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encontro fantástico entre o maior de todos os psicólogos e um dos mais eloquentes humanistas do século XX nos possibilita imergir em considerações minuciosas da espiritualidade, da arte e da psicologia, amalgamadas em um único discurso. O que Freud e Thomas Mann dizem aqui, salvo algumas referências, não se apoia em obras publicadas por eles ou sobre eles. Apenas “poderia ter sido”, se considerarmos esse limbo intelectual sem tempo, no qual todos os pensamentos podem se encontrar, reformular e, principalmente, propiciar ao ser humano novas perspectivas para o entendimento do maior dos seus mistérios, o conhecimento de si mesmo. Temas sobre a Morte, o Heroísmo, a Mentira, a Liberdade e o Tempo, desenvolvidos neste livro, realmente nos mostram os meandros articulados no processo de crescimento do ser humano e ajudam a limpar o espelho em cuja contemplação poderá ser revelada a nossa verdadeira face.

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Os diálogos quase impossíveis entre Freud e Thomas Mann

Integra várias entidades internacionais e nacionais e continua lecionando em seu Serviço na Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro. Trabalha 14 horas por dia, e é gratificante comemorar, neste ano, o cinquentenário de sua formatura em Medicina. Nossa homenagem ao mestre.

A B R A M

E K S T E R M A N

ABRAM EKSTERMAN

Emigrante, aos quatro anos de idade, em 1939, em razão da Segunda Guerra Mundial, saiu de sua cidadezinha natal, Riki, na Polônia, e veio para o Brasil. Ficou órfão muito cedo, e aos 14 anos já trabalhava. Foi jornalista e radialista, mas por fim escolheu a medicina, sempre lutando pela profissão, na qual é muito admirado por colegas e alunos.

Os diálogos quase impossíveis entre Freud e Thomas Mann

ABRAM EKSTERMAN O Professor Abram Eksterman foi líder, na educação e na prática médica, do movimento psicossomático brasileiro. Efetivamente, foi o idealizador, em 1965, da fundação da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática, com seu mestre, o Professor Danilo Perestello. Por conta de sua adesão a uma atitude humanística na Medicina, organizou os primeiros currículos de ensino de Psicologia Médica da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a partir de 1970, em nível de graduação e pós-graduação, assim como na então recém-fundada Escola de Medicina Souza Marques. Lecionou na Faculdade de Medicina Gama Filho e organizou o Departamento de Antropologia Médica na recém-fundada Faculdade de Medicina Estácio de Sá. Também lecionou no Instituto de Estudos Avançados em Educação da Fundação Getulio Vargas (IESAE – FGV), em nível de pós-graduação, durante dez anos. Foi professor de Psicanálise e diretor do Instituto da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro. (continua)

Os diálogos quase impossíveis entre Freud e Thomas Mann

9/23/09 5:14:05 PM


Abram Eksterman

Coleção do Centro de Medicina Psicossomática e de Psicologia Médica do Hospital Geral da Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro.

Clube da Lareira “Estamos indo ao encontro de um mau período no qual nada mais nos resta senão manter as brasas em algumas lareiras isoladas até que um vento mais favorável permita reacendê-las em uma grande fogueira.” Carta de Freud a Ernst Jones, em 25 de dezembro de 1914.


Interlúdios em Veneza – Os diálogos quase impossíveis entre Freud e Thomas Mann Copyright © 2010 Editora Rubio Ltda. ISBN 978-85-7771-053-9 Todos os direitos reservados. É expressamente proibida a reprodução desta obra, no todo ou em partes, sem a autorização por escrito da Editora. Produção Equipe Rubio Capa Bernard Design

Eksterman, Abram J. Interlúdios em Veneza : os diálogos quase impossíveis entre Freud e Thomas Mann / Abram J. Eksterman. – Rio de Janeiro : Editora Rubio, 2010. ISBN: 978-85-7771-053-9 1. Literatura brasileira – romances. 2. Psicanálise e literatura. 3. Freud na literatura. 4. Thomas Mann na literatura. I. Título.

Editora Rubio Ltda. Av. Churchill, 97 sala 203 – Castelo 20020-050 – Rio de Janeiro – RJ Telefax: (21) 2262-3779 | 2262-1783 E-mail: rubio@rubio.com.br www.rubio.com.br Impresso no Brasil Printed in Brazil


Dedicado Ă minha nha companheira de muitas aventuras, aventuras especialmente a aventura de viver, Rosina.


