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ANO 12

Nº 4

tiragem:

AGOSTO/2016

18.000 exemplares

Cauby Peixoto (1931-2016)

“Nem sei como eu cantava assim” Valdir Mengardo Especial para Mundo

A carreira do cantor, impulsionada pela “era do rádio”, nos anos 1940 e 1950, confunde-se com a história da música popular brasileira

Brasil perdeu, em 15 de maio, um de seus maiores ídolos populares. Cauby Peixoto navegava como ninguém entre a preferência das camadas menos favorecidas da população até a sua elite intelectual. Nascido em fevereiro de 1931, Cauby inicia sua carreira, aos 16 anos, em plena era do rádio, um dos períodos mais férteis para a música brasileira. Entre os anos 1930 e finais dos anos 1950 o rádio constitui-se em uma das mais poderosas mídias da história. A maior parte deste período foi dominada por Getulio Vargas, que entre 1930 e 1945 governou através de um golpe militar e, entre 1951 e 1954, através do voto popular. Getulio sabia dar a seu governo uma expressão radiofônica, pois tinha claro como ninguém o alcance que o veículo possuía naquelas décadas. No início de sua existência, nos anos 1920, o rádio tinha uma programação que pouco se utilizava da música popular, porém, com a sua popularização, nos anos 1930, era raro ver um domicílio sem um aparelho receptor. Cauby era originário de uma família de músicos: suas irmãs Iracema, Aracy e Andiara eram cantoras, seu irmão Araken, trompetista, Moacyr, seu outro irmão, pianista, além de ser primo do grande cantor Cyro Monteiro. Aos 16 anos, Cauby envereda pelo rádio, na Radio Tupy, do Rio de Janeiro, cantando aos sábados, na Hora do Comerciário. Mais tarde o irmão Moacyr introduz Cauby na vida noturna, cantando na boate Oásis. A política da boa vizinhança, implementada pelos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial com o intuito de se aproximar dos países latino-americanos, trouxe uma série de influências musicais ao Brasil. Assim Cauby inicia a sua carreira com músicas de mestres como Nat King Cole ou Bing Crosby. Essa influência norte-americana vai se fortalecer com as várias turnês que o cantor fez aos Estados Unidos nos anos 1950. Mas após várias investidas no mercado norte-americano (extremamente fechado à época), Cauby decide ficar mesmo aqui no Brasil, onde solidifica seu início de carreira. O rádio, além da transmissão à distância, mantinha uma estrutura de programas ao vivo. Grandes orquestras animavam programas como o de César Ladeira ou o de Ademar Casé. Além de potência vocal, os cantores do rádio precisavam ter charme para agradar as fãs que lotavam os auditórios. E, nesse particular, ninguém melhor que Cauby Peixoto, cuja presença marcante nos palcos dos auditórios e casas noturnas levava ao delírio as mulheres daquela época. Nas décadas de 1940 e 1950 surgem as famosas “macacas de auditório”, denominação pejorativa que era dada às fãs que não desgrudavam de seus ídolos. A mídia impressa ocupava o seu espaço referenciando-se ao veículo soberano da época, e assim surgiam publicações como HI ST ÓR IA & C ULT U R A

© Ana Nascimento/Agência Brasil

O

“Cantei, cantei Nem sei como eu cantava assim Só sei que todo o cabaré Me aplaudiu de pé Quando cheguei ao fim”. (“Bastidores” – Chico Buarque)

a Revista do Rádio, que elegia anualmente a Rainha do Rádio, ansiosamente aguardada por todo o Brasil. Foi então, em 1956, que Cauby grava a canção que seria uma das maiores marcas em sua carreira, “Conceição”, de Jair Amorin e Dunga, a história singela de uma favelada que é enganada por um espertalhão e quer voltar arrependida às suas origens. O sucesso dessa música faz com que Cauby a inclua daí para frente em todos os seus shows, e será uma de suas marcas registradas. A década de 1960 marca profundas transformações na política e na cultura brasileiras. O rádio mostrava sinais de decadência enquanto mídia predominante no cenário

