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ANO 12

Nº 1

tiragem:

MARÇO/2016

20 000 exemplares

crítica

“Cineconsumismo” é sintoma de nosso tempo Sérgio Rizzo Especial para Mundo

A “febre” que toma conta dos fãs, com o lançamento de superproduções como O despertar da força, faz parte de um fenômeno global, com grandes implicações culturais

cinefilia, bem apresentada no Brasil por um livro de mesmo nome escrito pelo crítico francês Antoine de Baecque (Cosac Naify, 2010), refere-se a um fenômeno que teve origem em Paris, na década de 1940, e que envolvia uma devoção de caráter religioso àquela que o italiano Ricciotto Canudo havia chamado pela primeira vez, em célebre artigo escrito em 1911 e publicado em 1914, de “sétima arte”. Cinefilia era a “igreja do cinema”. Seus devotos perambulavam o dia todo, todos os dias, pelos templos dessa religião, as salas de cinema da cidade. A catedral correspondia à antiga sede da Cinemateca Francesa, no Palácio de Chaillot, em frente à Torre Eiffel – um cenário charmoso que Os sonhadores (2003), de Bernardo Bertolucci, homenageia em sua sequência de abertura. Para os cinéfilos de origem, em boa medida fundamentalistas, o cinema vinha acima de todas as outras coisas, inclusive da própria vida. Consideravam que era maior a gratificação que encontravam no escuro de uma sala, durante a projeção de um filme, do que a que poderiam encontrar fora dali. Essa cultura de veneração ao cinema – encarado, por esses espectadores “profissionais”, como um mundo à parte que correspondia a muito mais do que apenas uma parte do mundo – desdobrou-se em uma tradição crítica incomparável a qualquer outra, devido a um grau passional de ligação com o seu objeto de estudo, e alcançou mais tarde a realização de filmes, por meio da nouvelle vague. François Truffaut, Jean-Luc Godard, Éric Rohmer, Jacques Rivette e Claude Chabrol são alguns dos expoentes da cultura cinéfila que viraram críticos e, depois, diretores. Esvaziada de qualquer pretensão intelectual ou espiritual, peças-chave dos cinéfilos parisienses do período 1944-1968 (como delimita o livro de Antoine de Baecque) e de todos os que neles se inspiraram, registra-se hoje uma outra espécie de cinefilia. Ela anda de mãos dadas, como não poderia deixar de ser, com a lógica da sociedade de consumo e atende a algumas demandas do nosso tempo, sobretudo de jovens: a necessidade de enfrentar a sensação de vazio da própria existência e a fixação nas fantasias proporcionadas pela indústria cultural como um modo de preencher essa lacuna, a compulsão pelo acompanhamento da vida de celebridades e por pertencer a tribos de devotos das mesmas “divindades”, o entendimento de que personas virtuais e suas ações pelo mundo digital têm mais apelo e interesse do que pessoas de carne e osso com suas agendas aborrecidas. Chamemos essa nova espécie de cinefilia, para fins provocativos, de “cineconsumismo”. O recente lançamento de O despertar da força (2015) – o sétimo episódio da HI ST ÓR IA & C ULT U R A

© Divulgação

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muito bem-sucedida franquia Star Wars, nascida em 1977 pelas mãos de George Lucas – exemplifica as ramificações desse fenômeno, mas está longe de ser a sua única ilustração. Outras superproduções de apelo global, como os filmes da série Batman e a nova retomada no cinema dos personagens do seriado Arquivo X, surfam a mesma onda. Os números são impactantes: até o final de fevereiro, O despertar da força já havia se tornado a maior bilheteria na história do mercado cinematográfico dos Estados Unidos, com US$ 925,9 milhões, e a terceira maior em todo o mundo, com um total de US$ 2,047 bilhões, atrás somente, e por enquanto, de Avatar (US$ 2,788 bilhões) e Titanic (US$ 2,186 bilhões). Mas a grandeza das cifras, ainda que traduza a dimensão econômica da “cineconsumeria”, talvez não chegue a ser o dado mais impressionante desse fenômeno social e psicológico. Pegue-se, por exemplo, a história, tristemente verídica, de um fã norte-americano de Star Wars que cometeu suicídio ao saber, doentiamente preconceituoso que era, que o jovem herói de O despertar da força seria interpretado por um ator negro (John Boyega). Não se tratava de protestar contra uma escolha dos produtores – que curiosamente, aliás, estava na contramão do que muitos profissionais

