com o Luxemburgo, sob a condição de responsabilizar-se com eventuais prejuízos. A recepção aos luxemburgueses teve lugar no court principal do antigo Clube de Ténis do Estoril nos dias 13, 14 e 15 de Abril de 1963 e no último dia registou-se a inédita (até hoje) presença do Presidente da Republica, Almirante Américo Tomaz. O resultado final foi duplamente positivo: Alfredo Vaz Pinto, David Cohen, António Azevedo Gomes e Manuel Diniz garantiram a primeira vitória de sempre na Taça Davis, derrotando o Luxemburgo, por 3-2; e as contas da eliminatória deram lucro, que reverteu na totalidade para a federação. O prémio de jogo para os jogadores e organizadores foi um jantar no “Restaurante dos Frangos”, em Cascais, um dos mais baratos da zona.

Em 1980, criou a Copa Ibérica – justificando “haver muitos espanhóis que gostavam de jogar com a nossa equipa do Belenenses. Tratava-se de um grupo de grandes amigos que não recebiam qualquer dinheiro para jogar e que foram campeões de equipas da primeira divisão por quatro vezes e oito anos campeões de veteranos”, como recordou no livro “Masters Copa Ibérica by Banco Santander” – e outros sociais, como o Torneio de Empresários. Mais recentemente, em 1990, criou a revista Proténis que foi, durante


muitos anos, a única publicação periódica de ténis especializada. O Appleton era uma figura incomparável, não digo a melhor ou a pior, mas de certeza muito sólida e diferente à sua maneira. Enfim, era um caso muito interessante de uma pessoa ligada à modalidade mais que qualquer outra e, também de salientar, pouco ortodoxo de acordo com as condições que temos cá dentro. Já agora quero narrar um episódio que serve para revelar a maneira do Appleton: além de me colocar sempre em excelentes hóteis, ele fazia questão de adornar os bons tratos do escriba com atitudes como essa da garrafa de espumante que fazia questão de colocar na mesinha do meu quarto e de se preocupar com as minhas refeições. A esse propósito, ainda me lembro de uma vez em Montechoro, ele ver-me a sair ao fim da tarde numa boleia de um colega de profissão e ficar muito aflito porque eu não tinha jantado. O nosso querido amigo caprichava sempre em melhorar o trato do jornalista pelo que volta e meia me telefonava para o quarto, que eu transformava em escritório, a pedir que não me esquecesse deste ou aquele assunto em que tínhamos falado ao almoço. O ténis português está mais pobre, passe o palavreado, mas posso garantir que, mesmo sem o tempo em que estivemos de janelas às avessas, tivemos sempre respeito um pelo outro e, do meu lado, grande admiração. Se o Appleton Figueira não era o melhor de todos, pelo menos era diferente de todos eles. Só desejo que descanse em paz e que mesmo do lado de lá da barricada continue a honrar-me com a sua amizade.

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VANTAGEM DE…

O ténis em Portugal necessita de uma estratégia

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O ténis português nunca teve um nível qualitativo e quantitativo tão elevado. Será que a modalidade tem beneficiado desta melhoria qualitativa e quantitativa NUNO DELFINO Treinador dos tenistas portugueses? Penso que não. Se perguntarmos a qualquer menina(o), com menos de 12 anos, que frequenta as suas aulas de ténis, quem é o João Sousa e a Maria João Koehler ou quem foi o Nuno Marques as respostas são muito bizarras. No entanto, qualquer um destes jovens sabe quem é o Cristiano Ronaldo e o José Mourinho. O que se pode fazer? O ténis em Portugal necessita de uma estratégia que permita um direcionamento com objetivos concretos. Em minha opinião, devia-se concentrar esforços em quatro áreas diferentes: Ténis Formação: Esta área já está bastante bem dinamizada através do circuito SmashTour e dos programas Play+Stay e PNDT. No entanto, é fundamental que alguns treinadores e pais adquiram uma cultura desportiva baseada na determinação e rigor, de forma a potenciar ao máximo as capacidades dos jovens atletas. Ténis Alta Competição: É fundamental desenvolver estruturas profissionais nos clubes, desde a captação de talentos, metodologias do treino, até plataformas logísticas que permitam a deslocação de

atletas a torneios. Tem que haver uma estrutura de base em que estejam envolvidos vários profissionais, desde o nutricionista, o psicólogo, o preparador físico ao treinador. Ténis Competição Não-Profissional: Pareceme que, devido às dificuldades económicas que os clubes atravessam, seja mais fácil rever e simplificar os regulamentos internos e arranjar um formato de avaliação das provas, incrementar o número de níveis classificativos, por forma a que os torneios se ajustem melhor às possibilidades e condições de oferta de cada organização. Por outro lado, era importante existir um formato de avaliação para verificar se as provas estão a cumprir os regulamentos. Ténis Lazer: Seria muito interessante

“SERIA MUITO INTERESSANTE FAZER WORKSHOPS SOBRE GESTÃO DE CLUBES” fazer workshops sobre gestão de clubes desportivos de forma a promover a angariação e retenção de novos membros. Outro fator que considero de extrema importância é o desenvolvimento de um formato de organização de torneios para adultos, no formato de grupos com sets curtos.


