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ANO 24

Nº 5

tiragem:

D

SETEMBRO/2016

18 000 exemplares

Depois do impeachment

ilma Rousseff sobreviveu às cerimônias de abertura e encerramento dos Jogos Olímpicos, mas não muito mais. Agosto é sempre agosto: nos últimos dias do mês, o Senado votou, finalmente, como todos sabiam que votaria. “Se eu perder, eu sou carta fora do baralho”, prometera Dilma nos idos de abril, dias antes da deliberação da Câmara pela continuidade do processo de impeachment. Dilma está, agora, “fora do baralho”. Uma corrente afoita de analistas decretou que o PT também já é carta eliminada. Poucos, porém, examinaram o “baralho” inteiro.

© Rovena Rosa/Agência Brasil

© Rovena Rosa/Agência Brasil

Sociedade dividida: manifestantes pró e contra o impeachment vão às ruas, em Brasília, São Paulo e nos grandes centros urbanos do país

O nome do baralho é “Nova República”, a era anunciada por Tancredo Neves, pela voz de José Sarney, na transição do poder militar para o poder civil, em 1985. A crise atual não se restringe a um partido, ainda que o atinja profundamente, mas se estende aos demais grandes partidos. Isso é pouco, ainda: desmantelam-se o sistema político e o contrato social da “Nova República”, consagrados pela Constituição de 1988. O governo Temer se parece mais com um epílogo do que com um novo começo. O Brasil que emerge do impeachment encontra-se, igualmente, diante de encruzilhadas econômicas e comerciais. Distinguese, nitidamente, uma trajetória de desindustrialização cujo significado divide opiniões e projeta um debate sobre a inserção nacional na economia global. Paralelamente, o comércio exterior patina em níveis muito baixos, apesar das mudanças evidentes que resultaram do ciclo internacional de commodities. A “Nova República” agoniza. Fala-se já de candidaturas para 2018. Melhor seria delimitar os temas relevantes do debate nacional. Veja as matérias às págs. 6 a 9

A guerra esquecida do Contestado A

Guerra do Contestado (1912-1916) ocupa um lugar marginal nos livros escolares. O centenário de seu encerramento, em agosto, passou quase em branco na imprensa. Quando se fala dela, geralmente conta-se uma história incompreensível de messianismo. A guerra teria começado pela ação de um curandeiro monarquista, o monge José Maria, e os revoltosos seriam seguidores fanáticos de jovens “virgens”. De fato, o messianismo existiu, mas como um véu que cobria uma guerra de camponeses espoliados: a maior guerra camponesa da América do Sul. Canudos teve Euclides da Cunha. Ninguém da estatura de Euclides escreveu a história do Contestado. Canudos foi no sertão do Nordeste, o lugar mítico da injustiça, da miséria e da revolta no Brasil. O Contestado foi no Sul, em Santa Catarina e no Paraná. Daí, talvez, tanto esquecimento e tanta ignorância. Pág. 12

100 anos de samba © Acervo de Música e Arquivo Sonoro da Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro

● Diário de Viagem – Abalada pelo conflito com a Rússia, Ucrânia experimenta decepção com seu governo incapaz de livrar-se da corrupção. Pág. 2 ● Editorial – Recep Erdogan, o presidente da Turquia, promove um contragolpe autoritário e reforça a lenda de que o Islã é incompatível com a democracia. Pág. 3 ● O Meio e o Homem – A última frente pioneira do Brasil abrange áreas de cerrados do Maranhão, do Piauí, do Tocantins e da Bahia. Pág. 3 ● Em meio a turbulências internas e desafios externos, Nicolás Maduro militariza o regime chavista na Venezuela. Pág. 4 ● Brasil, Argentina e Paraguai articulam frente para isolar diplomaticamente a Venezuela chavista. Pág. 5 ● Estado Islâmico recua nos fronts da Síria e do Iraque, mas inspira uma nova onda de atentados jihadistas. Pág. 10 ● No rescaldo da tentativa de golpe, o governo turco aproxima-se da Rússia, gerando tensões com os Estados Unidos e a União Europeia. Pág. 11

© Ricardo Stuckert/Instituto Lula

E mais...


Adriano Lucchesi Especial para Mundo

Ciclo olímpico reflete as turbulências geopolíticas na Ucrânia A Ucrânia e seus problemas

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BIELORRÚSSIA

POLÔNIA

RÚSSIA

Kiev Lviv

Ucrânia Ocidental

Ucrânia Central

Kharkov

Rio D nipro

Lugansk

U C R Â N I A MOLDÁVIA

Ucrânia do Sul

Ucrânia Oriental

Donetsk

Odessa

ROMÊNIA

Catedral de Santa Sofia, a mais antiga de Kiev, construída pelo rei Yaroslav, o sábio, em 1037

MAR DE AZOV MAR NEGRO

Crimeia Sebastopol

RÚSSIA

República separatista da Transnístria (pró-Rússia) Forte presença de populações russas ou russófonas Crimeia (anexada pela Rússia em 2014)

© Fotos: Adriano Lucchesi

uando se trata de Jogos Olímpicos, todos os olhares estão voltados para as medalhas. Mas uma observação mais atenta invariavelmente iluminará o balanço do ciclo olímpico: o intervalo de quatro anos que define o desempenho de um país nos Jogos. O ciclo olímpico da Ucrânia foi peculiar. Terminou sua campanha em terras brasileiras com 11 medalhas, apenas duas de ouro, na 31ª colocação. Há quatro anos, nos Jogos Olímpicos de Londres, foram 20 medalhas, sendo seis de ouro, em uma espetacular 14ª posição, resultado notável para um país de renda média com menos de 45 milhões de habitantes. Naquele mesmo ano, a Ucrânia sediou a Eurocopa, em conjunto com a Polônia, inserindo-se no circuito global dos grandes eventos e pavimentando um caminho para a inserção no contexto europeu e internacional. Os resultados esportivos espelham a realidade trágica e heroica da nação ucraniana nos últimos quatro anos. Em 2012, transformações profundas embaralharam as cartas no jogo de poder no berço do mundo eslavo e afetaram diretamente o destino de sua população. Tive o privilégio de testemunhar esse processo ao longo desse período, em diversas viagens a uma nação conturbada e sofrida, mas que nunca perdeu seu orgulho e sua ternura. Turisticamente, a Ucrânia divide-se em cinco grandes regiões: a vasta região central, dominada pela capital Kiev e pelo Rio Dnipro, quarto maior da Europa; a Ucrânia Ocidental, próxima à fronteira polonesa, com intensa influência europeia e forte tradição cultural ucraniana, evidenciada na histórica cidade de Lviv; a Ucrânia do Sul, banhada pelo Mar Negro, tendo Odessa como cidade principal e marcando o início do território sob influência russa; a Crimeia, a península anexada pela Rússia em 2014, rincão de população russa e forte pilar do turismo regional; e a Ucrânia Oriental, próxima à fronteira russa, que esteve em evidência devido aos conflitos nas províncias separatistas de Donetsk e Luhansk. Kiev é o ponto de partida para se compreender a complexidade do país e a origem das nações eslavas. Antes de existir Rússia ou Ucrânia, o principado medieval Rus Kiev originou as chamadas nações eslavas orientais atuais: Rússia, Ucrânia e Bielorrússia. Desde a implosão da União

Praça da Independência (Maidan Nezalezhnosti) Soviética, em 1991, Kiev permaneceu como o grande centro econômico e político da Ucrânia, embora o período de relativa prosperidade econômica e estabilidade política tenha sido desintegrado pelos eventos conhecidos como Euromaidan. A revolução foi deflagrada por uma série de protestos iniciadas em novembro de 2013, que culminaram com a queda do governo pró-russo de Viktor Yanukovych, deposto após 93 dias de manifestações que custaram as vidas de centenas de civis, de jovens universitários a aposentados. Eles se sacrificaram em nome dos valores europeus, mas também do combate à corrupção endêmica no país e aos interesses russos incrustados no governo de Yanukovych, um aliado de Vladimir Putin. Kiev é uma cidade imperdível, repleta de atrações culturais e históricas, que ganhou um capítulo muito especial após a Euromaidan. Muitos dos idealizadores da Maidan vieram das regiões ocidentais, caracterizadas pelo forte sentimento nacionalista ucraniano e pelo desejo de aproximação à Europa. Devemos lembrar que nessa região é mais comum o idioma ucraniano que, embora seja a língua oficial do país e falada por cerca de dois terços da população, é praticamente ignorada em algumas regiões do sul e do leste, predominantemente russófonas.

Khreshchatyk, a avenida principal da capital ucraniana

A vida cotidiana segue seu curso de aparente normalidade na Ucrânia de hoje. Mas os resultados do país nos Jogos Olímpicos do Rio refletem a crise econômica que se arrasta desde 2013. Mesmo a eleição do presidente Petro Poroshenko, com ampla maioria popular, não trouxe as reformas esperadas pela população e não reduziu consideravelmente os níveis de corrupção no governo, que se vê agora diante de um dilema. Devem os ucranianos assumirem sozinhos o ônus da reconstrução no Donbass, com maioria pró-russa e pouca conexão ao governo central de Kiev, ou ceder o território às pretensões de Putin, amputando um membro gangrenado? Quaisquer que sejam os próximos desmembramentos, o novo ciclo olímpico da Ucrânia começa com a esperança de superar a crise e trazer os turistas de volta ao país, que certamente agradecerão por poder visitar a última fronteira inexplorada da Europa. Adriano Lucchesi, administrador de

O centro histórico de Lviv é patrimônio empresas pela FGV e mestre em turismo mundial da Unesco, e seus cafés e restaupela ECA-USP, é diretor da Atlantic Connection Travel rantes típicos não podem ser ignorados em qualquer visita. O estratégico sul do E X P E D I E N T E país é o centro da indústria bélica e naval. Após a PANGEA – Edição e Comercialização de anexação russa da Crimeia Material Didático LTDA. e a destruição das províncias do Donbass, no leste Redação: Demétrio Magnoli, José Arbex Jr., do país, submetidas aos Nelson Bacic Olic (Cartografia) Jornalista responsável: José Arbex Jr. (MTb 14.779) separatistas apoiados por Revisão: Jaqueline Ogliari forças especiais russas, o sul Pesquisa iconográfica: Thaisi Lima tornou-se foco das preocuProjeto e editoração eletrônica: Wladimir Senise pações do governo central. Circularam rumores de Endereço: Rua General Brasílio Taborda, 218, São Paulo – SP. que Putin teria a intenção CEP 05591-100 Tel/fax: (011) 3726.4069 / 2506.4332 de ocupar militarmente a E-mail: pangea@uol.com.br – www.facebook.com/JornalMundo região, voltando a formar Assinaturas: Por razões técnicas, não oferecemos a Nova Rússia (Novorosassinaturas individuais. Exemplares avulsos podem ser siya), uma antiga região da obtidos no seguinte endereço, em São Paulo: época do Império Russo, • Banca de jornais Paulista 900, à Av. Paulista, 900, São Paulo que constituiria um exten Fone: (011) 3283.0340 – E-mail: bancagazeta@gmail.com so corredor conectando os territórios separatistas www.clubemundo.com.br de Luhansk e Donetsk à Crimeia e, mais além, à Infelizmente não foi possível localizar os autores de região também separatista e todas as imagens utilizadas nesta edição. Teremos prazer em creditar os fotógrafos, pró-russa da Transnístria, já caso se manifestem. no território da Moldávia [veja o mapa].

