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ANO 12

Nº 3

■ tiragem:

MAIO/2016

20 000 exemplares

crise

Divisões profundas criam tensão nos Estados Unidos O

s cantores Bruce Springsteen, Bryan Adams e o ex-Beatle Ringo Starr, além das bandas Pearl Jam e Boston cancelaram shows que dariam, em abril e maio, no estado da Carolina do Norte (Estados Unidos), em protesto contra a aprovação da Lei HB2, que obriga o uso dos banheiros públicos de acordo com o sexo biológico (de nascimento), e não com a orientação adotada pelo usuário. Aprovada pelo legislativo estadual e promulgada pelo governador republicano Pat McCrory, em 23 de março, a lei também proíbe localidades da Carolina do Norte de redigir suas próprias leis antidiscriminatórias. A iniciativa faz parte de uma série de projetos similares, sustentados por correntes religiosas conservadoras e fundamentalistas, em resposta à decisão de junho de 2015 da Suprema Corte de Justiça estadunidense, de legalizar o casamento homossexual. “A meu ver, é uma tentativa de pessoas que não suportam o avanço que nosso país tem feito no reconhecimento dos direitos humanos de todos os nossos cidadãos, para barrar esse progresso”, afirmou Springsteen, via comunicado oficial. “Algumas coisas são mais importantes do que um show de rock, e essa luta contra o preconceito e a intolerância – que está acontecendo enquanto escrevo – é uma delas. Eu tenho que levantar minha voz em oposição àqueles que continuam a empurrar-nos para trás em vez de para a frente.” O episódio é um microrretrato dos debates que polarizam as opiniões nos Estados Unidos, que hoje se apresentam como uma sociedade profundamente dividida. A expressão dessa divisão, na esfera institucional, assume as faces dos candidatos à Presidência do país, o bilionário Donald Trump (republicano) e do socialista Bernie Sanders (democrata). Ambos, situados em polos opostos do espectro ideológico, fazem as campanhas mais bem-sucedidas em termos de mobilização de apoiadores. Ambos são “azarões”: ninguém acreditava, há um ano, que suas campanhas fossem decolar. Todos apostavam que eles seriam facilmente derrotados nas primárias de seus respectivos partidos, por algum dos candidatos tidos como favoritos (Jeb Bush e Marco Rubio, pelos republicanos, e Hillary Clinton, pelos democratas). Bernie tem pouca chance de vencer Hillary, mas, em compensação, mobilizou em sua campanha mais de 7 milhões de apoiadores e contribuintes, fato sem precedente na história estadunidense. Trump, contra todos os prognósticos, bateu com folga Bush, Rubio e os demais concorrentes de seu partido, e aponta como o provável candidato republicano, embora enfrente uma forte oposição do establishment. Ambos, Trump e Bernie, sustentam visões antagônicas de mundo. Trump fala em recuperar a “grandeza” dos Estados Unidos, que para ele, teria sido perdida graças a uma política HI ST ÓR IA & C ULT U R A

Crescimento do fundamentalismo evangélico e conservador de direita tem, como contrapartida, o avanço da esquerda radicalizada; enfrentamento transborda a esfera econômica para envolver o conjunto da sociedade externa “mole” (a Casa Branca preocupa-se mais com o bem-estar do planeta do que com os próprios interesses estadunidenses); por excessiva tolerância, especialmente para com imigrantes hispânicos ilegais (mexicanos são sinônimo de bandidos, traficantes e estupradores, e por isso devem ser sumariamente deportados, aos milhões), mas também árabes e islâmicos (cujas comunidades são ninhos de terroristas); por tratados comerciais que criam empregos fora dos Estados Unidos, sem fazer valer a sua

Encolhe-se, cada vez mais, o espaço para posições intermediárias, menos radicais. O prolongamento da crise financeira e econômica aberta em 2007, com suas consequências trágicas para a vida das famílias – desemprego, diminuição radical da renda, frustração, ansiedade quanto ao futuro –, acentua as tensões sociais. Religiosos procuram no fundamentalismo um refúgio contra as incertezas da época, apegam-se à letra da Bíblia e recusam o diálogo; racistas e xenófobos apontam no estrangeiro o responsável

