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A TRAJETÓRIA DO ALAGOANO NO CENÁRIO POLÍTICO NACIONAL

GRACILIANO Nº 11 - R$ 5,00

TEOTÔNIO E O BRASIL


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AOS LEITORES DOM QUIXOTE BRASILEIRO O filósofo e ensaísta espanhol Eduardo Subirats, professor da Universidade de Nova York e autor de vários livros, costuma afirmar que o Brasil deve a si mesmo uma revisão cuidadosa do período em que viveu sob o peso da ditadura militar. Pesquisas, reportagens e documentários sobre o tema costumam acrescentar novo fôlego a um debate que, para o bem do País, não deve se extinguir. A trajetória do político alagoano Teotônio Vilela confunde-se com a construção da democracia brasileira. O menino nascido em Viçosa, zona da mata alagoana, sairia da terra natal para dar sua contribuição ao País e não foram poucas as vezes em que os brasileiros assistiram seus embates em nome da abertura democrática, das eleições diretas, da anistia e até da moratória.

Corajoso e hábil no uso da palavra, conseguia a atenção da plateia em qualquer lugar onde estivesse discursando. No cotidiano, cultivava amizades com bom papo e o jeito descontraído de quem viveu bem próximo do povo, quando havia sido boiadeiro e, mais tarde , dono de usina. Para alguns leitores, certamente é impossível esquecer a luta de Teotônio, ao lado de nomes como Tancredo Neves e Ulysses Guimarães pelas eleições diretas no Brasil. Ou ainda pela anistia para os presos políticos da ditadura militar. As cenas em que recebia o apoio de artistas como Milton Nascimento (que compôs uma música em sua homenagem)e Fafá de Belém também estão na mente de muitas pessoas. Dedicada ao político alagoano de maior importância no

cenário nacional, esta edição da GRACILIANO traz uma grande reportagem, com pesquisa e texto do jornalista Lelo Macena, que detalha a vida e a carreira do Menestrel das Alagoas. Um dos destaques é a entrevista exclusiva do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso à revista. Numa conversa descontraída, FHC explica por que Teotônio é, ainda hoje, tão lembrado quando o assunto é democracia. Teotônio Vilela morreu em 1983, quando o País ainda não podia escolher seu presidente por meio do voto direto. Mesmo doente, lutou até o s últimos dias pelo que acreditava. As eleições diretas só aconteceriam seis anos depois. Esta edição se propõe a revisitar os principais lances da trajetória do homem que acreditou no Brasil, sem medo e sem reservas.


EXPEDIENTE

DUO DE TALENTOS Michel Rios

O jornalista alagoano Lelo Macena ainda era uma criança quando Teotônio Vilela brilhava na política nacional. Por essa razão, o convite para pesquisar e escrever sobre a vida e a trajetória do senador foi uma oportunidade para entender o fascínio que o Menestrel exerce, ainda hoje, sobre quem estuda a história recente do País. “Apesar de saber da importância de Teotônio na história política de Alagoas e do Brasil, confesso que fiquei impressionado e me surpreendi com a dimensão de seu personagem. Ele simplesmente esteve presente e foi protagonista em episódios históricos da política brasileira. Tentar desvendar as várias frentes do personagem, seja o político, o empresário, o literato, o boêmio, o boiadeiro, me fez ter a certeza de que Teotônio Vilela merece ser reestudado”, diz o jornalista, que atua na área há mais de 10 anos. Atualmente, é repórter da , onde conquistou o Grande Prêmio Braskem de Jornalismo 2010 com uma reportagem sobre as vítimas das enchentes daquele ano. É também tricampeão da categoria reportagem impressa do mesmo prêmio em 2008, 2009 e 2010. “Acredito muito no jornalismo literário, nas grandes reportagens, detalhadas, aprofundadas. A busca por uma grande história que possa ser contada em um texto bem escrito, que envolva o leitor e venha a se transformar em

documento para pesquisas futuras é o que me dá prazer no jornalismo”, declara Macena. Com uma linha editorial que vem apostando na colaboração de jovens talentos, a propôs ao designer gráfico e jornalista Thiago Oli o desafio de ilustrar a capa da edição dedicada a Teotônio Vilela. Autor das ilustrações do livro infantil (Coleção Coco de Roda), de Geisa Andrade, lançado pela Imprensa Oficial Graciliano Ramos, Thiago transita também pelo mundo das histórias em quadrinhos – durante dois anos foi instrutor de técnicas de desenho mangá. Hoje, é diretor de arte da agência Núcleo Zero. O conceito da capa assinada por Thiago Oli passa longe das cores sóbrias e das formas rígidas. O designer optou por usar tonalidades fortes e recortes icônicos no estilo pop art unido ao retrato pintado do senador, estampado em verde e amarelo. “Ilustrar essa edição foi uma experiência gratificante, pois pude conhecer melhor a vida e a trajetória de um conterrâneo que foi uma grande referência da política nacional”, diz Oli, para quem a ilustração é um universo de possibilidades. “É isso que tanto me fascina na ilustração. Ela pode ser meramente uma réplica do real, representativa e literal ou ser extremamente simbólica, alegórica ou ainda bizarra, grotesca. É um universo infinito e me sinto bem diante dele”.

O jornalista Lelo Macena e o diretor de arte Thiago Oli: dois jovens talentos alagoanos debruçados sobre o mesmo personagem

GOVERNO DO ESTADO

IMPRENSA OFICIAL

DE ALAGOAS

GRACILIANO RAMOS

Teotonio Vilela Filho

Moisés de Aguiar

Janayna Ávila

Lelo Macena

Governador de Alagoas

Diretor-presidente

Editora

Pesquisa e textos

José Thomaz Nonô

Hermann de Almeida Melo

Michel Rios

Thiago Oli

Vice-governador de Alagoas

Diretor-comercial

Projeto gráfico / Diagramação

Ilustração da capa

Luiz Otavio Gomes

José Roberto Pedrosa

Elayne Pontual e

Marli Josefina

Secretário de Estado do Planejamento e do

Diretor-administrativo financeiro

Lucas Almeida

Revisão

Desenvolvimento Econômico

Janayna Ávila

Estagiários

Fundação Teotônio Vilela

Coordenadora editorial

Colaboração

Michel Rios Editor de arte

Contatos:

Graciliano é uma publicação da Imprensa Oficial Graciliano Ramos

0800 095 8355 | editora@imprensaoficial.al

Os textos assinados são de exclusiva responsabilidade do autor. ISSN 1984-3453


SUMÁRIO

FHC O HOMEM DA BRASÍLIA AMARELA

O INGRESSO NA POLÍTICA

O SONHO DE SER PILOTO E A BOEMIA NO RIO DE JANEIRO

06

A VOLTA À CENA POLÍTICA COMO VICE-GOVERNADOR E O APOIO AO GOLPE MILITAR

28 O BOÊMIO BOA PRAÇA

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NO CINEMA, A TRAJETÓRIA DO MENESTREL DAS ALAGOAS ETERNIZADA

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NA ZONA DA MATA ALAGOANA, O SONHO DE UMA COOPERATIVA DE CANA-DE-AÇÚCAR

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A ANISTIA E A PEREGRINAÇÃO PELAS PRISÕES

O ADEUS AO SENHOR DIRETAS

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DA INFÂNCIA EM VIÇOSA AOS ESTUDOS NO RECIFE O BOIADEIRO E O DESAFIO COM O CÃO A ELEIÇÃO PARA SENADOR E A CHEGADA A BRASÍLIA EM PLENA DITADURA NO SEGUNDO MANDATO, O DISCURSO HISTÓRICO O CASAMENTO COM LENITA COM O FILHO DO VAQUEIRO, A AMIZADE ATÉ OS ÚLTIMOS DIAS AS AVENTURAS LITERÁRIAS DO MENESTREL A AMIZADE COM PEDRO SIMON O LEGADO INTELECTUAL E A FUNDAÇÃO TEOTÔNIO VILELA DOCUMENTA ENSAIO VISUAL SAIBA MAIS


ENTREVISTA

O HOMEM DA BRASÍLIA AMARELA O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso lembra, em entrevista exclusiva à Graciliano, os momentos mais marcantes da convivência ao lado do senador Teotônio Vilela e analisa a contribuição do alagoano para a democracia no Brasil

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Magdalena Gutierrez/Acervo Presidente FHC O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, parceiro de Teotônio Vilela na luta pela aprovação da anistia: “Teotônio, com seu garbo, sua coragem e solidariedade deixava marcas em todos”


ENTREVISTA

Em plenos anos da ditadura militar, quando o Brasil vivia um dos períodos mais tensos de sua história, com inúmeras denúncias de tortura e assassinato, os discursos enérgicos do senador Teotônio Vilela chamaram a atenção do jovem Fernando Henrique Cardoso. Impressionado pela retórica, ele aproximou-se do alagoano defensor da volta da democracia. Não demorou, nascia ali uma das mais profundas amizades do cenário político nacional. Nos anos 1970, foi FHC quem conduziu, a bordo de sua Brasília amarela, o senador até o presídio de Barro Branco, em São Paulo, onde estavam centenas de presos políticos. “Teotônio era brilhante,

como presidente da República por dois mandatos, de 1995 a 2002. Aos 80 anos, o sociólogo, cientista político e professor aposentado da Universidade de São Paulo (USP), concedeu entrevista exclusiva à GRACILIANO. Na conversa, discorreu sobre a convivência com o alagoano – que o chamava de “primo” – e sobre o papel essencial de Teotônio à democracia plena vivida nos dias atuais. Confira. GRACILIANO – Em que circunstâncias ocorreu o primeiro encontro entre o senhor e o senador Teotônio Vilela? FERNANDO HENRIQUE CARDOSO – Conheci Teotônio nos anos 1970, depois das

Teotônio era brilhante, tanto na tribuna do Senado, como nas praças públicas e manifestações políticas. Tinha um estilo de oratória criativo tanto na tribuna do Senado, como nas praças públicas e manifestações políticas. Tinha um estilo de oratória criativo. Eu dizia que ele ‘arengava’, isto é, não fazia discursos formais. Conversava com energia com o auditório, levando-o ao êxtase, ao encantamento”, recorda o sociólogo que, anos depois, conduziria os destinos do Brasil

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eleições de 74, quando o antigo MDB começava a ganhar força política. Na época, Teotônio pertencia à Arena, mas se destacava por seus discursos enérgicos em defesa da economia nacional e, pouco a pouco, em defesa da volta da democracia, especialmente depois de seu segundo mandato. Recordo-me bem

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de uma sessão na Câmara de Vereadores de São Paulo quando Ulysses Guimarães e eu fomos vê-lo (ele recebia a medalha Anchieta) para atraí-lo para o MDB. Então, já se cogitava a anistia. Não me recordo desde quando ele passou a me chamar de “primo”: meus avós maternos eram de Viçosa. Octávio Brandão Rego, primo de Teotônio, era primo-irmão de minha mãe. Mais ainda, “tia Mariazinha”, sobre quem Teotônio falava como minha mãe, era tia dela, ou prima – é difícil destrinchar as relações de parentesco de mais de cem anos –, e se casou com um tio de Teotônio (ou parente próximo), que se tornou dono do Engenho do Barro Branco. Além disso, outro grande amigo meu, Raphael de Almeida Magalhães, se tornara braço direito de Teotônio em suas peregrinações políticas. Ambos eram visionários, às vezes, incentivados por Mangabeira Unger. Naquela época, como o senhor via a atuação do senador arenista Teotônio Vilela, principalmente durante o seu segundo mandato, a partir de 1975? Teotônio era brilhante, tanto na tribuna do Senado, como nas praças públicas e manifestações políticas. Tinha um estilo de oratória criativo. Eu dizia que ele “arengava”, isto é, não fazia discursos formais.


Fernando Henrique Cardoso e Teotônio Vilela, nomeado presidente da Comissão Mista da Anistia, durante as peregrinações por presídios, quando visitavam presos políticos

Conversava com energia com o auditório, levando-o ao êxtase, ao encantamento. Não usava os slogans habituais da retórica política, mas a franqueza dos homens sérios. No livro de Márcio Moreira Alves, Teotônio Guerreiro da Paz, o autor narra a primeira visita do senador Teotônio Vilela, então nomeado presidente da Comissão Mista da Anistia, a presos políticos do presídio de Barro Branco, em São Paulo. Segundo Moreira Alves, o senhor acompanhava Teotônio e era quem dirigia a Brasília amarela

que transportou o senador alagoano até o presídio. Como foi aquele dia? É verdade. Levei Teotônio em meu carro até o Barro Branco. Lá chegando encontramos um grupo grande de jornalistas, pois o senador havia avisado que entraria no presídio, coisa que na época era proibido. Chegamos, mandou chamar o responsável, um oficial da Polícia Militar, e disse com energia que éramos senadores da República (ele era, eu era apenas suplente) e que entraríamos para ver os presos. O oficial, meio desconcertado

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e desajeitado, não sabia o que responder, mas Teotônio não perdeu tempo, foi entrando, dando ordens, e as portas foram sendo abertas. Lá encontramos um grupo numeroso de prisioneiros políticos que cumpriam pena. Conversamos com alguns deles, visitamos suas celas e lhes demos alento. Não me recordo bem quem estava lá. Talvez o José Genoino e o Haroldo Lima, e outros mais. Ao sair, falamos com a imprensa e defendemos a anistia “ampla, geral e irrestrita”. A greve dos metalúrgicos

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ENTREVISTA

Aliados de Teotônio Vilela na luta pelo voto direto: o governador de São Paulo, Franco Motoro, sua mulher, Lucy, Tancredo Neves, a cantora Fafá de Belém e Ulysses Guimarães nos comícios pela campanha das Diretas Já, em São Paulo

do ABC, em 1980, foi outro momento crucial para o processo de redemocratização do Brasil. Mais uma vez o senhor estava ao lado do senador Teotônio Vilela, assim como de outros nomes importantes que despontavam no cenário político brasileiro.

algumas vezes à “praça de guerra”. Eu era frequentador antigo de São Bernardo, desde as greves de 1978 e 1979. Quando surgia alguém com o prestígio e a envergadura de Teotônio, isso representava muito para os grevistas e para a massa dos torcedores e

[Teotônio] Era altivo, ao mesmo tempo gentil, e sempre pronto a reagir com energia contra as injustiças Como o senhor avalia a participação diplomática do senador Teotônio Vilela naquele conflito? O senhor chegou a dizer em entrevista a Márcio Moreira Alves que Teotônio, durante o conflito do ABC, movia-se pela “praça” tal qual um “cisne branco”. De fato, acompanhei Teotônio

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militantes da redemocratização. Teotônio, com seu garbo, sua coragem e solidariedade deixava marcas em todos. Destacava-se. Daí a expressão “cisne branco”. Era altivo, ao mesmo tempo gentil, e sempre pronto a reagir com energia contra as injustiças. Dada sua autoridade moral, era a

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personalidade indicada para negociar “diplomaticamente” com os repressores: impunhalhes limites. Mais tarde, em 1983, quando Teotônio estava substituindo o Ulysses, que se afastara por questões de saúde da presidência nacional do PMDB, houve outra greve, desta vez dos metalúrgicos de São Paulo, chefiados pelo “Joaquinzão”. Eu estava em casa em São Paulo, recémoperado, quando recebi uma chamada telefônica do senador, querendo vir a São Paulo. Ulysses me recomendara que cuidasse dos ímpetos de Teotônio. A situação era delicada, pois Montoro assumira o governo há pouco, e a polícia havia reprimido os grevistas, estando Joaquinzão escondido. Chega Teotônio a meu apartamento furibundo: era preciso dar cobertura à greve e “esta polícia do Montoro” reprimira. O governador recém-empossado ainda não controlava a polícia, e o governo do general Figueiredo mandava muito nela. Levei Teotônio para almoçar com minha mãe, que morava a cem


Em 1984, o histórico comício realizado em São Paulo pelas eleições diretas no Brasil reuniu milhares de pessoas. Teotônio Vilela era chamado pela imprensa de “Senhor Diretas”

metros de mim. Piorou: os dois bradavam contra a inação do PMDB e do governo. Resultado: lá fui eu com Teotônio buscar Joaquinzão para levá-lo, glorioso, à Assembleia Legislativa, onde o senador deu uma entrevista criticando o governo estadual. De lá o levei para ver Montoro, para que as coisas se explicassem e fosse possível amenizar o trovão dos céus, tonitruante na garganta de Teotônio. Ainda sobre a greve dos metalúrgicos do ABC, em São Bernardo, naqueles dias, estavam 16 anos da história futura do Brasil, representados pelo senhor e pelo ex-presidente Lula, que chegariam ao poder anos mais tarde. O senhor acredita, caso não tivesse sido abatido pela doença no auge de sua carreira política, que o senador Teotônio Vilela pudesse chegar também

à presidência do Brasil? É difícil saber o percurso futuro de uma trajetória quando ela é interrompida. Mas não há dúvida que Teotônio, pelo prestígio e popularidade que tinha, poderia chegar à Presidência. Como o senhor acha que o senador Teotônio Vilela avaliaria os oito anos do seu mandato como presidente, tendo como base o seu Projeto Emergência, que cobrava as “quatro dívidas” brasileiras: externa, econômica, social e política? Seria presunçoso imaginar como Teotônio avaliaria minha presidência. O fato é que, com as bases que eu lancei, com a mudança de rumo do Brasil, se não conseguimos tudo na redução das quatro dívidas, avançamos muito, não só durante meu governo, mas também nos que me

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sucederam. Sem que se esqueça que ainda há muito a fazer, sobretudo, nos campos social e político. Como o senhor avalia a importância de Teotônio Vilela para o processo de redemocratização do Brasil e o legado que o senador deixou para o País? Um país sempre precisa de símbolos, de marcas, de “heróis”. Teotônio foi isso: bradou contra as injustiças. Deu o exemplo. Foi chama que não se apaga. Sem pessoas como Teotônio teria sido muito mais difícil alcançar a redemocratização. Esse foi seu legado: a virtude condiz com os interesses do povo. O desapego ao interesse pessoal e a determinação na busca de valores, de objetivos que beneficiam a maioria, são indispensáveis na construção de uma nação e no fortalecimento dos povos.

