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BAÚ DOS SONHOS Coletânea dos contos participantes do I Concurso “Baú dos Sonhos – Contos Surreais” do Colégio Trilíngue Inovação

Chapecó - 2017 1ª Edição

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Colégio Trilíngue Inovação Copyright© 2017 by alunos Ensino Fundamental e Médio Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser apropriada e estocada em sistema de banco de dados ou processo similar, em qualquer forma ou meio, seja eletrônico, de fotocópia, gravação etc., sem a permissão dos detentores do copyright. Colégio Trilíngue Inovação Gestora Me. Gislaine Moreira Nunes Escritores: alunos do 5º Ano do Ensino Fundamental ao 3º Ano do Ensino Médio Título: Baú dos Sonhos – Contos Surreais Coordenação, organização e revisão: Liana Cristina Giachini, Sandra Maria Ponte e Juliete Ilha Particheli Diagramação: Daniela Meine Casarotto Formaio

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Uma imagem vale mais que mil palavras. Talvez não seja o caso de levarmos o provérbio português tão a sério matematicamente, mas as imagens são também uma linguagem, ainda que com funcionamento particular. Essa linguagem não verbal produz sentidos rapidamente e, muitas vezes, alcança um público maior. Dessa forma, não há controle sobre elas, expressam sentimentos e verdades e conseguem abarcar mais informações simultaneamente do que a linguagem verbal. Além da capa, as ilustrações que compõem o livro foram criadas por alunos do Colégio Trilíngue Inovação e são mais uma materialidade que expressa a criatividade e o talento dos estudantes. Aluno do 2º ano do Ensino Médio 2017, Vinicius Romancini possui grande habilidade artística. Autodidata e persistente, treina e desenvolve sua arte com maestria. Pretende cursar Design Gráfico e ir para a área de animação. Almeja trabalhar em estúdios dentro e fora do Brasil. Futuramente, deseja ter seu próprio estúdio. Ligado à Biologia, a Natureza e a Cultura Pop são recorrentes em sua criação e a expressão se dá de maneira suave, porém intensa. Recebe influências das mais diversas - desde músicas, desenhos animados, comics, artistas contemporâneos e do passado.

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APRESENTAÇÃO Gislaine Moreira Nunes Mestre em Educação - Gestora do Colégio Trilíngue Inovação

É com alegria que celebramos mais uma Coletânea de Contos do Colégio Trilíngue Inovação! O contato com os contos sempre esteve presente na vida do ser humano, mas foi se perdendo aos poucos, em meio à rotina atribulada do dia a dia e a desvalorização desses valores. Por isso, investimos em atividades como esta, por valorizarmos o brilho no olhar de cada criança e adolescente ao ouvir ou contar uma boa história. Nesta obra estão alunos, do 5º Ano do Ensino Fundamental ao 3º Ano do Ensino Médio do Colégio Trilíngue Inovação, que nos fascinam com um mundo surreal, movidos pela temática sugerida pelo projeto: Baú dos Sonhos – Contos Surreais. É uma satisfação constatar que as práticas aplicadas no Colégio, despertam nos nossos discentes o prazer e o entusiasmo ao redigir um texto, por meio do qual podem expressar e assumir, de forma crítica e criativa, os seus pensamentos e, esses, ficam eternizados em livros representando uma fase, uma etapa de vida de todos os envolvidos. Seja qual for sua motivação para a leitura, espero que se permita experimentar as sensações que nossos jovens autores podem lhe proporcionar. Seja com olhos de crítico, de educador, de pai ou mãe orgulhoso, ou de alguém que acolheu essa leitura por acaso, delicie-se! Parabéns a todos os envolvidos neste projeto, em especial, nossos jovens escritores. É por vocês, estudantes, e pelo sonho de construirmos um mundo melhor, que o Colégio Trilíngue Inovação existe!

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SUMÁRIO

PREFÁCIO

BAÚ DOS SONHOS – CONTOS SURREAIS - NÍVEL IV As moléculas e o cientista Takkar Ladrão de memórias O elixir do tempo Ela, o vento e o silêncio de uma cidade Meu batismo Laços de escamas A porta da felicidade A casa O pesadelo eterno Viajar é meu sonho A velha sala de balé Exata mente O beijo de Morfeu Estação sem cor Harmonia da imaginação Rosas Boleta A abdução Passagem O olhar da morte Um beijo Paradoxo inevitável Desespero A Rua dos Madeiros O baú vitral de Waterice Um mundo subterrâneo Quem era você? Do campo para o improvável O renascer da Fênix Segundo mundo

09 11 12 14 17 20 22 24

26 28 30 32 34 36 38 40 43 45 47 48 50 52 53 55 57 60 62 65 67 69 71 74 76

BAÚ DOS SONHOS – CONTOS SURREAIS - NÍVEL III

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Hana no Jigoku

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À sombra de mim Seria? Triste fim Antes da morte O incrível mundo de Zena Ghosts of us A lembrança de Lizzy Casa 620 A batalha final Cântico do caído A jornada da vida O enigma oculto A coruja dos olhos de Jade O fantasma de Lolamaria Greey, o colégio mal assombrado Doors Da escuridão à luz O verdadeiro monstro Paraíso da ausência O apocalipse Quarto paralelo Rang Os sentimentos de um novo planeta Cidade em chamas Espelho, espelho meu Por que eu? Arabella Estranha realidade A saudade do medo Delirium

81 83 85 87 89 91 93 95 97 99 100 102 104 106 108 109 111 113 115 117 119 121 123 125 127 129 131 133 135 137

Morena de tinta

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Não a deixe sair Procurando uma saída O jogo da vida Escuridão de meu olhar A comodidade O pior vôo da minha vida Pragas tecnológicas

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Real Foi apenas um sonho A ida

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Inabitável

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Como bolha de sabão Perigos de um mar dos sonhos Eu, o gato da sua mente Hold me down Inconsciência Cilada O sumiço de Liza

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BAÚ DOS SONHOS – CONTOS SURREAIS - NÍVEL II

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Está na mão Através do que os olhos podem ver Memórias passadas Viagem à terra elefantina A artista e seu pensamento Os sonhos de Amanda A viagem para a Estação Ciência A última sombra Fauno Fausto e a emboscada Viagem ao mundo inverso Um pequeno dia Como assim acabou? As lendárias Super Cinco A preço de banana

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BAÚ DOS SONHOS - CONTOS SURREAIS – NÍVEL I

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O sonho Um sonho de bailarina O super peixe Dinossauro em Tókio A esfera

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PREFÁCIO Gabriel N. Andreolli1

A obra de arte é um crocodilo recheado. -- Alfred Jarry

Artistas do século XX, em Paris, cansados da mesmice e das barreiras impostas pelo clássico e suas pretensões de construir histórias e personagens que se aproximassem do real, impulsionados pelas ideias do jovem poeta, dramaturgo e romancista francês Alfred Jarry e amparados pelas teorias psicanalíticas de Freud, aproveitaram os caminhos abertos por simbolistas como A. Rimbaud e Baudelaire para representar a mais nova vanguarda artística, o movimento Surrealista. No apogeu do clássico e das estruturas, da hierarquia, das normas, dos caminhos estritos, da mesmice e do real não só como manipulação social, mas como perpetuação da cultura já existente, alguns intelectuais buscaram na arte uma forma de romper com os padrões artístico-sociais vigentes, trazendo o Manifesto Surrealista, revolucionando, assim, a cultura europeia no século XX. O que muitos deixam de fazer ao analisar uma obra é superar a visão ordinária do que o objeto representaria em seu contexto histórico atual, deixando de observar como o mundo se encontrava no momento em que dada obra teve sua conclusão e, por consequência, sua repercussão. Reconhecendo essa falha, é possível encontrar o real valor, repleto de significados, aproximando-se ainda mais do processo de criação do artista, linkando a arte com a história. O que a obra representa para você? O que a obra representa para o artista? O que a obra representa para a sociedade? Qual o seu papel como espectador? Hoje, quase 100 anos depois do nascimento da vanguarda Surrealista, longo tempo após seu surgimento e disseminação, percebe-se a nítida influência e aceitação de características antes consideradas absurdas e que num contexto mais amplo e moderno, passaram a integrar nosso ambiente cultural, servindo de referência a tantos outros movimentos. O que você faria se tivesse que criar uma história com um ovo, um relógio, um deserto, um queijo? O que você faria se tivesse que conectar elementos completamente distantes de significados e atribuir a eles a sua visão e interpretação das coisas?

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É na arte, através da imaginação, que o ser humano é realmente livre para galopar, explorar, criar e registrar de acordo com os seus anseios. Seja bem-vindo ao universo surreal dos alunos do Colégio Trilíngue Inovação.

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Gabriel Nunes Andreolli nasceu em Porto Alegre (RS), em 07 de novembro de 1991. Iniciou os estudos na área jurídica e cursou até o oitavo período do curso de Direito, que abandonou a fim de se dedicar à Faculdade de Cinema, em Buenos Aires, onde se formou no fim de 2016. Jovem artista de espírito livre, Gabriel se vale da Música e da Literatura para retratar as vicissitudes da vida, numa espécie de catarse. Sua obra inaugural “Universo Paralelo de Palavras e Tripas”, composta de uma coletânea de textos que vão do conto à prosa poética, arrancou elogios da crítica e tem arrebanhado um número cada vez maior de leitores das mais diversas idades. No momento, Gabriel faz parte da equipe do Colégio Trilíngue Inovação e, também, encontra-se em estúdio gravando o disco de estreia de seu projeto musical, intitulado Frankenchrist, com data de lançamento prevista para o primeiro semestre de 2018.

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Ilustração: Vinicius Romancini Conto: Cilada

BAÚ DOS SONHOS – CONTOS SURREAIS - NÍVEL IV (Alunos do 2º e 3º Ano do Ensino Médio)

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As moléculas e o cientista Eu posso sentir tudo, porque sou tudo. Os humanos não podem me ver, sou invisível para eles e apesar de conviverem comigo, até hoje nunca deixei que alguém soubesse da minha existência. Sou muito normal e, ao mesmo tempo, muito diferente, estou na forma molecular e, infelizmente, nunca consegui mudar. Sempre quis ter uma vida normal, como todos os humanos, entretanto esse é só um sonho que nunca se tornará realidade. Também vejo todas as coisas na forma molecular, tudo o que eu conheço são moléculas, somente eu e elas nesse mundo solitário. Posso me transformar em qualquer objeto em que toco, mas claro que somente em forma molecular, é por isso que sinto tudo. Eu só não posso me transformar em um ser vivo. Logo, eu não sei o que é ter emoções, nunca senti a felicidade, a tristeza ou o amor. E sentir isso é tudo o que eu mais quero nesse mundo. Então, resolvi ir atrás do meu sonho, encontrar uma maneira de sair desse mundo molecular do qual já faço parte há muitos séculos. Nesse exato momento, vejo um humano na minha frente, ele está fazendo algum tipo de experiência em cima de uma mesa, que sou eu. Apesar de ser uma tarefa difícil, vou tentar me comunicar com ele. Para isso, começo a agitar as moléculas, o que faz a mesa esquentar rapidamente, e o cientista se afasta dela com um olhar de estranheza. Como isso vai fazer com que ele me veja? Não sei, só estou fazendo tudo o que posso. Depois de várias tentativas falhas, vejo que ele tem um alfabeto feito de metal pendurado na parede, então finalmente tenho uma boa ideia. Para me comunicar com ele, vou me transformar em cada letra e esquentá-la até mudar de cor, de letra em letra, formarei palavras. A primeira coisa que faço é me apresentar e, logo que faço isso, vejo o rosto espantado do cientista, que nunca vira nada igual. Então, ele simplesmente enlouquece. Vejo nos seus olhos verdes que ele começa a acreditar que talvez a ciência seja realmente falha. Em meio ao desespero, tento acalmá-lo e, felizmente, ele, agora curioso, olha para o alfabeto, esperando ansiosamente pela próxima palavra. Depois de um tempo de conversa, o cientista de 35 anos chamado Robert, já sabe quem eu sou. Totalmente impressionado com minha existência, ele se compromete a me ajudar a me tornar um ser humano. Percebo que Robert também era sozinho, somente ele e a ciência. Deve ser por isso que ele me entende, talvez agora ele tenha encontrado alguém para acompanhar.

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Quatro verões já se passaram, e eu ainda não consegui sair da forma molecular, mas não culpo Robert por isso. Sei que ele está dando o seu máximo para me ajudar. Durante esse tempo, testamos várias formas para eu me transformar em ser humano, porém cada uma delas foi uma tentativa falha. Agora, ele já está triste e cansado, não acredita mais nos seus conhecimentos. Frequentemente começa a chorar, porque, depois de todo esse tempo, o meu sonho se tornou o sonho dele, tudo o que ele quer é me ver, tocar-me, ouvir-me e não ficar olhando para um alfabeto de metal que já está se desfazendo de tanto que já havia sido usado. Eu tento animá-lo, fazer com que ele não desista. Acredito que ele seja capaz de achar alguma forma, mas ele diz que já tentou tudo que podia, tudo que a ciência permitia. De repente, tudo para, e eu sinto grande vazio, um vazio doloroso demais pelo fato de eu não poder estar com Robert. Começo a pensar se é assim que a tristeza é. Então vejo ele na minha frente sorrindo e me pergunto o porquê de sua felicidade, até que eu sinto o calor do toque dos seus braços em volta de mim, é aí que eu percebo que havia me tornado humana. Começo a chorar de felicidade, a sensação é ótima. Pergunto a ele como isso aconteceu, ele diz: deve ter sido o amor. Tudo o que eu queria se concretizou, não posso nem acreditar, e o mais estranho é que a chave para tudo era a emoção, o sentimento. Surpreendentemente, começo a me sentir mal, sinto como se algo estivesse se esvaindo de mim, Robert me olha espantado, confuso e triste, toda a felicidade foi embora. Olho para a minha mão e vejo ela se desintegrar aos poucos, estava sumindo nos braços de Robert. Talvez eu simplesmente não possa ser humana, essa não é minha identidade, não sou assim e nunca serei. Pelo menos eu pude sentir o que eu sempre quis por um minuto, o minuto mais valioso de todos os que eu já passei. Se antes eu era tudo, agora eu sou nada. Mr. Darcy Marina Zanella Fedrigo 2º Ano EM

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Takkar Wuta. Terra mágica e misteriosa, contemplada por paisagens fascinantes, feras temíveis e heróis semidivinos. A guerra é iminente. Takkar, líder da tribo Tulu, encontra-se em uma situação desesperadora: sua filha Iori fora envenenada por um espião rival. Angustiado, o guerreiro visita o xamã, que o aconselha a buscar por Kaya, a feiticeira escarlate. O ancião também o alerta sobre Muzkai, o guardião da feiticeira, uma criatura horrenda que aterroriza a alma daqueles que ousam perturbá-la. Takkar se prepara para uma longa jornada, deixando a aldeia sob os gritos de aclamação de seu povo. Após dois dias de árdua caminhada, o guerreiro descansa à beira de um rio, quando, sutilmente, uma névoa o envolve. A bruma, de aparências místicas, o eleva acima do solo e o carrega para baixo da água. Tenta resistir, mas é como se seus membros estivessem atados. Submerso, Takkar enxerga um vulto negro deslizando nas profundezas. Repentinamente, o corpo indefinido avança em sua direção, mas antes que possa alcançá-lo, o guerreiro é puxado da água bruscamente. Quando acordou, os últimos raios solares já desapareciam no horizonte, estava deitado em uma cama de juncos, ao lado de uma fogueira. Havia um homem remexendo o fogo, que, ao notar seu despertar, se aproximou lentamente e ofereceu comida. - Quem é você, estranho? O homem não respondeu, apenas encarou Takkar com grandes olhos verdes. - O que aconteceu lá no rio? Silêncio novamente. A camisa do desconhecido estava entreaberta e Takkar pôde notar uma grande águia tatuada em seu peito. Sem sucesso, o guerreiro desistiu do interrogatório e agradeceu com um aceno de cabeça. O homem o fitou por mais alguns instantes. Em seguida, entregou-lhe um embrulho de couro e caminhou na direção oposta, desaparecendo na escuridão da floresta. Confuso e exausto, Takkar reanimou a fogueira e se deitou ao relento, sob o céu estrelado de Wuta. Acordou no dia seguinte, reuniu seus pertences e continuou a jornada. Após uma planície, uma imponente montanha rasgava as nuvens cinzentas. Era Tangis, o lar da Feiticeira Escarlate. Takkar chegou ao sopé do monte ao anoitecer e, sem perder tempo, iniciou a longa escalada. Era madrugada quando alcançou o cume, ali havia uma grande caverna. Takkar acendeu uma tocha e adentrou no breu. Após percorrer estreitos corredores naturais, o guerreiro chegou a uma grande câmara. Ao fundo, pôde notar um imponente portal, onde

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vários arbustos escandentes se entrelaçavam, formando uma sólida barreira. Ao tentar forçar a passagem, Takkar ouviu um ruído. Muzkai surgiu da escuridão. Um urso gigante, com presas e garras amareladas. A besta fitou Takkar por um longo tempo, até que urrou e atacou, arremessando o guerreiro contra uma rocha. Atordoado e furioso, o chefe tulu arremessou uma pedra contra o urso, atingindo-o na testa. Um pequeno filete de líquido negro escorreu entre seus olhos, caindo ao chão da caverna. A fera bradou e correu na direção de Takkar. Velozmente, o guerreiro saltou, ficando de costas para Muzkai. O animal atacou novamente, mas Takkar esquivou e perfurou vigorosamente o pescoço da fera com sua lança, fazendo-a tombar no chão da caverna. Logo após a morte do grotesco guardião, a grande barreira arbustiva se desentrelaçou, levando Takkar a outra câmara. Esguias tochas ornamentavam a parede e abrasavam o ambiente. Uma bruma rosácea ocultava o gélido chão de pedra. A feiticeira escarlate se encontrava sobre um altar imponente, que centralizava o aposento. Vestia um longo manto vermelho-vinho e seu perfume marcante dominava o ambiente. Encarou Takkar com os olhos flamejantes e, com uma voz doce, disse ao guerreiro: - Posso ver que seu espírito é bravo, nobre Takkar. Mostrou-se digno ao derrotar meu guardião, por isso lhe ofereço duas opções. Se quiser provar do meu amor, ardente e infatigável, deixe que a alma de sua filha se junte aos espíritos de Wuta. Por outro lado, se deseja a sobrevivência de sua primogênita, pegue esse punhal e me sacrifique aqui mesmo, pois só a minha morte irá repelir o veneno que a corrói internamente. Por um longo momento, Takkar admirou a beleza deslumbrante da mulher à sua frente, e uma lágrima umedeceu sua face quando tomou a arma em suas mãos. Um breve suspiro saiu pela boca da feiticeira quando a lâmina perfurou seu ventre. Rapidamente, uma poça de sangue banhou o chão aos pés de Takkar, que assistia fascinado ao nascimento de uma pequena flor de pétalas vermelhas onde jazia o corpo de Kaya. O guerreiro pegou a delicada planta e a guardou em sua bolsa. Ao fazer isso, seus dedos se fecharam em torno do embrulho que o desconhecido misterioso lhe dera, revelando um apito rudimentar. Soprou a curiosa ferramenta, e, após alguns instantes, o homem tatuado surgiu ao seu lado. A águia em seu peito brilhava uma incandescente luz branca. Ele pronunciou algumas palavras e, lentamente, seus braços se transformaram em asas, penas recobriram seu corpo, e seus pés deram lugar a longas garras, que agarraram o corpo do guerreiro. Os espíritos já se preparavam para carregar o corpo de Iori quando Takkar desceu dos céus montado em uma águia gigante, pousando no

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centro da aldeia. O guerreiro correu para a oca do xamã, entregando-lhe a flor que, com cujo sumo, foi preparada a poção curadora. A menina foi salva, trazendo paz ao espírito de Takkar e divinizando a história dos Tulu, nobre povo que um dia caminhou pelas terras de Wuta. Mestre das feras Giordano Gorham Miolo 3º Ano EM

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Ladrão de memórias É um dia claro de verão. Corro por um campo verde e vasto, em direção a minha casa. Não vejo a hora de encontrar meu grande amigo Tomas. Ele é um ser curioso que vive viajando pelo mundo e conhecendo novas pessoas, sinto até um pouco de inveja dele, mas uma inveja boa. Apenas tenho vontade de viajar junto com ele atrás de grandes aventuras. Chego a casa nada cansada, pois a ânsia de encontrar meu amigo me anima cada vez mais. Minha casa é um lugar diferente. Construí-a em cima da única e maior árvore do campo, por quilômetros não existe outra vegetação a não ser as gramíneas. A casa é simples, feita de madeira e alguns materiais que encontrei no ferro velho. Ela tem dois quartos, um banheiro e uma cozinha agregada à sala. Para subir na casa, utilizo um elevador que passa por dentro do tronco da árvore. A construção da casa é um exemplo do que mais gosto de fazer: construir peças e mecanismos diversos para inúmeras funções. Por isso desejo tanto me juntar a Tomas em suas jornadas, para poder descobrir novos materiais e novas máquinas, além de expandir os meus conhecimentos. Da janela, consigo ver Tomas se aproximando. Ele veste um sobre tudo marrom claro e um chapéu de cowboy com aparência macabra. Ao chegar, toca a campainha. Desço rápido para encontrá-lo, abro a porta e o cumprimento. O serviço de Tomas é cuidar e resolver os casos que acontecem em Citytown – maior cidade que conheço – ele é como um detetive. Porém Citytown não é um lugar comum, seus habitantes são gênios de todas as áreas, desde esportes à manipulação de pessoas, um lugar perigoso pra quem não é “esperto”. Depois de Tomas e eu conversamos, ele decide me levar para conhecer a cidade e ficar lá por um tempo junto com ele. Rapidamente, vou arrumar minha mala e levo só o essencial: umas roupas, utensílios para higiene pessoal e um kit de ferramentas. Tudo em minha mochila verde neon. Passo na cozinha e pego uns docinhos para a viagem e, junto com Tomas, saio rumo a Citytown. Durante a jornada, meu amigo me alerta sobre a cidade dizendo, que ela não é um local só para gênios. Existem pessoas que foram consumidas pelo poder do conhecimento, ficaram loucas e agora vagam pela cidade atrás de inocentes, roubando sua inteligência e as deixando como zumbis. Fico um pouco assustado, mas não desisto de ir até lá.

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No meio da viagem, avisto, de longe, alguns objetos cobertos por um pano. Não consigo identificar muito a não ser as caixas que ficam marcadas no tecido. São várias caixas e mais alguma coisa. Pergunto a Tomas se ele sabe o que pode ser aquilo, ele, com um sorriso meio de canto, responde que logo vou saber o que é. Chegamos àquele acúmulo, Tomas me olha com um grande sorriso agora. Com um movimento rápido, retira o pano que estava sobre o “entulho”. Minha primeira impressão foi de que aquilo era uma moto sem rodas e que não funcionava, e várias caixas de metal fechadas. Tomas retira um controle do bolso de seu casaco e, no apertar do botão, algumas das caixas se abrem. Nelas há frutas, água e algumas ferramentas. Quando ele aperta outro botão, aquele objeto que parecia uma moto, ou os restos dela, começa a tremer, algumas luzes começam a piscar e ela começa a flutuar. Tomas olha para mim e fala que deveria pegar umas frutas pra comer, pois a viajem seria longa. Em seguida me explica que aquilo era uma moto voadora, e que o departamento onde ele trabalhava havia dado a ele. Subimos na moto, e Tomas usa o controle novamente, só que, dessa vez, as caixas diminuem até caber em uma sacola. Finalmente, chegamos a Citytown. Era uma cidade cheia de arranhacéus e vários objetos curiosos, como uma máquina de fazer bolhas gigantes que eram usadas para transportar pessoas. Depois de chegarmos à casa de Tomas e deixarmos nossas coisas, Tomas me alerta mais uma vez sobre os loucos que existem na cidade e vai trabalhar. Depois de 30 minutos da saída de Tomas, fico entediado e decido conhecer a cidade sozinho. Saio da casa e, na esquina, à direita, existe uma loja de verduras. Parecia um lugar tranquilo e com pessoas agradáveis. Entro na loja e, já na entrada, encontro um caixa com um senhor muito carismático. Ele me deseja bom dia e pede o que eu preciso. Respondo que não preciso de nada e que estou só visitando a vizinhança. Ele me pergunta se sou novo por ali, repondo que sim, sorridente. O senhor pergunta se estou sozinho na cidade, repondo que morro com meu amigo logo ali no meio da quadra. Com muito carisma, o caixa da loja me deseja uma boa estadia e eu saio da loja. Dou uma volta no quarteirão e volto ao apartamento. São oito horas da noite, e Tomas retorna a casa. Jantamos juntos e vamos dormir. No outro dia, acordo mais sonolento que o normal, tento levantar da cama, mas não consigo. Alguma coisa prende minhas mãos e meus pés, porém não consigo ver nada, pois está escuro. Escuto algumas gargalhadas de longe, o som a cada pouco vai aumentando e sinto que algo se aproximando. Minha pele arrepia, e o medo se instala em mim. Tento gritar, mas

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percebo que minha boca está amordaçada. Em um instante, as luzes se acendem e tudo fica claro, fico cego por um momento, mas logo minha visão retorna. Tento reconhecer o lugar, porém nunca tinha visto algo parecido. No teto, havia um cano de acrílico que saía de um capacete que estava em mim e ia até outro que estava em uma cadeira à minha esquerda. A risada desapareceu, e, nesse momento, sinto uma mão tocar meu ombro. Vejo o senhor da loja de verduras, ele não tem mais aquele olhar carismático e muito menos parece ser um cara simpático. Começo a me debater e gritar, mas nada acontece. O senhor ri e fala que não vai adiantar, ele senta na cadeira onde está o capacete e o coloca na cabeça. Luzes saem do capacete dele e do meu, e uma fumaça começa a passar pelo cano transparente. O velho olha pra mim e diz que aquela fumaça é minha sabedoria e que ele ia retirar tudo de mim. Continuo olhando para a fumaça e, como se fosse uma nuvem de chuva, raios e luzes começam a sair dela. Imagens começam a aparecer, são momentos da minha vida e os meus conhecimentos sobre engenharia. Inesperadamente escuto o tilintar de um sino. O senhor murmura e desliga a máquina. Ele se levanta e sai da sala onde estou. Percebo que estamos na loja ainda. O caixa começa a conversar com a pessoa que entrou na loja, escuto algumas conversas e, de repente, um grito seguido de um silêncio surge no local. Escuto alguém abrir a porta e uma voz fala: - Aí está você! Não foi fácil te encontrar, mas consegui. Tomas está ali. Ele sorri e me tira da cama. Depois, olha para mim e diz obrigado. Eu peço o porquê do obrigado. Ele diz que me trouxe até a cidade para eu ajudá-lo ele a encontrar esse louco que estava solto há muito tempo. Afirma, também, que eu era um jovem prodígio e ingênuo, perfeito para atrair o bandido. Pergunto onde está o ladrão, e ele me mostra uma arma com um tubo transparente, dentro dela estava o ladrão de memórias. Mister Magoo Daniel Baraldi 3º Ano EM

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O elixir do tempo Acordei assustada, pois acabara de ter um pesadelo. Levantei-me e fui em direção à cozinha pegar um copo com água. Enquanto bebia, fiquei olhando o temporal que se formava através da janela, o ambiente se encontrava em um completo silêncio, que era como uma substância tranquilizante para o meu corpo. O vento lá fora balançava a copa da figueira, plantada em frente a minha casa, mas esse sossego foi interrompido pelo fragor de um raio, que atingiu a figueira, matando-a e me atemorizando, fazendo com que soltasse o copo e o deixasse cair no chão se partindo em vários pedaços. Voltei para minha cama e, sem demora, caí em um sono profundo. Ao amanhecer, fui despertada por um raio de sol que adentrou meu quarto pela fresta da janela, fazendo-me abrir os olhos. Olhei para o relógio na cômoda ao meu lado, que marcava 06h07min do dia 4 de setembro de 2014, quinta-feira. Levantei e, como de costume, fui até a cozinha tomar uma xícara de café, mas, ao chegar ao cômodo, depareime com estilhaços de vidro no chão. Fiquei muito confusa por não saber o que aconteceu e, além disso, outra coisa estava me deixando muito intrigada. Durante a noite, tive um sonho muito estranho, em que a maneira que o tempo transcorria mudou, minhas horas tinham mais minutos e o meu tempo de permanência na terra estava pré-estabelecido, eu tinha 450 horas. Para o resto dos seres, cada hora no meu relógio eram vinte anos em suas vidas. O mundo ficou infértil e sem vida, todos os dias viraram outono, as folhas caíam, as flores estavam sempre em sua hibernação, os animais desapareceram, tudo ficou preto e branco, o sol não brilhava mais, e o céu não era mais azul. Eu estava sozinha, todos haviam desaparecido, e a única maneira de reverter isso era encontrando o relógio do ponteiro mestre, que faria o tempo voltar ao seu estado natural. Depois de relembrar o terrível sonho da noite passada, dirigi-me até a sacada, abri as cortinas e não avistei ninguém na rua. Nessa hora, fiquei desesperada, o meu sonho havia se tornado realidade. Durante as horas em que dormi, todos desapareceram, e o mundo se transformou em um lugar vazio e sem graça. Eu precisava encontrar o relógio do ponteiro mestre, mas não sabia como e nem onde procurar, ainda me restavam 446 horas e a única maneira de obter pistas de como encontra-lo era através dos meus sonhos, e foi para eles que recorri. No entanto, procurei em todos os lugares que surgiam em meu inconsciente enquanto dormia e não encontrei em lugar nenhum. Em uma noite fria,

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sentada na cadeira de balanço, estava observando a figueira através da janela, que já não exalava mais vida, enquanto pensava nos possíveis lugares que poderia encontrar o relógio, uma memória surgiu repentinamente em meus pensamentos, era meu pai, falando “a figueira é o elixir do tempo”. No entanto, aquilo não pareceu nada significativo, e, então, fui me deitar, eu ainda tinha 100 horas. Durante as próximas horas, procurei incansavelmente pelo relógio e não o encontrei. Então, naquele momento eu desisti de procurar e só esperei o tempo passar. Não via mais sentido na vida, meus companheiros eram o vento frio, a chuva, a escuridão da noite, o silêncio profundo, a tristeza, o medo, o desespero, a agonia, a solidão, a esperança já havia desaparecido. Só desfrutava de mais cinco minutos, meu último dia foi como o primeiro, uma noite chuvosa. Meu tempo estava cessando e eu não sabia se aquilo me aterrorizava mais ou me trazia uma sensação de alívio. Sentei-me na cadeira de balanço e fiquei observando as gotas de chuva caindo e batendo no vidro da janela, apreciava a figueira e o solo se inundando. Foi no último minuto que, olhando para a figueira, percebi que estava nela e lá esteve o tempo todo, “a figueira é o elixir do tempo”. Então saí correndo ao encontro dela sob a chuva, mas, quando a alcancei para apanhar o relógio do ponteiro mestre, meu tempo se esgotara. Eu já não existia mais, e, no cenário daquele temporal, minha vida infiltrava pela terra chegando às raízes da figueira, que reviveu... e lá estava ele novamente, o tempo. Aika Giordana Vitoria Bertozzo Suzin 2º Ano EM

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Ela, o vento e o silêncio de uma cidade No início da noite, quando Fernando estava indo para casa, após o trabalho, ele recebeu uma mensagem, olhou-a rapidamente, pois era de seu amigo que havia se mudado. Ele estava avisando que estaria em Tóquio novamente, após tanto tempo, e que desejava marcar um encontro. Sem pensar duas vezes, ele respondeu à mensagem aceitando o convite. Chegando a casa, preparou o jantar, arrumou as coisas, executou as tarefas diárias, jantou, tomou banho e foi deitar, mas, antes, pegou sua garrafinha de água, como era de costume. O escuro tomava conta do quarto. Ali, ouviam-se apenas o barulho do ar condicionado e baixos ruídos dos carros que dificilmente passavam pela rua. Fernando virava de um lado para o outro na cama, sentava, levantava, andava pelo quarto, deitava novamente e não conseguia dormir. Foram mais de três horas, repetindo os mesmos movimentos, e o sono não vinha. Ele estava preocupado, pois de alguma forma, no dia seguinte, teria que agir da melhor forma possível no encontro com seu amigo, o qual não via há anos. Não sabia nem se o reconheceria e a dúvida de se realmente ele apareceria no restaurante, também era grande. Depois de tanto tempo, Fernando conseguiu dormir, mas logo teve que acordar para ir ao trabalho. Afinal, era dia 20 de agosto, uma sexta-feira, que, para ele e todos os outros trabalhadores, era um dia útil. Passou o dia normal, como todos os anteriores de sua vida. Foi para o trabalho, executou todas as tarefas que lhe foram solicitadas dentro do tempo previsto. Tudo ocorreu bem, porém não sabia ao certo o que viria pela noite, mais especificamente, no jantar. Após passar o longo dia de trabalho, Fernando chegou em casa, arrumou as coisas, brincou com Fred, o cachorrinho e, depois, foi correndo para o banho. Conforme a água escorria pelo seu corpo, os seus sentimentos pareciam mudar. A sensação de que algo de ruim aconteceria tomava conta de Fernando. Resolveu, então, terminar o banho o mais rápido possível, pois cada gota que o tocava trazia consigo um sentimento ruim e o angustiava cada vez mais, dando-lhe a sensação de formação de uma nuvem escura sobre a cabeça. Acabou o banho, direcionou-se ao quarto, para se vestir, porém não sabia ao certo qual roupa vestiria. Abriu todas as portas do armário, olhou lentamente cada uma delas de cima a baixo à procura de uma roupa não muito formal e um pouco distante das que era acostumando a usar em casa, pois, afinal, iria a um restaurante, e não podia ir desarrumado, muito menos vestido como se fosse a um casamento. Então, escolheu uma calça jeans escura, a mais nova que tinha, havia usado apenas uma vez.

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Colocou-a, juntamente com uma camisa polo vermelha e um tênis. Estava se sentindo relativamente bem com aquela roupa, se não fossem todos os sentimentos ruins que a água havia deixado em seu corpo, estaria tudo ótimo. Além das roupas, Fernando vestia um pouco de timidez e medo. Acabou de se arrumar um pouco mais tarde do que havia previsto. Eram 20 horas, havia marcado o jantar para dali há 20 minutos. Como faltava pouco tempo, saiu de casa andando em direção ao restaurante, o qual ficava a apenas quatro quadras de sua casa. Dobrou a esquina, na rua de seu destino, e, além de todas as más sensações que o banho havia lhe proporcionado, da timidez e do medo que vestia, naquele momento, Fernando começou a tremer. Ele nunca tinha vivido um momento como aquele, mas estava enfrentando-o como um leão em busca de uma presa. Ao olhar para as janelas do restaurante, logo reconheceu seu amigo, Luciano. Luciano sorria e, com os olhos, acompanhava cada passo que Fernando dava. Não era sonho, nem delírio, era uma realidade, Luciano estava ali, 20 anos depois, para reencontrar seu amigo e contar-lhe todas as novidades. De repente, Fernando escuta uma voz, que parecia vir de trás. Resolve olhar para ver quem era. Era ela, mais uma vez ali presente, para derrubar os desatentos. Naquele momento, todos que estavam dentro do restaurante pararam de conversar, de jantar, de tudo, para olhar Fernando caído no meio da rua. Ela, então, resolveu ser a melhor pessoa e não o deixar caído ali por muito tempo. Deixou que o vento viesse tão forte, levasse todos os seus inimigos e obrigasse Fernando a se levantar e ir para o restaurante, afinal, ali era o seu destino. Fernando, ao pisar dentro do restaurante, teve certeza de que ela o havia derrubado para que os inimigos sentimentos que o agoniavam saíssem de seu corpo e, para que ela tomasse conta dele e o tornasse a pessoa mais fraterna do mundo. O vento, que entrava pela porta, falava tudo para os cozinheiros, fazia todos os pedidos, ninguém mais precisava dizer nada, pois o vento falava tudo por todos. Ela começou a dominar o espaço e, aos poucos, foi se espalhando pela cidade, assim como o vento. A partir desse dia, ela e o vento dominaram todos os cantos de Tóquio. Nenhuma voz mais foi ouvida, só se via amizade e os desejos sendo realizados. Afinal, ela selecionou os grupos e se pôs em prática, proporcionando assim, um mundo fraterno e o vento, falava por todos, em todos os lugares. Alliah Amanda Calazans Franco / 2º Ano EM

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Meu batismo Leve, sentia-me leve. Era como se pudesse voar, como se a gravidade desaparecera. No entanto, sob meus pés reconhecia a textura da grama e o impulso que dera para levantar voo falhara, não saíra do chão. Ao olhar para o chão, deparei-me com um verde flamejante e alguns pontos coloridos impregnados nele. Um aroma doce me invadiu, inspirei o perfume de todas as flores que conhecia, junto com o cheiro de terra molhada. De repente, senti pingos sobre minha pele. Diante de mim, uma cachoeira se formava, ela caía do céu e ao redor de mim, um lago se construía. Logo senti a água na altura dos meus joelhos, ela não parava de subir. Porém, não temi, com um passo emergi, agora, o molhado estava abaixo dos meus pés. Iniciei uma caminhada à grama, em terra firme. Próximo a uma árvore em chamas, que o fogo não consumia, havia um leão com seis asas e, nelas, milhares de olhos. Prostrados, diante dele, estavam anciãos vestidos de túnicas brilhantes, que causavam ardência à minha visão. Eles falavam uma língua desconhecida. Notara que oravam, então, repentinamente, o animal se desintegrava lentamente, sumia diante dos meus olhos. Os anciãos se levantaram e as túnicas se transformaram em asas gigantes. Eram alvas como a neve e, num rápido movimento, as criaturas tomaram o céu. Anjos, eram anjos. Eles voavam pelo local, pareciam tão leves quanto uma pena. No entanto, uma voz melodiosa falou. Era aquela língua que não conhecia, e os anjos, como se acabassem de ter recebido uma ordem, agruparam-se. A terra começou a tremer. Um calafrio tomou conta de mim. O solo começou abrir, uma pata grande e escamosa surgiu, logo veio a segunda. Então, uma criatura enorme e negra saiu da terra. Chamas azuis queimavam ao seu redor, a boca era enorme e com dentes afiados. Os olhos eram amarelos, vibrantes e irradiavam ódio puro. Reconheci a criatura, era um dragão, as asas negras se abriram aos poucos, e ele, da mesma forma que os anjos, atingiu o céu. Estava tremendo. Que ser assustador! De súbito, lançou fogo em direção aos anjos. O cheiro de enxofre, com o odor de criaturas mortas, tomou todo o lugar. Então, o medo chegou a cada célula do meu corpo, queria chorar, queria gritar, mas meu corpo estava imóvel, em total estado de choque. Não conseguia me mover, minha respiração estava falha, meus olhos estavam vidrados na criatura enorme que exalava morte. Iria morrer agora? O mau era o vencedor? Então, repentinamente, o céu se abriu e surgiu uma porta extremamente grande. Não conseguia ver o que havia dentro dela,

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porém, dois pequenos anjos saíram de lá e se colocaram nas bases desta, trazendo trombetas nas mãos. Logo, ouvi sons, era o brado de um exército marchando para guerra, sufocado pela melodia das trombetas. Quando elas cessaram, a primeira criatura sobrenatural atravessou a porta, acompanhada de milhares que a seguiam. O céu azul límpido fora tomado por um exército de arcanjos, seres gigantes e brilhantes, que empunhavam espadas flamejantes e rugiam como verdadeiros guerreiros prontos para guerrear. Dessa forma, um lado do céu tinha um exército de arcanjos, do outro, um dragão gigante e feroz, que lançava pequenas criaturas negras, que se desfaleciam diante do brilho dos arcanjos. Em um breve segundo, olhei ao meu redor, nada havia. Acima de mim uma guerra se iniciaria, e abaixo conseguia ver milhares e milhares de humanos fazendo suas atividades diárias normalmente. Era com se estivesse em outra plataforma, então emergi, fora batizada. Hinata Ana Lais Batista de Melo 3º Ano EM

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Laços de escamas Em meio a uma multidão incessante e turbulenta, havia um homem. Um homem como todos, diferenciando-se somente por tomar o caminho oposto de seus semelhantes. Ele desviava com serenidade, largando de modo sútil palavras educadas como "com licença" e "obrigado", o que facilitavam deslizar por meio de corpos tão enrijecidos com o frio. Ele era menor do que todos, jovem e sujo de fuligem, o que contrastava com suas bochechas rosadas e ocultava ainda mais sua face em meio à escuridão de seu capuz. Era uma evacuação, o vulcão sobre a montanha acima do vilarejo estava entrando em erupção, e suas brasas já podiam ser avistadas em sua fina base por seus habitantes, o que já os havia convencido de que era hora de partir. Ao contrário de montanhas ordinárias, sua base fina representava o pico das outras, e o que arranhava o céu era, na verdade, um grande planalto, a base. Uma montanha ao contrário. Era uma área habitada somente por um povo especifico, que por sua cultura humilde e minimalista vivia em harmonia com uma espécie tão única de vulcão. Não havia muitos deles, eram sentimentais, intimamente ligados ao seu povo, não aceitando ninguém além deles. Histórias populares contam que erupções súbitas eliminaram muitos povos desinformados que, por infortúnio, não levaram em conta suas exigências. Seu ciclo perante o vilarejo funcionava da seguinte maneira. Seu calor lhes dispunha as suas águas quentes e as terras férteis ao seu arredor, e em troca, seus habitantes o deixariam engolir o que desejasse com sua lava, mesmo que isso incluísse seus preciosos pertences, e talvez até mesmo algumas vidas. Ninguém nunca soube como ambos sabiam a hora de chegar e partir, mas a intimidade entre o vulcão e seu povo era algo além do real. Ele, no entanto, não dividia a mesma humildade de seu povo. Era um homem ambicioso, tinha outros planos e objetivos, não estava disposto a entregar suas riquezas, tão pouco sua vida, pelo menos, não para um bando de pedras rochosas. O que atraia o pequeno homem não era, ao contrário de seus semelhantes, a magia dos vulcões, mas sim a criatura mística criada a partir de sua ceiva de fogo. Seu espirito fervoroso combinava com eles, e com ajuda de criaturas tão iguais a si, ele descobriu o modo perfeito de burlar as regras que lhe eram ditadas. Terminando seu trajeto pelo pequeno vilarejo, ele começava sua caminhada para o topo. Seu corpo tremia com o esforço, as mãos e joelhos agora roçavam com força contra as pedras, inundando-os de sangue pelos ferimentos ali causados. Não era sua primeira vez naquela