musical. As casas noturnas, que já haviam sofrido um grande golpe quando em 1946 o marechal Dutra fecha os cassinos, também começam a declinar, principalmente depois do afastamento de seu público habitual, constituído de políticos e funcionários ligados ao poder destituído pelo golpe militar de 1964. As rádios substituem as grandes orquestras por programações à base de discos. A televisão ganhava espaço e forjava um novo tipo de ídolo, diferente daquele incorporado por Cauby, Orlando Silva, Carlos Galhardo e Mario Reis que, embora sobrevivessem, estavam longe da fama que obtiveram décadas atrás. Cauby, não encontrando o espaço que lhe foi assegurado pelas fãs em delírio, cai num ostracismo, gravando músicas que ficam longe de seus antigos sucessos e são duramente criticadas pela mídia. Mas Cauby é sempre Cauby, como apregoavam seus admiradores. E o mito volta à cena em 1980 com o LP Cauby! Cauby!, uma virada na carreira do intérprete. Cauby começa a gravar o que havia de melhor na canção contemporânea, a começar pela faixa-título, uma maravilhosa canção composta por Caetano Veloso especialmente para o cantor. Da trilha do LP faziam parte Paulo Vanzolini, Roberto e Erasmo Carlos, Silvio Caldas, mas a música que representa a grande virada, e que vai ser tão importante quanto “Conceição”, é “Bastidores”, de Chico Buarque, que ganha na voz de Cauby indiscutivelmente a sua melhor interpretação. Cauby começa a ter, agora, o reconhecimento de um público que antes torcia o nariz para suas canções. A elite musical começa a enxergar o quanto aquela voz poderosa e afinadíssima representava para a canção popular brasileira. Revivendo uma dupla de sucesso dos anos anteriores, Cauby reúne-se com Ângela Maria, fazendo apresentações por todo o país e exterior e conquistando elogios e prêmios da crítica. Entrando nos 80 anos, Cauby muda-se para São Paulo e passa a fazer suas apresentações no Bar Brahma, situado no centro de São Paulo, por vários anos lotando a casa, até sua morte. Como poucos, Cauby amou a sua arte e a convivência com seu público, o que denota uma de suas declarações a um programa que o homenageou: “Se eu não ganhasse dinheiro, pagaria para cantar.” Valdir Mengardo é professor de Jornalismo na PUC-SP e pesquisador da história da música popular brasileira

H I ST Ó R I A & C U LT U R A M U N D O P A N G E A M U N D O P A N G E A M U N D O P A N G E A M U N D O P A N G E A M U N D O P A N G E A M U N D O


Miguel de Cervantes

Fenômeno únic

(1547-1616)

Renato Rocha Mendes Especial para Mundo

O contexto A produção literária de Cervantes foi marcada pelo Concílio de Trento (1545-1563), da Igreja Católica, que tinha como propósito assegurar a unidade da fé e da disciplina religiosa. O Concílio da Contrarreforma, como também é conhecido, foi uma resposta à Reforma Protestante que dividiu a Europa e interferiu de maneira decisiva o pensamento da época. Nesse sentido o livro é uma obra tridentina, uma vez que ao longo de toda a história Cervantes passa a mensagem de que precisamos ser justos. O sentido de justiça no livro é tributário da consciência e do livre-arbítrio de cada homem. Os homens dos séculos XVI e XVII imaginavam que a sua vida estava predestinada, que existia uma história já dada. Aqueles homens faziam uma interpretação profética do mundo: o homem conseguia ler as profecias de uma história já escrita. Os humanos dependiam do arbítrio divino para realizar: “Se Deus quiser, aquilo poderá ser alcançado.” A premissa era a de que o mundo havia sido criado por Deus – uma entidade boa em sua essência, portanto os homens tinham a esperança de que iriam construir um mundo melhor através da graça e de outros mecanismos. Os homens ainda estavam encantados.