Equipamento

Wilson eleva o patamar com o Rush Pro Reforçando o seu compromisso de proporcionar o melhor desempenho da categoria, Racquet Sports Wilson (www. wilson.com) renova completamente sua linha de calçado para 2013 com a introdução do Rush Pro™, calçado para homens, mulheres e juniores. Projetado para oferecer o máximo de estabilidade, sensibilidade e capacidade de resposta, o ultra leve Rush Pro beneficia de tecnologia patenteada baseada numa extensa pesquisa em colaboração com os jogadores Wilson do Tour. Anne Keothavong, Phillip Kohlschreiber e Feliciano Lopez estão entre os vários jogadores que irão usar este calçado em 2013. “Os jogadores de ténis precisam de destacarse num jogo que está a mudar rapidamente», disse Kristi Boggs, business manager de calçado e textil da Racquet Sports Wilson. «O Rush Pro proporciona um desempenho ideal com a sensação de perfil baixo e próximo do solo para jogadores que querem elevar o seu jogo».

Existem três características principais no design avançado do Rush Pro: O TPU tridimensional injectado na zona do antepé (3D-Fs) com superior capacidade de resposta, máxima aceleração e desaceleração controlada; Dynamic Fit, um desnível de 6 milímetros entre os dedos do pé e o calcanhar, que proporciona maior estabilidade lateral e melhor sensação de perfil baixo e perto do solo, provocando uma reacção mais rápida; e Endofit ™, uma luva de construção integral interna para maior conforto e ajuste intuitivo. Cada modelo oferece a opção de sola para piso rápido ou terra batida e apresentam como pesos 375g (homens) e 320g (mulheres). As côres variam entre o branco, prata, turquesa, vermelho, preto, laranja, verde eléctrico e amarelo. Este calçado teve o seu lançamento em Janeiro de 2013 e encontra-se disponível em grande parte dos revendedores Wilson.

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MEDICAL TIMEOUT

A falar é que a gente se trata “A importância da comunicação eficaz entre fisioterapeuta e tenista não deve ser menorizada”

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JOSÉ PEDRO CORREIA Fisioterapeuta

Sempre que necessitam da intervenção de um fisioterapeuta durante um torneio, todos os tenistas desejam naturalmente que esta tenha a maior eficácia possível, dado o pouco tempo que existe para a recuperação. Para que seja esse o caso, e obviamente para além das competências técnicas, é essencial que se optimize a comunicação entre as partes, dado que também desta depende uma correcta avaliação do problema e o caminho a seguir na intervenção. O processo deve representar uma “negociação” onde o atleta, que melhor que ninguém conhece o seu corpo, deve participar ativamente, salientando, por exemplo, a forma como costuma reagir a um determinado tratamento. Por seu lado, o fisioterapeuta deve ter em conta as personalidades e origens distintas dos tenistas e adaptar a sua forma de comunicar de forma a obter toda a informação que necessita e passar eficazmente a sua mensagem. Ao lidar com atletas menores (sobretudo dos escalões mais jovens), não só por razões éticas mas também de forma a que ocorra uma melhor retenção da informação sobre a intervenção, é recomendável que esteja também presente um treinador ou outro membro da equipa. Nos casos de impossibilidade de se encontrar um idioma fluente em comum, não deve ser descurada a importância de um acompanhante que ajude no processo. Este pode ser um factor determinante no sucesso da intervenção. A importância da comunicação eficaz entre fisioterapeuta e tenista não deve ser menorizada. Todos os pormenores que possam contribuir para um melhor desfecho devem ser utilizados em favor do atleta!


TÁCTICA

A resposta ao serviço Objectivo

A maior parte dos erros na resposta resulta de se tentar bater a bola muito forte ou de se arriscar para muito Luís Damasceno perto das linhas. O principal Treinador objectivo da resposta deve ser única e exclusivamente assegurar a devolução do serviço.

Foco

Muitos jogadores costumam olhar para o servidor e não para a bola, perdendo uns centésimos de segundo que são cruciais para o sucesso desta pancada. Desde o momento, em que o adversário se coloca na posição inicial de serviço, olhe só para a bola, ainda que o servidor a bata várias vezes no solo.

