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DIÁRIO DE SANTA MARIA SÁBADO E DOMINGO, 29 E 30 DE MARÇO DE 2008

DIÁRIO DE SANTA MARIA SÁBADO E DOMINGO, 29 E 30 DE MARÇO DE 2008

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ESPECIAL Há um mês, crianças e adolescentes estão em casa porque não há ônibus para levá-los às escolas MARILICE DARONCO

O despertador tocando cedinho, o ônibus escolar parando na frente de casa, os temas para fazer ao chegar da aula, as dúvidas sobre o conteúdo... O que para muitos dos 29 mil alunos das escolas estaduais de Santa Maria é uma rotina, para cerca de 612 que moram na zona rural ou têm necessidades especiais é só lembrança. As férias forçadas, causadas pela falta de um acordo entre Estado e prefeitura que garanta o transporte escolar, estão deixando frustrados alunos como Rosiane Sttelo Ilha, 15 anos. Com a mochila pronta para recomeçar o ano, ela e outras adolescentes e crianças não têm a menor idéia de quando vão ter um reencontro com a educação que lhes foi negada. Na sexta-feira, um avanço nas negociações trouxe um pouco de alento, mas como nada está resolvido ainda, permanece a agonia da espera. Nesta e nas próximas duas páginas, o Diário conta a história de pais, professores e alunos do Colégio Coronel Pilar e da Escola Estadual Almiro Beltrame, um dos colégios da zona rural que está em situação mais difícil. Além de ter as maiores distâncias em relação às casas dos alunos, a escola perdeu 41 estudantes neste ano. Eles pediram transferência no começo deste ano, já prevendo que o problema que ocorreu em 2007 se repetiria (veja quadro). As histórias de Rosiane, Maurício, Taís, Sabrina, Diego, Vinícius, Geandra e suas famílias são exemplos do que o impasse entre dois poderes públicos pode fazer. Desde o dia 3, quando o ano letivo recomeçou, pais estão deixando o trabalho de lado para poder ficar de olho nos filhos. Para passar o tempo e tentar segurar a angústia e o medo de perder o ano, eles brincam, ajudam em casa, revisam os conteúdos do ano anterior. Só não conseguem fazer uma coisa: ter a educação que a Constituição diz que é um direito de todos. E não são só os pais que se desdobram. Os alunos também. Para não esquecer o que aprendeu na quinta série, Rosiane passa a maior parte do dia revirando os cadernos do ano passado. É ali que encontra inspiração para continuar confiante de que mais cedo ou mais tarde vai voltar para a sala de aula. – Muita gente da minha escola já mudou de colégio. Não vou fazer isso. Um dia vai chegar o transporte até aqui. Tomara que seja logo – crê a adolescente. Rosiane também ajuda a avó,Zelindra Martins Ilha, 72 anos, com quem mora. Apesar de o pensamento dela estar a 10 quilômetros da propriedade rural, dentro da sala de aula, é na horta que a garota passa boa parte do tempo. Ela ajuda a limpar os canteiros e a colher alimentos. – Assim que recebi o dinheiro do Bolsa-Família, corri para comprar o material escolar dela. Eu, que não tenho estudo, sei o quanto essa distân-

TRANSPORTE Impasse do poder público deixa 612 alunos sem estudo e frustra expectativas FOTOS CHARLES GUERRA – 26/03/08

O PROBLEMA

O QUE FIZERAM

COM A EDUCAÇÃO

DELES?

■ Em 2007, as escolas estaduais de Santa Maria ficaram sem transporte porque Estado e prefeitura não se acertavaram quanto ao valor que cada um deveria pagar pelo serviço ■ Em outubro de 2007, o Juizado Regional da Infância e Juventude de Santa Maria determinou que, em 2008, o Estado seria responsável pelo transporte

■ 2008 começou, o Estado não garantiu o serviço e ofereceu R$ 1,91 por aluno, ao dia. A prefeitura considerou que o valor era insuficiente ■ Em 6 de março, o Tribunal de Justiça (TJ) suspendeu a determinação do juizado. Quatro dias depois, a prefeitura fez nova proposta: pagar 50% do valor do serviço se o Estado assumisse a outra metade. O Estado não aceitou ■ Na última sexta-feira, houve uma reunião do prefeito Valdeci Oliveira com a secretária de Educação do Estado Mariza Abreu. Ficou definido que o Estado se responsabilizaria por pagar 50% do valor do transporte (R$ 1,91 por aluno) e a prefeitura, os outros 50%.Na segunda-feira, haverá uma reunião para oficializar a proposta. Deve ser aberto um leilão para escolher as empresas que farão o transporte, ainda sem data para voltar

Quem ficou sem condução

TRISTEZA ESTAMPADA Rosiane Ilha, 15 anos, passou para o sexto ano na Escola Almiro Beltrame, em Boca do Monte. A fecilidade pela conquista dá lugar à angústia. Ela não tem condução para ir à aula e não sabe quando terá

cia da sala de aula está prejudicando O problema é que não se sabe se a minha filha – afirma Zilma Sttelo haverá empresas candidatas a fazer Martins, 37 anos, mãe de Rosiane. o serviço por R$ 3,82, já que o preço dos roteiros para transportar os Fio de esperança – Na sexta-feira, estudantes dos distritos varia entre o prefeito de Santa Maria, Valdeci R$ 3,50 e R$ 6,02. Conforme o viceOliveira, esteve em Porto Alegre para presidente da Cooperativa de Transuma audiência com a secretária es- portes Alternativos de Santa Maria tadual de Educação, Mariza Abreu. (Cootransporte), Alex Colpo, para deFicou definido que o Estado se res- terminados roteiros, especialmente ponsabilizará por bancar os custos em Boca do Monte, será difícil achar determinados pelo Programa Esta- uma empresa que concorde em fazer dual de Transporte Escolar (Peate/ o transporte por esse valor. De acordo com o secretário muniRS): R$ 1,91 por aluno por dia para a cidade. A prefeitura deve dar uma cipal de Comunicação Social, Tiago contrapartida do mesmo valor. O Machado, na próxima semana deve total será de R$ 3,82 ppor aluno. Na ser aberto um leilão para que as emsegunda, representantes do Estado e presas se inscrevam. As que se adedo município vão à Vara da Infância e quarem ao valor, serão contratadas. Juventude oficializar a proposta. (Colaborou Fernanda Mallmann)

O TEMPO PASSA DEVAGAR Enquanto aguarda, Rosiane revisa os conteúdos que aprendeu em 2007 e ajuda a avó, com quem mora, na horta da família

Só eles sabem a falta que faz

Na zona rural ■ Escola Boca do Monte, em Boca do Monte – 72 alunos ■ Escola Almiro Beltrame, em Boca do Monte – 84 alunos ■ Escola Princesa Isabel, em Arroio do Só – 96 alunos ■ Escola Arroio Grande, em Arroio Grande – 174 alunos Classes especiais (na zona urbana de Santa Maria) ■ Escola de Educação Especial Doutor Reinaldo Fernando Coser – Aproximadamente 50 alunos ■ Escola Cícero Barreto – 3 alunos ■ Escola Coronel Pilar – Aproximadamente 100 alunos ■ Instituto de Educação Olavo Bilac – 26 alunos ■ Instituto de Estadual Padre Caetano – 7 alunos

TUDO PRONTO Vinícius (a partir da esq.), Taís, Maurício e Diego estão com as mochilas feitas. Só esperando a hora de voltar

Quem tem um filho em casa, quando ele deveria estar na escola, sabe da preocupação que toma conta da dona-de-casa Zenaide da Silva Teixeira, 38 anos, desde o dia 3 de março. Ela não tem apenas um, mas cinco filhos sem estudar porque não há transporte para levá-los à Escola Almiro Beltrame, que fica a 10 quilômetros da casa onde mora a família, em Boca do Monte. – Eu nunca botei os pés numa sala de aula. Sou analfabeta. O meu marido também estudou pouco. Sempre quisemos que com os nossos filhos fosse diferente. Vê-los faltar às aulas é uma dor que não tem explicação – afirma Zenaide. As três crianças e as duas adolescentes estudam em diferentes turnos e séries. O pai, o agricultor Ciomar Martins da Silva, 40, bem que pensou em levá-las à escola em um trator, emprestado pelo patrão. O problema é que, para fazer isso, Silva teria de deixar o trabalho na lavoura que serve para o sustento da família, afinal, seriam quatro viagens diárias. Os filhos de Zenaide e Ciomar, Sabrina, 15 anos, que está no 7º ano, Taís, 14, do 5º ano, Maurício, 11, do 3º ano, Vinícius, 8, e Diego, 6, ambos no 1º ano, sabem que os colegas já voltaram das férias. A tristeza é geral porque eles não têm nada a fazer a não ser esperar pela mesma sorte. Enquanto não volta para a sala de aula, Taís ajuda a mãe nas tarefas de casa. A adolescente, que tinha até feito uma decoração especial no caderno para esperar março chegar, está com saudade das lições de português, sua disciplina preferida. Ela acha que aprender a gramática é bem melhor do que suar no tanque de casa para lavar toda a roupa da família ou cuidar dos cinco irmãos

MAIS

Conquista No Brasil, o direito à educação foi reconhecido na Constituição Federal de 1988. Antes disso, o Estado não tinha a obrigação formal de garantir ensino de qualidade a todos os brasileiros. A educação pública era tratada como assistência, um amparo dado àqueles que não podiam pagar

ENQUANTO ISSO... Taís diz que preferia estar estudando português do que cuidar dos irmãos e fazer os serviços domésticos

encontram outras formas de passar o tempo: levam a cadela Pantera, a xodó dos pequenos, para passear, brincam de carrinho, jogam bola no pátio de casa e assistem à TV. Mas não era isso o que os cinco queriam estar fazendo em pleno março, completa a mãe deles: – Eles estão com as mochilas pronPassatempo – Enquanto Taís toma tas, perguntam a toda hora quando a conta da casa, os irmãos menores aula vai começar. SEGUE menores – dois deles ainda nem têm idade para ir à escola. A garota que sonha em seguir adiante nos estudos, apesar de ainda não ter escolhido uma profissão, teme que os constantes problemas do transporte escolar se transformem num obstáculo no futuro.


GERAL

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DIÁRIO DE SANTA MARIA

Fotos Lauro Alves

MARILICE DARONCO marilice.daronco@hotmail.com

É

Lição do dia: sobrevivência Ele tem apenas 15 anos, mas trabalha para ajudar no sustento de nove pessoas. O sonho de ter uma profissão que pudesse mudar a vida dos pais foi deixado de lado. A família achou que aprender matemática, geografia, ciências e português não era tão importante quanto conseguir dinheiro para que ninguém passasse fome em casa. Há um ano e meio, o garoto (foto acima) abandonou a 5ª série e foi aprender uma lição que não poderia ser ensinada com quadro e giz: virou garimpeiro do lixão da Caturrita. Para ajudar a encontrar em meio a tanto lixo algo que possa ser vendido, usou um

truque que virou moda entre os catadores. Uma pequena lanterna amarrada ao boné dá conta de clarear o que a lua não consegue. Depois de poucos minutos revirando o lixo, o garoto volta com uma dezena de cartuchos de arma na mão (foto ao lado). – Olha só o que eu achei. Nem foram usados ainda – comemora. Mais alguns minutos de trabalho, e ele vai juntando com latinhas, garrafas, plásticos e papéis, um pequeno patrimônio que não sai um segundo sequer de suas costas. – Manda uma sacola para cá com o meu nome? Não sei se vou achá-la no meio desse lixo todo, mas pelo menos vou ficar sonhando que um dia ela vai chegar – pede o menino à equipe do Diário, no único momento em que tirou do rosto o sorriso que o acompanhou durante toda a garimpagem.

O lixo é velho conhecido Cláudio Estivalete Bastos (foto), 28 anos, virou garimpeiro há pouco mais de um mês. Isso não quer dizer que os restos da cidade não são velhos conhecidos. Bastos é ex-lixeiro. Quando perdeu o emprego, tratou de largar currículo em vários lugares. Mas o Ensino Fundamental completo não garantiu a ele mais do que um não nas entrevistas. – Eu me inscrevi em tudo quanto foi lugar para trabalhar e não consegui emprego. Sem serviço, a gente não é nada. E sem dinheiro a gente não vive – lamenta o catador. Depois de muita procura, Bastos conseguiu vaga de auxiliar de pedreiro. O problema é que, quando a obra acabou, ele teve de voltar a buscar emprego. Depois de um tempo, aceitou o conselho de um amigo e foi garimpar no lixão. O maior orgulho dele é que, agora, conseguiu alugar uma casinha. Ainda que, para o aluguel, tenha de passar a semana toda em um barraco no lixão. – A gente faz carreteiro, arroz campeiro... Quando um não tem uma coisa, o outro empresta. Um cuida do outro – conta Bastos, enquanto se prepara para cortar os temperos da janta do dia.

Lucas (à esq.) canta um rap que pede esperança. Nei (à dir.) tem medo de perder a sua

noite. No meio da paisagem onde o lixo toma conta de todos os espaços, surgem homens, mulheres e crianças com lanternas amarradas na cabeça. Eles tentam enxergar algo que a cidade não viu quando desprezou sacos e sacolas. Às 18h, chega um caminhão carregando sete toneladas de promessas de conseguir levar para casa material suficiente para comprar a comida de alguns dias. Ele anuncia que chegou a hora do rush no lixão da Caturrita. Começa a vir o lixo do Centro. Mais de 60 catadores invadem a madrugada, garimpando para encontrar latas, plásticos, papel ou algo que possa ser vendido. No meio de tanto lixo, garimpeiro não tem sexo, idaSão de ou cor. São iguais, e as cerca de histórias se confundem. 150 À medida que os catoneladas minhões despejam o lixo, começa a caçada. de lixo Cada veículo é acompadepositadas nhado de mais gente por dia pendurada, como se o núno lixão mero de garimpeiros não tivesse fim. O frio não assusta, pois a necessidade do dinheiro da alimentação da semana é mais urgente. No meio de tantas vozes gritando por espaço, uma ganha destaque. Lucas de Almeida, 20 anos, não grita. Ele canta pedindo que os catadores tenham esperança. “Ei, irmão, nunca se esqueça, na guarda, guerreiro, levanta a cabeça, onde estiver seja lá como for, tenha fé, porque até no lixão nasce flor”, diz a letra do rap que ele aprendeu com o seu grupo favorito – os Racionais MC’s. – O CD que mais queria (dos Racionais), achei aqui. Estava inteirinho, na capa, parecia presente – diz Lucas, que virou garimpeiro com menos de 10 anos.

GERAL

DIÁRIO DE SANTA MARIA

Garimpo

noturno no lixão

Em meio aos cães e à quantidade infinita de lixo, até crianças, mulheres e idosos procuram sua sobrevivência no aterro da Caturrita

Quando os caminhões chegam com os resíduos da cidade, começa a caçada aos recicláveis

Sábado e Domingo, 16 e 17/06/2007

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Tentando imitar os adultos, crianças e adolescentes procuram driblar o atoleiro formado pela chuva da manhã anterior para também garimpar entre as 150 toneladas de lixo que chegam diariamente. – O meu medo é que isso feche. Daí a gente vai viver de quê? – questiona Nei Nunes, 30 anos, um dos mais antigos. Nunes é um dos que vivem em tempo integral no lixão. Para aliviar a solidão, ele tem os cães que acompanham atentos a abertura dos sacos, na expectativa de que, em um deles, chegue o jantar. Fim do aterro é anunciado desde o ano de 2005 O fim do aterro sanitário já é anunciado desde 2005, quando a Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam) pediu a interdição do local. 21 De lá para cá, o volume de caminhões lixo cresceu mais rápido largam do que as soluções. Na próxima semana, a preresíduos feitura pretende levar diariamente técnicos municipais e no aterro da Fepam ao lixão, para da conseguir mais prazo paCaturrita ra depositar o lixo. Segundo o secretário de Proteção Ambiental, Carlos Rempel, serão, pelo menos, mais três meses até que haja uma vencedora para a licitação da coleta do lixo da cidade. – As pessoas não entendem o que passamos aqui e que, se enfrentamos tudo isso, é porque precisamos. Da outra vez, quando fecharam o lixão, tinha gente roubando o lixo daqui para não morrer de fome – diz Flávio Santos, 28 anos, que sustenta quatro filhos e a mulher. Flávio foi um dos que chegou a aderir a um projeto da prefeitura e foi para o horto municipal, dois anos atrás. Ele diz que não suportou o ronco na barriga dos filhos e preferiu voltar a viver do lixo.

Duas maratonas por dia Mal o caminhão chega, e João Soares Brito (foto), 36 anos, começa a separar rapidamente os materiais recicláveis que encontra pelo caminho. Em poucos minutos, ele junta um saco inteiro de coisas que poderá vender. Mesmo assim, não pára um segundo sequer de revirar os resíduos. Afinal, o que conseguiu juntar não é suficiente para garantir o sustento da família. Apesar de trabalhar no lixão há seis anos, Brito confessa que ainda não se acostumou completamente à escuridão e que, muitas vezes, já se cortou com os vidros que as pessoas jogam no lixo. Apesar de não considerar os acidentes sérios, ele conta que já teve de dar pontos devi-

do à profundidade dos cortes. – Eu trabalhava de pedreiro, mas acabei aqui. O pior que eu já encontrei no lixo foi o próprio lixo. É muito ruim trabalhar aqui, mas, para a gente, isso significa sobreviver – afirma Brito. Ao contrário de muitos outros garimpeiros, Brito não dorme no lixão. Toda noite, depois que separa o material que vende no dia seguinte para pagar as despesas dele, da mulher e da enteada, começa outra maratona. O catador caminha nove quilômetros, do lixão da Caturrita até o Alto da Boa Vista, onde mora. – No dia seguinte, é tudo de novo – conclui o catador.

