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ANO 24

■ tiragem:

Pág. 3 ● Trump versus Cruz – as primárias produzirão um candidato extremista, evidenciando a crise política do Partido Republicano. Pág. 3 ● Na fronteira amazônica entre a Guiana Francesa e o Brasil, a questão da imigração ilegal reduz as possibilidades de cooperação regional. Pág. 4 ● O acidente de Chernobyl, há 30 anos, iluminou o declínio da URSS e provocou revisões nos programas de energia nuclear em todo o mundo. Pág. 5 ● O Meio e o Homem – Na matriz energética brasileira, as fontes renováveis ocupam lugar de destaque, mas a fonte hídrica predomina largamente sobre as alternativas eólica e solar. Pág. 11 ● Diário de Viagem – Na Idade Média, a Andaluzia espanhola e o Marrocos formavam um mesmo conjunto geopolítico islâmico. Pág. 12

ABRIL/2016

20 000 exemplares

O ocaso da “nova esquerda” na América Latina N

a Argentina, o kirchnerismo deixou o poder, derrotado nas eleições presidenciais. No Brasil, o processo de impeachment de Dilma Rousseff assinala o outono do lulopetismo. Na Venezuela, o chavismo enfrenta uma dupla tempestade, formada pelo colapso econômico e pela desmoralização política. Na Bolívia, Evo Morales sofre uma primeira derrota eleitoral, no plebiscito sobre o direito a pleitear um novo mandato. A “nova esquerda” declina em toda a América Latina, num giro político mais ou menos coordenado. Atrás da mudança no cenário político, encontra-se o encerramento do ciclo da “globalização chinesa”, que gerou uma prolongada expansão econômica nos países exportadores de commodities. Ao longo daquele ciclo, a “nova esquerda” estabeleceu-se no poder em diversos países latino-americanos, beneficiando-se de taxas elevadas de crescimento do PIB e da renda familiar. A reversão Na Avenida Paulista (SP), manifestantes contra o governo adotam as cores da bandeira nacional contra a cor vermelha, associada ao PT e às organizações socialistas e comunistas do ciclo é a causa mais geral do declínio das coalizões de poder da “nova esquerda”. O movimento geral não deve ocultar as singularidades. Kirchnerismo, chavismo e lulopetismo são fenômenos distintos, que refletem histórias nacionais diferentes. O castrismo cubano, por sua vez, representa uma “velha esquerda”, cuja crise aprofunda-se com o crescente isolamento numa América Latina que vira as costas para a “nova esquerda”. Como fruto disso, Cuba acelera suas reformas econômicas e investe nas relações com os Estados Unidos. A visita de Barack Obama a Cuba evidencia as novas oportunidades abertas para as relações dos Estados Unidos com a América Latina. Contudo, paradoxalmente, os principais candidatos à Casa Branca não parecem dispostos a trilhar o caminho aberto por Obama. Veja as matérias às págs. 6 a 9

O pré-sal, de sonho a pesadelo A história da exploração do pré-sal tem apenas uma década, mas já se converteu de sonho exagerado de prosperidade e riqueza em pesadelo econômico e político. Na base da mudança brusca, radical, encontra-se a crise da Petrobras. Na hora da descoberta das reservas do pré-sal, os preços do barril de petróleo trafegavam nas alturas de US$ 100; hoje, arrastam-se no limiar dos US$ 40. A Petrobras transformou-se, de lá para cá, na empresa petrolífera mais endividada do mundo. O colapso financeiro decorreu de uma combinação fatal de políticas de governo com a reversão do ciclo econômico global. Atualmente, a produção nos campos do pré-sal apenas compensa o declínio natural dos campos mais antigos, no pós-sal. Todo o arranjo estratégico imaginado dez anos atrás está em xeque. Pág. 10

William Shakespeare (1564-1616)

© Coleção particular

● Editorial – O candidato à Casa Branca do Partido Republicano será um representante do nativismo e da xenofobia.

© Rovena Rosa/Agência Brasil

E mais...

Nº 2


Escreva e se inscreva!!!

21º Concurso Nacional de Redação­ de Mundo e H&C 2016

Regulamento ■ Quem poderá participar? Todos os alunos do ensino médio das escolas assinantes de Mundo. ■ Qual é a forma de participação? Cada escola poderá enviar até cinco redações. Tomamos a liberdade de sugerir que as escolas realizem um concurso interno de seleção. Todos os leitores de Mundo podem participar, mas apenas mediante a intermediação das escolas. Por razões pedagógicas, não aceitaremos redações enviadas sem a anuência da escola. ■ Qual é o prazo para o envio das redações? Serão aceitas redações recebidas na sede da Pangea, em São Paulo (nosso endereço pode ser encontrado nesta página, no Expediente), impreterivelmente até 3 de julho de 2016.

■ Quais devem ser as características das redações? As redações devem ter no máximo 40 linhas e, obrigatoriamente, conter título. Cada escola receberá, durante o mês de maio, cinco folhas pautadas e numeradas para a transcrição dos textos selecionados. As folhas preenchidas deverão ser remetidas à sede da Pangea. Este formato é obrigatório, inclusive para garantir o sigilo: a Comissão Julgadora não terá acesso ao nome dos autores ou das respectivas escolas. ■ Quem julgará os trabalhos? As redações serão avaliadas por uma Comissão Julgadora integrada por professores de Comunicação e Expressão de reconhecido saber e experiência no ensino médio. ■ As redações serão publicadas? A redação vencedora será publicada e comentada na

edição de outubro de 2016 de Mundo. Outras redações poderão, eventualmente, ser publicadas. Importante: os autores, ao participarem do concurso, concedem a Mundo o direito de publicar suas redações, sem remuneração autoral, no próprio boletim ou sob outra forma. As redações enviadas não serão devolvidas. ■ Haverá prêmios para os melhores trabalhos? Sim. Os autores das dez melhores redações serão premiados por Pangea e empresas patrocinadoras do concurso. O 1º colocado receberá um aparelho de som no valor de R$ 800. Do 2º ao 5º, todos receberão um aparelho MP4 no valor de R$ 200. Do 6º ao 10º, serão ofertados prêmios em livros.

Para mais informações, veja “O tema da redação” na pág. 2 do Boletim Mundo nº 1 – março/2016.

E X P E D I E N T E PANGEA – Edição e Comercialização de Material Didático LTDA.

Endereço: Rua General Brasílio Taborda, 218, São Paulo – SP. CEP 05591-100. Tel/fax: (011) 3726.4069 / 2506.4332 E-mail: pangea@uol.com.br – www.facebook.com/JornalMundo

© Divulgaçnao

© Duncan Rawlinson/Flickr/Creative Commons

Redação: Demétrio Magnoli, José Arbex Jr., Nelson Bacic Olic (Cartografia) Jornalista responsável: José Arbex Jr. (MTb 14.779) Revisão: Jaqueline Ogliari Pesquisa iconográfica: Thaisi Lima Projeto e editoração eletrônica: Wladimir Senise

Caitlyn Jenner, a moça da capa (junho de 2015), era o lendário Bruce, campeão do decatlo (prova exclusivamente masculina) nos Jogos Olímpicos de 1976

MUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDO

Assinaturas: Por razões técnicas, não oferecemos assinaturas individuais. Exemplares avulsos podem ser obtidos no seguinte endereço, em São Paulo: • Banca de jornais Paulista 900, à Av. Paulista, 900, São Paulo Fone: (011) 3283.0340

www.clubemundo.com.br Infelizmente não foi possível localizar os autores de todas as imagens utilizadas nesta edição. Teremos prazer em creditar os fotógrafos, caso se manifestem.

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Dois nativistas em busca da Casa Branca Donald Trump é o dono das manchetes. Natural: ele qualificou os imigrantes mexicanos como desordeiros, criminosos e estupradores; assegurou que deportará os

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milhões de

estrangeiros indocumentados que vivem nos

Estados Unidos e prometeu construir um muro em toda a extensão da fronteira com o México, além de obrigar o país vizinho a pagar pela obra. Diante disso, pouco se fala sobre Ted Cruz, seu rival nas primárias republicanas. Mas, de fato, Cruz concorda com Trump no fundamental. Sem tantos adjetivos difamatórios e sem a promessa ensandecida do muro, o filho de imigrante cubano nascido no Canadá também garante que, se chegar à Casa Branca, deportará todos os imigrantes ilegais do país. A identidade nacional norte-americana é objeto de duas narrativas divergentes. Segundo

uma delas, os

que ameaçam contaminar a nação “verdadeira”,

mada por imigrantes

Estados Unidos são uma nação for– isto é, pelas ondas sucessivas de imigração que, historicamente, constituíram o povo norte-americano. A narrativa alternativa diz que os Estados Unidos são uma nação formada por colonos – isto é, pelos europeus brancos e protestantes que se deslocaram para as Treze Colônias e se separaram da monarquia britânica na Revolução Americana. A primeira narrativa baseia-se na ideia de contrato. A nação é um contrato político, expresso na Constituição, entre indivíduos livres e iguais. A segunda narrativa baseia-se na ideia da “nação de sangue”. A nação “verdadeira” é uma comunidade racial e cultural estabelecida antes das ondas de imigração do século XIX. De acordo com ela, o núcleo nacional circunscreve-se aos colonos nativos – e todos os que vieram depois são adições periféricas,

diluindo seus valores.

Trump e Cruz são arautos da narrativa nativista. O nativismo é uma fonte de discriminação e exclusão que se orienta pelos conceitos de raça e cultura.

