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DIÁRIO DE SANTA MARIA SÁBADO E DOMINGO, 1º E 2 DE AGOSTO DE 2009

DIÁRIO DE SANTA MARIA SÁBADO E DOMINGO, 1º E 2 DE AGOSTO DE 2009

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ESPECIAL MANIPULAÇÃO SOBRE FOTO BANCO DE DADOS

A SÉRIE

CRACK

NO MEIO DO CAMINHO,

■ Nesta edição e nos próximos seis dias, o Diário mostra uma série de reportagens sobre o crack, que assolou rapidamente o Estado SÁBADO E DOMINGO, 1º E 2/08 – A droga SEGUNDA-FEIRA – A falta de leitos TERÇA-FEIRA – Meninas do crack QUARTA-FEIRA – O crack e a violência QUINTA-FEIRA – A prevenção SEXTA-FEIRA – O crack na região SÁBADO E DOMINGO – A esperança

Aprisionados pelo vício diariosm

com.br

Estimativa é que entre 1,5 mil e 3 mil santa-marienses sejam usuários da droga que vicia rapidamente

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NÚMEROS QUE PREOCUPAM ■ Usuários – A estimativa da Secretaria Estadual da Saúde é que Santa Maria tenha entre 1,5 mil e 3 mil usuários de crack. A exemplo do que ocorre em todo o Estado, esses números estariam aumentando rapidamente. Santa Maria já tem casos de mortes relacionadas ao tráfico da droga ■ Surgimento – Os primeiros relatos oficiais de usuários de crack em Santa Maria são de 2005, mas acredita-se que o crack tenha chegado à cidade muito antes disso. Naquela época, jovens confessaram que estavam usando a droga, mas a polícia não estava conseguindo localizar os pontos de distribuição. Hoje, a Polícia Civil acredita que haja pontos de venda em toda a cidade ■ Espera – Na região, por ordem judicial, cerca de 30 pessoas estão na fila de espera por leitos para desintoxicação, o primeiro passo para quem quer deixar o vício. Em Santa Maria, só a Casa de Saúde faz esse tipo de atendimento. O hospital tem 15 leitos destinados a pessoas com menos de 17 anos

rigo que os viciados em crack estão correndo vai além dos trazidos pela cocaína. Ele afirma que existe uma série de substâncias misturadas, como benzeno e ácido de bateria. – No início do aparecimento do crack no Estado, havia mais concentração de cocaína nele do que no produto vendido em pó. Provavelmente, isso era devido a uma falta de conhecimento entre os traficantes sobre como adulterar o crack. Hoje, é comum encontrar amostras da droga contendo concentrações reduzidas de cocaína – diz o perito. O diretor do Hospital Psiquiátrico São Pedro, de Porto Alegre, Luiz Carlos Coronel, afirma que os danos que o crack causa no cérebro podem se tornar irreparáveis em muitos casos: – Estamos assustados com o crack. É a primeira vez que uma droga não precisa de aumento de cada dose consumida para produzir efeito. O Diário produziu uma série de reportagens sobre o avanço do crack. Elas serão publicadas ao longo das próximas edições e revelam por que, apesar de toda a vontade que muitos usuários da droga têm de se recuperar, é tão difícil remover a pedra de seu caminho. marilice.daronco@diariosm.com.br

MAIS

Estado A estimativa é que, no Estado, haja cerca de 50 mil pessoas viciadas em crack. No Hospital Psiquiátrico São Pedro, em Porto Alegre, o número de internações em função do crack começou a aumentar consideravelmente há três anos

uma das aulas de terapia ocupacio- mata ou eu mesmo acabo fazendo nal. Os meninos fazem atividades isso. Crack não é vida – afirma um físicas, participam de brincadeiras e adolescente de 17 anos. oficinas como pintura, artesanato, e Infelizmente, as estatísticas não são desenhos, assistem filmes. Tudo tem tão positivas como a expectativa dos um objetivo bem claro, fazer com que meninos. Muitos garotos acabam volvoltem a se descobrir como crianças tando ao vício pouco depois da alta. e adolescentes que são e também – O meu irmão viu que eu tinha cofazê-los recuperar a autoestima. meçado a fumar e começou também. Nas quartas-feiras, alguns dos ga- Tinha uma boca de crack bem perto rotos voltam à sala de aula. O Grupo da nossa casa, era fácil conseguir. Mas de Estudo e Pesquisa sobre Forma- a minha mãe ficou doente e eu botei ção Inicial, Continuada e Alfabetiza- na cabeça que ia parar. Ele não. Veio ção (Gepfica) da se tratar obrigado UFSM ajuda os e logo que saiu Muitos meninos meninos a retovoltou para a pemarem – ou até dra – conta outro que estão em começarem – seu jovem de 17 anos. tratamento não aprendizado. Para tentar recebem uma mudar a realidavisita sequer de de dos garotos Esperança – O quando eles saem resultado de todo seus familiares do hospital, alguesse trabalho está mas atividades exposto nas paredes de alguns dos quartos, onde os são oferecidas também aos pais. meninos fazem questão de colar seus No entendimento dos profissionais desenhos, e em olhinhos brilhantes, que trabalham na unidade, a família precisa estar muito bem preparada cheios de esperança. – Eu vendia maconha para com- para que os meninos não recaiam prar crack. Chegava a fumar três na droga. Mas nem todos compregramas por dia. Agora, quando eu endem dessa forma. Alguns, ainda sair, vou cuidar do meu avô, que está que esperem bastante, não recedoente. Por isso, preciso ficar bem bem sequer visitas, muito menos longe do crack. E também, se eu a confiança de que precisam para voltar para a droga, ou a polícia me (re)construírem suas vidas.

