A Demonioinexistência e a Deusexistência em Grande sertão: veredas

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GERALDO MAGELA DA SILVA

A DEMONIOINEXISTÊNCIA E A DEUSEXISTÊNCIA EM GRANDE SERTÃO: VEREDAS

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Dedico este pseudoensaio às crianças de Paredão de Minas, distrito de Buritizeiro, Minas Gerais (lugar de acolhimento), e a todas as crianças desse sertão-mundo/mundo-sertão, anjos que voejam suas esperancinhas pequeninas aos céus e à terra, como borboletas a desmaiar demônios.

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Este texto foi produzido para presentear um amigo, Valdivino. Terminaram transformando-se, ele e o seu fazer, em presentes para mim mesmo.

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SUMÁRIO

PREFÁCIO __________________________________________ 11 APRESENTAÇÃO ____________________________________ 15 A DEMONIOINEXISTÊNCIA E A DEUSEXISTÊNCIA ______ 22 POSFÁCIO _________________________________________ 57

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PREFÁCIO

Sobre algo que se deve dizer antes de se dizer algo

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Há algumas palavras deste pseudoensaio, e mesmo algumas frases, que foram tecidas propositalmente à moda rosiana, muitas vezes parafraseando João Guimarães Rosa. Não que se quisesse plagiar o autor, até porque o pseudoensaísta que aqui jaz não teria essa capacidade. Beirar, ainda que de longe, os modos rosianos, é uma maneira de homenagear, na humilde tessitura destas páginas, aquele que (re)criou uma linguagem antes modesta, posto que nascida, crescida e vivida no sertão de Minas Gerais, depois feita – por ele, autor – soberba; e, obsequiosamente, dada assim ao mundo inteiro, tornada universal, grandiosa e eterna. Escrevo como se, livre, e de fato livre, pudesse escolher um caminho entre tantos. E escolho o mais sinuoso dos trajetos: vou pelas veredas, onde o buriti já se deu conta de sua beleza e agora, vendo-se no espelho-d’água, nem se alegra nem se entristece, apenas é. Invertendo-se no seu próprio inverso, reflexo e refletido, eternamente irmanados, como se eu e minha vida. Assim, pretendo embrenhar-me pelo mesmo percurso que João Guimarães Rosa embrenhou-se: o da dúvida, o da incerteza, mas nem por isso o descaminho e, menos ainda por isso, o desprovido do belo. O sertão é fonte de tanta misericórdia e de tantas misérias. Miséria e misericórdia são, por si mesmas, as substâncias que o fazem tão diverso e tão exuberante, tão próprio e tão apropriado. Numa flor que brota do sequíssimo solo, vinda das entranhas rizomatosas, e, emergida, ressuscita beleza e esperança, revela-se toda a misericórdia da miséria, explodindo cores e texturas que, se não valem tanto para os que não a conhece, valem muito pelo que ela mesma é, flor. Beleza que, como num louvado réquiem às avessas, ressoa em sonoridade singular audível apenas aos mais sensíveis ouvidos e visível apenas aos mais atentos olhos. Aqui buscamos compreender esse incompreensível mistério da 12

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humana indigência, de suas origens e de suas interdependências, do mal e do bem, pelo bom e pelo mau. Mas não o fazemos por nossa própria conta e risco, assumimos a conta e o risco de um certo pactário que, se bem não pactuou com o Tentador, duvidou-o, crendo-o, e rendeu-lhe suas graças e os seus louvores. É com o pactuante que vamos tentar ir ao pacto, mas desejamos mesmo é não o encontrar existente. Havemos de não encontrá-lo. E o pactuante também não é sozinho nesse perscrutar, ele tem, em seus olhos, em seus ouvidos e em sua alma, o desejo de quem o imaginou, o João.