Sob o signo do nativismo, imigrantes

católicos, irlandeses e italianos sofreram dis-

XX e os negros “Leis Jim Crow”, de

criminações no início do século conheceram as chamadas

segregação racial, introduzidas no final do século

XIX.

Desde a década de 1960, quando foi aprovada a Lei dos Direitos Civis, que reconheceu a igualdade legal dos negros, o nativismo permaneceu à margem do palco principal da política norte-americana. Os dois republicanos trazem-no de volta à cena iluminada. Eles personificam a hipótese de um retrocesso político de meio século.

Trump versus Cruz, um partido sem candidatos a reta final das primárias nos Estados Unidos, o abismo se abre diante do Partido Republicano. De uma batalha política deplorável, repugnante, restaram em pé apenas dois candidatos com chances matemáticas de obter a indicação: o magnata nova-iorquino Donald Trump e o senador texano Ted Cruz. O terceiro, John Kasich, governador de Ohio, um moderado, venceu apenas no seu estado e é carta fora do baralho. Os demais candidatos identificados ao valores republicanos tradicionais, especialmente Jeb Bush e Marco Rubio, caíram pelo caminho, batidos na fase inicial das primárias. Trump versus Cruz representa tudo o que a elite republicana queria evitar. São dois extremistas que desafiam as tradições republicanas, empurrando o partido para a extrema-direita do espectro político. Não é que Trump e Cruz possam ser definidos como idênticos – longe disso. O magnata faz a campanha de um populista, na economia, de um nativista intolerante, em política interna, e de um isolacionista, em política externa. O senador encarna a figura de um ultraliberal, na economia, de um fundamentalista cristão, em política interna, e de um intervencionista circunspecto, em política externa. Trump fala para a classe média branca em declínio, que teme o desemprego e o desamparo. Violando os princípios do liberalismo republicano, promete um Estado protetor, que conservaria e ampliaria as redes de assistência previdenciária e de saúde pública. Nesse campo, seu discurso tem pontos de contato com o do “socialista democrático” Bernie Sanders, o desafiante de Hillary Clinton no Partido Democrata. Um desses pontos de contato está no protecionismo comercial. Trump acusa a China e o México de serem responsáveis por uma suposta decadência econômica norte-americana – e promete destruir o Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta), além de vetar os mega-acordos comerciais articulados por Barack Obama com a Ásia/Pacífico e com a União Europeia. 

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norte-americana” e limitar o envolvimento externo a bombardeios aéreos devastadores contra o Estado Islâmico. Ele rasgaria o acordo nuclear com o Irã, para negociar outro, mais efetivo. Contudo, conservaria as relações com Cuba, restabelecidas por Obama. Cruz, em contraste, isolaria o Irã e cortaria relações com Cuba, mas permaneceria fiel aos compromissos norteamericanos com a segurança europeia. Os dois extremistas encontram-se, no fim do arco-íris, abraçando-se no Donald Trump (à esq.) e Ted Cruz, ambos pré-candidatos do Partido pátio do nativismo [veja o Republicano à Presidência dos Estados Unidos, apostam, com graus Editorial]. Com diferentes distintos de estridência, no nativismo, na xenofobia e na “limpeza étnica” graus de estridência, eles Cruz, no polo oposto, é um ultraliberal. Ele se compro- confluem na promessa xenófoba de deportar 11 milhões meteu com um corte de impostos mais radical que qualquer de imigrantes ilegais, uma missão de “limpeza étnica” outro republicano, propondo um imposto único de 10% evidentemente impossível em tempos de paz. Se não fosse para pessoas físicas e de 16% para empresas. Seria um pre- por outros motivos, isso já os converteria em candidatos sente multibilionário para o cume da pirâmide social, a ser quase inviáveis numa eleição geral com participação sigpago pela destruição generalizada de serviços públicos e das nificativa de hispânicos. redes de proteção previdenciária. O ultraliberal é, porém, Mas, do ponto de vista do Partido Republicano, o um ultraconservador: na Casa Branca, ele lançaria uma abismo não está nas parcas chances de triunfo de qualquer ofensiva destinada a proibir totalmente o aborto, inclusive um dos dois na disputa pela Casa Branca. O problema de nos casos de gravidez provocada por estupro. fundo, verdadeiro pesadelo, é que o candidato presidencial Trump mal esconde suas inclinações isolacionistas. que quase certamente emergirá das primárias condenará os Acusa os aliados europeus dos Estados Unidos de se apro- republicanos a um gueto político. Tanto num caso como veitarem da proteção da Otan, sem contribuírem para a se- no outro, o venerável partido se identificará com bandeiras gurança comum. Diz que a guerra síria é assunto irrelevante radicais, traçando uma fronteira em torno de si mesmo. A para o país e elogia a intervenção russa na região, sugerindo reconstrução, imagina a elite partidária, exigirá um longo que os Estados Unidos devem se fechar numa “fortaleza e doloroso embate interno. © Ida Mae Astute/ABC/Flickr/Creative Commons

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américa do sul

Desafios geopolíticos da maior fronteira francesa no mundo Gutemberg de Vilhena Silva Especial para Mundo

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rança e Brasil distam cerca de 7 mil quilômetros, tendo o Oceano Atlântico como divisor natural entre eles. No entanto, em razão do estatuto da Guiana Francesa, como um departamento ultramarino francês, os dois países possuem uma fronteira física em comum com 730 quilômetros – que, aliás, é a mais extensa das fronteiras francesas no mundo [veja o Mapa 1]. Historicamente, a França teve muitas dificuldades em estabelecer definitivamente suas bases territoriais no leste da Guiana Francesa em razão do estratégico e cobiçado Rio Amazonas. Depois de diversos acontecimentos e tratados, muitos dos quais turbulentos, finalmente a configuração territorial entre França e Brasil foi estabelecida em 1900. Durante boa parte do século XX, as atenções desses dois países para as interações em sua fronteira comum foram limitadas à confirmação do traçado de limites. Já próximo do fim do século passado, gradativamente os dois lados passaram a conduzir ações comuns, que continuam a ser impulsionadas. Diante da fronteira francesa guianense, colocam-se dois grandes desafios: um em escala regional; outro numa dimensão binacional. Desde os anos 1990 a América do Sul é alvo de uma série de obras de integração física propostas pela chamada iniciativa IIRSA (Integração da Infraestrutura Regional Sul-Americana). Os eixos de integração da IIRSA objetivam diminuir as descontinuidades geográficas por meio de complexos sistemas de engenharia com pontes binacionais, postos aduaneiros, pavimentação de rodovias e sistemas integrados internacionais de telecomunicações. Entre os dez eixos estabelecidos pela IIRSA, encontra-se o eixo do Escudo das Guianas. Há, aqui, uma confluência singular na América do Sul. A Guiana Francesa – com suas normas e regras pautadas na lógica europeia, já que é um departamento francês como qualquer outro – está indiretamente inserida nesta lógica sul-americana [veja o Mapa 2]. A atipicidade da presença de um departamento francês, uma espécie de “anomalia colonial” na América do Sul, representa um dos arranjos territoriais mais difíceis no continente para a fluidez das trocas de mercadorias e serviços. Em termos de inserção regional, a situação geográfica da Guiana Francesa é complexa e desafiadora, pois a formatação de ajustes burocráticos aceitáveis para fluxos nas suas fronteiras internacionais não é nada fácil. Uma ilustração disso aparece nas dificuldades de inauguração da ponte binacional ligando o Brasil à Guiana Francesa, pronta desde 2011 mas sem clara previsão de abertura para circulação de mercadorias e pessoas. O segundo desafio geopolítico é binacional, isto é, diz respeito às relações entre Brasil e Guiana Francesa. Sob esse aspecto, a pressão migratória de brasileiros que se aventuram clandestinamente para trabalhar em garimpos auríferos da Guiana Francesa, por um lado, e a construção da ponte binacional que conecta França e Brasil, por outro, evidenciam os contornos do problema.

A Guiana Francesa é uma projeção do Estado francês na Amazônia. Na fronteira guianense, Brasil e França enfrentam as dificuldades ligadas às regras de fluxos de mercadorias e pessoas Mapa 1

Fronteiras da França metropolitana ALEMANHA

BÉLGICA

LUX. FRANÇA METROPOLITANA

OCEANO ATLÂNTICO

SUÍÇA ITÁLIA

ESPANHA MAR MEDITERRÂNEO Principais fronteiras da França Com a Espanha: 623 km Com a Bélgica: 620 km Com a Suíça: 573 km Com a Itália: 488 km Com a Alemanha: 451 km Com o Brasil (Amapá/Guiana Francesa): 730 km

Mapa 2

Projetos de Interconexões Setentrionais Caracas

OCEANO ATLÂNTICO Georgetown

VENEZUELA

Paramaribo

GUIANA

SURINAME

Caiena

GUIANA FRANCESA AMAPÁ Macapá

BRASIL Manaus

Interconexão Venezuela-Brasil

Ponte Binacional

Interconexão Venezuela-Guiana-Suriname

Cidades principais

Interconexão Brasil-Guiana Interconexão Guiana-Suriname-Guiana Francesa-Brasil Fonte: Adaptado de SILVA, Gutemberg V.