Sobre o Autor tor

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á muitos anos convivemos com o Professor Abram Eksterman, no Hospital Geral da Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro, na centenária Rua Santa Luzia. Sempre prometia nos entregar os livros que pretendia escrever. Agora, finalmente, nos presenteia com este, que editamos com prazer. Já o conhecíamos como líder, na educação e na prática médica, do movimento psicossomático brasileiro. Efetivamente, foi o idealizador, em 1965, da fundação da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática, com seu mestre, o Professor Danilo Perestello. Desde 1976, dirige o Centro de Medicina Psicossomática e de Psicologia Médica do Hospital da Santa Casa, depois que Perestello adoeceu e se retirou da atividade acadêmica. É um dos serviços da área mais respeitados e conhecidos do Brasil. Por conta de sua adesão a uma atitude humanística na Medicina, organizou os primeiros


currículos de ensino de Psicologia Médica da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a partir de 1970, em nível de graduação e pós-graduação, assim como na recém-fundada Escola de Medicina Souza Marques. Lecionou na Faculdade de Medicina Gama Filho e organizou o Departamento de Antropologia Médica na recém-fundada Faculdade de Medicina Estácio de Sá. Também lecionou no Instituto de Estudos Avançados em Educação da Fundação Getulio Vargas (IESAE – FGV), em nível de pós-graduação, durante dez anos. Foi professor de Psicanálise e diretor do Instituto da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro. Faz conferências nas principais universidades brasileiras, bem como em congressos nacionais e internacionais. Tem numerosos trabalhos no Brasil e no exterior. Todos lhe cobravam que publicasse um livro, e agora, finalmente, está escrevendo vários. “Por quê?”, perguntamos, “por que só agora?”, e ele respondeu: “Sempre me considerei um aluno, e alunos não escrevem livros, leem os que estão escritos.” Pelo visto, depois de cinquenta anos de magistério universitário, parece que Abram Eksterman resolveu assumir que é professor. Gosta de ser apresentado apenas como médico, que considera o seu maior título. Emigrante, aos quatro anos de idade, em 1939, em razão da Segunda Guerra Mundial, saiu de sua cidadezinha natal, Riki, na Polônia, e veio para o Brasil. Ficou órfão muito cedo, e aos 14 anos já trabalhava. Foi jornalista e radialista, mas por fim escolheu a medicina, sempre lutando pela profissão. É muito admirado por colegas e alunos. Integra várias entidades internacionais e nacionais e continua lecionando em seu Serviço na Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro. Trabalha 14 horas por dia, e é gratificante comemorar, neste ano, o cinquentenário de sua formatura em Medicina. Nossa homenagem ao mestre. Os editores


Agradecimentos tos

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ranscorria o mês de fevereiro de 1971 quando meu analista-didata, o Professor Danilo Perestrello, e eu resolvemos que a minha análise estava concluída e, assim, meus créditos foram submetidos ao Comitê Didático da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro, que me aprovou como psicanalista. Assim, me tornei membro da International Psychoanalytical Association, entidade criada por Sigmund Freud em 1910. Ao mesmo tempo, Danilo Perestrello admitiu-me como seu assistente em todas as atividades acadêmicas que exercia, particularmente no ministério do Curso da Obra de Freud nessa sociedade. Estava muito confortável na posição de assistente de um grande mestre quando ele adoeceu cinco anos depois, subitamente, também em um mês de fevereiro, e tive de substituí-lo em todas as suas atividades de ensino. Éramos inte-


lectualmente muito íntimos e, com frequência, discutíamos questões de ensino, medicina, psicossomática, psicologia médica, psicanálise e coisas da vida. Na época de sua doença, que o tirou abruptamente de suas atividades, discutíamos uma questão que ele propôs um mês antes com a pergunta: “Abram, você acha que o ser humano pode viver sem ilusões?” Eu respondi que não, que a ilusão fazia parte do existir humano. Ele, por sua vez, citando O Futuro de uma Ilusão, texto que marcou época na obra de Freud, sustentava que achava isso possível. Até que, vítima de um acidente vascular cerebral e afásico, não pôde concluir a discussão comigo. Este livro foi feito tentando continuar essa discussão. Infelizmente acho que não consegui mais uma vez concluí-la, e o tema proposto continua em aberto. Sinceramente, espero que alguém saiba a resposta correta à pergunta que Danilo Perestrello me fez e, sabendo-a, por favor, me faça conhecê-la. De qualquer modo, com este livro tentei continuar essa conversa, muito impelido pela saudade do notável mestre que marcou minha própria vida. Uma análise podemos concluir: o afeto que se cria e se desenvolve nessa relação única atravessa incólume o tempo. Além de Danilo Perestrello, muitas pessoas estiveram presentes na composição deste livro e é impossível não citá-las: instigadoras, eventuais colaboradores, palpiteiros felizes, leitores interessados mesmo só por pequenos trechos, cobradores, superegos, críticos e também aqueles que queriam me ver feliz e me recuperar para uma convivência normal. Este último aspecto vai além do que eu poderia imaginar. Quando escrevemos um livro (e me parece que é uma experiência comum a todos os autores), somos transportados para alguma outra dimensão, um lugar um tanto onírico e fantasmático, e somos possuídos por personagens estranhos que nos sequestram e dirigem o roteiro para um destino próprio, insuspeitado. Minha gratidão a Ana, Leonardo e Christine, meus filhos, leitores compulsórios e que, como críticos, acharam que eu “levava jeito”;