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O contragolpe do sultão relação com os militares golpistas.

nenhum fiapo de prova, mas serve aos objetivos

muitos deles civis que, bravamente, saíram às

No seu contraErdogan almeja calar todos os críticos, no seu partido, na oposição e na imprensa. A escalada

os golpistas são

golpe,

ruas para confrontar os soldados. Três semanas

leva às últimas consequências o movimento de

depois, bem mais de

repressão fragmentária conduzido pelo governo

Uma década atrás, o Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP), de Erdogan, de raízes islâmicas, contribuiu para a democratização da Turquia. Mais: serviu para desmoralizar a lenda dos neoconservadores segundo a qual o Islã é incompatível com o Estado laico e com a democracia. Hoje, personificando um sultão otomano

golpe militar frustrado de na

Turquia

15

de julho

deixou centenas de mortos,

1 milhão de turcos participaram da manifestação em Istambul “Democracia e mártires”, convocada pelo governo de Recep Erdogan. Abusa-se da palavra “democracia”: Erdogan patrocinou a manifestação para cobrir com um véu ilusório o seu próprio contragolpe autoritário.

Desde 15 de julho a repressão oficial atinge dezenas de milhares de pessoas. São expurgos nas

Forças Armadas

e no funcionalismo público,

processos e prisões contra jornalistas, intelectuais, sindicalistas e oposicionistas em geral.

A

imensa maioria dos perseguidos não tem qualquer

desde os protestos democráticos do verão de 2013,

Praça Taksim. N o fim de agosto , E rdogan declarou não enxergar diferenças entre o Estado Islâmico, os separatistas curdos e os seguidores de Fethullah Gulen, rival político autoexilado nos Estados U nidos que exerce influência no interior do partido governista. Ao colocar um sinal de equivalência entre o “inimigo externo” (os jihadistas), o “inimigo interno” (os separatistas curdos) e um inimigo imaginário (Gulen), o presidente legitima a repressão desenfreada. A acusação de que na

“gulenistas”

não se apoia em

repressivos.

e tentando identificar sua figura com a nação turca,

Erdogan não atinge apenas as liberdades Para além das fronteiras turcas, a escalada repressiva oferece uma “prova” (evidentemente falsa) da tese lendária dos neoconservadores. A Turquia não merece isso. Nem o Islã. públicas no seu país.

Nelson Bacic Olic Da Equipe de Mundo

Mapitoba, a última das frentes pioneiras Brasil: as fronteiras agrícolas

A

história da ocupação e valorização do espaço brasileiro nos últimos cem anos pode ser contada, ao menos parcialmente, pela evolução de suas frentes pioneiras, isto é, dos espaços naturais fracamente ocupados que ganharam dimensão econômica através da prática de atividades agropecuárias. As zonas pioneiras do final do século XIX [veja os números 1, 2, 3 e 4 no mapa] corresponderam à expansão da monocultura cafeeira em áreas de florestas tropicais, compreendendo os estados do Rio de Janeiro e de São Paulo e o sul de Minas Gerais. Tal expansão se deu em virtude da elevação dos preços do café no mercado internacional. Nas frentes precursoras de expansão da primeira metade do século XX, o café e alguns outros produtos foram responsáveis pela ocupação de áreas de florestas tropicais e subtropicais Em algumas áreas dominava o café, consorciado com alimentos básicos [números 6, 7 e 10 do mapa]. Em outras, dominava a policultura de alimentos, desenvolvida em pequenas e médias propriedades [números 5, 8 e 9]. No oeste do Maranhão e extremo-oeste do atual estado do Tocantins, o cultivo do arroz foi o responsável por frentes pioneiras, atividade praticada em pequenas e médias propriedades [número 11]. Em todas elas, após alguns anos, introduziu-se a pecuária e pastagens vieram 

Equador

Manaus 17

Belém 16

23

15 14

19

22

São Luís 11

13

21

12 20

18

Salvador

Cuiabá 9 Brasília 3

7

8

2 4

6

Zonas pioneiras do século XIX

5

10

1

Rio de Janeiro São Paulo

Zonas pioneiras (1a metade do século XX) Zonas agropecuárias (2a metade do século XX)

substituir uma parte dos antigos campos de cultivo. A entrada do gado podia decorrer da queda dos preços do café nos mercados internacionais, da demanda da carne no mercado interno ou do rendimento decrescente das plantações. Até 1950, a expansão das frentes decorreu da colonização espontânea ou foi

SETEMBRO 2016

0

420 km

direcionada por companhias privadas de colonização, sendo mínima a intervenção governamental. Na atualidade, os estados que abrigaram as zonas pioneiras do século XIX, em conjunto com o Rio Grande do Sul e Minas Gerais, são responsáveis por importante parcela da produção agrícola do país. No entanto, restam ainda grandes

extensões de terras rurais improdutivas em meio às áreas economicamente aproveitadas. Diferentemente do que havia ocorrido até então, as frentes pioneiras das últimas décadas do século XX expandiram-se em ��reas de florestas [números 14, 15, 16, 17, 21, 22 e 23], cerrados e campos [números 12, 13, 18, 19 e 20]. Genericamente, os avanços dessas frentes estiveram vinculados ao traçado de novos eixos de circulação, especialmente em direção à Amazônia. Os fluxos populacionais que se dirigiram a essas áreas eram constituídos por deslocamentos espontâneos e por iniciativa de colonização oficial ou privada. O aproveitamento dessas novas áreas ligou-se, principalmente, ao plantio de um só produto (arroz, soja ou trigo), à policultura ou mesmo à pecuária, com plantio de pastagens. As técnicas utilizadas se mostraram muito diversificadas, podendo ser excepcionalmente modernas, como nas áreas de Cerrado, ou muito rudimentares, como em áreas da Amazônia. No final do século XX, uma nova fronteira agrícola foi sendo desbravada em áreas de Cerrado. Sua consolidação verifica-se ao longo dos últimos anos, envolvendo o sul do Maranhão, a parte meridional do Piauí, o leste e o sul de Tocantins e o oeste da Bahia. O Ministério da Agricultura denominou a faixa de Mapitoba (ou Matopiba), expressão que junta as duas primeiras letras do nome de cada um desses quatro estados.

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venezuela

Maduro busca sustentação nas Forças Armadas Newton Carlos Da Equipe de Colaboradores

Militarização do abastecimento de alimentos e produtos essenciais marca um novo passo na configuração do regime cívico-militar na Venezuela chavista

omo se fosse para dizer que não se tornou ditador e nem pretende se tornar, o general Vladimir Padrino López surgiu de modo inesperado na TV estatal da Venezuela procurando desfazer suposições a respeito de suas novas funções. Já ministro da Defesa, também tornou-se chefe de um novo comando nacional com a “grande missão” de administrar o abastecimento “soberano e seguro”. Os portos são ocupados por tropas sob a chefia dele e também a ele ficaram subordinados todos os outros ministros, ministérios e instituições do Estado. Na prática, o general tem mais poderes que o presidente, Nicolás Maduro. Mesmo assim, López reitera a todo momento, inclusive diante de câmeras de TV convocadas às pressas, que a criação de um novo comando, o de suprimento – capaz de escapar de controle –, representa “de fato” uma quartelada. “Não gosto de presenciar intervenção militar em áreas que não são de natureza militar, mas o que acontece é questão de segurança nacional e de defesa da mãe pátria”, justificou-se. Na realidade, trata-se de causa de protestos, mortes, descontrole de fronteiras, sobretudo com a Colômbia, atravessadas por milhares de venezuelanos à cata de alimentos e produtos de higiene cujo suprimento o governo quer sanar à força. A oposição política fala de um grau “improcedente” de militarização, sentença que levou o general López a se colocar diante de câmeras de TV. “Mas se trata de completa militarização do governo”, sentencia Luis Manuel Esculpi, com a experiência de antigo chefe da comissão das Forças Armadas da Assembleia Nacional. O exército, explica Esculpi, tornou-se a única fonte de autoridade do presidente Maduro. O deputado Júlio Borges, da Mesa de Unidade Democrática (MUD), coalizão de grupos de oposição, diz que Maduro entregou as chaves do Palácio Presidencial de Miraflores a um chefe militar incapaz de lidar com a crise econômica, o que significaria “mais corrupção e menos produção”. Desenhou-se, diz ainda Borges, um quadro notável: “Generais do exército, agora a cargo de empresas de importação de alimentos.” Críticos sustentam que “oficiais do exército e seus parceiros chavistas já acumularam, ao longo dos anos,

© Juan Barreto/AFP

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As gôndolas vazias dos supermercados explicitam a crise de um governo que se tornou inviável ganhos especulativos jogando com preços fixos e taxas de câmbio. Outros sugerem que Maduro, de forma deliberada, irá colocando os oficiais militares a par do que “se passa de fato”, talvez com agenda de uma renúncia negociada. Mas, ponderam analistas, a militarização traz um risco óbvio: os quartéis podem se encorpar de apoio popular e, no fim, os militares podem decidir derrubar as portas do palácio. Num grau logo abaixo do general López, outro general, Efraín Velasco, assumiu o comando da Autoridade Nacional dos Portos. Ela terá controle direto dos cinco maiores portos da Venezuela: Maracaibo, Puerto Cabello, Guamache, Cuenta e La Guairá. Também foi assinado decreto que obriga todas as empresas, públicas e privadas, a colocarem seus funcionários à disposição do governo. Serão mandados aos campos com a tarefa de solucionar a crise de abastecimento de alimentos. Trabalho escravo, acusam ONGs.