Detalhe da fronteira Brasil/Guiana Francesa

SURINAME

OCEANO ATLÂNTICO

GUIANA FRANCESA Saint-Georges de L’Oyapock

Mapa 3

Oiapoque

BRASIL BRASIL

A migração desenfreada com destino às insalubres e inseguras áreas de garimpo da Guiana Francesa motivou o estabelecimento de barreiras de fiscalização em diferentes partes do território guianense, com exigência da apresentação de visto no passaporte para brasileiros (Carte de Séjour). A maior parte dos migrantes que se deslocam ilegalmente do Amapá para a Guiana Francesa vislumbra encontrar riquezas abundantes. Mas, após alguns anos, os garimpeiros clandestinos se dão conta da dura realidade: a inexistência deste moderno “Eldorado”. A questão da migração ilegal é tema sensível em todas as agendas de discussão para avanços na cooperação transfronteiriça entre os dois países. Algumas das consequências que inquietam as autoridades francesas são o aumento da criminalidade, a evasão de divisas, a difusão de malária e HIV/aids, a vulnerabilidade das populações indígenas e a devastação ambiental causada pela contaminação dos rios pelo mercúrio. Apesar da rigidez no controle migratório do lado francês, algumas políticas territoriais implementadas desde o fim do século passado sinalizam um caminho ascendente de interações transfronteiriças. O destaque é o conjunto normativo que se discute pelos dois países para circulação de veículos e mercadorias por meio da emblemática ponte binacional. As cidades de Oiapoque (Brasil) e Saint-Georges de l’Oyapock (França) funcionam como os elos próximos de ligação entre os dois lados da fronteira [veja o Mapa 3]. As duas cidades encontram-se, hoje, em um momento geopolítico singular, estabelecendo-se como nexo da integração física sul-americana. A ponte binacional, pronta mas sem previsão de inauguração, já ocasionou uma série de alterações no tecido urbano das cidades fronteiriças, com a valorização fundiária de algumas áreas e redirecionamento da expansão urbana para os arredores da ponte. As mudanças urbanas provocaram debates sobre o futuro dos trabalhadores que extraem seu sustento do transporte fluvial.

(AMAPÁ)

(PARÁ)

Fonte: Adaptado de SILVA, Gutemberg V. (2015)

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Gutemberg de Vilhena Silva é professor de Geografia Política na Universidade Federal do Amapá e bolsista de Pós-Doutorado do CNPq no exterior 2016 ABRIL




antiga união soviética

Acidente de Chernobyl prenunciou a queda da URSS João Batista Natali Especial para Mundo

Há 30 anos, explosão em reator nuclear acelerou as reformas de Gorbachev e interrompeu a corrida mundial rumo às usinas termonucleares

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© Alex Kühni/Flickr/Creative Commons/Fotos Públicas

acidente na usina nuclear de Chernobyl, na Ucrânia, mudanças radicais para a sobrevivência do Estado SoviétiA mobilização humana para conter os efeitos do vaem 26 de abril de 1986, foi o produto desastrado de co. Bem que Gorbachev procurou fazer isso, com a peres- zamento nuclear chegou a envolver 500 mil pessoas, para um ambiente em que a decadência da União Soviética se troika e a glasnost, tentativas de modernização econômica impedir que as 31 mortes imediatas se multiplicassem. traduziu pela incompetência dos controles de segurança e democratização política que tomaram corpo a partir de Mesmo assim, passados tantos anos, é hoje difícil saber e pelo anacronismo tecnológico quais foram as vítimas tardias por moléstias derivadas da radiação, dos reatores. A produção de energia sobretudo o câncer. Estima-se que elétrica por meio nuclear traz duas outras trágicas lembranças na históseriam 4 mil pacientes, até 2008. Nos quatro anos seguintes ao aciria recente da humanidade. Foram Three Mile Island (Estados Unidos, dente, cerca de 350 mil moradores foram retirados de áreas com índices 1979) e Fukushima (Japão, 2011). perigosos de radioatividade. Nenhum dos dois, porém, comparase a Chernobyl. Sabe-se, hoje, que o superaquecimento foi a causa da explosão do reaO acidente americano foi, bator número 4. Isso ocorreu às 4 horas sicamente, provocado por um erro e 23 minutos, na madrugada daquele humano, associado à insuficiência 26 de abril. Os operadores do reator de treinamento e automação. Já no caso japonês, a aparelhagem entrou estavam fazendo, no momento fatal, em pane durante um terremoto, um teste previamente programado responsável também pelo tsunami para avaliar o sistema de resfriamento do reator. As chamas, a altíssima temque atingiu o litoral de países do peratura, consumiram as pastilhas Pacífico. O perfil do acidente de de grafite que armazenam o urânio Chernobyl foi bem mais grave e Os escombros da usina nuclear ofereceram um retrato antecipado de um império que ruiu prosaico. Uma explosão e o incêndio enriquecido. Elas viraram fumaça, esvítima de suas contradições, que combinavam um regime autoritário, uma administração do reator liberaram na atmosfera palhando uma nuvem radioativa que burocratizada, ineficiência e corrupção generalizada a humanidade só havia conhecido até nuvens de partículas radioativas então com as bombas americanas de que contaminaram o oeste da União Soviética e, levadas pelos ventos, espalharam-se por países 1987. Mas o dirigente abriu as comportas de um processo Hiroshima e Nagasaki, em agosto de 1945. do Leste Europeu, atingindo moderadamente a Áustria político que acabaria conduzindo à queda do Muro de Chernobyl representou um golpe traumático para os e o norte da Itália. Berlim, em novembro de 1989, e à implosão da própria partidários da energia nuclear. O trauma foi tão grande que poucos continuaram a considerá-la uma “energia limNa época, a Ucrânia não era um país independente. União Soviética, em dezembro de 1991. Desde os tempos de Josef Stalin (de 1924 a 1953), os pa”, qualificação derivada da constatação de que não polui Pertencia à União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), e a usina nuclear, localizada na cidade de Pripyat, burocratas do Kremlin acreditavam que o planejamento a atmosfera e não produz gases de estufa. O acidente tamestava sob o controle da burocracia do setor de energia, centralizado, com planos quinquenais, dariam ao regime bém fortaleceu politicamente os partidos ambientalistas da em Moscou. O líder supremo do regime comunista era, comunista uma maior racionalidade econômica. Ela se Europa Ocidental, que procuraram seguir o exemplo dos então, Mikhail Gorbachev. Alçado ao poder um ano an- alimentaria de uma criatividade produzida pelo cidadão “verdes” alemães, cuja campanha, nos anos 1970, forçara tes, Gorbachev esboçava reformas num país travado pelo empenhado no progresso (mais tecnologia), já que ele o governo a interromper o plano de nuclearização quase sistema político fechado, em que a sociedade permanecia estaria produzindo para a coletividade, representada pelo integral da eletricidade produzida no país. A França foi uma exceção. No país, Chernobyl passou afastada das decisões administrativas, e pela derrota na Estado, e não para os proprietários capitalistas das emcorrida tecnológica e militar com os Estados Unidos. presas. Essa mística até que produziu efeitos. O esforço a ser visto como um desastre do sistema soviético, e não Não era mais a mesma União Soviética que saiu na de guerra e a vitória sobre a Alemanha nazista foram um da energia nuclear como um todo. Enquanto saía de cena frente da corrida espacial, com o lançamento do primeiro bom exemplo. Mas, ao fim da Guerra Fria (1947-1989), a KWU, consórcio alemão de equipamentos nucleares satélite, o Sputnik, em 1957, e do primeiro homem colo- o bloco ocidental acabou levando a melhor, porque o liderado pela Siemens, os grupos industriais franceses cado em órbita, Yuri Gagarin, em 1961. Ou que manteve, capitalismo pulverizou entre universidades e empresas (liderados pela atual Areva) continuaram a andar em nos anos 1960, a dianteira na aviação militar. Mesmo grandes e pequenas a busca pela eficácia e maximização sentido oposto, levando a França a produzir 84% de sua eletricidade em centrais nucleares. naquela era áurea, o parque industrial soviético padecia de do potencial tecnológico. Em outras palavras, as tecnologias soviéticas – entre O dilema nuclear ainda está em pauta. A recente Conprodutividade muito baixa, reflexo do pequeno empenho dos trabalhadores pelo sistema socialista. E padecia, ainda, elas, a nuclear – envelheceram rapidamente. No curso do ferência do Clima da ONU, realizada em Paris, refletiu um da qualidade inferior dos bens de capital (maquinaria), declínio, as usinas que produziam eletricidade a partir de consenso internacional que procura deter o aquecimento com ritmo de inovações bem inferior ao registrado nos reatores nucleares entraram em rápido sucateamento. Na global pela redução da queima de combustíveis fósseis, Estados Unidos e na Europa Ocidental. Em 1986, porém, prática, a tragédia de Chernobyl recebeu nível 7 na esca- preocupando-se bem menos com as consequências da o declínio tornara-se evidente, impulsionando uma parcela la da INES (sigla em inglês para a Escala Internacional energia nuclear. Mas a sombra de Chernobyl não desapara Eventos Nucleares). Fukushima mereceu a mesma pareceu – e foi reativada por Fukushima. da cúpula dirigente soviética no rumo das reformas. De certa forma, Chernobyl representou, no plano graduação, mas foi provocada por terremoto, e não pela político, um eloquente sintoma de que eram necessárias tecnologia precária. João Batista Natali é jornalista 

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américa latina Cláudio Camargo Especial para Mundo

