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rEViSTa Da iMPrEnSa oFicial Graciliano raMoS - MacEiÓ - ano V - nº12 - JanEiro/FEVErEiro 2012

A HORA E A VEZ DA LITERATURA EM ALAGOAS ESCRITORES E O PRÊMIO LEGO JORGE COOPER SEGUNDO LUIZ COSTA PEREIRA JUNIOR E RENATA VOSS UMA PROSA COM O ESCRITOR FERNANDO MORAIS

E AINDA:

RAFHAEL BARBOSA, ILDNEY CAVALCANTI, ANALICE LEANDRO, VERA ROMARIZ, GONZAGA LEÃO, OTÁVIO CABRAL E MAURÍCIO DE MACEDO


PREÇO, PRAZO E QUALIDADE? JUNTOS? Você só encontra na Gráfica Imprensa Oficial Graciliano Ramos.

A Gráfica da Imprensa Oficial Graciliano Ramos recebu importantes investimentos nos últimos anos, o que permitiu a aquisição de equipamentos, com objetivo de potencializar sua atuação no mercado gráfico e editorial. Oferece serviços gráficos para os setores públicos e privados, com excelência.

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janeiro/fevereiro 2012

Av. Fernandes Lima, s/n, Km 7, Gruta de Lourdes, Maceió - AL


AOS LEITORES HOMENS E LIVROS Livro digital, bienais que

exemplo desse bom momento é a

Macedo e os bastidores da obra

reúnem multidões, prêmios

existência de dois selos editoriais

do alagoano Gonzaga Leão,

cada vez mais badalados e feiras

criados exclusivamente para

que costuma escrever seus

literárias de grande visibilidade

edição de livros infantis: o selo

poemas a qualquer hora, sobre

na mídia. As novidades

Coco de Roda e o Passarada.

qualquer tema e em todo tipo de

tecnológicas e o agito cultural que

Numa entrevista regada a bom

suporte. Gonzaga, que prepara

envolvem a literatura atualmente

humor, o jornalista e escritor

seu quinto livro em mais de 50

contribuíram não apenas para o

Fernando Morais – autor de obras

anos dedicados à poesia, gosta

aumento no número de leitores,

como Chatô, o Rei do Brasil e Olga

que os escritos fiquem curtidos,

mas também para pôr livros e

–, fala sobre jornalismo literário,

que adquiram, sem pressa, a

escritores em evidência. Uma

personagens polêmicos e sobre o

forma final, como em um trecho

prova disso está no crescimento,

seu próximo livro.

do poema Procura da poesia, de

registrado este ano, de 13% em

E como Jorge Cooper

Carlos Drummond de Andrade:

exemplares vendidos, segundo a

continuará sempre a merecer

Penetra surdamente no reino das

Câmara Brasileira do Livro (CBL).

a reverência pelo belo legado

palavras./Lá estão os poemas

A partir desse cenário, a

poético que nos deixou,

que esperam ser escritos./

Graciliano celebra a literatura

publicamos um artigo exclusivo

Estão paralisados, mas não há

produzida em Alagoas na

do jornalista e escritor Luiz Costa

desespero,/há calma e frescura

atualidade ao mergulhar na

Pereira Junior sobre a obra do

na superfície intacta./Ei-los sós e

contribuição do Prêmio Lego,

poeta alagoano. Cooper inspirou

mudos, em estado de dicionário./

agora realizado pela Universidade

ainda o ensaio visual inédito da

Convive com teus poemas, antes

Federal de Alagoas/Faculdade de

fotógrafa alagoana Renata Voss.

de escrevê-los./Tem paciência

Letras/Edufal e Imprensa Oficial

E como são muitos os

Graciliano Ramos. Com sete livros

caminhos que nos levam à

provocam./Espera que cada um

publicados e mais quatro no prelo,

literatura, trazemos também a

se realize e consume/com seu

o concurso vem revelando novos

relação entre as obras literárias

poder de palavra/e seu poder

escritores.

de autores alagoanos e o cinema,

de silêncio./Não forces o poema

A literatura oral e a literatura

se obscuros. Calma, se te

na reportagem do jornalista

a desprender-se do limbo./Não

infantil também receberam um

Rafhael Barbosa, especialista no

colhas no chão o poema que se

olhar especial nesta edição. Cada

tema.

perdeu./Não adules o poema.

vez mais ilustrados, os livros para

Para finalizar, o leitor ainda

Aceita-o/como ele aceitará sua

crianças vêm conquistando um

irá conhecer poemas inéditos

forma definitiva e concentrada/

público cativo. Em Alagoas, um

de Otávio Cabral e Maurício de

no espaço.


EXPEDIENTE

INTUIÇÃO E DESAFIO Michel Rios

A equipe da Núcleo Zero, que assina a capa desta edição

A Núcleo Zero nunca foi uma empresa de

a Núcleo Zero traz uma ideia visual que,

comunicação tradicional. A agência sempre

segundo Werner Salles, “transmite um

pôs a intuição e a originalidade como força

mosaico de influências da nova literatura, uma

motriz. Criada em 2003, hoje a Núcleo Zero, sob

literatura que dialogue com o seu tempo, sem

o comando dos irmãos e designers Weber e

perder certas referências”.

Werner Salles, vem apostando exclusivamente

Outra colaboração preciosa é a do ilustrador

em projetos de audiovisual e artes visuais,

catarinense Daniel Hogrefe, que assina a

sobretudo nas áreas editorial e de design

série de ilustrações para artigos, reportagens,

gráfico.

contos e poemas publicados nesta edição.

No portfólio da empresa, destacam-se os

Livre de classificação, seu traço busca

documentários

expressar a relação entre civilização e

e

angústia, o impacto da vida urbana sobre o

, realizados para o DOC TV/TV Cultura,

homem contemporâneo. Longe de ser uma

os memoriais Lêdo Ivo e Aurélio Buarque de

encomenda, o convite para ilustrar esta edição

Holanda, além de diversos livros e projetos

soou mais como desafio: “Tive total liberdade

culturais relacionados ao patrimônio histórico e

para criar. Para isso, tive de ler os textos uma,

imaterial de Alagoas.

duas, três vezes”, conta Hogrefe. O resultado

Para criação da capa desta edição de Graciliano,

você confere nas páginas a seguir.

GOVERNO DO ESTADO

IMPRENSA OFICIAL

DE ALAGOAS

GRACILIANO RAMOS

Teotonio Vilela Filho

Moisés de Aguiar

Janayna Ávila

Núcleo Zero

Governador de Alagoas

Diretor-presidente

Editora

Ilustração da capa

José Thomaz Nonô

Hermann de Almeida Melo

Michel Rios

Marli Josefina

Vice-governador de Alagoas

Diretor-comercial

Projeto gráfico / Diagramação

Revisão

Luiz Otavio Gomes

José Roberto Pedrosa

Elayne Pontual e

Secretário de Estado do Planejamento e do

Diretor-administrativo financeiro

Lucas Almeida

Desenvolvimento Econômico

Janayna Ávila

Estagiários

Coordenadora editorial Michel Rios Editor de arte

Contatos:

Graciliano é uma publicação da Imprensa Oficial Graciliano Ramos

0800 095 8355 | editora@imprensaoficial.al

Os textos assinados são de exclusiva responsabilidade do autor. ISSN 1984-3453


SUMÁRIO

ENTREVISTA

FERNANDO MORAIS LUCAS ALMEIDA

06

NO LIMIAR DA LINGUAGEM/LOUCURA EM A MORTE DE PAULA D. ANALICE LEANDRO E ILDNEY CAVALCANTI

ARTIGO

ARTIGO

OS OLHOS MUITO ABERTOS: UMA ESTÉTICA NARRATIVA DA DIFERENÇA EM CAIO FERNANDO ABREU

A CRIANÇA E A LITERATURA

APOTEOSE DOS LIVROS

RAFHAEL BARBOSA

LUCAS ALMEIDA

14 ESPECIAL

O LEGADO DO LEGO

61

REPORTAGEM

38

REPORTAGEM

SARAU DO NOSSO TEMPO LUCAS ALMEIDA

24

ENSAIO VISUAL

52

ARTIGO

OS ESPIRAIS DO TEMPO EM JORGE COOPER

LUIZ COSTA PEREIRA JUNIOR

66

GONZAGA LEÃO

DOCUMENTA

LUCAS ALMEIDA

UM DEDO DE PROSA

DISSOLUÇÃO

REPORTAGEM

RENATA VOSS

JANAYNA ÁVILA

28

VERA ROMARIZ

REPORTAGEM

ASSIM NO LIVRO COMO NO CINEMA

QUEM CONTA UM CONTO...

72

REPORTAGEM

ELAYNE PONTUAL

78

MICROCONTOS

DE MÃOS DADAS COM A TECNOLOGIA

84 REPORTAGEM

POESIA INÉDITA

ELAYNE PONTUAL

96

100

SAIBA MAIS

90 106 108


ENTREVISTA

“EU GOSTO DE PERSONAGEM POLÊMICO” Com mais de 3 milhões de livros vendidos, o escritor Fernando Morais, autor das biografias de Assis Chateaubriand e Olga Benário, conta o que faz sua cabeça na hora de escolher o tema ou o biografado de cada uma de suas obras

LUCAS ALMEIDA

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Janete Longo

O escritor mineiro Fernando Morais: dedicação exclusiva à produção de livros que tratam de fatos reais

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ENTREVISTA

A atriz Camila Morgado em cena do filme Olga, adaptação do livro homônimo de Fernando Morais

Não importa o público: quando está diante da plateia numa palestra, quando dá entrevista ou simplesmente quando conversa com um leitor, o jornalista e escritor

sabe a medida certa na arte de levar aos ouvintes relatos que despertem interesse. Engana-se, entretanto, quem pensa que a prosa agradável e sedutora do escritor esconde

Além de uma longa carreira no jornalismo impresso, Morais também atuou na vida pública: foi deputado estadual, secretário de Cultura e de Educação, todos por São Paulo mineiro Fernando Morais é o mesmo: atencioso e com talento raro para contar histórias permeadas por tiradas cheias de humor. É fácil prestar atenção ao que ele diz. O autor de livros como Olga e Chatô, o Rei do Brasil

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um pesquisador distraído. Não é à toa que Fernando Morais é, atualmente, autor de livros que lideram as listas de mais vendidos. O faro aguçado pela informação inédita – chamado, no jornalismo, de furo – tem resultado em literatura de não-

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ficção aclamada não apenas por leitores, mas também pela crítica. Outra habilidade de Morais, adquirida durante décadas de dedicação ao jornalismo, especialmente no período em que passou nas redações das revistas Veja e do jornal Folha de S. Paulo, é a permanente disposição para a apuração atenta, criteriosa, essencial para quem se dedica a escrever livros cujo conteúdo não é ficcional. Hoje, vivendo apenas de livros, como ele mesmo diz, Fernando Morais já passou pela vida pública – foi deputado estadual, secretário de Estado da Cultura e secretário de Educação, todos por São Paulo – e tem visto algumas de suas obras adaptadas para o cinema, a exemplo de Olga, dirigido por


Jayme Monjardim, e Corações Sujos, com direção de Vicente Amorim, que abriu o Festival de Cinema de Paulínia, em 2011. A adaptação de Chatô,

Soldados da Guerra Fria, conta a história de espiões cubanos que se infiltraram no serviço secreto norte-americano. Ganhador do Prêmio Jabuti, na

inicialmente, até um embate com o biografado – o escritor, que diz preferir sempre escrever sobre personagens polêmicos, concedeu entrevista à Graciliano. No bate-papo, falou da ascensão da literatura de não-ficção no Brasil, da difícil tarefa de escrever uma biografia sobre alguém vivo, da mudança de hábitos de leitura frente à internet e dos planos para seu próximo livro. Confira. GRACILIANO – Você é um dos maiores nomes da literatura de não-ficção do Brasil. Você diria que, atualmente, esse é um gênero popular no País? FERNANDO MORAIS – Se eu julgar pelos meus livros, eu diria que sim porque eu tenho dez livros publicados. É muito chato ficar falando isso, parece que eu estou jogando confete em cima da minha própria cabeça, mas

O autor de e recebeu três vezes o Prêmio Esso e quatro vezes o Prêmio Abril, ambos de jornalismo o Rei do Brasil, um dos filmes mais esperados do cinema brasileiro, nunca foi finalizada e colocou em xeque a captação de recursos liderada pelo ator e diretor do longa-metragem, Guilherme Fontes, que foi condenado pelo uso ilegal de verbas públicas. Sua trajetória na chamada “literatura de não-ficção” começou com o livroreportagem Transamazônica, sobre a construção da rodovia situada no Norte do País. Com 10 livros publicados, seu livro mais recente, Os Últimos

categoria melhor livro do ano, por Corações Sujos, Fernando Morais recebeu três vezes o Prêmio Esso e quatro vezes o Prêmio Abril, ambos de jornalismo. Autor de uma biografia considerada reveladora e impactante sobre Paulo Coelho – que lhe rendeu,

Cena do filme Corações Sujos, outra adaptação de um dos livros de Fernando Morais

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ENTREVISTA

eu tenho dez livros publicados e nenhum deles deixou de entrar em listas dos mais vendidos. Todos, sem exceção. Se somar, aqui no Brasil, já devo ter vendido perto de 3 milhões de livros, o que, para um autor brasileiro, é um número significativo. E não é livro de autoajuda, não são livros de conteúdo tão fácil assim que explicasse esse interesse da população. Eu acho que há um mercado, há um público leitor muito interessado em nãoficção, em histórias reais.

mas não era nada grave, nada que comprometesse. E estou sofrendo um processo pesado do deputado Ronaldo Caiado (DEM-GO), que está pedindo uma indenização de 500 mil reais por uma informação contida no livro Na Toca dos Leões, lançado em 2005. Meus advogados já estão recorrendo. Espero que eu ganhe, não só porque sou inocente. Ainda que não fosse, porque é uma injustiça, uma brutalidade uma indenização desse tamanho. E, de mais a mais,

Se somar, aqui no Brasil, já devo ter vendido perto de 3 milhões de livros, o que, para um autor brasileiro, é um número significativo. E não é livro de autoajuda Em algum momento os familiares de seus biografados pediram para você não publicar alguma história? Não. Eu não tive problemas, que eu me lembre. Nenhum problema. Houve alguns erros que eu cometi, mas não com os personagens centrais. Por exemplo, no Chatô, tinha uma informação errada, imprecisa, sobre o general Geisel, que já não era presidente do Brasil. E ele era amigo de um jornalista que é meu amigo. Ele chamou a atenção para isso e eu, já na segunda edição do livro, corrigi,

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se, desgraçadamente, vier a permanecer essa sentença, eu vou para a cadeia porque não tenho dinheiro para pagar. Qual a diferença entre escrever biografias de pessoas que já morreram e de pessoas que ainda estão vivas? O vivo muda, não é? Vivo tem mulher, vivo tem vizinho, vivo tem o ascensorista do elevador do trabalho dele, da casa dele. Paulo Coelho ficou, a princípio, muito sentido comigo. Parou de atender os meus telefonemas, parou de responder os meus e-mails. E aí eu aproveitei uma

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oportunidade. Eu tinha que ir à Líbia porque eu pretendia fazer um perfil do coronel Kadafi... Não sei se um livro, se uma grande reportagem ou se um retrato, uma biografia. E a única maneira de ir à Líbia, partindo do Brasil, era fazendo uma conexão na Europa e eu fiz pela França para ter a oportunidade de bater na porta da casa do Paulo Coelho. E aí fizemos as pazes, acabou, somos amigos. Ele me mandou um e-mail muito carinhoso agora, pelo lançamento desse livro mais recente, Os Últimos Soldados da Guerra Fria. Como você vê o fato de o Paulo Coelho ser adorado fora do Brasil e ser mal visto pela crítica brasileira? Deve haver razões, eu poderia arrolar dezenas de razões. Agora, eu acho que tem uma que não é muito bonita, que é o rasteiro sentimento da inveja. Aqui no Brasil ele já vendeu, não me lembro exatamente, mas já vendeu seguramente uns 20 milhões de livros. Só no Brasil. O total de vendas dele no mundo inteiro, hoje, já superou os 150 milhões. O Nelson Rodrigues costumava dizer que o brasileiro recebe o sucesso alheio como se fosse uma canivetada na própria barriga. Você e o Nelson Motta são os dois maiores biógrafos de pessoas famosas no País. Nelson conta histórias de pessoas com as quais conviveu, ao contrário de você. Essa não


proximidade com o biografado torna o texto mais verdadeiro por estar livre de relações afetivas? Eu não faço distinção entre personagens pelas quais eu tenha simpatia, com as quais eu tenha relação, e os que eu não tenho. Tem gente que prefere só escrever. Um dia, Ruy Castro e eu participávamos de um programa de televisão. Ele disse que preferia escrever sobre personagens pelos quais ele tivesse algum tipo de afinidade, simpatia. Eu não. Tanto que eu escrevi sobre Chatô, com o qual eu não tenho nenhuma afinidade. Cheguei a pensar em escrever a biografia do delegado Sérgio Fleury, um torturador da ditadura militar. Mas quando estou procurando personagens, eu busco gente que me ajude a contar pedaços da história que não contaram pra gente na escola. Como surgiu a ideia de se dedicar à produção de biografias e de livros sobre episódios históricos? Foi aos poucos. Não foi da noite para o dia. Eu comecei com Transamazônica, um livroreportagem sobre a construção da rodovia Transamazônica. Depois, A Ilha, que já começou a promover uma inflexão na minha carreira porque vendeu muito, deu algum dinheiro e eu já comecei a pensar em me dedicar a publicar trabalhos em livros. E esse desejo, esse projeto se consolidou com Olga

Janete Longo

Eu não gosto de personagem linear, de personagem previsível. Acho que o leitor também não gosta

e, a partir daí, eu deixei de ser jornalista empregado de jornais e revistas para me dedicar só a livros. Tanto a história do Chatô quanto a do Paulo Coelho revelam momentos polêmicos, cheios de lances obscuros. Mesmo assim você as publicou. Por quê? Porque eu gosto de personagem polêmico. Eu não gosto de personagem linear, de personagem previsível. Acho que o leitor também não gosta. Tenho a impressão de que se o

leitor, ao começar a ler um livro, chegar no segundo capítulo e perceber que já sabe como vai ser o terceiro, o quarto, o quinto e o último capítulo, ele larga o livro no meio. Então, eu gosto muito mais de personagens polêmicos, de personagens contraditórios, de personagens que surpreendam o leitor. Entre as histórias as quais você teve acesso para escrever todos os seus livros, qual a mais impressionante? Cada uma é uma. É muito difícil dizer isso. Agora,

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ENTREVISTA

para fazer esse Os Últimos Soldados da Guerra Fria, eu fiz uma entrevista com um mercenário em Cuba, que tinha sido condenado à morte por colocar bombas em hotéis e restaurantes de Cuba. Matou pessoas. O mercenário não era cubano, era de El Salvador. Essa provavelmente terá sido a entrevista mais impactante que eu fiz em minha vida inteira. E olha que eu já entrevistei assassino, já entrevistei gente em circunstâncias dramáticas. Agora, livro, livro eu não sei te dizer qual o que me impactou mais. É muito difícil dizer isso porque são histórias diferentes. Você não pode comparar a

que lia antes, tem mais gente alfabetizada, tem mais gente com poder de compra para adquirir livros. Acho que é preciso haver uma política pesada de bibliotecas públicas do governo federal, dos governos estaduais e municipais. Há milhares de municípios no Brasil que não têm nenhuma biblioteca pública. É importante que tenha, por menor que seja, até o equivalente a uma gôndola de supermercado, mas que tenha livros para as pessoas. No dia que você tiver isso, só as compras de livros que vão ser feitas por essas bibliotecas vão baratear os livros, vão permitir

Tem mais gente lendo hoje do que lia antes, tem mais gente alfabetizada, tem mais gente com poder de compra para adquirir livros história de Olga Benário com a história de Chatô. Você não pode comparar a história do Montenegro [militar biografado por Morais] com a história do Paulo Coelho. Com a mudança de hábitos de leitura do brasileiro, especialmente por causa da internet e das redes sociais, qual o espaço da literatura nos dias de hoje? Está melhorando. Tem mais gente lendo hoje do

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que as editoras barateiem muito os preços e vão permitir que um número infinitamente maior de pessoas tenha acesso a livros. No Brasil, hoje, há 30 milhões de pessoas que têm o hábito regular de ler livros. Parece muito. Três Portugal,três Chile, seis Dinamarca. Mas é pouco se você considerar que é um país de 200 milhões de habitantes, ou seja, só 15% da população tem o hábito de ler livros regularmente. Mas a tendência

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é que isso mude. O jornalismo literário é um gênero popular nos Estados Unidos e em parte da Europa. No Brasil, a revista Piauí e algumas editoras que publicam livros-reportagem e biografias têm contribuído para a divulgação do gênero. Em sua opinião, qual o panorama do jornalismo literário no Brasil? Eu acho que a internet está comendo os jornais diários. Eu uso muito o exemplo do Kadafi, da chacina do coronel Kadafi. Foi tão filmado, tão filmado, tão testemunhado. E não era equipamento eletrônico de alta qualidade, não. Era telefone. No dia seguinte, os jornais não tinham mais nada para informar. Então, se a grande imprensa não se voltar para a grande reportagem, para poder concorrer com a internet, ela corre o risco de passar maus bocados. Porque, hoje em dia, mesmo os grandes jornais, do Rio e de São Paulo, lembram um verso de uma música do Gilberto Gil dos anos 60 que diz o seguinte: “O jornal de manhã chega cedo/mas não traz o que eu quero saber/ as notícias que leio, conheço/ já sabia antes mesmo de ler”. Você costuma ler biografias de outros autores? Sim. Nos últimos três anos, eu só li livros que dissessem respeito ao trabalho que eu estou fazendo, que é esse livro que terminei e estou lançando agora. Li recentemente a


biografia da família Bonanno, escrita pelo Gay Talese, publicada no Brasil, chamada Honra Teu Pai, publicada originalmente no Brasil como Honrados Mafiosos. É uma maravilha. Eu empilhei alguns livros ao longo desses três anos. Estou começando a ler agora. Acabei de ler um livro maravilhoso escrito por um norte-americano chamado Neal Bascomb, publicado pela Objetiva, cujo título é Caçando Eichmann, que é a história da caçada do carrasco nazista Adolf Eichmann, na Argentina, em 1960. É um livro maravilhoso, é um livro de uma tensão... Prende o leitor de uma tal maneira que você não consegue parar de ler. Mas eu vou pôr em dia os livros que eu não pude ler ao longo desses três anos. Depois desses três anos de dedicação quase absoluta ao livro Os Últimos Soldados da Guerra Fria, você já tem projetos para novas biografias? Não sei se biografias. Eu estou conversando com o presidente Lula não para fazer uma biografia. Pode ser que seja um livro sobre a história do governo dele, com bastidores contados por ele. Ainda não sabemos. Espero que essa notícia da doença dele... Primeiro espero que ele se cure disso o mais rápido possível e espero que isso não atrapalhe os planos da gente. Estou também ciscando para ver se faço a biografia de

PARA LER Confira alguns dos livros de Fernando Morais, todos publicados pela editora Companhia das Letras

Olga

Chatô, o Rei do Brasil

1993

1994

Corações Sujos

Os Últimos Soldados da Guerra Fria

2000

2011

Darcy Ribeiro, antropólogo, senador, que é um personagem fascinante. Conheci de perto, trabalhei com ele quando fui secretário de Cultura do Estado de São Paulo. Eu o convidei para vir cuidar do Memorial da América Latina. E estou pensando também em fazer um livro não sobre a vida, mas sobre a morte do presidente

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João Goulart, o Jango. Há uma suspeita não só da família, mas também de outras pessoas, de que ele não tenha morrido de causas naturais , que ele tenha sido envenenado como parte da Operação Condor, das ditaduras latino-americanas. A única coisa que sei é que não posso demorar muito para escolher o próximo projeto senão morro de fome.