Resta a Nicarágua Nos seus áureos tempos, a Venezuela de Hugo Chávez formou uma esfera de influência que se estendeu de Cuba e Nicarágua, na América Central, à Bolívia e ao Equador, na região andina da América do Sul. Além disso, os governos do Brasil e da Argentina ofereciam amparo diplomático à “revolução bolivariana”. Hoje, o cenário mudou radicalmente, com a derrota eleitoral do kirchnerismo na Argentina e o impeachment de Dilma Rousseff no Brasil. O que resta de influência chavista, cujo modelo impõe a permanência no poder por meio de alterações constitucionais e sucessivas reeleições presidenciais? Evo Morales, da Bolívia, não obteve, em plebiscito, o direito de candidatar-se mais uma vez. Ainda não se sabe se terminará aceitando o veredito das urnas. Resta, porém, a Nicarágua, onde o presidente Daniel Ortega, oriundo da guerrilha da Frente Sandinista de Libertação Nacional, destrói os últimos vestígios de democracia. A Corte Suprema Eleitoral, submissa a Ortega, invalidou mandatos de 28 parlamentares, todos do Partido Liberal Independente, de oposição. Caiu a única instituição do Estado, a Assembleia Nacional, até agora não submissa a Ortega. Sua esposa, Rosario Murillo, foi designada candidata a vice-presidente para as eleições gerais de novembro. Ortega busca seu terceiro mandato consecutivo. A oposição promete boicotar o pleito, caracterizando-o como uma farsa.

MUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDO

Ao mesmo tempo, Maduro reagiu com gestos de desafio a sentenças de tribunais dos Estados Unidos envolvendo militares venezuelanos. O general Néstor Reverol foi nomeado ministro do Interior um dia depois de indiciado em tribunais americanos sob acusações envolvendo tráfico de drogas. Os processos complicam um pouco mais o cenário de uma “revolução bolivariana” em declínio internacional [veja o boxe]. Reverol foi removido do comando da Guarda Nacional Bolivariana (polícia militar) sem qualquer explicação, embora saudado por Maduro por honestidade e trabalho árduo. Antes, ainda com Hugo Chávez, dirigiu agência antidrogas, subordinada ao Ministério do Interior. Agentes de inteligência americanos estariam catalogando pontos de empurrões de entrada no mercado de drogas situados justamente no Ministério do Interior. Um sócio de Reverol seria o atual adido militar na Alemanha. Ambos são acusados de usar suas posições de poder em favor do narcotráfico. Maduro reagiu com a retórica de sempre, apontando “renovado ataque à Venezuela por parte do império americano”. Saudou Reverol como tendo quebrado recordes nas capturas de traficantes de drogas quando dirigiu a agência encarregada de fazê-las e “por isso querem punilo”. Simultaneamente o jornal colombiano El Tiempo revelou, com base em documentos da DEA (a agência antidrogas dos Estados Unidos), que dois informantes dos americanos foram assassinados depois de presos na Venezuela. O tráfico teria entrado em palácio. Ambos estariam envolvidos em possível processo contra dois sobrinhos da primeira-dama, Cilia Flores. De acordo com documentos citados pelo jornal, os sobrinhos participaram de um possível transporte de 800 quilos de cocaína purificada com o seguinte roteiro: fornecimento pelas Farc (a guerrilha colombiana), escala no Aeroporto de Maiquetía (nos arredores de Caracas), trânsito até o Aerporto Internacional de Honduras, despacho para os Estados Unidos. A operação teria custado US$ 900 mil e não teria sido possível sem cobertura do andar de cima. Os dois supostos informantes assassinados seriam peças fundamentais para o andamento do processo em tribunais americanos. Multiplicam-se os desafios a Maduro. No plano interno, a MUD insiste na realização de um plebiscito revogatório do mandato presidencial, que tem previsão constitucional. No plano regional, Brasil, Argentina e Paraguai articulam-se para isolar a Venezuela [veja a matéria à pág. 5]. Voltando-se para os quartéis, o sucessor de Chávez busca uma sobrevida para um regime que encara o abismo. 2016 SETEMBRO




américa do sul

A agonia do Mercosul Cláudio Camargo Especial para Mundo

Acefalia criada pelo veto para que a Venezuela assuma a Presidência rotativa é indicativo da implosão do bloco fundado em 1991

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© Fac-Símile

levar o Uruguai, não todo o Mercosul, como sócio”. O Mercosul, bloco formado por Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai e Venezuela, vive a mais grave chanceler revelou ainda, segundo El País, que o presidente crise desde sua criação em 1991. Como se não bastasse a do Uruguai, Tabaré Vázquez, ficou incomodado com a incapacidade crônica de seus dois principais integrantes, proposta e “disse na cara dele [Serra] que o Uruguai vai Brasil e Argentina, de superar divergências para definir cumprir com a norma e chamar uma mudança na Presiuma estratégia comercial comum, o Mercosul agora está dência do bloco”. acéfalo. Isso porque Paraguai, Brasil e Argentina não Para tentar romper o impasse, Buenos Aires apresentou aceitam que a Venezuela, mergulhada em um profundo uma proposta, apoiada por Brasília, estabelecendo uma caos econômico, político e social, assuma a Presidência Presidência colegiada do bloco até início de 2017, quando rotativa do bloco, o que deveria ter ocorrido a Argentina assumiria o comando, retomando em julho. então a regra da ordem alfabética. O bloco Os dois blocos econômicos da América Latina A Presidência do Mercosul é semestral e também deve discutir uma proposta conjunta de rotativa, obedecendo à ordem alfabética dos Brasil, Argentina e Paraguai para que a Venezuepaíses-membros. O Uruguai, que presidia la, à beira da ingovernabilidade, seja rebaixada MÉXICO o bloco, defende o direito da Venezuela de à condição de Estado-associado. Problema: os Trópico de Câncer ocupar o cargo e, assim, deixou-o vago. Mas estatutos do Mercosul exigem que toda decisão a oposição de Paraguai, Brasil e Argentina à deve ser tomada por consenso. E o Uruguai já OCEANO posse de Caracas criou um impasse. E a crise anunciou que não aceita a Presidência colegiada ATLÂNTICO se agravou em meados de agosto, quando o nem o rebaixamento do status da Venezuela. VENEZUELA chanceler do Uruguai, Rodolfo Nin Novoa, É verdade que o giro à direita que vem COLÔMBIA acusou o ministro das Relações Exteriores do ocorrendo na maioria dos países da América Equador Brasil, José Serra, de tentar “comprar” o apoio do Sul isolou a Venezuela. Mas o fato é que a do país à posição brasileira, entornando o caldo crise terminal a que o chavismo levou o país PERU da boa relação entre os dois países. tirou todos os eventuais atrativos que a VeOCEANO BRASIL PACÍFICO No final de julho, depois de o Uruguai ter nezuela pudesse ter para o Mercosul. O país deixado a Presidência do Mercosul, a Venezuela tornou-se “o grande elefante na sala”, segundo informou aos demais membros que assumiria a o professor da FGV Oliver Stuenkel [veja a Trópico de Capricórnio PARAGUAI coordenação do bloco porque o cargo lhe cormatéria à pág. 4]. CHILE responderia “de forma automática”, de acordo Para o Brasil, a mudança foi dramática. com o Tratado de Assunção e o Protocolo de Em 2006, quando começaram os preparativos URUGUAI Ouro Preto. Só que Brasil e Paraguai não recopara que a Venezuela ingressasse no Mercosul, ARGENTINA nheceram o mandato de Caracas, alegando que Caracas era o principal comprador na região os estatutos do Mercosul exigem que o rodízio de produtos brasileiros de alto valor agregado. BLOCOS seja definido “por consenso”, como estabelece “Quase a metade da lista de exportações do MERCOSUL o artigo 37 do Protocolo de Ouro Preto. Brasil para a Venezuela é composta de máquinas ALIANÇA DO PACÍFICO Embora critique duramente o autoritarismo e equipamentos de produtos industrializados do regime bolivariano, o Brasil alega que o do segmento alimentício e químico”, pontua motivo de sua oposição à Presidência da VeneOliver Stuenkel. “Desde 2012, contudo, com o zuela é o fato de que o país não cumpriu certas agravamento da crise econômica na Venezuela, exigências do bloco, como a adesão ao acordo tarifário. Era uma senha para enquadrar o país na “cláusula demo- o fluxo de comércio como Brasil caiu mais de 40%, pasJá para o Paraguai, além de razões ideológicas, pesou o crática” do Mercosul, que prevê a suspensão do integrante sando de US$ 6 bilhões para US$ 3,7 bilhões, segundo ressentimento pelo fato de a entrada da Venezuela como que viole a democracia, como aconteceu ao Paraguai em dados de 2015”, escreve o uruguaio El País. membro pleno do Mercosul ter ocorrido à sua revelia. Ca- 2012 depois do afastamento do presidente Lugo. Mas o buraco é mais embaixo. O imbróglio da aceO mal-estar entre Brasília e Montevidéu ocorreu falia do Mercosul expressa a implosão do bloco como racas tornou-se candidata em 2006, mas sua admissão era sempre adiada pela resistência do Parlamento paraguaio. depois que o diário uruguaio El País publicou as notas alternativa regional. Além da incapacidade de definir uma A entrada só ocorreu em 2012 porque Assunção tinha taquigráficas de uma fala do chanceler Rodolfo Nin No- política comercial comum, a expectativa de consolidar o sido suspensa do bloco em razão do afastamento, pelo voa à Comissão de Assuntos Internacionais da Câmara Mercosul e expandi-lo para toda a América do Sul ficou dos Deputados do Uruguai. “Não gostamos muito que o para as calendas gregas, pois Estados-associados como Congresso, do então presidente Fernando Lugo. A Argentina teve uma posição ambígua. Inicialmente, chanceler Serra viesse ao Uruguai para nos dizer que [os Chile, Peru e Colômbia preferiram assinar tratados de a chanceler Susana Malcorra defendeu o “diálogo” como a brasileiros] vinham com a pretensão de que se suspendesse livre-comércio com os Estados Unidos e juntaram-se ao melhor saída para o impasse, sem condenar nem apoiar o a transmissão [da Presidência do Mercosul]. E que, além México na Aliança do Pacífico [veja o mapa]. Os ossos pleito de Nicolás Maduro. Já o presidente Mauricio Macri, disso, se fosse suspensa, nos levariam em suas negociações do barão do Rio Branco, que considerava as Américas um que fora à posse de Pedro Paulo Kuczynski no Peru, deixou comerciais com outros países, como que querendo com- condomínio no qual o Brasil exerceria influência sobre a a diplomacia de lado e disse à imprensa local, com todas as prar o voto do Uruguai”, relatou o chanceler uruguaio. América do Sul, enquanto os Estados Unidos controlariam letras, que a Venezuela viola sistematicamente os direitos Novoa disse aos deputados que o Brasil faria “uma grande a América Central e o Caribe, devem estar revirados. humanos e que o que acontece naquele país é inaceitável. ofensiva comercial na África subsaariana e no Irã e queria Cláudio Camargo é jornalista e sociólogo 