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m 1994, no livro Utopia desarmada, o mexicano Jorge G. Castañeda afirmava que, com o colapso do bloco soviético e o fim das ditaduras de direita abaixo do Rio Grande, consolidava-se na América Latina uma “nova esquerda”, que se opunha ao paradigma revolucionário de ascensão ao poder pela luta armada e a instalação de um regime de partido único. Essa “esquerda rosa”, que aceitava as regras do jogo democrático, dizia Castañeda, tinha pela frente um trunfo e um desafio. O trunfo era que, a partir de então, uma possível chegada ao poder de partidos progressistas na região deixaria de ser considerada uma ameaça aos interesses de Washington – algo que, no passado, servira de pretexto para inúmeros golpes militares, como o de 1964 no Brasil. O desafio era que, sem o fantasma do “imperialismo ianque” a pairar como uma espada de Dâmocles sobre suas cabeças, eventuais governos de esquerda não teriam mais desculpas por possíveis fracassos. Eles passariam a ser avaliados pela capacidade de reduzir a pobreza e a desigualdade sem colocar contra si a classe média e o conjunto das classes dominantes. Foi o que aconteceu. Tendo governado países como Brasil, Argentina, Venezuela, Bolívia, Equador e Nicarágua, essa “nova esquerda” hoje se esgotou e está em vias de perder o poder na região. Não deixa de ser uma ironia o fato de que o declínio coincida com a visita do presidente Barack Obama a Cuba, um dos últimos bastiões stalinistas do mundo. É a primeira visita de um mandatário americano à Ilha desde 1928. Guardadas as devidas proporções, a mão estendida de Tio Sam a Havana priva o castrismo da justificativa para a manutenção da ditadura de partido único, do mesmo modo como o fim da Guerra Fria retirou da esquerda latino-americana o argumento em favor da revolução [veja a matéria à pág. 8]. A ascensão da “nova esquerda” parecia irresistível. Na transição do século XX para o século XXI, progressistas de diversas colorações chegaram ao poder, democraticamente, na Venezuela, Brasil, Argentina, Bolívia e Equador [veja o mapa]. Essas vitórias marcaram o esgotamento do ciclo liberal da década de 1990, que tomou o lugar das ditaduras militares e refletiu o processo de globalização econômica. Em cerca de uma década, os governos de Hugo

Depois de uma década, on Olhando à frente, a maior parte da América Latina enfrenta a perspectiva de lento crescimento e redução de gasArgentina, o Brasil e a Venezuela. Adicionando a corrupção a essa lista, torna-se compreensível a raiva de parcelas majoritárias das populações. Os eleitorados latino-americanos agora aplicam critérios mais rigorosos de julgamento a seus líderes políticos, o que tem impacto tanto sobre a esquerda quanto sobre a direita. A fornada de líderes de esquerda deveria prestar atenção às palavras de Marx – isto é, do Groucho Marx: “Política é a arte de procurar problemas, encontrando-os em todos os lugares, diagnosticando-os incorretamente e aplicando a eles os remédios errados.” tos públicos, além da necessidade de novas reformas, especialmente em países como a

[Scott B. MacDonald, “Dark clouds ahead for the Latin American Left”, The National Interest, 17 de março de 2016]

Chávez (Venezuela), Lula da Silva (Brasil), Néstor e Cristina Kirchner (Argentina), Evo Morales (Bolívia) e Rafael Correa (Equador) reverteram políticas pró-mercado, aumentando a participação do Estado na economia e adotando medidas de inclusão social. Impulsionados por um ciclo econômico global favorável, os países latino-americanos experimentaram anos de euforia, com expansão do PIB e da renda familiar, queda do desemprego e redução da desigualdade social. O sucesso das políticas distributivistas levou a popularidade desses líderes à estratosfera, garantindo-lhes contínuas reeleições. Alguns, como Chávez, Morales, Kirchner e Correa, mais afeitos ao populismo autoritário, governaram em confronto com uma parte expressiva da sociedade: os empresários, a classe média e a grande mídia. Eles se apoiaram nos setores mais pobres, amplamente majoritários e beneficiados pelas políticas sociais. Já Lula adotou uma política de compromisso com o grande capital e grupos políticos conservadores, afastando-se do “bolivarianismo” [veja a matéria à pág. 7]. Mas a crise global não poupou ninguém, embora em ritmos e épocas diferentes. Desde 2013, surgiram sinais do esgotamento da “idade do ouro”, como as grandes manifestações ocorridas em várias cidades do Brasil. Já em 2014, um relatório da Comissão Econômica para a América Latina e Caribe (Cepal) revelou que a América Latina registrara a menor taxa de crescimento em cinco anos. O agravamento da crise, escândalos de corrupção e a inabilidade política fizeram o apoio popular a esses governos se esfarelar. Na Argentina, o oposicionista Mauricio Macri, de centro-direita, foi eleito presidente em novembro de 2015, pondo fim a 13 anos de kirchnerismo [veja a matéria à pág. 9]. No Brasil, Dilma Rousseff, a sucessora de Lula reeleita a duras penas em 2014, está sob a ameaça de sofrer impeachment em razão do envolvimento de figurões do governo e do PT no escândalo da Petrobras. Sem apoio político, ela amarga os maiores índices de rejeição da história e

enfrenta a classe média mobilizada nas ruas contra o governo, em meio à pior recessão do país desde os anos 1930. Na Venezuela, em confronto permanente desde a ascensão de Chávez ao poder, em 1999, as oposições conquistaram, pela primeira vez, a maioria das cadeiras da Assembleia Nacional (112 em 167), abrindo um caminho para afastar o presidente Nicolás Maduro. E mesmo na Bolívia, que enfrenta o turbilhão econômico em melhores condições do que seus vizinhos, o presidente Evo Morales, no poder há dez anos, foi derrotado em referendo sobre a possibilidade de concorrer a um quarto mandato. Há um paradoxo notável no ciclo de poder da “nova esquerda”. A bonança econômica da primeira década do século XXI deveu-se à demanda da China, que manteve os preços das commodities em alta – notadamente petróleo, ferro e soja. Com isso, os governos da “nova esquerda” aprofundaram a “reprimarização” de suas economias, contrariando as diretrizes da antiga doutrina desenvolvimentista. “A maior parte do investimento estrangeiro direto na América Latina ocorreu na extração de produtos primários”, explica Emilio Taddei, da Universidade de Buenos Aires. Com a crise obrigando a China a voltar-se para o seu mercado interno, a demanda por commodities despencou, colocando em xeque o “novo extrativismo” da esquerda rosa. O ciclo de governos de esquerda foi caracterizado por excessiva intervenção estatal na economia, desestimulando investimentos produtivos privados. Além disso, a ascensão social das camadas mais pobres criou demandas crescentes, cujo atendimento se tornou inviável num cenário de recessão. Correntes políticas mais à esquerda criticam a estratégia dos governos “progressistas” de promover a inclusão social apenas pela via do consumo, evitando “politizar as massas”, o que teria deixado espaço para a direita reconquistar espaços e, aos poucos, o próprio poder. O certo é que o sonho virou pesadelo, como revelam os escândalos de corrupção envolvendo o PT, um dos maiores símbo-

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los dessa “nova esquerda”. Impossível não lembrar o vaticínio de 1912 do sociólogo alemão Robert Michels, que dizia que as grandes organizações, como os partidos políticos, tendem a se burocratizar, com a direção concentrada nas mãos de uma reduzida casta de dirigentes separados da base que deveriam representar. Nenhum partido, mesmo de esquerda, escaparia a esta “lei de ferro da oligarquia”. Cláudio Camargo é jornalista e sociólogo

A “nova esque MÉXICO

CUBA

1 NIC COSTA RICA Equador

EQUADO

OCEANO PACÍFICO

Trópico de Capricórnio

Dirigentes de regimes da “nova esquer

1 Daniel Ortega 1985/1990 e 2011/––– 2 Rafael Corrêa 2007/–––

3 Hugo Chávez 1999/2011 e N. Maduro 2 4 Evo Morales 2006/–––




nda de esquerda entra em refluxo Tudo encerrado, nada resolvido L

ulismo, chavismo, kirchnerismo – a partir do início do século XXI, a imprensa passou a empregar esses termos com grande frequência, ao se referir à situação política, econômica e social, respectivamente, no Brasil, Venezuela e Argentina – e, mais genericamente, na América Latina. Embora refiram-se a realidades distintas, os termos descrevem aspectos de uma conjuntura internacional com implicações nacionais complexas. No final do século passado, a economia mundial já dava sinais da grande crise que iria eclodir em 2008, e cujos efeitos são ainda hoje sentidos. Os “planos de austeridade” recomendados pelo FMI e Banco Mundial e adotados pelos países periféricos nos anos 1990 (incluindo Brasil, Venezuela e Argentina) acentuaram o perfil de concentração de renda e de desigualdade social, resultando em graves situações de desemprego e aumento da pobreza. Essa lógica da crescente desigualdade, batizada por alguns com o nome de “neoliberalismo”, foi explicada com precisão e clareza pelo sociólogo francês Thomas Piketty, no livro O capital no século XXI, lançado em 2014. A lógica ainda prevalece: em 2015, as 62 famílias mais ricas do planeta amealhavam uma fortuna equivalente à compartilhada pela metade mais pobre da humanidade, segundo dados reunidos pela ONG britânica Oxfam. Em resposta a essa situação, surgiram vários movimentos sociais importantes em todo o mundo, incluindo os países centrais do sistema capitalista, como os Estados Unidos, Alemanha, França e Itália. Trópico de Câncer Em novembro de 1999, A em Seattle (Estados Unidos), grupos anarquistas, CARÁGUA OCEANO ambientalistas, membros ATLÂNTICO de sindicatos, ativistas de direitos humanos e reliVENEZUELA giosos realizaram grandes 3 protestos contra a OrgaCOLÔMBIA nização Mundial do Comércio (OMC), reunida OR 2 na cidade para discutir as regras do comércio entre PERU os países no século XXI. BRASIL Cerca de 50 mil pessoas gritaram slogans contra 4 o capitalismo global e os BOLÍVIA seus efeitos sobre os países pobres, trabalhadores e o PARAGUAI meio ambiente. Não se via CHILE manifestação de protesto desse porte no país desde a Guerra do Vietnã, na déURUGUAI cada de 1960. Daí nasceu a ideia de organizar o Fórum ARGENTINA rda” BLOCOS Social Mundial, lançado MERCOSUL em Porto Alegre, em 2001, com o lema “Um outro ALBA mundo é possível”.