Surpresas que a noite traz No lixo, João Gonçalves da Silva (foto), 64 anos, já encontrou tudo o que se possa imaginar. Segundo ele, a maioria das pessoas se assustaria diante do que chega nos caminhões. Mas, na noite de 19 de agosto de 2005, o homem acostumado à vida dura teve vontade de desistir. Acabou continuando no serviço porque não tinha outro jeito de ganhar a vida. Silva nunca ia buscar lixo durante a “empurrada” – quando o caminhão pára e começa a empurrar os detritos de dentro dele –, mas naquela noite resolveu quebrar a rotina. – Achei uma sacola que tinha um volume dentro. Vi que não era comida para porcos nem carne. Quando abri, havia uma menina de 50 centímetros de comprimento. Ela tinha uns oito meses. Tem tanta gente por aí querendo um filho. Pensei nisso e chorei em cima do feto – afirma João. No final de semana, quando não chega nenhuma carga de lixo, o catador vai para casa. No caminho entre o lixão e o abraço da mulher, sofre com o fardo pesado que é carregar nos ombros o que juntou na semana: – Se não houvesse o lixão, seria muito pior. Todos nós já teríamos morrido de fome.

Cães (à esq.) vivem no lixão com catadores como Flávio (à dir.), que desistiu do horto


DIÁRIO DE SANTA MARIA SÁBADO E DOMINGO, 6 E 7 DE DEZEMBRO DE 2008

DIÁRIO DE SANTA MARIA SÁBADO E DOMINGO, 6 E 7 DE DEZEMBRO DE 2008

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ESPECIAL

HABITAÇÃO

Sem o canto do canário

O barato que saiu caro

Se para quem mora em áreas regularizadas conseguir ajuda é difícil, para aquelas pessoas que vivem em invasões é ainda mais complicado. A dona-de-casa Zeni Terezinha Freitas, 38 anos, reside em uma casa da Rua Canário, na Vila Bela Vista, com o marido e os 10 filhos. Eles vivem em uma perigosa margem de risco. De um lado da casa, existe um enorme barranco. Do outro, um precipício. Chegar na casa, para um adulto, já é complicado, pois é preciso descer o barranco, e o caminho não é nenhum pouco regular. Com as crianças pequenas correndo pelo pátio, o risco de acidentes não é pequeno. Além disso, apesar de viver em morro que leva o nome de um pássaro, o único canto que Zeni ouve é o de crianças chorando em dias chuvosos. É que a água começa a descer do morro enchendo a casa de terra e lama. – Nós não estamos aqui porque queremos. Viemos de Júlio de Castilhos porque lá não havia trabalho e tínhamos de sustentar nossos filhos. Em Santa Maria, meu marido encontrou emprego. Acabamos morando aqui, mas temos pouco para sobreviver. Medo eu tenho, mas deixar as crianças com fome é muito pior – lamenta Zeni. Questionada sobre se sairia do local caso conseguisse um outro lugar para morar, Zeni nem pensa duas vezes. Ela garante que tudo o que quer é criar os filhos em segurança, e ser vizinha de um barranco e de um precipício não combina com seu sonho de mãe. – Eu vivo tirando a lama de pá de dentro da minha cozinha. E o pior é que aparecem muitas cobras em dia de chuva – conta a dona-de-casa. A casa modesta de Zeni é um dos contrastes do morro apelidado de Canário (na foto acima, uma vista do alto). Pequenos casebres disputam espaço lado a lado com casas requintadas. Para quem não é morador do local, parece impossível chegar a algumas delas. Mas basta trilhar o caminho em ruas que nunca foram e talvez jamais sejam construídas.

Com 15 contos de réis, João Rodrigues dos Santos (na foto, na janela de casa), 68 anos, pensou ter comprado a sua felicidade, há cerca de 35 anos. O aposentado, que na época era servente de obras, foi o segundo morador a chegar ao morro da Vila Bilibio, quando os terrenos que eram de dois proprietários – que não moravam no local – decidiram lotear a área e vendê-la. O pagamento não foi à vista. Era dinheiro demais para alguém que trabalhava como servente de obras. Foi com muito sufoco que as prestações foram pagas, sem nenhum atraso, como ele gosta de contar, cheio de orgulho. Foi quando começaram as obras para construir sua casa que Santos descobriu que, talvez, não tivesse feito um negócio tão bom como imaginava. O terreno, que era cheio de pedras e árvores, precisou ser cavado para ficar mais plano e permitir a construção da casa. Santos perdeu as contas de quantas cargas de pedra e terra carregou nos ombros. Aos poucos, outros moradores foram chegando, quase todos da mesma família – tradição que se mantém até hoje. Nesse meio tempo, Santos, que mora muito perto da encosta do morro e tem um barranco enorme na janela de casa, perdeu a mulher, o investimento e agora teme pelo que lhe restou: os filhos e os netos. A família está distribuída em cinco casas no pátio, todas em área de risco. – A idéia que eles tiveram de vender esse morro foi o pior erro do mundo. Eu trabalhei pior que bicho para pagar as prestações, cavei uns três metros para poder fazer a minha casa e, agora, o que eu tenho? A resposta é nada. A qualquer momento, pode ir tudo abaixo. Eu não tenho dinheiro para ir embora. Se pudesse ir para qualquer outro lugar, fazia na mesma hora. Estou velho, mas quero viver mais uns anos ainda – diz o aposentado, olhando pela janela aquele que é hoje o seu pior inimigo: o morro em que mora.

MEDO NO MORRO MARILICE DARONCO

“Tomara, Deus, que nunca mais aconteça”. A súplica da serviços gerais Adriana Machado Soares, 34 anos, resume o sentimento de boa parte das famílias que vivem no morro da Vila Bilibio em relação aos deslizamentos de terra com os quais convivem quando a chuva é mais forte do que as encostas. Não foram poucas as vezes em que eles viram a água que desce do morro levar muros e paredes das casas, deixando em seu lugar lama, medo e tristeza. Adriana cresceu em uma casa construída bem ao lado de um enorme barranco. Há uns 20 anos, descobriu pela primeira vez o que a combinação de chuvas intensas e solo frágil pode causar. Um irmão, por pouco, não morreu soterrado quando parte do morro desmoronou e caiu sobre a casa. Dois anos atrás, às 5h, quando a família dela dormia, um novo deslizamento colocou abaixo, mais uma vez, uma parte da casa. – Quando eu assisti pela TV a tragédia que aconteceu em Santa Catarina, entendi o sofrimento deles. A gente já passou pela mesma coisa. Já tivemos de usar pás para tirar a terra de dentro de casa e tentar salvar o que havia sobrado – conta Adriana. A enchente que deixou algumas cidades de Santa Catarina debaixo d’água chamou a atenção para os morros catarinenses que sofreram diversos deslizamentos. Em meio aos montes de terra e desespero, restou mais de uma centena de mortos.

Por mais que nem todos imaginem, que estão em áreas de risco na cio risco que enfrentam muitos san- dade. Mas o que impressiona por lá ta-marienses não é tão diferente não é o número de casas e, sim, as daquele pelo qual passaram os cata- condições em que elas estão consrinenses. A maior diferença está no truídas. Em regiões de ventos muito fato de os acidentes que já ocorre- fortes, vigas de madeira, já desgastaram por aqui não terem deixado ne- das pela ação do tempo, sustentam nhum morto. Basta um olhar para o moradias que parecem que vão cair alto de morros como o do Cechella, morro abaixo a qualquer momento. o Cerrito e os das vilas Bilibio e Bela Em alguns locais, a erosão do solo Vista para sentir, ao menos, um frio foi deixando as casas cada vez mais na barriga e parar para pensar quan- perto das encostas, e é impossível to tempo as encostas vão agüentar o não pensar quanto tempo elas resiscrescimento da população. tirão quando chover e a água come– Se a cidade passar por 20 dias çar a descer do morro. de chuva intensa, com certeza, vai Quem convive diariamente com acontecer uma catástrofe e, prova- o perigo, encontra suas formas de velmente, teretentar remediá-lo. mos mortos – diz A dona-de-casa Levantamento o engenheiro da Luciane Soares da Defesa Civil Defesa Civil de Trindade, 37 anos, de Santa Maria Santa Maria Júlio mora com os quaUminski. tro filhos em duas mostra que há casas que ficam 22 locais que no mesmo páPerigos – Um estão ameaçados tio, na Bilibio. Da levantamento do janela, tem uma órgão aponta 22 vista privilegiada áreas de risco na cidade. Nem todas ficam nos mor- da cidade. Mas, na porta, convive ros e, entre as ameaças, não há ape- com um dos maiores problemas nas a de deslizamento, mas também que a vila enfrenta: o solo está cada de inundação e de as casas serem vez mais desgastado. Ela conta com atingidas por carregamentos peri- as pedras que colocou para firmar gosos transportados por caminhões o barranco. E, para driblar o medo, e trens (veja quadro com os locais de com uma fé maior do que o morro risco em Santa Maria na página 18). que está acima dela. – Estamos acostumados a morar Apesar da diversidade do perigo, na hora de apontar onde ele é mais no alto. Foi aqui que consegui minha ameaçador, a Defesa Civil não tem casa própria e deixei de pagar aludúvidas: é preciso olhar para o alto. guel. Temos fé em Deus de que nada É nos morros que se acumula boa de ruim vai acontecer – diz Luciane. parte das mais de 1,3 mil famílias marilice.daronco@diariosm.com.br

Cidade tem mais de 1,3 mil famílias morando em áreas de risco. Boa parte delas vive em encostas

!

FOTOS CHARLES GUERRA – 2/12/08

ENCOSTA ABAIXO Entenda como a terra se encharca com a chuva contínua e provoca deslizamentos

MAIS

Defesas O número de defesas de ferro que protegem os motoristas das pedras que rolam do morro da BR-158 diminuíram nos últimos anos, e há pedras soltas que podem cair sobre a pista. Segundo a Polícia Rodoviária Federal, muitos ferros foram furtados e nem todos foram repostos

O que

Como inicia

O deslizamento o movimento de massa em que as pedras e sedimentos se soltam na camada mais s lida que fica abaixo e se movem rapidamente morro abaixo devido ao excesso de chuva e ao aumento do peso do morro. Esses movimentos podem ocorrer lentamente durante anos ou podem acontecer em quest o de minutos

A gravidade a for a elementar por tr s de qualquer deslizamento, assim como a meteoriza o (transforma o da rocha em solo). Os deslizamentos ocorrem quando a gravidade supera a for a do atrito, uma das for as respons veis por deixar as superf cies da terra juntas. O solo n o se move em uma superf cie plana. Em uma inclina o, a gravidade n o pode causar um deslizamento sozinha. Mas, junto com outros fatores, como a chuva em excesso, pode fazer os sedimentos rolarem

Causas dos deslizamentos Desmatamento As rvores e plantas ajudam a estabilizar o solo que fica preso s ra zes. Quando ocorre desmatamento, o solo fica solto, e a gravidade age com muito mais facilidade. A perda da vegeta o deixa a terra destru da e suscet vel aos deslizamentos

Constru es As pessoas podem facilitar os deslizamentos por meio de atividades como desmatamento, pastoreio excessivo, minera o e constru o de estradas. Por isso, os deslizamentos acontecem mais em reas que foram abertas para rodovias. As casas constru das nos p s das encostas e barrancos tamb m deixam os morros mais inst veis e sujeitos aos deslizamentos. Essas novas superf cies s o capazes de romper o equil brio geol gico dos morros

ROTINA DE PERIGO

BONITO E PERIGOSO

Adriana cresceu em uma casa construída ao lado de um barranco e já enfrentou deslizamentos

Da janela, Luciane e os filhos Vitória e Luiz Felipe têm uma bela vista. Mas o solo sob a casa deles está cada vez desgastado

Fonte: Rodrigo Del Olmo Sato, ge logo e integrante do Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia de Santa Catarina

Chuva em excesso A gua reduz o atrito entre a camada de rocha que fica mais abaixo e o sedimento. A gravidade faz os detritos rolarem para baixo Quando acontecem as chuvas rotineiras, a gua tem tempo para se infiltrar aos poucos, penetrar no solo e buscar um ponto de escape para escorrer pelos poros do solo, antes de atingir as camadas mais profundas Com a chuva cont nua, o solo fica saturado e a gua das ltimas chuvas n o mais absorvida e corre, em alta velocidade, atrav s da superf cie do morro, formando crateras profundas e deixando expostas as reas devastadas e sem vegeta o Depois que a gua atinge as reas mais profundas das encostas, o peso destes morros aumenta muito. Se o morro apresenta pontos de fraquezas, como rachaduras nas rochas e constru es, o barranco fica inst vel e prop cio para os deslizamentos, quando a base n o pode mais suportar o peso que est no topo Editoria de Arte

SEGUE


DIÁRIO DE SANTA MARIA SÁBADO E DOMINGO, 6 E 7 DE DEZEMBRO DE 2008

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ESPECIAL

Mais de 10 anos de observação A situação dos morros de Santa Maria é um tema que, desde 1997, desperta a atenção do professor Luís Eduardo Robaina, do curso de Geografia da Universidade Federal de Santa Maria. Ele leciona a disciplina de processos superficiais e risco e costuma levar alunos ao morro da Bilibio para que conversem com moradores e conheçam a realidade. Segundo o professor, o risco de deslizamentos no morro ocorre por uma soma de fatores. Primeiro, o solo é formado por uma mistura de rocha arenosa, lama e materiais que descem do alto com a chuva. Robaina lembra também que, quando a barragem do

DNOS foi construída, muita terra foi retirada da Bilibio, o que mexeu muito com a estrutura do solo. A esses fatores, soma-se outro:para construírem as casas, os moradores tiveram de cavar os terrenos. O desmatamento e as escavações teriam tornado a área instável e, à medida que o esgoto das casas começou a ser jogado nas encostas, piorou a situação. – O risco é óbvio. Já houve eventos por lá, ainda que nunca tenham ocorrido mortes. É uma situação diferente de outros lugares, de onde as pessoas jamais sairiam para um programa de habitação popular. Quem mora na Bilibio já viu desmoronamentos e tem

receio de passar por isso novamente. A prefeitura conversa com os moradores, mas não há uma ação para tirá-los de lá – afirma Robaina. O coordenador das obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), Altamir Campos, diz que a prefeitura já tem levantamento das famílias em áreas de risco e que, na medida do possível, elas são encaminhadas para programas de habitação. Segundo ele, a prioridade depende do ângulo que se vê e, para a prefeitura, o lugar que precisa ser atendido com mais urgência é a Vila São Rafael, no bairro Chácara das Flores, que seria ameaçada por desmoranamentos.

SANTA CATARINA Casas estão sendo erguidas

Um vale em reconstrução GUTO KUERTEN

SITUAÇÃO DE RISCO A prefeitura e a Defesa Civil têm um levantamento dos locais em que os moradores, ou parte deles, encontram-se em risco. Uma empresa contratada pela prefeitura apontou 22 áreas de risco na cidade e que 28.184 pessoas moram ou trabalham nesses locais. Cerca de 80% dessas áreas é ocupada por casas 1) Alagamento e inundação

2) Deslizamento

■ Ocorre em locais em que as casas são construídas muito perto de barragens, arroios ou sangas. Também afeta locais onde o curso de rios é desviado e, quando há muita chuva, o nível sobe, e ele transborda. O problema aumenta mais porque o lixo e o esgoto normalmente são jogados na água, causando erosão nas margens

■ As casas são construídas em lugares altos, como morros, onde podem rolar pedras do alto ou ocorrer deslizamentos. Como geralmente há desmatamento, os terrenos perdem a estabilidade. Como nesses locais a maioria das casas usa escoras de madeira, há o risco de, com a umidade ou chuva, a casa ficar instável

■ Invasão do Km2 ■ Invasão do Km3 ■ Vila Cerro Azul

■ Vila Bela Vista ■ Montanha Russa ■ Passo dos Weber

■ Vila Ecologia ■ Vila Renascença ■ Vila Santos

■ Vila Arco-Íris ■ Vila Oliveira ■ Vila Bilibio

■ Cerrito

2

3

4

1

3) Risco simultâneo de alagamento e deslizamento

4) Margens de rodovias e ferrovias

■ É um risco que ameaça casas construídas em barrancos perto, principalmente, de arroios e sangas. Com a erosão do solo, há o risco de as desmoronamento. Geralmente, é jogado lixo no rio ou arroio, e a água começa a subir em caso de chuva e a invadir casas

■ São, na maioria dos casos, áreas de invasões em que as casas ficam às margens da rodovia ou da ferrovia podendo ser atingidas por veículos ou trens em casos de acidentes ou ainda por produtos perigosos transportados por eles, como amônia, combustível e gás

■ Bairro Urlândia ■ Bairro Salgado Filho ■ Vila Favarin

■ Margens da BR-287 ■ Campestre do Menino Deus ■ Ponte da Euclides da Cunha ■ Margens da BR-158 perto da barragem do DNOS

■ Vila Medianeira ■ Vila Schirmer

SOLIDARIEDADE Apesar das campanhas, doações ainda não são suficientes aos catarinenses

Governo liberou verba e perdoou as dívidas de moradores que foram atingidos pela enchente

Lana, e com donos de maquinários que serão usados para remover o lixo. A expectativa é que, em 15 dias, o entulho seja levado para três diferentes pontos de Itajaí e incinerado. Na sexta-feira, a Defesa Civil de Santa Catarina contava quase 33 mil pessoas desabrigadas ou desalojadas. Quatorze municípios seguiam em estado de calamidade pública. Já foram arrecadados mais de R$ 18,2 milhões em dinheiro, além de 2,5 milhões de quilos de alimentos, 1,5 milhão de litros de água e 180 toneladas de roupas e produtos de higiene pessoal.

