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REVISTA DA IMPRENSA OFICIAL GRACILIANO RAMOS - MACEIÓ - ANO V - Nº14 - MAIO/JUNHO 2012

DESIGN ALAGOANO E IDENTIDADE CULTURAL As criações nas áreas de moda, produtos e ambientes

ENTREVISTA COM A ESCRITORA E CURADORA ADÉLIA BORGES QUANDO O CASAMENTO ENTRE DESIGN E ARTESANATO PODE SER BENÉFICO A INVENTIVIDADE DOS DESIGNERS GRÁFICOS A IMPORTÂNCIA DO LIVRO ICONOGRAFIA ALAGOANA

Corset em rendas da estilista Martha Medeiros

GRACILIANO Nº 14 R$ 8,00


Desenvolve

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AOS LEITORES A PRESENÇA DO DESIGN Se olharmos em nossa volta, veremos que quase tudo que usamos (incluindo essa revista) foi desenhado. E já que o design está presente em tudo que fazemos e é capaz de influenciar até nossa forma de pensar, é necessário refletirmos sobre ele. Mas a pergunta que deve estar na cabeça de alguns dos leitores da Graciliano é: o que design tem a ver com cultura? A resposta vem em uma palavra: tudo. Design, que alguns dicionários definem como “concepção de um produto ou modelo; planejamento”, incorpora valores culturais, acendendo nossa memória e a ideia de pertencimento, temas cada vez mais discutidos. Quanto ao conceito de identidade cultural alagoana, vale recorrer a uma declaração recente do historiador Luiz Sávio de Almeida, para quem “não importa se existe uma coisa chamada Alagoas ou não. Importa que eu vá discuti-la”. Discutir e beneficiar-se das ideias que nascem desse debate é mais importante do que chegar a uma conclusão. O que esta edição faz é refletir sobre o design e reunir as contribuições mais expressivas dos profissionais alagoanos que se dedicam a

pesquisar e a desenvolver projetos que tenham na relação com Alagoas um de seus objetivos. Não se trata, porém, de buscar o caminho mais fácil nesse diálogo. A construção de produtos que tenham como um de seus elementos a identidade cultural requer pesquisa, reflexão e interpretação original de seu próprio repertório de ideias e referências. Para oferecer ao leitor um panorama do design alagoano de forma mais didática, organizamos o conteúdo em cinco eixos: Moda, Ambientes, Produtos, Design gráfico e Design + artesanato. Neste último, buscamos mostrar o quanto pode ser benéfica para o artesanato alagoano a relação com o design, resultando em produtos cobiçados, que enchem os artesãos de orgulho e geram renda. Os criadores apresentados nesta edição estão atentos às demandas do mercado e sabem que o design expressa o diferencial de qualidade dos produtos, mas sabem também que olhar o entorno e a diversidade cultural brasileira com atenção e inquietar-se diante delas pode fortalecer sua própria noção de design.


EXPEDIENTE

Elayne Pontual

ARQUITETURA E MEMÓRIA Quando recebeu o convite para produzir o ensaio fotográfico para a capa e reportagem sobre moda da Graciliano dedicada ao design, o jornalista, fotógrafo e designer Herbert Loureiro escolheu, como locação, o auditório do Espaço Cultural da Ufal. A escolha não era arbitrária: para ele, assim como para muitos que admiram a arquitetura moderna em Alagoas, o prédio, projetado pela arquiteta Zélia Maia Nobre, uma das fundadoras do curso de Arquitetura da Ufal, foi inaugurado na década de 60 para sediar a reitoria. O projeto tem linhas modernas, com a utilização na fachada de elementos como o vidro, o revestimento cerâmico bicolor, marquise e peitoril de varandas em ferro. O auditório tem piso em madeira e cadeiras originais, o que confere ao espaço um resgate da atmosfera dos anos 60 e uma breve reflexão sobre a importância do design em todos os aspectos da vida cotidiana. Capa e fotos das págs. 40, 41, 43 e 44 Modelo: Isabela Montenegro

Corset com shape peplum em renda: Martha Medeiros

Beleza: Mônica Lyra Arruda Studio de Beleza

GOVERNO DO ESTADO

IMPRENSA OFICIAL

DE ALAGOAS

GRACILIANO RAMOS

Teotonio Vilela Filho

Moisés de Aguiar

Janayna Ávila

Herbert Loureiro

Governador de Alagoas

Diretor-presidente

Editora

Foto de capa

José Thomaz Nonô

Hermann de Almeida Melo

Michel Rios

Marli Josefina

Vice-governador de Alagoas

Diretor-comercial

Projeto gráfico / Diagramação

Revisão

Luiz Otavio Gomes

José Roberto Pedrosa

Elayne Pontual,

Marta Melo, Vânia Amorim,

Secretário de Estado do Planejamento e do

Diretor-administrativo financeiro

Lucas Almeida

Sebrae-AL e Usina Coruripe

Desenvolvimento Econômico

Janayna Ávila

Roger Ferraz

Colaboração

Coordenadora editorial

Estagiários

Michel Rios Editor de arte

Contatos:

Graciliano é uma publicação da Imprensa Oficial Graciliano Ramos

0800 095 8355 | editora@imprensaoficial.al

Os textos assinados são de exclusiva responsabilidade do autor. ISSN 1984-3453


SUMÁRIO

ENTREVISTA

O DESIGN NOSSO DE CADA DIA ADÉLIA BORGES

REPORTAGEM

UMA EXPERIÊNCIA PARA AGUÇAR OS OLHOS CLEVIS OLIVEIRA

JANAYNA ÁVILA

UMA REVOLUÇÃO SILENCIOSA

REPORTAGEM

CLEVIS OLIVEIRA

A MODA E O CROQUI

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MODA FEITA À MÃO

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REPORTAGEM

CLEVIS OLIVEIRA

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DOCUMENTA

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40 ENSAIO VISUAL

ALAGOAS DO DESIGN GRÁFICO CHICO MEDEIROS HERBERT LOUREIRO ESTÚDIO RECA ROBSON ARAÚJO RODRIGO AMBROSIO THIAGO OLI TIAGO PRETO ZEROPIXEL

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REPORTAGEM

MENTES, MÃOS E MERCADO ACÁSSIA DELIÊ

ALAGOAS E SUA ICONOGRAFIA

REPORTAGEM

JANAYNA ÁVILA

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LIVROS E DOCUMENTÁRIOS SOBRE DESIGN

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SAIBA MAIS

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ENTREVISTA

O DESIGN NOSSO DE CADA DIA Em entrevista à Graciliano, a jornalista, escritora e curadora Adélia Borges, uma das maiores especialistas em design, traça um panorama do setor no Brasil e fala sobre os designers alagoanos TEXTO: JANAYNA FOTO:

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ÁVILA

MARIANA CHAMA

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AdĂŠlia Borges, para quem o design faz parte do cotidiano: “Acho importante levar o design para a sociedade, para ser discutido por todosâ€?

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Clix

ENTREVISTA

Exposição Design, inovação e sustentabilidade, na Bienal Brasileira de Design 2010, em Curitiba

Durante o período em que atuou no jornal Adélia falava à indústria sobre a importância de investir em design

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O nome de Adélia Borges costuma estar diretamente associado ao design no Brasil desde a década de 80. Não é à toa: a mineira, radicada em São Paulo há pelo menos 30 anos, dedica-se a criticar, revelar, promover e refletir sobre o tema desde os primeiros anos de sua carreira como jornalista, iniciada há 40 anos. Com passagem pelos principais veículos de comunicação do País – Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo, TV Cultura e TV Globo –, foi em 1987 que Adélia passou a se especializar em design, como diretora editorial da revista Design e Interiores. Em 1998, ciente de que era preciso falar cada vez mais

ao empresário brasileiro sobre a importância de se investir em design, estreou como editora e colunista do jornal Gazeta Mercantil. Sua coluna semanal tratava do tema com uma linguagem acessível e em sintonia com as necessidades dos consumidores, contribuindo para ampliar a discussão sobre design. Da mesma forma, de 2003 a 2007, dirigiu o Museu da Casa Brasileira, instituição do governo de São Paulo que ganhou público e visibilidade graças a uma gestão pautada pela popularização do espaço via exposições temporárias e ações educativas. Hoje, sua atuação acontece


de três formas: na produção de textos (para livros e revistas, como Bravo, Casa Vogue, Kaza e Arc Design, no Brasil), em exposições e na formação, através de aulas e palestras. Adélia tem 10 livros publicados, entre eles destacam-se: Designer não é personal trainer (editora Rosari) e o recémlançado Design + Artesanato: o caminho brasileiro. Como sempre atuou profissionalmente a partir do ponto de vista de quem consome design, Adélia acredita que isso a ajudou a ficar mais atenta: “Minha perspectiva é a do usuário, do cidadão comum – não de quem faz ou projeta. Acho importante levar o design para a sociedade, para ser discutido por todos. É um assunto que faz parte do cotidiano de todos nós, então todos deveríamos nos conscientizar de sua presença, que pode ser boa – quando o resultado de um projeto é bom – ou ruim, no caso oposto. É importante desenvolver o espírito crítico das pessoas, a capacidade de discernimento”, declara. Em entrevista à Graciliano, Adélia, que já esteve em Maceió algumas vezes – para ministrar palestras ou simplesmente para conhecer o artesanato e a arte popular de Alagoas – fala da importância do design no cotidiano, dos conceitos de sustentabilidade e de identidade e da produção da Ilha

do Ferro, no Sertão alagoano, a qual considera “uma feliz confluência entre o design popular, o artesanato e a arte propriamente dita”. Confira. GRACILIANO – Em 2010, quando foi responsável pela curadoria da Bienal Brasileira de Design, realizada em Curitiba, você declarou que o design brasileiro vive hoje seu melhor momento. Por quê? ADÉLIA BORGES – São vários os indicadores que respaldam essa informação. Nunca tivemos tantos designers premiados em concursos internacionais como agora, inclusive no iF Design, um dos mais disputados, que ocorre paralelamente à feira de Hanover, na Alemanha. Na última década, um número considerável de revistas especializadas dedicou edições especiais ao Brasil. Os irmãos Campana são unanimemente citados nas listas dos melhores designers mundiais, uma exposição preparada pelo Vitra Design Museum, da Alemanha, está percorrendo museus e centros culturais prestigiosos do mundo todo. Quanto aos fatores que explicam esse boom, eles podem ser encontrados em dois parâmetros principais. O primeiro é econômico: a abertura do mercado brasileiro aos produtos importados em 1990 levou a uma maior aposta dos empresários brasileiros no design para fazer frente à

concorrência internacional. Ainda não há uma consciência entre os empresários brasileiros tão difusa quanto a que podemos encontrar na Itália ou na Escandinávia, por exemplo, mas a situação melhorou muito. O outro parâmetro é político: com a abertura democrática, há um florescimento geral da economia criativa, na qual o design se insere. Devemos lembrar ainda que o contexto internacional atual favorece a multilateralidade das trocas culturais: elas não são mais unilateralmente dirigidas de alguns centros localizados no hemisfério norte para o “resto” do mundo, e isso favorece países até então considerados

Nunca tivemos tantos designers premiados em concursos internacionais como agora

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Mariana Chama

ENTREVISTA

periféricos como o Brasil. Naquele ano, a Bienal teve como tema “design, inovação e sustentabilidade”. É possível hoje pensar na longevidade de um projeto sem que ele tenha sido concebido a partir de uma proposta de sustentabilidade? Quando realmente deixaremos de lado as chamadas frases de efeito e partiremos para algo concreto? A Bienal procurou mostrar exemplos inspiradores vindos de todas as regiões do País de objetos que fossem além das frases de efeito. Acho que conseguimos dar conta disso e mostramos uma enorme variedade de produtos e

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serviços que atendem, em maior ou menor grau, aos critérios sustentáveis. É bom deixar claro que o 100% sustentável não existe, a não ser no discurso do marketing: qualquer projeto sempre terá um impacto, por menor que seja. Os critérios são inúmeros – e um deles, talvez o principal, é justamente o de projetar objetos com longevidade, com uma qualidade técnica e estética que transcenda o tempo. A equação é consumir menos e melhor. Você costuma afirmar que, como não possui formação em design, seu olhar sobre o tema sempre foi o de “alguém de

fora”. Isso a torna mais próxima do consumidor, para quem o design realmente existe? Sim, com certeza. Minha perspectiva é a do usuário, do cidadão comum – não de quem faz ou projeta. Acho importante levar o design para a sociedade, para ser discutido por todos. É um assunto que faz parte do cotidiano de todos nós, então todos nós deveríamos nos conscientizar de sua presença, que pode ser boa – quando o resultado de um projeto é bom – ou ruim, no caso oposto. É importante desenvolver o espírito crítico das pessoas, a capacidade de discernimento. As exposições nos museus


Exposição Bancos indígenas: entre a função e o rito, no Museu da Casa Brasileira/SP, em 2006

e os textos na imprensa são ferramentas importantes para aumentar essa percepção consciente do cidadão comum a respeito do design. E como teve início a sua dedicação ao design? Aconteceu naturalmente, no dia a dia, ou você planejou especializar-se na área? Não planejei, aconteceu... No início dos anos 1970 eu trabalhava como repórter no jornal O Estado de S. Paulo e fui destacada para fazer uma viagem por todas as áreas metropolitanas do País, que acabavam de ser instituídas. Eu me lembro do impacto positivo que tive ao ver as

obras de design que o então prefeito Jaime Lerner, ele próprio um arquiteto e designer, desenvolvia em Curitiba. Mas o início da minha especialização propriamente na área foi em meados dos anos 1980, quando me tornei diretora editorial da revista Design & Interiores. A revista foi a primeira publicação especializada em design no País. Naquela época, como era escrever sobre design no Brasil? Na época, design era uma palavra desconhecida e faltavam as informações mais básicas. Hoje as seções de design nas revistas de decoração se multiplicam,

e há alguns títulos voltados especificamente a design. Os jornais diários também passaram a dar mais atenção ao tema, embora ainda não seja suficiente, a meu ver. Não temos no Brasil uma coluna com a abrangência e a seriedade da que a jornalista Lujan Cambariere escreve semanalmente no jornal Pagina 12, de Buenos Aires, para citar um exemplo de um país vizinho. De quando você começou a atuar na área, nos anos 1970, para cá, o que mudou de forma expressiva no design brasileiro? O que mudou é que ele

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ENTREVISTA

André Otero

Exposição Meninas Geraes, no Museu da Casa Brasileira/SP, em 2003: uma das dezenas de mostras com curadoria de Adélia Borges

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cresceu e se disseminou. Me lembro nos anos 1980 das pessoas dizendo: mas como você vai escrever sobre design se não existe design no Brasil? E existia sim, o que não existia era a comunicação sobre ele. Hoje há mais de 120 cursos universitários e escritórios de profissionais espalhados por todas as regiões do País. Houve um florescimento geral da atividade. No Brasil, predomina ainda a ideia de que design é apenas para uma pequena parcela da população, as classes com maior poder aquisitivo, embora em quase tudo que usamos haja uma solução pensada por

um designer. Por que essa ideia prevalece no Brasil? Essa ideia prevalece porque, em comparação com outros países, não há no Brasil uma tradição de design urbano e design para todos. Quando vamos a uma repartição pública, por exemplo, a norma ainda é, infelizmente, a sinalização ruim, os assentos desconfortáveis... Mas isso está mudando rapidamente. A afluência das classes sociais, sua incorporação ao mercado de consumo, também está levando a um investimento bem maior por parte dos industriais para tornar o seu produto melhor e mais atraente. Você poderia citar alguns exemplos do uso diário do design no Brasil que as pessoas nem percebem e, no entanto, são soluções muito eficientes e absolutamente acessíveis? Creio que a caneta BIC seria um deles, não? Seria sim, a BIC é um ícone. Foi projetada na França e vem sendo produzida em altíssimas séries no mundo todo. Mas é só olhar para os lados para verificar a presença do design. Podemos falar do clips de papel, do lavador de arroz, do copo de requeijão com um selo que possibilita que a gente abra o frasco sem se machucar... Escovas de dente, o pen drive que permite o transporte de arquivos num espaço muito reduzido... Quais as características mais


fortes do design brasileiro? A capacidade de projetar com meios e materiais que estejam acessíveis é a principal, a meu ver. Isso vem da tradição popular de improvisar a partir de condições muitas vezes precárias, que estão longe das ideais. Não temos tanta tradição de artes e ofícios passada por corporações através das gerações, por isso a invenção tornou-se um atributo da nossa cultura. Podemos falar também do frescor de ideias. Como há muito por se fazer, não há aquele peso com que os europeus, por exemplo, têm de se defrontar. Há uma liberdade projetual maior. Considerando que, no Brasil, a violência tem aumentado e o trânsito tem tornado o cotidiano muito mais difícil, qual o papel do design urbano? De que forma ele pode ajudar? Pode ajudar colaborando com soluções que visem o bem-estar da coletividade, e não apenas de seus estratos mais ricos. Esse é o grande desafio. O designer tem um papel importante nisso em equipes multidisciplinares, nas quais o urbanista tem obviamente o papel principal. Muitos designers têm projetado sistemas de transporte coletivos muito interessantes, mas infelizmente ainda não há uma vontade política suficiente para implementálos. São soluções muitas vezes custosas, porque tudo o que

foi feito nas cidades até agora foi pensando no carro de uso praticamente individual, então a lógica toda tem de ser transformada. Mas também há soluções “pequenas” que obtêm um alto impacto benéfico, como a decisão da seguradora Porto Seguro de dotar os seus socorristas de bicicletas elétricas. Como cerca de 80% dos pedidos de socorro se devem a casos de bateria arriada, o atendente consegue resolver a maior parte das chamadas sem ser ele próprio um fator de piora do trânsito. Apenas nos 20% dos casos restantes uma viatura ou um guincho se dirigem ao local da chamada. Eu mostrei esse projeto na Bienal, o design é do André Poppovic, da Oz Design, de São Paulo. Hoje, a noção de identidade,

Em comparação com outros países, não há no Brasil uma tradição de design urbano e design para todos

Clix

Exposição Reinvenção da matéria, na Bienal Brasileira de Design 2010, em Curitiba

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Mariana Chama

ENTREVISTA

Exposição Puras Misturas, no Pavilhão das Culturas Brasileiras/SP, em 2010

de pertencimento tem sido uma necessidade não só de pessoas como também de marcas, de projetos de design. A que você atribui isso? Acho que essas noções se tornaram muito importantes à medida que a globalização e o desenvolvimento tecnológico avançaram. Somos todos hoje cidadãos do mundo, estamos a um e-mail ou um post no Facebook de distância de alguém do outro lado do planeta. Boa parte de nosso cotidiano se dá na esfera digital, ou virtual. Nesse contexto, reforçam-se a necessidade de pertencimento e a ligação afetiva com o local em que vivemos e/ou de onde viemos.