SETEMBRO 2016

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brasil

Crise política assinala o

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Não celebramos, hoje, uma vitória política. Esta solenidade não é a do júbilo de uma facção que tenha submetido a outra, mas festa da conciliação nacional, em torno de um programa político amplo, destinado a abrir novo e fecundo tempo ao nosso

País. [...] Brasileiros, começamos hoje a viver a Nova República. Deixemos para trás tudo o Estou certo de que não nos faltará a benevolência de Deus.

que nos separa e trabalhemos sem descanso para recuperar os anos perdidos na ilusão e no confronto estéril.

[Discurso de posse de Tancredo Neves, lido por José Sarney, em 15 de março de 1985]

medebista de Dilma alçado à Presidência, praticamente repete as palavras antigas, conclamando-nos à “união nacional”. Temer, obviamente, não decretou o fim da “Nova República”, mas todos os sinais sugerem o encerramento de uma era. A Constituição de 1988, marco legal da inauguração da “Nova República”, foi chamada de “Constituição Cidadã” por Ulysses Guimarães, o principal líder da oposição parlamentar à ditadura. O texto constitucional abria caminho para a ampliação dos direitos sociais, definindo uma série de obrigações da União, dos estados e dos municípios nos campos da saúde, da educação, da Previdência e da remuneração do funcionalismo público. A expansão dos gastos públicos tornou-se um elemento central na estabilidade política da “Nova República”. Hoje, essa expansão encontra limites aparentemente insuperáveis, o que alimenta a crise do sistema político. É a terceira vez que, sob formas diferentes, surge a mesma encruzilhada. Durante o governo Sarney (1985-1990), a expansão dos gastos públicos foi financiada pela emissão de dinheiro. A hiperinflação resultante deflagrou uma longa crise, que consumiu o governo Fernando Collor (1990-1992) e só foi resolvida pelo Plano Real, aplicado durante o governo Itamar Franco (1993-1994).

Os movimentos das Diretas Já (1984) e dos caras-pintadas pelo impeachment de Fernando Collor (1992) foram momentos decisivos no processo de formação da Nova República, cujas bases foram lançadas pela Constituição Cidadã (1988)

Sem o recurso à emissão monetária, o governo Fernando Henrique Cardoso (19952002) apelou à elevação de impostos e, na sua segunda metade, brecou a marcha dos gastos públicos, sofrendo vertiginosa queda de popularidade. Beneficiado por uma conjuntura internacional muito favorável, o governo Lula (2003-2010) reativou a máquina das despesas estatais, o que contribuiu para o triunfo eleitoral da sucessora. Contudo, no governo Dilma (20112016), com a reversão do ciclo internacional, os gastos do governo passaram a ser financiados por um déficit público crescente, que explodiu junto com a reeleição, em 2014. Na sua dimensão econômica, a crise atual deriva da impossibilidade de continuar a financiar despesas públicas crescentes sem reacender a fogueira inflacionária ou partir para um aumento brutal da já elevada carga tributária. De fato, descosturou-se o tecido do “contrato social” da “Nova República”. Ao impasse econômico, soma-se um impasse político-institucional. A Operação Lava Jato desvendou teias de corrupção formada por agentes políticos e empresariais. Por meio de sociedades criminosas, máfias políticas e poderosas empreiteiras capturaram estatais como a Petrobras e a Eletrobras, intercambiando propinas por contratos superfaturados.

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A desmoralização atinge o conjunto da elite política. Para além dos escândalos desvendados, espraia-se um fragmentário sistema de corrupção institucional que assegura o financiamento das campanhas políticas. Os rumores que cercam a megadelação da Odebrecht sugerem que naufragarão lideranças destacadas de todos os grandes partidos. O PT não está só no grande colapso do sistema de partidos criado à sombra da “Nova República” [veja a matéria à pág. 7]. Anos atrás, no auge do escândalo do “mensalão”, Joaquim Barbosa emergiu como uma espécie de herói nacional. A figura do juiz do STF, relator do processo contra José Dirceu e companhia, concentrava o desprezo generalizado a uma elite política corrompida. Agora, sob o influxo da Lava Jato, o juiz de primeira instância Sergio Moro ocupa o lugar que foi de Barbosa. A justa aversão aos corruptos ameaça se converter em aversão aos políticos e à política em geral, um veneno perigoso para as instituições de uma democracia. Na Itália, a Operação Mãos Limpas, deflagrada na década de 1990, destruiu a Democracia Cristã e o Partido Socialista. No Brasil, o que sobrará intacto até as eleições gerais de 2018? A “Nova República” está mortalmente ferida, mas, até o momento, nenhum sistema político alternativo surgiu para substituí-la.

2016 SETEMBRO



© Victor Soares/Agência Brasil

© Célio Azevedo/Agência Senado

enato Duque, ex-diretor de Serviços da Petrobras, preso há quase um ano e meio, condenado a mais de 50 anos de reclusão, retomou negociações de delação premiada na qual citará o envolvimento de Lula e Dilma Rousseff no escândalo do “petrolão”. A notícia chegou às manchetes dos jornais na segunda metade de agosto, às vésperas da conclusão do processo de impeachment no Senado. Lula já enfrentava inquéritos sobre os casos do sítio em Atibaia e do triplex no Guarujá. Dilma, por sua vez, era investigada por tentativa de obstrução da justiça, denunciada pelo ex-senador Delcídio do Amaral, que foi líder do governo petista no Congresso. Mesmo antes da aprovação da continuidade do processo de impeachment pela Câmara, em abril, a crise do governo Dilma espraiava-se sob a forma de uma profunda desmoralização política do PT. O partido de Lula perdeu as ruas nas Jornadas de Junho de 2013. Sua imagem sofreu golpes quase letais com a erupção do escândalo na Petrobras e o chamado “estelionato eleitoral” de Dilma, nos dois anos seguintes. Depois de tudo, a ofensiva da Lava Jato contra alguns dos principais dirigentes petistas, inclusive Lula, agravou a situação do PT. De fato, uma nuvem de incerteza paira no futuro do partido que venceu as quatro últimas eleições presidenciais. Contudo, a crise política brasileira não deve ser reduzida à sua dimensão mais óbvia. Há 31 anos, em meio à agonia do presidente Tancredo Neves, eleito indiretamente por um Colégio Eleitoral inventado na ditadura militar, tomava posse seu vice, José Sarney, antigo líder da Arena, o partido de sustentação do regime militar. Naquela estranha transição política, o discurso de posse escrito por Tancredo e lido por Sarney anunciava a aurora de uma era: “Brasileiros, começamos hoje a viver a Nova República.” O Brasil já teve uma República Nova, proclamada por Getulio Vargas em 1930, e uma Republica Velha, nome pouco gentil com o qual os vencedores da Revolução de 1930 batizaram o período republicano inicial, inaugurado em 1889. A expressão “Nova República” não revelava muita criatividade, mas era uma forma de acentuar, no plano da retórica, a cisão política pouco nítida entre a ditadura militar e o regime democrático em construção. Pela voz de Sarney, Tancredo falou em “conciliação nacional” e no encerramento do “confronto estéril”. Hoje, passadas três décadas, Michel Temer, o vice pee-


esgotamento da

“Nova República”

A hora e a vez do “outsider” A

© Célio Azevedo/Agência Senado

crise da “Nova República” manifesta-se, no plano político-partidário, como uma crise dos três principais partidos políticos brasileiros: PT, PSDB e PMDB. Desde o impeachment de Fernando Collor, em 1992, o sistema partidário da “Nova República” organiza-se em torno da polaridade PT-PSDB e da mediação assegurada pela oscilação pendular do PMDB. O PSDB governou entre 1993 e 2002, como sócio do governo transitório de Itamar Franco e depois como eixo do governo Fernando Henrique Cardoso. O PT figurou como núcleo das coalizões governistas entre 2003 e 2016, sob Lula e Dilma Rousseff. O PMDB, que nunca é oposição, participou de todas as coalizões de governo desde a redemocratização. A geometria triangular da política brasileira pode ser descrita em termos ideológicos ou regionais. Numa descrição ideológica simplificada, a rivalidade PT-PSDB expressa o dilema sobre o peso da participação estatal na economia: os tucanos tendem a enfatizar o livre mercado, enquanto os petistas colocam o acento no Estado. As privatizações conduzidas por Fernando Henrique e o lugar destacado das empresas estatais nas formulações econômicas de Lula e Dilma refletem essa divergência de fundo. Já o PMDB, um partido ideologicamente muito mais ambíguo, convive com as duas orientações contraditórias. A descrição regional evidencia um traço curioso do sistema partidário brasileiro. Tanto o PSDB quanto o PT nasceram, essencialmente, em São Paulo. Os tucanos surgiram de uma cisão com o PMDB comandada principalmente por lideranças paulistas, como Mário Covas e Fernando Henrique. O petismo emanou do movimento sindical do ABC paulista, liderado por Lula. Desse ponto de vista, pode-se dizer que a rivalidade central da política brasileira reflete o peso de São Paulo na economia nacional. Do ponto de vista regional, o PMDB forma um contraponto aos dois partidos rivais. Oriundo do antigo MDB, o partido oficial de oposição na ditadura militar, o PMDB herdou uma máquina política nacional, implantada em todos os estados e quase todos os municípios. Desde a ascensão do PT e do PSDB, o PMDB perdeu espaço no eleitorado paulista. Certa vez, com algum exagero, mas indicando uma característica relevante da política nacional, um analista definiu o PMDB como “o Brasil unido contra São Paulo”. O ciclo tucano de poder encerrou-se com a derrota de José Serra, o candidato de Fernando Henrique, nas eleições de 2002, vencidas por Lula. Nas três derrotas em eleições presidenciais seguintes, o PSDB foi representado pelos paulistas Geraldo Alckmin e Serra e pelo mineiro Aécio Neves. As recorrentes disputas entre os três líderes pelo posto de candidato presidencial do partido erodiram internamente o PSDB. O partido tornou-se uma arena de combates personalistas, sofrendo sucessivos desgastes. Durante o processo de impeachment de Dilma, Aécio e Serra surgiram como alvos de denúncias de corrupção. A delação que a Odebrecht negocia com o