Uma vida repleta de aventuras Cervantes foi filho de Rodrigo de Cervantes, um cirurgião barbeiro, e de Leonor de Cortinas; teve seis irmãos. Viveu a infância na cidade de Valladolid e estudou em Madri e Sevilha. No ano de 1570 viajou para Roma a serviço do cardeal de Acquaviva. A experiência contribuiu com o talento de Cervantes, uma vez que o jovem escritor foi exposto às grandes obras do renascimento. Ingressou no exército contra o Império Turco e combateu na sangrenta batalha naval de Lepanto, onde perdeu o movimento da mão esquerda em consequência de ferimentos causados por tiros de arcabuz. No mesmo ano, em 1571, recupera-se da batalha na cidade italiana de Messina. Em 1575, Cervantes decidiu regressar para a Espanha. O navio em que viajava é subjugado por corsários berberes na costa da Catalunha. Cervantes é preso e feito refém por cinco anos em Argel. Durante o período é exposto à multiculturalidade de uma cidade com 150 mil habitantes, população maior que a de Roma. Em 1580, Cervantes é libertado por sua família e por padres trinitários que pagam 500 escudos de ouro espanhol aos piratas. Em 1581, viaja a Portugal, onde se instala na corte de Felipe II, período da União Ibérica (1580-1640). Em 1584, casa-se com Catalina de Salazar, na Espanha e, em 1585, edita a primeira parte da novela La Galatea. Em 1587 se torna comissário de abastecimento das galés reais e viaja por cinco anos, passando por diversas cidades espanholas, requisitando mantimentos aos produtores camponeses em troca de uma promessa de indenização. A partir de 1594 se torna cobrador de impostos. Foi preso pelo menos duas vezes, acusado de se apropriar de dinheiro público e por irregularidades em suas contas. É em 1597, quando está preso, que nasce Dom Quixote de la Mancha. Em 1605, é publicada a primeira parte do livro, daí sua consagração como escritor – Cervantes passa a se dedicar exclusivamente à literatura. Em 1609, Cervantes entra para a Congregação dos Escravos do Santíssimo Sacramento. Em 1615, a segunda parte da obra é publicada, um ano antes de sua morte, em Madri.

M U N D O P A N G E A M U N D O P A N G E A M U N D O P A N G E A M U N D O P A N G E A M U N D O P A N G E A M U N D O HISTÓRIA & CULTURA

2016 AGOSTO

-HC

© Coleção particular

O livro é uma paródia aos romances de cavalaria, um tipo de literatura que se tornou popular e que foi marcada pela romantização exagerada da figura do cavaleiro andante, que defendia fracos e oprimidos, donzelas e viúvas sem proteção. Eram aventuras improváveis, que tinham como personagens heróis que lutavam pela justiça contra as figuras do mal. Dom Quixote é um anti-herói. Os valores humanos afloram da mente de um intelectual enlouquecido. É legítimo atribuir a Cervantes a atitude de um iconoclasta. A ideia de escrever uma sátira dos romances de cavalaria, como diz o próprio autor, foi “derribar a mal fundada máquina desses cavaleirosos livros”; “pôr na execração dos homens as fingidas e disparatadas histórias dos livros de cavalarias”. Cervantes teve uma vida difícil e em muitas ocasiões teve dúvidas sobre a conclusão da obra. Estudos sobre Cervantes e sobre a recepção de Dom Quixote no Brasil destacam alguns autores que foram influenciados pela obra, por terem se apropriado do mito quixotesco ou por terem incorporado em suas criações elementos de composição da obra. Alguns dos autores: Machado de Assis, Guimarães Rosa, Lima Barreto, José Lins do Rego, Monteiro Lobato, Olavo Bilac, Câmara Cascudo, José Veríssimo, José Pérez, entre outros.

