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ANO 24

Nº 4

tiragem:

AGOSTO/2016

18.000 exemplares

Transição chinesa,

I

magine o choque provocado pelo impacto, sobre a Terra, de um planeta com o dobro da massa de Marte (que tem cerca de 10% da massa terrestre). Esqueça a Física, pense na Economia e troque massa por população. Pronto: eis as implicações de 35 anos de abertura econômica da China. No jogo da economia mundial, o “planeta chinês” acoplouse à Terra. Toda a geometria econômica do mundo sofreu mudanças radicais, com forte deslocamento de seu eixo do Ocidente para o Oriente. Um impacto assim nunca ocorreu antes, ao menos desde as Grandes Navegações. Jamais ocorrerá no● A Guerra Civil espavamente, pelo bom nhola, que começou há 80 anos, deixou marcas motivo de que não permanentes na literaexiste outra economia tura, no cinema e nas de porte semelhante à artes plásticas. chinesa à margem da Pág. 2 globalização. O pro● Editorial – O Brexit e a cesso da incorporação candidatura de Donald da China continua Trump evidenciam que a provocar ondas de o nativismo é um fenôchoque – nas economeno mundial. Há 50 anos, em maio, o então líder chinês Mao Tsé-Tung lançava a Grande Revolução Cultural Pág. 3 mias, nas sociedades, Proletária, tendo como horizonte a marcha da humanidade rumo ao socialismo; hoje, os destinos da na política. Mas a co● Na Colômbia, encerraChina estão profundamente associados aos da economia globalizada em crise se a “guerra eterna” das lisão está concluída. A Farc. O acordo de paz forte desaceleração chinesa da última meia década assinala a transição: o “Império do Centro”, nome que os antigos imperadores transfere as divergências davam à China, deixa de ser uma “economia jovem”, tornando-se uma “economia madura”. para o campo da polítiA “normalidade” da primeira década do século XXI, quando a China crescia a taxas anuais superiores a 10%, era uma anomaca democrática. lia. Agora, a China “normaliza-se” – e o mundo deve se adaptar à novidade. Vale para os Estados Unidos, a Europa, a Rússia, o Pág. 3 Brasil e a África. Décadas atrás, o que acontecia na China representava pouco mais que uma curiosidade para o resto do mundo. ● Muhammad Ali não foi Atualmente, os eventos chineses têm consequências profundas, diretas e cotidianas, em todos os países. A China é aqui. um líder político, mas

turbulência global

Veja as matérias às págs. 6 a 10

A

surpreendente vitória do Brexit (British exit, ou “saída britânica” da União Europeia) provocou um súbito colapso político interno. Os dois grandes partidos tradicionais perderam juntos – e procuram juntar seus cacos. O resultado aproxima a Escócia de um novo plebiscito separatista e reaviva as tensões entre protestantes e católicos na Irlanda do Norte. Perplexa diante do Brexit, a União Europeia tenta encontrar caminhos para uma reação. Depois da crise do euro e em meio à crise dos refugiados, os líderes europeus enfrentam a ameaça concreta de desagregação do projeto supranacional iniciado no pós-guerra. O Brexit não é, exclusivamente, um “assunto europeu”. No fim das contas, representa um golpe nos pilares da ordem mundial – ou, mais precisamente, do Ocidente reinventado durante a Guerra Fria. Pág. 12

(1547-1616)

© Real Academia da História, Madri

Brexit, o terremoto

Miguel de Cervantes © Coleção particular

suas escolhas refletiram uma época de crise e mudanças sociais nos Estados Unidos. Pág. 4 ● O massacre de Orlando reativou a polêmica sobre o comércio irrestrito de armas. No fundo, é um debate a respeito da história e da Constituição dos Estados Unidos. Pág. 5 ● Diário de Viagem – Pegida e AfD são as faces gêmeas da nova extrema-direita que emerge na Alemanha. Pág. 11

© Coleção particular

E mais...


Guerra Civil espanhola ainda inspira artes e paixões Serge Goulart Especial para Mundo Igreja e Estado e dissolve a Companhia de Jesus. A Igreja Católica é proibida de dedicar-se ao ensino. Em 1933, os anarquistas, muito fortes, fazem campanha pelo voto nulo e a direita ganha as eleições. As medidas do novo governo provocam uma insurreição. Nas Astúrias, os operários estabeleceram o que se chamou de Comuna das Astúrias, mas a insurreição é derrotada e milhares são presos. O governo de direita fracassa e, em 1936, uma aliança de socialistas, comunistas e republicanos ganha as eleições. Começa o governo da Frente Popular. Franco o afogaria em sangue, estabelecendo uma ditadura de 38 anos. Apesar do armamento geral dos operários, de insurreições na Catalunha e em outras partes, a Frente Popular não queria romper com os burgueses republicanos. Sob pressão do regime soviético de Josef Stalin, o PC espanhol se recusa a decretar a reforma agrária, o que dissolveria a base social de Franco, aliado dos monarquistas e latifundiários. Isso vai levar à derrota da revolução. Stalin opunha-se a uma revolução socialista na Europa, coerentemente com sua política de aliança com os ditos © Arquivo Nacional da Alemanha/Coblença

H

á 80 anos, entre 17 e 18 de julho de 1936, um general monarquista chamado Francisco Franco se lança com o exército, desde o Marrocos, contra o governo republicano eleito, da Frente Popular. A Espanha vivia uma situação revolucionária. Da África para a Espanha, Franco e suas tropas foram transportados por aviões e barcos de Hitler e Mussolini. Começava a Guerra Civil, que só terminaria em abril de 1939, com a implantação de um regime fascista. O apoio da Itália e da Alemanha prosseguiria até o final do conflito, que deixou meio milhão de mortos. A Revolução Espanhola e a Guerra Civil despertaram solidariedade, paixões e entusiasmo como poucas vezes se havia visto no mundo. Romances, poemas, músicas, filmes, quadros e esculturas floresceram tanto cantando o heroísmo e a luta do povo espanhol contra o fascismo como denunciando as atrocidades cometidas pelos fascistas. Ernest Hemingway escreveu sua obra-prima, que viria a modificar a escrita do jornalismo contemporâneo, Por quem os sinos dobram, durante os quatro anos em que viveu na Espanha como correspondente e em que lutou ao lado dos republicanos. A Guerra Civil teve enorme impacto no Brasil. Militantes de esquerda e republicanos, como Apolônio de Carvalho, integraram-se às Brigadas Internacionais que se formaram em dezenas de países. Da realidade à ficção: Vasco Bruno, protagonista do romance Clarissa, de Érico Veríssimo, um dos mais importantes escritores brasileiros, também se alista nas Brigadas Internacionais e, no excelente romance Saga, segue para a frente de combate espanhola. A terrível Guerra Civil provocada pelos fascistas tem aspectos extremamente dolorosos, retratados na Guernica de Pablo Picasso, uma das obras mais conhecidas do cubismo e um marco na trajetória de Picasso. É uma interpretação dos efeitos do bombardeio da cidade de Guernica, em 26 de abril de 1937, pelos aviões alemães da Legião Condor, que destruíram quase completamente a cidade basca. O quadro está no Museu Nacional Reina Sofia, em Madri, e vale algo como US$ 180 milhões. Tudo começou em 1930, quando terminava a ditadura do general Primo de Rivera e se agudizava o conflito entre republicanos e monarquistas. O rei Afonso XIII convoca eleições municipais em abril de 1931. Os monarquistas ganham, mas os republicanos conquistam a maioria nas grandes cidades. Manifestações populares exigem a instauração da República. O rei abdica e é proclamada a Segunda República. Em seguida, uma Assembleia Constituinte decreta a separação entre

“imperialismos democráticos” (Estados Unidos, Grã-Bretanha e França). Stalin enviou à Espanha armas e muitos homens da KGB, sua polícia política. Por essa via, o PC espanhol mantinha um certo controle sobre o governo da Frente Popular, enquanto a KGB assassinava dirigentes da esquerda que se opunham à linha oficial stalinista. Numa entrevista concedida em 1936 ao jornalista americano Roy Howard, Stalin esclarece sua posição: Howard: “Esta sua declaração significa que a URSS abandonou em todos os níveis seus planos e intenções de provocar uma revolução mundial?” Stalin: “Jamais tivemos planos ou intenções deste tipo.” Howard: “Penso, então, sem dúvida, que grande parte do mundo estava distraído durante muito tempo com uma impressão diferente?” Stalin: “Isto é produto de um mal-entendido.” Howard: “Um trágico mal-entendido?” Stalin: “Não, cômico. Ou, talvez, tragicômico...” A derrota da República espanhola pelos fascistas incentivou Hitler a desencadear a Segunda Guerra Mundial, mesmo que a Espanha se mantivesse formalmente neutra durante o conflito. Ainda hoje a revolução e a Guerra Civil na Espanha continuam a ser revividas na arte e na política. Em 1995, o cineasta inglês Ken Loach lançou o belíssimo Terra e liberdade, baseado no livro Homage to Catalonia (“Homenagem à Catalunha”), de George Orwell, em que este relata sua participação na Guerra Civil e denuncia os crimes stalinistas que ajudaram a massacrar a revolução. Nos últimos anos, na Espanha, ressurgem em manifestações de operários e jovens as músicas nascidas naquele período decisivo, como “¡Ay Carmela!” e “Si me quieres escribir (ya sabes mi paradero)”. Viva a Espanha! Serge Goulart é jornalista e escritor

Ruínas da cidade basca Guernica, bombardeada pelos nazistas pró-Franco, em 26 de abril de 1937, ato brutal registrado em tela por Pablo Picasso

E X P E D I E N T E PANGEA – Edição e Comercialização de Material Didático LTDA.

Serviço: l Museu Nacional Reina Sofia. Mais informações em: <www.museoreinasofia.es>. l Ouça as canções “¡Ay Carmela!”, interpretada por Rolando Alarcón (<www.youtube.com/ watch?v=Fko5fYIBJFU>), e “Si me quieres escribir (ya sabes mi paradero)”, interpretada pelo Coro Popular Jabalón (<www.youtube. com/watch?v=HKDV8QVnotk>).