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APRESENTAÇÃO

Das dores que moram nas dúvidas

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Este texto não quer, necessariamente, dizer sins ou nãos. Ele, também, não quer suscitar talvezes para as inquietações que já existem e são, elas, tantas e tão provocantes. Não é um texto de verdades absolutas ou mesmo possíveis, nem de possibilidades prováveis. É, certamente, um arrazoado em palavras que se organizam para não se organizar em nada e nadas. Versa sobre elucubrações de um pseudoensaísta que resolveu montar um cavalo sem viseiras e percorrer um sertão, destino não sabido e surpreendente, ainda mais que à noite sua viagem. E a viagem será para nos ocupar da mesma dúvida que muito ocupou Riobaldo, da existência, ou não, do Diabo, de que – para ele mesmo – existiu. Não é objeto seu a afirmação de existências ou a sua negação. Mas não é, também, seu objeto criar as grandes dúvidas, posto que elas foram plantadas e nasceram muito antes – elas transgridem a lógica do tempo. As dúvidas não são fraquezas, ao contrário, são força e estímulo à aproximação de algo como novidade, como se fosse pela primeira vez que se aproximasse daquilo e, nisso, visse residir uma nova experiência de aprendizado, de conhecimento. Entendimento que não se consolida, na medida em que, dele, surgem mais dúvidas. Aqui não haverá doutrina. Não haverá teologia, nem antiteologia, nem sapiência, nem sabedoria. Também não haverá demonologia. Esse exercício de dizer o que aqui se diz não é cartesiano, nem é pitagórico. Nada, nele, há de exatidão. Tudo são as todas incertezas. Pode até ser que haja algo de pitoresco, bom que houvesse, ou que haja. Não é tese nem antítese. Não é epistemologia. A sua ciência não vem de cima, dos altos ares onde, pairado, um gavião afrouxa seu voo e derriba-se, à gravidade, para o chão, na certeza de apanhar alimento. A sua ciência é, antes, a que nasce do chão e vai, rasteiramente, serepentear ao sabor da dúvida, “de gato-em-caça”, para crescer-se e emergir-se, como um espinheiro sertanejo, em uma grande ciência, farta em 16

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saberes, excelsa em si, posto que será a propriedade do que lê, não do que escreve. Também não é hermenêutica, pois que o que, aqui, pobremente, se analisa são escritos que, nesse aspecto, são intocáveis. O que segue escrito – e dito – nas páginas adiante, essas que antes estavam quietas, brancas, sossegadas, incólumes, imaculadas na sua ainda inexistência e agora estão vivas a arder em febres e expostas ao grande perigo que é existir, é um exercício de buscar entender a dúvida que João Guimarães Rosa colocou no coração – ou, dele, extraiu!? – e na razão (ou na desrazão) do principal personagem de sua obra maior, Grande sertão: veredas. E é, também, para que se confirme que ele mesmo, o João, teve as suas todas as dúvidas e quase que nada não sabia, mas desconfiava de muita coisa. E, sabendo-se ser, o romance, uma “autobiografia irracional”, como ele mesmo, João, disse, faz-se a dúvida do personagem, Riobaldo, a incerteza e o desassossego do autor. Mas não lhe é exclusiva, a incerteza, ela pertence a todos nós. E o João não duvidava apenas por ignorâncias, João duvidava por desejos de saber as grandes e as pequenas verdades e por não caber em si na sua busca. O que o homem fictício, o que vive nas páginas do livro, não compreende, compreendeu ele menos ainda, o cidadão factual, o que viveu em carnes e ossos, no seu “lugar do coração”, o seu Cordisburgo, visto que nascido nesse ermo. Se o personagem, quanto mais aprendia, o que mais aprendia era só a fazer outras maiores perguntas, o autor vai enfiando suas próprias perguntas em um novelo, desde jovem, para depois colocá-las no prelo, ou melhor, no tear, agora soltas do fio a que foram amarradas e livres para formarem a trama da vida romance e do romance vida. E as palavras, antes aprisionadas em um seu léxico pessoal, agora navegam libertadas pela pena, escalavradas, lavradas, livres, livros, compondo tecido denso e multicolorido. O som que delas, às 17