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Ao atuar como editora de design e colunista no jornal Gazeta Mercantil, no caderno Fim de Semana, você tornou seus textos sobre design mais próximos de dois tipos de leitores: o público da área de negócios e o leitor comum, interessado no tema. Uma prova disso é que muitos leitores se manifestavam, contando histórias que dialogavam com seus escritos. O que isso representou para sua visão sobre design? Essa foi uma grande experiência. O jornal contava com uma equipe extraordinária, tendo à frente o jornalista Mario Alberto de Almeida, e pudemos fazer uma

cobertura continuada do tema do design, encarado tanto sob o ponto de vista do negócio, do marketing, quanto sob o ponto de vista da cultura. Conforme a pauta tratada e o enfoque dado a ela, o artigo saía em uma ou em outra editoria. Também mantive durante três anos uma coluna bem informal, escrita em primeira pessoa, que possibilitava essa aproximação com o público e esse verdadeiro diálogo que se estabeleceu. Eu havia procurado o jornal me oferecendo como colaboradora porque sentia que o design brasileiro precisava ser melhor compreendido pelos empresários, pelos gestores tanto privados quanto públicos.


junto à imprensa excelente. Nosso setor educativo foi indicado para um prêmio na Dinamarca, por ampliar a discussão sobre o design para jovens da periferia de São Paulo. O museu fervilhava, foi muito bom! No entanto é muito penoso dirigir instituições públicas culturais em nosso País, os recursos são escassos e a maior parte da energia dos dirigentes tem de se voltar para a captação de dinheiro e não para as áreas-fim de um museu. Esse quadro precisa ser revertido. Seu livro mais recente, Design + Artesanato: o caminho brasileiro, trata da aproximação, cada vez mais duradoura, entre design

e artesanato, para o bem de ambos, já que temos um dos artesanatos mais expressivos do mundo. Como os mercados interno e externo vêm respondendo a essa “revitalização recente do objeto artesanal brasileiro”? A questão do mercado ainda é o grande nó. É muito fácil encontrar produções artesanais primorosas País afora, coisas que encantam os olhos e a alma. No entanto, faltam canais idôneos e adequados de distribuição e venda. Essa logística ainda é deficiente, e esbarra logo no início do ciclo no fato de que o governo exige do artesão o mesmo comportamento fiscal e contábil que exige

Rochelle Costi

Acho que conseguimos isso, as cartas e os e-mails dos leitores eram muito estimulantes. De 2003 a 2007 você dirigiu o Museu da Casa Brasileira, instituição do governo de São Paulo que atua também no incentivo ao design, ao realizar uma das mais importantes premiações da área, o Prêmio Design Museu da Casa Brasileira. Como foi a experiência de estar à frente do museu? Foi muito boa, meus horizontes se ampliaram muito e o feedback do público foi extraordinariamente bom. No meu período de quatro anos à frente do museu a visitação anual aumentou mais de 400% e tivemos uma repercussão

Exposição Design brasileiro hoje: fronteiras, no Museu de Arte Moderna de São Paulo, em 2009

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Mariana Chama

ENTREVISTA

Exposição Ícones do design: França/Brasil, no Museu da Casa Brasileira, em 2009

de empresas grandes, bem estruturadas. No entanto muitos artesãos são iletrados e vivem na informalidade. Essa é a grande mudança necessária. Quando essas dificuldades são superadas, ou seja, quando se consegue ofertar um objeto ao consumidor no lugar certo, com o preço certo, exposto de maneira digna, os mercados interno e externo reagem muito bem. Essa aproximação tornase urgente também porque envolve não apenas a questão da geração de renda, mas também o desenvolvimento sustentável, não é? É isso mesmo. Devemos ter em mente que o artesanato contempla todas as dimensões do desenvolvimento sustentável. Ele é ambientalmente responsável, economicamente inclusivo e socialmente justo, e tem ainda o que vem sendo apontado

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como o quarto pilar do desenvolvimento sustentável, que é a questão da identidade cultural. Sobre Alagoas. O que você conhece no Estado, na área de design, que merece ser mencionado? Tem muita gente boa, muita coisa bacana acontecendo. A começar dos três que eu incluí na Bienal Brasileira de Design: a Maia Piatti, o Rona Silva e Eduardo Queiroz. Ana Maia e Rosa Piatti têm um magnífico trabalho que se desdobra em tantos diferentes suportes – tanto nas roupas como nos artigos para decoração. Rona Silva reinventa o papelão reciclado transformando-o em móveis muito bons. E Eduardo Queiroz é um dos grandes nomes do design sustentável em nosso País, tanto assim que seu produto Favo Verde, que mostrei na Bienal, ganhou depois um ouro no prêmio iF

Design, da Alemanha. Você também teve a oportunidade de conhecer o artesanato local? No início dos anos 2000, quando o Sebrae tinha um armazém local no bairro de Jaraguá, fiz uma visita e fiquei impressionada com a variedade de técnicas e de suportes, dos têxteis (rendas, bordados) aos objetos feitos de madeira. A coleção da Tânia de Maya Pedrosa, além das magníficas peças de arte popular nordestina, que algumas vezes remete, de forma muita expressiva, ao artesanato. Vi também algumas exposições no Museu Théo Brandão e o excelente livro Mestres Artesãos das Alagoas, coordenado por uma grande conhecedora do tema, a museóloga Cármen Lúcia Dantas, com fotos do Ricardo Lêdo, que fazem jus à beleza das peças. Mas o


meu conhecimento ainda é superficial, eu gostaria de aprofundar mais. O que eu conheci mais de perto é o trabalho do boa noite, feito na Ilha do Ferro, que incluí em meu último livro. Você planeja realizar uma grande exposição, no Pavilhão das Culturas Brasileiras, dedicada à Ilha do Ferro. Por qual razão você, que é uma curadora voltada essencialmente para o design, decidiu fazer uma mostra sobre o povoado e seus artesãos? A meu ver se encontra hoje na Ilha do Ferro uma feliz confluência entre o design

popular (categoria na qual incluo os objetos utilitários e móveis que eram feitos pelo Fernando Rodrigues e hoje são concebidos por vários criadores), o artesanato (com esta técnica do boa noite, que só existe ali) e a arte propriamente dita, com as esculturas de tantos e renovados artistas. Creio que essa produção está no seu auge atualmente. Meu desejo é dar visibilidade a ela num local de prestígio, em São Paulo, que é hoje a capital cultural do País. O Pavilhão das Culturas Brasileiras se presta bem a isso. Essa instituição museológica

recém-criada pela prefeitura paulistana ocupa um edifício no Parque do Ibirapuera projetado por Oscar Niemeyer nos anos 1950 e tem em sua missão justamente a valorização da criação popular brasileira. Quanto a estar habituada à área do design, é verdade, no entanto eu já fiz algumas mostras em que as artes visuais também estavam presentes. E, além do mais, uma das características da contemporaneidade é terem caído por terra as fronteiras antes tão rígidas entre disciplinas e atividades. É preciso lembrar que a exposição ainda não está confirmada, pois estamos justamente na fase de captação de recursos.

ÍCONES DO DESIGN BRASILEIRO PARA ADÉLIA

1. Poltrona Mole, de Sérgio Rodrigues 2. Calçados Melissa 3. Sandálias Havaianas 4. Jato Legacy 5. Calçada de Copacabana

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Divulgação

REPORTAGEM

UMA EXPERIÊNCIA PARA AGUÇAR OS OLHOS Na arquitetura e no design de interiores uma relação direta com o artesanato, as artes visuais e o saber do homem do povo nos projetos de Christine Porto e da dupla Creuza Lippo e Sandra Leahy

TEXTO: CLEVIS

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OLIVEIRA

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No projeto da barraca de praia Lopana, na Ponta Verde, a inspiração vem da paisagem, do artesanato e da gastronomia. Aqui, os sombreiros que receberam forros de tecidos com estampas coloridas

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REPORTAGEM

Difícil imaginar a paisagem da orla urbana de Maceió sem a barraca de praia Lopana. Isso em parte se deve ao projetos arquitetônico e de interior saídos da prancheta de Christine Porto. A sensibilidade da arquiteta transparece no projeto, um espaço carregado de sentidos. “Desde o princípio a ideia que se tinha era de criar um espaço que mexesse com a percepção sensorial das pessoas, que mudasse o hábito dos alagoanos. Na verdade, era um resgate da praia urbana aliada à qualidade de vida. Por isso, foi natural o nosso interesse em ter aqui diferentes ícones da nossa cultura, dessa coisa do feito à mão, afinal somos muito manuais. Então, demos ênfase ao que a gente tinha de melhor do Litoral Norte ao Litoral Sul, sempre pensando em produtos sustentáveis. Claro que há um desafio muito grande quando se trabalha com um produto artesanal. É preciso entender, conhecê-lo, principalmente porque não queríamos que um produto interferisse no outro”, detalha Christine. O estilo descontraído do projeto e a sensibilidade da arquiteta em relação ao meio ambiente trouxe harmonia ao entorno. O bar retira parte de sua inspiração da própria forma do terreno e harmoniza-se com o todo. Nas peças de mobiliário, estão traços do artesanato local: as mesas de jaqueiras e

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os suplats foram produzidos por artesãos de São Miguel dos Milagres; já as mesas da área climatizada ganharam tampos de vidros com o filé, o famoso rendado do Pontal da Barra; já os coqueiros que estão dentro da barraca exibem tramados de zinco que dão um toque de sofisticação ao ambiente. “Como a gente recebe alagoanos e turistas, a nossa intenção era aguçar a curiosidade deles sobre o que é produzido no Estado. A gente, de alguma maneira, vende o que o lugar tem de melhor e não é só a culinária do Lopana”, observa a arquiteta e completa: “Em todo projeto meu, trago a brasilidade. Na verdade, acho que é uma responsabilidade nossa, de agregar ao projeto o nosso lado cultural, seja por meio do povo, da música, da gastronomia, do artesanato”. No local, o que também chama a atenção são os lustres feitos a partir da reutilização de garrafinhas de leite de coco da Sococo, de autoria da designer Maria João. Por lá, também é possível conhecer o traço do designer gráfico e de mobiliário Rodrigo Ambrosio. É dele o desenho que ilustra o cardápio do Lopana e o avental dos garçons. “A ilustração foi inspirada no pôr do sol, no ponto de encontro dos pequenos e grandes barcos e, claro, em seu típico formato de cabana caeté”, detalha Ambrosio.

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Fotos: Michel Rios


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1. O sousplat de palha utilizado no Lopana foi produzido por artesãs de São Miguel dos Milagres 2. Produzidos pelas artesãs de Feliz Deserto, os pufes são feitos com a palha da taboa 3. e 4. O filé está no tampo das mesas do espaço climatizado da barraca e também no detalhe do mezanino. O lustre de garrafinhas de leite de coco é assinado pela designer Maria João

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Fotos: Rogério Maranhão

REPORTAGEM

Basta atravessar a porta que dá acesso ao interior do hotel Radisson Maceió para perceber que o lugar carrega alguns traços da cultura alagoana. É bem verdade que nada ali foi usado para enfatizar um olhar regionalista. Ao contrário, tudo é muito contemporâneo. O projeto de interiores é fruto do trabalho das arquitetas alagoanas Creuza Lippo e Sandra Leahy. “Design e identidade cultural era o que mais queríamos transpor para esse projeto. Acreditamos que viajar e ser hóspede de um hotel é uma experiência que aguça os sentidos. Então, a nossa proposta era que o projeto de interior tivesse toques sutis que ajudariam a contar um pouco do que é Alagoas”, explica Creuza. As primeiras impressões ficam evidentes já no hall do hotel, com pé direito duplo, que ganhou esculturas do artista plástico Reinaldo Lessa. As peças fazem alusão às velas das jangadas que repousam a poucos metros do hotel. Os quadros que preenchem as paredes do lobby também são do artista e fazem referência às

No hall do hotel, destaque para a escultura de Reinaldo Lessa que faz alusão às jangadas de pescadores

No quarto, as referências a Alagoas estão nas palhas de coqueiros e no azul da roupa de cama

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TRAÇOS DA CULTURA ALAGOANA

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Outro destaque do hall é a mesa de centro feita com tronco de jaqueira

rendeiras do Pontal da Barra, em Maceió, e também à técnica milenar conhecida como renda de bilro. Já a recepção ganhou interferência valiosa com uma escultura de tronco de jaqueira executada pelo artesão André, um dos filhos do escultor Manuel da Marinheira, de Boca da Mata. Creuza explica que o tema água serviu de norte para a ambientação dos andares e também dos quartos. Ela e a sócia elegeram para cada andar um painel que remete às praias alagoanas como Piaçabuçu, Pontal de Coruripe e Francês... “A gente queria passar uma mensagem sobre cada

localidade e, com isso, aguçar a curiosidade do hóspede, primeiramente por meio de um turismo interno no próprio hotel e depois através da visita às localidades”. Com uma linguagem bem autoral, as arquitetas trabalharam com tons de azul nas almofadas, poltrona e na pezeira. Já na parede atrás da cama, uma imagem em tom de cinza projeta a sombra do coqueiro, algo bem característico do litoral alagoano. “A ideia era aproximar o interior do exterior. De fato, queríamos fazer do quarto uma extensão da Enseada da Pajuçara”,

detalha Sandra. “Toda a parte de amenities [itens de higiene pessoal disponibilizados aos hóspedes] e as bandejas de lanche foram feitas com a palha de ouricuri e desenvolvidas pelas artesãs de Pontal do Coruripe”, completa. Aliando um design contemporâneo aos traços históricos e artísticos de Alagoas, Creuza e Sandra escolheram o restaurante para retratar imagens antigas de Maceió. O espaço também ganhou mobiliário em tons de azul que faz referência ao mar. Na verdade, ambos os projetos souberam unir modernidade e identidade cultural.

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REPORTAGEM

UMA REVOLUÇÃO SILENCIOSA Com uma verve criativa aguçada e buscando referências das mais diversas que passeiam pela memória afetiva e identidade cultural, o design brasileiro ganhou visibilidade internacional. Por aqui, essa história vem sendo contada pelas mãos de jovens criadores como os alagoanos Rona Silva, a dupla Ana Maia e Rosa Piatti, Rodrigo Motta, Rodrigo Ambrosio e o curitibano Eduardo Queiroz TEXTO: CLEVIS

OLIVEIRA

Não há nada mais impactante, especialmente no design, que criações à frente do próprio tempo, inovadoras. Melhor ainda é perceber que essas inovações em nada se assemelham ao que é produzido em outras culturas, outros continentes, e por isso podem ser consideradas absolutamente originais. Mesmo que ainda cause certo estranhamento entre

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alguns estudiosos do tema, o Brasil começa a chamar a atenção do mundo pelo seu design autoral, cheio de bossa, e com as marcas da sua diversidade tão característica. E não poderia ser diferente, ao imaginar as dimensões continentais do País. É também perceptível o interesse dos criadores tupiniquins em buscar inspiração na própria cultura. Afinal, como ignorar

o artesanato brasileiro, as manifestações populares, as habilidades manuais, a diversidade de matéria-prima, a memória afetiva? Na verdade, é difícil imaginar design sem traços culturais, sem a relação direta com o lugar no qual está inserido. Em entrevista à revista Casa Vogue, em 2011, a jornalista, escritora e curadora Adélia Borges afirmou que o design brasileiro


Michel Rios

O designer Eduardo Queiroz, da Ekobe, encontrou na casca do coco – antes descartada – a matéria-prima para um revestimento elegante e resistente

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REPORTAGEM

é mestiço, é um design que se contamina. “Há várias identidades – podemos falar em identidade no plural. O que une essa identidade no plural é uma enorme capacidade de criar em condições não ideais, nas condições que estão dadas naquele momento e lugar, com os materiais e as tecnologias que estão à mão. Essa capacidade de improvisação nós temos de sobra, e isso leva a uma coisa mais de informalidade, leveza, alegria, despojamento, tem um certo humor, um frescor”, sentencia. O que Adélia Borges diz, com clareza e conhecimento de

causa, fica evidente no processo criativo de designers como o alagoano Rona Silva. Para construir peças de mobiliário e objetos decorativos, ele busca inspiração na própria cultura. “Somos feitos de referências. Isso vai desde os lugares onde morei, espaços que frequentei, informações a que tive acesso... Não posso negar que a cultura popular e a cultura de massa, estão impregnadas na minha memória afetiva”, conta o designer à revista Graciliano. Para o designer alagoano Rodrigo Motta, o lugar que se habita é sempre uma fonte de inspiração: “As melhores

inspirações podem estar do seu lado e não importa se o entorno é formado pelas classes A e B ou C e D. O mais importante é dar valor às suas raízes, não importando de onde elas venham”, defende. A seguir, você confere o ofício de alguns dos principais designers alagoanos, além de ficar por dentro da história do empresário e designer curitibano Eduardo Queiroz, o grande responsável por transformar a casca do coco num dos produtos mais cobiçados pela indústria de revestimento e fábricas de mobiliário do Brasil e do mundo.