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caverna, mas certamente seria a sua última no pequeno vilarejo que crescera. Diante de tanto cansaço por sua jornada, o jovem se viu surpreso ao se deparar com os grandiosos orbes azulados o encarando na entrada, mas também aliviado por finalmente ter chegado ao seu destino. Cheio de esperança novamente, ele seguiu-os caverna a dentro. Seus olhos corriam por todo o grande corpo escamoso, maravilhado. Em um movimento lento e delicado, o homem envolveu seus braços finos no focinho do grande dragão, apoiando a cabeça em suas escamas. Ele fechou os olhos por um momento, aproveitando o ar quente emanado da criatura, antes de enfrentar seu verdadeiro desafio. Ele se afastou, olhando novamente para os olhos apáticos, seria a última vez que os olharia dessa maneira. Deixou então o dragão envolverse ao seu redor. Como uma cobra pronta para abocanhar sua presa, a criatura arrastava as garras pela caverna com sutileza, envolvendo cada vez mais o humano em seu corpo escamoso. Em meio às gélidas escamas que o cercavam, o jovem conseguia somente avistar a cabeça reptiliana que o observava ao topo, lentamente, aproximando-se com a expressão estática típica de dragões. Seus pés o elevaram, os olhos fecharam-se para que finalmente ambos extinguissem a distância de seus lábios. Um beijo para selar o feitiço. O tempo era algo de que nenhum dos dois estava ciente, mas o dragão acompanhava-o com zelo em meio a sua metamorfose. Os gemidos dolorosos rebatiam pelas paredes rochosas, e o jovem que adentrava o local com seus pés agora alçaria para o céu com um par de asas. Os ruídos de dor cessaram para então serem substituídos por alivio. Seu novo corpo estremecia, a cor branca de suas escamas fazia contraste com as escuras escamas de sua parceira e as grandes asas ocupavam o restante do espaço que a caverna lhes concebia. Juntos, os dragões agora caminhavam para a saída, deparando-se com o céu em seus olhos âmbar e celeste. Era hora de partir. Ana Luisa Brassanini Flores 2º Ano EM

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A porta da felicidade Cheguei. Cheguei a um lugar que não conheço, um lugar onde tudo é escuro. Só enxergo uma luz sombria a uns cem metros. Deparo-me com folhas voando, um vento gelado no ar. Não sei onde estou. Só queria um banho quente e uma cama macia. Dormir, dormir é o que eu realmente preciso. Curioso do jeito que sou, preciso ir até à luz. Não aguentarei até saber o que há lá. Será uma cama? Ou apenas uma porta que dá acesso a mais um lugar escuro e macabro? Ou, ainda, um casal feliz? Tenho medo, muito medo, mas a minha curiosidade é muito maior do que um simples medo. Lentamente me aproximo da luz, sem saber se é certo o que estou fazendo. Saber o que há naquela luz se tornou uma necessidade para mim, como comer para qualquer outra pessoa, qualquer outra pessoa que sabe onde está e o que a cerca. Não aguento mais essa escuridão. Escuto vozes que fazem meu tímpano berrar de dor. Esse vento gelado queima o meu rosto. Isso está acabando comigo. Não sei o que fazer. O caminho até a luz parece ser infinito e, quanto mais ando, mais longe fica essa maldita luz. A cada passo que dou, vejo algo passando ao meu redor. Estou ficando aterrorizada sem saber o que me cerca. Só queria saber o que estou fazendo e do que me aproximo. No caminho, deparo-me com algo esquisito, não sei se consigo descrever tamanha estranheza desse monstro que me deixa inquieta. Não é apenas um, ou dois, são inúmeros, não consigo contar. Conforme me aproximo da luz, os sustos aumentam e o medo me corrói por dentro. Finalmente consegui ver pequenos detalhes da aberração que me acompanha desde o início dessa trajetória. Cada um é de uma cor, cores estranhas, misturas de cores primárias. Todos têm argolas penduradas nas pálpebras. Chifres enormes nas costas. São extremamente fortes, com barbas até aos pés. Sangue escorrendo por todo o corpo. Tenho pavor daquele de cor azul. Ele tem um pé enorme, como o de um ogro, e todos os órgãos internos à mostra. As entranhas se esvaindo do ventre. O sangue que escorre deixa rastros por onde passa. Estou quase chegando à luz, ao meu objetivo. Não vejo a hora disso acontecer e saber a verdade. Faltam aproximadamente dez metros. Isso me preocupa. O que terei de ver ainda? Será que enfrentarei o meu maior medo? Na verdade, nem eu sei qual é ele. Isso é o que realmente me deixa assustado. A escuridão e o vento gelado continuam. Arrependo-me de estar vestindo apenas um calção e uma regata. Pensando bem, não sei de onde vim e nem para onde vou. Só me recordo de quando acordei nesse lugar obscuro e horripilante. Acho que preferia estar morto. É! Seria melhor! Não estaria sofrendo. Continuo a andar ininterruptamente, sim, acho que errei a distância que faltava até à luz. Nunca fui muito

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bom com isso. Eu só queria estar em paz, longe dessa escuridão e desses monstros que me perseguem. Agora sim, acredito que estou quase chegando. Essas aberrações tentam me pegar. Se eu não correr vou morrer. Não sei mais o que quero, morrer ou chegar ao meu objetivo. Baratas e ratos correm pelo chão. As vozes ficam cada vez mais altas e repetitivas. Estou ficando louco. Alguém me salve! Tirem-me daqui! Grito desesperadamente, enquanto corro em direção à luz. Cheguei, cheguei à porta de onde saem feixes de luz enormes que eu enxergava de longe. Agora, além do medo, a indecisão me corrói. Abri, abri a porta com os olhos fechados, estou com medo de saber o que há lá. Ao contrário do que esperava, deparei-me com um casal se beijando em um jardim florido. Depois de muito refletir entendi, ali estava, a felicidade, o meu maior medo. PANDEX Ana Luiza Cardoso Teles 3º Ano EM

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A casa Era uma noite muito fria no inverno, com neblina e uma leve garoa gelada. Estava comemorando o aniversário de 22 anos de Pedro, meu amigo de infância, no bar do bairro, juntamente com Felipe. Cantoria vai, copos de Logan vêm, várias lembranças foram contadas, com muito riso. Contudo, no passar das horas, uma aposta foi realizada. Aquele que fosse parar no chão primeiro deveria entrar na casa abandonada da Rua Cleveland, lugar onde quem entrou nunca mais foi o mesmo. Em decorrência de uma alta taxa de álcool em meu sangue, não senti minhas pernas por alguns instantes e acabei por tropeçar na calçada, no retorno de casa. Perdida a aposta, nada me restara a não ser aceitar. Fomos indo então em direção à casa, me sentia gélido, andando em ruas estreitas e longas. Finalmente chegando à rua, uma neblina surge inopinadamente, que não deixava enxergar um palmo à nossa frente. Mesmo estando aterrado, fui logo entrando na casa, uma residência comum, muros altos, ainda por pintar, com todas as janelas tapadas por tábuas de madeira, apodrecidas, presas entre as extremidades da janela. Ao entrar na casa, a porta se fecha lentamente sozinha. Era uma porta um pouco pesada para ter sido empurrada pelo leve vento daquele alvorecer, muito bela por sinal, feita em madeira maciça, com crisântemos esculpidos ao redor. Minha tamanha curiosidade me levou a investigar todos os cômodos. Ao passar pela segunda porta, para realmente entrar na casa, acabei por escutar goteiras, solitárias, com um silêncio agoniante ao redor. Andando pelo local, deparei-me com uma sala com dezenas de televisões e ao centro da sala, uma cama, de carro, mais precisamente uma Ferrari, igual a que era utilizada pelo meu falecido irmão mais novo. Paulatinamente, as televisões se ligaram, começando a passar memórias distintas da minha vida. Acabei ficando pávido e passei mal, fui correndo, então, para o que em minha mente deveria ser a cozinha. Entrando no local, me deparo com uma região sombria, cujas paredes de cimento estavam arranhadas, e, nelas, havia algumas marcas do que me parecia sangue. No mais, era uma cozinha normal, com piso liso branco. Entretanto, sem luz e sem nada nos eletrodomésticos. Então, acabo por me deparar com algo inusitado, se mexendo. Era um daqueles coelhos de chocolate vendidos em épocas comemorativas. Fiquei pasmo, sem saber como reagir a tudo aquilo. O coelho se apresentou: “sou o Bob, e esse mundo, ah, esse é você”. Pensei por alguns instantes, e a cada segundo que se passava ficava mais estranho tudo naquele lugar. Como ele era o único ser com quem eu poderia manter alguma relação naquele local, convidei-o para permanecer comigo. Ele aceitou.

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Os corredores naquele local eram longos e muito largos, escutávamos frequentemente ruídos e gemidos. Andando pelo corredor, deparei-me com um espelho oval. Ao olhar, deparo-me comigo mesmo, entretanto, todo arranhado, com ferimentos aparentes, enquanto Bob dizia “aceite, esse é o real você”. Andando mais alguns metros, me deparo com uma pia no teto em que gotejava um líquido avermelhado. No final do corredor, um relógio cuco estava pairando, e os ponteiros deste ficavam indo e voltando, parados exatamente às 8h e 15min. Nesse relógio, existiam duas portas, uma verde em que era possível escutar vozes conhecidas, e uma bordô, na qual eram escutados gritos. Fui em direção à porta verde, quando Bob falou “as vozes enganam, contudo o seu coração nunca”. Em decorrência dessa fala, fui em direção à porta bordô. Logo após a minha entrada, ela se fecha novamente com muita força. Olho ao redor, e me deparo com paredes feitas de pele humana, com ferimentos leves. O chão era couro, mas o quarto era o meu quarto, com os mesmos móveis e tamanhos. Fui direto ao armário e me deparei com diversos tipos de artrópodes saindo pelas gavetas. Então, o coelho olhou em meus olhos e deu um leve sorriso, de canto de boca, com os olhos arregalados que, de azuis acabaram por se tornar vermelhos, ele acabou crescendo e ficou com cerca de dois metros e meio. Com medo, comecei a correr, ao transpirar, eu sangrava pela epiderme. Fui tentar gritar o mais alto possível, contudo eu havia perdido minha voz, acabei por ficar mais lento e os corredores se tornaram mais longos, e de alguma forma fiquei fragilizado indo ao encontro do chão. Em decorrência disso, aceitei que aquele seria meu último suspiro de vida. Foi quando de alguma forma eu consegui chegar à rua. Contudo, ao olhar para o interior da casa, tudo aquilo havia sumido e, junto dela, o meu antigo eu. Joaquim José Artur Barella Schmidt 3º Ano EM

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O pesadelo eterno De repente, tudo ao meu redor estava escuro. Eu não conseguia me mover. Enxergar era impossível. Silêncio absoluto. Um pequeno sinal de luz e em pouco tempo, consegui caminhar até aquele ponto luminoso no fundo da escuridão. Avistei uma maçaneta no meio do escuro. Abri-a. Por de trás daquela maçaneta, havia o lugar mais deslumbrante que já havia visto em toda a minha vida. Montanhas coloridas. Animais diferentes. Pássaros com asas gigantes. Cavalos voadores. Árvores gigantes, com incríveis frutos. Águas violeta. A grama amarela e o céu cor de rosa. Diante daquela paisagem, escuto uma voz. Olho por todos ao lados. Nada. “Corra”. Diz a voz novamente. Ainda não entendendo, começo a correr. Rapidamente, desço escadarias de pedra e avisto uma pequena porta. Abro-a. Entre a escuridão, um ruído. Algo pequeno se move. Tento olhar mais de perto. A voz aparece novamente. “Não se aproxime, é perigoso”. Fecho a pequena porta rapidamente. Escuto um barulho incompreensível, embora, muito alto, através da pequena porta. O pânico domina meu corpo. “Fuja”. Aquela voz novamente. Corro entre árvores e tento avistar algum lugar para me esconder. Às costas, o mesmo ruído, incompreensível e cada vez mais próximo. Uma enorme folha encostada entre dois imensos galhos. Puxo-a e um vento frio toma conta do lugar. Encosto-a novamente. Olho ao meu redor, vários frutos, lindos e suculentos. A fome invade meus pensamentos. Apodero-me do fruto mais perto e um sabor amargo envolve minha boca. Jogo o fruto no chão rapidamente. Afasto-me dos frutos e bato em algo. Repentinamente, uma queda d´água surge, fazendo com que me encante com a sublime vista. Pequenas criaturas surgem na água. “Ela está vindo”. Diziam elas com temor, desaparecendo com um mergulho. O barulho se aproxima novamente. Avisto galhos pontudos nas partes superiores das árvores. Apodero-me de um. Ainda com medo de algo desconhecido, entro em uma caverna próxima. Pequena. Úmida. Havia um fosso aberto. Um odor repugnante. Abandonei a caverna em questão de segundos. O céu não estava mais rosa. Tornou-se negro. Os animais desvaneceram velozmente. O ruído eclodiu em minhas costas. Com temor, viro-me cuidadosamente. Confusa, olho para baixo. Uma criatura pequena, graciosa, frágil a me encarar. “Não se engane”. Alerta a voz. Eu a ignoro e me aproximo. Repentinamente, o ruído se torna ensurdecedor, e a pequena criatura deixa de ser frágil e graciosa. Um mostro surge. A tentativa de remover o galho em minhas mãos é falha. Eu me esquivo de seus movimentos. O som

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cada vez mais alto. O monstro mais agressivo. Meus pensamentos se perdem. Minha consciência ensurdece de acordo com o som. Eu só preciso que pare. Preciso acabar a tortura. Não tenho opção. Acabo perfurando o monstro com o galho pontiagudo. Um líquido verde escorre em minhas mãos e a pequena criatura aparece caída ao chão. Corro. Subo as escadarias de pedra e vejo a maçaneta flutuando no ar. Giro-a. A escuridão me arrebata. Abro os olhos e me vejo em meu quarto com as mãos sujas de sangue. Desço as escadas. A porta do banheiro próximo à cozinha estava aberta. Em minha cozinha havia um limão mordido no chão. Ao alto, o armário onde havia facas estava aberto e havia água escorrendo da torneira. As imagens se misturam, e o desespero toma conta de mim: minha pequena filha sangrava ao chão. Inconsciente Bianca Dias de Castro Tiecher 3º Ano EM

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Viajar é meu sonho Em um dia normal, acordei atrasada, arrumei-me e fui à escola. Chegando lá, estranhei que não havia ninguém, procurei em todas as salas e lugares, e por último, na minha sala. Assim que entrei, vi uma cabine, uma espécie de lugar portátil para tomar banho e fiquei de perguntando-me o que poderia ser aquilo. Após alguns minutos admirando aquele objeto estranho, vi que lá havia uma espécie de carta, então resolvi ler. Quando abri, tive uma surpresa, ela era analógica. Nela havia a seguinte mensagem: “Para usufruir dessa máquina, é necessário responder a esta equação, mas aí vai um aviso, ela não envolve apenas números, mas também seus pensamentos e sensações. Tome cuidado, você tem um grande poder em mãos.” E, após isso, havia a conta para ser resolvida. Percebi que era quase hora de ir para a casa almoçar, mas eu não havia acabado a operação matemática e não sairia sem antes ver o que havia de tão especial naquela máquina. Alguns minutos depois, acabei, e o resultado era a chave para abri-la. Nela, havia um espaço reservado para por a conta, que foi verificada e analisada. Para a minha sorte, a conta estava correta. Então a máquina se abriu, e uma voz surgiu dela, dizendo: “Lembre-se você tem somente 30 minutos fora da máquina, espero que desfrute da sua viagem.” Posicione seus pés no local indicado e ponha o capacete à sua esquerda. Fiz tudo o que a voz havia dito e esperei para ver o que iria acontecer. Repentinamente, levei um susto. A máquina se fechou e, depois disso, não me lembrei de mais nada. Parece que dias se passaram e estava perdida, pois nada acontecia. Foi então que senti uma batida e me assustei, não sabia o que estava acontecendo. A porta se abriu rapidamente, e a voz voltou a falar: “Você já pode sair, mas não se esqueça, fique sempre de capacete. Um menino chamado Izac te acompanhará sempre, para todos os lugares aos quais você for.” Sai da máquina e encontrei Izac esperando por mim, ele logo pediu para que eu o seguisse, e foi o que eu fiz. Até então não havia conseguido parar para pensar em onde eu estava. Mas quando me dei conta, eu estava em Queenstown, na Nova Zelândia. Fiquei em estado de choque, não conseguia acreditar que aquilo era verdade. Então parei para pensar e foi quando realizei que aquela era uma máquina de teletransporte e que ela me levava a lugares que eu gostaria de conhecer ou de voltar. Foi quando Izac me chamou para subir na gôndula para que eu fizesse o bungy jump e o swing, que eu não tive a oportunidade antes. E, após uma das melhores sensações da minha vida, fiquei apreciando a linda

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paisagem junto com ele, até que o tempo se acabou e tivemos que voltar para a máquina. Pensei que teria acabado por aí, que voltaria à escola e que só poderia me teletransportar novamente no outro dia, se mais ninguém descobrisse da existência dela antes que eu chegasse na escola. Mas fui surpreendida! Quando a máquina se abriu novamente, eu estava em Munique, na Alemanha. Aproveitei para visitar minha prima que mora lá, mas infelizmente não consegui me comunicar com eles, o que achei um pouco estranho. E, infelizmente, o tempo se esgotou de novo. Fechamos a máquina e, dessa vez, quando a porta se abriu, estávamos no colégio novamente e já estava na hora de volta para casa. Despedi-me de Izac e, logo em seguida, fechei a máquina com um sentimento de tristeza e de medo, de que no dia seguinte eu correria o risco de não ver mais Izac e a máquina. Depois fui para casa, dormi, e, no dia seguinte, acordei cedo para ir ao colégio e usar a máquina novamente, mas quando cheguei lá ela havia desaparecido, então não aguentei e comecei a chorar, pois pensei que ela poderia ser a solução para fazer com que eu não sentisse mais saudade de estar sempre conhecendo novos lugares pelo mundo. Chachá Caroline Rissi 3º Ano EM

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A velha sala de balé Um mundo além de uma esfera, com seres exorbitantes e malignos, sem proporção corporal ou órgãos que correspondem às estruturas físicas humanas, vivem me atormentando de maneira imprevisível, e, sem perceber, transformo-me completamente. A raiva toma conta do meu emocional, enquanto caminho pela antiga sala de balé de minha mãe, agora com marcas de sangue que não eram vermelhas, mas roxas, e, no chão, pequenas crateras. Acidentalmente, caí em uma delas. A sensação era relacionada à angústia, o caminho que percorria era interminável e cada vez mais escuro. Ouvindo pedidos de socorro e uma voz maligna que cada vez era mais frequente, meu corpo suava frio, tremia e sentia minha corrente sanguínea se transformar como nunca. Visões não saiam da minha mente, apareciam como um flash. Quando me deparei com um lugar sem absolutamente nada, comparado a um deserto, local onde a voz ainda me perturbava, caminhei por muito tempo, tentando descobrir o que estava acontecendo. Quando já estava exausta e parecia não ter mais o que fazer, ouvi a antiga música clássica de balé que minha mãe adorava, tentei retomar minhas forças e seguir em direção ao som. Logo avistei um caminho sangrento, que se igualava a uma tempestade de sangue e, ao redor dele, fileiras de bailarinas mortas penduradas por cordas, com facas nos olhos e o rosto derretendo desfazendo-se de sua real forma. Essa cena toda me aterrorizava, mas não imaginava que o pior estava por vir. No fim do trajeto, uma bailarina, com vestido e sapatilhas vermelhas que combinavam com seu choro sangrento, dançava para um ser perverso, com orelhas enormes e boca aveludada que a olhava com muito desejo. Aproximei-me, tentando entender o que estava acontecendo, porém, por mais que chegasse perto, não era notada. Algumas semelhanças naquele ambiente vinham à tona, pessoas vestidas iguais, barulho de crianças correndo e chorando aterrorizadas, livros rasgados e jogados ao chão. Isso tudo relembrava minha antiga escola, e aquela criatura maligna era minha antiga diretora. Ainda com aquele ar de desespero e agonia, estava eu deitada em minha cama, quando, de repente, acordei chorando, suando frio e tentando apagar tudo de minha mente. Decidi ir atrás de minha mãe, para perguntar a ela se a sala de balé realmente existia. Ela relatou que, durante uma das apresentações que realizara, ocorreu um homicídio, e havia suspeitas de que a assassina era minha antiga coordenadora do colégio. Quando chegara a noite, a diretora estava deitada no chão, com marcas de cortes e uma faca atravessando a cabeça, além de ter uma das alunas presa em uma cadeira com um líquido azul escorrendo. Deparei-

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me com meu pai totalmente desorientado, com faixas ao redor do corpo, após isso, corri para minha casa desesperadamente com a intenção de contar a minha mãe, mas despertei e percebi que sonhara novamente. Bailarina Catiúscia Gottems Fromming 3º Ano EM

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Exata mente Minha vida foi marcada por muitas coisas. Com 43 anos, meus neurônios já haviam gravado muitas memórias, meu olfato já havia registrado muitos cheiros, meu paladar já havia recapacitado muitos sabores, e, junto a todas essas sensações, também estava o tato, que já sentira muitas superfícies. A memória guardada em meu cérebro fluía com muita rapidez. Fatos e acontecimentos eram facilmente lembrados e, por isso eu sempre resolvia equações matemáticas quando possível, minha satisfação. No entanto, os últimos dias se tornaram extremamente insanos, pois aconteceu algo inesperado: um vício lógico e matemático tomou conta de mim. Eu olhava para meu quarto, não muito grande, de dezesseis metros quadrados, que aparentemente havia ficado muito mais extenso. Dentro desse recinto com pouca iluminação, eu me perguntava se era tudo real ou fruto de minha imaginação, porque o espaço onde eu estava se transformou exatamente como uma equação algébrica que qualquer um resolve no ensino médio, entretanto, com objetos concretos e táteis. Parece algo tolo, mas eu tive de beliscar meu próprio corpo. Apesar de não ter êxito nesse teste, quando vi coeficientes multiplicando materiais reais, a ficha caiu. A maior surpresa foi quando vi todos os elementos possíveis que se encaixavam em expressões matemáticas, dentre eles estavam as raízes quadradas, os inúmeros coeficientes e os pontos de exclamação representando números fatoriais. Cada um exercia sua função ininterruptamente em matérias reais, e objetos estavam sofrendo essas consequências. O lápis francês, que eu ganhara do meu pai, estava se multiplicando exponencialmente, como bactérias. Ao mesmo tempo que era incrível, era também assustador. Em razão de todos esses acontecimentos, percebi que erros acontecem, e o equívoco que aconteceu foi ter ficado estagnado em uma cadeira estofada de escritório. Apesar disso, não posso me culpar, pois o futuro próximo era incerto, eu estava sem perspectiva do que iria acontecer. Mas, após eu entender parcialmente a situação, entendi que, se poderia acontecer com algo concreto, poderia acontecer comigo. Os meus batimentos cardíacos se aceleravam e se desaceleravam tal como uma função de seno. Quando vi uma raiz quadrada vindo em minha direção, tive de ser pessimista. O pior que poderia acontecer era eu ser racionalizado por essa mesma raiz, e eu não estava muito a fim disso. A partir dos meus estudos em exatas, aprendi que, se na equação estava com uma raiz em um lado da igualdade, eu poderia cancelá-la com uma raiz do lado oposto da outra. Essa foi minha estratégia, avistei o sinal de

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igualdade, que se localizava perto de meu armário, e segui em frente. Não tive dificuldades para chegar ao centro de todos esses números, e quando atravessei, uma barra preta ficou me perseguindo atrás de meu corpo, e deduzi que fosse o sinal de negativo. Após atravessar a igualdade, eu teria que obter uma raiz, tendo em vista que a raiz teria que ser quadrada, e enviar ao outro lado. À minha esquerda, havia o que eu queria, então fiz o que era necessário, enviei ao lado oposto sem muitas preocupações. Para minha surpresa, funcionou. Junto ao meu desespero e angústia com toda essa situação, vi a foto de minha mãe, falecida há cinco anos, grudada na parede, junto aos lembretes amarelos. Mas como assim? Perguntei-me. A foto onde minha mãe se encontrava estava se movimentando, remetendo ao filme Harry Potter. Isso era impossível, porém, era relativamente normal, considerando todos os fatos acontecidos há pouco. No meio de toda essa situação, confuso e sem poder pensar muito, vi minha mãe desaparecendo da figura. Fiquei estagnado e sem reações, contudo, meu estado de atenção estava totalmente focado. Eu nunca havia levado um susto tão demasiado como naquele momento. Os níveis de adrenalina em meu corpo aumentaram significativamente quando vi a pessoa que mais deixava um vazio em minha memória: minha mãe. Uma única mensagem minha mãe falou para mim. O que ela pronunciava eram somente dois números, o zero e um. Sem dificuldades, decifrei o código binário. Sua mensagem era muito parecida com as anotações que eu usava escondido em provas e testes, popularmente conhecidas como cola. Como nada na vida é perfeito e como desejamos, aconteceu o esperado, minha mãe voltou à figura. Com um auxílio de minha mãe, necessitava fazer o mais óbvio possível: resolver a equação. Meu estado psicológico não permitia muitos esforços para sair dessa situação e requisitava muita habilidade para o fim chegar. Minha felicidade se resumia em calcular equações, então comecei a resolver a equação de um modo como nunca resolvera antes, tendo em conta os objetos reais inseridos na equação. Minutos, horas, dias passaram, e o que provava que o tempo passava era o relógio, mas a impressão era que nada passava. Quando só atingiu quatorze dias resolvendo o problema matemático, entendi que isso era como a faixa de Möbius: o infinito. Junto a isso, percebi que o famoso ditado popular "faça o que você gosta" era real, mas minha vida não. Euclides De Samos Eduardo Fontana de Gasperin 2º Ano EM

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O beijo de Morfeu No sonho, estou no alto de um prédio, olhando para o horizonte e sentindo o agradável toque do vento gélido de inverno contra minha pele nua. No entanto, não me importo, pois esse delicioso toque que me acaricia também atravessa a folhagem das árvores, fazendo-as dançarem e produzindo uma deliciosa melodia que se incorpora à escuridão da noite. Nesse momento, sinto-me só, mas ao mesmo tempo livre e com muita coragem e, por conta desse impulso de coragem, abro os braços, que logo se transformam em lindas asas, e me lanço em direção ao breu da noite. Não sei o que acontece depois, pois a menina a quem eu estava ligada para compartilhar o sonho acordou. Desde a transformação, não sou mais capaz de sonhar. Contudo, eu sou a nova deusa do sonho, sou eu a responsável por fazer todas as pessoas do mundo sonharem. Esse trabalho antes pertencia a Morfeu. No entanto, como fui a última pessoa a beijar o cavalheiro dos sonhos antes de sua morte, acabei ficando com seus poderes e me transformei na nova deusa “Morfeu”, mas prefiro ser chamada de Alice, que era o meu nome antes da imortalidade. Antes da imortalidade, era uma garota que esperava pelo príncipe encantado que morava nos meus sonhos. O meu príncipe encantado se chamava Morfeu. Exatamente, eu me apaixonei por ninguém menos que o deus que dá forma aos sonhos dos homens. Como deus dos sonhos noturnos, tem a capacidade de imitar tão perfeitamente um ser humano comum que, quando percebi por quem estava me apaixonando, era tarde demais. A primeira vez que vi Morfeu foi na escola, e soube que ele era meu príncipe encantado, com seus cabelos negros na altura dos ombros caindo desleixadamente sobre seus olhos, que eram de um azul mais intenso que o azul do mar. Tinha um belo sorriso e pude jurar que vi a sombra de asas fundidas a suas costas. Estava sendo atraída a ele como Ícaro fora atraído pelo sol. Entretanto, antes que pudesse me mover em sua direção, o sinal soou, trazendo-me de volta à realidade. Então me encaminhei para a sala de aula, mas, no caminho, acabei esbarrando em alguém e percebi, com espanto, que era o menino que havia chamado a minha atenção. Percebi meu rosto enrubescer e, com grande esforço, murmurei um pedido de desculpas. Contudo, algo me chamou atenção quando ele falou, não foi o fato de a voz dele soar como música, mas pela questão de ele saber meu nome e dizer que estava me procurando, pois precisava falar comigo sobre um assunto de extrema importância.

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Eu o encarei como se fosse louco, mas ele pareceu não notar. Ao invés, pegou-me pelo braço e me conduziu para fora da escola. Sem entender nada, parei abruptamente, o que o surpreendeu. Quis saber o que ele pensava que estava fazendo. Ele me olhou com uma cara de tédio e simplesmente disse “Meu nome é Morfeu, eu sou o deus dos sonhos, e preciso da sua ajuda”. Então tive certeza de que o belo rapaz que havia chamado a minha atenção há alguns minutos era plenamente imprudente. Tentei fugir, contudo meus pés pareciam estar colados ao chão e, com um leve toque de Morfeu em minha testa, tive visões sobre uma história de guerra entre o deus dos sonhos e o deus dos pesadelos e medos. Quando a visão acabou, Morfeu disse que precisava da minha ajuda para derrotar o deus do medo e que, para isso, precisava aprender a usar meus poderes. Depois de semanas aprendendo a utilizar meus poderes, fomos ao encontro do deus dos pesadelos, que estava em uma fábrica abandonada. Por mais que tudo isso parecesse assustador, não estava com medo, pois passei a confiar em Morfeu e me sentir segura perto dele, além do fato, de eu estar completamente apaixonada por ele. Quando chegamos, consegui ver, através de uma janela, que havia alguém a nos observar do lado de dentro da fábrica, e, mesmo à distância, consegui sentir o ar ficar mais frio e pesado ao meu redor. Então, sem nem me olhar, Morfeu pegou minha mão e, como num passe de mágica, fomos parar no lado de dentro da fábrica, em frente ao homem. Sem a menor delonga nem cortesia, lançaram-se em direção um ao outro, dando início a batalha. Fascinada com as luzes e faíscas que incorporavam os dois, não percebi que um dos servos do deus do medo se aproximava de mim e, quando notei, era tarde demais. Não fosse por Morfeu, estaria morta, mas preferia isso do que vê-lo ser atingido pelo deus do medo. Morfeu gritou de dor e, vendo-o caído no chão, sofrendo, fui inundada por uma fúria que jamais pensei que fosse possível sentir. Virei-me para encarar o deus do medo e, reunindo todas as minhas forças, lancei o feitiço mais forte já conhecido, o feitiço do amor, que gerou uma explosão e, depois, silêncio. Vi a fábrica, junto com o deus dos pesadelos, virarem fragmentos e se espalharem pelo vento. Depois disso, lembro-me apenas de ter corrido até Morfeu e o beijado, e, quando nossas bocas se tocaram, uma luz branca preencheu o ambiente e comecei a mudar. Asas cresceram em mim, sonhos começaram a se incorporar a minha pele, e percebi que Morfeu estava desaparecendo, que sua alma estava se incorporando a minha. Aquele dia mudou tudo. Não tirou de mim apenas o amor da minha vida, tirou também minha mortalidade e os meus sonhos. Desde então,

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vago pela noite, levando sonhos para todas as pessoas do mundo e, por mais que elas não saibam, os sonhos não apenas servem para serem bonitos, mas salvam a vida da humanidade, pois, sem sonhos as pessoas não são nada. Lolita Evini Carol de Araujo 2º Ano EM

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Estação sem cor Já estava anoitecendo, a lua estava tão cheia e formosa que iluminava praticamente todo aquele campo vazio, a grama e o vento gélido faziam com que eu sentisse arrepios pelo corpo, e, então, o silêncio que ali permanecia me fez cair em um sono profundo e aconchegante. De repente, acordo com algo me cutucando, algo verde e grande, não senti medo nenhum, mas queria saber quem era aquele ser estranho que apareceu ao meu lado. Não sei se foi amor à primeira vista, todavia, depois desse acontecimento, meu mundo passou a ser totalmente diferente. Conversamos até o amanhecer, ou melhor, conversei com ele até o amanhecer. Ele não era muito de falar, mas seu jeito de ser me encantou rapidamente, e, em segundos, pude perceber que já estava apaixonada. Tão alto com uma porta, bruto e quieto, seu silêncio me completava. Não era fácil lidar com ele, toda vez que chegava perto, machucava-me e, para cicatrizar essa ferida, precisava ficar semanas passando uma pomada que minha avó materna fazia com pedaços de uma flor recolhida próxima ao campo. Aaah, minha família não gostava dele, ninguém gostava, todos falavam que eu era louca de me apaixonar por ele, que eu precisava encontrar alguém melhor, que me merecesse. Contudo, eu não me importava, nós estávamos juntos e iriamos ficar até a eternidade. Certo dia, fomos novamente ao campo em que nos encontramos pela primeira vez, levamos conosco uma cesta cheia de comida e uma bola. Ele não era um bom jogador, nem mesmo péssimo, logo foi difícil fazer com que ele se divertisse comigo não sabendo jogar. Cansada, resolvi deitar ao seu lado para que pudéssemos apreciar aquela imensidão de nuvens e aquele céu azul. Quando me aproximei, ele golpeou o meu coração sem querer. Comecei a chorar desesperadamente, e aquele sangue me aterrorizou. Eu não sabia o que fazer, então corri o mais rápido que pude em direção à saída do campo que ficava anexa à casa da minha avó. Confortável nos braços de dona Isabel, fecho os olhos e, em meio a turbilhões de pensamentos, não sei mais se estou ou não disposta a proceder com isso. Essa dor que eu sinto, essa dor insuportável que me faz querer desistir, essa dor angustiante e, ao mesmo tempo, prazerosa, que me leva do céu ao inferno em segundos. Se eu pudesse explicar o que é e como me sinto quando estou em seus braços, se ao menos eu conseguisse elucidar o nosso aroma, aquela fragrância criada perfeitamente com o meu cheiro e o do dele, se eu pudesse descrever como me apaixono a cada vez que olho seu sorriso, seus olhos esverdeados, sua alma, juro que, se eu pudesse, se eu conseguisse, faria

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isso. Talvez se o medo da dor e desejo do prazer não estivessem interligados isso tudo se resolveria. Meus sonhos se tornaram cinzentos e obscuros depois que ele se foi, e eu sei o porquê ele quis partir, sei também que não queria causar mal algum para mim. Além disso, eu sei que sempre o quis, por mais que fosse diferente, ele me completava, e não seria o julgamento dos outros que iria mudar o meu amor. Mas fui eu quem o deixou partir, eu que desisti, não aguentava mais sentir dor, a dor de estar ao lado dele e de não poder ficar ao seu lado pois me machucava. Faz parte sentir saudades. Ele sempre estará em meu coração, afinal tem um espinho lá. O ser por quem me apaixonei e o motivo pelo qual me apaixonei ainda são inexplicáveis, mas aquele cactos antigo que tinha asas das cores que formavam o arcoíris sempre será meu eterno amor. Outono Francy Hellen da Silva 2º Ano EM

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Harmonia da imaginação O dia estava ensolarado, com poucas nuvens e um céu tomado pelo azul claro que transmitia uma sensação alegre às pessoas da cidade de Novos Sonhos. Era fim de tarde, e o vento balançava as árvores de maneira que pareciam estar acompanhando o ritmo da música que Leonardo estava escutando, enquanto passava pelas calmas ruas do bairro de Belo Jardim. O vento estava tão forte que sacudia os cabelos curtos e loiros de Leonardo, no momento em que caminhava em direção a sua casa. O sol refletia nos olhos verdes do menino, que esboçavam paz e imaginação. Quando Leonardo chegou a casa, foi direto para o seu quarto, pegou seu violão e começou a tocar uma música de que gostava muito. Logo depois, ligou seu teclado e tocou outra música que deixava ele mais relaxado. Para Leonardo, a música era uma arte que não tinha explicações, cada nota significava um sentimento diferente e o conjunto dessas notas podia transmitir alegria, tristeza, amor ou uma sensação de liberdade e imaginação. Certa noite, Leonardo estava assistindo a um filme chamado “Mundo Surreal” e uma cena, na qual tocava uma música de fundo chamou a atenção de Leonardo, porque aquela música o fazia liberar sua imaginação e, por incrível que pareça, ele parecia estar em um mundo surreal. Depois dessa cena, Leonardo pausou o filme, pois já era tarde demais, e ele tinha aula de manhã. Então desligou a televisão, mas anotou onde ele tinha parado, para assistir em outro dia. No dia seguinte, acordou, foi ao colégio, conversou com os amigos e seguiu sua rotina normalmente. Até que, em um momento, recordou-se da música e do filme que assistira no dia anterior e desejou escutar aquela música novamente. A ansiedade de Leonardo era tanta que, quando chegou a casa, nem almoçou, foi direto para o quarto e ligou o computador para procurar aquela música. Leonardo, apesar de querer muito descobrir o nome da música, desceu para almoçar, porque sabia que sua mãe iria ficar muito brava se ele não descesse. Quando Leonardo terminou de almoçar, foi correndo para seu quarto, para continuar procurando aquela música. Até que, de repente, ele encontrou e, quando escutou de novo, sentiu as mesmas sensações que tinha sentido quando assistia ao filme. Durante o momento de imaginação, olhou pela janela de seu quarto, que parecia um portal para um mundo surreal. Leonardo não pensou duas vezes e adentrou nesse mundo de uma realidade totalmente distinta, anormal e desconhecida. Os animais desse mundo tinham funções totalmente diferentes: enquanto tartarugas e peixes voavam, pássaros e águias nadavam. As árvores eram azuis e não geravam frutas ou flores, e, sim, estrelas. As paisagens eram repletas de cores incomuns

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que Leonardo ainda não tinha visto no outro mundo. Ao longo de seu passeio nessa nova realidade, o menino foi descobrindo os diferentes cenários e perspectivas de vida, mas não tinha encontrado nenhum ser humano ou algo parecido. Quando já estava de noite, sentou-se sobre a grama azul que ficava de frente para um rio amarelo, ele estava tão cansado que pegou num sono. Após isso, Leonardo estava, incrivelmente, sentado em sua cama, escutando a música do filme, da qual tinha gostado tanto, como se nada tivesse acontecido. O rapaz pensou que tudo aquilo tivesse sido um sonho, mas percebeu que, quando tinha escutado a música, ainda era tarde e, naquele momento, já era noite. Tudo continuava muito estranho, e Leonardo ficou a noite inteira pensando no que havia acontecido. No dia seguinte, acordou pensando que tinha voltado ao mundo surreal, mas ainda estava no seu quarto, então levantou e foi para sua escola, normalmente. O dia se passou como outro dia qualquer, até que Leonardo pensou que, se, talvez, escutasse a música de novo, poderia voltar àquele mundo. Ansioso, como na outra vez, foi para casa e escutou a música novamente. Fechou os olhos e imaginou, mas nada aconteceu. Expressando tristeza em seu rosto, Leonardo foi almoçar. Depois do almoço, já que o menino tinha gostado tanto da música, resolveu estudar aquela música para poder tocar em seu teclado. Quando Leonardo aprendeu a música, tocou-a inteira e sentiu-se relaxado. Até que percebeu que tinha voltado ao mundo surreal, no mesmo lugar em que tinha dormido. Ele estava tão feliz que nem sabia o que fazer primeiro. Com o passar do tempo, Leonardo descobria mais sobre esse mundo e percebeu que o que acontecia naquele mundo tinha a ver com a letra da música que possibilitou o acesso a essa realidade. Leonardo conheceu muitos lugares anormais, mas um deles chamou a atenção do menino, enquanto andava. Aparentava ser um caminho rodeado de muitas árvores, e estava ventando muito forte naquele momento. De repente, começou a tocar a música da qual Leonardo tanto gostou, até que apareceu uma luz azul que aumentou até deixar tudo azul. Quando Leonardo percebeu, estava na frente de seu teclado, novamente, na sua casa, fora do mundo surreal, e ainda não tinha anoitecido. Leonardo queria fazer de tudo para voltar àquele mundo. Até que se recordou que não tinha terminado de assistir ao filme da música de que tanto gostara. Então ligou a televisão e continuou do lugar onde ele tinha parado de assistir. E foi uma surpresa ver que o mundo no qual acontecia o filme tinha as mesmas características e paisagens que o mundo que ele tinha conhecido. Winderson Sonhador Gustavo Forselius / 2º Ano EM

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Rosas Acordei. Suava frio, e lágrimas escorriam em meu rosto. Lembrava-me da loucura, da confusão e do medo. Conseguia sentir os espinhos das roseiras arranhando minha pele e sentia o calor do sangue escorrendo pelo meu corpo. Era capaz de ouvi-las gritando meu nome, rindo. Esse havia sido, definitivamente, o sonho mais aterrorizante que já tivera: estava frio, e o sol se mostrava forte no céu. Eu caminhava por entre as roseiras, sentido o cheiro doce vindo das pétalas. Quando pensava que não podia mais andar, senti algo me puxando. Olhei e, no mesmo instante, quis correr. Era uma rosa gigante que me seguia, segurava-me e chamava meu nome. Chutei e corri; corri o mais rápido que pude, mas parecia que, quanto mais me mexia, mais espinhos apareciam, mais galhos me prendiam. Quis gritar, porém minha garganta estava seca, e minha voz não saía. Lágrimas escorriam de meus olhos, lavando meu rosto, fazendo arder os cortes causados pelas rosas. O sangue fluía dos ferimentos, esquentando minha pele do frio. Ouvia risada, fria e alta, das flores, enquanto gritavam meu nome. O cheiro, de doce, passara a um aroma amargo, que me circundava em todo lugar para onde corria; o ar que preenchia meus pulmões parecia pesado, dificultando a respiração. Recordo-me, tentando sair da cama, que, em algum momento, eu havia chegado a um túnel e pensei estar segura, porém, obviamente, não estava: lá estava escuro, úmido e cheirava mal. As paredes e o chão estavam cobertos de limo, e isso dificultava meu equilíbrio, mas corri até adentrar o túnel suficientemente para que me sentisse a salvo. O silêncio era perturbador. No entanto, eu me sentia mais protegida ali do que em qualquer outro lugar. Sabia que, em algum instante, elas apareceriam e me machucariam novamente, mas queria aproveitar a quietude do local. As rosas chegaram silenciosamente, e eu, já tão atordoada, mal percebi quando os galhos me seguraram, enquanto os espinhos cravavam em minha pele. O sangue pingava no chão e elas me levavam para fora do túnel. Foi então que acordei. Por mais que tentasse, não conseguia evocar nada que fosse relacionado ao sonho, então acreditei que tinha sido isso. Fui ao banheiro e tomei um banho gelado, almejando, então, esquecer o sonho. Quando saí de meu quarto, percebi que nada havia sido um sonho. Elas estavam todas lá, observando-me com um olhar curioso e ao mesmo tempo satisfatório. Não estava entendendo. Foi quando olhei para meu corpo. Eu era uma rosa. Augusta dos Anjos / Hanna Ely Werle / 3º Ano EM

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Boleta O local onde Boleta Caramelo trabalhava, o sacolão das trevas, estava sem condições necessárias de trabalho. Além disso, todos os edifícios daquela região também estavam. Segundo os policiais, os locais estavam fechados, pois havia uma loja revendedora de carnes que se apresentava em situação irregular, mas não era só isso. De dentro desse local, estavam saindo gases tóxicos e esse foi o principal motivo de estar tudo interditado por ali. Então, os policiais decidiram que iriam entrar nessa loja e investigariam isso. Após colocarem mascaras de acrílico laranja, que na base se conectavam a um cilindro de oxigênio, entraram para analisar o local. Dentro desse lugar havia muito pouca luz e então tiveram que ligar suas lanternas. De repente, a porta se fechou e Boleta Caramelo - que entrou junto com os policiais - ficou muito assustado. Parecia que os gases saíam da parte de baixo de casa, onde ficava o quarto de visitas. Ao lado da escada principal, que subia para o andar de cima da casa havia um mapa com todos os lugares do local. Então analisaram o mapa e foram até a escada que dava acesso à parte de baixo da casa. Chegando lá, depararam-se com algo muito estranho, não havia mais gases, mas sim um objeto estranho no fundo do quarto. Entraram devagar e, quando Boleta Caramelo estava se aproximando, de repente tropeçou no próprio pé, já que era muito grande, e abriu-se um buraco no chão. Após essa abertura, ocorreu a liberação de muitos outros gases, o que fez com que os policias desmaiassem e fossem engolidos pelo buraco também. Quando acordaram perceberam algo muito estranho, um local onde todos os móveis eram feitos de doce, até a parede e o teto. E nesse local havia uma placa, com uma escrita muito diferente, a qual ninguém conhecia. Resolveram investigar os redores, a fim de achar alguma pista de como sair de lá. Andando pelo local, encontraram um palhaço, feito de açúcar, era conhecido como Rei dos doces. Ele tinha a informação de como sair do lugar. Boleta Caramelo disse: - Senhor palhaço, pode nos informar de como sair daqui? Preciso voltar para a cidade para sustentar meus mamutes e meus botos de estimação. O palhaço respondeu: - Não, vocês não terão de ficar aqui para trabalhar ou comer todos os doces desse planeta para conseguirem voltar para suas terras.