© Michael Vadon/Flickr/Creative Commons

José Arbex Jr. Editor Geral de Mundo

Partidários de Bernie Sanders, em sua maioria jovens, denunciam a “ditadura do 1% mais rico” e propõem mudanças radicais na sociedade; no outro extremo do espectro ideológico, o bilionário Donald Trump quer acentuar as características repressivas e autoritárias do Estado força; e pela aprovação de leis contrárias ao evangelho e à preservação da família (embora, nesse capítulo, Trump seja visto pelos próprios republicanos, em particular pelos integrantes do Tea Party, muito mais como um oportunista que quer ganhar votos dos religiosos do que como um conservador de verdade). Bernie diz exatamente o oposto de Trump. Critica o imperialismo estadunidense, por sua política de pilhagem e agressão em todo o mundo (em particular, afirma que Hillary adota como “guru” o ex-secretário de Estado Henry Kissinger, acusado de ter praticado, de forma contumaz, crimes contra a humanidade, na Guerra do Vietnã, no golpe militar no Chile e outros); denuncia o racismo da polícia e das autoridades contra negros e hispânicos e propõe anistia a todos os imigrantes ilegais; responsabiliza a ganância dos banqueiros e das corporações pela crescente desigualdade e miséria, no mundo e nos Estados Unidos; e defende a ampliação ainda maior da universalização dos direitos para todos, incluindo a comunidade LGBT.

pela crise; jovens e trabalhadores inconformados apostam na radicalização política contra os 1% que acumulam em suas mãos as riquezas do país, ocupam as ruas e exigem mudanças revolucionárias. As instituições políticas tradicionais parecem oferecer pouca ou nenhuma alternativa para esse quadro complexo, tenso e caótico. O quadro é ainda mais grave quando se considera que os Estados Unidos ainda são a principal potência do planeta, incomparável em poderio militar e econômico. A eventual vitória de Trump nas eleições presidenciais, hipótese bastante plausível, ameaça exportar para todo o planeta as tensões da sociedade estadunidense (basta imaginar o que significaria, em termos políticos, humanos e ideológicos a deportação de milhões de hispânicos, árabes e islâmicos, para não falar da ruptura de acordos comerciais multilaterais assinados pelos Estados Unidos com países europeus, asiáticos e latino-americanos). Apesar da gravidade da crise, não há uma solução razoável à vista. Nuvens que prenunciam tempestades se acumulam no horizonte.

H I ST Ó R I A & C U LT U R A M U N D O P A N G E A M U N D O P A N G E A M U N D O P A N G E A M U N D O P A N G E A M U N D O P A N G E A M U N D O


João Guimarães R

Grande Sertão Jean Pierre Chauvin Especial para Mundo

mire veja”), transitou por entre a água, a terra e o mato, na severa escalada de jagunço a chefe de bando, ora agastado, ora recompensado pelas aventuras que o acompanharam por largas dimensões de tempo e espaço. Às duras pelejas com homens-carapaça – seja no corpo a corpo, seja por meio de faca, bala ou fuzil – soma-se a difícil luta do jagunço com a própria fala, em particular quando se vê diante da eloquência alheia, quase sempre na boca dos grandes chefes. Seja na arena de combate, seja na trama da linguagem, volta e meia incertas atitudes contradizem a ética peculiar do sertanejo. Mas em Grande Sertão: Veredas há outras margens a desbravar, para além do mundo estável, justo e ordenado em que supomos viver. Não bastasse a constituição do indivíduo em meio à luta, à terra e à façanha, o jagunço alterna a força (que adquire, mantém e redobra) com o legítimo encalço em torno de metafísicas que lhe permitam conceber melhor sua sorte e norte. Riobaldo reza muito, em sinal de humildade, mas também como forma de enfrentar a persistente lembrança

Neste processo metalinguístico de hierarquização, fica evidente que o que dos fatos e suas consequências, a causa e o efeito. E é em função desta p os fatos se disporão ao longo dos seus meandros, descrevendo nessa pri tem plena consciência, pois “O senhor sabe?: Não acerto no contar, por esquentar, demear, de feito, meu coração, naquelas lembranças. Ou que houve e do que não houve. Às v

[José Carlos Ga

confortável condição de leitor racional, urbano e civilizado avança de modo tortuoso, como se nossa leitura ganhasse uma qualidade análoga à evolução do próprio narrador. Riobaldo, senhor da narrativa, finge restituir a nós a suposta primazia da melhor palavra ou da astúcia; da fé ou do gesto sublime, grandiloquente. É sugestivo que ele principe sua rememoração como a subestimar os sinais convencionais do diálogo. O travessão é elemento único, primordial – porque a sua fala ininterrupta escorre, discorre: simbólica e literal que é. Seu discurso proporciona um sem número de questões extraordinárias. Uma delas diz respeito à posição instável