particularmente à Christine, que se autodenominou Kiki aos dois anos, por sua inestimável contribuição à pesquisa bibliográfica e à minuciosa revisão final; a Bárbara e Rodrigo, meus enteados, que embora mais cautelosos concordaram com meus filhos; ao Dr. Ricardo Coelho Salles, advogado e linguista, que, junto ao professor de Psicanálise Dr. Décio Tenenbaum, realizou cuidadosa revisão; à Cheila Rangel, minha secretária, quem, lendo vários trechos, considerou que poderia continuar no emprego com mais esperança de conseguir alguma progressão salarial; ao Dr. Marcio Fonseca, infectologista, pela preciosa colaboração; à Dra. Lucila Faerchtein, psicanalista e minha assistente na Faculdade de Medicina, pelo apoio; à Fausta Lima, artista plástica, pelas oportunas contribuições; às minhas alunas e médicas, Dra. Maria Cecília Sant’Iago Martins, Dra. Sandra Buffa de Souza Pinto, Dra. Bárbara Ciraudo, pelo estímulo; à Andréa Tinoco, chef, que me deu importantes ideias quanto ao enredo; a João Luis Londres Fonseca e Stefano Giarelli, leitores circunstanciais e que muito me animaram na redação; à Sylvia Paixão, professora de literatura, que muito me estimulou a iniciar a carreira de escritor. A José Raimundo Rubio e Fabio Rubio, diretores proprietários da Editora Rubio, bem como toda a sua equipe. A todos, enfim, os mais profundos agradecimentos. Especialmente à minha esposa e companheira Rosina, que teve a paciência de me aturar durante todo esse período.


Sumário rio

1 Uma Praça em Veneza 25 Encontro com o Mistério Estamos Mortos? O que é um Herói?

41 79 127 173

As Muitas Faces da Mentira O Sentido da Liberdade

Viver no Tempo: Voltando da Terra do Nunca Tornar-se Humano T Epílogo E

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237

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Encontro com om o Mistério rio

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Da mesma maneira que existe uma geometria no espaço, há uma psicologia no tempo. Os cálculos sobre uma psicologia plana não seriam assim exatos, pois não levariam em conta o tempo, e uma das formas que ele assume, a do esquecimento. Marcel Proust: À la recherche du temps perdu, vol. 6: Albertine disparue

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á muitas maneiras de contar histórias. Posso contar a história de alguém; ou a minha própria. A história colecionada de uma pesquisa da História; ou a história que eu inventei ou que outros inventaram sobre a História. Mas não conheço ninguém que tenha contado uma história cuja história lhe foi contada por outra pessoa que, por sua vez, a ouviu de dois fantasmas e a registrou utilizando a própria memória com alguns comentários próprios. Pois é. É isso que vou fazer, apesar de ser médico, psiquiatra, psicanalista e professor por quase meio século. Diriam vocês que é por isso mesmo, considerando a atividade que o autor exerce e ainda por cima sendo alguém senil, ou melhor, da terceira idade, digamos já mais para lá que pra cá, quem juntando os cacos do que sobrou do psiquiatra e, ainda mais do psicanalista, resolve agora apresentar relatos de fantasmas.


Interlúdios em Veneza

Faz sentido, tratando-se dessa origem e, certamente, com a comiseração por alguém adiantado em anos, vocês vão sorrir, fechar o livro e nem pensar em lê-lo. Foi o que eu mesmo fiz quando o manuscrito desse relato chegou-me às mãos através de um jovem descendente de um alemão na pitoresca cidade de Londrina, há bastante tempo, quando fui convidado a falar em um congresso organizado para discutir os aspectos psicológicos do milagre. Contudo, quero alertá-los de que, no nosso caso, não se tratam de fantasmas quaisquer. E sim dos fantasmas de Sigmund Freud e de Thomas Mann. A importância desses dois gênios na cultura humana é tal, assim como em nossas vidas diárias e em nossos destinos, que vale a pena ler o que eles têm a dizer, mesmo sendo fantasmas, mesmo que vocês continuem me achando no fim da linha. Vocês dirão que fantasmas não existem, e eu concordo inteiramente e espero que vocês acreditem que eu não participo dessa crença. Por isso preciso explicar como aconteceu este livro e por que eu o acho digno de ser escrito. E lido. X Tudo começou com o convite que o Professor Vargas, Titular de Psiquiatria da Universidade Federal de Londrina, fez-me, em 1989, para participar de um congresso organizado por ele e por sua equipe para discutir nada menos que a questão do milagre. A mim caberiam os aspectos psicológicos. Os debates foram muito interessantes e intensos, e a audiência bastante numerosa. Não lembro muito do que falei, mas pelo menos me pareceu não expor nenhuma tolice. Lembro, sim, ter mencionado que o maior milagre a ser presenciado é o acontecimento inédito, qual seja, a consciência humana, e que se renova a cada nascimento e a cada geração, fato descrito de maneira metafórica na Gênese Bíblica. Ali é narrado como, depois de modelado em barro, Deus conferiu Vida ao primeiro ser humano e como o casal primevo 2