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REPORTAGEM

ASSIM NO LIVRO COMO NO CINEMA Encabeçada pela obra de Graciliano Ramos, a literatura alagoana inspirou roteiros de grandes clássicos do cinema nacional, e até hoje desperta paixão em nossos cineastas. Após Vidas Secas, Memórias do Cárcere e São Bernardo, agora Angústia está prestes a ganhar uma versão cinematográfica RAFHAEL BARBOSA

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O ator Othon Bastos em cena do filme S. Bernardo, dirigido por Leon Hirszman: o pr贸prio livro serviu como roteiro para o longa-metragem

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REPORTAGEM

Cena do filme Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos, responsável pela adpatção de três obras do escritor alagoano

Em novembro do ano passado, o cineasta carioca Murilo Salles (Nome Próprio, Como Nascem os Anjos) repetia o que já fizeram muitos de seus companheiros de geração e também representantes de gerações anteriores: transformava

Dois Dedos D’água a obrasprimas como Bye Bye Brasil, filmes de sucesso pegaram de empréstimo nossas belezas naturais para ambientações dos mais diversos enredos. Daqui também saíram intérpretes do porte de Jofre Soares. Recentemente outro

Quando os filmes e , inspirados na obra do alagoano Graciliano Ramos, foram lançados, tiveram grande impacto junto à crítica Alagoas em cenário para seu mais novo trabalho, o thriller político O Fim e os Meios, que deve estrear ainda em 2012. Fonte profícua de histórias, o Estado inspirou um sem número de filmes nacionais. De fiascos como Muito Gelo e

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alagoano, o ator Erom Cordeiro, começou a trilhar o que parece ser uma promissora carreira cinematográfica na tríade dos filmes O Palhaço, Paraísos Artificiais e Heleno. Mas a maior contribuição alagoana para o cinema

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brasileiro foi, sem dúvida, sua literatura. Em qualquer lista séria das dez maiores realizações nacionais, constarão, pelo menos, os filmes Vidas Secas e S. Bernardo, duas adaptações da obra do alagoano nascido em Palmeira dos Índios, Graciliano Ramos. Na época de seus lançamentos, ambos representaram grande impacto entre a crítica. Assim como o romance publicado em 1938 influenciou a literatura da época, o filme Vidas Secas, dirigido por Nelson Pereira dos Santos e lançado em 1963, foi um divisor para a produção do período, servindo como uma espécie de marco inicial do então embrionário Cinema Novo. Suas inovações estéticas até hoje influenciam o olhar de quem se lança na tarefa de filmar a temática sertaneja. Fiel ao livro que lhe deu origem, a produção realizada com escassos recursos acompanha a peleja de uma família de retirantes que tenta fugir do penoso cotidiano no sertão nordestino. Não por acaso, o longa-metragem foi


Cena do filme Memórias do Cárcere, protagonizado por Carlos Vereza e Glória Pires

rodado em território alagoano, nas cidades de Palmeira dos Índios e Minador do Negrão, entre 1962 e 1963. A experiência é considerada pelo crítico Richard Pena, professor de Estudos de Cinema da Universidade de Columbia, como “mais uma coleção de incidentes e encontros que uma narrativa clara (...) E termina como começou, com a família mais uma vez na estrada. O filme de Nelson tem um efeito similar à Terra sem Pão, de Luiz Buñuel. Dá a sensação de que o ‘realismo’ foi utilizado para nos trazer algo diferente, abstrato mas poderoso”, escreve o especialista. Pelo filme, o diretor venceu o prêmio OCIC no Festival de Cannes. Hoje, aos 83 anos e imortal da Academia Brasileira de Letras, Nelson Pereira dos Santos, que esteve em Alagoas em 2009 para um reencontro com as locações, diz ter cultivado uma relação de amizade com muitas pessoas da região. “Eu fazia pesquisas para as locações quando conheci uma pessoa que seria fundamental para nós: Jofre Soares. Ele ajudou a produção de muitas formas,

principalmente intermediando contato com as pessoas da região. Outro que deu uma ajuda incrível foi Ricardo Ramos, filho de Graciliano. Ele deu muitas dicas para a compreensão do livro. Todos fomos muito bem recebidos em Alagoas”, conta ele. A fascinação do cineasta pela obra de Graciliano Ramos não se encerraria com Vidas Secas. Em 1984 foi a vez do livro Memórias do Cárcere ganhar suas versão cinematográfica. Protagonizado por Carlos Vereza, o filme conta os dias em que o autor viveu enclausurado. Graciliano ainda vivia em Alagoas quando foi detido como prisioneiro político. Passaria oito meses em cárcere, primeiro num quartel de Maceió, depois em Pernambuco e finalmente no Rio de Janeiro. Com o êxito do filme, um dos mais elogiados da extensa carreira do cineasta, Nelson se tornou

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uma espécie de tradutor oficial de Graciliano para o cinema. Uma outra incursão pela obra do alagoano viria por meio de um conto do livro Insônia. Porém, o curta-metragem, pertencente a um longa de episódios, nunca chegou a ser lançado. “Eu conheci a obra dele no colégio, nos anos 40, fazendo o curso clássico. Eu tinha um professor de literatura fantástico. Ele era nordestino, uma figura incrível. No caminho do conhecimento, ele prestigiava muito a literatura. Ele me dizia que qualquer outra área do conhecimento podia ser encontrada na literatura. Tudo. A forma, o conteúdo, e a relação com a vida. Graciliano escrevia com uma precisão impressionante. Não existe nada deformado ou mal desenhado, é tudo perfeito”, avalia o cineasta sobre a obra do escritor.

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REPORTAGEM O ator Othon Bastos, que viveu o fazendeiro Paulo Honório na adaptação de São Bernardo para o cinema

Por causa da falta de recursos, o filme , rodado em Viçosa, a 90 km de Maceió, teve produção precária

SÃO BERNARDO Se já em seus lançamentos Vidas Secas e Memórias do Cárcere foram aclamados, o caminho para S. Bernardo não foi tão simples. Filmado na cidade alagoana de Viçosa, a 90 quilômetros de Maceió, o longa dirigido por Leon Hirszman (1937-1987) – um dos idealizadores do Cinema Novo – foi realizado em condições extremamente precárias. Devido à escassez de recursos, a equipe foi submetida a situações limite como ensaiar a mesma cena incontáveis vezes para evitar desperdício de película. Uma das mais ousadas decisões de Hirszman, também autor do clássico Eles

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Não Usam Black-Tie (1981), foi abdicar de um roteiro para as filmagens. Segundo contam alguns envolvidos na produção, ele rodou tudo tomando o livro como script e seguindo fielmente cada passagem do romance. “Eu lembro que o Leon reunia a equipe na mesa, todo mundo com o livro na mão, e discutia a cena que seria rodada no dia seguinte. Eu não me lembro de ter recebido roteiro, apenas de ter trabalhado no livro. O meu, por sinal, era todo marcado”, diz o ator Othon Bastos, que interpreta Paulo Honório num dos desempenhos mais marcantes de uma carreira que traz também o estupendo Deus e o Diabo na Terra do Sol, outro

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expoente cinemanovista. Apaixonado pela literatura de Graciliano, para Othon ele “é um dos maiores escritores brasileiros”. “São Bernardo reflete uma vivência espetacular e transmite uma grande inteligência. O narrador não fala pela boca, fala pelo coração. Eu tenho uma relação muito especial com o livro, e não só porque fiz o filme. Me tocou profundamente a maneira como ele via o ser humano. Aquela ânsia de crescer, de vingar, de ser. Além dos livros - eu acho Vidas Secas extraordinário – me tocam muito as cartas que ele escreveu para a mulher. São de um romantismo quase parnasiano”, diz.


A aventura vivida pela equipe de S. Bernardo no interior alagoano foi apenas a primeira batalha enfrentada pela produção. Finalizado em 1973, o filme só chegou ao público após sete meses de embates com a censura imposta pela ditadura militar. Apesar da boa recepção da crítica, nas décadas seguintes, o longa não recebeu atenção à altura de sua importância cinematográfica. “É uma lição de estilo na forma como o filme incorpora

o texto de Graciliano Ramos. Ao dar plena voz ao narrador Paulo Honório, Leon explora os conflitos entre o eu e o mundo através das tensões entre palavra e cena visível. O uso do plano-sequência vem confirmar a lucidez das escolhas, pois permite combinar uma forma visual encravada na duração com um tom de fala já banhado de melancolia”, escreveu Ismail Xavier, um dos mais respeitados críticos brasileiros,

em artigo publicado sobre o filme. Se permaneceu por muitos anos inacessível ao público, em 2008 finalmente S. Bernardo foi resgatado do passado e lançado num luxuoso box em DVD, que além da versão restaurada do filme, traz ainda dois documentários de Leon Hirszman, Maioria Absoluta e Cantos de Trabalho. Trata-se de um material indispensável na prateleira de qualquer cinéfilo ou admirador da literatura de Graciliano. Cadi Busatto

No documentário e na ficção, o diretor Sylvio Back prepara um mergulho no universo de Graciliano Depois de retratar Cruz e Souza no documentário O Poeta do Desterro, a carreira do cineasta catarinense Sylvio Back atualmente tem apenas um foco: Graciliano Ramos. Em dois projetos, ele prepara uma grande imersão na vida e na obra do escritor alagoano. O primeiro deles, já em fase de finalização, é o documentário O Universo Graciliano, que deve ser lançado ainda em 2012. “Após vasta pesquisa livresca e de campo (revisitando o ‘chão graciliano’ em Buíque O diretor catarinense Sylvio Back: agora, o foco é a obra do escritor alagoano

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REPORTAGEM

O escritor alagoano Graciliano Ramos: inspiração na literatura e no cinema

(PE), Quebrangulo, Viçosa, Palmeira dos Índios, Maceió e Rio de Janeiro), procurei capturar cinematograficamente rastros, sombras e escombros memoriais em torno do genial escritor. Evito toda e qualquer conotação acadêmica, e tudo ali aparece imbricado como se fora uma coisa única e indivisível, o criador e suas criaturas. Articulados a um precioso e muitas vezes inédito material iconográfico fixo e em movimento (do Brasil e do exterior), duas dezenas de contemporâneos seus traçam, todos munidos de soberbas lembranças (a média de idade do “elenco” é de 90 anos!...), o perfil existencial, político e literário de Graciliano, em meio

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à neblina e ao imponderável que sempre coabitam o nosso pretérito”, antecipa ele sobre o projeto orçado em torno de R$ 1 milhão com recursos de editais da Petrobras, BNB e apoio do Governo de Alagoas, por meio da Secretaria de Estado da Cultura. Mas a mais ousada empreitada de Back em torno da obra do autor ainda encontra-se em fase de pré-

de grande parte de suas ações serem psicológicas, narradas em primeira pessoa e situadas na “mente” do protagonista, o funcionário público Luis da Silva. Antes de Sylvio, não foram poucos os diretores que se lançaram na missão de levar o livro para a tela do cinema. De Nelson Pereira dos Santos aos alagoanos Almir Guilhermino e Celso Brandão, muita gente já tentou. Talvez o que mais próximo chegou da realização, o diretor reconhece a complexidade de transpor a narrativa para o cinema: “Cinema é visibilidade, literatura é invisibilidade. Cada leitor ‘inventa’ seu filme particular, converte sua mente num vasto espaço audiovisual. ‘Reinventar’ o romance era o

Apontado por muitos como “infilmável”, o romance , de Graciliano, terá adaptação assinada por Sylvio Back produção. É uma adaptação do romance Angústia, que em 2011 completou 75 anos. Tido como “livro maldito” no cinema nacional por ter sido alvo de diversas tentativas frustradas de adaptá-lo, Angústia representa um imenso desafio para qualquer cineasta, já que é apontado como “infilmável”, pelo fato

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mantra que me acompanhou enquanto escrevia o roteiro. Foram mais de oito meses de trabalho diuturno, com dezenas de idas e vindas, quando não me perdia no sofisticado emaranhado de uma trama que, à primeira vista, soa corriqueira, mas cujo desenrolar embute todas as armadilhas da vida, do amor


ao desamor, da inveja à traição, da memória à desmemória, da cobiça à solidão e à morte. Por isso fiquei e continuo fissurado pelo livro, dada sua suntuosa complexidade, seu antipsicologismo, pela argúcia dos diálogos num ambíguo futuro do pretérito (não toquei nem troquei um diálogo sequer, todos cortantes como uma peixeira na jugular!), pelo exuberante fluxo de consciências dos seus personagens”, argumenta ele. Com roteiro pronto e agora em busca de recursos para viabilizar aquele que foi o sonho de inúmeros cineastas brasileiros (até Glauber Rocha já manifestou fascinação pelo livro em carta ao amigo Paulo César Saraceni), Back comenta

autopunição, numa inequívoca similaridade com homens e situações de hoje”. NA TV E NO RÁDIO

Mesmo tendo nascido na Paraíba, em sua passagem por Alagoas o escritor José Lins do Rego concebeu uma obra que tem uma relação profunda com o território e a cultura alagoana, onde viveu entre 1926 e 1935. Publicado em 1939, já quando o autor morava no Rio de Janeiro, Riacho Doce, a história de uma professora que, ao lado do marido, muda-se para o Nordeste brasileiro em busca de novos horizontes, o romance inspirou a clássica minissérie homônima que a

Nelson Pereira dos Santos havia negociado com Graciliano a adaptação de , mas eles tiveram divergências criativas passagens de seu script: “A modernidade da trama-valise de Angústia, que alberga minicontos atemporais sem jamais turvar o monólogo interior de Luís da Silva, estará impermeável tanto no roteiro quanto no filme, onde os personagens vagueiam entre o perene e o fugaz, a paixão e a crueldade, a vingança e a

Rede Globo levou ao ar em 1990. Com muitas liberdades criativas, a produção teve como protagonistas Vera Fischer e Carlos Alberto Riccelli, e foi rodada na Praia de Carne de Vaca, em Goiana, Pernambuco. O mesmo romance inspirou, em 1998, o longa-metragem Bella Donna, dirigido por Fábio Barreto, sem atingir o mesmo

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êxito da série. Antes mesmo de ser levada ao cinema, a obra de Graciliano já era narrada no rádio brasileiro. São Bernardo ganhou uma versão radiofônica em 1949 para a Rádio Globo do Rio de Janeiro. A saga de Paulo Honório também foi adaptada para a televisão no programa Caso Especial, da Rede Globo, com direção de Lauro César Muniz, indo ao ar em 29 de junho de 1983. Já o livro de contos A Terra dos Meninos Pelados foi levado à TV em uma minissérie de quatro capítulos, em 2003. GRACILIANO E O CINEMA

Graciliano Ramos não viveu para ver nenhuma das adaptações cinematográficas de seus livros. A primeira delas, Vidas Secas, foi finalizada dez anos após sua morte. O mesmo Nelson Pereira dos Santos que o levou às telas havia negociado com o escritor, em vida, os diretos de São Bernardo, porém os dois esbarraram em divergências criativas. Levando em conta a paixão do autor alagoano pela Sétima Arte, a curiosidade sobre qual seria sua recepção dos filmes inspirados em sua obra é grande. “Ele foi muito feliz em todas as adaptações, são todos grandes filmes”, diz a filha de Graciliano, Luiza Ramos Amado. A herdeira faz apenas

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Robson Santana

Ele [Nelson Pereira dos Santos] foi muito feliz em todas as adaptações, são todos grandes filmes Luiza Amado | Filha de Graciliano

uma ressalva a Memórias do Cárcere, que não teria retratado com fidelidade a Maceió da época em que a trama se passa. Segundo ela, que acompanhava o pai em suas idas ao cinema no Rio de Janeiro (pelo menos duas vezes por semana), Graciliano não perdia uma boa comédia americana. Entre os filmes preferidos do escritor estariam Do Mundo Nada se Leva (1938), de Frank Capra, entre outras produções do gênero. Pigmaleão (1938), de Anthony Asquith, era outra de suas preferências. Como conta Luiza, entre os intérpretes, Graciliano tinha imensa admiração pelo francês Fernandel (Pequeno Mundo de Dom Camilo), o inglês Leslie Howard (Escravos do Desejo), a atriz francesa Danielle Darrieux (A Sensação de Paris), além dos norte-americanos John Garfield (Quatro Filhas) e Katharine

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Hepburn (Escândalo). Para alguns estudiosos, a relação de Graciliano Ramos com o cinema ia além da admiração. Há quem enxergue aspectos cinematográficos em seu texto. É o caso do jornalista alagoano Allan Bastos, que estudou os pontos de conexão entre a obra do escritor e a linguagem cinematográfica em seu trabalho de conclusão de curso, e agora aprofunda a tese em seu doutorado. “Há um cinema ali em Vidas Secas (1938), quando as frases são curtas, as ações bem delimitadas, a estrutura do romance em fragmentos – planos, sequências, cenas, filme. A memória dos personagens, como o Paulo Honório, de São Bernardo (1934), ao criar um flashback de sua infância; a narração em primeira pessoa, câmera subjetiva. Isso fica quase

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óbvio, sobretudo pelo fato dessas obras terem versões adaptadas”, diz Bastos. Mas e Angústia? “Apesar de tantos projetos, ninguém filmou ainda. Porém, aqui o cinema está presente em temática e linguagem: a história fala de cinema, os personagens vão ao cinema e conversam sobre cinema, é possível notar diálogos com obras cinematográficas no romance e a incorporação de recursos audiovisuais – a montagem dos sons, dos silêncios, luzes e sombras – é farta na escrita desta obra. O romance, enquanto gênero literário, é um grande devorador de outros meios, então é quase um lugar comum afirmar que romancistas se valem do cinema para criar suas histórias. O fascinante, no entanto, é que Graciliano fez isso de forma habilidosa, de maneira orgânica, numa época em que o cinema dava passos iniciais no Brasil”, analisa ele.


ARSAL, CADA DIA MAIS PRÓXIMA DO CIDADÃO A Agência Reguladora de Serviços Públicos de Alagoas - Arsal tem como missão regular e fiscalizar os serviços prestados pelasconcessionárias de Transporte Rodoviário Intermunicipal de Passageiros (ônibus/vans), Gás Canalizado e Energia Elétrica no Estado de Alagoas. A agência procura estar cada dia mais próxima do cidadão, sendo uma ponte entre usuários/consumidores, concessionárias e permissionários, primando sempre pela qualidade e segurança dos serviços públicos no Estado de Alagoas.