Percentagem

Enquanto ainda não se adaptou aos serviços do adversário, procure jogar percentualmente, evitando cometer erros desnecessários e direccionando a sua resposta para uma

área (objectivo) afastada das linhas laterais e sobre a parte mais baixa da rede. À medida que o encontro vai decorrendo e “entra em jogo”, varie a colocação das suas respostas em conformidade com os objectivos tácticos.

Colocação

A localização ideal para se responder ao serviço situa-se na bissectriz do ângulo constituído pelo limite das trajectórias da bola do adversário e que variam em função do tipo de serviço efectuado. Contra um jogador que serve com muita potência, procure apenas devolver a bola por cima da rede e para dentro das quatro linhas. De forma a tornar isso possível, é imperativo uma utilização muito curta e conseguir um impacto bem firme. Se necessário, utilize a bola cortada (sobretudo na resposta de esquerda) para bloquear a bola com mais facilidade. Se mesmo assim não conseguir a eficácia desejada, recue no campo até “ganhar” o tempo necessário.

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ARBITRAGEM

“Posso ir à casa de banho?” Assistindo a jogos do grupo juvenil do nosso calendário nacional, frequentemente testemunhamos situações curiosas. JORGE CARDOSO Árbitro Não raras vezes, especialmente nos mais novos (sub 12), vemos com frequência autênticas corridas à casa de banho após o aquecimento. É esta prática incorreta e exclusiva dos jovens tenistas? Nem uma coisa nem outra. Será apenas fruto de algum nervosismo e algum desconhecimento do procedimento. Do nervosismo não nos ocuparemos aqui,

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“UM JOGADOR TEM DIREITO NUM ENCONTRO DE SINGULARES À MELHOR DE TRÊS SETS, DE UMA IDA À CASA DE BANHO. NUMA PROVA FEMININA, A JOGADORA PODERÁ IR DUAS VEZES”

até por ser este tão próprio e normal nestas idades. Em relação ao procedimento, o que estará menos bem? Terá consciência o jovem tenista que a sua ida à casa de banho depois do aquecimento e antes do inico do jogo, lhe estará a ser contabilizada? A realidade é que depois de iniciado o aquecimento, as idas à casa de banho deverão ser efetuadas após a comunicação ao árbitro e serão devidamente creditadas. Um jogador tem direito num encontro de singulares à melhor de três sets, de uma ida à casa de banho. Numa prova feminina, a jogadora poderá ir duas vezes. Quando se trata de Pares funciona então como uma equipa, sendo que cada dupla tem direito a duas interrupções para o devido efeito. Se os jogadores da mesma equipa abandonarem o campo juntos, será então contabilizada como uma das interrupções autorizadas. Cada vez que um jogador abandone o campo por este motivo, será contado como uma das interrupções, quer o adversário o tenha feito ou não. As idas à casa de banho deverão, se possível, serem feitas no final de cada partida e não poderão ser aproveitadas para outro fim, como repouso, desconcentração do adversário, tomar um duche ou qualquer outra situação.


BOLA NA TELA

Jacques Tati João Carlos Silva

As Férias do Sr. Hulot 1953

dr

Primeiro, despacha duas raparigas. Depois um jogador atlético. Por fim, um veterano que deve conhecer todos os truques. Ninguém lhe resiste. Ninguém consegue responder ao seu serviço. “É impossível!”, afirmam derrotados e desalentados. “Isto não é ténis!”, desculpam-se. Onde terá aprendido Monsieur Hulot este serviço secreto? Ainda para mais, ignora a etiqueta tradicional do ténis, que no início dos anos 50 era absolutamente rígida: apresenta-se em court de casaco e calças, com um ridículo chapéu de papel na cabeça, enquanto os adversários estão equipados a rigor. Os sucessivos adversários de Hulot/ Tati ficariam ainda mais surpreendidos e irritados se soubessem – como nós, espectadores – que ele jogava ténis pela primeira vez e que o serviço lhe tinha sido ensinado, minutos antes, pela mulher da loja da pequena e sonolenta estância balnear onde ele fora comprar a raqueta. A cena do ténis tem cerca de três minutos e meio e é uma das melhores de “As Férias do Sr. Hulot”, o filme quase-mudo criado e interpretado em 1953 pelo francês Jacques Tati. E isso não é pouco, porque este, sendo o primeiro da série “Sr. Hulot”, é provavelmente aquele que, dos quatro,

As Férias do Sr Hulot, 1953 Realizador: Jacques Tati Nomeado para o Oscar de Melhor Argumento

mais merece ser considerado uma obraprima. É também a única cena, em quatro longas-metragens, em que o inadaptado e desajeitado Sr. Hulot se mostra capaz de uma proeza física.

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Revista de Ténis MatchPoint Portugal Fevereiro 2013  

Revista de Ténis / Tennis Magazine 1a Revista de ténis digital em Portugal!

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