Por um lado, foi mais uma sextafeira de tristeza nas cidades catarinenses atingidas pela enchente: mais um corpo foi encontrado, sendo 119 o número de vítimas. Por outro, foi de esperança: as seis primeiras casas começaram a ser reconstruídas em Itajaí – um dos municípios mais atingidos –, e o governo federal começou a liberar recursos para ajudar os desabrigados. Boa notícia – O Ministério da InteO corpo de Valmir Raulino, 44 gração Nacional anunciu a liberação anos, foi encontrado pela manhã, em de R$ 45 milhões para a recuperação Ascurra, cidade de ruas, reconsdo Vale do Itajaí. A trução de casas, Contas vencidas vítima morreu em escolas, postos de nos dias 24 e 25 um soterramento saúde, e demais de novembro e de terra no sábaobras necessárias. do, dia 29, mas só quitadas até o dia O governo federal ontem houve condecidiu 28 ficaram livres de também dições de retirar o perdoar as dívijuros de pagamento das de até R$ 10 corpo. Ele morava em área de risco e mil, vencidas há havia sido retirado cinco anos ou de casa, mas, segundo a Defesa Civil mais tempo, e a Federação Brasileira de Santa Catarina, Raulino insistiu de Bancos autorizou as instituições em retornar para casa. bancárias a dispensar juros de pagaOutro motivo que causou tristeza mentos de contas vencidas nos dias e preocupação foi a confirmação de 24 e 25 de novembro e quitadas até o cinco casos de leptospirose. Desde o dia 28 nas cidades atingidas. último dia 22, a Diretoria de VigilânUm projeto da Companhia de Hacia Epidemiológica recebeu outras bitação de Santa Catarina prevê a 144 notificações de casos que ainda construção de 3 mil casas no Vale do estão sendo investigados. Itajaí. Seis obras já começaram. OuPara evitar que doenças como a tras 150 casas devem ser erguidas até leptospirose se espalhem, o prefei- o Natal. Terão prioridade cidades que to de Itajaí, Volnei Morastoni (PT), disponibilizarem áreas para habitaparticipou de uma reunião com o se- ções coletivas e famílias que possuam cretário de Obras do município, Jean terreno com alvará das prefeituras.

!


DIÁRIO DE SANTA MARIA SÁBADO E DOMINGO, 12 E 13 DE JULHO DE 2008

DIÁRIO DE SANTA MARIA SÁBADO E DOMINGO, 12 E 13 DE JULHO DE 2008

| 16 e 17 |

ELEIÇÃO 2008

SAÚDE

PRIORIDADE

NÚMERO 1 Textos: Marilice Daronco

Fotos: Charles Guerra Marina Chiapinotto, Especial

A SÉRIE De hoje até 27 de setembro, o ‘Diário’ mostra, nas edições de final de semana, os principais desafios que o novo prefeito de Santa Maria terá. As prioridades foram apontadas pelos eleitores

Seis prioridades (listadas abaixo) foram indicadas pelos santa-marienses em pesquisa eleitoral feita em setembro do ano passado pelo Instituto Methodus. As entrevistas foram feitas entre 24 e 25 de setembro de 2007. Foram ouvidos 600 eleitores de Santa Maria em 22 bairros da cidade. As demais prioridades da série (confira no pé da página) também são problemas que afligem os eleitores

36,7 %

EMPREGOS

34,7 %

SEGURANÇA

EDUCAÇÃO

ILUMINAÇÃO

LIMPEZA URBANA E LIXO

9,3 %

3,3 %

6h30min

7h25min

7h30min

■ Chegada – Dionísio Dias, 51 anos, chega ao Ruben Noal para pegar uma ficha para consulta com pediatra para o neto Tiago

■ Ficha – Começa a distribuição de fichas. Dionísio é o primeiro da fila para as sete consultas que ocorrem nas manhãs de quarta-feira

■ Saída – Lisiane sai de casa com Tiago para leválo à consulta. Ela carrega os exames que o filho fez na tarde anterior

■ Triagem – No Ruben Noal, Lisiane entrega a ficha à recepcionista. Uma enfermeira começa, às 7h30min, a pesar a criança

M

A OPINIÃO DOS (E)LEITORES

SAÚDE

Quem precisa de consulta nos postos de saúde tem de madrugar. Para conseguir uma ficha para pediatra na Unidade de Saúde Ruben Noal, a família de Tiago Júnior Togni Rodrigues, demorou 3h02min

5h03min do dia 2 de julho

12,5 %

2%

adrugar. Quem depende de atendimento em postos de saúde de Santa Maria sabe que a única alternativa para consegui-lo é acordar muito cedo. Vence a maratona por consultas médicas quem chegar antes na fila. Ainda que isso signifique horas de espera a fio. O soldador Dionísio Dias, 51 anos, morador da Cohab Tancredo Neves e usuário da unidade Ruben Noal, que funciona 24 horas, sabe que as fichas no posto são escassas. Ele, a mulher e os dois filhos dependem do serviço e, por isso, é melhor sair de casa antes de o dia amanhecer. No dia 2 deste mês, o soldador pulou da cama antes da 5h. Tomou café apressadamente e foi para a fila do Ruben Noal para resolver a tosse e a febre do neto Tiago Júnior Togni Rodrigues, de 1 ano e 11 meses. Um dia antes, a família buscou atendimento, mas não conseguiu ficha. Havia terminado antes das 6h, e o garoto só foi atendido porque as recepcionistas viram que o caso da criança era grave. – A médica pediu para levar ele no PA do Patronato para fazer exames. Apareceu uma manchinha, no pulmão, e, hoje, ele voltou para ver o que é. Sempre fui bem atendido aqui, mas tem de acordar cedo – afirma o soldador. Como precisava levar exames para a pediatra examinar, Dias não quis correr o risco de o neto ficar sem ficha mais uma vez. Desta vez, estava na fila às 5h03min, no primeiro lugar. Depois dele, muitos passaram pelos bancos da Ruben Noal atrás das sete fichas para pediatria distribuídas nas quartas-feiras pela manhã. Com a consulta garantida para o neto, Dias era só felicidade. Mas nem todos tiveram a mesma sorte. Por volta das 6h30min, as fichas acabaram.Foi nesse horário que chegou Pedro Garcia Moreira, 38 anos, desempregado, atrás de consulta com a pediatra para o filho Hélisson da Silva Moreira, 9. – Ele ficou um ano na fila até conseguir fazer o exame que precisava. Agora, eu queria que a médica visse o resultado – diz Moreira. Vida em posto de saúde é difícil mesmo. Tem gente que tira cochilo enquanto espera. Outros não desgrudam os olhos da fila, com medo de perder a vez. E, claro, há muitos que voltam para casa horas depois sem conseguir o atendimento de que precisavam. Boa parte

A SÉRIE

Hoje Saúde

realizar o concurso no prazo previsto pela legislação eleitoral. Profissionais foram contratados emergencialmente. Caberá ao próximo prefeito eleito em outubro resolver o problema.

7h51min ■ Nebulização – Lisiane pede que seja feita a nebulização no filho, que foi receitada pelo médico no dia anterior

■■■■■■

É emergência? Não tem ambulância

dessa realidade, a mãe de Tiago, Lisiane Cristina Togni Pereira, 27 anos, nem chegou a ver. Ela só saiu de casa para levar o filho ao posto às 7h20min. Graças ao avô, que madrugou na fila. Mas, para quem mora longe da unidade de saúde, o jeito é ficar no posto esperando a pediatra chegar às 8h. – Não é só para pediatria que é difícil conseguir ficha. Para clínico-geral também tem de vir cedinho – diz Lisiane. Segundo a Secretaria de Saúde de Santa Maria, a construção dos postos obedece ao critério da distância. A intenção é que ninguém, exceto os moradores dos distritos, precise percorrer mais de dois quilômetros para ser atendido nem enfrente fila. Para o futuro, há mudanças previstas na localização das unidades por causa da criação de novos loteamentos habitacionais. Porém, não há projeto para aumentar o número de

Dia 19/07 Empregos

Dia 26/07 Segurança

médicos, o que poderia diminuir o so- baixo (veja quadro da página 18) e o frimento de quem corre atrás de fichas. trabalho exaustivo afastam os candidatos. As vagas não são preenchidas, e a demora no atendimento continua. Neste ano, 22 médicos foram demi■■■■■■ tidos porque seus contratos estavam irregulares. Por pouco, o PA não parou. Faltam médicos Para evitar o colapso, a prefeitura conQuando o atendimento ultrapassa o tratou uma firma terceirizada. A emposto de saúde e bate à porta do Pron- presa fica no PA até que haja resultado to-Atendimento do Patronato, os pro- para o concurso público. Um dos argumentos da prefeitura blemas só mudam de endereço. Com equipe reduzida, longas filas se formam. para as horas de espera é que muita No PA, não é preciso madrugar. Lá, a gente que procura o PA poderia ser paciência é a virtude a ser desenvolvida atendida nos postos. O que faz muitas por quem quer atendimento, porque a pessoas enfrentarem horas de espera, demora pode chegar a várias horas, de- quando poderiam ser atendidas pertinho de casa é, muitas vezes, ter a certependendo do dia e do horário. A prefeitura vem tentando combater za de que sairão com o exame pronto. a falta de médicos de diferentes for- No PA, exames de sangue e Raio X são mas. Por mais de uma vez, abriu sele- feitos na hora. No posto de saúde, poção para plantonista. Porém, o salário dem demorar meses.

Dia 2/08 Educação

Dia 9/08 Iluminação

Dia 16/08 Limpeza e lixo

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Saúde preventiva O velho ditado “é melhor prevenir do que remediar” faz sentido quando o assunto é saúde. Depois da implantação do Programa de Saúde da Família (PSF), a Secretaria de Saúde conseguiu vitórias importantes. Uma delas foi reduzir as filas, já que se tornou possível prevenir doenças e agendar consultas. Mas nem tudo são flores no PSF. Quando a prefeitura selecionou os agentes e os profissionais da equipe, não fez concurso público. A cobrança do Ministério Público do Trabalho veio em 2007. A prefeitura se comprometeu a demitir quem tinha sido contratado irregularmente e fazer um concurso público. Mas a aprovação dos cargos pela Câmara demorou, e não houve tempo de

Dia 23/08 Trânsito

Dia 30/08 Transporte

Conseguir a consulta e o exame não são as únicas dificuldades para quem depende do Sistema Único de Saúde (SUS). Transporte para chegar a postos, PAs ou hospitais é outro problema. As cinco ambulâncias da prefeitura são usadas somente para atender pacientes com consultas previamente agendadas e levar pessoas do PA, da Casa de Saúde ou da Unidade Ruben Noal ao hospital. Em síntese, se uma pessoa passar mal, tiver um ataque cardíaco ou precisar de socorro de uma hora pra outra, não há ambulância para levá-la ao médico. De acordo com o coordenador do setor de transportes da prefeitura, Isac Bueno, a solução é criar o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). Ele foi prometido pela administração municipal para 2006, junto com a inauguração do PA do Patronato. Um local para abrigar as ambulâncias chegou a ser construído, mas elas nunca foram compradas. Em maio, representantes do Ministério da Saúde estiveram na cidade para conhecer as instalações do PA e tentar tornar o Samu uma realidade. Por enquanto, só foi feita a avaliação do prédio, que terá de passar por adaptação. Ainda não há prazos, valores, número de ambulâncias ou cidades que seriam atendidas. A única garantia, dada pelo Ministério da Saúde, é que o Samu virá, ainda que não se saiba quando. Até lá, resta a quem depende do SUS contar com a boa-vontade de amigos ou vizinhos para levar pacientes ao médico. Muitas vezes, essa ajuda vem de quem não tem obrigação de fornecê-la. Os bombeiros não têm ambulância e, sim, carros de resgate. Como o próprio nome diz, eles são usados em acidentes e para a retirada de vítimas de ferragens. Mas, em casos urgentes, quando uma pessoa tem um ataque cardíaco ou entra em trabalho de parto, são os bombeiros quem dão o socorro, desde que haja viatura disponível.

Dia 6/09 Meio ambiente

Dia 13/09 Cultura

8h05min ■ Consulta – A pediatra Maria de Lourdes Trindade atende Tiago, e conclui que ele está com um princípio de pneumonia

8h22min ■ Medicação – Tiago toma a primeira injeção do tratamento contra pneumonia. Ele voltou ao posto para tomar o remédio até o dia 6

Dia 20/09 Assistência social

Dia 27/09 Esportes SEGUE


Editor: Luiz Roese ☎ 3220.1862 ✉ luiz.roese@diariosm.com.br Produção: Silvana Silva ☎ 3220.1866. Subeditor: Ricardo Ceratti ☎ 3220.1868

Tiradentes começa atividades

O Colégio Tiradentes começa hoje, às 7h30min, o seu ano letivo. Até 2 de março, os estudantes passarão por um período de adaptação. Eles aprenderão as normas de postura e de disciplina exigidas pela escola, além de hinos e símbolos da Brigada Militar. Haverá 60 alunos no Ensino Médio.

FERNANDO RAMOS – 27/08/08

GERAL

Confirmação de vaga

UNIFRA

UMA DOENÇA QUE TRAZ PREOCUPAÇÃO

Começa amanhã a confirmação de vaga para os aprovados da UFSM. A entrega dos documentos deve ser feita no Departamento de Registro e Controle Acadêmico (Derca), no prédio da Reitoria, no Campus. Informações: (55) 3220-8204.

O alerta vem das nossas matas FOTOS LAURO ALVES – 12/02/09

Maioria dos 243 macacos depois da morte, e os órgãos foram coletados para exame. mortos na região era só carcaça e não passou por Dificuldade – O primeiro animal a exames em laboratório ser examinado em São Sepé deu traMARILICE DARONCO

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Quarta chamada

Número de bugios mortos na região

FEBRE AMARELA Em pelo menos quatro cidades da região, exames comprovaram que os bugios morreram por causa da doença

balho: morreu no alto de uma árvore. Foi preciso bodoque, cordas, taquara e uma dose de boa-vontade para retiMorreu um bugio na minha cida- rar o bicho que estava preso. – Era um grupo grande. O filhote de. Os moradores de 24 das 36 cidades da região podem dizer essa frase colocava as mãos na cabeça e gritava hoje. Muita gente pode pensar que muito. Foram os gritos que chamaisso não tem importância, pois os ram a atenção, nunca vi um bicho bugios sempre estiveram nas matas gritando assim. De manhã, quando do Estado e seja de velhice, por brigas eu voltei, ele estava morto – conta no grupo, falta de comida ou outros Ramiro de Oliveira, capataz de uma motivos, acabam morrendo. Mas, em fazenda da localidade de Bujuru, no tempos de febre amarela, a morte de interior do distrito de Tupanci. Depois de derrubar o macaco da ármacacos pode ser um sinal de que a vore, foram retirados fígado, baço, doença está se aproximando. rins, coração e pulmão. Como o bugio é um dos – O fígado está amareprimeiros animais a lado, o que é uma das serem atacados pecaracterísticas da los mosquitos que febre amarela, mas transmitem a dotambém de outras ença (veja quadro), doenças. Só o exaa morte de grupos me pode dar certeza em um mesmo lo– diz o veterinário da cal pode significar 4ª Coordenadoria Reque o vírus está por gional de Saúde Arthur perto. Foi o que ocorreu José Brondani. em cidades como Júlio de Os exames levam cerca de 20 Castilhos, Tupanciretã, Quevedos e Toropi. Exames em órgãos dos dias para ficar prontos. O biólogo animais dessas cidades comprova- Marco Almeida, do CEVS, tem exram que a causa das mortes foi febre pectativa que em São Sepé ele seja amarela. Em outras cidades, entre negativo porque o bando de bugios elas Santa Maria, os resultados dos do qual o macaco morto fazia parte parecia saudável. O problema é que exames não chegaram. Das 974 notificações de bugios moradores disseram que outros 14 mortos no Rio Grande do Sul, 243 são animais morreram em locais vizida Região Central. Esse é o número nhos dias antes. – A presença de grupos de animais de casos oficiais. Mas, as informações extraoficiais são de ainda mais mortos pode significar que há febre bugios mortos. Isso não significa que amarela. Quando um único bugio do todos esses animais morreram de fe- grupo morre, as causas podem ser bre amarela, mas são um alerta. Santa várias. Por isso, o exame é importante, Maria e 22 cidades vizinhas estão na para tirar as dúvidas – diz Almeida. Como é melhor prevenir do que zona de risco do Estado, e biólogos remediar, muita têm procurado indícios do vírus Animal que morreu gente tem procuem matas da reem São Sepé tinha rado pelos postos vacinação de gião para saber se o fígado amarelado. de São Sepé em busé preciso ampliar Somente o exame ca de vacina. A essa área. Na semana paspode confirmar que orientação é para que quem vai para sada, uma equipe foi febre amarela o interior tome a do Centro Estadudose 10 dias antes. al de Vigilância em Saúde (CEVS) esteve em São Sepé. O Foi o que fez a comerciante Deniza município não faz parte das 134 ci- Gonçalves dos Santos, 44 anos. Ela e a dades que estão na área de risco no filha Manoelle dos Santos Fernandes, Estado, mas já tem 14 notificações de 6 anos, vão para Ipê, localidade perto mortes de bugios. O trabalho do bió- da qual bugios morreram. – Meus pais moram lá e já fizelogo e dos veterinários não foi fácil: caminhada no mato fechado, captura ram a vacina. Como vamos visitá-los, de animais para monitoramento, pro- achei importante nos prevenirmos cura de macacos mortos. Na quinta- também– afirma Deniza. feira, um bugio foi encontrado pouco marilice.daronco@diariosm.com.br