erda” latino-americana

2011/–––

ALIANÇA DO PACÍFICO



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Esse contexto possibilitou o nascimento de movimentos políticos com particularidades nacionais, como foi o caso do lulismo, do chavismo e do kichnerismo. Se é possível identificar elementos comuns aos três, um deles, certamente central, será a adoção de um discurso fundado no apelo às supostas virtudes dos povos de seus respectivos países, como chave para mobilizar e construir consensos. E todos foram marcados pela personalidade forte, algo messiânica, de seus proponentes: Luís Inácio Lula da Silva, Hugo Chávez e Néstor Kirchner. O termo “populista”, normalmente usado para descrever essa característica, é problemático, por estar carregado de significados que remetem a outros contextos históricos. Com ênfases distintas, todos apostaram, ao menos retoricamente, no desenvolvimentismo nacional, mas sem adotar programas econômicos historicamente vinculados às concepções desenvolvimentistas, como as reformas de base (agrária, saúde, educação, sistema tributário etc.), industrialização e construção de infraestrutura. Pelo contrário, aliás, apostaram na valorização das commodities, acelerando a “reprimarização” das economias de seus países [veja a matéria à pág. 6]. A “certidão de nascimento” do lulismo foi a Carta aos Brasileiros, lançada em 2002, pelo então candidato à Presidência Lula, líder histórico do Partido dos Trabalhadores. O documento foi uma espécie de ruptura com o programa do próprio partido, ao anunciar os compromissos de respeitar todos os contratos com os bancos internacionais e nacionais, bem como as regras do jogo estabelecidas pela OMC. Surgia o “Lulinha paz e amor”, que substituía uma retórica beligerante por um programa sem referências socialistas, que pretendia promover a conciliação nacional e mitigar os efeitos da desigualdade mediante programas sociais assistencialistas (principalmente o Bolsa Família). Alçado à condição de chefe de Estado, Lula se tornou maior do que o PT, para se apresentar como um novo “pai dos pobres”, ao mesmo tempo que fazia todas as concessões às altas finanças. O chavismo é mais complicado por envolver um componente ideológico conhecido como “bolivarianismo”, ou “socialismo do século XXI”. Egresso da elite das forças armadas da Venezuela, Chávez venceu as eleições, em 1998, e foi várias vezes reeleito, em processos democráticos limpos, até morrer, em 2013. Financiado por quantidades exorbitantes de petrodólares, numa época em que o barril chegou a custar, em média, US$ 110, Chávez promoveu vastos programas sociais. Embora tenham erradicado o analfabetismo e garantido acesso à saúde pública e a centros populares de alimentação, tais programas não superaram os limites do assistencialismo. No plano externo, Chávez alimentava uma forte retórica anti-imperialista, ancorada na ideia da união dos povos latino-americanos (que atribuía, confusamente, a Simón Bolívar, líder das lutas de independência do século XIX contra o Império Espanhol nas Américas). No fim, a queda brutal do preço do barril de petróleo – em torno de US$ 35, atualmente – secou a fonte das receitas externas, implodindo o chavismo. O kirchnerismo foi um resultado direto e imediato da crise que destruiu a economia argentina, no alvorecer do século XXI. A dívida externa saltou de US$ 4,5 bilhões, em 1991, para US$ 145 bilhões, uma década depois. O país decretou moratória unilateral em 2001. Ao assumir a Presidência do país, em 2003, Néstor Kirchner, integrante histórico do movimento peronista, também adotou uma retórica nacional-desenvolvimentista, denunciando a ganância do capital financeiro. Assumiu uma estratégia política que era, ao mesmo tempo, assistencialista (com a adoção de programas sociais) e corporativista, no mais puro estilo peronista, buscando sustentação nos sindicatos. Em 2005, ao aceitar a renegociação da dívida externa com os bancos credores, Kirchner se comprometeu a pagar apenas 25% do montante total. Em contrapartida, vendeu uma parte dos títulos “podres” da dívida a Hugo Chávez, que se tornou um parceiro indispensável da Argentina e, de certa forma, tutor do governo Kirchner. Por essa via, o kirchnerismo se tornou uma variante do chavismo. O conturbado processo político, econômico e social que afeta dramaticamente a América Latina assinala o encerramento do lulismo, do chavismo e do kirchnerismo. Mas é uma vírgula, não um ponto final, pois persistem as contradições, tensões e desigualdades que levaram ao surgimento desses movimentos políticos.

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américa latina

Será o fim de uma era que nem começou? Visita de Barack Obama a Cuba foi saudada como a inauguração de uma nova era. Mas, nas eleições norte-americanas, a América Latina é pintada como fonte de ameaças, não como um espaço de oportunidades

© Ismael Francisco/Cuba Debate/Fotos Públicas

ias depois de Barack Obama, foi a vez de Mick Jagger. No maior show musical da história cubana, quase meio milhão de pessoas aglomeraram-se na Ciudad Deportiva de Havana para ver e ouvir os Rolling Stones, um ícone duradouro do Ocidente, da economia de mercado e da cultura pop. “Depois de hoje, posso morrer. É como meu último desejo, ver os Stones”, disse Joaquin Ortiz, um vigia noturno de 62 anos. “Isso era proibido. Nós não podíamos ter os Beatles ou alguns cantores latino-americanos. Agora, podemos ouvir o que quisermos”, explicou outro fã. Um deles carregava um cartaz subversivo, com a língua de Jagger evoluindo a partir da boca de Che Guevara. Cuba provavelmente não será a mesma, depois da passagem de Obama e dos Stones. Mas parece precipitado nutrir expectativas exageradas, tanto no caso de Cuba quanto no das relações mais amplas entre Washington e a Primeiro, Barack Obama (na foto, com Raúl Castro), em América Latina. seguida os Rolling Stones visitam Havana: pode ser o fim A visita de Obama foi cuidadosamente de uma era, mas nada é tão simples assim negociada, em cada um de seus detalhes. O presidente norte-americano tratou o líder cubano Raúl Castro como um chefe de Estado legítimo, não como o ditador de uma republiqueta de banana. O Castro oficial prestou homenagem a Obama, mas dentro de certos limites: num gesto diplomático incomum, não compareceu à chegada do Air Force One ao aeroporto de Havana. O outro Castro, Fidel, não se encontrou com o presidente norte-americano – e a TV cubana mostrou imagens de seu encontro prévio com o venezuelano Nicolás Maduro. A valsa seguiu um roteiro preciso. Obama discursou num teatro tradicional de Havana, para um público constituído principalmente de convidados da embaixada norte-americana. No seu discurso, tocou em duas teclas paralelas e cruciais: exaltou os valores da democracia e da liberdade política mas, ao mesmo tempo, enfatizou que as mudanças em Cuba surgiriam da vontade dos próprios cubanos, “e de ninguém mais”. Suas palavras foram transmitidas pela TV oficial, ao vivo e sem cortes. Um dia antes da aterrissagem do Air Force One, dezenas de dissidentes foram detidos pela polícia – mas voltaram às suas casas algumas horas depois. No fim, como programado, o presidente norte-americano reuniu-se com um grupo de Ostpolitik (“Política do Leste”) rendeu seus frutos, con13 dissidentes, registrando suas demandas pela libertação tribuindo para a queda do Muro de Berlim, uma década dos presos políticos. e meia mais tarde. Tal como Brandt, Obama justifica sua Obama fez uma aposta de longo prazo, similar à de política para Cuba como um reconhecimento do fracasso Willy Brandt, antigo primeiro-ministro da Alemanha histórico da estratégia do isolamento e uma aposta nas Ocidental, que promoveu a normalização das relações virtudes da circulação de ideias. com a Alemanha Oriental no início da década de 1970. A abertura para Cuba parece irreversível. Hillary ClinO social-democrata Brandt investiu nos contatos pes- ton defende a iniciativa de Obama, assim como Bernie soais, culturais e comerciais entre as duas Alemanhas, Sanders, e mesmo o republicano Donald Trump sugere acreditando que plantava sementes subversivas no solo que não restauraria a política de isolamento. O embargo seco de um regime de partido único. Não foram poucos econômico, ainda que relaxado, permanece em vigor – e os historiadores que asseguram que a ousada iniciativa da seu desmantelamento depende de um Congresso resistente MUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDO

a mudanças. Mas uma nova ruptura de relações só ocorreria na hipótese improvável de triunfo do republicano Ted Cruz. A visita a Cuba inscreve-se na moldura mais ampla de uma retomada das relações entre os Estados Unidos e a América Latina. A normalização diplomática com o regime castrista destina-se a passar uma borracha sobre uma fonte de irritantes tensões. Faz parte da linha geral adotada por Obama minimizar a importância dos discursos antiamericanos tão disseminados numa região pontilhada por lideranças como Hugo Chávez, Cristina Kirchner, Lula, Evo Morales e Rafael Correa. Numa entrevista à revista The Atlantic, o presidente norte-americano argumentou que sua disposição de dialogar em conferências regionais cumpriu a finalidade de conferir a esses líderes sua “verdadeira dimensão”, em vez de “inflá-los ao estatuto de gigantescos adversários”. À luz da nova conjuntura internacional, a estratégia de Obama não parece despropositada. O refluxo da maré da “nova esquerda” latino-americana é, hoje, um fenômeno evidente [veja a matéria à pág. 6]. Com o kirchnerismo fora de combate, o lulopetismo acuado e o chavismo em seus estertores, abrem-se estradas diplomáticas que estavam fechadas para os Estados Unidos. Contudo, paradoxalmente, são os próprios candidatos à Casa Branca, dos dois partidos, que amontoam pedras no caminho desimpedido. Os republicanos Trump e Cruz prometem expulsar 11 milhões de hispânicos estabelecidos nos Estados Unidos [veja a matéria à pág. 3]. Seus discursos xenófobos, odientos, provocam reações iradas na elite política mexicana e na opinião pública das sociedades latino-americanas. E, para além disso, nenhum dos principais candidatos, com a solitária exceção de Cruz, revela entusiasmo pela promoção dos intercâmbios de comércio e investimentos com a América Latina. Trump promete desfazer o Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta), impor taxas alfandegárias exorbitantes aos produtos exportados por empresas norteamericanas que operam no México e vetar novos tratados comerciais. Pela esquerda, Sanders adota um discurso igualmente protecionista. Hillary não chega nem perto dos dois, mas hoje penitencia-se por seu entusiasmo original pelo projeto da Parceria Transpacífica (TPP), um mega-acordo envolvendo os Estados Unidos e diversos países da Ásia/Pacífico, inclusive México, Chile, Peru e Colômbia. No cartaz do fã cubano, um Guevara convertido ao rock mostra a língua para o muro de proibições que ajudou a erguer. A metáfora aplica-se, porém, aos sucessores de Obama. De certo modo, bem na hora em que há uma audiência propensa a escutá-los, eles mostram suas línguas para a América Latina. © Cuba Debate/Fotos Públicas

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américa latina

Macri enfrenta acusações de violação de direitos humanos Renato Rocha Mendes Especial para Mundo

Nos 40 anos do golpe militar da Argentina, o kirchnerismo procura associar a figura do novo presidente à ditadura militar

a semana em que se recordou os 40 anos do início da ditadura militar argentina implantada em março de 1976 e seu terrorismo de Estado, o conservador Mauricio Macri completou cem dias no poder sob críticas de autoritarismo e violação de direitos humanos. Organizações nacionais e internacionais protestaram contra o suposto descaso do governo em relação ao tema tão sensível no país. Engrossaram o coro movimentos de esquerda e os kirchneristas. Eles acusaram o presidente de macular a memória dos 40 anos do golpe que retirou Isabelita Perón do poder ao receber Barack Obama no feriado do dia 24 de março. Segundo os kirchneristas e seus aliados, o novo governo fez seu primeiro preso político em janeiro, com a detenção de Milagro Sala, fundadora da organização esquerdista Túpac Amaru. Sala foi presa por “fechar vias” e “perturbar a ordem”. A ordem de prisão partiu de Geraldo Morales, governador da província de Jujuy e confirmada por um juiz provincial. Sala declarou-se em greve de fome e recebeu o apoio de movimentos políticos e sociais, como as Mães e as Avós da Praça de Maio, além de artistas, intelectuais e acadêmicos. O Grupo para Detenções Arbitrárias da ONU demandou a libertação da ativista, exigindo um posicionamento de Macri, mas não obteve resposta. O Centro de Estudos Legais e Sociais (CELS), entidade de defesa dos direitos humanos, qualificou a prisão como um “gravíssimo precedente de criminalização do protesto social”. Também protestaram a Anistia Internacional e a Comissão Interamericana de Direitos Humanos. Um incidente complicou um pouco mais a inauguração do governo de Macri. Ainda em janeiro, Darío Lopérfido, gestor cultural ligado a Macri e ministro da Cultura da cidade de Buenos Aires, declarou que o número de 30 mil desaparecidos na ditadura militar era uma invenção, definida em uma mesa de negociações. Em resposta, um grupo de intelectuais, artistas e funcionários da cultura pediram a sua demissão. Os autores aproveitaram o incidente para acusar o governo de, por ação ou omissão, trair o compromisso político nacional “com a verdade, a memória e a justiça”. As acusações são incessantes. Macri designou por decreto dois juízes para a Suprema Corte do país, o que foi qualificado como iniciativa autoritária e antidemocrática. Na base da polêmica está a tentativa do novo governo de eliminar o controle kirchnerista sobre o tribunal constitucional. Além disso, desenvolve-se uma luta política e jurídica em torno da Ley de Medios, a legislação criada por Cristina Kirchner para enfraquecer o grupo de comunicação proprietário do jornal Clarín. Finalmente, Macri e sua vice, Gabriela Michetti, demitiram milhares de funcionários públicos alinhados com o kirchnerismo, sob o argumento de que aparelhavam politicamente a máquina administrativa. No fundo, o novo governo tenta exercer autoridade sobre instituições públicas que, ao longo de muitos anos, operaram sob a influência dos Kirchner. 

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© AFP

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O presidente argentino Mauricio Macri foi fortemente criticado pela oposição, por ter recebido, em Buenos Aires, o presidente Barack Obama, na semana de março em que o país recordava os 40 anos da implantação da ditadura pelo general Jorge Videla (ao centro, na foto), com o apoio da Casa Branca A longa sombra da “guerra suja” da ditadura militar continua a pesar sobre a política argentina. A ferida aberta pelo terrorismo de Estado, que deixou um saldo de cerca de 30 mil desaparecidos políticos, não se fechou mesmo com os julgamentos, entre 2007 e 2015, de mais de 2,7 mil acusados por crimes contra a humanidade. Tudo começou em 24 de março de 1976, quando a Junta Militar, formada por comandantes das três forças armadas, tomou o poder e anunciou um Processo de Reorganização Nacional. A presidente Maria Estela Martinez Perón (Isabelita Perón) foi presa, junto com seus ministros, líderes sindicais, militantes peronistas e de esquerda, jornalistas e intelectuais. Nos anos seguintes, de barbárie e trevas, a maior parte dos presos entrou para listas de desaparecidos políticos. A prática do desparecimento consistia no sequestro das vítimas e seu encarceramento nos mais de 300 centros clandestinos de detenção (CCD), localizados nas dependências militares ou policiais, onde eram torturadas e assassinadas. As práticas repressivas foram enquadradas em crimes de lesa-humanidade, pelo grau de crueldade utilizado. A apropriação ilegal de bebês, filhos de pais “subversivos”, fez com que cerca de 500 crianças fossem sequestradas e adotadas ilegalmente.

O fracasso da investida dos militares na Guerra das Malvinas, em 1982, anunciou a derrocada da ditadura. No ano seguinte, a Argentina elegeu democraticamente Raúl Alfonsín, da União Cívica Radical, o grande partido rival do peronismo. Mas o trauma ultrapassou gerações e, na luta política atual, mobilizam-se os símbolos do passado. O discurso do kirchnerismo e das correntes mais à esquerda procura identificar o presidente conservador com a sanguinária ditadura. A reação de Macri aparece na promessa de dar continuidade à política de “memória e justiça” conduzida pela rival e antecessora. O cenário é de uma prolongada confrontação política e ideológica, em função da fragilidade do governo de Macri. O presidente foi eleito com vantagem de apenas 580 mil votos e é minoritário tanto na Câmara quanto no Senado. Os peronistas controlam os sindicatos e a economia enfrenta um ciclo recessivo. Desde a redemocratização, só dois presidentes não pertenciam ao Partido Justicialista (peronista): Alfonsín e Fernando de la Rúa. Ambos foram forçados a renunciar antes do encerramento de seus mandatos.

Renato Rocha Mendes é jornalista

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brasil

Crise da Petrobras atrasa exploração do pré-sal O regime de partilha, a estratégia de conteúdo nacional e o congelamento dos preços dos derivados provocaram uma explosão no endividamento da Petrobras. A promessa do pré-sal transformou-se em pesadelo

D

ez anos após o anúncio da descoberta de petróleo na camada do pré-sal, os resultados nunca estiveram tão distantes daquilo que foi apregoado pelo então presidente Lula e por sua ministra de Minas e Energia, Dilma Rousseff. Naquela ocasião, Lula afirmava que a exploração do pré-sal seria “a segunda independência do Brasil”, “uma dádiva de Deus” e um “bilhete premiado”. Dilma, por sua vez, dizia que a exploração do pré-sal seria uma fonte de “felicidade material e espiritual”, abriria “as portas para o futuro” e geraria recursos para “mais casas, mais comida e mais saúde” [veja o mapa]. No momento do eufórico anúncio da descoberta, o governo explorou politicamente o fato, mas não levou na devida conta que o assunto era tremendamente complexo, pois esbarrava em várias questões que se entrelaçavam: a dinâmica específica do mercado internacional do petróleo; o papel da Petrobras; o grau e o formato da participação estatal em todo o processo; a distribuição dos ganhos (royalties) entre a União e as demais entidades federativas (estados, municípios e o Distrito Federal); e a destinação dos recursos monetários originados nessa atividade. Isso sem falar da questão ambiental em função dos efeitos deletérios da queima de combustíveis nas mudanças climáticas globais. A estratégia do governo foi focar integralmente o desafio de desenvolver a nova fronteira petrolífera de custo elevado, num cenário internacional marcado pelos preços altos do petróleo. Quando houve o anúncio da descoberta do pré-sal, o preço do barril avançava rumo à marca de US$ 100. Passados dez anos, despencou para a faixa dos US$ 40 – e, no horizonte de médio prazo, não se vislumbra um aumento que chegue próximo à cotação de 2006 [veja o boxe]. No patamar atual de preços, a extração do petróleo do pré-sal fica muito comprometida, quase inviável, com todas as consequências advindas desse fato. Há mais. Se, entre 2006 e 2010, registrou-se ligeiro crescimento da produção nacional de petróleo, depois disso o volume extraído nos campos do pré-sal tem apenas compensado o declínio dos poços maduros da Bacia de Campos. Outro aspecto crucial que contribuiu para que não se atingisse o sucesso esperado do pré-sal foi o estabelecimento das regras sobre o papel da Petrobras no processo. Em agosto de 2009, o governo promulgou um novo marco regulatório para a exploração do petróleo na província geológica do pré-sal. No lugar do regime de concessão, que vinha sendo adotado desde 1997, fixou-se o regime de partilha. Segundo as regras do regime de concessão, a participação da iniciativa privada continua em vigor nas áreas do pós-sal, isto é, acima da camada salina. Já nos blocos do pré-sal, as empresas que obtêm direitos sobre eles, através de leilões, devem se associar à Petrobras, que arca obrigatoriamente com um mínimo de 30% dos investimentos na exploração e extração, tornando esse regime quase monopólio da estatal. O governo alegou que o regime de partilha protege o patrimônio nacional. Contudo, tornando-se operadora de todos os campos do pré-sal, com participação obriga-