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MANIPULAÇÃO SOBRE FOTO CHARLES GUERRA – 23/07/09

mesmo para os adultos: livrar-se da dependência no crack. Entre os adultos, o drama do craFelipe, 11 anos, começou a fumar crack com adolescentes que mora- ck não é menor. A droga, segundo vam perto de sua casa no ano passa- as autoridades da área de segurança, do. Experimentou por pura curiosi- causou uma explosão nos índices de dade: queria saber o que “os grandes violência. E, se para o usuário chegar da rua” sentiam ao fumar os cachim- ao ponto de querer parar de usar é dibos esquisitos. Não demorou muito fícil, conseguir leitos para desintoxicação e reabilitapara ficar viciado ção é ainda mais. na pedra, menos Casa de Saúde só Santa Maria não ainda para comedá conta de atender tem leitos públiçar a furtar e para cos para adultos, virar morador de os dependentes têm de ser rua. Foi com ele menores de 17 anos que encaminhados a que outro menino, que chegam por outras cidades. Lucas, 14 anos, fuNa segunda-feimou a droga pela ordem judicial ra, o Hospital de primeira vez, há Caridade entrega dois meses. Felipe e Lucas são nomes fictícios para uma ao Ministério Público uma proposta história que é verdadeira e assusta- para abrir 10 leitos para homens e doramente mais comum do que se mulheres na Casa de Saúde. imagina: o crack já tem entre 1,5 mil e 3 mil usuários na cidade. Entre eles, Efeito – A forma como a droga é muitos guris para os quais surgiu consumida – fumada – leva a cocaíuma pedra no caminho entre a in- na (matéria-prima do crack) rapidafância e a adolescência. mente ao cérebro e, já nas primeiras – Eu parei de ir no colégio e come- pedras, os usuários se viciam (veja cei a pegar arroz e massa de casa para quadro na página 16). O que mais astrocar por crack. Um vez, peguei di- susta é que as pedras se espalharam nheiro de um taxista, mas nunca usei rapidamente, tornando o crack uma arma. Já usei droga de todo jeito, de droga que distingue classe social, lata, de cachimbo, de pitico (maconha sexo, ou idade. com crack) – conta o menino de 11 A droga, aparentemente barata anos, que tem olhar de criança e jeito – cada pedra custa entre R$ 1 e R$ de falar incompatível com a idade. 5 – e de efeito rápido e intenso, vicia Hoje, os dois tão rapidamente garotos fazem mata. Para Diretor de hospital como companhia um ao lutar contra ela, de Porto Alegre que há muitas pedras outro, na Casa de Saúde – o único trata dependentes no caminho: falhospital de Santam leitos para diz que o crack ta Maria que têm desintoxicação pode causar vagas para intere reabilitação, os danos irreparáveis trabalhos educanar dependentes de crack menores tivos nem sempre de 17 anos. A detêm o apoio que manda é tanta que o hospital nem dá merecem, as famílias estão cada vez conta das ordens judiciais. Os 15 lei- mais desestruturadas, e é difícil comtos do hospital estão sempre lotados bater o tráfico de uma droga vendida de meninos que um dia comparti- em pedaços tão pequenos. lharam drogas e, hoje, dividem a luta Para o perito criminal da Polícia para vencer uma batalha difícil até Federal Marcelo Gatelli Holler, o peMARILICE DARONCO

Confira o especial sobre o crack, com dados sobre o avanço da droga, onde pedir ajuda para combater o vício e depoimentos de familiares de dependentes

É impossível percorrer o imenso corredor que dá acesso a ala onde estão internados os meninos do crack na Casa de Saúde sem perceber o feixe de luz que existe em seu final. É atrás exatamente disso – uma luz no seu caminho – que todos aqueles jovens estão ali. Basta um toque em uma campainha para que uma das profissionais da equipe que trabalha no local abra a porta. Não demora nada para que alguns dos garotos, curiosos, comecem a espiar por trás das grades que os separam do mundo do lado de fora. As grades, num primeiro momento, assustam. Fazem pensar em celas, em prisão. Mas, quando se passa por elas e a ouvir as histórias de violência, dependência e abandono, comuns entre a maioria daquelas crianças, percebe-se que a verdadeira prisão delas é o crack. Ali estão encontrando uma chance – talvez a única – de mudar essa realidade. Não faltam abraços e beijos quando se cruza a porta. A frieza inicial das grades cai por terra ao olhar as crianças jogando futebol ou bolita. Um painel colorido afixado na parede logo à frente das grades deixa claro que o que se quer por lá não é, nem de longe, criar um ambiente típico de hospital. O painel foi construído pelas próprias crianças em

OCUPANDO A CABEÇA Crianças e adolescentes internados na Casa de Saúde fazem diversas atividades para recuperar sua autoestima durante o tratamento

NA DESINTOXICAÇÃO Meninos lutam para se livrar do vício, internados na ala de dependentes da Casa de Saúde MANIPULAÇÃO SOBRE FOTO CHARLES GUERRA – 24/07/09

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DIÁRIO DE SANTA MARIA SÁBADO E DOMINGO, 30 E 31 DE MAIO DE 2009

DIÁRIO DE SANTA MARIA SÁBADO E DOMINGO, 30 E 31 DE MAIO DE 2009

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ESPECIAL CHARLES GUERRA – 22/06/09

DUAS VIDAS

CRACK

A DROGA DA

Adolescente, que em 2008 foi acorrentado pela mãe (à dir.) faz um desabafo: parou de fumar há sete meses depois de chegar ao fundo do poço. Ele e a mãe (abaixo) comemoram e lutam pela não-recaída

MAIS

Desespero Em abril de 2009, uma mãe matou o filho, usuário de crack, com um tiro após um ato de desepero. Leia o depoimento completo dela em www. cracknempensar. com.br