de cinema negros alegaram para boicotar a cerimônia de entrega do Oscar 2016, a “supremacia branca” entre os 20 indicados nas quatro categorias dos atores. O fã suicida relacionava-se com o universo de Star Wars como se fosse algo real. Como se fosse, não: para ele, era algo real, a tal ponto que terminou por contribuir para a sua morte. Episódio extremo, ao apontar para uma espantosa fragilidade psicológica, mas característico desse entendimento tão comum a tanta gente em nosso tempo: o de incorporar, como dados de sua própria realidade, elementos que pertencem à ficção (ou a uma realidade empacotada pela mídia de modo narrativo e ficcional). Desde que o cinema industrial foi estruturado, no período que cobre as décadas de 1910, 1920 e 1930, existem espectadores que confundem uma coisa e outra. Em nosso tempo, contudo, os devotos do “cineconsumismo” parecem se multiplicar em um “modo Barbie”: assim como crianças tratam suas bonecas como se elas tivessem vida, muitos jovens e adultos se relacionam com personagens dessas “mitologias” cinematográficas contemporâneas como se existissem – e, de fato, não há como negar a concretude de algo que povoa a cabeça de alguém. Penso em algo, logo faço esse algo existir. Há, no entanto, uma conexão perversa nessa história que tem a ver com o imaginário e as diversas maneiras de explorálo. Ela é patrocinada pela engrenagem da sociedade de consumo. Para participar desse jogo, os “cineconsumistas” precisam comprar. Não apenas ingressos para as sessões de cinema, mas também privilégios – como o de ir a uma convenção onde estarão os atores da franquia venerada – e a mais variada sorte de bugigangas, de reles canetas, cadernos e chaveiros até réplicas em tamanho natural de personagens. Na cinefilia de ontem, os filmes – de diversas origens e propósitos – proporcionavam múltiplas janelas que se abriam para descortinar objetos de devoção associados a prazeres do intelecto e do coração (que, muitas vezes, caminham juntos). Na cinefilia de hoje, alimentar o caráter obsessivo de contingentes de espectadores por determinadas e exclusivas janelas (as que movimentam as máquinas de cartões de débito e crédito) leva a devoções de caráter muito mais limitado (e limitador). No campo da percepção, por sua vez, esses cinéfilos, em um pós-moderno embaralhamento de cartas, podem começar a acreditar que Donald Trump, por exemplo, é um cavaleiro jedi. Sérgio Rizzo é jornalista e professor;  www.sergiorizzo.com.br

H I ST Ó R I A & C U LT U R A M U N D O P A N G E A M U N D O P A N G E A M U N D O P A N G E A M U N D O P A N G E A M U N D O P A N G E A M U N D O