Uma Praça aça em Veneza eza

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Deus não pode ser visto com esses olhos físicos. Ao longo da disciplina espiritual, adquire-se o “corpo do amor”, dotado de “olhos do amor”, “ouvidos do amor” etc. Uma pessoa vê Deus com esses “olhos do amor”. Ouve Deus com “ouvidos do amor”. Tem-se mesmo um órgão sexual feito do amor. Sri Ramakrishna

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Professor Vargas bateu à porta e, em seguida, entrou para me avisar que o início da sessão do Congresso estava atrasado em meia hora e que ele seguraria minha ausência circunstancial. Disse que eu não me preocupasse e ficasse com o seu protegido quanto tempo fosse necessário. Gerhardt agradeceu e eu também. Então, ouvi o resto da história, na verdade uma anamnese das mais singulares já realizada. E assim meu interlocutor concluiu sua narrativa: — Shanti convidou-me para jantar em um restaurante bem sofisticado próximo à ponte de Rialto, algo que só a fortuna do pai dela poderia pagar. Já tínhamos bastante intimidade para aceitar e dizer a ela que, de minha parte, eu não poderia retribuir aquele tipo de convite. Ela apenas sorriu. Jantar muito bom, mas eu estava mais fascinado com minha maravilhosa companhia e


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com aquela expectativa de aventura quanto a voltarmos ao campo de Santa Maria Formosa. Não tomamos vinho de propósito para estarmos bem alertas, apesar da insistência do maître. Fomos os últimos a sair do restaurante, caminhando lentamente em direção à praça. Ninguém na ruela de turistas e ninguém nas transversais. Os canais marulhavam ritmos monótonos de encontro às fundações musgosas das casas e dos palácios. Nossos passos vagabundos quase não soavam no piso irregular daquela calle que atingia o espaço da igreja. — E lá estávamos nós, e nos sentamos naquele mesmo banco do meu pânico. Tudo deserto e silencioso, com exceção da fonte jorrando. Abracei-a, esperando o sobrenatural. Nada acontecia. Só os sons em surdina de nossa respiração um tanto ansiosa e da fonte. Nenhum pombo levantou voo. Olhei o relógio: faltava muito pouco para as duas horas. Shanti apertava minha mão direita, enquanto a minha esquerda a abraçava. Ambos estávamos muito tensos. E aí tudo começou a acontecer. Uma folha de uma árvore qualquer, que voejava levada pela brisa noturna, parou no ar — o próprio ar parecia parado e dificultava a respiração. Nossos corações aceleraram, vi os olhos de Shanti normalmente grandes ficarem muito arregalados, a luminescência em torno da fonte reaparecer com nossos dois fantasmas conhecidos, conversando despreocupadamente, como se nada mais tivessem de fazer. Ambos estavam em pé, encostados na alvenaria circular da fonte, e Freud não fumava nenhum charuto. Thomas Mann vestia um colete elegante sob o paletó e um chapéu de feltro. Freud passava a mão direita na cabeça, alisando a calva pronunciada. X Gerhardt então disse-me: — Não é mais o momento de lhe descrever tudo o que aconteceu, porque tudo está no manuscrito que vou lhe entregar. Não fiz cópia e vou confiar no senhor, ou talvez queira me livrar dos fantasmas e do 26


Estamos mos Mortos? os?

3 O tempo não existe para os mortos. Anatole France

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oltei ao manuscrito, agora acondicionado em uma bela pasta de plástico escuro que minha secretária teve o cuidado de providenciar. O conteúdo havia sido reduzido consideravelmente por conta dos cupins, da umidade que apagou a escrita e do mofo, ainda perceptível em muitas páginas. Preferi levar os originais para uma leitura em Veneza, dentro do ambiente descrito. Também trouxe o arquivo da transcrição realizada para o computador em um minúsculo pendrive, para eventuais correções. E ali estava, depois do agradável café da manhã, em uma pequena saleta do hotel, relendo o primeiro relato escrito por Gerhardt e Shanti. Havia uma pergunta de aspecto sinistro como cabeçalho: “Estamos mortos?”, que reaparece em um trecho do diálogo entre os dois fantasmas. Eu submergi novamente na cena. E escreve Shanti:


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X Ghem e eu resolvemos dividir a redação de nossa experiência da seguinte maneira: eu escreveria as observações e ele os diálogos, já que ele compreende alemão e eu não conseguiria reproduzir o que ouviríamos, se bem que, por algum processo estranho, sabendo que estava ouvindo alemão, muitos trechos ouvidos eu entendia de maneira diferente, difícil de explicar: parecia telepatia. De qualquer modo, não confiei nessa percepção estranha e deixei inteiramente a Ghem essa redação. Tudo o mais é como eu mesma vivi, com alguns acréscimos que ele achou importantes. Era uma noite muito fria de final de janeiro e estávamos sentados naquele banco de praça meio em diagonal voltado para a fonte mais próxima da Igreja de Santa Maria Formosa. Estávamos abraçados e olhando a fonte que jorrava sem muito entusiasmo. De repente fez-se silêncio como se houvéssemos ficado surdos. Não ouvia nem minha respiração. Uma folha, caindo mansamente de alguma árvore, ficou parada no ar. Senti uma opressão no peito e dificuldade de respirar, mas logo me acostumei. A água que jorrava deixou de fazer o ruído característico. Em torno da fonte apareceu uma luminescência semelhante a um foco de luz de teatro, como que iluminando uma cena. Nesse foco, surgiram duas figuras facilmente reconhecíveis, bastante populares: Sigmund Freud e Thomas Mann. Pareciam muito com as fotos de quando tinham meia-idade: Freud, vestindo um terno de flanela cinza para azulado, alisava a cabeça, meio calva, e Thomas Mann, muito elegante, em um terno cinza-escuro, com colete e gravata borboleta, e, na cabeça, um chapéu de feltro. Ambos em pé, conversavam em alemão. Ouvíamos distintamente as palavras e percebi a dicção alemã, perfeita, e a voz de Freud, um tanto rouca. “Estamos mortos?”, perguntava Thomas Mann. “A pergunta correta creio que deveria ser: ‘Estamos vivos?’”, observou Freud, e continuou: “É impossível perguntar se estamos mortos, mas é válido 42


O Que é um Herói? rói?

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Não nos esqueçamos de que um herói não é senão um homem elevado além do nível da humanidade, ou um deus que desceu a esse nível, ou, enfim, uma mistura desses dois. Max Muller, Mitologia Comparada.

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espedi-me de Shanti e de meus fantasmas. Ela voltou para o Brasil e tem-me telefonado todos os dias e hoje, imagine, recebi dela uma carta muito longa, com muitas notícias e pediu-me que mandasse lembranças aos fantasmas. Acho que ela gosta de mim, apesar de ter dúvidas a respeito. Ela é mais velha que eu, mas parece mais nova. Acho que ela tem uma alma juvenil, e eu, a alma de um velho. Aliás, hoje me sinto um velho acabado. Ela me dá vida, e eu estou desvitalizado. Se pudesse antecipava minha volta, mas não consigo mudar a data de minha passagem. Tudo com fila de espera e eu não vou sair daqui para ficar no aeroporto de Frankfurt esperando por uma vaga no avião. Acho que fico as três semanas e vou ver se reencontro meus fantasmas, para dizer bem alto: “Shanti manda lembranças!” Na carta, contou-me uma história que diz ser verdadeira, embora pareça um conto infantil.


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Uma tia dela tem uma pequena fazenda na divisa do Estado do Rio de Janeiro com Minas Gerais. É uma dessas fazendas em que, antigamente, se plantava café e hoje serve mais para recreio dos donos. Criam pequenos animais, alguns cavalos e um pouco de gado bovino para o leite local. É cortada por um rio muito bonito, cheio de pequenas cachoeiras. Mandou-me algumas fotos do lugar, naturalmente uma foto lindíssima dela, e outra que mostra um ganso e uma gansa, conforme ela conta. Não distingui nenhuma diferença entre os dois. A história é desse casal de gansos. Melhor transcrever as palavras dela: “Essa minha tia contou-me uma história incrível. Como eu lhe disse, ela vive parte do tempo naquela fazendola histórica e fica muito feliz com a visita bem frequente dos filhos e netos. Já está um tanto velhinha, mas ainda é bem lúcida. Como foi criada na Europa, trouxe de lá o conhecimento de produzir foie gras e, para isso, cria gansos. Uma vez, ainda criança, levei uma corrida deles, e eles bicam para valer. Em toda comunidade de gansos sempre aparece um — o maior e o mais forte —, que é o machão e o mandão do pedaço. Ele é chamado de alfa e escolhe a gansa predileta, que passa a ser sua exclusividade. Acontece que essa gansa — a gansa alfa— arrastou, literalmente, a asa para outro ganso e o ganso alfa descobriu. Tanto a gansa alfa quanto o amante foram expulsos do grupo e foram viver do outro lado do rio que separa em dois a fazenda. Passaram-se algumas semanas e o ganso alfa permitiu aos dois transgressores voltar ao cercado e conviver com os demais, mas a antiga gansa alfa jamais recuperou os privilégios de que desfrutava. O mais comovente era ver os dois amantes gansos, todo crepúsculo, subirem uma pequena elevação e juntinhos ficarem contemplando o poente até o sol desaparecer no horizonte.” Comecei a pensar se os gansos também tinham complexo de Édipo e se Freud poderia me responder isso. Pensei, também, que essa transgressão do casal de gansos tinha algo de heroico. Por coincidência, esse foi o tema que os fantasmas de Freud e Thomas Mann discutiram na madrugada 80