DIÁRIO DE SANTA MARIA SEGUNDA-FEIRA, 16 DE FEVEREIRO DE 2009

|8|

■ Agudo – Nenhum ■ Caçapava do Sul*– Nenhum ■ Dilermando de Aguiar – 5 ■ Dona Francisca – 1 ■ Faxinal do Soturno – Nenhum ■ Formigueiro – 5 ■ Itaara – Uma carcaça foi encontrada por moradores, mas nenhum caso foi notificado ■ Itacurubi*– 50 ■ Ivorá – 1 ■ Jaguari – 38 ■ Jari – Nenhum ■ Júlio de Castilhos – 6 ■ Lavras do Sul* – Nenhum ■ Mata – 13 ■ Nova Esperança do Sul – Nenhum ■ Nova Palma – Nenhum ■ Paraíso do Sul – 11 ■ Pinhal Grande – Nenhum ■ Quevedos – 5, confirmada a febre amarela ■ Restinga Seca – 11 ■ Rosário do Sul *– Nenhum ■ Santa Margarida* – 2 ■ Santa Maria – 5 ■ Santana da Boa Vista* – Nenhum ■ Santiago – 7 ■ São Gabriel *– 5 ■ São João do Polêsine – 1 ■ São Martinho da Serra – Nenhum caso foi

Morte de bugios por febre amarela comprovada

Morte de bugios ainda sem causa comprovada

notificado, mas moradores encontraram 2 bugios mortos ■ São Pedro do Sul – Nenhum ■ São Vicente do Sul – Nenhum ■ São Sepé – 14 ■ Silveira Martins – 1

■ Toropi – 4, confirmada a febre amarela ■ Tupanciretã – 35, confirmada a febre amarela ■ Unistalda – 21 ■ Vila Nova do Sul – 1 * Dados Fornecidos pelas secretarias municipais de Saúde

Fonte – 4ª Coordenadoria Regional de Saúde

EDITORIA DE ARTE

A FEBRE AMARELA 1

TIRANDO A FEBRE Em São Sepé, veterinário observou o bugio que estava morto em uma árvore (2), usou uma taquara para derrubá-lo (3), retirou órgãos para encaminhá-los para exame (1) e observou que o fígado estava amarelado (4)

Foi o médico sanitarista brasileiro Oswaldo Cruz que descobriu que o transmissor da febre amarela era um mosquito. Ele propôs que a doença só poderia ser combatida com vacinação. Na época, houve revolta contra as ações, mas a doença foi controlada

■ Febre, dor de cabeça, calafrios, náuseas, vômito, dores no corpo, icterícia (pele e mucosas amareladas) e hemorragias.

DIÁRIO DA REGIÃO

OS BUGIOS ■ Importância – Comem frutos e eliminam sementes em diferentes áreas, ajudando a manter e a regenerar as matas. Suas fezes adubam o solo, tornando-o mais fértil e, ao comerem as folhas, podam os galhos e fazem com que as árvores cresçam. Também servem como sentinela da febre amarela porque, quando são encontrados vários animais mortos, as autoridades em saúde verificam se o vírus está circulando no local ■ Monitoramento – Em 2002, a 4ª Coordenadoria Regional de Saúde encontrou um bugio doente em Jaguari. O animal foi capturado e morreu de febre amarela. Naquela época, nove cidades da região foram incluídas na área de risco da doença. Os bugios da região também começaram a ser monitorados por um serviço pioneiro no Brasil. Eles passaram a ser capturados com o uso de dardos anestésicos para recolher amostras de sangue que serm para fazer o exame que verifica a presença do vírus da febre amarela. Os animais também recebem chips de monitoramento

■ Uma doença infecciosa, causada por um vírus. Ela ataca o fígado e os rins e, na maioria dos casos, mata.

Quais são os sintomas da doença?

MAIS

Descoberta

O que é a febre amarela?

COMO AGE O VÍRUS médico. Não existe um tratamento para a doença e, sim, para os sintomas que ela provoca. O tratamento é feito principalmente com hidratação e reposição de sangue.

Quem deve se vacinar ? ■ Pessoas a partir de nove meses de idade que estão nas cidades de risco e quem pretende viajar para esses locais.

Quem NÃO deve se vacinar? Como ocorre a transmissão? 2

■ O vírus é transmitido pelos mosquitos dos gêneros Haemagogus e Sabethes, encontrado em matas ciliares, e pelo Aedes aegypti na área urbana. Não há forma de transmissão entre humanos.

Em caso de sintomas, o que fazer? ■ Procurar imediatamente tratamento

■ Quem fez a vacina há menos de 10 anos, crianças com menos de 9 meses, gestantes, pessoas com alergia à proteína do ovo e com imunidade baixa (que estão com uma doença grave, por exemplo). Mulheres que estão amamentando, pessoas que têm o vírus da Aids ou algum problema de saúde ou tomam medicamentos contínuos devem consultar um médico antes de se vacinar.

A vacina causa alguma reação? ■ Depende do caso. Pode surgir febre, dor de cabeça e no corpo, náuseas. Os sintomas geralmente aparecem entre o sexto e o décimo dia depois de tomar a vacina e desaparecem em dois dias.

3

PREVENÇÃO 4

Manoelle ficou com medo da vacina mas, depois, disse que não doeu nada

1

Existe um ciclo na natureza. Um mosquito infectado pica animais como bugios, pássaros e outros bichos que vivem na copa das árvores fazendo deles hospedeiros da doença. As fêmeas dos mosquitos Haemagogus e Sabethes não nascem infectadas. Elas contraem o vírus desses animais doentes, ao picá-los. Ao entrar em uma área de mata onde há esse tipo de mosquito contaminado, sem ser vacinada, a pessoa pode ser picada por eles e contrair a febre amarela

4

SELCIONADOS Administração – Manhã Daniele Dutra Ribeiro Tiago Stock Cristino Herick Machado Dias Bruna Felin Cerezer Cristiane Gomes Tatsch Cassio Elias Rossato Janice Baggio de Oliveira Paula Elisabete Streck Tiago Mello Xavier Letícia Miranda Cechin Arquitetura e Urbanismo Matheus Anversa Dalla Corte Renata Blini Strasser Fernanda Vogt Guilherme Mesquita Wendling Ciências Contábeis Flávio Flores de Oliveira Rita de Cássia Pedrollo Bittencourt Mar Deison Henrique Bonadeo Cleber Rafael Pereira Feistler Heleodoro Alves Freitas Gabriel de Oliveira Pahim Kelen Souza Marin Comunicação Social – Pub. e Prop. Gustavo Nasr Mirambel Alexandre de Carvalho Cordero Direito – Manhã Bruna Giacomini Lima Martina Eloisa Mota da Silva Rafael Buzetto Fabiana Marçal Barbosa Bárbara Conrad Fiorin Eduardo Wypyszynski Carlos Alberto Delgado de David Engenharia Ambiental Lucas Benjamim Pozzer Rafael Silva Correa Camila Ayres Melgarejo Adriana Santos Ortiz Ana Claudia Fiorim Amanda Inticher Farmácia Ingrid Duarte dos Santos Floriano Soeiro de Souza Filho Maiani Barnieri Marion Maria Emilha Basso Natalia Ens Quepfert Maiara Taline de Oliveira Everton Conrad Drews Diego Salazar Cristina Parcianello Saldanha Jéssica Lopes Trindade

2

De três a seis dias depois, começam os primeiros sintomas, semelhantes aos de uma gripe. O vírus se espalha pelo corpo, causando febre, amarelão na pele e nos olhos, dores de cabeça e no corpo e calafrios

A Unifra divulgou a relação dos classificados em quarta chamada no Vestibular 2009. Os selecionados de Administração (diurno), Arquitetura e Urbanismo, Ciências Contábeis, Direito (diurno) e Comunicação Social – Publicidade e Propaganda devem realizar a matrícula nesta quinta-feira, das 8h às 11h30min, no Derca (Rua Silva Jardim, 1.535). Na sexta-feira, é a vez dos classificados nos cursos de Engenharia Ambiental, Farmácia, Fisioterapia, Odontologia e Psicologia.

3

O vírus pode atacar fígado e rins, e o portador passa a ter crises de vômitos e diarreia. Com o agravamento do quadro, pode haver diminuição ou ausência de urina, sangramentos e confusão mental

Não existe um remédio que cure a doença. Os sintomas é que são tratados. O paciente deve permanecer em repouso e fazer reposição de líquidos e de sangue, quando necessário. A estimativa é que em 55% das pessoas a doença leve à morte

Fisioterapia Aparecida Ilha Soares Paola de Almeida Mori Márcia Quoos Cheila Damiane D’Avila Odontologia Alessandra Caporal de Moraes dos Reis Maria Emilha Basso Juliana Caurio da Silva Jéssica Copetti Barasuol Psicologia Michele Stefanello Vieira Urânia Cavalheiro Siqueira Fabiele Aparecida da Silva de Oliveira Cristel Elisa Neuhaus Daiana Jaqueline Canova Andressa dos Santos Rodrigues


DIÁRIO DE SANTA MARIA QUINTA-FEIRA, 16 DE JULHO DE 2009

DIÁRIO DE SANTA MARIA QUINTA-FEIRA, 16 DE JULHO DE 2009

| 10 e 11 | GERAL FOTOS MARILICE DARONCO

SAÚDE Segurança morreu ontem. Resultado de teste não saiu

A DOENÇA E OS CUIDADOS

Gripe A pode ter provocado a quinta morte Vítima teve pneumonia e complicação respiratória seguida de parada cardíaca. Quatro já morreram no país

e não foi considerado um caso suspeito da doença. Depois, no PA do Patronato, contou que tinha feito a viagem e que teria tido contato com outras pessoas do Mercosul – explica o infectologista Lopes Pedro. MARILICE DARONCO* De acordo com a coordenadora de enfermagem do PA do Patronato, Um paciente de 24 anos que esta- Cleci Cardoso, no prontuário médico va internado no Hospital Universi- do jovem do dia da internação ficou tário (Husm) desde a última sexta- registrado que ele disse ter ido ao feira,com suspeita de gripe A morreu país vizinho. A família garante que o às 6h22min de ontem. No dia em que jovem não teria saído do Brasil. – O mais perto disso que ele cheSanta Maria pode ter tido a primeira gou foi uma festa morte da região em Santa Maria, por causa da doFamília reclama que na qual havia ença, autoridades e especialistas em vítima foi em busca pessoas de fora saúde se reuniram de atendimento no do país – afirma um primo do para tentar conter PA do Patronato segurança. o avanço (leia texe no Husm até ser Se for confirto ao lado). O homem que internado, na quinta mado que o segurança – que foi morreu ontem enterrado ontem trabalhava como segurança terceirizado em duas bo- à tarde– morreu tinha gripe A, esta ates da cidade e em festas na região. será a quinta morte do Brasil e a terEle não resistiu a uma insuficiência ceira do Rio Grande do Sul. Por mais respiratória seguida de parada cardí- que seja apenas uma suspeita, a noaca após cinco dias de internação. O tícia da morte do segurança chegou exame para saber se ele tinha o vírus com preocupação ao Husm. Há 17 da gripe A foi feito, mas o resultado dias, não chegam ao local os resultados dos exames feitos em pessoas da ainda não chegou ao hospital. – Não temos o resultado. Porém, a região com suspeita da nova gripe. – Sabemos que há poucos labosuspeita de que ele estava com a doença é muito forte – diz o infectolo- ratórios fazendo a análise e que há uma demanda muito grande no país, gista do Husm Fábio Lopes Pedro. Ontem pela manhã, funcionários mas os resultados são importantes terceirizados que trabalham na lim- para nós – afirma Lopes Pedro. peza do Husm usaram máscara, roupas especiais e luvas para fazer a deMedicamento – Outra preocupação sinfecção do leito de isolamento onde do infectologista é que ontem termiestava o segurança. Como o local fica naram as doses de Tamiflu, medicadentro do pronto-socorro do Husm, mento que deve ser administrado pacientes e familiares que estavam nas primeiras 48 horas de sintomas internados no local assistiram à lim- da doença. O medicamento é fornecipeza pela vidraça. do pelo Ministério da Saúde. Uma irmã do segurança foi ontem Mais doses foram solicitadas ao pela manhã ao Husm. Ela contou Estado, mas, até ontem, não haque ninguém da família está em viam chegado. O Diário procurou o isolamento e que ministério para o irmão viveu um que a assessoria Infectologistas drama em busca se manifestasse da cura para a sua sobre a falta de do Husm estão doença (veja quae sobre bem preocupados. remédios dro ao lado). a demora nos Faltam remédios Ele teria busexames, mas não cado ajuda no PA para tratamento, e obteve retorno. do Patronato e no Ontem, havia exames demoram Husm na última cinco pacientes terça-feira, mas só internados em teria sido internado na quinta-feira, hospitais da cidade por suspeita quando os sintomas ficaram bas- de gripe A. No Husm, além de uma tante graves. Uma das divergência adolescente de São Gabriel que está entre os médicos e a família da víti- estável, há dois pacientes graves. No ma é quanto a uma suposta viagem Hospital de Caridade, há um paciente à Argentina. em estado grave e outro gravíssimo. – Quando ele esteve no Husm, marilice.daronco@diariosm.com.br omitiu que tinha ido até a Argentina *Colaborou Mauren Rigo

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O que é a gripe A? ■ É uma infecção respiratória aguda, causada pelo vírus A (H1N1). Esse novo subtipo do vírus da influenza (gripe) é transmitido de pessoa a pessoa, principalmente por meio da tosse ou do espirro, ou por contato com secreções respiratórias de pessoas infectadas. Há uma frequência de casos mais graves entre pessoas com doenças crônicas pré-existentes

Quais os sintomas? ■ São semelhantes aos da gripe comum: febre de 37,8°C, dores pelo corpo, cansaço e tosse. Para ser considerada suspeita de ter a doença, além de ter esses sintomas, a pessoa precisa ter ido a um país onde há casos confirmados de gripe A ou ter tido contato próximo com pessoas que tiveram a doença. O risco de morte surge quando ela não é tratada adequadamente. A pessoa pode morrer do próprio vírus, mas a morte pode ser causada também por infecções bacterianas secundárias, que surgem porque o organismo fica debilitado com a gripe. É o caso da pneumonia

MAIS

No Estado Em Passo Fundo, três pessoas morreram nos últimos cinco dias com suspeita da gripe A, mas resultados dos exames ainda não estão prontos. Em virtude do risco do aumento no número de mortes, o secretário da Saúde, Osmar Terra, pediu ajuda do Exército para conter o avanço da doença. Cerca de 60 militares irão reforçar as fronteiras do país com o Paraguai, Uruguai e Argentina

Há cuidados especiais?

LIMPEZA TOTAL Quarto de isolamento do Husm onde o segurança estava internado desde sexta-feira passou por processo de desinfecção ontem. Funcionários da limpeza usaram máscara e roupas especiais

UFSM decide hoje se adia a volta às aulas

CHECAGEM Ontem pela manhã, funcionárias do Husm (à esq.) fizeram coleta de material do exame em um jovem (à dir)

EM BUSCA DE AJUDA O segurança que morreu em Santa Maria ontem com suspeita de gripe A buscava ajuda médica desde terça-feira. Confira o drama dele em busca da cura: ■ Dia 7 – Com febre alta e dores pelo corpo, o segurança procura o PA do Patronato, onde foi atendido pelo médico, que não teria considerado um caso grave. Ele volta para casa ■ Dia 8 – A mãe da vítima faz uma visita a ele e percebe que os sintomas se agravaram. Um primo do segurança, que trabalha em uma unidade de saúde, é contatado para ajudar. Ele consegue um carro da

Secretaria Municipal de Saúde para levar a vítima até o Hospital Universitário. No hospital, o paciente recebe atendimento médico e uma receita de remédios para tratamento da gripe comum e volta para casa, de ônibus ■ Dia 9 – O segurança piora ainda mais e procura pelo PA do Patronato. Ele teria relatado estar com dores na cabeça e no corpo e ter feito uma viagem de vários dias

à Argentina. Ele foi internado, com suspeita de gripe A. Segundo o PA, não havia leito disponível no Husm, e a vítima ficou internada no próprio pronto-atendimento, em isolamento ■ Dia 10 – O segurança é internado no Husm e faz o exame para a gripe A ■ Ontem – A vítima morre às 6h22min, com pneumonia, seguida de insuficiência respiratória e parada cardíaca

A preocupação com a gripe A chegou forte ao campus da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Ontem, o Husm, hospital de referência no tratamento da doença na Região Central, suspendeu os atendimentos no pronto-socorro. O PS se dedicará apenas aos casos de urgência e emergência e de suspeita ou investigação de doença. A iniciativa é uma forma de evitar a contaminação de outras pessoas, já os leitos de isolamento da gripe A ficam dentro do PS. Além disso, uma reunião entre o reitor da UFSM, Clóvis Lima, e os pró-reitores, hoje pela manhã, deve decidir se a instituição estenderá o período de férias, que começam no sábado, para evitar que alunos contraiam a doença. O segundo semestre recomeçaria em 10 de agosto. Além da morte do segurança, outro fator que pesou na convocação da reunião é o caso de uma universitária que mora na Casa do Estudante, no campus, que pode estar com o vírus.