© Coleção particular

A obra Há mais de 400 anos Dom Quixote influencia autores famosos e anônimos pelo mundo, com impacto nos diversos campos da criação artística: além da própria literatura, o teatro, a poesia, a pintura, a música e o cinema. Quando completou 300 anos, em 1905, a obra já tinha 639 edições lançadas. Em uma seleção realizada há mais de 35 anos foram relacionados 3,7 mil títulos dedicados à vida e à obra de Cervantes. Dom Quixote é o livro em língua espanhola que teve o maior número de edições. O caráter universal e atemporal da criação de Cervantes se deve ao fato de que o livro fala a todos, porque trata de valores universais. Em sua essência, a obra é uma narrativa bem-humorada da história de um homem que enlouqueceu, a partir das fantasias que foram despertadas pelas histórias de cavalaria. No livro, Cervantes apresenta Dom Quixote ao leitor assim: “A idade do nosso fidalgo beirava os 50 anos: era de rija compleição, seco de carnes, enxuto de rosto, grande madrugador e amigo da caça.”

Há 400 anos, morria o autor do imortal El Ingenioso Hidalgo Don Quijote de la Manch

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iguel de Cervantes Saavedra, autor da obra máxima El Ingenioso Hidalgo Don Quijote de la Mancha (título original em espanhol), foi contemporâneo de William Shakespeare e morreu, provavelmente, no mesmo dia em que o bardo de Stratford deixou este mundo, em 22 de abril de 1616, em Madri. Nos 400 anos de sua morte, acontecem eventos culturais em sua homenagem por todo mundo, principalmente na Península Ibérica. O livro Dom Quixote de la Mancha, concluído em 1604 e publicado um ano depois, em Madri, atravessou todas as fronteiras linguísticas e culturais. É considerado um fenômeno único da literatura universal: é o primeiro romance dos tempos modernos, porque nele, segundo Michel Foucault, “as similitudes e os signos romperam sua antiga aliança”; “as similitudes decepcionam, conduzem à visão e ao delírio”. Pela primeira vez um livro colocou a dimensão imaginária no interior do homem. A historiografia recente sobre Cervantes indica que ele provavelmente nasceu em 29 de setembro de 1547, em Alcalá de Henares, um povoado próximo a Madri. Seu sobrenome era muito comum na Península Ibérica e talvez fosse de origem galega, embora tenha sido na Andaluzia onde seus antepassados diretos se estabeleceram [veja o boxe]. O cervantista Jean Canavaggio, autor de uma biografia fundamental de Cervantes, sintetiza as facetas do escritor espanhol e joga luz sobre os pontos obscuros de sua história: “Mas, ao compor o seu autorretrato, Cervantes delineia com traço vigoroso as poucas imagens que o definem até hoje na memória coletiva: o combatente da batalha de Lepanto, o cativo de Argel e o autor de Dom Quixote. Essas imagens indissociáveis são interligadas por um vínculo problemático: o soldado saiu do anonimato graças ao escritor, mas a passagem da espada à pena, das armas às letras, não se deu de modo repentino. Como interpretá-la? Se em parte é fruto das circunstâncias, nem por isso deixa de refletir as escolhas de um homem cuja intimidade nos escapa de maneira irremediável.”