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Então, Boleta teve uma brilhante ideia. Como tinha uma garrafa de água em sua mão, ameaçou o Palhaço, feito de açúcar, dizendo que jogaria água nele. Quando fez isso, o homem feito de açúcar começou a derreter e abriu-se um outro buraco. Logo, os policiais entraram pela abertura, rapidamente, antes de Boleta. Boleta teve de comer todos os doces do planeta para conseguir voltar para seu planeta. Quando voltou, percebeu que seu boto havia se transformado em um peixe e seu mamute em uma lhama. Henrique Sander Carbonera 3º Ano EM

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A abdução Aquela manhã fria e gelada de terça-feira começou de uma maneira estranha. Deitada em minha cama, que parecia não ser a mesma de sempre, tive a sensação de estar sendo observada e, ao tocar meu corpo, percebi que estava suando frio. Rapidamente levantei da cama, tive a ideia de me direcionar para os outros cômodos com o objetivo de encontrar quem estava me observando, o medo percorria cada parte do meu corpo e, a cada passo, sentia meu coração palpitar mais forte. Ao chegar, a cozinha que era estreita e uma das partes mais escuras da casa, pois não havia janela, senti um toque em meu braço e de repente apaguei. Meu corpo começou a reagir, não sentia minhas pernas e meus olhos não queriam abrir, minha mão estava acorrentada na cama e sentia muitos aparelhos instalados em mim. Criei coragem e ao abrir os olhos, deparo-me com uma criatura sombria e estranha, semelhante a um ET. O desespero tomou conta e não sabia o que fazer. Comecei a gritar desesperadamente, e a criatura apenas me mandou ficar quieta e calma que seria melhor para mim. Por mais difícil que fosse me acalmei e pedi uma explicação. Ele se apresentou como X-145 e diz que fui escolhida como cobaia para testes extraterrestres. Uma confusão de sentimentos habitava minha cabeça. Respirei fundo, comecei a olhar para os lados e percebi que estava em uma sala escura, apenas iluminada com as luzes e sensores dos aparelhos, minhas pernas estavam amarradas e minha cabeça colocada em uma estrutura metálica. De repente, escutei passos, meu corpo estremeceu, entraram na sala cerca de doze criaturas iguais, do mesmo tamanho, e começaram a me analisar. Ouvi uma conversa dizendo que eu seria uma maneira de mostrar ao mundo que são eles quem controlam a humanidade. Comecei a me sentir muito sonolenta e cansada e acabei adormecendo. Acordei com um dos ets me chamando para minha primeira refeição e me deparei com um objeto quadrado e fundo, onde havia um alimento parecido com uma fruta. Porém, estava quente e o X-145 me mandou comer. O gosto era bom, mas o odor era horrível. Perguntei o porquê me escolheram e ele respondeu que por eu ter estudado exibiologia e feito pesquisas na área de ufologia, sentiram que eu detinha um conhecimento maior deles e, por esse fato, não ficaria tão apreensiva com essa situação. Porém, mesmo com todos os anos de estudo sobre a possibilidade de haver extraterrestres, foi algo surpreendente e ao mesmo tempo medonho saber que todas as minhas teses foram concretizadas. Após muito tempo de conversa, fui levada à mesma sala onde permaneci presa durante os dias. Eu me encontrava em uma situação que muitas vezes parecia um delírio da minha mente, porém os dias estavam

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passando e quando chegava cinco para as quatro da tarde e da manhã, eu realizava uma bateria de exames. Aproximei-me muito de X-145, ele me contou a história de sua espécie e seu principal objetivo, que era dominar o mundo todo. Em uma manhã, fui algemada e levada até uma nave, igual as que apareceram em algumas regiões no mundo, e X-145 me alerta que a hora de invadir o planeta havia chegado. Sinto-me aflita em não poder ajudar as pessoas e com medo do que irá acontecer daqui pra frente. Ao decolar, X-145 sentou ao meu lado e começou a falar que serei usada como refém e terei de contar a todos a minha estadia em seu planeta com seus familiares. Pousamos no meio de Nova York. O medo das pessoas era visível e todo o exército americano já se encontrava a postos, desci da nave e fui posta em frente a um microfone por meio do qual comecei a contar os ideais deles e como fui estudada e analisada nos últimos dias. Algumas pessoas no mundo cometeram suicídio, e a raça extraterrestre tomou conta do planeta Terra. Abominaram todo e qualquer tipo de noticiário, cortaram as redes telefônicas e iniciaram o processo de abdução humana que consistiu em uma lavagem cerebral a partir de que as pessoas começaram a acreditar no poder extraterrestre e em seus ideais. Eu tive acesso a essas informações pelo X-145 que proibiu minha abdução. Anos se passaram e o mundo foi tomado por essa espécie e eu continuo viva, porém com saudade dos dias em que eu era humana. Gabriela Menezes Isabelle Salgado de Freitas 2º Ano EM

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Passagem O sol estava se pondo quando senti uma lágrima cair sobre minha cabeça. A laranjeira estava triste, talvez o peso dos porcos que a habitavam estava demais. Decidi então sentar-me perto das roseiras, mas deixei cair meu cereal, que foi rapidamente levado por uma das tartarugas. Tentei segui-la, porém a perdi de vista depois de percorrer 20 metros. Eu estava tão determinada a pegar de volta o que era meu que não olhei por onde estava indo, e a floresta densa ao meu redor não parecia amigável. Procurei abrigo entre as árvores de pedra e notei uma passagem em um de seus troncos. Ela emitia uma luz que ficava mais intensa conforme eu me aproximava. Entrei e me deparei com um enorme castelo, feito inteiramente de unhas de chipanzé. Segui por uma trilha de algodão doce e logo encontrei os moradores locais. Eles eram quatro vezes o meu tamanho e não pareciam se importar com a minha presença. Depois de muito andar, deitei-me sobre alguns cogumelos e descansei por um instante. Senti uma pressão em meus braços e pernas, mas minha visão estava obstruída e não entendi o que estava acontecendo. Meu corpo foi carregado até a beira de um rio, e eu não conseguia me mover. Eu estava presa ao chão e, de repente, serpentes rastejavam pelo meu pescoço e minha barriga. Sem ter outra opção, rolei até o rio e me deixei levar pela correnteza. Após algum tempo, as cordas que me prendiam se dissolveram na água e, enfim, pude nadar e pisar a terra de novo. Notei várias mordidas e hematomas em meus ombros, que aumentavam constantemente, e, a cada bosque que eu passava, cortes se abriam em minhas costas. Em um vilarejo perto da montanha, fui recebida com euforia pelos moradores, eles me deram cabras e corvos de presente e prepararam um grande banquete de musgos ao molho. À noite, levaram-me para conhecer os animais encantados e me proporcionaram uma cabana para minha estada. Logo cedo de manhã, fui acordada pelo espetáculo dos anões saltitantes, enquanto mariposas costuravam trajes de festa. O dia teve várias comemorações e a cerimônia mais aguardada seria ao anoitecer. Os anões estavam muito ansiosos para o evento. Chegando a hora, foram comigo até o topo da montanha, e lá estava esperando a população inteira do vilarejo. Houve cantos, danças e leituras na língua local, a qual eu não compreendia. Logo mais, todos colocaram uma coroa de dentes de leopardo em suas cabeças. Fui levada até a beirada do precipício e empurrada após pegar fogo. Acordei assustada, porém aliviada. Isabelle Zanella Baldissera / 3º Ano EM

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O olhar da morte Você está sentado em sua cama, nu e ainda um pouco molhado do banho que acabara de tomar. É fim de tarde, tudo está arrumado, a televisão está desligada, seu quarto é iluminado apenas pelo sol que em breve irá se pôr. Um pouco aborrecido, toca suas pernas e sente ligeiro incomodo com cabelo e barba sobre elas, mas evita desperdiçar algum empenho em retirá-los. Depois de um curto período de tempo, você percebe sangue em seus dedos. Teria se cortado ao chegar em casa ou durante o banho? Afinal, ocorrera um pequeno acidente enquanto lá permaneceu, o recipiente que estava em punho caíra, acarretando vários pequenos pedaços do que antes fora seu copo favorito, presente dado por sua mãe no dia que completara seis anos de idade. Removendo sua mão, examina-a. Pacientemente observa em busca de algo, porém nota que não há um corte sequer. Um pouco confuso, olha para cima em torno de seu quarto e, quando atinge o seu olhar a porta, vê que existe um rastro com sangue, algo similar a uma mão, sobre a tinta branca. Então, diante de seus olhos, todo o terço inferior da sua porta fica completamente coberto com as marcas. Você instintivamente reage, mas não sente mais do que um leve toque de medo, e nenhuma surpresa. Após alguns minutos, volta a se deitar, desta vez, sem aparentar qualquer aspecto de nervosismo ou temor. Calmamente, espera que as manchas desapareçam, imaginando que aquilo fosse criação de sua mente, mas nada acontece. Ao passar de meia hora, olha em torno de seu quarto. O lado de seu armário posicionado perto da porta também tem as impressões de mãos, apesar de serem mais fracas. Você pensa em demônios, e verifica se há qualquer coisa fora do normal, contudo não há nada. Cada vez que voltava os olhos para a porta, a quantidade de sangue aumentava. Não demorou muito, logo ela estava completamente coberta. Sua visão inteira é vermelha, procurava ignorar tudo o que estava acontecendo, então decide ir dormir, na esperança de não lembrar de nada daquilo, implorando para que tivesse sido um sonho. É em torno da meia-noite, e você tem que se levantar cedo amanhã, quanto mais cedo dormir, mais fácil será para lidar com o dia... No meio da noite, ouve um som estranho. Ao acordar, imagina ter sido somente o rangido da porta, que estava velha e necessitava de reparos. Decide deitar-se novamente, esperando não escutar mais nenhum som. Logo que tenta fechar os olhos, ouve o som novamente. Na completa escuridão do quarto, procura rapidamente encontrar o interruptor para descobrir de onde vinha aquele som. Ao acender as luzes, seu corpo congela, suas pupilas dilatam, seu quarto está rodeado de sangue por todos os lados, o sentimento de medo aflora de uma maneira nunca

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sentida antes. Você esfrega os olhos, dá tapas no rosto, tentando despertar, sair daquele lugar, algo que faça com que aquilo desapareça. Tudo é em vão. Como se não bastasse, levemente percebe a porta sendo aberta, um vulto de esperança aparece em sua alma, imagina que, o que estiver atrás da porta poderá ajudá-lo. Lentamente a porta é aberta, vindo à tona a figura de uma mulher com vestes brancas, medindo aproximadamente 1,70 de altura. Nunca havia visto tal figura feminina, mantem-se estático, aguardando qual será sua reação ao ver o estado do quarto. Ela se mantém imóvel durante alguns segundos, os olhares estavam fixos um para o outro. Surpreendentemente, nota-a dando passos para trás, em direção oposta ao quarto. Ao perceber que ela foi embora fica perplexo, seria aquela mulher uma assaltante ou algo do gênero? Estranhamente vejo que ela deixou a porta aberta. Decido, então, sair da cama, atravessar todo sangue que escorria pelas paredes e ir em busca de descobrir quem era aquela misteriosa figura. Ao me aproximar da porta percebo a temperatura baixar, ao mesmo tempo que tenho a impressão de um vulto passar. Mais dois passos e estarei fora do quarto, deixarei para trás o sangue que lá escorria e sairei do lugar que estava me causando tamanho temor. Fecho os olhos e caminho. Dando alguns passos, acredito estar fora do quarto. Decido abrir os olhos, imaginava que nada de mal ocorreria. Cometi o maior erro de minha vida. Estou rodeado por diversas pessoas, homens e mulheres, todos com vestes brancas semelhantes a mulher que antes invadira o quarto. Permaneço estático, meu corpo não dá sinais de movimentação. Tento fechar os olhos novamente, conto até dez, na esperança de que aquelas pessoas desaparecessem. Abro meus olhos, quase todos sumiram, exceto a mulher que anteriormente adentrou no quarto, porém dessa vez ela está diferente, suas roupas antes brancas agora estão vermelhas, marcas de cortes feitos por faca cobrem seu corpo, aquilo era demais para mim, nesse instante, desmaio. Oh Long Johnson João Vicenthe Ramos Foscheira 2º Ano EM

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Um beijo Era tão quente aquela madrugada do dia 10 de dezembro de 2008. Não pregava meus olhos, o sono não vinha, a tosse incessante doía em meu peito e costas cada vez mais. Revirava-me quatro vezes por minuto, procurando uma posição confortável em meio àquela cama e lençol quentes, devido ao calor do meu corpo. Meu ar condicionado havia quebrado poucos dias antes, provavelmente pelo uso excessivo naquele verão escaldante. Não achava outra solução além de abrir a janela, por mais que meu medo da escuridão fosse desmedido. Criei coragem, levantei-me apesar da dor no corpo que a enfermidade me causava, e me dirigi à janela que ficava a mais ou menos três metros à frente da minha cama. Ergui a persiana, com receio de que visse algo lá fora. Abri a janela tremendo, saí correndo e pulei de volta ao meu “ninho”. Garantolhes que nunca foi percorrido um percurso de três metros em tão pouco tempo. Deitada novamente, percebi que a luz do poste da rua iluminava a árvore perto da janela, fazendo sombras sinistras que se moviam em uma das minhas paredes. Com a leve brisa que vinha de fora, o sono suavemente começou a me tocar, a cama e o lençol diminuíram de temperatura, assim, encontrei uma posição aconchegante e desabrochei. Quando finalmente me encontrava em um estado relaxante, em que vinham os primeiros flashes de sonho, como se fosse um sexto sentido, senti que havia uma presença no quarto além da minha. Abri meus olhos e olhei para uma das paredes onde anteriormente não havia sombras. Ali estava, uma silhueta tenebrosa de um ser que não saberia distinguir: corpo alongado, com duas asas, duas pernas que não encostavam no chão. Encontrava-me tremendo de medo, estagnada e praticamente em lágrimas de tanta angústia, a sombra começou a caminhar de um jeito dançante em direção à cama e, junto a isso, começava a criar forma. Uma cor azul fria cobria sua pele, mãos e pés esbranquiçados e judiados, olhos brilhantes como diamantes e asas negras. Chegou bem perto, sussurrou “Você necessita de mim” e deu-me um beijo em seguida. Tentei gritar o mais alto possível, e o som não saia. O ser segurou meus braços, envolveu-me em seu corpo e asas e tornou a minha visão escurecida. E, imediatamente, desmaiei, como se todo o sono do mundo viesse a mim. Quando acordei, abri meus olhos, e a claridade me cegou por alguns segundos. Percebi que me encontrava deitada em minha cama, em uma sala que brilhava como os olhos do “anjo”. Senti que a minha tosse teria se esvaído, e a dor intensa em meu corpo teria cessado. Duas colunas à minha frente, uma escada enorme cujos degraus, por algum motivo, não conseguia contar, mas sei que eram muitos. Havia um trono enorme em

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meio às colunas, onde sentado, lendo, o ser me esperava acordar. O teto era o próprio céu e, atrás de mim, havia um corredor interminável junto da imensidão vazia. Assim que sentei na cama, apavorada com a cena, o “anjo” olhou-me diretamente nos olhos e disse “Acalme-se, estás na minha casa e não pretendo te fazer mal algum. A enfermidade que te tocou deixou apenas estragos, e seu corpo não suportou. Trouxe-te até aqui com o objetivo de acolher-te para sempre junto de teus parentes e amigos que perdestes. Acompanhei-te a vida toda, sei de tuas conquistas, perdas, qualidades e defeitos. Conheço-te mais do que tu te conheces. Sou a própria vida, morte, tempo e espaço. Agora, irás juntar-te ao resto de minhas “sementes” e conhecerás tudo que duvidaste das respostas.” Depois de sua fala, percebi que havia falecido e sido beijada pelo anjo da morte. Assim, encontrei a paz que tanto desejei naquela madrugada tão ardente de 10 de dezembro de 2008. Laura R. Gaffi Julia Assenheimer Cardoso 3º Ano EM

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Paradoxo inevitável O brilho intenso do sol me cega no momento em que abro os olhos. Franzo o cenho ao conseguir, com certa dificuldade, focar algo familiar. Já estive aí. No céu azul, nenhuma única nuvem se atrevia a perturbar a homogeneidade anil. O vento, agitado, parecia me convidar para uma dança quando bagunçava meus longos e lisos cabelos ruivos. Já estive aí, naquele pedaço de terra solitário que emergia de um abismo, rodeado por paisagens inóspitas. A relva verde e úmida me provocava, com cócegas sutis nos pés descalços. Uma sensação inexplicável surgia, desabrochando em uma leve gargalhada. No centro do círculo fértil, agigantava-se uma árvore, cuja altura se assemelhava a dos que se ergueram a partir das gotas de sangue de Urano derramadas sobre Gaia. A vida parecia emanar dela, ironizando o cenário apocalíptico que a cercava. Poderia passar horas deitada, vendo o tempo transcorrer com sua habitual velocidade, que tanto assusta os mundanos. Gostaria de observar com calma a tal árvore, cujos galhos repletos de folhas das mais variadas cores se contorciam como serpentes encantadas pelo flautista. Sendo a única alma viva das redondezas, o meu desejo era admirar o espetáculo psicodélico que me era proporcionado. Entretanto, não era isso que ocorreria. Era inevitável a tentação de me aproximar do tronco, que constantemente se metamorfoseava para criar imagens repletas de simbologias, que sussurravam incessantemente palavras em um idioma desconhecido, com certo ar profano. Instalava-se, então, um paradoxo. O medo se convertia em desejo. Meu cérebro gritava ordens, aconselhando-me a ficar estática e me afastar dos medonhos símbolos. Porém, todas as células do meu corpo, enlouquecidas em uma fúria anárquica, vítimas de uma atração magnética, ansiavam por aquilo. A avidez advinda do meu âmago, compelia-me para frente, como se estivesse em transe. Intrigada e temerosa, suspirei quando as pontas dos meus dedos roçaram a áspera e instável superfície. As vozes se calaram, e parei atônita. Por um breve momento, o tempo parou. Ouvi um estampido brusco e a ilha ganhou mais vida do que nunca. Usando todas as suas reservas de energias, começou a girar num movimento contínuo, como uma tentativa desesperada de sobreviver mesmo com a ordem natural perturbada. Desse último esforço final, fissuras se abriram no solo. Zonza, perdi o equilíbrio e cai para trás, notando o céu assumir, gradativamente, uma coloração escura. Não foram as macias gramíneas que minhas costas encontraram ao tocar o solo. Cacos de vidros recobriam a superfícies, mas isso, de certa

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forma, não me incomodava. A sensação de dor me parecia até preferível. A escuridão era reconfortante. Atordoada, percebi que estava numa viela fria e silenciosa. Algumas poucas estrelas serviam como única fonte de luz. Tateando as construções antigas de pedra, caminhei por uma vila medieval às cegas, sem conseguir distinguir sequer meus pés entre vidro e rocha. Encontrei, depois de um tempo, uma rua iluminada por lamparinas. Dirige-me até ela e só então percebi minhas vestes brancas ensanguentadas. Cortes profundos marcavam meus braços e pernas. Com a turbulenta mudança de paisagens, nem os havia notado. Sentei-me no chão para avaliar as mutilações e descansar. O pânico e a preocupação já haviam começado a me dominar quando escutei um ruído. Vozes praticamente inaudíveis no início. Contudo, à medida que as sigo, aquele anseio primitivo tenaz floresce novamente, quando a sombra solta uma risada perturbadora. Barulhos estridentes, normalmente amedrontadores, são um toque gélido na minha espinha e meus pelos se eriçam com os devaneios. É incontrolável. Corro numa velocidade absurda para os parâmetros humanos, de forma que tudo ao meu redor fica turvo. Meus pés já não tocam o chão e a loucura me consome. A sombra me leva para locais que não consigo identificar, mas dão a impressão de serem inabitáveis. Já não consigo acreditar nos meus sentidos. Em constante movimento, minhas pernas, constantes, já não consigo controlar. O vulto me provoca com sibilos, e sigo, inabalável, apesar das tentativas do meu pensamento lógico e sensato me recomendarem que eu parasse imediatamente. De súbito, minhas pernas obedecem, e eu estremeço ao desacelerar, quase tropeçando. A não ser pelo som alto das ondas batendo contra as rochas, pareço estar na mesma rua. Caminho até onde os cacos vidros e as pedras acabam, na direção do mar. Piso a areia e vou até o mar quente, onde limpo o sangue já seco na minha pele, e a água me acalma. Ao sair de lá, vejo uma fogueira enorme que, surpreendentemente, não havia percebido antes. Parado, esperando-me em sua frente, encontro o vulto, que assume um contorno conforme eu me aproximo. Assim como eu, ele aparenta estar cansado. Mede aproximadamente três metros e adquire uma forma estranha e familiar. Ele não emite mais nenhum som desagradável. Tudo o que eu consigo ouvir é sua pulsação acelerada em ressonância com a minha. A adrenalina aumenta e eu sinto que o delírio está chegando ao fim. Ao encostar em sua pele de textura estranha, percebo que é a mesma superfície do tronco da grande árvore. O desejo tão profundamente intrínseco, agora parece se esvair. A avidez se sacia. Aquele ser monstruosamente belo se vira em minha

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direção, e as mensagens tão ilegíveis e as imagens tão obscuras e curiosas da árvore se reúnem e, então, eu finalmente vejo. Vejo uma menina de cabelos ruivos e esvoaçantes, correndo e rindo com a suavidade de um pássaro. Fleur Laís Rodrigues Foppa 3º Ano EM

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Desespero Ela acordou desesperada, com o rosto molhado, porém não conseguia distinguir se era suor ou lágrimas. Sabia onde estava, mas, ao mesmo tempo, não fazia a menor ideia. Olhou para cima e para os lados e percebeu que o local era grande. Por que sentia como se estivesse presa dentro de uma caixa? Era sufocante. Tudo o que ela queria era ir embora daquele local, mas sabia que não conseguiria fugir, não poderia fugir. Tentou se mover, mas era quase impossível. Parecia que havia alguém segurando seus pés, e que seus maiores medos, todos os monstros de seus piores pesadelos, corriam atrás dela, consumindo-a. E ela tentou gritar, soltar-se, pedir ajuda, para, no fim, ser apenas mais uma tentativa falha de livrar-se de tudo aquilo. Parou para respirar e pensar em tudo o que havia acontecido nos últimos tempos. Era engraçado, pois, um dia atrás, estava feliz, aproveitando tudo de bom que a vida tinha para oferecer, e ela nem sabia disso, só descobriu quando viu as coisas desmoronando ao seu redor. Nunca imaginou que isso aconteceria, era quase surreal. Sentou-se e fechou os olhos. Dizia para si mesma que tudo aquilo passaria, era só contar até três e abrir os olhos. E foi isso que ela fez. Ao abrir os olhos, sombras começaram a aparecer ao seu redor, e essas sombras foram se transformando em pessoas, pessoas que ela conhecia, ou ao menos era isso que pensava. Ela se levantou e, finalmente, conseguiu se mover. Parecia que a sensação reconfortante de conhecer essas pessoas espantava seus monstros, mas, ao perceber que falava e ninguém a escutava, mas essa ilusão logo foi embora. Era inútil, ela era invisível a eles. Lágrimas se acumulavam em seus olhos e escorriam pelo seu rosto, como se chorar fosse tudo que conseguisse fazer, o desespero batendo de novo, e a sensação de sufoco voltando. Não tinha percebido, mas já haviam se passado dias, e nada parecia melhorar. Ela se perguntava como a vida podia mudar em tão pouco tempo, mesmo tendo sido testemunha e personagem principal de diversos atos. Até que, no meio daquela confusão toda que havia se estabelecido em sua mente e em seu corpo, sentiu alguém segurando sua mão e a puxando para que andassem lado a lado. Por mais que tentasse, não conseguia ver quem era e para onde a estava levando. Sentia como se estivessem andando por anos, e, quando finalmente pararam, ela se viu sozinha mais uma vez. Olhou para todos os lados, e era só escuridão, quando uma porta surgiu ao seu lado. Sem pensar duas vezes, ela segurou a maçaneta e a girou, imaginando que, assim, sairia daquele local que mais parecia um pesadelo. Ao abrir a porta, uma luz forte e um ar fresco rodeado de possibilidades a atingiu, e

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ela sentiu um alívio repentino, coisa que não sentia há dias, e foi naquele momento que ela percebeu que não conseguiria correr de tudo que estava acontecendo, mas poderia começar a enxergar e encarar a situação de outra forma. Dar tempo ao tempo, era isso que deveria fazer, porque, afinal, nada como um dia após o outro. MJ Maria Eduarda Sales Rocha Aguiar Maia 3º Ano EM

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A Rua dos Madeiros Era uma noite fria de setembro. As luzes fracas dos postes se misturavam aos pingos da forte chuva que caía no momento em que passei correndo pela Rua dos Madeiros. Toquei a campainha de uma casa azul no fim da quadra. Nada aconteceu. Embora já fosse tarde, persisti. Após algum tempo, veio receber-me à porta um homem baixo de cabelos grisalhos. Encharcado e com frio, questionei-lhe se poderia entrar e explicar-lhe a situação em que me encontrava. De bom grado, o velho homem me acolheu. A xícara de café que o homem me oferecera estava quente, resolvi então por explicar-lhe o ocorrido. Sentei-me em uma velha poltrona e comecei a contar-lhe sobre Franklin, um velho colega de trabalho. Assim como todos, eu também tinha uma rotina. Acordava cedo, tomava meu café, pegava meu surrado casaco de lã e ia trabalhar em uma velha fábrica de alimentos enlatados, nas proximidades de minha casa. Durante dois anos, não tive problemas no meu expediente, tudo ocorria perfeitamente, entretanto, na última semana, vi e vivi experiências que me transformaram em outro homem. Tudo começou na última sexta feira. Acordei empolgado, pois era o último dia de trabalho, e um fim de semana regado a muito álcool e cortesãs estava a me esperar. Meu expediente fora como de costume, exceto pela hora em que estava a ir embora. Franklin, em um tom empolgado e ao mesmo tempo tenebroso, correu até mim e chamou-me para ir a sua casa naquela mesma noite, falou que precisava mostrar-me algo urgentemente. Assim como solicitado, dirigi-me à casa de meu amigo. Bati à porta, e logo Franklin veio receber-me, onde, às pressas empurrava-me para dentro. Levou-me até o porão mal iluminado de sua casa deteriorada. Em meio a inúmeras anotações na parede, Franklin recolheu uma. Ali esperei, enquanto ele subia até a cozinha. Voltou, então, com um pequeno frasco, repleto de uma substância verde e muito excêntrica. Mesmo contra minha vontade, bebi junto com ele uma pequena quantia do líquido misterioso. Foi o suficiente. Os raios solares se infiltravam em meio à agua morna, lentamente fui saindo e sentindo a leve brisa que batia em meu corpo, fui andando em direção à areia da praia. Não sabia onde estava, e a única coisa de que me lembrava era meu próprio nome. Logo percebi que estava em uma ilha deserta, ou pelo menos até o momento. A noite caíra e estava frio, juntei alguns gravetos e folhas secas e consegui fazer uma fogueira. Não demorou muito para que eu, exausto, caísse no sono. O silêncio da noite naquela ilha era ensurdecedor, e fui acordado pelo barulho de gravetos sendo quebrados. Algo estava vindo em minha direção. Busquei algo para

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me defender, mas nada havia ali. Uma mulher saiu de trás de uma das árvores. Sem dúvidas, era muito bela. Seus longos cabelos eram como a escuridão da noite, seu olhar parecia adentrar em minha alma, entretanto o que realmente me assustou nessa mulher foi o fato de sua pele ser azul e ela possuir asas. Percebendo que eu estava assustado ela me falou seu nome, Sarah, e pediu para que eu me acalmar, pois não me faria mal. Todavia, a única coisa que eu desejava naquele momento era ir para casa novamente. Questionei-lhe sobre isso, e ela explicou-me que, para voltar para casa, era necessário que eu subisse a montanha ao norte da ilha e derrotar o rei Morza. Resolvi que assim faria. Sarah me acordou cedo, dizendo que a viagem até o norte seria longa, e que antes, precisaríamos nos encontrar com um velho amigo dela. Partimos então a passos largos e rápidos. Caminhamos durante a tarde toda até chegarmos a uma velha cabana. Ali morava Joel. Minhas pernas doíam muito. Após algum tempo de descanso ali, ele entregou-me uma afiada espada, que, segundo ele, fora forjada pelos Elfos do Sul. Deu-me também um par de óculos, embora eu não entendesse o motivo, garantiume que seria útil. Despedimo-nos e continuamos nossa jornada. Chegamos até a montanha ao anoitecer, e resolvemos dormir para recuperarmos nossas energias. Acordei disposto, entretanto havia um problema, como subiríamos a montanha? Foi então que Sarah, com um forte assovio, fez surgir entre as nuvens um cavalo com asas. Era grande e muito branco. Montei no cavalo, e partimos em direção ao pico da montanha. Ao chegar, deparei-me com um gigantesco castelo, em cujo mastro central havia uma bandeira preta com uma caveira. Sarah informou-me que, a partir de agora não poderia mais me acompanhar e que eu teria que continuar minha jornada sozinho. Adentrei o castelo, entretanto não havia ninguém ali. Não entendi muito bem o que estava acontecendo. Onde estava o grande rei Morza? Lembrei-me então dos óculos que Joel havia me dado, coloquei-os e, agora, entendi o motivo do presente. Ele tornava visível Morza e um grupo de pequenos monstros que o rodeavam. Morza estava sentado em um trono central. Era um adversário grande e forte, muito semelhante a um gorila. Um arrepio me correu pela espinha. Propus um desafio, caso eu perdesse seria um de seus servos eternamente. Morza levantou-se, agora parecendo ainda maior. Peguei minha espada e mostrei-me confiante. A batalha não estava nada fácil para mim. Cada golpe de Morza me fazia refletir se tudo isso valia a pena. Estava perdendo. Contudo, uma voz invadiu minha mente. Era Sarah. Juntei forças e golpeei Morza no coração. No mesmo instante, ouvi um grande urro e uma luz branca ofuscou todo o interior do castelo.

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Abri lentamente os olhos, e percebi que estava novamente no porão de Franklin. Ele me olhava fixamente. Sem entender o que acontecera, minhas pernas simplesmente me obrigaram a sair correndo daquele lugar. Corri até não conseguir mais. Cheguei à Rua dos Madeiros e ali estava eu contando a um desconhecido toda essa loucura. W.R.James Mauricio Both 2º Ano EM

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O baú vitral de Waterice Em pleno calor dos três sóis que ardiam como lanças de fogo na pele, Yrmam caminhava pelo bosque de Wanderwald, naquela tarde, que seria mais uma busca ao tesouro vital para seu povo o Baú Vitral de Waterice. De acordo com a lenda de seu querido pai, esse erário tratava-se de uma fonte infinita de gelo, que, quando instalada no centro de seu Reino formava uma fonte de água eterna. Dessa forma, todas as dificuldades enfrentadas, agora, pelo seu povo, estariam no fim: todas as pestes, misérias, lástimas, secas e fome. De acordo com o velho mapa que conseguira em uma épica batalha com o povo de Minestrel, aquele bosque seria uma passagem para a Alameda de Plátanos, próximo passo em sua jornada. Exausto, Yrmam se senta à sombra de um imponente carvalho para descaçar. Repentinamente, sente as raízes saírem debaixo de si, e a grande sombra se movimenta, levantando-a para o alto, a fim de encará-lo nos olhos. - Eis aqui um destemido felino. Sabe quem sou? Sou Melindra, o carvalho guardião como se atreva a tirar meu sossego. Quem é você? - Por favor, senhor, ou senhora, Melindra, sou apenas um mero lenhador, do Reino de Hurmam, que está em busca da salvação de seu povo da penúria e extinção. -Lenhador? Afaste-se de mim imediatamente, pois preciso continuar o meu trabalho se você passar deste carvalho se tornará inimigo de seu povo, pois este é o Bosque do Inverso e do Reverso. A partir de agora, serás meu prisioneiro, pois minha dieta está deficiente de proteína humana. Melindra senta-se sobre o guerreiro, impedindo-o de qualquer movimento. Yrmam fica imóvel por um longo tempo, pois não consegue pensar em nada, enquanto o carvalho volta a ser árvore novamente. “Mudaram as estações, nada mudou, mas eu sei que alguma coisa aconteceu, está tudo assim, tão diferente...”, pensava, quando aparece um pequeno animal, mordendo seu pé. Sentindo isso ele consegue levantar uma das pernas, levando junto uma rósea toupeira de nariz estrelado. Pensou, “é você que vai me libertar”. Colocou a toupeira nas raízes do carvalho, pois eram elas que estava à procura e começou a roê-las com fulgor deleitando-se com o sabor do alimento. Mais que rapidamente, Yrmam se vê livre das raízes vorazes que o prendiam. Liberto, segue sua jornada, pensando nas palavras do velho carvalho. Como passar por este bosque encantado? Como salvar meu povo? Eram perguntas que martelavam sua mente como se estivesse em um tribunal que o punia por não tentar. Desesperado, eis que tropeça em um grande

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troco, bem a sua frente que não tinha observado. Cai e percebe que esse tronco não é tão natural assim. Começa a tocá-lo e percebe escamas sobre ele, sente um calor exalando do tronco. Toca com mais força e o tronco devolve uma chicotada, como se tivesse uma calda. Nessa hora, percebe que acabara de acordar um pequeno dragão. Graças a sua inesquecível avó, ele sabe se comunicar com os dragões e o convence a transportá-lo para o outro lado do bosque, salvando-o daquela maldição. Já na Alameda dos Plátanos, continua sua saga. Precisava encontrar a fonte das Alamedas, mas os labirintos dos Plátanos dificultavam muito sua busca. Heras transpassadas, fossos camuflados, galhos traspassados e muitos arbustos e musgos cobriam seus caminhos. Com muito esforço e determinação, ele chega até a fonte, um lugar deslumbrante que irradia luz e água para todos os cursos. Estava bem próximo de seu objeto de desejo e, consultando pela última vez seu mapa, descobre que precisa mergulhar nessa mistura de luz e água. Sem mais demora, imerge e, quase sem ar, consegue pegar o baú e voltar à superfície rapidamente, para voltar a respirar. Ao voltar para o reino, todos comemoram com Yrmam, pois finalmente teriam água para abastecer a todos. Milena da Cunha Secco 2º Ano EM

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Um mundo subterrâneo O despertador toca. Levanto meio sonambula, sem perceber o que estava ao meu redor, vou em direção ao banheiro para escovar os dentes, mas me deparo com um buraco profundamente fundo. Desatenta, caio nesse profundo poço sem fim, gritando desesperadamente como se tudo ao meu redor fosse desaparecer. Aonde estou indo? Como isso aconteceu? Será que é um sonho? Muitas perguntas passam pela minha cabeça e, quando paro de pensar nelas, deparo-me com um mundo que, na minha cabeça, nunca existiu. Quando olho para minhas pernas, vejo uma roupa que jamais usaria na minha vida. Os calçados apertavam tanto meu pé, que parecia um pouco com a cultura da China, mas havia pessoas de várias etnias, japoneses, canadenses, americanos.... Eu só queria saber uma coisa, o que eu estou fazendo aqui e por que não consigo sair desse mundo? Começo a explorar o local onde me encontro. Passo por lojas, escolas, hospitais. Tudo muito organizado, muitas placas, impossível de se perder, mas havia uma coisa que me chamava muito a atenção, havia muitos porcos andando pela rua, como se fossem animais de estimação. Animeime um pouco e até pensei comigo, que morar aqui não seria tão ruim quanto parecia. Por uns instantes, até tinha esquecido que precisava de moradia, estava ali sem ninguém, sem família, amigos, literalmente sem nada também. O que eu iria fazer? O desespero toma conta de mim, tudo começa girar e, repentinamente, desmaiei. Horas se passaram. Acordo meio assustada e começo a olhar ao meu redor. Tudo era muito diferente, muito colorido, muita informação para minha cabeça. Escuto uma gritaria, assusto-me e levanto, tentando ter alguma noção do local onde me encontro. Caminho por todos os lados, sem perceber que estava em um prédio sem saída. Começo a gritar, temendo que alguma pessoa fosse me ouvir, mas nada. Tentava tocar nelas para chamar sua atenção, mas nenhuma reação ocorria. Sinto uma lágrima caindo dos meus olhos, o desespero volta, a saudade da família aumenta, e só quero entender como fui parar nesse mundo subterrâneo. Ouço uma voz distante e corro rapidamente para o local de onde a voz se propaga. Começo a me sentir feliz, pois a voz era conhecida. Corro, corro, o som se aproxima, meu coração acelera, vou me aproximando e, quando vejo, não passa de um desconhecido que, como todos os outros não conseguiam ouvir minha voz. Tento pensar que isso não passa de um sonho e que logo acordarei no aconchego do meu quarto, com todas as pessoas que eu amo por perto, mas isso é sinceramente é uma ideia tola, nunca sairia dali, estava perdida sozinha, em um local estranho.