Emergência – Ontem à tarde, a direção do Husm fez uma reunião emergencial com autoridades e especialistas em saúde da cidade para tomar providências que possam evitar a propagação do vírus. As medidas, reunidas em documento (veja quadro), foram enviadas ao prefeito, Cezar Schirmer. O pedido era para que ele decretasse situação de emergência no município.

AS SUGESTÕES Após reunião, Husm sugere medidas para conter a doença: ■ Decretar situação de emergência em Santa Maria ■ Contratar médicos, enfermeiros e técnicos de enfermagem para o Husm ■ Aumentar o número de leitos de UTI no Husm bem como em outros hospitais terciários da região

Schirmer descartou essa possibilidade ainda ontem. Segundo sua assessoria, o prefeito debateu a sugestão do Husm com o secretário Municipal de Saúde, José Haidar Farret, e com secretário Estadual de Saúde, Osmar Terra. A decisão é que a medida é desnecessária e poderia gerar mais pânico entre a população. O que será feito, por enquanto, é a distribuição de panfletos para esclarecer a população. Uma infectologista do Estado deve chegar hoje a Santa Maria para ajudar nas medidas de contenção. Segundo o diretor do Husm, Jorge Freire, poderiam ser abertos 10 leitos de UTI e 10 de isolamento para os casos suspeitos de Gripe A, mas o hospital não tem pessoal suficiente para colocá-los em uso. Para isso, seria necessário dinheiro para contratar mais 130 técnicos de enfermagem, 20 enfermeiros e 10 médicos.

■ Sim. Algumas pessoas devem ter atenção redobrada. São elas: 1. Cardiopatas – As infecções virais ou bacterianas podem piorar o chamado débito cardíaco, ou seja, um funcionamento considerado abaixo do ideal do coração, e provocar problemas gerais na saúde da pessoa 2. Imunodeficientes – Portadores do vírus HIV, diabéticos ou quem passa por tratamentos com medicação forte por tempo prolongado, como quimioterapia e radioterapia, costuma estar com o sistema imunológico em baixa, ficando mais suscetível 3. Idosos – Devido à idade, a pessoa tende a ficar com a imunidade naturalmente mais baixa e mais suscetível 4. Crianças – Crianças abaixo dos 2 anos merecem cuidados especiais porque seu organismo ainda não está maduro o suficiente nem preparado para enfrentar os inimigos externos. São alvos mais fáceis para o vírus e possíveis complicações, como a pneumonia 5. Portadores de doenças respiratórias crônicas – Fumantes ou qualquer um que sofre com doenças crônicas do sistema respiratório, como asma, bronquite e enfisema, também apresentam riscos maiores de complicações por causa das alterações estruturais e inflamatórias dos brônquios e dos pulmões 6. Gestantes – Como a gripe é recente e não há comprovação do efeito sobre o bebê, é recomendado que grávidas tomem cuidado

O que fazer em caso de suspeita da doença? ■ As pessoas com sintomas de gripe devem procurar ajuda médica. Há duas opções: pronto-atendimentos de hospitais particulares e clínicas (para quem tem plano de saúde) ou as sete unidades básicas de saúde de Santa Maria, que são referência no atendimento da gripe A (para quem não tem plano de saúde). É desses locais que, quando necessário, as pessoas são encaminhadas ao Husm ■ Unidades básicas de referência na cidade são Kennedy (Vila Kennedy), Oneyde de Carvalho (Vila Lorenzi), Rosário (Rosário), PA da Tancredo Neves (Tancredo Neves), Wilson Paulo Noal (Camobi), São José (São José) e Itararé (Itararé)

Como prevenir a doença? ■ Lave bem as mãos. Como a contaminação se dá por meio de secreções, quanto mais higienizada a pessoa estiver, menor chance de contrair o vírus ■ Ao tossir ou espirrar, cubra o nariz e a boca com um lenço, preferencialmente descartável ■ Os equipamentos de proteção, como máscaras, devem ser utilizados por pessoas com suspeita de contaminação, por pessoas que têm contato direto com elas e por profissionais envolvidos no seu atendimento ■ Ninguém deve tomar medicamento sem indicação médica. A automedicação pode mascarar os sintomas, retardar o diagnóstico e até causar resistência ao vírus ■ O risco de disseminação do vírus aumenta com o frio. É importante se alimentar bem, dormir bem, usar agasalhos para se proteger do frio e evitar ambientes fechados com grande aglomeração de pessoas ■ A vacina sazonal para influenza oferece pouquíssima proteção contra a gripe A, mas é importante tomar a vacina para evitar a gripe comum ■ O vírus H1N1 não resiste a temperaturas muito altas. Cozinhar bem a carne é uma recomendação. Não há risco com embutidos ■ Um cuidado deve ser redobrado com o avanço da gripe A: repouso. As pessoas com gripe não devem ficar circulando em meio as que não estão com o vírus porque ele se transmite pelo ar. Elas devem procurar o médico que dará o atestado necessário para que fiquem em casa. Quando saem de casa, elas devem usar máscara

Fontes: infectologistas Fábio Lopes Pedro e Reinaldo Ritzel

ARTE FERNANDO BASTOS SOBRE FOTO BANCO DE DADOS

Férias chegam antes em duas cidades Em duas cidades da região, as férias escolares serão antecipadas por causa da gripe A. Em Santa Maria, o Colégio Centenário começará as férias a partir de hoje, dois dias antes do programado. A medida foi tomada pela direção da escola ontem à tarde como “prevenção”. Uma funcionária da Faculdade Metodista de Santa Maria (Fames), que fica junto à escola, está em isolamento domiciliar, com suspeita da doença. Em São Pedro do Sul, a suspeita de que um homem de 40 anos esteja contaminado pelo vírus influenza A não levou pânico à cidade, mas já exigiu algumas medidas para DIÁRIO controlar o avan- DA REGIÃO ço da doença. Hoje, os alunos da rede municipal já entrarão em férias. O descanso, que começaria somente na segunda-feira, foi antecipado por prevenção. O primeiro caso suspeito na cidade, segundo o secretário de Saúde, Arezoli Pinheiro, teria feito contato com uma pessoa com suspeita da doença em Santa Maria. O homem está internado no Husm para que os médicos avaliem a situação. Familiares e colegas de trabalho dele seguem com suas atividades normalmente e não teriam apresentado sintomas da gripe A.

São Gabriel – Na cidade que chegou a decretar situação de emergência em junho em função da gripe A, o número de casos suspeitos se estabilizou em 38. Um aluna de São Gabriel ainda está internada no Husm.

Prevenir é tarefa de todos O médico infectologista do Hospital de Caridade Reinaldo Ritzel faz um alerta importante: todas as pessoas que apresentarem sintomas de gripe – independentemente do tipo – devem tomar cuidado para não transmiti-la a quem não está doente. Ele reafirma que esse deveria ser um cuidado mantido sempre, mas que em tempos de gripe A, precisa ser redobrado. Entre as recomendações, está repousar. – Quem está gripado deve ficar em repouso, sem sair de casa. Se for necessário sair, deve-se usar máscaras, para evitar que o vírus fique circulando – recomenda Ritzel. Ter uma alimentação saudável e manter o máximo de cuidados em relação à higiene, como lavar bem as mãos com frequência (veja quadro ao lado), também são cuidados recomendados para evitar e para ajudar no tratamento das gripes comuns. Segundo os especialistas, eles também se aplicam à gripe A. – É preciso que as pessoas sigam as recomendações dos médicos. Elas precisam colaborar, principalmente quando estão com suspeita de gripe A – completa o infectologista do Husm Fábio Lopes Pedro.


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GERAL

Quarta-feira, 28/03/2007

FERNANDA MENEGHEL E MARILICE DARONCO uase 24 horas depois de conseguir uma ordem judicial para que a mãe, Julia Betin da Silva, 70 anos, fosse internada em um Centro de Terapia Intensiva (CTI), a serviços gerais Maria Medianeira Silva da Silva, 39 anos, recebeu a má notícia e caiu em prantos. Na manhã de ontem, Julia foi a segunda pessoa em 11 dias a morrer no ProntoAtendimento (PA) do Patronato, por causa da falta de um leito em CTI pelo Sistema Único de Saúde (SUS). – Não posso afirmar que, se ela (Julia) estivesse internada em um CTI, estaria viva agora. O fato é que o estado da paciente era grave e, para fazer o atendimento ideal, seriam necessários equipamentos que não temos em um local destinado para casos de emergência – avalia a médica Rosane Wink, que atendeu a idosa desde o domingo, quando ela chegou ao PA. Somada ao caso do aposentado Erny Schafer, que, no dia 16 de março, também morreu antes de ser internado no CTI, a história de Julia é o reflexo do estado em que se encontra o sistema público de saúde em Santa Maria. O único hospital que tem leitos de terapia intensiva pelo SUS é o Universitário. Mas como ele está seguidamente lotado, a Justiça é o único caminho para quem precisa de atendimento. Além disso, faltam médicos e remédios. Quem paga a conta é o cidadão que depende do SUS. Na cidade, o Hospital Universitário (Husm) é o único que oferece leitos de CTI pelo

Q

DIÁRIO DE SANTA MARIA

Mais uma morte

na fila

do SUS

Idosa de 70 anos morreu ontem no Pronto-Atendimeto do Patronato. Ela tinha autorização judicial para um leito de CTI em hospital, 11 dias depois de um caso parecido Charles Guerra

SUS. Segundo a defensora pública Luciana Kern – que acompanhou todo o caso, apesar de ter sido o Ministério Público que entrou com a ação judicial –, o local foi o primeiro procurado por um oficial de justiça, que foi informado sobre a falta de vagas. O Hospital de Caridade, que é particular e só oferece atendimento para pacientes do SUS a pedido da Justiça, também foi procurado, mas a resposta teria sido a mesma. No Hospital Regional da Unimed, também particular, de acordo com Luciana, mesmo com a ordem judicial, a falta de leitos disponíveis impediu a internação da idosa. Procura por leito em hospital começou segunda

Logo depois de saber da morte da mãe, Maria Medianeira (de azul) se desesperou e precisou ser consolada

COM CTI Hospital Universitário de Santa Maria (Husm) ▼ Total de Leitos: 275 ▼ Leitos na CTI: 38 ▼ Leitos desativados: um dos 10 leitos da CTI adulta não funciona, por falta de pessoal. O hospital tem 500 funcionários a menos do que precisa ▼ Quem atende: pacientes de média (partos, extrações de hérnias e apêndices) e alta complexidade (cirurgias cardíacas, complicações de parto) do SUS de toda a região Hospital de Caridade ▼ Total de leitos: 322 ▼ Leitos na CTI: 20 ▼ Leitos desativados: 12 leitos da CTI não funcionam porque estão passando por obras ▼ Quem atende: é particular, mas tem filantropia (sem fins lucrativos e com direito à isenção de alguns impostos) Hospital Regional Unimed ▼ Total de leitos: 114 ▼ Leitos na CTI: 22 ▼ Leitos desativados: não tem ▼ Quem atende: é particular e não tem filantropia

PRONTUÁRIO DOS NOSSOS HOSPITAIS AS ÚNICAS INSTITUIÇÕES QUE TÊM LEITOS EM CTI SÃO O UNIVERSITÁRIO, O CARIDADE E O REGIONAL UNIMED, SENDO QUE SÓ O PRIMEIRO FAZ ATENDIMENTOS PELO SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE (SUS). P OR ISSO , PROCURAR A JUSTIÇA ACABA SENDO A ÚNICA SAÍDA . ONTEM , NENHUM DOS HOSPITAIS DA CIDADE INFORMOU QUANTOS LEITOS ESTÃO DISPONÍVEIS

Palavras sobre a crise dos leitos “O governo do Estado está fazendo o que pode que é tentar um convênio para que a Casa de Saúde continue funcionando e buscando recursos para a construção do Hospital Regional na cidade. Santa Maria é historicamente a cidade do Estado com a pior situação de falta de leitos. E a situação ficou como está porque a prefeitura fez pouco para tentar ajudar.” Osmar Terra, secretário estadual de Saúde

“Se o governo do Estado admite que a cidade tem a pior crise de leitos, confessa que deveria investir mais nessa área. Essa obrigação não é nossa. O mais importante é investirmos para que só chegue até o hospital quem realmente precise desse tipo de atendimento, e a prefeitura tem investido em programas voltados para que isso aconteça.” Elaine Resener, secretária municipal de Saúde

“Essa situação do PA não é novidade. Desde que abriu, vive com problemas. Sempre está faltando alguma coisa ou tem equipamentos quebrados, o que respinga no Husm. Nós encaminhamos um projeto para o Estado, pedindo para a universidade administrar a Casa de Saúde. Mas ignoraram a nossa proposta. Não recebemos sequer a resposta.” Jorge Freire, diretor do Husm

No dia 16 de março... ... Erny Schafer, 71 anos, morreu quando aguardava para ser internado em um CTI. Familiares até conseguiram ordem judicial, mas uma insuficiência respiratória o matou antes de ele ser transferido do PA

Desde o início da manhã de ontem, Maria Medianeira não escondia o desespero nos corredores do PA: – Será que vai precisar morrer mais gente aqui para que se faça alguma coisa? A mãe começou a passar mal no domingo, quando foi levada para a unidade. Na segundafeira, à medida que o estado de saúde ia piorando, a médica informou a família da necessidade da internação em uma unidade de CTI. Na segunda-feira, a pedido do Ministério Público (que entra em ação quando a falta de leitos ocorre com idosos ou em horários de plantão), começaram as buscas por um CTI para dona Julia. A causa da morte foi insuficiência respiratória, mas o estado foi agravado por problemas como pressão alta, edema pulmonar e uma possível lesão no cérebro.