co da literatura universal

ha, obra que inaugurou o romance moderno

E o “cavaleiro da triste figura” conquistou o mundo Dom Quixote de la Mancha é uma obra muito conhecida e pouco lida. Não são todos os leitores que aceitam o desafio de ler as duas partes da obra – cada uma com aproximadamente 600 páginas, escritas em estilo e linguagem de outra época. Por outro lado, é uma obra provocadora, uma vez que a narrativa em si é objeto de reflexão. O livro carrega consigo a proposta de fazer o leitor rir de Dom Quixote e Sancho Pança, das circunstâncias e dilemas que surgem. O humor é fundamental na história. Na primeira parte da obra, Dom Quixote se vê como um cavaleiro andante, após enlouquecer devido à leitura excessiva de livros de cavalaria, e sai em busca de aventuras. Vai a uma estalagem que imagina ser um castelo, encontra-se com prostitutas que pensa serem nobres damas. Quando se dirige ao dono da estalagem e às prostitutas, usa uma linguagem tão literária que eles não conseguem compreender. Ao dono do comércio Dom Quixote pede que o batize como cavaleiro e em circunstâncias improváveis o pedido é aceito. Mas após se tornar cavaleiro, Dom Quixote retorna à sua casa, para se preparar melhor para a aventura que terá início, e convence seu vizinho, Sancho Pança, a partir com ele. Promete ao humilde homem que quando se tornar um cavaleiro reconhecido lhe fará governador de uma ilha. Dom Quixote e seu fiel escudeiro andam juntos e passam por diversas situações tragicômicas até o final da primeira parte da obra, quando regressam juntos para casa. Dom Quixote está machucado e sua família e amigos queimam os livros de cavalaria que o teriam enlouquecido. A segunda parte do livro começa na casa de Dom Quixote com Sancho querendo conversar sobre uma grande notícia: o escudeiro encontra um estudante de Salamanca, Sansão Carrasco, que havia lido a primeira parte de Dom Quixote. Sancho fica impressionado com a possibilidade de terem se tornado personagens de um livro. Muitas das pessoas que os personagens encontram leram o primeiro livro e sabem tudo sobre Dom Quixote e seu companheiro. O personagem de Cervantes deixa como legado, dentro do contexto cristão do qual ele faz parte, que a única atitude possível diante do fim é praticar a virtude de orientar bem àqueles que podem fazer mal. Em 1614, para a surpresa de Cervantes surgiu uma continuação de Dom Quixote de la Mancha assinada por Alonso Fernández de Avellaneda. Não se sabe quem foi Avellaneda, o pseudônimo de alguém que queria tirar vantagem da popularidade de Dom Quixote. Diante da situação – que já havia acontecido a outros escritores na Europa – Cervantes apressa-se a terminar a segunda parte da obra. Além de mencionar o fato no prólogo da segunda parte, sem dar importância para o ocorrido, Cervantes faz com que os próprios personagens se refiram ao livro como sendo uma obra falsa. Na versão de Avellaneda, Sancho Pança termina como serviçal e Dom Quixote internado num hospício. A obra tem um sentido político na medida em que os diálogos entre os interlocutores, que embora estejam em patamares distintos, aconteçam num contexto de liberdade, onde há lugar para descoberta dos limites de um e do outro. É a partir das conversas entre um louco sonhador e seu escudeiro – que personifica o princípio da realidade – que o imaginário e o real são manipulados. Ao contrário dos romances tradicionais de cavalaria, Dom Quixote enfrenta seu próprio destino. É a partir dessa nova possibilidade de cavaleiro que se apresenta ao leitor um Dom Quixote perseverante. O principal elo entre a obra e o leitor é estabelecido pela forma como os personagens foram construídos: a humanidade de Dom Quixote e Sancho Pança é de uma beleza extraordinária. Obras de Cervantes

© Coleção particular

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O cerco de Numância (1582) – teatro Viagem a Argel (1582) – teatro La Galatea (1585) – romance Dom Quixote de La Mancha (1605) – romance Novelas exemplares (1613) – romance Viagem do Parnaso (1614) – romance Dom Quixote de La Mancha (1615) – romance Oito comédias e oito prelúdios (1615) – teatro Os trabalhos de Pérsiles e Segismunda (1617) – romance