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REPORTAGEM

DA INFÂNCIA EM VIÇOSA AOS ESTUDOS NO RECIFE Nascido na Zona da Mata alagoana, numa família de donos de engenho, Teotônio Vilela foi incentivado pelo pai, ainda na infância, a buscar nos estudos um futuro diferente

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Teotônio Vilela durante a adolescência: relação profunda com a cultura popular e os costumes da região onde nasceu

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Michel Rios

ESPECIAL

A cidade de Viçosa, a cerca de 90 km de Maceió, onde Teotônio nasceu e viveu parte de sua vida

Deitado no chão de barro, com o ouvido colado à terra, o menino escutava o que talvez nenhum outro menino de engenho do Vale do Paraíba conseguisse ouvir. Ainda de

também se plantava o feijão, o milho recém-semeado começava a arrebentar. Para alguns meninos da roça eram barulhinhos quase inaudíveis. Mas para ele eram verdadeiras

A relação entre Teotônio Vilela e as rotinas da vida no campo era intensa. O menino gostava de observar o crescimento do milho nas terras da família, em Viçosa madrugada, pulara da cama feliz e rumara com os irmãos para os planaltos da Viçosa. Era naqueles primeiros momentos do alvorecer que o fenômeno se dava. Debaixo do chão argiloso e fértil, onde

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explosões que ouvia em êxtase, mergulhado num transe telúrico, que o transportava para outros mundos. Noutros dias esquecia tudo e ficava a contemplar a metamorfose de cores das matas, quando o

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mulungu e o ipê redesenhavam a paisagem e pintavam de outras tonalidades o verde que cercava os arredores daquele pedaço da Zona da Mata alagoana. Era uma relação intensa de amor com a terra que o menino Teotônio vivia em sua infância, nos arredores do engenho Mata Verde, de propriedade de seu pai, Elias Brandão Vilela, o Capitão Sinhô, homem que falava pouco, mas mostrava potência na voz quando distribuía, do alpendre de casa, tarefas à caboclada que fazia funcionar a rústica usina de cana movida à junta de bois. Elias era um dos braços da numerosa família Brandão Vilela, que, curiosamente, tem sua gênese nos sobrenomes do português José Martins


Reunião familiar em Viçosa, em 1958. Ao centro, Teotônio Vilela

Ferreira, tetravô de Teotônio, um dos primeiros a plantar cana no engenho da Boa Sorte, no Vale do Paraíba. Teotônio foi o sétimo de uma prole de dez filhos, composta

velho, que se tornaria um dos principais nomes da tradicional escola de folclore de Viçosa, Rubens e Osvaldo, que trilharia o caminho da Medicina. Nair, a mais velha das mulheres, era

O futuro senador de Alagoas cresceu ouvindo o pai repetir que os filhos deveriam construir a vida longe da agricultura por cinco homens e cinco mulheres. Entre eles, correndo, traquinando, tomando banho de rio e montando a cavalo, estava Avelar Brandão Vilela, o quinto filho, que viria a ser arcebispo de Salvador e primaz do Brasil. Além deles, José Aloísio, o mais

uma espécie de irmã/mãe e ajudava na criação dos cinco meninos e das outras irmãs, Hercília, Francisca, Irene e Giselda. À frente dos afazeres domésticos, a dar ordens à criadagem, dona Izabel Brandão

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Vilela também era responsável por iniciar os filhos nas letras e nos números. Depois de providenciar as tarefas da casa, ela, que foi professora do curso primário das escolas públicas de Viçosa, tomava a tabuada e introduzia os filhos na cartilha do ABC. Enquanto costurava numa máquina manual, dona Isabel sempre tinha dois ou três filhos aos pés. Teotônio tinha afinidade com as letras, mas achava impossível um cristão conseguir decorar aquelas multiplicações complicadas. Ele e os irmãos cresceram ouvindo o pai dizer que deveriam buscar a vida longe da lavoura e da agricultura. O capitão Sinhô era o primogênito dos sete filhos do coronel José Aprígio dos Passos Vilela, o

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Michel Rios Casa onde nasceu Teotônio, no Centro de Viçosa

respeitado senhor do engenho Boa Sorte. Assim como o pai, que começou a construir reputação e fortuna agarrado ao cabo da enxada, Elias Brandão Vilela começou cedo a encaliçar as mãos no trabalho duro do eito. Leitor voraz de jornais e revistas, cujas páginas devorava ao balanço da rede do alpendre, a cada nova notícia que os periódicos traziam, o Capitão Sinhô firmava a opinião de que filho seu não teria futuro se ficasse ali, vivendo da terra. Por isso, logo cedo Teotônio deixou o campo para morar na zona urbana de Viçosa, onde passou a estudar no Ginásio Viçosense do professor João Domingues Moreira, um baiano excêntrico, que trabalhara como repórter e revisor em vários jornais da Bahia e, depois

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de criar o Colégio Rui Barbosa, em Maceió, fundara em Viçosa a Liga Contra o Analfabetismo. Beberrão, a ponto de chegar de pileque à aula e tentar acender o giz como se fosse um charuto, dono de uma eloquência que chamava a atenção, além de usuário contumaz da palmatória, o professor João Domingues teria influência direta na formação intelectual de Teotônio Vilela. Hospedado na casa de um tio, calçado em um par de tamancos, Teotônio ia às aulas do professor João Domingues, de quem ouvia lições de latim, grego, filosofia, aritmética. Mas o que fascinava o adolescente eram as aulas de história. “O João Domingues me deu a ideia do mundo. Quando falava de histórias antigas de assírios, babilônios, egípcios,

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gregos e romanos eu exultava. Havia dias em que ele falava para a turma, era um discurso, como se estivesse na Praça Castro Alves. Falava para o mundo inteiro e sobre tudo. Eu delirava”, diria, anos depois, Teotônio, ao lembrar-se do velho mestre. APRENDIZAGEM Aos 13 anos, Teotônio partiu para o exame de admissão do Liceu Alagoano, em Maceió, tradicional escola da rede pública, onde os jovens alagoanos que não migravam faziam a carreira estudantil. Com a “bagagem” que adquiriu do professor João Domingues, foi aprovado sem sobressaltos, mas não permaneceu em Maceió. O pai decidira mandarlhe para o Colégio Nóbrega,


do Recife, o famoso colégio dos padres jesuítas, uma das maiores e mais bem conceituadas escolas do Brasil à época. Pai e filho seguiram num trenzinho maria-fumaça rumo ao Recife. Da estação de Lourenço de Albuquerque, povoado próximo a Rio Largo, até a capital pernambucana, foram 14 horas de viagem. Ávido por conhecer o mundo além das fronteiras de Viçosa, Teotônio seguia viagem ansioso e feliz. Fazia questão de descer

Sócrates e Santo Agostinho, cujas citações acompanharam Teotônio em seus discursos pelo resto da vida, o jovem viçosense devorou os romances do anarquista Michel Zevaco e seu herói Padaillan, viveu as aventuras dos mosqueteiros de Alexandre Dumas, além dos romances populares do italiano Emílio Salgari, de quem leu todos os livros. A literatura brasileira foi outra descoberta dessa época em que Machado de Assis e Lima Barreto foram leituras

Graças a uma rede clandestina de livros no Colégio Nóbrega, no Recife, o jovem Teotônio teve acesso a obras de autores proibidos na instituição, como Kant, Marx, Engels e Hegel e cumprimentar o chefe de cada estação em que o pequeno trem parava. “Você trate de se portar direito”. Foi a recomendação do pai ao deixar-lhe à porta da instituição onde permaneceria por cinco anos e de onde extrairia a substância que formaria sua base literária e filosófica para o resto da vida. Sem ter para onde ir no Recife, sem parentes e nem amigos, o jovem Teotônio fez da imensa biblioteca do Colégio Nóbrega o seu refúgio. Além de Píndaro, Plutarco,

prazerosas. Se dependesse dos padres do Colégio Nóbrega, o jovem Teotônio não iria além de leituras sobre santos e sobre os próprios jesuítas. Rebelde, logo se integrou a uma espécie de rede clandestina de tráfico de livros dentro do colégio, abastecida por alunos que moravam no Recife. Foi assim que conheceu Kant e mergulhou nos escritos de Marx, Engels e Hegel. Ao lado de José Maria de Araújo Cavalcante, um companheiro de turma de quem se aproximara em razão do gosto por livros, lia

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e discutia os textos sobre teoria filosófica e social. Foram esses os caminhos que o levaram a Rousseau e seu contrato social, cujas ideias por pouco não o levaram à expulsão do colégio dos jesuítas. Escolhido para ser o orador oficial da turma durante uma solenidade, mesmo sendo advertido para tomar cuidado com as palavras, Teotônio se empolgou no discurso e fez uma verdadeira pregação universal. Tomado das ideias “contratualistas” de Rousseau fez uma pregação contra a sociedade e contra os pecados mais graves cometidos por suas instituições. Foi um alvoroço. Os professores e os padres queriam esganá-lo. Foi levado para a vice-diretoria. De um cantinho na sala assistiu à reunião da comissão inquisitorial que decidiria a sua sorte. O veredito final seria dado pelo padre Antônio Gonçalves, o tesoureiro do colégio. “Botar esse pra fora? Esse não! Esse o pai paga em janeiro. E tem mais uma coisa: vão ver as notas dele. Ele é rebelde, está certo, mas as notas dele são ótimas. Expulsem aqueles que não pagam, que vocês apadrinham aí e, além do mais, são burros”, sentenciou o padre, para alívio de Teotônio. O capitão Sinhô fazia questão de pagar adiantado as mensalidades da escola do filho.

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Alimentado pelo sonho de seguir a carreira de piloto, Teot么nio transferiu-se para o Rio de Janeiro nos anos 30

O SONHO DE SER PILOTO E A BOEMIA NO RIO DE JANEIRO 18

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Em pé, debaixo de sol a pino, no Rio de Janeiro, o jovem Teotônio penava para realizar o sonho de ganhar os ares. Contrariando o pai, que queria vê-lo no ambiente acadêmico, cursando uma faculdade,

Andreazza, se entregavam à malandragem e à noite carioca. E lá estava Teotônio, em forma há quase duas horas, no pátio do Colégio Militar, na Tijuca. Já não suportava mais aquele sol forte na cabeça.

No período em que passou no Rio de Janeiro, Teotônio Vilela conheceu Mário Andreazza. O futuro Ministro dos Transportes seria parceiro do alagoano na boemia carioca Teotônio decidiu que queria ser aviador. Para isso, o primeiro passo seria fazer o curso no Colégio Militar, no Rio. Uma vez aprovado, ingressaria nos estudos e seria encaminhado para a Aeronáutica. O pai ficou louco. “Você vai ser soldado? Meu Deus, soldado não é nada!”. Mesmo contrariado, o Capitão Sinhô apoiou e bancou a ida do filho, aos 18 anos, para o Rio de Janeiro, assim como garantira os cinco anos de estudos no Recife. Foi um ano de estudos preparatórios para encarar o teste no Colégio Militar. Foi nessa época que Teotônio conheceu outro personagem que viria a ter destaque na política nacional. Quando não estavam estudando, Teotônio e o futuro ministro dos Transportes do governo do general Figueiredo, Mário

Carregava, como sempre, um jornal embaixo do braço e teve uma ideia. Arrancou uma das folhas, fez um chapéu de almirante, desses que

se aprende a fazer quando criança, e pôs na cabeça. Ele mesmo, com o bom humor de sempre, conta essa história em depoimento ao jornalista Mino Carta. “De repente me apareceu uma autoridade, não sei se era tenente, capitão ou sargento, mas veio com uma fúria: ‘É um desrespeito, esse chapéu!’ Fiquei aturdido, sabe? E o homem de dedo em riste: ‘Você não pode estar aqui, não tem moral para fazer isso!’. Aí eu me ofendi e estourei com o homem”. Foi o suficiente para que o rebelde Teotônio fosse expulso sem nem ter entrado para a carreira militar. “Assim frustrou-se meu efêmero sonho aeronáutico”, lamentaria mais tarde.

Colégio Militar do Rio, na Tijuca, onde o próprio Teotônio “enterrou” o sonho da carreira de piloto, após atitude considerada desrespeitosa

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O cabaré Assírios, localizado no subsolo do Teatro Municipal do Rio: o alagoano era assíduo na casa

Mas ele não desistiu e mirou a Escola Politécnica, onde queria iniciar uma carreira de engenheiro. Não era sonho, era uma simples opção, como o próprio Teotônio reconheceria depois. Mais uma vez foi reprovado. Terminava ali a busca por uma formação superior, que jamais teria no currículo. Mas a aventura no Rio de Janeiro estava apenas começando. Frustrados o sonho de ser aviador e a possibilidade do diploma de engenheiro, Teotônio se entrega à boemia carioca. Chegou a ser até diretor de uma gafieira, a Aliança, que ficava no bairro de Laranjeiras, nos fundos da pensão onde Teotônio e Andreazza moravam. “Era uma gafieira frequentada pela turma do morro e nós convivíamos ali tranquilamente, na boa paz”, contaria Teotônio, que possuía

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uma mesa cativa no local. Era final dos anos 30. Ele passou a conhecer o Rio de Janeiro como a palma da mão. Transitava em cabarés de luxo, onde disputava mulheres bonitas e caras com jogadores de futebol famosos, intelectuais e escritores. Quando um grupo de alagoanos esteve no Rio de Janeiro, ele foi o “anfitrião” em uma dessas casas noturnas. Tornou-se amigo da proprietária do local e as portas ficaram abertas para ele. Um desses cabarés frequentados por Teotônio era o Assírios. “Era um cabaré que ficava debaixo do Teatro Municipal, frequentadíssimo. E sempre invadido por jogadores de futebol e policiais da Polícia Especial, rapagões enormes. Nós, modestos estudantes e intelectuais, competíamos pelo encanto da palavra, pelos sonhos que despertávamos

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na cabeça daquelas mulheres, noite adentro...”, disse Teotônio ao jornalista Mino Carta. A boemia carioca do jovem viçosense durou até o dia em que, tomado pela melancolia, resolveu voltar para Viçosa, sem o almejado diploma, para desespero do severo Capitão Sinhô, que não entendia e lamentava o desperdício de mais de três anos do filho no Rio de Janeiro. “O que você veio fazer aqui, meu filho? Pegar no cabo da enxada? Cuidar de cavalos? Não faça isso...”, sofria o pai de Teotônio. “Não se preocupe, meu pai, é meu jeito de ser”, tentava explicar. O exboêmio carioca estava decidido. Usaria suas habilidades com o cavalo e a intimidade com o gado para ganhar dinheiro. Lançou-se então na aventura de ser boiadeiro, que definiu como a fase mais feliz de sua vida.


O alagoano na Usina Boa Sorte, em Viçosa: apesar da desconfiança do pai, o Capitão Sinhô, o período como negociante de gado rendeu-lhe recursos para ingressar no setor sucroalcooleiro

O BOIADEIRO E O DESAFIO COM O CÃO 21

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Corriam os anos 40. Ao lado de um amigo vaqueiro, Teotônio percorria o Baixo São Francisco, na divisa de Alagoas com Sergipe, à procura de gado de qualidade. Certo dia, soube de um velho que possuía 22 garrotes soltos, quase selvagens, e propunha um desafio. Vendia a pequena boiada pela metade do preço, pagamento adiantado, mas quem quisesse comprar por este valor tinha de pegar os bois a laço, capoeira afora, numa jornada de 10 dias, de sol a sol. Caso não conseguisse,

dia, antes do pôr do sol, Teotônio e sua turma chegavam com o último boi bem amarrado e chifres aparados. Lá dentro de casa, amuado, ainda sem acreditar, o velho nem quis se despedir daquele vaqueiro valente de Alagoas. Ele e o “Cão” foram derrotados por Teotônio. Teotônio adorava contar essa e outras histórias da época em que foi boiadeiro. Exímio montador, amante de cavalos e de bois durante mais de quatro anos de sua vida, comprou boi às margens do São Francisco e

Considerado um exímio montador, Teotônio gostava da vida de boiadeiro. Chegava a tanger gado durante 40 dias pelo interior de Alagoas ficava sem os bois e perdia o valor adiantado. Comentavase na região que o velho tinha pacto com o diabo. Acreditava que jamais alguém fosse capaz de tal feito. Carregava um sorriso debochado no canto da boca. Teotônio foi à fazenda dele e topou o desafio. Contratou mais dois vaqueiros e pagou o valor adiantado. Selaram os cavalos, apertaram as cilhas, meteram espora segura e regularam os estribos. Danaram-se pelas vargens de verdes úmidos da beira do Velho Chico. No décimo

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trouxe para o Vale do Paraíba, onde revendia aos fazendeiros. Tinha 23 anos. Chegava a tanger gado durante 40 dias na estrada, dormindo embaixo de árvore e acordando ao som do canto dos pássaros. Para começar o negócio contou mais uma vez com a ajuda do pai. “Essa foi uma fase maravilhosa da minha vida. Eu andava com a boiada como se tivesse voando. Era um homem inteiramente livre... E aquela sensação imensa de liberdade pelos tabuleiros do Norte. Eu era um homem descobrindo novos

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mundos. Dormia de quando em quando em pequeninas fazendas e ouvia histórias que não conhecia”, disse Teotônio, em entrevista. Foi durante a vida de boiadeiro que ele aproveitou para enriquecer ainda mais o seu repertório literário. No lombo do burrico Saboroso, que ia carregado de farinha, chá, pimenta malagueta, carne seca, feijão e outros mantimentos, ele também levava livros. Havia vezes em que o primo dele, Synfrônio Vilela, um exímio corredor de cavalhadas que acompanhava Teotônio nas jornadas com o gado, ficava impaciente. A parada, que deveria durar o tempo para o gado recuperar a força e recompor os cascos, se estendia por quatro, às vezes cinco dias. A tropa só levantava acampamento depois que Teotônio concluísse a leitura. “Vamos embora, Teotônio!”, suplicava Synfrônio. “Espera, homem! Estou quase terminando. Esse livro está uma maravilha!”. O fato de estar montado a cavalo na maior parte do tempo também trazia enorme satisfação a Teotônio. Desde muito pequeno, aprendeu a amar os bichos da fazenda, especialmente o cavalo. Teve vários, sempre os melhores. Batizou-os com nomes sugestivos: Presidente, Governador, General. Mas, por ironia, o mais querido de todos


e mais lembrado em suas histórias, chamava-se Escravo, um mestiço de árabe, preto, com uma pata branca. Quando Teotônio viu aquele cavalo numa feira de Palmeira dos Índios, ficou encantado e não pensou duas vezes antes de comprar. Nasceria ali uma grande amizade entre homem e animal. No livro Teotônio, guerreiro da paz, de Márcio Moreira Alves, Teotônio fala dessa parceria. “Aquele cavalo parecia que adivinhava minhas intenções e aceitava, dobrando

uma delícia passar o dia todo dizendo ‘vale tanto’, ‘não vale, vale tanto só’, ‘tem tantas arrobas ou tantos quilos só’, ‘não tem, meu amigo, de forma nenhuma, você está louco, não está vendo que só tem tantos quilos?’”. O sucesso nos negócios do filho era acompanhado de perto pelo Capitão Sinhô. Ficava do alpendre avaliando a boiada que Teotônio trazia para revender. Quando ficava calado era sinal de que o negócio estava aprovado. Do contrário, dava

Durante cinco anos, Teotônio dedicou-se à atividade como negociante de gado. Juntou uma pequena fortuna, com a qual fundou a Usina Boa Sorte as patas, os desafios que eu encarava. Saltava qualquer vala, entrava em qualquer mato, perseguia qualquer boi”. VOCAÇÃO Teotônio contou em entrevista que, quando não estava montado, adorava ficar à beira do curral, negociando o preço do gado que compraria como se aprimorando sua virtude de argumentação, de convencimento, que o destacaria mais tarde no cenário político nacional. “Era

as costas impaciente e voltava resmungando para o balanço da rede, onde retomava a leitura dos jornais e revistas. Na maioria das vezes, as investidas comerciais de Teotônio eram aprovadas. Muitas das viagens do boiadeiro Teotônio tinham como destino a cidade de Penedo, às margens do Velho Chico, região onde pastava boa parte do rebanho bovino de Alagoas. Quando não se agradava do preço da arroba cobrado pelos fazendeiros do baixo São Francisco, esticava

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sua busca a Feira de Santana, no interior da Bahia, de onde trouxe muito boi para vender. Montado no lombo de um cavalo, a comprar e vender boi, Teotônio ganhava dinheiro e também fazia fama. Era conhecido nas várias cidades e povoados por onde passava por promover festanças nos cabarés das cidades onde apeava. Ele lembrou da época em entrevista ao jornalista Mauro Santayana, publicada na revista Status, em 1982: “Eu era um sujeito rico para a minha idade, e sabia negociar bem. Quando chegava a Penedo, uma cidade importante, com suas lavouras de arroz, era um deus nos acuda. Às vezes era época da colheita de arroz, e as mulheres da mal chamada vida fácil saíam de suas casinhas para trabalhar na safra. Mas era só eu chegar e mandar abrir os pobres cabarés de Penedo, oferecendo cervejadas para todas, para os arrozais maduros ficarem abandonados”, lembrou Teotônio. Foram quase cinco anos nessa toada. Tempo suficiente para Teotônio juntar uma pequena fortuna. Era um homem rico, prestes a completar 28 anos e partiria dali para uma das mais duras empreitadas que enfrentaria na vida: a aventura de montar uma usina de açúcar.