Renato Rocha Mendes Especial para Mundo

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á 150 anos nascia Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha (1866-1909) na Fazenda Saudade, distrito de Cantagalo, no nordeste do estado do Rio de Janeiro. Jornalista e escritor, intelectual militante, engenheiro militar, foi o autor da obra máxima, Os sertões, sobre a Guerra de Canudos (1896-1897). Euclides da Cunha foi imortalizado pelo seu trabalho épico publicado em 1902, fato que o tornou referência para as gerações futuras de escritores e intelectuais brasileiros. É consenso entre os estudiosos das letras brasileiras sobre Os sertões figurar entre os principais títulos da literatura nacional. A obra se tornou a primeira “visão” do Brasil profundo. Para o estadunidense Frederic Amory (1925-2009), professor de literatura, euclidianista desde a década de 1960 e autor de uma das biografias mais completas sobre Euclides, o escritor foi o “autor de um dos maiores livros jamais escritos nas Américas”. Filho do tempo em que viveu, Euclides foi profundamente influenciado pelos acontecimentos de sua época, além de ter sido protagonista de uma das maiores tragédias passionais já contadas. Nasceu um ano após o início da Guerra do Paraguai (1865-1870), o conflito mais longo e sangrento da América do Sul, que alterou os rumos do Brasil. Aos três anos, ele e sua irmã Adélia ficaram órfãos de mãe e passaram a ser criados por uma tia, que também morreu um ano após ter assumido a guarda dos sobrinhos. Com consentimento do pai, um contador falido, mudaram-se novamente para a casa de outra tia. Durante a infância passou por lares adotivos, de familiares, e algumas escolas. Segundo Amory, essa condição da infância “estabeleceu o padrão do chamado ‘nomadismo’ de sua vida profissional adulta”. Declínio da monarquia Euclides pôde testemunhar em sua juventude o declínio da monarquia e o surgimento dos ideais republicanos, que passou a defender. À medida que as contradições do Império brasileiro – como a escravidão, que ainda existia mesmo após a extinção do tráfico de escravos (1850) – passaram a ser percebidas de maneira aguda pela sociedade, os ideais republicanos eram reforçados. A economia cafeeira, a consequente modernização a ela atrelada, a expansão das ideias abolicionistas e a fundação do Partido Republicano, juntos, foram elementos transformadores, responsáveis por impulsionar a radicalização política e a difusão do movimento republicano, a partir da década de 1850 até a Proclamação da República, em 1889. Com o governo republicano chegaram avanços, mas em meados da sua primeira década a economia cafeeira passou por uma forte crise, que atingiu a sociedade da época fazendo com que surgissem revoltas contra a opressão e a pobreza. A Guerra de Canudos (1896-1897), no vilarejo homônimo do sertão baiano, e a Guerra do Contestado (1912-1926), na divisa entre os estados do Paraná e de Santa Catarina, foram revoltas originadas por problemas sociais. As populações locais lutaram contra o Exército da república.

Um cronista do

Euclides da Cunha, o jornalista que cobriu a Guerra de Canudos, completaria 150 an Rebelde, idealista, insubordinado O escritor de Os sertões, durante toda a sua trajetória, protagonizou alguns episódios de rebeldia e insubordinação causados por seu idealismo. O mais conhecido foi o “Episódio do Sabre”. Em 1888, então aluno da Escola Militar da Praia Vermelha (RJ), um centro de efervescência republicana, tinha como professor de matemática o positivista Benjamin Constant (1836-1891), engenheiro civil e militar. Foi Constant que introduziu o adolescente Euclides no positivismo francês e no republicanismo, quando ainda era seu professor e mentor no tradicional Colégio Aquino, anos antes, no Rio. No colégio, publicou seu primeiro artigo, “A viagem”, no periódico O Democrata, que editava com colegas. Os jovens cadetes da Escola Militar se preparavam para receber nas docas do Rio o líder republicano Lopes Trovão, que desembarcava da Europa. Para conter os alunos e testar sua lealdade à monarquia, o comandante da escola organizou uma visita do ministro da Guerra, um monarquista. No dia da visita, Euclides atirou a espada aos pés do ministro dizendo: “Infames! A mocidade livre cortejando um ministro da monarquia!” O cadete idealista ficou preso por pouco tempo, mas passou um ano longe do serviço militar. Correspondente do Estadão Aconselhado a sair de circulação, viajou a São Paulo, onde foi recebido por republicanos; um deles era Júlio Mesquita, diretor de A Província de São Paulo, hoje o jornal O Estado de S. Paulo, do qual seria colunista, redator e enviado especial. Com a Proclamação da República, em 1889, Euclides regressou ao Exército e foi recebido pelo novo ministro da Guerra, seu antigo mestre, Benjamin Constant. Em 1890, na casa de um dos republicanos conspiradores, o major Sólon Ribeiro apresenta Euclides à Ana Ribeiro (D. Saninha), com quem se casaria meses depois, teria quatro filhos e viveria a maior tragédia de sua vida. Em 1891, Euclides concluiu o curso de Estado-maior e Engenharia Militar e ingressou na Escola Superior de Guerra. Durante parte de sua vida passou a trabalhar na construção de pontes, estruturas públicas, estradas, como quando assumiu o cargo de engenheiro na cidade de Campanha (MG), em 1983, ou quando ocupou a função de engenheiro-ajudante na Superintendência de Obras Públicas de São Paulo, em 1898. Passou a viajar por diversas cidades de São Paulo – permanecendo longos meses distante da família, condição que não o impediu de continuar a escrever para A Província. Nos primeiros anos após se formar engenheiro militar, Euclides se mostrou desiludido com a república e passou a fazer críticas ao novo governo. Em seus artigos para a imprensa ganharam destaque a perda dos ideais republicanos e a corrupção. Outra fonte de descontentamento é a Crise do Encilhamento (1889-1892), caracterizada por uma política monetária que provocou altas da inflação e especulação financeira. Os interesses privados foram sobrepostos aos públicos. Nesse período teve início uma transformação no modelo científico ideológico de Euclides e da intelectuali-