Secretaria de Estado do Planejamento e do Desenvolvimento Econômico

Rua Cincinato Pinto, 226, 4.º Andar Edf. Ipaseal - Centro - Maceió-Alagoas-Brasil - CEP.: 57020-050 23 janeiro/fevereiro 2012 Ouvidoria: 0800 284 0429 | Site: www.arsal.al.gov.br


REPORTAGEM

APOTEOSE DOS LIVROS Realizada pela Editora da Universidade Federal de Alagoas (Edufal), a Bienal Internacional do Livro de Alagoas celebra o fato de ter se tornado o evento cultural que atrai o maior nĂşmero de pessoas no Estado LUCAS ALMEIDA

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Divulgação

A cada dois anos ela acontece. Implacavelmente. Assim como as estações do ano, tem dia para começar e para terminar. É, no entanto, um acontecimento raro num Estado onde um a cada 4 adultos não sabe ler nem escrever. Seus números impressionam até os mais otimistas. Em 10 dias, a quinta edição da Bienal Internacional do Livro de Alagoas, realizada em 2011, foi visitada por 191 mil pessoas, vendeu mais de 124 mil livros e movimentou cerca de 4 milhões de reais. Hoje, os números impressionam, mas nem sempre foi assim. Sua primeira edição, também organizada pela Editora da Universidade

A quinta edição da Bienal Internacional do Livro de Alagoas, realizada em 2011, foi visitada por 191 mil pessoas

Federal de Alagoas (Edufal), foi realizada em 1998, no antigo Iate Clube, na Pajuçara, cujo espaço interno suportou apenas 30 estandes. Nascia ali o embrião da Bienal do Livro de Alagoas que, 13 anos depois, tornou-se o maior evento cultural do Estado. Com um hiato de 7 anos, a Bienal voltou a ser realizada em 2005. No comando da nova etapa, está a professora Sheila Maluf. Nascida no bairro Jardim Paulista, em São Paulo, Sheila veio para Alagoas no fim da década de 80 e trabalhou como professora na antiga Escola Técnica Federal de Alagoas, hoje IFAL. Quando assumiu a coordenação da Edufal, em

dezembro de 2003, Sheila resolveu não realizar mais a feira de livros, evento literário desenvolvido anualmente pela Edufal, à época coordenada pelo professor Eraldo Souza Ferraz. “Ao invés de fazer o evento todo ano, eu preferi trabalhar mais nos bastidores e fazer um a cada dois anos. E com essa estrutura de bienal é impossível fazer anualmente”, explica Sheila Maluf. Como, segundo ela, a coordenação da Edufal acaba lhe tomando muito tempo, Sheila diz que faz o possível para ficar antenada com os eventos literários nacionais. “As festas literárias eu praticamente não visito, mas vou às duas maiores bienais

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REPORTAGEM

do País: a do Rio de Janeiro e a de são Paulo”. Nessas viagens, aproveita para trazer a Alagoas o que considera boas ideias. “O túnel do livro eu vi na Bienal de São Paulo, em 2010, e consegui uma doação através do Instituto Pró-livro. A ideia do espaço gourmet não é minha. É algo que já venho vendo em outras bienais e trouxe para Alagoas em 2011”, revela. Como a Edufal não possui recursos para terceirizar a organização da bienal, a realização do evento é

CRESCIMENTO

Apesar de Alagoas ainda estar longe de um cenário onde os livros e o hábito da leitura tenham lugar especial, da segunda edição da bienal até a quinta, o número de visitantes quadruplicou, saltando de 47 mil para mais de 190 mil. Em 2005, calcula-se que havia 13 mil livros disponíveis para venda. Em 2011, foram 22 mil. Comparada às maiores bienais do País, a

Comparada às maiores bienais do País, a última edição do evento alagoano reuniu, proporcionalmente, o maior número de pessoas totalmente conduzida pela própria editora, que conta com uma força jovem. “Tenho 14 estagiários que me ajudam em tudo. Então, aqui a gente monta arte, banner. Tudo é feito aqui. O nosso diferencial é que tudo é feito com amor”, afirma. Segundo ela, a fama de bienal bem organizada corre o País na boca dos livreiros. “Eles são verdadeiros fofoqueiros, mas no bom sentido, claro. Quando uma bienal funciona, eles rapidamente espalham para o País inteiro que aquela bienal é boa.”

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última edição do evento alagoano arregimentou proporcionalmente o maior número de pessoas. Enquanto a 21ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo foi visitada por cerca de 740 mil pessoas, sendo a maior do País – a Bienal de Alagoas recebeu 190 mil. Alagoas possui, no entanto, uma população dez vezes menor que a de São Paulo. Com o aumento do público e do espaço físico da bienal, Sheila Maluf teme que o nível da organização, tão apreciada pelos livreiros, diminua.

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“Acho que eu cheguei ao limite suportável para que uma pessoa organize sozinha uma bienal”. Recentemente, a coordenadora assumiu a vice-presidência da Associação Brasileira das Editoras Universitárias (ABEU) que, pela primeira vez, levará um estande para a maior bienal do planeta, a Feira de Livros de Frankfurt, em 2013. “A feira da Alemanha vai coincidir com a próxima bienal de Alagoas. Mais uma razão para achar alguém que assuma a organização da próxima bienal”, antecipa.


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Divulgação

Michel Rios

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1. As ações culturais realizadas em diversos estandes reuniram dezenas de estudantes 2. A coordenadora da Edufal, Sheila Maluf, que organiza o evento

BIENAL EM NÚMEROS

* Dados estimados pela coordenadora da Edufal à época, Lêda Almeida.

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ARTIGO

NO LIMIAR DA LINGUAGEM/LOUCURA EM

A MORTE DE PAULA D.

TEXTO: ANALICE ILUSTRAÇÕES:

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LEANDRO E ILDNEY CAVALCANTI

DANIEL HOGREFE

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ARTIGO

Alguns enredos são perturbadores como uma noite de insônia. A Morte de Paula D. é um desses casos. Romance curto e obscuro, cheio de retornos e bocas-delobo, ele muito se assemelha a um mosaico composto por acontecimentos recortados da vida de uma mulher comum, de personalidade louca e com tendências suicidas. A narrativa incomum, indômita e frenética desses acontecimentos trágicos da protagonista em sua trajetória de descoberta de si mesma e de suas verdades impalatavéis chamou a atenção do público leitor e da crítica. Obra de autoria de Brisa Paim, escritora e pesquisadora atualmente residente em Coimbra, o romance foi vencedor do Prêmio Lego de Literatura 2007, uma iniciativa

Poderíamos elencar inúmeras qualidades dessa obra tanto no que se refere ao projeto gráfico, quanto à forma quase orquestral como Paim dispôs o texto, que se coloca como um desafio à leitura e um

Alguns enredos são perturbadores como uma noite de insônia. é um desses casos da Faculdade de Letras da Ufal que tem fomentado a produção literária no Estado, revelando e abrindo espaço para novos talentos. Publicado em 2009, o livro foi também indicado ao Prêmio São Paulo de Literatura 2010 na categoria autor estreante.

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elogio à linguagem. No entanto, é especificamente à questão da linguagem, as construções imagéticas e suas interfaces com o topos da loucura feminina, que direcionaremos o nosso olhar. No decorrer da história da literatura, muitas obras de

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ficção têm sido povoadas por personagens femininas enlouquecidas. Tais representações da loucura, especialmente nas narrativas escritas por mulheres (como Jane Eyre, de Charlotte Brontë, O Papel de Parede Amarelo, de Charlotte Perkins Gilman, etc.), são bem exploradas por estudiosas/os, principalmente pelas críticas feministas, como Shoshana Felman, Sandra Gilbert e Susan Gubar e Nina Baym. Nesse contexto, citamos o argumento de Cíntia Schwantes em seu artigo “A voz da louca, a voz da outra”, que enfoca o par linguagem-loucura: “Narradoras autodiegéticas, elas [as protagonistas] utilizam os artifícios da linguagem para contar sua experiência de enlouquecimento. Sujeitas a uma autoridade masculina,


institucionalizadas, elas procuram, com as armas que têm, resistir. Presas no sótão, encarceradas, internadas em manicômios, as loucas são, em alguma medida, enquadradas: elas devem se adequar às regras do comportamento feminino, ou bem permanecerão institucionalizadas, tratamento que é, ao mesmo tempo, punição.” Ampliamos esta proposição no sentido em que não só o enlouquecimento é construído pela linguagem, mas também a identidade que, de forma mais ampla, igual e indissociavelmente, se corporifica pela construção linguística. Entendendo que a subjetividade é constituída nas discursividades, que, por sua vez, implicam questões estéticas e políticas, observamos a constituição identitária da personagem inicialmente (e significativamente) sem nome que nos é revelada pelo solilóquio – oralização do que se passa na consciência do protagonista – que compõe o texto, buscando problematizar essa forma de pensamento e seus desdobramentos. Os temas da loucura e da morte, cruciais em obras de autoria feminina, são revisitados por Paim em seu romance. Encontramos no texto indícios que sustentam o nosso pensamento acerca

Os temas da loucura e da morte, cruciais em obras de autoria feminina, são revisitados por Paim em seu romance da linguagem-limite, que se configura em elementos construtores-estéticos do caráter fragmentário da identidade da personagem principal do romance. Ou seja, através da utilização de formas e imagens meticulosamente selecionadas e (des)ordenadas, Paim monta o mosaico identitário que conduz a personagem ao enlouquecimento. Os componentes de tal mosaico incluem, além de raiva, ressentimento e desejo

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(tidos por Delamotte como sentimentos geralmente não aceitos em se tratando de identidades femininas), uma tendência suicida. No texto literário, a representação dessa cisão identitária marcada pela loucura, notável na construção de um mosaico caleidoscópico e vertiginoso, reforça o caráter fragmentário da identidade da narradora-personagem, que vai se construindo à medida que se conta, como voz solitária (cindida em si), que, toma a palavra para diluir/construir a

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ARTIGO

si mesma e seu mundo. O fato de termos uma narradora louca, ou em processo de abandono da razão – pois contesta sua sanidade e lógica, expressando-se em uma linguagem fluída e visceral reveladora de uma profusão

substantivo-adjetivo (como, por exemplo, o emprego de “público ministério”, sugestivo do propósito da narradora de se inverter e se refazer a partir de um dado establishment). Além disso, o desvelamento desses milifragmentos identitários, e do partimento dessa identidade configurada na/pela ordem social vigente, mostra suas primeiras pistas quando a personagem vislumbra sua própria trajetória e suas escolhas. A narradora denomina tal processo de autodescobrimento “bocas-delobos”, que são, basicamente, blocos de atividade mental que a conduzem a um tipo de espelho-verdade, no qual se revelará mais uma faceta de sua autociente e fragmentada personalidade. A imagem em si sugere o mergulho naquilo que é escuro.

O fato de termos uma narradora louca ou em processo de abandono da razão é materializado numa construção textual cuidadosa de pensamentos confusos –, é materializado numa construção textual cuidadosa, com o uso alternativo de pontuação e excessivo dos diminutivos; e com incomuns inversões da ordem entre

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Essas constatações imbuem a personagem de uma alegria insana, uma sensação eufórica de ser a autora de sua própria vida, remodelando sua história e personalidade de maneira prazerosa para um

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novo modo de pensar, o que é emblemado pelas constantes repetições de “Agora que me caibo” e de “.liberdade”. Essa alegria insubstituível, a grande dádiva de se ver no espelho como se pela primeira vez, destrói a forma cristalizada do ser mulher anterior e abre espaço para a construção de novas identidades. Esta última configuração identitária por parte da protagonista, que se faz dona e consciente de si, manifesta-se no romance através da articulação da própria voz narrativa: solitária do começo ao fim (por isso, livre, sem interrupções ou censuras) e, possivelmente, póstuma (vide o senso de completude e finitude em “Agora que me caibo”), o que faz ecoar obras clássicas da literatura, como alguns poemas de Emily Dickinson e o romance Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. Nessa euforia da linguagem, identificamos uma epifania gendrada, um despertar em nível psicológico relacionado com a descoberta e a criação de uma renovada subjetividade feminina, um jeito desviante dos padrões hierárquicosociais de gênero e, por isso, identificado com o limite e com a loucura. Neste traço, percebemos ecos da escritura clariceana no romance de Paim. A personagem não abandona simplesmente a razão, sua comunicação não é uma


metralhadora aleatória; ela estrutura seu pensamento de forma alternativa e se conscientiza no processo o qual vai adentrando. O que se inicia com a dúvida cresce gradativamente no texto e atinge a própria razão existencial da personagem, que, ao cogitar reconstruirse, percebe a impossibilidade de reinscrever-se dentro das regras vigentes e, por isso, resolve dar a si mesma a oportunidade de experimentar “.liberdade”, ainda que isso signifique a assunção de sua loucura ou a experiência limite do suicídio. UM DIA DESSES ACORDEI DUVIDOSA A presença de uma linguagem limite em A Morte de Paula D. pode ser constatada em pelo menos três camadas interligadas: aquela mais sensorial, que se nos apresenta através dos artifícios mais visíveis desta composição em se tratando de seu constructo materializado pela forma gráfica em que se apresenta e de sua circulação; a que indica estar o texto no limite do gênero romance; e ainda uma terceira, relacionada ao fluxo de consciência manifestado pela voz narrativa. No sentido do formato gráfico, que delineia e reforça o funcionamento da linguagem enquanto representação do conflito

psicológico da personagem (e nisso tem parte a estrutura da obra, o projeto gráfico e o meio de circulação), observamos que os artifícios da linguagem arquitetados por Paim se mostram, ao mesmo tempo, torrenciais e delicados. A delicadeza está no uso de metáforas e de colagens de “memórias”, com sutis enxertos de passagens que constroem a dúvida e a ambiguidade acerca da sanidade e fragilidade mental daquela mulher que, com sua razão inventada, tece uma lógica alternativa e de contra-senso ao comum. O jorro da linguagem, por sua vez, acrescenta ao estilo um elemento torrencial na medida em que uma correnteza composta por múltiplos relatos de acontecimentos cotidianos, e apenas aparentemente (des) conectados, simboliza o que ainda mantém aquela mulher conexa com a realidade que a rodeia. Em relação aos gêneros literários, A Morte de Paula D. é obra sempre fronteiriça, se aproximando da poesia por ter uma conformidade particular nas estruturas textuais, com ecos em suas configurações visuais, a exemplo da escassez de pontuação e das quebras de parágrafos. Por meio do enquadramento na forma solilóquio, faz intertexto também com a tradição teatral. As construções imagético-

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No sentido do formato gráfico, observamos que os artifícios da linguagem arquitetados por Paim se mostram, ao mesmo tempo, torrenciais e delicados

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ARTIGO

Ressaltamos a beleza do projeto gráfico do livro, que fortalece, nas páginas da noite de insônia, a dúvida da personagem

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textuais se aproximam de tal forma da poesia que não hesitamos em identificar ali um tipo de prosa poética teatral. QUEM É ESSA MULHER QUE SOU? OU, OS INOCENTES DORMEM Na construção da personagem, de sua fluidez identitária expressa em linguagem limite, identificamos a dúvida e a culpa como dois grandes componentes. A dúvida inicia o processo de reescritura de si; e a culpa aparece como gatilho da loucura, diante da impossibilidade de autoaceitação daquele novo ser. A grande “boca-de-lobo”, marco do enlouquecimento, se apresenta através do questionamento dessa impossibilidade. As motivações para a noite de insônia (as culpas) pululam, reproduzindose nauseantemente pelas páginas escuras. A noite de insônia não é somente a porta da loucura, mas também o ponto em que a narrativa ganha o ritmo e em que a tensão desencadeia o desenrolar da trama. Ressaltamos, neste ponto, a beleza do projeto gráfico do livro, executado cuidadosamente por Lis Paim, que fortalece, nas páginas da noite de insônia, a dúvida da personagem. Nessas páginas não numeradas, impressas em papel de tonalidade

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escura, o breu se incorpora às características imagéticas do texto, uma vez que cria, por si só, uma metáfora, conforme já apontado por Marcos Vínicius Almeida: o pensar racional se apaga angustiantemente para que, na manhã seguinte, o/a leitor/a possa presenciar “o acender de luzes”. Reinventando a razão, a mulher não é mais ela mesma: se faz nova através da linguagem, afirmando a si, a seus prazeres, negando os fardos e, por isso, encaminhando-se à prestação de contas: há que se pagar um preço por sua reescritura identitária. Ela (agora Paula D., uma vez que assume essa nova identidade), ainda que alheia, sabe disso: “leva-os [as crianças] dessa casa quero muito ficar só. venha só você, de vez em quando para me acalmar os comichões. Se não quiser mande um de seus amigos, ou vários ou todos [...] daí todos sim concordarão com um qualquer hospital psiquiátrico acharão mesmo ótima a condenação absolutória.” O MUNDO DA BRANCURA: A PORTA E A PALAVRA-CHAVE

Ao contrário do que mais recorrentemente se vê em narrativas que revelam mulheres enlouquecidas, o confinamento em A Morte


não é forçado, uma vez que a protagonista resolve assumir uma razão alternativa, trancando-se em seu quarto branco, onde se percebe, pela primeira vez, dona de sua chave – única, reveladora, poderosa e perigosa –, que conduz a personagem à “.liberdade”. De posse da chaveconhecimento, ela tranca a porta, escapando do mundo exterior, desse conceito de sanidade feminina que foi cristalizado e socialmente instituído, e que é de modo geral tão placidamente aceito como sendo papel da mulher (esposa ideal, mãe, filha, recatada e obediente), tendo seu caráter de engessamento comportamental negligenciado. Trata-se um suicídio da dita normalidade, uma vez que torna-se impossível para ela o retorno ao mundo “são”. Cite-se aqui sua advertência em forma de bilhete (suicida?)

do novo ser-mulher passa pela percepção e negação do funcionamento do discurso da maternidade socialmente aceita: “e vinham o marido o padre o pai e diziam fica,

Ao contrário do que mais recorrentemente se vê em narrativas que revelam mulheres enlouquecidas, o confinamento em não é forçado à personagem Sr. Marido: “cuidado com a porta do quarto a fechadura e principalmente cuidado com a chave.” Vê-se que a construção

mulher, com teus filhos saíram de ti não sentistes as dores do parto [...] mas diziam isso dentro da minha cabeça [...] e ficava bem mamãe bem

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virgem Maria e pegava meus filhinhos”. À sutil e transversal pressão social para a assunção desses papéis, que naturaliza o modelo da mãe-de-família, o texto de Paim responde com sua ácida crítica, agindo para desconstrução de moldes em se tratando da representação de gênero. A personagem enlouquece ao constatar o funcionamento do constructo discursivo que regula sua conduta, aparência, personalidade, toda aquela fantasia que ela julgava resultar de um desejo tão seu: “ora não era isso que queriam de mim? então eu vi que era pra isso ser assim tão bonitinha perfumada engomadinha roupinha certinha da moda

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apertadinha”. Essa descoberta desmonta as últimas certezas, nas quais ainda se apoiava, acerca de sua antiga identidade. O desbotamento das cores de sua pequena fantasia, pretensamente autogovernável, e o desvelamento do, e consequente desejo pelo, que se apresenta no romance como “.liberdade” apontam para a fuga deliberada da realidade, última rota de escape dessas determinações previstas/impostas das quais essa mulher, assim como nenhuma outra em seu lugar social, poderia abdicar. São as afirmações

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de um senso comum falocentricamente orientado que ressoam do lado de fora daquele quarto: “estão alguns vizinhos [...] em busca da melhor solução cristã de salvar as criancinhas daquela mãe descuidada desleixada daquela mamãezinha assassina pobre puta [...] endiabrada desprezível” (grifos nossos). Não se pode não ser, ou melhor, deixar de ser, mãe impunemente. A negação da maternidade na literatura, e na cultura de um modo geral, quase sempre aproxima a mulher que questiona ou que rejeita tal papel da

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monstruosidade, da possessão e da loucura (ver grifos acima). A sociedade abomina o abandono dos filhos pela mãe, e também o infanticídio, que chega a ser cogitado pela protagonista no ápice de sua crise. Sobre a mãe recaem as complexas atribuições do âmbito privado, como a de educar uma pessoa. Essas responsabilidades se traduzem num enlouquecedor acúmulo de funções: “e é mesmo grande pesado isso de ser mamãe porque a ela cumpre tudo cabe tudo eterna pagadora zeladora palmatória do mundo abnegado ser reprodutora senhora e escrava algumas delas entram em tamanho choque que não podendo botar pra dentro de novo botam o filhinho pra fora, mas dessa vez pra fora do mundo eternamente e o nome disso é um crime um dos crimes que são muito graves muito sérios...muitos sérios esses crimes da senhoras mães contra as senhoras criancinhas sim os Grandes Crimes Maternos a Grande Perdição Do Mundo Devassidão”. Desse ponto em diante, o desejo de “.liberdade” converte-se numa vertigem textual na qual a sanidade vai gradativamente se diluindo; e a protagonista despindose das culpas impostas pelo cargo mãe-mulher. Com isso, a narrativa expressa uma epifania reveladora que


desobriga, (des)atribui papéis, ou, empregando a expressão da filósofa Judith Butler, “desfaz o gênero”. Essa epifania se constrói num fluxo de palavras, incontrolável e sem culpa, jorradas de um novo ser que vai se construindo na medida em que se conta, se narra, se descreve. A mudança encenada pela personagem é mais aparente nas construções em que o novo eu, autonomeado Paula D., se apresenta: “Mas, Eu, paula d. Brasileira, solt [...] esses filhos não são meus, paula d. esses filhos são de outra mulher uma mulher parideira [...] uma mulher dadivosa violada de si

e de classe média, decorrente, como apontamos, da sua impossibilidade de lidar com os rígidos e múltiplos papéis socialmente codificados e disseminados em se tratando de gênero, A Morte de Paula D. apresenta uma configuração especial de escrita que chamamos de linguagemlimite. Essa composição narrativa oferece as bases do romance, que, ao mesmo tempo em que mimetiza o processo resoluto de descobrimento de algumas das verdades veladas que constituem a identidade da mulher contemporânea, desconstrói essa mesma

apresenta uma configuração especial de escrita que chamamos de linguagem limite mesma e da qual ora pendiam cabeças e ombros grandes que dela despencavam... não abrirei a porta, por que não sou nem me sinto nem um pouquinho mãe desses filhinhos...” “.LIBERDADE”: EU ME TERMINEI? Montado a partir de uma série de cortes e colagens de cenas que, em conjunto, representam a cisão identitária de uma típica mulher comum

identidade, estilhaçando-a em milhões de microfragmentos. Ao figurar uma personagem mulher desvestindo-se dos moldes impostos e reinventando a si mesma por meio de sua palavralinguagem-pensamento, o texto se nos oferece, então, como um desses belos e raros alinhamentos artísticos em que os planos estético e político encontram-se indissoluvelmente imbricados. A distribuição dos fluxos

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imagético-textuais incorpora e ritma o processo de representação da loucura, tornando-se indissociável do funcionamento dessa linguagem-limite. Esse trânsito de pensamentos, que tem por motor a descoberta das camadas sobrepostas e constitutivas de uma subjetividade, representa a exuberância da personalidade da protagonista. Pois, somente na euforia de se descobrir mulher, e então constructo, e finalmente, enquanto tal, poder se refazer através da linguagem que está no limiar da loucura, é que a personagem acha sua chave. A mulher/Paula D./ Amoim encontrou por fim “.liberdade”, a representação de um estado muito particular, “o de caber dentro de si mesma”, numa metalinguagem que se apresenta como um pensar em círculos: “eu pensava círculo ROTUNDO”. Isso nos remete à atemporalidade e ambiguidade da poesia, à linguagem que nasce na/da fronteira do ser, o cria, o identifica e o confunde e, havendo cumprido seu papel, retorna a si para futuras (re) leituras. Analice Leandro é graduanda em Letras e pesquisadora de iniciação científica. Ildney Cavalcanti é professora, doutora e pesquisadora do Programa de Pós-graduação em Letras e Linguística da Ufal. Ambas integram o grupo de pesquisa Literatura e Utopia.