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Michel Rios A Usina Boa Sorte, onde hoje funciona o haras de mesmo nome, foi o local onde Teotônio iniciou sua vida como usineiro

NA ZONA DA MATA ALAGOANA, O SONHO DE UMA COOPERATIVA DE CANA-DE-AÇÚCAR 24

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A Usina Seresta, localizada no município de Teotônio Vilela e em pleno funcionamento: uma história pontuada por dificuldades, empréstimos, embates com a família e o medo da falência

Foi um ano e meio de angústia e incerteza. Sabia que era necessário o investimento, a mudança. A Segunda Guerra Mundial estava terminando, mas uma das grandes batalhas de Teotônio Vilela estava só começando. A época de boiadeiro havia ficado para trás. Há um ano cessara as viagens lucrativas com bois. Criado entre um curral e uma touceira de cana, como ele mesmo gostava de dizer, o olhar arguto de Teotônio Vilela apontava agora para os canaviais. Enxergava longe e via com preocupação que os pequenos engenhos de açúcar do pai, dos tios e de todos que viviam da atividade açucareira, nas fazendas do entorno de Viçosa, estavam com os dias contados. “Meu pai enxergou que os engenhos não tinham futuro econômico, não tinha como competir com as usinas que estavam sendo criadas

no Brasil, no Nordeste e, principalmente, em Alagoas. Ele viu que era necessário montar uma usina. Caso contrário, todos os engenhos da família iriam falir”, diz o engenheiro agrônomo Elias Vilela, o caçula dos filhos de Teotônio. Essa fase será crucial na vida de Teotônio Vilela. É nesse momento que surge e se afirma, diante do olhar cético do pai e das expectativas da família, o Teotônio visionário, empreendedor e homem de alto poder de convencimento. Antes de completar 30 anos, Teotônio comandaria o projeto de criação de uma cooperativa formada por ele, o irmão mais velho, Aloísio, além de tios e primos, com quem teve de usar sua habilidade de dialogar para convencê-los a fechar seus engenhos, unir as terras e tornarem-se fornecedores de cana para uma usina capaz de produzir 250 mil sacas por

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safra. Era o surgimento da Usina Boa Sorte. “É um nascimento cheio de dificuldades. Meu pai nunca foi um homem rico. A Usina Boa Sorte surgiu da criatividade e da coragem dele, porque, na realidade, ele não tinha dinheiro para fundar uma usina de cana-de-açúcar”, diz Elias Vilela. No depoimento histórico de mais de seis horas, concedido ao jornalista Mino Carta, o senador Teotônio Vilela relembra: “Foi um trabalho terrível. Passei um ano e meio com medo de perder o que tinha numa aventura, uma indústria que nós não conhecíamos. Conhecíamos o engenho, o monjolo, mas uma usina de cana-de-açúcar, que ia consumir tantas toneladas de cana...” Com o dinheiro tomado emprestado do Instituto do Açúcar e do Álcool, criado em

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1933 para incentivar o consumo e regular o mercado de açúcar e de álcool no Brasil, Teotônio comprou as ferragens e o maquinário da indústria. Foi o irmão Aloísio quem localizou, em Sergipe, o equipamento já usado, mas de qualidade, de uma indústria recém-montada e abandonada pelo dono. Mas era preciso mais dinheiro, que só poderia vir com a hipoteca das terras dos cooperados, ou seja, do patrimônio dos familiares.

por cavalhada e vaquejada que Viçosa comemorou, em 1948, as primeiras atividades da Usina Boa Sorte, talvez a última das 28 usinas de cana criadas em Alagoas, no período entre 1920 e 1950. Muitas delas faliram antes de completar a segunda safra. A primeira safra da Usina Boa Sorte não veio como os Brandão Vilela esperavam, o que deixou aflitos os cooperados. A aflição viraria desespero três anos depois, em

Para garantir a sobrevivência da usina, Teotônio teve que convencer a família a hipotecar os bens e investir mais recursos nos negócios “Foi a parte mais dramática da história. Foi preciso convencer meu pai e meus tios que cedessem as suas propriedades para hipotecar. Aquilo era uma ofensa danada, mas eu já tinha esgotado todos os recursos e não podia parar. Eu nunca sofri tanto quanto ter de conversar com meus parentes mais velhos, argumentar com eles com o máximo de lucidez”, lembrou Teotônio. O COMEÇO Foi em meio a uma festa animada por cantadores de viola, emboladores, e agitada

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1951, durante uma das crises do açúcar. Numa reunião, veio a grave constatação: todas as propriedades estavam hipotecadas, o preço do açúcar despencara e não havia saída, a não ser, para a maioria dos cooperados, vender a usina. Aquilo era, como diria depois Teotônio, “uma lança cravada no peito”. Reagiu e pediu direito de preferência para comprar a usina. Conseguiu levantar o dinheiro, hipotecou terras que ainda possuía e comprou a Boa Sorte. “Os tios e outros que tinham participação na usina venderem tudo a papai em

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troca de não ficarem com débito nenhum. Na verdade, assumiu o débito de todos, porque tinha um compromisso moral de que ninguém perderia nada por ter acreditado nele. Então ele assumiu todos os passivos e deixou os sócios com seus patrimônios livres”, conta Elias Vilela. Embora sua situação fosse de quase falência, a partir daquele momento, Teotônio passaria a fazer parte da mais alta casta da economia e do poder em Alagoas. Depois de suas viagens e aventuras com os bois, Teotônio Vilela era agora usineiro, embora disposto sempre a ajudar a quem viesse lhe pedir socorro. “Nosso pai tinha por princípio socorrer todos os que chegavam precisando de ajuda para plantar cana. Ele arranjava dinheiro para todo mundo. O Zé Aprígio [filho mais velho de Teotônio, responsável pela administração da usina] dizia: ‘Mas pai, nós estamos com dificuldade de pagar a folha da gente!’. E ele dizia: ‘Zé Aprígio, eu sou a única esperança dessas pessoas. Se eu negar, eles não vão ter a quem recorrer. Quanto a mim, vou buscar em outros horizontes como viabilizar recursos”, conta Elias. A Usina Boa Sorte durou até o ano de 1970. Assim como promoveu a mudança dos engenhos para a usina, Teotônio, que já se tornara


senador da República, sentiu necessidade de buscar outra condição geográfica para prosperar ainda mais na atividade canavieira. O terreno acidentado e os morros do Vale do Paraíba travavam o desenvolvimento da Boa Sorte. Então partiu para os tabuleiros da cidade de Junqueiro, região por onde sempre andava na época em que comprava gado. Animado com os incentivos do Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA), que oferecia crédito subsidiado para promover a modernização e mecanização do setor açucareiro no País, Teotônio foi à procura de um sócio para que, juntos, pudessem montar

O empresário Elias Vilela, que acompanhou a luta do pai no desenvolvimento da indústria açucareira e hoje administra a Usina Seresta

velho de Teotônio, conta que começaram comprando uma tarefa a dez cruzeiros e terminaram pagando 50 cruzeiros. Era uma terra pobre, de caju bravo e mangaba. Elias Vilela não esquece as viagens, aos sábados, no começo dos anos 70, rumo às terras onde seria

montada a nova usina. A bordo de uma Veraneio, ele, Teotonio Vilela Filho, futuro senador e governador de Alagoas, José Aprígio Vilela, o Zé Aprígio, que se tornaria um dos responsáveis pelo desenvolvimento da indústria açucareira em Alagoas, e o velho Teotônio, então senador. “Lembro que quando meu pai se reunia com os pequenos

donos de terra da região, orientava para que eles não vendessem as terras, mas se tornassem fornecedores de cana para a nova usina. ‘Você vai passar de plantador de mandioca a fornecedor de cana’, dizia meu pai. Ficava aquele monte de gente ao redor dele, todo mundo atento ao que ele falava”, conta Elias Vilela. A despeito dos técnicos do IAA, que deram parecer contrário, alegando risco de perda do investimento pela proximidade do local onde seria plantada a cana com a região das secas, a Usina Seresta foi montada. Na primeira safra foram 384 mil sacas de açúcar. No segundo ano veio seca. A meta estabelecida pelo IAA para a concessão do financiamento era de 600 mil sacas, muito além das 256 mil daquele ano. No terceiro ano, as coisas entraram nos eixos e a usina produziu 880 mil sacas de açúcar. Uma década depois, em 1983, no ano em que morreu o senador Teotônio Vilela, a produção foi de 2 milhões de sacas.

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Na época em que fundou a Usina Seresta, Teotônio percorria a região convencendo os pequenos agricultores a se tornarem fornecedores de cana-de-açúcar uma nova usina apta a receber os investimentos do governo. Este homem seria Geraldo Gomes, principal acionista da Usina Santa Amália, que, assim como a Boa Sorte, também enfrentava dificuldades. Saíram pelos tabuleiros à procura de terra para comprar. No livro de Márcio Moreira Alves, Teotônio Guerreiro da Paz, Zé Aprígio, o filho mais


Teotônio Vilela em plena campanha no interior de Alagoas: paixão pela política, na qual ingressou após sugestão do jornalista e líder da UDN, Carlos Lacerda

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Deputados chegam à Assembleia Legislativa de Alagoas para votação do impeachment do então governador Muniz Falcão: sessão terminou em tiroteio. Anos depois, Teotônio, que foi relator do processo, dizia que não gostava de lembrar o fato porque era ruim para a imagem de Alagoas

Mais do que uma sugestão ou mesmo um convite, a frase carregava a gravidade de uma intimação: “Teotônio, você tem de se candidatar a deputado na próxima eleição. Um homem como você não pode ficar participando aqui dentro de casa, tem que ir para a praça e dominar o povo”. A frase teria partido de ninguém menos que o jornalista e líder da UDN, Carlos Lacerda, dono da Tribuna da Imprensa à época, jornal que fazia oposição ferrenha ao presidente Getúlio Vargas, durante seu segundo mandato. “Você está maluco, Carlos? Não vou me candidatar a coisa alguma!”. Mas a gargalhada de Teotônio deixava claro que ele havia se encantado com a ideia. Era 1953, em Maceió, numa noite boêmia, no Cumbe, entre os canais que ligam as lagoas Mundaú e Manguaba. Teotônio tinha 35 anos e Lacerda, 40. No

ano seguinte, Lacerda entraria para a história do Brasil, após sofrer o atentado que precedeu ao suicídio de Vargas. Teotônio atenderia ao “chamado” de Lacerda e ingressaria na política ao se candidatar e vencer as eleições de 1954 para deputado estadual, em Alagoas. O fato é narrado em texto do jornalista Hélio Fernandes, que testemunhou, segundo ele, o momento que definiria o início da jornada política do Menestrel das Alagoas. “Éramos então três boêmios: Teotônio Vilela, Carlos Lacerda e este repórter. Três terríveis boêmios, três grandes conversadores, três homens que adoravam trocar a noite pelo dia, viver mais à noite do que durante o dia, embora todos três trabalhássemos intensamente”, escreveu Fernandes, em texto publicado na Tribuna da Imprensa, em 29 de novembro de 1983, dois dias

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depois da morte de Teotônio Vilela, e reproduzido no livro Tributo a Teotônio, publicado em 1987 pela Fundação Teotônio Vilela. Durante seus anos de Rio de Janeiro, Teotônio Vilela já se envolvera com a política estudantil e chegou a ser perseguido pelo capitão Filinto Müller, então chefe da temida polícia política de Vargas, durante a ditadura do Estado Novo. Mais tarde, em 1948, no mesmo ano em que a Usina Boa Sorte moeu a primeira safra, ele fundou o diretório municipal da UDN em Viçosa, ao lado do tio Manoel Brandão Vilela, líder político da família e duas vezes prefeito de Viçosa. “Em Alagoas nós tínhamos um adversário histórico: a família Góis Monteiro, donos do Estado há muito tempo, militares, diplomatas, etc, etc, que fundaram ali o Partido

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Amigo de Teotônio nas noites dedicadas à boemia, o jornalista Carlos Lacerda (ao lado) foi responsável pelo ingresso do alagoano na política

Social Democrático, o PSD. Nós não tínhamos outro caminho que não ingressar na UDN. Eu sentia que havia a necessidade de participar da vida política”, revelou ao jornalista Mino Carta, em depoimento publicado pela revista Senhor. Teotônio Vilela inauguraria a década de 1950 sob o status de pertencer ao time dos novos empresários da indústria da cana. Contemplados com os incentivos do Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA) à época no setor, fortaleciam as usinas, ganhavam poder econômico e se projetavam politicamente. Em 1950, a surpreendente vitória para governador de Alagoas, do jornalista Arnon de Mello, candidato da UDN, sobre Luís Campos Teixeira, candidato de Silvestre Péricles, pôs fim

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a três décadas de domínio dos Góis Monteiro e reconfigurou o xadrez político local. No exercício do mandato de deputado estadual, em 1954, Teotônio Vilela não só assumiria a liderança da UDN como comandaria lá dentro a oposição de 22 dos 35 deputados da Casa ao populismo do governador Muniz Falcão, do Partido Social Progressista (PSP) que, ao vencer no pleito de 1955 o candidato da situação, o advogado Afrânio Lages, também derrotaria as elites e a aristocracia alagoana. TENSÃO NA POLÍTICA

O pernambucano Sebastião Marinho Muniz Falcão chegou a Alagoas no início dos anos

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1940. Foi delegado regional do trabalho e, em 1950, elegeu-se deputado federal pelo Partido Social Trabalhista (PST). Era adorado pelas classes mais pobres e tinha o apoio dos funcionários públicos, mas era odiado pelos ricos de Alagoas. Causou revolta aos usineiros ao criar uma taxa de imposto a ser paga pelos usineiros. O decreto foi derrubado depois que os produtores de cana entraram na Justiça. Liderar as oposições a Muniz Falcão na Assembleia Legislativa de 1955 significava representar “as mais poderosas famílias estaduais, herdeiras do baronato agrário e do coronelismo interiorano, habilmente conduzidas pelos bacharéis udenistas”, como escreveu o historiador Douglas Apratto Tenório na introdução de A Tragédia do Populismo (Edufal, 1995). Avesso à violência, em dois momentos de seu mandato Teotônio chegou a empunhar arma. Naqueles dias de tensão, ao lado de companheiros da UDN, evitou que as oficinas do jornal Gazeta de Alagoas, que fazia oposição ao governador, fossem fechadas. Para garantir a segurança da mulher e dos filhos, Teotônio teve de mandar a família para o Recife. A mesma medida também foi tomada pelos deputados Bené Bentes, compadre de Vilela, e Afrânio Lages, além de outros políticos da UDN, receosos com


as ameaças que partiam das hostes governistas, que tinham no líder político de Palmeira dos Índios, Robson Mendes, o seu braço armado. Corajoso, Teotônio não faltou à sessão de votação do processo de impeachment de Muniz Falcão, do qual ele mesmo foi o relator. Naquela sexta-feira, 13 de setembro de 1957, quatro meses depois de aprovado o relatório de Vilela, mais de mil tiros seriam disparados dentro da Assembleia Legislativa de

governador Sizenando Nabuco assume o cargo. Acatada a denúncia contra o governador, foi constituído um tribunal misto responsável por julgá-lo, composto por um deputado governista, quatro de oposição – entre eles, Teotônio – e cinco desembargadores. O julgamento ocorreu no dia 11 de dezembro do mesmo ano. O placar foi de 6 votos a 4 contra o governador Muniz Falcão, que se livrou do impeachment porque a lei exigia o quórum de dois terços para a condenação.

Após o tiroteio na Assembleia, Teotônio se recusava a falar sobre o fato. “Não porque me envergonhe, mas porque dá uma imagem pouco respeitável de Alagoas”, afirmou Alagoas. Quando cessou o tiroteio, o deputado Humberto Mendes, líder do governo e sogro de Muniz Falcão, estava morto, atingido com um tiro no coração. Outros cinco parlamentares ficaram feridos, além do jornalista Marcio Moreira Alves, que fazia a cobertura para o jornal carioca Correio da Manhã. O governo federal decretaria intervenção em Alagoas e nomearia o general Armando Âncora para o comando da polícia. Depois que Muniz decide se licenciar, o vice-

Muniz voltou ao Palácio dos Martírios “nos braços do povo” para reassumir e governar até o fim do seu mandato, no dia 31 de janeiro de 1961. Após aquela sexta-feira 13, Teotônio sempre se recusou a falar sobre o assunto. No depoimento histórico ao jornalista Mino Carta, ele justificou porque evitava relembrar o episódio: “Não porque me envergonhe, mas porque dá uma imagem pouco respeitável de Alagoas”. Também argumentava que falar ou escrever sobre aquele

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dia sangrento da política caeté envolveria muita gente ainda viva. Dos mais de mil tiros disparados dentro da Assembleia, Teotônio afirmava que não acionara o gatilho da arma que portava, mas o laudo pericial, segundo Márcio Moreira Alves, inclui a arma de Teotônio entre as que foram usadas no tiroteio. Assim como teve participação decisiva no processo do impeachment de Muniz Falcão, Teotônio Vilela também seria importante na pacificação do cenário político em Alagoas. Ao lado do então deputado Geraldo Sampaio, liderou os deputados que garantiriam a aprovação do orçamento apresentado pelo governador Muniz Falcão. Na eleição de 1982, Vilela apararia de vez qualquer aresta que ainda restasse ao não só apoiar para deputado federal Djalma Falcão, como votar pessoalmente no irmão de Muniz Falcão. OPERAÇÃO ALAGOAS

Em meio ao clima violento que marcou o governo Muniz Falcão, o deputado estadual Teotônio Vilela encontrou espaço para revelar sua característica política de propor medidas concretas para solucionar problemas. Como senador, anos mais tarde, para tirar o Brasil da crise, formataria

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Lucas Almeida Para o historiador Luiz Sávio de Almeida, “Teotônio tinha na noção do município, do desenvolvimento local, o caminho para o crescimento econômico de Alagoas”

o Projeto Brasil e o Projeto Emergência. Sua primeira tentativa de fazer uma proposta que mesclava medidas administrativas, econômicas e políticas chamou-se Operação Alagoas, um projeto de lei com 41 artigos, considerado na época inovador em matéria de planejamento e análise da realidade sociopolítica e econômica de Alagoas. Propunha, segundo texto do próprio Vilela, publicado na edição da Gazeta de Alagoas, em 15 de outubro de 1955, “um esforço honesto por parte das autoridades das três órbitas do governo, tendo em vista a expansão e o fortalecimento das atividades econômicas e sociais, indispensáveis ao engrandecimento efetivo, real, das comunidades alagoanas”. “Era uma proposta radical para o desenvolvimento de Alagoas. Teotônio Vilela

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representava ali o pensamento oligarca, ligado ao açúcar, mas que buscava uma mudança, buscava o desenvolvimento econômico do Estado. Era a proposta de desenvolvimento para Alagoas formulada pela UDN, uma proposta mais intelectualizada do que o projeto de desenvolvimento do governador Muniz Falcão. Teotônio tinha na noção do município, do desenvolvimento local, o caminho para o crescimento econômico de Alagoas ”, explica o historiador Luiz Sávio de Almeida. “Ele não era um deputado qualquer. Talvez tenha sido um dos poucos na história de Alagoas que se preocuparam em apresentar uma plataforma de desenvolvimento para o Estado. É certo que era ligado ao bloco conservador, que fazia oposição ao Muniz, mas o Teotônio não era conservador.

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As atitudes e posicionamentos mostrariam isso”, analisa Sávio, que teve a oportunidade de pesquisar documentos de Teotônio Vilela que constam no acervo da Fundação Teotônio Vilela. Como se desejasse dar um tempo da atuação política, talvez ainda abalado com os episódios do impeachment, ou até mesmo por não se identificar com as causas pelas quais lutavam as oligarquias do Estado, Teotônio não fez campanha para o pleito de 1958 e, por consequência, não se reelegeu deputado estadual. O ex-deputado federal, jornalista e pesquisador Marcio Moreira Alves analisa, em Teotônio Guerreiro da Paz, esse momento político de Teotônio Vilela: “Embora fosse companheiro de chapa de Arnon de Mello, o chefe da UDN local, sentia-se pouco à vontade no partido. Vislumbrava no grupo que então a dominava uma vinculação ao mundo dos negócios, uma vocação exagerada para se enriquecer, uma vocação que se chocava com a inflexível ética política que Teotônio sempre defendeu”.