ARTIGO DE LUXO: CASCA DO COCO VIRA PASTILHA DE REVESTIMENTO

Foi como designer industrial, numa fábrica de fogões, que o curitibano Eduardo Queiroz deu início à sua trajetória na indústria brasileira. À época, também mantinha um ateliê onde criava joias para grandes clientes do Sudeste do País. “Tive uma cliente que queria uma coleção inteira em ouro e marfim. Na época, tinha noção do que os comerciantes eram capazes de fazer para obter as presas dos elefantes. Isso

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me deixou muito inquieto e acabei desistindo da compra. Então, tive que pensar numa alternativa viável para sugerir à cliente. Lembro que, neste dia, chutei a casca de um coco. Parecia um aviso. Então, fui para casa e comecei a pesquisar aquela matériaprima, o quanto era resistente e como poderia ser inserida no design de joias. Descobri que, no século passado, os ourives de Minas Gerais já trabalhavam

com o ouro e a ‘quenga’ do coco”, lembra Eduardo. A ideia deu tão certo que a cliente aprovou a coleção e adquiriu todas as peças desenvolvidas pelo designer. A partir daquele dia, Eduardo decidiu pesquisar com mais afinco aquela matéria-prima. “Não demorei a perceber que a casca estava sendo mal aproveitada”. Como sempre foi atraído pelo design sustentável, passou a investigar uma


Michel Rios

maneira de não desperdiçar o produto. “Estando em Maceió durante visita a clientes, tive o insight que precisava: que se eu cortasse a casca do coco em peças quadradas, em formato de pastilhas, teria um tipo de revestimento. Então, passei a trabalhar no desenvolvimento do equipamento para produzir as pastilhas. Depois de algumas experiências, percebi que o negócio poderia dar certo. Então, decidi mudar para Alagoas, já que não era viável financeiramente despachar a matéria-prima para ser produzida em São Paulo”. De 1995 para cá, Eduardo Queiroz conquistou as indústrias nacional e internacional com as pastilhas para revestimento feitas a partir da reutilização da casca dura do coco. Nascia a Ekobe Brasil. Com exceção de alguns poucos arquitetos alagoanos, que viram o início da confecção das pastilhas e começaram a aplicá-las em seus projetos de interiores e mobiliário, foi no Sul e no Sudeste do País que o revestimento ganhou projeção. “Comecei a comercializar para uma empresa renomada de São Paulo. Em pouco tempo, as pastilhas de casca de coco já estavam nas altas esferas do mercado, principalmente nas empresas que trabalhavam com design de luxo. Pelo fato de ser um material caro, não pela matéria-prima, mas

As pastilhas de coco revestem o piso de alguns dos apartamentos do hotel Ritz Lagoa da Anta, em Cruz das Almas

pelo processo de produção, o nosso público continua sendo as classes A e B”, explica o proprietário da Ekobe Brasil. O interesse que o produto desperta é tão grande, principalmente pela sua resistência e as diferentes formas de acabamento, que já foi usado até como revestimento de deck de lanchas. Além de ser um produto de longa duração, as pastilhas têm algumas variações de linhas como as naturais, clareadas ou

pintadas. Elas também são comercializadas ao natural ou lixadas. “É muito bom saber que um produto que antes era descartado, hoje é cobiçado pela indústria de revestimento. Além disso, somos responsáveis por gerar oportunidade de trabalho para muitas famílias. Hoje é possível encontrar as pastilhas aplicadas das mais diferentes formas em revestimento de hotéis, peças de mobiliário e objetos de decoração”, celebra o designer.

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Fotos: divulgação

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Outra ideia acertada do curitibano acaba de conquistar uma das premiações mais importantes no segmento design internacional de produtos, o IFF Gold, em Munique, na Alemanha. Eduardo foi vencedor do iF Product Design Award pela criação do suporte para plantas nomeado de Favo Verde. Antes dele, apenas um brasileiro alcançou o mesmo mérito: o designer de luminárias Fernando Prado, que foi vencedor por três vezes. Eduardo conta que a ideia do Favo Verde era um projeto antigo e engavetado. “Criei

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na minha época de escola. Durante uma das aulas, aprendemos que a grama é um dos vegetais que mais liberam oxigênio e absorvem gás carbônico da atmosfera. Pensando nisso, bolei um revestimento de cerâmica para fazer o plantio vertical e, com isso, aumentar a quantidade de verde nas cidades. Porém, quando comecei a trabalhar com a casca do coco, passei a olhar com mais atenção para sua fibra. Descobri que era um material muito resistente. Então, decidi desenvolver o Favo Verde em formato de colmeia. Além de melhorar o

1. Com tonalidades variadas, as pastilhas de coco podem ser utilizadas até mesmo em detalhes, como o tampo da mesa 2. O suporte para plantas Favo Verde, desenvolvido por Eduardo Queiroz, conquistou recentemente uma das premiações mais importantes no segmento design internacional de produtos, o IFF Gold, em Munique, na Alemanha.

microclima dos grandes centros urbanos, esse produto vai gerar dezenas de empregos e o melhor: é 100% ecológico. Por ser um produto diferenciado de design, acabei levando o prêmio”, explica. Inventivo, Eduardo foi convidado pelo Sebrae Alagoas para trabalhar na execução de um revestimento natural e sustentável com o uso da casca da mamona. “Posso dizer que é um produto muito interessante. Assim como o algodão, a mamona permite uma descoloração da fibra. Em pouco tempo, teremos um revestimento de parede e móveis coloridos”, antecipa.


SINTONIA AFINADA NAS FORMAS E NOS TRAÇOS ARQUITETÔNICOS

O universo criativo das arquitetas e designers Ana Maia e Rosa Piatti sempre foi bastante fértil. Isso desde criança, já que sua casa, uma construção em estilo modernista, era ponto de encontro de artistas, intelectuais e de grandes nomes da arquitetura brasileira como Janete Costa (1932-2008), Lina Bo Bardi (1914-1992) e Burle Marx (1909-1994) que mantinham amizade com a mãe das designers, a também arquiteta Zélia Maia Nobre. É nesse lugar povoado de lembranças que as designers Ana Maia e Rosa Piatti mantêm o ateliê e a fábrica da grife Maia Piatti. E é lá onde desenvolvem objetos de decoração, mobiliário e utensílios para casa e escritório. “A arquitetura está presente em tudo que a gente cria: forma, função e a coisa da estética mesmo. Além disso, tivemos o contato com a arte desde muito cedo. Lembro que ainda criança já pintava cerâmica, telas e porcelana. Então, na fase adulta, após a faculdade, sentimos a necessidade de experimentar. Nunca deixamos Objeto em madeira da Maia Piatti: inspiração na arquitetura

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Rogério Maranhão

REPORTAGEM

Linha de roupas de cama da Maia Piatti desenvolvida para a Fábrica da Pedra. Feitas em algodão 200 fios, as peças são resultado de um cuidadoso processo de pesquisa, a exemplo da elaboração das estampas, que representam o sertão de Alagoas

Os produtos da Maia Piatti são feitos para existirem por muitos anos, não são descartáveis Rosa Piatti | Designer

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de ser arquitetas, mas houve um encantamento pelo design de produto”, conta Rosa. Com processo criativo pautado pela sustentabilidade, as irmãs logo conquistaram admiradores ao redor do globo, principalmente pelo design exclusivo e autoral que desenvolvem. No processo criativo, Rosa tem como suporte a madeira e a porcelana. Já Ana Maia usa como matéria-prima a lona de caminhão e o papel. “Na verdade, as nossas referências são as mesmas, porém com interpretações bem particulares. No meu caso, as referências estão na paisagem, na música, no folclore. Além disso, sou muito ligada ao mar, dele eu vejo os currais. No meu trabalho também tem essa coisa do negro, dos tambores dos ancestrais”, diz Rosa. Isso fica evidente já no primeiro contato com as peças que compõem seu repertório. O traço autoral e ritmado ganha leituras na porcelana branca, assim como em bandejas de madeira e mesmo em peças de mobiliário, que por alguns instantes lembram a marchetaria. “Eu queria chegar a uma técnica que, além de originalidade e exclusividade, tivesse também alta durabilidade, afinal os produtos da Maia Piatti são feitos para existirem por muitos anos, não são descartáveis”, diz Rosa. Foram anos de experimento


Divulgação Conjunto Hora da Chá, em madeira, com pintura artesanal: à venda na loja do Museu de Arte Moderna (Moma), de Nova York

com materiais diversos até chegar à técnica Piatti, hoje já patenteada. Foi preciso fabricar uma tinta com fórmula especial, sob encomenda, para aplicá-la nas peças. Solucionada a matéria-prima, era preciso dedicar-se à técnica propriamente dita. No ateliê onde são produzidas as peças, Rosa experimentou traços até obter o resultado esperado, que surpreende sempre: a pintura, feita à mão, produz um efeito de marchetaria, a arte de ajustar, por encaixe, diferentes tipos e cores de madeiras numa única peça. “Até mesmo quem comercializa as peças há anos não acredita que não seja marchetaria. E cada objeto é realmente único, afinal a mão não consegue repetir, com precisão, o mesmo traço em todas as peças”.

Com olhar aguçado, Ana Maia chama a atenção pela maneira peculiar de criar, o que envolve também a escolha dos suportes. O traço livre é recorrente no processo criativo. “Ela tem muito disso da arquitetura espontânea. É um trabalho que descortina essa coisa dos caibros, das palafitas, dos telhados improvisados tão presentes na paisagem local, principalmente em regiões mais simples como as casas de pescadores na região lagunar”, observa Rosa. Para Ana Maia, o processo criativo da marca é povoado de identidade cultural e memória afetiva. “É impressionante como o nosso processo tem essas referências que passam pela arquitetura da cidade, o nosso gosto pela arte e a infância fértil que tivemos, na

companhia de pensadores, sem falar dos artistas que circulavam pela nossa antiga morada, hoje ateliê”. Mesmo com tamanho reconhecimento nacional e internacional, a dupla não cogita criar em série. Uma das poucas vezes que isso aconteceu resultou na linha de roupas de cama que a dupla desenvolveu para a Fábrica da Pedra, localizada em Delmiro Gouveia, no Sertão de Alagoas. As peças, feitas em algodão 200 fios, foram desenvolvidas a partir de um lento e cuidadoso processo de pesquisa, a fim de se obter, ao mesmo tempo, um produto de alta qualidade e com design elegante e exclusivo. Em 2008, as designers estiveram por diversas vezes na Fábrica da Pedra. Lá, estudaram todas as etapas do processo fabril de

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Fotos: divulgação

REPORTAGEM

As luminárias da Maia Piatti têm estrutura em metal e papel artesanal pintado

lençóis, desde a tecelagem até o tingimento, criando um sistema de impressão que difere de tudo que existe no mercado – os padrões não se repetem e cada peça se assemelha a um quadro. Depois, visitaram uma das mais importantes fábricas de teares da Europa, a Picanol, que fica na Bélgica. A Fábrica da Pedra contratou a empresa de consultoria Kurton Salmon Associates (KSA), com sedes nos Estados Unidos e na França, para avaliar as peças. O relatório apontou que a roupa de cama Maia Piatti é contemporânea e de alto padrão de qualidade e originalidade, comparável a produtos Armani, Kenzo e Lacoste. Composta por lençóis e fronhas, a linha de roupas de cama reúne, ao todo, 10 temas/estampas diferentes, que receberam nomes relacionados à paisagem do

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Sertão e a povoados de Alagoas: Algaroba, Boqueirão, Cabeça de Frade, Campinhos, Dois Riachos, Entremontes, Lagoa das Pedras, Marituba, Palmas e Vila Zebu (este último integrou o cenário da novela Passione, da TV Globo). Nas estampas mais abstratas as referências estão nos traços que remetem aos garranchos, aos galhos secos das árvores, às cercas, às pedras em abundância no Sertão e ao desenho que fazem os leitos dos rios. A roupa de cama Maia Piatti foi exibida na seção “Design, Inovação e Sustentabilidade”, a principal mostra da Bienal Brasileira de Design 2010, em Curitiba. “Gosto muito dos padrões gráficos utilizados nessa linha de roupa de cama, em absoluta coerência com o trabalho que Ana Maia e Rosa Piatti têm feito há anos na Maia Piatti. E esses

padrões, na minha opinião, estão relacionados à questão da sustentabilidade que é a relação com a identidade local, tanto que elas participaram da bienal dentro de um módulo que batizei de Pertencimento. Também acho muito importante desenvolver um polo industrial por meio da inovação e do design. Há um componente simbólico muito forte em termos a revitalização da tradicional Fábrica da Pedra, primeira indústria têxtil no Sertão alagoano, por meio do design de alta qualidade”, declara Adélia Borges, curadora da Bienal Brasileira de Design 2010. Apesar de dividirem por tanto tempo o mesmo ofício, Ana e Rosa conseguem imprimir personalidades distintas nas peças que criam. Em comum, o trabalho das irmãs tem mesmo é a busca pela perfeição na forma e na função.


RONA SILVA, PERITO EM CONVERTER SOBRAS DE PAPELÃO EM MOBILIÁRIO

A passagem pelos cursos de Mecânica do Ifal (antiga Escola Técnica Federal de Alagoas), de Engenharia Mecânica da Universidade Federal da Paraíba e de Desenho Industrial, na Universidade Federal de Campina Grande (PB), foi decisiva na carreira do designer de produtos e professor universitário Rona Silva, nome por trás do Studio Carapanã Design. “Todo esse aprendizado foi fundamental para a minha incursão no design de móvel”, diz. Utilizando material de descarte, o designer é um dos principais expoentes da nova geração de criadores tipo exportação. Seu trabalho autoral já caiu nas graças da equipe curatorial que convidou o alagoano a expor na Bienal Brasileira do Design 2010, em Curitiba. Por lá, Rona Silva integrou a exposição intitulada Reinvenção da Matéria, que ocupou o Museu Oscar Niemeyer. A peça de autoria do alagoano era o tamborete São João, feito a partir da reutilização do papelão e forrado de chita.

Tamboretes São João e Cabelo, ambos produzidos a partir da reutilização do papelão

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Divulgação

REPORTAGEM

Poltronas Matuta, do designer Rona Silva, com papelão e sobras de tecido

A genialidade de Rona Silva para criar começou a aflorar aos seis anos de idade. Foi ainda criança que passou a desenvolver os seus próprios brinquedos a partir da revista Recreio. Cortando, colando, dobrando e encaixando as peças, ele descobriu que era possível criar aviões, carros, castelos... “Por incrível que pareça são técnicas que uso até hoje. Claro, com outro suporte técnico”, conta. Mas o que durante anos parecia apenas ser um interesse de criança, ganhou novos contornos na fase adulta. A formação em design acabou

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sendo algo natural, embora as primeiras peças que criou tenham sido apenas para gerar conteúdo em sala de aula. O intuito de comercializar nunca passou pela cabeça de Rona, já que a atividade financeira era outra. “Quando morava em Manaus ouvia os alunos dizerem que não estavam fazendo os trabalhos propostos em sala de aula porque não tinham dinheiro para comprar material. Como eu morava em frente a uma fábrica que descartava muito papelão, comecei a trabalhar com essa matériaprima. Na verdade, queria

provar para eles que, com a reciclagem do material, era possível criar objetos. A minha atitude mudou o jeito de eles pensarem. Normalmente, o design nasce da necessidade. Então, se eu quero um lugar para sentar, vou projetar uma cadeira; se quero um lugar para escrever, vou projetar uma mesa. Foi a partir daí que comecei a desenvolver outras peças”, lembra. De volta a Maceió, o designer deu sequência ao projeto de criar objetos como conteúdo didático. Incentivado pelos amigos e pelos alunos, criou um blog para expor as


peças. Pouco tempo depois, começou a receber ligações de editores de revistas e também de cenógrafos de novelas interessados no mobiliário autoral e nos objetos decorativos. “Em 2009, a Adélia Borges esteve na minha casa para conhecer as minhas criações. Um ano depois, tive a oportunidade de ter duas peças minhas na Bienal Brasileira de Design”, lembra ele. No caso do designer alagoano, a vanguarda não se limita apenas à matériaprima, principalmente por trabalhar com a reutilização

de materiais como papelão, garrafas pet, frascos de desodorante, papel e sobras de tecidos, mas pelas referências que usa na hora de criar, de dar formas aos seus produtos. “Somos feitos de referências. Isso vai desde os lugares onde morei, espaços que frequentei, informações a que tive acesso. Isso tudo se materializa de diferentes formas. Até hoje não uso fone de ouvido porque gosto de escutar as pessoas conversando. São essas conversas que me dão subsídio para criar. Não posso negar que a cultura popular, a cultura

de massa, está impregnada na minha memória afetiva”, detalha o designer. Atualmente, Rona Silva vem pesquisando sobre os roletes de cana. Na sua opinião, o palito utilizado para espetar os pedaços da cana lembra muito uma estrutura de mobiliário. “Daqui a um tempo, vou lançar produtos inspirados nos roletes”, antecipa. O designer também está finalizando uma coleção de vasos e utensílios feitos da junção do papel com sobra de tecidos. “A única coisa que posso afirmar é que meu processo criativo é muito espontâneo”.

vencedor de prêmio Alcoa, de inovação em alumínio. Em 2009, foi bronze no IDEA Brasil – edição nacional do maior prêmio de design dos Estados Unidos, o International Design Excellence Awards. Já em 2011, recebeu menção honrosa por dois projetos no Salão Design Casa Brasil. Com uma verve criativa aguçada, Rodrigo Motta admite que o design é sua grande paixão. Já as referências na hora de criar são as mais distintas: “Começo riscando no papel, sem ter nada em mente.