As Muitas Faces es da Mentira ra

5 Uma meia verdade é uma mentira inteira. Provérbio Iídiche

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uase todas as páginas deste capítulo tiveram de ser reconstituídas com muito trabalho, e algumas frases completei-as de acordo com o sentido que continham. Algumas páginas do início foram destruídas, e o capítulo começa com o próprio diálogo. O cenário certamente continua sendo o campo de Santa Maria Formosa. As páginas perdidas não prejudicam a qualidade do conteúdo, que foi anotado por Gerhardt e recuperado. “A Bíblia nos revela”, comenta Thomas Mann, “que, logo na primeira cena do livro do Gênesis, seus personagens centrais usam a mentira como instrumento de persuasão e defesa. A serpente engana Eva; esta mente para Adão; e os dois defendem-se do Criador com desculpas esfarrapadas diante do delito de terem comido do fruto


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proibido da Árvore do Conhecimento, o que ficou conhecido como Pecado Original. Está evidente, nesse relato, que a Criação, que tanto satisfez ao Criador, ficou contaminada, logo de saída, pela mentira, e não havia como reclamar. E é assim que o Criador exerce seu primeiro ato punitivo: torna a serpente execrável; faz a mulher tornarse um ser sofredor e subserviente; obriga o homem a trabalhar; e, sobretudo, torna todos sujeitos à Morte, expulsando-os de casa, ou seja, do Jardim do Éden. Logo depois, Caim mata Abel, ambos filhos do primeiro casal, e mente para Deus.” “Os relatos antigos usam uma linguagem muito parecida com a dos sonhos”, observou Freud. “Seria ingênuo seguir o texto como se ele fosse uma história cronologicamente construída ao estilo jornalístico, como faz o repórter como testemunha direta dos fatos e aderido à plena objetividade, excluindo tudo o que possa revelar suas próprias emoções. O texto bíblico sempre necessitou de exegese. A ciência da hermenêutica nasceu dessa prática, como é bem sabido. Psicanálise, em sua face clínica, pode ser considerada uma ciência hermenêutica e, como tal, um capítulo das ciências que tratam de estudar o ser humano, no sentido da expressão e criação humanas. Poderíamos concordar em incluí-la nas chamadas ciências culturais. Esses esforços classificatórios têm apenas função orientadora, não servem para entendimentos específicos. Não creio que o sábio, ou sábios, que escreveram os textos bíblicos, assim como todas as demais Escrituras, usariam hoje as mesmas palavras, mas tratariam de usar uma forma atual.” E Freud continuou: — Como por exemplo: “Em alguma época evolucionária, a Natureza criou um espécime próximo ao que conhecemos hoje em dia como homem, adaptado ao ambiente natural e convivendo com ele em relativa harmonia. Propagou a espécie sem se dar conta de seu significado, até que, convivendo em círculos protegidos e fechados, desenvolveu a comunicação social e, através da 128


O Sentido da Liberdade de

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A liberdade individual não é um presente da civilização; ela era maior antes que houvesse qualquer civilização. Sigmund Freud

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quela noite estava muito fria. Chegar à praça depois de uma garrafa de Chianti acompanhada daquele prato imenso de pisarei e fasò — quitute que meu bom Giovanni sabia fazer e cuja receita era típica de sua terra, Piacenza, e que ele servia com aquele gesto bem italiano, como me lançando um beijo com os três dedos da mão direita, unidos e projetados em minha direção, e com um carinhoso buon apetito —, fora particularmente difícil. Meus pés avançavam pelas ruelas desertas em direção a Rialto, e minha cabeça insistia em voltar para aquela curiosa e rebuscada cama renascentista do hotel Antico Panada da calle degli Spechieri. Havia menos luz nas ruelas. Será que a municipalidade estava economizando energia? Ouvia meus tênis batendo no piso irregular e o coração, no mesmo compasso. Apesar do frio, minha testa tinha suor por debaixo do


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gorro de lã que descia até os óculos e embaçava as lentes. Acho que estava cambaleando, mas atravessei o umbral da praça e, novamente, aquele momento mágico, estranhíssimo, como se, de súbito, o ar ficasse parado e até o frio desaparecesse. O silêncio ficara totalmente silencioso, e a luz, quase escuridão, concentrava-se naquela fonte circular bem na frente da Igreja, agora apenas uma silhueta recortada na sombra da madrugada. Olhei o relógio, o velho relógio de bolso que herdei de meu tio. Novamente marcava duas horas. Sentei-me, como se visse tudo aquilo pela primeira vez. Mas sempre era uma primeira vez. Pensei que estivesse dormindo em minha cama e sonhando, debaixo daquele edredom macio do quarto do hotel, que já tomava por minha casa depois desse tempo vagabundeando por Veneza. Pensei que o edredom deveria ser feito de penas de ganso, apesar da aparência modesta do hotel. Mas estava, novamente, esperando mais uma cena fantástica, ainda incerto se eram construções de minhas angústias, do Chianti, do cansaço, da hora, da solidão ou de tudo isso junto, ou, afinal, de uma realidade que me escapava dos neurônios ainda capazes de alguma reflexão racional. Ali estavam recortadas na luz opaca da fonte, jorrando água, único movimento daqueles momentos sem tempo, as figuras conhecidas, familiares para mim de tantas leituras e agora assombrosamente conhecidas de Thomas Mann e de Sigmund Freud. E, mais uma vez, conversavam entre si. X “Professor”, ouvi Thomas Mann dizer (ele continuava tratando Freud por Professor, e eu não tenho a menor ideia do porquê, a não ser por uma deferência da etiqueta alemã), “o senhor não acha que a Psicanálise, em vez de ampliar a liberdade das pessoas que se submetem ao método, de certa maneira a restringe na medida em que submete essas pessoas, ou a Psicanálise não tem nada a ver com 174


