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DIÁRIO DE SANTA MARIA Um jornal do Grupo RBS

R$ 1,50

SÁBADO E DOMINGO 12 E 13/02/2011

www.diariosm.com.br

ANO 9 NÚMERO 2.694

MAIS

REVISTA MIX

O Cadena que temos FOTOS JEAN PIMENTEL – 21/12/10

A VAREJO Fernanda Malmann fala do lançamento de um carregador universal para celulares. Página 25

REGIÃO Agudo realiza, neste sábado, o tradicional festival do Chope, da Cuca e da Linguiça, o Choculin. Página 22

STAGIONE Sílvia Medeiros diz que chapinha já era, e o momento é dos ondulados. MIX

É difícil falar de Santa Maria sem lembrar do Arroio Cadena – ao longo dos seus cerca de 16 quilômetros, ele passa por 13 dos 41 bairros da cidade. A poluição do curso d’água é histórica e faz daquele que poderia ser um dos cartões-postais da cidade o seu maior drama ambiental: nosso maior recurso hídrico se transformou, ao longo de décadas de descaso, em um lixão a céu aberto. O Diário percorreu as margens do Cadena para mostrar como está o arroio. Pneus, sofás velhos, roupas, animais mortos, lixo de todo o tipo e muito esgoto (foto ao lado) correm nas águas que, um dia, já foram cristalinas. Só no ano passado, a prefeitura retirou cem toneladas de lixo do local. Mas resta uma esperança: na área entre a Avenida Walter Jobim e a Venâncio Aires (foto abaixo), alguns progressos estão surgindo. O cheiro ainda é de esgoto e, pela água, corre lixo, mas, às margens, a vegetação renasce. É o resultado de uma das ações colocadas em prática para salvar o Arroio Cadena

O Cadena que queremos 16/01/11

COMPORTAMENTO Os ritos de passagem que são comuns a todos. MIX

diariosm

com.br

Galeria no site traz as imagens da semana


MIX mix@diariosm.com.br

CURSO NADA

NATURAL Trecho do Cadena na Perimetral Dom Ivo Lorscheiter, entre a Walter Jobim e a Venâncio Aires

Principal arroio de Santa Maria, o Cadena sofre com a ação do homem e aguarda que soluções sejam colocadas em prática Página 7

DIÁRIO DE SANTA MARIA

SÁBADO/DOMINGO, 12/13 DE FEVEREIRO DE 2010


16/01/12

Reportagem

Castigado pelo depósito de lixo e esgoto, o Cadena passa por 13 dos 41 bairros da cidade tentando sobreviver

À espera de

soluções

Em 2010, cerca de cem toneladas de lixo foram retiradas do Cadena. A população voltou a jogar entulhos, como este sofá largado no bairro Perpétuo Socorro

Jean Pimentel (fotos) jean.pimentel@diariosm.com.br

Marilice Daronco (textos) marilice.daronco@diariosm.com.br

O

cheiro de esgoto, quase insuportável para quem não convive com ele todos os dias, toma conta do ar. Moscas e baratas disputam sacos de lixo e pnseus jogados nas margens e no arroio. À medida que a água corre, traz mais sujeira, como se o curso d’água fosse um lixão. Esse foi o cenário que a revista MIX encontrou em três dias de reportagem, com cerca de 10 horas de caminhada pelo Cadena. A exemplo do que acontece com o Arroio Dilúvio, em Porto Alegre, o Cadena só é chamado de arroio porque fica no sul do país, onde a denominação foi adotada para pequenos rios ou cursos d’água. A extensão do arroio, desde o entroncamento da Rua Borges do Canto com a Luiz Mallo até a foz, no Arroio Arenal, é de cerca de 16 quilômetros. Nesse percurso, ele corta 13 dos 41 bairros da cidade. Para os espanhóis, o arroio formava uma cadeia ao redor da Santa Maria, por isso o nome “cadeña”. Por mais que haja leis como o Código Flo-