De repente, os riscos ganham formas e, com isso, surge um novo projeto”, diz o designer, que comanda com Marcelo Magglioli, o Studio 76 Design. A relação entre design e identidade cultural é uma constante nas criações de Motta. Um bom exemplo é a chaise Gogó da Ema, que teve como inspiração o antigo coqueiro torto, um dos ícones da Praia de Pajuçara. “O brasileiro tem uma grande dificuldade de olhar para o que é produzido no País. Ainda existe um interesse muito grande

RODRIGO MOTTA, UM DESIGNER INVENTIVO Assim como Rona Silva, Rodrigo Motta também começou a “inventar coisas” ainda na infância. Durante o curso de Arquitetura, descobriu o significado da palavra design e entendeu muitas de suas artimanhas de menino, quando montava e desmontava seus próprios brinquedos. Nome promissor como designer de produto, principalmente pela originalidade, Motta já coleciona algumas premiações, mesmo com tão pouco tempo de carreira. Em 2007, foi

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Imagens: divulgação

REPORTAGEM

Chaise Gogó da Ema, do designer Rodrigo Motta: referência ao filé e à rede de dormir

O brasileiro tem uma grande dificuldade de olhar para o que é produzido no País. Por esse motivo, tenho interesse em valorizar o meu próprio entorno... Rodrigo Motta | Designer

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pelo que vem de fora. Por esse motivo, tenho interesse em valorizar o meu próprio entorno, as minhas raízes e a minha cultura. Na chaise Gogó da Ema, faço referências à renda filé do Pontal da Barra e à rede de dormir”. O protótipo da chaise ganhou publicação na revista Kaza. Para o designer, Alagoas é uma grande fonte de inspiração, principalmente pela infinidade de produtos que estão no dia a dia da população. “O nosso cotidiano é muito rico. Temos cores e texturas das mais diversas. Para quem cria, isso é muito inspirador. As melhores inspirações podem estar do seu lado e não importa se o entorno

é formado pelas classes A e B ou C e D. O mais importante é dar valor a suas raízes, não importando de onde ela venha”. Na opinião de Motta, além da função e da forma, o design existe para melhorar a vida das pessoas. “Tentamos criar produtos para suprir essas necessidades. O design é uma concepção de ideias que podem ser de baixa ou de alta tecnologia, dependendo de cada projeto. A maioria dos meus projetos é na área da acessibilidade. Minha maior contribuição é para os portadores de necessidades especiais, pois acredito que o design é para todos”.


MEMÓRIA AFETIVA E SUSTENTABILIDADE NO OFÍCIO DE RODRIGO AMBROSIO

O alagoano Rodrigo Ambrosio tem o dom da sutileza e sabe imprimir seu lado forte e determinado na busca da forma e na expressão de uma linguagem contemporânea. Talvez por isso, o arquiteto já começa a chamar a atenção do mercado como designer de produtos. “Penso que a evolução projetual requer maturidade e infinitas experimentações. No meu caso, a faculdade de Arquitetura e Urbanismo e diversas outras vivências aguçaram o meu senso estético, que está em contínua evolução”, confessa o mentor do Ambrosio Studio. Com uma maneira simples e honesta de criar, pautado sempre pela sustentabilidade e memória afetiva, Ambrosio bebe do próprio entorno no seu processo de feitura. “É essencial preservar e perpetuar as referências que ajudam a nos reconhecer. Ainda que a cultura seja algo mutante, precisamos da história para nos localizarmos no tempo. O design, em geral, deve ser útil em vários aspectos, inclusive como forma de expor essa

O banco Ancoradouro, projetado como peça de mobiliário para a cidade de Marechal Deodoro, remete à vocação local de transporte e à pesca

memória. Tenho isso como um dos meus partidos”. Rodrigo conta que o interesse pelo design começou bem cedo, ao perceber que a habilidade de criança, em criar os próprios artefatos, tinha nome e sobrenome. Desde sempre, o designer deus asas à imaginação. “Sou curioso, sempre estou em busca de referências, viajo o mundo, mas sempre volto, pois prefiro imaginar a partir de Alagoas. A sinergia local é cativante e realmente inspiradora. Também procuro entender e valorizar o paraíso natural e cultural onde nasci e cresci. Essa memória afetiva se reflete em meus projetos”, afirma.

É essencial preservar e perpetuar as referências que ajudam a nos reconhecer. Ainda que a cultura seja algo mutante, precisamos da história para nos localizarmos no tempo Rodrigo Ambrosio | Designer

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Fotos: Michel Rios

REPORTAGEM

As mesas de centro Usina, com sucata de usinas, e Vai e Vem, feita com cabos de vassouras e restos de marcenaria: em ambas, o conceito de reutilização de materiais

O design é uma extensão do ser humano. Nossos artefatos, assim como nossas atitudes, devem melhorar e simplificar a vida individual e social, tudo em simbiose com nosso planeta, a nossa casa Rodrigo Ambrosio | Designer

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O banco Ancoradouro, projetado como peça de mobiliário para a cidade histórica de Marechal Deodoro, é um dos bons exemplos do trabalho de Rodrigo Ambrosio que faz referência à vocação local de transporte e da relação dos seus moradores com a pesca. “O banco incita a memória e o descanso”, diz. Outro bom exemplo é a mesa de centro Vai e Vem, inspirada no típico rendado alagoano do Pontal da Barra, o filé. “A peça é produzida a partir do processo de retorneamento de vassouras que, inicialmente, iriam para o lixo e restos de marcenaria”, detalha Ambrosio. Uma das suas últimas criações é a mesa de centro Usina, feita a partir da reutilização de ferro velho. “A cana-de-açúcar teve e tem um papel fundamental no desenvolvimento econômico de Alagoas, mas o tempo passa

e os processos evoluem, então, o que fazer com a sucata descartada pelas usinas? Subverter o uso de material aparentemente inútil é o mote desse projeto incipiente. A linha de centros Usina reaproveita com criatividade peças em ferro fundido ignoradas, mas que agora recebem nova vida”. Tradição, estética e sustentabilidade são caminhos perseguidos pelo designer no processo de feitura. “É necessário pensar no passado, presente e futuro na hora de criar. Além da função prática do bom design, que deve ser perceptível por todos, procuro transmitir em meus projetos essas boas sensações e emoções que também nos fazem pensar. O design é uma extensão do ser humano. Nossos artefatos, assim como nossas atitudes, devem melhorar e simplificar a vida individual e social, tudo em simbiose com nosso planeta, a nossa casa”, observa Rodrigo Ambrosio.


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REPORTAGEM

MODA FEITA À MÃO Como defender o artesanal quando nossa cultura parece validar apenas o que é veloz? A resposta pode estar na relação entre design e identidade cultural. Pelo menos isso fica evidente no processo de feitura dos estilistas alagoanos Martha Medeiros, Mailda, Renata e Jeanine Fontan, Lucas Barros, Carol Paz, Ana Maia e Rosa Piatti TEXTO: CLEVIS

OLIVEIRA

FOTO: HERBERT

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A modelo Isabela Montenegro usa uma das criaçþes em renda renascença da estilista Martha Medeiros

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REPORTAGEM

Moda é expressão e o reflexo de inúmeras características de um povo. E mesmo quando passageira tem personalidade para deixar sua marca através do tempo Martha Medeiros | Estilista

Ao longo da história, o ser humano vem usando a moda não somente como meio de expressão, mas também de distinção. Esse interesse começou a ser moldado lá na pré-história, quando o homem sentiu vontade de cobrir o corpo pelo caráter de pudor ou simplesmente pelo desejo de usar adornos. Qualquer que tenha sido a intenção, cobrir o corpo foi uma necessidade.

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De lá para cá, a moda passou a ser vista como um assunto sério, capaz de suscitar a vontade de compreendêla. Por meio dela, é possível perceber todos os movimentos evolutivos da sociedade. Moda é comportamento, linguagem, antropologia, sociologia, arte, economia, design, identidade cultural, iconografia e muito mais. Mas foi entre o fim do século 19 e o começo do século 21, que esse interesse pela moda ganhou novos contornos, no que diz respeito aos seus criadores, ao processo de feitura e mesmo à natureza escultórica das indumentárias. “A moda é um depoimento do nosso tempo”, defende o estilista mineiro Ronaldo Fraga, um dos criadores mais autorais da moda brasileira. É por meio dela que uma infinidade de criadores vem ajudando a costurar a própria história. E mesmo que a moda muitas vezes pareça pasteurizada, é importante frisar que ela é única. Há algo mágico que difere um criador do outro, seja pela estética ou pela ideia de moda, mesmo que isso seja imperceptível ao primeiro momento. O que não se pode negar é que a moda é feita de memória e seus criadores imprimem identidade cultural ao que produzem. Talvez por isso, torna-se fundamental a utilização iconográfica para maior

assimilação de seu conteúdo. Abordar as sutilezas que sustentam esse encontro entre design e identidade cultural é o que propõe esta edição da Graciliano. Afinal, a moda é um documento histórico com o compromisso de informar e formar. Em Alagoas, esse interesse não é diferente. Ao contrário. Por aqui, a moda vem sendo traduzida de forma autoral seja pelo traço ou pela habilidade manual de seus criadores que, de tão peculiares, já ganharam o mundo. Impossível não falar em Martha Medeiros, a estilista que tirou as rendas nordestinas do anonimato; Mailda, Renata e Jeanine Fontan, o trio de arquitetas que dialoga com a própria cultura na hora de dar forma às joias artesanais da Caleidoscópio; Lucas Barros, uma das principais apostas da moda nacional que causa estranheza e admiração pelas estampas impregnadas de memórias afetivas; Carol Paz, a designer que cria maxicolares e balangandãs coloridos cheios de preciosismo; e as irmãs Ana Maia e Rosa Piatti, da Maia Piatti, que usam a roupa como suporte para legitimar o próprio traço arquitetônico. “Moda é expressão e o reflexo de inúmeras características de um povo. E mesmo quando passageira tem personalidade para deixar sua marca através do tempo”, observa Martha Medeiros.


Foi ainda criança que a estilista Martha Medeiros teve seu primeiro contato com as rendeiras habilidosas do Pontal da Barra e de municípios como Pão de Açúcar, Piranhas, São Sebastião e Marechal Deodoro. Na companhia da avó Zezé Martins, descobriu o fazer artístico de mulheres simples que, com linhas e agulhas, teciam à porta de casa rendas como filé, renascença e bilro. Daquele tempo, a estilista só tem lembrança dos paninhos de prato e das toalhas de mesa. Passadas algumas décadas, Martha Medeiros é hoje a grande responsável por criar vestidos monumentais tendo como matéria-prima o fazer artístico com o qual sempre esteve em sintonia: as rendas nordestinas. “Levei um tempo para me dar conta de que Alagoas estava tão presente no meu processo criativo, principalmente em relação à nossa habilidade para criar. O meu apreço pelas rendas sempre foi algo natural. Sempre enxerguei beleza nas peças handmade”, conta Martha. O trabalho autoral nada tem de regionalista. Muito pelo contrário. São delicadas criações resultantes da união do artesanato feito à

mão e a técnica de moulage (modelagem feita com tecido diretamente sobre o corpo). “Colocamos a palavra moda na renda, uma arte milenar tão presente em Alagoas e no Nordeste brasileiro. Na verdade, estamos mostrando ao mundo que não há nada mais sofisticado do que valorizar as raízes”, explica. No ofício de sofisticar a renda, a estilista colocou luz sobre esta arte milenar que, durante algumas décadas, foi negada pelas elites dominantes. “A renda era vista como uma arte manual menor, porém o que mais nos faz universal é o nosso DNA, a identidade cultural e a habilidade para as atividades manuais”, afirma a designer, formada em estilismo pelo Senac São Paulo/ Esmod Paris. Em Alagoas, as criações da estilista são bordadas por cerca de 200 artesãs das cidades de São Sebastião, Marechal Deodoro, Ilha do Ferro (em Pão de Açúcar) e as rendeiras do Pontal da Barra, na Grande Maceió. Além disso, ela ainda trabalha com associações do Ceará, Paraíba, Piauí e Rio Grande do Norte. “É importante que se crie uma escola de renda para que esse ofício não desapareça. Quem sabe até um museu para contar a história

Herbert Loureiro

MODA RENDADA PELO TEMPO

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Herbert Loureiro

REPORTAGEM

As criações de Martha Medeiros estão no primeiro museu de renda do mundo, em Calais, na França

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dessa arte que vem sendo transmitida de mãe para filha”. Apaixonada pelo artesanato brasileiro, em especial o nordestino, Martha Medeiros observa que é preciso inserir a palavra design no processo de feitura das artesãs. “O que fizemos com a renda foi dar uma nova linguagem a partir do design. Em nenhum momento, a intenção foi descaracterizar essa arte milenar. No meu caso, a moda foi o suporte”. Hoje as criações da alagoana estão expostas no primeiro museu de renda do mundo, em Calais, na França, ao lado de peças de Yves Saint Laurent e Christian Dior. “Para ser um artigo de luxo tem que ter história. Por isso, as rendas nordestinas e de Alagoas ganharam o mundo”, sentencia Martha.

No repertório criativo da estilista estão algumas coleções dedicadas a Alagoas. A primeira delas, em 2005, Renda-se ao Brasil, expressa bem isso, no branco ingênuo das peças onde se misturam rendas de bilro, renascença, labirinto e singeleza. Em 2009, Martha nomeou a coleção de Renascença, que define como “sofisticada com um toque de modernidade”. A herança afetiva com o Estado voltou a ser tema na coleção Alagoas (2011), onde cria peças em que homenageia as origens de nossas rendeiras e que resultou num primoroso editorial fotográfico nas cidades ribeirinhas cortadas pelas águas do rio São Francisco. Martha também acredita que o papel do criador é olhar para o próprio entorno, para os próprios ícones: “Conto nos dedos as pessoas aqui em Alagoas que olharam com bons olhos as minhas criações lá no início. Infelizmente, foi preciso que o reconhecimento viesse de fora, algo tão comum no Brasil. Na verdade, existe uma negação ao próprio patrimônio histórico, arquitetônico, artístico... Aqui produzimos uma arte genuinamente brasileira repleta de ritmo, cor, dominância, volumetria, textura e essência dos nossos ancestrais e colonizadores”, observa a estilista.


Na lista de criadores brasileiros que tão bem souberam beber da própria cultura na hora de criar estão as arquitetas e designers de joias Mailda, Renata e Jeanine Fontan. Autoras de criações cobiçadas ao redor do globo, de uns tempos para cá, as alagoanas passaram a figurar na elite dos grandes nomes do design do País. Na verdade, desde 1998, a Caleidoscópio chama a atenção de grandes editores da moda nacional e internacional pelos colares arquitetônicos, com um quê de obra de arte, desenvolvidos de forma artesanal. Tamanho preciosismo ajudou a escrever o nome da marca em grandes publicações ao redor do planeta, além de uma parceria com a marca austríaca de cristais Swarovski. Mesmo com os pés cada vez mais fora do Brasil, no que diz respeito a publicações e também mercado, já que vendem em mais de 20 países e principalmente para a Europa, as designers têm um repertório criativo que, de algum modo, ajuda a contar a história de Alagoas. “Nosso processo criativo

Divulgação

JOIAS ARQUITETÔNICAS COM AS TRAMAS DE ALAGOAS

Colar Calçadão, uma das criações de Renata Fontan para a Caleidoscópio

é totalmente ligado ao nosso lado arquiteta, que nos conecta com tudo o que diz respeito à arquitetura, à história da arte e também às nossas próprias raízes. O arquiteto não é um turista comum. A nossa visão é atraída por aspectos diferentes dos olhos normais. Um detalhe pode virar uma coleção, a exemplo da coleção que criamos inspirada nas curvas

e cores do rio São Francisco na cidade de Penedo”, detalha Jeanine Fontan. Foi no curso de Arquitetura que as irmãs Jeanine e Renata deram inicio ao ofício de designer de joias – com total apoio da mãe, a arquiteta Mailda Fontan. As primeiras compradoras foram as alunas do próprio curso e as amigas mais próximas. Coube à

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REPORTAGEM

Colar Ostra, da Caleidoscópio, é uma das peças que compõem a coleção inspirada no livro Iconografia Alagoana

jornalista de moda Jussara Romão, à época editora de moda da revista Elle, validar o talento das designers alagoanas. Foi quando mãe e filhas decidiram fortalecer o DNA da Caleidoscópio. Mesmo tendo a arquitetura no processo criativo, o trabalho da grife alagoana se destaca pela maneira diferenciada com que cada uma das designers elabora suas peças. As criações de Renata Fontan são mais orgânicas, enquanto que as de Jeanine são mais sofisticadas e com aura vintage, que remete a objetos antigos. Já Mailda cria peças luxuosas e com referências étnicas. Para Jeanine, a junção design e identidade cultural é algo mais que recorrente nas criações da grife. “A maioria das nossas coleções representa a nossa

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identidade; Zumbi, Alagoas, Penedo, índios caetés, rendas, iconografia alagoana...”. Diferentemente de outras grifes, as peças da Caleidoscópio demandam tempo, principalmente no seu processo de feitura. A forma artesanal não se limita ao processo. Ao contrário, abre caminho para o fazer alagoano por meio do trabalho de 28 artesãs que materializam as formas e os temas propostos nas coleções do trio. No ateliê onde nascem as criações, é possível detectar o traço arquitetônico de cada peça. Linhas que conversam com formas orgânicas. Peças que lembram as rendas alagoanas, o ritmo do mar, e outras que fazem referência às jangadas. Quando não está presente nas formas,

Alagoas é recorrente nas cores e também na sua vida ao ar livre. “Impossível ignorar as nossas belezas naturais, uma noite de lua, o coqueiral”, observa Mailda. Uma das coleções do trio teve como mote o livro Iconografia Alagoana (veja reportagem sobre a obra na página 90 a 95). “Essa obra foi responsável por alinhavar uma das coleções mais expressivas do nosso repertório. É uma coleção que fala dos nossos mariscos, a exemplo do sururu, das redes de pesca que garantem a sobrevivência de dezenas de famílias e da riqueza do nosso mar”, detalha Janine. A dança, as rendas, o bairro portuário Jaraguá, os índios caetés e a histórica Penedo também já emprestaram suas histórias as criações de Renata, Mailda e Jeanine.