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vezes, sai não é som mero, mas música, em sua dimensão etérea. Contém, e é, melodia, harmonia e ritmo. Via de regra, a verdade é como pérola que se protege e que se oculta no interior de conchas, ou diamante que se esconde em sua semelhança com o vidro e com pedras outras, comuns seixos. A verdade é por vezes inacessível e por vezes inaceitável. Tesouro que se recomenda ter em substituição a tudo o que se tem. Ela, a verdade, assim como o mau, não é como o joio, que se infiltra nos trigais e, mesmo quando revelado desde o início, melhor que não seja, ainda, extinto, mas guardado para as confirmações de joio ou de trigo. A verdade é trigo que se revela trigo apenas quando crescido, ou que surge mesmo é no cumprir a sua sina de ser alimento. A verdade, tal como a palavra, é coisa que se deve apreciar nos ocasos mais que nas auroras, mais na foz do que nas cabeceiras. Semelhante a todo homem e mulher, que serão bons ou maus, assim sabido e deveras, confirmado, é no concluso de suas vidas e só ali, ao final delas. Não enquanto se vão sendo. A verdade, muitas vezes, pode ser muito escorregadia, fugidia e mutável. Mas é sertaneja em sua boa preguiça e em sua grande coragem, posto que se vai fazendo na história das pessoas e dos lugares – antes mais existida do que sido, concreta e, em si mesma, feita real. A verdade é de se garimpar. Ela não se ocupa de ilusões, mas, antes, ocupa-se de si. Mas a mentira, essa, ela, tem pai e mãe, descende de outrem, não existe por si. A mentira não vige dentro do homem, mas antes lhe vem de fora. Ela conhece a si mesma e percorre territórios inviáveis para surgir em lugares diversos. A mentira não se esconde, mas, antes, é revelada, mesmo que não vista. Verdade e mentira são as duas amigas inseparáveis, ao lado uma da outra, nunca de mãos dadas, mas sempre próximas. Em Grande sertão: veredas, o narrador, mesmo personagem, relata fatos que nem mesmo ele está certo de terem acontecido ou de serem verdadeiros, mas traz uma quase-certeza de que estes 18

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fatos mudaram a sua vida, causaram-lhe “uma transformação, pesável”. Para ele “muita coisa importante falta nome”. E nomes é o que não faltam para o Que-nem-se-sabe-se-existe: o Demônio. Para muita coisa – ou apenas para o Ele? – sobram nomes. E, se sobram nomes, é porque multiplicam-se as incertezas. O nome é o endereço da razão, o codinome das certezas. O nome faz a pessoa. O Diá é o que parece ser: Diá. O De-Janeiro: rio. O buriti: palmeira. O Riobaldo: rio baldeado. Diadorim: Dia Dora. João: Joões. O nome revela a natureza do ser e natureza do estar. O nome é o em que manifesta a singularidade, a fatalidade do que não se pode mudar em outrem. E é pelos nomes que se vão revelando as pessoas e a geografia das coisas e dos lugares. A paragem eternal das veredas, elas que são “Da-Vaca-Mansa-de-Santa-Rita”, “Mortas”, “Quatro”, “Do Buriti Pardo”, “Da-Vaca-Preta”, como as nomeou Rosa, com tantas outras alcunhas, tantas outras veredas... Tantos são os caminhos possíveis. É pelo nome que o sertão vai sendo tantos e o “ser tão” vai sendo apenas um, definitivo. Eus não são eu. Eu não sou eus. Sou apenas eu, singular, muito, indivíduo, indiviso, um, único. Aquele que, recluso em si, é todo o eu. Porque, quando estamos sozinhos, no silêncio, aí é que se é a gente mesmo demais. Mas haver tantos nomes pode ser o sinônimo de haver tantas personalidades, tantas vidas, tantos “eus”, tantos “eles”, tanto quanto a falta dele, do nome. Se o buriti é muitos, as veredas são tantas e, se elas nos levam a um único lugar, as estradas não nos levam a lugares nenhuns. As estradas devem só é nos levar a nós mesmos, para que possamos ser a nossa própria chegada, o nosso próprio destino e o nosso próprio caminhar, a nossa aurora e o nosso crepúsculo. As estradas, elas, existem é para nos revelar a paisagem descortinada sempre à nossa frente: morros e morros, para só nos esbarrar no morro da morte. Morro que, como o da Garça, pirâmide do sertão, 19