21º Concurso Nacional de Redação Mundo e H&C – 2016 Caros(as) professores(as) e alunos(as), Temos o prazer e a honra de informar que a 21a edição de nosso concurso reuniu 206 trabalhos oriundos de 51 escolas do país. Várias promoveram concursos internos, com o objetivo de escolher as cinco melhores de cada uma delas. Por isso, as redações que chegaram até nós representam um universo bem maior de participação. Somos especialmente gratos aos professores, coordenadores e diretores das escolas participantes do concurso pelo estímulo a seus alunos, assim como pelo privilégio da parceria pedagógica. Informamos também que na edição de outubro será publicada a redação vencedora com um resumo dos comentários feitos pela banca examinadora. Em nosso site (www.clubemundo.com.br) ficará disponível o comentário integral, que também aparecerá para todas as redações premiadas em nossa publicação, a serem enviadas a todas as escolas no final de novembro. MUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDO

Redação: Demétrio Magnoli, José Arbex Jr., Nelson Bacic Olic (Cartografia) Jornalista responsável: José Arbex Jr. (MTb 14.779) Revisão: Jaqueline Ogliari Pesquisa iconográfica: Thaisi Lima Projeto e editoração eletrônica: Wladimir Senise Endereço: Rua General Brasílio Taborda, 218, São Paulo – SP. CEP 05591-100. Tel/fax: (011) 3726.4069 / 2506.4332 E-mail: pangea@uol.com.br – www.facebook.com/JornalMundo Assinaturas: Por razões técnicas, não oferecemos assinaturas individuais. Exemplares avulsos podem ser obtidos no seguinte endereço, em São Paulo: • Banca de jornais Paulista 900, à Av. Paulista, 900, São Paulo Fone: (011) 3283.0340 - E-mail: bancagazeta@gmail.com

www.clubemundo.com.br Infelizmente não foi possível localizar os autores de todas as imagens utilizadas nesta edição. Teremos prazer em creditar os fotógrafos, caso se manifestem.

2016 AGOSTO




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Nativismos ameaçam fragmentar o planeta “Os

especialistas gostam de dividir e frag-

primado da política. Se as referências à bandeira alimen-

cular não é uma exclusividade norte-americana.

negra e a

tam, ainda, um certo orgulho patriótico, a afirmação

Ao

América conservadora, e em estados vermelhos [republicanos] e estados azuis [democratas]”, afirmou o então senador Barack Obama perante a Convenção Nacional Democrata, em 2004, no discurso que lhe assegurou projeção nacional. E prosseguiu: “Vivemos numa única América, todos nós prometemos lealdade às estrelas e listras [em referência à bandeira nacional], todos nós juramos defender os Estados Unidos da América.” Ao descartar critérios raciais e religiosos como parâmetros de classificação e divisão entre norteamericanos, Obama rejeitava a construção de iden-

da unidade nacional convida a rejeitar preconceitos e a

Brexit (Reino Unido), da Frente Nacional (França), do Partido da Liberdade (Áustria, cujo líder perdeu a Presidência do país, em maio, por uma diferença de apenas 0,6% dos votos), do PiS (Polônia), do Partido Democrata (Suécia), do Fidesz e Jobbik (Hungria), do Ataka (Bulgária). O denominador comum a todos esses partidos e aos apoiadores de Donald Trump, nos Estados Unidos, é a xenofobia, o ódio aos refugiados e imigrantes pobres, o fechamento das fronteiras nacionais. É uma tendência mundial perigosa, que aponta para a exacerbação de conflitos, perseguições étnicas e punições coletivas. Adolf já mostrou até onde isso pode levar.

mentar o nosso país entre a

América

branca, a

América

América

liberal e a

tidades ancoradas em princípios transcendentais e eternos (como pureza de sangue e fé) para afirmar o

Newton Carlos Da Equipe de Colaboradores

“M

ilagre que minha Colômbia nunca imaginou que acontecesse”, disse um jornalista colombiano em meio a uma “alegria nacional”, completou o jornal britânico The Guardian. Concluídas as negociações cujo início data de 2012, o governo da Colômbia e a mais importante guerrilha do país, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), garantiram que um acordo de paz será firmado “num prazo máximo de seis meses e conterá a criação de jurisdição especial para a paz”. Assinou-se um “cessar-fogo definitivo”. Juízes colombianos e de fora terão como tarefa julgar crimes “tanto das Farc como do exército colombiano”. O arranjo da “justiça de transição” foi o que mais dificultou um acordo final, assinado tanto pelo presidente colombiano, Juan Manuel Santos, como por Timochenko, nome de guerra do mais alto comandante das Farc, que raramente aparece em público. Está em vias de conclusão a mais longa “guerra interna” do Ocidente. De acordo com o Centro Nacional de Memória Histórica, a “guerra eterna”, de 52 anos, deixou 220 mil mortos, 45 mil desaparecidos e mais de 6 milhões de deslocados. O governo da Colômbia dará “ampla anistia” por violações graves dos direitos humanos. Mas com uma condição: o beneficiário terá de assumir seus crimes. O mais encorpado oponente de um acordo, o ex-presidente Álvaro Uribe, acusa Santos de negociar com assassinos, criou um partido e continua em campo. 

ria dos processos que constroem as sociedades.

Trata-se, portanto, de um discurso que, apesar de suas limitações patrióticas, acolhe as diferenças, em vez de nelas enxergar um obstáculo. Nesse sentido, opõe-se às fábulas nativistas que pretendem enxergar virtudes únicas e singulares de um determinado povo, nação ou raça, em detrimento dos outros. Na ocasião,

Obama tinha como alvo os conservadores

norte-americanos, especialmente aqueles associados ao Partido Republicano, cuja expressão mais radical daria origem ao

Mas

Tea Party, no final da década.

o recrudescimento do conservadorismo,

em geral, e do nativismo como sua expressão parti-

A guerra eterna chega ao fim © Boris Heger/Divulgação Comitê Internacional da Cruz Vermelha/Agência Brasil

colômbia

aceitar a dinâmica complexa e muitas vezes contraditó-

contrário, ele mostra suas garras entre os

apoiadores vitoriosos do

Cena comum de um passado recente: a Cruz Vermelha recebe reféns liberados pelas Farc

Trata-se de ruptura com corte profundo num bipartidarismo que contrapõe liberais e conservadores e monopoliza o poder no país desde o século XIX. Uma das guerras entre conservadores e liberais passou à História como a Guerra dos Mil Dias (1899-1902) e serviu como pano de fundo literário para o romance Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez. As raízes das Farc encontram-se no assassinato do candidato presidencial Jorge Eliécer Gaitán, um populista de esquerda, em 1948. Do evento, decorreu o Bogotazo, um levante popular nas ruas da capital, e a deflagração de La Violencia, uma década de conflitos armados entre conservadores e liberais. Em 1965, no longo rescaldo, surgiram as Farc – e, com elas, a mais longa das guerras. Em 1980, pela primeira vez, a Anistia Internacional acusou o governo colombiano de prática sistemática de tortura. As Forças Armadas promoviam execuções sumárias, AGOSTO 2016

torturaravam, davam sumiço em pessoas e bloqueavam esforços de pacificação. Em 1984, a revista americana Newsweek disse que “os militares colombianos comprimem a nuca do presidente Betancur”. Naquele ano, o conservador Belisario Betancur havia se lançado num esforço de pacificação, com a ambição de torná-lo modelo para uma América Central em chamas. Mas a tentativa fracassou, tragicamente. Em 23 de junho, em Havana, assinouse finalmente o cessar-fogo. Na cerimônia histórica, estavam presentes os presidentes latino-americanos, o secretário-geral da ONU, um representante da União Europeia e um enviado de Barack Obama, o diplomata Thomas Shannon. Nota: Shannon já acompanhava as negociações em Cuba, significando mudança radical na política americana. Desde 2000, os Estados Unidos financiam o Plano Colômbia, de combate

às drogas, caixa da guerrilha. Com isso, as Forças Armadas colombianas se tornaram as mais potentes do continente. Em maio, como parte do processo de paz, o governo e as Farc assinaram um acordo destinado a eliminar a produção de drogas ilegais no país. O Exército de Libertação Nacional (ELN), grupo guerrilheiro secundário, hesita, mas não faltam tentativas para que ele assuma feições legais. Não faltam amarguras passadas. Em 1998, o presidente conservador Andrés Pastrana ofereceu às Farc um território dito seguro, do tamanho da Suíça, enquanto se negociava a paz. Foi um desastre: a guerra recomeçou e, então, nasceu o Plano Colômbia. Álvaro Uribe assestou pesados golpes militares à guerrilha e, em 2010, elegeu Santos, seu ministro da Defesa, como sucessor. Santos prometeu a paz, rompeu com Uribe, reelegeu-se com apoio até da esquerda e lançou-se na busca de um acordo final. A popularidade de Santos roça o chão, com índices inferiores a 20%, mas a maioria apoia o acordo de paz. Santos conseguiu colocar em cena o que nenhum pacifista conseguira, nem ele próprio em seu passado. Mandou, afinal, uma equipe de militares a Cuba com a tarefa de assessorar seus negociadores. Golpe de mestre: não se conhece nenhuma reação militar ao presidente negociador. Cansada de guerras intermináveis, a Colômbia tem uma chance de ouro. Nada, porém, está garantido. No país de Macondo e dos “cem anos de solidão”, o otimismo é um luxo excessivo.