INTERIORANO COM LINGUAGEM CONTEMPORÂNEA Romário Carnaúba

A modelo Paula Patrial usa vestido da coleção Horizonte, inspirada na Ilha do Ferro, de Lucas Barros

Apontado com uma das principais promessas da moda brasileira, o estilista alagoano Lucas Barros sempre afirmou que “a moda é muito mais do que a roupa em si”. No caso dele, o que mais chama a atenção é o seu processo de feitura, ao utilizar técnicas magistrais com toque artesanal e de forte apelo artístico, mesmo que, na maioria das vezes, não seja intencional. A única coisa que não pode ser negada no ofício do criador, de 28 anos, é a maneira com que recorre à memória afetiva. Lucas foi criado no interior de Alagoas até os 18 anos. Lá cresceu cercado de referências, principalmente as de caráter religioso. É desse convívio interiorano que vem o colorido do seu trabalho. “No interior é comum pintar a casa no final do ano. Porém, no período de chuva as tintas vão saindo e mostrando as cores anteriores. Essas lembranças de alguma maneira reverberam no meu processo criativo, assim como as festas religiosas. Sem falar que meus avós iam ao Juazeiro do Norte para pagar promessas pelas graças alcançadas. Por isso, digo sempre que minha infância e adolescência foram

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Fotos: Estúdio Alba

REPORTAGEM

A modelo Sayonara Araújo com peça da coleção Ilha, de Lucas Barros

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um período muito fértil, cheio de significados”, afirma Lucas. Antes mesmo de assumir a roupa como suporte criativo, o designer cursou Arquitetura na Universidade Federal de Alagoas. De lá, saiu com a certeza de que a moda era a linguagem com a qual mais se identificava. “Durante o curso de Arquitetura, passei a construir meu repertório de imagens. Diferentemente da maioria dos meus colegas, o meu interesse era por imagens e objetos incomuns. Meu olhar sempre se voltava para a textura das calçadas, a textura das igrejas, as fechaduras... De alguma forma, isso me serviu para criar um repertório consistente, que acabei aplicando na moda e que consiste nessa coisa de negar a matéria-prima. Pego um tecido já construído e nego a construção dessa matériaprima. Nego a matéria real para construir uma realidade que é minha. Reinterpreto, a meu modo, algo que aparentemente não tinha valor de design nenhum”, explica. Mesmo bebendo de fontes tão diversas, a exemplo da arquitetura, da cultura popular e do artesanato, o designer é reconhecido pela sua linguagem contemporânea e infindável criatividade. “O meu processo de feitura é algo muito subjetivo. Porém, a pessoa que se identifica com minhas criações tem curiosidade em


conhecer as minhas referências para entender o que me levou a criar. De alguma forma, ela olha para onde estou olhando. Isso, sim, é a grande missão do meu trabalho que é justamente mostrar como a simplicidade pode ser rica, seja como fonte de inspiração, seja na escolha dos materiais”, conta. Não foi à toa que as criações de Lucas Barros encantaram a jornalista de moda Lilian Pacce, que esteve em Maceió em 2011 e entrevistou o alagoano para o programa GNT Fashion, veiculado no canal pago GNT. Para o criador, o mote do seu trabalho passa pela relação com o lugar onde nasceu e vive. “Tenho certeza de que se estiver em Londres e me identificar com algo de lá, é porque vai ter alguma referência daqui. Por mais que fale de Londres em uma coleção, vou continuar falando de Brasil. Eu não posso falar de uma coisa se eu não domino aquilo. Só posso falar do que trago na memória afetiva, uma série de coisas que já estavam na minha cabeça, que na verdade só criei link para contar isso. Em cada coleção, vou dando um caminho diferente, mas eu vou sempre falar de mim, do que vivi, no que eu acredito, do que eu gosto”. A arquitetura também é recorrente no processo criativo do designer que já tem no currículo cinco coleções. “Tem

Coleção Santo, inspirada nas memórias de infância do estilista. A modelo é Vitória Kipper

A pessoa que se identifica com minhas criações tem curiosidade em conhecer as minhas referências para entender o que me levou a criar. De alguma forma, ela olha para onde estou olhando

dois momentos da arquitetura no meu trabalho: a arquitetura da roupa em si, essa coisa da forma, e tem essa coisa do decorativismo. Gosto dessa coisa trabalhada, sou muito barroco, em alguns momentos até rococó”, admite. Com um processo criativo que divaga entre a arte e uma moda menos pasteurizada, Lucas Barros sentencia que cria indumentárias para quem não se preocupa com os modismos. “Quero ver as pessoas usando minhas peças porque gostam das imagens visuais que crio, e não porque é tendência”.

Lucas Barros | Estilista

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REPORTAGEM

Na mesa de trabalho da designer de acessórios Carol Paz é possível encontrar uma infinidade de miçangas, pedras brasileiras, pérolas cultivadas e madeira, além de linhas e mais linhas de crochê. Ali também repousa uma infinidade de imagens captadas em revistas, viagens e experiências diversas. É nesse ambiente aparentemente “poluído” que nascem os primeiros desenhos dos seus maxicolares, pulseiras e brincos. Desde 2007, Carol Paz é um dos nomes mais promissores de Alagoas. Melhor dizendo, do Brasil. Isso porque suas criações carregam uma brasilidade cool, espontânea. Viajada, cosmopolita e cheia de referências estéticas, a designer é uma criadora nata que valoriza a arte handmade. “Quando se trabalha com criação é preciso estar sempre aberto ao novo. O olhar é decisivo na construção de uma imagem, do design de um produto. No meu caso, a moda, o artesanato e as criações manuais, de uma maneira geral, estão impressas nos meus colares. A própria feitura é manual e bem minuciosa. Uma das técnicas artesanais com a

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Fotos: André Lopes Fasano

VOCAÇÃO ARTESANAL PARA CRIAR BALANGANDÃS

A modelo Fernanda Dorigon usa criações de Carol Paz. A vocação artesanal de Alagoas está presente no trabalho da designer


qual me identifico bastante é o crochê”, revela a designer. Pós-graduada em Moda pela Faculdade Boa Viagem, de Pernambuco, Carol Paz garante que seu interesse pela arte do crochê se deu ainda criança. Foi com a avó que aprendeu a fazer as primeiras trancinhas (ponto básico do crochê). “Lembro que minha avó era muita prendada e que fazia toalhas de crochê. Foi também nesse mesmo período que comecei a bordar. O colorido e o bordado são referências alagoanas marcantes encontradas nas minhas peças”, entrega. O DNA artesanal tão explícito nas criações de Carol Paz e as experiências vivenciadas durante as viagens ajudaram

a construir a identidade da marca. Ela detalha que quando faz uso do crochê, no desenvolvimento das peças, é de um jeito bem particular. “Quando uso o crochê, que é um trabalho maravilhoso, sinto vontade de sair do lugar-comum. Daí vem essa necessidade de misturar materiais e fazer algo diferente”. Com relação ao processo criativo, ela garante que as peças nascem muito intuitivamente, de maneira bem subjetiva. “É claro que gosto de falar de algo que me chame a atenção, me inquiete ou me encante. Resolvido isso, faço alguns esboços e me bombardeio de imagens que

de alguma maneira estejam relacionados à coleção”. Para ela, a maneira como se relaciona com o mundo e o seu entorno está sempre presente nas suas criações. “Com certeza, essa vocação artesanal de Alagoas junto às imagens guardadas na minha memória ajudam na construção da identidade da minha marca”. Com passagem pela passarela da Mercedes Bens Fashion Week, em Miami, onde desenvolveu todos os acessórios do desfile da grife brasileira de beachwear Poko Pano, a designer já desenvolveu uma coleção inspirada em Alagoas ao falar do pôr do sol. “É fantástico o nosso pôr do sol... Ele enche os olhos, acarinha, conforta a alma”.

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REPORTAGEM

LEVEZA, ASSIMETRIA E MOVIMENTO DA INDUMENTÁRIA O gosto comum e apurado pelos trabalhos manuais foi responsável por aproximar as irmãs Ana Maia e Rosa Piatti, que decidiram criar juntas. Arquitetas de formação – área na qual também nunca deixaram de atuar – e filhas da mulher que ajudou a fundar o curso de Arquitetura da Universidade Federal de Alagoas, Zélia Maia Nobre, a dupla tem sido responsável por imprimir uma feitura muito particular de criar indumentárias. “Na faculdade a gente já se destacava pelas apresentações dos trabalhos, pelo colorido, pelas perspectivas e pelo traço apurado”, lembra Rosa Piatti. A partir daí fica fácil entender por que as criações da grife Maia Piatti chamam a atenção tanto entre os grandes designers de objetos e mobiliário e, mais recentemente, passou a aguçar a curiosidade também no mundo da moda. “Fazer roupa foi consequência da curiosidade de levar nosso traço para outro suporte. De alguma maneira, nosso fazer está em movimento. Não é estático”, justifica Rosa. Com ares minimalistas e em relação direta com o movimento modernista na

Fotos: Dressa Melo

Valéria Cox usa criações de Ana Maia e Rosa Piatti, com inspiração na arquitetura e na geometria da paisagem alagoana 52

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arquitetura, as criações da Maia Piatti têm um caráter atemporal, mas sem abrir mão da memória afetiva. “Como filhas de uma arquiteta e de um engenheiro, desde pequenas fomos estimuladas a ter um olhar mais aguçado. Lembro que nas nossas férias éramos estimuladas a visitar museus e exposições nos Estados Unidos. A nossa própria formação em arquitetura ajudou a apurar tudo isso. Mas não é apenas a arquitetura que nos chama a atenção. A paisagem, a relação das pessoas com a cidade, o colorido e a própria cultura local são muito presentes no nosso processo criativo. Claro, de uma maneira muito autoral, como o nosso traço”, explica Rosa. Na mais recente coleção da marca, Traços de Uma Paisagem, as irmãs Maia Piatti usam o vestuário para falar da paisagem local. Nas peças, destaca-se o uso de estampas serigrafadas e aplicadas sobre tecidos tingidos. “Nosso vestuário tende sempre a ter detalhes de pintura. Nossos clientes sempre esperam isso: o traço, a linha, as formas geométricas características de nossa formação como arquitetas. É uma forte característica nossa”, explica Rosa Piatti. No processo criativo da marca, a roupa é tratada como suporte de composições pictóricas. Na verdade, as criadoras dialogam com elementos do

Dressa Melo

cotidiano como as fiações dos postes, os calçamentos irregulares, a arquitetura espontânea das favelas e o ritmo dos traços dos coqueirais e dos currais de peixe na costa litorânea. No processo criativo da roupa em si, as irmãs burlam os códigos de moda no que diz respeito às tendências, fugindo da onda fast-fashion que assolou o planeta. Suas roupas são mais que usuais: têm vida longa e destacam-se pela leveza, assimetria e movimento. Outra característica marcante são as torções e amarrações. Já na cartela de cores é comum encontrar tons terrosos. “O nosso processo criativo tem essa coisa de luz e sombra que é muito característico do Nordeste”, observa Ana Maia.

As criações da Maia Piatti têm um caráter atemporal, mas sem abrir mão da memória afetiva

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DOCUMENTA

A MODA E O CROQUI Na moda, o croqui é uma das primeiras construções visuais de uma roupa ou de um acessório. É nele que o designer registra suas ideias centrais sobre o produto que deseja concretizar. Muitos desses esboços revelam a habilidade artística de seus autores. Nesta edição, a Graciliano reproduz os croquis assinados por Carol Paz, Rosa Piatti e pelas designers da Caleidoscópio. Um convite aos bastidores da usina de ideias dos criadores

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Caleidosc贸pio

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DOCUMENTA

Rosa Piatti

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Rosa Piatti

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DOCUMENTA

Carol Paz

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PREÇO, PRAZO E QUALIDADE? JUNTOS? Você só encontra na Gráfica Imprensa Oficial Graciliano Ramos.

A Gráfica da Imprensa Oficial Graciliano Ramos recebeu importantes investimentos nos últimos anos, o que permitiu a aquisição de equipamentos, com objetivo de potencializar sua atuação no mercado gráfico e editorial. Oferece serviços gráficos para os setores públicos e privados, com excelência.

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ENSAIO VISUAL

ALAGOAS DO DESIGN GRÁFICO Como bem afirmou o curador de arte e professor Agnaldo Farias, são imprecisos os limites entre a arte e o design. Essa quase ausência de fronteira é ainda mais expressiva quando se trata de design gráfico. Por trazer um registro do seu tempo – talvez mais do que em qualquer outra área – o design gráfico carrega as marcas do lugar e do contexto em que está inserido. Da mesma forma, está aberto a uma mistura de técnicas, suportes e linguagens que pode contribuir para tornar o produto final ainda mais original, rico e, portanto, mais eficaz, seja no desenvolvimento de livros, folhetos, cartazes ou embalagens. À convite da Graciliano, oito designers gráficos alagoanos ou radicados no Estado criaram uma página que remetesse a Alagoas, a partir de seu repertório visual. Confira

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CHICO MEDEIROS Graduado em Jornalismo, Chico Medeiros, 28, atua como ilustrador e diretor de arte. Já trabalhou em diversas agências de propaganda locais e atualmente divide seu tempo entre a direção de criação da Tengu Propaganda e trabalhos como freelancer.

(82) 9329-1921

chicosm@gmail.com

www.chicomedeiros.com.br

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HERBERT LOUREIRO Com apenas 23 anos, já é um dos mais promissores talentos alagoanos do design gráfico. Trabalha como ilustrador e designer à frente do Estúdio Alba, em parceria com David Pacheco e Barbara Lino. Fundado há quase três anos, o estúdio concebe, em caráter multidisciplinar, projetos de identidade visual, ilustração e web.

(82) 9913-4978

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www.cargocollective.com/herbertloureiro

herbbbert@gmail.com


ESTÚDIO RECA Em 2009, quatro estudantes se reuniram com o objetivo de colocar em prática todas as referências adquiridas em sala de aula e fora dela. Definindo-se como um estúdio multidisciplinar de design gráfico, o Reca tem ajudado a mostrar o poder estratégico do design para os alagoanos. Para isso, Daniel Melro, Rafaela Calheiros, Vennberg Kelson e Cesar Filho dedicam-se a fazer o que mais gostam: transformar ideias criativas em projetos de design. (82) 3317-0482/9606-8181/9902-3448

www.reca.com.br

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info@reca.com.br

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ROBSON ARAÚJO Alagoano, o ilustrador Robson Araújo iniciou aos 19 anos, na agência Dogma Comunicação, em Alagoas. Na ilustração, suas principais referências são de artistas que se dedicam a criar conceitos tanto para o design editorial (capas de livros) quanto para filmes e jogos, como Will Murai, Barontieri, Loish e Charlie Bowater, entre outros. Atualmente, é diretor de arte da Six Propaganda, uma das principais agências de Maceió. (82) 9663 7004

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www.robson-art.com

robsonsantoss@gmail.com


RODRIGO AMBROSIO Viajante curioso, o jovem arquiteto e designer é conhecido por sua ousadia em unir forma e função. Atuante há uma década, tornou-se referência no design gráfico local. Desde 2008, junto à equipe do Ambrosio Studio, em Maceió, estende sua ideologia conceitual e funcional na criação de produtos para o mundo.

(82) 9646.8282/(11) 9103.3301

design@ambros.io

www.ambros.io

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THIAGO OLI A paixão pelo desenho está presente no cotidiano de Thiago desde a infância. Graduando em Jornalismo, foi instrutor do curso de Desenho Mangá do Senac e, nos últimos anos, trabalhou na agência de comunicação Núcleo Zero, onde atuou como diretor de arte e designer. Atualmente, investe seu tempo em estudos, consultorias e produção de design estratégico com foco em soluções criativas. (82) 9118-9089

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www.thiagooli.com

contato@thiagooli.com


TIAGO PRETO O designer Tiago Preto, 27, atua na área há oito anos, como diretor de arte, webdesigner e UX design. Ultimamente, tem experimentado a criação de móbiles e afirma estar gostando do resultado. “Tento colocar tudo que gosto de ler, jogar e fazer nos meus trabalhos”.

(82) 8823-6063

www.tiagopreto.com

ola@tiagopreto.com

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ZEROPIXEL O Zeropixel é um estúdio de design com foco em branding, ilustração e web. Para oferecer excelência em design aos clientes, sua principal ferramenta é a criatividade.