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assim chamado por Guimarães Rosa, possa e venha a conter os nossos sarcófagos, como se fôssemos reis ou faraós. Mas elas, as estradas veredas, vão, também, escondendo de nós o que fica para trás, o que não mais podemos olhar, posto que estamos a dar-lhes as costas. Enfim, o que duvida de algo tem certezas de outros algos? O que duvida do Diabo tem a certeza do Deus?! O que duvida do Deus tem a certeza do Diabo!? E o que duvida de si tem certezas sobre outrem, e todo aquele que duvida de outrem tem a toda certeza de si? Neste caso, o que é certo é que há dúvidas porque, quanto mais se aprende o que se aprende, mais é só a fazer outras maiores perguntas. É este perguntar eterno, continuado e em crescimento, que se faz aqui. Aqui nada é definitivo. Aqui, a vereda pode não revelar nem conter águas claras nenhumas e, não revelando águas, nem as contendo, não é espelho a refletir o buriti com a clareza e a verdade transparentes e lúcidas do seu reinado absoluto sobre a paisagem. Aqui o buriti não é vila alta, buriti não é palmeira nenhuma, não é buriti, não é nada. Aqui o buriti também é território da dúvida. Ele não é Maurício, em seu reinado pequeno, mas é mau, é Mauritia... é flexuosa, ereta, firme, flexível, entretanto. Buriti não é o Demo. Buriti não é o Deus. Buriti é o sertão quando acontece alguma chuva e brotam os rebentos e germinam-se as sementes no cerrado. Buriti é das veredas e as veredas são os oásis do sertão. Mas buriti pode também ser a fome que se mata ao poder dos seus frutos de quanta energia. Doces, pastas e pastos. É onde há muita vida que vai haver muita morte, sertão.

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A DEMONIOINEXISTÊNCIA E

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A DEUSEXISTÊNCIA

EM GRANDE SERTÃO: VEREDAS

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De primeiro era o Verbo. E o Verbo pairava sobre as águas. E o Verbo desejou que tudo fosse bom. Faça-se a luz... e a luz era boa. Separe-se o claro do escuro e chame-se dia, o claro, e noite, o breu. E o dia era bom e a noite era boa. Povoe-se a Terra e as águas de todas as formas de vida. E a terra e as águas foram abrigo de todas as espécies animais e vegetais. E tudo era bom. E tudo que veio do Verbo era bom. Faça-se o homem à imagem do próprio criador. E fez-se o homem. E o humano era imagem e semelhança do Verbo, na inteligência, na liberdade, na capacidade do amor. O humano era bom. Tenha o poder de escolher entre o bem e mal. E o homem se dividiu. E o Deus “é”, no homem. O Deus “é” nas coisas por ele criadas – ou dele oriundas e originadas. Deus ‘é” no lento ser de cada aguinha se esquivando de pedrinhas minúsculas, para seguir o seu destinozinho de ser grandes águas, mais adiante. É, também, nas mesmas pedrinhas que, dispostas no caminho, não como obstáculo, mas como apoio, ajudam a perpetuar e engrandecer de nobreza tudo o quanto há de nobre na minúscula gota, agora muitas, riacho, que se entrega à sua grande viagem. Deus é por onde começam e para onde vão todas as coisas, a imensidade em que se bastam a natureza, as realidades, os desejos e os sonhos. É n’Ele que se esbarram todas as contendas e todas as divicador. Paz do todo, todo da paz. Deus é vasteza.