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estados unidos

Muhammad Ali, em busca de uma moral política Numa jornada em busca de sua própria verdade, o “maior esportista americano do século XX” encontrou a política na encruzilhada das lutas contra a discriminação racial e a Guerra do Vietnã

João Batista Natali Especial para Mundo

“Um negro, um mexicano e um porto-riquenho viajam no banco de trás de um automóvel. Quem está ao volante? Um policial.” Mas a rotina foi interrompida quando, no começo dos anos 1990, o mal de Parkinson debilitou sua capacidade de expressão verbal. Passou a ser respeitado pelos que se engajaram no movimento pacifista durante a Guerra do Vietnã (1964-1975). Recusou-se a fazer o serviço militar por objeção de consciência (“Não combaterei a guerrilha do vietcong, que nunca me agrediu”). Essa posição contestadora nascera alguns anos antes, quando passou a frequentar uma mesquita da Nação do Islã. Ele tinha apenas 19 anos. A política e o islamismo chegaram embrulhados no mesmo pacote. Nação do Islã é uma ramificação minúscula do islamismo, com hoje não mais que 20 mil fiéis. Surgiu nos

© AFP

uhammad Ali (1942-2016) foi reverenciado no pugilismo por seus três títulos mundiais de pesospesados. Mas ele também enriqueceu sua biografia com uma tortuosa militância em favor da causa muçulmana e da minoria negra americana. Não foi o líder de um partido ou movimento, mas acompanhou, numa posição discreta, o radical Malcolm X (“X”, letra do alfabeto, não “dez” em algarismo romano). Não teve papel semelhante com os moderados Martin Luther King e Jesse Jackson, militante antirracista que disputou primárias à Presidência pelo Partido Democrata. Com ambos, seus contatos praticamente inexistiram. Ali, que antes de se converter ao islamismo se tornara mundialmente conhecido como Cassius Clay (nome de batismo que rejeitou como “nome de escravo”), não foi propriamente um erudito, um consumidor das toneladas de livros que os Estados Unidos produziram sobre os negros, a escravidão e os direitos civis. Seu engajamento, com um grau apaixonado de sinceridade, era o de um homem simples, com um individualismo errático, uma predisposição para absorver ideias, a seu ver, moralmente justas. Um exemplo está em seu inesperado apoio, em 1984, à campanha pela reeleição do republicano Ronald Reagan (“Ele manterá a presença de Deus nas escolas, e é o que me basta”), num momento em que as plataformas de inclusão das minorias eram enfaticamente defendidas pelo candidato democrata Walter Mondale. Sua identidade muçulmana falou mais alto em episódios como o da tentativa frustrada de obter, em visita a Israel, em 1985, a libertação de prisioneiros do campo palestino de Atlit. Ou, três anos depois, ao participar em Chicago de um ato público de apoio à Primeira Intifada (protestos palestinos em territórios ocupados por Israel). Visitou o Sudão, naquele mesmo ano, alertando para a fome provocada pelos conflitos internos. Fez uma ruidosa e bem-sucedida viagem ao Iraque, em 1990, quando obteve do ditador Saddam Hussein a libertação de 15 americanos mantidos em Bagdá como escudos humanos contra bombardeios aéreos, pouco antes da primeira Guerra do Golfo. A iniciativa humanitária seria criticada pela diplomacia do presidente George W. Bush. Com estatuto oficial, visitou o Afeganistão, em novembro de 2002, convidado pelas Nações Unidas em missão “de paz e de boa vontade”, já que a invasão do país pelas forças americanas e aliadas, para depor o regime pró-terrorista do Talebã, precisava de algum muçulmano famoso como agente de propaganda. E, de maneira mais apolítica, o “maior esportista americano do século XX”, segundo os obituários que recebeu em junho último, acendeu a tocha olímpica nas Olimpíadas de Atlanta (1996) e foi uma das seis personalidades que transportaram a bandeira olímpica na cerimônia de abertura das Olimpíadas de Londres (2012). É impossível estimar quantas pessoas assistiram às curtas palestras que ele fazia, sobretudo em campanhas de arrecadação de fundos para entidades islâmicas ou de direitos civis. Costumava concluir com a seguinte anedota:

© Ira Rosenberg/Biblioteca do Congresso, Washington D.C.

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bairros negros de Detroit, em 1930, e se alastrou para os estados do sul. Na época de Ali, o líder espiritual do grupo era Elijah Muhammad, primeiro verdadeiro mentor do pugilista. Mas um outro personagem se tornou também importante para ele, por ser uma espécie de gestor e líder político da mesquita: Malcolm X. Malcolm Little, seu nome original, tinha duas facetas. Em termos comunitários, montou redes assistenciais para a recuperação de viciados em drogas e ajuda material a ex-prisioneiros. Mas, em termos de doutrina política, suas posições eram abertamente radicais. À frente dos Black Muslims, como também eram conhecidos, montou uma visão excludente da sociedade americana baseada na ideia de “supremacia negra”. Opunha-se, com isso, à integração racial ou à democracia dentro da qual todo cidadão teria direito à igualdade, pouco importa a cor da pele. Os Black Muslims também eram acusados de preconceito antissemita.    Elijah Muhammad e Malcolm X foram uma antítese perfeita ao pacifismo de Martin Luther King. A mesquita tinha perigosamente mais afinidades com os Panteras Negras, adeptos da guerrilha urbana e de um certo niilismo incendiário (“Burn, baby, burn”, eis a palavra de ordem que conceberam). O então Cassius Clay aparece em centenas de fotografias ao lado de Malcolm X. E ambos, com diferentes intensidades (o pugilista era apenas um militante iniciante), passaram a ser monitorados pelo FBI. Malcolm X rompeu em 1964 com Elijah Muhammad e foi assassinado no ano No auge da carreira, em maio de 1965, Muhammad “Cassius seguinte. Muhammad Ali deixaria o grupo Clay” Ali bate o adversário Sonny Liston e mantém o título bem depois, quando Elijah havia morrido, de campeão mundial, já no primeiro round; sua voz foi e passou a frequentar uma mesquita sunidecisiva na luta contra a Guerra do Vietnã ta, incorporando-se a uma das correntes majoritárias do islamismo, com uma visão bem menos conflitiva da religião. Com esse percurso, Ali não se aproximou de Luther King e nem se associou a lobbies cristãos que lideraram, entre os negros, o processo que levou o presidente Lyndon Johnson e o Congresso a acabarem com as leis de discriminação racial. Sem o boxe, com mal de Parkinson e limitado fisicamente, Muhammad Ali teve ainda a ocasião de se fazer ouvir em mais duas ocasiões. A primeira, após o 11 de setembro de 2001, quando afirmou que o verdadeiro islamismo não se confunde com terrorismo. A segunda, mais recentemente, ao publicar nota em que condenava a islamofobia embutida na campanha eleitoral do republicano Donald Trump.

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João Batista Natali é jornalista 2016 AGOSTO




estados unidos

Massacre de Orlando expõe profundas divisões ideológicas

Polêmica sobre a venda irrestrita de armas de fogo envolve a história da Constituição norte-americana e incide sobre as relações entre o Estado, a sociedade e os indivíduos

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dias, contados retrospectivamente a partir da tragédia de Orlando, houve mil massacres à bala nos Estados Unidos, com 1.134 mortos e 3.950 feridos (definindo-se como “massacre” os tiroteios que causem pelo menos quatro vítimas). “Neste país, exibimos um padrão de tiroteios de massa que não encontra paralelo em qualquer outro local do planeta”, declarou Obama, após o massacre de San Bernardino (Califórnia), em dezembro de 2015. A visão oposta é defendida pelo Partido Republicano e fortemente sustentada pelo lobby (grupo de pressão) que a poderosa Associação Nacional de Rifles (NRA, na sigla em inglês) promove junto a deputados e senadores norteamericanos. Ancora-se na ideia de que o direito à liberdade do indivíduo, junto com o direito à vida e à propriedade privada, é o bem mais valioso assegurado pela Constituição, que seria ameaçado pela ingerência estatal. Alegam não haver evidências para demonstrar que os massacres poderiam ter sido evitados se houvesse maior controle de venda de armas e citam a própria lista dos suspeitos do FBI como evidência da ineficácia e dos erros causados pela burocracia estatal: entre os cerca de 50 mil suspeitos da no fly list, há um número incerto de crianças, donas de casa, artistas e outros que não têm qualquer relação com o terrorismo. Seus nomes foram incluídos pelos mais variados motivos: por serem homônimos, por terem feito um número considerado “excessivo” de viagens para países “perigosos”, como Síria ou Afeganistão etc.

© Shayne Watson/Flickr/Creative Commons

© Elaine Patricia Cruz/Agência Brasil

mar Mateen, um norte-americano de origem afegã, de 29 anos, falou quatro vezes com a polícia pelo telefone, durante o seu ataque aos cerca de 320 presentes na boate Pulse, um clube gay situado em Orlando (Flórida, Estados Unidos), praticado num domingo, 12 de junho, a partir das 2h, quando matou 49 pessoas e feriu dezenas, antes de ser morto. Foi o mais grave massacre provocado por tiroteio da história norte-americana. Nas chamadas, Mateen falou em árabe e em inglês e se apresentou como um “soldado islâmico”. Justificou o seu gesto como uma resposta aos bombardeios norte-americanos contra o Estado Islâmico (EI) no Iraque e na Síria. Realizado em pleno período de campanha eleitoral à Presidência dos Estados Unidos, o ataque acabou incendiando o debate sobre a relação entre o respeito às liberdades públicas (principalmente o direito constitucional de portar armas de fogo) e a garantia de segurança à vida e à saúde dos cidadãos. Há duas visões claramente antagônicas sobre o tema: uma delas, defendida pelo atual presidente Barack Obama e pelo Partido Democrata em geral, prevê uma ação mais vigilante e controladora do Estado. No caso do porte de armas, propõe-se que a venda seja interditada a pessoas com histórico de distúrbio mental, associadas a grupos e organizações extremistas e/ou enquadradas na lista de suspeitos do FBI (polícia federal), já utilizada para impedir que usem linhas aéreas como transporte (no fly list). Como argumento, seus defensores utilizam o fato de que em 1.260

Ativistas do movimento LGBT, amigos e parentes homenageiam as vítimas da chacina de 12 de junho; nos 1.260 dias contados a partir daquela data, foram registrados mil massacres, com 1.134 mortos e 3.950 feridos nos Estados Unidos