Teotônio Vilela durante jantar com políticos e empresários no período em que exerceu o mandato de vicegovernador de Alagoas

A VOLTA À CENA POLÍTICA E O APOIO INICIAL AO GOLPE MILITAR 33

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Lucas Almeida O engenheiro Beroaldo Maia Gomes, que perdeu a eleição para Teotônio: apesar da disputa, os dois se tornaram grandes amigos

Teotônio Vilela voltaria ao cenário político dois anos mais tarde ao bancar, dentro da UDN, a candidatura ao governo de Alagoas do major Luís Cavalcanti, que acabara de fundar o Partido Libertador (PL), em Alagoas. General reformado do Exército, o Major, como gostava de ser chamado Cavalcanti, ocupara o cargo de diretor da Comissão de Estradas de Rodagem em Alagoas no governo do líder udenista Arnon de Mello e conquistara a suplência do senador Rui Palmeira, em 1954, além de se eleger deputado federal em 1958, pela Frente Democrática Trabalhista, que congregava o PSD, o PTB e o PRP. Caciques do partido, Arnon

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e Rui queriam-no como vice de um nome da UDN. Luís Cavalcanti não aceitou e seu nome encabeçou a chapa que teve como vice o articulador de sua candidatura, Teotônio Vilela, numa coligação UDN/ PL/PTN. Mesmo ficando em segundo lugar na capital e no interior, na soma geral de votos Luís Cavalcanti impôs derrota a Abraão Moura, candidato de Muniz Falcão, além de Silvestre Péricles de Góes Monteiro. Numa eleição à parte, como ocorria à época, Teotônio Vilela seria eleito vice-governador ao vencer o engenheiro Beroaldo Maia Gomes, ex-coordenador de Planejamento do governo Muniz Falcão, candidato a vicegovernador na chapa de Abraão Moura.

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“Perdi a eleição para Teotônio por uma diferença de três mil votos”, lembra Beroaldo Maia Gomes. Apesar das diferenças ideológicas da ocasião, os dois fariam grande amizade. “Ele era um homem diferente. Um homem de muita coragem. Tanto coragem física quanto coragem cívica”, afirma Maia Gomes, que se tornaria figura importante no processo de desenvolvimento econômico de Alagoas, ao ocupar funções estratégicas nos governos futuros: foi presidente fundador da Ceal, secretário da Companhia de Desenvolvimento de Alagoas (Codeal), secretário de Viação e Obras Públicas, além de dirigir e o Departamento de Estradas de Rodagem de Alagoas. Para derrotar os adversários, Teotônio e o Major fizeram a campanha sob a bandeira da pacificação da política alagoana. Subiam nos palanques em mangas de camisa, para deixar claro que não andavam armados. Tomaram posse no final de janeiro de 1961 e apoiaram, três anos mais tarde, o golpe militar que mergulharia o Brasil no regime de exceção e na ditadura que Teotônio se consagraria combatendo e sendo decisivo para sua derrubada. Seria naquele período, durante sua gestão como vice-governador, que Teotônio Vilela surpreenderia com atitudes que demonstravam


a independência política e ideológica que o fazia planar no campo de batalha onde figuras de “esquerda” e homens de “direita” a serviço dos militares travavam combate. Vice-governador do major Luís Cavalcanti, o homem que teria comandado o golpe militar em Alagoas, Teotônio era um dos principais quadros da UDN local. Transitava com desenvoltura nos mais diversos meios e gozava do respeito de pessoas de todas as “castas” em Alagoas. Andava com

tinha uma mensagem e uma origem democrática que herdou de seus parentes. Apesar de ter apoiado o Golpe e estar ligado à direita, ele nunca foi um direitista. Teotônio foi a mais bela autocrítica de um homem público já feita em Alagoas”, lembra o jornalista Nilson Miranda, ex-vereador por Maceió, secretário em Alagoas da Central Geral dos Trabalhadores (CGT) e fundador dos sindicatos dos Jornalistas e dos Radialistas no Estado. Aos 79 anos, ele vive hoje em Porto

Teotônio era um dos principais quadros da UDN local. Transitava com desenvoltura nos mais diversos meios e tinha o respeito da maioria das pessoas em Alagoas jornalistas, se dava muito bem com empresários e tinha acesso à igreja por meio do irmão, então arcebispo de Teresina, dom Avelar Brandão Vilela, de quem jamais se afastaria até o último dia de vida. Mas também tinha amigos comunistas, como os irmãos jornalistas e ativistas, Nilson Miranda e Jaime Miranda, este último secretário do PCB em Alagoas, que seria sequestrado e assassinado pelo regime militar, em 1975. “Teotônio era um humanista, um intelectual autodidata. Ele

fascista e não suportava as minhas críticas ao governo. Aí determinava minha prisão só porque queria me ver preso, porque eu era membro do Partido Comunista do Brasil”, lembra Nilson. Ao contrário do irmão Jaime, que passou quase um ano preso em Maceió, durante o governo de Arnon de Mello, Nilson Miranda nunca ficou mais de cinco dias na prisão. Na maioria das vezes, quem ia resgatá-lo na penitenciária era o amigo e vice-governador de Alagoas, Teotônio Vilela. “Ele chegava lá de carro e eu saía com ele. Teotônio me deixava em casa e eu ia direto para a Câmara e fazia um discurso. A Praça Deodoro ficava lotada” rememora. SOLIDARIEDADE

Alegre, no Rio Grande do Sul. Como vereador de Maceió, em 1963, crítico agressivo do governo Luís Cavalcanti, Nilson Miranda chegou a ser preso várias vezes. “O Luís Cavalcante aparentava ser um pacato cidadão, mas na verdade era um joguete da direita em Alagoas. E eu, como vereador na época, denunciava isso” explica Miranda. Mas o Major, segundo Miranda, não tolerava os ataques e acionava sua polícia contra ele. “Tinha um secretário de segurança dele que era um

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Anos depois, Teotônio Vilela diria que as histórias que contavam dele sobre soltura de presos políticos que não tinham culpa formalizada eram exageradas. Mas outro líder sindical e dirigente comunista da época também demonstrava gratidão pela intervenção de Teotônio durante o cárcere de quase um ano. “O Teotônio Vilela foi algumas vezes à delegacia de polícia soltar o Rubens Colaço. O próprio Colaço relatava isso. Os dois mantinham contato regularmente. Assim como

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O líder sindical Rubens Colaço, durante comício pelas Diretas Já, em 1984. Ele teria sido um dos presos políticos cuja liberdade foi batalhada por Teotônio Vilela

Teotônio, o Colaço também era um boêmio, além de ser grande declamador de poesia”, diz o historiador Geraldo de Majella, autor do livro Rubens Colaço, Paixão e Vida – A trajetória de um líder sindical. Por pouco, essa aproximação com figuras da esquerda não custou a cassação de Teotônio Vilela, após o Golpe de 1964. Outro “detalhe” que colocava o vice-governador de Alagoas na lista dos subversivos a serem tirados de circulação pelos militares era a admiração de Teotônio pela verdadeira revolução comandada por Che Guevara e Fidel Castro. “Teotônio Vilela apoiava publicamente a revolução cubana. Ele chegou a ser membro da Associação dos Amigos de Cuba, um grupo de intelectuais e políticos da época de várias tendências políticas e ideológicas”, diz Majella. Diante das “evidências comunistas” do vice-

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governador de Alagoas, o coronel Carlindo Simão, comandante do Exército à época pediu a cassação e a suspensão dos direitos políticos de Teotônio Vilela, que foi salvo graças à interferência direta do governador Luís Cavalcanti. O Major procurou o marechal Castelo Branco e demonstrou naquele momento a fidelidade que continuaria mantendo a Vilela, anos depois, quando os dois se tornariam companheiros de Senado: “Se forem cassar o vicegovernador Teotônio Vilela, terão de cassar o governador de Alagoas também”, teria declarado. Para o historiador Luiz Sávio de Almeida, assim como Teotônio Vilela, o major Luís Cavalcanti é um personagem da história política de Alagoas que merece ser reestudado. “O Major não foi apenas o homem do Golpe em Alagoas, como pesquisadores e historiadores

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se limitaram a vê-lo. Não se pode esquecer o que ele representou em termos de desenvolvimento para Alagoas. É o Luís Cavalcanti quem inaugura efetivamente a ideia de planejamento em Alagoas. Foi no governo dele que foi realizado o primeiro seminário socioeconômico que vai estudar e esmiuçar Alagoas, patrocinado pela Federação das Indústrias”, lembra Sávio de Almeida. Como vice-governador, Teotônio Vilela também tem participação no projeto de estruturação do Estado para o desenvolvimento capitalista em Alagoas. “Nessa época é criada a Casal, a Ceal, e a Companhia de Melhoramento Agrícola de Alagoas. De certa forma, Teotônio retoma como vice-governador o projeto de desenvolvimento para Alagoas traçado na época em que ele era deputado estadual”, analisa o pesquisador.


Cesar Areal Brasília nos anos 60: a capital federal foi um dos principais locais da luta do senador alagoano pela democracia

A ELEIÇÃO PARA SENADOR E A CHEGADA A BRASÍLIA EM PLENA DITADURA 37

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O general Costa e Silva, com o qual Teotônio teve fortes embates por conta do AI5 e o general Ernesto Geisel, com quem manteve diálogos importantes para o início da abertura democrática no País

No exercício do mandato de vice-governador de Alagoas, Teotônio Vilela se configurou como uma peça fundamental no processo de relação entre os governos estadual e federal. Sua desenvoltura, charme e eloquência foram colocados a serviço de Alagoas nos projetos que dependiam da ajuda da União, como pontua a pesquisadora Marly Silva da Motta, no livro sobre o senador Teotônio Vilela, da série Grandes Vultos que Honraram o Senado, editada pelo Senado Federal. Foi com os atributos de um habilidoso relações-públicas que Teotônio Vilela conseguiu convencer o marechal Cordeiro de Farias, então ministro extraordinário de Coordenação de Órgãos Regionais, a liberar recursos para a primeira captação de água do rio São Francisco, na cidade alagoana

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de Belo Monte, cuja ideia de transposição Teotônio foi um dos primeiros a defender. Essa atuação de Teotônio colocou-lhe na condição de disputar uma vaga em Brasília. Assim, em 1966, numa eleição marcada pela extinção dos partidos e introdução do bipartidarismo, Teotônio Vilela seria eleito para o seu primeiro mandato no Senado. Como boa parte dos antigos udenistas, ele optou pela sigla da Aliança Renovadora Nacional (Arena) e formou com os amigos Rui Palmeira e Arnon de Mello a bancada alagoana no Senado. Em seu primeiro discurso como senador, no dia 16 de maio de 1967, já denuncia o descaso dos “poderes da República” com Alagoas. “Doloroso é confessar que os poderes da República não estão dando a colaboração necessária ao trabalho do governo estadual

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e muito menos da iniciativa privada. Não queremos esmolas, queremos verbas a que temos direito”, pronunciou. O discurso já demonstrava a insatisfação com os rumos do regime militar e os três anos de governo. “Chegamos ao governo Costa e Silva cansados e desnorteados de lutas que não foram vitoriosas e de vitórias que não precisavam de tanta luta”. Como senador representante dos usineiros, os discursos de Teotônio Vilela também criticavam a política econômica implementada pelo primeiro governo militar. O Programa de Ação Econômica do Governo (PAEG) apontava como uma das causas da inflação os aumentos institucionais de salários em proporção superior ao da produtividade. Em três anos de governo militar o valor real do salário


mínimo foi reduzido 25%. A economia alagoana sofreu com as medidas do PAEG e sentiu a queda de consumo provocada pelo “arrocho” salarial. A situação provocou protestos veementes do senador Teotônio Vilela. No final de 1968, diante do um clima de tensão entre o Planalto e o Legislativo e de manifestações provocados pelo movimento estudantil irrompido na França, o presidente Costa e Silva decretou o Ato Institucional nº 5, o AI5, como ficou conhecido o mais drástico de todos os atos institucionais editados pelos militares. Numa atitude corajosa e quase suicida, com um grupo de 20 senadores governistas, entre eles Daniel Krieger, Milton Campos, Men de Sá e Gilberto Marinho, Teotônio Vilela enviou um telegrama de protesto contra o AI5. Esse documento nunca foi revelado. A reação não demorou e imediatamente iniciou-se uma caça a jornalistas e políticos que haviam manifestado posição contrária ao governo. Foram reabertos processos que puniam adversários do regime militar e a imunidade parlamentar foi suspensa. Além de outras medidas de repressão, o Congresso Nacional foi posto em recesso compulsório por tempo indeterminado. Após o episódio, o senador Teotônio Vilela mergulharia num silêncio

Famoso pela habilidade no uso da palavra, Teotônio usou a tribuna do Senado diversas vezes para proferir discursos sobre temas como liberdade, eleições diretas e dívida externa

que duraria mais de dois anos. No livro Teotônio Guerreiro da Paz, o ex-deputado federal Márcio Moreira Alves, um dos políticos cassados pelo AI5, afirma que a maioria dos parlamentares, jornalistas e memorialistas que viveram aquele período julga medíocre o primeiro mandato de senador de Teotônio Vilela. Para ilustrar sua afirmação, ele conta que o senador Luís Viana, cronista oficial do período e chefe da Casa Civil do marechal Castelo Branco, escreveu um livro de 600 páginas no qual o senador Teotônio Vilela sequer é mencionado. Outro general, Jayme Portella de Melo, chefe da Casa Militar, do general Costa e Silva, um dos autores do AI5, publicou cerca de mil páginas de memória e só cita o senador Teotônio Vilela no episódio do telegrama rebelde dos 20 deputados governistas. Os temas políticos voltariam

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ao discurso de Teotônio Vilela em 1973. Por ocasião de uma homenagem aos novos cardeais dom Paulo Evaristo Arns e dom Avelar Brandão Vilela, irmão de Teotônio, arcebispo de Salvador e primaz do Brasil, o senador falou que era preciso empenho “para restaurar o corpo institucional do País na melhor forma de Direito”. Também viria a fazer críticas à sucessão presidencial, quando o presidente Emílio Garrastazu Médici anunciou oficialmente o nome de outro general, Ernesto Geisel, como seu substituto. Dois anos depois, logo após ser eleito senador, Teotônio Vilela teria um encontro com Geisel, a partir do qual ganharia projeção nacional e se tornaria uma das figuras mais importante no processo de redemocratização do Brasil.

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NO SEGUNDO MANDATO, O DISCURSO HISTÓRICO Em 1975, no auge da ditadura militar, Teotônio Vilela faz pronunciamento que iria selar o seu futuro político, ao se colocar a favor da abertura política

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Considerado um marco em sua carreira política, o discurso proferido no Senado, em 1975, causaria surpresa a muitos senadores. Nele, o alagoano colocou-se como “porta-voz” de Geisel da mensagem sobre a abertura política para a democracia

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O ex-senador e ex-ministro da Justiça, Paulo Brossard, um dos presentes na sessão em que Teotônio realizou o discurso histórico

Quando as primeiras frases foram propagadas pelos alto-falantes do plenário, os senadores se entreolharam surpresos. Da tribuna, Teotônio Vilela iniciava a leitura do discurso que se tornaria marco na sua trajetória política. A partir daquela tarde do

força do País pelo Golpe Militar de 1964, o senador alagoano, recém-eleito para o segundo mandato, se lançava numa das mais impressionantes jornadas de um homem público na história política do Brasil. “O que ouvi do presidente da República e o que está dito nos

Quando proferiu o discurso que tratava da abertura política no Brasil, Teotônio causou surpresa entre senadores da Arena e do MDB dia 25 de abril de 1975, sua atuação política romperia definitivamente as fronteiras de Alagoas para se projetar Brasil afora. Ao anunciar no Congresso o desejo do presidente Geisel de iniciar o processo de abertura política que devolveria aos brasileiros a democracia arrancada à

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seus pronunciamentos é que o Brasil deseja o aperfeiçoamento das práticas democráticas, o que significa caminhar para o Estado de Direito, em suma, para a legitimidade das tradições brasileiras... A marcha de 11 anos no encalço da liberdade chega, agora, a uma encruzilhada decisiva. Todos

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queremos ordenar a liberdade, a começar pela impressionante clarividência do estadista que nos governa: o general Ernesto Geisel”, discursou Teotônio, ao se apresentar como porta-voz do presidente do Brasil. “Aquele pronunciamento causou grande impressão a todos, inclusive a mim, que estava ali no Plenário, pois se tratava de um senador da Arena, governista, com um discurso que poderia muito bem ser pronunciado por um de nós do MDB. Eu era novo no Senado e confesso que não conhecia o senador Teotônio Vilela”, lembra o ex-senador e ex-ministro da Justiça, Paulo Brossard, em entrevista à GRACILIANO. “Lembro-me que vários senadores que estavam ali queriam aparteá-lo, e eu disse: não aparteiem, deixem que ele diga o que ele quiser. Não atrapalhem, está muito bom! Fiz isso justamente para que ele dissesse a coisa como havia preparado e que não fosse distraído para outros aspectos. O discurso dele não teve nenhum aparte. No caso dos senadores da Arena, por


medo mesmo, ou por puro desconhecimento do que tratava Teotônio”, continua Brossard, que era o líder do MDB no Senado. “Depois do discurso, eu procurei o Teotônio. Queria ouvir dele novamente sobre a intenção do presidente Geisel em promover a distensão política. Ele me disse: ‘Foi isso mesmo que o presidente falou’”. Há pouco menos de um mês, exatamente no dia 28 de março de 1975, Teotônio fora recebido pelo presidente Ernesto Geisel.

prolongou por mais de duas horas. A pauta oficial era a viabilidade do Programa Nacional do Álcool, o Proálcool, outra bandeira do senador alagoano. Representante do setor açucareiro, Teotônio Vilela apostava no combustível extraído da cana-deaçúcar como solução para o enfrentamento da crise do petróleo, provocada pela guerra entre Israel e os países árabes, em 1973. Ex-presidente da Petrobras, o general Ernesto Geisel era

No discurso, o senador alagoano defendeu a ideia de seu partido, a Arena, buscar a aproximação com estudantes e operários para ouvir as reivindicações populares Reeleito para o Senado, Vilela era um dos seis “sobreviventes” no Congresso do massacre eleitoral do MDB sobre a Arena nas eleições de 1974. Para se ter uma ideia do estrago nas hostes governistas, na Câmara, de um total de 364 cadeiras, o MDB passaria de 87 para 165 cadeiras, enquanto que a Arena caiu de 223 para 199. No Senado, o MDB subiu de 7 para 20 vagas e a Arena caiu de 59 para 46 cadeiras. A audiência entre Teotônio e Geisel deveria durar vinte minutos, mas a conversa se

especialista no assunto e sabia da experiência do senador alagoano no setor. Teotônio acabara de fundar a Usina Seresta e vislumbrava no Programa Nacional do Álcool a redenção dos produtores de açúcar do Nordeste. Mas a conversa ganhou outro direcionamento. O general Geisel não aprovava o rumo que havia tomado a “revolução” de 1964, da qual ele foi um dos articuladores. As torturas, os sequestros e outras atrocidades que ocorriam nos porões da repressão incomodavam

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demais o presidente. Pelo menos foi essa a sensação que Teotônio teve ao ouvir o general Geisel dizer que era preciso iniciar a abertura política e restabelecer a democracia no Brasil. “Não tenha dúvidas, nós vamos ter de abrir”, teria dito Geisel. “Então vamos abrir, presidente, senão o Brasil se estoura. O Brasil não suporta mais. O que está acontecendo por aí afora é um descalabro”, contou Teotônio em depoimento ao jornalista Mino Carta, sobre sua conversa com o presidente. Além da política de abertura lenta, gradual e segura, Geisel também anunciaria medidas para a economia e prometeria uma mudança na geografia econômica com investimentos em regiões do País menos favorecidas pelo governo federal. Teotônio colocou-se à disposição: “Pode contar comigo, presidente”. O discurso que durou uma hora e meia foi aplaudido pelos senadores do MDB e recebeu cumprimentos constrangidos dos colegas da Arena. Em tom de crítica, Teotônio Vilela propunha que, ao invés de ficar apoiando medidas que iam de encontro às reivindicações populares, seu partido, a Arena, deveria ter seu próprio programa e buscar uma aproximação com estudantes e operários, além de outras parcelas da população. Argumentava que só assim a

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O ex-deputado federal Rafael de Almeida Magalhães, falecido este ano, assinou, em parceria com Teotônio Vilela, o Projeto Brasil, que propunha o desenvolvimento do País a partir da convocação de uma assembleia constituinte

Arena reconquistaria a opinião pública e voltaria a vencer nas urnas. A Arena silenciou sobre o discurso de Teotônio. Os senadores não tinham provas evidentes de que Teotônio, até então tido como senador de pequena expressividade na Casa, era, de fato, o representante do presidente, afinal o líder do partido governista no Congresso era o senador do Piauí, Petrônio Portella, com quem Teotônio Vilela tinha divergências e a quem oficialmente cabia representar o governo e garantir a política de distensão proposta por Geisel. Vilela e Portella queriam a abertura política, mas, conforme observou a pesquisadora Marly Silva