dade nacional, que passou do positivismo para a ideologia capitalista do darwinismo social, mais adequada às incipientes industrialização e urbanização brasileiras. Um jornalista em Canudos Um ano após ter saído do Exército por conta de sua desilusão com a república, em 1897, entre os meses de setembro a outubro, aos 31 anos, Euclides da Cunha foi enviado especial para cobrir a Guerra de Canudos, ou Campanha de Canudos, para o jornal A Província – o primeiro acontecimento histórico a ter cobertura diária na imprensa brasileira. Euclides viajou para o sertão da Bahia integrado numa comitiva militar. Todo o material enviado para o jornal (57 telegramas e 22 cartas sobre Canudos), além de notas e observações sobre a revolta foram utilizados na escrita de Os sertões. Após a publicação da obra, em 1902, o sucesso alcançado fez com que o autor ingressasse nas duas principais instituições científicas do Brasil da época: o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, fundado em 1838, e a Academia Brasileira de Letras, estabelecida em 1897. Nos últimos anos de vida, em 1904, como disse Walnice Nogueira Galvão, professora e crítica literária: “Euclides tinha o espírito muito extremista, isso é muito simpático nele, ele era muito aventuresco, ele não se acomodava em nada, ele queria outra aventura.” “Uma batalha obscura e trágica” Com idade próxima dos 40 anos, foi indicado pelo ministro das Relações Exteriores, o barão de Rio Branco, para disputar a vaga de chefe de uma Comissão Mista Brasileiro-Peruana de Reconhecimento do Alto Purus, na Amazônia. À época, existia uma controvérsia entre © Fundação Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro

os sertões

Não fosse pelos Sertões de Euclides da Cunha, o mundo teria uma compreensão muito mais limitada e preconceituosa do movimento liderado por Antônio Conselheiro

Para saber mais: Os sertões: Campanha de Canudos, de Euclides da Cunha (obra de domínio público). Euclides da Cunha: uma odisseia nos trópicos, de Frederic Amory. São Paulo: Ateliê Editorial, 2009. Euclides da Cunha: escritor por acidente e repórter do sertão, de Lúcia Garcia. São Paulo: Claro Enigma, 2009. Melhores Crônicas de Euclides da Cunha, seleção e prefácio de Marco Lucchesi. São Paulo: Global Editora, 2011.

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Brasil profundo

nos em 20 de janeiro; sua obra é imortal

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© Museu de Arte Moderna, Rio de Janeiro

Renato Rocha Mendes é jornalista

© Fundação Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro

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Peru e Bolívia acerca de 720 mil quilômetros quadrados de terra na cabeceira de diversos rios, dentro e em volta do território do Acre. Entre dezembro de 1904 e novembro do ano seguinte Euclides navegou pelos rios e caminhou pelas florestas de uma vasta região. A expedição foi atribulada, em suas palavras: “uma batalha obscura e trágica com o deserto”. A missão mapeou um trecho desconhecido do Rio Purus, mas não se mostrou relevante para a decisão tomada pelo arbitramento argentino, que simplesmente dividiu os territórios disputados ao meio. O final trágico de Euclides da Cunha aconteceu em 15 de agosto de 1909, quando regressou da expedição e encontrou sua mulher, D. Saninha, grávida. A relação extraconjugal que sua mulher mantinha com o jovem cadete Dilermando de Assis levou Euclides a tomar a decisão extrema de tentar matar ambos. A “Tragédia da Piedade”, como ficou conhecida, aconteceu em um domingo chuvoso e terminou com a morte de Euclides da Cunha após ser fatalmente ferido com dois tiros disparados por Dilermando. Dois anos depois, o homem que matou Euclides foi julgado e absolvido por legítima defesa. Em 4 de julho de 1916, Dilermando também matou Euclides da Cunha Filho, o Quidinho, quando este tentou vingar a morte do pai. Dilermando foi novamente absolvido. Euclides da Cunha foi um dos maiores nomes da cultura nacional; homem obstinado de “extremos dons literários” e “integridade histórica”. A obra e o homem foram transfigurados em uma das maiores histórias brasileiras, reproduzida incontáveis vezes em reportagens, livros, documentários, filmes e trabalhos acadêmicos e foi adaptada para a televisão.