restal Brasileiro, que estabelecem áreas de preservação permanente de 20 a 30 metros das margens dos rios, desde a década de 70 as ocupações tomaram conta do Cadena. Nelas, vive muita gente que não tem outro lugar para ir e espera pelos programas habitacionais da prefeitura para evitar uma tragédia como a que aconteceu no Rio de Janeiro no começo do ano. Uma dessas pessoas é o aposentado José Eloir Gomes de Barros, 67 anos, que mora a cerca de 10 metros do Cadena, no bairro Divina Providência. Quando era criança, ele chegou a tomar banho no arroio que, em sua lembrança, “tinha águas transparentes”. Seus 10 filhos não tiveram a mesma sorte. Só conheceram as águas poluídas. Quando começaram a aparecer tartarugas perto de casa, há alguns meses, seu Barros achou que podia ser um bom sinal. Mas, aí, os animais começaram a ser apedrejados.

Arroio passa por baixo da cidade Para muitos moradores de Santa Maria, o principal arroio da cidade só é lembrado quando o mau cheiro se espalha ou os alagamentos tomam conta das ruas. O que nem todos sabem é que, debaixo de boa parte do Centro e de vários bairros, correm o Cadena

e seus afluentes, como os arroios Cancela e Itaimbé e as sangas da Aldeia e do Hospital. O técnico da Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam) Fernando Floresta – um apaixonado pela história e pela geografia da região – já mapeou 107 afluentes. Muitos deles estão em bairros como São João, Chácara das Flores e Nova Santa Marta. – Mais de 80 cursos d’água estão desviados ou canalizados. Uma das principais nascentes fica embaixo do quartel da Brigada Militar, na Rua Pinto Bandeira, mas já não se pode vê-la – afirma Floresta. Na década de 70, ocorreu uma interferência no Cadena. O Plano Diretor Municipal decidiu desviar 300 metros no arroio, entre o final da Rua Ernesto Beck e a BR-287. Nos anos seguintes, as margens foram invadidas, e casas ficaram no caminho do Cadena. Volta e meia, a natureza tenta recuperar o que é dela. O resultado? Alagamentos. Segundo o secretário de Proteção Ambien- Barros mora bem perto do curso e tal, Luiz Alberto Carvalho Junior, a cada mês, lamenta que a água esteja tão poluída um grupo recolhe o que pode da água e das margens e busca conscientizar os moradores: – Colocamos placas com o telefone da Linha Verde (55 3921-7151) para denunciar quem joga o lixo, mas muitas foram jogadas Confira no site do ‘Diário’ uma galeria de fotos e uma videorreportagem sobre o no arroio. Só no ano passado, tiramos cerca arroio Cadena de cem toneladas de lixo do Cadena.

com.br

MIX 12 E 13 DE FEVEREIRO DE 2011 | 7


7 Passo D’Areia 10/01/11

A passos de tartaruga

Bairros no caminho do arroio

Pelas margens do Cadena A equipe da revista MIX percorreu o Cadena entre dezembro de 2010 e o dia 4 deste mês. No caminho do arroio que faz parte da bacia do Vacacaí, encontramos muito lixo, esgoto correndo a céu aberto, animais que se alimentam do que o homem jogou na natureza e as histórias de quem invadiu as margens do Cadena e hoje convive com o drama dos alagamentos e das erosões.