SEM CTI Hospital da Brigada Militar (HBM) ▼ Total de Leitos: 46 ▼ Leitos desativados: não tem ▼ Quem atende: policiais militares e seus dependentes, conveniados ao Instituto de Previdência do Estado (IPE) e Unimed Hospital de Guarnição de Santa Maria (HGu) ▼ Total de Leitos: 37 ▼ Leitos desativados: 13 (uma das unidades está em reformas que devem demorar mais um mês) ▼ Quem atende: militares e seus dependentes Hospital Dia (Unimed) ▼ Total de Leitos: 52 (24 de internação, 16 de observação e 12 de recuperação anestésica) ▼ Leitos desativados: não tem ▼ Quem atende: conveniados Casa de Saúde ▼ Total de leitos: 88 ▼ Leitos desativados: 18 da Clínica Médica (fechada pela Vigilância Sanitária) e 5 da Pediatria ▼ Quem atende: pacientes de média complexidade (cirurgias como hérnias, extração de apêndices, partos)


DIÁRIO DE SANTA MARIA QUARTA-FEIRA, 22 DE JULHO DE 2009

| 32 | GERAL RONALD MENDES, ESPECIAL – 9/07/09

ESTATÍSTICA CRUEL Entre janeiro e junho, 63 pessoas perderam a vida em 56 acidentes na região. O número de vítimas aumentou em relação ao mesmo período do ano passado, quando houve 60 mortos no trânsito. Confira as estatísticas que trazem dados curiosos, como a redução de mortes entre os mais jovens: 2008

2009

Sexo das vítimas Homens Mulheres

51 9

56 7

Idade das vítimas 40-49 anos 60 ou mais 20-29 30-39 10-19 50-59 0-9

10 6 20 10 2 10 2

17 15 11 7 7 6 -

Rodovias com mais mortes BR-287 BR-392 BR-290 RSC-287 BR-158 RS-149 RS-509 RS-511 VRS-325 BR-153 RSC-348 RSC-392 RSC-377

11 9 6 4 12 2 1 1 2 2 1 -

10 8 7 5 3 3 3 2 2 1 1 1 1

8 1

15 1

Cidades com mais mortes Santa Maria Caçapava do Sul São Pedro do Sul Restinga Seca Rosário do Sul Santa Margarida São Gabriel São Sepé Itaara Jaguari Tupanciretã Santiago Faxinal do Soturno Nova Esperança Paraíso do Sul Júlio de Castilhos São Vicente Agudo Dona Francisca

21 8 4 2 1 1 1 8 2 4 1 2 1 1 1 1 1

23 6 6 5 3 3 3 2 2 2 2 1 1 1 1 1 1 -

Tipo de veículo em que estava a vítima Carro A pé Motocicleta Caminhão Bicicleta Trator

24 10 18 4 4 -

26 14 9 8 5 1

Vias urbanas Estradas de chão

ESTÁ FALTANDO ALGUÉM NESTA FOTO Silvana e o filho Giovane lamentam a ausência do marido e pai João Manoel da Silva, ao lado da cadeira em que ele gostava de ficar no pátio de casa. Aos 73 anos, o lubrificador aposentado morreu atropelado por uma moto na BR-287, em Santa Maria, em 29 de março

TRÂNSITO Número de vítimas e acidentes no primeiro semestre na região aumentou

(Muitas) vidas perdidas MAIS

Violentos Os dois acidentes mais violentos do ano na região ocorreram no dia 3 de março, em São Pedro do Sul, e em 29 de maio, em Caçapava do Sul. Cada um deles teve três mortos

Foram três mortes a mais nos seis primeiros meses do ano em relação ao mesmo período de 2008

anos, com quem foi casado durante 56 anos e teve quatro filhos. Para ela, Silva disse que não demorava a voltar, mas, para o desespero de Silvana, não cumpriu a promessa. A idosa ainda teima em olhar para o portão da casa MARILICE DARONCO como se houvesse esperança e não se conforma em ver a cadeira em que o Homem, acima dos 40 anos, pas- marido gostava de sentar no pátio. Giovane Montenegro da Silva, sando por uma rodovia de Santa Maria. Este é o perfil da maioria das 39 anos, filho de João Manoel, tem 63 pessoas que perderam a vida no consciência de que, para a sua fatrânsito da região nos seis primeiros mília e para as das pessoas que se meses do ano. São três vítimas a mais envolveram nos outros 55 acidentes do que no mesmo período de 2008. com morte entre janeiro e junho na região, é tarde deMas essa não é mais para pensar uma história só Mais uma vez, em como as coicom números. Santa Maria foi a sas poderiam ter Ela tem nomes e sido diferentes. sobrenomes. João cidade com mais ele sabe que, Manoel da Silva é mortos no trânsito. Mas, para muita gente, um deles. De janeiro a junho ainda dá tempo O lubrificador deste ano, foram 23 de rever o comaposentado de portamento no 73 anos morreu trânsito para evina noite de 29 de março. Ele ia para um culto nas pro- tar que os acidentes aconteçam. – Todos têm de prestar atenção no ximidades da BR-287, quando foi atropelado por uma motocicleta, em que estão fazendo. O trânsito não é Santa Maria. Pouco antes da tragédia, brincadeira. Qualquer descuido pode ele tinha saído de casa e se despedido trazer consequências irreparáveis de Silvana Montenegro da Silva, 73 – afirma Giovane.

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DIÁRIO DA REGIÃO

A mais violenta – Entre as vítimas no trânsito, 47 perderam a vida em rodovias, contra 15 em vias urbanas e uma em estrada de chão. Mas, desta vez, a BR-287 foi a mais violenta da região, com 10 vítimas, ocupando o lugar que, nos seis primeiros meses de 2008, foi da BR-158. Santa Maria continua a ostentar o título de cidade com mais mortos: 23 (veja quadro). Para o delegado de Trânsito da cidade, Roger Spode Brutti, uma mudança nos números depende do comportamento dos motoristas. Ele argumenta que muitos assumem um papel violento no momento em que dirigem.Outros,na visão do delegado, usam o trânsito para aliviar o estresse e tornam comuns práticas como não respeitar a sinalização e desvalorizar a vida das outras pessoas. Para que mais pessoas não venham a fazer parte do triste enredo das mortes no trânsito, cada um precisa cumprir com a sua parte. Fazer revisão no carro antes de viajar, olhar para os lados antes de atravessar uma via e respeitar a sinalização são medidas básicas que podem ajudar a evitar que o trânsito se transforme no final triste de outras famílias. marilice.daronco@diariosm.com.br


DIÁRIO DE SANTA MARIA QUINTA-FEIRA, 19 DE JUNHO DE 2008

DIÁRIO DE SANTA MARIA QUINTA-FEIRA, 19 DE JUNHO DE 2008

| 10 e 11 | GERAL FOTOS CHARLES GUERRA – 16/06/08

ZONA AZUL Parquímetros devem passar por mudanças

3 ANOS E MUITOS ESTACIONAMENTOS DEPOIS

A polêmica não estacionou Mesmo com problemas, serviço terá a volta das notificações e um possível aumento a partir de 2009 MARILICE DARONCO

O que se sabe é que elas serão aplicadas a quem estiver infringindo as regras de estacionamento da Zona Azul antes de ser dada a multa e que deverão ser estabelecidos dois tipos de valores. A notificação mais cara será paga por quem não retirar o tíquete, e a mais barata, por quem ultrapassar o tempo previsto. – O lucro que esperávamos não veio, porque não há uma fiscalização efetiva pela prefeitura. Não deixamos de fazer o serviço porque temos um contrato, que implica diversas multas, até 2015. À medida em que não entra dinheiro para a empresa, ela também não consegue investir em coisas importantes para a própria Zona Azul – afirma o diretor da Rek Parking, Flávio Macedo.

Os parquímetros chegaram à cidade causando muita polêmica. Lá se vão mais de três anos desde que os primeiros equipamentos começaram a operar, em 23 de maio de 2005, mas as divergências não acabaram. Entre tantos problemas, prefeitura e Rek Parking – a concessionária dos parquímetros – chegaram a um mesmo resultado: é necessário mudar mais uma vez. Isso inclui, entre outros pontos, a volta das notificações e um possível aumento no valor do estacionamento. Aumento – Além da fiscalização, Ainda não está marcada a data também está sendo revista a questão oficial para a implementação das do preço do estacionamento em áremedidas. Isso porque muitas ações as de parquímetro. Segundo Macedo, ainda estão sendo discutidas. O fim o valor adotado em Santa Maria – R$ da Zona Azul em algumas áreas e a 1 por hora – é o mais baixo entre as criação dela em outras estão entre as cinco cidades onde a empresa opera: principais novidades. – O valor está defasado. Em 2009, O Conselho Gepossivelmente o ral de Construção valor deve passar Empresa justifica do Plano de Mopara R$ 1,10 ou bilidade Urbana, que novos valores R$ 1,15 por hora. criado recenteO advogado serão implantados mente pela prefeiJorge Pozzobom, porque o lucro que um dos autores da tura para debater era esperado não soluções para o ação que suspentráfego, dará dideu as notificações foi concretizado retrizes sobre as em 2006, resolveu mudanças. não recorrer da De acordo com a prefeitura, entre os decisão do Tribunal de Justiça, que planos a curto prazo estão a retirada considerou válida a cobrança das da Zona Azul de ruas centrais como notificações, na expectativa que Floriano Peixoto, Venâncio Aires, Se- o projeto possa ser discutido rafim Valandro e Duque de Caxias. logo e as mudanças passem por O objetivo é permitir que dois car- aprovação da Câmara de Verearos passem ao mesmo tempo nessas dores. Segundo ele, na Justiça, a ruas, melhorando o fluxo. A Rek Pa- questão demoraria muito tempo rking ainda estuda a possibilidade de e, enquanto isso, os problemas instalar parquímetros nos entornos continuariam. da rodoviária e do centro de eventos, quando estiver pronto. Serviço – Entre as principais – Queremos uma reviravolta nes- reclamações dos usuários, estão se projeto que não está funcionando placas em locais onde não há mais bem como está. Estamos estudando Zona Azul mas os parquímetros conuma proposta interessante, mas ain- tinuam ativos e muita gente retira o da não podemos dar muitos deta- tíquete, falta de fiscais em algumas lhes. Não sabemos, por exemplo, se áreas e dificuldade na aceitação de será necessário criar uma lei especí- moedas pelas máquinas. Para os fica sobre os parquímetros – afirma motoristas, o que existe no Centro, a secretária de Trânsito, Transporte e na verdade, é uma zona de conflito. O Mobilidade Urbana, Marian Moro. Diário fez dois testes (veja ao lado) e Outra novidade é a retomada das constatou que há questões em que os notificações por excesso no tempo usuários estão certos em reclamar. de uso e por não retirar o tíquete. – Passam cinco minutos, você Elas foram suspensas, por ordem ju- não acha o monitor para trocar o dicial, em outubro de 2006, mas de- dinheiro, mas, quando vai ver, tem vem voltar para ficar, devido a uma um aviso no vidro do carro. Isso sem decisão do Tribunal de Justiça do contar quando tenta usar moedas, e Estado no final do ano passado. Por a máquina rejeita. Moedas, como enquanto, pouco é revelado sobre as as de R$ 0,25, dão muito problema notificações. Não é para menos, já – afirma a professora Nara Callegaro que elas foram o alvo das maiores Boellhouwer, 57 anos. críticas dos usuários. marilicedaronco@diariosm.com.br

Parquímetros

A empresa precisa trazer o chip card da Alemanha e tem passado muito tempo sem eles. Atualmente, haveria dois lotes de cartões a caminho. A expectativa é que a venda seja normalizada em julho. Quem comprou cartão que apresentou defeito deve procurar pela empresa para ser ressarcido

■ Em 2005, havia 53 máquinas ■ Em 2006, o número caiu para 51 ■ Em 2007, eram 40 parquímetros ■ Este ano, são 39

MAIS Na Serra A cidade onde a Rek Parking opera há mais tempo com parquímetros é Caxias do Sul. Lá, o sistema existe há nove anos. O preço para estacionar é de R$ 1,30, e as notificações custam R$ 13

Vagas

Equipe da Rek Parking

■ No começo de 2005 eram 1.170 vagas. Ao longo do ano, o número subiu para 1,3 mil ■ Em 2006, estavam disponíveis 1.180 espaços para estacionamento na área dos parquímetros ■ No ano passado, o número de vagas era de pouco mais de 900 ■ Atualmente, são 950

■ Em 2005, eram 31 monitores ■ Atualmente, são 22 profissionais

Cartões ■ Desde 2005, a Rek Parking vende cartões recarregáveis, os chamados chip cards. Eles contêm unidades que equivalem a horas de estacionamento. Quem comprou o cartão, pode recarregá-lo na Rek Parking, que fica na Rua Professor Braga, 239. Porém, quem não conseguiu comprar um cartão, há muito enfrenta dificuldades para adquiri-lo.

Arrecadação ■ No primeiro ano de funcionamento, foram arrecadados cerca de R$ 600 mil ■ Entre 2006 a 2007, o faturamento foi de aproximadamente R$ 785,5 mil ■ A média mensal de arrecadação, que era de R$ 65 mil, tem caído para R$ 50 mil a R$ 60 mil este ano

Ruas atendidas ■ Quando os parquímetros foram criados, em 2005, eram 13 ruas atendidas ■ Hoje, são 16

Onde os parquímetros estão ativos ■ Rio Branco, entre Silva Jardim e Vale Machado ■ Andradas, da André Marques até a Serafim Valandro ■ Floriano Peixoto, entre Andradas e Venâncio Aires e da Ângelo Uglione até a Tuiuti ■ Venâncio Aires, entre Doutor Pantaleão e Duque de Caxias ■ Ângelo Uglione ■ Roque Calage ■ Astrogildo de Azevedo, entre Riachuelo e Floriano Peixoto ■ Doutor Bozano, entre Floriano e Duque de Caxias ■ Ernesto Marques da

Rocha ■ Coronel Niederauer, entre Floriano Peixoto e Duque de Caxias ■ Serafim Valandro, entre Olavo Bilac e Venâncio Aires ■ Professor Braga, entre Astrogildo de Azevedo e Pinheiro Machado ■ Tuiuti, entre Riachuelo e Professor Braga ■ Pinheiro Machado, entre Acampamento e Floriano Peixoto ■ José Bonifácio, entre Acampamento e Floriano Peixoto ■ André Marques, esquina com Henrique Dias

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Depois de completar três anos em Santa Maria, sistema ainda é motivo de discórdia entre os usuários

Nem tudo é azul O Diário testou durante três dias os parquímetros de áreas centrais da cidade (veja o quadro). Foram avaliados 10 equipamentos para saber se as reclamações dos usuários faziam sentido ou se a afirmação da Rek Parking estava certa ao dizer que é preciso apenas mais tempo para que os clientes se acostumem com as máquinas. O resultado não foi dos mais agradáveis. No primeiro teste, feito no último dia 11, foram usadas diferentes moedas com valores entre R$ 0,05 e R$ 1. Em quatro parquímetros, havia problemas, principalmente com as moedas de R$ 0,05, R$ 0,10 e R$ 0,25. Segundo monitores da Rek Parking que preferiram não se identificar, em dias úmidos é comum que a dificuldade seja ainda maior. O problema estaria relacionado ao peso das moedas. É a partir dele que é feita a principal distinção entre os valores pelo

equipamento. Quando alguma está gasta ou o dia muito úmido, o peso não é reconhecido, e a moeda pode ser devolvida. O diretor da empresa, Flávio Macedo, afirma que há constante manutenção dos equipamentos e que, quando necessário, eles são encaminhados para São Paulo, para que seja feita assistência técnica dos compartimentos para moedas. Ele recomenda que as pessoas insistam mais de uma vez até que a moeda seja aceita. No segundo teste, feito na última terça-feira, foi avaliado se os monitores estavam perto do parquímetro para ajudar os usuários ou dar troco para quem precisa. Desta vez, em cinco locais não havia monitores. Em outro, o profissional demorou oito minutos para chegar. Quanto a essa questão, Macedo afirma que a Rek Parking possui 22 monitores, o que considera um número acima do necessário. – Infelizmente, as pessoas já deveriam ter se acostumado com os parquímetros e levar dinheiro trocado. É como nos pedágios. Se o motorista não levar o dinheiro, vai ter de dar a volta na estrada e retornar para casa – argumenta Macedo.

O TESTE FEITO PELO ‘DIÁRIO’ Uma equipe percorreu alguns pontos para ver o funcionamento dos parquímetros e se havia monitores (foram testadas moedas de R$ 0,05, R$ 0,10, R$ 0,25 e R$ 0,50 e R$ 1) 1. Doutor Bozano, perto da Floriano Peixoto Teste 1 – Moedas

■ Horário – 17h10min ■ Situação – Não havia monitor

■ Data – 11/06 ■ Situação – Não aceitava moedas de R$ 0,05. Moedas de R$ 0,10 precisavam ser colocadas com muita calma. Em dias úmidos, elas podem apresentar problemas

6. Professor Braga, na metade da quadra entre a Astrogildo de Azevedo e a Pinheiro Machado Teste 1 – Moedas

4. Doutor Bozano, quase em frente à Praça Saturnino de Brito Teste 1 – Moedas

■ Data – 11/06 ■ Situação – Aceitava as moedas

Teste 2 – Monitores ■ Data – 17/06 ■ Horário – 16h55min ■ Situação – Havia um monitor

2. Doutor Bozano, esquina com a Serafim Valandro Teste 1 – Moedas ■ Data – 11/06 ■ Situação – Aceitava as moedas

Teste 2 – Monitores ■ Data – 17/06 ■ Horário – 17h ■ Situação – Não havia monitor

3. Doutor Bozano, metade da quadra entre a Serafim Valandro e a Praça Saturnino de Brito Teste 1 – Moedas ■ Data – 11/06 ■ Situação – Aceitava as moedas

Teste 2 – Monitores ■ Data – 17/06

■ Data – 11/06 ■ Situação – Moedas de R$ 0,10 e R$ 0,25 eram devolvidas. Foi preciso insistir várias vezes

Teste 2 – Monitores ■ Data – 17/06 ■ Horário – 16h25min ■ Situação – Não havia monitor

Teste 2 – Monitores

■ Data – 11/06 ■ Situação – Aceitava as moedas

Teste 2 – Monitores ■ Data – 17/06 ■ Horário – 16h20min ■ Situação – Havia dois monitores

■ Data – 11/06 ■ Situação – Aceitava as moedas

Teste 2 – Monitores ■ Data – 17/06 ■ Horário – 16h39min ■ Situação – Não havia monitor

9. Andradas, esquina com a Avenida Rio Branco Teste 1 – Moedas

■ Data – 17/06 ■ Horário – 17h15min ■ Situação – Havia um monitor

5. Astrogildo de Azevedo, esquina com a Professor Braga Teste 1 – Moedas

8. André Marques, esquina com a Henrique Dias Teste 1 – Moedas

LAURO ALVES

B

SEM ACORDO

■ Data – 11/06 ■ Situação – Foi preciso forçar para que as moedas entrassem no parquímetro. As de R$ 1 ficavam trancadas

Teste 2 – Monitores 7. Professor Braga, esquina com Pinheiro Machado Teste 1 – Moedas ■ Data – 11/06 ■ Situação – As moedas entravam, mas quando a operação era cancelada, nem sempre elas voltavam. Moedas, principalmente de R$ 0,25, trancavam na saída do equipamento

Teste 2 – Monitores ■ Data – 17/06 ■ Horário – 16h30min ■ Situação – Não havia monitor

■ Data – 17/06 ■ Horário – 16h42min ■ Situação – O monitor demorou oito minutos para aparecer