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O sertão resiste aos ataques do litoral José Arbex Jr. Editor de Mundo

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o final do século XIX, o Nordeste passava por uma aguda crise. A maior parte dos sertanejos vivia na miséria, agravada, a partir de 1877, pela Seca dos Dois Martelos, uma das maiores da história. Centenas de milhares morreram, parte dos sobreviventes formou bandos de cangaceiros, outra parte aderiu a grupos messiânicos. Foi de um desses grupos que peregrinavam pelo sertão da Bahia que surgiu Antônio Conselheiro. Em 1893, Conselheiro fixou-se às margens do Rio Vaza-Barris, onde construiu o Arraial de Canudos. O rápido crescimento do arraial incomodou o governo, os fazendeiros e a Igreja. Quando a Guerra de Canudos estourou, em novembro de 1896, a república brasileira tinha escassos sete anos. A república nasceu sob a tutela militar dos marechais Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto e era economicamente dominada por latifundiários de São Paulo e Minas Gerais, que cultivavam a monocultura do café e eram responsáveis por quase 50% das exportações. Em 1894, um de seus representantes, Prudente de Moraes, foi eleito presidente, mantendo relações tensas com Floriano. Em 1896, Prudente de Moraes teve que se ausentar por quatro meses da Presidência, por problemas de saúde. Nesse momento começou o conflito que deu origem à Guerra de Canudos. Manuel Vitorino Pereira, vice de Moraes e ligado a Floriano, era favorável ao esmagamento militar do arraial. Contava com o apoio de uma parcela dos congressistas e de “florianistas” que queriam um pretexto para impor uma ditadura por meio de um golpe militar. Enquanto isso, na Bahia, a velha elite política do Império, representada por proprietários de terras, entrou em conflito com uma elite política emergente, representada pelo governador Luís Viana. Cícero Dantas Martins – primeiro e único barão de Jeremoabo – era dono de terras vizinhas a Canudos e exigia que Viana mobilizasse todas as forças para liquidar Conselheiro. O governador hesitava. A Guerra de Canudos, portanto, aconteceu no contexto de uma disputa política regional da Bahia e diante de uma crise política nacional. Havia um total descompasso entre o que se dizia sobre Canudos na imprensa e o que de fato acontecia no arraial, cuja população estava apartada do resto do país, não apenas do ponto de vista geográfico, mas também cultural e social. Canudos não era um centro de conspiração monárquico, nem constituía uma ameaça ao regime republicano, como se fazia crer. Os seguidores de Conselheiro buscavam uma vida melhor, eram vítimas da fome, da miséria e da ausência de perspectivas em relação ao futuro. Como analisou Euclides da Cunha, a Bahia do final do século XIX integrava um Brasil dividido entre dois mundos: o litoral – europeizado, moderno, detentor do poder político – e um vasto sertão – mestiço, retrógrado, pobre e entregue à própria sorte. Canudos colocou os dois Brasis frente a frente. O resultado foi um massacre. Ou, como observa o intelectual e militante marxista Vito Letizia (1938- 2012): “A Guerra de Canudos foi resultado da contradição entre a burguesia comercial urbana e a burguesia agrária. Foi, realmente, uma coisa do fundo do povo nordestino, do fundo mesmo. Antônio Conselheiro foi retratado pela imprensa da época como louco, quando era superlúcido e tinha muito bom senso. Foi algo do fundo do povo, do fundo da colônia, mas que não tocou as cidades, um fenômeno que realmente explicita a natureza das relações coloniais. “Aliás, só o Brasil teve um negócio desses. No Peru, teve o Tupac Amaru, mas sempre ancorado na recordação do Império inca. Na Argentina, no Chile e na Bolívia não teve nada semelhante. No México, teve 1910. Mas no Brasil o fenômeno de Canudos é único. Por que é único? Porque cai na contradição que os outros não tinham, os excluídos do empreendimento mercantil, mas sem liderança nenhuma. Foi necessário alguém como Antônio Conselheiro para ser líder deles. Um homem pobre, sem nada, nenhuma posição acima do povo comum, não tinha nenhuma vida fora da vida do povo comum. “Olha, fico tão bravo quando os historiadores dizem que é um movimento retrógrado, porque era contra a república. Aquela república que foi feita por engano. A monarquia não tinha opção, não havia mais condições de entronizar um novo imperador. Os monarquistas ficaram todos no ar: 'Então, é república.' O próprio marechal Deodoro da Fonseca, primeiro presidente, era monarquista e não foi contestado por ninguém. Era uma república muito mais autoritária que o império. Os filhos da (princesa) Isabel eram abolicionistas, tinham uma imprensa abolicionista que rodava no porão do Palácio de Petrópolis. Para ter essa república, francamente, ficaria com o império.”