A pedra ■ O crack – É uma pedra derivada da cocaína, feita com a sobra não-refinada dessa substância misturada a bicarbonato de sódio ou amônia e a outros elementos tóxicos. Por ser uma sobra da cocaína, é mais barata e causa muito mais danos ao organismo. O formato sólido permite que a pedra seja fumada. O nome da droga surgiu devido ao barulho que a pedra faz ao ser queimada ■ O uso – O usuário queima a pedra de crack em cachimbo e aspira a fumaça. O crack também é misturado a cigarros de maconha, chamados de piticos. Muitas vezes, o cachimbo é improvisado em latinhas de alumínio

LAURO ALVES – 28/05/09

■ Efeito – O crack chega ao cérebro em oito a 12 segundos e provoca intensa euforia e autoconfiança. Por isso, é considerada uma droga mais rápida que a cocaína, que ao ser consumida leva de 10 a 15 minutos para começar a fazer efeito. Por outro lado, o efeito do crack dura cinco a 10 minutos, o que faz com que o usuário consuma várias pedras por dia

O crescimento do crack que degrada entre 1,5 mil a 3 mil usuários na cidade

A campanha O Grupo RBS lançou, na última quinta-feira, a campanha “Crack, Nem Pensar”. O objetivo é evitar novos usuários da droga que, no Rio Grande do Sul, já tem mais de 50 mil dependentes condenados à degradação física, mental e social. Todos são penalizados por essa epidemia, considerada um dos maiores problemas de saúde pública do Estado e a principal causa de violência nos grandes centros urbanos. O crack está na raiz das tragédias familiares. A campanha da RBS inclui reportagens e anúncios publicitários de TV, rádio, jornal e Internet. O site www.cracknempensar.com.br concentra informações sobre o assunto.

MARILICE DARONCO

“Eu não volto para esta vida, não. Estão se matando por causa do crack, e eu não caio mais nessa”. A declaração de um adolescente de 16 anos, que começou a fumar crack aos 13, serve de alerta para quem desconhece os perigos da droga. Desde novembro de 2008, o garoto está fora da estimativa da Secretaria Estadual da Saúde que diz que há entre 1,5 mil a 3 mil usuários da droga na cidade. Como a maioria dos viciados em crack, ele é apenas um menino que conheceu cedo demais o significado de estar no fundo do poço. O que o diferencia dos demais é o fato de ele ter deixado de consumir a droga, algo raro quando se fala da pedra da morte. Quem olha o menino com um sorriso no rosto e aspecto saudável não acredita que, em junho de 2008, ele estava em cima de uma cama, amarrado pelos pés, cadavérico. Foi a atitude de sua mãe, uma dona-de-casa de 44 anos, que escancarou um problema iniciado em 2005 em Santa Maria. Desesperada ao ver o filho mais magro e mais violento a cada dia, ela renunciou à condição de vítima: lutou por leito de internação para o filho quando não havia vagas. – Pensei que iam matá-lo. Toda vez que ele saia para a rua, eu tinha medo que o pegassem roubando alguma coisa e fizessem algo de ruim. Era o meu filho. Eu não podia só ficar olhando. Uma mãe não pode ver o filho se matando e ficar parada – lembra a dona-de-casa. Depois de fugir de um hospital em Rio Grande, onde foi parar graças a uma internação judicial, o garoto foi obrigado a se internar em Porto Alegre. – Cada vez que eu saía de um hospital, estava mais revoltado. Só pensava em quando ia fumar de novo. No Dia de Finados do ano passado, fiquei guardando carros, uma trabalheira danada. Ganhei R$ 70 e fui direto comprar crack. Estava tão viciado que não fez efeito nenhum. Então, decidi parar– afirma. Como a maioria das vítimas do crack, o garoto já furtou, já roubou e já viu amigos morrerem por causa da droga. A recuperação também não é fácil. Ainda mais com uma oferta tão perto de sua casa, onde a venda da pedra

■ Dependência – A fumaça do crack atinge rapidamente o pulmão, entra na corrente sanguínea e chega ao cérebro. É a forma de uso, e não a composição, que torna a pedra mais potente. A droga é tão forte que a pessoa se torna dependente nas primeiras vezes que consome

não parou. Histórias como a do adolescente e de pessoas que vendem o corpo para conseguir a droga e são capazes até de matar levaram à criação da Frente Santa Maria Contra o Crack,que reúne mais de 40 entidades da cidade, e ao lançamento da campanha Crack, Nem Pensar, do Grupo RBS. Em três anos, o número de usuários triplicou no Estado, chegando a cerca de 50 mil pessoas. O apoio aos usuários e os trabalhos de prevenção, no entanto, ainda engatinham. – O grito é geral e vem de cidades tão pequenas que nem se imagina.Estamos de mãos amarradas sem termos para onde mandar os depentendes – diz a coordenadora regional dos conselhos tutelares, Vera Maria Seckler Rauber. Para os representantes do Centro de Atendimento Psicossocial Álcool e Drogas (Caps AD), que trabalham com usuários e familiares, a saída para o crack não parte só das autoridades. A equipe acredita que a raiz do problema é mais profunda e passa por uma revisão da própria sociedade santamariense, que registra cerca de 25 mil viciados em álcool.