10. Floriano Peixoto, acima da Rua dos Andradas Teste 1 – Moedas ■ Data – 11/06 ■ Situação – Aceitava as moedas

Teste 2 – Monitores ■ Data – 17/06 ■ Horário – 16h52min ■ Situação – Havia um monitor

SEGUE


DIÁRIO DE SANTA MARIA

DIÁRIO DE SANTA MARIA

| 16 e 17 | GERAL

QUARTA-FEIRA, 1º DE AGOSTO DE 2007

QUARTA-FEIRA, 1º DE AGOSTO DE 2007 FOTOS LAURO ALVES – 12/07/07

TRÂNSITO Há buracos demais entre São Sepé e Santana da Boa Vista

Muitas armadilhas no caminho da 392 Borracharias cheias e caminhões quebrados alertam: só sorte e cautela para não ficar no caminho MARILICE DARONCO

Há mais de um ano, os motoristas que passam pelos 73,8 quilômetros da BR-392 entre São Sepé e Santana da Boa Vista não contam com reparos na estrada. O contrato com a empresa que fazia a manutenção terminou em junho de 2006. De lá para cá, os buracos se multiplicaram, principalmente a partir do trevo de Caçapava do Sul. Muitas vezes, invadir a pista contrária ou tomar conta do acostamento são os únicos jeitos de escapar dos buracos. A viagem pela rodovia – que é a principal ligação da Região Central com o porto de Rio Grande – ficou muito mais perigosa e também mais cara. Como parte da safra da soja ainda está sendo transportada, os caminhoneiros estão contabilizando prejuízos. Segundo os profissionais, as viagens estão mais demoradas, e o gasto aumentou porque é preciso fazer, com mais freqüência, emendas nos pneus – que custam, em média, R$ 10. Alguns motoristas estão indignados porque já precisaram trocar até pneus comprados recentemente. – Os caminhões estão quebrando toda hora. Agora mesmo, caiu a descarga do meu por causa de uma cratera da estrada – reclamava o caminhoneiro João Paz, 53 anos, mostrando o cano. O temor de Paz e dos outros motoristas é de que, quando começar a safra do trigo, em dezembro, a estrada ainda esteja cheia de problemas. As notícias vindas do Departamento Nacional de Infra-Estrutura de Transportes (Dnit) dizem que não será bem assim. O superintendente estadual do Dnit, Marcos Ledermann, afirma que, na

O PROBLEMA ■ Importância – Pela BR-392, é escoada a produção da região para o porto de Rio Grande. Agora, estão sendo transportados pela rodovia as 3 milhões de toneladas de soja que começaram a ser colhidas em março. Em dezembro, será a vez do trigo ■ Mau exemplo – O trecho entre Caçapava do Sul e Santana da Boa Vista está totalmente esburacado. Só do km 240 ao km 242 existem mais de cem buracos. Nas pontes sobre o Rio Irapuá e o Arroio Santa Bárbara, os motoristas enfrentam crateras na entrada e na saída

valerá por dois anos. Enquanto as prometidas reformas não vêm, só quem fica feliz com o estado da BR-392 são os mecânicos e os borracheiros que estão correndo contra o tempo para conseguir dar conta do serviço. Eles já estão tão acostumados com a pouca durabilidade das operações tapa-buracos que nem estão muito preocupados com as melhorias que devem ser feitas na estrada a partir da próxima semana. – Para nós, está sendo lucro certo. Mas, de vez em quando, nós também caímos na armadilha. Em outro dia, nossa própria camioneta quebrou – afirma o mecânico Aldovanti Chaves Carvalho, 50 anos.

SAÚDE

MAIS Pressão

PA, enfim, pode usar o Raio X novo

Na última sextafeira, uma comissão com representantes da Câmara e da prefeitura de Caçapava, empresários e produtores de calcário reuniramse com o Dnit, para cobrar a reforma da 392. De lá, eles voltaram com a resposta de que há um projeto para recuperar toda a estrada. Ela ficaria sem buracos por cerca de 10 anos, mas ainda não há data para que a idéia saia do papel

ADALTO SCHUSTER/DIVULGAÇÃO

DEMOROU Equipamento (foto) estava na caixa há um ano e dois meses

Último reparo ■ Como foi – Os 73,8 quilômetros da BR-392 de São Sepé até Santana da Boa Vista começaram a ser recapeados em janeiro de 2006 ■ Quem fez – O trecho é um dos 15 que foram transferidos para o Estado em 2002. A empresa Companhia Brasileira e Mineradora (Cbemi) foi contratada para fazer as obras emergenciais, mas o contrato dela venceu em junho de 2006

Haja remendo As operações tapa-buracos são usadas porque não existe um projeto para recuperar totalmente a BR-392. Segundo o Dnit, há pelo menos 20 anos, a rodovia não passa por reforma geral. O asfalto velho, por mais que ganhe remendos, volta a ter buracos. A chuva, o peso dos caminhões e o grande movimento da rodovia são alguns dos fatores que aceleram o desgaste

semana que vem, a empresa que tinha contrato para restaurar a BR392 vai voltar ao local. Como sobrou dinheiro do contrato – cerca de R$ 1,4 milhão –, ela terá de recuperar o trecho antes de entregálo. Depois disso, assume a empresa Técnica Viária, vencedora da licitação que foi encerrada este mês e

Socorro – No pátio de uma das borracharias que ficam às margens da rodovia, um terreno virou um verdadeiro cemitério de pneus. No local, os motoristas estão deixando para trás aqueles pneus que foram vítimas da BR-392 e que nem mesmo borracheiros mais experientes conseguiram dar jeito de consertar. – Toda hora, pára pelo menos um caminhão com o pneu furado. A gente cobra de R$ 10 a R$ 15 pelo remendo e chega a fazer 20 por dia – comemora Unício Oliveira Teixeira, 40 anos, que divide o trabalho com Edimar Teixeira Soares, 18. Com tantos carros quebrando pelo caminho, sobra para a Polícia Rodoviária Federal (PRF). Os agentes, além de controlar o tráfego da estrada e tentar diminuir o risco de acidentes com a fiscalização, acabam exercendo a tarefa extra de serem socorristas. – O pessoal liga pedindo socorro, e a gente ajuda. Busca mecânico, traz pneu consertado da borracharia até o carro... Não tem como não ajudar, afinal, há gente que entra em pânico quando se vê com o carro quebrado no meio da estrada – afirma o policial militar Edison Flores Vieira, 37 anos.

DIÁRIO DA REGIÃO

VAI ENCARAR? A foto acima é apenas um dos tantos flagrantes que podem ser feitos em 73,8 quilômentros de estrada: quase há mais buracos do que asfalto

marilice.daronco@diariosm.com.br

A revolta ganhou a estrada

PREJUÍZO

LUCRO

João Paz perdeu a descarga por causa de um buracão

Buraqueira traz movimento para Edimar (esq.) e Unício

Toda vez que precisa passar pela BR-392, o caminhoneiro Aléssio Luiz Somavilla (foto), 48 anos, fica muito revoltado por causa dos buracos. Tanto que ele resolveu pendurar uma faixa de protesto na sua carreta com a frase “BR-392, rodovia conservada com buracos é fato, é verdade! Até quando?”. Furioso, porque gasta mais com as viagens,

Somavilla chegou a filmar os buracos num trecho perto da cidade de Canguçu. – Estamos gastando mais com pneu e diesel, porque o caminhão perde o embalo quando a gente passa pelos buracos. Isso sem contar que estamos arriscando nossas vidas e demorando mais para entregar as cargas – reclama.

Haja terra para tapar tudo Para tentar amenizar um pouco o drama dos motoristas, os policiais rodoviários federais de Caçapava do Sul juntaram dinheiro do próprio bolso para comprar pás. Eles vão semanalmente até os maiores buracos para tapá-los com terra, tirada da beira da estrada. O objetivo principal é tentar evitar acidentes maiores. No dia 12 de ju-

lho, os agentes Edilson Flores Vieira (à dir. na foto), 37 anos, e Francisco Eder (à esq.), 64, revezaram-se no trabalho. Mesmo com pouca esperança, porque, segundo eles, assim que chove, os buracos voltam. – Nós não temos mais para quem pedir socorro. Parte da rodovia não tem mais nem acostamento – lamenta Eder.

Desde a tarde de ontem, o Pronto-Atendimento (PA) Municipal conta com uma ajuda a mais: é um equipamento de Raio X que estava encaixotado desde a inauguração da unidade, em maio do ano passado, porque uma sala precisava receber adaptações. O novo “brinquedo” do PA do Patronato custou cerca de R$ 80 mil e promete trazer benefícios para quem precisar dos serviços de radiografia. A montagem do maquinário envolveu dois especialistas vindos de Porto Alegre especialmente para a tarefa. Além disso, os profissionais treinaram uma equipe de nove pessoas que irão operar o Raio X. – É um equipamento moderno e muito simples, adequado ao tipo de serviço prestado aqui no PA. Ele é econômico e tem um custo-benefício muito bom – relata o técnico em eletromedicina Norberto Duschitz, que presta serviço para a fabricante do equipamento. Além de poupar energia, a manutenção também será muito mais prática, pois as peças para a reposição devem ser facilmente encontradas. Outro ponto positivo é a qualidade das imagens, muito superior às obtidas com o aparelho antigo. – Como o equipamento é recente, a qualidade das radiografias é bem melhor. Iremos fazer adaptações para expor o paciente ao mínimo de radiação possível e aumentar a vida útil desse tipo de equipamento, que é de oito anos, aproximadamente – explica o técnico em radiologia Thiago Clauss.

Sem parar – Mesmo com o novo a todo o vapor, o Raio X antigo – que voltou a funcionar há cerca de 20 dias, depois de ficar um mês parado – não deve ser desativado. Aproximadamente 1,2 mil pacientes precisam fazer exames de radiografia a cada mês. – Temos de lembrar que é preciso autorização médica para a radiografia. Mas acredito que o número de pacientes atendidos por esse serviço deva subir – afirma o coordenador do PA, Edilson Ribas.


DIÁRIO DE SANTA MARIA SÁBADO E DOMINGO, 1º E 2 DE AGOSTO DE 2009

DIÁRIO DE SANTA MARIA SÁBADO E DOMINGO, 1º E 2 DE AGOSTO DE 2009

| 14 e 15 |

ESPECIAL MANIPULAÇÃO SOBRE FOTO BANCO DE DADOS

A SÉRIE

CRACK

NO MEIO DO CAMINHO,

■ Nesta edição e nos próximos seis dias, o Diário mostra uma série de reportagens sobre o crack, que assolou rapidamente o Estado SÁBADO E DOMINGO, 1º E 2/08 – A droga SEGUNDA-FEIRA – A falta de leitos TERÇA-FEIRA – Meninas do crack QUARTA-FEIRA – O crack e a violência QUINTA-FEIRA – A prevenção SEXTA-FEIRA – O crack na região SÁBADO E DOMINGO – A esperança

Aprisionados pelo vício diariosm

com.br

Estimativa é que entre 1,5 mil e 3 mil santa-marienses sejam usuários da droga que vicia rapidamente

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NÚMEROS QUE PREOCUPAM ■ Usuários – A estimativa da Secretaria Estadual da Saúde é que Santa Maria tenha entre 1,5 mil e 3 mil usuários de crack. A exemplo do que ocorre em todo o Estado, esses números estariam aumentando rapidamente. Santa Maria já tem casos de mortes relacionadas ao tráfico da droga ■ Surgimento – Os primeiros relatos oficiais de usuários de crack em Santa Maria são de 2005, mas acredita-se que o crack tenha chegado à cidade muito antes disso. Naquela época, jovens confessaram que estavam usando a droga, mas a polícia não estava conseguindo localizar os pontos de distribuição. Hoje, a Polícia Civil acredita que haja pontos de venda em toda a cidade ■ Espera – Na região, por ordem judicial, cerca de 30 pessoas estão na fila de espera por leitos para desintoxicação, o primeiro passo para quem quer deixar o vício. Em Santa Maria, só a Casa de Saúde faz esse tipo de atendimento. O hospital tem 15 leitos destinados a pessoas com menos de 17 anos

rigo que os viciados em crack estão correndo vai além dos trazidos pela cocaína. Ele afirma que existe uma série de substâncias misturadas, como benzeno e ácido de bateria. – No início do aparecimento do crack no Estado, havia mais concentração de cocaína nele do que no produto vendido em pó. Provavelmente, isso era devido a uma falta de conhecimento entre os traficantes sobre como adulterar o crack. Hoje, é comum encontrar amostras da droga contendo concentrações reduzidas de cocaína – diz o perito. O diretor do Hospital Psiquiátrico São Pedro, de Porto Alegre, Luiz Carlos Coronel, afirma que os danos que o crack causa no cérebro podem se tornar irreparáveis em muitos casos: – Estamos assustados com o crack. É a primeira vez que uma droga não precisa de aumento de cada dose consumida para produzir efeito. O Diário produziu uma série de reportagens sobre o avanço do crack. Elas serão publicadas ao longo das próximas edições e revelam por que, apesar de toda a vontade que muitos usuários da droga têm de se recuperar, é tão difícil remover a pedra de seu caminho. marilice.daronco@diariosm.com.br

MAIS

Estado A estimativa é que, no Estado, haja cerca de 50 mil pessoas viciadas em crack. No Hospital Psiquiátrico São Pedro, em Porto Alegre, o número de internações em função do crack começou a aumentar consideravelmente há três anos

uma das aulas de terapia ocupacio- mata ou eu mesmo acabo fazendo nal. Os meninos fazem atividades isso. Crack não é vida – afirma um físicas, participam de brincadeiras e adolescente de 17 anos. oficinas como pintura, artesanato, e Infelizmente, as estatísticas não são desenhos, assistem filmes. Tudo tem tão positivas como a expectativa dos um objetivo bem claro, fazer com que meninos. Muitos garotos acabam volvoltem a se descobrir como crianças tando ao vício pouco depois da alta. e adolescentes que são e também – O meu irmão viu que eu tinha cofazê-los recuperar a autoestima. meçado a fumar e começou também. Nas quartas-feiras, alguns dos ga- Tinha uma boca de crack bem perto rotos voltam à sala de aula. O Grupo da nossa casa, era fácil conseguir. Mas de Estudo e Pesquisa sobre Forma- a minha mãe ficou doente e eu botei ção Inicial, Continuada e Alfabetiza- na cabeça que ia parar. Ele não. Veio ção (Gepfica) da se tratar obrigado UFSM ajuda os e logo que saiu Muitos meninos meninos a retovoltou para a pemarem – ou até dra – conta outro que estão em começarem – seu jovem de 17 anos. tratamento não aprendizado. Para tentar recebem uma mudar a realidavisita sequer de de dos garotos Esperança – O quando eles saem resultado de todo seus familiares do hospital, alguesse trabalho está mas atividades exposto nas paredes de alguns dos quartos, onde os são oferecidas também aos pais. meninos fazem questão de colar seus No entendimento dos profissionais desenhos, e em olhinhos brilhantes, que trabalham na unidade, a família precisa estar muito bem preparada cheios de esperança. – Eu vendia maconha para com- para que os meninos não recaiam prar crack. Chegava a fumar três na droga. Mas nem todos compregramas por dia. Agora, quando eu endem dessa forma. Alguns, ainda sair, vou cuidar do meu avô, que está que esperem bastante, não recedoente. Por isso, preciso ficar bem bem sequer visitas, muito menos longe do crack. E também, se eu a confiança de que precisam para voltar para a droga, ou a polícia me (re)construírem suas vidas.