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da Motta em seu livro sobre Teotônio, da série Grandes Vultos que Honraram o Senado, os dois tinham prazos distintos: “Para Petrônio, o fruto ainda tinha que amadurecer. Para Teotônio, já estava passando do tempo de ser colhido”, escreveu a pesquisadora. Iniciava ali uma fissura na relação da Arena com Teotônio Vilela que terminaria na desfiliação. DESTAQUE NACIONAL

Depois do pronunciamento, o então discreto senador alagoano passava a ser destaque na grande imprensa. Ocupou as páginas amarelas da revista Veja, em sua edição do dia 18 de junho de 1975, o que significava, segundo Márcio

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Moreira Alves, “a consagração olímpica do establishment nacional”. Ganhou página inteira em entrevista no Jornal de Brasília e deu entrevista ao Jornal do Brasil, além de aparecer em vários outros jornais. Mas ao invés da abertura prometida, uma série de acontecimentos e de medidas adotadas pelo governo naquele mesmo ano mostravam que a distensão prometida estava longe de acontecer. Em pronunciamento, em agosto de 1975, Geisel contrapôs o conceito de distensão de Teotônio Vilela e deixou claro que o governo iria impor condições para que fosse iniciado o processo de redemocratização no País. A isso se juntava a constatação de que o presidente Geisel não conseguia se impor sobre o


grupo da chamada “linha dura” do governo, que não concordava com a distensão e mantinha ativa repressão política. Em meio às promessas de distensão, o ano de 1975 marcava o recrudescimento da perseguição política. O assassinato do jornalista Vladimir Herzog, dentro do mais temido órgão de repressão, o DOI-CODI, de São Paulo, a repressão às organizações clandestinas e ao Partido Comunista Brasileiro (PCB)

Teotônio Vilela com a Arena era questão de tempo. O PROJETO BRASIL Foi ainda sob a legenda de apoio ao governo que o senador alagoano, desiludido com a abertura prometida por Geisel e abalado diante do pacote de medidas que ficaram conhecidas como o “Pacote de Abril”, entre as quais a nomeação de um terço dos senadores, o que

Após pronunciar-se a favor da abertura política, Teotônio sofreu retaliações de seu partido. O rompimento com a Arena estava cada dia mais próximo provocaram manifestações contra o governo militar. Foi sob essas circunstâncias que a figura de Teotônio Vilela começou a ganhar dimensão nacional. De porta-voz do presidente Ernesto Geisel, ele passa à condição de rebelde e oposicionista da Arena. “Era uma coisa impressionante. Os senadores da Arena eram orientados a abandonar o plenário toda vez que ele ia se pronunciar. Era um ato de extrema descortesia e ao mesmo tempo de retaliação”, lembra Paulo Brossard. O rompimento definitivo de

garantia a maioria governista no Legislativo, Teotônio Vilela anunciaria que se dedicaria integralmente à elaboração de um programa político, econômico e social para resolver os problemas do Brasil. Elaborado em parceria com o ex-deputado federal Rafael de Almeida Magalhães, ex-vice governador da Guanabara, no governo Carlos Lacerda, o Projeto Brasil, como foi batizado, propunha a reforma da sociedade brasileira por meio de processos democráticos e tinha como linha mestra a convocação de uma

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assembleia constituinte. Preconizava a garantia do direito da “coletividade de instituir livremente os partidos políticos”. Entre as questões mais imediatas, o projeto trazia como uma das medidas a restauração das eleições diretas. Uma das prioridades era acabar com a miséria e reduzir as diferenças regionais de renda e capacidade de consumo. Para isso,conclamava os partidos políticos para uma grande discussão coletiva, sem preconceitos nem intolerância, em busca das respostas para os problemas que afligiam o País. Um ano depois, era lançado o Projeto Brasil. Era uma resposta de Teotônio ao famoso apelo à imaginação criadora que Geisel faria aos partidos em seu discurso de 1975. O Projeto Brasil se transformou na grande paixão de Teotônio. Outras batalhas estariam por vir e ele as abraçaria com a mesma intensidade: a anistia, a liberdade, a luta pelos direitos humanos, a volta das eleições diretas. Naquele ano de 1978, dissidente da Arena, a viajar pelo Brasil divulgando a sua proposta de retomada da democracia no Brasil, Teotônio Vilela “era então a mais portentosa e a mais ouvida voz do cenário político brasileiro”, como diria o professor Octaciano Nogueira, em artigo publicado em novembro de 1983, na Tribuna de Alagoas.

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Passeata de estudantes no Viaduto do Chá, em São Paulo, em 1978, marcou a luta pela anistia e pelas eleições diretas

A ANISTIA E A PEREGRINAÇÃO PELAS PRISÕES 46

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Na despedida da audiência histórica, em 1975, Geisel pediu duas coisas a Teotônio Vilela: que não brigasse com Petrônio Portella, o líder arenista no Senado, e que não se aproximasse de maneira alguma do líder do MBD, o senador gaúcho Paulo Brossard. Teotônio não obedeceu. Não só se aproximou como construiu sólida amizade com o então líder do MDB no Senado. “Depois que passamos a nos conhecer, nós convivemos muito mesmo, lado a lado, mesmo antes de ele passar para o MDB. Aquilo que o Geisel não queria acabou acontecendo de uma maneira muito intensa, só para desmentir o general”, brinca ao telefone o ex-senador

MDB. Em uma solenidade realizada no gabinete do próprio Brossard, que aparece junto a Ulysses Guimarães, recepcionando o novo quadro do partido. Para passar para o MDB, Teotônio se valera ironicamente de um artifício do governo para atrair moderados do MDB. O senador alagoano foi o primeiro a se valer da Emenda nº 11, que abolia a fidelidade partidária. E logo o MDB iria escalar o mais famoso dissidente arenista para a sua primeira missão. “Para caracterizar a sua recepção integral, eu, pessoalmente, o designei para cuidar do problema da anistia. Eu escolhi o Teotônio para representar o partido naquele

que seria um passo muito importante para o processo da abertura. Era também uma forma de demonstrar a confiança que o partido tinha nele. Era um diploma da sua recepção formal, e não apenas passageira e acidentada, no nosso partido”, afirma Paulo Brossard. Teotônio assumiu então a presidência da Comissão

Mista de Anistia, formada por deputados e senadores, com o objetivo de analisar o projeto formatado pelo governo, de autoria de Petrônio Portella, com o qual de antemão não concordava. O projeto do governo excluía da anistia os condenados por atos concretos de violência, sequestro e assalto a banco, o que deixava de fora do perdão quase 100 pessoas que estavam nessa situação. Todos os que estavam sendo processados pela Lei de Segurança Nacional teriam seus processos extintos, exceto aqueles cujos delitos se enquadrassem em ato terrorista. Em sua primeira reunião, juntou um grupo expressivo de políticos, intelectuais e juristas, entre eles, o então sociólogo e professor cassado da Universidade de São Paulo (USP), Fernando Henrique Cardoso, o presidente nacional do MDB, Ulysses Guimarães, Mário Covas, comandante do partido de oposição em São Paulo, o jurista Dalmo Dallari e o economista José Serra. Colheu subsídios para propor as mudanças que o MDB apresentaria ao projeto de anistia do governo. Dessa reunião sairiam as principais reivindicações na luta de Teotônio Vilela pela anistia ampla, geral e irrestrita. Um dos pontos principais era a inclusão na anistia dos presos políticos acusados de terrorismo, além

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Após filiar-se ao MDB, a primeira missão de Teotônio seria encarregar-se da luta pela anistia a presos políticos Paulo Brossard. “O interessante é que, só depois de alguns anos, foi que o Teotônio me contou a ressalva feita à minha pessoa pelo Geisel, para o meu espanto. Porque na época eu não me dava conta que era tão nocivo ao regime militar”, revela Brossard. Foi em seu gabinete que, em abril de 1979, Teotônio Vilela formalizou a sua entrada no


Rogério Reis Teotônio em visita a presos políticos. Ao final da peregrinação pelos presídios, o alagoano, então presidente da Comissão Mista de Anistia, exigia a anistia “ampla, geral e irrestrita”

da volta dos presos anistiados ao País, sem a necessidade de um requerimento prévio. Na presidência da Comissão, Teotônio imprimiria à sua atuação a intensidade com que se entregava às causas que defendia. Sentia a necessidade de ver, de conversar, de saber quem eram os presos políticos. Rompeu as paredes do Congresso, de onde o governo militar não queria que saísse a discussão, aproveitou as férias parlamentares de julho e iniciou sua jornada de visitas aos presídios brasileiros. NA COMPANHIA DE FHC

No dia 9 de julho de 1979, a bordo de uma Brasília amarela que tinha ao volante nada menos do que o sociólogo e futuro presidente do Brasil Fernando Henrique Cardoso, Teotônio fez sua primeira

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visita a uma prisão. O Presídio do Barro Branco, no Alto da Cantareira, em São Paulo, foi o escolhido. Abrigava 11 presos políticos, entre eles Chico Gari, que estava há nove anos sem receber visitas de familiares, Altino Dantas Júnior, presidente do Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE) de 1978, condenado a mais de 60 anos, e Aton Fon Filho, condenado a mais de 80 anos de prisão, depois de sofrer torturas. As histórias deixaram Teotônio horrorizado. Eram relatos cruéis, difíceis de ouvir, sobre espancamentos, choques elétricos, afogamentos, e outras modalidades bizarras de tortura. As visitas foram se sucedendo. Em uma dessas visitas, emocionado com a narração de um grupo de presos que havia sofrido na “mão” da PM paulista, Teotônio se jogou no chão e pediu perdão de joelhos.

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No dia seguinte, Teotônio Vilela conversou com mais 15 presos políticos da Penitenciária Milton Dias Moreira, no Rio de Janeiro. Continuou sua jornada e foi a João Pessoa, Recife e Salvador, em visitas que tiveram ampla cobertura da imprensa e mobilizaram a opinião pública. “O Teotônio incendiou o problema da anistia com as suas visitas aos presídios. Era uma coisa nova que quem fazia era um homem como ele, que estava saindo do núcleo oficial e assumindo aquela postura em nome da oposição, em nome da sociedade civil. Foi a partir daí que Teotônio passou a ser, de fato, uma figura nacional. Ele passou a ser um elemento de primeira grandeza no MDB”, diz Brossard, ao avaliar a ascensão política do senador alagoano naquele período. Apesar da via-crúcis pelos presídios brasileiros e de toda a mobilização humanitária por uma anistia ampla, geral e irrestrita, o substitutivo do MDB ao projeto oficial da anistia não foi aprovado, assim como também não passou na votação a emenda Djalma Marinho. Deputado arenista do Rio


Grande do Norte, de posições liberais, Marinho afirmava que sua proposta era a única que prometia uma anistia irrestrita, porque anistiava tanto os “terroristas” quanto os torturadores. A anistia foi aprovada no formato que o governo determinou. Depois da vitória, o general Figueiredo

sido dado. Além do mais, saía do processo fortalecido politicamente. A atuação como presidente da Comissão Mista consolidou sua liderança política e a repercussão na mídia do debate em torno do tema o colocou entre as principais estrelas do cenário político de então. A partir daquele episódio ele

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acabou com o bipartidarismo, numa manobra para enfraquecer a oposição. Sua trajetória só seria barrada pela doença, que o fisgou no auge da carreira política. Mesmo doente, não deixou de percorrer o Brasil, que se emocionou com o “Santo cívico”, o “Guerreiro da Paz”, como ficaria eternamente conhecido Teotônio Vilela. 2

reconsiderou algumas regras de concessões e “ampliou” o projeto de anistia. Antes do final daquele ano, os presos políticos ganhariam liberdade, assim como voltariam ao País os exilados políticos. Mesmo não conseguindo concretizar a anistia da maneira como idealizava, Teotônio vibrou silenciosamente com o resultado. Não queria demonstrar a alegria, mas sabia que um dos passos mais importantes para o retorno da democracia no Brasil havia

3 estaria diretamente envolvido nas questões cruciais da nação, as “grandes causas” pelas quais se declarava. Um ano depois de lutar pela anistia, estaria ao lado dos metalúrgicos do ABC, em São Bernardo, não se cansaria de clamar por uma Constituinte e não aceitaria outra forma de eleição para presidente que não fosse pelo voto direto. Foi o principal 1. Ulysses Guimarães, antigo aliado de Teotônio na articulador para a fundação campanha pelas Diretas Já do PMDB, para onde migraram 2. O senador alagoano assina sua filiação ao MDB nomes seminais da política 3. Fernando Henrique Cardoso e José Serra, nos bastidores da luta pela anistia brasileira, quando o governo

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Teot么nio e Lenita, em 1948: uni茫o gerou sete filhos e cr么nicas de amor escritas por ele

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O céu desabou sobre a Zona da Mata alagoana na madrugada daquele 10 de julho de 1948. O rio Paraíba engordou e desceu com fúria o vale. Arrastou pontes, carregou boiadas, derrubou casas e destruiu estradas. A cavalo, debaixo de muita chuva, Teotônio corria contra o tempo. Tinha de estar em Maceió no horário marcado. Num galope alucinante, ele conseguiu chegar ao município de Pilar, onde amigos o aguardavam para transportá-lo

Chamava-se Lenita. Os dois haviam se conhecido numa festa beneficente organizada pelo bispo de Maceió, dom Ranulfo da Silva Farias. Nessas ocasiões, mocinhas e senhoras da sociedade eram voluntárias e assumiam funções de vendedoras, garçonetes e atendentes de quiosques que comercializavam de tudo. Lenita foi escalada para a barraca de bebidas, onde passou a noite ouvindo os galanteios do boiadeiro

Lenita e Teotônio se conheceram numa festa beneficente. José Quintella não gostou de saber do interesse da filha pelo homem que tinha fama de boêmio e sedutor de automóvel. Mas a ponte por onde atravessaria até a cidade também havia descido na correnteza. Da outra margem, os amigos lançaram uma corda que foi atada a dois troncos de árvore, tal qual uma corda bamba de circo. Teotônio amarrou outra corda de segurança na cintura e venceu a correnteza do Paraíba com a força dos braços. Chegou na hora marcada, com roupas emprestadas, para sacramentar no altar uma história de amor. Ele tinha 31 anos, ela acabara de completar 24.

Teotônio, um trintão charmoso, com fama de boêmio e sedutor. Lenita ficou apaixonada. Teotônio também endoidou pela garota. O pai dela, José Quintella Cavalcante, um respeitado advogado da capital, ficou sabendo algum tempo depois da paquera e não gostou. Não faltou quem fosse lhe contar que Lenita estava de conversa com o rapaz de Viçosa, na porta de uma barbearia, na Rua do Comércio. Conservador, o doutor Quintella conhecia Teotônio, admirava sua

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inteligência, mas não aprovava a boemia do pretendente de sua filha. Helena Duarte Quintella Cavalcante, a Lenita, foi a quinta dos nove filhos, sendo seis mulheres, nascidos do casamento entre o doutor José Quintella e a artista plástica Laura Duarte Quintella Cavalcante, de quem herdou a habilidade manual para os trabalhos artísticos. Lenita era uma garota bonita, considerada moderna para os padrões maceioenses de então. Adorava ler, principalmente romances. Destacava-se entre as mocinhas da época. Era esportista, nadava, jogava tênis. “Ela parecia uma atriz de cinema. Era uma mulher linda, inteligente e muito sensível”, lembra dona Rosita Quintella Cansanção, irmã de Lenita. Eram companheiras nos passeios pela Rua do Comércio, nas matinês do Cine Rex, na Pajuçara, ou do Cinearte, no Centro. A hora do lanche e da paquera era no bar Elegante, onde tomavam sorvete e saboreavam cartola. Lenita sonhava cursar Medicina, mas o preconceito de então não permitiu. Como não havia o curso em Maceió, era preciso ir morar no Recife. Mas o doutor José Quintella não permitiu. Filha sua não sairia de casa solteira para ir morar em outro Estado. Mostrou personalidade e rebeldia ao recusar uma das duas opções

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Michel Rios Fazenda São Francisco, em Viçosa, onde Teotônio e Lenita foram morar quando casaram

que Maceió oferecia. Não se rendeu aos apelos do pai para que cursasse Direito ou Letras. Acreditava na sua vocação e a ela não interessava apenas um diploma. Durante a Segunda Guerra Mundial, Lenita e as irmãs se

a Santa Casa de Misericórdia. Foi a primeira missão da enfermeira Lenita e das irmãs Nylda e Hermé, cumprida com intensidade e extrema devoção. Quando o irmão dela, o advogado Paulo Quintella, foi trabalhar na base aérea dos

Lenita alimentou o sonho de se formar em Medicina, mas acabou cursando Enfermagem de emergência e atuando também como intérprete, já que era fluente em inglês matricularam no Curso de Enfermeira Rosa da Fonseca, organizado pelo Exército em Alagoas. Formou-se em enfermagem de emergência. Quando os alemães torpedearam o Navio Itambé, os feridos foram trazidos para

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Estados Unidos, em Maceió, ela logo se ofereceu como intérprete. Era uma das poucas pessoas em Maceió que dominavam o idioma. A fluência em inglês aproximou Lenita dos militares americanos em Alagoas, com quem pôde

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vivenciar outra realidade cultural, pela qual tinha admiração. TALENTOS Lenita vivia a modernidade, mas também carregava com ela a tradição das habilidades artísticas. Além de bordar e pintar muito bem, muito cedo demonstrou talento ao esculpir em madeira. Tinha 13 anos quando fez um saci-pererê para Monteiro Lobato. O autor de Reinações de Narizinho adorou o presente e até escreveu uma carta para agradecer e elogiar a escultura. Certamente não faltariam pretendentes para uma mulher tão “cheia de prendas”. Mas Lenita já havia decidido a quem entregaria seu coração. “Teotônio Vilela foi o escolhido. Sua inteligência, ousadia e charme sedutor a encantaram


Michel Rios Quarto do casal. A casa guarda, ainda hoje, mobiliário original de época

desde a primeira vez que o viu. Da segunda vez, a coerente e forte Lenita saltou de um bonde na cidade de Penedo, onde passava férias na casa de sua amiga Marina, avistando-o tangendo uma boiada. Sabia o que e quem queria para a sua vida!”, escreveu a advogada Fernanda Vilela, ao traçar perfil

pela labuta pesada de uma dona de casa, mãe de filhos. E foram sete que nasceram da união de Teotônio e Lenita. Quatro mulheres e três homens: José Aprígio, Teotonio, Rosana, Maria Helena, Janice, Maria Fernanda e Elias. Para além de todos os predicados e virtudes, Lenita ainda se revelaria mãe

Mãe de sete filhos, Lenita aprendeu rápido a administrar sozinha a casa. Absorvido pela política, Teotônio ficava ausente muitos dias carinhoso sobre a mãe. Depois do casamento, Lenita foi morar com Teotônio, em Viçosa. No início dos anos 1950, sempre curiosa, descobriu a fotografia e se arriscou em produções cinematográficas. Mas as atividades artísticas terminariam sendo suprimidas

zelosa e carinhosa. Exigia a união dos filhos e os obrigava a se reconciliarem depois das arengas. “Ficávamos de castigo, um do lado do outro, até fazer as pazes”, lembra Janice. Aprendeu a conviver com ausência de Teotônio, cada vez mais absorvido pelos

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compromissos com a usina, com a política e com a boemia, da qual não abria mão. Lenita encarava sua missão com serenidade. Ao som de Frank Sinatra, Nat King Cole, Chico Buarque de Holanda e Altemar Dutra, cuidava das plantas, fazia trabalhos manuais e educava os filhos. Fazia questão de reverenciar a figura paterna em casa. A última palavra era a de Teotônio, mesmo ele não estando em casa. “Ela nos dizia que nossa obrigação era estudar. Falava que nosso pai estava trabalhando para garantir nossos estudos”, diz a outra filha, Janice Vilela. “Era completamente apaixonada. Vivia esperando por ele. E meu pai também era muito apaixonado por ela. Por isso que eu digo que nós somos filhos de um grande amor”, completa Janice. Teotônio Vilela costumava

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O casal Lenita e Teotônio e os sete filhos: Rosana, Maria Helena, José Aprígio (já falecido), Fernanda, Teotonio Filho, Janice e Elias

dizer que não tinha jeito com crianças. Na relação com os filhos pequenos nunca foi de muito contato físico e nem carinhos. Quando estava em casa, trancava-se na biblioteca. “Ele nunca foi de pôr no colo, de pegar, também nunca foi agressivo nem mal-humorado conosco. Ele se impunha pelo olhar. Nós ficávamos quietinhos”, lembra Janice. Depois que foi eleito senador, em 1966, Teotônio passava a semana em Brasília e voltava sexta-feira para Maceió. Às vezes emendava o final de semana e prolongava a ausência em casa. A projeção a partir do segundo mandato, que teve como tônica a batalha pela redemocratização do Brasil, colocou Teotônio no estrelato da política nacional. Ele não era mais o senador de Alagoas, mas sim o “senador da República”, como fazia questão de dizer, ao justificar sua busca persistente

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por soluções para os problemas do Brasil. “Quando nosso pai adquiriu projeção nacional já éramos adultos, entendíamos a sua luta e já tínhamos as nossas lutas. A ausência dele era contornada pela presença imensa da mamãe, que conseguia trazêlo para nós, a todo o momento, em seu discurso de mulher inteligente e apaixonada”, lembra a médica Rosana Vilela, a primeira das quatro filhas do senador. A paixão de Lenita era alimentada a cada “reencontro”, a cada declaração de amor que ouvia e lia de Teotônio, sempre intenso e sedutor, como na crônica que ele escreveu quando o casal celebrou 25 anos de casamento: “Louvado seja esse amor, que se fez de tanto amar todas as formas de amor. O amor que é complexo vivencial, que ri e chora com as coisas que

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nos cercam acionado por um imperscrutável sentimento de solidariedade comum aos dois; que não é um objetivo à parte da vida, cuidado e zelado acima e fora do esforço convencional de viver, mas o ingrediente principal desse esforço – que lhe dá ânimo para sair da rotina cansada e comportar-se cada dia como um privilégio renovado. Amor que é carícia e é labor, regalo e angústia, sonho e realidade. O que se confunde com as ânsias e as decepções, com o sublime e o prosaico. O que se conforma com o possível e o impossível; o que ressurge cada manhã aberto a todos os imponderáveis; o que adormece no calor do entendimento mútuo sobre os havidos e acontecidos do dia. Louvado seja esse amor (...) Dito isto, Lenita, louvado seja o nosso amor, que se fez de amar todas as formas de amor”.