Punição – Com o conhecimento de quem vê a epidemia do crack bater a sua porta diariamente, a juíza da Infância e da Juventude de Santa Maria, Lilian Paula Franzmann, afirma que está na hora de todos agirem. Ela não pode fugir da obrigação de punir os viciados que cometem crimes, mas acredita que assim não está resolvendo o problema: – Preciso puni-los. Mas a minha preocupação maior tem sido em como prevenir que isso aconteça. Para quem acredita que está longe da epidemia, olhe ao redor. O crack não atinge só usuários e suas famílias. Ele é responsável pela escalada da violência e se tornou o maior problema de saúde pública gaúcho. As quatro páginas desta reportagem mostram que o crack chegou com tudo e só pode ser combatido se todos colaborarem. Mais conversas entre pais e filhos, maior atuação dos órgãos públicos e mais cidadania. Dê o primeiro passo: informe-se. marilice.daronco@diariosm.com.br

■ Mito – O baixo custo da pedra – em torno de R$ 5 – revela-se ilusório. Empurrado para o precipício da fissura, o dependente precisa fumar 20, 30 vezes por dia. Desfazse de todos os bens, é capaz de roubar de familiares e amigos, brigar e até matar para ter a pedra ■ Consequências – O crack afeta a visão, provoca dor no peito, convulsões e até coma. Em casos extremos, chega a provocar paradas cardíacas. A morte também pode ocorrer, devido à diminuição da atividade cerebral em áreas que controlam a respiração

Em números ■ Usuários – A estimativa da Secretaria Estadual da Saúde é que Santa Maria tenha entre 1,5 mil a 3 mil usuários de crack. A exemplo do que ocorre no Estado, esse número estaria aumentando drasticamente. No Rio Grande do Sul, ele dobrou nos últimos 3 anos, e já é de cerca de 50 mil pessoas. Santa Maria já tem casos de morte de usuários de crack registrados ■ Alerta – Os conselhos tutelares que atendem crianças e adolescentes até 17 anos recebem pedidos de ajuda para usuários. Na região Leste, 10 meninos esperam tratamento. Na Oeste, são em 8 pedidos por dia em média. No Centro, 3 por dia ■ Crescimento – Os primeiros relatos de usuários de crack em Santa Maria são de 2005. Naquela época, jovens confessavam ser consumidores, mas

a polícia não conseguia localizar os pontos de distribuição da droga. Hoje, a estimativa da Polícia Civil é que haja pontos de venda espalhados por toda a cidade. A Zona Norte é a campeã em apreensões

O tratamento

■ Ajuda – No Centro de Atendimento Psicossocial Álcool e Drogas (Caps AD), dos 428 pacientes, 134 eram usuários de crack em 2008. Neste ano, entraram nos grupos de apoio 177 novos dependentes, 47 de crack. No Grupo Amor Exigente, o número de famílias atendidas saltou de 200 para 600 depois que foram abertas vagas para dependentes de crack. Atualmente, a cada semana cerca de novas 10 famílias procuram ajuda para crianças entre 9 e 11 anos viciadas

■ Desintoxicação – O usuário é internado em um hospital até que os efeitos químicos da droga desapareçam do corpo. Em Santa Maria, só há 15 leitos públicos disponíveis na Casa de Saúde, que só recebe meninos entre 12 e 18 anos. Para conseguir um, é preciso ordem judicial. Os outros casos são encaminhados para Pelotas, Rio Grande e Nova Palma. As meninas são levadas a Caxias do Sul e Porto Alegre

■ Internação – Cerca de 60 pessoas estão na fila de espera por leitos para desintoxicação nas cidades atendidas pela 4ª Coordenadoria Regional de Saúde. O Husm não tem serviço especializado para o crack, só fornece leitos com o pedido judicial. Só a Casa de Saúde oferece leitos: 15

■ Ressocialização – O usuário vai para comunidades terapêuticas, onde fica longe da droga e onde há atividades que o incentivam a se recuperar dos traumas que o levaram para as drogas. Essa etapa pode levar vários meses.

O usuário de crack precisa passar por três fases de tratamentos para se livrar da droga: Em Santa Maria não há comunidades conveniadas com o Estado porque nenhuma tem a equipe de profissionais exigida. Os pacientes são levados a Santo Ângelo, Caxias do Sul e Santa Cruz do Sul ■ Acompanhamento – Mesmo após anos de recuperação, o usuário pode recair caso não tenha acompanhamento para si e sua família. Em Santa Maria, o atendimento é oferecido pelo Centro de Atendimento Psicossocial Álcool e Drogas. Hoje, ele está lotado e não recebe novos pacientes. A cidade não tem atendimento para crianças e adolescentes. Quem consegue ordem judicial vai para Santo Ângelo

A família e a recuperação ■ Sinais – Atenção aos sintomas do crack. Em poucas semanas, o dependente apresenta emagrecimento acentuado, agressividade, depressão, dedos e boca queimados e até delírios e paranoias ■ Ajuda – Quanto antes houver ajuda, mais chances o usuário tem. Em Santa Maria, é possível procurar os postos de saúde, que darão encaminhamento para o atendimento de psicólogos e psiquiatras. A desintoxicação é uma fase importante, mas conseguir leito é difícil. Os conselhos tutelares são a porta de entrada para conseguir ordens judiciais de internação ■ Aceitação – Toda a família faz parte do problema e todos terão de ajudar a resolvê-lo. Se a família não rever suas atitudes, a chance de recaída é alta. As presenças materna e paterna são fundamentais. É comum pais darem dinheiro ao filho se ele se dispor a se internar. Isso só atrapalha a recuperação Fonte: Ministério da Saúde