2

3 A presença de pássaros no arroio encanta pela beleza dos voos. Mas o motivo que os leva até lá não é bom: os animais buscam o lixo que se espalha pelo curso d’água

4 6

1

5

1 – Itararé 2 – Perpétuo Socorro 3 – Caturrita 4 – Salgado Filho 5 – Vila Carolina 6 – Divina Providência 7 – Passo D’Areia 8 – Jucelino Kubitschek 9 – Noal 10 – Patronato 11 – Renascença 12 – Urlândia 13 – Lorenzi

11 Renascença

16/01/11

Como gato e rato

12 Urlândia

10 Noal

Só na lembrança Beber água de caneca, direto do Cadena. Essa é uma lembrança guardada pelo aposentado Milton Rodrigues, 80 anos, com muito carinho. Nascido em Santa Maria, Rodrigues lamenta a atual situação do arroio, porque, no seu tempo de infância e juventude, o Cadena era um local de lazer no qual muitas famílias passavam os finais de semana. Segundo ele, naquela época, o arroio lhe garantiu boas pescarias. – Isso aqui era um pequeno paraíso. Mas as pessoas foram cortando as árvores para fazer lenha. Começou a vir gente até do Centro jogar lixo por aqui. É uma pena! Quanta água tomei daí – afirma Rodrigues.

Casas estão próximas ao arroio e a dois de seus afluentes. O risco de alagamento é grande

9

8 Ficar de olhos bem abertos para o Cadena foi a solução encontrada pela dona de casa Eliziane Lemes Marinho, 32 anos, para garantir a segurança da família. Ela, o marido, Luiz Carlos Ribeiro de Brito, 37 anos, e os cinco filhos moram em uma casa emprestada na Rua Esperança, bairro Renascença, a poucos metros de onde cruza o arroio. Parte do pátio já sofreu erosão e caiu no arroio. Eles sabem que, se chover muito, a água pode invadir a casa. Mas o perigo não para por aí. Além do risco de uma das crianças cair no Cadena, já que brincam perto dele, uma cobra já foi morta dentro do casebre e, não raro, ratos circulam pelo pátio. Sem dinheiro para comprar uma casa própria, a família – que depende do salário que Marinho ganha como pedreiro – adotou uma solução natural para combater cobras e ratos: está criando gatos. Já são sete felinos no pátio. – Antes, o esgoto da nossa casa ia para o Cadena. Agora, instalaram tubulação na rua. A situação melhorou um pouco – afirma Eliziane.

Um dos mais novos moradores das margens do Cadena é o pequeno Enzo, que tem pouco menos de 2 meses. Na sua inocência, o menino ainda nem sabe a angústia que vivem, em dias de chuvarada, os pais dele, Neemias dos Santos Ferreira, 18 anos, e Sabrina Oliveira Lima, 25, além do irmão, Guilherme Lima, 4. Há alguns anos, o Cadena corria onde hoje está a casa na qual a família vive na Rua Maria Loureiro Ilha, bairro Salgado Filho. Volta e meia, o arroio tenta tomar o seu lugar de volta, e Neemias e Jaqueline precisam lutar contra a fúria da natureza. Para ter um controle de quando é preciso sair de casa, Neemias improvisou. Construiu uma moradia que lembra uma palafita (casa construída sobre estacas à beira dos rios). Quando a água chega no segundo degrau, é hora de pegar as crianças e buscar proteção em um vizinho que mora em uma área pouco mais alta. – Mais de uma vez, já perdemos tudo o que tínhamos em casa, mas fazer o quê? Não temos outro lugar para ir – lamenta Neemias.

Lá se vai mais uma casa 16/01/11

7

Homem X Natureza

16/01/11

21/12/10

Reportagem

A aposentada Araci Pereira dos Santos, 72 anos, é uma das vizinhas do Cadena. Ela mora na Rua Antônio Vicente Hahn, na Vila Brenner, há cerca de oito anos. Não demorou muito tempo para que dona Araci aprendesse que bastam alguns dias sem chuva para que o cheiro de podre tome conta do ar por perto do arroio. O vizinho indesejável não é o Cadena, mas as pessoas que jogam lixo e restos de carne e ossos na água. – Já foi muito pior. Até que a poluição tem diminuído um pouco. Tanto que até algumas tartarugas apareceram por aqui – conta Araci. Ver os animais que têm se multiplicado na água virou atração. – Já são quatro ou cinco tartarugas bem grandes – diz Araci.