Um jagunço retirado das lutas, quase aviltado em barraqueiro do São Francisco, narra sua vida de aventuras e, mais que a movimentação de idas e vindas sertão abaixo, sertão acima, a secular pendência entre o espírito do Bem e o do Mal. De suas perplexidades momentâneas, de suas crises de depressão e exaltação, comparáveis à maleita que o vai curar no fim, de sua permanente preocupação em saber até onde somos criaturas de Deus ou escravos do demo, configura-se um mundo instável, em que só Deus é estático. [Manuel Cavalcanti Proença, 1959]

do amor extraordinário que o acompanhou feito sombra, coisa do “demo”, do “coisa ruim”, “O o”: assombração. O leitor mire veja, percorrer as páginas desse romance é covalidar a perspectiva de seu protagonista de que “o sertão é o mundo”. Quer dizer, Grande Sertão: Veredas é material encantatório, capaz de transformar aquele que lê, pois lhe empresta um modo mais rente de conceber as coisas, especialmente aquelas que teimam em nos ocupar em demasia. Digamos que nossa

A parte mais interessante da conversa com Rosa foi que, conversando sobre a prosa brasileira daquele tempo – isso era por volta de 1963, 1964 – ele dizia uma coisa com a qual eu concordava, e concordava não só naquele tempo, como concordo ainda mais hoje. Ele dizia que a prosa de ficção brasileira era muito frouxa. Eu achei muito engraçado isso e falei: “O que quer dizer frouxa?” Ele: “Quer dizer uma coisa assim... uma prosa muito boca mole, uma prosa que não tem caráter. Eu gosto mais de uma pedra pedregosa, de uma prosa pedregosa e a prosa brasileira é muito frouxa, é flácida, quase metade de toda e qualquer prosa escrita no Brasil é feita de vogais.” [Décio Pignatari, 2011]

© Vitor 1234/GNUFDL

Grande parte do livro se estrutura em duas linhas paralelas: a objetiva, de combates e andanças – criadoras da personalidade do jagunço que termina chefe de bando – e a subjetiva, marchas e contramarchas de um espírito estranhamente místico, oscilando entre Deus e o Diabo.

© José Olympio Editora/Divulgação

rande Sertão: Veredas é um desses raros livros em que a extensão, quanto ao número de páginas, não dá conta de tudo aquilo que nele cabe ou poderia caber. Publicado em 1956, esse notável romance de João Guimarães Rosa é considerado, com justiça, uma das obras mais surpreendentes e originais de nossa literatura. Narrado em primeira pessoa pelo fazendeiro e exjagunço Riobaldo, trata-se de uma sucessão de episódios impressionantes que ecoam a rotina da vida no campo, em paralelo com as grandes jornadas pelo sertão de Minas Gerais, em meio a ditos proverbiais, contação de histórias pelos caboclos e agudas reflexões do narrador. Sob esse aspecto, vale dizer que a linguagem cumpre papel essencial na armação do enredo e condução da história, concedendo ao leitor um papel imprevisto: cultivar a experiência vertiginosa por entre as linhas, sabores e imagens sugeridos pelas cenas que povoam o romance. É que o leitor está às voltas com as sutilezas, no pensar e no agir, de personagens enérgicas e cativantes, habituadas aos desmandos de um mundo rude. A poderosa voz que narra é a de um sujeito de modos simples, o que não o impede de dar um contorno épico aos eventos que testemunha e de que toma parte. Por exemplo, Riobaldo reproduz minuciosamente os diálogos absolutamente tensos da gente gabaritada do sertão. Certa feita, o líder Zé Bebelo é capturado pelo bando inimigo, mas nem por isso deixa se intimidar. Ele parece ter nascido homem-feito, valente e comandante: “Sei não ser terceiro, nem segundo.” Repare-se que a lentidão com que os chefes conduzem o julgamento de Bebelo não tem por função abrandar o impacto de sua ação. Antes, o modo arrastado de andar, reforçado pelas pausas a mensurar o alcance do que dizem, convertem o próprio leitor em uma espécie de refém da narrativa: sedento por descobrir a palavra final, a sentença exata. Na fala sem parada desse narrador, retroalimentada pela memória e pela sabedoria, fundem-se regionalismo e erudição; descrevem-se homens, veredas e buritizais; argumenta-se, a fundo, sobre as ações, maiores ou menores, daqueles que compartilham a sina, a reza, a amizade, o amor e o ardor das batalhas. O romance resgata e recria determinados eventos sob a ótica de um homem endurecido pelos feitos, para quem a palavra, embora abundante, diz mal e pouco sobre o muito que ele viu e viveu. Por isso, esse sujeito que nos chama de “senhor”, recomendando extremo cuidado ao interpretarmos o que ele sente, narra e pensa (“O senhor