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Decido me levantar e continuar a busca por uma janela, ou qualquer coisa que pudesse me auxiliar para sair daquele inferno. Caminho mais um pouco e me deparo com uma escada. Vou me aproximando e vejo uma luz muito forte. Ansiedade bate. Será que conseguirei sair daqui? Aumento a velocidade dos meus passos, mas aquela escada parecia não ter fim, quanto mais descia mais degraus surgiam. Começo a ver porcos por todos os lados, e me pego a gargalhar. Uma voz surge do nada chamando pelo meu nome. Corro mais, até cair num buraco, e acordo em meu quarto, toda suada, chorando e com minha mãe a meu lado, vendo se tudo estava bem. Só a escuto dizendo, fiquei te chamando por horas. A sensação de segurança volta ao meu peito, e penso comigo tudo isso não passou de um sonho. Paula Michelson Vanzin 3º Ano EM

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Quem era você? Depois de acordar neste lugar onde a escuridão era quase total, comecei a apalpar as paredes, no intuito de encontrar alguma brecha ou falha na parede, a única coisa que percebi foi uma parte mais lisa, que julguei ser feita de um material parecido com vidro, e uma grade no teto do local, por onde vinha o ar que respirava. Tentei quebrar o vidro, mas mesmo após várias tentativas o material continuava intacto. O medo que sentia era o mesmo que sentira há alguns anos, mas não lembrava a ocasião, devia ter sido em um sonho. A claustrofobia era o primeiro de muitos obstáculos que tinha que combater. O único ruído que escutava no recinto era o zumbido baixo, mas enlouquecedor, do ar passando pela grade de metal. O silêncio profundo e permanente no local estava causando alucinações em minha mente, ou seria real o som proveniente do meu próprio corpo? Um barulho de fluídos percorrendo minhas artérias, dos meus pulmões se enchendo de ar, o batimento do meu coração soava tão alto, que parecia uma manada de elefantes cruzando a savana africana. O que eu poderia fazer para acabar com isso? Eu não sabia, e o fato de não conseguir responder essa pergunta estava me deixando louco, mas eu tinha de manter minha sanidade, pois, sem ela, eu não duraria um dia neste recinto. Após algumas horas sentado no canto daquela sala, comecei a sentir fome. Não era uma necessidade, mas em questão de uma hora isso começou a afetar o meu modo de pensar. O barulho do meu estômago estava mais alto do que o som dos batimentos do meu coração, os meus gritos altos e gemidos não pareciam comover os que me queriam preso, mas, repentinamente, alguns grãos e pedaços de alguma coisa comestível, que tinha um gosto horrível, começaram a cair pela entrada de ar. Alguém finalmente me escutou, será que eu devia gritar por algo? Se eu gritasse, eles me matariam? Optei pela opção mais segura, ficar quieto. Quase um dia se passou após ter acordado neste local, e uma luz amarelada muito forte foi ligada atrás daquela parede de vidro, após os meus olhos se acostumarem com ela, percebo que todos os cantos da sala foram feitos de um material refletor, fazendo com que a temperatura no local aumentasse muito. A pouca água que ainda restava em meu corpo logo acabaria, pois o meu suor intenso já encharcara o chão em que estava acocado em poucos minutos. A intensidade da luz foi diminuída e um corpo estranho, com um formato que me lembrava um Teletubbies, meteu-se na frente da fonte luminosa e começou a falar palavras em um idioma desconhecido. Meu medo era intenso e, quando a risada típica dos personagens do programa de televisão transmitido pela BBC surgiu, um

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vídeo assustador foi passado na região da barriga daquele corpo. Eu achei estranho, claro, quem não acharia? Depois de o vídeo terminar, o ser desconhecido proclamou mais algumas palavras naquele idioma e, de repente, as paredes daquela sala começaram a se encolher, deixando-me com cada vez menos espaço. Depois dessa cena, recordo-me, apenas, de acordar com um pulo intenso e com o corpo encharcado de suor. Píter Menler Pedro Henrique Angst Lermen 2º Ano EM

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Do campo para o improvável Num dia chuvoso, frio e úmido, Pedro, menino de dez anos, caminhava na estradinha cheia de barro para chegar à escola, questionando-se por que tanto sacrifício, estudar para nada. Era filho de um lavrador que trabalhava de sol a sol para comprar alimento para ele e seus dez irmãos. Já sabia que voltaria para casa e trabalharia até o anoitecer. Ahhh... o que havia de bom era o lanche quentinho das dez, feito por Dona Nena, a cozinheira da escola. Caminhava em silêncio, ouvindo o vento fazer um barulho suave nas árvores. As folhas caíam, e o frio aumentara naquele dia. Andava distraído, devagar, lentamente. De repente, sentiu o chão se abrir sob seus pés e bummmm... caiu num buraco frio e barrento. Meu Deus, não poderia piorar! Com os olhos tapados de barro, ergueu seu rosto, passou braço nos olhos e viu uma luz vermelha a sua frente. No centro dela, havia um buraco com um grande olho vermelho, que falava... Ops, falava não, emitia sons.... Eu não entendia nada. Comecei a gritar, chamar a mamãe Maria, o papai João, Manoooooo! Socorroooooooo! Nada, ninguém me ouvia. O olho continuava a fazer ruídos e a se aproximar. Nesse instante, tentei prestar a atenção, mas o medo me fazia tremer muito. Lembrei-me da Professora Joana, com suas explicações difíceis sobre outros mundos, outras línguas. Que coisa, não me lembrava de nada que ela tinha dito. O olho cada vez mais próximo, dizia: Oiver, covermover vovercever esvertaver? Deus. O que é isso!? Mais perto: Quemver éver vovercever? Ai, o que ele diz? Vai me engolir. Ando de costas até bater no outro lado e poof.... caio no barro, de novo! Quando levanto, olho para o lado, meu Pai do Céu, um olho azul, imenso grita: AIAZU!!!!! Agora sim enlouqueci de vez. Começa outro falatório, uma zueira mesmo: Voazuceazu éazu quemazu? Meus olhos quase saltaram das órbitas.... Parecia que eu poderia entendê-los, mas como? Então tive uma ideia, que tal repetir: Oiver! O olho vermelho logo prestou atenção em mim e ficou com um brilho intenso. E falou: Oiver. Hum, parecia um cumprimento..... Comecei a pensar porque falavam tão estranhamente. As palavras tão longas! Deazu onazudeazu voazuceazu veazuioazu, disse o olho azul. Decidi responder, da mesma forma que ao vermelho: oiver. Ele me encarou e exclamou: QUEAZU? Parecia que eles tinham vocabulários diferentes. Bem, minha situação não iria melhorar se não saísse daquele buraco sujo e lamacento. Esse foi meu primeiro passo. Quando cheguei à superfície, fiquei chocado. Tudo era composto por cores primárias, com muito brilho. E havia olhos de todas as cores pendurados por todos os lados. Era como se o Planeta tivesse recebido um banho de tinta e fosse

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repovoado por olhos ao invés de pessoas. Desmaiei. Quando acordei, estava cercado por retinas e íris vibrantes me observando, como se eu fosse algo extraordinariamente diferente. E falavam todos ao mesmo tempo: Queama examatraamanhoama eamaleama! Decin oncindecin secinracin quecin vemcin? Vamarrmosmarr comarrmemarr-lomarr!!! Pensei em fugir, mas constatando que eram apenas olhos, decidi enfrentá-los. Avancei. Eles recuaram. Ufa! Observei que os dois primeiros olhos com que fiz contato não estavam ali, e que as cores e os dialetos dos que ali estavam eram diferentes dos daqueles. CADA UM DEVE TER UM VOCABULÁRIO PRÓPRIO!!! Genial. Sendo assim, deve haver um padrão. ― Foiciz vocincecin quecin deicinxoucin ocin loopcin acinbercintocin!! Disse o cinza. ― Abamasoamaluamataamamenamateama, foiama eleama, retrucou o amarelo, apontando para o olho preto. ― Opspre, aprechopre quepre apredorpremeprecipre, admitiu o último. Agora entendi, finalmente, Dona Joana servira para algo. Eles se comunicam como na língua do “m”, cada sílaba era separada pela cor do olho. Isso!! Decifrado o segredo, poderia pedir ajuda e eles certamente me levariam para casa. Exclamei para o olho preto: porpre faprevorpre, nãopre soupre daprequipre, nempre seipre copremopre chepregueipre, quepreropre irpre paprerapre capresapre, mepre aprejupredempre!!!!! Nunca se viram olhos tão esbugalhados como aqueles ficaram naquele momento. Entreolharam-se. Estavam muito surpresos. Já entendi como se comunicam, disse. Foi então que o olho azul e o vermelho chegaram. Pareciam estar vigiando o buraco de onde saí, caso mais “um como eu” aparecesse. ― Talvervezver severjaver meverlhorver manverdáver-lover dever volvertaver mesvermo. ― Aazuchoazu queazu voazucêazu temazu raazuzãoazu, oazu queazu aazuchãazu? ― Decin acincorcindocin. ― Simama. ― Conprecorpredopre. ― Vavermosver envertãover. Agora era eu quem não acreditava. Estavam mesmo me ajudando a voltar. Conduziram-me. Aparentemente, eu deveria entrar no buraco e esperar o loop funcionar. Foi o que fiz. Mal podia esperar para contar a maior aventura da minha vida para meus colegas e, de agora em diante, prestar mais atenção na Dona Joana. Em cinco segundo, estava na minha sala de aula. Estranho. Lembrava-me de ter caído em um buraco. Ah! Não

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importa, estou de volta. Ainda um pouco zonzo, ainda os escutava em minha mente: Eleama iráama conamatarama soamabreama nósama. Nãoazu iráazu nãoazu. Estranhei ainda mais. Pedro, acorde!!! Cutucoume Joana, a professora. Não deveria dormir enquanto explico, disse ela. ― Ah professora, perdão. Estava sonhando. Era isso, os olhos transportaram-me dormindo para que eu pensasse que foi um sonho e ninguém acreditasse em mim. Funcionara. Gaël Mladenovíc Odanor Ferreti Tombini Filho 3º Ano EM

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O renascer da Fênix Estava caminhando pela rua ladrilhada, contando cada pedra que pisava. 32, 33, 34, e a contagem parou. Alguma coisa me perseguia, tinha passos rápidos que ecoavam pelos becos ao redor. Chegava cada vez mais próximo, o barulho ficava cada vez mais alto, eu ficava cada vez mais amedrontada. Parou. Acordei. O despertador tocava, e a minha roupa estava úmida suor. Passei o dia pensando no pesadelo e, à noite, passei pelos piores momentos da minha vida. Eu estava no meio do fogo cruzado. Corpos de soldados mortos e ensanguentados estavam aos meus pés, ratos furavam as roupas e devoravam suas entranhas, cartuchos de balas os cercavam. Granadas explodiam. O som ensurdecedor e o impacto me fizeram cair sobre os mortos. Naquele momento, só conseguia pensar em levantar e sair correndo para ver minha filha que estava no fronte de batalha, e foi o que fiz. Rastejei sobre os soldados e sobre o sangue que escorria de seus corpos e, ao me erguer, uma bala atingiu meu peito e caí. Após o sessar fogo, soldados recolhiam os mortos e socorriam os feridos. Levaram-me a um centro médico improvisado. Inúmeros soldados feridos eram atendidos. Era caótico e desesperador. Centenas de homens feridos e à beira da morte gritavam e pediam para Deus por misericórdia e salvação, rezavam por um milagre. O militar à minha direita teve um braço decepado ao ser atingido por uma granada, gritava e gemia de dor, mas iria sobreviver. Quanto a mim, meu estado era muito crítico, meu pulmão foi perfurado pela bala, que ficou alojada em meu coração. Não era possível me salvar. Minha filha estava ao meu lado nos últimos momentos. Estava ferida no ombro e chorando silenciosamente. Ela estava acostumada a ver homens e mulheres caírem ao seu lado todos os dias e sabia que a guerra era assim, um morre para dar chance ao outro sobreviver. Olhava em seus olhos, sabia que era forte e conseguiria sobreviver a essa guerra. Confiava em sua capacidade e coragem para continuar lutando por milhões de pessoas que eram dominadas por um ditador crente na superioridade de um sistema que tirava a vida do povo, que era cruelmente fuzilado ao ir às ruas e protestar contra quem tudo lhes tirava. Meus últimos momentos foram os piores. Não conseguia respirar e a dor em meu peito era insuportável. Meus músculos enrijeciam e formigavam à medida que o sangue parava de circular. Aos poucos, perdia a consciência. Já não entendia o que acontecia ao meu redor, não sentia mais o odor de sangue e corpos se decompondo, não sentia dor nem meu corpo, meus olhos começavam a se fechar, apesar do meu esforço inútil

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em mantê-los abertos. A última imagem que consegui processar foi de minha filha levantando e virando as costas, não para mim, mas para o passado, do qual, a partir daquele momento, eu fazia parte. O presente dava espaço para o passado, a luz para a escuridão, a vida para a morte. Nunca tinha imaginado como seria morrer, pois só pensava em sobreviver. Na guerra, um milésimo de segundo significa a perda ou a resguarda de uma vida. No campo de batalha, é necessário matar para não morrer, pois, em meio ao caos do combate, não há espaço para erros ou hesitação, eles custam a vida e a vitória na guerra. A guerra é um jogo, um só vence quando o outro perde. Eu perdi. Eu não deveria ter levantado. Esse foi meu erro. Fui um alvo certo para o adversário, e ele ganhou. Morrer não é tão ruim como se pensa. É silencioso, tranquilo. Não dói como viver. É escuro, mas existe uma luz, pequena e distante. Uma luz para uma vida nova. A luz, que agora não estava tão distante, ofuscava meus olhos e vinha em minha direção. Eu nascia de novo, mas minha essência não era a mesma. Era pura, livre de qualquer pecado ou lembrança de uma vida passada. Era uma nova fase, uma chance de recomeçar. Eu cresci, formei-me, casei e tive filhos. Todos os anos, no início de novembro, levava-os à casa de meus pais. Meu pai contava aos netos histórias de soldados, de como era lutar na guerra e qual era a sensação de tirar uma vida quando não queriam, porém o faziam, pois eram forçados pelo sistema. A história de que eles mais gostavam era de um soldado mensageiro que estava no fronte levando cartas para os generais. A guerra estava praticamente perdida, quase todos os militares mortos. Ao ver seu amigo morto, desesperou-se, pegou uma metralhadora e atirou contra os adversários ocidentais. Ele e o que sobrou da guarnição foram dominados pelos inimigos. Mais tarde, soube que havia matado uma militar com um tiro no peito, ela tinha uma filha que também era soldado. Ele, que deveria ser somente um mensageiro, tornou-se um assassino. Pelo resto da vida, o arrependimento e a infelicidade tomavam conta de suas emoções, até o nascimento de sua filha, que iluminou sua alma. Ele só não contou que aquelas histórias eram verdadeiras. E não contou que ele era o soldado mensageiro, o assassino. Fênix Roberta Tonett Simioni 2º Ano EM

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Segundo mundo Prontamente, no final da última aula do dia, antes mesmo de o eco do sinal sessar, Mariana já havia passado a porta de saída da sala e estava prestes a ultrapassar o portão da frente. Essa pressa e urgência podem ser explicadas por um motivo: um anel. Não, não era uma futilidade, aquele não era um anel comum. Sua estética exterior era uma pedra nonagenária, bastante grande e deteriorada, não podendo ser considerado bonito. Contudo, não era sua aparência que fazia dele um objeto tão excepcional, incomparável e de extrema essencialidade para Mariana, mas a mágica que acontecia quando o dedo anular esquerdo da pequena moça entrava em contato com o anel em um ambiente escuro e desguarnecido de qualquer outro ser vivo. Há mais de oito anos que ela e essa peça eram inseparáveis, desde quando o encontrou em um passeio pelo bosque perto de sua casa, ele já fazia parte de seu corpo, e apesar de ninguém entender seu fascínio pelo anel, ela sabia muito bem seu valor e a desconexão com o mundo real que ele lhe permitia. Entretanto, certo dia, logo ao acordar, Mariana percebeu que havia chegado um dia muito importante para ela. Como de costume, o café da manhã foi acompanhado por insultos e demonstrações de desgosto de sua madrasta, mas dessa vez não se importou, sabia que estava prestes a acabar. Após a aula, Mariana sabia exatamente onde deveria ir e o que deveria fazer, pois, desde que possuía o anel, vinha se preparando para esse momento, e ele finalmente chegou. Dessa vez, partiria para uma viagem mais longa, perigosa e desafiadora do que aquelas às quais estava acostumada todos os dias, e não havia a possibilidade de voltar, mas é claro, isso tudo ela já sabia, e, mesmo assim, aceitou e não se arrepende de sua escolha. Escolha tal, feita no dia em que encontrou o intrigante anel, fato que mudou completamente sua vida. A partir desse encontro, todas as noites na escuridão de seu quarto, Mariana transita para um lugar completamente diferente de tudo aquilo já imaginado por alguém, um lugar de difícil descrição, denominado segundo mundo, onde o céu e o chão se misturam, as direções não são exatas, sendo de grande facilidade se perder. As cores se fundem por todos os lados, formando novos tons. Criaturas completamente exóticas e bizarras, mas inofensivas, circulam acompanhadas de crianças e adolescentes selecionadas cuidadosamente para estarem ali. Mariana era uma delas e não encontrou o anel por acaso, mas foi direcionada a isso pelos seres anormais que a controlavam. Todas essas crianças têm vidas normais. Contudo, diariamente, são levadas para esse outro mundo, onde são treinadas para uma missão maior. Elas não estão ali obrigadas, todas tiveram o benefício de escolher

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seu destino, mas nenhuma recusou, pois o simples fato de poder voltar àquele lugar intrigante e enigmático, para um jovem, já parecia recompensar. Entretanto, não é uma tarefa nada fácil, o objetivo final é ir para um lugar ainda mais diferente e completamente desconhecido, pois as crianças para lá mandadas não conseguem retornar. Portanto, são escolhidas pessoas ainda na infância, que normalmente sofrem de falta de amor e são abusadas ou agredidas pelas próprias famílias, a quem são entregues anéis feitos no segundo mundo, que, quando estão no mundo real, desbotam e parecem horrendos, para terem uma razão para seguir em frente, algo com o que distrair a mente. Por não saberem o que as espera, as cobaias fazem cursos, e, quando se formam, estão aptas para serem levadas ao próximo mundo. O objetivo do experimento é habitar e desvendar os mistérios de todos os mundos. Acredita-se que existam ainda mais quatro, cujas localizações ainda não são conhecidas. O dia de Mariana havia chegado, e ela estava em uma mistura de alvoroço e medo, ansiedade e preocupação. Sempre que falavam sobre o terceiro mundo, as opiniões eram esperançosas, como se fosse algo ainda melhor que o segundo. Entretanto, ninguém pode afirmar nada, ninguém nunca estivera lá e voltara, mas Mariana e outros cinco adolescentes estavam dispostos a descobrir. Como era sempre o procedimento padrão, cada um foi para uma sala escura e silenciosa sozinho para poder fazer a passagem, desta vez para o incógnito. Quando chegaram, logo perceberam que aquilo não era nada bom. Havia fogo por todo o lado, sombras negras que se moviam incansavelmente, monstros nem um pouco parecidos com os do segundo mundo e muitos cadáveres de jovens como eles. Esse lugar poderia ser comparado ao que normalmente é associado ao inferno? Não, era muito pior. Instantaneamente, tentaram ativar o anel para retornar, mas sua magia fora cortada. Tentaram correr, mas não havia para onde, Mariana e os outros cinco não sobreviveram muito mais tempo para ver o que mais havia ali, logo foram atacados por seres surreais. Em seus últimos momentos, enquanto sentia uma sensação repugnante de dentes como pregos perfurarem sua perna, refletiu sobre sua curta vida, e percebeu que não culpava ninguém por estar ali. Era apenas grata por ter vivido tal experiência e lamentava não poder alertar ninguém sobre o que passara, pois, infelizmente, eles não foram os primeiros, nem seriam os últimos a passar por isso. Não sentia remorso por estar morrendo, faria tudo de novo. Annalise Suzana Merigo 2º Ano EM

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Ilustração: Vinicius Romancini Conto: Hana no Jigoku

BAÚ DOS SONHOS – CONTOS SURREAIS - NÍVEL III (Alunos do 1º Ano do Ensino Médio e 9º Ano do Ensino Fundamental)

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Hana no Jigoku Por do sol... Quase tudo pronto. Só mais alguns arranjos de gardênias e talvez um ou dois de jasmim, e tudo estará na mais perfeita ordem. Meu quarto, que outrora estava ordinário e costumeiro - quando não enfadonho - agora esbanjava texturas e aromas encantadores, que fascinavam por sua variedade de cores e pela inconfundível presença de vida. “Minha obra prima”, falei para mim mesmo, e as flores dissipavam seu perfume, como em resposta. Fecho as janelas e tranco a porta, lacrando com elas o meu destino. Que ironia, um lugar tão ativo e fervoroso vir a ser o marco do fim de minha vida. Mas, uma vez que as saídas são bloqueadas e o ciclo noturno das flores começa, todo o cômodo se transforma, e o que era inofensivo e belo de dia, torna-se insalubre e tóxico ao cair da noite. Caminhei até a cama com a suavidade de quem vê o fim claramente e não o teme, mas o convida a entrar. Respirei profundamente enquanto me deitava, deixando que a adocicada fragrância inundasse meus pulmões e me deixasse tonto. Sorri enquanto a vertigem me vencia, finalmente estaria liberto. Despertei com a aprazível incidência de luz solar aquecendo minha pele, abri os olhos pesarosamente, apenas para admirar-me com o recanto mais extasiante e impensável que eu jamais vira. Tudo era envolto por cores e formas, o campo era aberto e parecia se estender pelo infinito, repleto de espécies de flores curiosamente novas e incrivelmente cintilantes aflorando. Videiras das mais variadas cores subiam tão alto que ultrapassavam as nuvens, tornando o céu azulado uma grande paleta. Não sabia onde estava, nem por que estava ali e não recordava quem eu era. Levantei-me, carregando o peso de todas essas questões, com o intuito de averiguar o espaço. Imediatamente, a figura de uma árvore de estrutura peculiar entrou em meu campo de visão. A aparência centenária e as raízes salientes para fora do solo acentuavam um caráter sábio, como se entre seus densos galhos recobertos de folhagem jazessem todas as respostas. Hipnotizado por tal semblante, avancei em direção a ela e estiquei minha mão para senti-la. Imediatamente, em resposta ao meu toque, milhares de flores - pequenos pontos brancos como estrelas - brotaram pelo tronco. Ainda conduzido pelo transe, arranquei uma e a trouxe a meu encontro, para que pudesse identificar seu cheiro. Era sutil e discreto, mas incrivelmente doce. Enquanto eu admirava o novo perfume,

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algo extraordinário aconteceu. A diminuta flor acendeu, e sussurrou-me uma memória. Tudo voltou instantaneamente. Eu sabia quem era e por que estava ali. “Estou alucinando”, pensei, “morrerei em um magnífico lugar criado pela minha mente”. Fui tomado pelo êxtase, todo meu corpo formigava e meus batimentos cardíacos estavam acelerados. Quando fiz menção de me mover, todas as flores piscaram em tom púrpura. Levantei lentamente a flor que ainda segurava em minhas mãos. Ela sussurrou mais uma vez: “ainda não acabei”. E as lembranças vieram como um filme. Eu estava preparado para rever toda minha vida. Afinal, não é isso que acontece quando estamos morrendo? Mas algo estava errado, nada do que ela me mostrava havia, de fato, acontecido. Ela estava retratando o futuro, se minhas ações tivessem sido diferentes. Minha vida parecia muito mais prazerosa nos sussurros da pequena flor. O choque deu lugar à inveja. Agora eu podia ver com clareza tudo que eu teria se tivesse escolhido a vida. E as flores riam de meu infortúnio. Havia apenas uma certeza naquele momento, eu precisava acordar. Fechei os olhos com força e visualizei meu quarto, concentrei-me nas fragrâncias especialmente selecionadas, pensei em cada detalhe bem planejado, cada arranjo florido devidamente posicionado. Mas as risadas continuavam, tão suaves quanto o vento. Quando abri os olhos, as cores agrediram minha visão, estavam mais intensas e reluzentes. Tentei correr, mas a cada passo que dava, pisava em algum broto, que se desfazia e soltava um odor pungente. Não demorou muito para que o recanto inteiro fosse tomado pelo cheiro nauseante. Cai sobre meus joelhos. As risadas ecoavam na minha cabeça, fazendo latejar. Eu implorei para cessarem, e abruptamente o fizeram. Agora não mais riam, apenas repetiam uma única palavra. “Covarde”. Naquele momento, eu soube que não estava sonhando. Dante estava errado quando disse que o inferno era feito de gelo, tanto quanto a igreja quando disse o oposto. O inferno era florido. Luana Cristina da Costa Consoli 1º Ano EM

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À sombra de mim Os cabelos desbotados de Laila seguiam a melodia do vento, enquanto ela, ao compasso da música que ensurdecia seus ouvidos, caminhava para casa. Era fim de tarde, e a jovem desfrutava o farfalhar das folhas secas que anunciavam o outono. O sol se acanhava por trás dos prédios que agora se tornavam apenas silhuetas negras. Perdida em seus devaneios, imaginava como a vida seria se não existisse. Talvez seus pais estivessem em uma casa maior e com filhos melhores, talvez seus conhecidos fossem mais felizes se não tivessem que se preocupar com ela, talvez ela estivesse em algum lugar melhor. Afinal, sua existência era completamente desprezível e, como todos que existem, um dia também seria esquecida. Caminhava sobre uma viela de paralelepípedos quando percebeu que não estava completamente sozinha. Algo a deixava atônita e perdida na atmosfera local. Removeu seus fones de ouvido quando acreditou que alguém havia sussurrado seu nome. Uma brisa congelou seu corpo e, por um instante, convenceu-se de que sua sombra a havia chamado com um breve aceno. Relevou o fato com a desculpa de que estava sonolenta e seguiu seu caminho, determinada a tomar uma atitude que iria, finalmente, libertar todos aqueles ao seu redor do problema que representava. Alguns passos à frente, alcançou o almejado viaduto. A pequena suicida aceitava a presença da Morte em sua vida como a chuva é aceita em um dia de verão. Laila dava seus últimos passos e suspiros sobre aquela passarela, inspirou o gélido ar e, finalmente, apoiou a mão em uma viga, quando -subitamente- algo agarrou seu pulso, impedindo-a de subir na barra de proteção. Recuou, olhou ao seu redor e, quando percebeu o que a havia bloqueado, recusou-se a acreditar. Sua sombra a havia impedido de pular, e, agora, aparentava chamá-la, como se quisesse ser seguida. Não admitindo o que seus olhos lhe mostravam, aceitou o insólito pedido. Laila permitiu-se acreditar que, por mais contraditório que fosse, ela estava de fato invertendo sua função, ela se tornara uma sombra. Tentando passar despercebida pelos transeuntes, foi guiada para dentro de uma loja que nunca antes havia sido notada e, como de se esperar, a jovem a seguiu. A venda era atulhada de antiqualhas e pratarias, muitos dos objetos apresentavam uma fina camada de poeira, justificada pelo tempo que ninguém adentrava aquele recinto. Mesmo que contrariando seus instintos, continuou a explorar o armazém. Mal iluminado e nauseabundo. Seria como Laila o descreveria se não estivesse preocupada em procurar a própria sombra no meio das

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quinquilharias. Tateava alguns móveis que estavam na altura de suas mãos buscando o desconhecido até que foi empurrada ao encontro de um quadro e inexplicavelmente, a jovem atravessou como um portal. Ficou desorientada por alguns instantes e, ao organizar os pensamentos, percebeu que continuava entre as quinquilharias, mas, agora, as poucas cores que conseguia antes distinguir haviam se esvaído junto com a pintura que atravessara. Buscou a porta de saída. Em poucos passos, encontrou-a, mas, quando passou, o mundo não era o mesmo. Laila encontrou-se pela primeira vez em um plano bidimensional, onde tudo estava em constante movimento, onde tudo era a silhueta do mundo em que um dia vivera, onde tudo não se passava de uma infinita palheta cinza. Tentava perdidamente localizar-se, quando viu uma sombra se aproximar, pela primeira vez em muito tempo, não sentiu a necessidade de recuar. Como tudo ali, acabou descobrindo que também estava presa desde o momento em que pulou do viaduto. Enclausurada pela eternidade, condenada a ser apenas um indício de existência, sem valor ou reconhecimento. A sombra desconhecida continuava a explicar para Laila que estava ali porque um dia idealizara um mundo sem ela e que agora teria a oportunidade de entender como é o mundo com sua ausência. O sol aparecia e, junto a ele, as sombras retornavam a seus donos, eternos espelhos que expunham o lado negro de cada um. Uma garota que, a cada instante, aprendia a viver escondida nas sombras, agraciando o mundo com a sua falta. Assim ficou Laila, perdida eternamente em seu pesadelo monocromático. Laila Cássia Cuchi Bordignon 1º Ano EM

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Seria? Abro os olhos e olho para o lado. O despertador não está soando como de costume. O visor mostra que são nove da manhã. Desesperada por estar atrasada para o trabalho, levanto da cama em um pulo e me dirijo ao guarda-roupa. Ainda com a roupa com que, sem sucesso, tentara cozinhar ontem à noite, visto a primeira coisa que encontro, uma blusa preta, e coloco um cardigã bordô por cima. Tomo a maleta em que carrego meus livros e laptop e desço as escadas correndo. Já no saguão de entrada, subo em minha bicicleta e saio para a rua. Imediatamente, percebo que a rua está diferente. Ao contrário de como sempre estivera, ela está limpa. Viro para o lado para pedir o que houve a meu conhecido, Jason, um mendigo que sempre estava sentado nos degraus da casa vizinha. Não o encontro, e continuo pedalando. Nas quadras seguintes, percebo que todas as ruas estão limpas, e que não há mendigo algum, o que não é comum para os padrões da Filadélfia. O modelo se segue até eu chegar no edifício Boulevard, local onde se localiza a empresa de cybersegurança em que trabalho. Enquanto estaciono minha bicicleta, vejo um ou dois casais homossexuais andando de mãos dadas - e não há ninguém encarando, o que é outra coisa rara de acontecer em um dia movimentado como hoje. Entro no prédio correndo e impeço que as portas de um dos elevadores se fechem, e, esperando que alguém me praguejasse, sou recebida com um aconchegante sorriso de uma senhora vestindo um suéter de caveiras e com o aperto de mãos de um homem de meia idade, que usava um sobretudo magenta. “Está tudo estranho”, penso comigo. Pressiono o botão do 27º andar e observo o homem desembarcar calmamente no quarto andar, acenando para nós duas. No 19º, a senhora desce, despedindo-se de mim. Ela vai ao encontro de uma mulher alta e robusta que assemelha ter uns 50 e poucos anos. As duas se abraçam, e as portas se fecham. Alguns segundos depois, chego ao meu destino. Vou até o escritório de meu chefe, um homem de meia idade, careca e voluptuoso. Bato à porta e escuto um “entre”. “Sr. Clarke”, digo. “Sinto muito pelo meu atraso! Não sei o que houve, mas o despertador não tocou. Estava muito cansada, pois ontem à noite trabalhei até tarde, então não consegui...”. Sou interrompida pelo homem. “Não, Alicia. Você não trabalhou até tarde”, ele me responde, fitando-me sem parar. Sinto que estou corando. “Mas não me importo. Não há problema algum”, ele diz, esboçando um pequeno sorriso e entregando-me uma pilha de pastas. “Agora, vá à sua cabine e termine o

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que havia começado ontem. A We-Corp quer o sistema de segurança restaurado até o meio-dia”. “Está bem! Muito obrigada”, digo, dirigindome à porta com a pilha de pastas em mãos. Definitivamente algo está errado. Nunca havia visto aquele ríspido e sério homem sorrir para seus funcionários, e muito menos agir com condescendência quando eles chegam duas horas atrasados. Fecho a porta e caminho até a minha cabine. Largo as pastas sobre minha mesa e vou ao banheiro dos funcionários. Tranco a porta e me olho no espelho, esperando encontrar algo de errado comigo, mas tudo está como sempre está quando não me maquio – olhos com olheiras profundas e escuras e pontinhos vermelhos espalhados aleatoriamente pelo meu rosto – e meu cabelo mais desgrenhado do que o comum. Saio do banheiro e sento em minha cadeira. Ligo meu computador e tento entender o que diabos acontecera, mas não encontro nada. Pesquiso pelo movimento que luta pela igualdade racial do qual sou membra, Black Lives Matter. Não encontro nada. Aparentemente, não há mais necessidade de haver um movimento assim. Levanto-me e vou até a cabine ao lado, esperando encontrar meu colega, Andrew. O que encontro é algo que esperava encontrar algum dia – daqui cinco ou seis meses, talvez –, mas não agora, e não aqui. Deparome com uma alta, loira e linda mulher. Em sua mesa, há uma plaquinha escrito “Andrea”. E ninguém se importa: todo mundo trabalhando como de costume. O rabugento Sr. Clarke, há algumas semanas, havia dito para Andrew que, quando ele realizasse a cirurgia, não teria mais um trabalho. Mas Andrew – agora Andrea – estava ali. Sorrateira e cautelosamente, saio do escritório e entro no elevador. Olho para os lados, e reparo algo que não reparara antes – todo ele é adaptado para deficientes físicos. Desço três andares abaixo e, esperando encontrar o banco que sempre está ali, em que sempre há mulheres com crianças de colo, chorando e implorando por condições e prazos mais misericordiosos. Mas tudo o que encontro é um centro de reintegração social para ex-presidiários. Desço até o térreo e acesso minha conta bancária pelo caixa eletrônico. Vejo que, hoje, recebi meu salário – cujo valor é igual ao dos homens da empresa. Atônita, saio para a rua. Seria um sonho? Um mundo sem poluição? Sem mendigos, desigualdade ou discriminação? Não sei. Mas esse era o mundo em que eu, uma mulher negra, pobre e homossexual na América, gostaria de viver. Nicholas Florrick João Pedro Fripp dos Santos 1º Ano EM

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Triste fim Naquela noite, estava programado para ser tudo diferente. O toque suave, e ao mesmo tempo arrepiante, dela subia pela minha espinha, encontrando meus cabelos, que já nem pareciam mais estar na cabeça. Como eu queria aquele sentimento de novo. Ela era a mulher mais linda que eu já vislumbrara até hoje. Seus olhos eram rosa como uma flor de amor perfeito. Seu corpo era estrategicamente moldado para me satisfazer. Ela não trazia defeitos a não ser o fato de ser transparente e deixar à mostra todos os seus órgãos, o que não me atrapalhava tanto, mas me chamava a atenção. Ela tinha várias profissões. Quando não estava ao meu lado na cama, era doutora, pintora, militar, faxineira e tudo que eu quisesse. Acompanhava-me e me guiava para todos os lados, fazia o que eu queria. Na nossa relação, não havia espaço para desentendimento, mas, naquela noite, ela não veio. Esperei por horas, que passavam tão lentamente que mais pareciam anos. Conversava com o relógio, que afirmava que ela me havia esquecido. Eu só não queria acreditar em nada disso. Em meio as minhas lágrimas, peguei no sono. O sol do outono chegou e com ele, a trágica notícia que eu não esperava. A bela moça dos órgãos à mostra faleceu, deixando-me a dúvida do que sentia. Não houve velório, pelo menos eu não recebi qualquer notícia, eu nem sequer conhecia sua família. Passei o dia mais infernal da minha vida. Não saí de minha cama, imaginando sua presença e sentindo seu cheiro de amora. Não fui ao refeitório e muito menos tomei meus remédios na enfermaria. Com o tempo, acostumei-me com sua ausência, mas sentia que algo me acompanhava, talvez ela, só que em outra sintonia. Ao dormir, nas noites frias, um calor vinha ao meu encontro, porém não era algo saudável que me dava prazer, mas um calor horrendo, que queimava minha alma e destruía meus puros sentimentos. Procurava auxílio, contudo só encontrava julgamentos a respeito dela. Não entendia o porquê de não poder ser diferente. Depois de dois anos guardando esse receio para mim e convivendo com homens que não faziam questão de minha presença, resolvi procurar um novo amor, que me satisfizesse do mesmo modo que aquela doce mulher, cujo nome me envergonho até hoje por não recordar. Não achei, e creio que não vou encontrar ninguém como ela. Estou condenado a viver sozinho para sempre. Hoje, chegando à minha cela, onde nem lembrava que estava, notei que alguém me encarava seriamente. Todavia, no fundo, parecia apenas uma reação de pena e tristeza. Procurando uma resposta a tudo isso,

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aproximei-me e tentei resolver a situação. Não acreditei no que ouvi. Como seria possível a minha hora de morrer estar chegando? Eu nem sequer tive tempo de me defender. Em um piscar de olhos, sem saber ao certo o que estava acontecendo, alguma coisa me puxou pelos braços e algemou minhas mãos. Acompanhei o cidadão, que mais parecia um animal, com aquelas suas duas cabeças cor de sapo, até uma humilde sala toda espelhada. Nela havia uma cadeira simples, de madeira, do tamanho certo para mim. Sentando lá, a única impressão que tive, sem entender muito o que estava ocorrendo era de que não sairia dali tão cedo. Eu não tinha muita noção de tempo, mas algo me mostrava que alguns minutos se passaram. As luzes apagaram. Na escuridão, a única coisa que via era algo verde piscando em minha cadeira, uma luz tão fraca tanto quanto um celular prestes a ficar sem bateria. Nesse momento, sim, o medo veio a meu encontro. De longe, só havia alguns ruídos e sussurros, porém não conseguia decifrá-los. Repentinamente algo me veio à mente. Ela. Sem pensar muito a respeito, ouvi sobre mim, silenciei-me para ter certeza do que escutava. E no fim, tudo fazia sentido. Vi-me completamente preso a cadeira, quando senti um peso em minhas pernas. Ela estava sobre mim, sem falar uma palavra, não sei como voltara. Tentei pedir o porquê de não ter ido aquela noite ou de ter sumido todo esse tempo, mas minha boca não conseguia pronunciar palavra alguma. Torcera fielmente até hoje para reencontrá-la. Aquele dia, frio como a neve e ao mesmo tempo em minha alma quente como a lava do inferno, marcou minha história. Sem ressentimento e abismado com o que estava acontecendo morri em uma cadeira elétrica, junto com minha amada, que nada mais era do que fruto da fértil e pervertida imaginação de um presidiário. Alexandre Martins Carvalho 1º Ano EM

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Antes da morte Judas era um jovem de 15 anos, muito estudioso, que pertencia a uma família de classe média. Levava uma vida normal, até que, em um dia como qualquer outro, ao retornar para casa depois de uma aula muito cansativa, cumprimentando todas as mesmas pessoas que cumprimentara nos dias passados e caminhando com passos largos e de cabeça baixa como sempre, perdeu-se em seus pensamentos. Enquanto atravessava a rua, deparou-se com um carro vindo rapidamente em sua direção. Judas não conseguiu desviar e acabou colidindo contra o carro. Ele é lançado para longe e entra em coma. De repente, acorda em uma sala de espera muito estranha, onde há muitas pessoas, que, como ele, estavam desesperadas. Outras, porém estavam calmas, sentadas em poltronas de vidro que refletiam a sala branca com paredes reluzentes. Judas se senta ao lado de um velho que parecia estar entendendo tudo que estava acontecendo. Ele fala que, diferente de todas as outras pessoas que estavam ali tentando prolongar suas vidas, ele apenas queria pedir para que a morte o levasse, pois não aguentava mais ficar em estado catatônico, sem poder se mexer nem falar. Após o velho lhe explicar tudo que estava acontecendo, Judas pensa que fora internado em um hospício, porém, ao abrir a porta da saída, vê um quarto de hospital onde sua mãe estava chorando e seu pai estava tentando acalma-la, ele não entende como a porta da saída dava direto a um quarto de internação, mas vai conversar com seus pais. Ele começa a falar que estava tudo bem, quando percebe que seus pais ainda não o haviam reparado. Sua mãe passa por ele e se deita ao lado de uma cama, onde havia um jovem igual a ele, em coma e cheio de ferimentos. Judas vira para trás e percebe que está de volta na sala de espera onde havia todas aquelas pessoas e o velho com quem havia falado. Quando ouve seu nome sendo pronunciado pelos autofalantes ele se ergue e vai para uma sala de consulta. Ao entrar, a sala estava totalmente escura. Então ele procura o disjuntor com os dedos e liga a luz. Um grande clarão o ofusca e ele reconhece sua sala de casa, com seu pai, sua mãe, seu irmão mais velho e um outro garotinho, que era o centro das atenções de toda a família, que estava ao redor da mesa de jantar comendo e sorrindo. Um som estranho sai de trás dele, mas, com medo de se virar e voltar para a sala de espera novamente, ele apenas ouve uma voz grossa falando que tudo ficaria bem, mesmo sem ele. Judas fica sem reação e pensa na possibilidade de tudo que o velho havia lhe falado ser verdade. Tenso com o que poderia acontecer, sente um grande peso em sua cabeça e cai no chão desorientado. Ele acorda sentado em uma daquelas cadeiras da

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sala de espera estranha e ao seu lado novamente, estava o velho. Enfermeiras começam a atravessar a sala de espera, o velho olha para Judas e pergunta se ele não iria ver o que era. Judas já não sabia mais o que estava acontecendo e segue as enfermeiras até o quarto onde seu outro eu estava tendo alguma espécie de convulsão. Quando estava no quarto vendo a movimentação dos médicos e dos enfermeiros, ele ouve novamente a voz grossa falando que sua hora havia chegado. Então percebe no monitor cardíaco que os batimentos estavam começando a parar, e fica inconformado, soltando um grito de raiva e se virando para trás, para ver quem que estava falando com ele. Nisso, ele acorda em sua carteira na sala de aula, com todos colegas e seu professor o olhando com caras confusas. No final da aula, Judas vai embora, porém, olha atento aos dois lados antes de atravessar a rua e vê o mesmo carro que o havia atropelado em seu sonho passando rapidamente. Ao passar pelo hospital, vê pela janela um quarto onde havia o velho com quem tinha falado no sonho, morto, e seus familiares chorando sem parar ao seu redor. Ao voltar para casa, sua mãe, muito emocionada, lhe fala que está grávida e ele, muito confuso, corre para seu quarto e ouve a mesma voz de seu sonho, que lhe falava: - Sua hora ainda não chegou, aproveite mais sua vida. Machado de Plástico Allan Hermes Basso 9º Ano

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O incrível mundo de Zena Há muito tempo, em um mundo paralelo, nasceu uma criatura chamada Zena. Representava ser inofensiva para que pudesse enganar suas vítimas. Sua função era nada menos que criar o medo, levar ao trauma e se possível até ao suicídio. Tinha o dom a telepatia podendo ler os desejos mais obscuros da mente, por isso assumia a forma daquilo que suas vítimas mais detestavam. Aparecia para pessoas que sentiam muita raiva e ódio em seu coração, para poder sugar toda a energia e levandoas até seu mundo, que se localizava em outra dimensão. Lizie, uma garota que estava melancólica, pois havia passado por episódios tristes na vida, foi capturada e levada ao mundo de Zena. Ela surgiu em uma porta enorme feita de cabeças humanas decepadas. Todas falavam, e era inexplicavelmente belo, de certa forma, ver aquela diversidade de nacionalidades. Parecia ser um quadro vivo. As cabeças todas gritavam e, em meio aos gritos estridentes, elas se juntavam lentamente, abrindo espaço entre aquela falsa porta. A garota entrou no quadro, com cores fortes, que a levou para outra paisagem. Deu dois passos, e o chão começou a desaparecer. Ela tentou fugir, mas notou que era inútil. Então jogou-se do penhasco, sentindo um frio na barriga, lembrando-se de seu primeiro beijo. Insegurança. Sentiu o toque do ar em seus cabelos, provou do vento e seus cheiros, exóticos, vindos de longe, lembrou de quando passeara de balão com seus pais pela Turquia. Sentiu o prazer da aventura e o gosto do medo pelo inexplicável, que estava cada vez mais amargo. Ainda assim, algo dentro dela dizia para ter coragem e não se entregar. Sentiu que o penhasco havia virado de cabeça para baixo como em algum daqueles sonhos em que se acorda assustada e com respiração ofegante, com rancor de estar sendo levada para um túnel, sem controle. Aquilo a perturbava, sentia pavor do que estava por vir. Sem pensar duas vezes, entrou no que mais parecia um escorregador feito de polvos, cheirava a peixe, com um gosto azedo. Aquilo era um tanto quanto nojento afinal Lizie detestava animais marinhos, desde a infância. O escorregador terminou em uma casa cujas paredes eram estampadas com pele de girafa. Tudo era amarelo com pintas desproporcionais de cor marrom, e aquilo captava sua atenção. Seus olhos clamavam por socorro, principalmente, ao notar que a casa tinha pernas e um grande pescoço alongado no lugar da chaminé. Aquela casa tinha vida e, imediatamente, levantou-se e começou a andar. Lizie sentia sua energia sendo sugada e, cada vez mais, sentia medo. O futuro era imprevisível.

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Ela sentiu algo a sugando. Então notou que a casa se abria em meio a rachaduras, que davam espaço a uma luz muito forte e branca. Sentiu o aroma da morte se aproximando. Tentou se segurar, pois sua intuição alertava que aquilo era perigoso. A luz arrancou-a da casa. Ela caia novamente, porém a queda era horizontal. A menina já estava se sentindo louca, amedrontada com o que estaria por vir no final daquela queda. Naquele momento, ela só desejava que aquilo tivesse fim e que pudesse acordar e ver a realidade triste e chata a que estava acostumada, porém não sabia como sair. A queda a levou para um mundo de duendes, que a observavam. Ela associou a cena a algo da infância, parecia ser uma enorme casinha de bonecas que, dessa vez, era feita de penas. Era relaxante se lembrar de brincadeiras e momentos felizes, sem qualquer responsabilidade. A construção era inanimada, porém, ao olhar pela janela, notou que onde deveria estar o céu em sua dimensão estava o mar e, em volta da casa, havia lava. Com medo e exausta, sua coragem a havia abandonado. Jogou-se na lava que a levou para um buraco negro onde ficou presa. Lizie nunca mais voltou para sua dimensão e morreu. Zena então percebeu que não era uma criatura, era apenas um ser esquizofrênico que criava personagens como Lizie e outros em sua mente, para fugir da triste realidade de estar preso em um hospício por vinte e cinco anos, quatro meses e vinte e oito dias. Hayden Harven Ana Carolina de Oliveira Korb 1º Ano EM

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Ghosts of US Eu me vi correndo por corredores vermelhos, o cheiro de madeira velha não me deixava encher os pulmões e retomar meu folego, sem falar de meus cabelos castanhos caindo o tempo todo sobre meu rosto, que dificultavam ainda mais qualquer movimento afobado. Meu físico também não era bom, minhas pernas não tinham mais músculos e eu tenho certeza que isso vai acontecer em alguns dias porque eu não como direito já tem algum tempo, só não lembro o motivo. Eu corri vários quilômetros na esperança de que o corredor acabasse, e por mais que continuasse virando a esquerda, depois direita a cada mais ou menos 500 metros, eu nunca chegava à um fim. Até que eu finalmente cai. De joelhos, no carpete bege. Ai então os corredores acabaram por algum motivo, e o silêncio, que antes era incrivelmente irritante, foi quebrado pela minha própria voz, mais especificamente, meus gritos. Ergui a cabeça para procurar de onde vinha e me deparei com um espelho, ou quase isso. Eu estava sentada na cama, uma cama nova, em um lugar que parecia ser um chalé por conta do telhado. Usava meias de gatinho, um short de pijama e um grande camisetão. Meu cabelo estava horrível e eu tinha olheiras, eu estava acabada por algum motivo, que precisava descobrir. Me sentei no chão e esperei por algo acontecer. Do outro lado do espelho eu chorava, como nunca me vi chorando antes. O mais incrível é que eu não podia sentir mais nada agora, meus joelhos sangravam mas eu estava por completo amortecida à ponto de nem ao menos me preocupar. O telefone tocou várias vezes, e fiquei me perguntando porque Noah ­ meu namorado ­ ainda não havia atendido, sendo que ele sempre o fazia. Pensei em tocar o espelho, gritar ou sei lá, mas por algum motivo eu não fiz, e após horas me olhando, adormeci. Quando acordei estava no lugar da garota do espelho. Um arrepio percorreu meu corpo e pensei ter alguém no quarto, mas ele estava vazio até mesmo de mobília, à não ser por uma cadeira com algumas roupas, a cama, um calendário e uma mesa com o telefone que mais cedo tinha tocado. O dia estava amanhecendo, mas eu não sentia o cheiro do bolo que Noah fazia, talvez não fosse quinta, rezei para que não fosse. Sai pela porta e cheguei em um corredor. Era a casa que olhamos fazia quase um mês e decidimos que iriamos comprar. ­ Hanna. ­ a voz de Noah ecoou em meu ouvido. Me virei procurando pelo garoto bronzeado de cabelos loiros mas só me deparei com a parede de madeira. Tentei lembrar onde ele poderia estar e após um apagão voltei para o corredor vermelho, em frente ao espelho. O loiro que eu

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procurava estava do outro lado me olhando fixamente com os olhos azuis marejados. ­ O que ta acontecendo? ­ perguntei em um sussurro, já que, sem saber o porque, eu chorava. Minha mão tocou o espelho assim como a dele, e então nossos dedos se cruzaram. Sua mão era gelada e me fez estremecer. Não tem como ser real. ­ Não coloque os dedos nos pulsos ­ pediu calmo e então após olhar pra trás aflito, continuou. ­ Ainda não está na hora. Ouvi um estouro e ele começou a chorar, então sua mão soltou a minha e aos poucos ele foi desaparecendo. A luz do outro lado se apagou e eu senti uma dor que não conhecia ainda. Ele se foi. Me levantei e tentei desesperadamente sair dali, eu precisava acordar. Não sei quanto andei ou quantas vezes eu ouvi vozes me chamando, mas eu sei que tudo acabou quando achei uma porta. Coloquei os dedos sobre o pulso e depois no pescoço mas não senti nada. Abri a porta e vi o calendário que marcava quinta-feira, 2 de setembro. Havia um casal no quarto e não éramos nós. Mas a resposta que eu quero saber não é exatamente quem eles são. A pergunta é se eu e Noah ainda somos alguém, ou se tudo que sobrou são apenas fantasmas de nós. Ana Laura Kammler 9º Ano

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A lembrança de Lizzy Todo mundo estava com roupas pomposas e refinadas nessa festa, todos estavam felizes, mas com um ar de arrogância e superioridade. Parecia que, de repente, eu tinha voltado no tempo, para uma época distante, antiga, com uma elegância diferenciada. Todas as mulheres eram macérrimas e estavam com vestidos e chapéus enormes, de várias cores diferentes e suas roupas tinham tantos detalhes, que faziam elas parecerem princesas. Ao mesmo tempo, essas moças tinham uma classe absurda, com uma conduta impecável. Já os homens estavam com praticamente o mesmo terno. Eu podia estar totalmente enganada quanto a isso, mas pelo menos, os paletós eram todos iguais, assim como os chapéus que me remetiam a uma cartola de mágico. O cheiro estava surpreendente, era de canela. Enquanto estava a apreciar esse perfume distinto, fui interrompida por um olhar tenso que me acompanhava conforme eu andava nesse salão imenso, e de repente um homem me interrompeu: - Diga-me qual é o seu nome? E por que a senhorita está aqui? - Meu nome é Elizabeth, mas você pode me chamar de Lizzy. Aliás, não sou tão ingênua quanto o senhor pensa para eu falar quais são minhas intenções. Com todo o respeito, você é um total estranho para mim. - Bom, Lizzy, para começar, você me contou o seu nome, e não me disse o que está fazendo na minha festa, e isso é um tanto quanto hipócrita não é mesmo? Então não vou ficar aqui ouvindo suas idiossincrasias. Depois que ele falou isso, comecei a ficar confusa, aonde eu estava? E por que estou aqui? - Por favor se retire. – Ele falou, fiquei paralisada em sua frente sem saber o que fazer. Não lembrava de como eu tinha chegado ali. - Por favor se retire! – Agora sua voz estava em um tom mais alto. Simultaneamente, uma mulher olhou para nós e veio em nossa direção. Ela estava com um vestido amarelo, assim como seu chapéu. - Mrs Klaus, se o senhor me permite eu posso cuidar dessa criança e acompanhá-la até a porta. – Ela tinha um olhar doce, uma voz baixa, porém conseguia passar uma expressão autoritária. - Claro, Miss Woodville, obrigada. – Depois disso, aquele homem se foi. - Olá. Meu nome é Carol Woodville! Qual é o seu nome ruivinha? - Sou Lizzy, e por favor não me chame assim não sou nenhuma criança para me tratarem como se eu fosse uma, já tenho 11 anos. - Então, Lizzy, a senhorita precisa ir agora, se Victor te vir novamente você vai se meter em problemas. Aonde estão seus pais?