AGOSTO 2016

A polêmica estende-se ao campo da doutrina jurídica. A Segunda Emenda da Constituição prevê, de fato, o direito ao porte de armas. Ratificada em 1791, ela estabelece que “sendo necessária uma milícia bem ordenada para a segurança de um Estado livre, o direito do povo a possuir e portar armas não poderá ser violado”. Para os defensores do desarmamento e controle, a primeira parte da emenda determina claramente que o direito a se armar está relacionado à defesa de um “Estado livre”, isto é, ao pertencimento a uma milícia de autodefesa da população, que cada estado poderia mobilizar em caso de necessidade. Os defensores do direito ao porte individual de armas apegam-se à parte final da emenda, que garante o direito de possuir e portar armas ao “povo”, isto é, aos cidadãos que integram o “povo”. Tradicionalmente, a Suprema Corte ficou ao lado dessa última interpretação. Recentemente, pesquisadores da história da Constituição colocaram mais lenha na fogueira, ao concluírem que a emenda é propositalmente ambígua. Na tentativa de assegurar o máximo de coesão ao país que, então, estava apenas nascendo, e permanentemente ameaçado pela fragmentação, os Founding Fathers (“Pais Fundadores”) encontraram uma formulação que permitiria aos estados do sul formar suas próprias milícias para conter revoltas de escravos – mas mantendo no horizonte a referência à “segurança de um Estado livre” (isto é, a federação). Apesar das precauções então adotadas pelos autores da Constituição, as tensões latentes ao processo de criação dos Estados Unidos eclodiriam, finalmente, em 1861, com a Guerra da Secessão. Os historiadores concluem, portanto, que a Segunda Emenda estava endereçada a um quadro historicamente definido e datado e que não pode ser estendida como valor universal ao mundo contemporâneo. Nessa linha, alegam, as milícias da época usavam arcabuzes e rifles rudimentares, capazes de disparar, no máximo, três projéteis por minuto, e não armas de repetição com capacidade para 600 projéteis por minuto. É uma polêmica interminável. Trata-se não apenas de saber se um indivíduo pode ou não portar uma arma de fogo, mas sim de determinar as relações entre o Estado, a sociedade e os indivíduos. No final dos anos 1970, Margaret Thatcher chocou o mundo ao afirmar que sociedades não existem, mas sim os indivíduos e as suas famílias. A afirmação afrontava o consenso político e ideológico sedimentado entre os principais países capitalistas no pós-guerra, que viam no Estado de Bem-Estar Social (Welfare State) o instrumento para reerguer uma Europa devastada e assegurar o acesso do maior número possível de cidadãos aos serviços públicos essenciais. A disputa sobre o direito ao porte individual de armas apenas atualiza o debate de fundo. No placar geral, Thatcher está dando de dez a zero. Ou sete a um, caso prefiram.

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“Normalização” chi

China, o “Império do Centro” esde 2003, e até 2010, a economia chinesa cresceu a taxas anuais de dois dígitos, entre 10% e mais de 14%, com apenas duas exceções, os anos de 2008 e 2009, que refletiram a recessão global. A desescalada começou em 2011, numa trajetória de redução do crescimento que conduziu aos 6,9% de 2015 e aos projetos 6,5% de 2016. Isso tudo de acordo com as estatísticas oficiais chinesas, que são objeto de amplo descrédito: no mundo das finanças globais, acredita-se que a expansão atual do produto interno bruto (PIB) chinês gire em torno de 3,5%. Não há nada de muito surpreendente na curva estatística. A economia chinesa percorreu uma etapa singular, típica de “economias jovens”, de crescimento acelerado. Sob o impulso do êxodo rural, da industrialização e da absorção de novas tecnologias, a produtividade geral da economia conheceu saltos sucessivos. Contudo, o ciclo esgotou-se, como reflexo da maturação da economia chinesa. A transição está se concluindo. Economias industriais aumentam mais lentamente sua produtividade. Os custos de produção crescem à medida que se elevam os salários. O modelo baseado nas exportações de manufaturados encontra seus limites, que são dados pela capacidade dos mercados externos de absorver importações oriundas da China. Além disso, a demografia começa a pesar, pois o envelhecimento populacional reduz a parcela da força de trabalho na população total. O ciclo de transição chinesa transformou todo o cenário da economia global [veja o gráfico]. Em 1980, quando começou a abertura econômica da China, os Estados Unidos representavam quase um quarto do PIB mundial e as três maiores economias desenvolvidas concentravam 40% do PIB mundial. A China, à época, produzia 2,2% do PIB do mundo (bem menos que o Brasil, que produzia 3,9%). Três décadas e meia depois, em 2015, a parcela da riqueza mundial produzida pelos Estados Unidos reduzira-se a pouco mais que 18%. Junto com Japão e Alemanha, a parcela das potências tradicionais situavam-se em patamar inferior a 27% da economia global. De salto em salto, a China ultrapassara 17% e, com a Índia, as duas novas potências asiáticas geravam quase 24% do PIB mundial. No auge do poder de Mao Tsé-Tung, a China fechou-se em copas, isolando-se na loucura da Revolução Cultural [veja a matéria à pág. 10]. O ciclo de abertura,

A China, como o Japão na década de 1980, é o maior componente aritmético do crescimento – mas, com seu imenso superávi Os Estados Unidos são o motor do crescimento global, porque proporcionam demanda p va. […] Um reequilíbrio ordenado será bom, em termos gerais, para o mundo, enquanto um reequilíbrio desordenado será ru

conta corrente, cria demanda negativa.

[Michael Pettis, economista e professor da Universidade de Pequim]

deflagrado pouco depois da morte de Mao, integrou o “Império do Centro” à economia global. A China tornou-se o maior exportador mundial de manufaturados, reduzindo os preços e aumentando o consumo global de bens industriais. Nesse processo, devastou antigas regiões industriais na Europa e na América do Norte, o que provocou tensões sociais e políticas refletidas em fenômenos como a emergência de partidos nacionalistas e nativistas. Os portos marítimos chineses saltaram às primeiras posições no ranking mundial [veja a seção O Meio e o Homem, à pág. 9]. Enquanto se tornava o maior exportador de manufaturados, a China convertia-se no maior importador mundial de produtos básicos (commodities). Sob o impulso chinês, as commodities conheceram elevações inéditas de preços, beneficiando os exportadores de petróleo (países do Golfo Pérsico, Rússia, Venezuela, Nigéria, entre outros), de matériasprimas minerais (Canadá, Austrália, Brasil, Chile, Peru e diversos países africanos) e de produtos agrícolas (Canadá, Austrália, Brasil e Argentina). As chamadas “economias emergentes” cresceram à sombra das importações chinesas. Na África, a China apareceu como uma potência neocolonial, investindo em minas, campos de petróleo e portos [veja a matéria à pág. 8]. A “década chinesa” foi um intervalo único, um parêntese irrepetível. A desaceleração chinesa recalibra a economia mundial, eliminando as rendas extraordinárias que fluíam para os exportadores de commodities. Rússia, Brasil, Argentina, Chile, Venezuela, países do Golfo Pérsico e grande parte da África sentem diretamente os efeitos da desescalada, que agrava as instabilidades políticas internas. As Olimpíadas do Rio de Janeiro, marcadas no ápice do otimismo produzido por taxas elevadas de crescimento econômico, realizam-se no ponto mais baixo da recessão, em meio ao virtual colapso dos serviços públicos na cidade-sede. O contraste evidencia não só os fracassos brasileiros, mas a inversão do ciclo econômico global. O ritmo acelerado da expansão chinesa ajudou a alimentar o mito de que o “Império do Centro” funcionava como locomotiva do crescimento global. Como explica o economista Michael Pettis, essa verdade aritmética ocultava o fato de que a China concentrava-

© Bigg(g)er/Creative Commons

D

Gráfico

Parcela do PIB mundial (PPP) % 30 25 20 15 10 5 0 1980

1985

EUA

CHINA

1990

1995

ÍNDIA

2000

JAPÃO

2005 ALEMANHA

2010

2015

RÚSSIA

BRAS

Fonte: Banco Mundial

se na exportação, mantendo baixos níveis de consumo interno de bens industriais. Na outra ponta, os Estados Unidos (e outras grandes economias europeias) operavam como verdadeira locomotiva, assegurando a expansão do consumo. Essa gangorra paradoxal serviu como eixo organizador da economia mundial, mas seus desequilíbrios explodiram na crise financeira de 2008. Hoje, a “normalização” chinesa sinaliza um rearranjo econômico em escala planetária. O “Império do Centro” não tem alternativa senão estimular o mercado interno de consumo, erguendo um novo modelo de crescimento [veja a matéria à pág. 7]. O desafio é imenso, pois implica realizar uma série de reformas econômicas, sociais e políticas. O reequilíbrio na direção do mercado interno é inevitável, mas sua trajetória não pode ser prevista de antemão. Obviamente, os dirigentes chineses empenham-se por um reequilíbrio

MUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDO

2016 AGOSTO

gradual, ordenado: uma “aterrissagem suave” no aeroporto de taxas normais de crescimento econômico. Contudo, não se pode descartar uma “aterrissagem catastrófica” – isto é, uma transição caótica, pontuada por crises econômicas e devastadoras tensões sociais.

Gráfico 1 China: crescimento do PIB 12,00%

10,40%

10,00%

9,30% 7,70%

8,00%

7,70%

7,40% 6,50%

6,00%

5,50%*

5,2

2016

2

4,00% 2,00% 0,00%

2010

2011

2012

2013

Fonte: Revista Conjuntura Econômica, outubro de 2015

2014

2015 * Estimativa




inesa produz impactos globais Diante dos desafios da economia e da demografia

it na

positi-

uim.