(82) 3317.7586

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www.zeropixel.com.br

oi@zeropixel.com.br


Uma revista que reúne as melhores ideias sobre cultura no maior portal de notícias de Alagoas. www.revistagraciliano.com.br Lançado em janeiro de 2012 como uma extensão da revista cultural Graciliano, o blog Graciliano nasceu com o propósito de garantir a produção semanal de conteúdo, especialmente para pautas do cotidiano, já que a versão impressa tem periodicidade bimestral. Em seis meses, o blog alcançou seu principal objetivo: refletir, com um olhar contemporâneo, sobre temas relacionados à cultura. Agora, como parceiro do portal de notícias Tudo na Hora, estamos muito mais próximos dos leitores.

atendimento@imprensaoficial.al

www.imprensaoficial.al

0800 095 8355

Av. Fernandes Lima, s/n, Km 7, Gruta de Lourdes, Maceió - AL


REPORTAGEM

MENTES, MÃOS E MERCADO A Graciliano mostra como o artesanato alagoano torna-se ainda mais valioso a partir da aproximação com o design, gerando produtos cobiçados dentro e fora do Brasil

TEXTO: ACÁSSIA

DELIÊ

FOTO: RICARDO

LÊDO

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Fotos: Paulo Rios

REPORTAGEM

Artesãs de Pontal de Coruripe, no litoral Sul de Alagoas, durante a produção de peças com a palha do ouricuri

Mesmo para quem não está habituado ao tema, basta uma breve pesquisa para perceber: a discussão sobre a aproximação cada vez maior entre o artesanato e o design no Brasil é tão atraente quanto complexa. A começar pela profusão de significados adotados para cada uma das palavras. De verbetes extraídos de dicionários a definições mais aprofundadas que tocam questões socioeconômicas, culturais e históricas, o artesanato e o design já rendem, isoladamente,

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páginas e páginas de reflexão. Discutir a interseção entre as duas atividades, então, demanda tempo e cuidado para lidar com as divergências sobre o tema. Por um lado, falamos do fazer manual e ancestral de produtos para os mais variados fins. Em Alagoas, tais produtos são em sua maioria confeccionados por mulheres, como fonte de renda ou complementação da renda familiar, a partir de técnicas tradicionais passadas de geração para geração.

Por outro lado, falamos da concepção criativa de projetos e produtos destinados a atender às necessidades humanas, em pequena ou larga escala. Concepções essas saídas de mentes que passaram por cadeiras de faculdades e aprenderam a criar para atender ao mercado e à demanda de públicos específicos, em geral exigentes. No centro das discussões, o processo de industrialização – que acabou por reposicionar o artesanato brasileiro a uma produção barata, ligada ao subdesenvolvimento e ao atraso – e a posterior preocupação com a manutenção da cultura artesanal. Somar os saberes, vencendo a relação dicotômica existente entre os artesãos “iletrados”, que usam as mãos para fazer, e os designers “letrados”, que usam as mentes para criar, é o maior desafio proposto por profissionais como a jornalista Adélia Borges, autora do livro mais comentado sobre o assunto no momento no País – Design + Artesanato: o caminho brasileiro (confira entrevista com a autora nas págs. 6 a 17). Uma história contada pela arquiteta e consultora do Programa Sebrae de Design, Marta Melo, ilustra bem o


tamanho do desafio. Em Entremontes, à margem do rio São Francisco, no município sertanejo de Piranhas, mulheres se associaram e sobrevivem dos produtos feitos à base de duas técnicas de bordado: o redendê e o ponto-cruz. Quando visitou a comunidade pela primeira vez, Marta se deparou com uma situação curiosa: as mulheres produziam um lote de panos de drinques (usados sob copos, na mesa), que haviam sido encomendados por um cliente de São Paulo. O tecido indicado para a confecção dos produtos era nobre e os tamanhos dos panos, bem como a localização

e extensão dos bordados no tecido, também haviam sido predeterminados na encomenda. As bordadeiras, entretanto, não faziam ideia do que estavam produzindo. “Eu perguntei às mulheres se elas sabiam o que era um pano de drinque. Elas não sabiam”, conta Marta Melo, que é especializada pelo Instituto Europeo di Design (IED) e possui no currículo mais de dez anos de trabalho com projetos de gestão em design. “Eu disse que elas precisavam saber o que estavam fazendo e conhecer como e onde os produtos seriam usados, afinal era uma clientela exigente.

Em Feliz Deserto, também no litoral Sul de Alagoas, artesãs trabalham com a palha da taboa

Discutir a interseção entre design e artesanato demanda tempo e cuidado para lidar com as divergências sobre o tema

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Fotos: Marco Antônio

REPORTAGEM

Composta por peças com o bordado boa noite, da Ilha do Ferro, linha Açúcar para a Coleção Alagoas, desenvolvida por artesãos de Alagoas com a orientação de designers e consultores do Sebrae Alagoas: exemplo bem-sucedido da relação entre design e artesanato

Montamos, então, o ambiente da mesa e mostramos como os panos seriam utilizados nas taças. Quer dizer, existe uma diferença muito grande entre os artesãos que recebem uma encomenda e um designer que é contratado para elaborar um produto e sabe exatamente o que e para quem está fazendo”. É justamente esse o desafio em questão: superar a barreira entre o intelectual e o manual, permitindo uma troca de saberes entre designers e artesãos, capaz de reposicionar a produção artesanal contemporânea a partir das técnicas tradicionais, mantendo a história e a iconografia dos

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locais onde são produzidos. Em Entremontes, tem dado certo. Apoiadas desde o ano 2000 pelo projeto Artesanato Solidário (Artesol), as bordadeiras da Companhia de Bordados de Entremontes vêm renovando e incrementando o portfólio ao longo dos anos – sempre a partir dos tradicionais pontocruz e redendê – e recebem encomendas de várias partes do Brasil e do exterior. No site da companhia na internet, um texto traz a marca deixada pela aproximação das artesãs com os designers: “Com produtos sempre renovados e atualizados no tocante a tamanhos e funções,

seguindo influências da vida moderna, as mulheres de Entremontes oferecem toalhas para bandejas, serviços americanos, toalhas de chá e jantar, guardanapos e cortinas, entre outros produtos. A incorporação de novas tendências a uma atividade tão antiga quanto a memória da comunidade demonstra ser possível associar tradição com modernidade e geração de renda”, diz a apresentação. O próprio Sebrae também contribuiu para o sucesso dos produtos de Entremontes, selecionados para integrar a Coleção Alagoas – cama, mesa e banho, lançada em 2008. A


Objetos em palha da linha Folclore, da Coleção Alagoas

coleção foi um projeto voltado para o desenvolvimento do artesanato em oito comunidades do interior do Estado, cuja proposta era melhorar a qualidade dos produtos para conquistar espaço nos mercados nacional e internacional, criando mais oportunidades para geração de renda e sustentabilidade. No catálogo, peças produzidas por 240 artesãs de associações e cooperativas alagoanas, divididas em três linhas sugeridas pelos designers do Sebrae, baseadas na iconografia alagoana: Alagoas do Açúcar, em tons branco, bege e açúcar mascavo e com simetria e

equilíbrio para os consumidores “mais clássicos”; Alagoas das Águas, em branco e lavanda e linhas limpas e suaves para “os urbanos”; e Alagoas do Folclore, com peças mais coloridas e formas dinâmicas, repletas de movimento para “um público inovador”. Para escoar a produção, uma das ações realizadas pelo Sebrae foi uma mostra da coleção na loja Florense Móveis, em janeiro de 2009, cujo público-alvo era formado por empresários do Estado, convidados a conhecer os produtos e realizar possíveis compras diretamente com as artesãs. As peças foram

expostas de maneira dinâmica, na forma que poderiam ser utilizadas no ambiente. No mesmo dia da mostra, a empresa Empório IQA/Santa Paz voltou à loja e fechou negócio com a associação de artesãs de Entremontes e com as cooperativas da Ilha do Ferro, em Pão de Açúcar – que produz o secular bordado boa noite – e de Porto Real do Colégio – também produtora do redendê. Entre os produtos encomendados estavam jogos americanos, guardanapos, passadeiras e toalhas de lavabo, confeccionados com renda de bilro, singeleza e bordado boa noite.

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REPORTAGEM

RELAÇÃO DELICADA

A união entre design e artesanato vem acontecendo desde os anos 80 e tornou-se uma característica do design latinoamericano

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Escoar a produção e conquistar um lugar de destaque para o artesanato no mercado, gerando renda para os artesãos, são os objetivos principais de programas como o Artesol e o Sebrae Design, que buscam aproximar o design do artesanato. É uma relação delicada, que vem sendo acompanhada de perto, recebendo elogios e críticas de autores respeitados como Adélia Borges. A união entre os dois segmentos vem acontecendo desde os anos de 1980 e tornou-se uma característica do design latinoamericano, aponta a autora. Dos pioneiros no trabalho a programas de destaque nacional, passando por diversos projetos governamentais e nãogovernamentais, Adélia Borges ressalta aspectos positivos e negativos nesta aproximação. “Precisamos pôr o dedo na ferida”, avalia a jornalista. “Nessa onda, têm ocorrido também muitos equívocos, muitas experiências ruins. Elas decorrem das visitas episódicas, consultorias de até uma semana que rendem muita mídia para os designers que vão até as comunidades, mas que não deixam nenhum saldo positivo, a não ser expectativas enormes quase sempre destinadas a se tornarem frustrações”.

Adélia Borges também critica a ida de designers às comunidades com projetos prontos, cabendo aos artesãos apenas a confecção de coisas que outros conceberam. “Essa é uma postura que vê designers ou estudantes de design – ou seja, pessoas com instrução formal – como superiores aos artesãos, pessoas sem instrução formal. O que ocorre nesse caso é um encontro – ou um desencontro! – de desiguais. O poder, a clarividência, o domínio estão com os instruídos. Os ‘outros’ entram com sua habilidade, seu jeito com as mãos e, no máximo, com a familiaridade com as matérias-primas. O pressuposto básico dessa aproximação, dessa troca, deve ser o respeito. Respeito pelo ritmo de trabalho do artesão, respeito por signos que resistem há tempos, respeito por todo o sistema de símbolos que se encerra num objeto. Respeito pela ‘boniteza torta’ – na bela expressão da escritora e folclorista Cecília Meirelles – dos objetos feitos à mão. Não levar para ele o universo do feito à máquina; perderia a graça e o encanto”, defendeu Borges em artigo publicado no portal Vitruvírus, em fevereiro deste ano. Para a autora, uma das formas de aumentar o respeito pelos “designers populares” é aumentar o conhecimento a seu próprio


respeito, compreendendo suas raízes e trazendo à tona a riqueza e inteligência do seu trabalho, “uma coisa mental”. “Alguns tipos de renda parecem exigir um sofisticado raciocínio matemático. Essa inteligência está manifesta também nas peças de design popular que encontramos pelas periferias de nossas cidades – churrasqueiras feitas de calotas velhas de pneus, postos de trabalho de vendedores ambulantes, embalagens, lamparinas, banquinhos que aproveitam móveis usados, instrumentos de pesca, brinquedos etc. São improvisações que revelam a capacidade fantástica do povo brasileiro de responder às suas necessidades do dia a dia com inventividade e criatividade”, aponta Adélia Borges numa clara referência à essência atribuída ao design enquanto forma de conhecimento. Como resposta à intensificação dessa aproximação entre letrados e iletrados, o assunto tem sido foco de debates em universidades de todo o País. Outra jornalista – e também professora universitária – que vem se dedicando a debater o tema é Ethel Leon. Já em 2005, a autora criticava algumas intervenções superficiais de designers sobre comunidades artesãs. Após as consultorias, escreveu Leon: “os trabalhadores

A troca entre artesãos e designers deve estar pautada no respeito pelos signos e pelo ritmo de trabalho de cada comunidade

ARTESANATO, DESIGN E A ACADEMIA Fundado em 2011, o curso de Design da Universidade Federal de Alagoas é fundamentado em três eixos básicos: o design de interiores (ambientes), o design de produtos e o design gráfico, relacionados aos espaços de convívio humano. O projeto pedagógico do curso, aprovado em dezembro de 2010, já destacava que, nos últimos anos, são notórios pontos de interesse crescente, como a união do design com o artesanato, sustentabilidade, inovação e simplicidade, dissolução das fronteiras, desenho universal, brasilidade e dimensão social. Segundo o professor e coordenador, Alexandre Toledo, o curso ainda está no terceiro período e as disciplinas de projeto de objetos que poderão explorar o tema só serão iniciadas no segundo semestre deste ano. “Já existem contatos em andamento para trabalhos de pesquisa e extensão com aproveitamento do couro do jacaré e fabricação de bolsas com material reciclado. Um de nossos professores trabalha como consultor em projeto de

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design de joias com comunidades indígenas na Amazônia”, ressalta . Alexandre Toledo diz ver como bastante promissora a aproximação do design com o artesanato, por meio de trabalhos de parceria. No Brasil, e especialmente no Nordeste, a manualidade é um bem cultural que, para o coordenador, pode ser incorporada a processos industriais ou mesmo desenvolvida em outros moldes, como por cooperativas de artesãos. “Arte, artesanato e design poderão formar um bom tripé para alavancar a produção de objetos de decoração e moda no Estado”, analisa Toledo. Em Alagoas, além da Ufal, existem apenas mais dois cursos com formação superior em Design, ambos criados na década de 2000: o curso de Design Gráfico, em nível bacharelado, da Faculdade Maurício de Nassau, e o curso de Design de Interiores, em nível tecnológico, do Instituto Federal de Alagoas (Ifal).

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manuais constroem objetos para um mundo que não é o seu, e tais objetos, na avidez contemporânea por novidades, tendem a ser simbolicamente superados em pouco tempo. Todos devem lembrar-se das bolsinhas de fuxico que inundaram o mercado de moda há algum tempo e que

‘já cansaram’. Quem produz as bolsas tem de apelar novamente aos designers para elaborar outros produtos com aquela técnica, aquela linguagem”. As críticas, no entanto, aparecem acompanhadas de caminhos sugeridos para alcançar o sucesso no

casamento entre as duas formas de conhecimento, de forma que venham a se complementar, como aponta Ethel Leon: “Um programa de design e artesanato deve criar condições e autonomia projetual para os artesãos. Isso significa ter condições de pensar na criação de produtos, e a melhor forma de fazê-lo é que respondam às suas necessidades”.

EM CORURIPE, O ARTESANATO QUE VEM DO OURICURI Um dos maiores símbolos do sucesso na relação cada vez mais íntima entre o design e o artesanato alagoano tem nome, sonoros sobrenomes e mora no paraíso natural de Pontal do Coruripe, no Litoral Sul do Estado. Maria da Luz Loz de Melo é uma senhora de 64 anos, nascida e criada no município, e a mais antiga integrante da Associação das Artesãs do local, especializada na confecção de produtos a partir da palha do ouricuri, uma palmeira nativa da região. Antes de falar sobre Maria da Luz, no entanto, é importante apresentar um breve histórico sobre o artesanato coruripense. Com 22 mulheres vinculadas, a associação foi fundada em 1998, como forma de fortalecer o comércio de peças como balaios, pequenas caixas e frasqueiras. Mas foi a partir dos

anos 2000 – quando designers do Sebrae e da Secretaria de Estado do Planejamento e do Desenvolvimento Econômico (Seplande) começaram a se aproximar da comunidade – que a produção local cresceu e se revitalizou, como explica a presidente da associação, Maria José de Souza, de 47 anos. Ela, como a maioria das artesãs do município, aprendeu ainda criança, com a mãe, como entrançar as palhas do ouricuri e dar formas aos tradicionais balaios. “Mas o bom acabamento mesmo a gente aprendeu foi com os designers”, ressalta Maria José, citando a intervenção da designer Mirna Porto como uma das mais importantes para a associação. As capacitações realizadas por Mirna Porto, por meio de programas do Sebrae ou da Seplande, buscavam

Fotos: Paulo Rios

Artesanato com palha de ouricuri, de Pontal do Coruripe 78

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desenvolver entre os artesãos a consciência sobre a identidade cultural de suas comunidades. Além de estimular os artesãos a confeccionar peças com qualidade, tendo sempre atenção a itens como medidas, funcionalidade, beleza, qualidade, acabamento e preço competitivo, as capacitações tinham como prioridade a inserção da identidade cultural, da “cara de Alagoas”, nos produtos de cada região do Estado. O objetivo era explicar a diferença entre o trabalho manual e o artesanato, sendo este carregado das lembranças e dos costumes locais, de um cotidiano, tendo o compromisso de mostrar quem produz e de onde vem a elaboração das peças. Foi nesse sentido, inclusive, que a parceria entre o Sebrae e a Seplande rendeu outro importante fruto, em 2011, não somente para artesãos, mas para demais artistas, empresários e o público em geral: o livro Iconografia Alagoana, um banco de dados e informações que reúne 134 ícones da cultura local e cuja proposta é servir como material de pesquisa para a confecção de qualquer produto com base nas principais referências do Estado. Dentro do programa de revitalização do artesanato alagoano, a Associação das Artesãs do Pontal do Coruripe é apontada como um caso de sucesso, tendo conquistado e

fidelizado importantes clientes no Estado, entre eles o Hotel Radisson. Durante a visita da Graciliano à sede da associação, por exemplo, as artesãs se preparavam para atender a mais uma grande encomenda: 120 bandejões para a cozinha do hotel. E é nessa história de sucesso que Maria da Luz Loz de Melo é protagonista. Depois de participar das capacitações realizadas pelos designers, ela não somente melhorou os acabamentos das tradicionais peças de ouricuri como aprendeu a criar novas peças, a partir da demanda dos clientes. Além dos clássicos balaios, frasqueiras e porta-joias, a associação passou a produzir também luminárias, abajures, porta-talheres, revisteiros, sousplats e a principal criação de Maria da Luz: a cesta de piquenique, com divisórias internas para cada tipo de alimento e bebida. “Essa não para aqui, dá trabalho pra fazer, mas todo mundo gosta”, afirma Maria da Luz, que reconhece a relevância da intervenção dos designers na revitalização dos produtos feitos pelas artesãs. “Antes, era tudo feito de qualquer jeito, até porque só era vendido por aqui, era difícil ter encomenda. E tudo era barato. Então, se o produto custava R$ 20, a pessoa vinha aqui, dizia que só dava R$ 10 e a gente vendia, porque não sabia se ia ter renda no fim do mês. Agora

Bolsa em palha de ouricuri: artesãs reconhecem a relevância da intervenção de designers

é diferente, o acabamento é diferente, tem qualidade, tem cuidado. Se a gente vê meio tortinho, vai lá e desmancha, faz de novo. E tem também as cores, que antes a gente não sabia combinar direito, misturava verde com amarelo, era só bandeira do Brasil”, conta Maria da Luz, em meio a risos. “Os designers ensinaram uma cor que eu não conhecia, que é a cor terra e que fica muito bem na palha. Agora a gente sabe misturar as tintas, combinar as cores. Agora é tudo chique.