Ministério Público possivelmente atingirá os dois líderes – e poderá fulminar suas chances nas eleições de 2018. Ao mesmo tempo, a popularidade decrescente de Alckmin na sua base eleitoral, que é São Paulo, conspira contra a viabilidade de uma nova candidatura presidencial do governador. O ciclo de poder petista encerrou-se com o impeachment de Dilma, uma derrota histórica do partido. A desmoralização do PT diante do eleitorado, iniciada com o “mensalão” e aprofundada com o “petrolão”, tem duas dimensões. De um lado, liga-se às condenações por corrupção de importantes dirigentes partidários, que cumprem penas de prisão. De outro, liga-se à profunda recessão econômica que marcou o segundo mandato de Dilma. As denúncias de corrupção, investigações policiais e processos judiciais contra Lula, potencial candidato presidencial em 2018, completam o quadro desastroso. Mais ainda que o PSDB, o PT vive hoje sob a espada ameaçadora da delação da Odebrecht. Em tese, o PMDB seria o beneficiário da queda abrupta de popularidades dos principais líderes tucanos e petistas. Contudo, em função do papel pendular que exerceu desde o fim do governo Sarney, em 1990, o partido praticamente não tem lideranças nacionais com densidade eleitoral. Michel Termer, o vice peemedebista de Dilma alçado à Presidência, nunca foi uma liderança popular. Ao assumir a cadeira da presidente afastada, para alinhavar uma coalizão majoritária no Congresso, Temer prometeu não se candidatar em 2018. Além disso, as investigações da Operação Lava Jato também não poupam o partido. O sistema tríplice PT-PSDB-PMDB declina há anos, sob o impacto da multiplicação de partidos políticos. Na atual composição da Câmara, a maior bancada é um bloco formado por partidos médios. A bancada do PMDB, maior partido, junto com um pequeno aliado, representa apenas 13,5% do total, enquanto o PT tem 11% e o PSDB, 10%. Em conjunto, os três principais partidos perfazem cerca de 35% da Câmara. De fato, a maior “bancada” é a soma (politicamente impossível) de 15 pequenos partidos que, em conjunto, teriam 104 deputados, mais que o dobro da bancada tucana [veja o gráfico]. A multiplicação de partidos deriva das regras partidárias e eleitorais, que favorecem a criação de “legendas de aluguel”. A fragmentação política resultante praticamente obriga o Executivo a intercambiar favores suspeitos com os partidos, entregando-lhes o comando de empresas estatais, ministérios e órgãos federais, a fim de formar maiorias parlamentares. Do sistema em vigor, cinicamente batizado como “presidencialismo de coalizão”, emana a corrupção sistêmica. Sob desmoralização crescente, a elite política ensaia discursos sobre uma reforma política e eleitoral, mas os projetos não avançam, pois ameaçam os privilégios existentes. Uma ruptura se aproxima. O esfacelamento dos mecanismos de equilíbrio político da “Nova República” abre espaço para o surgimento de um “outsider” – ou seja, um candidato presidencial que pareça não pertencer à elite política estabelecida. Marina Silva, com a sua Rede, almeja desempenhar esse papel – e tem, a seu favor, a herança de duas campanhas presidenciais relativamente bem-sucedidas. Nessa moldura emergem propostas de substituição do presidencialismo pelo parlamentarismo. É um sintoma de que a elite política percebe o anoitecer de uma era.

A eleição do retirante nordestino Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência, em 2003, marcou uma ruptura com um passado histórico que reservava apenas aos egressos das elites a possibilidade de ocupar o mais importante cargo executivo nacional

Composição partidária da Câmara dos Deputados Bloco PP-PTB-PSC

73

Bloco PMDB-PEN

104

PT 69

22

PSDB PR PSD

27

PSB 33

58

DEM PRB

33 42

51

Outros

Fonte: Câmara dos Deputados



SETEMBRO 2016

MUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDO


Brasil

Desindustrialização acirra polêmica sobre rumos da economia Duas correntes de economistas divergem sobre os significados da redução da participação da indústria no PIB e sobre as estratégias de desenvolvimento do país

O

Brasil passa por um processo de crescente e acelerada queda da participação da indústria em sua economia. O nome disso é desindustrialização. No ano 2000, a indústria (aí incluídas, além da indústria de transformação, a agroindústria, a mineração e a construção civil) representava 26,5% do Produto Interno Bruto (PIB). Quinze anos depois, caiu para algo em torno de 22%, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) [veja o gráfico 1]. Quando se considera apenas o setor da indústria de transformação, a queda é mais dramática: oscilava em torno de 33%, nos anos 1980, para menos de 11%, em 2014. Nos últimos dois anos, esse processo se combina com uma acentuada queda no PIB, revelando um quadro grave de retrocesso da atividade econômica no país [veja o gráfico 2]. Qual o significado prático da desindustrialização? As implicações são muitas e variam bastante, dependendo das causas. Nos países que atingiram o auge de sua industrialização no século passado, como Estados Unidos, Grã-Bretanha, França e Alemanha, houve um processo “natural” de encolhimento da participação da indústria na economia, como resultado do crescimento relativo do setor de serviços (também qualificado como terciário). Nesses países, o setor de serviços representa até 70% do PIB. Entretanto, o cenário é diferente nos países onde ocorre a “desindustrialização precoce” – isto é, onde a atividade industrial começa a diminuir antes de ter atingido sua maturidade plena. As consequências da “desindustrialização precoce” são dramáticas, com redução do valor médio real dos salários, aumento do desemprego estrutural e precariedade generalizada dos serviços públicos. Nos termos estatísticos adotados por organismos internacionais de estudos econômicos, considera-se que a desindustrialização de um país é “precoce” quando ocorre num cenário em que que o valor do PIB per capita é inferior a US$ 14 mil (algo em torno de R$ 45 mil) ao ano. No caso brasileiro, o PIB per capita é da ordem de US$ 11 mil (R$ 35 mil). Desse ponto de vista, o Brasil estaria passando por um processo de desindustrialização precoce. Mas as coisas não são tão simples assim. Há um grande debate, entre economistas de várias tendências teóricas, sobre o que está acontecendo no país. Os analistas mais identificados com o processo de globalização da economia tendem a afirmar que o Brasil apenas sofre os reflexos de um processo normal de adaptação de sua economia aos fluxos mundiais de capital, que estimulam o crescimento do setor de serviços. Desse ponto de vista, a desindustrialização, em si mesma, não é um problema. O dilema verdadeiro estaria nas formas de inserção do país na economia mundial. Essa corrente admite que a desindustrialização vem ocorrendo no país desde os anos 1980, mas responsabiliza, em particular, os governos Lula (2003-2011) e Dilma Rousseff (2011-2016) pela crise atual. Nesses três mandatos e meio, o governo teria falhado em abrir a economia do país aos fluxos de comércio e investimentos globais. Como consequência, não teria preparado o país para a própria desindustrialização.

No lado oposto da polêmica estão economistas como Luiz Carlos BresserBrasil: participação da indústria no PIB (%) Pereira, Guido Mantega, Paulo No35 gueira Batista e Luiz Gonzaga Belluzzo. Segundo eles, a “desindustrialização 30 28,6 precoce” é uma realidade dramática 27,2 27,1 25 27 26,3 25,7 porque a indústria brasileira ainda está 24,4 22 20 muito longe de ter atingido o seu ponto 15 de maturidade. Isto é, haveria ainda muito espaço para maior participação 10 da indústria no PIB. Para promover 5 o seu crescimento, o governo teria de 0 intervir mais, não menos, na economia. 2001 2003 2005 2007 2009 2011 2013 2015 Fonte: IBGE Teria de apostar em grandes obras de infraestrutura, orientar investimentos Os índices de industrialização adotados se referem ao conjunto para setores considerados prioritários e das atividades industriais, incluindo mineração, agroindústria e estratégicos, com a participação orgaconstrução civil. Considerando-se apenas a participação da indústria nizada e pactuada de empresários, trade transformação (que emprega tecnologia de ponta, com maior balhadores e governo, mais ou menos valor agregado), a relação cai drasticamente, para algo em torno como fez o Japão no pós-guerra. de 11% do PIB, em 2014 Nessa perspectiva, o erro fatal dos governos Lula e Dilma teria sido a Gráfico 2 aposta no consumo, com o endiviBrasil: crescimento real do PIB e do PIB per capita damento das famílias, como forma (anos selecionados) de ativar a economia. Em vez disso, PIB per capita (%) Crescimento real do PIB (%) os governos petistas deveriam ter jo8 gado todos os esforços na construção 6,1 6 da infraestrutura e na formulação 4,9 de políticas destinadas a tornar mais 3,9 4 3,2 3,0 competitiva a indústria nacional (com 2,9 2,1 2,0 a baixa da taxa de juros, subsídio a 2 1,4 1,1 pesquisas tecnológicas para aumentar 0,0 0 a produtividade e políticas de incentivo -0,1 -0.2 -1,2 à exportação, entre outras medidas). -2 Lula e Dilma erraram, em síntese, por -4 -3,8 não terem formulado um plano de -4,6 desenvolvimento nacional. -6 2001 2003 2005 2007 2009 2011 2013 2015 O debate não é ocioso. Ao conFonte: IBGE trário, é fundamental para apontar a saída de uma crise que produz desemprego em massa, agravado por Ao contrário: a excessiva intervenção do Estado na economia, com a preservação de leis trabalhistas obsoletas, uma lógica perversa: a estagnação da indústria nacional a manutenção de impostos abusivos destinados a sustentar incentiva o aumento da importação de produtos inuma máquina burocrática inchada e ineficaz, a resistência dustrializados, o que prejudica ainda mais a indústria ao processo de privatização das estatais, a incapacidade e agrava a desocupação. Atualmente, mais de 40% da de oferecer uma infraestrutura adequada ao comércio demanda de consumo é atendida por produtos importamundial – tudo teria contribuído para frear o crescimento dos. Segundo um estudo da Federação das Indústrias de econômico, ainda mais em um contexto internacional São Paulo (Fiesp), um produto fabricado no país é 34% de crise. O problema não estaria, portanto, na suposta mais caro do que um similar importado, dado o “custo “desindustrialização precoce”, mas sim na estratégica eco- Brasil”: defasagem tecnológica, baixa qualificação da mão nômica equivocada, que deve ser corrigida, basicamente, de obra, infraestrutura precária, ineficiência do sistema com a contenção dos gastos públicos e o estímulo aos tributário. Para se ter uma ideia, as empresas brasileiras investimentos privados. Armínio Fraga, Gustavo Franco, gastam cerca de 2.600 horas por ano para calcular os Alexandre Schwartsman e Antônio Delfim Netto estão tributos que devem pagar, o maior índice do mundo, o entre alguns dos mais conhecidos porta-vozes dessa linha dobro da Bolívia, segundo colocado. de argumentação. Gráfico 1