Viver no Tempo: o: Voltando da Terra do Nunca ca

7 Ah, se já perdemos a noção da hora Se juntos já jogamos tudo fora Me conta agora como hei de partir... Chico Buarque de Holanda

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sta deverá ser a última noite que passarei visitando meus fantasmas, porque amanhã viajo para Frankfurt, de onde voltarei para o Brasil, via São Paulo. Estava igualmente aflito com Shanti, que me enviou uma carta com uma mensagem preocupante. Sua mãe estava doente, com uma tosse estranha, e as radiografias foram sugestivas de tumor pulmonar. Da maneira como ela conta, parece algo muito grave. Ela e os pais pretendem ir a Nova York para exames mais apurados no Hospital Mount Sinai. Provavelmente, a mãe dela será operada. Dizia-me na mensagem, entre as notícias: “Este é o momento em que o tempo deveria parar, porque daqui para a frente acho que só vou ter lágrimas nos olhos e dor no coração. Temo que, em breve, terei de me despedir de minha mãe de maneira definitiva. Uma grande angústia se apossou de mim e, apesar de ter passado


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minha vida refletindo sobre o significado dela, ora contemplando-a como uma experiência fantástica, mágica mesmo, grata ao Criador a todo instante em que respiro, ora imaginando sua amplitude para além daquilo que chamamos de morte, como um reviver constante, mas, nestes momentos de despedidas definitivas, parece que todo conhecimento acumulado converte-se em um falar caricato, em um mero teatrinho para crianças assustadas. Diante do imponderável, abre-se dor, mesmo que seja só a possibilidade de uma perda que é única. Percebo que morte não dói; o que dói é a perda. E diante da ameaça de perder minha mãe, o mundo fica escuro, as cores esmaecem como se desbotassem, e a importância que dávamos aos objetos de nossa posse convertem-se em uma miragem distante em meio a um deserto sem significado. Estou me segurando em lembranças, cujos fios que me prendem a elas se esgarçam e se desfazem para meu desespero. Acho que nunca me preparei para perdas, vivendo, como vivi, na alegria de fruir o cotidiano com a liberdade, os recursos e o amor que meus pais me dão. Sei que há os que perdem a mãe muito cedo, ou porque ela se foi, ou porque ela não conseguiu ser mãe. Deve ser terrível viver com uma mãe que não consegue ser mãe. A minha, para a minha felicidade, ou porque eu carregava um bom karma, sempre foi mãe, e isso é a maior das bênçãos. Compreendo mais do que nunca os seus sentimentos de desamparo diante de sua vida de muitas perdas e acho que só você poderia me confortar. Invente alguma coisa para me dar esperanças.” Telefonei para ela e sugeri: “Pense no passado”, e ela me mandou um beijo e me disse: “Isso me conforta, mesmo temendo o pior. Minha mãe é muito intuitiva e começou serenamente a se despedir dos amigos aqui do Rio e a telefonar para os parentes em Salvador. E isso me desesperou mais e me isolei para chorar. Ela está tranquila e com um sorriso nos lábios. Meu pai está desesperado.” E a religião dela, para onde foi? Afinal, ela não acredita em tanta coisa que deve208


Tornar-se se Humano no

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Toda a raça humana é apenas uma família, dispersa sobre a face de toda a Terra. Todos os povos são irmãos, e devem se amar como tal. François de Salignac de La Mothe Fénelon

Preciso de um amigo para parar de chorar. Para não viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas. Que bata nos ombros sorrindo e chorando, mas que me chame de amigo, para que eu tenha a consciência de que ainda vivo. Vinicius de Moraes

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epois de voltar da Europa, levei alguns meses antes de me dispor a publicar essas anotações. Só me decidi porque elas coincidiam com a importância que eu mesmo dava ao tema do humanismo, relegado, na cultura atual, às prateleiras das livrarias de livros encalhados e velhos ou às caduquices de visionários. Alguns até com disposições românticas. Em meio às tramas do mercado, às trapaças, aos ardis apregoados como soluções econômicas, à sem-vergonhice política, ao escancaramento da violência, à corrupção ética generalizada — pensei —, devem existir mui-