Que Deus existe, sim, devagarinho, depressa. Ele existe – mas quase só por intermédio das pessoas: de bons e maus. Coisas imensas no mundo. O grande-sertão é a forte arma. Deus é um gatilho?

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Quis existir, o próprio, o Dos-Mil-E-Um-Nomes. Quase que. Existiu!? Foi, e é, cada dia e todos os dias, o Pai do Mal. Foi a dor imensa e forte. Foi a fome sentando-se às mesas do sertanejo e de sua família. Foi as barrigas infantis habitadas por vermes sanguinários e a cólica delas. Foi a estrada à frente, vasta e árida, e o percorrer descalço sua toda distância. Foi o pau de arara, e o ir-se, nele, embora. Foi os olhos do filho, à porta, se distanciando do pai e o vendo ir-se, e ir-se, e ir-se, até não se poder mais vê-lo. E as panelas deixadas vazias sobre o chão de barro da cozinha. Foi o catre’humano, o catrumano, à beira da estrada. E sua magreza funda lhe furtando a aparência de gente. Imagem e semelhança!? – e os vermes lhe roendo as entranhas, antes mesmo de que elas sejam entregues ao solo. Foi a terçã e os seus tremores e pesadelos. Assumiu a forma dos espinhos da caatinga e da falta de chuvas. Foi o sol tórrido forçando o cerrar um tanto os olhos. Foi o quase desistir, ou o desistir completo. O entregar-se na dor, no medo e no desatino, como moeda de prata dada em pagamento ao que lhe poderia levar como escravo. O largar-se ao desânimo, sem realizar sonho, e o aceitar, calado, os muitos pesadelos. E foi o conhecer o medo de grandes doenças e grandes sofrimentos e o desconhecer o alívio de haver a cura, ou, ao menos, o tratamento capaz de abrandá-los. Mas o Deus sabe como curar as dores nossas, dadas e recebidas. O tempo se encarrega de cicatrizar as inúmeras feridas e amenizar tantos sofrimentos. Não se poderia viver anos inteiros, e muitos, carregando tanto peso, ruminando tanta má comida, feno indigesto. Será preciso, tempo em tempo, espraiar-se em bondades de perdão e cuidados, redenções e remissões. Pesos não são para serem carregados por vida toda, pesos há de serem provisórios demais, tanto quanto as dores. Há que se digerir logo 25

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as raivas e as dores ou regurgitá-las em nossos próprios ventres, para que não causem ainda tanto mal a nós mesmos e a outros. O remédio é tudo o que nos torna desmemoriados para as más memórias. Elixires de encontros, pomadas de carinhos, cremes de compaixão, cápsulas de ternura. Doses cavalares de afeto e amor, amores. Todos os antídotos, todos os corta-venenos, todas as formulações alopáticas e homeopáticas, todo o bom remédio. O sertão tem tudo isso!? O sertão recebe do imenso sol a sua forte luz com toda a sua intensidade e faz dela o calor e a claridade necessários para o sertanejo viver a sua vida. a sua chuva sobre justos e injustos, como escreveu Mateus em seu Evangelho? Mas mesmo o que cura totalmente é o coração de Deus, misericórdia. Paz e bem, totais e total. Homem humano não dá conta de suas próprias contradições, o que dizer da dos outros. O Deus é o de tantas pazes e do muito amor. Da tolerância, da amizade, das alegrias partilhadas e da solidariedade nos momentos difíceis. Ele não é do ódio, nem mesmo da raiva. Muito embora às vezes a gente sinta a raiva e outras mesmo o ódio.

Que era: que a gente carece de fingir às vezes que raiva tem, mas raiva mesma nunca se deve de tolerar de ter. Porque, quando se curte raiva de alguém, é a mesma coisa que se autorizar que essa própria pessoa passe durante o tempo governando a ideia e o sentir da gente; o que isso era falta de soberania, e farta bobice, e fato é.

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