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O bar Trovador Berrante, de Zé do Cavaquinho, localizado no Centro de Viçosa: ao lado dos conterrâneos e amigos, as farras giravam em torno de histórias e do som do violão e do cavaquinho

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Conhecida como a “Atenas alagoana”, a região de Viçosa, no coração do Vale do Paraíba, fervilhava na década de 50. Povoada de intelectuais, pensadores e jovens literatos, a cidade vivia intensamente a boemia. O ponto de encontro predileto era um local de nome, no mínimo, curioso: Trovador Berrante, localizado no Centro de Viçosa. À frente do bar, no comando da farra e da música executada ao vivo, estava o homem que ganharia a fama de um dos maiores boêmios do Vale do Paraíba. Chamava-se José Rodrigues de Moura, mas ficou imortalizado como Zé do Cavaquinho, bebedor sério, contador de causos, tocador de violão e cavaquinho, cheio de sensibilidade e carisma. Nasceu em 1911 e morreu em 1981, em Viçosa. Autor de chorinhos famosos, até hoje executados em rodas de samba, como O Escorrego do Urubu e Lagartixa, Zé do Cavaquinho foi uma espécie de “ídolo” de uma geração de viçosenses farristas, entre eles Teotônio Vilela. As farras no Trovador Berrante duravam dias. Em muitas delas ouviase de longe as gargalhadas estrondosas e características de Teotônio, que se aproximou de Zé do Cavaquinho e tornouse seu companheiro de muitas noitadas. Quando estava no Trovador Berrante, Teotônio mandava. Para a alegria da caboclada que

estava no bar e dos amigos que o acompanhavam, o próspero boiadeiro, que agora se transformava em usineiro, não admitia que ninguém pagasse a conta, senão ele. Ao som do violão de Zé do Cavaquinho e seu conjunto, Teotônio era só alegria. As farras não se limitavam apenas aos bares. Aos domingos, Teotônio costumava reunir os irmãos e amigos e rumar para algum local, onde pudesse saborear a buchada que tanto apreciava. Algumas vezes, o destino era a Fazenda São Luís, de propriedade de seu primo, Synfrônio Vilela, um dos melhores corredores de cavalhada do Vale do Paraíba e por quem Teotônio nutria grande apreço, desde os tempos das viagens que os dois faziam tangendo gado. “Teotônio mandava avisar ao meu pai: ‘Prepare uma buchada e uma galinha que domingo eu vou pra lá’”, lembra Manoel dos Passos Vilela, o Vô, professor e historiador, filho de Synfrônio e também primo de Teotônio. “Domingo de manhã ele chegava no carro dele com os irmãos e ainda alugava outro para os amigos. A farra só acabava à noite. O dia todo era ele conversando e rindo muito, aquelas gargalhadas dele”, lembra Vô. Na época, ele era criança, tinha apenas nove anos, mas não lhe sai da memória a maneira única como Teotônio

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se expressava, contava história e dominava a roda da conversa. “Só ele falava. Todos adoravam ficar ouvindo as histórias dele. Quando terminava era uma gargalhada só e ele ria junto também. Não tinha quem não ficasse admirado com aquele jeito dele”, diz o atual viceprefeito de Viçosa. POPULARIDADE Mesmo à frente da usina, sob o status de usineiro rico, Teotônio mantinha a mesma postura e o mesmo jeito de ser, o que lhe renderia capital eleitoral nas eleições que venceria na vida. Ainda criança à época, Flaubert Torres, que seria eleito prefeito de Viçosa com apoio de Teotônio, era seu admirador. “Para mim, ele era um artista, um cowboy daquele tempo”, disse em entrevista ao jornalista Márcio Moreira Alves, no livro Teotônio Guerreiro da Paz. Segundo Flaubert, na época em que Teotônio se lançou candidato, os políticos de então eram “homens sisudos, preocupados com seus esquemas políticos, preocupados em manter os seus compadres, os seus coronéis, entrando numa hora difícil, mandando internar um doente, ou soltar alguém que tivesse cometido um delito. Teotônio chegou com uma maneira assim extravagante, porque os políticos não eram

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Um dos históricos encontros no bar Trovador Berrante, um dos redutos preferidos de Teotônio quando descansava em Viçosa. Ao centro, Zé do Cavaquinho, que liderava os encontros festivos ao lado do menestrel

chegados a bares, a farras pesadas”, disse Flaubert. Teotônio inovou ao participar de farras e festas com as pessoas mais simples, ao tomar cachaça tranquilamente com funcionários de sua usina, ao patrocinar as comemorações populares. Pagava a banda para garantir o carnaval de Viçosa, patrocinava as manifestações dos folguedos populares e garantia as apresentações de grupos de cavalhada, pastoril e reisado. Foi na Fazenda Boa Sorte, considerada o quartel-general da cultura popular de Viçosa, que Teotônio sedimentou a relação com o folclore de sua terra. Era lá onde aconteciam as festas que reuniam cantadores de viola, emboladores e grupos das mais variadas manifestações culturais da região. Eram noites inesquecíveis para o escritor Denis Portela de Melo, ainda menino à época. Filho do médico José Maria de Melo, duas vezes prefeito de Viçosa e deputado federal

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por três legislaturas, Denis esteve presente durante muitas daquelas reuniões. “Lembrome de várias dessas reuniões. Teotônio era muito moço, muito risonho, brincalhão. Era um camarada que cativava qualquer pessoa que chegasse perto dele. Era um homem muito expansivo, o que se chamava de um ‘boa-praça’”, recorda-se Denis. Até mesmo com os adversários políticos, Teotônio conseguia manter uma relação de amizade e de respeito. Era assim com o ex-prefeito José Maria de Melo, filiado ao PSD, com quem travava disputa pelo comando político da cidade. “Apesar dessa rivalidade política entre ele e meu pai, os dois eram amigos. O Teotônio ia à nossa casa, participava de algumas festas de aniversário. Meu pai o recebia algumas vezes para conversar sobre literatura e sobre cultura popular, coisa que os dois adoravam”, conta Denis. Outra característica de Teotônio Vilela apontada por

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Denis era a generosidade, o desapego às coisas materiais. “Teotônio era muito mão aberta. Muitas pessoas até se aproveitavam dessa generosidade dele. Nos anos 50, quando já possuía a usina, Teotônio tinha um automóvel, mas era quem menos andava nele. Todo mundo pegava emprestado. Adoecia uma pessoa, então pega o carro de Teotônio. Tinha um conhecido cuja filha estudava no colégio interno de Garanhuns. Queria visitar a filha? Então, pega o carro de Teotônio. Era assim, ele nunca negou”, brinca Denis. O escritor conta que, durante muitos anos, Teotônio foi o paraninfo das turmas que se formavam da escola Normal e do Ginásio de Viçosa. No final do ano, ele bancava com muita satisfação a viagem para a cachoeira de Paulo Afonso. “A viagem era somente para os alunos, mas ia a cidade em peso. Todos às custas de Teotônio, inclusive o Zé do Cavaquinho”, lembra Denis Portela, dando risada.


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O deputado federal Aldo Rebelo, atual Ministro dos Esportes: filho de um vaqueiro que trabalhou para Teot么nio Vilela, ele recebeu do conterr芒neo o incentivo e o financiamento para os estudos

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COM O FILHO DO VAQUEIRO, A AMIZADE ATÉ OS ÚLTIMOS DIAS As atitudes nobres de Teotônio refleteriam especialmente na vida de outro menino de Viçosa. O pai dele chamava-se José Figueiredo, exímio vaqueiro, corredor de cavalhada, homem de muita destreza e habilidade em cima de um cavalo. Durante muitos anos, trabalhou com Teotônio Vilela, cuidando da fazenda Maria Lia e do gado que pastava por lá. Foi onde o menino cresceu, vendo o pai correr de cavalo na lida com os bois. O serviço durou alguns anos e a família teve de se despedir da fazenda. Quando completou nove anos, veio o baque: doente, o vaqueiro faleceu, deixando o menino com a mãe. Mas os dois não ficariam desamparados. “Quando meu pai morreu, ele não trabalhava mais para o Teotônio. Mesmo assim, ele foi à nossa casa e tranquilizou minha mãe. Disse que, enquanto ela não arrumasse emprego, daria a ela o salário que pagava a meu pai”, lembra

hoje o menino de Viçosa que cresceu, virou deputado federal e ficou famoso como Aldo Rebelo. Além de assegurar uma renda para a família, Teotônio garantia para o menino Aldo, todos os anos, o material escolar. Quando recebia a lista da escola, ele ia à casa de Teotônio e de lá saía com livros, lápis, cadernos e tudo o que fosse preciso para garantir o aprendizado. A partir de então, os dois jamais perderiam o contato. “Eu o visitava sempre que podia e nunca nos afastamos”, diz Rebelo. Em 1981, em pleno processo de redemocratização do Brasil, Rebelo teve o senador como “cabo eleitoral” em sua eleição para presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), quando aquele movimento estudantil foi reorganizado. “Uma vez, estávamos em um congresso da UNE, em Cabo Frio. O senador Teotônio Vilela chegou de surpresa, durante a

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madrugada, umas três horas da manhã. Cumprimentou todos os jovens que estavam lá e me perguntou se estávamos precisando de alguma coisa. Ele sempre se mostrou muito solidário”, lembra Aldo Rebelo, que está em seu quinto mandato consecutivo como deputado estadual por São Paulo e ocupa atualmente o cargo de Ministro dos Esportes. Para ele, Teotônio Vilela é uma eterna inspiração. “Teotônio não apenas trabalhou, mas também inspirou a luta pela democracia no Brasil. Sendo um homem que vinha da Arena, da elite açucareira do País, o brado de Teotônio era como se fosse a exaustão do governo, do regime, era um sinal de que aquilo não tinha como se sustentar. A democracia não era uma coisa somente dos contestadores dos jovens de esquerda, mas demonstrava que era uma aspiração maior do País, pela presença dele”, disse Rebelo.

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O cineasta Vladimir Carvalho e o senador Teotônio Vilela, durante as filmagens do documentário O Evangelho Segundo Teotônio

NO CINEMA, A TRAJETÓRIA DO MENESTREL DAS ALAGOAS ETERNIZADA 62

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“Olha, esse maluco aqui quer me transformar em artista de cinema!”, gritou, com o bom humor de sempre, Teotônio Vilela para um senador que passava pela porta do seu gabinete, em Brasília, naquela metade de 1982. Acabara de receber em seu gabinete um paraibano radicado no Distrito Federal, professor

sua vida, que teve sua trajetória envolvida com as questões magnas do Brasil”, diz Vladimir, em conversa por telefone com a GRACILIANO. Além disso, havia a admiração “quase fanática” de Vladimir pelo senador de Alagoas. No final dos anos 1970, durante suas folgas, o documentarista,

com ele, por ser nordestino como eu, pela sua história de vida”, conta Vladimir. Quando o recebeu, Teotônio não conhecia Vladimir Carvalho, mas foi muito afetuoso e aceitou a proposta de imediato. “Ele entendeu o que eu queria, percebeu que eu não estava achacando, não estava em busca de recursos

Integrante do Cinema Novo, o cineasta Vladimir Carvalho era “viciado em civismo” e tinha uma admiração quase fanática por Teotônio Vilela Cena do documentário que retrata a trajetória de Teotônio

da Universidade de Brasília. O “maluco” era Vladimir Carvalho, um dos principais documentaristas brasileiros, integrante do movimento denominado Cinema Novo, amigo de Glauber Rocha e admirador confesso do senador Teotônio Vilela. Assim que soube que o senador alagoano estava doente, definiu de imediato o tema do seu novo documentário. “Eu entendi que ali existia um grande tema. A história de um homem que deu

que já carregava 20 anos de experiência e já havia lançado mais de dez documentários, era frequentador do Senado e da galeria da Câmara. “Eu era viciado em civismo, gostava de ouvir os oradores, os parlamentares, principalmente aqueles ligados à época à defesa da democracia, à luta contra a ditadura. E fiquei muito impressionado com o Teotônio, desde a primeira vez que o vi discursar. Isso levou a uma admiração quase fanática da minha parte. Eu me identificava

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financeiros. Eu não tinha uma equipe muito grande, mas estava disposto ao sacrifício financeiro pessoal para realizar este filme”, lembra o documentarista. Para o documentário, O evangelho Segundo Teotônio , Vladimir Carvalho tomou como base o depoimento de Teotônio Vilela ao jornalista Mino Carta, publicado pela Editora Três sob o título de Fazedor de História e lançado como uma espécie de encarte da revista Senhor, em forma de entrevista.

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O cartunista Henfil, que retratou Teotônio diversas vezes e intermediou a obtenção de recursos financeiros para a finalização do documentário de Vladimir Carvalho

“Algumas narrações do filme são diretamente do livro, na primeira pessoa. Achei aquilo muitíssimo útil e adequado à proposta estética do documentário. Ali o Teotônio estava realmente inspirado. Inclusive ele era um escritor de mão cheia, que facilitou bastante a minha tarefa”, comenta Vladimir Carvalho, que passou a acompanhar Teotônio Vilela em viagens. Esteve em Alagoas, onde filmou em Viçosa, cidade natal do senador, que reencontrou familiares e velhos amigos. Com depoimentos de personalidades da política brasileira, como Miguel Arraes, Paulo Brossard, Nilson Miranda e aparições, em imagens históricas, de dois ex-presidentes do Brasil –

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Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva –, o documentário percorre a vida de Teotônio desde seu nascimento, no engenho Mata Verde, em Viçosa, até o enterro, no Cemitério Parque das Flores, para onde mais de 20 mil pessoas se dirigiram na despedida ao Menestrel das Alagoas. O documentário traz também imagens inéditas da atuação do senador Teotônio Vilela no conflito entre policiais e metalúrgicos, em São Bernardo dos Campos, durante a histórica greve do ABC, em 1980. Daquela manifestação, surgiria o Partido dos Trabalhadores (PT), que tinha como um dos líderes Luiz Inácio Lula da Silva, futuro presidente do Brasil. Além dele, recém-chegado do exílio, o sociólogo Fernando Henrique Cardoso, suplente de senador, despontaria no cenário político brasileiro até chegar à presidência do País. Só depois da morte de

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Teotônio Vilela, em novembro de 1983, Vladimir Carvalho iniciou o processo de fechamento do documentário. “O filme foi realizado em película, em 16 milímetros, com o objetivo de depois fazermos uma ampliação para 35 milímetros, o que exigia a busca de recursos mais substanciais. Isso acarretou uma demora, eu já não sabia mais o que fazer. O filme já estava praticamente fechado, concluído em termos de proposta, de edição, mas eu não tinha a certeza de chegar às telas”, conta o cineasta. Foi aí que entrou na história um grande amigo de Teotônio Vilela. A princípio convidado por Vladimir para fazer a arte gráfica dos créditos do filme, ele teria papel crucial para a conclusão e lançamento da película. “Quase que eventualmente e milagrosamente, eu tive um contato com o Henfil. Aí ele me perguntou como seria, quando eu lançaria. Eu disse que não havia condição de lançá-lo naquele momento e que estava pensando em procurar o PMDB, que era o partido de Teotônio, para buscar recursos. Aí o Henfil disse: ‘De jeito nenhum! Você vai esperar que eu faça contato com Teotonio Vilela Filho, que é meu amigo’”, lembra, entre risos, Vladimir. Alguns dias depois, Henfil procurou Vladimir para dizer que estava tudo certo. Marcou um encontro entre o


O então líder sindical Lula é uma das personalidades políticas presentes no documentário

documentarista e o filho do senador em São Paulo, onde Vladimir estava para finalizar o filme. Téo Vilela viu as imagens, aprovou e garantiu os recursos necessários por meio da recém-lançada Fundação Teotônio Vilela. “Eu me emociono até hoje quando falo disso. Eu devo muito ao Téo e

que Teotônio desanca Delfim Neto, então ministro-chefe da Secretaria de Planejamento da

Editado pela revista Senhor, o depoimento de Teotônio Vilela ao jornalista Mino Carta serviu como inspiração para o filme de Vladimir Carvalho

No filme, Teotônio chama Delfim Neto de “jumento” e Carlos Langoni de “incompetente”. Por conta das críticas, o documentário teve trechos censurados tenho por ele um sentimento de enorme gratidão por esse gesto, por essa atitude”. Mas ainda faltava um obstáculo a ser vencido. Talvez por uma antipatia que o ministro da Justiça do governo do general Figueiredo, Ibrahim Abi-Ackel, nutria por Teotônio, o filme empacou na censura, que não permitiu manter na cópia a ser exibidas nos cinemas o trecho em

Presidência da República, ao chamá-lo de “jumento”. O então presidente do Banco Central, Carlos Langoni, também não escapou à acidez do Menestrel. Depois de classificá-lo de “descomposto” e de dizer que ele “mal sabia cruzar as pernas, quanto mais as palavras”, Teotônio dispara: “O Langoni é de uma incompetência brilhante”. O lançamento do filme, com

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os cortes impostos pela censura, aconteceu em 1984, em uma sala da Gaumont, no cruzamento da Avenida Paulista com a Consolação, na capital paulista. O lançamento em Maceió ocorreria na presença de amigos, admiradores e familiares. Só depois de muita batalha, Vladimir Carvalho conseguiria liberar os trechos censurados, após entrar com pedido no Conselho Superior de Censura.