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DIÁRIO DE SANTA MARIA QUARTA-FEIRA, 5 DE AGOSTO DE 2009

DIÁRIO DE SANTA MARIA QUARTA-FEIRA, 5 DE AGOSTO DE 2009

| 10 e 11 | GERAL MANIPULAÇÃO SOBRE FOTO CLAUDIO VAZ – 31/07/09

Jovem diz ter matado um homem pela fissura que tinha pela droga

VIOLÊNCIA MARILICE DARONCO

“Não existe dificuldade nenhuma para conseguir crack. Difícil é arrumar dinheiro”. A frase é de um adolescente de 17 anos, internado desde abril do Centro de Apoio Sócio-Educativo de Santa Maria (Case) por ter matado um homem de 42 anos com resquícios de crueldade. A frase resume como um problema que seria originalmente da área de saúde – a dependência química – transformou-se também em questão de segurança. As estatísticas sobre quantos crimes na cidade estão de fato ligados ao uso do crack não existem. Porém, as autoridades da área de segurança garantem que se chegou a um ponto em que sequer são necessários números para comprovar a associação entre crack e violência, que está escancarada para quem quiser ver. Sem dinheiro, os viciados não conseguem a droga e, para consegui-la, acabam se tornando capazes de tudo: furtar, roubar, assaltar e até matar. Exemplo disso é o adolescente que disse a frase acima. Ele confessou um dos crimes mais brutais que já ocorreram em Santa Maria. Disse à polícia que usou faca, pedaço de pau, tijolo e fogo para matar Pedro Oliveira Dias, 42 anos, porque ele teria ficado de comprar R$ 50 em crack e não lhe entregou (veja depoimento ao lado). Em entrevista ao Diário, repetiu

Parecia a cracolândia

MORTE

– sem nenhum orgulho – que matou um homem por causa da droga. Diante disso, poderia se ter a imagem de um bandido sem coração. Mas isso nem de longe lembra o menino que olha nos olhos e aconselha – com convicção – que ninguém fume crack. O que causa tamanha oscilação de personalidade? A resposta, segundo os especialistas, pode ser a fissura pela droga. O psiquiatra Félix Kessler, um dos mais reconhecidos pesquisadores da dependência química no Brasil, é um dos que defendem que o perfil do usuário da pedra é mais violento que o das demais drogas. – O usuário do crack prefere roubar, que é mais rápido. Por isso, usa faca, revólver ou mesmo a violência física, já que forma pequenos grupos para atacar na rua. Há pelo menos três homicídios na cidade com relação direta à droga – diz o delegado Sandro Meinerz, que responde pela 1ª e 3ª delegacias de polícia, que investigaram as três mortes (veja quadro).

Apreensão – Na última segundafeira, ocorreu a maior apreensão de crack de Santa Maria. Foram dois quilos, o suficiente para produzir pelo menos mil pedras de crack. A estimativa da polícia é que o casal preso por tráfico fazia cerca de três viagens a Santa Cruz do Sul por mês para buscar quantidade semelhante de

Um tatuador santa-mariense de 30 anos, que está internado em uma fazenda terapêutica de Jari há um mês e 15 dias, era consumidor de crak há quatro anos. Ele chegou a ter um problema em um dos pulmões, que deixou de funcionar – fato atribuído pelos médicos aos efeitos do crack. Para conseguir as cerca de 20 gramas que consumia todos os dias, ele afirma que cometeu crimes arriscados e está respondendo por eles. Um deles foi um assalto a uma agência lotérica da Avenida Presidente Vargas, outro um assalto a uma empresa de transporte coletivo onde um guarda foi feito refém. Tudo para conseguir dinheiro para a pedra. – Minha casa parecia a cracolândia. Sempre tinha gente consumindo crack lá. Me arrisquei muito em assaltos. Fui pego pela polícia, mas isso não foi o pior que poderia me acontecer. Chegamos a trocar tiros com policiais. Agora, eu poderia es-

MAIS

Extremo Em Caçapava do Sul, um jovem viciado em crack é suspeito de ter matado cães e comercializá-los como se fossem carne de ovelha e porco para ter dinheiro para comprar a droga

Assaltos, furtos, roubos e assassinatos em Santa Maria estariam relacionados à dependência

crack, fazendo entrar na cidade mais de 3 mil pedras da droga por mês. De acordo com o titular da Delegacia de Furtos, Roubos, Entorpecentes e Capturas (Defrec), Vladimir Urach, apreender tanta droga está cada vez

mais difícil. E isso, de forma alguma, significa redução no tráfico. O delegado desconfia que, para não serem pegos, os traficantes estariam usando pessoas – principalmente adolescentes – para servirem como formigas, jargão policial aplicado a pessoas que carregam pequenas quantidades de pedra de crack e vão até os pontos de distribuição buscar a droga várias vezes por dia. Quando elas são abordadas pela polícia, livram-se das pedras ou, devido à pequena quantidade, alegam que são só consumidores. – Está na cara que as ocorrências de furto e roubo, inclusive a ônibus, estão relacionadas ao crack. No desespero para conseguir crack, os usuários perdem a noção do que estão

fazendo e são capazes de uma violência exacerbada – afirma Urach.

RECUPERAÇÃO Tatuador de 30 anos está internado em uma fazenda terapêutica

Perfil – O diretor do Case, Vitélio Rossi de Freitas, diz ter notado uma mudança no perfil dos adolescentes encaminhados ao local. Segundo ele, de março para cá, a maioria dos jovens que chegaram para cumprir medidas sócioeducativas tinha cometido crimes mais violentos. – O que está acontecendo é errado. Eles cometem crimes relacionados ao crack e são encaminhados direto para cá. Estamos praticamente fazendo a desintoxicação desses meninos. E, quando eles saem, a sociedade não está preparada para recebê-los. Não demora a voltarem – lamenta Freitas. marilice.daronco@diariosm.com.br

MANIPULAÇÃO SOBRE FOTO CHARLES GUERRA – 29/07/09

‘Eu vi que a casa estava queimando, saí e deixei ele lá’ Jovem de 17 anos que cumpre medida socioeducativa depois de confessar ter esfaqueado um homem, batido nele com um pedaço de pau e um tijolo, e ter colocado fogo no corpo, afirma que agiu por fissura do crack. Para quem pensa em experimentar, ele aconselha: não vale a pena.