tória de 30% em todos os projetos, a Petrobras teve que buscar capitais no mercado internacional, endividando-se pesadamente. O comprometimento financeiro da estatal petrolífera ampliou-se também devido à adoção da polêmica estratégia de conteúdo nacional, isto é, da preferência por fornecedores brasileiros na extensa cadeia industrial ligada à exploração de petróleo e gás. A proteção de mercado encarece os produtos e serviços adquiridos pela Petrobras, reduzindo sua eficiência e afastando potenciais investidores. A curva do endividamento da Petrobras acentuou-se com o congelamento dos preços da gasolina e do diesel comercializados no Brasil durante o segundo mandato de Dilma Rousseff. A medida, adotada como recurso para conter a inflação, desconectou as receitas e as despesas da estatal petrolífera, ajudando a produzir uma dívida de R$ 522 bilhões, a maior entre todas as companhias de petróleo do mundo. O balanço da empresa de 2015, recentemente

divulgado, com prejuízo de quase R$ 35 bilhões, cerca de 60% maior que o de 2014, reflete parcialmente o desastre [veja o Gráfico 1]. Para reduzir a dívida, a Petrobras anuncia sucessivos cortes nos investimentos, cujas consequências são a desestruturação de toda a cadeia de fornecedores, com implicações sobre emprego e renda das regiões afetadas, e uma drástica revisão das metas de produção para os próximos anos. Ao mesmo tempo, a estatal decidiu vender parte de seus ativos, numa conjuntura de depreciação de seus valores provocada pela queda dos preços internacionais do petróleo e pela própria fragilidade da empresa. Abaixo da camada de sal, há petróleo em abundância. Mas o recurso natural, em si mesmo, não é riqueza. A história dos últimos dez anos confirma uma regra inflexível, conhecida há muito: riqueza é, sempre, um fruto da atividade econômica.

Mapa 1

A região do pré-sal

Gráfico 1

Balanço da Petrobras (em bilhões de reais)

MG

33,9

SP

ES RJ Bacia de Santos

Bacia de Campos

s-sal da pó Cama l l a a s da de a pré-s Cama Camad

25,9

35,2 29,0

33,3

21,5

21,2

23,6

+/- 2 km De 5 a 7 km

0

-21,6 -34,8 2006

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2008

2009

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2011

2012

2013

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O petróleo miniaturizado O preço do barril de petróleo é, ao lado da cotação do dólar, a principal régua da economia mundial. A elevação do preço do barril transfere imensos volumes de capitais para os países produtores e exportadores – e, também, para a extensa cadeia produtiva ligada à extração e ao refino do petróleo. Na mão oposta, a queda do preço do barril desloca violentamente os capitais na direção dos países importadores e de outros setores da economia, especialmente os serviços. Sob o impacto da ascensão chinesa, os preços do petróleo conheceram um longo ciclo de alta, que perdurou até o segundo semestre de 2014, interrompido apenas temporariamente Gráfico 2 pelos efeitos da crise financeira global de 2008-2009. Contudo, a desaceleração econômica da China provocou Preços do barril de petróleo uma brusca retração dos preços do barril, de mais de US$ US$ (ajustados pela inflação) 100 em março de 2014 para menos de US$ 40 em março 120 110 de 2016 [veja o Gráfico 2]. 100 O petróleo sofreu súbita miniaturização, que deve 90 80 perdurar nos próximos anos. As implicações econômicas 70 e geopolíticas disso são devastadoras para os exportadores 60 50 de combustíveis fósseis, como os países do Golfo Pérsico, 40 a Rússia e a Venezuela. Obviamente, eles têm o mesmo 30 20 impacto para a Petrobras, engajada na exploração das mar/06 mar/07 mar/08 mar/09 mar/10 mar/11 mar/12 mar/13 mar/14 mar/15 mar/16 reservas ultraprofundas do pré-sal. Fonte: US Energy Information Administration

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Nelson Bacic Olic Da Redação de Mundo

Uma radiografia das fontes energéticas renováveis no Brasil O

século XX foi a era do petróleo e, de forma mais abrangente, dos hidrocarbonetos, fontes energéticas não renováveis. Em 1973, ano do primeiro “choque do petróleo”, essa matéria-prima respondia por 46% da matriz energética mundial e, juntamente com o carvão e o gás natural, perfazia 87% do consumo energético global. A busca de alternativas ao petróleo entrou no radar dos governos desde a súbita elevação dos preços do “ouro negro”, em 1973. Nos anos que se seguiram, vultosos investimentos foram feitos no desenvolvimento de todas as fontes de suprimentos energéticos que pudessem substituir o combustível dos fornecedores da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP). O esforço incluiu prospecções petrolíferas off shore, ou seja, nas plataformas marítimas, construção de usinas nucleares, desenvolvimento da utilização de gás natural e construção de represas hidrelétricas. Em escala bem menor, foram dedicados recursos a fontes energéticas renováveis, especialmente a solar, a eólica e a biomassa. A retração dos preços do petróleo, na década de 1980, reduziu brutalmente os investimentos em fontes renováveis. Mas o interesse nelas voltou a ganhar corpo a partir da última década do século XX, em decorrência da conjugação de dois fatores: a preocupação com o impacto da queima de petróleo e do carvão mineral sobre o meio ambiente e o novo ciclo de alta dos preços do petróleo, com impactos sobre a segurança energética dos países importadores. Na nova conjuntura, a busca por formas limpas e renováveis de energia passou a mobilizar um grande espectro de atores políticos, sociais e econômicos ao redor do mundo. Como consequência, ampliam-se os investimentos em biocombustíveis e em fontes como a eólica e a solar. Mesmo assim, essas três fontes respondem, atualmente, por apenas pouco mais de 2% do total da energia primária consumida no planeta, que ainda é comandada pelos hidrocarbonetos não renováveis [veja o Gráfico 1]. Entre as dez maiores economias do mundo atual, a matriz energética do Brasil destaca-se como aquela que possui maior equilíbrio entre fontes renováveis e não renováveis [veja o Gráfico 2]. Isso se deve a uma combinação de circunstâncias naturais favoráveis (climáticas, hídricas e geomorfológicas) com estratégias políticas 11

Mapa 1

Mapa 2

Área potencial para geração de energia eólica

Fonte: Adaptado de Ekosbrasil.org

Área potencial para geração de energia solar

Fonte: Adaptado de Ekosbrasil.org

Gráfico 1 Matriz energética mundial (2012) 13,2%

Fontes não renováveis (petróleo, carvão, gás e nuclear)

construídas nas décadas de 1970 e 1980. As crises econômicas nos anos 1990 e as pressões ambientalistas limitaram a expansão delas, naquela década. Só recentemente Gráfico 2 deflagrou-se a implantação de novas grandes usinas, como Jirau Matriz energética brasileira (2014) e Santo Antônio (Rio Madeira) e Belo Monte (Rio Xingu). Fontes não renováveis Nas últimas décadas, certas 39,3% espécies vegetais passaram a ser processadas industrialmente 60,7% Fontes renováveis para a obtenção de energia. Os chamados biocombustíveis são divididos em dois grandes tipos: o etanol e o biodiesel. O primeiro, que o Brasil foi o pioneiro a produzir, corresponde ao álcool estatais de pesquisa e exploração dos recur- combustível, usado para abastecer veículos variados, misturado à gasolina (álcool sos renováveis. As principais fontes renováveis do anidro) ou substituindo a gasolina (álcool Brasil são, na atualidade, a hidráulica, a hidratado). No Brasil o etanol é obtido biomassa, a eólica e a solar. Em conjunto, essencialmente pela destilação da cana-deelas representavam, em 2014, cerca de açúcar e representa a quase totalidade dos 40% da matriz energética do país e quase biocombustíveis líquidos. Embora a cana 80% da matriz elétrica, isto é, do conjunto possa ser produzida em amplas áreas do de fontes primárias voltadas para a produ- país, as usinas se concentram principalmente em São Paulo, Minas Gerais, Goiás ção e consumo de energia elétrica. A fonte hidráulica, representada pelas e Mato Grosso do Sul. A energia eólica é a grande vedete das grandes usinas hidrelétricas e pequenas centrais hidrelétricas (PCH), é a fonte energias renováveis na última década, primária dominante da energia elétrica apesar de ser responsável por pouco mais consumida no país. As maiores hidre- de 2% da matriz elétrica. Não obstante, os létricas, como Itaipu e Tucuruí, foram analistas estimam que, em 2020, sua parti86,8%