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Fotos: Paulo Rios

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Acima e ao lado, peça em palha de ouricuri

Nossa renda aumentou 80% depois que o material ficou melhor”, afirma. O projeto é apoiado pelo Instituto para o Desenvolvimento Social e Ecológico (Idese), uma instituição do Grupo Tércio Wanderley que promove ações socioambientais voltadas para o desenvolvimento sustentável. No site da instituição (www. idese.org), é possível encontrar uma loja virtual com as peças produzidas pelas artesãs de Coruripe e de Feliz Deserto, onde 33 mulheres também garantem renda com a produção artesanal. Em Feliz Deserto, a produção de pufes, bolsas, tapetes, cestos e outros objetos de decoração parte do beneficiamento da palha de

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taboa, uma planta aquática abundante na região. Com a venda dos produtos, as artesãs conseguem um incremento na renda familiar de quase um salário mínimo por mês. A REVITALIZAÇÃO DO ARTESANATO Paralelamente ao incremento da qualidade do artesanato produzido em Alagoas, programas governamentais e não-governamentais investem para atrair a atenção de consumidores para as novas peças, dentro e fora do País. No âmbito governamental, a Seplande tem intensificado as ações do Programa do Artesanato Brasileiro em Alagoas (PAB-AL), visando

qualificar e preparar os artesãos para os mercados interno e externo, preservando as culturas locais e estimulando o empreendedorismo. Para isso, o programa investe na organização do setor – oferecendo de graça a carteira do artesão, que garante benefícios fiscais e comerciais – e na divulgação e comercialização dos produtos, incentivando a participação dos artesãos em feiras e exposições. A assessora especial da Seplande que atua em ações de design e artesanato em Alagoas, a designer Vânia Amorim, acredita que os dois setores estão cada vez mais se complementando. Embora defenda que o design não tem propriamente o compromisso com a manutenção cultural local, pois é desenvolvido para solucionar problemas universais, Vânia ressalta que, além de lógico, o design é também uma atividade criativa, cuja matéria-prima é o repertório inconsciente do próprio designer. “É natural que um produto revele em cores, formas e materiais, com maior ênfase, o ambiente onde este profissional está inserido, a exemplo da chaise Gogó da Ema, de Rodrigo Motta, e o colar Mulher Rendeira, de Bruna Bert”, enumera Vânia. É também o caso das coleções produzidas pelo Sebrae, como a Coleção


Alagoas e a coleção Berilo, esta produzida em conjunto com estudantes de Arquitetura, Publicidade e Marketing e Administração do Centro de Estudos Superiores de Maceió (Cesmac). A Berilo foi lançada em 2008 e trouxe objetos de decoração idealizados por artesãos e designers alagoanos, cuja inspiração maior foram as águas do Estado – a palavra “berilo” tem origem grega e significa “cor azul-esverdeada da água do mar”, em referência ao mar de Alagoas. Vânia Amorim, que também se especializou no Instituto Europeo di Design em Roma e Milão, se diz totalmente favorável à “intervenção responsável” de designers no artesanato, já que trabalhos como os realizados pelo Sebrae apresentam resultados percebidos não somente na excelência dos produtos, mas também na qualidade de vida dos artesãos. Para ela, após a aproximação com o design, o artesanato de Alagoas e de todo o Brasil está melhor, “evoluiu”, sendo hoje cobiçado por um público diferente, mais esclarecido e com maior poder de compra. “Cada peça artesanal é única, exclusiva. É um luxo”, avalia a designer. Marta Melo, do Sebrae, concorda. Ela rebate as críticas sobre as intervenções de designers nas comunidades artesãs, às quais classifica como “conservacionistas”, e

ressalta que “o design nunca interferiu na técnica”. Marta explica que o artesanato é um saber coletivo que vem se aprimorando lentamente pelos séculos e cada comunidade vai dando sua interpretação própria, fazendo surgir novos mestres que aprimoram a técnica. “Os produtos é que mudam. Olhe os desenhos e ilustrações de Debret do século 19. As cestas e balaios onde os negros levam as galinhas e outros objetos são enormes, bem como as cestas nos burros. Hoje as cestinhas são menores e até jogos americanos surgiram. Isso porque a necessidade é deste século e não do passado. No entanto, o ponto do crivo é o mesmo e o modo de trançar as fibras também. Não há problema algum nisso”, explana Marta.

Para a consultora Marta Melo, do Sebrae Alagoas, “após a aproximação com o design, o artesanato de Alagoas e de todo o Brasil está melhor, evoluiu”

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EM PENEDO, RISCOS, LINHAS E AGULHAS Dos balaios retratados por Debret, passando pelas cestas de Coruripe, até os bordados ribeirinhos de hoje, o artesanato tem se revitalizado. Em Penedo, a Graciliano encontrou outro exemplo de artesãs que evoluíram as técnicas artesanais e hoje conciliam a tradição com a geração de renda e o atendimento ao mercado. A Associação de Inclusão Social Bordadeiras de Penedo (Aisbope) passou por várias mudanças, desde as peças, que se tornaram “mais modernas e atuais”, até a marca, que em 2011 abandonou a burocracia da sigla Aisbope e passou a se chamar Pontos e Contos, em uma referência às histórias e lendas traduzidas nos bordados produzidos às margens do rio São Francisco. Em Penedo, poucos conhecem a Pontos e Contos. A pequena placa de identificação à frente da casa de arquitetura antiga divide espaço com a logomarca da Casa da Amizade, onde todo o trabalho começou. Mães, adolescentes e crianças, algumas em situação de vulnerabilidade social, se organizaram há

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Bordados da Pontos e Contos, de artesãs de Penedo

cerca de 13 anos e, entre uma atividade e outra da Casa da Amizade, aprenderam a fazer crochê, bordado, fuxico e a costurar. Aos poucos, o que era passatempo se transformou em ferramenta de inclusão social e fonte de renda. Fundada em 2004, a associação conta hoje com a participação de 37 bordadeiras, que se dividem na produção de roupas e outras peças a partir, principalmente, do bordado ponto livre, que traça linhas coloridas sobre desenhos representativos da região ribeirinha. Em Penedo, de fato, os produtos mudaram. Mais uma vez, após as intervenções de designers do Sebrae. Antes, as artesãs produziam peças direcionadas basicamente para a cozinha, como toalhas de mesa e panos de prato. Peças que, como explica a tesoureira

da associação, Maria Josete da Silva de Liro, não faziam mais tanto sucesso. “A gente também bordava muitas flores, desenhos que todo mundo borda. Depois, com a orientação dos designers, começamos a criar novos desenhos e novos produtos”, lembra Josete. Hoje, a Pontos e Contos é conhecida nacionalmente pela produção de roupas e outras peças de tecido bordadas com temas regionais, como os prédios históricos de Penedo, as águas do rio São Francisco, as árvores nativas, peixes e embarcações características das cidades ribeirinhas. Outra inovação das artesãs do município foi a criação de uma linha de roupas voltada para o público infantil. Lançada em 2011, a coleção foi toda bordada com brincadeiras de criança, como a dança de roda, a


corda e a amarelinha e alcançou sucesso em feiras realizadas nas principais capitais do Brasil, como Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Salvador e Recife. Uma coleção de brindes corporativos, com destaque para porta-joias, carteiras e capas de agendas, que são vendidos em grande quantidade para empresas, também ajudou a alavancar os negócios da associação. As peças de brinde são vendidas em média por R$ 30 e os vestidos da nova coleção, em formato de bata, custam em torno de R$ 200. A revitalização do artesanato local foi reconhecida pela última edição do Prêmio Sebrae Top 100 de Artesanato, em 2010. A Pontos e Contos foi considerada uma das 100 unidades produtivas mais competitivas do Brasil, junto com outras três representantes alagoanas: a cooperativa Art-Ilha, de Pão de Açúcar, com o bordado boa noite; o artesanato da palha do ouricuri, de Coruripe; a Associação de artesãs de Feliz Deserto, que utilizam a palha da planta aquática taboa para confeccionar artesanatos; e a oficina de joias Caleidoscópio. Quem observa produtos mais antigos e compara com os novos percebe a diferença estética: além dos riscos que retratam temas regionais, os bordados têm novas combinações de cores de linhas e a aplicação do

Com bordados cada vez mais originais, a Pontos e Contos foi considerada uma das 100 unidades produtivas mais competitivas do Brasil

bordado é diferenciada. Em um vestido branco, exposto em um manequim na recepção da associação, um detalhe prova a sensibilidade das artesãs: todos os botões de tecido receberam aplicação de bordados de pequenas flores. “Mudou tudo aqui. Não tínhamos muita noção de como montar os riscos, nem onde e de qual tamanho o bordado deveria ser aplicado para chamar mais atenção. Às vezes, passávamos uma semana bordando um vestido, cheio de linhas, e no final o custo nem sempre valia a pena. Agora fazemos peças mais planejadas, diminuímos os custos de produção e aumentamos o lucro e a renda das artesãs em cerca de 100%”, diz a tesoureira. Apesar das grandes mudanças na produção das peças, as artesãs acreditam que a valorização econômica do artesanato local aproxima a população e ajuda a manter viva a cultura. A penedense

Cláudia Evânia da Silva, de 25 anos, diz ser uma prova disso. Ela havia se afastado das linhas e agulhas para trabalhar como empregada doméstica, pois precisava de uma fonte de renda segura para sustentar o casal de filhos pequenos. Mas voltou para a associação quando percebeu que o bordado poderia se transformar em um negócio viável. “A gente não olha o tamanho do bordado quando borda de coração”, conta Evânia. “Mas o mercado está muito competitivo e precisamos nos adaptar. Nem sempre o dinheiro é certo, mas um mês compensa o outro. Pra mim é um orgulho bordar e daqui a pouco são meus filhos que estarão aqui. Aliás, eles já sabem separar os tons de linha para as peças e se eles dizem que o que eu faço está bonito, pra mim está bonito. Eles são os primeiros a fazer o teste de qualidade. Só posso dizer que, enquanto houver o bordado, eu estarei aqui”.

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FILÉ: PATRIMÔNIO CULTURAL RENOVADO Prestes a se tornar patrimônio cultural imaterial de Alagoas, a renda de filé é outro tipo de artesanato que vem se revitalizando após a aproximação com o design. Embora não tenha nascido no Estado – há quem situe sua origem no Egito Antigo – a renda criou um forte laço de identidade cultural com as artesãs alagoanas, especialmente na região lagunar. A imagem da rendeira trabalhando à margem da lagoa Mundaú, de tão retratada, transformou-se até numa espécie de clichê iconográfico, quase obrigatório em reportagens sobre o tema. Não é à toa que o filé entrou na lista dos bens imateriais que estão sendo analisados pelo Conselho Estadual de Cultura para serem patrimonializados, com base na sua continuidade histórica e relevância para a memória, para a identidade e para a formação da sociedade alagoana. Para os mais tradicionalistas, pode parecer uma situação paradoxal, mas esse clássico filé tem se reinventado ao longo dos anos, ganhando novas cores, novos materiais e

Ricardo Lêdo

O filé deve ser registrado como patrimônio cultural imaterial de Alagoas

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servindo de base para roupas cada vez mais cobiçadas por consumidores do mundo inteiro. A Graciliano também visitou o Pontal da Barra, bairro periférico das orlas marítima e lagunar de Maceió, conhecido pela produção e comércio de peças de filé, para verificar como o casamento com o design alterou a rotina de produção e comercialização entre as rendeiras do lugar. De cara, uma observação: a estilista alagoana Martha Medeiros continua sendo uma das principais referências para as artesãs do local, intensificando o contato das rendeiras com o mundo da moda e influenciando a criação de novos modelos de roupas, desde blusas e vestidos, até peças acessórias, como bolsas e cachecóis. Nas lojas, não é difícil encontrar recortes de revistas mostrando modelos nacionais e internacionais vestindo peças produzidas por Martha Medeiros a partir de rendas artesanais, como o filé. Uma entrevista publicada no final do ano passado na Folha.com revelou que um vestido de noiva da marca pode levar um ano e meio para ser feito, envolve o trabalho de 32 rendeiras e custa mais de R$ 20 mil. Uma das principais heranças inspiradas na produção da estilista alagoana, que conquistou recentemente

REGISTRO DO FILÉ A renda de filé está próxima de se tornar patrimônio cultural imaterial de Alagoas. Cinco associações de artesãs do entorno do complexo lagunar Mundaú-Manguaba, com apoio do Sebrae Alagoas, solicitaram em abril deste ano o registro do filé na Lei 7.285, de 2011. A lei busca dar continuidade histórica aos bens registrados e sua relevância para a memória, a identidade e a formação da sociedade alagoana. A solicitação do registro do filé com patrimônio imaterial justificou-se na representação da renda como produto artesanal de grande escala comercial no Estado. Encaminhado à Secretaria de Estado da Cultura, o pleito deve seguir para o Conselho Estadual de Cultura, que dará a decisão final sobre o registro.

espaço notório em Nova York, foi a incorporação de novos materiais a peças tradicionais, como a lã e uma linha “que imita a seda”, semelhante a uma linha importada usada por Martha e que, segundo as rendeiras do Pontal, é “impossível” encontrar em Maceió. No site de Martha Medeiros, um texto explica o trabalho desenvolvido pela estilista: “Martha se inspira na delicadeza da renda, criando peças que são verdadeiras obras de arte. Ela utiliza as técnicas de costura mais sofisticadas, completando com horas de trabalho manual, a fim de assegurar a cada peça um acabamento perfeito. Juntamente com a renda renascença brasileira, apenas os mais nobres materiais são usados em peças de vestuário,

A relação com o design alterou a rotina de produção e comercialização entre as rendeiras do Pontal da Barra

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Fotos: Michel Rios

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No Pontal da Barra, as rendeiras do filé costumam trabalhar à porta de casa

tais como musseline de seda, tule e renda francesa, barbatana de silicone alemã e crinol suíço”. A apresentação está em sintonia com as avaliações da designer e consultora do Sebrae, Marta Melo. “O artesanato é do artífice. Daquilo que é feito com as mãos, portanto antes da industrialização tudo era manual. Com a industrialização, novos materiais, como o plástico e o metal, passaram a ocupar e preencher toda a necessidade de fabricação dos utilitários e a escala manual ficou reduzida a quem não podia ter o industrial. Hoje a relação é inversa. O industrial é acessível e o acesso ao produto feito a mão se tornou caro, ‘coisa de quem é chique e pode

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pagar’”, diz Marta Melo. Para se ter ideia, o trabalho das artesãs da Ilha do Ferro, produtoras do bordado boa noite, chamou a atenção da herdeira do armador grego Aristóteles Onassis, a milionária Athina Onassis, que produziu todas as lembrancinhas do seu casamento lá. Para Marta, o design é uma estratégia de inovação, principalmente na nova forma de uso do artesanato, e só vem agregar valor e reposicionar estrategicamente o produto artesanal, pois compreende o que o mercado quer. “Martha Medeiros faz isso, Ronaldo Fraga, Lino Villaventura e tantos outros designers de moda. Só proporcionam coisa boa para o universo do artesanato, que estava muito relegado à coisa

‘cafona’ e da ‘vovó’. Não lembro, dos anos 80 e 90, de nada da moda que usasse rendas ou bordados. Tudo era muito clean e muito copiado das grandes tendências europeias. Hoje isso mudou muito”, analisa a designer. Como se pode imaginar, nem todas as artesãs são tão receptivas às novidades e mudanças na renda tradicional. A maioria sequer aceita fazer peças sob encomenda e apenas produzem e colocam os produtos expostos à venda nas lojas. A rendeira Rejane Vitória da Silva, de 47 anos, por exemplo, até diz que faz, mas não é “muito chegada a encomendas”, pois nem sempre a produção sai ao gosto do cliente e as peças têm de ser refeitas. “É artesanato,


nenhum fica igual ao outro”, diz. Ela conta que, numa feira em São Paulo, aceitou produzir um vestido para uma cliente e já teve de refazê-lo “umas 30 vezes”, até agora sem sucesso. Questionada sobre a relevância da intervenção de designers na produção de renda local, ela é direta: “É como se fosse a minha casa: eu não preciso de arquiteto, preciso do terreno e dos tijolos. O arquiteto até poderia fazer melhor, mas eu também tenho capacidade. Se eu tivesse dinheiro, por exemplo, compraria vários materiais e criaria muita coisa nova, mas não tenho capital de giro. Às vezes, falta linha, eu vou misturando as cores e é justamente disso que o cliente gosta”. A artesã Renia Regia, de 35 anos, por outro lado, é uma das antenadas nas novidades da moda. Ela aprendeu a arte do filé com a mãe, a quem hoje tenta convencer a revitalizar a produção, baseada em uma oficina de design da qual participou. “É difícil, ela tem 56 anos e não quer aprender a usar as linhas de seda nem a fazer coisas novas”, conta Renia, dona de uma pequena loja no Pontal da Barra. “Ela também fica presa a produtos de antigamente, como blusões e os caminhos de mesa, que não valem mais a pena porque todo mundo faz e sai muito barato. Eu digo: ‘Mãe, já está ultrapassado’, mas é difícil.