A

5

SIL

20%*

2017

Sucesso? A política antinatalista provocou acelerado envelhecimento demográfico e carência de mão de obra em importantes regiões do país. Em 2015, finalmente, a política demográfica foi alterada com a abolição da regra do filho único. No lugar dela, a fim de amenizar o impacto do envelhecimento demográfico, permitiu-se aos casais ter dois filhos. Ninguém sabe se a reorientação surtirá efeitos, pois inexiste precedente na história de reativação de dinâmicas demográficas superadas. A política do filho único gerou consequências duradouras. Junto com a diminuição das taxas de natalidade, registrou-se aumento da expectativa de vida. A equação resultou no rápido crescimento da participação de idosos. Os chineses com mais de 65 anos já representam cerca de 10% da população total – e essa participação duplicará nos próximos 20 anos. No único país do mundo em que se fica velho antes de ficar rico, o governo enfrenta o desafio de criar uma rede pública de seguridade social destinada a amparar uma vasta população idosa que deixa o mercado de trabalho. A política antinatalista trouxe outros efeitos colaterais, especialmente ligados à composição sexual da população. A “predileção” por filhos do sexo masculino, típica de populações camponesas, manifestou-se pela interrupção legal mas intensa da gravidez de crianças do sexo feminino. Além disso, por toda a China, ao longo de décadas, verificaram-se fenômenos numerosos de infanticídio. O resultado é um desequilíbrio de dezenas de milhões na composição sexual da população. O sequestro e venda de mulheres para camponeses em busca de esposas é uma dramática realidade em certas regiões da China e, também, de alguns países vizinhos. Um desafio paralelo encontra-se na dinâmica das migrações internas. Atualmente, a taxa de urbanização gira em torno de 55% da população total, isto é, mais de 750 milhões de pessoas [veja o Gráfico 3]. Trata-se, em números absolutos, de cifra superior à soma das populações totais dos Estados Unidos e do Brasil. Daqui a vinte anos, a população urbana chinesa estará próxima da marca de 1 bilhão. Até 2025, o país terá cerca de 200 cidades com mais de 1 milhão de habitantes (no Brasil, são apenas 17). Nos primórdios do regime comunista, as autoridades criaram o sistema do hukou, que classificava os cidadãos em habitantes do meio rural ou das cidades e restringia o direito à migração para os centros urbanos. Nas três últimas décadas, o crescimento econômico e os salários mais altos oferecidos aos trabalhadores urbanos incentivaram um intenso êxodo rural. Os migrantes, fundamentalmente do sexo masculino, instalavam-se em dormitórios das empresas contratantes, mas não tinham direito de transferir seus familiares para as cidades. Hoje, a fim de incrementar o consumo interno e reduzir as tensões sociais, discute-se a abolição do sistema do hukou. Como muitas das metrópoles costeiras aproximam-se de limites físicos e ecológicos de crescimento, as autoridades criaram um sistema de incentivos para que cidades de porte médio se preparem para receber a nova onda de migrantes. A China rural esmaece diante da nova China metropolitana. Nas grandes cidades, configura-se uma classe média com renda suficiente para dinamizar o comércio de roupas, eletrônicos, automóveis e viagens. A China já se tornou o maior mercado de automóveis do mundo e dezenas de milhões de chineses viajam ao exterior. Gráfico 3 Na próxima década, o movimento de urbanização adicionará ao mercado de China: taxa de urbanização 60,00% consumo dezenas de milhões de migran55,00%* 49,70% tes que deixam o meio rural. Não há 50,00% 43,00% outro caminho para o desenvolvimento 40,00% 36,20% chinês. Contudo, a elevação dos níveis 29,00% 30,00% 26,40% 23,70% de consumo do “planeta chinês” tem 20,00% 17,90% 19,40% impactos dramáticos sobre os recursos 10,00% naturais da Terra. No caso da China, a economia nacional afeta, diretamente, 0,00% 1978 1980 1985 1990 1995 2000 2005 2010 2016 os equilíbrios ecológicos globais. * Estimativa Fonte: Anuário Estatístico da China, 2013

primeira década do século XXI foi auspiciosa para a economia chinesa. Seis entre os dez anos do período registraram crescimento do PIB superior a 10%. Já na metade inicial da segunda década, a economia deu claros sinais de desaceleração e as estimativas apontam para um crescimento do PIB de apenas 5% nos próximos anos [veja o Gráfico 1]. Uma nota importante: as estatísticas oficiais chinesas são objeto de polêmica entre os economistas, pois muitos acreditam que os números são artificialmente inflados. A desaceleração em curso resulta de uma combinação de fatores, com destaque para o enfraquecimento financeiro dos países ocidentais por conta da crise econômica global deflagrada em 2008. Os governantes chineses perceberam que a demasiada dependência dos mercados ocidentais gera grandes riscos, optando por um giro de política econômica na direção do mercado interno. Contudo, o giro responde, principalmente, ao peso de aspectos estruturais da evolução socioeconômica interna do país. A expansão “para fora”, baseada na exportação de manufaturados, atingiu seu limite, em função do aumento dos custos de produção, notadamente dos custos do trabalho, na própria China. Foi nesse contexto que os dirigentes chineses resolveram redefinir o modelo econômico, orientando-o progressivamente ao consumo interno [veja o Gráfico 2]. Não é um giro banal. Para a implantação da nova matriz econômica, os líderes chineses terão que equacionar inúmeros problemas políticos e sociais. O primeiro aspecto a se levar em conta diz respeito ao crescimento absoluto da população. O efetivo demográfico do país, atualmente, é de 1,375 bilhão. O pico populacional (1,42 bilhão) deve ser atingido entre 2028 e 2030. Potencialmente, é um imenso mercado interno que transita para níveis mais elevados de consumo. A China abriga, hoje, cerca de 18% da população mundial. Seu contingente demográfico já era enorme em 1949, quando houve o triunfo da Revolução Chinesa. Nas décadas seguintes, a população cresceu de forma exponencial, graças aos estímulos dos governantes, que enxergavam no incremento demográfico um caminho para a realização de uma vocação de potência geopolítica. A linha política mudou bruscamente por volta de 1980, quando a população aproximava-se da marca de 1 bilhão de habitantes. Então, os sucessores do líder comunista Mao Tsé-Tung decidiram adotar um rígido sistema de controle da natalidade, destinado a conter a ameaça da explosão demográfica. Sem essa política, é provável que o contingente demográfico estivesse hoje em torno de 1,6 bilhão de habitantes. A política oficial do filho único foi imposta por um regime totalitário, à base de leis draconianas. Essencialmente, impuseram-se severas penalidades econômicas aos transgressores, além de facilidades para a realização de abortos, que podiam ser realizados a custos baixos. A estratégia obteve êxito nas áreas urbanas, mas encontrou resistência nas áreas rurais – onde, até 2010, ainda viviam mais de metade dos chineses. A taxa anual de crescimento vegetativo despencou de 2,4%, em 1970, para menos de 1%, atualmente. Nenhum país do mundo conheceu retração tão rápida e abrupta no ritmo de incremento de sua população.

Gráfico 2 China: investimentos x consumo das famílias (%PIB) 46,4

47,2

42,2 41

41,5

47,8 46

38,9 37,1

36,5 2001

2002 2003

41,7 41,6

40,5

37,8 35,8

47,7

43,8

43

5,00%*

2000

48,3

45,3 44

2018

48,1

2004

37,7 36,1

2005 2006 2007 Investimento

35,3

35,4

34,9

2008 2009 2010 Consumo

36

35,7 2011

36,2

2012 2013

2014

Fonte: NBS e Chang, Chen, Wagooner e ZHA (2015)



AGOSTO 2016

MUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDO


China, o “Império do Centro”

Uma potência neocolonial na África? Expansão da China no continente africano reproduziu as relações econômicas típicas do colonialismo europeu. Hoje, a desaceleração chinesa encerra um ciclo de crescimento das economias africanas

H

á pouco menos de cinco anos, o PIB somado dos 53 países africanos (que hoje são 54) era menor que o PIB brasileiro, situação que já mudou. Em conjunto, as economias africanas ultrapassaram a brasileira, tanto devido à profunda recessão econômica no Brasil quanto pelo crescimento das economias da maioria dos países africanos. Nos primeiros anos da segunda década do século XXI, o crescimento médio do PIB da maioria dos países da África girou entre 4% e 5% ao ano [veja o Mapa 1]. É verdade que o crescimento econômico africano da última década se fez sobre uma base inicial bem pequena, o que ajuda a entender seu ritmo acelerado. Mas a expansão reflete, antes de tudo, o papel da China de investidor e parceiro comercial dos países da África. As ligações da China com a África, que têm raízes seculares, começaram a se intensificar após a Revolução Chinesa de 1949. Na década seguinte, que coincidiu com a expansão dos movimentos de libertação dos países africanos contra o jugo das potências coloniais europeias, o objetivo dos chineses era “exportar” sua revolução. Nessa moldura, vários movimentos de libertação receberam apoio ideológico e material em suas lutas pela independência. Na África, a China tinha o objetivo de impedir o reconhecimento da sua “província rebelde” de Taiwan como país independente. Funcionou: em 1971, o apoio de muitos países africanos foi crucial para que o governo da China assumisse a cadeira de membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, até então ocupada pelo governo de Taiwan. A ruptura política da China com a União Soviética (1960) e, na sequência, a Revolução Cultural (1966-1976) isolaram a China no cenário internacional. Foi durante a década de 1960 que o governo chinês passou a considerar os soviéticos como principal ameaça à sua segurança, o que conduziria à aproximação com os Estados Unidos na primeira metade dos anos 1970. O início da década de 1980 marcou um radical ponto de inflexão na política externa chinesa, como reflexo das reformas econômicas deflagradas pelo novo líder do regime comunista, Deng Xiaoping. A abertura para o mundo exterior, batizada de “economia socialista de mercado”, destinava-se a integrar a China aos fluxos mundiais da globalização. Naquele período, a China priorizou sua agenda interna de reformas econômicas, enquanto o continente africano enfrentava crises econômicas sucessivas e a difusão de conflitos internos em vários países. De fato, nos primórdios da chamada globalização, a África Subsaariana experimentava um processo de deterioração de sua posição no comércio internacional e permanecia à margem dos fluxos de investimentos estrangeiros. Todo o cenário começou a mudar na segunda metade da década de 1990, especialmente após a viagem do presidente chinês Jiang Zemin ao continente africano, em 1996. Naquela ocasião, Zemin expôs uma proposta de cinco pontos, que estabelecia os termos de uma nova relação da China com a região. A parceria, explicou o líder chinês, apoiaria-se no respeito à integridade territorial e

à soberania nacional, nos princípios da não agressão e da não interferência em assuntos internos de outros Estados, em vantagens econômicas mútuas e igualitárias. Essencialmente, a China estava dizendo que, ao contrário das potências ocidentais, não discriminaria países em função das políticas internas autoritárias de seus governos. Exatos dez anos depois da visita realizou-se a Cúpula Sino-Africana, que reuniu em Pequim, na China, a quase totalidade dos governantes africanos com dirigentes chineses. São muitas as razões do grande interesse dos chineses no continente. Primeiramente, para manter o ritmo de crescimento de sua economia, o “Império do Centro” necessita importar crescentes quantidades de matérias-primas minerais, especialmente energéticas (petróleo), abundantes na África. A China também precisa vender mercadorias que produz em mercados consumidores em expansão, como é o caso do africano, assim como investir seu capital excedente. A China oferece aos países africanos um “pacote” de investimentos em infraestrutura como forma de pagamento pelos recursos naturais extraídos e faz empréstimos com prazos mais alongados e juros mais baixos que os oferecidos pelas potências ocidentais. Mesmo que a maioria dos investimentos em estradas, ferrovias, portos e dutos sejam voltados principalmente à exploração de petróleo, por todo o continente os chineses investiram na construção de escolas, hospitais, usinas, estádios de futebol, palácios de governo. Daí a presença da China em quase todos os recantos do continente africano [veja o Mapa 2].