Fontes renováveis (hidráulica, biomassa, eólica e solar)

Fonte: Agência Internacional de Energia

Fonte: Ministério de Minas e Energia

ABRIL 2016

cipação deverá quintuplicar, transformando-a na segunda maior fonte de geração elétrica. Atualmente, o Brasil é o décimo país em capacidade eólica instalada. O crescimento exponencial dessa fonte nos últimos anos explica-se por uma convergência de aspectos favoráveis. O primeiro é o enorme potencial eólico do Brasil, apenas parcialmente catalogado. Alguns especialistas afirmam que o país é detentor dos melhores ventos do mundo, constantes, unidirecionais e sem grandes rajadas. Além disso, tem sido vertiginosa a inovação tecnológica do setor e o barateamento dos componentes de geração. Hoje o preço de geração de energia das eólicas só é maior que o das hidrelétricas. A criação, pelo governo federal, do Programa de Incentivos às Fontes Alternativas de Energia Elétrica (Proinfa), voltado para as regiões Nordeste e Sudeste, permitiu ampliar a participação de fontes alternativas, como também a racionalização da oferta energética por meio de complementaridade entre os regimes eólico, de biomassa e hidrológico. Por fim, em 2012, mudanças nas regras nos leilões de energia tornaram o modelo mais competitivo. As regiões brasileiras com maior número de parques eólicos e maior capacidade instalada são a Nordeste e a Sul. Juntas, respondem por mais de 80% da geração energética e dos investimentos previstos nos próximos anos. Entre os estados, destacam-se Rio Grande do Norte, Ceará, Bahia e Rio Grande do Sul, que concentram quase 90% da capacidade instalada no país [veja o Mapa 1]. Em agosto de 2015, quando o Nordeste atravessava uma das mais longas estiagens de sua história, a fonte eólica chegou a participar com 31% da geração energética regional. Quanto à fonte solar, ela ainda é inexpressiva, mas nos últimos três anos parece trilhar um caminho similar ao das eólicas. Por sua condição de país dominantemente tropical, amplas áreas do território recebem elevados índices de insolação ao longo de todo ano [veja o Mapa 2]. Em 2014, o Brasil conseguiu realizar o leilão mais bemsucedido de energia solar do mundo. Por enquanto, o século XXI continua sendo do petróleo. Mas o seu reinado absoluto pode estar caminhando para o fim.

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José Arbex Jr. Editor-Geral de Mundo

As aventuras de um encontro de civilizações

“N

O Califado de Córdoba (por volta do ano 1000) REINO DOS FRANCOS REINO DE LEON

© Sammy Six/Flickr/Creative Commons

Lisboa

CONDADO DE CASTELA

REINO DE NAVARRA

CONDADO DE BARCELONA

Rio Guadiana Córdoba Rio Guadalquivir Sevilha

Tanger OCEANO ATLÂNTICO

MAR MEDITERRÂNEO

Gibraltar

ÁFRICA (MARROCOS)

© Andrew Gould/Flickr/Creative Commons

esta estalagem, Dom Quixote foi sagrado cavaleiro.” Estamos em Mancha, situada a aproximadamente 140 quilômetros ao sul de Madri e porta de entrada para a Andaluzia, região autônoma da Espanha cujo nome provém do árabe Al-Andalus, que é como os muçulmanos chamavam a Península Ibérica, por eles ocupada entre os séculos VIII e final do XV. A emoção de conhecer um dos locais imortalizados pela obra de Miguel de Cervantes é apenas um “aperitivo”: o anúncio de uma viagem fantástica por muitas camadas de tempos históricos superpostos, que convivem por força de vibrantes interpenetrações culturais. A Andaluzia, ponto de encontro entre o Islã e a Europa cristã, é uma demonstração viva, colorida, festiva e saborosa da falácia da tese do “choque de civilizações”. Andaluzia é a segunda maior comunidade autônoma espanhola e a mais populosa. Sua paisagem é belíssima, da Costa do Sol, onde ficam algumas das praias mais “badaladas” da Europa, aos vastos campos de oliveiras, passando por fascinantes centros históricos, incluindo Sevilha (capital), Córdoba, Granada e Málaga. Ali, construções mouriscas e medinas (bairros árabes) convivem com igrejas católicas e sinagogas, testemunhando a força de hábitos que sobreviveram ao período da Reconquista, concluído em 1492, quando os reis católicos (Isabel de Castela e Fernando de Aragão) expulsaram árabes e judeus. A grande “mistura” se faz sentir na paisagem arquitetônica, na culinária, na música, na linguagem cotidiana. As antigas fortalezas mouras (alcazabas), as residências reais (alcázares), mesquitas e jardins provocam a imaginação e remetem ao mundo das “mil e uma noites” (o recurso ao clichê, aqui, é inevitável). Sevilha, às margens do Rio Guadalquivir, é o próprio cenário evocado pela imaginação quando se pensa nas touradas, dançarinos de flamenco e vestidos com muitos babados e estampado com bolinhas. E também nos bairros históricos, com ruazinhas estreitas, calçamento de paralelepípedos e deliciosos restaurantes de tapas. É também uma cidade monumental, com três construções consideradas Patrimônio Mundial da Humanidade pela Unesco. Em algumas ruelas, casas de chá e condimentos típicos enchem o ar de aromas.

Das magníficas construções mouras na Andaluzia, como a mesquita de Córdoba (foto à dir.), ao Deserto do Saara, no Marrocos, os cenários evocam uma era, a do Califado de Córdoba, em que uma forte interpenetração cultural entre islâmicos, cristãos e judeus construiu um legado cuja força atravessa os séculos e desafia a suposta “teoria” do “choque de civilizações” Em Córdoba, encontra-se a maior e mais bela mesquita construída fora do atual mundo árabe-muçulmano. Os locais mais antigos, situadas em volta da mesquita, incluindo o bairro judeu, são entrecortados por ruas pequenas, estreitas e muito floridas. A cidade foi a capital do califado, entre 929 e 1031 [veja o mapa]. Finalmente, em Granada, encontra-se o famoso Palácio do Alhambra, com seus grandes jardins, seus sistemas incríveis de irrigação, suas plantações de rosas, suas paredes azulejadas contendo inscrições do Corão escritas pela arte caligráfica desenvolvida pelo Islã. Proibidos de representar a imagem de seres humanos e seres vivos, atributo unicamente permitido a Deus, os artistas desenvolveram com grande esmero o desenho da escrita. De fato, o Alhambra não é apenas um palácio, mas muitos palácios que foram sendo construídos por várias gerações de califas. Encerrada a visita à Andaluzia, é hora de atravessar o Estreito de Gilbratar, a partir de Algeciras, rumo ao Porto de Tanger, no Marrocos, onde começa uma nova etapa de grandes aventuras de descobertas. A própria cidade foi um fervilhante centro cultural, no século passado, destino de aventureiros, escritores e artistas que desejavam escapar da atmosfera moral,

política e ideológica “engessada” da Europa, em busca de novos horizontes no que consideravam o exótico “Oriente”. Um desses escritores, o americano Paul Bowles, mudou-se de mala e cuia para Tanger, onde escreveu vários livros que acabaram servindo de inspiração para o cineasta Bernardo Bertolucci, diretor de O céu que nos protege (1990). Se a Andaluzia oferece uma experiência para todos os sentidos, Marrocos prolonga e intensifica a sensação, com sua culinária fantástica (em que os condimentos, locais e importados de toda a África, substituem o sal, usado em pouca quantidade), que inclui, obviamente, o famoso cuscuz, e suas paisagens inesquecíveis, começando pelo Deserto do Saara, onde foram filmados cenas do recente Perdido em Marte (2015), além de muitos outros, como Lawrence da Arábia (1962), Babel (2006) e o próprio O céu que nos protege. Para os que gostam de viver uma aventura diferente, é possível fazer passeios no deserto (montados no camelo, ou em confortáveis 4x4), a partir de Erfoud, e dormir em tendas, no estilo beduíno. Os sortudos poderão até sentir a mágica de uma noite de lua cheia em pleno deserto. As cidades prometem experiências inesgotáveis, com suas kasbahs (antigas cidades

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2016 ABRIL

fortificadas de origem bérbere), em que as ruas mais se parecem com labirintos. Nos grandes mercados, especialmente em Fez e Marrakech, a palavra de ordem é barganhar o máximo possível. Pode parecer estranho, mas um comerciante marroquino típico ficará ofendido se o cliente simplesmente aceitar o preço proposto pela mercadoria, sem tentar uma redução do valor. Ele se sentirá desprezado. Por isso, o momento da compra acaba virando um ritual especialmente divertido. Na kasbah de Fez, encontra-se a Universidade Al-Quaraouiyine, a mais antiga do mundo ainda em funcionamento, criada em 859. Ali ensinaram, entre outros grandes sábios, Ibn Khaldun, Averrois e Mussa Maimônides. Os marroquinos, em geral, são alegres e receptivos – como, aliás, os andaluzes. Apesar de ser um país islâmico, as mulheres são uma forte presença em todos os locais, onde exercem, praticamente, as mesmas funções tradicionalmente vistas como “masculinas”, incluindo motoristas, policiais, funcionárias públicas. Usar ou não o veu é uma opção. A reforma nos costumes se deve, em grande parte, às iniciativas do rei Mohamed VI, que aposta na transformação do país em polo turístico global.

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Jornal mundo abril 2016  
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