Às vezes a gente fica presa na mesmice por falta de estrutura, porque o mercado de linhas em Maceió é limitado, mas acho importante inovar, é o ‘tchan’, a peça exclusiva”, relata a artesã. PETRÚCIA, A DESIGNERARTESÃ Aos 30 anos de carreira, o ceramista profissional Gilberto Paim tem uma teoria: o sucesso na revitalização e ascensão do artesanato brasileiro está condicionado à relação de complementaridade entre o design e o fazer artesanal. Com doutorado pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro, Estado onde mantém um ateliê com a esposa, Elizabeth Fonseca, Paim tem ressaltado em palestras que os artesãos precisam ser estimulados a atuar, como ele próprio, “como

designers de sua própria produção”. “A revalorização em profundidade do trabalho artesanal depende do estímulo ao seu potencial inovador. Aos ofícios artesanais, em seu sentido pleno, não pode faltar atividade projetual própria dirigida à produção em pequena escala, ao mesmo tempo elaborada e diversificada. Tanto melhor se a criação de novos produtos for empreendida pelos próprios artesãos como o pleno florescimento de seu ofício. Eis aí uma dimensão importante da atividade artesanal, que, infelizmente, costuma ser desprezada”, defende Gilberto Paim. No Pontal da Barra, a artesã Petrúcia Ferreira Lopes, de 45 anos, quebrou esta barreira. Há dez anos, ela mantém uma das mais conhecidas lojas de produtos feitos de filé no bairro.

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As artesãs vêm buscando diversificar as peças em filé, com produtos para cama, mesa, vestuário e acessórios, com linhas de cores variadas


Michel Rios

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Posso dizer que o artesanato que eu produzo se divide em antes e depois do curso de design Petrúcia Lopes | Artesã e designer

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Mas a história de Petrúcia com a renda lagunar nem sempre foi harmoniosa e teve seus altos e baixos. Houve um tempo em que ela cansou do filé e saiu da loja, fez um curso técnico de Eletrotécnica e trabalhou inclusive como subgerente de uma loja no shopping. Até que a artesã descobriu o mundo do design e aí vem vivendo só de amores com o trabalho no Pontal. O recomeço do romance data de 2008, quando Petrúcia decidiu cursar Design de Interiores no então Centro Federal de Educação Tecnológica de Alagoas, o Cefet, hoje transformado em instituto, o Ifal. Aproveitando um trabalho realizado em sala de aula, Petrúcia reavaliou a sua produção artesanal e iniciou uma série de mudanças para incrementá-la, tornando-a mais rentável. A primeira foi um lance de marketing: mudar o nome da loja do antigo “Arte da Terra” para “Loja da Petrúcia”, como o público de fato conhecia o estabelecimento. Depois, passou a utilizar os conhecimentos teóricos de design na produção das peças de filé, mudando radicalmente a cara dos produtos e da loja. Um manequim passou a fazer parte da decoração de entrada e as vitrines ganharam mais cores. “Eu achava o colorido brega, tinha certa aversão àquele monte de cores misturadas. Mas eu

descobri que o problema é que eu não sabia colorir. Quando aprendi, as cores ficaram mais harmoniosas e eu pude sair do bege, do branco e do natural com os quais normalmente trabalhava”, relata Petrúcia. Além das cores, novos materiais e modelos de roupas e acessórios passaram a fazer parte das coleções. Petrúcia ficou mais atenta à moda – inclusive a de Martha Medeiros – e introduziu melhores acabamentos e misturas de rendas, revitalizando a produção e criando peças únicas e diferenciadas na região, que possuem maior valor agregado. Hoje, acredita que o filé deve se adaptar à moda e vice-versa. E avalia que turistas não conseguem identificar “o que é o que” numa profusão de peças coloridas expostas aleatoriamente. Por isso, a loja ganhou nova decoração e a exposição de cada produto é pensada estrategicamente. O filé também começou a ser aproveitado para a produção de novos objetos, como portaguardanapo, bolsas e caixas. Com o apoio do Sebrae e da Seplande, intensificou as noções de empreendedorismo e melhorou as relações comerciais com os clientes, ampliando as vendas e as oportunidades de negócios. “Posso dizer que o artesanato que eu produzo se divide em antes e depois do curso de


design”, afirma Petrúcia. Para ela, uma das principais lições aprendidas foi saber identificar para quem o artesanato está sendo produzido. “O intuito da artesã lojista é fazer o maior número possível de peças para serem vendidas. Antes, a filezeira acordava e pensava: hoje, vou fazer essa blusa porque acordei com vontade de fazêla. Agora é diferente, ela tem de fazer o que será vendido. Tem que ter memória das peças. Não adianta você ser a melhor filezeira que existe se você não vai atender ao consumidor”, explica Petrúcia Lopes. Questionada sobre os impactos das relações comerciais sobre a tradição cultural do artesanato, a artesã-designer defende que são as peças únicas e diferenciadas que garantem a valorização dos produtos artesanais. “Até criarem a máquina de fazer filé, o trabalho da renda é manual e nenhuma peça sai igual à outra. É mão fazendo filé, a rede de tear também é manual, tem sempre um detalhe diferente, apesar das semelhanças. Isso é artesanato”, diz Petrúcia, que hoje passa as manhãs ensinando mulheres de Maceió a produzir o filé, multiplicando saberes, em oficinas pedagógicas destinadas a mães de alunos da Fundação Bradesco.

ARTESANATO E ACESSO AO MERCADO Programa Sebrae de Design O design está presente em todos os processos da empresa, desde a concepção do produto até o planejamento, produção, marketing e comercialização. Para ajudar a pequena e micro empresa a inovar nessa área, o Sebrae oferece vários tipos de atendimento, desde consultoria individual à elaboração de cadernos de tendências, adequação de embalagens, concepção de identidade visual da marca e promoção de ações específicas. No campo do artesanato, o Sebrae promove consultorias e capacitações em diversas comunidades artesãs em Alagoas.

Programa do Artesanato Brasileiro em AL A Seplande é gestora do Programa do Artesanato Brasileiro em Alagoas, que coordena e desenvolve atividades para valorizar o artesão alagoano, elevando seus níveis cultural, profissional, social e econômico por meio do estímulo e da preparação dos núcleos produtivos e seus integrantes, para os mercados internos e externos. Entre as atividades do PAB estão cadastrar e emitir a carteira do artesão, identificar as tipologias produzidas no Estado, formar parcerias para capacitação e acompanhamento da qualidade dos produtos artesanais e divulgar e facilitar a comercialização dos produtos artesanais do Estado.

Artesol Inicialmente idealizado como projeto de combate à pobreza em regiões castigadas pela seca, o ArteSol/ Artesanato Solidário foi concebido em 1998 como um programa social e, a partir de 2002, tornou-se uma Organização da Sociedade Civil de Interesse

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Público (Oscip). Suas ações beneficiam brasileiros situados principalmente nas localidades de baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) e priorizam o saber-fazer artesanal enquanto fruto de passagem de saber entre gerações. Em Alagoas, o projeto já concluiu projetos em sete municípios e trabalha agora com artesãos de Entremontes, em Piranhas.

Idese O Instituto para o Desenvolvimento Social e Ecológico (Idese) é uma instituição que busca promover a preservação da natureza e o progresso da comunidade, através da promoção de ações socioambientais voltadas para o desenvolvimento sustentável. Ele foi fundado pelo Grupo Tércio Wanderley em abril de 2005 para que outras empresas possam participar mais ativamente dos projetos gerenciados pelo instituto. Como a maioria das iniciativas atendidas está localizada no município de Coruripe, no litoral Sul de Alagoas, a sede do Idese está instalada lá. Os produtos artesanais das comunidades são vendidos em uma loja virtual do Idese: www.idese.org.

Prêmio Sebrae Top 100 O Prêmio Sebrae Top 100 de Artesanato busca reconhecer, além do valor artístico e cultural de nossa produção, a qualidade e a adequação comercial dos produtos, selecionando as 100 unidades produtivas mais competitivas do País. O prêmio avalia os processos produtivos com foco nas exigências do mercado, o que evidencia também critérios de dimensão social, econômica e ambiental. Na segunda edição, em 2010, cinco grupos de artesanato alagoano ficaram entre as 100 unidades produtivas mais competitivas no Brasil.

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REPORTAGEM

ALAGOAS E SUA ICONOGRAFIA Lançado em 2011, o livro Iconografia Alagoana reúne as mais completas referências simbólicas e imagéticas sobre o Estado. Para designers, a publicação é uma ferramenta essencial na construção de produtos em que a ideia de Alagoas seja requisitada. Nas páginas a seguir, você confere alguns desses ícones TEXTO: JANAYNA

ÁVILA

FOTOS: RICARDO

LÊDO

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O “duelo” entre o vermelho e o azul está presente nas baianas, um dos principais folguedos locais, e compõe a iconografia alagoana

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REPORTAGEM

O famoso coqueiro Gogó da Ema, um dos ícones de Alagoas, representado na calçada do edifício Donina Carneiro, no bairro de Pajuçara

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Criado para funcionar como um livro de referências para profissionais, Iconografia Alagoana resume, em imagens, a riqueza das diferentes expressões alusivas a Alagoas. Para designers, o conteúdo da publicação é essencial. Por essa razão, a edição de Graciliano dedicado ao design e à sua relação com a identidade cultural utiliza a obra como uma de suas principais referências. Lançado em 2011, como resultado de uma parceria entre Secretaria de Estado do Desenvolvimento Econômico, Energia e Logística (hoje, Secretaria de Estado do Planejamento e Desenvolvimento Econômico – Seplande) e Sebrae Alagoas, com o patrocínio da Braskem, a obra oferece um banco de dados essencial na construção de produtos em que a ideia de Alagoas precisa ser expressa. “O projeto nasceu também a partir da constatação de que tanto o Governo quanto o Sebrae não tinham condições de atingir todo o Estado através apenas da realização de capacitações, especialmente na área de artesanato”, explica a assessora especial da Seplande, Vânia Amorim, que ao lado da arquiteta e consultora do Sebrae Alagoas, Marta Melo, coordenou o projeto. Inicialmente, planejava-se trabalhar com 70 ícones, mas durante o delicado processo


de pesquisa – conduzido pelos antropólogos Rachel Rocha e Bruno César Cavalcanti – a lista cresceu e resultou numa iconografia composta por 134 imagens e organizada em seis grupos: viver, alimentar, abrigar, produzir, celebrar e denominar. Entre as fontes de pesquisa estão a literatura, a música, a gastronomia, a arquitetura, as artes visuais e a cultura popular. O livro traz uma seleção de lugares, personagens, objetos e nomes que fazem parte da vida local e existem em função de cenários naturais, paisagens, logradouros, artefatos, episódios históricos, iguarias, técnicas, monumentos, obras artísticas e outras manifestações relacionadas a Alagoas. A elaboração da lista de ícones baseou-se também na frequência com que algumas imagens mostravam-se, a exemplo do filé e do Gogó da Ema, o coqueiro torto que, no passado, chegou a ser utilizado como símbolo de Maceió e ainda hoje é conhecido até mesmo por crianças e adolescentes. A coordenação do projeto realizou também um workshop com artistas e profissionais que se dedicam a trabalhar com temas voltados a Alagoas, como o pintor Lula Nogueira, o documentarista Werner Salles, o cantor e compositor Júnior Almeida e a arquiteta Josemary Ferrare. O projeto gráfico é

Tabuleiro de pirulitos: tábua com furos onde são encaixadas as guloseimas em formato cônico. Para muitos alagoanos, o doce e a sua comercialização remetem à memória de infância

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REPORTAGEM

assinado pelo designer Joaquim Redig, que ficou surpreso com a diversidade de texturas presentes no artesanato, nas artes, na indumentária dos folguedos populares, na vegetação, na gastronomia etc Um dos aspectos mais interessantes na iconografia é a oposição cromática entre o azul e o vermelho, cores presentes em folguedos populares – como o pastoril, cavalhada e baianas –, no uniforme dos dois principais times de futebol da capital, os rivais CSA e CRB, e na bandeira do Estado. O livro traz ainda um glossário, organizado em ordem alfabética, com 134 verbetes descrevendo todos os ícones e a paleta de cores de Alagoas. “É um livro extremamente cobiçado pelas pessoas que trabalham com processo criativo porque se trata de uma obra de referência sem igual em Alagoas”, declara Vânia Amorim.

A oposição cromática entre vermelho e azul está presente na bandeira de Alagoas, em alguns folguedos populares e no uniforme do CSA e do CRB De cima para baixo, pastoril, disputa entre CSA e CRB e cavalhada

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ONDE ENCONTRAR O livro está esgotado, mas pode ser consultado. A tiragem foi distribuída em todas as bibliotecas públicas de Alagoas, Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas (IHGAL) e Arquivo Público.

QUEM FORMA Saiba quais são as três instituições de ensino superior de Alagoas que oferecem cursos na área de design Design – Universidade Federal de Alagoas

Design de Interiores – Instituto Federal de Alagoas

Com atividades iniciadas em 2011, o curso de bacharelado em Design da Ufal tem a duração de quatro anos e concentra-se em três áreas: Design de Interiores, Design Gráfico e Design de Produtos. Entre os objetivos do curso estão “difundir o conhecimento em design, nos níveis de ensino, pesquisa e extensão; formar bacharéis capazes de atuar em diferentes áreas, com propostas inovadoras e sustentáveis, adequação ao mercado, empreendedorismo, inserção no contexto local e regional e promoção dos valores éticos, sociais e ambientais, como também contribuir para a expansão do mercado de trabalho em design e melhoria socioeconômica do estado de Alagoas, apoiando os Arranjos Produtivos Locais (APLs)”.

O curso oferecido pelo Ifal é tecnológico e tem a duração de três anos. O objetivo é “formar profissionais aptos a elaborar e acompanhar a execução de projetos de design de interiores atuando como desenhista, projetista, assistente à gerência de obras de interiores e promotor de vendas”.

Design Gráfico – Faculdade Maurício de Nassau Com duração de três anos, o curso (bacharelado) é voltado à formação de designers gráficos, que podem atuar nas áreas de webdesign (conteúdo digital), design editorial (livros e revistas), design de embalagem e branding (desenvolvimento de marcas).

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SAIBA MAIS

Para saber mais sobre design – um roteiro de livros e filmes.

LIVROS

DESIGN + ARTESANATO

DESIGN NÃO É PERSONAL TRAINER

HISTÓRIA DO DESIGN GRÁFICO

Ricamente ilustrada, a publicação discorre sobre a

Trata-se de uma coletânea de crônicas sobre design e

Com mais de 1300 imagens coloridas, o estudo tem

aproximação dos campos do design e do artesanato,

os mitos vinculados à profissão. Em um tom coloquial

como ponto inicial as pinturas rupestres de Lascaux,

fazendo uma análise esmiuçada das ações

e acessível, o tema é visto por meio do encontro com

desenhadas há mais de 10 mil anos. O livro traz ainda

desenvolvidas pelo empreendedorismo brasileiro,

assuntos correspondentes, como moda, artesanato e

a invenção da escrita, as origens da imprensa no

além de contribuir com a diminuição do preconceito

inovação industrial.

século 15, passa pela Revolução Industrial e artes

que impõe a visão de pouco valor ao que é feito à

Autor: Adélia Borges, Rosari, 192 págs.

gráficas do século 19 e vai até os séculos 20 e 21,

mão e superioridade ao que é produzido por meio do

Onde encontrar: site da Livraria Cultura

apresentando o design pós-moderno e a era digital.

intelecto.

(www.livrariacultura.com.br)

Autor: Philip B. Meggs e Alston W. Purvis,

Autor: Adélia Borges, Terceiro Nome, 241 págs.

Cosac Naify, 720 págs.

Onde encontrar: site da Livraria Cultura

Onde encontrar: site da Livraria Cultura

(www.livrariacultura.com.br)

(www.livrariacultura.com.br)

LIVROS

DOCUMENTÁRIOS

21 GRANDES DESIGNERS E SUAS

OBJECTIFIED (doc., 75 minutos)

ALEXANDRE WOLLNER E A FORMAÇÃO DO

MENTES CRIATIVAS

O documentário trata da relação complexa entre os

DESIGN MODERNO NO BRASIL (doc., 52 minutos)

Entrevistados por Debbie Millman, 21 designers

seres humanos, os objetos produzidos e as pessoas

No documentário, o crítico Alexandre Wollner, um dos

analisam sua arte e revelam as primeiras influências,

que os projetam. O filme documenta os processos

maiores nomes do design gráfico brasileiro, fala sobre

rituais do cotidiano, entusiasmos, aspirações e falhas

criativos de alguns dos designers de produtos mais

sua participação nos momentos centrais da história

dentro do exercício.

influentes do mundo e mostra o impacto que essas

do design e dos trabalhos que determinaram um novo

Autor: Debbie Millman, Rosari, 256 págs.

produções geram em nossas vidas.

rumo à produção visual brasileira.

Onde encontrar: site da Livraria Cultura

Ano de lançamento: 2009

Ano de lançamento: 2005

(www.livrariacultura.com.br)

Direção: Gary Hustwit

Direção: Gustavo Moura

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Comemorar 100 anos de existência é um bom motivo para buscar a inovação Confira o novo site da Imprensa Oficial Graciliano Ramos: www.imprensaoficial.al

atendimento@imprensaoficial.al www.imprensaoficial.al 0800 095 8355 Av. Fernandes Lima, s/n, Km 7, Gruta de Lourdes, Maceió - AL

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Graciliano n° 14  
Graciliano n° 14  

Esta edição reflete sobre o design em Alagoas e reúne a contribuição daqueles que se dedicam a pesquisar e a desenvolver projetos que tenham...

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