Mapa 1

A cooperação não é “igualitária” e muitos analistas falam num singular “neocolonialismo” chinês na África. A relação gera endividamento dos Estados africanos e as empresas chinesas na África utilizam-se, muitas vezes, de trabalhadores importados da China, em detrimento da mão de obra local. Além disso, a China tem sido criticada pelo apoio prestado a regimes que violam sistematicamente os direitos humanos, como é o caso do Sudão. Para alguns países africanos, a crescente presença econômica chinesa parece significar novas oportunidades. Todavia, a História mostra que depender exclusivamente da exportação de commodities não é suficiente para a promoção do desenvolvimento econômico de longo prazo em economias periféricas. Sem uma transformação nas estruturas produtivas para setores de maior valor agregado, os atuais ganhos representarão apenas um breve episódio de sucesso econômico incrustado numa trajetória mais longa de espoliação do continente africano. A desaceleração chinesa tem impactos diretos sobre as economias africanas que resultam principalmente da queda dos preços das commodities. À sombra da economia da China, os exportadores africanos de petróleo e minérios conhecem abrupta redução das taxas de crescimento do PIB. Mais uma razão para rever um modelo fundado exclusivamente nas dinâmicas cíclicas do mercado mundial de produtos básicos.

Mapa 2

Crescimento do PIB (2012/2013)

A presença da China na África

MAR

MAR

MEDITERRÂNEO

MEDITERRÂNEO ARGÉLIA

EGITO

NÍGER GUINÉ

CHADE

SUDÃO

NIGÉRIA

ETIÓPIA

CAM.

Equador

Equador

OCEANO ÍNDICO OCEANO ATLÂNTICO

OCEANO ATLÂNTICO

REP. GABÃO DEMOCRÁTICA DO CONGO

OCEANO ÍNDICO

ANGOLA ZÂMBIA ZIMB.

MOÇAMBIQUE

ÁFRICA DO SUL

Escala: 1:40.000.000

Acima de 5,0% Entre 3,5 e 5,0% Entre 1,0 e 3,5%

Abaixo de 1,0% Ausência de dados Fonte: FMI, 2012

MUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDO

Escala: 1:40.000.000

Principais parceiros comerciais Outros países (com diferentes graus de relacionamento com a China)

2016 AGOSTO




Gutemberg de Vilhena Silva Especial para Mundo

China e Sudeste Asiático movem a nova geografia dos portos



© Imprensa/GEPR/Fotos Públicas

C

omo pontos de intersecção entre a terra e a água, os portos desempenham papel importante no desenvolvimento das cidades, países e regiões. Nas últimas quatro décadas, a estrutura portuária tornou-se ainda mais relevante graças ao significativo desenvolvimento dos transportes, tecnologias de comunicação e comércio internacional. Atualmente, os portos têm impacto significativo nas transformações das cidades onde se encontram e das suas hinterlândias. O transporte de mercadorias pelo mar evoluiu ao longo dos séculos. Uma inovação decisiva foi a troca do acondicionamento da mercadoria, antes ensacada, que passou a ser conteinerizada e paletizada. Isso porque o transporte de mercadorias em maior volume e em um único recipiente impulsionou a capacidade técnica de construir navios maiores e mais eficientes e estruturas portuárias adequadas à manipulação dessas mercadorias Novas demandas, juntamente com a crescente influência da ideologia liberal na construção das políticas econômicas, levaram os agentes portuários a reavaliar suas estruturas operacionais e de governança, integrando-as em cadeias de suprimentos globais. Com isso, tais estruturas tornaram-se mais complexas, com otimização das interações entre compradores e vendedores, agregação de valor aos produtos e expansão de outras atividades econômicas que necessitam de serviços portuários. Tudo isso alterou de maneira relevante a forma urbana das cidades portuárias. O sistema portuário mundial das grandes circulações de mercadorias está subdividido em três vertentes básicas: Europa, América do Norte e Ásia. Fora desse circuito, que abrange os mais prósperos mercados do globo, situam-se os portos de América Latina, África e Oceania, que pouco se beneficiam das principais rotas mercantes internacionais. Com o aumento das trocas comerciais das últimas décadas, e apesar do hiatos criado pela crise econômica mundial de 2008-2010, emergiram novos atores e estratégias geoeconômicas de competição de mercado no setor portuário e marítimo. Para que essas trocas comerciais fossem mais eficientes e dinâmicas, diversas cidades passaram por grandes reformulações estruturais. Nas últimas três décadas do

No Porto de Paranaguá, o crescente uso de contêineres para importar e exportar produtos que antes eram levados a granel (soltos no porão do navio) reflete o uso das novas tecnologias de transporte de mercadorias Ranking do crescimento dos 20 principais portos no mundo (2003-2012, milhões ton.) Ranking

1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20

Porto

2003

Ningbo Guangzhou Dalian Tianjin Qingdao Xiamen Shanghai Dubai Tanjung Pelepas Shenzhen Port Klang Tanjung Priok Cingapura Roterdã Busan Antuérpia Hamburgo Hong-Kong Los Angeles Kaohsiung

2.772 2.762 1.67 3.015 4.239 2.331 11.283 5.152 3.487 10.615 4.841 3.137 18.100 7.107 10.408 5.441 6.138 20.449 7.179 8.840

2002 Crescimento 15.670 14.743 8.060 12.300 14.503 7.201 32.529 13.270 7.700 22.940 10.000 6.200 31.649 11.865 17.046 8.633 8.863 23.117 8.077 9.781

565% 534% 483% 408% 342% 309% 288% 258% 221% 216% 207% 198% 175% 167% 164% 159% 144% 113% 113% 111%

País China China China China China China China Emirados Árabes Malásia China Malásia Indonésia Cingapura Holanda Coréia do Sul Bélgica Alemanha China EUA China

Fonte: International Association of Ports and Harbors; Unctad (2013)

século XX, registrou-se uma multiplicação da quantidade de portos relevantes no mundo, em sua maioria concentrados justamente no Hemisfério Norte, com volume significativo em três áreas: América do Norte, Europa Ocidental e Sudeste AsiAGOSTO 2016

ático. Nesse contexto, o Brasil apresentou tímida evolução, com destaque para os portos da Região Sudeste, notadamente o de Santos (SP). Por um longo período os portos mais importantes do mundo eram os dos Esta-

dos Unidos e da Europa Ocidental (como Nova York e Roterdã, respectivamente). A adoção de fluxos em contêineres mudou completamente a geografia econômica do comércio marítimo, com o surgimento de uma série de novos locais de embarque e desembarque. Essa nova geografia reflete um alto nível de concentração de tráfego em torno de grandes instalações portuárias, os mais relevante sendo portos asiáticos do Oceano Pacífico ao longo do corredor entre Tóquio (Japão) e Cingapura, passando pela China. O grande destaque na circulação é para granéis líquidos, notadamente petróleo e derivados, mesmo que haja uma variedade de outros tipos de movimentação. A China é um ator crucial no cenário do comércio marítimo mundial. Mesmo com a crise global recente, muitos dos principais portos apresentaram crescimentos superiores a 200% na década que se estende entre 2003 e 2012. Entre os 20 portos com maior crescimento em volume de movimentação, dez situam-se na China, com destaque para Ningbo (565%) e Guangzhou (534%) [veja a tabela]. Na lista dos dez portos de maior crescimento no mundo, não aparece nenhum porto europeu. Entre os 13 primeiros, apenas Dubai não pertecente à Ásia Oriental ou ao Sudeste Asiático. Entre os 20, apenas quatro situam-se na Europa ou Estados Unidos. A expansão acelerada desses portos resultou de pesados investimentos na melhoria do sistema técnico e no aparelhamento dos terminais. Junto com os portos, as cidades onde se situam passaram por grandes mudanças estruturais. A nova geografia econômica dos portos evidencia que o continente asiático polariza os principais fluxos internacionais de mercadorias. A ascensão dos portos asiáticos é um fruto da entrada da China no grande jogo do comércio globalizado. Mesmo assim, até mesmo pela relevância da União Europeia no comércio internacional, alguns portos europeus permanecem em posições de destaque. Contudo, o crescimento dos portos das potências econômicas ocidentais é nitidamente mais lento que o dos portos ascendentes da Ásia. Gutemberg de Vilhena Silva é professor de Geografia Política na Universidade Federal do Amapá e bolsista de Pós-Doutorado do CNPq no exterior

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revolução cultural

Mao, o “Sol vermelho” no coração do povo “Nossas revoluções são como batalhas. Após uma vitória, devemos imediatamente propor uma nova tarefa. Dessa forma, os quadros e as massas estarão sempre cheios de fervor revolucionário, em vez de presunção.” (Mao Tsé-Tung, citado por Jonathan Spence, Em busca da China Moderna)

A

Elaine Senise Barbosa Especial para Mundo lugares, para adultos e crianças, sendo considerada falha grave não demonstrar entusiasmo – coisa de “revisionista”, termo que equivalia a uma condenação por traição. De igual sucesso foi o Diário do soldado Lei Feng, outra criação de Biao: um soldado é encontrado morto com seu diário, no qual estavam descritas as inúmeras atividades que o jovem realizava com o intuito de ajudar a construir a Grande China, sob a inspiração da figura sábia de Mao! Cada jovem chinês sentiu que era seu dever seguir o exemplo de Feng e ser uma ativa formiguinha na execução da obra do “Grande Líder Mao, o Sol vermelho em nossos corações”.