P © Instituto Moreira Salles/Divulgação

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Lançado em 1956, livro que narra as aventuras

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or meio da linguagem, Joã Guimarães Rosa re uma Zona da Mata que, situada em M Gerais, encontra-se todos os lugares, m que, ao mesmo tem não se encontra em algum; para fazê-lo construir o mundo Riobaldo, Rosa tam reinventou o idiom português

2016 MAIO

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Rosa e as veredas da palavra

s do fazendeiro e ex-jagunço Riobaldo é um grande clássico da literatura brasileira e mundial

e tem importância para o narrador não são os fatos, mas as determinantes perspectiva que eles se apresentam. Como essa linha se mostra sinuosa, imeira parte uma narrativa em ziguezague, de que o narrador, todavia, rque estou remexendo o vivido longe alto, com pouco caroço, querendo ero enfiar a ideia, achar o rumozinho forte das coisas, caminho do que vezes não é fácil. Fé que não é.”

arbuglio, 1972]

Bebelo – que foi seu aluno, chefe e amigo – ele refina o seu pensar. É da perspectiva de sua velhice, feito rio volumoso, que Riobaldo retoma os valorosos conselhos do líder engenhoso: “Quando se curte raiva de alguém, é a mesma coisa que autorizar que essa própria pessoa passe durante o tempo governando a ideia e o sentir da gente.” Eis outro mérito do astucioso narrador, a campear poderes inclusive sobre o registro escrito, ao barganhar o seu relato perante o senhor leitor. O exercício da leitura, afinal, é o único ato cuja primazia ele nos concede. Ainda assim, trata-se de um território parcial, já que é por intermédio de sua fala que julgamos aprimorar nosso parco conhecimento sobre a geografia e o estatuto das personagens. Diante de Grande Sertão: Veredas, nossa tarefa só se completa mediante a autorização prévia de Riobaldo, a negacear o que ele reconstitui, num misto de memória, poder, amor e arma. Os ditos e subentendidos do narrador, elaborados no redemoinho de suas digressões, ilustram o planejamento de um discurso oscilante. Provavelmente isso aconteça porque esse jagunçonarrador também aprende a chefiar o dito e o fato. Quanto mais envolvido com as artes do mando, menos tolerará falhas no proceder próprio e alheio. Dividido nas emoções, mas preciso no comandar, a fala de Riobaldo se aprimora, feito os tiros certeiros que mira em árvores, gente ou bando. O romance traduz a habilidosa arte de contar de um sujeito de muitas faces, o que também explica sua maneira arcaizante e inovadora de falar. Por vezes, a palavra do narrador soa involuntariamente rebuscada. Não nos enganemos: a sua fala nasce da trama composta de ideias próprias e palavras colhidas em outras vozes. É por isso que Riobaldo quase sempre adivinha o pouco a mais que teríamos a dizer. “Nonada.” © Coleção particular

lgação © Divu

ão ecriou a Minas e em mas mpo, m lugar o, ao o de mbém ma

ocupada por nós, interlocutores pressupostos na fala (aparentemente solta e sem medida) do narrador. Outra se refere às numerosas veredas propiciadas pelo emprego da palavra: antiga, gasta, nova, neológica e sábia. O enredo é permeado pela ambivalência de atos, pensamentos e afetos, como mostra a recusa inicial por parte de Riobaldo em assumir funções de chefia. A narrativa traduz os muitos dilemas desse homem, cujo ápice está no pacto que julga estabelecer com o demo. Esse episódio, o mais sinistro do romance, acontece à meia-noite numa encruzilhada – lugar assombrado pelo encontro das veredas chamadas mortas.