Interlúdios em Veneza

tos que prezam o conhecimento e a solidariedade acima do dinheiro e, então, posso encontrar alguns leitores. E assim o livro começou a acontecer e, para completá-lo, achei útil incluir algumas observações minhas. É o que faço neste capítulo. Salvo pela comunicação recente que Gerhardt me endereçou por um e-mail, incluído no final deste livro, nenhum outro contato tive com ele. Talvez este tenha sido o último. Espero que o leitor tenha podido apreciar, tanto quanto eu, esses diálogos misteriosos entre dois grandes gênios do século passado. Certamente haverá quem pergunte, como está na moda vasculhar autenticidades (prática estimulada pelas muitas mentiras que se contam), se algum dia existiu mesmo esse psicólogo de Londrina e se esse relato não passa de uma criação minha. Já me fizeram essa pergunta e, como não tenho qualquer resposta, nem prova sobre a “realidade” desse relato, não poderei satisfazer a curiosidade de meus possíveis inquisidores e darei toda razão aos que me atribuírem a total invenção desta história. Não direi se estou inventando; tampouco direi se ela é verdadeira. Para mim, pouco importa saber se ela é um fato concreto, ocorrido mesmo, ou uma criação, seja de quem for. O que me comoveu neste relato não foi se Gerhardt encontrou fantasmas — e logo de quem! Já afirmei, logo no início, que não tenho qualquer convicção sobre a existência de fantasmas, embora tivesse passado a vida profissional cuidando de outro tipo de fantasmas: aqueles que se perpetuam como sombras psíquicas nos sofredores mentais, nos neuróticos ou nos psicóticos que acorreram, e ainda acorrem, ao meu consultório. O conteúdo do relato deixou-me bastante impressionado por sua densidade emocional e intelectual. Disse a mim mesmo: poderia ser verdadeiro. Por isso resolvi transmiti-lo aos leitores. Eles julgarão se valeu a pena ou não transformá-lo em livro. Assim como você, que teve a paciência de lê-lo até aqui. Os contextos históricos e os fatos descritos, como pude verificar, fazem parte da história documentada, assim como os ambientes em 238


Epílogo go

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ostaria de dizer que estava com esse livro bem adiantado quando, para a minha grata surpresa, recebi um e-mail de Gerhardt. Não foi assim: a vida não é feita de felizes coincidências. Um pouco antes de viajar para Praga via Veneza, recebi esse e-mail que me levou a examinar os manuscritos com mais atenção e visitar os locais descritos. Fiz as contas e haviam passado 16 anos, assim ele deveria estar com 44. Descobriu meu endereço eletrônico através do site de meu serviço no Hospital Geral da Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro. Não quis que eu lhe respondesse, mesmo porque, dizia, preferia não ter esse tipo de comunicação com ninguém. Como não gosto de ser intrusivo, respeitei. Conta-me que há muito tempo dedica sua vida a trabalho assistencial desinteressado. Por isso não tinha endereço eletrônico e nem me informou o


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número do celular. Entendi essa necessidade de reserva beirando o anonimato. Vivia pelo mundo, na companhia de Shanti, que, com a morte dos pais, havia herdado razoável fortuna, o que lhes permitia esse tipo de vida. Estava na África, na Tanzânia, hospedado em uma cidade próxima ao monte Meru, chamada Arusha. Justificou esse inesperado contato dizendo que subitamente teve vontade de me escrever, quando soube de uma lenda que corria entre a tribo Samburu, um ramo dos Masais, que viviam em uma reserva do Quênia. Achei tão interessante o e-mail que resolvi incluí-lo como um epílogo. Eis o que ele me escreve: X “Caro Professor. Muitos anos se passaram desde o nosso encontro em Londrina, mas a intimidade que lá se criou persistiu. Deve ser assim quando trocamos experiências profundas como as que me levaram a procurá-lo pelas mãos do Professor Vargas. Espero que tenha apreciado o manuscrito que lhe entreguei de minha experiência fantasmagórica em Veneza. Nunca cheguei a uma conclusão sobre a ocorrência e curiosamente nunca mais discuti com Shanti o assunto. Às vezes penso mesmo que aquilo nunca ocorreu. Naquela época andava muito perturbado; hoje, sem poder dizer que estou feliz, sintome finalmente inteiro e gostaria de lhe transmitir essa experiência, ao senhor que marcou presença em minha vida, sem na verdade saber por quê. Lembro que lhe falei de Shanti, como continuei a chamá-la. Nunca mais nos separamos e quando os pais dela morreram decidimos viajar pelo mundo, não como turistas, mas tentando ser úteis e dar sentido às nossas vidas. Queríamos conhecer gente, talvez para conhecer a nós mesmos. Acho que foi isso que tirei de nosso encontro: que o objetivo de nossa vida é dar sentido à vida. Não lembro de o senhor ter-me dito algo assim; deve ter sido sua atitude me escutando. Depois veio a convivência com Shanti, seu espiritualismo, seu 280

Interlúdios em Veneza  

Livro publicado em 2010 pela Editora Rubio e destinado aos interessados em Psicologia.

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