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Quando essas palavras saíram de sua boca com sua voz suave, comecei a desesperar. Cadê a minha mãe? – Eu não sei onde minha mãe está. Meus pais são divorciados, e vivo só com minha mãe. - De qualquer forma, tenho que tirá-la daqui. - Não! Por favor, não faça isso. Não sei para onde devo ir. Pensando bem, eu lembro que a última vez em que estive com a minha mãe estávamos indo a um almoço que o chefe dela fez para nós. Ele queria me conhecer. Quando virei para o lado, vi a imagem de um homem velho, era Victor Klaus. - Miss Woodville, essa menina já deveria estar do lado de fora deste salão, o que ela ainda faz aqui? – ele perguntou Quando já estava um pouco tonta e nervosa, ficou tudo muito estranho. A música tinha parado e todos me encaravam. As luzes estavam piscando, até que começaram queimar. Tudo o que parecia ser colorido estava escuro, e as pessoas estavam chegando cada vez mais perto de mim. - Deixem-me em paz! Por favor, não façam nada comigo. – Quanto mais eu gritava mais bravos eles ficavam, até que começaram a me empurrar e eu, simplesmente, desabei até o chão. Eu não estava conseguido me mexer. - Não! Parem! Eu não consigo respirar. Por favor! – Comecei a gritar até que apaguei, tudo ficou preto. Não havia mais gritos e pessoas ao meu redor. - Lizzy acorde. – Eu conhecia essa voz quando abri o olho, estava tudo normal. - Mãe! Oi eu tive um pesadelo horrível. - Está bem querida, mas agora eu quero que você conheça meu chefe. Olhei para o lado e minha mãe falou: - Victor Klaus. Ana Vitoria Vinter 9º Ano

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Casa 620 Já era tarde da noite quando fui dormir. Meus pais haviam brigado, e minha irmã mais velha, Keila, fugido de casa. O problema era o lugar para onde fora: Rua Coronel Figoto 620 F Para quem não conhece Organland, é apenas mais um endereço, onde provavelmente mora uma pessoa normal, com emprego, família e amigos. Logo que descobrimos para onde Keila fugira, ficamos desesperados e ligamos para a polícia, que, imediatamente, começou a investigar o caso e procurar Keila, sem muitas expectativas, devido ao lugar para onde ela havia partido. Quando chegamos à base policial, já nos aguardavam cinco policiais, um cão de busca, o juiz e o advogado. Estavam com o histórico de vídeo monitoramento aberto e, desde o monitor cinco até o monitor vinte e dois, Keila é gravada indo para a conhecida ‘’Casa 620’’. Ela parece agir normalmente durante o trajeto, não fala com ninguém e não está acompanhada de amigos. Quando chega ao seu destino, entra como se a casa fosse sua, como se já tivesse visitado a casa. Fomos até o local. Os policiais isolaram a quadra, prepararam o cão e entraram na casa à procura de Keila. O primeiro policial que voltou da casa se chamava Roger. Estava com o cão, e a única coisa que nos revelou foi que o cão se assustara e tiveram que voltar. Aos poucos, todos os policiais voltaram, mas sem nenhuma informação. Diante disso, as investigações acabaram, e fomos para casa. Meus pais brigaram, como de costume, e eu fui para o meu quarto folhear algumas revistas de esporte. Depois que me deitei, não conseguia parar de pensar em minha irmã e em para onde ela havia partido. Indagava-me o que haveria lá. Cheguei ao local em dez minutos. Entrei na casa, estava tudo escuro. Liguei minha lanterna, nada mais do que uma casa abandonada. Mais à frente, havia uma escada. Resolvi, então, descer. O andar abaixo era uma espécie de almoxarifado, com muitas ferramentas. Olhei para o lado, mais uma escada. Desta vez menor e com menos degraus. Nessa sala, havia diversas cortinas pequenas espalhadas pela parede, mas não havia nada atrás delas, exceto de uma. Lá estava uma folha em branco. Tirei-a da parede. Outra folha em branco. Assim, tirei cinco folhas, até encontrar uma chave com uma mensagem que dizia: ‘‘Feche os olhos e use-me’’ Seria uma mensagem de Keila? Fui até o andar inferior, era o último. A chave tinha que abrir alguma coisa, e eu iria descobrir o que era. Então, lembrei-me. Feche os olhos. Cerrei-os e, quando abri novamente, o lugar

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onde estava se transformou. Havia muitos animais e uma criatura que dançava a todo o momento. Flores e borboletas. Uma paz que nunca tinha encontrado em minha vida, lagos com peixes e lindas vitórias régias. As casas das pessoas eram cogumelos, e logo que cheguei, ganhei a minha também. Tudo lá era feito em forma de artesanato e pude confeccionar os meus móveis e roupas. Na vila em que cheguei, encontrei muitas pessoas com quem era vizinha, toda elas felizes, se divertindo, muito diferente do que estava acostumada a ver: pessoas como robôs, que não tiram um minuto do seu tempo para dar um ‘‘Olá’’ para o vizinho. Encontrei minha irmã, que era a dançarina, e nos foi permitido dançar dias inteiros, até não podermos mais. Poderia dizer que era um paraíso, junto de minha irmã viveria lá para sempre, sem precisar das preocupações do dia a dia, ter uma vida divertida e bela sem problemas. De repente, uma trovoada. Eu já estava de pé, tudo não passara de um sonho em que pude me reconfortar do caos dessa minha vida, dessa loucura infinita de que não posso fugir. Beth Levitt Andra Rosignol Dezen 9º Ano

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A batalha final Davi é um adolescente que tem 17 anos e sofre de uma grave doença cerebral que o acometeu aos sete anos de idade. Desde que essa moléstia se manifestou, perdeu o movimento de metade de seu corpo, ficando de cama, sem poder se socializar com ninguém. Seus médicos estavam muito confiantes de que o menino se recuperaria, mas seu reestabelecimento estava andando muito lentamente. Ele acordava, quase que diariamente, chorando de modo desesperador, mas se recusava a contar aos médicos ou a seus familiares. Em um dia de chuva atordoadora, com raios e muito vento, que seria suficiente para levantar uma casa sem muita dificuldade, o menino decidiu contar à sua mãe sobre seus sonhos e, antes de começar a contar, avisou-lhe: – Isso pode ser um pouco assustador para os fracos. – A mãe sorriu e falou que estava preparada para tudo que poderia ser falado. – Eu estava preso em uma gaiola pendurada, a mais ou menos quinze metros de altura. Os ferros estavam altamente corroídos pela ferrugem, pois o ambiente era muito úmido. Senti um vulto passar voando pelas minhas costas, mas não pude olhar o que era. Alguns minutos mais tarde, as gaiolas ao meu redor começaram a cair, o que me deixou com medo de que minha gaiola caísse também. Gritei, angustiado, para alguém vir me salvar, mas não adiantou muito. Ninguém veio, e minha gaiola acabou caindo. Enquanto caía, o chão parecia nunca chegar. Foi quando fui surpreendido por um animal que surgiu voando sobre uma vassoura revestida com uma forte casca. Ele era verde, com rugas por todo o rosto. Adornavam aquela criatura algumas verrugas, seu cabelo era crespo e escuro, era um animal horrível. Levou-me ao alto de um ninho que havia em cima de uma árvore enorme. Lá permaneci por horas, até que alguém chegou para que eu pudesse ser levado para baixo. Esse alguém era um animal estranho, cuja cabeça se assemelhava a de uma águia e o corpo ao de um leão. Contudo, ele tinha asas nas costas, que eram quase de seu tamanho. Conversei com ele por algum tempo e consegui convencê-lo a me levar para baixo, mas eu deveria ajudá-lo a interceptar Tony, um bruxo maligno que há muito tempo fora escolhido por Satanás para ser o seu cúmplice e espalhar pelo mundo a desgraça e o medo, formando facções, com base em contratos onde a pessoa pode salvar alguém que está em uma situação complicada, pagando com a sua vida. As facções se formam por todo o mundo, porém o foco principal desses grupos é a Europa, pois lá se encontram todos os templos de seu deus, Satanás. Essas facções são formadas para que, na batalha final, o imperador do Inferno tenha uma ajuda a mais, podendo, assim, ter maior chance de ser

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o vencedor. Fiquei perplexo com a história que o grifo acabara de me contar. Não fazia muito sentido, mas ele prometeu que me levaria a um lugar aonde, quando eu lá chegasse, tudo começaria a clarear. Montei no grifo, e fomos voando até lá. Demorou muito, mas, enfim, chegamos. Ele me levou ao Monte Olimpo, um lugar onde havia escritas talhadas nas pedras, que traziam os seguintes dizeres: “Na batalha final, o mundo será totalmente inundado e, assim, nenhuma criatura terrestre ou aérea poderá sobreviver, tornando justa a luta entre os mais poderosos.” Nesse momento, comecei a entender tudo. Essa tentativa de Satanás sabotar a batalha está se tornando inútil, pois, se continuar assim, o mundo inteiro irá se dar conta do que está acontecendo, isso arruinará a sociedade atual. Nesse exato momento, principiou-se um grande terremoto. O chão feito de uma pedra que aparentemente parecia indestrutível - é rompido e, de lá, sai um animal muito parecido com um ser humano. Entretanto, ele era coberto por escamas vermelhas e tinha dois chifres grandes e pontudos. Quando esse animal sai da terra, rapidamente chama por Tony, que convoca todas as facções para junto dele. Uma chuva atordoadora começa, os trovões não eram regulares, ocorriam a todo o momento. Quando, do céu, as nuvens se abrem, trazem consigo um vento que sopra para o norte com uma força capaz de formar ondas em toda aquela água. Todos nós estávamos esperando inutilmente que algo saísse de lá. Somente algum tempo depois, surge um dragão de cor branca, cuspindo rajadas de fogo azul, capazes de facilmente destruir quaisquer coisas que encontrasse pela frente. Esse dragão olha atentamente para mim e lança uma rajada de fogo da qual seria impossível desviar. Nesse momento, eu acordo. Tento olhar pela janela, mas me lembro de que não posso mexer minhas pernas. Conto a minha mãe o que aconteceu, ela se desespera, conta que seu pai teve esse mesmo sonho na noite anterior da sua morte. Ela se desespera, começa a chorar e sai do meu quarto. Essa frase me suga de volta à dura realidade de meu tormento. Jacob Andrei Rosignol Dezen 9º Ano

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Cântico do caído Ao meu lado os seres alados lutavam uma terrível batalha, o paraíso outrora um lago sereno, tornou-se a mais terrível tormenta, gritos de horror ecoavam pelo universo apavorando incontáveis criaturas, destruindo a mente das mais fracas, pois, nunca houve e não mais haverá tamanha tragédia. Eu sentia as lágrimas de meu mestre, ele fora enganado pelas palavras do caído, agora no meio da batalha, arrependido e em desespero, toca uma última melodia, pois sabe que não irá mais ver o paraíso, e não mais terá lugar a mesa de Elohim. Conseguia sentir sua agonia enquanto sendo forçado a cair no abismo, sangue escorria pelas mãos imaculadas, mesmo quando tudo escureceu continuou a tocar ao vazio sem forma. A nossa volta não conseguia reconhecer ninguém, os seres perfeitos já não existiam, em seu lugar criaturas horrendas apareceram, riam e falavam sobre tentações, meu mestre sentou em uma rocha vermelha como sangue e continuou a tocar. Muito tempo passou, as asas puras já não existiam, em seu lugar projeções esqueléticas surgiram, sua pele perfeita fora substituída por terríveis escamas e espinhos, mas suas mãos continuavam como sempre foram, e seu rosto não demostrava o horror de seus semelhantes, pois continuava tocando repetidamente as melodias celestiais. Os demônios não ousavam se aproximar e praguejavam maldições quando nos avistavam de longe, ao nosso redor brotava grama e flores criando um contraste com o ser sentado em silêncio enquanto suas mãos lentamente terminavam os últimos acordes anunciando que o julgamento começou. Finalmente em sua face velha e desfigurada um leve sorriso apareceu, perdurou por apenas um momento, mas representava incontável felicidade e arrependimento, suas mãos caíram suavemente ao lado do corpo destruído pela corrupção de Abadom. Ninguém notou quando a música terminou, a batalha final estava em andamento, as hordas celestes exterminavam as legiões dos caídos que levados pela loucura combatiam ferozmente, minha consciência, alheia à os conflitos dos celestes, sentiu felicidade após incontáveis eras, meu mestre não dispunha de nenhuma expressão, sua alma pode voltar novamente para os braços de Elohim e a minha finalmente descansou. Inkoof Arthur Monteiro 1º Ano EM

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A jornada da vida Quando abri os olhos, o vento gelado e sutil como uma navalha que batia nas paredes além e a breve respiração de um cavalo eram os únicos barulhos produzidos. A forte luz do sol que passava em um buraco no teto me deixou um pouco cega apesar da minha visão voltar ao normal aos poucos. Olhei para ao lado com um imenso sentimento de solidão e desamparo como se estivesse perdida, e notei que estava em um templo abandonado com Sirus meu cavalo. Brevemente senti-me como se não fosse eu. Era alguma coisa bem profunda que parecia estar impregnada no meu corpo e podia controlá-lo de certa forma. Não pensei em sair do templo, parecia que algo me chamava a explorar aquelas ruínas abandonadas, como um caminho que eu tivesse que seguir e, sem perceber, já estava atravessando o imenso salão do templo. O salão era coberto de estatuas gigantes de pedra quebradas e por um instante, parei e pensei no quanto isso tudo não fazia sentido. A última coisa de que eu me lembrava era de estar batalhando contra o povo Wakka, habitantes de outra dimensão buscando novos territórios nas terras de Ungutsu. Lutava em cima de Sirus, com meu companheiro Warden, Sirus estava no inicio do salão, mas Warden não. Veio logo o pensamento de que ele faria de tudo para me encontrar, mesmo precisando entrar em terras proibidas e desconhecidas. No final do salão eu pude ver uma elevação de rocha. Era uma pedra diferente das outras, podia ser mármore apesar de não ter certeza disso. Em cima algo pequeno se mexia. Parei para observar os movimentos da criatura por alguns instantes e, de repente, algo em meu consciente me disse pra andar até lá. A cada passo o som ecoava em todo salão e o clima ficava tenso. Senti-me sendo observada e fiquei muito tensa. Cheguei perto e como um choque, algo me disse estar muito errado. Quando vi não pude acreditar era um bebê, ele era diferente, tinha pequenas elevações na cabeça, como chifres e não havia nenhuma explicação lógica para ele estar naquele templo perdido e gelado. Eu tinha certeza de que Sirus e eu éramos as únicas criaturas vivas do local, mas aquele bebê, estava lá por alguma razão, algo me dizia que sim. Tirei meu casaco de pele feito pela minha mãe e quando toquei no bebe para segurá-lo uma luz e som forte tomou conta do meu consciente, uma série de flashbacks de histórias da minha vida junto com outras histórias que eu não fazia ideia do que eram tomaram conta de mim. Aquilo se neutralizou e vi então, Warden em cima de Sirus com um corpo de uma menina na traseira. Tudo desabou sobre mim, eu estava em um castelo nas terras proibidas dos deuses Olish e Kelo, onde foram aprisionados pela eternidade com 16 colossos guardando suas almas. Sem

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poder fazer nada, observei Warden falando com Olish e Kelo. Os deuses (apesar de parecerem só um, pois foram fundidos em apenas uma entidade) ordenou que Warden matasse os 16 colossos e assim trariam minha alma de volta ao mundo. Eu havia morrido na batalha de Ungutsu e, Warden, obedecendo às ordens que se compridas, os deuses dariam minha vida em troca, não hesitou e fez o que os deuses gananciosos haviam mandado. Por fim, a cada colosso que Warden matava, a alma de Olish se juntava a dele e de Kelo, ao meu corpo, porém Warden não sabia disso. Foi quando eu me toquei que o bebê em minhas mãos na verdade era o meu amor, Warden, que acabou sendo transformado por Olish, com o objetivo de reencarnar sua própria alma em forma humana, enquanto a alma de Kelo a mim, o que permetia a saída deles do lugar onde foram aprisionados, a terra proibida. Augusto Salvador Mombelli 9º Ano

Ilustração: Guilherme Scortegagna Ribeiro e Pedro Antonio Silveira dos Santos Conto: A jornada da vida

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O enigma oculto Naquela noite do dia 30 de Novembro de 1876, John estava lá sentado à beira da rua, contemplando o céu estrelado que, naquele tempo, era sinal de perigo. Com o passar das horas, John percebeu que algo de estranho estava acontecendo ao seu redor, gritos de desespero havia vindo do cemitério, e uma luz muito forte que refletia no seu quarto, curioso, decidiu ir até a calçada oposta do local assombrado para ver o que estava acontecendo. Ao chegar, começou uma forte chuva com trovões e raios que iluminava a cidade, assustado com o tempo, John escondeu-se em um jazigo que estava em construção na entrada do cemitério. Quando o dia completou 24:00 horas, as vozes que John havia escutado começaram a pedir para que ele disse até o cento do cemitério para salvar uma criança que estava sendo levada pela correnteza. Ao aproximar-se, John encontrou a criança e ao pegá-la no colo, levou um grande susto, pois esta criança estava com o rosto coberto por cicatrizes e larva que estavam devorando seus olhos. Nesse instante uma mão é apoiada sobre o ombro de John, ao se virar-se, avistou que era uma moça de um longo cabelo loiro, um véu branco sobre seu corpo, sua cara era extremamente assustadora, seus olhos estavam virados para dentro e deles escoria sangue. John percebeu que algo de errado havia com aquela mulher, a sensação que teve era de que aquele cadáver teria sido de uma pessoa paranormal. Placda (a mulher misteriosa) começou a conversar com John, durante a conversa ela a firmou que teve muitos problemas durante sua infância pois nasceu em uma família de exorcismo. Assustado, John decidiu voltar para casa e esquecer tudo o que aconteceu. John morava sozinho em uma casa que havia herdado de sua avó, era uma casa fria, escura, assustadora e silenciosa. Ao chegar, deitou-se no sofá e assistia ao filme “O terreno dos mortos”, no decorrer do filme John escutou um forte passo que vinha do seu quarto, ele pouco deu bola, pois achava que os barulhos fosse a forte tempestade que alagava a cidade. Quando o tempo se acalmou, os barulhos continuaram lá. John pegou uma cruz e foi até seu quarto, onde levou um grande susto, seu dormitório estava todo destruído, vidros quebrados no chão, sua cama estava desarrumada e na parede onde guardava suas roupas estava escrito com sangue “Eu quero você”. Nesse exato momento, uma criança começa a chorar desesperadamente e gritando: cadê você mamãe, de repente a eletricidade cai, a cidade inteira se cala e só aquela criança chorava sem parar.

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Horas se passaram, até que John seguiu em direção ao choro. Quando chegou, encontrou a criança encontrada no colo de uma mulher, onde os dois em uma cadeira balanço. John se desesperou, pegou um pote com cinzas e espalhou sobre a casa e imediatamente foi para a casa de sua família. No dia seguinte ele voltou e encontrou pegadas onde havia jogado as cinzas e seguiu esse caminho e foi parar no sótão, onde lá foi assassinado. Sua família procurou por ele, mas não teve pista, apenas uma frase escrita com sangue na entrada do sótão: O próximo é você. Kjarud Carine Gabriela Giaretta França 9º Ano

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A coruja dos olhos de Jade Estava ajoelhada, sozinha, insegura. Os cantos das paredes pareciam sussurrar, revelando intenções extremamente humanas. A única coisa que interrompia o breu intenso do pequeno sótão era um mínimo e raso feixe de luz, vindo de uma minúscula e barulhenta janela. Chorava, com culpa, as mágoas que o destino trouxera por meio daqueles que a faziam acreditar que era a razão do próprio castigo. Quem dera fosse ela dona de seu sofrimento. Já era hora morta, o momento em que todas as lembranças de um passado violado vinham à tona. Era um passado tão próximo que se envolvia diretamente com as sequelas do presente. Em meio a esse pesadelo materializado, nomeado realidade, um ponto de luz glauco surge com uma intensidade radiante, sobrenatural e completamente curiosa. Fechou os olhos rapidamente, torcendo para que fosse mais uma peça de sua insana mente. Porém, ao retomar sua atenção para aquela forma iluminada, deparou-se com uma reluzente coruja de asas douradas e enormes olhos cor de jade. Passou a encarar fixamente a graciosidade e leveza da exuberante ave de rapina. Sentia uma espécie de comunicação anormal, uma ligação além do imaginável, como se o misterioso pássaro noturno soubesse das verdades mais conscientes, até seus segredos mais imundos. Aproximouse sutilmente, pondo sua testa rente às penas esculpidas e sedosas do animal, que arregalou suas lentes esmeralda e, surpreendentemente, transportou-se para seus pensamentos. Ao sobrevir da longa viagem pelo universo da inconsciência, encontrava-se em uma espécie de vão infinito, de claridade estonteante, e uma imensidão grandiosa com flora e fauna jamais vista, repleta de aspectos exóticos e características irreais, que cheiravam a desejos e reacendiam lembranças. No centro daquele que batizou de “um paraíso disfarçado”, direcionou-se à formosa coruja, e retirou uma de suas penas. No mesmo instante, vozes cautelosas conduziram-na a retomar o juízo longínquo na caçada de um mundo perfeito. E, mais uma vez, foi deglutida por suas fantasias mais puras. Cada pluma retirada do animal abria as portas para a possibilidade de uma vida jamais vivida, concebida por aquele que a cativava, levando-a a mundos nos quais era possível elaborar a felicidade fútil do ser humano. Agora, sentia-se sagaz, gozando dos mais simples detalhes de um nupérrimo começo alternativo, flutuando numa mescla irreal e tonalizada sobre um oceano cor púrpura, junto àquela que lhe concedeu sentimentos gloriosos.

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Depois de romarias incessantes pelo universo da loucura, nunca desejou retornar à sua prisão corpórea. Permanecendo eternamente com os dons místicos da coruja em seu ninho de oportunidades. Pois de nada adianta uma animação metabólica de movimentos carnais em meio à insensibilidade, já que sua alma agora esvoaça ao redor da exclusiva e singular mente sem lembranças, dentro de uma extracorpórea caixa de surpresas. Duncan Aislin Carolina Kaempf Farret 1º Ano EM

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O fantasma de Lolamaria Soraia era; uma menina de 13 anos, doente por um tumor maligno, e sua família era muito pobre, não havia dinheiro para pagar a cura, pela doença, estava prestes a morrer em menos de um mês. Deixou de lado sua doença, pois já estava acostumada a sofrer tanto. Queria viver seus últimos dias de vida curtindo suas últimas horas e minutos, fazendo tudo para se sentir feliz Uma de suas felicidades era se aventurar em sonhos, geralmente dramáticos, animados e de suspense. Quando chegou a tardinha, deitouse virada para o seu teto de vidro, de onde podia avistar muitas estrelas, que ajudavam a dar um gosto agradável em seus sonhos. Um de seus devaneios foi em um mundo extraordinário, com um ser peculiar, chamado Lolamaria, que tinha longos braços de polvo no lugar dos pés e os pés no lugar das mãos. Ela vivia com uma família desagradável, por quem era agredida com um longo bico de beija-flor e pedaços de vidros afiados, que a dona tartaruga colocava. Mas esta tartaruga era anormal, um bicho magnífico, e no lugar do ovo, ela ponha os vidros. Sua casa é em cima de um ninho na árvore. Seu bico, com o qual Lolamaria apanhava, era muito dolorido. Ela nem ao menos sabia o motivo que levava seus pais a odiá-la tanto e a surrá-la. Nunca deram atenção para a coitada. Para sua família ela trazia muita vergonha. Por fim, foi esquecida e abandonada por sua família. Sozinha em um enorme mundo, ela era ignorada, esquecida, ninguém a amava. Sem ao menos um amigo ou família por perto, era detestada e sofria bullying, sempre por ser um pouco mais feia, pobre e; burra. Estava rodeada de seres que se amavam, namoravam, e ela namorava com um ser anormal, de seus sonhos, um menino-homem igual à Soraia. Porém acabou iludida por um amor que realmente nunca existiu, o que não podia acontecer novamente, pois ela estava furiosa, muito triste e depressiva. Por mais que se sentisse entristecida, não parava de fazer aventuras, altas criações, viajar ao mundo do esquisito, sinistro. Explorava aventuras sobrenaturais pela natureza chamada Barilesa, o que para ela não passava de um lugar de quatro paredes. Uma dessas paredes era revestida com restos de flores e couro de cobra. A outra era coberta por algo molengo, nojento como se fossem várias línguas de sapo. Tinha uma decoração feita de penas de aves ancestrais e sua cama era toda de garras afiadas de cobra, com espinhos de porco-espinho, o que a deixava com vários machucados enormes. Estes ferimentos pareciam ser normais em seu corpo. Às vezes, pelo fato das garras da cobra, nos quais havia muito veneno, que quando

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penetrava em sua pele, fervia em todo seu corpo, fazendo escorre muito suor. Ao chorar, derretia seus olhos, como se fosse fritar ovos em uma churrasqueira. O sangue que caia ia pintando outra parede, deixando um tom brilhante e meio acinzentado. Sua casa era como um mar asfáltico de pedras preciosas. Sabendo das frustações pelas quais passava, decidiu cometer suicídio. Avistando um belo penhasco de 70 metros de altura em cuja profundidade iria cair, observou a presença de muitas facas do tempo neolítico. Assim, deu seu último suspiro, recordando-se de alguns momentos que a deixava feliz lembrou-se do seu mundo, dos momentos em que ficava sozinha. E lá foi ela com um imenso frio na barriga. Encontrou-se em seu quarto, totalmente outro mundo, contrário ao dela. Lá havia vários doutores, mestres em doenças físicas e espirituais, o que para ela seria muito estranho, passou a ser o lugar de seus sonhos. Nunca imaginava encontrar seres que a respeitassem e ajudassem em seus momentos de dificuldade, ali ela pode aprender muitas coisas novas. Lolamaria nunca contou, mas ela tinha um ser imaginário em sua mente, um fantasma, que sempre perturbava sua vida, e ele ou ela tinha uma grave doença. Com isso, foi falar com Frank, um amigo que ela admirava muito. Quando ele soube do fantasma, começou a ensinar alguns truques de remédios de plantas, mas havia um problema, as doenças mais graves precisavam ser curadas de modo dramático. Lolamaria precisava morrer para curar ou ressuscitar seu fantasma. Em meio à solidão, Lola não deixaria mais seu fantasma sofrer no ‘mundo dos mortos’, havia um enorme amor que entrelaçava seu coração. Depois que tomou coragem, mandou que atirassem nela com uma flecha. Enquanto ela estava sofrendo para morrer, a família de Samira recebeu uma péssima notícia, de que sua filha, Samira, tinha morrido no hospital. Depois de uns três minutos, Lolamaria morreu, e aconteceu algo surpreendente que fez ressuscitar Soraia. Ela mesma era o fantasma de Lola, que assombrava seu amor. Caroline Aparecida Giaretta França 1º Ano EM

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Greey, o colégio mal assombrado 11 de fevereiro de 2009, início das aulas. Para Bel, o primeiro dia no colégio. Greey era um colégio muito conhecido na cidade. Antigamente, era um presídio que fora incendiado e matou mais de mil pessoas. Anos depois, foi construído o colégio sobre o lugar onde milhares de pessoas morreram. Em seu primeiro dia de aula, ninguém falou com Bel. A menina, por ser diferente dos demais estava se sentindo excluída, mas ela não entendia o porquê, pois não havia notado nada de diferente em seus colegas. 15 dias se passaram, e ela começou a notar que havia algo de muito errado naquele colégio. Como Bel era muito curiosa, precisava saber o que se passava por Greey e sabia que, se falasse algo para seus pais, eles tirariam na do colégio. 26 de fevereiro de 2009. Bel ouviu gritos vindos do refeitório e resolveu ver o que estava acontecendo. Chegando lá, deparou-se com inúmeras marcas de sangue e arranhões nas paredes. Assustada, Bel correu para a porta de saída e tentou abri-la, mas estava trancada. Então, gritava por socorro, mas ninguém a escutava. Minutos depois, uma mulher com cabelos loiros e encaracolados apareceu em sua frente e disse “a partir de hoje, sua vida será diferente” e desapareceu repentinamente. Bel, muito assustada, continuava a gritar por socorro até que, por fim, as portas do refeitório se abriram, e a menina saiu correndo em busca de ajuda. Não havia ninguém na escola, eram 20h e a escola estava fechada. Alguns minutos depois, Bel, apavorada, trancou-se na biblioteca e percebeu que os livros começaram a se mexer, tentando falar com ela. A menina não conseguia aceitar o que estava acontecendo. Ainda chorando muito, foi em busca de um celular para pedir ajudar, entrando na sala de reunião dos professores. Deparou-se com um guri mascarado, que tirou a máscara, aproximou-se de Bel e disse “a sua hora chegou”. Bel, aos prantos, tentou fugir, mas ele acertou sua cabeça com uma faca e ela caiu, desmaiada. Ele deu várias facadas no peito da menina. 27 de fevereiro de 2009. Os alunos retornaram para a escola e, no pátio, viram expostas todas as partes do corpo de Bel, cortadas em pedaços, e um vídeo exposto a todos os alunos do mascarado abusando dela sexualmente depois de morta. A partir desse dia aconteceu inúmeros assassinatos por toda a cidade e todas causadas por um único assassino, o mascarado. Cinthia Volmer Ferreira 9º Ano

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Doors Num dia de trabalho comum, eu estava, como de costume, trabalhando no computador do escritório do prédio em que trabalho. Pensei ter ouvido alguém batendo na porta, mas não havia ninguém. Quando eu me virei para voltar ao escritório, algo muito estranho aconteceu. Tudo lá dentro havia sumido. Olhei para baixo e quase despenquei do prédio. Rapidamente, fechei a porta, recuperei o fôlego e dei dois passos para trás. Ainda meio perturbado com o que tinha acabado de acontecer, tentei olhar pela janela da porta e me deparei com o mesmo cenário – o meu escritório, com todos os meus pertences, tinha acabado de desaparecer. Resolvi me acalmar e pensar no que eu deveria fazer. Eu realmente não fazia ideia do que tinha acabado de acontecer. Por um momento, eu quase fui vítima de uma queda de quase 40 metros de altura. De repente, uma voz invadiu minha mente dizendo: “Pegue a chave sem deixar sobrar nenhum cômodo. Você só tem uma chance”. Em um instante eu pensei que aquilo não podia ser real, alguma brincadeira de meus colegas de trabalho, ou algo do gênero. Porém só foi eu pensar nisso que aquela voz surgiu novamente: “Isso não é um jogo. Você tem quarenta segundos”. Sem pensar em mais nada, eu sabia que poderia morrer se não fizesse o que aquela maldita voz me dizia. Sem mais demoras, corri até a porta do outro escritório, para tentar encontrar aquela tal chave, que eu não tinha nenhuma noção de qual era. Olhei para trás e percebi que em cada porta pela qual eu passava, o que havia por trás dela desaparecia, ou seja, o cômodo que tinha atrás da porta sumia, levando uma parte do prédio e o deixando cada vez menor. Portanto, tomei decisão de que eu devia chegar até o elevador, local mais provável para buscar aquela chave de porta em porta, sem escolher uma porta que eu já tinha aberto e cair prédio abaixo. O único problema é que faltavam apenas 30 segundos, e eu teria que abrir todas as portas para que não faltasse nenhuma sala. Correndo contra o tempo, finalmente cheguei ao elevador. E lá estava a chave, só que havia um problema: ainda existia uma porta sobrando, a porta do banheiro. Eu sabia que não chegaria a tempo. Quando não havia mais solução, decidi pegar a chave. Tudo se acalmou. Após alguns instantes de um breve silêncio, duas portas apareceram em minha frente. A primeira delas dizia: “Essa porta tem o caminho mais rápido para a saída daqui, mas para entrar nela, você terá que arrancar um dedo seu usando as ferramentas ao lado”. E a segunda porta dizia: “Essa porta tem o caminho mais longo para a saída daqui, se a escolher, você demorará cerca de uma hora para encontrar a saída”. E, acima dessas duas portas,

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havia um cronômetro, contando um minuto, o tempo que eu tinha para decidir qual porta escolher, mas esse minuto valia também para o tempo que eu tinha para sair dali. Eu entrei em desespero. Eu não queria perder um dedo, e muito menos descobrir o que aconteceria se eu não conseguisse escapar dali a tempo. Faltando quase 40 segundos, uma luz veio a minha cabeça. Eu não sei se eu estava consciente sobre aquilo que estava acontecendo comigo naquele momento. Tudo parecia ser tão real, mas ao mesmo tempo surreal! O que poderia estar sucedendo? Seria um sonho? Decidi escolher a porta com o caminho mais longo, peguei uma das ferramentas - uma espécie de machado pontiagudo – e comecei a quebrar a parede até o outro lado, para escolher a porta com o caminho mais rápido! Acredito que essa tenha sido a ideia mais genial que já tive. Faltando uns cinco segundos, consegui escapar. Na saída, a única coisa que vi foi uma luz branca e ouvi um barulho de telefone. Descobri que tudo aquilo era um sonho, e, no fim, eu havia dormido no meu escritório, depois de passar horas jogando um game de computador chamado “Doors”. KêTampa Diogo Ricardo Furlanetto Cerutti 9º Ano

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Da escuridão à luz Raios e trovões no céu. Confusa, tentei abrir os olhos, mas somente havia penumbra. A tempestade era enorme, e eu sofria pela dificuldade de entender onde estava. As imagens eram escuras e sentia medo. Um raio me atingiu e, bruscamente, fui parar em outro lugar que ainda não conseguia distinguir qual era. Após um tempo, indícios fizeram com que eu percebesse que estava deitada em posição fetal em um solo arenoso. Quando abri meus olhos, percebi o cenário alaranjado, repleto de arbustos e areia por todo lugar. Sentia queimaduras em meu corpo, devido ao calor da areia, por isso, levantei-me. Caminhei muito, tanto que meus pés ficaram exageradamente inchados e doídos. Eu me perguntava como havia parado naquele lugar, porque não me lembrava absolutamente de nada, minha memória se perdia conforme os acontecimentos me atingiam. Estava agoniada, perdida. Meu corpo se tornou pesado. Para caminhar, minhas pernas pareciam pesar toneladas. Após um tempo percorrendo as areias do lugar estranho que, ao mesmo tempo, parecia tão familiar, escutei um barulho ensurdecedor que, como forma de tortura, aumentava cada vez mais. Minha cabeça doía e estava desnorteada. O barulho tornou-se decifrável e entendi, pelas pisadas no solo, que alguma criatura muito grande estava por vir. Com muito medo, caminhava novamente. Uma névoa branca em meus olhos não permitia que eu enxergasse coisa alguma. Estava vendada pela névoa e pela angústia. Depois de muito tempo correndo, o nevoeiro desapareceu e permitiu que eu visse o que mais me afligia. Eu não conseguia entender que animal era aquele, fiquei em estado de choque. Era uma espécie de mistura. A cabeça e o tronco lembravam um touro com no mínimo cinco chifres, e as patas eram tão grandes como as de um elefante. Era preocupante a forma como me encaravam. Seus olhos furiosos, vermelhos, e seus rugidos agressivos. Tudo isso me lembrava daqueles filmes de terror em que você corre e não sabe para onde está indo. Meu corpo estava exausto por correr suportando meu peso. Cansei tanto que não sabia onde buscar forças. O desespero tomou conta de mim. Quanto mais eu corria mais parecia imóvel. Intrigava-me tanto, não entendia o que estava acontecendo. Sentia tanto medo. Meu coração disparou e as batidas aumentavam cada vez mais. Por que comigo? Por que eu? Poderia ser qualquer pessoa. Não merecia isso. A agonia aumentava com a aproximação daqueles estranhos seres. Era um grupo muito grande, aterrorizante, com pelagem preta, e o meu maior medo era que me pisoteassem ou que viesse a sentir seus numerosos chifres atingindo minhas costas. Por isso eu corria, para evitar isso, mas parecia que não estava sendo feliz. Tinha medo de olhar pra

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trás e fitar a feiura das criaturas. Depois que realmente senti que estava conseguindo correr, fiquei aliviada por estar mais distante e apenas ouvindo as pisadas, porque a areia cobria uma grande parte da imagem. Como não consegui ver mais nada, pensei que tinha me livrado daquilo e que tudo fora apenas uma miragem. Estava enganada. Respirei fundo e senti algo muito estranho. Os arbustos se ramificaram ao longo dos segundos. Observei, confusa, e, repentinamente, as folhas se aproximaram das raízes, formando um só galho. Pisquei os olhos pra ter certeza do que estava vendo. Cobras verdes rastejavam pelo chão. Meu coração disparou. Sempre tive medo de cobras ou qualquer outro animal rastejante. A agonia aumentava e, pra evitar que chegassem perto de mim, comecei a correr novamente. Agora eu fugia das cobras agonizantes e da espécie de touros que pareciam ter ganhado maior velocidade ao se juntarem às cobras. Tudo estava conspirando para me alcançarem. Estava correndo tanto que parecia voar. Quando percebi que não ouvia mais nenhum ranger de dentes e muito menos pisadas, parei de correr e olhei para trás, em busca da multidão de criaturas abomináveis. Haviam parado. Estavam intactos. As cobras pareciam mortas. A criatura assustadora estava parada com a cabeça abaixada. Parecia que estavam saudando alguém. De repente, torno a ouvir pisadas, porém dessa vez mais fortes. É quando, de trás do nevoeiro de areia, surge uma criatura da mesma espécie, só que de um tamanho triplicado em relação aos outros bois. Ele, apesar da sua falta de beleza, passava-me uma sensação de tranquilidade, por isso não estava com medo que estivesse se aproximando. Estava calmo. Quando chegou perto de mim, simplesmente abaixou o seu corpo, sinalizando para que eu subisse em suas costas. Eu destemida, obedeci e, ele se levantou. Quando começamos a andar, as criaturas que estavam para trás reviveram. Nas alturas, eu me sentia livre, e o que me amedrontou, rapidamente, tranquilizou-me. A cada pouco, as sensações foram mudando. Mesmo que estivesse considerando tudo aquilo muito estranho, a sensação era tão boa que nunca mais queria sair de lá. Alucinada Eloisa Marin Wilmsen 1º Ano EM

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O verdadeiro monstro Minha filha, lave a louça. Bia, minha querida, faça-me o favor de arrumar a cama. Amadinha, ajude-me a fazer o jantar. Filhinha, querida, amada... Beatriz odiava quando sua nova mãe lhe chamava assim. Era certo que o único motivo que levava a adulta a fazer isso era o de fazer a garota limpar a casa. Bia realmente não gostava do orfanato, mas certamente achava que o Papai Noel poderia ter lhe dado uma mãe melhor de Natal, uma que, de preferência, não morasse em uma casa que parecia ter saído de um filme para assustar criancinhas, e que, principalmente, não a colocasse em um sótão tão mal iluminado. Apesar disso, a menina não tinha muito medo, pois nada no mundo poderia assustá-la tanto como a porta do castigo, aquela que existia no seu antigo orfanato, para onde os malcriados iam e para onde jamais queriam voltar. Era nisso que a pequena pensava quando a mulher que a adotou mandou que ela fosse tomar banho para dormir. Pensou tanto que se afundou em pensamentos, caindo diretamente para dentro da banheira, onde os ventos sopravam mais suaves e todas as preocupações da vida não pareciam mais fazer sentido. Logo Bia se viu em um parque, onde todas as árvores eram rosa, os arbustos eram lilases, os passarinhos de peito avermelhado cantavam cantigas harmônicas, e o medo parecia inexistente. Mas toda essa calmaria somente deixava a pequena inquieta, pois, morando em um orfanato durante tanto tempo, ela sabia que tudo que parecia maravilhoso, na verdade, era só uma maneira de tornar as pessoas despreparadas para o real. Assim, Beatriz andou, procurando qual era a farsa escondida em tamanha beleza e percebeu que, quanto mais andava, mais a escuridão se tornava parte do cenário. Os belos sons antes ouvidos iam ficando distantes, e as cores de algodão doce eram substituídas por tons secos e cruéis. Então a menina começou a ficar preocupada, pensando que, para que tudo desse errado, só faltava um monstro na história. Ah, porque Bia teve que cogitar isso, não demoraram cinco minutos para se ouvir o rugido, ainda distante, de algo provavelmente muito assustador. Sendo assim, mesmo que a ideia fosse tola, pois uma donzela indefesa faria a mesma coisa, a pequena correu e correu, até encontrar um enorme paredão de vidro, onde ela finalmente parou para analisar o seu redor, percebendo que tudo estava em apenas duas dimensões. “Tudo bem”, pensou ela, “não tenho tempo para entender o que está acontecendo. Se quero me manter segura preciso de abrigo”. Olhando ao longe, viu a cópia exata de sua nova casa e, sem escolhas, seguiu aquele rumo, atravessando uma floresta de figuras geométricas coloridas, onde