16/01/11

4 Salgado Filho

21/12/10

RONALD MENDES, ESPECIAL – 08/02/11

27/01/11

6 Divina Providência

A pensionista Leda Maria Fagundes de Paula, 56 anos, está na expectativa de conseguir uma moradia destinada pela prefeitura às famílias em situação de risco (leia mais na página 11). Motivos não faltam: as paredes da casa têm rachaduras, e o piso baixou. – Tem dias que a água traz animais mortos, lixo, plásticos, roupas e o que mais as pessoas jogarem ao longo do trajeto do arroio. O cheiro é terrível – afirma Leda. Leda (segurando uma foto antiga do Cadena) conta que, depois que a Perimetral Dom Ivo Lorscheiter foi construída, ficou mais fácil ter acesso às moradias – mesmo em dias de chuva forte – e devido à contenção que foi feita na margem, impedindo que o arroio continuasse a invadir as casas.

10 11 12

13 Arenal

28/01/11

13

10 Noal

21/12/10

O Cadena deságua no Arroio Taquarichim, perto do Campo de Instrução de Santa Maria (Cism), mas sua foz é considerada o próprio Arroio Arenal

MAPA WAGNER DANTON DE BITTENCOURT BILHALVA, ARTE PAULO CHAGAS

8 | 12 E 13 DE FEVEREIRO DE 2011 MIX

MIX 12 E 13 DE FEVEREIRO DE 2011 | 9


LUIZ FERNANDO MELLO, DIVULGAÇÃO

À espera do final feliz Confira os principais fatos que fazem parte do arroio Cadena:

Reportagem

■ Um dos primeiros registros sobre o Cadena é do astrônomo José Saldanha, que visitou Santa Maria em 1787. Ele contou em seu Diário Resumido e Histórico da 1ª Divisão da Demarcação D’América Meridional que o grupo acampou na margem do Arroio Santa Maria – como era chamado o Cadena ■ Segundo um estudo da UFSM, as primeiras áreas ocupadas à margem do arroio ficavam perto da ferrovia. Assim teriam surgido as vilas Ponte Seca (1916) e Carolina (1926). No fim da década de 50, a ocupação foi mais intensa a oeste, formando o bairro Salgado Filho (1953) e as vilas Negrine (1956) e Vitória (1956). Os assentamentos irregulares teriam começado na década de 70

Projeto da UFSM foi um dos que propuseram ideias para recuperar as áreas próximas ao curso d’água em 1996 (foto)

Pesquisas para recuperação P ara as universidades de Santa Maria, o Cadena é um grande campo de pesquisa. Não são poucos os trabalhos realizados em áreas específicas do arroio. Em 1996, um projeto de extensão da UFSM estudou o Cadena e fez uma série de proposições para a restauração e a reurbanização de áreas próximas ao curso d’água. O trabalho, coordenado pelo professor Luiz Fernando da Silva Mello, do curso de Arquitetura e Urbanismo, fez um relatório completo das condições do Cadena na década de 90. Foram analisadas nascentes, afluentes e o arroio. A criação de um parque e a implantação de ações de acordo com a realidade de cada área foram propostas e debatidas em audiências públicas. O projeto previa desde a conscientização ambiental até a remoção de famílias de áreas invadidas. Porém, nada saiu do papel. – A realidade hoje já seria outra. Queríamos que tudo começasse com a educação ambiental de quem mora às margens. Sem ela, será difícil mudar a situação – afirma Mello. Em julho do ano passado, o professor da UFSM João Batista Dias de Paiva entregou à prefeitura um projeto prevendo um estudo de contenção da erosão na margem direita do Cadena. A intenção era incluir o projeto dentro da Lei Federal de Inovações Tecnológicas