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ESPECIAL

O LEGADO DO LEGO Criado em 2007 pela Faculdade de Letras da Universidade Federal de Alagoas, o Prêmio Lego de Literatura contabiliza sete livros publicados. Em 2010, uma das obras contempladas – A Morte de Paula D., de Brisa Paim – foi uma das finalistas ao Prêmio São Paulo de Literatura, atualmente o mais importante do País. Em breve, o Lego, que agora tem a parceria da Imprensa Oficial Graciliano Ramos, entrega ao público mais quatro títulos. O que pensam os escritores que publicaram livros através do prêmio? Qual a opinião deles sobre a contribuição do Lego? A Graciliano foi em busca de respostas

TEXTO:

JANAYNA ÁVILA

ILUSTRAÇÕES:

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NÚCLEO ZERO

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Michel Rios

Os escritores Rosival Lourenço, Nilton Resende, Ari Denisson e Milton Rosendo: autores de obras publicadas através do Prêmio Lego de Literatura

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ESPECIAL

Há dezenas de filmes que retratam a complexa relação que costuma haver entre escritores e seus livros. Muito diferente da ideia de glamour e do arroubo de inspiração que muitas pessoas acreditam existir, os bastidores de uma obra literária, como em toda produção artística, são permeados de dúvidas, conflitos e de muito trabalho. Em O Iluminado, adaptação do romance de Stephen King, com direção de Stanley Kubrick e considerado um dos

de fazendeiros do Kansas. Em busca de uma boa história, Truman Capote, jornalista que, na época, já era uma celebridade em Nova York, mergulha em águas profundas, aproximando-se ao máximo dos dois assassinos. Para encontrar as razões do crime, há um retrato minucioso de ambos, incluindo a infância. O livro, um marco do jornalismo literário, custou o equilíbrio emocional do autor por muitos anos. Capote nunca mais conseguiu escrever outra obra

Com sete livros publicados e quatro no prelo, o Prêmio Lego de Literatura vem contribuindo para revelar uma nova geração de escritores a partir de Alagoas maiores clássicos do suspense, espectadores seguem a loucura do atormentado Jack Torrance, que não abre mão de obter o sossego desejado para escrever o seu livro, mesmo que isso signifique morar, durante meses, num hotel completamente isolado. Em outro longa-metragem, Capote, do diretor Bennet Miller, Philip Seymour Hoffman vive o escritor norte-americano cujo trabalho mais importante é o livro A Sangue Frio, publicado em 1966 e que retrata a história real da chacina de uma família

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à altura do romance. O filme mostra um escritor que, apesar do faro apurado para boas histórias, perde-se algumas vezes nas ideias, deixa-se levar pelo enredo e mistura sua própria vida à história que escreve. Capote foi às últimas consequências para captar e expressar a essência dos acontecimentos. Além da tarefa um tanto complexa que é a produção de uma obra literária, como se forma uma nova geração de escritores? E quais os pontos de identificação entre os mesmos?

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Em busca dessas respostas, a Graciliano conversou com alguns dos escritores alagoanos (ou radicados no estado) cujos livros de estreia foram publicados através do Prêmio Lego de Literatura, concurso literário criado em 2007 pela Faculdade de Letras da Universidade Federal de Alagoas e pela Edufal, editora da instituição. Apesar de ter enfrentado entraves burocráticos que acabaram atrasando a publicação das obras contempladas – a seleção dos fornecedores, como designers e gráfica ocorre, obrigatoriamente, por meio de pregões eletrônicos nacionais –, em 2011 o Lego teve sua terceira edição quando passou a ter como co-realizador a Imprensa Oficial Graciliano Ramos. Com sete livros publicados e quatro no prelo, o prêmio vem ajudando a revelar uma nova geração de escritores


Alice Jardim

Sempre achei que essas indicações, prêmios etc estavam destinados a quem já estivesse na mídia Brisa Paim | Escritora

a partir de Alagoas. “O edital está realmente atendendo aos objetivos de ajudar a abrir espaço, materializar e fazer circular nacionalmente uma produção literária vibrante e inovadora que existe. Um outro termômetro importante que nos permite observar o potencial da nossa atividade literária em Alagoas é o grande número de obras inscritas a cada edição, indicador que também justifica a realização do prêmio. O Lego vem possibilitando maior visibilidade para as nossas produções literárias contemporâneas”, afirma a professora de Literatura da Faculdade de Letras da Ufal e uma das criadoras do Prêmio Lego, Ildney Cavalcanti. Um prova incontestável dessa contribuição está na indicação de uma das obras publicadas através do Lego – A Morte de Paula D., de Brisa Paim – ao Prêmio São Paulo de Literatura 2010, o mais importante do

Autora do romance indicado ao Prêmio São Paulo de Literatura 2010, Brisa hoje mora em Coimbra, onde cursa doutorado em Direito

gênero no Brasil e o maior em valor da língua portuguesa. O livro, que concorreu ao prêmio de melhor do ano na categoria autor estreante, esteve ao lado de obras de “gigantes” como a Companhia das Letras, Record e Cosac Naify. Um feito e tanto. Doutoranda em Direito na Universidade de Coimbra, onde mora atualmente, Brisa, 29, foi quem inscreveu o livro no prêmio, embora afirme que não esperava a indicação. “Fiquei contente, um pouco orgulhosa e também surpresa.

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Afinal, sempre achei que essas indicações, prêmios etc. estavam destinados a quem já estivesse na mídia. Confesso que mandei o livro mais por mandar, sem muita esperança de conseguir algo. Devo ter sido a única que foi escolhida inscrevendo-se por conta própria. Geralmente, são as próprias editoras que costumam inscrever os seus autores nesses prêmios”, conta. Para Ildney Cavalcanti (que assina, em parceria com Analice Leandro, o artigo sobre

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ESPECIAL

O romance A Morte de Paula D., de Brisa Paim: finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2010

a obra de Brisa, nas págs. 28 a 37), a indicação de A Morte de Paula D. demonstra o quanto a obra é bem construída. “Na verdade, no âmbito pessoal, como leitora das obras vencedoras, já havia ficado muito bem impressionada com a altíssima qualidade do romance de Brisa Paim mesmo antes de receber a notícia da indicação, o que só veio a confirmar aquela minha impressão inicial. É claro que o fato me levou a reler A Morte de Paula D., que é um desses textos inesgotáveis em se tratando de possibilidades interpretativas”, diz. O fato de estar entre os autores das obras candidatas ao título de melhores do ano trouxe para a autora uma rede

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de contatos que inclui leitores e, claro, escritores. “Comecei a ter um maior contato com leitores do Paula D. que, de repente, passaram a ser gente desconhecida. Leitores novos surgiram, vieram conversar. Antes, acho que eu sabia, um por um, quem o havia lido. De vez em quando eu acho na internet um texto ou comentário sobre o livro em algum site ou entrevista. Enfim, o círculo do livro se ampliou um pouco. De resto, favoreceu também uma aproximação com o meio editorial, algumas pessoas me procuraram. E também me aproximou de outros escritores de fora de Alagoas, que cheguei a conhecer pessoalmente, ou com quem comecei a

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conversar a distância. Gente que antes eu lia e tal. E isto é que é interessante, conhecer outros modos distintos do seu. Aliviar um pouquinho a solidão criativa. Trocar ideias”, diz. Para ela, que nasceu em Salvador e morou em Maceió, a indicação ao Prêmio São Paulo contribuiu também para que sua relação com o romance passasse por uma transformação: “Como escritora, vivia muito fechada, hoje um pouco menos. Quanto à divulgação, tem ainda um lado engraçado. A partir do momento em que o livro circulou e pessoas começaram a falar a respeito, a minha relação particular com ele mudou. Eu me distanciei do Paula D. muito mais nos últimos tempos do que quando foi publicado. Ler sobre ele é como ler sobre o livro de qualquer outra pessoa. Leio muitas vezes de forma pouco pessoal e com um interesse até científico, de observar as variantes de interpretação, de ver como os leitores são capazes de criar a sua própria história, e o tamanho do vácuo entre o meu processo criativo particular e o processo criativo próprio do leitor”, explica. Parte dessa mudança em relação ao que Brisa produz vem também de outro hábito: o de trocar impressões e sugestões com os amigos mais próximos. “Sempre converso com os meus amigos mais


chegados, que escrevem ou que vivem literatura e arte de alguma outra forma. Trocamos ideias. Muitas vezes, nos angustiamos juntos. Discutimos essas tais dores da literatura, as angústias criativas e as dores da vida. E as relações entre ambas. Discutimos as nossas posturas e decisões estéticas. Contribuímos de mil maneiras para os trabalhos um do outro. Somos críticos e revisores ad hoc daquilo que escrevemos – Nilton Resende que o diga, até as orelhas de nossos livros escrevemos. No mais, embora a literatura seja, sim, uma atividade solitária, tenho gostado muito, de uns tempos pra cá, da ideia de aproximá-la de outras artes visuais, como fotografia e videoarte, por exemplo. E tenho tentado esse caminho com artistas de Alagoas, como a artista plástica e fotógrafa Karla Melanias e a fotógrafa Camila Cavalcante. Somos uma espécie de grupo criativo em progresso, embora cada uma atualmente more em um país diferente. Eu em Portugal, Karla no Brasil, Camila na Inglaterra”. Mesmo fora de Maceió já alguns anos, Brisa tem acompanhado a produção literária de Alagoas. “Há muita diversidade e muita qualidade também. Não existe uma prosa alagoana no sentido da unidade, não existe um movimento nesse sentido, e há mais diferenças do que

semelhanças, ainda bem. Mas há, sim, pessoas conseguindo ir além de certas tradições e apresentando textos únicos, esteticamente ousados, avassaladores até. Sobretudo na poesia. Estou tomando como exemplo mais direto os textos recentes de Milton Rosendo, escritos depois de Os Moinhos, que também é muito bom. Eu digo-lhe sempre que são textos excelentes, e que há coisas que lemos em Alagoas seguindo um caminho totalmente desviante. Essa ousadia, convenhamos, é algo raro de se encontrar, em um meio que tende a ser cada vez mais pasteurizado e guiado por regras de um jogo cada vez menos literário”, observa. A ANGÚSTIA DA REVISÃO

Assim como Brisa, o escritor, professor e ator alagoano Nilton Resende, 41, que publicou em 2011 o livro de contos Diabolô, contemplado pelo Prêmio Lego, também divide com outros escritores a angústia de finalizar um texto para publicálo. “Muitos de nós lemos os textos um do outro. Sentamo-

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nos em bares para discutir sobre as produções; trocamos e-mails com os rascunhos; dizemos por telefone as últimas linhas escritas, na espera de uma crítica sincera. Felizmente, alguns de nós agimos como primeiro leitor do outro, primeiro crítico, primeiro editor. Eu gosto muito disso, porque nos tira um pouco da irremediável e inelutável solidão. E nos fortalece”, declara. A troca de impressões e de textos entre alguns dos escritores permite também que cada um acabe conhecendo a produção de todos. “Tenho visto textos com conhecimento da técnica e cheios do humano; textos de quem tem consciência de estar criando um construto artístico e cujo construto é prenhe de humanidade, prenhe de questões que nos dizem respeito. Tenho visto autores-leitores, e não

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ESPECIAL

Os três títulos da segunda edição do Prêmio Lego, lançados em 2011

apenas escrevinhadores que buscam colocar no papel suas expressões poéticas, expressões encontráveis em qualquer diário confessional. Percebe-se, nessa nova produção, o eco de outros autores, como se cada um dos novos, de certo modo, se inserisse numa tradição literária. E mesmo os que dizem que não se inserem em alguma tradição, esses terminam por se inserir na linhagem daqueles que dizem não seguir linhagem alguma. Falo isso a respeito dos que tenho visto publicados e também a respeito de livros que ainda não vieram a lume, como por exemplo o livro de poemas de Bruno Ribeiro, em cuja produção acredito muito. Uma produção que permite que eu diga ser ele, atualmente, o mais lírico dos nossos poetas”, avalia.

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Apesar de não ser seu livro de estreia – em 1998, o autor publicou O Orvalho e os Dias, que ganhou a segunda edição em 2007, quase dez anos depois, após exaustivas revisões – Nilton dedicou-se a reescrever Diabolô até o último momento. “É um livro pequeno, de apenas nove contos, que escrevi de 1996 a 2010. Diversos contos foram muito modificados durante esse período. Um deles, demorei seis meses para escrever; depois, deixei-o descansando por mais de um ano. Então, peguei-o e passei mais um tempo revisando. Outros, nasceram mais rapidamente, mas também sofreram muitas revisões. Demorei para finalizá-lo porque tinha insegurança quanto à qualidade dos textos. Para que fossem publicados esses nove

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contos, muitos outros foram jogados ao lixo. Há momentos em que eu detesto os contos do livro, passo meses, anos sem lê-los. Depois, reviso e passo a gostar, a amar. É complicado isso. Eu me arrependo mais das coisas que falo, em entrevistas, por exemplo, do que das que escrevo, porque as que escrevo, eu seguro o tempo que eu julgar necessário, o tempo necessário para que as palavras amadureçam ou morram, e nunca vejam a luz”. E qual a contribuição do Prêmio Lego para a história da literatura local? “Acho o papel do Lego importantíssimo. A prova está aí, na qualidade do que já foi publicado. O Lego é exemplificativo da produção alagoana atual. Apesar dos problemas burocráticos, penso ser um esforço coletivo que tem


valido a pena, e que, espero, vai deixar a sua marca na história da literatura feita em Alagoas. São vozes contemporâneas que têm sido eleitas ali, e digo contemporâneas como marcador de um modo que transcende a questão temporal, e vozes muito fortes, esteticamente densas, universais”, analisa Brisa Paim. A seriedade atribuída à seleção – na comissão julgadora nunca constaram membros de Alagoas e já figuraram nomes como o do

profícuo: “A produção literária atual em Alagoas me parece frágil, se considerarmos o legado monumental de autores daqui, como Graciliano Ramos e Edgard Braga. Geralmente essa produção se limita a percursos muito endógenos e não tem desdobramentos em outros lugares. Além disso, ímpetos de afirmação identitária, baseados na imagem de territórios simbólicos e geográficos, não atuam de forma produtiva no espaço mais abrangente e, obviamente, fundamental,

Acho o papel do Lego importantíssimo. A prova está aí, na qualidade do que já foi publicado. O Lego é exemplificativo da produção alagoana atual Brisa Paim | Escritora

poeta mineiro Ricardo Aleixo, da jornalista e editora da revista Continente, Adriana Dória, da escritora e professora Maria Esther Maciel, da Universidade Federal de Minas Gerais, e do escritor André Sant’Anna – tem conferido ao concurso a credibilidade que, muitas vezes, falta a outras premiações do gênero. Para o autor do livro de contos Retráteis (Lego 2007), o funcionário público e mestre em Estudos Literários, Tazio Zambi, não se pode considerar o cenário literário local como

que é nossa língua. Vejo muitas coisas anunciadas, em conversas, blogs, etc que não encontram abrigo nos muito poucos circuitos de publicação convencionais no estado”. Retráteis, livro de estreia de Zambi, pretende romper com a linearidade da escrita e foi, segundo o autor, escrito e montado há cinco anos. “Nele existe um ímpeto de confronto com o sedimentado, que me agrada, ainda que por vezes falte alguma sutileza. Gosto de pensar que um livro tão cheio de arestas seja o meu primeiro

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livro. Daí a multiplicidade de texturas de que é feito. Além disso, relata um percurso de leituras com as quais convivo ainda hoje, como Kafka, Borges, Cortázar, Burroughs, Sérgio Sant’Anna, etc. e que foram sintetizadas em minha escrita de diferentes modos”, explica. Se, para o escritor gaúcho e colunista do blog da editora Companhia das Letras, Michel Laub, há, em literatura, uma distância enorme entre intenção e resultado, não é de se estranhar que quase todos os escritores que fazem de sua obra um projeto artístico queiram sempre reescrever a obra publicada. Perfeccionismo? Excesso de zelo? Incômodo em descobrir, a cada leitura, que pode ser melhor? Ou simplesmente reflexo da relação delicada entre o autor e sua “cria”? “Às vezes, penso em Retráteis também como um projeto que não se conclui, e que se prolonga até hoje, me incitando a reescrevê-lo sempre”, revela. QUALIDADE LITERÁRIA

O livro de poemas Os Moinhos, que integra a primeira “safra” do Prêmio Lego, marcou a estreia do escritor, professor e doutor em Estudos Literários, Milton Rosendo, 37. Grafomaníaco, como ele mesmo se define, vem produzindo atualmente “cinco ou seis

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ESPECIAL

Títulos publicados na primeira edição do Prêmio Lego de Literatura

livros” e, em 2012, pretende publicar dois deles: Caos-Totem e Azul como um Rottweiler. Moinhos, segundo ele, levou mais de uma década para ficar pronto. “Não quis correr o risco de me arrepender de tê-lo publicado prematuramente, por isso o escrevi e o reescrevi várias e várias vezes durante exatos doze anos. Escrita sem maturação, para mim, não é arte”, afirma. Para o escritor, Alagoas vem vivenciando um momento positivo nas letras locais, ainda que boa parte do que se publica não tenha qualidade, o que não é diferente do que acontece em outros locais. “A produção literária local experimenta um momento de expansão tanto quantitativamente

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quanto qualitativamente, o que é bastante significativo em termos de uma dinâmica de um dado sistema literário. Há aqui, como em qualquer lugar do mundo em que ocorra certa efervescência cultural, o aparecimento de uma miríade de escritores, tanto bons quanto ruins. Naturalmente, boa parte do material produzido não irá possuir as qualidades estéticas necessárias à identidade de uma grande obra, isto é, o conjunto de características que formam a chamada ‘literariedade’. No entanto, é este movimento, que nasce de um excesso, que dá margem à formação de genuínos talentos. Acredito que Alagoas vive um período, no que se refere à produção literária,

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extremamente positivo. Fico muito feliz de saber que tem muita gente nova por aqui, fazendo poemas, romances, contos e crônicas de qualidade”, avalia. Amigo de alguns dos escritores que também tiveram livros lançados através do Lego, Milton vê no intercâmbio crítico com os amigos um combustível essencial para a sua produção: “Creio que é através da interação com os outros que nos fortalecemos, modificamos, redirecionamos rumos e percepções. Há aprimoramento do espírito na solidão? Há sim, mas há muito mais em estarmos em companhia. Casos como o de Emily Dickinson são a exceção e não a regra, sobretudo hoje, em plena era


da informação. É preciso haver antropofagias sempre”. Não fosse pelo Lego, o escritor, professor e mestre em Estudos Literários, Ari Denisson, 26, diz que, provavelmente, demoraria alguns anos até juntar os textos, organizar e publicar – por conta própria – seu livro de estreia, Baroque.doc, lançado em 2011. O livro de poemas, escritos ao longo de oito anos, traz, segundo definição do próprio autor, uma busca visível por causar efeitos de humor. A etapa da edição, que costuma ser a mais sofrida para muitos escritores, foi, segundo ele, a mais gratificante. Ari, que dá aula de língua portuguesa, conta que, por enquanto, não tem o segundo livro pronto, mas não para de escrever. “No meu blog (desminiscencias.blogspot.

O LEGO E O FUTURO

com) é possível encontrar umas amostras do que eu venho fazendo, mas nada muito sistemático. Atualmente estou escrevendo uma série de contos cuja característica em comum entre eles é narrarem algum tipo de tensão social em pontos bastante periféricos da geografia maceioense: Benedito Bentes, Clima Bom, Chã de Bebedouro são alguns ‘panos de fundo’ dos textos”, revela. Autor do romance Pelos Engenhos, lançado em 2011, o professor e escritor alagoano Rosival Lourenço, 33, inspirouse nas imagens e nas histórias vividas durante a infância na zona da mata alagoana, em Viçosa – onde colheu lendas e histórias – para escrever sua obra de estreia na literatura ficcional. Antes, havia publicado Rosa, Rosale, Rosais: o amor e a cidade na ficção rosiana, que traz dois ensaios sobre Grande Sertão: Veredas e Manuelzão e Miguilim, do mineiro João Guimarães Rosa, além de

contos e poemas publicados em antologias. Apaixonado pelo exercício da escrita e estimulado pelo percurso que seu primeiro romance teve, o alagoano guarda na gaveta seu mais novo rebento, Auto da Quaresma, que pretende publicar em até três anos. Ao mesmo tempo, vem se dedicando a finalizar o romance O que Restou Daqueles Dias, que terá, calcula, “mais de 300 páginas”. Rosival acredita que a única maneira de vê-lo nas livrarias é vencer outro prêmio literário. O edital que transformou os originais de Pelos Engenhos num livro é saudado pelo escritor como a oportunidade que precisava para estrear nas letras. “O prêmio está sendo minha porta de entrada no mundo da produção literária longe do anonimato. Publicar um livro pela Edufal é a consumação de um sonho. Em Alagoas, o Lego é, no momento, a única e melhor alternativa de incentivo à criação literária”, diz.