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os estranhos animaizinhos a olhavam curiosos, com certeza pensando no que algo tão defeituoso, sem um formato perfeito, fazia em seus territórios. Logo antes de chegar à construção, Beatriz percebeu que voltara ao normal e ouviu outro rugido do mostro, desta vez, muito mais alto. Então, a pequena apressou o passo e caiu em um buraco profundo, que a levou diretamente para a entrada da casa. Abrindo a morada, ela não viu o que esperava. Ela enxergou o que nunca mais queria ver: as várias portas que preenchiam o interior de seu antigo orfanato. A menina demorou a superar a imagem a sua frente. Ela jurou não botar mais os pés naquele lugar, porém, devido à demora, o ruído do mostro se tornou mais alto do que ela julgava seguro e, portanto, teve de entrar. Começou a abrir desesperadamente todas as portas, mas cada uma delas continha algo que a menina não podia superar. Algumas tinham chão de lava, outras, pregos por todas as direções, havia, ainda, algumas que estavam recheadas de armadilhas com problemas matemáticos, mas ela sabia que só uma estaria segura. O destino não gostava muito de Beatriz, dessa forma, ela sabia o que a esperava. E, assim, Bia se viu frente a frente com a porta que ela e suas amigas tanto temeram, aquela porta que tanto evitaram chegar perto e que o simples olhar para a maçaneta lhe causava calafrios. A menina teve de encarar seus medos, sabendo que a única maneira de se livrar do monstro era entrando naquele lugar frio e escuro de onde, provavelmente, nunca mais sairia. Seu tempo se esgotou, e o monstro a encarou, quase como esperando uma decisão. A pequena sabia que era escolha entre a morte ou a escuridão eterna, então, no último segundo, Beatriz abriu a porta, pensando que assim, pelo menos, sua mãe não precisaria chorar em seu velório. Antonieta Rúbia Esme Erika Heni Taffarel 1º Ano EM

Ilustração: Guilherme Scortegagna Ribeiro e Pedro Antonio Silveira dos Santos Conto: O verdadeiro monstro

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Paraíso da ausência Assustei-me terrivelmente com o badalar dos relógios na primeira vez em que estive aqui. Hoje, eles já me soavam como a música que estava ouvindo quando tudo aconteceu, tudo o que me levou àquele hospital, tudo o que me trouxe até aqui. Confesso que ainda não compreendi ao certo onde estou. Porém, sei que ao passear por entre as centenas de barquinhos feitos das mais diversas cores, dos mais diversos papéis, e ancorados num porto de borboletas sem fim, eu esqueço, ainda que por alguns segundos, a verdadeira realidade. Quando vejo essas embarcações, pilotadas pelos mais incansáveis marinheiros de algodão, eu me sinto completa. Disposta a superar todas as adversidades para navegar junto deles nesse mar de açúcar. Disposta a esquecer que não sou mais como era antes, que tenho em mim os maiores medos e não mais todos os sonhos do mundo. Quando o carro branco que vinha em minha direção me fez perder os sentidos e os movimentos por longos meses, e a única coisa que podia ser ouvida eram as máquinas a mim ligadas, essa foi a melhor saída para os meus pensamentos mais férteis. O longo corredor que interliga o porto ao jardim feito de sapatos falantes e habitado por incríveis criaturinhas surreais, é muito diferente do corredor branco e triste do hospital. Ele é repleto dos mais malucos sonhos guardados em minha mente e ainda amparados pelo badalar de relógios. No instante que chego ao jardim, tenho absoluta certeza de que algo mudou. Esse lugar maluco me traz paz, aconchego, amparo. Talvez seja porque aqui tenho amigos. Tudo bem. São criaturas de outro mundo, mas nem eu sei onde estou, como a elas vou julgar? Sei apenas que isso aqui é fantástico! Vejo pequenos animais coloridos por todos os lados. O céu lembra algodão doce. O chão me remete às balinhas com formato de amora que eu tanto comia quando era criança, e, por mais louco que pareça, vejo bocas gigantes por todo o lugar. Quando minha presença é percebida todos vêm em minha direção e em uma divertida brincadeira, saio correndo, fugindo de meus pequeninos amigos. Adentro rapidamente em um novo ambiente nunca por mim avistado. Este não me trazia boas lembranças, pelo contrário, apenas sentimentos ruins, talvez sem significado. O sangue que escorria pelas paredes antes alvas como a neve lembrava-me sem dúvida alguma do acidente, do hospital. O chão era de veludo vermelho e as dezenas de cadeiras que estavam espalhados por ele eram literalmente feitas de cerejas, muitas cerejas. Não fosse tão trágico poderia ser até gostoso, mas eu não conseguia pensar nisso. Pensava apenas no acidente, no

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hospital, nas pessoas que estavam esperando pelo meu retorno, pela situação que estava instalada, pela minha ausência. Eu amava aquela sensação de viver o hoje sem pensar no amanhã, mesmo estando assim, segregada do mundo real. Talvez tudo isso aconteceu apenas para me lembrar de que estou viva. Em meus sonhos, mas estou. Ignea Gabriela Moschetta 1º Ano EM

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O apocalipse Houve peleja no céu. Lúcifer enfrentou Miguel, nessa batalha travada no paraíso, querubins e seres celestiais foram aniquilados. Todavia, as forças incalculáveis do abominável não foram suficientes para derrotar o ser magistral. Caindo na terra, o mal começou a se fundir, e o universo se transformou em um inferno, ardendo copiosamente. Percebendo que havia perdido a batalha, a maldição de Lúcifer e dos anjos rebelados por Deus se iniciou. E o Apocalipse explodiu, fazendo com que o sofrimento se tornasse diário. As pessoas se autodestruíam em meio às criações de cura e, simultaneamente, de novas doenças. Assim o mundo ardia como um calvário. Em virtude da precariedade em que as pessoas viviam e, diante desse sofrimento, anjos iluminados por Deus retornaram à Terra, com a missão de exterminar Lúcifer, o ser mais abominável que a humanidade conhecera. Lutando pela salvação da humanidade, Miguel travou um novo conflito com seu repugnante irmão. As forças do bem dessa vez não foram suficientes para acabar com as maldições do maligno. Em desespero, os anjos iluminados buscaram como solução o retorno de Dandara, filha renegada de um relacionamento amaldiçoado entre Lúcifer e Gabriela. Adormecida e escondida submersa abaixo da terra, a criatura enganada pelo pai ali tinha permanecido por 3000 anos. Com os feitiços sussurrados em Enoquiano, os anjos enviados por Deus retiraram Dandara de sua prisão. Dos pés da filha da besta saia fumaça negra, e seu rosto permanecia encoberto por seus cabelos longos e negros como a noite. Estava assustada e prestes a fugir, mas as perfeitas criaturas do senhor a impediram. Os celestiais relataram o que estava havendo com o Universo. Ao contrário do pai, a criatura de olhos pretos comoveu-se com tamanha barbárie que seu pai havia imposto à Terra. Decidida a auxiliar os anjos de Deus, lutou em prol da humanidade. Interrogados por Dandara, os irmãos do maligno Lúcifer apenas se entreolhavam, assustados e perplexos com a audácia de sua sobrinha. Entre os desentendimentos, os irmãos confessaram que o Cavaleiro da Morte teria forçado a rivalidade e que fora ele quem teria desencadeado tamanha batalha, propagando a rebelião entre os seres celestiais e os anjos rebelados caídos no Universo. Dandara usava uma armadura branca, com detalhes azuis. Montada em um pássaro branco fornecido pelos anjos, também embainhava a lendária espada de São Jorge, em sua proteção. Lúcifer vestia-se de forma diabólica, com serpentes a sua volta, olhos vermelhos e cabelo raspado. Ria incansavelmente da tamanha petulância de sua filha renegada. Com uma espada forjada por demônios, a besta se aproximava, montada em

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um cavalo negro. A ave deu um salto para cima do equino, abatendo-o. A inércia do momento fez com que o pai de Dandara caísse do animal. Praguejando, Lúcifer desembainhou a espada. Esperando o confronto corpo a corpo, sua filha desce da ave e vai até o pai para derrotá-lo. Com a espada de São Jorge em sua mão direita, Dandara desvia dos golpes do maligno e perfura seu peito. Da ferida besta, saía uma luz negra e, com o tempo, ele começou a se desintegrar sobrando somente pó. Após o vitorioso combate, Dandara foi aceita no céu. Lá se tornou um arcanjo, um dos seres mais poderosos que Deus criou, ajudando a administrar a Terra após o Apocalipse. Pandora Giovanna Catharina de Castro 1º Ano EM

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Quarto paralelo Era uma tarde típica de primavera. A temperatura estava agradável. Eu e meus amigos jogamos futebol na pequena praça que ficava ao lado da minha casa. O dia realmente estava muito lindo, mas logo voltei para casa, com aquela sensação de medo que sempre tinha, quando pisava no chão da minha casa. Quando me aproximava do quarto de meu irmão mais velho, que já não morava mais comigo, as coisas só pioravam, sentia-me confuso, e algo naquele quarto me chamava. Sempre era uma voz diferente, grande parte das vezes eram grossas e agudas, mas já havia escutado vozes finas, normalmente não compreendia o que as supostas vozes falavam. A última vez que eu havia entrado no quarto do meu irmão fora há anos, antes de ele ir morar fora. Já não me lembrava mais de como era exatamente aquele quarto. A única coisa de que me lembrava perfeitamente era o espelho, havia algo naquele espelho que mexia com a minha imaginação. Quando me olhava naquele objeto reluzente não via somente eu, ia muito além disso. Era sempre uma viagem, uma fantasia comum para uma criança. Nunca fui curioso, era o tipo de garoto quieto, nunca quis chamar atenção e raramente me envolvia em discussões. Entretanto sempre estive disposto a ajudar e, por isso, tinha muitos amigos, de todos os tipos, mas esse quarto já estava despertando minha curiosidade. Depois de jantar com a minha família, meu pai e minha mãe, subi para o meu quarto e deitei em minha cama, passei horas deitado, pensando, havia finalmente tomado coragem para ver o que realmente existia no quarto de meu irmão. Fui correndo para lá. Aquele corredor velho, que fazia barulho ao correr, fez com que minha mãe gritasse para que eu andar mais devagar, e ela aproveitou para me mandar dormir, pois já era tarde e eu tinha apenas 12 anos. Quando cheguei à frente da porta do misterioso cômodo, já não sabia o que fazer. Voltei a escutar aquela voz me chamando, e logo senti minha coragem sumindo. Após vários minutos em frente à porta, decidi fechar os olhos e abri-la, e foi isso que fiz. Empurrei a porta, e tudo parecia normal. Andei pelo quarto, e não havia nada de estranho ali, mas encontrei aquele velho e sujo espelho da minha infância, que hoje já estava todo riscado. Então me lembrei de suas luzes e decidi ligá-lo novamente. Quando ele ligou, lembrei-me de todos os seres e mundos que já tinha imaginado e, então, decidi deixá-lo ligado, mas, ao me virar de costas, algo me puxou, e foi como se eu tivesse entrado no velho objeto, em seguida acordei, mas estava em meu quarto. Tudo parecia normal,

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arrumei-me para a escola, porém, ao abrir a porta, tomei um grande susto. Toda aquela viagem da minha cabeça se concretizara, eu estava em um mundo totalmente estranho. O chão era bem parecido com o da Terra, havia várias árvores, não havia sol e a iluminação era fraca. Era um lugar bem estranho, fui atrás de pessoas e encontrei vários seres, que, de longe, pareciam bem simétricos, todos com um sorriso em seu rosto roxo. Eram baixinhos, aproximei-me disfarçadamente de um deles, e ele começou a encarar meus olhos castanhos. Pegou em meu cabelo grosso e moreno, e analisou meu corpo um tanto definido para um garoto de 12 anos. Sem falar nada, arrastou-me para dentro de uma árvore, e fui parar em uma grande floresta. Nela, sentia meu corpo evoluindo, e os seres já não eram tão baixinhos e já não pareciam mais amigáveis. Todos eles carregavam uma lança na mão, o primeiro que me viu já tentou me pegar, e, sem poder fazer nada, me rendi. Levaram-me pra falar acredito eu - com o líder. Era mais velho que os demais. Alisou-me como todos os outros fizeram e, finalmente, falou comigo. Perguntou-me de onde eu era. Depois de uma longa conversa, descobri que seu nome era Kakaroto, e que aquele era seu povo. Ele era o único deles que tinha poder, contoume também a maneira de voltar para cara, que era atravessar a ilha mais destruidora e perigosa que existia naquele mundo, a fim de encontrar a árvore celestial, que já fora deles, mas foi tomada pelo lado negro do poder. Muito tempo se passou e, enfim, eu me sentia preparado, eu e Kakaroto fomos à batalha. Ao chegar perto da ilha, já sentia o quanto de poder havia ali. A entrada era escura, e o chão era liso. Era uma ilha fora do normal. Logo no começo, encontramos o povo dominante e os atacamos. Foi uma guerra intensa, e quando pensei que todos deles haviam morrido, apareceu um homem gigante. Era extremamente musculoso e tinha apenas um olho, uma espécie de ciclope. Olhei para o lado e percebi que Kakaroto estava muito machucado. O ciclope veio em sua direção, e a dor por vê-lo assim fez com que a raiva tomasse conta de mim, coloquei-me na sua frente e atirei uma frecha na direção do ciclope, que acertou seu olho. Sem enxergar, ele caiu e, então, arranquei seu pescoço. Nem mesmo depois tudo de estranho que havia acontecido, eu acreditava nisso. De longe, avistei a árvore de que haviam me falado, peguei Kakaroto e o levei até ela, onde peguei uma folha e o fiz comer. Com isso, recuperou-se, agradeci-lhe pela ajuda e entrei na árvore. Acordei em meu quarto novamente. Desta vez, estava tudo normal, saí do cômodo e fui olhar a data, o que para mim durou meses lá, correspondia apenas a um dia na Terra. Guilherme Casiano Bordignon / 1º Ano EM

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Rang Em meio à Savana, numa expedição de resgate a animais em extinção, eu e minha equipe encontramos uma espécie animal jamais vista, um tipo de raposa laranja com as pontas das orelhas e rabo azuis. Cláudio se aproximou dele lentamente, estendeu a mão para o animal e abaixou a cabeça em sinal de respeito. O animal, para nossa surpresa, mostrou-se muito agitado e brincalhão, não queria ferir ninguém. Logo começou a subir em toda nossa equipe e nos mostrou um objeto: era um boomerang. Ele brincou muito com aquilo, ficamos fascinados, uma espécie nova, e parecia ter convivido conosco a vida toda. Trouxemo-lo para nosso laboratório para passar a noite e, no dia seguinte, voltaríamos para lá para tentar encontrar mais deles e conseguir aprender mais sobre eles. No outro dia pela manhã, voltamos ao laboratório e estava tudo devastado. Era como se um furacão tivesse passado por ali. Todos os estudos foram perdidos, todas cobaias mortas, apenas um tufo laranja podia ser avistado dali. Chegamos mais perto e vimos, era nosso animal. Ele estava em sono profundo. Tentamos acordá-lo, mas não conseguimos. Pensamos que ele estivesse morto, mas checamos o pulso e os batimentos estavam normais. Então jogamos um balde com água fria nele. Dessa vez ele acordou, e parecia furioso. Seus músculos começaram a crescer, estava se tornando o King. Seus caninos inferiores se tornavam gumes, o pelo laranja passou a ser vermelho e seu tamanho, que devia ser meio metro de altura, tornou-se quase 3 metros. No final de sua transformação, soltou um urro ensurdecedor. Todos nós ficamos pasmos, algo que nenhum de nós havia presenciado antes na vida. Em seguida, corremos em fuga para nossos carros, e ele nos seguia enfurecido. Alguns quilômetros adiante, notamos que ele havia desaparecido, e chamamos os bombeiros e a polícia para deter esse monstro. Quando os homens chegaram, pediram onde o monstro estava. Dissemos que estava em direção ao nosso laboratório. Seguimos em direção quando Flávio disse que algumas árvores haviam sido derrubadas há pouco tempo. Fomos à trilha das árvores. Os oficiais se espantavam com o tamanho das pegadas. Chegamos ao final da trilha: todas as árvores intactas, nenhuma pegada. Olhamos ao redor, não vimos nada. Resolvemos nos agrupar em duplas para continuar nossa jornada. Cada um foi para um lado. Eu e o xerife seguimos ao norte. Ouvimos gritos nos chamando. Fomos até lá. Era Cláudio e outro oficial, eles encontraram aquele animal meio raposa que havia se transformado naquele terrível monstro.

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Ele estava dormindo. Dessa vez não o acordamos, apenas o levamos para outro laboratório na capital. Lá, fizemos experimentos. Era um animal que, quando ficava irritado, transformava-se em um terrível monstro. O nomeamos de Rang, por causa de seu boomerang que nunca soltava, e quando virava aquele monstro, acrescentamos um mega na frente, tornando-se o Mega Rang. Encontramos mais deles por lá e fizemos uma arena, para eles lutarem até o outro virar Mega. O vencedor seria aquele que conseguisse ficar mais tempo sendo apenas um Rang. Isso trouxe mais dinheiro para o estado e alegria ao povo, e todos começaram a amar os Rangs. Pedro Renato Cavalcante Guilherme Gottems 9º Ano

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Os sentimentos de um novo planeta Estava eu tranquilo em minha espaçonave, junto com minha tripulação. Encontrava-me nas barracas (alojamentos), arrumando-me para a minha primeira missão. Usava apenas uma calça e carregava duas armas de fogo. Por ser um sayajin, eu tinha muitos pelos no corpo e também um rabo. Parecia um animal, exceto pelo fato de ser bípede. Não tinha pelos no rosto, mas o cabelo era enorme e pendia sobre meus ombros. Procurávamos planetas para colonizar, já que o nosso planeta se encontrava em uma situação desagradável: falta de alimentos, falta de água, muitas guerras e excesso de população. Pela necessidade de sobrevivência, nossa tecnologia melhorou muito em pouquíssimo tempo. O planeta ideal era o 237-Mars-13º. Ele é bem vermelho e inóspito. Havia outro bem próximo, que era o 236-Earth-13º, mas era habitado por gigantescas criaturas não muito simpáticas. Ouvi um som, alto e irritante e vi uma luz vermelha. Essa combinação significava apenas uma coisa: perigo. Nas caixas de som espalhadas pela nave, ouvia-se o capitão falando que estávamos sobre ataque dos yordles, pequenos seres roxos e de cabelos brancos, cuja personalidade era irritante, e que frequentemente se mostravam muito furiosos. Subi para a área de defesa da espaçonave. Cada soldado tinha sua posição e arma específica. Hotafok era a minha arma, ela disparava rajadas de projéteis. No momento em que destruí um veículo de locomoção inimigo, senti um tremor, seguido por gritos de terror, e corri para a sala de controle ver o que havia acontecido. O comandante balbuciava “é o nosso fim, os danos sofridos pela nave prejudicaram os sistemas de locomoção e navegação”. Iríamos cair no planeta 234-Earth13º. Começava a pensar em toda minha família, meus amigos, minha casa, e em como não poderia fazer nada para mudar isso. Lágrimas escorrem em meu rosto, pensei em como era meu lar, na expressão de felicidade que meus familiares teriam se essa missão tivesse sido bem-sucedida. Seria a primeira vez que iriam sorrir em anos. Ouvi o barulho da explosão, era o meu fim. Quando abri os olhos, meu transporte estava todo destruído, havia corpos em todos os lados. Percebi que era o único vivo. Quando abri a porta, não vi nada, apenas um branco sem fim. Infinito. No momento em que encostei o pé naquele vão imaculado, um pedaço de solo surgiu, o que continuou acontecendo conforme caminhava. Minha raiva e frustação eram tantas que eu não conseguia parar de correr, até que me deparei com a nave. De tanta fúria, usei meus poderes para criar a maior montanha, para jogá-la longe de mim. Criei os maiores oceanos apenas

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com minhas lágrimas, construí os polos com a frieza provinda do meu coração e os desertos para liberar a tristeza que havia me atingido. Pamus Henrique Backof 1º Ano EM

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Cidade em chamas Procuro me mexer, esforço-me incansavelmente de todas as formas possíveis para me acalmar, mas não consigo. Estou preso em algum lugar tão obscuro quanto as noites; tão silencioso que a única coisa que consigo escutar são as vozes soando em minha cabeça. Porque estou aqui? Onde eu estou? Como fui parar aqui? O que fiz para estar aqui? Infinitas perguntas sem resposta. Não vou contar a história da minha vida, vou contar o que aconteceu para eu estar aqui. Sou um cara normal, à procura de uma vida normal, mas não pensei que seria tão difícil ter um emprego ou muito menos uma casa. Eu, para início de conversa, tive uma infância muito imprestável, também sou uma pessoa muito impaciente, não aguento ficar horas e horas na frente do computador procurando casas ou falando com pessoas que nem conheço para arrumar um trabalho. Sete de setembro, acordo com minha cabeça latejando e uma forte tontura, mal consigo me levantar e me lembro de que tive um sonho no qual minha mãe, já falecida, me fala: _Não faça isso, meu filho, você vai acabar se dando mal! Não entendi, mas segui em frente. Esse era o dia da minha primeira entrevista de emprego, não me aceitaram. Passaram-se cinco dias e nada, a única coisa que as pessoas me falaram foi que o meu currículo era uma droga e que eu nunca conseguiria um emprego com isso, se eu não fizesse algo a respeito. Isso me deu tanta raiva que me fez explodir. Passei a noite inteira pensando em alguma coisa para melhorar meu currículo, mas nada veio em mente, só uma ideia inútil de roubar. Foi aí que eu fui um idiota. Quem pensa em roubar um banco para melhorar a vida? Bem, muita gente, mas no meu caso? Fui um completo idiota. Enfim, tive essa ideia e segui com ela. No dia quatorze de setembro, meus planos já estavam prontos para roubar o banco mais famoso dos Estados Unidos, o JPMorgan Chase. Era quase meia-noite, resolvi pegar meus materiais e arrombar a porta traseira do banco, passei pelos alarmes e cheguei ao cofre facilmente. Consegui achar a chave e abri-lo. Foi quando vi pilhas e pilhas de dinheiro e pensei ''Estou rico!'', mas aí me veio à mente o que minha mãe havia dito naquele sonho. Fui um babaca em não tê-la escutado. Minutos depois de eu ter roubado quase 200.000 dólares, um segurança veio correndo para cima de mim. Não sei como, mas saquei uma arma da minha mochila e atirei bem no centro da cabeça dele, fazendo com que seus miolos explodissem e saíssem de sua cabeça em alta velocidade. Com isso, tive uma forte tontura, talvez por causa do ocorrido, mas a partir desse dia, não sei como vim parar nesse lugar horrível. Não sabia

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há quanto tempo estava aqui, mas me lembrei do que minha mãe havia falado, será que ela sabia o que iria acontecer? Mas como? Estava muito cansado para pensar naquele momento, então resolvi dormir. Peguei no sono, quando alguém parecia estar abrindo uma porta. Olhei e vi uma figura muito estranha se aproximando. Comecei a gritar, mas nada saia da minha boca, nenhum som nem nada. Olhei em volta, tudo escuro, mas à minha frente, uma criatura medonha com um roupão preto e uma foice se aproximou. Eu não acreditei no que vi. Pisquei várias vezes para ver se aquilo que estava vendo era verdade, e era. A Morte estava a um metro de mim e começou a falar com uma voz horrenda: _Eu o ajudei a escapar da polícia, a não ser culpado por assassinato e a não passar o resto da sua vida em uma prisão. Porém, tudo tem um preço. _O q...que eu t...tenho que ff...fazer? -Falei. _Dê me sua alma em troca da morte! Sua vida já está destruída mesmo! _Mas... _Você morre! Você desce lá e não volta nunca mais, não vai ser como sua mãe, meu caro. Se você quer saber, é isso que acontece quando você negocia com a morte! Mas não foi tão ruim assim. Eu estou dormindo em um sono profundo e não doeu nada! A Morte me falou que tenho ainda dez minutos de vida. Minha cabeça está tendo sonhos maravilhosos antes de descer para aquela cidade em chamas! Em alguns segundos de vida, minha mãe apareceu, e disse: _Eu o avisei! Isabel Muller Simões da luz 9º Ano

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Espelho, espelho meu Eu só queria sair daquele lugar. Tudo, simplesmente tudo, enojavame. Em geral, o aspecto era medonho. O cheiro era forte como gasolina. As paredes chumbo eram infinitamente compridas, mas, lá de baixo, eu ainda conseguia ver pequenos pontos brilhantes no topo, que me pareciam ser estrelas. Queria que fossem. Sempre preferi o frio, mas não aquele frio que congelava até a alma. Por sorte, eu estava de pijama, um velho, cheio de bolsos, presente singelo de minha avó. Por um tempo me mantive aquecida, porém nada me isolou de sentir cada movimento do vento gelado em meus lábios molhados, cabelos e nuca. Pareciam sopros, causavam-me arrepios. A dúvida esteve ao meu lado o tempo todo, como um anjo da guarda, ou uma sombra. Eu queria entender o que fazia ali. Um motivo, uma resposta... Talvez nem houvesse. Cansada, mas ao mesmo tempo esperançosa, resolvi sentar naquele chão tão sujo e solitário. Acabei dormindo. O chão já não era mais sozinho, ele tinha a mim. Fui acordada por sussurros que em questão de segundos se tornavam gritos, mais altos do que os de uma criança fazendo birra. O pior de tudo é que os gritos clamavam por ajuda e eu nem se quer sabia de onde eles vinham. Vasculhei a sala toda, dezenas de vezes. Os gritos pararam, mas eu não. Precisava compreender. Tinha certeza de que não era coisa da minha cabeça, minha intuição sempre foi certeira e astuta. Aquele escuro continuava me atormentando. A junção dele com o frio e a busca sem fim pelo porquê dos socorros misteriosos me desanimavam. Chorei por horas, mesmo sem ter noção de tempo sabia que haviam sido horas. Os gritos surgiram novamente e, dessa vez, mais próximos de mim. Não digo próximos como se estivessem na minha frente, mas, sim, dentro de mim, dentro de um bolso, talvez grudados em minha pele como tatuagem. E foi lá que os encontrei. Ao passar as mãos tímidas por minhas pernas já cansadas, senti em meio a tantos bolsos do pijama, um volume um tanto quanto estranho, curioso, anormal. Deparei-me com um pequeno espelho, do tamanho de uma foto 3x4. Os gritos se multiplicavam toda vez que eu me via nele. Eu estava diferente. Meus olhos grandes e chamativos perderam seu brilho. Sua cor, que antes era suave como mel, agora era fogo, ardente. Eu me via alvíssima como a neve e me encontrava mais confusa que uma fórmula matemática. Continuava intrigada com os gritos, que me tinham como motivo, e horrenda pela minha nova aparência. Após muito tempo me admirando, ou melhor, estranhando-me, finalmente concluí a real razão e significado daqueles gritos. Eu era o

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meu maior medo, o meu “eu” me assustava. E isso não acabaria até que eu me vencesse, ou até que aquele espelho se quebrasse. O certo é que ele nunca quebraria, porque eu, definitivamente, preferia mil vezes correr de mim mesma a ter de me enfrentar por inteiro. Revérbero de si. Isadora Boff de Marco 1º Ano EM

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Por que eu? Logo vi que ali começava meu novo pesadelo. Eu bati na porta, tentei abrir, mesmo sabendo que eu teria que encarar, eu tentei fugir. Quando eu percebi que não sairia dali, virei-me para ele e o chutei, na tentativa de mantê-lo o mais longe possível de mim, mas parecia que ele não se feria. Ele batia com o corpo todo na parede do elevador e, mesmo assim, voltava a andar em minha direção como se nada tivesse acontecido. O pior é que eu nunca tinha visto algo do tipo e nem parecido. Quem espera encontrar repentinamente um monstro com dentes na mão que se parecem como uma planta carnívora? Ninguém está preparado para uma situação como esta. A porta do elevador bruscamente se abre. O percurso entre o primeiro e o sexto andar nunca fora tão longo. Eu saí de costas para que pudesse manter minha visão nele, o que naquela situação parecia ser o melhor a fazer. O que as suas mãos, ou talvez garras podem fazer ao tocar em mim eu não sei ao certo, mas estava claro que boa coisa não seria. Comecei a correr pelo corredor do prédio e me parecia não ter ninguém para, pelo menos, abrir a porta para mim, porque, se eu parasse um segundo para abrir a minha casa, com certeza eu não estaria aqui hoje. Eu corri o enorme corredor, e o mostro parecia só ficar mais rápido. Sua aparência verde e com pele de lagarto não era o que mais me assustava. Era perturbador como aquele simples vizinho que entrou comigo no elevador tinha se tornando aquele bicho enorme em um dos meus piscares de olhos. Meu prédio era grande demais para conhecer todos, quase 150 apartamentos e eu já nem estranhava mais pessoas desconhecidas no elevador e aquele foi igual, isso não me chamou atenção. No final do corredor, eu, desesperada e exausta da correria, entrei na escada de emergência e desci correndo, mas eram enormes, longas eu iria demorar muito para chegar a portaria e, quando olhei para trás já não estava mais lá a criatura que tinha passado pela porta me perseguindo. Eu desci e esperei um pouco na portaria para ver se nada me acontecia, enquanto permaneci calada sobre o acontecimento, claro que seria chamada de louca, iriam me falar “foi só uma alucinação senhorita Gomez”, e eu sabia que não. Por sete meses venho lendo sobre o mundo “surreal” e tentando entender que criatura era aquela e o que ela queria comigo cheguei a alguns nomes e o mais semelhante é um espécie denominada Kanima, um bicho que tem como propósito vingar-se dos odiados de seu mestre e só para com a morte da vítima, ou com o perdão de seu mestre ao indivíduo, mas justo eu que era muito simpática com todos ao meu redor nunca entenderei quem me desejou isso. De qualquer modo, eu sobrevivi, creio

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que fui perdoada e nรฃo corro mais perigo, deste acontecimento sรณ restam perguntas que nunca saberei responder. Isabella Muller Buligon 9ยบ Ano

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Arabella “O horizonte tenta, mas não é tão agradável aos olhos quanto Arabella” – Arctic Monkeys Meu corpo treme. Através da janela imunda eu a vejo. Aquela que, mesmo sempre presente em meus devaneios, nunca esteve em minha vida. Quando isso chegará ao fim? Arabella pode ter cutucado sua alma e mente, e você nem ao menos saberá, até que seja irreversível. Preciso tê-la. Não posso tê-la. Encaro a pouca mobília que ainda resta intacta a minha volta. Tudo aqui é pútrido, inclusive eu. Por que estou vivo? “Não mereço sua empatia, sua misericórdia”, penso, enquanto procuro por meu escape. Jaz em minhas mãos a única chance de sentir suas curvas esculturais, seus cabelos negros, seus lábios pálidos e rachados. Tudo em minha vida se foi. Só me sobram restos daquilo que ainda me mantém vivo. Estendo meu braço e apanho a seringa. Despejo todos os cristais no topo de uma colher, que perdera todo seu brilho devido às chamas. Tão belos, límpidos. Poderiam ser verdadeiros diamantes. Ao invés disso, são a única coisa que proporcionam o que me foi negado. Felicidade. Amor. Até mesmo conforto. “Essa quantia vai matá-lo”, meu bom senso dizia. Meus olhos se reviravam em indignação. Não tenho nada a perder. Com as mãos gélidas e trêmulas, transfiro o conteúdo da colher, que derretera com finesse, para a seringa. Amarro o torniquete em meu braço. Euforia. Meu organismo sabe o que está por vir. O arder da leve picada antecipa o inexplicável sentimento que virá. Respiro fundo e deslizo a agulha para fora de meu braço. Já não sinto mais dor alguma. Junto com a tristeza, minha visão se vai, e, gradualmente, perco o controle de meus membros. Afundo nos ásperos lençóis, outrora brancos. A nítida imagem dela surge. Sua presença em minha vida era indelével, mesmo eu ela não soubesse de minha reles existência. Quando abro os olhos, ela está ao meu lado, e, progressivamente, tudo ao meu redor é lançado aos ares. Levantada, nua em meio à imensidão branca, seus lábios são como as bordas da galáxia. Inalcançáveis. Seus pés são engolidos pelo solo, seguidos pelo resto de seu corpo. Corro até a ranhura deixada por sua passagem e mergulho. Sem medo. Sem receio. Ela é tudo. Não posso deixá-la ir. A queda é breve. Arabella flutua abaixo de mim. Estou suspenso por algo invisível. Ela parece estar presa, querendo ascender até onde estou. Ela me ama. Eu sei que ama. Cor nenhuma se encontra à vista. Apenas eu e minha amada. Separados por coisa alguma, mas, mesmo assim, afastados. Sempre afastados.

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Meu organismo explode em chamas. Ainda que despedaçado, sinto-a. Ouço risos e esforço-me para levantar. Não sei onde estou. Não conheço nada, mas o nada parece me conhecer, pois sinto que tudo ao meu redor segue meus passos. Os galhos, que não assumem coloração alguma, deveriam andar com o vento, mas, estão me acompanhando. Avisto um belo homem segurando meu amor em seus braços. Não posso permitir tamanho absurdo. Não em minha cabeça. Enquanto corro, deixando que minha fúria imirja no solo, ouço o farfalhar das folhas me escoltando. Ao me aproximar, percebo que aquele homem sou eu. Não. Eu seria ele, se minha vida tivesse sido menos pungente. O sujeito, que tinha minha feição, usava um terno composto por minúsculos insetos, indistinguíveis, tais quais a alegoria de Kafka. O sorriso em seu rosto brilhava com as luzes intensas provindas das várias estrelas que iluminavam o céu, adjacentes ao sol. Os insetos em seu corpo correm para todos os lados quando eu ameaço me mexer. Embaixo das criaturas, jazia um corpo descortiçado, revelando um coração completamente exposto à Arabella. O homem, cujo corpo se desintegrava em exorbitante velocidade, viu sua cabeça flutuar, e subir aos céus como Jesus em sua ressurreição. Pisquei, e me encontrei atrás daquela que considerava a mais deslumbrante mulher que já vivera. Estendi meus braços e a envolvi, descarregando toda minha paixão em um único abraço. Arabella voltou-se a mim, mas seus olhos não eram mais seus. Sua boca já não delimitava a galáxia. Seu corpo não era mais composto por voluptuosas curvas. O que eu havia feito? O espanto toma conta de mim. Meu coração acelera e as lágrimas correm por meu rosto. Empurro-a para o chão, tentando afastala de mim. Desobedecendo todas as leis da física, minha musa, ao invés de cair, se juntou ao meu clone, cuja cabeça subira aos céus. Ranhuras no chão, que são capazes de engolir homens, imensidões brancas, onde se pisa no nada, árvores que não assumem cor alguma e cabeças que ressuscitam à realidade, assim como Jesus não são surreais, se comparadas à ilusão de que Arabella, de beleza imensurável, poderia, por um segundo sequer, amar-me. A.M. Julia Bellei 1º Ano EM

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Estranha realidade Ele me disse. Disse que eu era a pessoa mais especial para ele. Disse que jamais me abandonaria ou me deixaria aos prantos. Ele me disse. Tinha pouca idade para ser homem, mas muita maturidade para ser criança. Seu nome era Dimitri. Seus olhos e suas madeixas assemelhavamse à escuridão, sua pele e suas orelhas-asas eram tão brancas quanto leite gelado. Dimitri, 17 anos de idade, sedutor, pálido, órfão. Concebido como reizinho do reino de Atacã, ainda não sabia a causa da morte de seus pais. Procurou por uma resposta, ou até mesmo um auxílio em todos os vales. Nada encontrou. Passou por lagoas rosa. Escutou risadas escandalosas e sentiu o cheiro de eucalipto com uma pitada de amendoim, mas o que mais lhe chamou atenção nessa jornada foi uma porta. Tão simples quanto uma margarida, mas com o mesmo valor de uma orquídea. De madeira envernizada, com uma gelada maçaneta. Encantou-se. Ao encostar-se na porta, Dimitri sentiu algo que nunca teria sentido antes. Remorso. Olhou aos céus, e pediu a sua guardiã: - Apesar de tudo, você, Ozélia, nunca me deixou sozinho, acompanheme a qualquer lugar aonde essa porta me levar, suplico, e, quando eu mais precisar, dê-me um apoio. Fechou os olhos, contraiu seu abdome, abriu a porta. O que aconteceu naquele momento foi surpreendente, mágico. Luzes, uma explosão de aromas leves, porém marcantes, sons ensurdecedores. Dimitri desmaiou. Acordou. Levantou-se da maca, olhou ao seu redor. Tudo era branco, as paredes, o teto, sua roupa. Passou a mão em suas orelhas. Onde estavam as suas asas? O que estava acontecendo? Dimitri, por um momento, viu a porta se abrir, e dela saíram raios de luz e uma esbelta mulher. Ele desmaiou novamente, mas, desta vez, não foi Dimitri quem acordou. José Teixeira, 17 anos de idade, filho único. Acordou em sua cama. Olhou-se no espelho, seus cabelos pretos bagunçados, seus olhos azuis e sua pele branquinha o deixavam tão sedutor. Estudava de manhã e trabalhava como menor aprendiz no período vespertino. Por mais cansativo que fosse, adorava seu cargo de auxiliar. Caminhando em direção à pensão onde morava, ouviu uma voz gritando pelo seu nome desesperadamente. Por mais que achava loucura ouvir vozes, jurou que tais aclamações teriam vindo de dentro de si. Ao chegar a pensão, deitou em sua cama, fechou os olhos e ouviu a voz novamente:

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- Não desista, você encontrará uma resposta. Não se esqueça de quem você realmente é. Volte, Dimitri! Que voz era aquela? Quem era Dimitri em que a voz tanto aclamava? Cada vez mais confuso, percebeu que a voz vinha de seu armário. Sem medo, abriu-o. Desapontado por não ter nada além de roupas velhas guardadas, deitou em sua cama novamente, e, ao olhar para o teto, lá estava a voz. Eu mesma. Ozélia! Guardiã de Dimitri, que sempre o acompanhei. Assustado com a minha aparência de metade mulher, metade luz. Recuou. José estava confuso, perturbado, curioso. No meio de toda aquela tensão e pensamentos, teve um flashback da sua verdadeira identidade. Dimitri José Teixeira, 1 metro e 75 centímetros de altura. Filho único. Perdeu seus pais em um dia de inverno. Entrou em prantos. - Acalme-se Dimitri, um dia você irá encontrar o caminho de volta para casa. – Disse suavemente Ozélia. - Mas como? Diga-me minha guardiã, como voltarei para casa? – Suplicou Dimitri José. - Apenas, siga seu coração. – Nesse momento, Ozélia desapareceu em uma explosão de brilho solar, e consigo, levou a memória de Dimitri, o deixando apenas com as vagas memórias de José Teixeira. Pinkcórnio Solar Julia Eduarda Zonta 1º Ano EM

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A saudade do medo Perto dela, um frio tremendo. No sopro da brisa gelada, apenas me passava a angústia do medo, mas, afinal, por que eu não queria sair de lá? Com o passar do tempo, fui me acostumando com aquele rosto retalhado, olhos pretos que não deixavam escapar nenhum vulto, pele branca, quase mesmo transparente, e aquela roupa longa, vermelha e sem estampa, que ela usava. Em um piscar de olhos, estávamos em um lugar nunca visto por mim. Ela tinha o dom de me guiar para onde quisesse, porém esse local era diferente de todos os outros. Havia paredes escuras com algumas ondulações semelhantes ao brigadeiro mal feito que eu comera na noite anterior, pequenas manchas no chão com vestígios de pegadas, que aparentavam estar lá a mais tempo do que eu imaginava e um vazio. Somente eu e ela naquele corredor sem fim e sem começo. Queria poder me comunicar com ela, aquela cara de espanto que me encarava demonstrava querer falar algo que eu ainda não tinha descoberto. De todos os cantos pelos quais passamos, esse era o que mais chamava minha atenção, talvez por ser o único que me trazia medo, mas, mesmo sem saber onde estava, o sentimento era de saudade. Aparentemente, o tempo desse ser ainda não identificado passava de uma forma diferente do meu, pelo fato de parecer mudar de humor a cada minuto e se perder constantemente. Aquela mudança rápida de cenários me dava uma leve dor de cabeça. Contudo, eu aceitava, meu instinto me dizia que ela não iria me ferir. Buscando respostas para toda essa possível ilusão, encontrei-me em um sofá antigo que cheirava à criança, em uma casa velha o bastante para guardar muitas histórias nos cômodos e móveis bem usados. O cheiro de café passado me atraiu para a cozinha que era pequena, porém confortável, havia umas panelas em cima do fogão e algumas louças molhadas no escorredor. Ao me deparar com aquele armário branco, com alguns puxadores quebrados, creio que comecei a ficar ciente de onde me encontrava. Eu tentava chegar perto dela, mas algo que eu desconhecia me impedia. De longe, ela parecia ser grande, de perto, pequena comparada a mim. O rosto retalhado me chamava tanta atenção que, aproximandome, tive a surpresa de saber que era de madeira antiga, e que seus olhos pareciam ser um buraco sem fim. Não me contive e a toquei, e ainda que por um instante me encontrei. Por qual motivo ela me trouxera até aqui? Se queria me relatar algo, agora já tenho certeza do que era. De repente, um calor tomou conta do

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meu ser, reconfortando-me e me trazendo uma agradável sensação de energia. Em questão de segundos, já havia entendido quem era. - Como não desconfiei? Lili! Joguei-me a seus pés com uma esperança renovada, pensei que nunca mais teríamos contato, a não ser quando chegasse minha hora de partir. Lili sempre foi tão doce, que jamais a imaginaria nesse estado de mulher. Quando se foi, anos atrás, sua ingenuidade de criança era tanta que parecia ser um anjo do céu, escondido em minha irmã caçula. Todavia, agora entendo o porquê de vê-la, seu objetivo era só tirar minha angustia e cessar minha dor. E até hoje, toda vez que quero revê-la, entro em meu mundo dos sonhos. Juliana Finardi 1º Ano EM