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MANIPULAÇÃO SOBRE FOTO CHARLES GUERRA – 23/07/09

mesmo para os adultos: livrar-se da dependência no crack. Entre os adultos, o drama do craFelipe, 11 anos, começou a fumar crack com adolescentes que mora- ck não é menor. A droga, segundo vam perto de sua casa no ano passa- as autoridades da área de segurança, do. Experimentou por pura curiosi- causou uma explosão nos índices de dade: queria saber o que “os grandes violência. E, se para o usuário chegar da rua” sentiam ao fumar os cachim- ao ponto de querer parar de usar é dibos esquisitos. Não demorou muito fícil, conseguir leitos para desintoxicação e reabilitapara ficar viciado ção é ainda mais. na pedra, menos Casa de Saúde só Santa Maria não ainda para comedá conta de atender tem leitos públiçar a furtar e para cos para adultos, virar morador de os dependentes têm de ser rua. Foi com ele menores de 17 anos que encaminhados a que outro menino, que chegam por outras cidades. Lucas, 14 anos, fuNa segunda-feimou a droga pela ordem judicial ra, o Hospital de primeira vez, há Caridade entrega dois meses. Felipe e Lucas são nomes fictícios para uma ao Ministério Público uma proposta história que é verdadeira e assusta- para abrir 10 leitos para homens e doramente mais comum do que se mulheres na Casa de Saúde. imagina: o crack já tem entre 1,5 mil e 3 mil usuários na cidade. Entre eles, Efeito – A forma como a droga é muitos guris para os quais surgiu consumida – fumada – leva a cocaíuma pedra no caminho entre a in- na (matéria-prima do crack) rapidafância e a adolescência. mente ao cérebro e, já nas primeiras – Eu parei de ir no colégio e come- pedras, os usuários se viciam (veja cei a pegar arroz e massa de casa para quadro na página 16). O que mais astrocar por crack. Um vez, peguei di- susta é que as pedras se espalharam nheiro de um taxista, mas nunca usei rapidamente, tornando o crack uma arma. Já usei droga de todo jeito, de droga que distingue classe social, lata, de cachimbo, de pitico (maconha sexo, ou idade. com crack) – conta o menino de 11 A droga, aparentemente barata anos, que tem olhar de criança e jeito – cada pedra custa entre R$ 1 e R$ de falar incompatível com a idade. 5 – e de efeito rápido e intenso, vicia Hoje, os dois tão rapidamente garotos fazem mata. Para Diretor de hospital como companhia um ao lutar contra ela, de Porto Alegre que há muitas pedras outro, na Casa de Saúde – o único trata dependentes no caminho: falhospital de Santam leitos para diz que o crack ta Maria que têm desintoxicação pode causar vagas para intere reabilitação, os danos irreparáveis trabalhos educanar dependentes de crack menores tivos nem sempre de 17 anos. A detêm o apoio que manda é tanta que o hospital nem dá merecem, as famílias estão cada vez conta das ordens judiciais. Os 15 lei- mais desestruturadas, e é difícil comtos do hospital estão sempre lotados bater o tráfico de uma droga vendida de meninos que um dia comparti- em pedaços tão pequenos. lharam drogas e, hoje, dividem a luta Para o perito criminal da Polícia para vencer uma batalha difícil até Federal Marcelo Gatelli Holler, o peMARILICE DARONCO

Confira o especial sobre o crack, com dados sobre o avanço da droga, onde pedir ajuda para combater o vício e depoimentos de familiares de dependentes

É impossível percorrer o imenso corredor que dá acesso a ala onde estão internados os meninos do crack na Casa de Saúde sem perceber o feixe de luz que existe em seu final. É atrás exatamente disso – uma luz no seu caminho – que todos aqueles jovens estão ali. Basta um toque em uma campainha para que uma das profissionais da equipe que trabalha no local abra a porta. Não demora nada para que alguns dos garotos, curiosos, comecem a espiar por trás das grades que os separam do mundo do lado de fora. As grades, num primeiro momento, assustam. Fazem pensar em celas, em prisão. Mas, quando se passa por elas e a ouvir as histórias de violência, dependência e abandono, comuns entre a maioria daquelas crianças, percebe-se que a verdadeira prisão delas é o crack. Ali estão encontrando uma chance – talvez a única – de mudar essa realidade. Não faltam abraços e beijos quando se cruza a porta. A frieza inicial das grades cai por terra ao olhar as crianças jogando futebol ou bolita. Um painel colorido afixado na parede logo à frente das grades deixa claro que o que se quer por lá não é, nem de longe, criar um ambiente típico de hospital. O painel foi construído pelas próprias crianças em

OCUPANDO A CABEÇA Crianças e adolescentes internados na Casa de Saúde fazem diversas atividades para recuperar sua autoestima durante o tratamento

NA DESINTOXICAÇÃO Meninos lutam para se livrar do vício, internados na ala de dependentes da Casa de Saúde MANIPULAÇÃO SOBRE FOTO CHARLES GUERRA – 24/07/09

SEGUE


DIÁRIO DE SANTA MARIA QUARTA-FEIRA, 5 DE AGOSTO DE 2009

DIÁRIO DE SANTA MARIA QUARTA-FEIRA, 5 DE AGOSTO DE 2009

| 10 e 11 | GERAL MANIPULAÇÃO SOBRE FOTO CLAUDIO VAZ – 31/07/09

Jovem diz ter matado um homem pela fissura que tinha pela droga

VIOLÊNCIA MARILICE DARONCO

“Não existe dificuldade nenhuma para conseguir crack. Difícil é arrumar dinheiro”. A frase é de um adolescente de 17 anos, internado desde abril do Centro de Apoio Sócio-Educativo de Santa Maria (Case) por ter matado um homem de 42 anos com resquícios de crueldade. A frase resume como um problema que seria originalmente da área de saúde – a dependência química – transformou-se também em questão de segurança. As estatísticas sobre quantos crimes na cidade estão de fato ligados ao uso do crack não existem. Porém, as autoridades da área de segurança garantem que se chegou a um ponto em que sequer são necessários números para comprovar a associação entre crack e violência, que está escancarada para quem quiser ver. Sem dinheiro, os viciados não conseguem a droga e, para consegui-la, acabam se tornando capazes de tudo: furtar, roubar, assaltar e até matar. Exemplo disso é o adolescente que disse a frase acima. Ele confessou um dos crimes mais brutais que já ocorreram em Santa Maria. Disse à polícia que usou faca, pedaço de pau, tijolo e fogo para matar Pedro Oliveira Dias, 42 anos, porque ele teria ficado de comprar R$ 50 em crack e não lhe entregou (veja depoimento ao lado). Em entrevista ao Diário, repetiu

Parecia a cracolândia

MORTE

– sem nenhum orgulho – que matou um homem por causa da droga. Diante disso, poderia se ter a imagem de um bandido sem coração. Mas isso nem de longe lembra o menino que olha nos olhos e aconselha – com convicção – que ninguém fume crack. O que causa tamanha oscilação de personalidade? A resposta, segundo os especialistas, pode ser a fissura pela droga. O psiquiatra Félix Kessler, um dos mais reconhecidos pesquisadores da dependência química no Brasil, é um dos que defendem que o perfil do usuário da pedra é mais violento que o das demais drogas. – O usuário do crack prefere roubar, que é mais rápido. Por isso, usa faca, revólver ou mesmo a violência física, já que forma pequenos grupos para atacar na rua. Há pelo menos três homicídios na cidade com relação direta à droga – diz o delegado Sandro Meinerz, que responde pela 1ª e 3ª delegacias de polícia, que investigaram as três mortes (veja quadro).

Apreensão – Na última segundafeira, ocorreu a maior apreensão de crack de Santa Maria. Foram dois quilos, o suficiente para produzir pelo menos mil pedras de crack. A estimativa da polícia é que o casal preso por tráfico fazia cerca de três viagens a Santa Cruz do Sul por mês para buscar quantidade semelhante de

Um tatuador santa-mariense de 30 anos, que está internado em uma fazenda terapêutica de Jari há um mês e 15 dias, era consumidor de crak há quatro anos. Ele chegou a ter um problema em um dos pulmões, que deixou de funcionar – fato atribuído pelos médicos aos efeitos do crack. Para conseguir as cerca de 20 gramas que consumia todos os dias, ele afirma que cometeu crimes arriscados e está respondendo por eles. Um deles foi um assalto a uma agência lotérica da Avenida Presidente Vargas, outro um assalto a uma empresa de transporte coletivo onde um guarda foi feito refém. Tudo para conseguir dinheiro para a pedra. – Minha casa parecia a cracolândia. Sempre tinha gente consumindo crack lá. Me arrisquei muito em assaltos. Fui pego pela polícia, mas isso não foi o pior que poderia me acontecer. Chegamos a trocar tiros com policiais. Agora, eu poderia es-

MAIS

Extremo Em Caçapava do Sul, um jovem viciado em crack é suspeito de ter matado cães e comercializá-los como se fossem carne de ovelha e porco para ter dinheiro para comprar a droga

Assaltos, furtos, roubos e assassinatos em Santa Maria estariam relacionados à dependência

crack, fazendo entrar na cidade mais de 3 mil pedras da droga por mês. De acordo com o titular da Delegacia de Furtos, Roubos, Entorpecentes e Capturas (Defrec), Vladimir Urach, apreender tanta droga está cada vez

mais difícil. E isso, de forma alguma, significa redução no tráfico. O delegado desconfia que, para não serem pegos, os traficantes estariam usando pessoas – principalmente adolescentes – para servirem como formigas, jargão policial aplicado a pessoas que carregam pequenas quantidades de pedra de crack e vão até os pontos de distribuição buscar a droga várias vezes por dia. Quando elas são abordadas pela polícia, livram-se das pedras ou, devido à pequena quantidade, alegam que são só consumidores. – Está na cara que as ocorrências de furto e roubo, inclusive a ônibus, estão relacionadas ao crack. No desespero para conseguir crack, os usuários perdem a noção do que estão

fazendo e são capazes de uma violência exacerbada – afirma Urach.

RECUPERAÇÃO Tatuador de 30 anos está internado em uma fazenda terapêutica

Perfil – O diretor do Case, Vitélio Rossi de Freitas, diz ter notado uma mudança no perfil dos adolescentes encaminhados ao local. Segundo ele, de março para cá, a maioria dos jovens que chegaram para cumprir medidas sócioeducativas tinha cometido crimes mais violentos. – O que está acontecendo é errado. Eles cometem crimes relacionados ao crack e são encaminhados direto para cá. Estamos praticamente fazendo a desintoxicação desses meninos. E, quando eles saem, a sociedade não está preparada para recebê-los. Não demora a voltarem – lamenta Freitas. marilice.daronco@diariosm.com.br

MANIPULAÇÃO SOBRE FOTO CHARLES GUERRA – 29/07/09

‘Eu vi que a casa estava queimando, saí e deixei ele lá’ Jovem de 17 anos que cumpre medida socioeducativa depois de confessar ter esfaqueado um homem, batido nele com um pedaço de pau e um tijolo, e ter colocado fogo no corpo, afirma que agiu por fissura do crack. Para quem pensa em experimentar, ele aconselha: não vale a pena.

O PESO DO PROBLEMA ■ Nos oito primeiros meses de 2008, foram apreendidas 37 vezes mais gramas de crack na cidade do que no mesmo período de 2007. Nos sete primeiros meses de 2009, o número de apreensões despencou. Segundo a Polícia Civil, provavelmente, isso teria ocorrido porque os traficantes pararam de circular com grandes quantidades da droga para evitar a caracterização de crime de tráfico de entorpecentes. No começo deste mês, houve a maior apreensão da história da cidade: 2 quilos de crack

dade nenhuma. Difícil é arrumar dinheiro. Eu chegava a fumar R$ 400 por noite. Comprava pedra de R$ 5 ou de grama. Quando era de grama, chegava a pagar R$ 20 a grama. Tendo dinheiro, em cidade que nem a nossa, tem crack em qualquer esquina.

Diário – E o que aconteceu lá? Adolescente – Ele me falou que já tinha fumado tudo, e eu perguntei como é que eu ia ficar. Ele disse que era para eu esperar que ele me pagava. Eu estava muito nervoso, e disse que não ia esperar coisa nenhuma. Ele me agrediu com um tapa e um Diário – E como você conseguia soco. Eu, então, dei uma facada nele. Diário – Com que idade e por dinheiro? Diário – Ele morreu na hora? Adolescente – Eu tinha de fazer alque você começou a usar crack? Adolescente – Não. Ele tinha caíAdolescente – Eu tinha 13 anos guma coisa para ter dinheiro: roubar, quando fumei maconha pela pri- assaltar ou fazer algum outro tipo de do do lado de fora da casa. Juntei um meira vez. Nunca mais parei de usar delito. Eu também trabalhei numa tijolo e joguei na cabeça dele. Eu estadrogas. Cocaína, eu usei pela pri- reciclagem. Naquela época, trabalha- va revoltado pela droga, pelo tapa que meira vez com 15 anos. O crack veio va o dia todo, e o dinheiro ia só para ele me deu e umas coisas que ele tinha me falado. Não consegui me segurar. por acaso. Eu comecei a fumar por o crack. Quando ele caiu, botei fogo na casa curiosidade, com 16 anos.Via amigos Diário – Você não tinha medo de do amigo dele e dei mais duas paulausarem. Eles fumavam demais, tanto das nele. Ele se levantou e correu para no cachimbo quanto na lata. Quis ex- morrer em um assalto? dentro de casa. Eu vi que a casa estava Adolescente perimentar para queimando, saí e deixei ele lá. – Não. Eu tinha saber qual era a Juntei um tijolo medo de fazer o daquela droga. e joguei na cabeça que acabou acon- Diário – E o que você fez logo dele. Quando ele tecendo, perder o que saiu de lá? Diário – Você caiu, botei fogo Adolescente – Fui para a casa de controle e matar sabe quantas peum amigo meu e cheirei cola para alguém. dras fumou até na casa e dei mais aliviar um pouco. Uma meia hora deficar viciado? duas pauladas nele Diário – Você pois, a polícia chegou para me buscar. Adolescente confessou ter Eu não lembrava de nada. Fui lem– Me viciei uma matado um ho- brando aos poucos. ou duas semanas depois de começar a fumar. Notei mem. Foi pela droga? Diário – Você começou a fumar Adolescente – Foi. Eu tinha roubaque estava dependente porque todo o dinheiro que eu pegava, usava no do e conseguido uns R$ 500. Fumei crack por curiosidade. O que diria crack. Ele agia ligeiro e passava mais crack durante três dias. O dinheiro para quem tem a mesma curioligeiro, então eu logo queria outra pe- estava acabando, e eu estava ansio- sidade que você tinha na época, dra. Conheço gente que viciou mais so para fumar de novo. Era o último mas nunca usou essa droga? Adolescente – Não experimente. rápido. Quando usam álcool, cachaça, dinheiro que eu tinha, uns R$ 50. Ele na primeira vez que fumam, já ficam falou que sabia onde tinha crack de Se experimentar, mesmo que use ouR$ 15 a grama. Ele ia buscar. Mas as tro tipo de droga, vai gostar do crack. viciados. horas se passaram e ele não vinha. Não vale a pena. Eu perdi todos os Diário – Era muito difícil com- Percebi que ele tinha comprado e fu- amigos. Esse cara que eu matei, mormado. Descobri que ele estava na casa reu pela dependência. Eu vou fazer o prar a droga? que puder para ficar longe do crack. Adolescente – Não existe dificul- de um amigo e fui atrás dele.

CERCO AO TRÁFICO Apreensões de crack em Santa Maria (em gramas) Mês 2009 2008 2007 Janeiro 1.641,0 18,3 2,7 Fevereiro 0 105,0 33,7 Março 118,7 988,0 0,9 Abril 5,3 224,0 0 Maio 101,7 55,0 67,0 Junho 699,7 1.798,0 3,0 Julho 25,9 1.738,0 0 Agosto 2.003,5 79,0 28,4 Total 4.595,8 5.005,3 135,7 Fonte: Delegacia de Furtos, Roubos, Entorpecentes e Capturas de Santa Maria (Defrec)

Confira algumas das principais ocorrências envolvendo tráfico de crack em 2009: ■ 2 de janeiro – Faxineira de 26 anos foi presa com 40 gramas de cocaína, 90 gramas de maconha e 18 pedras de crack na Vila Lorenzi ■ 14 de janeiro – A polícia apreendeu mais de 1,5 quilo de crack em casas da invasão do Km 2. Cinco pessoas foram presas

■ 12 de junho – Dois irmãos foram presos no Residencial Cipriano Rocha. Foram apreendidos com eles quase meio quilo de maconha, pedras de crack, dinheiro e outros objetos

■ 5 de março – Um homem de 25 anos foi preso em flagrante na Rua Venâncio Aires com 20,1 gramas de crack

■ 23 de julho – Três pessoas foram presas na Vila Maringá. A polícia encontrou pedras de crack enterradas em uma casa, e maconha, cocaína, dinheiro, munição e uma balança de precisão em outra residência

■ 26 de março – Cinco pessoas foram presas no bairro Itararé, com 70 pedras de crack, duas gramas de maconha, um revólver com a numeração raspada, munição, dinheiro e objetos

■ 3 de agosto – Uma dona-de-casa de 35 anos e um mototaxista de 39 foram presos na RSC-287, perto de Arroio do Só. Eles traziam drogas de Santa Cruz do Sul para Santa Maria

DO VÍCIO À MORTE Pelo menos três homicídios que ocorreram em Santa Maria este ano teriam relação com o crack ■ 10 de março – Dionatam Braz de Oliveira, 23 anos, teria sido morto por um traficante com quem tinha uma dívida de R$ 20. A vítima passava pela Linha Velha da Fronteira, na Vila Carolina, quando foi morta com um tiro nas costas ■ 6 de abril – O corpo de Pedro Oliveira Dias, 42 anos, foi encontrado, carbonizado, em uma casa na invasão da BR-158, bairro Urlândia. A vítima teria sido agredida com tijolaços na cabeça e pedaços de pau e queimada. Um adolescente

confessou que agrediu a vítima porque lhe deu R$ 50 para comprar crack, mas a droga não foi entregue ■ 20 de maio – Marcelo Correa foi morto com três tiros pelas costas na Vila Carolina. Segundo investigação da 3ª Delegacia de Polícia de Santa Maria, havia uma rixa entre o autor dos disparos e a vítima devido ao tráfico de drogas. Correa estaria devendo dinheiro de crack para o homem que o teria matado

A SÉRIE

CRACK

■ Nesta edição e nos próximos três dias, o Diário mostra uma série de reportagens sobre o crack, que assolou rapidamente o Estado SÁBADO E DOMINGO, 1º E 2/08 – A droga SEGUNDA-FEIRA – A falta de leitos ONTEM – Meninas do crack HOJE – O crack e a violência AMANHÃ – A prevenção SEXTA-FEIRA – O crack na região SÁBADO E DOMINGO – A esperança MANIPULAÇÃO SOBRE FOTO BANCO DE DADOS


Geral  

Compilado com algumas reportagens publicadas no Diário de Santa Maria

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