Como muitos concursos literários, o Prêmio Lego vem passando por transformações a cada edição. Em 2007, o edital contemplava quatro categorias: conto, poesia, romance e teatro. Na segunda edição, em 2009, foi excluído o gênero teatro, devido ao número reduzido de inscrições. Em 2011, duas novidades: além de incluir uma nova categoria – crônica –, o prêmio passou a ser realizado em parceria com a Imprensa Oficial Graciliano Ramos, o que garantirá maior fôlego à ação. E o que será do futuro? “Espero que seja um traço constante do Prêmio Lego essa dinâmica de modificação, resultante de avaliações e ajustes, sendo estes por sua vez voltados para uma realização de qualidade cada vez melhor e observando os desdobramentos mais recentes em se tratando das produções literárias contemporâneas, como o impacto das novas tecnologias e o consequente surgimento de novas estratégias formais e uso de novos suportes para o texto”, declara Ildney Cavalcanti.

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Michel Rios

ESPECIAL

Livros novos à vista Em entrevista à Graciliano, os escritores Adalberto Raimundo de Souza e Thalles Gomes, contemplados no Prêmio Lego 2011, falam sobre literatura e contam o que o leitor poderá encontrar em suas obras Os alagoanos Thalles Gomes e Adalberto Raimundo de Souza, autores de obras que serão publicadas através do Prêmio Lego

A última edição da Bienal do Livro de Alagoas, em 2011, marcou um momento importante na carreira literária de quatro escritores: Adalberto Raimundo de Souza (poesia, com Das Coisas que Esquecemos pelo Caminho), Thalles Gomes (crônicas, com Dediquem-se à Rasteira), Benedito Ramos Amorim (romance, com Água de Chocalho) e Miguel Alves de Oliveira Júnior (contos, com O

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Sangue na Lã). Todos terão seus livros publicados em 2012. O psicólogo alagoano Adalberto de Souza, 40, não é estreante. Em 1997, lançou, pela editora HD Livros, de Curitiba, a coletânea de poemas Contando Solidões. Já Thalles Gomes, 27, estreia na literatura com Dediquem-se à Rasteira, que reúne crônicas sobre futebol. Formado em montagem e edição de som e vídeo pela Escola de Cinema

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Darcy Ribeiro, do Rio, Thalles tem em Graciliano Ramos – que inspirou o título do seu livro – não apenas uma referência estética, mas para toda a vida. “A leitura da sua obra moldou minha visão de mundo, mais especificamente minha visão sobre Alagoas. Ainda não encontrei nada mais belo que o capítulo 19 do romance São Bernardo”, declara. Confira o bate-papo com Thalles e Adalberto.


GRACILIANO – Como vocês receberam a notícia de que tiveram suas obras escolhidas na 3ª edição do Prêmio Lego? ADALBERTO – Não pude ir ao anúncio do prêmio na bienal. Recebi a notícia através de amigos, pela internet, no site da Imprensa Oficial. THALLES – Recebi a notícia na Bienal do Livro, durante a divulgação oficial dos vencedores, trajando esporte fino, ou seja, vestindo o manto sagrado regatiano. Como surgiram os textos que deram origem aos livros que irão publicar? ADALBERTO – Os poemas do livro foram surgindo aos poucos, foram sendo escritos ao longo dos anos. Tem algumas coisas mais antigas, como também algumas mais novas. Fiz um recorte e me guiei pelo mote de coisas que esqueci e que voltam e me lembram ou me assombram. Coisas que queria de volta ou que já foram tarde. Minha escrita é muito emotiva e, às vezes, até muito explícita. Acho que sou um escritor de óbvios. THALLES – Dediquem-se à Rasteira é uma coletânea de crônicas que escrevi durante os últimos três anos para o Impedimento, um blog criado em 2006 por jornalistas insanos do Rio Grande do Sul, que conta hoje com colaboradores espalhados por todo o Brasil e que se propõe a escrever sobre os subterrâneos do

futebol sul-americano sem amarras ou pieguices. Já era leitor do blog quando, em 2009, vivendo no Rio de Janeiro e lidando com a intelligentsia carioca que só conseguia ter olhos para o próprio umbigo, comecei a mandar uns textos despretensiosos pra redação do Impedimento esculhambando os clubes do eixo Rio-São Paulo e relatando as peripécias do CRB pelas divisões subalternas do futebol brasileiro. Era uma forma de liberar um pouco o Id e me manter conectado com minha terra. Por algum motivo, engano ou excesso de álcool (os dois combinados, provavelmente), os editores do blog resolveram publicar. Deu certo e me tornei colaborador permanente. O resultado disso tudo pode ser conferido no livro. Por que você usou uma expressão de Graciliano Ramos como título de seu livro? THALLES – Graciliano é uma referência estética e humana. A leitura da sua obra moldou minha visão de mundo, mais especificamente minha visão sobre Alagoas. Ainda não encontrei nada mais belo que o capítulo 19 do romance São Bernardo. A expressão que dá título ao livro também foi utilizada na primeira crônica publicada no Impedimento que, coincidentemente, acabou não entrando na coletânea. Ela foi tirada de um artigo sobre futebol escrito pelo Mestre Graça nas primeiras décadas

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Minha escrita é muito emotiva e, às vezes, até muito explícita. Acho que sou um escritor de óbvios Adalberto de Souza | Escritor

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ESPECIAL

Graciliano é uma referência estética e humana. A leitura da sua obra moldou minha visão de mundo, mais especificamente minha visão sobre Alagoas Thalles Gomes | Escritor

do século passado, quando o esporte estava ganhando popularidade por aqui. Com refinada ironia, Graciliano escreveu: “Desenvolvam os músculos, rapazes, ganhem força, desempenem a coluna vertebral. Mas não é necessário ir longe, em procura de esquisitices que têm nomes que vocês nem sabem pronunciar. Reabilitem os esportes regionais que aí estão abandonados: o porrete, o cachação, a queda de braço, a corrida a pé, tão útil a um cidadão que se dedica ao arriscado ofício de furtar galinhas, a pega de bois, o salto, a cavalhada e, melhor que

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tudo, o cambapé, a rasteira. A rasteira! Este, sim, é o esporte nacional por excelência! Todos nós vivemos mais ou menos a atirar rasteira uns nos outros. Logo na aula primária habituamo-nos a apelar para as pernas quando nos falta a confiança no cérebro – e a rasteira nos salva. Dediquemse à rasteira, rapazes!” Quais aspectos do seu livro mais lhe agradam? ADALBERTO – Poder exorcizar fantasmas. Esse é o aspecto que me agrada mais escrever. THALLES – A loucura, a psicopatia e o caos. Vocês têm contato com

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outros escritores alagoanos ou radicados no estado? ADALBERTO – Não tenho esse contato com outros escritores. Escrever pra mim é um ato que só consigo realizar sozinho. THALLES – Apesar de conhecer alguns jovens – e outros nem tanto – escritores alagoanos, meu diálogo maior foi no campo da produção audiovisual. Nos curtas, documentários e vídeos experimentais que produzimos nos últimos anos, o intercâmbio de ideias e o trabalho em equipe foram fundamentais, já que tudo foi feito de forma independente e voluntária.


Ter contato com a produção alternativa da música alagoana dos últimos anos também foi importante. Muitos desses músicos, inclusive, toparam embarcar nesses experimentos audiovisuais. Tudo isso me mostrou que aquele dito de que os artistas alagoanos são que nem caranguejo no balde, cada um puxando o outro pra baixo, não voga mais. O que gosta da literatura alagoana? E da brasileira? ADALBERTO – Sou muito eclético em gosto literário, transito entre mundos, vou dos clássicos aos mais vanguardistas, leio de tudo, sou fanático por Cecília Meireles e

agora estou enveredando pelo mundo de Mario Quintana. Gosto dos romances de Erico Veríssimo, principalmente O Tempo e o Vento. Dos mais recentes aprecio o trabalho de Clarah Averbuck. Acho uma escrita crua e visceral, rasgada e sem pudores. Entre os alagoanos sou apaixonado pela escrita de Arriete Vilela, de quem gosto de lembrar, é filha de Marechal Deodoro, como eu. THALLES – Da literatura alagoana, Graciliano Ramos. Uma referência estética e humana, como já falei. Mas a música de Alagoas me impactou mais que a literatura, principalmente a da segunda

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metade dos anos 90 pra cá. Wado, Pastor Tsapa e os Mutantes Idiotas, Xique Baratinho, Mopho, Living in the Shit, Santo Samba, só para citar algumas. A postura independente, aberta ao novo, cônscia das próprias raízes sem cair num bairrismo pueril, onde todos colaboram entre si, me influenciou bastante e até hoje me inspira. Da literatura brasileira, muita coisa. Mas se for para escolher um, fico com Millôr Fernandes, o artista brasileiro mais instigante dos últimos cem anos.

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ENSAIO VISUAL

DISSOLUÇÃO “Percebi muito em Jorge Cooper uma coisa de uma angústia, de um tempo passado, de um olhar pra trás, dos deslocamentos geográficos dele que reverberam na produção. Eu gostei porque eu mesma tenho também me deslocado. Então tem isso do não estar em Alagoas e lançar um olhar para o Estado, sendo ele pela palavra e eu, pelos arquivos de fotografias. O que levamos do lugar de onde viemos são imagens; imagens de imaginação, de imaginário ou mesmo físicas, como fotografias. Então o texto dele me ativou muito para essa coisa da paisagem, de uma paisagem angustiada; por isso tem tanto céu, fim de tarde, dias nublados ou azuis, como oscilações de humor da cidade com a gente. Quis ir por esse caminho de trabalhar a memória numa imagem que, esteticamente, parece se desfazer, se diluir e que, ao mesmo tempo, parece estar viva. Como a memória”.

RENATA VOSS*

*Renata Voss é alagoana, fotógrafa, graduada em Publicidade e, atualmente, pesquisadora do Mestrado em Artes Visuais pela Universidade Federal da Bahia, na linha de processos criativos nas artes visuais. Desenvolve trabalhos autorais desde 2004. Vem dedicando-se a um trabalho que tem o Cine Plaza, antigo cinema de bairro de Maceió, como motivação, desenvolvendo ações e estabelecendo relações entre fotografia, tempo e memória. Participou de diversas exposições coletivas e realizou a mostra individual “Lugares Comuns ou Vazios Encenados” realizada na Pinacoteca Universitária (Maceió, AL), em 2008. Em 2011, realizou sua segunda exposição individual “Brevidade”, na Galeria do Sesc (Aracaju, SE).

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ENSAIO VISUAL

Os meus sonhos

Esquecimento

Não há o impossível quando o homem sonha – Mas quando em preto e branco lhe é o sonho

Morto o homem é de pronto relegado ao esquecimento

Os meus sonhos sempre me foram quando eu acordado – (E só é possível o impossível quando em preto e branco o homem sonha)

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Comigo dá-se o contrário É que me antecipo ao esquecimento alheio – Que minha memória se esvazia de momento a momento E eu próprio estou a me fechar a porta Antes de tempo


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ENSAIO VISUAL

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Minhas andanças Minhas andanças pelos caminhos do tempo – Eu a perseguir esperanças

Poema Enquanto vivemos encontramo-nos sempre na encruzilhada – (No avesso do nada)

As esperanças são a linha do horizonte (De não possível alcance)

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QUEM TEM MEDO DE CAIO FERNANDO ABREU? TEXTO:

JANAYNA ÁVILA

ILUSTRAÇÕES:

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DANIEL HOGREFE


Popular na internet, há 30 anos o escritor gaúcho lançaria a coletânea de contos Morangos Mofados, seu livro mais conhecido. A escritora e crítica alagoana Vera Romariz é autora de um texto, publicado no livro Melhores Contos, de Caio Fernando Abreu. No ensaio, que também integra o livro Toma Lá, Dá Cá, ela analisa o conto Terça-feira gorda. Confira

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O livro Toma Lá, Dá Cá, de Vera Romariz, que reproduz o texto sobre um dos contos de Caio Fernando Abreu

A escritora Clarice Lispector é tão popular na internet que um internauta, cansado de visualizar, diariamente, frases atribuídas à autora de A Hora da Estrela, fez uma montagem na qual Clarice aparece com cara de poucos amigos, acima de uma frase, onde se lê: “Meu saco já está explodindo de ver tanta porcaria que vocês postam em meu nome nesta merda”. A brincadeira ganhou a rapidez da disseminação das redes sociais: em poucos dias, cerca de 1.700 pessoas haviam compartilhado a imagem em seus perfis e 1.400 curtiram, o que equivale a um “gostei e assino embaixo”. Além de Clarice Lispector, outro autor que tem status de pop star na internet – especialmente nas redes

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sociais – é o gaúcho Caio Fernando Abreu. É comum ver trechos de diversas obras suas reproduzidas a exaustão em posts, tweets, cartões de felicitações e até nos intoleráveis slides que circulam na rede, como uma espécie de autoajuda com suporte tecnológico. Quando a obra não é utilizada para justificar, legitimar ou construir uma ideia sobre algo contrário ao que o escritor realmente queria, observa-se algo ainda mais grave: atribui-se a ele trechos de obras que não são de sua autoria. O fato é que, ao invés de divulgar a obra literária de alguns autores e o consequente debate sobre ela, o fenômeno tem contribuído, na verdade, para que a produção desses

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escritores seja transmitida com diversos ruídos a toda uma geração. Assim, o que se vê, é atribuir à escrita cortante de Clarice Lispector trechos melosos, quase sempre piegas. Em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, o biógrafo de Clarice, o escritor norte-americano Benjamin Moser, declarou que essa popularidade exacerbada de Lispector e de Caio Fernando Abreu na internet deve-se, em parte, ao perfil de alguns dos usuários das redes sociais: “Eles [os escritores] falam algo sobre aquela sensação adolescente de ‘O que faço de mim?’, ‘Como amo?’”. Popularidade nas redes sociais à parte, o fato é que, em 2012, são comemorados os 30 anos da publicação da coletânea de contos Morangos Mofados, de Caio Fernando Abreu. Lançado em 1982, o livro, o mais famoso do autor, trazia, mais do que nunca, as marcas da ironia, da incorporação da cultura pop e, acima de tudo, da solidão. Em 2006, a escritora e crítica alagoana Vera Romariz escreveu o texto “Os olhos muito abertos: uma estética narrativa da diferença em Caio Fernando Abreu”, publicado na coletânea Melhores Contos, organizada e prefaciada por Marcelo Secron Bessa. O texto que ora publicamos integra a coletânea de textos críticos da autora, intitulada Toma Lá, Dá Cá; rasantes críticas, lançada pela Edufal no ano passado. Confira.


ARTIGO

OS OLHOS MUITO ABERTOS: UMA ESTÉTICA NARRATIVA DA DIFERENÇA EM CAIO FERNANDO ABREU VERA ROMARIZ*

O conto “Terça-feira gorda” do livro Morangos Mofados, do gaúcho Caio Fernando Abreu, publicado pela primeira vez em 1982, realiza, através da comovida voz de um narradorpersonagem, uma estética narrativa da diferença. Trata-se do relato de um relacionamento amoroso entre dois homens, visto como algo verdadeiro, legítimo e humano, mas brutalmente interrompido por uma agressão física de extrema crueldade. O texto é composto em dois tempos narrativos que correm paralelos, para se encontrarem no clímax doloroso da agressão a um dos parceiros; iniciado com uma descrição sensível do encontro amoroso, apresentado de forma lírica no relato, o texto surpreende o leitor ao ver interrompido o clima afetivo e harmônico, tão breve, com a entrada abrupta dos agressores anônimos. O parceiro

agredido é representado pela bela metáfora de um figo, fruto, macio, saboroso, mas machucado e destruído ao final; tal metáfora, muito bem escolhida pelo autor, remete tanto ao fruto figo, que pode ser encontrado na natureza nas cores verde (o “branco”) e violeta (“negro”), como a uma patologia que provoca aspecto purulento, deformante, com a mesma denominação da fruta. Mas há uma intenção autoral, expressa na voz do narrador-personagem, de moldar a figura do personagem masculino e parceiro com um tratamento lírico, nele projetando uma visão positiva de amor e fascínio, em meio às contradições e dificuldades de ser um deslocado. Joga o espelho pra Iemanjá, me disse. [...] enquanto acompanhava o vôo [sic] fiquei com medo de olhar outra vez

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para ele. Porque se você pisca, quando torna a abrir os olhos o lindo pode ficar feio. (op. cit.,p.60). A alusão aos deuses afrobrasileiros não é gratuita; no sagrado africano, o homossexualismo é visto com bem mais complacência que na tradição judaico-cristã. Mas, quando o narrador expressa o sentido da beleza em tom superlativo (“lindo”), logo acena para seu contraposto ameaçador (“pode ficar feio”), estabelecendo uma contradição estrutural que se estabelece na configuração do texto. O conto é composto por elementos contraditórios, uma vez que tanto representa o amor, o entendimento mútuo, quanto seu oposto: a agressão e desarmonia humanas. Tal contradição já se estabelece no próprio título, pois, em princípios, a festa de

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ARTIGO

O conto “Terça-feira gorda” é um relato do relacionamento amoroso entre dois homens, visto como algo verdadeiro, legítimo e humano

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carnaval traduziria encontro e alegria, mas no texto a “festa” amorosa de terça-feira gorda é desarticulada pela agressão e sugestão de homicídio. A expressão possui, portanto, um recorte profundamente irônico, avessado, de onde se percebe um percurso que vai do fluir da narrativa da festa amorosa até sua destruição. O título “Terça-feira gorda” (último dia, o final do tríduo) remete ao último dia de carnaval, encerramento de uma grande festa em que liberdades de costumes são permitidas; paradoxalmente, não se permite ao casal homossexual, que vive um verdadeiro idílio, essa liberdade. Tal dado se adensa quando o leitor atinge o final do conto, cujo clímax representa uma agressão homofóbica. Dois elementos fundamentais materializam, no tecido textual, esse processo de estetização narrativa da diferença: o relato comprometido de um narrador-personagem que se conta, de um lugar deslocado, e o consequente protagonismo dos diferentes: (a) o relato comprometido do narradorpersonagem, que conta a si mesmo, com um menor distanciamento épico, atribui uma maior verossimilhança ao enunciado; de um lugar de exclusão social e cultural, a voz que conta motiva uma forte cumplicidade narrador-leitor. Este último ouvirá apenas,

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e com ênfase, a perspectiva deslocada, diferente, e não a convencionalmente aceita, sugerida intencionalmente pelo autor como geradora da agressão. O contar a si mesmo, próprio do procedimento narrativo do narrador em primeira pessoa, afasta o relato da exterioridade épica discutida por Reis (2003), atribuindo legitimidade humana a esse lugar de exclusão. Em períodos comoventes do texto, adornados pela linguagem estética, o narradorpersonagem, justificando a relação homossexual, afirma: O quê, perguntei. Você é gostoso, ele disse. E não parecia bicha nem nada. Eu era apenas um corpo que por acaso era de homem gostando de outro corpo, o dele, que por acaso era de homem também [...] Você é gostoso, eu disse. (op.cit., p.58) Percebemos uma tentativa autoral, pela via de construção do narrador que se conta e do protagonismo dos diferentes, de apresentar a relação amorosa menos pelo viés sexual e mais pelo encantamento afetivo, que universaliza um encontro de seres humanos que se contemplam, ficando a questão homoafetiva em segundo plano, e a amorosa, universalmente aceita, em primeiro. Uma das qualificações que o autor, pela voz do narrador, atribui ao encontro dos dois é “tão


QUEM É Caio Fernando Abreu nasceu em 12 de setembro de 1948 na cidade gaúcha de Santiago e morreu em Porto Alegre, em 25 de fevereiro de 1996. Embora tenha ingressado nos cursos de Letras e Artes Cênicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, não concluiu os estudos de graduação e passou a trabalhar como jornalista , e e colaborar com os em revistas como , e . No jornais início dos anos 70, após ser perseguido pelo Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) e ter se refugiado na casa da escritora Hilda Hilst, exilou-se na Europa. Em 1974, voltou ao Brasil e morou em Porto Alegre, no Rio e em São Paulo. Em 1994, descobriu que tinha o vírus do HIV. Escritor maldito, como muitos o chamavam naquela época, foi um dos primeiros, no Brasil, a falar da dor, da solidão, da morte e da cultura pop de uma só vez. Seu texto, sempre muito próximo do leitor, trazia quase sempre a ironia de quem não tinha medo de desfiar verdades por meio da ficção.

simples, tão clássico” (op. cit.), associando a expressão à ideia platônica de metade amorosa complementar e a um tipo de convenção artística, a da Antiguidade grecolatina, que já integra o cânone em arte, diferentemente do “cânone” cultural que rejeita os diferentes. Nesse sentido, insere-se uma dicotomia crítica entre o que pensa e expressa o narradorpersonagem, e o que pensa a sociedade, representada pelos personagens violentos do texto. Por sua vez (b), o protagonismo dos diferentes,

em contraposição ao anonimato tipificador dos agressores, representantes da sociedade conservadora, constitui um artifício de inversão estilística e semântica na narrativa, com o autor atribuindo lugar de relevo e voz aos deslocados do mundo referencial. Há um momento no texto em que, ao referir-se a seu encontro amoroso, o personagemnarrador diz “brilhamos”, iluminando apenas as ações dos descentrados, os personagens homossexuais. Exteriorizando no nível textual os pensamentos de

seus diferentes, o autor, em contraposição intencional, tipifica e lineariza os agressores, mostrando-os, de forma intencionalmente redutora. Anônimos, recortados até a desumanização, os agressores são reduzidos a uma massa agressiva e grotesca, como se nem sequer possuíssem caráter individual:

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Ai-ai, alguém falou em falsete, olha as loucas, e foi embora. Em volta, olhavam. [...] Veados, a gente ouviu, recebendo na cara o vento frio do mar. [...] Mas vieram vindo, então,


ARTIGO

e eram muitos. Foge, gritei, estendendo o braço [...] O pontapé nas costas fez com que me levantasse. Ele ficou no chão. Estavam todos em volta. Ai-ai, gritavam, olha as loucas. Olhando para baixo, vi os olhos dele muito abertos e sem nenhuma culpa entre as outras caras dos homens (op. cit.,p.60; grifos nossos). O narrador descreve os agressores sem individualização, recorrendo quer a um plural que tipifica (“olhavam”, “eram muitos”, ” estavam em volta”), quer a um indefinido que dilui (“alguém”), como se aquelas pessoas em

OBRA

verdade constituíssem uma horda enfurecida mas anônima, máscara de uma convenção excludente e não verdadeira; uma “voz em falsete”. Na voz do narrador-personagem, a cena de agressão homofóbica é descrita com um plural intensivador (“gritavam”) em contraposição a uma serenidade e consciência quase estóica do agredido (“os olhos muito abertos, sem nenhuma culpa”), mas singular, individualizada. A imagem “os olhos muito abertos” traz um efeito importante ao texto: despe a personagem de uma configuração naturalizada, como ocorreu em parte do Realismo e principalmente do Naturalismo, em que o ser humano parecia presa apenas de sua exclusividade, desejo, ou de qualquer

Confira alguns dos livros publicados por Caio Fernando Abreu Estranhos Estrangeiros

Triângulo das Águas

(1966)

(1983)

Inventário do Irremediável

Os Dragões não conhecem

(1970)

o Paraíso

Limite Branco

(1988)

(1970)

Mel & Girassóis

O Ovo Apunhalado

(1988)

(1975)

Onde Andará Dulce Veiga?