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Delirium Finalmente, ele parou. Finalmente. O silêncio é tão agradável quanto o cheiro de um campo de lavandas. Sei que não durará muito, ele vai voltar. Ele voltará, com seus sussurros irritantes que me induzem a fazer coisas que não quero. E eu realmente não sei o que é pior. Não sei se é pior estar sob seus domínios, ou ter a consciência de estar presa em um lugar como esse. Sempre que minha lucidez volta, fico atordoada, porém, estou me acostumando com a sensação. Agora consigo ver detalhes do ambiente que antes não conseguira. As paredes não têm janelas ou portas, apenas uma pequena saída de ar no teto, que, com certeza, não conseguirei alcançar. Tudo está muito claro, as paredes são revestidas de leds de cima a baixo. O teto é composto por muitos espinhos, e o chão é feito de um material - que ainda não identifiquei negro como um breu. Notei a presença de uma caixa fosforescente no canto do recinto e me aproximei. Quando peguei o pequeno cubo com uma fechadura em minhas mãos, elas queimaram. Soltei um grito agudo de dor, tropecei em meus próprios pés e caí no chão. Arrastei-me assustada para o lado oposto da sala e deitei em posição fetal. O que está acontecendo comigo? Porque estou presa em um lugar assim? Perguntas vêm à minha mente toda hora, mas não encontro respostas. Não lembro quem sou, nem como cheguei aqui. Apenas sei que ele vai voltar, e sinto que não demorará muito. A dor pulsante das queimaduras em minhas mãos continua. A cada minuto que passa, sinto que ele está mais perto. Ele está chegando. E está mais perto do que eu gostaria. Gritos estridentes invadem a minha mente. Coloco as mãos em meus ouvidos, na tentativa de abafar o som. Mas de nada adianta. Ele está aqui dentro, eu sinto. Repentinamente, os gritos cessam e risadas começam. Risadas agudas e debochadas, que demonstram gostar do sofrimento que estão causando. Eu tento gritar e implorar para que me solte, mas ele não escuta. Ele faz com que eu me debata, e bata em minha própria cabeça, mas eu não quero isso. Grito inúmeras vezes para que ele me deixe em paz, mas é em vão. Subitamente, vejo-me ao chão, arrancando meus próprios cabelos. Sinto a dor cortante dos fios sendo arrancados por minhas próprias mãos e grito incessantemente para que ele saia. Mas ele não quer sair. Ele para. Imobiliza-me. Estou estagnada no chão. Agora ele está sussurrando, mas eu me recuso a ouvir. Estou gritando histericamente, como nunca antes. Pareceu adiantar, porém ele também começou a gritar. Berros de uma voz maléfica. Ele está vociferando palavras em uma língua distinta, que

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estranhamente estou entendendo. “DESISTA, DESISTA, DESISTA”. A voz ricocheteia em minha mente, e, então, a sessão de tortura recomeça. Quando os sussurros começam novamente, eu me permito ouvir. Então, olho para o teto espinhoso que me causa calafrios, e espero. É quando percebo que uma fumaça negra de olhos brilhantes como diamantes está sobre mim. Ele solta uma daquelas gargalhadas maliciosas que eu bem conheço. Fecho os olhos e sinto meu último resquício de vida se esvair. Psicose Laura Branco Klauck 1º Ano EM

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Morena de tinta

Coragem minha abandonar sentimentos antigos já confortáveis para tentar me aventurar no impossível jogo do romance perfeito inexistente. Talvez porque nela haja um recolhimento e também porque na pobreza de corpo e espírito, eu que quero sentir o sopro do meu amor, por mais miserável que seja, em alguém que também me deseje. É porque eu acredito. Em quê? Não é preciso acreditar em alguém ou em alguma coisa – basta acreditar. Isso me permite a graça. Nunca perdi a fé, mas me permiti indagar e questionar: por que existe algo ao invés de nada? Também não é preciso decifrar, às vezes é preciso se consolar com a ideia que as coisas nem sempre conseguem ser explicadas, como o amor. Para mim, a pintura era uma maneira de conseguir esse consolo. Proponho que não será complexo o que escreverei, uma palavra pelada ao ponto de talvez abranger a possibilidade de infinitos caminhos a serem trilhados pela imaginação de cada indivíduo que leva em conta sua personalidade, valores e caprichos. Peço que encarem minha tela de modo a interpretar uma história a ser percorrida por um único objetivo, suas características podem ter um significado, e deixo isso por conta da sua imaginação. Margarida era a sujeita, a morena mais linda que eu já vi. Cego de amor, mergulhei no meu quadro de tinta à óleo para tentar traduzir meus sentimentos. A tela era um campo de lavanda. No fundo dele, havia uma cabana pequena e charmosa que me chamava por alguma surpresa. Fumaça saia pela chaminé, acredito que o fogão à lenha estava aceso. Peguei a bicicleta lilás que havia a meu lado e pedalei até ela. Quando lá cheguei, a maçaneta tinha recém sido pintada, se eu encostasse nela a destruiria. Como entraria ali? Subitamente, uma música de Jazz transbordava pelas frestas do engenho atrás da cabana. Abri a porta com muito esforço e avistei o saxofone suspenso no ar, sem o prazer da presença de um músico. Corri para alcançá-lo e dei o primeiro sopro, um grito agonizante se fez. Olhei para dentro do instrumento procurando o erro, quando me deparei com 30 mulheres com as mãos acorrentadas. Meu olho se desprendeu de meu rosto e rolou por todo o sax, esmagando todos os corpos do caminho, até bater em uma grande porta, que se abriu com o impacto. Meus membros se reuniram novamente. Dados os primeiros passos através da porta, um tambor começou a tocar em perfeita e deliciosa harmonia com uma voz masculina. O lugar, era misterioso, guardava um segredo como o de algum amante. Sorri, e todas as velas do local se acenderam. Era lindo, uma perfeita obra de arte. Ao fim da trilha de velas, estava Margarida,

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com um belíssimo vestido de lantejoulas amarelas. A fenda na perna direita era digna à atenção de qualquer um. Ao fim da música, seus braços e pernas se afinaram e esticaram até se tornarem uma só fita dançante e brilhante, fiquei fascinado. Seus movimentos me conduziram até outra porta, a mesma da cabana. Quando a abri, deparei-me com Margarida sentada em uma poltrona perto da lareira. Linda. Era algo que valia a pena sofrer para conquistar, e talvez para perder. Quando me aproximei para vê-la, desapareceu. Talvez não fosse digno de dialogar ou simplesmente de tocar sua face, mas não consigo evitar o simples ato de sentir o que sinto quando penso em Margarida. Está tão perto de mim, mas ao mesmo tempo tão distante... Talvez seja minha profissão, talvez sejam as minhas tintas baratas que falham em todos os movimentos. Ora secam rápido demais antes de ter uma segunda chance de repensar, pensar, e agir de maneira coerente mesmo feito a partir de uma imagem tão perfeita diante dos meus olhos indecentes. Egoísmo meu, como um mero pintor representar a sublimidade mais pura? Ora secam muito lentamente, me afastando de minha amada, me impedindo de aquietar minha ansiedade e expectativa, onde a raiz se encontra no centro de um labirinto de vícios e dúvidas no meu inconsciente, que vão continuar intocáveis sem ela. Cacique Letícia Braga Schwartz 1º Ano EM

Ilustração: Vinicius Romancini Conto: Morena de tinta

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Não a deixe sair Acordo-me com um susto repentino. As vozes atormentadoras em minha cabeça cessaram. Olho para os lados e me deparo com as mesmas quatro paredes de concreto maciço que estou acostumada a ver durante longos quatro anos. Do minúsculo buraco que se encontra na parte superior da porta de metal gélida, é possível ver diversas outras portas, escondidas em meio as paredes. Faço um longo silêncio e consigo ouvir as vozes de outros que estão sendo usados como eu. Porém, há muito tempo, não sinto as dores que penetravam meu peito, e as vozes que berravam em minha cabeça finalmente saíram. Dou um breve suspiro de infelicidade, pois as vozes sumiram, mas a que eu gostaria que permanecesse se fora há muito tempo. Ando em direção à pia e me olho no espelho. Observo os meus longos cabelos castanhos e os puxo para ver se ainda estão aí. Não entendo como eles ainda estão na minha cabeça, sempre, quando vejo os médicos retirarem um cadáver de alguma sela, sua cabeça está completamente ausente de qualquer indício de que já houve cabelos lá, além de que todos estão com cortes superficiais completamente visíveis sobre todo o corpo. Felizmente, meu corpo está livre desses ferimentos. Não consigo imaginar o que causaram aqueles cortes. Vou em direção à cama e me sento, subitamente eu o vejo parado em minha frente. Vejo seu macacão laranja com, o número 1739 estampado em seu peito. Como os outros, está completamente careca e com cortes por todo o corpo. "Finalmente você voltou" digo "Já estava começando a sentir sua falta" ele ri e fala "Estive um pouco ocupado, voltei porque está chegando sua hora". E, em seguida, aproxima-se de mim, a cada passo que ele dá vejo sua imagem aparecendo e sumindo repetidamente. "Seu rosto é muito belo" - ele diz, e dá uma longa pausa "Seria uma pena se esses cortes acontecessem com você também". Escuto a aproximação dos médicos. Suas galochas podem ser ouvidas a metros de distância. Repentinamente a porta de metal é aberta, apenas dois entram, eles vestem roupas anti–contaminação. O primeiro carrega uma arma em suas mãos e espera ao lado da porta o segundo entra e vai direto ao meu encontro com uma seringa com um conteúdo esverdeado na mão, que logo é aplicado em meu pescoço. E rapidamente o médico vai ao encontro de seu amigo, e se retiram sem dizer nada. Então volto a conversar com meu 'amigo' que me pergunta "Você não tem medo, ou tem?”. Apenas nego com a cabeça, começando a ficar um pouco tonta. "Bem, eles me disseram que eu não ia sentir nada na primeira vez, mas sempre se sente". Subitamente, minha tontura se agrava e ele some em uma nuvem de poeira. Tento me levantar mas falho. Tento ficar em pé com extrema

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dificuldade e quando finalmente consigo e recupero os sentidos, sinto uma sensação de conforto no meu peito, que está irradiando uma luz intensa acima do número 7084 de meu macacão laranja. Vou em direção à porta, que, misteriosamente, desaparece como ele. Os outros cobaias que, momentos atrás estavam se retorcendo - estão se batendo contra a porta de suas selas, porém seus olhos estão totalmente negros, então escuto a voz dele ecoando na minha cabeça, dizendo "Não deixe essa luz em seu peito sair toda, a não ser que queira ficar como eles". Quando eu vejo a porta de saída escancarada, corro em sua direção, sedenta por liberdade. No momento em que minha mão encosto na maçaneta, tudo ao meu redor desaparece. Não consigo ver nada além da maior e repleta escuridão. Escuto a voz dele surgir e ecoar atrás de mim "Onde estou? O que aconteceu?" – pergunto - "Essa é a minha imaginação. Qualquer coisa que estiver aqui é sua para pegar" - ele dá um breve suspiro e continua "Se existir alguma coisa para pegar...". Pergunto o que fora tudo o que eu acabara de passar, e por que está acontecendo assim. Quem são aqueles médicos e o que querem. Ele me disse como resposta "Eu não sei, não sei se estou vivo ou morto. Nem quem são aquelas aberrações que se intitulam 'médicos'. Todas suas dúvidas logo serão respondidas". Nesse momento, tudo o que passa pela minha cabeça é um turbilhão de pensamentos e perguntas, porém não consigo soltar só uma palavra, até ele recomeçar seu monólogo. "Você é a única com quem pude ter essa conversa em muito tempo. Eu venho tentando descobrir todas as perguntas que tenho, mas sinto que estou morrendo, estou cada vez mais fraco. Eu percorri um longo caminho para chegar até aqui, não quero que tudo isso vá embora comigo" e ele começa a andar em minha direção. A luz no meu peito volta a brilhar mais forte a cada passo que ele dá, e enquanto avança, ele me diz "Não a deixe sair". De repente ele já estava bem na minha frente, a luz do meu peito brilhava mais que um farol, em uma noite sem estrelas, e lentamente, ele aproxima seus lábios dos meus. Ambos fechamos os olhos e ele me deu o beijo mais doce que eu já havia experimentado. Subitamente, todas as minhas dúvidas cessam. Quando abro meus olhos, vejo sua figura sumindo em meio à escuridão e ao esquecimento, e em meu peito, a luz brilha como o sol. Lorenzo Driessen Cigognini 1º Ano EM

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Procurando uma saída Quando abri meus olhos, percebi que estava num lugar estranho para mim. Após perceber que não tinha lembranças dos últimos acontecimentos, tentei me localizar. Havia um corredor, aparentemente, muito grande, uma vez que sequer conseguia enxergar o final do mesmo, era apenas uma reta que parecia continuar até o infinito. Além disso, existiam inúmeras portas posicionadas em cada canto do corredor parcamente iluminado. Um pequeno lampejo de luz chamou minha atenção, e fui em sua direção. Quando cheguei ao local, deparei-me com uma placa com os seguintes dizeres: Hotel de Hilbert; número de quartos: infinitos. De início, não acreditei na placa, mas como não conseguia encontrar o final do corredor, comecei a ter minhas dúvidas. Decidi correr para tentar encontrar algo diferente. Corri até não poder mais, e tudo continuava da mesma forma: portas e mais portas, e nem sinal do final do corredor. Nesse momento, desesperei-me. Pensei por algum tempo, tentando achar lógica na situação, e cheguei somente à conclusão mais óbvia: aquilo era um sonho. Refleti um pouco sobre a possibilidade, mas tudo parecia real demais, e se eu realmente estivesse sonhando, poderia acordar quando bem quisesse, o que se provou impossível após algumas tentativas. Fiquei sentado sobre o carpete empoeirado que cobria o chão, enquanto encarava a tinta bege que descascava pouco a pouco das paredes. Passado o que parecia uma eternidade, percebi que não sentia nenhuma das minhas necessidades mundanas: fome, sede, sono. Isso me preocupou ainda mais, pois aquele hotel simplesmente era surreal, escapava até mesmo das minhas definições mais exageradas de extraordinário. Quando as paredes se tornaram insuportáveis de encarar, decidi agir. A única coisa que poderia fazer naquele hotel maldito era tentar abrir alguma porta. Passei muito tempo empenhado nessa atividade, mas somente a 472° porta se revelou aberta. Quando entrei no quarto, percebi, para meu desapontamento, que era apenas um cubículo, sem absolutamente nada dentro dele. Fiquei um pouco no quarto, mas parecia que a cada instante o lugar ficava menor. Após alguns segundos, percebi que aquilo estava de fato acontecendo, e, se eu ficasse mais tempo lá dentro, acabaria esmagado. Saí o mais rápido possível, voltando para o corredor. Depois de me acalmar, percebi que as paredes tinham sido repintadas: passaram do bege sem graça para um verde forte, pulsante, quase real. Decepcionado com minhas infrutíferas descobertas, voltei a sentar no carpete, que também tinha sido trocado, agora era verde e com uma

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textura que lembrava muito a grama. Como não tinha mais o que fazer, tentei abrir alguma porta de novo. Desta vez, demorei muito mais tempo procurando um quarto que não estivesse trancado. Parei de contar na 547° porta, mas continuei por um bom tempo depois dessa. Já estava prestes a desistir, quando encontrei um quarto aberto. O que eu avistei lá dentro foi exatamente o oposto da última porta: deparei-me com uma floresta, aparentemente muito grande, levando em consideração que sequer conseguia enxergar propriamente a luz do sol, tão densas eram as copas das árvores. No momento em que pisei o solo da floresta, todo o sono, a fome e a sede me arrebataram de tal forma que quase não consegui me manter em pé. Era como se tudo o que eu tivesse deixado de sentir no hotel estivesse me atingindo de uma só vez. Dei alguns passos, mas estava fraco demais; caí no chão e perdi a consciência. Acordei com um mamífero qualquer lambendo minha face. Estava tão debilitado que tentei falar com o animal. Pedi para que ele me ajudasse, e, para minha completa surpresa, ele de fato respondeu. Disse que me ajudaria a encontrar água, e que depois me tiraria da floresta. Afirmou também que eu ainda estava preso no hotel. Depois de ter me hidratado e comido algumas frutas, ele enunciou que era a hora de eu acordar. Confuso, perguntei como o faria, aceitando o fato de que eu realmente estava sonhando. A resposta dele foi enigmática: ele anunciou que eu teria de me lembrar. Refleti um pouco e percebi que teria de me recordar da vida antes do sonho. Esforcei-me imensamente, mas, mesmo assim, não consegui me lembrar de nada. O mamífero, percebendo minha dificuldade, pronunciou uma única palavra: o nome da minha mãe. Fechei meus olhos enquanto a onda de memórias tomava conta de mim. Quando os abri, estava no meu quarto, tomado pelo alívio. Estrôncio Antimônio Lucas Leandro Rael Baldissera 1º Ano EM

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O jogo da vida Era dia 11 de junho, um dia tranquilo. Cheguei em casa já noite e deitei-me no sofá. Levantei e fui à cozinha quando vi duas portas no mesmo lugar. Ao abrir uma das portas me deparei com um quarto quase sem luz, iluminado pelo brilho da lua cheia que reinava naquela fria noite. Entrei nesse lugar e, depois de um segundo, a porta se fechou e trancou sozinha. Tentei abri-la inúmeras vezes, mas depois de várias tentativas desisti. Confuso e com medo, fui até o centro do quarto e vi que havia uma caixa, misteriosa, sem escrita nem nada parecido. Abri, na esperança de existir alguma coisa que me deixasse voltar a minha casa, mas, ao abrir, dois dados, um tabuleiro e um boneco se lançaram para fora da caixa. Havia várias casas no tabuleiro, cada uma com um nome, “sobrevivência na neve, corrida mortal, aventura nos céus” eram algumas delas. Sem opção, peguei o dado e joguei, caiu o número cinco, movi o boneco à frente e parou na casa onde dizia “Corrida Mortal”. Em questão de segundos, senti como se tivesse desmaiado e me vi dentro de uma enorme arena, que parecia uma floresta, úmida e grande. Para minha surpresa haviam mais pessoas lá. Uma dela estava acorrentada a mim pelos pés, e assim como eu, extremamente confuso. Pedi a ele o que tinha acontecido e, detalhadamente, ele citou exatamente as mesmas coisas que aconteceram comigo. Sem entender nada, procurei uma porta ou algo parecido no meio da floresta, mas, ao chegar a certo ponto, levei um choque. Havia um campo de força prendendo-nos e separando-nos das outras duplas, que estavam todas isoladas em seus espaços limitados. Examinei e percebi que a arena tinha forma circular, e o caminho de todas as duplas apontavam para o centro. Estava olhando ao redor, quando escutei uma voz absurdamente alta, dizendo o seguinte: - Bem vindos jogadores, sei que devem estar meio confusos, mas já vou lhes explicar o que está acontecendo. Cada um de vocês foi escolhido por possuir medos digamos, inusitados, diferentes, e trouxemos todos aqui para a realização de um grande e divertido jogo. Como puderam ver, cada pessoa esta acorrentada a uma dupla, com a qual deverão permanecer e cooperar durante todo o jogo se quiserem sair vivas daqui. As regras são simples, cada dupla, dentro do seu campo de força, deverá passar pelos obstáculos nos quais estão seus piores medos. Ao passar, chegarão ao centro, que possui um grande botão vermelho. Ao chegarem lá, apertem-no. Somente a dupla que apertar o botão primeiro sobreviverá, as demais serão trancadas até morrerem com seus respectivos medos. Espero que tudo tenha ficado claro, pois em 60

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segundos, o jogo começará. Boa sorte a todos, e que sobrevivam os melhores. Não sabia o que fazer, muito menos o rapaz com quem eu fazia dupla, cujo nome era Thomas Wilfrield. Ainda tentando entender o que estava acontecendo, ouvi badaladas e números no céu, que indicavam a contagem regressiva. A última balada tocou, o jogo tinha começado. Tudo ficou escuro e o cenário, que antes era uma floresta, tornou-se uma sala enorme vazia. Escutei um ruído, vários ruídos. Olhei para o céu escuro e vi que havia um zumbi caindo. Houve um estouro no meio da sala, quando olhamos para lá, havia uma porta altamente iluminada. Corremos para o centro, mas um zumbi caiu na nossa frente. Levei um susto, pois somente sua cabeça possuía carne, seu corpo era um esqueleto. De repente, o chão começou a tremer intensamente, e quando vi, estávamos a uns 120 metros do chão. Thomas suspirou e disse, tremendo, ‘meu maior medo é altura’. O chão ficou muito mais estreito, com uma passagem mínima para a mesa com as armas. Corremos e conseguimos chegar à porta. Ao abri-la, não senti mais o chão. Estávamos na água, no que parecia ser um oceano. Havia uma ilha com outra porta, começamos a nadar em sua direção. Olhei para trás e vi uma barbatana, comecei a nadar rapidamente, olhei pra trás e a vi novamente, mais próxima. De repente, um dragão cuspindo fogo saiu do meio do mar, não era uma barbatana, mas uma escama. Ele nos atacou, tentou nos apanhar, mas não conseguiu. Chegamos à ilha e encontramos um Zumbi deitado no chão, e Thomas, com pressa para chegar na porta, me puxou e não o viu. Ele havia levado uma mordida e viraria um zumbi em pouco tempo. Desesperado, abri a porta e cheguei em uma sala redonda com um botão vermelho no centro. Thomas caiu no chão e comecei a arrastálo. Estava na metade do caminho, quando vi uma porta abrindo, outra dupla havia chegado, ambos ensanguentados e correndo. Joguei-me no chão e consegui apertar o botão vermelho, tudo ficou escuro. Abri os olhos e vi que estava na sala de minha casa, deitado no sofá e com meus dois filhos brincando no tapete. Comecei a andar pela casa, muito confuso, sem saber se as loucuras que vivenciara eram reais ou se foram somente mais um sonho. John Simmons Lucca Tessari Balbinot 9º Ano

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Escuridão de meu olhar Quinta-feira. Nenhuma luz de sol me atingia, e o único rastro dos raios que existiam eram tapados pelas escuras nuvens. Assim como tapavam a felicidade do céu, também o faziam com minha alma. Contudo não apenas a infelicidade me tomava por completo, o ódio era o principal agente. Em parte, esse sentimento teria se originado da morte de minha mulher Lucila. Não poderia culpá-la por me deixar tão cedo. Os cabelos brancos iguais aos meus já sinalizavam que o pior estava por vir desde muito tempo, mas, sem arrependimentos, fazia-o mesmo assim. Curto e grosso, julgava o inesperado e prematuro destino, e isso não me surpreendia, pois esse era meu caráter. Um homem rude e com a pior das condutas, totalmente diferente dela, uma pessoa tão educada, dedicada e recatada. Apesar de minha falta de educação, ela era minha cúmplice em tudo o que fazia, via a rosa branca em meio às pretas no imenso jardim de meu ser. Seu fim era uma melancolia. Retirando os olhos da janela, virei-me para a sala, pequena e meiga, toda pigmentada em marrom e verde, similar às folhas de verbena, a planta que cura, mas que não foi capaz de curar a fadiga que aumentava conforme os anos passavam. Foquei meu olhar rapidamente em meu café. A cor preta se comparava ao escuro sangue que parou de bombear o coração da minha amada. Fechei meus olhos para saborear a bebida quente que raspava em meus lábios, tão pesada como a solidão, a qual conhecia muito bem. Ao abrir meus olhos, tudo apresentava peculiaridade, as paredes tomavam cores vivas assim como os móveis. Inúmeros tons de roxo, amarelo, verde... Através do vidro da rústica janela pela qual vejo o dia passar, passava a ver pouco de meu reflexo. Diferente de antes, meus olhos agora tomavam uma coloração particular, assim como a íris, minha esclera roubava a cor da pupila até que ficassem tão escuros como a cor do manto de quem me tirou a doce companhia. Do outro lado do ambiente onde eu estava, podia ver o quadro inacabado que Lucila pintava antes de ser enterrada, os traços delicados feitos com tinta a óleo, formavam uma estrada empoeirada, árvores pequenas e casas incolores, pois o tempo não a tinha deixado pintá-las. De longe, via uma sombra caminhando de forma peculiar, em minha direção. Conforme andava, percebia que o corpo era todo preto, mas os olhos eram alumiados por algo que não podia identificar. Chegou após alguns poucos segundos, no fim da estrada, e me encarou em choque. Inclinou-se para a frente, tirando o tronco da pintura, e apontou para minha TV onde se encontrava um desenho de olho. Era da cor azul índigo e, conforme tomavam vida, espirravam água para todos os cantos da sala,

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fazendo pequenos lagos ao meu redor. Notei que eram muito similares aos olhos da minha falecida esposa, principalmente em razão dos traços estreitos e enrugados. Tal aspecto não estava presente na mão que agarrava meu braço, não poderia olhá-la diretamente, pois algo me impedia, provavelmente esse era o medo que estava cansado de presenciar, cuja pele era fria como o mais rigoroso inverno, áspera e cadavérica, e que, com muita força acumulada, começava a empurrar meu frágil braço até dentro do olho. Em um piscar de olhos, grande parte dele já mergulhava naquele espaço vazio e úmido. Cautelosamente, encostava nas extremidades do local, até que agarrei algo mole, pegajoso e escorregadio. Notei que a mão não estava mais ali para me impedir, retirei-o daquele local, o objeto era um simples coração, porém sem função, não conseguia persistir no que fazia. Tão fraco, inocente e impotente, jazia. Acordei em um salto, tudo não passara de um sonho. Para me certificar, olhei ao redor apressadamente, então passei a sentir algo estranho em meu rosto. Lágrimas quentes atravessavam minha face, escorrendo com leveza e rápidas como um coiote que um dia eu caçara. Apalpei-as e vi apenas lágrimas obscuras, corri para meu quarto. A força que fazia nas pernas as deixavam doloridas, afinal não tinha idade para me locomover dessa forma. Por fim, dirigi-me ao espelho e me deparei com meu olho idêntico ao do meu reflexo naquele estranho sonho, vazio e profundo. Era como se meus pensamentos tivessem ultrapassado as barreiras entre o real e imaginário. Forcei profundamente o olhar e, por trás daquela escuridão, escondia-se o reflexo do semblante pálido e imóvel de minha amada, sabia que essas visões não parariam até que eu fosse capaz de perdoá-la. TwiggyL Luísa Rodrigues Foppa 1º Ano EM

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A comodidade O tempo era escasso, assim como a força que os debilitados músculos podiam exercer. Cada passo era sentido cruelmente, como se uma caixa de espinhos pontiagudos se fechasse sobre a sua perna. Pelo menos ela estava chegando ao final, mesmo que isso significasse o fracasso. Depois de uma respirada profunda, que provocou ainda mais dor, ela começava a tentar se lembrar de como fora parar ali. As paredes altas e esguias erguiam-se para onde quer que se olhasse, e seu tom enegrecido não ajudava em nada com as memórias. Tudo o que vinha à mente eram curtos flashbacks. Uma festa, com fortes e pulsantes luzes, muita gente, mas apenas corpos sem face ou expressão. Nada estava claro em sua mente. Ela resolveu, então, sentar-se à beirada de um pequeno degrau e encostar-se no pesado balcão de ferro fundido, que parecia estar ali há muito tempo. Nesse momento de calmaria, nossa personagem aproveitou para analisar o cômodo em que se encontrava e pôr as ideias no lugar. De fato, não se lembrava de como havia ido parar ali, mas, a julgar pela mobília antiquada e pela estrutura velha e suja, estava no que parecia ser um sótão, com um telhado irregular e alguns furos nas precárias telhas de barro, que permitiam a passagem do ar, o que era uma benção, constatou ela, devido à completa ausência de janelas. O silêncio estonteante do cômodo a deixava tensa. Podia escutar seus batimentos, que estavam acelerados. Sua respiração havia se normalizado. Passados alguns momentos, ela resolveu olhar o relógio, apenas para constatar que ele estava realmente quebrado. Estava marcando 2h e 40min, mas a luz do sol que entrava pelos furos acima de sua cabeça, mostrava o contrário. Ela resolveu então se levantar, fazendo ranger o soalho. Olhou para os lados, na esperança de que algo tivesse mudado. Nada. De repente, ouvese um baque surdo ao longe. Assustada, ela se vira para a direção do som e percebe vários objetos nada amigáveis vindo em sua direção. Num movimento brusco, que lhe custou o resto de suas energias, ela se joga na direção de um objeto desconhecido, ocultado por um grande pano marrom, na esperança de desviar do que quer que esteja vindo. Mal consegue raciocinar, porém, e ouve-se mais um estouro, no lado oposto do recinto. Mais uma chuva de objetos passa sob sua cabeça. Seus batimentos aceleram mais ainda, e a respiração se torna ofegante, quase que uma busca por sobrevivência, onde já não havia nenhuma. Passam-se cerca de cinco minutos, e nada mais se ouve. Nem o som do coração da pobre garota. Ao certificar-se de que ela estava morta mesmo, o cômodo respirou aliviado. Para seu primeiro dia de trabalho, ele havia surpreendido a

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todos, conseguindo atrair uma jovem garota para seu interior. Normalmente, começa-se com os idosos, que costumam andar desatentos pelas ruas. Ser um cômodo assassino não era nada fácil: um grande trabalho de preparação estava envolvido. Desde provocar a curiosidade na vítima e atraí-la para dentro até se instalar em algum terreno baldio da cidade, o trabalho era árduo, mas bem recompensado. Desde que a divisão de cômodos assassinos fora criada, mais de dez mil já se filiaram à instituição. Eles têm uma aparência convidativa, que instiga a curiosidade de quem os observa. Procuram instalar-se em terrenos baldios e o fazem à noite, discretamente. Eles estão espalhados pelo mundo todo, espreitando humanos que andam desatentos pelas ruas da cidade. Cuidado, você pode ser o próximo. George Baumann Luiz Paulo Baldo Braun 1º Ano EM

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O pior vôo da minha vida Lá estava eu de novo. Como em todas as férias de final de ano, eu e minha família viajamos com destino à praia. Com o objetivo de chegar mais rápido ao nosso destino, resolvemos viajar de avião. Eu, particularmente, adoro, pois é mais seguro, confortável e veloz do que viagens terrestres. Contudo, sempre tenho sonhos muito estranhos quando durmo nas aeronaves e, hoje, vou relatar um deles. De repente, eu estava em um local desconhecido para mim, além de ser um lugar totalmente esquisito. Tudo era roxo, exceto o gramado totalmente negro. O céu era muito denso, assim não era possível ver as estrelas. Andei por muito tempo sobre essa terra até então desconhecida para mim, afim de procurar mantimentos básicos e ajuda em alguma cidade, porém, após muito tempo de caminhada, comecei a sentir sede. Andei mais alguns metros e encontrei um rio com a água bem cristalina. Não pensei duas vezes e fui direto beber o líquido. Mas, logo após a suposta água entrar em minha boca, senti uma ardência, era como se o meu corpo inteiro estivesse sendo consumido pelo fogo. Minha última lembrança foi de estar agonizando de dor. Despertei deitado numa cama, mas não era uma cama normal. Ela ficava fixa na parede, ou seja, na vertical, e tinha um detalhe crucial: ao invés de ter um colchão, era composta por pregos. Tentei me levantar, mas logo percebi que estava amarrado e imóvel. Queria olhar no meu relógio, que estava localizado no antebraço. Depois de muito esforço, consegui realizar a tarefa de grande dificuldade para as circunstâncias em que eu me encontrava. Decepcionei-me ao descobrir que o meu relógio estava quebrado. Percebi, então, a entrada de um sujeito humanoide, medindo dois metros e meio, com a cabeça adormada por chifres de 50 centímetros, focinho de búfalo, patas no lugar de pés, garras ao invés de mãos e cicatrizes pelo corpo inteiro. Ele notou que eu tinha acordado e, posteriormente, soltou as amarras que me prendiam à cama de pregos, que inexplicavelmente não me causava dor e era até mais confortável que o meu colchão de molas ensacadas. Ofereceu-me comida e água. No início, recusei, pois pensava que quase morreria novamente. Contudo, com o tempo, senti a necessidade de me hidratar e nutrir novamente. Depois de me recuperar, tentei conversar com o sujeito que me ajudara, mas parecia que as palavras não saíam da minha boca. Percebi que podia me comunicar com o humanoide em pensamento. Perguntei-lhe como viera parar nesse lugar inóspito. Ele me disse que eu tinha entrado em um transe profundo durante o meu sono na aeronave e acabei

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imaginando todo esse cenário. Explicou-me que tudo era fruto da minha imaginação, que era só eu me concentrar e voltaria para a Terra. Segui as orientações do meu estranho salvador e acordei com minha mãe gritando ao meu lado para que recobrasse a consciência. Reparei imediatamente que havia máscaras de oxigênio por toda a parte. Rapidamente, coloquei uma delas e me preparei para o pior. Perguntei para minha mãe o que havia acontecido, e ela me explicou que houve uma despressurização, mas que agora estava tudo bem. Minutos depois da explicação, o capitão avisou que o problema estava resolvido e que, em breve, chegaríamos ao nosso destino. Porém, eu sabia que alguma coisa estava errada. Em alguns instantes, eu iria descobrir que tinha razão. Estávamos nos preparando para aterrissar e, repentinamente, escutei um barulho muito forte, tal qual uma explosão. Logo percebi que os dois motores do nosso avião haviam explodido e, instantaneamente, senti que estávamos caindo. Agarrei nos braços da poltrona em que eu estava sentado e esperei pelo pior. A última coisa de que me lembro era de estar sendo socorrido pelos paramédicos do SAMU. Olhei para um deles e me lembrei da figura humanoide que me ajudara durante minha viagem mental. Foi a partir dessa lembrança que eu comecei a lutar pela minha vida, tendo a certeza de que sairia vivo e vitorioso dessa batalha. Jebertwon Marcelo Merisio 1º Ano EM

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Pragas tecnológicas Durante o século XIV uma terrível praga afetou toda a Europa. Ela ficou conhecida como peste negra, e tal nome foi dado pois ao adquirir a bactéria surgiam inchações, chamadas pela população de bubões, a bactéria começou a evoluir e esses bubões ficaram negros e se tornaram um indício de morte. Grande parte da população do país foi dizimada, o feudo de Florência, onde eu vivia foi massacrado, e as poucas pessoas que sobreviveram fugiram para outros países. Com dor e medo fiquei. Durante dias, recusei-me a sair de meu quarto, a dor do luto de perder as pessoas que amava me dominava, e a única atividade que pratiquei foi observar aquele pequeno povoado e lembrar-me dos tempos de alegria. As ruas, que antes continham diversas crianças brincando, idosos conversando e adultos ocupados com suas obrigações diárias, encontravam-se desertas. O aroma adocicado de chá misturava-se com o odor macabro de corpos em decomposição. Ao final de mais um dia escutei um grande estrondo, seguido de ruídos. Assustei-me e, imediatamente, fui buscar pela fonte de tais sons. Caminhei pela enorme casa e, ao chegar à discreta biblioteca, que, por ser pouco usada, estava empoeirada, encontrei uma pequena porta em meio às enormes prateleiras. Ela era feita de madeira e continha pequenos detalhes em ferro. A discreta porta só poderia ser notada, caso fosse analisado detalhadamente o local, pois camuflava-se perfeitamente com a cor escura da parede. Lentamente abri a porta, revelando uma estreita passagem, que levava a um estreito corredor. Caminhei cuidadosamente todo o percurso e, ao seu fim, encontrei um homem de pele negra, com uma estatura alta. Seus cabelos negros como a noite, que delineavam perfeitamente seu delicado rosto, brincavam com o vento, o aroma que preenchia minhas narinas era doce como o cheiro delicado das mais belas rosas. Logo atrás dele, na entrada, havia um portão enorme com paredes grossas de aço que realçavam grosseiramente a cor branca do belo portão. Curiosa, fui rapidamente até o homem que com uma expressão de espanto, gentilmente, me orientou a passar pelos portões, o local que existia após as enormes paredes de aço, havia um enorme salão com milhares de pessoas, aparentemente infectadas com a peste, mas elas não estavam abatidas, agiam naturalmente e estavam saudáveis, diversos painéis estavam expostos por todo o local, era algo jamais visto por qualquer mortal, os painéis transmitiam luzes de diferentes tons, que formavam imagens. Os seres ali presentes trabalhavam com agilidade naqueles incríveis aparelhos. Aquelas máquinas mostravam cada criatura viva, e aquelas misteriosas criaturas comandavam tudo e todos. Aquele

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ambiente silencioso, de repente, foi preenchido pelas badaladas de um relógio, olhei rapidamente à minha volta e, encontrei uma enorme cela que continha 3 criaturas horrendas, com asas enormes, aqueles seres eram chamados de fúrias, e eram a alma da peste, elas cortavam a linha da vida, elas selaram o trágico fim da minha adorada família. Com os olhos cheios de lágrimas, vi os seres presentes naquele local organizarem-se e começar a fazer oferendas para as fúrias. Tomada pela raiva tentei atacar a cela onde as medonhas criaturas se encontravam, porém era impedida pelas criaturas infectadas pela peste, depois de incansáveis tentativas vi aqueles estranhos seres, lentamente se voltar para mim. Eles começaram a caminhar em minha direção. Entendendo que morreria se continuasse naquele local, tentei fugir dali rapidamente e corri por um corredor que parecia não ter fim. Ao chegar à biblioteca, tranquei a porta bruscamente. Tive muito medo de ser pega por um daqueles seres. Ofegante fui para meu quarto, durante dois dias fiquei trancada, tentando achar uma solução para restabelecer a vida em meu feudo, de repente senti meu corpo queimar, tudo ao meu redor ficar branco, fechei meus olhos tentando voltar ao normal, mas ao abrir meus olhos me deparei com aquele enorme portão que tanto me amedrontava. E nesse momento, comecei a ser a peste. Agora a morte fazia parte de mim, e eu dela. Blue eyes Maria Cecilia Ranzan Patel 1º Ano EM

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Real Uma imensidão azul... Não. Dois olhos azuis como o céu de meio-dia. Pertenciam à mais bela garota já vista por mim. Cabelos cor de chocolate cascateavam pelas costas expostas pelo vestido branco e emolduravam o rosto alvo e delicado. Os lábios vermelhos se torceram em um sorriso de criança travessa. Então ela se virou e correu. Senti-me levantar e correr atrás dela. Não entendi o porquê de fazêlo. Também não entendia onde estava, mas eu sentia a grama macia sob os pés, e o vento quente e adocicado nos lábios, tudo surrealmente magnífico. A garota pulou um pequeno riacho, cuja água era branca e cristalina. Imitei-a. O desejo de segui-la era inexplicável, quase uma necessidade. Meu corpo não me obedecia quando o mandava parar. E eu tinha a sensação de que o cansaço nunca me atingiria, pois a vontade ridiculamente forte de tocá-la me manteria em movimento. Ela estava a centímetros de mim, quando olhou-me e riu. Tentei tocála, mas a distância se esticou para um metro. Corri mais rápido e o espaço entre nós tornou-se de dez metros. Foi então que parou, sua risada melodiosa ecoou no espaço aberto. Aumentei a velocidade, o caminho se demorando a encolher. Ela olhava na minha direção, mas para além, sorrindo vagamente. Chequei o que havia às minhas costas. Nada além de estonteante normal daquele curioso lugar. Um simples e belo campo verde cheio de flores coloridas e alguns animais peculiarmente abismais. Ao que virei-me novamente, surgia um enorme bosque perante meus olhos. As árvores retorcidas estendiam suas folhas brilhantes para o mormaço lilás e projetavam sombras vivas no chão de terra. Adentrei-o. Pude perceber o quão incomum aquele lugar era. Com seus pássaros coloridos em sintonia, os cervos cinzentos de chifres multicoloridos e alguns insetos transparentes zunindo aqui e acolá. Maior parte da fauna na me notara, ou simplesmente optou por ignorar-me. Após algum tempo, chego à uma área aberta. A pequena clareira onde me encontrava era fresca e melodiosa. O vento musicava tudo o que tocava, fazendo as folhas tilintarem, as árvores vibrarem e o solo emitir uma sutil pulsação. A voz da garota juntou-se à musica, ela repousava em um galho da árvore ao meu lado, sorria serena pela paz do lugar. - Qual seu nome? - gaguejo. Ela continua a cantar, uma melodia melancólica e suave. A musica entristece meu corpo e entorpece minha alma. Levantou-se, andando

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pelo galho até atrás do tronco. Para então aparecer em um árvore diferente. - Por que isso importa? - diz, sentando-se novamente. - Porque quero saber seu nome - ela piscou suavemente os olhos de safira. - Nem ao menos sabe se existo... - sua voz retumbou no meu peito - Você me parece ser real. - Então talvez você não o seja... - ela deu uma risadinha. E pouco tempo após retomar a canção, começou subir o carvalho negro onde se encontrava. Fazia-o tão rápida e suavemente que parecia estar voando. Escalei a enorme árvore sem pestanejar. Cada movimento parecia um passo em falso. Mais de uma vez, os galhos sucumbiram sob meu peso, o ronco aveludado cortava e calejava minhas mãos. Mais sete metros até as nuvens. Meus pulmões pareciam ter sido banhados em lava. Cinco metros ainda, meus braços queimavam e imploravam por descanso. Quatro galhos cobriam a distância restante. Alguns centímetros e eu estaria lá. Sobre as nuvens, nada mais havia. A imensidão lavanda encobria o horizonte e silenciava até meus pensamentos. A garota estava parada no centro, de costas para mim, aproximei-me dela. Quando a toquei, ela se virou, e ficamos parados frente à frente por um momento. Ela definitivamente era real, pensei. - Talvez - Sorriu e desapareceu. H Maria Eduarda Conforti Camargo 9º Ano

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Foi apenas um sonho Em 01/06/2020, Chloe acordou ouvindo barulhos muito altos sem parar. Ela não sabia decifrar o que era, então desceu para ver o que estava acontecendo. Quando desceu, não tinha nada, não deu muita importância e foi tomar café. Enquanto fazia seu café, chamou sua mãe para vir junto gritando: - MÃEEE! Vem tomar café. Mas ela não respondeu. Achou estranho, porque, há essa hora, ela sempre estava acordada e, então foi atrás dela. Foi até o seu quarto, e ela estava dormindo, mas não tinha certeza, porque não conseguia vê-la, Chloe deixou sua mãe dormindo, pois imaginou que teria acontecido algo noite passada e estaria cansada. Desceu e tomou seu café, mas enquanto fazia isso ouviu alguém descendo as escadas. Pensou que fosse sua mãe e já foi dando bom dia, mas quando olhou era, uma ursa. As duas gritaram, e Chloe saiu correndo e sem saber o que fazer, mas então a ursa começou a falar: - O que é que um humano faz na minha casa. SAIAAA! - MEU DEUS! COMO ASSIM VOCÊ FALA!? Nossa, estou louca, só pode, isso não está acontecendo. - Não, isso está acontecendo, e eu quero que você vá embora da minha casa. - Essa casa também é minha, eu moro aqui. Elas começaram a discutir, mas Chloe pediu para ela se sentar e começaram a conversar, pediu seu nome e era Emily. Ficou um pouco surpresa, pois era o nome de sua mãe. Continuou fazendo algumas perguntas e percebeu que essa era sua mãe em vida de animal, mas a ursa não lembrava que tinha uma filha. Então a ursa contou que os animais dominaram a Terra e que não existiam mais humanos por aqui, por isso ficou assustada por ter visto Chloe. Chloe não estava entendendo nada, pois na noite passada estava com seus pais, e estava tudo normal, e agora acorda em “um mundo na qual os humanos são como se fossem animais ”. Ela olhou pela janela e viu todos os tipos de animais que pudesse imaginar. Queria sair para ver esse mundo, mas a ursa falou que não poderia sair da casa de nenhuma forma, pois eles a matariam. Chloe, confusa, pergunta para ursa: - Porque eles me matariam? - Porque vocês são humanos, a maioria deles nos maltrata e não queremos deixar nenhum deles fazer isso com a gente. - Mas eu não sou esse tipo de pessoa, amo animais. - Eu sei disso, você é uma pessoa boa, mas eles não entendem. Chloe inconformada com isso foi para o seu quarto. Algumas horas depois, Emily a ursa vai para o quarto de Chloe avisar que viriam alguns amigos animais a sua casa e que era para ela ficar apenas no quarto não