© Coleção particular

s palavras do líder da Revolução Chinesa de 1949 exprimem uma interpretação peculiar da ideia de “revolução”. Para Mao, era o movimento contínuo das massas e das forças políticas, necessário para romper os modelos da tradicionalíssima sociedade chinesa até que a nova ordem comunista fosse instaurada. Essa interpretação, associada às lutas pelo poder na cúpula do Partido Comunista Chinês (PCC) e ao cenário da Guerra Fria, resultaram em um dos maiores fenômenos totalitários do século XX: a Grande Revolução Cultural Proletária, deflagrada há 50 anos, em maio de 1966. A morte de Josef Stalin, em 1953, levou o reformista Nikita Kruschev ao comando da União Soviética. O totalitarismo stalinista e o culto à personalidade do líder foram denunciados por Krushev, que sinalizou com tímidas reformas em direção a uma ordem menos centralizadora e autoritária. Na China, onde o Partido Comunista mal se instalara no poder, as notícias de Moscou foram recebidas com preocupação, pois aquilo parecia uma traição aos princípios comunistas. Em poucos anos, os dois gigantes caminharam em direções opostas, pois os chineses não apenas rejeitaram as reformas e orientações de Moscou como desafiaram sua hegemonia sobre o “mundo comunista”, construindo uma bomba atômica própria (1964) – e, portanto, saindo da órbita militar soviética. Enquanto isso, no interior da China – uma sociedade tão milenar em sua cultura quanto em suas profundas desigualdades – a engenharia comunista tentava, sem sucesso, encontrar um modelo capaz de promover um rápido desenvolvimento econômico. Por razões diversas, o mais ambicioso dos projetos, o Grande Salto Adiante (1958) – que pretendia industrializar a China e, ao mesmo tempo, impulsionar a agricultura a partir da criação das Comunas Populares –, fracassou de modo assombroso, provocando morte por fome e doenças decorrentes. Estima-se em 20 milhões o número de vítimas! O desastre enfraqueceu a liderança de Mao, enquanto fortaleceu Liu Shao-Chi, que havia assumido a Presidência da República em 1959. Iniciava-se uma luta palaciana pelo poder na cúpula do PCC. O habilidoso Mao mantinha influência decisiva sobre o chefe do exército, Lin Biao. Esse homem se revelaria um gênio da propaganda política. Investindo no culto à personalidade de Mao, Biao organizou o célebre Livro vermelho, uma seleção de frases do líder que passaram a ser estudadas e repetidas incessantemente pelos membros do exército e, em seguida, por toda a sociedade. A leitura do livrinho tornou-se obrigatória em todos os © Coleção particular

Os cartazes de propaganda contam a história de um momento dramático da luta pelo poder dentro do Partido Comunista Chinês, quando o líder Mao Tsé-Tung, sentindo-se ameaçado, apelou à mobilização dos jovens e lançou o culto à sua própria personalidade

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Nesse ambiente geral de disputas, Mao lançou mão, mais uma vez, da carta da “revolução” para investir contra Shao-Chi e seus apoiadores, que ganhavam força à medida que deixavam de lado as diretrizes do Grande Salto Adiante. A Revolução Cultural foi lançada em 1966 como mais uma campanha nacional que tinha por objetivo combater os “Quatro Velhos” – velha cultura, velhos costumes, velhos valores e velho pensamento. Com esse slogan, Mao acusou seus opositores dentro do partido de resistirem a uma avaliação pública (problemas crescentes de corrupção das autoridades vinham sendo tratados internamente) por temerem a “sabedoria do povo”. O problema é que, com todo o culto à personalidade promovido por Lin Biao, o que o povo sabia é que Mao era a própria expressão da Vida e da Verdade. Ou seja, a “sabedoria do povo” era igual à “sabedoria de Mao”. A violência eclodiu quando os jovens passaram a ser encorajados pela corrente maoísta a destruir edifícios e velhos objetos, queimando livros e bens artísticos e culturais, além de investir contra todas as autoridades, incluindo pais, professores e dirigentes políticos. Logo surgiram braçadeiras para identificar os Guardas Vermelhos – a nova vanguarda revolucionária formada por adolescentes fanatizados pela figura de Mao. Em pouco tempo, a velha raposa atingiu seu maior objetivo: Shao-Chi foi preso, torturado e morreu no cárcere. Destino semelhante tiveram várias outras figuras da cúpula do partido, algumas conseguindo sobreviver para serem trazidas, anos mais tarde, de volta ao poder. O caso mais ilustre é o de Deng Xiao-Ping, o presidente que fez a abertura da China nos anos 1980. A Revolução Cultural estendeu-se até setembro de 1976, com a morte de Mao. Três anos depois, anunciava-se a abertura econômica que conectaria a China ao movimento da globalização. A Revolução Cultural foi o último grande fenômeno totalitário produzido pelo século XX. A manipulação das massas por um líder que, na realidade, pouco ligava para o valor da vida humana, fez com que a China mergulhasse em profundo isolamento internacional e naquilo que provavelmente foi o período mais sombrio de sua história. Ainda hoje é difícil calcular a extensão das perdas humanas e culturais, mas uma coisa é fato: Mao conseguiu criar uma sociedade igualitária por meio da pobreza generalizada e da destruição das individualidades, com todo mundo vestindo o mesmo uniforme azul e brandindo nas mãos o Livro vermelho. Elaine Senise Barbosa é historiadora e professora no Curso Intergraus, em São Paulo 2016 AGOSTO

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Cláudio Camargo Especial para Mundo

A nova face da extrema-direita na Alemanha resden, conhecida como a “Florença do Elba”, capital do land (estado) alemão da Saxônia, no leste, é uma belíssima cidade barroca, famosa por ter sido inteiramente destruída por bombardeios dos aliados, entre 13 e 14 de fevereiro de 1945, que provocaram cerca de 25 mil mortos. A cidade foi totalmente reconstruída, inclusive sua catedral luterana, a Frauenkichen (Igreja de Nossa Senhora), que permaneceu por décadas em ruínas e só foi reinaugurada em 2005, após um plebiscito. Mas, depois da reunificação da Alemanha, a memória do bombardeio foi sequestrada pelos neonazistas: desde 1999, todo dia 13 de fevereiro, Dresden era palco de manifestações da extrema-direita. Em 2010 um grupo antifascista, o NaziFrei (“Livre de Nazistas”), conseguiu finalmente mobilizar mais manifestantes e acabar com as marchas dos neonazistas. Entretanto, desde outubro de 2014, Dresden voltou a ser ocupada por uma nova geração de viúvas do Führer. Todas as segundas-feiras o centro da cidade é tomado por manifestantes do Pegida (Patriotische Europäer gegen die Islamisierung des Abendlandes, ou “Patriotas Europeus contra a Islamização da Europa”), que se opõem à entrada de imigrantes e refugiados na Alemanha. O grupo critica duramente a política da chanceler Angela Merkel de acolher refugiados provenientes do Oriente Médio e da África (a Alemanha recebeu 1,1 milhão de pedidos de asilo só no ano passado). A postura de Merkel, aliás, também é criticada por um setor de seu partido, a CSU (União Social Cristã, braço bávaro da União Democrata Cristã, CDU), que exige que ela feche as fronteiras. Em 2015, o Pegida reuniu 25 mil manifestantes em Dresden, com bandeiras, hinos patrióticos, cartazes agressivos e discursos xenófobos. Mas a cada manifestação do Pegida tem correspondido uma contramanifestação antifascista, a poucos metros de distância, separada por fortes cordões policiais. A fama de “capital da xenofobia” parece incomodar a cidade, a julgar pelo que se lê na fachada da Semperoper (Ópera Semper), localizada em um dos locais onde o Pegida faz manifestações: “Por uma Dresden aberta ao mundo.” Curiosamente, Dresden é uma das cidades com menos imigrantes na Alemanha (0,4% da população de lá são 11

© Fotos: Metropolico.org/Flickr/Creative Commons

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A intolerância é sempre uma característica do inimigo: em Dresden, neonazistas do grupo Pegida denunciam o Islã como uma religião de “fanáticos” e pedem a expulsão dos muçulmanos do país

muçulmanos; em todo o país, são quase 5%). Integrante da República Democrática da Alemanha (RDA, comunista), a cidade foi um dos centros dos protestos contra o regime comunista em 1989. Foi em Dresden que nasceu o slogan “Nós somos o povo”, que contrapunha a população à ditadura stalinista. Mas, com a queda do Muro de Berlim e a unificação, em 1990, muitos trabalhadores de Dresden – como em toda Alemanha oriental – ficaram desempregados por não terem qualificação adequada para se colocar no mercado de trabalho globalizado. A situação se agravou com a onda de refugiados que chega à Alemanha nos últimos anos. Não foi à toa que os xenófobos se apropriaram do slogan “Nós somos o povo”. O principal líder do Pegida é um notório picareta, Lutz Bachmann, um publicitário de 43 anos, natural de Dresden, que já esteve preso por diversas falcatruas. Ano passado, Bachmann foi obrigado a se afastar temporariamente da liderança do Pegida depois da repercussão negativa nas redes sociais pela veiculação de uma foto em que ele aparecia com um bigodinho imitando o ditador nazista Adolf Hitler. AGOSTO 2016