e tentar diagnosticar problemas e apresentar alternativas para solucioná-los. A iniciativa ainda não teve resposta do Executivo. Agora, o Departamento de Engenharia Sanitária e Ambiental da UFSM – do qual Paiva faz parte – apresentou outro projeto, desta vez ao Fundo Setorial de Recursos Hídricos (CT-Hidro) do Ministério da Tecnologia. A proposta é desenvolver um projeto de pesquisa com monitoramento de vazão, sedimentação e qualidade da água do Cadena. – O Cadena tem problemas muito sérios de erosão, causados, principalmente, pelo esgoto jogado clandestinamente e, às vezes, nem tão clandestinamente, pois também existem tubulações bem grandes que largam o esgoto direto no Cadena ou na rede pluvial (água da chuva). No fim das contas, acaba dando no mesmo, já que tudo vai parar no Cadena.

Remoção de famílias e contenção da erosão Segundo Paiva, a etapa do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) realizada no Cadena, removendo algumas famílias e contendo a erosão, conseguiu diminuir o problema em parte. Porém, ele acredita que ainda há muito a fazer: – A recuperação do Cadena é viável. Mas,

■ Nos anos 80, durante o governo de Osvaldo Nascimento (1977-1982), foi inaugurado o Parque Itaimbé, construído sobre um das principais afluentes do Arroio Cadena

para que isso aconteça, é preciso conscientizar as pessoas, e isso começa pelo Poder Público não permitir que se façam mais lançamentos de esgoto no arroio. Passa, ainda, por um estudo de revitalização e pela retirada dos lançamentos de esgoto ao longo do trajeto e da população que vive na margem. O curso de Engenharia Ambiental do Centro Universitário Franciscano (Unifra) tem realizado pesquisas na área urbana do Cadena. Segundo o coordenador do curso, Alexandre Swarowsky, como o arroio passa nos fundos do prédio principal da instituição, tornou-se natural trabalhar a questão do Cadena com os estudantes. O trabalho realizado tem sido de monitoramento de índices, como os de infiltração da água no solo e vazão. – Temos notado que a infiltração é baixa. Quando chove, a velocidade da água é maior e acaba levando o que há pela frente. Queremos entender isso melhor e analisar os dados coletado nos últimos anos – diz Swarowsky. Para o professor, chama a atenção o fato de haver tanto lixo espalhado e, principalmente, as casas largarem o esgoto direto no arroio. – Muitos não dão valor ao que está acontecendo com o Cadena, mas, no futuro, isso poderá nos causar muitos problemas – argumenta o coordenador.

■ Em abril de 1997, um laudo do Departamento de Saúde Comunitária da UFSM apontou o Arroio Cadena como foco de contaminação do surto de hepatite A na Escola Municipal Aracy Barreto Sachis ■ Em 1998, uma inundação na Vila Urlândia fez com que prefeitura, Exército, Ministério Público, Corpo de Bombeiros e UFSM planejassem um mutirão para resolver os problemas nas áreas de risco. A retirada de moradores às margens de arroios e sangas foi cogitada, mas não foi colocada em prática ■ Em 1999, o promotor de Defesa Comunitária João Marcos Adede Y Castro entrou com uma ação civil pública pedindo a limpeza do arroio. A Justiça deu 15 dias para a prefeitura retirar o lixo. O prefeito da época, Osvaldo Nascimento, alegou que era perseguição política

Um atlas para conscientizar

10 | 12 E 13 DE FEVEREIRO DE 2011 MIX

material propositivo para professores de ensinos Fundamental e Médio, desenvolvendo temas como a importância da água para o planeta. Ao longo das páginas, também há fotografias de diferentes trechos do arroio. – O Cadena está muito poluído. Este é um problema que depende de educação ambiental para ser resolvido. Mas é preciso materiais que possam orientar os professores nessas aulas e percebi que eles eram escassos. O atlas traz uma espécie de glossário, no qual é possível saber o que são rios, arroios e outros termos que podem causar dúvidas tanto em alunos quanto em professores. – É um trabalho inédito, que certamente Wagner quer ajudar na conscientização ajudará muitos professores – afirma Lia.