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Teot么nio Vilela discursa em sua cerim么nia de posse na Academia Alagoana de Letras, em 1964

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AS AVENTURAS LITERÁRIAS DO MENESTREL Teotônio Vilela era deputado estadual quando conheceu o jornalista e historiador Arnoldo Jambo. O “porre” que sacramentou a amizade dos dois terminou com dezenas de copos vazios quebrados, como reza a tradição russa, durante uma farra no clube Fênix Alagoana. A aproximação com Jambo, então diretor do Jornal de Alagoas, órgão dos Diários Associados, marcou também o período em que Teotônio Vilela experimentou a convivência intensa com a literatura, uma de suas maiores paixões. Habilidoso na arte de colocar as ideias no papel, assim como era exímio orador, Teotônio passou a escrever crônicas quase diariamente para o Jornal de Alagoas e para a Gazeta de Alagoas. Em depoimento ao jornalista Márcio Moreira Alves, no livro Teotônio Guerreiro da Paz, Arnoldo Jambo conta que

Teotônio costumava aparecer na redação com os originais rabiscados e pedia que Jambo lesse para ele os textos em voz alta, para que pudesse sentir o ritmo e a sonoridade. Teotônio deixava a redação do jornal e se dirigia para a cantina Bela Triestre, ponto de encontro da boemia maceioense. De lá, manda o motorista dele, Juca, dar plantão na porta do Jornal de Alagoas à espera de Arnoldo Jambo, que saía de lá com as provas tipográficas ainda molhadas, nas mãos. A crônica era então relida na mesa do bar e, depois, deixada de lado. Começavam então as discussões literárias, assunto que fascinava Teotônio Vilela. “Às vezes eu não aguentava aquela marcação do Juca me esperando à meia-noite, uma da manhã, na porta do jornal, para me levar para os bares até o nascer do dia”, diria Jambo a

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Márcio Moreira Alves. Uma seleção das crônicas dessa época, feita pelo próprio Jambo, irá compor o livro intitulado Andanças pelas Crônicas, lançado pelo Departamento Estadual de Cultura (DEC), em 1963, como uma das publicações da série Estudos Alagoanos. No campo da crônica, publicaria ainda A Civilização do Zebu e A Civilização do Basset, outra coletânea, e, a quatro mãos, com o primo Théo Brandão, e os amigos Carlos Moliterno e Mendonça Júnior, lançaria também De Rebus Pluribus, uma série de crônicas que os quatro escreveriam sob o pseudônimo de Juvenal, de março a junho de 1958. Amante dos livros desde sempre, foi durante sua passagem pelo Rio de Janeiro, antes de completar 20 anos, que Teotônio Vilela experimentou

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Com o alagoano Aurélio Buarque de Holanda, Teotônio estabeleceu uma espécie de troca: o filólogo orientava-o na produção literária e ele ajudava no dicionário, com expressões típicas do Nordeste

letras, um texto publicado no suplemento literário do Diário de Notícias e nas páginas literárias do Correio da Manhã era motivo de comemoração. ENTRE AMIGOS pela primeira vez o universo da literatura. Passou a frequentar a emblemática livraria e editora José Olympio, na Rua do Ouvidor, ponto de encontro de monstros sagrados das letras no Brasil. Aproximou-se de Aurélio Buarque de Holanda e José Lins do Rego, cuja influência levou para

muito a pôr ordem na minha cabeça, cheia de ideias ainda muito próximas da poderosa confusão do João Domingues. De minha parte, eu ajudava um pouco o Aurélio nas suas fabulações e sobretudo na escolha das expressões mais típicas do Nordeste, quando os contos eram regionais. Eu

Apaixonado por literatura, Teotônio era, nos anos em que viveu no Rio, assíduo frequentador da livraria e editora José Olympio, ponto de encontro de intelectuais e escritores seus textos. “O Aurélio [Buarque de Holanda] se tornou meu grande amigo nessa época, meu orientador . Naquele tempo, ele escrevia novelas, estava na onda de escrever contos e novelas. O Aurélio me ajudou

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tinha um conhecimento muito preciso, como é ainda hoje, de certas expressões de minha terra, e com isso podia ser útil ao meu amigo”, disse Teotônio em depoimento ao jornalista Mino Carta. Era a época em que, para aqueles homens de

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Teotônio Vilela e Aurélio Buarque de Holanda se encontrariam ainda muitas vezes em Maceió. Um dos locais onde matavam as saudades dos tempos de Rio de Janeiro e colocavam o papo literário em dia era a casa do amigo em comum, o poeta Carlos Moliterno, autor de A Ilha. A escritora e atriz Anilda Leão, casada com Moliterno, rememora esses momentos: “Eram encontros muito agradáveis. O Teotônio sempre foi um homem muito inteligente e espirituoso. Também era muito bem-humorado. O assunto era sempre literatura”, diz. Dessas reuniões participava o jornalista Arnoldo Jambo, com quem Aurélio também mantinha boas relações. As conversas seguiam até o raiar do dia. Em seu livro, Marulheiro, viagem através de Aurélio Buarque de Holanda, o pesquisador Marcos


O jornalista Arnoldo Jambo e Teotônio: amizade foi selada numa farra no clube Fênix Alagoana, com diversos copos quebrados. Tempos depois, Jambo seria responsável pela publicação de artigos e crônicas de Teotônio nos jornais

Vasconcelos Filho conta que, ao amanhecer, o grupo partia para o café da manhã no Mercado Público de Maceió. No cardápio, pão doce com carne frita, que Aurélio devorava com prazer. A museóloga penedense Cármen Lúcia Dantas teve o privilégio de conviver, nos anos 1970, com o senador Teotônio Vilela, depois de tê-lo conhecido quando ela ainda era criança, na época em que era boiadeiro, na cidade de Penedo. “O Teotônio poderia ter sido um escritor. Ele viveu uma trajetória de artista. Suas andanças pelo Rio de Janeiro, a boemia, as viagens tangendo gado e tantas outras experiências seriam substância para seus escritos”, diz Cármen, que chegou a participar das reuniões na casa de Moliterno e Anilda, quando Teotônio já havia parado com a bebida e tomava apenas guaraná. “Lembro-me que ele segurava o copo de refrigerante como se estivesse tomando cerveja, de modo que achávamos que ele também nos acompanhava na bebida”, lembra a museóloga. “Era um homem extremamente charmoso. Foi a pessoa mais carismática, mais sedutora que eu conheci.

Onde chegava tomava conta do ambiente. Do caboclo ao senhor de engenho e políticos paravam para ouvi-lo. Tinha ainda a favor dele o embasamento intelectual e uma voz belíssima. Ele sabia dar a entonação perfeita à cada palavra”, relembra Cármen Lúcia Dantas. Segundo ela, o professor e também literato Humberto Cavalcanti, pessoa muito próxima de Teotônio, discorrendo sobre a relação intensa de Teotônio com os livros, contou certa vez que havia períodos em que Teotônio Vilela sumia. Ninguém o encontrava. Só os mais próximos sabiam que ele estava trancado dentro do quarto, mergulhado em suas leituras. “Ele chegava a passar o mês inteiro lendo, estudando, pesquisando. Depois de absorver aquilo tudo, saía para o mundo”, conta Cármen. Era também por meio da literatura e de seus escritos que

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demonstrava o apego à família. Escreveu crônicas para o pai, a mãe, os filhos e os amigos próximos. Num texto dedicado ao dia de aniversário da morte do pai, ele escreve como se atualizasse o “Capitão Sinhô” do que ocorrera após sua partida: “...José Aloísio na usina, no mesmo rojão de serviço e sem cabelos brancos; já o Avelar e Rubens, branquejam as frontes, este na enxada da Mata Verde e aquele lidando com os mistérios de Deus e do Homem. Hercília, sempre preocupada com os outros e fazendo bilhetes; Nair cuida, com seu longo rosário, dos sofrimentos que a gente interna no hospital; Francisca conversa misteriosamente com o passado e com a eternidade; Giselda, em terras do Piauí, mantém aquele ar resoluto de vencer dificuldades; Irene, para não perder o costume, depois dos onze filhos, vive de netos nos braços. O caçula, Osvaldo,

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diverge da Medicina, mas a profissão é a mesma. Resta aqui o seu inquieto cronista, com alma de juventude e carcaça de velho, a carregar sufocado aqueles dois pesos que o senhor sempre dizia serem superiores às minhas forças; - a usina e a política...”. Os filhos também ganhariam dele as palavras carinhosas escritas quase sempre no silêncio e na solidão de sua biblioteca. A filha Janice guarda até hoje a crônica que recebeu do pai no dia de sua formatura no curso de Arquitetura: “...Todos nós, Janice, somos para nós próprios um pouco de mistério. E mistério é mistério, põe dúvidas na cabeça da gente, e quanto mais a gente é reverencial a ele mais ele se exerce em sua totalidade. Tem que haver uma sólida

OBRAS

combinação de ousadia com prudência para um bom enfrentamento da vida. Que há de ser bela, não tanto por destino, mas por escolha. Nosso dever não é procurá-la, como se fosse um presente, mas construí-la desveladamente com o nosso próprio esforço e segundo a nossa imaginação e amor..”, diz um trecho do escrito. Em outra crônica endereçada ao primogênito, José Aprígio, quando completava seis anos de idade, quase como uma premonição, Teotônio escreveria: “José Aprígio é um prematuro ousado na ansiedade de conhecer as coisas da vida...”. Adiante, deixava um conselho: “... José Aprígio, não tenha pressa. Não olhe para as horas do relógio: olhe para as horas que estiver

vivendo. O grande problema não é de quantidade, mas de qualidade. Assim foi que seu avô enfrentou o tempo e a eternidade...”. Aos 16 anos, José Aprígio assumiria a usina e tomaria a frente dos negócios da família. Morreria em agosto de 2005, como um dos empresários alagoanos mais bem-sucedidos de sua geração, deixando uma contribuição inestimável para o desenvolvimento da agroindústria da cana-deaçúcar no País. A aventura literária de Teotônio Vilela seria coroada com o ingresso, em 22 de março de 1964, na Academia Alagoana de Letras. Sócio do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas (IHGAL), deixou uma obra vasta (veja box abaixo), entre escritos e discursos de sua atuação como senador.

Confira alguns dos livros publicados pelo alagoano

• Mobilização Contra o Subdesenvolvimento: Operação Alagoas, Rio de Janeiro, Departamento Administrativo do Serviço Público DASP, Instituto Brasileiro de Ciências Administrativas, 1958; • Andanças pela Crônica: Crônicas, Maceió, DEC, Série Estudos Alagoano, 1963, caderno XVII; • A Civilização do Zebu e a Civilização do Basset, apresentação de Raul Lima, Brasília, Senado Federal, Centro Gráfico, 1974; • Presença do Nordeste, prefácio de Daniel Krieger, Brasília, Senado Federal, 1974 (discursos, ensaios e conferências); • A Pregação da Liberdade: Andanças de um Liberal, prefácio de Carlos Chagas, capa de Edgar Vasques, Porto Alegre, L & PM Editores, 1977 (discursos, entrevistas e conferências); • Fazedor de Histórias: Teotônio Vilela Conta um Pouco de Sua Vida. Depoimento a Mino Carta, Um Depoimento de Teotônio Vilela, fotos de Hélio Campos Melo, Editora Três, São Paulo,[1983] ; • Festa em Casa de Caboclo, Revista da AAL, n. 14, p. 245-247( crônica); • A Cabeça do Boi, Revista da AAL, n. 15, pág, 155-157(crônica); Um dos autores - juntamente com Théo Brandão, Carlos Moliterno e Mendonça Júnior -; • De Rebus Pluribus Juvenal ( 11/03 a 22/06/1958) com uma introdução de Carlos Moliterno intitulada Éramos Quatro, reunindo crônicas que, cada dia um deles, publicou, sem qualquer identificação, no jornal Gazeta de Alagoas.

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PRIMEIRO PASSO PRA ABRIR SUA EMPRESA: ACESSE A INTERNET

f acil i ta.al .gov.b r UM NOVO CAMINHO PARA ALAGOAS A partir de agora todos os empreendedores que querem criar, alterar ou dar baixa em uma empresa vão ter uma maior facilidade no processo. Com o Facilita Alagoas o novo empreendedor poderá, através da Internet, realizar o procedimento com muito mais celeridade. Com a ferramenta, proporcionada por uma parceria entre o Governo do Estado de Alagoas, através da Seplande, e a Juceal, além da facilidade, todos ganham agilidade, reduzindo o tempo de abertura de empresas de baixo risco para até 24h.

OUTRAS VANTAGENS Além de reduzir o tempo de abertura de empresas, o processo pela internet diminui custos com deslocamento, duplicidade de ações e entrega de documentações. Somado a isso, todos passam a contar com um ambiente único, menos burocratizado, simples, seguro, interativo e com rápido retorno para suas solicitações. O sistema de abertura de empresas é um facilitador, tendo que ir a apenas um órgão presencialmente e todo o resto da abertura pode ser feita através da internet. O empreendedor conta com informações e orientações consolidadas na WEB, onde também pode ser realizado o pagamento de taxas e tributos em meio eletrônico. Com o Facilita Alagoas o micro empreendedor individual pode emitir uma nota fiscal eletrônica de serviço sem custos.

REALIZAÇÃO

APOIO

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Logo após seu último pronunciamento no Senado, Teotônio é cumprimentado pelos amigos Ulysses Guimarães, Paulo Brossard, Nelson Carneiro e Tancredo Neves. No discurso, protestou contra a visita de Ronald Reagan ao Brasil e pediu a moratória para a dívida externa

A AMIZADE COM PEDRO SIMON 72

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O senador Pedro Simon: após a cirurgia de Teotônio para a retirada do tumor na cabeça, ele levou-o para sua casa. O alagoano morou com Simon durante dois anos

Em maio de 1984, o senador Pedro Simon emocionou familiares e amigos de Teotônio Vilela, durante pronunciamento em sessão solene no Senado. “Se Deus me deu alguns privilégios, de um deles me orgulho e me ufano, traduzindo esses sentimentos aos meus filhos, amigos e colegas: o de ter convivido e aprendido com um super-homem, um democrata, um justiceiro, um guerrilheiro, um autodidata, um sociólogo, um político, um passarinho, um alagoano, uma flor, um ser humano a que seu pai deu o

Simon chegou ao Senado, em 1979, após ser eleito no ano anterior. “Eu já acompanhava a atuação de Teotônio no Senado. Numa época em que denunciar e criticar o regime era um risco, ele não se intimidava e denunciava as atrocidades do governo militar. A partir do

“Numa época em que denunciar e criticar o regime era um risco, ele não se intimidava e denunciava as atrocidades do governo militar”, diz o senador gaúcho Pedro Simon nome de Teotônio Brandão Vilela”. São as primeiras frases de um discurso histórico, cheio de emoção e sensibilidade, inspirado pela amizade entre o senador gaúcho e o senador alagoano, que começou quando

momento que Teotônio entrou na luta, ele não mais saiu dela”, lembra Pedro Simon. Quando Teotônio adoeceu, após a cirurgia para extrair da cabeça o tumor cancerígeno, Pedro Simon o levou para a casa dele, em Brasília. “Ele

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passou dois anos morando comigo. O gabinete dele passou a ser o meu gabinete. Aliás, o meu gabinete virou dele, porque ele tinha muito mais atividades do que eu tinha. E viramos irmãos”, conta Pedro Simon. “Teotônio era cristalino, puro e autêntico, contra a vontade de alguns poucos, é verdade que desejariam que ele tivesse nascido no Pólo Norte, para que jamais neste País se falasse em anistia, eleições diretas, justiça social, participação, moratória. Para que em tempo algum fossem abertas as masmorras, os cárceres e as prisões e lá continuassem os estudantes, os militares, os políticos, os trabalhadores, os religiosos, os jovens e adultos, homens e mulheres que a exemplo de Teotônio, também nasceram no Brasil, também amaram a sua Pátria. Uma minoria, insignificante não desejaria que Teotônio

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O discurso da despedida, em novembro de 1982: já bastante debilitado pela doença, Teotônio foi autorizado a discursar sentado

tivesse nascido no País pois, dele ficariam livres os grileiros, os escravagistas dos homens da terra, os corruptos, os oportunistas e os entreguistas, vendilhões da Pátria”, escreveu em seu discurso o senador Pedro Simon. Preocupado com a saúde de Teotônio e com o agravamento

da doença e parasse com aquela peregrinação pelo Brasil. Quem sabe Teotônio prolongaria sua vida. Dentro do quarto em que Teotônio dormia, os dois conversaram. Teotônio já deitado, Simon sentado à beira da cama. “Teotônio, você hoje é a figura mais fantástica da

Pedro Simon tentou livrar Teotônio, já muito doente, do assédio do PC do B, que queria lançá-lo candidato à presidência da República de sua doença, Pedro Simon confessa ter vivido um dos momentos mais dramáticos de sua vida, quando tentou livrar Teotônio do assédio do PC do B, que queria lançá-lo candidato à presidência da República. Simon queria que Teotônio viajasse para Paris para cuidar

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história do Brasil. Agora você é o “santo cívico”, aplaudido, carregado no colo, e o Brasil está empolgado diante de ti. Mas o que está empolgando o Brasil é que tu tens quatro cânceres e convive com eles. Mas na campanha você não vai passar de mais um candidato.

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Como seria a tua campanha? Eles te mostrariam de cadeira de rodas? Apresentariam as tuas radiografias? Teus exames? E como tu governarias o Brasil, nestas condições?”. Os dois acabaram a conversa em prantos e Teotônio pediu: “Por favor, não me torture mais”. “Foi um dos momentos mais dramáticos da minha vida”, lembra emocionado o senador Pedro Simon. “Um dia, desaconselhando-o a fazer uma viagem, pela evidência comovedora do sacrifício que lhe imporia, perguntei-lhe à queima-roupa, diante de sua insistência em não faltar ao convite que lhe fora formulado: ‘– Afinal, meu irmão, qual é a tua procura?’ Sua resposta veio rápida, breve e cintilante: ‘– Procuro o Brasil dos brasileiros!’ O Brasil dos brasileiros, buscado por Teotônio, não é uma abstração”.