Pedras de Calcutá

(1990)

(1977)

Ovelhas Negras

Morangos Mofados

(1995)

(1982)

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condição apenas de natureza, desprovida de racionalidade e interioridade. E amplia o espaço de humanidade e verdade humanas dos diferentes. O personagem homossexual de Caio Fernando Abreu cai de olhos abertos e sem nenhuma culpa cristã, elemento comumente associado à purgação dos “pecados”, passo importante para a “cura” da diferença. Como um herói mítico, o amante homossexual cai, mas se agiganta como personagem, o que soa paradoxal no projeto autoral, pois a noção de queda e consequente ressurreição pelo sofrimento é um dado da tradição judaico-cristã incorporada pela narrativa romântica do século 19, em que a noção de culpa religiosa se reitera no tecido


ficcional. O autor utiliza a tradição, mas com a liberdade de um ficcionista; ora o faz parcialmente, ora a exclui, ratificando uma fala do poeta e crítico mexicano Octavio Paz de que a tradição judaicocristã está profundamente ligada à América Latina, não importando que sejamos ou não religiosos. A boca molhada afundando no meio duma massa escura, o brilho de um dente caído na areia. Quis tomá-lo pela mão, protegê-lo com meu corpo, mas sem querer estava sozinho e nu correndo pela areia molhada, os outros todos em volta, muito próximos. [...] E finalmente a queda lenta de um figo muito maduro, até esborrachar-se contra o chão em mil pedaços sangrentos (op.cit., p.61; grifos nossos) O comovente texto final relata a queda do parceiro e a dolorosa impotência do personagemnarrador em salvá-lo, o que é expresso verbalmente (“Quis tomá-lo pela mão, protegêlo com meu corpo, mas sem querer estava sozinho”), exteriorizando os pensamentos dolorosos do companheiro que sobrevive para contar. A queda lenta até o esborracharse contra o chão intensifica o caráter violento da antinomia, uma gradação narrativa importante, que deixa de ser apenas uma descrição exterior

O comovente texto final relata a queda do parceiro e a dolorosa impotência do personagem-narrador em salvá-lo, o que é expresso verbalmente

para ser um relato trágico e desesperado do narrador cúmplice da fábula. Ele nomeia hiperbolicamente a destruição do figo-homem, em tom apocalíptico, como um “figo muito maduro”, que se parte “em mil pedaços sangrentos”. Mas se nós, leitores, caímos um pouco com ele, sobrevivemos na palavra inteligente, sensível e humanizada de Caio Fernando Abreu, que ilumina os diferentes, protagonistas do seu texto, mas personagens secundários da sociedade brasileira excludente. *Escritora, crítica, doutora em Literatura Brasileira e professora aposentada da Universidade Federal de Alagoas

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REPORTAGEM

Papéis dispostos no varal durante a edição realizada no Botequim Paulista

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Michel Rios

SARAU DO NOSSO TEMPO Criado em 2009 pelo engenheiro e professor universitário Ricardo Cabús, o projeto Papel no Varal vem reunindo público eclético em torno da leitura de poemas dos mais diversos autores. O apreço pelo palco e pelo microfone ajuda a atrair público ao evento LUCAS ALMEIDA

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REPORTAGEM

Ricardo Cabús nem sempre foi fã de poesia. Quando jovem, preferia os números às letras. Formou-se em Engenharia Civil na década de 80 e, logo depois, começou a lecionar no Centro de Tecnologia da Universidade Federal de Alagoas, nos cursos de Engenharia e Arquitetura. Embora sua pesquisa com iluminação natural seja

diariamente, pela Rádio Educativa FM. Na festa em que foi apresentado o Minuto, em 2009, havia poemas espalhados em um varal e os participantes foram convidados a ler em cima do palco. A ideia deu certo e os saraus foram batizados com o nome de Papel no Varal. Sua realização acontece, em média, a cada dois meses,

de acordo com o tema e com as preferências do coordenador. De uma coisa, Cabús não abre mão: nos saraus, não há espaço para quem quer aproveitar a ocasião e apresentar sua própria produção: “As pessoas não podem trazer poema de casa nem ler o seu próprio poema”, explica. Mesmo trabalhando com

Lucas Almeida

No Papel no Varal não existe um público definido. Há jovens, adultos e idosos, mas dificilmente o público se repete Ricardo Cabús | Coordenador do projeto

reconhecida nacionalmente, hoje o professor é mais conhecido no Estado por conta de outra atividade. Aos 47 anos, Cabús coordena o projeto Papel no Varal, um “agito” cultural que reúne gente de todas as idades e costuma dar o que falar na capital alagoana. O projeto surgiu por acaso, durante o lançamento do Minuto da Poesia, também idealizado por ele, que é veiculado em Maceió,

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embora tenha havido alguns hiatos na programação devido ao falecimento, em novembro de 2010, da estudante Tayra Macedo, produtora do projeto e uma das maiores entusiastas da ideia de reunir pessoas em torno da poesia. A cada edição, o projeto apresenta sempre 100 poemas de diferentes autores. Os poemas, enviados por amigos ou retirados do acervo do próprio Cabús, são selecionados

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poesia, que não costuma ser muito popular, especialmente em Alagoas, Ricardo Cabús comemora o ecletismo do público que participa dos saraus. “É legal ver pessoas da Academia Alagoana de Letras ao lado de jovens que nunca leram poesia”, comenta, entusiasmado. “No Papel no Varal não existe um público definido. Há jovens, adultos e idosos, mas dificilmente o público se repete”, conta. Um


Rita Moura Na versão erótica, o projeto bateu recorde, reunindo mais de 500 pessoas. Durante o evento, houve até striptease

certo apreço pelo palco e pelo microfone também ajuda a atrair público ao evento, já que, por alguns minutos, as atenções ficavam voltadas para quem lê o poema. A diversidade, apresentada pelo coordenador do projeto como uma qualidade importante quando o assunto é a plateia, pode ser encontrada também nas páginas dos varais. Lá é possível ler poemas não apenas de autores europeus, brasileiros e norteamericanos, mas também de africanos, asiáticos e até neozelandeses. Frequentadora assídua do projeto, a fonoaudióloga Letícia

Elena Silveira reconhece a existência de um estereótipo elitista do texto poético, mas tenta desconstruir o pensamento. “O projeto mostra que a poesia é mais popular do que a gente imagina. Ela parece erudita, mas não é”, diz. Para ela, um dos aspectos mais importantes do projeto é proporcionar a divulgação da poesia entre um público não especializado. “A partir do projeto, conheci a obra de Lya Luft e do poeta alagoano Sidney Wanderley”, conta. SARAUS TEMÁTICOS Com o sucesso do projeto, a

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coordenação passou a planejar saraus temáticos. Foi assim que surgiu o Papelzinho no Varal, voltado ao público infantil e que reúne, a cada edição, aproximadamente 150 crianças. Os pequenos se revezam na declamação dos poemas. Vencendo a timidez, eles leem ao microfone o poema que escolheram no varal. Muitos gostam tanto, que pedem para ler poemas até três ou quatro vezes. No varal, poetas pouco conhecidos como o inglês Charles Kingsley se misturam a nomes já familiares da criançada como Cecília Meireles, Vinicius de Moraes e

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Ian Moliterno

REPORTAGEM

Quem escolhe o poema e sobe ao palco para ler, também pode levá-lo para casa. A ideia é aproximar o público da poesia, popularizando-a

Papel no Varal no Calçadão do Comércio, no Centro de Maceió: convite aos pedestres para a leitura de poemas

Pedro Bandeira. No ano passado, em agosto, a segunda edição do Papelzinho no Varal reuniu, no Museu Palácio Floriano Peixoto, alunos dos oitavo e nono anos da Escola Estadual Cleto Marques Luz. Entre o corre-corre dentro do museu, a empolgação dos meninos era evidente. “Poesia é muito lindo”, afirmava o estudante Francisco Diego, 10 anos, que adora ler histórias em quadrinhos e levou para casa três poemas do Vinicius de Moraes. “É meu autor preferido”, sussurrou. Nesses saraus, adulto não é proibido, mas existe uma condição: “Só é permitida a entrada de adulto

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que esteja acompanhado de criança”, brinca o idealizador do projeto. Já no sarau erótico, somente os adultos têm entrada permitida. Para os desavisados, Cabús deixa um recado. Nos saraus, não existe apenas poesia pornográfica. “Há também textos sobre amor e amizade”, diz Cabús. Mas são os poemas eróticos que fazem mais sucesso. Entre eles, a poeta grega Safo é a mais popular. Nascida há dois mil anos, ela se tornou conhecida por ter expulsado todos os homens da ilha de Lesbos e fundado uma cidade habitada só por mulheres. Sua poesia era reflexo do amor que sentia por

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suas companheiras. Além de Safo, poetas como Bocage e Arnaldo Antunes também tiveram poemas lidos durante o sarau, que teve até striptease no pátio do Museu Théo Brandão. Os saraus têm público médio de 500 pessoas. A edição dedicada à poesia erótica é a de maior sucesso. Além de ter idealizado o projeto, Cabús lidera na Ufal um grupo de pesquisadores em iluminação natural, o Grilu, atividade bem diferente da produção de um evento cultural. Doutor em Arquitetura, pela Universidade de Sheffield, Inglaterra, onde residiu por quatro anos, Cabús quer mais é ver o Papel no Varal crescer. “Hoje, não me vejo sem a poesia”, diz.


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ARTIGO

OS ESPIRAIS DO TEMPO EM JORGE COOPER TEXTO: LUIZ

COSTA PEREIRA JUNIOR*

ILUSTRAÇÕES:

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DANIEL HOGREFE

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ARTIGO

Jorge Cooper gostava de brincar com nossa sensação de tontura. É verdade que, a quem esperava gravidade de enfermo em seus últimos anos, Jorge atordoava com o riso fácil, a gargalhada boa, qualquer que fosse o motivo ou assunto. Exibia uma vitalidade desconcertante mesmo quando já prisioneiro da cadeira, impossibilitado de andar como desejava. Mas quem lê sua obra faz um pacto de outra ordem com movimentos inesperados e atordoantes. Sempre pensei o leitor de poesia como alguém a ser fisicamente sacudido. Cooper é desses casos raros e quase literais de poesia que tem calibre para sacudir o leitor. Faz um giro em espiral por meio do poema, o que desloca o ponto de observação habitual de quem experimenta seus versos – numa espécie de movimento mental que é também corporal diante do suporte à frente, seja ele um livro ou uma página de jornal, revista ou tablet. Está lá em “Antes mesmo”, de Os Últimos III, o gesto de espiralar o encadeamento de versos, que nos faz reler, surpresos, as linhas anteriores que pareciam criadas com distraída franqueza.

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Que nem os raios de uma roda à disparada o fim avança como se recuasse – E recuando me recusasse

Seus poemas propõem que a pessoa dê um giro sobre si, como quem afasta, à distância segura, o exemplar em suas mãos, a certificar-se da lógica interna de um texto a ser decifrado. O raciocínio gira, o corpo se contorce, as formas embranquecem a página, as palavras retornam – e então elas, que pareciam produto de uma simplicidade inocente, nos fazem sentir parte de uma arquitetura de pensamentos nada gratuitos. Daí a insistente, mas apenas aparente, repetição de versos em muitos de seus escritos. Palavras retornam, por exemplo, em “Jogo de quem pensa”, de Os últimos III.

Versos voltam, como em “Argumento”, de Poesia sem idade: É música o canto dos pássaros E música (dizem) é poesia Se é música o canto dos pássaros E música é poesia – por que não se põe letra No canto dos pássaros Por que se põe música nas poesias

Motivos se multiplicam, como em “Imortalidade”, do livro Poesia sem Idade, até a constatação apoteótica: O difícil não é ir com o tempo correr para trás com o tempo

A fé

cair na eternidade sem tempo

não depende de raciocínio Só de quem pensa

Difícil é arredar o tempo

que pensa

Não correr para trás com o tempo Estar em eternidade no tempo

– E quem pensa que pensa

– (Que a eternidade é estar o

não pensa

morto com os vivos

(Se não raciocina)

que não irá alcançar)

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Em “Contrassenso”, de Linha sem traço, há a composição espelhada, em que uma estrofe reflete uma inversão da outra. O que me acontece e não digo é como se me não tivesse

Voltar quase sempre é partir para um outro lugar, já disse Paulinho da Viola. Em Cooper, a repetição é sempre uma retomada que se desvia, uma ressonância plena de avanço, que vai ao passado para a partir dele recuperar outra coisa.

acontecido Para alcançá-la O contrário se me dá

recuei até Adão

se do que não acontece

– O mar também avança ou

falo

recua

digo

(Ao capricho da lua)

O desocupado leitor dirá: como um cara que escreve tão poucos versos por poema repete tanto um mesmo verso? A resposta me parece óbvia. Porque o que é repetido está dizendo outra coisa. A circularidade cooperiana está a serviço de uma variação. De que variação estamos falando? Em alguns casos, ela está no maravilhamento, no espanto poético diante do trivial, como a retomada do prato e da alegria em “Libertação”, de Poesia sem idade:

Mas até o mar a si mesmo se

Estou a ler na casa calma

contém – E eu é como se fora outrem (Ninguém)

Cooper reduz a expressão a sua linha medular, deixa no talo as possibilidades expressivas das mesmas formas, desenvolvendo a variação como se ela borbulhasse por geração espontânea. No “Poema vigésimo”, de Poemas (Quando em São Luís) a morte não cabe no entendimento que fazemos dela, daí as variações de “caber” e “morte” enredarem as estrofes.

Súbito cai das mãos de uma mulher

Não ir nem ficar

lá na cozinha

Assim entende a morte

um prato

– A morte sem ter onde caber

Ouço a risada alegre dos cacos

Que a morte só cabe

– Como se alegre

na própria morte

o prato

– (Como o nada

por deixar de servir

a se caber)

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Em Cooper, a repetição está a serviço da economia verbal, na forma de uma ressonância. O poeta parece intuir que ressoar não é um retorno ao mesmo ponto, mas uma retomada. Não só porque na vida nunca se consegue reproduzir exatamente as mesmas condições da experiência, se retomássemos o caminho, recompondo o passado. As representações que criamos do mundo se encastelam em nós não porque nos determinam, mas porque desenvolvemos as mesmas atitudes humanas ante a resistência do mundo; criamos representações que retornam para nós, recorrentes, como se nos respondessem – e respondendo, nos moldassem. O desafio é lidar com o mundo como uma ressonância, virar um quiasma que consegue encontrar-se ao entrar na materialidade do mundo, ao sentir sua resistência e adequar-se ao seu contato. Ao encarar o mundo, eu o incorporo, faço com que faça parte do meu corpo, não me mantenho intacto como antes do contato. Homem que foi e voltou, que quis e não pôde, que é de Maceió e não é, alagoanglo que era, Cooper não parece em seus poemas ter nostalgia de um tempo que não retorna, mas daquele que se refaz. Depois de rogar aos amigos que, quando morrer, tenham saudade dele, a

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ARTIGO

voz de “Poema”, de Os últimos IV, enuncia: Tanta quanta a que por antecipação tenho eu de vocês (morrerão vocês comigo e viverei eu em vocês)

Rever a si mesmo depois de imerso no mar do mundo, da vida que cresce e lhe supera, não é mais olhar para si, não é reconhecer-se naquilo que se acreditava identificar, nem retomar a ser o que era ou partir para o mesmo lugar de onde veio, e a sensação de que falta alguma coisa preenche o vazio da falta, como ilustrado em “Poema 40”, de Os últimos. Para saber-me

temida, quem sabe adiada. A vida não deixa de ser triste por decisão racional. Mas a morte pode rebolar um bocado antes de agir em nosso cotidiano, em nossas sensibilidades e nossos atos. É não criar raízes num dos extremos absolutos para flagrar a realidade que transcorre, arrastada pelo movimento que, afinal, costumamos ser incapazes de conter. Em “João-teimoso”, de Os últimos II, Cooper materializa a contradição de conciliar a carência por dar giros em torno de si mesmo numa alma refém do hábito. Criado de costas para a vida

Cooper é desses casos raros e quase literais de poesia que tem calibre para sacudir o leitor poeta despreza a imortalidade, pois só possível de existir se concedida (por algum deus, por alguma obra, por uma boa reputação), e prefere o encantamento da literatura: “Façome encantar / dentro nos meus poemas”. O elogio da literatura em sua poesia parte da constatação vital de que tudo afeta o que ficou para trás, a mesma contida em “Poema 25” de Os últimos.

às vezes me dá na telha girar em torno de mim

Escrito

(dar meia-volta volver)

nenhum poema me satisfaz.

não preciso que me chamem

É que nele se ausenta

pelo nome

Mas o João-teimoso que sou

a centelha do achado

– Deus para saber-se

logo volta à posição costumeira

que só encontro arremedo

criou o homem

em que o hábito o acomodou

quando menino na do trevo-de-quatro-folhas

Se não me cabe primazia no que digo li o que digo em algum livro que já não sei Mas não dou o dito por não dito – Para saber-me não preciso que me chamem pelo nome Deus para saber-se criou o homem

Se há vida que brota da sombra, a temperança está em festa e a morte não é mais

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O poeta é o que se espanta com o avanço que atrasa, o tempo que anda para trás, e a materialidade do tempo – e sua falta (expressa na noção de “imortalidade”) – o tempo exerce um fascínio num enunciador que se sabe movimento e também raiz (“Eu bicho que sou / vou me sabendo árvore”, em “Com a idade que tenho” de Os últimos II). Mas a sensação é de que a realidade apaga a vida e só é reanimada por meio da poesia: em “Poema 11”, de Os últimos, o

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– de que tanto sou precisado É só na poesia – o espírito a centelha não se apaga.