Para saber mais: l Dom Quixote de la Mancha – vols. 1

e 2, de Miguel de Cervantes. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2016. l Dom Quixote de la Mancha, de Miguel de Cervantes. Tradução e adaptação: Ferreira Gullar. Rio de Janeiro: Revan, 2002. l Cervantes, de Jean Canavaggio. São Paulo: Ed. 34, 2005. l A Narrativa Engenhosa de Miguel de Cervantes, de Maria Augusta da C. Vieira. São Paulo: Edusp: Fapesp, 2012. Renato Rocha Mendes é jornalista

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AGOSTO 2016

HISTÓRIA & CULTURA M U N D O PA N G E A M U N D O PA N G E A M U N D O PA N G E A M U N D O PA N G E A M U N D O PA N G E A M U N D O PA N G E A


olimpíadas

Participação feminina quase atinge a paridade Nelson Bacic Olic Da Equipe de Mundo

A

tletas do sexo feminino não disputaram competições nas primeiras Olimpíadas da Era Moderna, que aconteceram em Atenas, em 1896. O barão Pierre de Coubertin, fundador do Comitê Olímpico Internacional, argumentava que as mulheres tinham apenas o papel de “coroar os homens vencedores”. Mas, em seguida, o percentual de países que enviaram atletas do sexo feminino passou para 2% em Paris (1900), chegou a 9% nas Olimpíadas de Londres (1908), a 45% nas Olimpíadas de Antuérpia (1920), a 54% em Amsterdã (1928), a 70% em Montreal (1976), a 85% em Atlanta (1996), a 96% em Pequim (2008) e finalmente chegou a 100% em Londres (2012). Não foi fácil chegar ao ponto de todos os países enviarem mulheres nas delegações. Nas últimas Olimpíadas, a pressão do governo inglês e do Comitê Olímpico Internacional fez com que, pela primeira vez na história dos Jogos, todos os países participantes enviassem mulheres. Agora, embora falte pouco, o percentual de mulheres ainda não atingiu a paridade. Entre as duas primeiras décadas do século XX, o percentual variou entre 1% e 2%; subiu para 10% em 1920, atingiu 21% em 1976, 34% em 1996, chegou a 42% em Pequim (2008) e alcançou 44% em Londres. Nas Olimpíadas da capital britânica, as delegações dos Estados Unidos e da China tinham mais mulheres que homens. No caso do Brasil, a primeira participação feminina aconteceu em 1932, quando a nadadora Maria Lenk (1915-2007) – que dá nome a um parque aquático no Rio de Janeiro – participou das Olimpíadas de Los Angeles, coincidentemente no ano em que as mulheres brasileiras votaram pela primeira vez. Em Barcelona (1992), o percentual de mulheres na delegação brasileira foi de 26%, passando para 46% em Sydney, em 2000, e ficando próximo de 50% nos jogos seguintes.

Elas não disputaram os primeiros Jogos, em Atenas (1896), mas já somavam 44% do total de atletas, em Londres (2012) Gráfico 1

Número de países participantes nas Olimpíadas (últimos 40 anos) Rio de Janeiro (2016)

204

Londres (2012) Pequim (2008)

191 204

Atenas (2004) Sydney (2000)

201 199

Atlanta (1996) Barcelona (1992)

197 169

Seul (1988)

159

Los Angeles (1984)

140

Moscou (1980) Montreal (1976)