O PESO DO PROBLEMA ■ Nos oito primeiros meses de 2008, foram apreendidas 37 vezes mais gramas de crack na cidade do que no mesmo período de 2007. Nos sete primeiros meses de 2009, o número de apreensões despencou. Segundo a Polícia Civil, provavelmente, isso teria ocorrido porque os traficantes pararam de circular com grandes quantidades da droga para evitar a caracterização de crime de tráfico de entorpecentes. No começo deste mês, houve a maior apreensão da história da cidade: 2 quilos de crack

dade nenhuma. Difícil é arrumar dinheiro. Eu chegava a fumar R$ 400 por noite. Comprava pedra de R$ 5 ou de grama. Quando era de grama, chegava a pagar R$ 20 a grama. Tendo dinheiro, em cidade que nem a nossa, tem crack em qualquer esquina.

Diário – E o que aconteceu lá? Adolescente – Ele me falou que já tinha fumado tudo, e eu perguntei como é que eu ia ficar. Ele disse que era para eu esperar que ele me pagava. Eu estava muito nervoso, e disse que não ia esperar coisa nenhuma. Ele me agrediu com um tapa e um Diário – E como você conseguia soco. Eu, então, dei uma facada nele. Diário – Com que idade e por dinheiro? Diário – Ele morreu na hora? Adolescente – Eu tinha de fazer alque você começou a usar crack? Adolescente – Não. Ele tinha caíAdolescente – Eu tinha 13 anos guma coisa para ter dinheiro: roubar, quando fumei maconha pela pri- assaltar ou fazer algum outro tipo de do do lado de fora da casa. Juntei um meira vez. Nunca mais parei de usar delito. Eu também trabalhei numa tijolo e joguei na cabeça dele. Eu estadrogas. Cocaína, eu usei pela pri- reciclagem. Naquela época, trabalha- va revoltado pela droga, pelo tapa que meira vez com 15 anos. O crack veio va o dia todo, e o dinheiro ia só para ele me deu e umas coisas que ele tinha me falado. Não consegui me segurar. por acaso. Eu comecei a fumar por o crack. Quando ele caiu, botei fogo na casa curiosidade, com 16 anos.Via amigos Diário – Você não tinha medo de do amigo dele e dei mais duas paulausarem. Eles fumavam demais, tanto das nele. Ele se levantou e correu para no cachimbo quanto na lata. Quis ex- morrer em um assalto? dentro de casa. Eu vi que a casa estava Adolescente perimentar para queimando, saí e deixei ele lá. – Não. Eu tinha saber qual era a Juntei um tijolo medo de fazer o daquela droga. e joguei na cabeça que acabou acon- Diário – E o que você fez logo dele. Quando ele tecendo, perder o que saiu de lá? Diário – Você caiu, botei fogo Adolescente – Fui para a casa de controle e matar sabe quantas peum amigo meu e cheirei cola para alguém. dras fumou até na casa e dei mais aliviar um pouco. Uma meia hora deficar viciado? duas pauladas nele Diário – Você pois, a polícia chegou para me buscar. Adolescente confessou ter Eu não lembrava de nada. Fui lem– Me viciei uma matado um ho- brando aos poucos. ou duas semanas depois de começar a fumar. Notei mem. Foi pela droga? Diário – Você começou a fumar Adolescente – Foi. Eu tinha roubaque estava dependente porque todo o dinheiro que eu pegava, usava no do e conseguido uns R$ 500. Fumei crack por curiosidade. O que diria crack. Ele agia ligeiro e passava mais crack durante três dias. O dinheiro para quem tem a mesma curioligeiro, então eu logo queria outra pe- estava acabando, e eu estava ansio- sidade que você tinha na época, dra. Conheço gente que viciou mais so para fumar de novo. Era o último mas nunca usou essa droga? Adolescente – Não experimente. rápido. Quando usam álcool, cachaça, dinheiro que eu tinha, uns R$ 50. Ele na primeira vez que fumam, já ficam falou que sabia onde tinha crack de Se experimentar, mesmo que use ouR$ 15 a grama. Ele ia buscar. Mas as tro tipo de droga, vai gostar do crack. viciados. horas se passaram e ele não vinha. Não vale a pena. Eu perdi todos os Diário – Era muito difícil com- Percebi que ele tinha comprado e fu- amigos. Esse cara que eu matei, mormado. Descobri que ele estava na casa reu pela dependência. Eu vou fazer o prar a droga? que puder para ficar longe do crack. Adolescente – Não existe dificul- de um amigo e fui atrás dele.

CERCO AO TRÁFICO Apreensões de crack em Santa Maria (em gramas) Mês 2009 2008 2007 Janeiro 1.641,0 18,3 2,7 Fevereiro 0 105,0 33,7 Março 118,7 988,0 0,9 Abril 5,3 224,0 0 Maio 101,7 55,0 67,0 Junho 699,7 1.798,0 3,0 Julho 25,9 1.738,0 0 Agosto 2.003,5 79,0 28,4 Total 4.595,8 5.005,3 135,7 Fonte: Delegacia de Furtos, Roubos, Entorpecentes e Capturas de Santa Maria (Defrec)

Confira algumas das principais ocorrências envolvendo tráfico de crack em 2009: ■ 2 de janeiro – Faxineira de 26 anos foi presa com 40 gramas de cocaína, 90 gramas de maconha e 18 pedras de crack na Vila Lorenzi ■ 14 de janeiro – A polícia apreendeu mais de 1,5 quilo de crack em casas da invasão do Km 2. Cinco pessoas foram presas