O nada é, afinal, o que sobra da luz apagada, mas nada se compara à solidão do louco ou à imortalidade de quem chega aos vivos que não encontrou. Talvez só a poesia de Jorge Cooper. Doutor em filosofia e educação pela USP, editor da revista Língua e criador da revista Metáfora


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janeiro/fevereiro 2012 Av. Fernandes Lima, s/n, Km 7, Gruta de Lourdes, Maceió - AL


REPORTAGEM

A CRIANร‡A E A LITERATURA Como uma nova safra de livros infantis estรก reinterpretando a cultura alagoana entre as crianรงas, formando novos leitores e tornando a aprendizagem uma tarefa prazerosa LUCAS ALMEIDA

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Michel Rios Os escritores Simone Cavalcante, Claudia Lins e Tiago Amaral, do selo infantil Passarada: a aventura de escrever para crianรงas 79

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REPORTAGEM

A personagem Emília, do Sítio do Pica-pau Amarelo, no seriado adaptado do clássico de Monteiro Lobato: inspiração para escritores de livros infantis

Lançados durante a IV Bienal do Livro de Alagoas, em 2009, os três primeiros títulos do selo Passarada venderam, em apenas nove dias, cerca de 800 exemplares

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Rio de Janeiro tem Ana Maria Machado. São Paulo, Monteiro Lobato. Ambos são expoentes da literatura infantil no País. Outros estados já possuem uma produção significativa na área. E em Alagoas? Como anda a literatura infantil na terra onde nasceu Graciliano Ramos e Jorge de Lima? A produção de livros voltados ao público infantil está bem melhor do que se imagina. Nos últimos anos, diversos alagoanos encontraram espaço para publicar e gente interessada em ler. Através de editais do governo do Estado ou por iniciativa de selos independentes, mantidos pelos próprios autores, Alagoas tem produzido livros infantis cujos enredos abordam, em parte, a história e a cultura local. Não à toa, o livro teve importância fundamental na infância desses escritores e alguns personagens permanecem, ainda hoje, na memória. É o caso da Emília, criação de Monteiro Lobato que povoou a imaginação das jornalistas e escritoras Claudia Lins e Simone Cavalcante e do ilustrador e também escritor Tiago Amaral. Com uma paixão em comum, o trio arregaçou as mangas e criou um selo editorial voltado ao público infantil. Os livros do selo Passarada se tornaram sucesso de vendas logo no lançamento dos três primeiros títulos, em 2009, durante a IV Bienal Internacional do Livro de


Alagoas. Os livros Bob no País das Verdurinhas, de Simone Cavalcante; Marina Traquina, de Claudia Lins, e Filho de Peixe, Peixinho não é, de Tiago Amaral venderam, juntos, 800 exemplares, uma marca a ser comemorada para o período de apenas nove dias. E se a infância é o período em que cada um acabou descobrindo o gosto pela leitura, é também nas lembranças dessa fase que os três vão buscar inspiração para escrever livros que serão lidos por crianças. Aos 10 anos, Claudia Lins participou de um concurso comemorativo da Rede Globo para o centenário de

escreveu, respectivamente, os livros O Menino que Acordou o Rio e Lendas do Velho Chico, este último resultado de suas andanças como repórter da TV Gazeta, afiliada da Rede Globo, para cobrir os 500 anos do rio São Francisco. Já Tiago Amaral descobriu nos clássicos sua paixão pela literatura. “Meus pais costumavam ler contos clássicos para mim e sempre incentivaram a minha convivência com histórias infantis através não só dos livros, como também de histórias em quadrinhos e áudio-livro”, recorda. Através do hábito da leitura, ele foi, aos poucos, analisando

pública, Simone Cavalcante tornou-se escritora, como Claudia e Tiago e, como eles, defende o lugar do livro na infância. “A leitura na infância é fundamental. O livro deveria estar sempre presente em casa como um brinquedo na prateleira do quarto das crianças”, recomenda. Durante a V Bienal Internacional do Livro de Alagoas, em 2011, o selo Passarada lançou três livros: A Casa da Reinação, de Tiago Amaral, Ventania e o Mapa do Tesouro, de Simone Cavalcante, e No Reino de Bilinguindone, de Claudia Lins.

Para Simone Cavalcante, “o livro deveria estar sempre presente em casa, como um brinquedo na prateleira do quarto das crianças” o modo como cada escritor contava sua história, em especial os escritores Monteiro Lobato e Machado de Assis. Durante a infância, a autora do livro Bob no País das Verdurinhas passava horas no quintal de sua casa, observando o movimento dos animais, principalmente a marcha das formigas e o zigue-zague das libélulas. Formada em jornalismo e funcionária

Fruto de um edital da Imprensa Oficial Graciliano Ramos, publicado em 2009, cinco histórias infantis, focadas na cultura alagoana, foram selecionadas e publicadas pela editora da Imprensa Oficial em 2011: Upiara, de Eliana Maria; O Segredo do Rio Mundaú, de Sara Albuquerque; Pescando Histórias à Beira-mar, de Adélia Souto e Daniel Libardi; O que só as Minhocas Podem Ver?, de Luana Teixeira e O Baile das Meninas, de Geisa Andrade. Os autores selecionados são alagoanos ou radicados no Estado e os livros abordam os costumes e a história de Alagoas. Alguns dos livros da coleção já foram adotados por

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nascimento de Monteiro Lobato. Ela, que nasceu e morava no Rio de Janeiro, escreveu uma carta fictícia para o autor. Dias depois, um telegrama que chegou em sua casa avisava que ela havia sido selecionada e podia visitar o local de gravação do Sítio do Pica-Pau Amarelo. Pelo selo Passarada, Claudia publicou ainda Os Três Porquinhos do Agreste. Através das editoras Cortez e Franco

COLEÇÃO COCO DE RODA


REPORTAGEM

Diferentemente dos adultos, os pequeninos não ousam ler aquilo que não lhes agrada Sara Albuquerque | Escritora

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escolas da rede privada de Maceió. Leitora dos romances indianistas de José de Alencar, a dentista Eliana Maria se inspirou nos índios karirisxocós, de Porto Real do Colégio, para escrever o livro Upiara. “É importante que as crianças conheçam a história de vida das tribos indígenas alagoanas”, afirma a escritora. No livro O Baile das Meninas, a pedagoga e escritora Geisa Andrade ambientou sua história no litoral norte de Alagoas para escrever a aventura da menina Deusa. A cidade de São Miguel dos Milagres é o palco dessa trama, onde meninas dançam pastoril em um baile. Também se inspirando na cultura local, os escritores Adélia Souto e Daniel Libardi queriam apenas pesquisar a transferência de histórias orais entre os habitantes do litoral de Marechal Deodoro. A pesquisa, de cunho acadêmico, ficaria somente na universidade, mas os dois resolveram “espalhar” as histórias que ouviram na região. Nasceu o livro Pescando Histórias à Beira-mar, que resgata lendas bastante populares entre os moradores das vilas do litoral alagoano. Marcos da historiografia alagoana, a invasão de Penedo pelos holandeses e a resistência dos escravos do Quilombo dos Palmares foram retratadas em dois diferentes livros da

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coleção. A invasão holandesa em Penedo é contada no livro O que só as Minhocas Podem Ver?, cujas protagonistas são duas minhocas, os únicos seres que conseguem ver o Forte Maurício. De acordo com pesquisas realizadas por arquitetos, arqueólogos e historiadores, as ruínas do forte estão no subsolo da cidade e, portanto, inacessíveis. “Conheci a história do Forte Maurício quando li pesquisas arqueológicas que buscavam apontar sua localização exata sob a atual cidade de Penedo”, revela a autora Luana Teixeira, que é historiadora, doutoranda em História (UFPE) e trabalhou em Maceió, junto ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Explorando com imaginação a infância praticamente desconhecida de Zumbi, a estudante de Direito, Sara Albuquerque, autora do livro O Segredo do Rio Mundaú, dá uma nova interpretação à luta dos escravos pela liberdade. “Para a criança, é mais simples assimilar um Zumbi que brinca, que tem atividades favoritas, como colecionar pedras, e que tem desejos e medos, vindo a ser consagrado como um ‘heroi’”, observa a autora. Para Sara, o forte senso crítico das crianças é o “termômetro” mais importante para atestar a qualidade do livro: “Diferentemente dos adultos, os pequeninos não ousam ler aquilo que não lhes agrada”.


LIVROS

Confira alguns dos livros publicados pelo selo Passarada

O Diário de Dandara 2010 (Claudia Lins e Elis Lopes) Ilustração: Pedro Lucena Os Segredos da Mata 2010 (Claudia Lins, Simone Cavalcante, Tiago Amaral) ilustração: Pedro Lucena No Reino de Bilinguindone 2011 (Claudia Lins) Ilustração: Ddaniela Aguilar Marina Traquina 2009 (Claudia Lins) Ilustração: Pedro Lucena Os Três Porquinhos do Agreste 2008 (Claudia Lins e Vítor Gabriel) Ilustração: Eduardo Menezes A Casa da Reinação 2011 (Tiago Amaral) Ilustração: Tiago Amaral Filho de Peixe, Peixinho não é 2009 (Tiago Amaral) Ilustração: Pedro Lucena Ventania e o Mapa do Tesouro 2011 (Simone Cavalcante) Ilustração: Ddaniela Aguilar Bob no País das Verdurinhas 2009 (Simone Cavalcante) Ilustração: Pedro Lucena

Confira alguns dos livros publicados pela Imprensa Oficial Graciliano Ramos O Segredo do Rio Mundaú 2011 (Sara Albuquerque) ilustração: Bruno Clériston Pescando Histórias à Beira-mar 2011 (Adélia Souto e Daniel Libardi) ilustração: Emanoel Melo O que só as Minhocas Podem Ver? 2011 (Luana Teixeira) ilustração: Chris K Upiara 2011 (Eliana Maria) ilustração: Estúdio Alba O Baile das Meninas 2011 (Geisa Andrade) ilustração: Thiago Oli

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Michel Rios

DOCUMENTA

O poeta alagoano Gonzaga Le達o, que prepara seu quinto livro: quando o poema vai nascendo, tudo pode servir de suporte

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O LABOR POR TRÁS DO POEMA Nesta edição, a Graciliano revela aos leitores os bastidores da produção poética do alagoano Gonzaga Leão JANAYNA ÁVILA A relação muito próxima com os números – advinda da longa atividade como bancário – não impediu que o alagoano Gonzaga Leão vivesse para as letras. Aos 82 anos, ele calcula que o amor à poesia começou aos 12 anos, quando escrevia “uma versalhada”, como ele mesmo costuma classificar sua produção tão precoce. Quando escreve, Gonzaga fica à procura de harmonia, como quem faz música. Enquanto não a encontra, considera o poema inacabado. A construção pode

durar meses ou até anos. Como não gosta de imprimir disciplina a essa produção, vai escrevendo em tudo o que encontra pela frente: caderno, folhas avulsas, guardanapo. Da mesma forma que tudo pode servir de suporte às palavras, Gonzaga não tem a hora ideal para fazer poesia: “Quando escrevi Casa Somente Canto, Casa Somente Palavra, fazia versos até enquanto caminhava”, conta, referindose ao seu penúltimo livro, lançado em 1995, quando diz

que foi “tomado pelo tema da casa”. Antes dele, foram publicados A Rosa Acontecida (1955) e Mar de Encanto (1957). O mais recente foi Preparação da Manhã, lançado em 2005. Em 2012, o poeta planeja lançar um novo livro. Embora finalizada, a obra ainda não tem título. Como uma nova leitura pode sempre melhorar o poema, Gonzaga costuma mexer aqui e ali, aparando arestas que teimam em serem as notas dissonantes. Confira.

OBRA A Rosa Acontecida (1955) Mar de Encanto (1957) Casa Somente Canto, Casa Somente Palavra (1995) Preparação da Manhã (2005)

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DOCUMENTA

Há 40 anos, nasciam os versos de Casa Somente Canto, Casa Somente Palavra, o livro mais conhecido de Gonzaga e cujo tema “tomou”o poeta. Durante o processo criativo, as palavras são moldadas até o poema obter a forma final 86

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O poema acima foi dedicado a Leyde, com quem Gonzaga Leão é casado há 53 anos, no dia do seu aniversário

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DOCUMENTA

Iniciados em 1988, os rascunhos do poema Do Amor mostram o movimento de construção e desconstrução. Alguns escritos podem ficar “adormecidos“ por décadas 88

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Mesmo já datilografado – quando estaria praticamente finalizado – o poema ainda passa pela revisão cuidadosa de Gonzaga, que ajusta a pontuação e elimina ou insere palavras 89

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REPORTAGEM

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QUEM CONTA UM CONTO...

Apesar da predominância do recurso visual no mundo contemporâneo, a literatura oral vem reconquistando seu espaço através dos contadores de histórias. Cada vez mais popular, o hábito de narrar tem contribuído não apenas para aproximar pessoas, mas também para incentivar a leitura e perpetuar contos e lendas de uma determinada região TEXTO: ELAYNE

PONTUAL

ILUSTRAÇÕES: DANIEL

HOGREFE

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REPORTAGEM

Desde os primórdios precisamos nos expressar, contar e ouvir histórias. Seja escrevendo um livro de ficção ou projetando imagens do mundo real, a comunicação é intrínseca ao cotidiano. Mas, antes do surgimento da escrita, da fotografia ou do cinema, o conhecimento era transmitido oralmente. Embora algumas pessoas acreditem que, cada vez mais, a fala esteja perdendo espaço para a escrita, a contadora de histórias, pedagoga e pesquisadora pernambucana Adriana Milet defende que o uso da oralidade é fundamental para que a escrita seja realizada: “O primeiro passo para suprir a necessidade da comunicação humana é através da linguagem verbal. A escuta que nos envolve até chegarmos ao processo de escrita é a oralidade. Nosso ouvido e nossos poros absorvem o que o mundo está dizendo ou sentindo”, afirma. Para a doutora em História Oral e professora da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Clara Suassuna, a fala sempre existirá porque serve de base para a dinâmica social em uma sociedade letrada e funciona como memória para as comunidades ágrafas, ou seja, aquelas que não possuem escrita. “Se pensarmos nas sociedades que ainda não têm a prática da escrita, como algumas

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comunidades quilombolas, suas histórias são passadas de geração a geração através da oralidade”, explica, destacando a importância da narrativa folclórica para a preservação de uma cultura. “O Saci Pererê, por exemplo, é um símbolo mitológico da nossa história que está disseminado em todo Nordeste. A história está cheia de elementos lendários que remontam para uma realidade social, uma realidade cultural de cada grupo”, diz. Um exemplo de registro e disseminação do folclore brasileiro são as obras de literatura infantil do escritor paulista Monteiro Lobato. Ele transportou crianças e adultos de todo o Brasil para um mundo maravilhoso, onde boneca ganha voz, burro desata a dar conselhos e boneco de sabugo de milho é conhecido por sua sabedoria. Além desses personagens, o autor retratou lendas e mitos do folclore brasileiro como o citado Saci Pererê e a Cuca, oriundos da literatura oral, comprovando que escrita e oralidade andam juntas e que uma se fundamenta na outra.

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CONTAÇÃO DE HISTÓRIAS

Apesar de todo avanço da tecnologia, nada substitui a importância do antigo hábito de contar histórias para crianças. Além de divertir e estimular a imaginação, a tradição, presente no mundo inteiro, é uma forma de distribuição social do conhecimento. “Narrar histórias é partilhar e receber o que os outros estão partilhando”, afirmou Adriana Milet, revelando sua paixão pela arte de contar histórias que, depois de um desaparecimento anunciado, vem sendo revitalizada no Brasil e no mundo. A cada ano, surgem não apenas contadores de histórias, mas grupos especializados em transmitir histórias através da oralidade. Ambos investem no aperfeiçoamento de técnicas e fazem da contação uma profissão. Adriana nasceu em Pernambuco e no bairro onde morava sempre aconteciam festas que lhe permitiram ter um contato frequente com a cultura popular. O


interesse pela literatura oral surgiu quando ela iniciou os estudos em música: “A partir daí, entendi minha ligação com a tradição popular e fui compreendendo a literatura oral impregnada nas brincadeiras dos mestres”, diz. Para Adriana, todas as pessoas são contadoras de histórias natas e nascem com o dom de ouvir e narrar, mas aqueles que optaram em fazer dessa arte um ofício são profissionais comprometidos com o potencial imaginativo das pessoas. “Contar histórias significa aproximar, trazer para perto o que está muito próximo e que não conseguimos perceber. Significa também estreitar a distância entre pessoas e desejos”, explica. Adriana atua no projeto Mapeamento da Literatura Oral de Alagoas, realizado pelo Sesc Alagoas, através do Centro de Difusão e Realizações Literárias (CDRL). Organizada em três etapas, a pesquisa é realizada por meio da coleta, transcrição e gravações sonoras e audiovisuais de materiais que envolvem as expressões utilizadas por cantadores, mestres de folguedos e contadores de histórias. O objetivo do estudo é identificar e reconhecer essa literatura, tornando-a uma pequena parte da oralidade acessível à comunidade. “Mesmo que passemos anos fazendo esse mapeamento, nunca iremos

Contar histórias significa aproximar, trazer para perto o que está muito próximo e que não conseguimos perceber Adriana Milet | Contadora de histórias

captar tudo”, diz Adriana. Segundo a pesquisadora, a literatura oral está presente nas comunidades carentes de Alagoas, a exemplo das feiras e da roça, mas falta sensibilidade e percepção para compreender a sabedoria compartilhada pelos habitantes desses lugares. O mestre de Coco de Roda, Nelson Vicente Rosa, contemplado em 2005 pelo Registro de Patrimônio Vivo de Alagoas (RPV/AL), é um exemplo disso. Nelson mora em Arapiraca e coordena, desde 1990, o grupo das Destaladeiras de Fumo de Arapiraca, que reúne dez senhoras cantadeiras. “Ele é a memória viva da tradição oral de Alagoas e do Nordeste. Seu título de mestre é consequência de um trabalho de manutenção da oralidade, realizada não só

em sua comunidade, mas em todo lugar por onde ele passa”, destacou Adriana. O primeiro encontro entre Adriana e o mestre Nelson Rosa foi em maio de 2010, durante uma viagem que a pesquisadora fez para a realização do pré-mapeamento da literatura oral em algumas cidades do interior do Estado. “No primeiro contato com Nelson, entendemos que Arapiraca era um excelente local para iniciar as pesquisas do mapeamento”, lembra. Foi ao pé de um umbuzeiro plantado na casa do mestre, que surgiu, depois de muitas

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O mestre Nelson Rosa, de Arapiraca, e a pesquisadora Adriana Milet: ele é um dos responsáveis pela manutenção da oralidade em Alagoas


Tércio Capello

REPORTAGEM

O mestre Jorge Calheiros: paixão pela literatura de cordel

conversas e contações, a sessão “Umas histórias de trancoso”, onde Adriana e Nelson contam e cantam histórias que fazem parte do imaginário popular de diversas comunidades alagoanas. “A importância da sua arte está em manter pulsando as características do povo alagoano que vive no interior”, diz a pesquisadora. CAUSOS DO NORDESTE

Formado em arquitetura, o poeta paraibano Jessier Quirino costuma dizer que faz parte de outra categoria de contadores de histórias: a de um prestador de atenção das coisas do mato.

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“Essa característica vem de um interesse pela causa que termina resultando em poesia e também nos causos populares. No fim das contas, é um processo de observação e anotação”, explica. Nascido em Campina Grande, cidade paraibana que defende e investe no uso das tradições populares da região, Jessier decidiu dedicar-se a contar histórias e costumes do lugar onde nasceu. “Acredito que a fala, o ar e a textura da vida no interior colaboram muito para que eu tenha sempre contato com a cultura sertaneja. Mesmo com as motos substituindo os cavalos, a internet e a televisão presentes no cotidiano dessas pessoas, impondo sempre modismos, ainda há muita pureza nas tradições locais”, observa. No palco, Jessier lança mão da representação, com humor, do homem nascido no interior do sertão. Fora do palco, o contador de histórias que enfrenta plateias gigantes – já se apresentou para mais de 2 mil pessoas – apenas com a voz, é um homem tímido, que no início da carreira se recusava a declamar poemas de sua autoria. Além de utilizar a oralidade para difundir a cultura nordestina, Jessier transmite os causos populares por meio do registro em livros e CDs. Em mais de 15 anos de carreira, já lançou oito livros. “O

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melhor brinquedo do mundo é a palavra. Quanto mais você brinca, mais você renova”, diz. LITERATURA DE CORDEL

Mestre cordelista contemplado em 2011 pelo Registro de Patrimônio Vivo de Alagoas (RPV/AL), Jorge Calheiros lembra com saudades da infância no Pilar, cidade situada a 34 km de Maceió: “Na época, as pessoas adoravam o cordel e confiavam mais nele do que nos jornais. O cordel era, e ainda é, um jornal que não se esquece, por ser criado em poesia e prosa”, declara. Apesar de ter iniciado a carreira como cordelista, foi apenas aos 45 anos de idade que o artista, hoje com 74, teve tempo e disposição suficientes para escrever 96 edições de cordéis, entre elas Conselho de um Velho Pai, O Pobre e a Medicina e Brigas de Amor. Gabando-se de sua boa memória, afirma ter memorizado livros com 200 estrofes e 58 edições, todas de sua autoria. Gênero literário escrito frequentemente em rimas e que possui forte vínculo com a oralidade, o cordel surgiu na Europa, quando trovadores medievais agrupavam pessoas nas praças e feiras para contar histórias antigas ao som de uma viola. Os relatos orais eram impressos em folhetos


e dispostos em cordões, originando o termo “literatura de cordel”. Frente às transformações vividas, o artista teme que a prática do cordel acabe: “As pessoas estão lendo e escrevendo pouco, por isso estou trabalhando para passar meus conhecimentos”, lamenta. Para ele, a divulgação na TV e nos jornais não é suficiente: “É preciso que o poder público e as escolas deem mais incentivo à leitura do cordel. Alguns professores

DITO E FEITO

acham que o cordel não é cultura, mas quando vou às escolas as crianças compram e aplaudem”, desabafou. Mesmo com a internet, a TV e o rádio, algumas populações interioranas ainda gostam de ler a versão em cordel para fatos reais que dominam o noticiário. “O cordel é contado publicamente e podemos presenciar isso nas feiras do interior. Apesar de termos posse de várias tecnologias, os encontros de cordelistas, repentistas e leitores de cordel ainda persistem como ponto identitário de um povo”, afirma a professora Clara Suassuna, que defende o uso cada vez maior de ações culturais

voltadas à oralidade. “Nossa sociedade é extremamente visual, boa parte do que é produzido por nós é para alimentar o olhar. Então eu pergunto, por que não fazer um alimento para nossa fala?”, questiona. Para ela, boa parte da comunidade brasileira não compreende a oralidade artística e literária. “Temos o costume de não ouvir o que o outro tem a dizer. Até mesmo nós, professores, impedimos que nossos alunos expressem o que pensam e isso vem da ditadura. Mas acredito que, mesmo tendo uma herança violenta, estamos mudando aos poucos essa mentalidade”, diz.

As expressões e ditos populares marcados pela tradição e a oralidade estão presentes de forma tão acentuada no cotidiano que muitas vezes nem nos damos conta. Para explicar o significado de algumas dessas expressões, surgidas principalmente nas regiões Norte e Nordeste do Brasil, a Graciliano foi em busca de alguns desses ditados populares. Confira. O pior cego é aquele que não quer ver

Deixar de nhenhenhém

Significado: diz-se da pessoa que não quer ver o que está

Significado: conversa interminável em tom de

bem na sua frente.

lamúria, irritante, monótona. Resmungo, rezinga.