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2016 SETEMBRO




brasil

País retrocede no ranking do comércio internacional A recessão interna reduz as importações, enquanto o desaquecimento da economia chinesa sabota as exportações de produtos básicos e a crise argentina reduz as vendas de manufaturados

A

dinâmica do comércio exterior brasileiro nos últimos 16 anos apresentou importantes mudanças, com grande impacto sobre o volume e valores das importações e exportações, superávits e déficits da balança comercial, diversificação das parceiras comerciais e, finalmente, sobre a intensidade tecnológica dos produtos constantes do “cardápio” dos intercâmbios externos. Ao longo da primeira década do século XXI, o país consolidou-se como um dos principais atores nas exportações de diversos segmentos (soja, minério de ferro, açúcar, café e carnes), ampliou o leque de produtos exportados e diversificou seus parceiros comerciais. Os valores das exportações mais que triplicaram. O Brasil também se tornou um ator importante nas negociações realizadas no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC). Tais resultados foram consequência de uma combinação de fatores, com destaque para o crescimento extraordinário do consumo mundial, puxado pelos países emergentes, especialmente a China, que ampliou a participação das matérias-primas agrícolas e minerais (commodities) na pauta global de exportações. Como decorrência, o comércio exterior ganhou maior importância na economia brasileira, passando a ser uma importante fonte de divisas para o país. Se, na década de 1990, a participação das exportações no conjunto do PIB variava entre 6% e 9%, na primeira década do novo século essa participação ficou entre 10% e 15%. Mesmo assim, o comércio mundial cresceu em ritmo igual ou maior que os intercâmbios brasileiros. Por isso, a participação do Brasil no total do comércio mundial continuou pequena, nunca ultrapassando o patamar de 1,5%. A balança comercial reflete uma mudança significativa. Depois de passar praticamente toda a década de 1990 experimentando saldos comerciais negativos, a partir de 2001 o Brasil passou a realizar sucessivos superávits. De 2001 a 2006, o crescimento dos superávits foi constante. Todavia, o ritmo começou a arrefecer a partir de 2007, recuperando-se um pouco em 2009 e voltando a cair em 2010. Neste último ano, o saldo da balança comercial foi o menor desde 2003 – e menos da metade do registrado em 2006. Em 2010, o valor absoluto das importações foi um dos mais elevados da história, mas o mesmo ocorreu com as exportações, cifra que superou o recorde obtido em 2008 [veja o gráfico 1]. Nesse período, o Brasil também diversificou seus parceiros comerciais, principalmente junto ao mundo em desenvolvimento, com destaque para Ásia e Oriente Médio, e reduziu sua dependência dos parceiros tradicionais (Estados Unidos e União Europeia). No início da década, os Estados Unidos eram os maiores compradores dos produtos brasileiros (22% do total) e também nossos maiores fornecedores (24%). Com o tempo, essa participação foi diminuindo e, em 2009, pela primeira vez, os Estados Unidos foram desbancados pela China. Em 2010, as exportações brasileiras para a China foram bem maiores que as exportações para os Estados Unidos. Em termos das importações, ocorreu praticamente um “empate técnico” entre esses dois parceiros. Todavia, há uma diferença importante: enquanto obtinha superávits 

SETEMBRO 2016

Gráfico 1 Brasil: balança comercial – 2001/2010 (bilhões US$) 50

44,9

45

46,4 40,0

40 33,6

35 30

24,9

25

24,9

25,3 20,3

20 13,2

15 10 5 0

2,7 2001

2002

2003

2004

2005

2006

2007

2008

2009

2010

Fonte: MDIC

Gráfico 2 Brasil: balança comercial – 2011/2016 (bilhões US$) 35 30

30,0*

29,8

25 19,7

19,4

20 15 10 5

2,6

0 -5 -10

-4,1 2011

Fonte: MDIC *previsão

2012

2013

2014

2015

2016

Gráfico 3 Principais destinos das exportações em 2015 (%) China EUA

18,6%

Argentina Holanda 12,7%

55,0%

Alemanha Outros

6,7% 4,3% 2,7% Fonte: MDIC

Gráfico 4 Principais origens das importações em 2015 (%) China EUA 17,9%

Argentina Coreia do Sul Alemanha

51,2%

15,6%

Outros

6,1% 6,0% 3,2% Fonte: MDIC

– que começaram a se mostrar cada vez menores – com a China, o Brasil registrava saldos negativos constantes no comércio bilateral com os Estados Unidos. A Argentina, nosso principal sócio no âmbito do Mercosul, foi o terceiro maior parceiro comercial do Brasil. Em termos de blocos econômicos a União Europeia continua sendo um importante parceiro (com destaque para Holanda e Alemanha), responsável ao longo de toda a década por aproximadamente 22% de nossa corrente de comércio (exportações e importações somadas). A Ásia aumentou

sua participação e representou quase 30% da corrente comercial do Brasil. Os Estados Unidos diminuíram sua participação, representando algo em torno de 13%, e o Mercosul (fundamentalmente a Argentina) respondeu por pouco mais de 10% de nosso comércio exterior. O declínio da importância do Mercosul refletiu tanto as mudanças no panorama do comércio mundial quanto as dificuldades estruturais enfrentadas pelo bloco. Quanto à pauta de produtos do comércio exterior, registrou-se grande diversificação. Apesar de exportar produtos de tecnologia avançada, como aeronaves, automóveis e veículos de carga, o Brasil sofreu o que analistas denominam de “primarização” das exportações, com participação crescente das matérias-primas minerais e agrícolas, em detrimento dos manufaturados [veja a matéria à pág. 8]. Em 2010, as commodities representavam cerca de dois terços do total de nossas exportações, reforçando a importância do “efeito China” em nosso comércio exterior. A crise econômica global que eclodiu em 2008 manifestou-se com toda força sobre o comércio exterior brasileiro apenas a partir de 2012. Em 2013, o saldo da balança comercial reduziu-se dramaticamente, chegando a ser quase oito vezes menor do que o ano anterior. Pior: em 2014, pela primeira vez no século XXI, o Brasil registrou déficit em seu comércio externo. Em 2015, a balança comercial voltou a ter superávit, mas isso não ocorreu por conta do aumento das exportações (elas foram 14% menores que em 2014), e sim por uma queda dramática (24%) das importações [veja o gráfico 2]. Atrás do fenômeno encontra-se, principalmente, a profunda recessão que atinge a economia brasileira. Segundo previsões da OMC, o crescimento de 2% do comércio mundial em 2016 e a queda nas exportações brasileiras reduzirá para cerca de 1% a participação do Brasil nas exportações mundiais, fazendo com que o país perca a 25ª posição no ranking dos países exportadores. Tais projeções poderão se alterar em função de mudanças no cenário político-econômico interno (com reflexos nas importações), no nível de crescimento da China (impactando as exportações de commodities) e na crise econômica argentina, que tem impacto sobre as exportações de manufaturados [veja os gráficos 3 e 4]. Para melhorar seu desempenho internacional, o Brasil precisa superar enormes desafios, especialmente no que tange aos investimentos na infraestrutura viária e energética, além de modificar seu arcaico sistema tributário. No âmbito externo, além das recentes opções erráticas da política externa e do “engessamento” vivido pelo Mercosul, não se deve esquecer de que persistem as barreiras comerciais e os subsídios domésticos, especialmente nos mercados desenvolvidos, que continuam criando obstáculos à expansão das vendas e conquista de novos mercados. O Brasil não tem todo o tempo do mundo para solucionar seus “gargalos” internos. A primeira década do século XXI foi um período de ouro do comércio exterior, mas mostrou que as oportunidades excepcionais não perduram indefinidamente.