Recentemente, Bachmann foi condenado a pagar uma multa de 10 mil euros por incitação ao ódio – ele costuma se referir aos refugiados como “escória”, “bovinos” e “rapefugees”, um neologismo que associa os imigrantes a estupradores. Mas seu discurso a esse respeito ganhou força com os eventos ocorridos em Colônia, no Ano Novo de 2016, quando jovens de aparência árabe ou norte-africana assediaram sexualmente cerca de 90 mulheres alemãs. Já em Berlim, a capital do país, a face da extrema-direita é um novo partido político, a AfD (Alternative für Deutschland, “Alternativa para a Alemanha”), que tem levado milhares de pessoas às ruas – embora em número bem menor do que o Pegida – para exigir, entre outras coisas, que o governo feche as fronteiras aos imigrantes. Nascido em 2013, inicialmente com uma agenda anti-União Europeia, a AfD deu uma guinada à direita, acentuando o discurso xenófobo e racista. A responsável por essa guinada é uma personalidade aparentemente oposta à Bachmann, embora também originária de Dresden: Frauke Petry, 40 anos. Formada em Química na Inglaterra, sempre

bem vestida e sorridente, ela é dona de um discurso afiado e aterrorizante. Numa entrevista a um jornal regional, afirmou que a polícia deveria ter o direito de atirar em refugiados que tentarem entrar clandestinamente na Alemanha. Um colunista da Der Spiegel a definiu como “o braço democrático das hordas que marcham por Dresden e espancam cidadãos, daqueles que espreitam estrangeiros e incendeiam as casas dos asilados”. A guinada patrocinada por Frauke Petry rendeu dividendos eleitorais. Em março, a AfD teve excelente desempenho nas eleições regionais dos estados da Alta Saxônia, Baden-Wütternberg e RenâniaPalatinado. O partido conquistou 24% dos votos no primeiro (ficando bem à frente do tradicional Partido Social Democrata, o SPD), 15% no segundo e quase 13% no terceiro. Com isso, a AfD ficou com assentos em oito estados alemães, além de já ter sete membros do Parlamento Europeu. No ano passado, militantes da AfD e do Pegida foram às ruas de Berlim protestar contra a política de imigração de Angela Merkel. Além de cartazes pedindo o linchamento ou o enforcamento de políticos próimigração, chamou atenção dos jornalistas o uso da expressão Lüngenpresse (“imprensa mentirosa”) para desqualificar o jornalismo. O termo foi cunhado por Joseph Goebbels, ministro da propaganda do Terceiro Reich, para criminalizar os jornais da República de Weimar, acusados de serem dominados pela “judiaria internacional”. A agressividade do discurso e o crescimento de ações criminosas, como o ataque a abrigos de refugiados (nunca assumidos pelo Pegida ou pela AfD), ou o esfaqueamento, no ano passado, da candidata à Prefeitura de Colônia, Henriette Reker, trouxeram à lembrança as ações das sinistras SA (Sturmabteilung, ou “Tropas de Assalto nazistas”), que usavam o terror e a violência para aplainar o caminho de Hitler ao poder. Talvez seja exagero: a democracia na República de Weimar era muito frágil, o que não ocorre hoje. Mas, com a onda de xenofobia que assombra a Europa, reforçada pelo Brexit, é bom não subestimar os neonazistas. Afinal, no início, Hitler também não foi levado a sério. Cláudio Camargo é jornalista e sociólogo

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união europeia

Plebiscito britânico remove pilar da ordem mundial O Brexit inscreve-se na crise geral do bloco europeu e reflete o crescimento das correntes nacionalistas que contestam a globalização

© TomEvans/Crown Copyright/Fotos Públicas

Atrás do Brexit está a corrosão do material histórico que sustenta a União Europeia. O projeto europeu recebeu impulso decisivo do “fator Stalin”, ou seja, da percepção de que a URSS representava uma ameaça existencial às democracias ocidentais. O Tratado de Paris foi firmado apenas dois anos depois do Tratado do Atlântico Norte, que criou a Otan e conectou aos EstaO primeiro-ministro dos Unidos o destino geopolítico da britânico David Cameron, Europa Ocidental. A Otan, por sua vez, partidário da permanência do nasceu no berço da primeira grande criReino Unido na União Europeia, se da Guerra Fria: a bipartição da Aledeclara sua renúncia após a vitória manha em dois Estados. “Europa”, na do Brexit, processo que anuncia Guerra Fria, significava uma fortaleza grandes turbulências para a protegida pelos mísseis norte-americaEuropa e o mundo globalizado nos e pelas instituições supranacionais da Comunidade Europeia. O Reino Unido decide abandoná-la quando já não mais existe a ameaça original. franco-alemão. Não por acaso recusaram a União EconôO Ocidente significou coisas diversas ao longo da histómica e Monetária: do ponto de vista britânico, a moeda ria. Na aurora da Era Cristã, equivalia ao Império Romano e única representou um passo excessivo no compartilha- ao universo da cristandade. Na Idade Média, identificava-se mento de soberanias [reveja Mundo 3, de maio, às págs. com a Igreja de Roma, o império do papa. Séculos mais 6 e 8]. O Brexit é um divórcio. Porém, como explicou tarde, no pós-guerra, converteu-se na aliança entre Estados Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia, Unidos e Europa Ocidental. O Brexit não suprime a espinha o casamento nunca foi um caso de tórrido amor. dorsal dessa aliança, mas a enfraquece, introduzindo uma O escasso amor existente evaporou nos últimos anos, com cisão entre a Europa e as Ilhas Britânicas. Nesse sentido a combinação das crises do euro e dos refugiados. A primeira geopolítico, é um evento de impacto global. lançou a Europa à recessão, reduzindo a atração econômica O Brexit representa um triunfo maiúsculo dos nacioda União Europeia. A segunda ofereceu às correntes políticas nalismos. Marine Le Pen, a líder da Frente Nacional e canultranacionalistas um discurso persuasivo, ainda que falso. didata à Presidência da França, saudou a decisão britânica, “Soberania” tornou-se o outro nome de xenofobia. O parti- em meio a celebrações que se estenderam por todos os do direitista Ukip (United Kingdom Independence Party, ou partidos xenófobos da Europa continental [reveja Mun“Partido da Independência do Reino Unido”), fundado em do 3, de maio, à pág. 9]. Do lado oposto do Atlântico, 1991, expandiu sua influência nesses anos de recessão, rancor Donald Trump também celebrou. O ultranacionalismo, e ódio. Seu líder, Nigel Farage, exibiu o Brexit como uma o nativismo e a intolerância venceram, nutrindo-se do solução para fechar as portas do país aos imigrantes pobres desencanto diante de uma globalização que aprofunda e comemorou o resultado do plebiscito falando no “dia da desigualdades e gera exclusões. Nesse sentido ideológico, independência” do Reino Unido. o Brexit é um evento global. O Brexit ameaça implodir o Reino Unido, reativando No fim, como escreveu o historiador Timothy G. o separatismo escocês [reveja Mundo 3, de maio, à pág. Ash, o Brexit “não resulta apenas do excepcionalismo 7]. Além disso, arrisca erodir as fundações da paz entre britânico, mas é uma versão britânica de um fenômeno católicos republicanos e protestantes unionistas na Irlanda europeu e ocidental”. Os vencedores estão à vista de do Norte. O Acordo da Páscoa, de 1998, que encerrou todos. Na escala britânica, perderam os dois partidos um longo conflito, apoia-se em instituições supranacionais tradicionais, o Conservador e o Trabalhista, e triunfou que ligam a Irlanda do Norte à Irlanda do Sul, uma repú- o Ukip. Na escala europeia, triunfaram os partidos “eublica soberana, de cultura católica, pertencente à União rocéticos” de direita – e, também, a Rússia de Vladimir Europeia. A saída britânica do bloco europeu recriará uma Putin, interessada na fragmentação da União Europeia. “fronteira dura” entre as Irlandas, o que pode reacender as Na escala mundial, venceram as forças nacionalistas antifagulhas do separatismo entre os católicos norte-irlandeses. globalização que sonham com a restauração das “verdades No fundo, o resultado do plebiscito compromete a própria antigas”: a “nação do sangue”, a fronteira nacional, a estabilidade geopolítica do Reino Unido. soberania tradicional.

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© Mike Baker/Flickr/Creativee Commons

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um certo sentido, o Brexit (British exit, ou “saída britânica” da União Europeia) é uma ilustração exemplar do acaso histórico. Não haveria Brexit – ou, pelo menos, não agora – se o primeiro-ministro britânico David Cameron não tivesse feito a aposta política arriscada (estúpida, talvez seja a palavra certa) de convocar um plebiscito baseado na regra da maioria simples e destituído de exigências ligadas à distribuição regional dos votos. Plebiscitos são eventos muito incomuns na história britânica. O voto que definiu o Brexit foi apenas o terceiro em toda a trajetória do Reino Unido. É que essa expressão da chamada “democracia direta” contraria os princípios da democracia parlamentar, fundamento do sistema político britânico. Não havia, além disso, uma forte pressão popular pela retirada da União Europeia. Cameron convocou o plebiscito com a finalidade de solucionar, de uma vez por todas, a antiga luta interna entre europeístas e “eurocéticos” no Partido Conservador. Ele confiava no triunfo da permanência no bloco europeu. Como se viu, estava errado – e, tanto no Reino Unido quanto no bloco europeu, todos pagarão o preço de sua estupidez. Apropriadamente, a primeira vítima foi o próprio Cameron, que anunciou sua renúncia à chefia do governo horas depois da divulgação do resultado. Acaso histórico – mas só até certo ponto. As raízes profundas do Brexit encontram-se no passado distante da Inglaterra, enquanto suas raízes superficiais situam-se na história da União Europeia. Os defensores do Brexit insistiram na ideia de “recuperar o controle”, tocando no nervo sensível do conceito de soberania. Desde a Magna Carta (1215), a Inglaterra elaborou uma identidade política organizada em torno de um foco único de soberania, que é o Parlamento. Na Europa continental, em contraste, a autoridade política dividiu-se em complexas camadas superpostas, entrelaçando ducados, principados e reinos. A submissão parcial do Parlamento nacional a Bruxelas – isto é, às instituições europeias – nada tem de chocante na experiência histórica alemã, mas representa uma anomalia para os ingleses. A União Europeia nasceu no Tratado de Paris, de 1951, que criou a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (Ceca), do conceito de soberania compartilhada. Os britânicos rejeitaram o projeto europeu – e só mudaram de ideia mais de uma década depois, premidos pelos Estados Unidos e pelo desaparecimento do Império Britânico. Ingressaram, finalmente, no bloco em 1973, mas sempre ficaram à margem de seu núcleo, constituído pelo eixo

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Jornal mundo agosto 2016