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Reprodução: Gazeta de Alagoas 29/11/1983

Sepultamento de Teotônio, em 28 de novembro de 1983, no Cemitério Parque das Flores, em Maceió: cerca de 20 mil pessoas foram se despedir do Menestrel das Alagoas. O funeral teve a presença de dezenas de políticos de todo o Brasil

O ADEUS AO SENHOR DIRETAS 76

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O primeiro sintoma da doença se manifestaria em Teotônio Vilela quando o senador alagoano vivia o auge de sua carreira política. Em maio de 1982, sempre atento às causas humanitárias e solidário aos que lutavam em nome dos oprimidos, Teotônio partiu para a região do Araguaia, no sul do Pará. O objetivo era visitar e dar apoio aos missionários franceses Aristides Camio e François Gouriou, além de 13 posseiros, presos há dez meses, acusados de atirar contra policiais federais e enquadrados na Lei de Segurança Nacional. Na guerra desigual entre os posseiros e o exército de jagunços a serviço de grileiros, os padres Camio e Gouriou não pensaram duas vezes ao decidir brigar pela causa dos posseiros. Envolvidos em uma trama,

Teotônio volta a Alagoas para participar da campanha do PMDB, logo após cirurgia realizada em São Paulo, em 1982

tão incomodado que teve de desistir da visita aos padres e posseiros. A princípio, cogitouse um problema de coluna, mas uma radiografia revelou que havia um pequeno nódulo no pulmão, além da suspeita de que o mesmo problema poderia estar ocorrendo no

Após a cirurgia para retirada do tumor, os médicos afirmaram que Teotônio teria apenas três meses de vida. O alagoano viveu mais 17 meses foram presos e aguardavam julgamento. Ao desembarcar no aeroporto de Belém, Teotônio Vilela percebeu algo estranho na perna esquerda. Era como se ela não suportasse o peso do corpo. Sentiu-se

cérebro, o que mais tarde seria confirmado em novo exame. No dia 7 de junho do mesmo ano, uma segunda-feira, no Hospital 9 de Julho, em São Paulo, Teotônio Vilela se submeteria a uma cirurgia para extirpar o tumor

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canceroso alojado no cérebro. Após a operação, os médicos afirmariam que o senador alagoano só teria mais três meses de vida, previsão que Teotônio se encarregou de desmentir. Na verdade, ele viveria mais 17 meses. Durante esse período, o câncer se alastraria para outras partes de seu corpo: pulmão, fígado, glândula suprarrenal e mediastino. Mesmo tomado pela doença, o incansável senador alagoano transformou esse período de sua vida numa das mais marcantes histórias já vividas por um homem público no Brasil. Emocionou a nação com sua peregrinação em nome da democracia e dos ideais aos quais dedicou sua vida. Conclamou o povo brasileiro a lutar pela reconquista de sua liberdade, tolhida desde o golpe militar de 1964. Ainda no leito do hospital, sob os efeitos

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Teotônio e o irmão, dom Avelar Brandão Vilela, durante lançamento do livro sobre a anistia, em 1982

das sessões de aplicações radiológicas na cabeça, começou a formatar e colocar no papel sua última tentativa de “salvar” o Brasil. Batizou sua criação de Projeto Emergência, que cobrava do País o pagamento das quatro dívidas: a dívida externa, para resolução da qual pregava a necessidade imediata de moratória; a dívida interna, representada pela enorme dívida pública contraída pelo governo para financiar seu deficit; a dívida social, que era “dívida com o povo”, como explicava o próprio Teotônio, com emprego, moradia, escola, saúde, terra e alimentação; e, finalmente, a dívida política, representada pelos 19 anos de restrições impostas pelo regime militar. Esta só poderia ser “paga” quando o povo brasileiro tivesse assegurado

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o direito de escolher e eleger o presidente da República. Para que isso pudesse ocorrer não havia outra maneira senão com a aprovação de eleições diretas. Obrigado a se afastar da vida parlamentar e impossibilitado de concorrer a uma reeleição dada como certa por causa da doença, Teotônio Vilela não abandonou o front. O câncer se manifestaria em Teotônio justamente a seis meses da eleição de novembro de 1982. Seria a primeira vez, desde 1965, que aconteceria eleição direta para governadores de Estado. No início de agosto, uma calorosa recepção no aeroporto Campo dos Palmares marcou o retorno emocionante de Teotônio a Alagoas, depois de dois meses de tratamento do câncer em São Paulo. Ao descer da aeronave, tal qual o papa

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João Paulo II, Teotônio beijaria o solo alagoano e começaria ali a imprimir o caráter messiânico que tomaria conta de sua trajetória até o último dia de sua vida. A vinda a Alagoas também tinha o objetivo de alinhar o PMDB alagoano para a batalha das eleições de novembro. Na convenção do partido, discursou lançando os nomes do deputado federal José Costa e de José Moura Rocha para governador e senador, respectivamente. Os adversários seriam Divaldo Suruagy e Guilherme Palmeira, do Partido Democrático Social (PDS), partido que herdou nomes e votos da antiga Arena. Com o fim do bipartidarismo, em 1979, logo depois do processo da Anistia, Teotônio Vilela foi um dos responsáveis pela fundação do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), para onde migrou a maioria dos integrantes do extinto MDB. Em novembro, para se fazer presente aos comícios da cansativa campanha em Alagoas, Teotônio foi capaz de interromper um tratamento contra o câncer que fazia nos Estados Unidos. O velho menestrel apostava tudo no dia 15 de novembro. “Temos que cultivar 15 de novembro como quem cultiva uma semente muito nobre e de cujo destino depende esta grande nação”, diria em discurso no Senado.


Em nome da amizade a da grande admiração que nutria pelo amigo Teotônio Vilela, o deputado federal José Costa abriu mão da provável reeleição para tomar seu posto naquela batalha de 1982. “Abri mão de uma reeleição tranquilíssima para a Câmara dos Deputados para atender a um apelo de Teotônio, assumindo a candidatura de governador a poucos dias das eleições. Era comovente ver Teotônio no palanque, superando seus limites físicos e eletrizando a massa com seu discurso pela liberdade, pela democracia e a igualdade social. O povo chorava e procurava tocar Teotônio como que para ficar impregnado da coragem e do civismo que o mantinham firme em sua caminhada libertária, afrontando a doença que minava sua saúde”, lembra o ex-deputado federal José Costa. No comício da cidade de Arapiraca, Teotônio sentiu-se mal. Mas se recusou a deixar a cidade antes do fim dos discursos dos candidatos. Foi para dentro do carro e só foi embora ao final das falas. Tudo ocorreu sob forte comoção popular. Em Viçosa, sua terra natal, o discurso de Teotônio levou a multidão às lágrimas. Ele próprio não conteve o choro quando percebeu a emoção de seus conterrâneos. “Não tenho mais saúde para derrubar

Uma das aliadas na campanha pelas eleições diretas no Brasil, a cantora Fafá de Belém com Teotônio, no dia da gravação da música Menestrel das Alagoas, de Milton Nascimento

boi pelo rabo como fazia nas vaquejadas, mas ainda tenho força para segurar no colarinho dos ladrões que roubam a nossa pátria!”. No encerramento da campanha, cerca de 50 mil pessoas lotaram a Praia de Pajuçara, num dos maiores comícios já vistos em Maceió. O PMDB alagoano perdeu a eleição, embora tivesse conseguido uma das mais expressivas vitórias daquela eleição em uma capital, onde obteve 70% dos votos. Logo depois das eleições, no dia 30 de novembro de 1982, Teotônio Vilela faria o encerramento de sua carreira parlamentar. Debilitado por causa do agravamento de seus problemas de saúde, ele foi autorizado a discursar sentado. Ao lado do amigo Paulo Brossard, ele criticou a interferência dos países ricos, articulados na “Comissão

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Trilateral”, nos destinos dos países do “Terceiro Mundo” e prometeu continuar a sua luta. “Estou saindo desta Casa esta semana. Isto não é uma despedida, mesmo porque não é do meu hábito despedirme de nada. A vida política continua comigo, continuarei lutando lá fora, só não terei o privilégio de usar esta ou aquela tribuna. Quanto ao mais, prosseguirei na minha vida de velho menestrel, cantando aqui, cantando ali, cantando acolá, as minhas pequeninas toadas políticas”, disse Teotônio naquele dia. A morte da esposa, Lenita, no dia dez de janeiro, marcou o início de 1983 para Teotônio Vilela. Uma semana depois, ao lado do irmão, o cardeal dom Avelar Brandão Vilela, na Associação Brasileira de Imprensa (ABI), no Rio de Janeiro, fez o lançamento do

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Mesmo doente, Teotônio continuava percorrendo o Brasil. Ao lado, amparado pelo filho, Teotonio Vilela

livro Anistia, mais uma vez em meio à profunda comoção, sob aplausos de artistas, jornalistas, estudantes e políticos. Nos meses seguintes, o “cerimonial das lágrimas, dos aplausos, do Hino Nacional foi repetido nos quatro cantos do País”, como pontuou a pesquisadora Marly Silva da Motta no volume dedicado a Teotônio Vilela na série Grandes Vultos que Honraram o Senado. Batalhando e recusando-se a entregar-se à morte iminente, viajando sempre sozinho, Teotônio era elevado à condição de “santo cívico” de “salvador” da Pátria. Nesse período, foi homenageado com mais de 100 títulos de cidadão honorário de várias cidades Brasil afora. Recebia inúmeros convites para participar de conferências e outras reuniões.

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“Quando coincidiam as datas, Teotônio dava prioridade aos encontros com a juventude. Ele fazia questão de estar com os estudantes, para ele era fundamental”, lembra o sobrinho Ricardo Vilela, que se transformou em secretário do velho senador durante o período da doença. “Ele não permitia que o acompanhasse nas viagens. Só pedia para ir levá-lo e buscá-lo no elevador”, conta Ricardo. Em julho de 1983, na condição de primeiro vice-presidente, Teotônio assumiu a presidência do PMDB, após pedido de licença para tratamento de saúde do presidente Ulysses Guimarães, estressado com a tendência de busca pelo entendimento com o governo, que ganhava força dentro do partido. Isto faria o PMDB abandonar a tese das eleições diretas em 1984. Essa “conciliação” com o governo militar era personificada na figura do então governador mineiro Tancredo Neves. Na condição de presidente do PMDB, Teotônio tratou logo de rechaçar essa possibilidade e colocou as eleições diretas para presidente como prioridade

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para o partido. “Não há nada de conciliação. Acabou-se. Isso é uma história antiga. Vamos tratar agora de outra vida...”. Nascia aí o “Senhor Diretas”. Em setembro de 1983, a canção Menestrel das Alagoas, composta por Milton Nascimento e Fernando Brandt, em homenagem a Teotônio, é lançada. “Quem é esse viajante/ quem é esse menestrel/ que espalha a esperança/ e transforma sal em mel?”. Ao lado de Coração de Estudante, a canção se transformaria no hino da campanha das Diretas Já, que invadiu as principais capitais do País no início de 1984. Teotônio não estava presente para ver, mas sua presença estava na memória de todos e representada por um boneco gigante, magro, de chapéu preto e bigodes compridos. A MORTE EM ALAGOAS

Em outubro de 1983, o estado de saúde do senador alagoano se agrava e ele é internado em São Paulo, em estado de pré-coma. Antes de perder a lucidez, ele sussurrou no ouvido do filho Teotonio o desejo de morrer em Alagoas. Ainda teve forças para ditar um telegrama ao partido: “Autorizo a inclusão do meu nome para compor a chapa encabeçada por Ulysses Guimarães para o diretório nacional do PMDB”,


Ulysses era presença constante no quarto do hospital, onde dividia a cabeceira da cama de Teotônio com familiares, além da cantora Fafá de Belém, dos ex-deputados e amigos Márcio Moreira Alves Márcio e Marcelo Cerqueira. A bordo de um jatinho fretado pelo governo de São Paulo, Teotônio decolou para sua última viagem de volta à terra natal. Nos últimos 16 dias de vida em Maceió, seu estado de saúde permaneceu inalterado. No domingo, 27 de novembro de 1983, poucos minutos depois da chegada do irmão dom Avelar Brandão Vilela, que foi chamado às pressas de Salvador, morria o Menestrel das Alagoas. Seu enterro, segundo registros e depoimentos de pessoas presentes, foi a maior manifestação de amor a um político já vista em Alagoas. “Foi uma coisa impressionante. Uma multidão acompanhou o cortejo até o Parque das Flores. O povo se emocionava, todos choravam. Foi inesquecível”, lembra Eduardo Davino. Ele foi presidente do Sindicato dos Petroleiros, no final da década de 1960, entidade seminal na luta contra a ditadura militar em Alagoas. Perseguido e cassado pelo regime, Davino se tornaria uma espécie de secretário executivo de Teotônio Vilela, no final dos anos 1970. Comovido com a perda do amigo, naquela tarde, ele acompanharia a pé o

cortejo que saiu da Assembleia Legislativa, onde o corpo foi velado no início da tarde, até o Parque das Flores. Embora fosse previsível pelo agravamento de seu estado de saúde, a morte de Teotônio provocou comoção profunda no engenheiro Beroaldo Maia Gomes. “Naquele momento que antecedeu a sua morte, Teotônio Vilela era a maior figura do cenário político brasileiro. Poucos tiveram prestígio e foram respeitados como ele”, diz Beroaldo. Como poucos, Maia Gomes acompanhou de perto a trajetória gloriosa do Menestrel. “Lembro do senador do Piauí, Petrônio Portella, em Maceió, em 1965, indicando o nome de Teotônio Vilela para o Senado, o que desagradaria Afrânio Lages, que queria a vaga. A partir daquele momento, Teotônio começaria a ganhar prestígio nacional”, conta Beroaldo. Foram muitas tardes de discussões políticas, palestras filosóficas, no sítio do folclorista Théo Brandão, primo de Teotônio, na Praia de Jatiúca. “O Théo Brandão talvez tenha sido a principal influência intelectual na vida de Teotônio Vilela. Os dois eram muito amigos. O Teotônio o respeitava muito”, diz Beroaldo. Para ele, a figura de Teotônio Vilela representa um dos momentos mais importantes da República. No Cemitério Parque das

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O funeral de Teotônio Vilela parou Maceió: milhares de pessoas compareceram ao velório e ao enterro do Menestrel

Flores, mais de 20 mil pessoas se espremiam para dar o último adeus a Teotônio Vilela. Ao redor do caixão, comovidos a derramar lágrimas, nomes de primeira grandeza da política nacional: os futuros presidentes do Brasil Fernando Henrique Cardoso e Luis Inácio Lula da Silva, além de Ulysses Guimarães, Mário Covas, Paulo Brossard, Tancredo Neves, Franco Montoro, os alagoanos Fernando Collor, Divaldo Suruagy, Guilherme Palmeira, José Costa, além de artistas, entre eles o cartunista Henfil, amigo inseparável de Teotônio nos últimos meses de vida. Ulysses Guimarães diria: “O rosto de Teotônio é o rosto do Brasil”.

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Michel Rios

Biblioteca da Fundação Teotônio Vilela: acervo do Menestrel das Alagoas é destinado hoje à pesquisa

O LEGADO INTELECTUAL E A FUNDAÇÃO TEOTÔNIO VILELA 82

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São manuscritos de discursos, entrevistas, correspondências, cópias de decretos, artigos, conferências, palestras e crônicas. No espaço, destacamse as fotografias, quadros e gravuras, além de obras de esculturas de artistas nordestinos. A coleção de caricaturas e charges dos principais cartunistas e chargistas do período em que o senador Teotônio Vilela exerceu a vida parlamentar é uma das preciosidades do acervo da instituição. É a história política do Brasil contada por mestres

dos traços, a exemplo de Henfil e Ziraldo. A biblioteca pessoal do senador, disponível para consulta, guarda raridades e mostra a diversidade que marcou a formação literária de Teotônio Vilela. São cerca de 3.000 publicações nas áreas de política, literatura, geografia, história, antropologia, sociologia, filosofia, ética e na área jurídica, além de materiais relativos à memória sociocultural e históricodocumental de Alagoas. “Parte do nosso acervo é de inestimável importância

Lucas Almeida

Poucos meses após a morte de Teotônio Vilela, surgiu não apenas a necessidade de preservar o acervo deixado pelo senador alagoano, mas também garantir que o registro de sua trajetória e da contribuição que deu à democracia no Brasil pudesse ser conhecido pelas novas gerações. Nascia assim a Fundação Teotônio Vilela, criada no dia 17 de abril de 1984. O acervo preservado pela Fundação, localizada à Rua Sá e Albuquerque, no histórico bairro de Jaraguá, é composto pela produção intelectual e política do senador alagoano.

A presidente da Fundação Teotônio Vilela, Janice Vilela: guardiã do legado intelectual do pai

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para a recomposição da história recente do Brasil, sobretudo, no que se refere ao período compreendido entre a Revolução de 1964 e o Movimento das Diretas Já!”, diz a presidente da Fundação Teotônio Vilela, Janice Vilela. À beira-mar de Pajuçara, o Memorial Teotônio Vilela compõe um dos espaços da Fundação Teotônio Vilela. Inaugurado em 25 de abril

de 2005, mas só aberto ao público no dia 2 de janeiro de 2006, o memorial tem projeto arquitetônico assinado por Oscar Niemeyer e vitral da artista plástica Marianne Peretti. Na parte interna do memorial, o visitante pode acompanhar a trajetória de vida do Menestrel das Alagoas por meio de uma “linha do tempo” que traça a caminhada

Fotos: Michel Rios

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1. Fachada da Fundação Teotônio Vilela, em Jaraguá 2. Além de livros e documentos, acervo é composto também por fotografias, painel com cronologia e charges publicadas em jornais 3. Birô usado por Teotônio na biblioteca de sua casa, em Maceió: apreço pela atividade intelectual

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do menino de Viçosa à condição de “Santo Cívico” do Brasil. Ao som da canção Menestrel das Alagoas, estão expostos o chapéu, a bengala e os óculos do senador. O Memorial Teotônio Vilela funciona diariamente, das 9 às 21h. Já a Fundação está aberta ao público de 8 às 12h e das 14 às 18hs, de segunda a sexta-feira.


MEMORIAL Inaugurado em 2005, o Memorial Teotônio Vilela possui uma cronologia ilustrada da vida do senador alagoano, além de objetos pessoais como documentos, óculos, chapéu e bengala. Fotos: Michel Rios

Memorial Teotônio Vilela, na Praia de Pajuçara: projeto assinado pelo arquiteto Oscar Niemeyer

Área interna do Memorial Teotônio Vilela, com vitral da artista plástica Marianne Peretti: objetos pessoais, cronologia e frases históricas do Senhor Diretas

Os óculos e o chapéu de Teotônio integram o acervo do memorial

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DOCUMENTA

REGISTROS No Memorial Teot么nio Vilela podem ser encontrados documentos pessoais e alguns objetos utilizados por Teot么nio Vilela. Reproduzimos alguns desses documentos. Confira.

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Carteira de identidade de Teot么nio, expedida em mar莽o de 1936, aos 18 anos

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DOCUMENTA

Carteira de senador de Teot么nio, para o mandato de 1967 a 1975

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Carteira do mandato de senador, de 1975 a 1983

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ENSAIO VISUAL

TEOTÔNIO E O HUMOR O jornalista Paulo Francis costumava dizer que a caricatura é uma das maiores homenagens que alguém pode receber. Dono de uma notável habilidade com as palavras e enérgico quando a situação pedia, o senador alagoano Teotônio Vilela foi protagonista de muitas situações num

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período especialmente importante da política brasileira. Não à toa, serviu de inspiração para muitos dos mais talentosos artistas do humor gráfico nacional, como Henfil – que o retratou inúmeras vezes –, Ziraldo e outros. Em sua terra natal, o saudoso chargista Nunes, do

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jornal Gazeta de Alagoas, encarregou-se de traduzir, por meio do desenho, a trajetória de Teotônio e sua atuação no campo político. Nesta edição, a GRACILIANO reproduz algumas dessas preciosidades do humor gráfico brasileiro dedicadas ao Menestrel das Alagoas.


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ENSAIO VISUAL

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SAIBA MAIS

Para obter mais informações sobre a trajetória e as principais ideias de Teotônio Vilela, indicamos o documentário dirigido por Vladimir Carvalho e uma lista de obras. Todos estão disponíveis para consulta na biblioteca da fundação que leva o seu nome.

LIVROS

PROJETO BRASIL

PROJETO EMERGÊNCIA

TEOTÔNIO, GUERREIRO DA PAZ

Com oito capítulos, o livro propõe uma organização

Lançado em 1983, a obra foi conteúdo programático

O livro é uma biografia que reconstitui momentos

econômica que visa a democracia social. O projeto

das Diretas Já e aborda assuntos como a dívida

da vida do político, como os tempos de vaqueiro

compreende uma análise sumária da realidade

externa e interna do País, a miséria e uma

até as lutas da anistia, fazendo uma análise

brasileira e sua evolução, além de temas como

possível restauração dos princípios da democracia

do personagem e do momento histórico. A

a reforma social e as bases para uma reforma

representativa.

obra traz também um caderno iconográfico e

econômica.

Autor: Teotônio Vilela

um ABC que reúne várias ideias de Teotônio.

Autor: Teotônio Vilela e Raphael de A. Magalhães

Codecri, 50 págs.

Autor: Márcio Moreira Alves

Senado Federal – Centro Gráfico, 237 págs.

Senado Federal – Centro Gráfico, 299 págs.

LIVROS

FILME

TRIBUTO A TEOTÔNIO

GRANDES VULTOS QUE HONRARAM O SENADO

O EVANGELHO SEGUNDO TEOTÔNIO

Homenagem organizada pela Fundação Teotônio

TEOTÔNIO VILELA

(doc., 94 minutos)

Vilela, a obra reúne biografia, editoriais, charges,

Primeiro volume de uma coleção de quatro livros, a

O documentário, com depoimentos do próprio

depoimentos de políticos, jornalistas, personalidades

obra apresenta biografia e perfil de Teotônio Vilela,

Teotônio, traça o perfil do político e usineiro alagoano

da cultura brasileira e alagoana e de articulistas de

um resumo de suas atividades públicas, projetos e

e conta, ainda, com declarações de Miguel Arraes,

outros estados.

uma relação de discursos do parlamentar no

Leonel Brizola, Carlos Castelo Branco, Tancredo Neves

Organização: Fundação Teotônio Vilela

Senado Federal.

e Luís Inácio Lula da Silva.

Fundação Teotônio Vilela, 316 págs.

Autor: Marly Silva da Motta

Ano de lançamento: 1984

Senado Federal, 299 págs.

Direção: Vladimir Carvalho

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Graciliano nº 11  
Graciliano nº 11  

Graciliano é uma revista da Imprensa Oficial Graciliano Ramos. Na edição nº 11, conheça a vida do senador Teotônio Vilela.

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