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terrorismo

A hora e a vez do “lobo solitário” ejamos dois episódios sanguinários e de ampla repercussão mundial. Em 12 de junho, em Orlando, Flórida, Omar Mateen, americano filho de afegãos, descarrega armas de fogo num clube noturno frequentado pela comunidade gay. Foram 49 mortos. Na noite de 14 de julho, em Nice, na França, Mohamed Lahouaiej-Bouhlel, imigrante tunisiano, atropela e mata 86 pessoas que acabavam de assistir, na beira do mar, à queima de fogos que comemorava a queda da Bastilha, em 1789, início da Revolução Francesa. Os autores dos dois atentados atuaram em nome do Estado Islâmico, organização militar e terrorista que surgiu, em seu atual formato, em 2014. Mas em Orlando e em Nice os terroristas se distinguiam dos autores dos atentados de Paris, em 13 de novembro de 2015, com 137 mortos, e de Bruxelas, em 22 de março último, com 35 mortos e 300 feridos. Na Flórida e no sul da França, eram “lobos solitários”, contrastando com as células clandestinas de Paris e Bruxelas, resultado de uma complexa logística de organização e planejamento. Os grupos precisavam de transporte, apartamentos que os alojassem, armas e explosivos.  Os serviços de segurança estão diante de um imenso problema. Não bastava mais monitorar suspeitos com passagem pela Síria ou frequentadores de mesquitas com alguma forma de pregação radical. Os “lobos solitários” são praticamente invisíveis aos radares dos serviços de inteligência. Podem estar em qualquer lugar e atuar a qualquer momento.  Dois outros atentados em julho, ambos na Alemanha, reforçam a ideia de recrudescência dessa forma de atuação. Um afegão agrediu passageiros de um trem na região da Baviera, aos gritos de Allahu Akbar (“Alá é grande”). Numa outra cidade da mesma região, Ansbach, um sírio feriu ao menos 12 pessoas ao se explodir com uma bomba. Tais eventos procuram semear o pânico e a insegurança, produzindo a sensação de que ninguém está a salvo e que os governos, mesmo se competentes no combate ao terrorismo, foram reduzidos ao protagonismo passivo. Não conseguem prever antecipadamente os planos dos extremistas, limitando-se a constatar os estragos. É justamente o que busca o Estado Islâmico, mas com uma ressalva. Não se trata, no histórico desse grupo altamente minoritário entre os muçulmanos sunitas, de uma prova de força. É, pelo contrário, algo que procura compensar um momento de fraqueza. O Estado Islâmico se propunha, como prioridade, conquistar militarmente territórios no Iraque e na Síria para a constituição de um califado, cujo primeiro califa (chefe religioso e militar) seria Abu Bakr al-Baghdadi, iraquiano de 46 anos, possivelmente ainda vivo, sobre quem os Estados Unidos oferecem uma recompensa de US$ 10 milhões por informações que levem à sua captura.  Por meio de ofensivas militares de uma imensa coalizão informal de atores – russos e contingentes sírios leais à ditadura Assad, curdos, xiitas do Hezbollah libanês,

aviação americana – o Estado Islâmico está perdendo terreno. Teria hoje 40% a menos dos territórios que já controlou no Iraque e 20% a menos do que já teve na Síria. Perdeu cidades estratégicas na Síria e no Iraque. Não teria mais os 31 mil combatentes que a CIA, a agência de inteligência dos Estados Unidos, atribuía ao grupo em 2014. E o grupo estaria com menos recursos para manter os campos de treinamento de voluntários estrangeiros em território sírio. 

© Polícia Francesa

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A multiplicação de atentados cometidos por fanáticos isolados não reflete um aumento da força do Estado Islâmico, mas o recuo da organização jihadista nos campos de batalha do Iraque e da Síria

Os atentados praticados pelo imigrante tunisiano Mohamed Lahouaiej-Bouhlel, em Nice (França), e pelo americano filho de afegãos Omar Mateen, na Flórida (Estados Unidos), têm em comum o fato de serem fruto da ação de indivíduos isolados e destituídos de perspectivas

© Shayne Watson/Flickr/Creative Commons

João Batista Natali Especial para Mundo

A relação que existe entre esse refluxo e os chamados “lobos solitários” foi indiretamente fornecida, em maio, em vídeo de 31 minutos, por Abu Mohammed al-Adnani, porta-voz da organização. Ele exortou os seguidores a não mais se deslocarem até suas bases territoriais e a praticarem atentados isolados contra os “cruzados”, eufemismo impreciso que designa qualquer país predominantemente cristão. Foi, de certo modo, o sinal verde para os “lobos solitários” ou grupos extremistas sem vínculo direto com o núcleo militar da organização. E foi também aquilo que o especialista francês Mathieu Guidère chamou de “uberização”, em analogia ao sistema de transporte, o Uber, menos exigente e mais informal que os taxistas tradicionais.  Segundo Guidère, num primeiro momento, e pela internet, o interessado entra em contato com a organização, que autoriza qualquer ação violenta, sem pedir maiores detalhes. Num segundo momento, o mesmo interessado envia uma prova (fotografia, vídeo) de que o atentado foi cometido, levando o Estado Islâmico a reivindicá-lo. Simples assim. Nesse sistema mais simples que uma franquia comercial, o franqueador não tem nenhum controle sobre o currículo pessoal do franqueado. Compreensível, então, que os terroristas de Orlando e de Nice tenham hábitos estanhos à ortodoxia muçulmana, com experiências homossexuais e alcoolismo.  Mas a forma de atuação do “lobo solitário” é mais antiga, historicamente, e não se limita ao terrorismo jihadista. A própria expressão “lobo solitário” apareceu, pela primeira vez, nos anos 1990, vinda de um hediondo grupo americano, liderado por Alex Curtis e Tom Metzger, que pregava a violência para manter a supremacia racial branca.  Um organismo baseado em Londres, o Royal United Services Institute, publicou relatório segundo o qual, entre 2000 e 2014, os “lobos solitários” da extrema-direita laica mataram e feriram mais que os jihadistas. Foram 94 mortos e 360 feridos, contra 16 mortos e 65 feridos – isso, claro, antes de o Estado Islâmico entrar em cena. Tecnicamente, podem ser considerados “lobos solitários” tanto o racista sul-africano Barend Strydom, que em 1988 matou a tiros sete pessoas em Pretória, quanto o egípcio Omar Abdullah Ali, que matou um diretor teatral em Doha e feriu 12 com um carro-bomba.  O resumo da história foi dado no início de agosto pelo presidente americano Barack Obama. Ele disse que o Estado Islâmico continuaria a ser uma ameaça, mesmo depois de desalojado de suas bases na Síria e no Iraque, porque continuaria a inspirar “lobos solitários” em ações mais difíceis de serem prevenidas.

Entre os anos 2000 e 2014, os “lobos solitários” da extrema-direita laica mataram pelo menos 94 e feriram 360 em atentados praticados em vários países

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João Batista Natali é jornalista 2016 SETEMBRO

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turquia

Erdogan promove um jogo perigoso ada é exatamente o que parece ser, no mundo das relações internacionais e da diplomacia. Com frequência, os discursos, as promessas, as ameaças e as propostas feitas por chefes de Estado, embaixadores, diplomatas e seus representantes formam um enredo “para inglês ver”, enquanto os reais compromissos e alianças são selados nos bastidores, em negociações secretas e reuniões discretas. Se isso é uma verdade geral, é mais ainda no caso da Turquia, cuja política internacional reflete o emaranhado e complexo jogo de forças políticas que disputam o poder no interior do Estado turco. A tentativa frustrada de golpe contra o presidente Recep Erdogan, desferida em 15 de julho, foi um dos resultados desse jogo de poder e, por isso mesmo, revela as linhas de tensão que percorrem o atual governo. Oficialmente, a Turquia é um país-membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), ocupando uma posição importante até pela localização estratégica de seu território, situado no coração da Eurásia. Na prática, a Turquia de Erdogan está cada vez mais próxima da Rússia de Vladimir Putin, que mantém relações extremamente tensas com a Otan. Devido à anexação russa da Crimeia, na Ucrânia, desenrola-se uma confrontação entre a organização e a Rússia. Os dois lados mantêm suas tropas em estado de alerta, deixando o mundo com os cabelos em pé, diante da possibilidade de um conflito militar. Mas a Turquia... Oficialmente, a Turquia apoia o esforço militar coordenado pelos Estados Unidos com o objetivo de destruir o grupo Estado Islâmico, que ocupa áreas do Iraque e da Síria, além de promover atentados terroristas mundo afora. Na prática, o Estado turco é conivente com operações de compra ilegal de petróleo a preço barato exportado pelo Estado Islâmico, que controla reservas iraquianas. Essas operações são organizadas por empresários turcos, com a participação de oficiais militares – e alguns indícios sugerem até mesmo o envolvimento de um filho de Erdogan. Oficialmente, a Turquia mantém uma relação de colaboração diplomática e geopolítica com Israel, considerado um aliado pela Otan na luta contra o terrorismo jihadista. Na prática, o Estado turco desafiou o bloqueio que Israel promove à Faixa de Gaza, território controlado pelo grupo Hamas, classificado como terrorista pelos Estados Unidos e seus aliados, ao autorizar, em 2010, a saída da Turquia de uma flotilha com o objetivo de furar o cerco militar israelense e levar ajuda humanitária aos palestinos. Israel atacou a flotilha. Como resultado, foram mortos dez de seus voluntários. As ambivalências dos sinais emitidos pela Turquia são uma consequência da própria história recente do país e marcam a vertiginosa carreira política de Erdogan. Em três eleições realizadas nos últimos 14 anos, o seu Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP) obteve um acúmulo impressionante de vitórias eleitorais: 34% dos votos em 2002 (quando Erdogan foi conduzido ao cargo de primeiro-ministro), 47% em 2007 e 50% em 2011. Em 2014, Erdogan disputou as primeiras eleições presidenciais por 11

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voto direto, obtendo a preferência de 51% dos eleitores. Há várias interpretações para explicar tal crescimento. A mais comumente aceita é a de que Erdogan realizou importantes concessões para a maioria muçulmana do país (com a adoção de medidas como a proibição da venda de bebidas alcoólicas e do beijo em público) e, ao mesmo tempo, ampliou os espaços de autonomia das minorias étnicas (em especial, a curda, que agrega cerca de 20% da população e obteve, pela primeira vez, o direito de transmitir programas de TV e abrir escolas em seu próprio idioma). A crescente “islamização” da Turquia foi, em grande parte, uma reação à política da União Europeia de recusar o ingresso do país na aliança, graças a uma orientação adotada pela Igreja Católica (e transmitida aos líderes europeus, em particular ao Partido Democrata Cristão da alemã Angela Merkel), para quem Europa é sinônimo de

© Presidência da República da Turquia/Fotos Públicas

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© David Benbennick/acervo do artista

Para ampliar seu poder, presidente turco aprofunda a repressão interna e usa como trunfo a posição única de seu país como membro da Otan