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comportamento

Inflação mostra as garras Os brasileiros com menos de 22 anos têm uma ideia apenas aproximativa do que é conviver com a alta dos preços; mais do que apenas um fenômeno econômico, ela altera as relações das pessoas com a sociedade e a forma de perceber o mundo

ejamos o comportamento de um cidadão nos tempos de alta inflação no Brasil. Se recebia o salário no dia 5, ele imediatamente corria ao supermercado para as compras do mês. Isso porque, com o mesmo dinheiro, ele compraria 20 dias depois talvez 30% a menos de alimentos. E vejam que, apesar da altíssima taxa inflacionária, os salários nunca foram reajustados todos os meses. Os dissídios coletivos previam apenas dois aumentos anuais. De maneira escandalosamente explícita, a inflação era um “imposto” que qualquer assalariado pagava de modo involuntário, o que na realidade o deixava a cada mês mais pobre. Um outro problemas da inflação está na relativização do valor das coisas. Deixamos de saber qual a quantidade de horas de trabalho ou dias de mesada necessários para comprar um picolé, um liquidificador ou um saco de pipoca. Ou seja, a confusão provocada pelo ambiente inflacionário gera uma cultura dentro da qual perdemos o parâmetro monetário das mercadorias e serviços. E também passamos – com toda a razão! – a desconfiar da competência do Estado, já que ele não consegue cumprir a tarefa fundamental de estabilizar a moeda. Digamos que você seja um dos 326 milhões de europeus que moram nos 19 países que adotam o euro. Sentir os efeitos da inflação exige uma sensibilidade quase mediúnica, porque ela está em minúsculos 0,2% ao ano. Mas, se você for um dos 200,8 milhões de brasileiros, já fica um pouco mais fácil, porque o IPCA (índice oficial da inflação) do ano passado ficou em 10,67%. Bem acima da meta de 4,5% fixada pelo governo e pelo Banco Central. Esses quase 11% podem parecer bem pouco numa comparação histórica. Em 1989 o Brasil experimentou uma inflação de patéticos 1.764%. Mas não é apenas uma questão de porcentagem. Os economistas constatam que as empresas começaram a se proteger pelo gatilho da indexação, um mecanismo que dispara projéteis que atingem a carteira do consumidor. Indexação significa traduzir o valor de um produto em dólar, ou o valor de um contrato em número de meses de salário mínimo, para, com a ajuda do indexador, conseguir operar a contabilidade sem perder dinheiro. É o que já acontece hoje timidamente, com a volta ao velho ciclo inflacionário que vivemos até julho de 1994, quando a moeda foi estabilizada pelo Plano Real. Os brasileiros com menos de 22 anos têm hoje uma ideia apenas aproximativa do que era conviver com a inflação alta. Só pelos livros ficam sabendo que no início dos anos 1980 a taxa se aproximou dos 100% ao ano, o que ajudou a empurrar o país para a chamada década perdida. Vejamos um exemplo de 1994. Logo após o Plano Real, e quando a percepção sobre os preços ainda não se estabilizara por completo, uma prefeitura do interior de São Paulo passou a publicar um levantamento semanal. Um quilo de sal poderia ser comprado na cidade entre