■ 12 de junho – Dois irmãos foram presos no Residencial Cipriano Rocha. Foram apreendidos com eles quase meio quilo de maconha, pedras de crack, dinheiro e outros objetos

■ 5 de março – Um homem de 25 anos foi preso em flagrante na Rua Venâncio Aires com 20,1 gramas de crack

■ 23 de julho – Três pessoas foram presas na Vila Maringá. A polícia encontrou pedras de crack enterradas em uma casa, e maconha, cocaína, dinheiro, munição e uma balança de precisão em outra residência

■ 26 de março – Cinco pessoas foram presas no bairro Itararé, com 70 pedras de crack, duas gramas de maconha, um revólver com a numeração raspada, munição, dinheiro e objetos

■ 3 de agosto – Uma dona-de-casa de 35 anos e um mototaxista de 39 foram presos na RSC-287, perto de Arroio do Só. Eles traziam drogas de Santa Cruz do Sul para Santa Maria

DO VÍCIO À MORTE Pelo menos três homicídios que ocorreram em Santa Maria este ano teriam relação com o crack ■ 10 de março – Dionatam Braz de Oliveira, 23 anos, teria sido morto por um traficante com quem tinha uma dívida de R$ 20. A vítima passava pela Linha Velha da Fronteira, na Vila Carolina, quando foi morta com um tiro nas costas ■ 6 de abril – O corpo de Pedro Oliveira Dias, 42 anos, foi encontrado, carbonizado, em uma casa na invasão da BR-158, bairro Urlândia. A vítima teria sido agredida com tijolaços na cabeça e pedaços de pau e queimada. Um adolescente

confessou que agrediu a vítima porque lhe deu R$ 50 para comprar crack, mas a droga não foi entregue ■ 20 de maio – Marcelo Correa foi morto com três tiros pelas costas na Vila Carolina. Segundo investigação da 3ª Delegacia de Polícia de Santa Maria, havia uma rixa entre o autor dos disparos e a vítima devido ao tráfico de drogas. Correa estaria devendo dinheiro de crack para o homem que o teria matado

A SÉRIE

CRACK

■ Nesta edição e nos próximos três dias, o Diário mostra uma série de reportagens sobre o crack, que assolou rapidamente o Estado SÁBADO E DOMINGO, 1º E 2/08 – A droga SEGUNDA-FEIRA – A falta de leitos ONTEM – Meninas do crack HOJE – O crack e a violência AMANHÃ – A prevenção SEXTA-FEIRA – O crack na região SÁBADO E DOMINGO – A esperança MANIPULAÇÃO SOBRE FOTO BANCO DE DADOS


DIÁRIO DE SANTA MARIA SEXTA-FEIRA, 7 DE AGOSTO DE 2009

| 18 | GERAL

CRACK

AS PEDRAS ROLAM

“Não é impossível de ter acontecido” A irmã de 24 anos do jovem de 18 acusado de ter matado mais de 20 cães em Caçapava do Sul para vender a carne como se fosse de porco e ovelha contou ao Diário o drama que a família vive desde que ele se tornou dependente do crack. Ela diz que os parentes estão agarrados à possibilidade de ele se recuperar do vício depois de uma internação para desintoxicação. Leia abaixo:

Localização geográfica estaria facilitando a rota de passagem do tráfico do Estado

Irmã – Ele não queria conversar. A coisa estava feia. Dos 80 quilos que pesava antes do crack, estava com menos de 60. E continuava tirando muita coisa de casa. Eu ia na casa dos vizinhos para buscar de volta as coisas que ele vendia. Ameaçava chamar a polícia. Ele só tirava de casa porque tinha gente que comprava na rua. Não passo a mão na cabeça dele, mas quem compra produto que sabe que é furtado também alimenta o crime.

Diário – Como o seu irmão começou a usar drogas? Irmã – Já havia sido um golpe descobrir que ele fumava maconha aos 15 anos. Nosso pai era alcoólatra, e não queríamos mais ninguém metido com drogas. Um dia, a minha irmã chegou mais cedo do trabalho e encontrou ele fumando maconha.

Irmã de usuário de pedra torce pela sua reabilitação MANIPULAÇÃO SOBRE FOTO MARCELO BARCELOS, GAZETA DE CAÇAPAVA

e vendido a carne como se fosse de porco e de ovelha. – O depoimento dele será na seNada de roupas secando no varal à noite. Trancas fechando as portas gunda-feira. Não foi ouvido ainda e janelas das casas. Carros cuidado- porque estava em tratamento. Mas samente guardados. Esse cenário temos provas concretas que está em nada lembra o sossego que fazia envolvido no crime Não só há testemuita gente procurar refúgio em munhas como também outros fatos, pequenas cidades da região. Mas os como ele ter ganho cães do canil do município para tomar conmoradores foram forçados ta, e 21 carcaças terem sido a transformarem suas ca- DIÁRIO sas em verdadeiras forta- DA REGIÃO encontradas em um terreno perto de sua casa – afirma lezas diante da insegurança trazida pelo crack. Homicídios rela- a delegada Fabiane Bittencourtt, rescionados à droga, furtos por toda a ponsável pelo caso. Desde que o crime foi descoberto, parte, crianças e adolescentes viciados, famílias destruídas. Essa já não em junho, a família do rapaz não tem é uma realidade só da maior cidade sossego. Além de fazer de tudo para da Região Central – Santa Maria. As que ele se recupere, os irmãos e a mãe pedras rolaram e quebraram de vez a precisam conviver com o preconceito. Na rua, eles são tratados como “os tranquilidade do Interior. A posição geográfica é apontada parente do adolespelo delegado regional da Polícia Ci- cente que vendeu vil, Oscar Corrêa dos Santos Júnior, carne de cachorro”. – Se ele fez mescomo um dos fatores que facilitam a circulação da droga vinda de países mo, foi porque se vizinhos. Cortada por rodovias como tornou uma vítima a BR-158, uma das mais importantes do crack – diz uma do país, a região pode servir de rota das irmãs (leia depara o tráfico. Se um número incal- poimento ao lado). culável de pedras apenas circulam, outras tantas estariam encontrando Violência – Hisconsumidores por aqui mesmo. tórias de desgraça Um dos consumidores das pedras em função do crack é um jovem de 18 anos, morador de se propagam pelo Caçapava do Sul. Ele é suspeito de Interior, deixando um rastro de famípraticar um crime do qual a família lias desestruturadas, de violência e de não quer acreditar, mas que embru- desespero, já que não há leitos para o lhou o estômago de muita gente. tratamentos de todos. Raras são as ciPara conseguir dinheiro para sus- dades que ainda não tiveram grandes tentar o vício, ele teria matado cães apreensões de crack e que ainda não