19/01/11

U

m trabalho voluntário de extensão universitária levou o então estudante de Geografia da Unifra Wagner Danton de Bittencourt Bilhalva a buscar informações sobre o Arroio Cadena, em 2006. A intenção dele e de colegas da Unifra era ensinar estudantes da Escola de Ensino Fundamental Nossa Senhora da Providência a preservar o meio ambiente. Na hora de fazer seu trabalho de conclusão de curso, Wagner, orientado pela professora Lia Margot Dornelles Viero, decidiu fazer um atlas. Além de um cuidado muito especial com mapas que foram elaborados por ele mesmo, mostrando a localização do Cadena em bairros de Santa Maria, Wagner criou um

■ Em 15 de fevereiro de 2001, a casa do biscateiro Luiz Francisco Rodrigues dos Santos desabou dentro do Cadena, no bairro Salgado Filho. O morador escapou por pouco


■ Em março de 2003, uma chuva de 43 mm atingiu a cidade (a média histórica do mês é de 151,7mm). O Cadena transbordou e, pelo menos, sete bairros foram afetados

Mudanças em curso

LAURO ALVES – 09/08/10

■ Em fevereiro de 2004, 73 famílias que viviam em áreas de risco às margens do Cadena receberam casas no Loteamento Paróquia das Dores, na Vila Maringá. A falta de infraestrutura levou algumas delas a voltar para as antigas moradias ■ Em outubro de 2005, uma parte da Rua Coronel Porto foi engolida pelo Cadena durante uma chuvarada ■ Em 2007, o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), do governo federal, liberou R$ 128,1 milhões para a cidade, sendo R$ 88,6 milhões para a recuperação das bacias do Vacacaí-Mirim e do Cadena. Em 2009, a prefeitura conseguiu uma verba complementar de R$ 34 milhões do PAC. Do dinheiro, R$ 25 milhões eram para a recuperação das bacias. Já no ano passado, a cidade conseguiu R$ 8 milhões para obras na Nova Santa Marta e R$ 10,7 milhões para a segunda etapa do PAC – R$ 620 mil para fazer projetos de casas para famílias que moram em áreas de risco ■ Em junho de 2008, começou a construção da Avenida Perimetral Dom Ivo Lorscheiter, ligando as zonas Oeste e Norte. A obra, financiada pelo PAC custa cerca de R$ 21 milhões e não está finalizada. ■ Em 27 de outubro de 2008, 26 famílias foram retiradas das margens do Cadena pela prefeitura e levadas para um loteamento provisório na Vila Oliveira ■ Em 2 de dezembro de 2009, a chuva levou a ponte de concreto que ligava os bairros Carolina e Salgado Filho. Desde então, os moradores usam uma pinguela para fazer a travessia

Na Perimetral Dom Ivo Lorscheiter, entre a Walter Jobim e a Venâncio Aires, as obras do PAC evitaram nova erosão

J

aqueline dos Santos Ferreira, 27 anos, mora há pelo menos duas décadas em uma casa vizinha ao Cadena, no bairro Salgado Filho. Para sustentar os dois filhos, Kimberly, 3 anos, e João Vitor Ferreira, 11, e o irmão Vini dos Santos Ferreira, 12, ela recicla o lixo que recolhe ao longo do dia por diferentes partes da cidade. Muitas vezes a família perdeu tudo o que tinha devido às enchentes. A renda não é suficiente para alugar e, menos ainda, comprar uma casa em outro local da cidade. – Quando era criança, eu tomava banho no Cadena, porque ele era limpo. Tinha gente que lavava roupa e outros que buscavam água até para beber. Mas as coisas mudaram muito. Agora, é cheio de poluição, ratos e baratas vêm para dentro de casa e eu quase perdi as crianças uma vez que veio a enchente e tive de tirá-las pela janela porque já não dava para sair pela porta – conta a catadora. O drama de Jaqueline é o mesmo de muitos nas margens do Cadena. A história é quase sempre parecida: gente que não conseguiu ter uma casa em outro lugar da cidade e acabou indo para a beira do arroio. Em comum, elas também têm o sonho de serem contempladas nos programas habitacionais com financiamento do governo federal. Por mais que saídas para a poluição do arroio e para a remoção das famílias tenham sido discutidas, somente em 2004 um projeto entrou efetivamente em ação. Naquela época, já havia 2 mil famílias morando nas