A leitura desse romance constitui uma vivência irrepetível. Experiência extraordinária capaz de nos situar para além da vida em bege e cinza que levamos, diante da fantástica jornada, no rumo sem volta que induz ao embate do leitor consigo mesmo. É uma autêntica encruzilhada verbo-visual calcada na sobreposição de cor, aroma e tato. Sim, porque a epopeia de Guimarães Rosa concilia a sonoridade áspera, seca e ruidosa da palavra com a materialidade bruta dos eventos. O leitor atente para o fato de que não se trata de fala exagerada, nem manifestação de arrogância. O Grande Sertão de Guimarães Rosa desfavorece uma visão estanque das pessoas e coisas. Aqui, a palavra recriada tem acepção ampliada. O costumeiro apego ao certo ou errado, ao bem ou mal, ao belo ou feio são sacudidos para além das trilhas que o leitor porventura esteja habituado a percorrer. Acima de tudo, Riobaldo reafirma seus débitos para com os homens que mais o ensinaram no proceder. À medida que o narrador relembra a convivência com Zé

“Nonada”, lê-se, e a cena se abre como um teatro impossível de teatro: nela, não há designação de coisa alguma, a partir de um sentido próprio, nem metaforização, a partir de um sentido figurado – marca-se, na operação, o movimento de um ato, que não tem sua razão de ser no que o antecede. O narrador, que já está presente, e que não se sabe ainda quem seja, nem onde esteja, ou quando fale, instala-se o cavaleiro de seu verbo, que sofre e produz um efeito de neutralização de tudo quanto pudesse designar e significar, previamente. [João Adolfo Hansen, 2000]

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Essa estrutura de labirinto acompanha o vaivém de uma conversa descosida, espaçada, posto que a narração de Riobaldo, um puro reconto articulado sob o ritmo de impostação oral, faz-se diante de um outro, que o escuta – de uma segunda pessoa presente a cada volta do labirinto, e que, embora não tome a palavra, marca a sua interferência silenciosa e descontínua, mediante perguntas subentendidas sobre os incidentes da aventura relatada, pausas dentro de um diálogo ao qual se deve o prosseguimento sinuoso, de interrupção a interrupção, da história (olhe... senhor pergunte... o senhor vê... explico ao senhor... o senhor ouvia... eu lhe dizia... tanto, digo... bom, ia falando... o senhor mire veja... minto...). [Benedito Nunes, 2013]

Jean Pierre Chauvin é professor de Cultura e Literatura Brasileira no Departamento de Jornalismo e Editoração da ECA-USP. Autor de O poder pelo avesso na literatura brasileira (2013). E-mail: tupiano@usp.br

HISTÓRIA & CULTURA M U N D O PA N G E A M U N D O PA N G E A M U N D O PA N G E A M U N D O PA N G E A M U N D O PA N G E A M U N D O PA N G E A


1º de Maio

Uma jornada de 150 anos Renato Rocha Mendes Especial para Mundo

Em 1866, o Massacre de Haymarket batizou com sangue a luta pela limitação de oito horas diárias de trabalho

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Como resultado da batalha campal, 20 manifestantes e sete policiais foram mortos; oito líderes anarquistas foram presos e condenados, num processo repleto de arbitrariedades e erros grosseiros

© Coleção particular

Data internacional Em setembro de 1866, o Congresso da Associação Internacional de Trabalhadores (AIT, a I Internacional, fundada em 1864), realizado em Genebra (Suíça), dedicou boa parte de sua agenda ao debate sobre a importância da reivindicação da redução da jornada para oito horas diárias, além das condições de trabalho dentro das empresas (que eram absolutamente inaceitáveis, em especial para mulheres e crianças), as relações entre patrão e empregados e a função e importância dos sindicatos, entre outras. Nesse congresso e nos outros que se seguiram, foram aprovadas diversas resoluções, como a promoção da solidariedade e colaboração entre os operários de toda a Europa em suas lutas e a promoção do trabalho cooperativo. Em julho de 1889, já no quadro da II Internacional (a primeira foi extinta em 1872), realizada em Paris, os trabalhadores decidiram parar no dia 1º de maio, tanto como uma forma de homenagear as vítimas de Chicago quanto como parte do processo de organização de jornadas internacionais de luta dos operários. Curiosamente, nos próprios Estados Unidos o Dia do Trabalho é celebrado na primeira segunda-feira de setembro.

em colapso e a escravidão fosse abolida. O fim da Guerra Civil Americana marca o princípio da ascensão dos Estados Unidos como uma potência global, mas também emoldura profundas transformações demográficas, socioeconômicas e políticas. A guerra acelerou a Revolução Industrial estadunidense, que passou a ser considerada por alguns autores o movimento de industrialização mais radical já observado, responsável por impulsionar o desenvolvimento do capitalismo estadunidense. Com o crescimento extraordinário dos setores da metalurgia e da siderurgia, o norte do país – mais desenvolvido que o sul em diversos aspectos – passou a absorver uma massa de operários que surgia à medida que as populações nacionais passaram a se deslocar para as regiões industrializadas. Por outro lado, o intenso fluxo migratório europeu que se observou após a guerra e pelas décadas que seguiram reforçou a classe do operariado nos centros urbanos, principalmente em Chicago, fato que contribuiu para a politização do proletariado e o surgimento dos primeiros sindicatos.