Fortalecido pela vitória sobre os golpistas de 15 de julho, Recep Erdogan acentua as características autoritárias de seu governo MAR NEGRO

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cristandade. Desse ponto de vista, a antiga sede do Império Otomano não teria lugar no bloco europeu, embora o país tenha sido “ocidentalizado”, a partir dos anos 1920, por Kemal Ataturk, e foi um dos primeiros a ingressar na Otan. A atual “crise dos refugiados” aumenta ainda mais a distância entre Ancara e Bruxelas: os turcos são bons o suficiente para construir uma “barreira” contra a “invasão bárbara” (em troca de módicos 6 bilhões de euros), mas não para ingressarem como cidadãos plenos no espaço europeu. O ressentimento provocado pela rejeição europeia, associado ao crescimento do fundamentalismo muçulmano no Oriente Médio, acabou levando Erdogan a uma linha de relativo distanciamento em relação à Otan e ao antigo aliado israelense e de busca de alianças com grupos islâmicos. É apenas lógico que essa política tenha provocado descontentamento de todos os lados, incluindo os setores militares turcos nacionalistas mais “europeus”, que passaram a manifestar crescente resistência a Erdogan. Esses setores formariam a base do golpe fracassado de julho passado, junto com uma parte do PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão), grupo que luta pela independência dos curdos, considerado terrorista pelo governo. Sentindo-se legitimado por sucessivas vitórias eleitorais, Erdogan passou a “endurecer” a repressão aos opositores domésticos e a jornalistas, a partir de 2010, e reprimiu com grande violência manifestações democráticas da juventude. Um momento importante desse processo foi a repressão ao movimento em defesa da Praça Taksim, em 2013, ameaçada pela especulação financeira que ameaçava desfigurar o centro histórico de Istambul, capital cultural e coração histórico da Turquia. Contudo, as ambições políticas de Erdogan foram “esfriadas” pelas eleições parlamentares de junho de 2015, quando o AKP obteve apenas 40% dos votos, perdendo a maioria dos 550 assentos. Os resultados frustraram os planos de Erdogan de aprovar uma reforma constitucional que faria com que a Turquia passasse do atual sistema parlamentarista para o presidencialismo, o que lhe daria poderes praticamente ilimitados. Os setores oposicionistas mais ativos, especialmente entre os militares (que, na Turquia, são marcados por uma tradição histórica de organizar golpes de Estado), sentiram-se com força para desferir o golpe de julho com o objetivo de depor Erdogan. Erraram nos cálculos – e abriram caminho para a intensificação da repressão interna [veja o Editorial, à pág. 3]. Hoje, para ampliar seu poder, Erdogan promove uma linha política tensa de negociações permanentes entre representantes de interesses opostos (Otan e Rússia, Israel e Hamas, União Europeia e Islã). É um jogo perigoso, mas que reflete o próprio lugar que a Turquia ocupa hoje no mundo.

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brasil

Contestado, a maior guerra camponesa da América do Sul O conflito sangrento nos estados de Santa Catarina e Paraná não foi uma revolta de fanáticos, mas um combate desesperado de posseiros expulsos de suas terras

Serge Goulart Especial para Mundo

Em março de 1915, o governo enviou cinco aviões. Três deles foram destruídos no transporte pelas fagulhas da locomotiva a vapor. Os outros entraram em ação, mas um dos pilotos bateu num pinheiro e morreu. O último ficou sem combustível e teve que pousar. Acabou aí, melancolicamente, a primeira utilização de aviões em guerra na América Latina.

A Guerra do Contestado (1912-1916) Rio Parana

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Marcelino Ramos Passo Fundo

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m agosto de 1916, entre massacres, epidemias, debandada generalizada e acordos não escritos, terminava a Guerra do Contestado, a rebelião camponesa na região das terras disputadas pelos estados de Santa Catarina e Paraná. A revolta camponesa e a guerra por terra foram muitas vezes apresentadas como resultado da loucura messiânica e monarquista de um curandeiro, o monge José Maria. Mas não foi um pregador fanático que provocou uma guerra em que morreram cerca de 10 mil camponeses, cerca de 2 mil soldados e 1,5 mil “vaqueanos” (milícias armadas privadas). Essa guerra sangrenta foi provocada por um grupo empresarial americano e pelo governo brasileiro. O governo brasileiro concedeu o direito de construção da Ferrovia São Paulo-Rio Grande para a Brazil Railway Company, do empresário americano Percival Farquhar, dono da Light do Rio de Janeiro, da Light de São Paulo, da Companhia de Navegação do Amazonas, dos Portos do Rio Grande, Rio de Janeiro, Paranaguá e Belém. Foi ele quem fez a ferrovia Madeira-Mamoré, na Amazônia. Junto com a concessão, o governo doou as terras situadas numa faixa de 15 quilômetros para cada lado da ferrovia, declarando-as devolutas, ou seja, públicas. Assim, transformou os milhares de “caboclos”, camponeses que viviam na região, em seres inexistentes. Após a conclusão da ferrovia, foram demitidos os 10 mil trabalhadores e destruídas as cabanas em que viviam. Todos seriam expulsos das terras. Surgiu, então, a Southern Brazil Lumber & Colonization Company, para explorar madeira, a araucária, e também “colonizar” essas terras com imigrantes europeus. A madeireira chegou a ser a maior da América Latina. Um grupo de cariocas que trabalhavam onde hoje são as cidades de Joaçaba e Luzerna, no oeste de Santa Catarina, nunca tiveram como voltar para casa. Fundaram uma escola de samba que faz, até hoje, o segundo carnaval mais importante do estado. Outros passaram a vagar pelo sertão e acabaram juntando-se aos caboclos na luta por terra. Como os posseiros insistiram em existir, recusando-se a abandonar a casa e a terra em que viviam por gerações, a Southern Brazil Lumber & Colonization Company organizou milícias privadas que se encarregaram de semear o terror e expulsar milhares de camponeses. Essa gente desesperada, sem ter para onde ir, começou a se reunir com o monge José Maria em busca de ajuda. O monge criou então uma “comunidade” em que não valiam as leis do governo e da empresa: uma “comunidade de Deus”. Aí o misticismo começa a tomar um caráter de salvação do inferno em que foram atirados. Com a “limpeza” feita pela empresa nos seus 6.696 quilômetros quadrados de terras, a cada dia mais posseiros tentavam buscar outras terras, mas eram expulsos repetidamente por coronéis, por fazendeiros, pelas milícias e, finalmente, pelo exército. A revolta se generalizou. Cerca de 6 mil revoltosos armados com facões, espingardas velhas e revólveres enfrentavam 7 mil soldados e mais 2 mil vaqueanos armados com canhões, metralhadoras, granadas e até aviões.

Uruguaiana

URUGUAI

Santa Maria

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Porto Alegre

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Região disputada entre Paraná e Santa Catarina Região da Guerra do Contestado Estrada de ferro São Paulo - Porto Alegre

© Fotos: Acervo: Dorothy Jansson Moretti

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A chegada da estrada de ferro anunciou o início da guerra, em 1912, entre camponeses, de um lado, e soldados e milícias privadas (“vaqueanos”, na foto acima, tirada pelo fotógrafo sueco Claro Jansson) Serviço l Tour virtual do Museu do Contestado: www.museudocontestado.com.br/tour.php

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A guerra começou em 22 de outubro de 1912, quando um certo capitão, João Gualberto Gomes de Sá Filho, atacou um grupo de caboclos que, com o monge José Maria, buscavam se estabelecer em Irani. O monge foi morto, assim como o capitão. Uma jovem, Maria Rosa, com 15 anos, assumiu o comando espiritual e militar do conjunto dos revoltosos, até morrer, em 1915. A morte do capitão apavorou os governantes, que enviam tropas para esmagar os revoltosos, já apontados como “fanáticos” ou “jagunços”. Já o José Maria, agora santo, foi anunciado como o próximo a ressuscitar, comandando o “Exército Encantado de São Sebastião”. José Maria não ressuscitou. Em compensação, surgiram os “redutos”, as “cidades santas” comandadas por “virgens”, mulheres com 14 ou 15 anos que faziam a comunicação com o monge morto. A primeira, e mais famosa, foi a de Taquaruçu, em Curitibanos, comandada por Teodora. Essas “virgens”, como eram chamadas, eram tão sagradas que podiam andar nuas e ninguém percebia que estavam sem roupa. A última das “virgens” sobreviventes morreu nos anos 1990, na cidade catarinense de Curitibanos. Em dois anos, a guerra atingiu uma vasta região entre Santa Catarina e Paraná [veja o mapa]. Depois de várias tentativas, Taquaruçu foi destruída em fevereiro de 1914. O exército bombardeou a cidade de longe. Foi um massacre com metralhadoras, canhões e granadas. No livro A campanha do Contestado, Demerval Peixoto, que participou dos combates como soldado, cita o relatório do médico militar: “Pernas, braços, cabeças, casas queimadas... Fazia pavor e pena o espetáculo que se desenhava aos olhos. Pavor motivado pelos destroços humanos; pena das mulheres e crianças que jaziam inertes por todos os cantos.” Sofrendo uma guerra de extermínio, os revoltosos começaram a cercar cidades, onde matavam os governantes, os “coronéis”, e incendiavam os prédios públicos. Em setembro de 1914, os caboclos cercaram Curitibanos e incendiaram a cidade atrás do “coronel” Francisco Ferreira de Albuquerque, intendente local. O homem escapuliu e só parou de correr em Blumenau. A ordem era “acabar com os fanáticos”, diz em suas memórias Setembrino de Carvalho, comandante das tropas. Relata também um telegrama, escrito por um capitão: “Tomei e arrasei 13 redutos com enormes sacrifícios do meu heroico destacamento. Matamos em combate perto de 600 jagunços, não contando o grande número de feridos. Arrasei perto de 5 mil casas e dez igrejas.” Em agosto de 1916, o último líder militar dos revoltosos, Adeodato Manoel Ramos, foi preso sem resistência. A Lumber colonizou as terras até 1938, quando Getulio Vargas a estatizou. Os “coronéis” continuam donos das terras na região mais pobre do sul do Brasil. Faz cem anos que a guerra acabou. Serge Goulart é escritor e jornalista 2016 SETEMBRO

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Jornal mundo setembro 2016