80 92 0

50

100

150

200

250

Gráfico 2

Países que surgiram após a Segunda Guerra Mundial 40 38

35 30 25

24

24

20 15 10

12

5 0

11 7

Entre 1945 e 1950

Entre 1950 Entre 1960 Entre 1970 Entre 1980 e 1959 e 1969 e 1979 e 1989

4 Entre 1990 Entre 2000 e 1999 e 2016

As figuras emblemáticas das mascotes

As mascotes criadas pelos países que sediam uma Olimpíada surgiram com o objetivo de mostrar os jogos de uma forma mais descontraída e também visando a atrair a atenção das crianças. Na maior parte das vezes, as mascotes representam elementos simbólicos da fauna e flora de um país, com destaque para as cores e outros símbolos presentes em suas bandeiras. A figura de uma mascote foi usada pela primeira nos Jogos de Munique (1972). Era um pequeno cão chamado Wald, de uma raça muito popular na região alemã da Baviera, onde se situa a cidade de Munique. Uma curiosidade: o trajeto da prova da maratona foi idealizado de acordo com as formas desse cão. Depois dele, outras mascotes tiveram sucesso, como o tigre Hadori (Seul, 1988), animal que aparece frequentemente na arte popular e lendas coreanas. Sam, a águia, marcou os jogos de Los Angeles (1994). Embora seja o animal símbolo dos Estados Unidos, sua aparição nos jogos era percebida por muitos como uma marca registrada do imperialismo norte-americano. Talvez por se realizar na cidade que é considerada a “Meca” do cinema, a mascote foi produzido por um artista dos estúdios Walt Disney. Contudo, a mascote mais famosa foi, sem dúvida, o ursinho Misha, símbolo das Olimpíadas de Moscou (1980). Ele entrou para a história quando na cerimônia de encerramento dos Jogos derramou uma lágrima num mosaico feito por espectadores, num dos setores do estádio. No caso do Rio há duas mascotes: Vinicius, símbolo das Olímpiadas, e Tom, figura criada para identificar as Paralimpíadas. Os nomes escolhidos expressam uma homenagem a dois dos maiores compositores populares do Brasil, Vinicius de Moraes (1913-1980) e Tom Jobim (1927-1994). Segundo o Comitê Olímpico Brasileiro (COB), Vinicius e Tom foram “inspirados na fauna e flora brasileiras e sofreram influências da cultura pop, elementos de animação e personagens de videogames”.

As Olimpíadas de Barcelona foram as últimas em que as mulheres brasileiras não conquistaram medalhas. Nas Olimpíadas de Sydney e Atenas as mulheres brasileiras conquistaram quatro medalhas (embora nenhuma de ouro). O primeiro ouro feminino aconteceu em Atlanta, em 1996, quando as mulheres obtiveram quatro das 15 medalhas brasileiras. O hiato de gênero no topo do pódio foi revertido nas duas últimas Olimpíadas, pois as atletas brasileiras conquistaram duas das três medalhas de ouro, tanto em Pequim 2008 quanto em Londres 2012. Na China, as mulheres ganharam seis das 15 medalhas brasileiras, representando 40%, o maior percentual da história até então. Mas na Inglaterra o desempenho das atletas brasileiras foi um pouco melhor, conquistando sete das 17 medalhas. A equidade de gênero nos esportes é um aspecto importante para ajudar a colocar um fim à discriminação de gênero na sociedade. Para que o mundo e o Brasil se tornem lugares mais justos é preciso romper as desigualdades entre homens e mulheres em todos os campos de atividade. 204 países Outro aspecto que chama atenção nos Jogos Olímpicos é o número de países participantes. Nas Olimpíadas do Rio, são esperados 204 países, sendo que a ONU apenas reconhece 194. Essa diferença é explicada pelo fato de que alguns deles não possuem o pleno reconhecimento diplomático da comunidade internacional, como são, por exemplo, os casos de Kosovo e Palestina. Outros participam com status de países, embora sejam possessões semicoloniais, como nos casos de Ilhas Cayman, Ilhas Virgens (inglesa) e Porto Rico. As primeiras Olimpíadas da Era Moderna registraram um número bem menor de participantes, já que a imensa maioria dos atuais países africanos, asiáticos, da Oceania e da América Central insular eram colônias europeias. Contudo, após a Segunda Guerra o número de países inscritos aumentou consideravelmente, fruto do processo de independência que atingiu especialmente o continente africano [veja os gráficos 1 e 2]. Na última década do século, o novo aumento expressivo foi uma decorrência, principalmente, da desintegração da União Soviética, que resultou na criação de 15 novos países e da Iugoslávia socialista, que deu origem a mais seis.

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2016 AGOSTO

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