© Coleção particular

m maio de 1886, milhares de operários tomaram as ruas de Chicago (Estados Unidos) para reivindicar a jornada de oito horas diárias de trabalho. Não havia, até então, qualquer limite legal. Os patrões podiam exigir que os operários trabalhassem à exaustão física, mental e emocional. Em 3 de maio, um choque com a polícia resultou na morte de três manifestantes. No dia seguinte, uma nova manifestação virou luta campal, quando um desconhecido lançou uma bomba contra os policiais. A tropa disparou contra a multidão. No total, foram mortos 20 manifestantes e sete policiais e dezenas foram feridos. O episódio passou à história como o Massacre de Haymarket (região central de Chicago, próxima à prefeitura). De maneira arbitrária, sem provas, a polícia prendeu oito manifestantes anarquistas, alegando serem os responsáveis pelo atentado à bomba do dia 4 de maio. Com exceção de um, todos foram condenados à pena de morte, por enforcamento. Três dos condenados sobreviveram e foram “perdoados” pelo governador do estado de Illinois, em 1893. A data não tem um valor apenas rememorativo, mas preserva sua plena atualidade. Por exemplo, o Congresso Nacional brasileiro debate a adoção de eventuais modificações nas leis trabalhistas – atualmente regulamentadas pelo regime CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) –, que poderiam incluir, em algumas propostas, a pura e simples abolição do limite de oito horas. No Brasil, a luta pela jornada de oito horas ganhou impulso em julho de 1917, quando a Confederação Operária Brasileira, de inspiração anarquista, organizou uma greve geral do comércio e da indústria que paralisou São Paulo. Do ponto de vista dos interesses dos próprios trabalhadores, a revogação do limite de oito horas significaria um retrocesso de grande envergadura.

As origens A luta pela redução da jornada de trabalho surgiu em um momento crítico para os Estados Unidos, logo após o encerramento da guerra civil, que opôs o sul escravista ao norte industrial (1861-1865). À época, o país emergia devastado. Considerada uma das primeiras guerras industriais – e o prenúncio da Primeira Guerra Mundial –, a Guerra da Secessão matou mais de 600 mil soldados e civis e destruiu parte da infraestrutura do país. Para alcançar tamanho grau de destruição o conflito mobilizou fábricas, minas, estaleiros, bancos e transportes e se fez valer de estradas de ferro, do telégrafo, dos navios a vapor e das armas produzidas em massa, para que ao fim de quatro anos os estados do Sul entrassem

Chicago, epicentro da indústria Chicago, a cidade mais populosa do estado de Illinois, foi o epicentro das lutas operárias pela redução da jornada de trabalho. Com a Revolução Industrial, a economia da cidade cresceu de maneira excepcional na medida em que sofria com a explosão demográfica. Antes mesmo da guerra civil, na década de 1850 a estação central de Chicago era o centro ferroviário mais movimentado do mundo, que foi modernizado e cresceu ainda mais durante e após a guerra. A cidade se tornou o maior e mais importante centro industrial dos Estados Unidos. Com o crescimento acelerado, as condições de vida dos operários deterioraram com a violência, o desemprego e as jornadas de trabalho que duravam de 12 a 16 horas. O braço de ferro entre operários e magnatas industriais fez com que dezenas de milhares de trabalhadores fossem demitidos. As manifestações recrudesceram, tornando-se violentas; em resposta, a polícia passou a matar manifestantes em confrontos. O que explica o intenso movimento grevista de Chicago é a criação do Central Labor Union, sindicato fundado pelo movimento anarquista, composto em sua maior parte por alemães e checos. À época existiam cerca de 6 mil membros da Internacional Anarquista nos Estados Unidos; metade estava em Chicago. Esse foi o contexto que desembocou no Massacre de Haymarket. Renato Rocha Mendes é jornalista

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