margens do Cadena. Algumas delas já foram removidas para casas no Loteamento Paróquia Nossa Senhora das Dores, para casascontêineres na Vila Brenner e para habitações provisórias na Vila Oliveira. Segundo o coordenador técnico do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) em Santa Maria, Francisco Severo, quando o núcleo habitacional da Vila Brenner estiver pronto, deverá abrigar 386 famílias. No Km 2, devem ser entregues moradias para 190 famílias e, no bairro Lorenzi, para 74. A preferência é para pessoas que vivam em áreas de risco e vulnerabilidade social, critério no qual se encaixa quem mora perto do Cadena.

Locais onde a transformação chegou Em locais onde as obras do PAC avançaram, como a Perimetral Dom Ivo Lorscheiter, entre a Avenida Walter Jobim e a Rua Venâncio Aires, a realidade já mudou. O cheiro de esgoto ainda é forte, mas diminuiu bastante. Além disso, as margens já não ficam mais cheias de lodo e, segundo moradores, a contenção que foi feita no local para impedir que houvesse mais erosão funcionou, e as enchentes diminuíram. Aos poucos, a vegetação – que tinha sido totalmente removida – está voltando a fazer parte do cenário. – Os trechos que receberam obras do PAC tiveram uma melhora significativa. Por isso, encaminhamos um projeto para que fosse feita a canalização do arroio no bairro Sal-

gado Filho. Mas o pedido de R$ 65 milhões não foi aprovado pelo governo federal. Como o projeto é importante, pretendemos reencaminhá-lo – afirma Severo. A coordenadora geral do Conselho Municipal do Meio Ambiente (Condema), Ana Cristine Ferreira, diz que o órgão terá o futuro do Cadena em sua pauta em março. – Há muitos problemas que precisam ser resolvidos. Existem áreas do Cadena que funcionam como depósito de resíduos, um lixão mesmo. Encontra-se de tudo: geladeiras, fogões e pneus velhos. Falta um trabalho mais efetivo de coleta seletiva e projetos ambientais – afirma Ana. O chefe do Escritório Regional do Instituto Brasileiro do meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), Tarso Isaía, afirma que uma das vitórias do órgão em relação ao Cadena foi não ter permitido que o restante do arroio fosse fechado por canos como aconteceu na região do Itaimbé: – É uma mudança inaceitável. O que precisamos é recuperar o curso d’água. Segundo a Companhia Riograndense de Saneamento (Corsan), 50% das casas que têm água encanada na cidade também têm coleta de esgoto. O restante da população usa fossas ou despeja o esgoto em cursos d’água e na rede pluvial (água da chuva). – As pessoas não percebem que a água da chuva vai parar no Cadena – lamenta o chefe da unidade de Saneamento da Corsan em Santa Maria, Maximiliano de Moraes.

Jaqueline teve de tirar os filhos pela janela da casa

REPRODUÇÃO

16/01/11

■ Desde 4 de setembro de 2010, contêineres foram cedidos pela prefeitura e começaram a ser usados como moradia por famílias que estavam em áreas de risco

O Arroio Cadena antes da construção da Perimetral MIX 12 E 13 DE FEVEREIRO DE 2011 | 11


Cadena