encaminharam pedidos para internar dependentes da droga. – Estima-se que em São Sepé haja cerca de 200 usuários. É muito para uma cidade pequena como a nossa. Se os crimes são cada vez maiores, a idade das vítimas é cada vez menor – afirma a promotora do Ministério Público de São Sepé Cíntia Foster. Em São Sepé e São Gabriel, o Ministério Público está engajado em projetos para unir forças com a polícia, secretarias de saúde, prefeitura, Estado e Brigada Militar. Algumas ações já surgiram como palestras para a comunidade e uma escolinha de futebol para vítimas da droga. O comandante regional da Brigada Militar, coronel Silvio Régis Rosa Machado, defende que ações conjuntas são a única forma eficiente de combater o crack. Para ele, policiamento não é suficiente para conter o seu avanço e a violência gerada pela pedra. – É uma questão que vai além da segurança. Nunca houve tantas prisões e apreensões. Mas acabar com essa epidemia não depende só da polícia. Precisamos de apoio de todos, inclusive das famílias, que, muitas vezes, esquecem de educar seus filhos e só se dão conta disso quando já é tarde demais – diz Machado. marilice.daronco@diariosm.com.br

A SÉRIE

!

ESPERANÇA

MARILICE DARONCO

Diário – Ele chegou a ser internado em dezembro do ano passado. O tratamento não adiantou? Irmã – Ele ficou 10 dias em desintoxicação no hospital de Caçapava. Ele fugiu, nós o levamos de volta para o hospital, mas ele conseguiu nos convencer que estava curado. Nós o levamos para casa. Em pouco tempo, Diário – E chegaram a conversar ele voltou para o crack. com ele naquela época? Diário – E o que ele conta para Irmã – Sim. Como ele tinha problemas de rendimento na escola vocês dessa suspeita de vender – só estudou até o 2ª ano do Ensino carne de cachorro? Irmã – Para Fundamental –, nós da família, queríamos que ele Irmã do jovem que não diz nada. Ele fosse acompanhavendia carne de sabe que a polícia do por um psicóestá investigando, logo. E buscamos cachorro acredita mas não toca no apoio do Grupo que, pelo crack, assunto. Amor Exigente. as pessoas são Mas ele disse que Diário – Vocês a maconha era capazes de tudo acreditam que uma droga fraca. ele possa ter coNós, eu admito a nossa culpa, não levamos o vício metido esse crime? Irmã – A gente sabe que, pelo cradele a sério. ck, as pessoas são capazes de tudo. Eu não quero acreditar que ele tenha Diário – E o crack? Irmã – Começou uns dois anos feito isso. Mas se um usuário de crack depois, com 17 anos. Na nossa vila, até mata para ter a droga, isso não é tem traficante de tudo quanto é lado, impossível de ter acontecido. Só acho é só chegar e pegar a pedra. Quando a que tem outro problema por trás disso. Se for verdade, todo mundo por gente viu, ele já estava no crack. aqui sabia que ele não era um criaDiário – Como vocês descobri- dor, por que compravam carne sem procedência? ram que ele usava crack? Irmã – Quando ele começou a Diário – Ele voltou para casa pedir muito dinheiro sem conseguir explicar o porquê. De uma hora para depois de mais um tratamento. a outra, ele mudou completamente Como ele está? Irmã – Foi ele quem pediu para ser o comportamento. Tornou-se mais agressivo. Ele é o nosso irmão mais internado num hospital onde não renovo, o bebê da família. De repente, cebesse nossa visita para não correr a gente começou a perceber que esta- o risco de nos convencer a tirá-lo do vam sumindo coisas de casa. Ele ven- tratamento. Conseguimos interná-lo deu as roupas ou trocou por crack, e em Pelotas em 19 de junho. Ele voltou essa semana e fica só em casa. Não não tinha mais nem o que vestir. saiu atrás de drogas. Aliás, acho que Diário – E vocês voltaram a con- essa é a esperança de toda a família que tem um dependente do crack. versar com ele sobre isso? ■ Nesta edição e na do final de semana, o Diário mostra uma série de reportagens sobre o crack, que assolou rapidamente o Estado SÁBADO E DOMINGO, 1º E 2/08 – A droga SEGUNDA-FEIRA – A falta de leitos TERÇA-FEIRA – Meninas do crack QUARTA-FEIRA – O crack e a violência ONTEM – A prevenção HOJE – O crack na região FINAL DE SEMANA – A esperança MANIPULAÇÃO SOBRE FOTO BANCO DE DADOS

Crack  

Algumas das reportagens publicadas com a temática crack no Diário de Santa Maria.

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