Casa de mãe Joana

Pensando na morte da bezerra

Significado: onde vale tudo, todo mundo pode entrar,

Significado: estar distante, pensativo, alheio a tudo.

mandar etc.

Não entender patavina

Onde Judas perdeu as botas

Significado: não saber nada sobre determinado

Significado: lugar longe, distante, inacessível.

assunto.

Quem não tem cão caça com gato

Cutucar a onça com vara curta

Significado: se você não pode fazer algo de uma maneira,

Significado: meter-se onde não deve, abusar da

faça de outra.

situação, estar em perigo eminente.

Da pá virada

O apressado come cru

Significado: um sujeito da “pá virada” pode tanto ser um

Significado: nem sempre fazer as coisas

aventureiro corajoso como um vadio.

apressadamente dá bom resultado.

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MICROCONTOS

UM DEDO DE PROSA Ao contrário do haicai, forma poética de origem japonesa que valoriza a concisão, o microconto precisa ter uma narrativa, contar uma história. No último mês de outubro, durante a V Bienal Internacional do Livro, a Imprensa Oficial Graciliano Ramos promoveu a primeira edição de seu concurso de microcontos no Twitter. A ideia era aproveitar a popularidade das redes sociais para incentivar pessoas a contar uma história usando poucas palavras. Os autores tinham um desafio: desenvolver, em apenas 140 caracteres, uma construção que remetesse ao tema proposto. A escolha do melhor microconto foi feita através de voto popular. Confira os textos que participaram do concurso.

ILUSTRAÇÕES:

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DANIEL HOGREFE

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MICROCONTOS

REDES SOCIAIS E LITERATURA

FOLCLORE ALAGOANO

“Dorotéia postou no blog as cartas chilenas que enviou à Helena. Em onze minutos, Tieta curtiu e a senhora moreninha deu RT.” @MilenaCerqueira Milena Cerqueira

“E por ela o saci perdeu a perna; a mula, a cabeça; e o boto ficou rosa. Mas não posso contar quem é ou ela me corta o pé.” @eusouaamanda Amanda Prado

“Subitamente explode em meu peito estes poucos caracteres e arrebenta-me minh’alma. Literatura amada das Alagoas.” @ThayronSabino Thayron Sabino

“O menino, na ponta do pé, sentia tremer seu peito vendo dançar o Guerreiro Treme Terra. Sonhava o dia em que, mestre, puxaria aquele cordão.” @lafontes Larissa Fontes

GRACILIANO RAMOS

BRINCADEIRAS INFANTIS

“Em meio a vidas secas, sua angústia o fortaleceu. Da insônia, fez inspiração. Aventurou-se. Conheceu o mundo. E se fez eterno.” @derlanvilela Clauderlan Vilela

“Pegou seu pincel e pintou um mundo colorido: borboletas vermelhas, girassóis verdes e árvores azuis. Criatividade não tinha cor.” @mentiiira Priscila S.

“O menino via as vidas secas dos viventes das alagoas e sentia angústia. Queria seguir viagem. Adeus, linhas tortas da infância!” @eusouaamanda Amanda Prado

“A menina pulava... E pulava... E pulava... Que alegria! Sua corda parecia costurar uma ponte entre a terra vermelha e o céu.” @eusouaamanda Amanda Prado

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INFÂNCIA

HISTÓRIA DE PESCADOR

“Quando descobriu que não estava dentro de um pote de ouro, ao fim do arco-íris, se viu dentro de um pote de mel, o menino guloso.” @benbernard Ben-Hur Bernard

“Pedro, fui raptado por peixes famintos e só estou aqui porque prometi voltar para dizer o desfecho duma história que os contei.” @MarivaldoOmena Marivaldo Omena

“Era mais um dia daqueles. Sem tempo. De repente, uma canção, uma criança, uma dança. E por um segundo tudo parecia perfeito.” @amabiaalves Amábia Alves

“Camisa rasgada e olhos arregalados. Assim ele me veio. Ele e o susto. Mas o difícil era acreditar naquela história de pescador.” @amabiaalves Amábia Alves

“Ela tinha sabor de giz e, como saci-pererê,faziame querer alcançar o céu.Dez pedrinhas e teria um castelo,uma casa ‘amarelinha’.” @SaraAlbuquerque Sara Albuquerque

“Ai do pescador... Tirava sua vida do mar e o mar acabou por lhe tirar a vida. Deixou noite prematura nos olhos, na vida dos seus” @lud_mi_la Ludmila Monteiro

MACEIÓ “Ao retornar, tinha seus olhos verdes, salgados e ensolarados. Havia neles, a estampa de uma sereia maceioense. Na boca, gosto de lembrança.” @rosepastorinha Rose Ferreira “Ao pisar pela primeira vez em Maceió, soube de imediato que estava em casa. Sentiu os pulmões a encher do bem-acolhimento que nunca tivera.” @rennerboldrino Renner Boldrino “Em Maceió, vi as belas águas do mar e resolvi me banhar. Nadei pra lá e pra cá. Só não esperava que um ouriço iria me espetar.” @ssssamuel Samuel

LITERATURA ALAGOANA “Ledo engano, aqueles Ramos de jambeiro também fizeram parte do mesmo céu que os de laranja Lima.” @eusouaamanda Amanda Prado “As águas que aqui batizam devem ter algo de especial. Aurélio. Graciliano. Jorge. Alagoanos ilustres. Entre páginas eternas.” @derlanvilela Clauderlan Vilela “Garçom, uma dose de Maceió, por favor: três dedos de Fiúza e dois gelos gracilienses num copo de Lêdo Ivo. Aurélio teria entendido.” @SaraAlbuquerque Sara Albuquerque

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REPORTAGEM

DE MÃOS DADAS COM A TECNOLOGIA Embora a tecnologia não seja capaz de transformar literatura de má qualidade num produto melhor, ela é responsável por garantir o acesso a um número maior de pessoas, que leem mais graças a blogs e sites responsáveis por disseminar a produção literária de diversos escritores no mundo inteiro. O livro digital, outra novidade nascida a partir da evolução tecnológica, também vem transformando a relação entre obras e leitores TEXTO:

ELAYNE PONTUAL

ILUSTRAÇÃO:

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MICHEL RIOS

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REPORTAGEM

Um dos primeiros textos literários conhecidos foi registrado pelos sumérios em placas de argila, por volta de 2.700 a.C.. A Epopeia de Gilgamesh, como foi batizado, narra a história de um audacioso rei da Suméria chamado Gilgamesh, que faz laços de amizade com aquele que teria sido criado para representar seu arqui-inimigo, o selvagem Enkidu. Os dois heróis tornam-se inseparáveis, enfrentando, juntos, missões perigosas. Mais de 4.700 anos se passaram e a literatura continua a ser uma das principais ferramentas de representação da realidade. Sua importância atravessou

Segundo a editora Saraiva, os livros digitais são distribuídos até 20% a 30% mais baratos do que os exemplares impressos

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séculos, foi influenciada por fatos históricos e legou à humanidade textos essenciais para a compreensão da trajetória humana. Com a internet, o futuro do livro impresso se tornou um tema discutido cada vez mais entre escritores, profissionais do mercado editorial, leitores e imprensa. A discussão é mundial: as obras literárias impressas passaram a coexistir com o livro digital – também chamado e-book – e com inúmeros blogs e sites nos quais escritores publicam, pela primeira vez, seus textos. Parte do sucesso, cada vez maior, do livro digital devese à vantagem de compactar páginas. As mais de mil páginas do clássico Guerra e Paz, de Liev Tolstói, podem ser compactadas em um suporte de 240 gramas, como o Kindle3. Toda essa imaterialidade tem sido motivo para discussões que envolvem o desaparecimento dos livros físicos. Há quem enxergue no advento de obras digitais o fim da literatura.  Da mesma forma que leitores e escritores se veem diante de um mundo diferente, o mercado editorial também está diante de novos desafios e oportunidades, sendo obrigado a investir no estudo de aparelhos multifuncionais e na digitalização do seu conteúdo. O analista de produtos digitais da editora Saraiva, de São Paulo, André Ferraz, revela

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que a venda de e-books ainda representa uma fatia marginal da receita da empresa. Ainda assim, o crescimento nas vendas animam e, em alguns casos, o exemplar digital chega a representar 5% das vendas totais de um título. “As maiores vantagens comerciais do livro digital são a disponibilidade imediata do conteúdo, a portabilidade e a comodidade de não ocupar espaço na estante do leitor”, diz. Quanto ao valor cobrado pelos exemplares digitais, o analista admite que muitos fatores são considerados, mas que, de modo geral, os livros digitais são distribuídos até 20% a 30% mais baratos do que os exemplares impressos. Os e-books vendidos pela empresa seguem o padrão do mercado: são oferecidos em ePub ou PDF. As plataformas compatíveis são PC, iOS e Android, além dos e-readers compatíveis com o sistema de proteção da Adobe. A Saraiva já anunciou que, em breve, estará em mais plataformas, como BlackBerry e MacOS. “Todos ficam animados com a nova forma de consumir um livro, como se descobrissem uma nova faceta de um hábito. Continuamos evoluindo com nosso aplicativo, bem como o mercado editorial e os consumidores, que irão ficar cada vez mais familiarizados com o conteúdo digital”, arrisca o analista.


BLOGOSFERA E LEITORES Com alcance considerável na internet, o texto literário vem sendo produzido em diversos gêneros. Hiperconto, microconto e ciberpoema são exemplos de produção literária nascida a partir das novas tecnologias. No entanto, é necessário entender que a literatura digital envolve hiperligação, rompimento da linearidade e interatividade, indo além da simples transferência do texto impresso para uma mídia eletrônica. Em meio às diferentes ferramentas presentes na web, o blog é uma das que ganhou mais notoriedade. Como em muitos outros estados, em Alagoas os escritores encontraram nos blogs uma forma de garantir a circulação de sua produção, a exemplo do escritor e ator Nilton Resende, que teve o primeiro contato com a literatura na infância, quando os pais e os tios deixavam os livros ao seu alcance, na estante de casa. “Meu pai não me mandava ler. Eu, curioso, procurava o que estava escondido ali dentro. Era uma boa pedagogia a dele, a de criar a curiosidade”, lembra.    Integrante da companhia de teatro Ganymedes, Nilton vislumbrou na internet uma ferramenta para divulgação de seus trabalhos. O primeiro passo foi criar seu próprio blog,

O blog Trajes Lunares, do escritor e ator Nilton Resende

o Trajes Lunares (trajeslunares. wordpress.com), que hoje lhe serve também como um canal de diálogo com leitores, escritores e imprensa. “O que me motivou a colocar meus pensamentos na web foi a vontade de ser lido, de dialogar com o outro. A vontade de que o outro leia coisas de que gosto, mesmo que não sejam minhas”, diz.  Embora muitas pessoas acreditem que o homem contemporâneo já não tem mais tempo para a leitura, Nilton discorda: “Participo de uma comunidade no Orkut chamada Prosa Contemporânea 2.0. Nela, existem pessoas que leem bastante. Há diversos modos de escrita, diversos tipos de obras, como há diversos tipos de leitores”, analisa. Autor das obras O Orvalho

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O que me motivou a colocar meus pensamentos na web foi a vontade de ser lido, de dialogar com o outro Nilton Resende | Escritor e ator

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REPORTAGEM

e os Dias (poesia) e Diabolô (contos) – este, lançado através do Prêmio Lego de literatura; veja reportagem nas págs. 38 a 51 – Nilton pensa em publicar um romance na web: “Talvez faça o folhetim, mas um pouco falseando a sua natureza. Talvez, já tendo o romance meio pronto, irei colocando-o aos poucos no blog, mas sabendo que tudo aquilo poderá mudar e um capítulo de repente poderá sumir quando o conjunto estiver pronto. O problema é que não aceito a ideia de colocar para o público algo que não tenha sido maturado, algo que não ficou descansando na gaveta ou no HD”, explica.   Para aqueles que desejam “inaugurar” um blog para divulgação de sua produção literária, Nilton dá a dica: “É

faz com que muitos se julguem escritores, quando sequer têm a coragem e a vontade de aprender com aqueles que os precederam. A dica então pode ser esta: não seja arrogante, não tenha certezas. Relativize tudo, principalmente você mesmo”, diz. PREMIAÇÃO De olho na criação de blogs com conteúdo local, em 2010 foi lançado o Prêmio Alagoano de Blogs. Realizado pela então Secretaria de Estado de Planejamento e Orçamento, atual Seplande, e integrante do projeto Alagoas Colaborativo, o prêmio foi concebido como forma de promover a inclusão digital e a difusão do conhecimento dentro do

Lançado em 2010, o Prêmio Alagoano de Blogs foi criado para promover a inclusão digital. A categoria literatura obteve o maior número de inscritos: 21 necessário seguir a intuição e saber se quer realmente fazer arte ou apenas mudar o suporte físico das expressões poéticas que todos produzem, seja em um caderno ou no guardanapo. A possibilidade de criar um blog é infinitamente maior do que a de publicar um livro, o que

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Estado. “Os leitores estão cada vez mais conectados e passam bastante tempo navegando na rede. Nesse contexto, os blogs de literatura desempenham um papel importante, garantindo a veiculação de conteúdos dos diversos gêneros literários

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no ciberespaço”, afirma Ronaldo Araújo, organizador do prêmio, professor de Tecnologia da Informação no curso de Biblioteconomia da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) e dono do blog Cibercultura Alagoana (ciberculturalagoana. wordpress.com). De acordo com Ronaldo Araújo, a categoria literatura do Prêmio Alagoano de Blogs foi a que obteve o maior número de blogs inscritos – um total de 21. “É um número bastante expressivo e considero que ele está longe de refletir a quantidade de blogs de literatura existentes em nossa blogosfera”, afirmou. Para ele, a cultura digital no Estado será promissora quando alcançar a agenda da sociedade como um todo, seja por meio de compromissos firmados pelo governo, pela universidade ou iniciativa privada. Para Karoline Coêlho, estudante de Geografia da Ufal e vencedora do II Prêmio Alagoano de Blogs, realizado em 2011, na categoria literatura, ninguém lê um conto, uma fábula ou um romance para se manter atualizado, mas por paixão: “Se hoje temos blogs de literatura que são lidos, é porque algo começa a mudar na mente e no coração dos alagoanos, e é uma honra poder fazer parte de um pedacinho dessa mudança”, declara.


FIQUE POR DENTRO Saiba o que significa alguns nomes relacionados à tecnologia para literatura digital PC: computador pessoal iOS: sistema operacional presente nos dispositivos móveis da Apple (iPhone, iPad etc.) Android: sistema operacional do Google criado para dispositivos móveis (smartphones e tablets) Blackberry: plataforma desenvolvida pela RIM para smartphones e o tablet Playbook MacOS: sistema operacional desenvolvido pela Apple para computadores do tipo Mac

PRÊMIO ALAGOANO DE BLOGS Blogs vencedores do Prêmio Alagoano de Blogs – edição 2011 Arte e Música: Sirva-se - http://sirvase.net Cidades, Meio Ambiente e Sustentabilidade: CSG Sustentável -http://csgsustentavel.wordpress.com Comunicação: Alagoas Criativa - http://www.alagoascriativa.com.br Corporativo e Melhor Blog: Mammoth -http://www.mammothstore.com.br/blog Educação: Profissão Dentista - http://www.profissaodentista.com.br Esportes e Games: Lets Dive - http://explorerdiving.com.br/blog Literatura: Éramos Apenas Pedras - http://karolinecoelho.blogspot.com Moda: Le Mousse - http://www.lemousse.com.br Opinião: Oras Bolas - http://leoarcoverde.wordpress.com Política: Blog do Fleming - http://cadaminuto.com.br/blog/fleming Profissional: Vida de Executivo - http://www.wesleybs.com/blog Religião: Capela de Fátima - http://capelladefatima.blogspot.com Tecnologia: Web Diálogos - http://www.webdialogos.com Variedades: O que uma noiva precisa saber? - http://www.oqueumanoivaprecisasaber.com

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Asilo

Costurando

Sentou-se à mesa, o papel, a caneta, as palavras crescendo no papel. E a palavra estrada se estendeu diante dele. E a palavra caminho o convidou. E a palavra noite o protegeu. E a palavra estrela o conduziu. E a palavra terra acolheu o refugiado.

Coisa que você não conta pra ninguém. E que pra você mesmo, você conta aos pedaços como se não quisesse contar. Coisa que só a poesia conta, costurando o silêncio.

De repente, não havia ninguém na sala. Sobre a mesa,no papel, as palavras apenas encaravam impávidas.

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Ilustração: Daniel Hogrefe

POESIA INÉDITA


Otávio Cabral O nascimento da poesia

Palavras prêt-à-porter

O poema nasce sorrateiro e solitário dentro da tarde

Diz-se prêt-à-porter Das palavras quando ainda Em forma dicionária Ali calmas hibernadas Todas quietas indefesas Como se desfalecidas Ao relento desvalidas Ou quem sabe concentradas Para quando convocadas Se entregarem corpo inteiro À volúpia passional

Mas a ninguém é dado perceber O poema explode ruidoso e ferozmente dentro da tarde sertaneja mas ninguém escuta o estampido O poeta nem se apercebe do artefato que transporta A primeira explosão é sempre indolor Acontece na rua no bar na padaria da esquina na cama no telhado defronte no mundo na vida A segunda estilhaça o peito do poeta inunda-lhe as veias impregna-se às vísceras e cisca furiosa como um touro acossado Rende-se enfim o poema implorando por socorro Só então o poeta cansado e ferido sai às tontas pelos becos batendo às portas das palavras (é urgente acordá-las às vezes até ressuscitá-las) para que a fúria adormeça e a paz restabeleça

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SAIBA MAIS Para saber mais sobre literatura – um roteiro de livros, site e local de compras

LIVROS

POESIA ALAGOANA HOJE

HISTÓRIA DO MODERNISMO EM ALAGOAS

GRACILIANO RAMOS E O DESGOSTO DE SER

Publicado em 2007, o livro reúne uma coletânea

(1922-1932)

CRIATURA

de reflexões teóricas sobre a poesia alagoana

A partir de uma pesquisa minuciosa em jornais,

Em suas 248 páginas, a obra realiza uma investigação

na atualidade, a exemplo de ensaios de diversos

revistas, livros e documentos da época, o autor

sobre as características autorais e o sistema

intelectuais sobre a obra dos poetas Sidney

aborda a repercussão da Semana de Arte Moderna e

estilístico de símbolos e alegorias na obra de

Wanderley, Gonzaga Leão, Arriete Vilela e outros.

do Movimento Regionalista do Nordeste em Alagoas,

Graciliano Ramos, o escritor alagoano de maior

Autora: Maria Heloisa Melo de Moraes

oferecendo um painel curioso sobre a influência dos

importância na literatura brasileira .

Edufal, 216 págs.

dois movimentos na literatura produzida no Estado.

Autor: Jorge de Souza Araújo, Edufal, 248 págs.

Onde encontrar: na Editora da Universidade Federal

Autor: Moacir Medeiros de Sant’Ana

Onde encontrar: na Editora da Universidade Federal

de Alagoas (Edufal) ou através do site

Edufal, 344 págs.

de Alagoas (Edufal) ou através do site

www.edufal.com.br

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www.edufal.com.br

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LIVROS

SITE

ONDE COMPRAR

LITERATURA EM ALAGOAS

MUNDO LEITURA

DIALÉTICA LIVRARIA E SEBOCAFÉ

Nesse livro, a autora analisa, a partir de uma linha

Lançado em 2011, durante a V Bienal Internacional

Para quem procura livros sobre Alagoas e outras obras

cronológica, os movimentos literários em Alagoas

do Livro de Alagoas, o portal divulga não apenas os

literárias, o alfarrábio é uma das melhores opções.

e seus representantes. Direcionado para alunos e

acontecimentos relacionados à promoção da leitura,

Com um acervo composto por cerca de 20 mil livros,

professores do ensino médio, o livro contém ainda

mas também artigos e reportagens sobre escritores,

o local já se firmou como um dos mais organizados

trechos das obras desses autores.

ilustradores e o mercado editorial. O portal traz ainda

da cidade, condição importante quando se fala em

Autora: Simone Cavalcante

vídeos sobre teatro e outras linguagens artísticas.

sebos. Possui centenas de obras literárias alagoanas,

Produção, 190 págs.

Endereço: www.mundoleitura.com.br

quase todas em ótimo estado e com preço acessível.

Onde encontrar: para consulta, no Instituto

Endereço: Rua do Uruguai,110, Jaraguá

Histórico e Geográfico de Alagoas (IHGAL). Para

Contato: 3313-5115 / 9928-0399

encomendas, através do e-mail

Horário de funcionamento: de segunda a sexta-

simonecavalcantee@gmail.com

feira, das 9h30 às 13h30 e das 15h às 18h30. Aos sábados, das 9h30 às 13h30

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Livros. Tão bom quanto brinquedos A coleção Coco de Roda de livros infantis trata de temas relacionados à cultura e à história de Alagoas.

COLEÇÃO DE LIVROS INFANTIS

atendimento@imprensaoficial.al www.imprensaoficial.al 0800 095 8355 Av. Fernandes Lima, s/n, Km 7, Gruta de Lourdes, Maceió - AL

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Comemorar 100 anos de existência é um bom motivo para buscar a inovação Confira o novo site da Imprensa Oficial Graciliano Ramos: www.imprensaoficial.al

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Graciliano N° 12  
Graciliano N° 12  

Nesta edição, a Graciliano apresenta um panorama da atual produção literária em Alagoas, através de reportagens, artigos e uma entrevista.

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