© Agência Brasil

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Com a inflação, deixamos de saber qual a quantidade de horas de trabalho ou dias de mesada necessários para comprar objetos, bens e serviços R$ 0,12 e R$ 0,32. E uma caixa de fósforos custava de R$ 0,31 a R$ 0,93. Quem pagava mais caro nem por isso desconfiava que o valor não era justo ou correto. O consumidor estava sem parâmetros. Vejamos alguns exemplos de hoje, em 2016. Quanto vale um café expresso servido no balcão? Pode ser R$ 1,50 ou R$ 6,50 na Zona Sul de São Paulo. Uma embalagem com hambúrguer congelado, no supermercado, pode custar de R$ 14 a R$ 25. Ou ainda, em lojas de eletrônicos o mesmo notebook sai por R$ 2.575 ou por R$ 3.541. Variações de preço sempre existiram, mesmo porque os varejistas têm custos operacionais diferentes (uma loja de shopping em bairro rico paga um aluguel maior que uma loja de rua em bairro de classe média baixa). O problema é que, com a inflação, essas diferenças se ampliam e perdemos a noção dos preços. Um dos sintomas de que a inflação está realmente de volta pode ser encontrado, agora, nos cardápios das lan-

chonetes e dos restaurantes. Quando os preços estavam estabilizados, eles vinham impressos no próprio cardápio. Agora, os cardápios estão com o espaço do preço preenchido à mão. Ou então preenchido com uma tira vertical de impressora, colada sobre os preços mais baixos que deixaram de valer. Problemas ainda mais graves são encontrados em (poucos) outros países. Na Venezuela, por exemplo, o Fundo Monetário Internacional (FMI) prevê, para este ano, uma inflação de 700%. Mas a história tem casos bem mais incríveis. Nos anos imediatamente posteriores à Segunda Guerra Mundial, Áustria e Polônia tiveram inflação mensal de até 275%. A maior hiperinflação registrada no planeta foi a da Hungria, entre 1945 e 1946, com a taxa mensal de 4,19 quintilhões por cento (um quintilhão é o número 1 seguido por 18 zeros). A Grécia teve entre 1943 e 1955 uma inflação de 8,55 bilhões ao mês. São exemplos até bem mais agudos que a emblemática inflação mensal alemã de 1920-1923, com 3,25 milhões por cento. Nesses países e nesses períodos não foi a autoridade monetária que deixou de funcionar. Ocorreu um colapso do próprio Estado, contra o qual a população partiu para um sistema de escambo, com a troca de mercadoria por mercadoria, sem a intermediação da moeda. O caso brasileiro é bem menos crônico e mais modesto. Mas ele lembra perigosamente os períodos em que a inflação mais alta também esteve fora de controle. Vejamos, por fim, três exemplos reais na área de negócios. 1) 1980. Uma grande empresa totalizava sua planilha de custos e a multiplicava por dois para fixar o preço de venda ao varejo. Foi um comportamento que a protegeu da inflação, mas a fez realimentar o ciclo inflacionário. 2) 1990. Um pequeno varejista comprava sua mercadoria do fabricante para pagá-la em 30 dias. Revendia o produto pelo mesmo preço que comprou. O lucro vinha das aplicações no “overnight”, um tipo de conta que então existia nos bancos e que permitia saques em 24 horas, com juros de curtíssimo prazo maiores que a estimativa da inflação. 3) 1987. Uma grande multinacional deixou de investir em tecnologia e em recursos humanos. Mas reforçou a diretoria de Finanças. Passou a ganhar menos com o lucro da produção e mais com o lucro das movimentações bancárias que a protegiam da inflação. © Banco Central do Brasil

João Batista Natali Especial para Mundo

João Batista Natali é jornalista

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