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sair de jeito nenhum. Momentos depois, Chloe escuta alguns barulhos e já sabe que são os animais. Ela já pensa em descer, pois quer muito falar para eles que é uma pessoa boa, que ama os animais e que não maltrataria nenhum deles. Dessa forma, Chloe toma coragem e sai do quarto. No cantinho da escada, vê os animais sentados no sofá e conversando. Ela fica com um pouco de medo, mas depois de um tempo toma coragem novamente e desce. Quando Emily vê Chloe, corre e vai protegê-la, todos os animais assustados gritam. - “Meu Deus!! Tem um humano em sua casa, matemna”! A ursa desesperada, sem saber o que fazer, fala que não, Chloe muito nervosa, começa a falar tudo o que tinha a dizer para eles que ama todos eles: que nunca iria maltratar nenhum e que nem tudo o que pensam sobre os humanos era verdade. Então o Leão, descontrolado, corre, atrás de Chloe e... Ela acorda assustada em seu quarto e com sua mãe ao seu lado desejando-lhe bom dia e convidando para tomar café. Chloe abre um enorme sorriso e abraça sua mãe com muita força e fala “ainda bem que foi apenas um sonho.” Mel Maria Fernanda Perusso Lisboa 9º Ano

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A ida Era uma noite escura, fria e tranquila. Eu estava voltando de férias, sozinha no carro. O céu muitíssimo nublado fazia com que eu não enxergasse o que havia em minha volta. Repentinamente, o rádio parou de funcionar, meu celular ficou sem sinal. Um vento descomunal estava vindo em minha direção. Um clarão. Foi o que consegui ver. Tudo em minha volta estava totalmente branco. Depois de alguns segundos, aquilo foi passando. Fiquei confusa. Quando abri os olhos, já não era mais noite. A grama estava rosa, havia vários pés de bala de iogurte plantados. As árvores estavam azuis. Os pássaros que voavam alegremente soltavam açúcar pelas asas. O céu mudava de cor com o passar do tempo. O asfalto estava repleto de amoras, uma ao lado da outra, formando a estrada. Sai do carro, pois estava encantada com aquela cena. Estava caminhando, observando todos os detalhes, quando um coelho veio falar comigo. Deu-me as boas vindas. Eu agradeci, mas ainda não sabia o que estava acontecendo, onde eu estava e como um animal falava comigo. Logo após, ele me levou a um lugar que ficava escondido entre as árvores. Lá havia um tipo de passagem secreta, uma porta que levava a uma escada em espiral. Após descer os exatos 542 degraus, deparei-me com a entrada de um labirinto. Como não havia outra opção, comecei a andar em busca da saída. O chão era escorregadio. No caminho, escutava algo se mexendo. De repente, olhei para os lados e descobri que as paredes eram repletas de aranhas de todas as espécies e tamanhos imensuráveis. De uma hora para outra, o lugar que parecia ser um paraíso, acabara de se tornar um pesadelo. Quanto mais eu corria, mais eu sentia minhas pernas pesadas e cansadas. Eu tentava gritar por socorro, porém de tão assustada que estava, não conseguia falar muito alto. Depois de alguns minutos, encontrei uma pequena porta quase escondida em um canto. Não pensei duas vezes e a abri. Para minha surpresa, eu ainda estava no assustador labirinto, porém, dessa vez, não havia mais animais. As paredes eram espelhadas. Estava muito frio. Eu escutava vozes. No começo, muito baixas, porém, em questão de segundos, estavam perturbando meus ouvidos. Gritavam histericamente. Eram tantas que eu não conseguia entender o que falavam. Eu estava completamente desesperada. Todos aqueles gritos e as paredes com espelhos: uma sensação terrível. Eu não sabia se conseguiria sair dali. Depois de muito tempo, já estava muito cansada, então me sentei, olhei para frente, logo fechei os olhos. Quando acordei, vi minha mãe de pé ao meu lado e médicos vindo

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em minha direção. Eu tinha acabado de sofrer um acidente de carro. Observei a situação e pensei no que seria melhor. Olhei para minha mãe e fechei os olhos pela última vez. Katherine Bodelaire Marina Baldo Cruz 1º Ano EM

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Inabitável Madeixas cor de rubi caíam delicadamente sobre seus ossudos ombros, levemente doloridos em consequência de péssimas noites de sono. A garota, cujo nome era Cristina (não que houvesse qualquer importância, já que nem se lembrava de quem era), andava perdidamente ao redor de uma alta peça inteiramente revestida de cristal. Seus olhos semicerrados escondiam lágrimas que, no momento em que escapassem do corpo, arderiam em suas bochechas avermelhadas. Quero ir para casa, pensava, ingênua, ao presumir que talvez alguém a encontrasse. Averiguando o território, não podia omitir a ideia de que se encontrava numa fusão entre céu e inferno. Uma estreita via abarrotada de pedras quentes situava-se a pouquíssimos metros de seus delicados pés, que um dia a haviam conduzido em seus belos patins pelas pistas de patinação de sua cidade natal. Flores brancas estendiam-se ao longo de um lago localizado no centro do recinto. Mediocremente se via a água, entretanto, o pouco visto era razoável para noticiar a cor cinza da fraca correnteza. Apalpando aquele fluido glacial era possível ter a sensação de mil agulhas pinicando suavemente seus dedos. Quanto mais tempo permanecia com o membro no líquido, mais mole seu corpo ficava. Era como um veneno: atravessava suas veias e lhe arrepiava. Gritos abafados se apossavam do ambiente e suscitavam uma dor de cabeça detestável, tal qual um incêndio na mente. A zona restante, não ocupada pelo lago, era cheia de árvores grandiosas sem folhagem que lembravam dedos atrofiados, como os de um idoso com uma forte artrite. Uma rajada cortante de vento cegava-lhe a visão; deixando-a embaçada, e doíam-lhe os olhos. Ensurdecia também, e os grunhidos ficavam cada vez mais inaudíveis. Cris respirou fundo, pretendendo absorver um pouco de ar. Correu em direção a um amplo espelho, verificando sua cansada aparência. É assim que os soldados ficam após a guerra? Com a aparência decadente e de dar pena? Suspirava, curiosa. Assustou-se ao verificar que seu reflexo sofreu uma alteração. Seus olhos castanhos dilataram-se, tornando-se inteiramente negros, macabros. Seus longos e embaraçados fios ruivos arrepiaram-se, como os de um personagem de desenhos quando é eletrocutado. Contendo-se para não desmaiar de tanto chorar, começou a correr por aquelas vastas paisagens sombrias. Ao chegar do outro lado do espelho, sua aparência não era mais a mesma. O demoníaco se tornou angelical, suave e indescritivelmente belo. Começou a sorrir, mas logo parou, sentindo-se tonta. Necessitou recostar-se a uma rocha verde gelada para desenvolver seu raciocínio. Nada entendia; sentia-se como uma criança “descobrindo” o mundo (embora tivesse consciência de que

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não era o mesmo mundo que uma criança de quatro anos descobriria, afinal). Uma voz grave ecoou em sua mente como um barulho irritante no meio de uma difícil prova de matemática. Bem-vinda, doce menina, sussurrava em tom macabro. Ao colocar a mão em sua bochecha esquerda, sentiu escorrer um líquido em tons de topázio imperial. Onde estou? Fechou os olhos com muita força. Sentiu garras ásperas, rasgando sua pele, penetrando sua epiderme e perfurando sua derme. Segurou firme um objeto parecido com uma régua que se encontrava fincado no solo. Bateu em quem a havia agarrado: uma fera de imensa estatura, parecida com um ser humano sem rosto e esquelético, totalmente branco. A menina foi arremessada longe, seu cabelo batendo no rosto como um chicote. Ao sentir o impacto da terra molhada, mordeu seus lábios para tentar resistir a dor que dominava seu frágil corpo, já machucado. A “régua” que havia usado para espantar a besta caiu perto de sua cabeça. O objeto era, no mínimo, contraditório: pesava como um martelo, entretanto tinha textura de algas marinhas. O cheiro era podre. Em meio à confusão mental, avistou no horizonte um deslumbrante animal: era como um enorme gato com um corpo mecânico; a criatura era violeta por completo. Linda. Seus olhos eram pedras preciosas e transmitiam uma sensação aconchegante. Cristina, já cansada, deitou no pedregoso chão com o gato esquisito em suas pernas, trazendo paz para a jovem. Onde ela estava? Presa em um perverso sonho ou um reconfortante pesadelo? Diante de toda a sua situação, apenas tinha uma certeza. O local era inabitável. S. F Marina Lorenz Vernetti 9º Ano

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Como bolha de sabão Lá estava eu. O relógio marcava duas horas da manhã. Com muito sono, terminava de escrever para o jornal desta semana. Sentada naquela cadeira giratória, que precisava de óleo para parar de ranger, olhava fixamente para a tela do computador. Depois de um tempo escrevendo, comecei olhar ao redor do meu quarto para, talvez, ter alguma inspiração. Olhava para as paredes frias e cor de rosa, para as estantes com livros e mais livros, porta-retratos com fotos de família, ursinhos de pelúcia e outras coisas mais, para minha cama muito confortável, com aquela colcha felpuda que meus avós tinham me dado de presente no Natal passado... Nada! Então, li algumas reportagens na internet. Pensei ter cochilado, porque, depois de alguns minutos rolando a barrinha do mouse e lendo cada vez mais textos, tive a impressão de começar a ver no meio do site de reportagens, algumas receitas de torta de morango, dicas de decoração de interiores e até instruções para uma bomba caseira. Não, não estava dormindo, aquilo realmente estava acontecendo. Estranho. Vou dormir, pensei. De qualquer forma, já era tarde. Quando acordei, arrumei-me rapidamente, pois estava atrasada para o trabalho e me lembrei de que não tinha acabado aquela reportagem sobre... Sobre o que mesmo? Ah, não importa. Quando cheguei ao escritório, meu chefe me pediu para escrever uma manchete para o Jornal do Almoço sobre um decorador de interiores que tinha se matado com uma bomba caseira, depois de ter comido uma torta de morango. Fiquei pasma. Porém a vida continua, então: “Hoje, na manhã de 23 de maio de 2018, um homem...”. Relógio bateu meio dia. Hora do intervalo do almoço. Que bom, estava faminta. No meio do caminho, vi uma mulher jovem e bonita sorrindo para um carrinho de bebê atravessando a rua e passando por mim. Parei um instante para ver a carinha do bebê, mas o que vi foi uma melancia enrolada em uma colcha dentro do carrinho. Não, não pode ser possível. Antes que pudesse ver de novo para ter certeza, a mulher dobrou a esquina. Então, resolvi continuar meu caminho, esquecendo a situação. Almocei. Voltei ao escritório. 18:30. Fim do expediente. Casa. Na verdade, antes de ir para casa, repentinamente senti vontade de um sorvete de baunilha com calda de morango e maracujá. Por isso, passei na sorveteria. Já era 18:45, e o dia havia sido cansativo. Decidi que pediria um x-burger de bacon, uma porção de batatas fritas, um copo de 500 ml de Coca-cola e, é claro, de sobremesa, meu sorvete de baunilha, com calda de morango e maracujá. Tudo estava delicioso. 19h:40min. Hora de ir para casa. Quando paguei pela janta, jurei que nas

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notas, ao invés de ter visto uma cabeça humana, vi um pedaço de carne sorrindo para mim. Devo estar enlouquecendo, pensei. Voltei para casa. Banhei-me. Vesti-me. Fui assistir à televisão e, passando os canais, um deles me interessou. Falava sobre a ciência do universo. Porém, quando o programa acabou, a televisão “falou”: “E vem aí, a incrível história sobre o homem vampiro, o homem que tem mais de 468 anos, mas parece ser normal!”. Parei para analisar a propaganda. Percebi que ultimamente ouvi várias propagandas de programas com temas estanhos... Sobre animais com comportamento estranho, pessoas se transformando em coisas, enfim, o mundo estava virando de ponta cabeça. Com o tempo, tudo isso ficou sendo normal, até porque, desde criança, eu sempre tive sonhos esquisitos. O tempo passou, passou e passou. 2064. Agora é normal passar em minha varanda um cavalo com asas, um elefante malhado ou até um coelho com dentes e garras afiadas. Frutas falantes. Ruas que sobem e descem, da direita para a esquerda, de cima para baixo, na vertical ou em rodopios. Vampiros e Lobisomens viraram “febre” de novo, mas agora no mundo “real”. Estávamos todos reunidos à mesa para almoçar - meus filhos, netos, amigos e outros mais – quando, de repente, comecei a ficar tonta e tudo escureceu. Acordei no hospital e todos estavam lá no quarto comigo, contudo, aos poucos, foram indo embora, pois alguns tinham que cuidar dos filhos, ou tinham alguma reunião de trabalho. Afirmaram que retornariam logo depois do almoço. Quando todos foram, resolvi dar uma volta pelos corredores para esticar as pernas... Voltei para o quarto, almocei e tirei um cochilo. Quando adormeci, tive um daqueles sonhos de quando eu tinha dez anos. Quando abri os olhos, uma de minhas filhas já estava com meus pertences prontos pra voltar pra casa. No exato momento em que pisei fora dos limites hospitalares, senti uma sensação estranha, porém boa. E, então, evaporei. Literalmente. Como se fosse uma bolha de sabão que primeiro estava ali no segundo seguinte, não estava mais. Puf! Ploc! Amy F. Paola Kohana Mignon Ogochi 1º Ano EM

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Perigos de um mar dos sonhos O dia finalmente havia amanhecido, como tanto esperávamos há sete anos. Hoje, nada poderia nos impedir, apenas nós poderíamos decidir o que fazer e o que não fazer. Eu e meus dois irmãos havíamos, há aproximadamente sete anos, decidido sair para o mar para nos aventurarmos e vermos novas coisas, nossa mãe, porém só nos permitiu sair quando tivéssemos idade o suficiente. “17 anos está bom”, ela disse. Desde aquele dia viemos treinando, fazendo exercícios severos todo dia e simulando lutas. Aprendemos a manusear espadas e armas para autodefesa e finalmente estávamos prontos para sair. Após o mais delicioso desjejum de nossas vidas, decidimos sair, porém, já na saída, encontramos um problema: não tínhamos um barco. Era simplesmente deprimente pensar o quanto fomos burros ao ponto de esquecer o primordial para sair para o mar. Imediatamente decidimos construir um, já que ao que parecia ninguém iria nos emprestar seu barco e lá fomos nós, em direção à floresta da ilha, localizada a oeste do monte Fuusha. Ao chegarmos lá, o lenhador local já estava trabalhando e pediu se havia a possibilidade de o ajudarmos. Era um homem robusto, com uma barba negra como a noite, e - ao que parecia - com apenas um golpe de seu machado era capaz de derrubar algumas árvores. Prontamente, passamos a ajudá-lo e, assim, conseguimos a madeira suficiente para construir nosso barco. Em seguida, fomos à carpintaria para pedir sua construção, já que não tínhamos nada de conhecimento sobre construção de barcos. O carpinteiro nos fez o serviço de graça por pura bondade, o que nos ajudou a poupar nossas economias para a vida no mar. Quando finalizado, demos a ele o nome de Merry, em homenagem ao carpinteiro. E com o barco pronto, comida armazenada e espírito aventureiro, zarpamos. Içamos as velas e, ao que tudo indicava, o universo conspirava ao nosso favor, tínhamos um ótimo vento e o carpinteiro havia feito um maravilhoso serviço. Ao som das ondas batendo no casco do navio, iniciamos nossa jornada. O sol já estava a se pôr e nem sinal de alguma ilha ou qualquer lugar onde poderíamos parar. A noite caía, e o primeiro turno de vigia era meu, subi até a gávea do navio para ter uma vista melhor do oceano a minha volta, que, no momento, estava iluminado apenas pela fraca luz do luar. Haviam se passado duas horas, ou talvez três? Não tinha o mínimo senso de tempo sem o sol, e isso não me ajudava em nada, pois não sabia o momento de troca de turnos. Acabei passando quase a noite toda de vigia até o sol começar a surgir ao leste do navio, e, assim, que o vi, senti uma pancada forte na cabeça e desmaiei.

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Acordando, um tanto quanto atordoado, senti o cheiro de fumaça, levantei-me e notei um barco ao lado do nosso, olhei para o convés do Merry e notei um homem de capa preta em meio às chamas. Chamas? Demorei a perceber que Merry estava em chamas e sendo destruído pouco a pouco pelas labaredas, que pareciam sair das mãos dele. Sem nem pensar, tomei a decisão de que eu tinha que aniquilar aquele estranho homem, não importando como. Minha sorte é que eu tinha em meu cinto uma faca de caça, teria de servir. Pulei com toda a determinação que consegui arranjar dentro de mim, após ver meu sonho de ir ao mar sendo destruído pelo homem da capa, e, com a faca na mão, consegui atingi-lo de cima. Naquele momento, vi o vermelho mais vivo que já tinha visto em toda a minha vida, e, logo, esse vermelho virou preto que logo se tornou branco e logo nenhuma cor mais. Por algum motivo estranho, consegui abrir os olhos e, quando notei, estava em minha cama ao lado de meus dois irmãos. Era noite, e tudo estava escuro na vila, nem sequer uma luz acesa. Quando chequei a data, assustei-me. Ainda faltavam três anos. Strawhat Rafael Minatto Saucedo 1º Ano EM

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Eu, o gato da sua mente Mais um dia, mais um minuto, mais um segundo. Um milésimo de segundo a menos, uma hora a menos, um mês a menos. Que diferença isso faz nesse lugar, no meu lugar? Eu não sinto o tempo, apenas o admiro. Mas aqueles que me observam, aqueles seres de pele lisa e fria, com roupas de tamanhos e cores diversas, de olhos profundos e distantes, com feições fechadas e apreensivas, parecem se importar tanto com algum segundo a menos ou a mais. Eles correm desesperados, dia após dia, fazendo coisas e mais coisas, perdendo suas vidas por causas sem sentido, que, no fim, não vão ajudar em nada. Eles passarão o resto de seus anos pensando nos minutos a mais. Ou nos meses a menos. Neste mundo, sou tratado apenas como um animalzinho de estimação, sem razão, sem pensamento, sem notoriedade. Realmente, os humanos são seres muito estranhos. Dizem-se os senhores da verdade, do tempo e do amor, mas não possuem entendimento e controle nenhum sobre essas três coisas. Se ao menos eles percebessem que estão se destruindo aos poucos .... Os humanos preferem me prender. Deixar-me nesta jaula, ignorar meus conselhos. Claro que nunca aprenderão a serem livres, desprendidos de qualquer governança. Serão sempre escravizados pelo tempo e pelas obrigações. Eu sou só um gato para eles. Apenas um gato magro e ágil, de pelo preto e maciço, com olhos amarelos vigilantes e astutos que imperam sobre eles. Eu gostaria muito de me desprender dessa realidade, deste local impiedoso. Eu só posso ser livre por pouco tempo, geralmente à noite, quando o humano ao qual estou preso decide que é hora de se libertar. De se desvencilhar das amarras do tempo e das ocupações diárias. De sonhar, fantasiar, criar e talvez amar. É incrível como esses seres têm a capacidade de serem totalmente desobedientes e rebeldes. Mas preferem baixar a cabeça e se curvar à existência. Para muitos deles, o recinto onde passo meus dias é pura ficção, loucura. Já outros raros humanos, conseguem se transportar para cá até mesmo de dia, e aliviar os males causados pela serventia ao tempo. Infelizmente, são vistos como doidos, distraídos, inconsequentes e descontrolados pelo resto da sociedade. Aqueles que são alienados, cegos em relação a mim, não fazem ideia do que estão perdendo aqui. Estão perdendo um mundo colorido, com cascatas de água limpa e cristalina, de colinas verdejantes, de montanhas geladas de neve, de praias quentes e ensolaradas, com animaizinhos fofos, que lhe darão vivacidade e energia. Perdem horas de descanso e de alegria. Aqui onde eu vivo, tudo depende de você. Posso ser um gato dócil e amável, que ronrona delicadamente a cada vez que se solta da gaiola da realidade. Ou posso ser um gato furioso e frio, que te arranha a cada vez que me deixa preso. Quando você me

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deixa preso, as montanhas, praias e colinas somem. E aparecem cavernas escuras, mal cheirosas, cheias de monstros horripilantes que te assombrarão e o farão morrer aos poucos, sugando o que resta da sua felicidade. Eu sou sua consciência, sua mente. No momento em que você a deixa vazia, presa, alienada à realidade, nada além de escuridão habitará esse lugar. Já, quando você solta-la, verá uma explosão de ideias, diversões e criações. E o único jeito de me soltar, o gato da sua mente, é fechando os olhos e sonhando. Louise Dubois Sofia Beckenkamp Andreis 9º Ano

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Hold me down Rapidamente acordei do sono profundo que jamais tivera. As luzes fortes que tomavam conta do ambiente onde me encontrava não me deixavam manter os olhos abertos por muito mais que alguns segundos. Sentia o frio da superfície onde estava deitada tomando conta de meus pensamentos e tornando tudo apenas uma memória perdida. Equilibrada em uma torre de cartas e, com movimentos delicados e lentos, percorria a superfície da carta coringa, mas apenas com um paço em falso tudo desabou. Caía na profundidade, envolta em cartas como se eu participasse de um jogo. Podia ouvir sons de tambores tão altos que sentia meus tímpanos estourarem. Os graves sons acabaram com a minha mente. Com força, fechei os olhos e tapei meus ouvidos, esperando os sons irem embora. - Por favor, vão embora! - sussurrei. E como um pedido realizado, o silêncio reina novamente. "- Acorde!" - ouvia uma voz sussurrando dentro de minha mente "Acorde logo, o tempo já está contando" "ACORDE!" - ela gritou pela última vez. O silêncio, era a única coisa que poderia dizer que era real. A escuridão que tomava conta de meus olhos impossibilitava a ideia de tempo e espaço. Não conseguia sentir, ouvir ou ver; levei minhas gélidas mãos aos meus olhos para ter certeza de que estavam abertos. Sentia-me uma cega, perdida em meio ao nada. Gritei o mais alto que podia, mas nenhum som foi emitido. Corri, mas não saí do lugar. Queria que tudo apenas acabasse. Essa era a pior sensação que já sentira em minha vida. Uma fraca luz começou a piscar sobre minha cabeça e não saberia dizer a qual distância ela estaria de mim. Olhando fixamente para frente, deparei-me com um espelho, e lá estava eu, sorrindo friamente, causando-me calafrios por todo o corpo. - Pare de chorar - eu falei a mim mesma. - Eu não estou chorando - rebati. - Está, pois você é fraca, e fracos não sobrevivem aqui. - Quem é você? - Eu sou a violência, a tempestade, eu sou o furacão! - a mão dela atravessou o espelho, pegando em minha roupa e me puxando. Fui levada em direção ao espelho, quebrando-o. Senti cada mísero pedacinho de vidro reluzente cortando minha pele. Senti a ardência, a agonia e os pequenos feixes de luz que os vidros proporcionavam ao tocarem o meu globo ocular.

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Estava sendo carregada por um furacão, levada de um lado ao outro de encontro a um objeto e esbarrando em outro. Em círculos, eu era arrastada, carregada pelo forte vento que atordoava minha cabeça. Mas tudo parou; e, em queda livre, eu caí. Fechei meus olhos novamente, esperando tudo passar. "- Acorde!" Ouvi a mesma voz sussurrando. Levantei-me e, agora, estava em um grande corredor branco, cujo fim não poderia ser visto. Um grande relógio branco na parede marcava 00h5min, e, logo abaixo, uma placa branca com letras pretas destaca a frase "corra, você está sendo filmado". "- CORRA!" Ouvi alguém gritando. E, sem esperar mais um segundo, corri pelo grande corredor. Portas brancas começaram a aparecer. A cada passo que eu dava, com mais frequência, elas apareciam e, depois, voltavam a sumir. Parei, agachando-me e colocando minhas mãos em meus joelhos, tentando retomar o fôlego perdido, dando pesados suspiros em meio à crise de tosse. Olhei para a parede, e o mesmo relógio estava lá, com a mesma placa abaixo, mas agora marcando 5h12min. Será que eu havia corrido por tanto tempo? - Você nunca saberá! - ouvi uma voz delicada. Olhei à frente, e uma menina bem nova que trajava vestido branco e tênis, também brancos, estava parada. Sua pele e cabelos tão brancos quanto a parede. Ela caminhou em meio a saltos, vindo em minha direção. - Este é o labirinto! É onde pessoas que durante o sono se desprendem da realidade vem parar. Cada porta dessas pode ser a sua vida, basta procurar. Se você encontrar, poderá voltar a ela e isso será apenas mais um sonho perdido em suas memórias. No entanto, se o relógio marcar meia noite, você estará presa, e esse será seu fim. Não se preocupe, o fim é apenas um novo começo. - Ela virou-se e deu mais alguns passos. Parando novamente, voltou a falar - Melhor você correr. Boa sorte! Então ela desapareceu em meio a clareza dos corredores. Corri pelos corredores novamente. Abrindo todas as portas que encontrava pela frente. Passei pelo relógio variadas vezes, e o tempo passava cada vez mais rápido. Por trás de cada porta uma vida era escondida, das mais belas às mais tenebrosas. Constantemente, via-me obrigado a escorar em uma parede e recuperar o fôlego. Minha boca estava tão seca, não conseguia mais sentir minhas pernas, e minhas roupas estavam molhadas de suor. Parei em frente ao relógio, que marcava exatamente 23h59min, meu tempo havia esgotado e minhas chances acabado. Então este era meu

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fim. Comecei a chorar desesperadamente e gritar por socorro, queria apenas sair dali e voltar a minha vida. Um barulho ensurdecedor ecoou pelos corredores e todas as portas haviam sumido, deixando-me apenas com paredes longas cujo fim nĂŁo podia ser visto. Badlands Vanessa Treter Kajevski 9Âş Ano

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Inconsciência A pele age como um manto que encobre quem realmente somos. Monstros. Todos ocultam monstros dentro de si, que batalham para se libertar e, às vezes, dominam. Invadem nossos sonhos quando se libertam das amarras do inconsciente. O ranger da porta agoniza meus ouvidos. Empurro-a de maneira bruta para acabar com minha angústia. Adentro uma vastidão negra, gelada e caseira. Antes de qualquer ação prematura, aguardo os meus olhos se adequarem à escuridão. Borrões ganham forma, familiarizo-me com o cenário e arrojo-me em direção à cama feita. Ignoro o conforto. Meramente desprendo meu cabelo louro, que se alastra sob meu travesseiro florido no qual me debruço, e logo mergulho numa letargia. Não sei onde estou. Não consigo ver, nem respirar. O medo passa a me controlar e, quando me deparo, estou suspensa no ar em uma imensidão fria, vazia e fétida. Fecho os olhos, temo pelo que virá a seguir. “Socorro!” - exclamo – “Por favor, ajudem-me...” - digo receosa. Com as mãos suadas, cubro minha face e, no momento preciso em que uma lágrima escorre pelo meu rosto, despenco em queda livre. Caio brutamente entre rochas ásperas e cinzentas, ralo ambas as mãos e levemente lesiono os cotovelos. Fico deitada sem abrir os olhos. Sintome sozinha e prefiro não reagir. Contudo, no minuto em que as imagens passam a se definir em meus atormentados olhos castanhos, identifico gritos, gestos de humilhação e afrontamentos, sintetizando a ignorância, levanto-me em um sobressalto. Retorno ao mundo, mas não ao real. Regresso às terras da ganância, inveja e ódio. Estou no mundo do caos, e é aqui que os monstros habitam. Não são monstros utópicos, mas as sórdidas criaturas que realmente somos, a quem tentamos esconder. São os nossos demônios. Entre todos, uma monstruosidade pálida se revela. Nascendo na escuridão, a criatura esbelta, de corpo delgado, progride em minha direção, guiando consigo uma névoa densa que camufla a realidade do cenário tenebroso. Direciono-me a ele. Agora, frente a frente, seguro suas mãos rugosas e olho no fundo de seus preocupados olhos cinzentos. Seu olhar me lesa, consome minha vitalidade. Mas juntamente com a dor, ele me transmite conforto. Reconheço o calor de seu bondoso coração e a pureza nos seus olhos. Ele é meu amigo e quer me proteger. “Se nada houver em seu coração além da obscuridade, o que tu conseguirias fazer a não ser declinar de homem a monstro?”- Enuncia o monstro bondoso após ajoelhar-se diante de mim.

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Sua mão desprende-se da minha e avanço desprotegida até a luz. Ed Gein Vinicius Dall'Agnol Barozzi 9º Ano

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Cilada O sol nasce, liberando sua aurora sobre o vale úmido e fértil. O cheiro de terra molhada pós-chuva pairava junto à atmosfera adocicada pelo florescer das angiospermas em sua inflorescência. Pedras de basalto jaziam ao redor do vale, protegendo-o dos fortes ventos frios do Sul. Um riacho de águas calmas e cristalinas cortava o terreno como uma navalha. E em suas margens pedrosas misturadas ao cascalho, estavam pequenas pedras de cornalina, dando um toque avermelhado ao azul turquesa das águas. Com a luz solar em suas rosadas faces, as habitantes despertam, espreguiçando-se e se esgueirando para garantir os seus raios de sol, iniciando, assim, a sua rotina diária, exibindo seus mais belos assessórios e se perfumando cautelosamente, algumas até preparando doces e chamativas iguarias para bem receber os convidados. Os convidados, já eufóricos, vindos de muito longe e cheios de expectativas, chegam a zumbir de felicidade ao verem no horizonte o local onde se encontrarão com suas anfitriãs. Ao se aproximarem, avistam suas amadas já prontas para recebê-los. Quando chegaram ao local, a explosão de cheiros, cores e sabores, misturada à euforia e à ansiedade, deixava os zumbidores cegos. No início, todas elas mimavam-nos, com doces e sedutoras técnicas, porém, quando menos esperavam, eles já estavam dentro de sua cilada muito bem armada. As habitantes eram traiçoeiras, sádicas, mórbidas e falsas, tudo por baixo de uma bela aparência. Usufruíam de táticas de captura e tortura para suprir seus sádicos desejos por energia e força, desfrutando de artifícios rápidos e eficazes para capturar seus desavisados visitantes. Membros pegajosos que prendem qualquer coisa, celas dentadas que se fecham ao menor sinal de movimento, fundos poços cheios de ácido, eram alguns de seus métodos de captura. Com seus lábios avermelhados e brilhantes, atraiam suas vítimas inocentes para uma mortal cilada, torturando-os, matando e roubando suas forças. No final do crepúsculo, as habitantes já satisfeitas, voltam ao seu estado vegetativo, para que, no próximo dia, tudo se repita novamente. Vinicius Romancini 1º Ano EM

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O sumiço de Liza Annelise, mais conhecida como Anne, vive na Suíça, especificamente em Genebra. A garota mora com sua irmã Liza e com seu pai. Liza todos os dias, ia até a casa de sua prima Marta para brincar e voltava só à noite, de bicicleta. No dia 22 de outubro de 1999, Liza saiu da casa de sua prima quando deparou-se com um ser desconhecido, sem rosto. Soltou a bicicleta e saiu correndo pedindo socorro, mas foi pega pela criatura. Anne, seu pai e seus amigos ficaram muito preocupados com o sumiço de Liza e, todos os dias, iam à procura da menina. Seu pai ouvia vozes e pensava ser Liza pedindo socorro. Para possivelmente se comunicar com a menina, utilizou inúmeras luzes espalhadas pela casa, com o intuito de Liza piscar alguma luz para se expressar. Cada dia mais, todos na cidade estavam desesperados com o sumiço de Liza, até que o policial Warm descobriu que uma garota havia sido pega roubando uma loja, a garota fugiu, mas o governo estava atrás de Luna, a fugitiva das experiências de inteligência científica. Eles sabiam que Luna era a garota que roubara a loja. Liza estava em um mundo inverso, divertido, mas assustador, às vezes. Nele havia unicórnios, pessoas sem rosto, monstros, peixes falantes e um portal para a vida normal. A garota pensou inúmeras vezes em fugir e voltar para seu pai mas seria impossível sair de lá sem ser percebida. Ela arrumou um amigo chamado Thui, e ele era um gigante que tinha um dragão de estimação e, apesar da sua aparência amedrontadora parecia um ser muito sábio, que explicou à Liza como se comunicar com sua família. A garota deveria encontrar o rei Leonard e a rainha Suzana para conseguir uma chave a fim de se comunicar com seu pai através do cálice poderoso. Até chegar ao rei e à rainha, Liza precisou conversar com os seres estranhos que encontrou. O primeiro foi um camelo que soltava raios pelos olhos, que contou à menina que ela deveria encontrar o sapato de ouro que ficava na maior montanha do mundo inverso. Ela pediu a um peixe antipático e olhos esbugalhados como iria até o topo da montanha, e ele contou que a única forma era pedir carona para um unicórnio. A menina pediu ao unicórnio que, após dias, aceitou. No mundo humano cada vez mais estavam preocupados com o sumiço da garota. O governo, também se preocupava, pois pensava que Luna era a garota que estava no mundo inverso. O pai de Liza cada vez estava mais angustiado até que, nove dias após o sumiço da filha, recebeu o sinal que tanto esperava. As luzes da casa piscaram todas ao mesmo tempo.

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Através disso, o homem conseguiu ajuda com o Governo, que utilizou o portal escondido em um laboratório para buscar a menina. Yasmin Bordignon Balen 9º Ano

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Ilustração: Roberta Dondé Bardemaker Batista Conto: Está na mão

BAÚ DOS SONHOS – CONTOS SURREAIS - NÍVEL II (Alunos do 8º e 7º Ano do Ensino Fundamental)

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Está na mão Zock e eu vivemos em um mundo normal, no qual todos nascem com o seu instrumento de trabalho no lugar de uma das mãos, o tenista com uma raquete, a cabeleireira com um pente, o alfaiate com uma tesoura, o jardineiro com uma pá, ou seja, cada pessoa com sua vocação ou aptidão definida desde bebê e se tornam excelentes profissionais quando adultos. Porém, este é o grande problema de Zock, ele nasceu com as duas mãos. Já imaginou alguém nascer com as duas mãos iguais e não saber qual será sua profissão?! Ele sempre estava triste, era diferente. Todas as crianças já sabem o que serão desde o nascimento. Zock era mesmo um “caso perdido”. Sentido pena do menino, um grande cientista, com sua mão de telescópio encontrou um mundo diferente, onde todos são iguais a Zock. Pediu ajuda ao carpinteiro e sua mão de serrote, ao mecânico com sua mão de chave de fenda, ao engenheiro com sua mão de calculadora e a muitos outros profissionais e seus equipamentos já em mão, para construir uma máquina que transportaria Zock para aquele mundo. Ao chegar ao mundo estranho, Zock percebeu que todos tinham as duas mãos iguais, sem nenhuma ferramenta, e começou a descobrir a história maravilhosa daquela incomum civilização, que a partir de uma pedra e um galho de árvore formaram a lança para caçar, dominaram o fogo, plantaram, construíram incríveis casas, castelos, altares e igrejas, para louvar seus deuses e reis. Conquistaram mares, terras e até os céus. Elaboraram máquinas pequenas que fabricavam dispositivos maiores ainda. Desvendaram mistérios, se uniram e até mesmo lutaram em grandes guerras com enormes armas das quais Zock nunca imaginara que era possível construir apenas com as mãos. Com as duas mãos! No entanto, Zock, ainda não se sentia bem. Vendo todas aquelas intrigantes pessoas nas ruas que poderia fazer amizade facilmente, sentiu falta de seu mundo, de sua família, dos seus amigos. E assim, o menino com duas mãos decidiu que mesmo sendo totalmente diferente não viveria sem eles. Precisava voltar para seu lar. Não pensou duas vezes, entrou naquela fabulosa e engenhosa máquina, e voltou para casa. Voltando daquele mundo anormal, ele não conseguiu deixar de contar a todos as descobertas sobre a incrível civilização que acabara de conhecer. Eram tantas histórias, argumentos e palavras que muitas pessoas, com suas diversas ferramentas, queriam ouvir esses contos surreais, fazendo com que o pequeno menino, diferente de todos, se tornasse muito conhecido.

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Zock começou a viajar pelo mundo e contar a todos essas histórias espetaculares que aprendeu, descobrindo então que ele possuía o poder da oratória, não era um “caso perdido”, não precisava de uma ferramenta material para trabalhar, ele tinha sua voz e usando sua imaginação e seus inacreditáveis aprendizados, fez disso, com muito sucesso, sua profissão, ele era um contador de histórias. Hoje Zock é uma inspiração de superação para todos, inclusive para mim, uma grande escritora que com meus dedos de caneta, me inspirei em seus contos e estou escrevendo esta história para vocês. Lynn Calamanus Roberta Dondé Bardemaker Batista 8º Ano 2

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Através do que os olhos podem ver Meu nome é Sophia. Sou uma menina muito simpática e sonhadora, mas isso mudou certa noite, quando estava em meu quarto e recebi a grande notícia de que ficaria completamente cega. Já sentia isso, porém não imaginava que era tão grave. Comecei a viver em um mundo distante da realidade, tudo em minha volta era preto e branco, sentia-me muito mal, pois nunca voltaria a ver uma cor se quer, ou simplesmente a luz do sol. Passaram-se alguns meses e ainda não tinha me acostumado com o ocorrido. Pedi a minha mãe que me levasse a uma praça onde sentiria o aroma dos pinheiros durante à tarde para me acalmar. Fechei os olhos e estava com uma sensação incrível e misteriosa, não sabia ao certo. De repente, quando abri meus olhos, vi todas as imagens serenamente, contudo, não era a da praça em que estava, mas sim, de um jardim repleto de flores. Lá havia violetas, lírios e rosas, todas cheias de vida exalando um perfume belo e apaixonante. Escutei algumas vozes estranhas, fui investigar e fiquei muito surpresa. Vários animais estavam ao meu redor, coelhos, borboletas e passarinhos, todos muito bem vestidos, por sinal. O coelho vestia calças marrons, uma estranha blusa xadrez e sapatos pretos, com um toque de verniz. As asas da borboleta, então, pareciam que foram tecidas com renda, eram muito delicadas. Já os passarinhos, parecia que haviam caído em uma caixinha de maquiagem de diversas cores, azul, roxo e rosa. Uma imagem muito interessante. Por um segundo, olhei para a minha roupa. Ela era diferente da que estava usando antes. Um lindo vestido colorido, cheio de majestosos babados e uma sapatilha cor-de-rosa protegia meu corpo. Além disso, meus cabelos haviam ganhado cachinhos, com várias mechas cor de mel. Os pequeninos animais começavam a me interrogar. Quem é você? De onde veio? Por que está aqui? Não sabia responder a nenhuma das perguntas e disse que em um momento não enxergava nada e no outro sim. Mencionei que esperava conseguir ver tudo em minha volta, a qualquer custo. Era uma rápida descrição do que me perturbava, mas me entenderam completamente, foi impressionante. Citaram o nome de uma misteriosa fada para me ajudar, seu nome era Aurea, e ofereceram ajuda para encontrar o caminho de sua casa. Aceitei, e começamos a caminhar por um estreito caminho, conversamos um pouco sobre o meu problema, até chegarmos a uma

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ponte encantada, a qual deveríamos passar de olhos fechados, apenas sentindo o toque do balaústre e ouvindo uma linda e suave música que nos conduziria. Foi divertido, devo admitir, pois nunca tinha passado por uma experiência parecida. Dentro de alguns minutos, terminamos o percurso e chegamos em frente a um chalé muito simpático e agradável, era onde a fada Aurea morava. Toquei a campainha da porta, minunciosamente ela se abriu, uma criatura estranha surgiu, era uma espécie de anão muito gentil e ele nos levou até onde Aurea estava. Ela era muito bonita, tinha um vestido formado por sedosas pétalas rosas e seu cabelo era loiro. Perguntou o que queríamos e me propus a dizer tudo o que estava acontecendo. Logo, a fada me disse que eu não precisava de mais nada, que já havia aprendido tudo e me explicou que por mais tenha minha visão perdida, sempre poderei entrar em contato com as pessoas através do meu coração, sentindo o toque dos objetos, ouvindo os sons mais pequenos e saboreando cada momento, assim como faria com a ajuda de meus olhos. Fiquei incrivelmente assustada, tudo aquilo era verdade e não tinha percebido antes. Agradeci Aurea e os animais que me ajudaram a encontrar a minha esperança de viver novamente e depois disso, num estalar de dedos, estava na praça com minha mãe. Poderia ser tudo uma ilusão, mas ao mesmo tempo, não poderia ser. Não importava mais, o que realmente contou, foi que aprendi a ver sempre o lado bom das coisas e seria algo que nunca vou esquecer. Assim, percebi que não preciso de olhos para enxergar o mundo. Maya Hale Milena Bays 8º Ano 1

Ilustração: Milena Bays Conto: Através do que os olhos podem ver

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Memórias passadas Tudo aconteceu na noite de sexta-feira 13, do mês de agosto. Tive um sonho horrível, assustador, surreal, tanto romântico, como louco, na verdade. - Filha vai dormir, está tarde! Concordei com minha mãe, insistindo que eu dormisse cedo, mesmo contra vontade deite-me na cama, fechei os olhos e sem perceber fui parar em um mundo totalmente diferente do qual vivemos, onde não há guerras, nem corações partidos, nada que um ser humano possa estragar. Eu tive a esplêndida oportunidade de conhecer esse lugar. O sonho sempre começava da mesma forma, eu saía de uma caverna escura, para uma paisagem maravilhosa. Não sei descrever como me sentia, porém tinha certeza de que nunca iria esquecê-la. O som era suave, tal como os mitológicos cânticos élficos, que acalmavam qualquer alma enfurecida. Mas, naquela noite, o sonho se desenhou de forma diferente, ao sair da caverna, antes uma paisagem majestosa, agora assustadora, o canto suave se tornou um emaranhado de rugidos misteriosos. Lembro perfeitamente que fui investigar. Andando mais um pouco, com os olhos cheios de lágrimas me deparei com um homem sombrio e misterioso, que logo veio pedindo o meu nome, e eu o respondi meio insegura, então a única coisa que saiu da minha boca foi: - Maddison. Eu já estava me virando para achar a saída, daquele lugar horrível, sem me importar com a pergunta feita por aquele homem estranho, quando ele me tocou pelas costas e falou que sabe tudo sobre o meu futuro. Como eu estava muito curiosa me virei rapidamente, para escutar tudo. Prestei atenção em tudo, mas no final a única coisa que permaneceu na minha cabeça, era que eu iria morrer e tinha que fazer de tudo para mudar, impedir não, pois todos um dia vamos morrer, e sim deixar diferente. Quando ia me virar pra pedir como iria fazer isso, não tinha mais ninguém, e o silêncio voltou a tomar conta. Comecei a entrar em desespero, eu não sabia o que fazer, até que bem longe avistei um chalé branco, em meio às árvores, todo iluminado, bati na porta e uma senhora de cabelo grisalho e um vestido que cobria seu corpo até os pés, com estampas florais, abriu, e por coincidência seu nome era Maddison, ela me convidou para entrar. Parecia que estava havendo uma janta em família, a mesa estava posta com uma linda toalha vermelha e louças de

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porcelana, tinha um senhor com uma aparência mais nova que ela, usando uma calça social e uma blusa de tricô, junto com ele tinha mais três pessoas, todos se levantaram para me cumprimentar, pelo meus cálculos todos teriam a mesma idade que meus filhos teriam quando eu estivesse com a mesma idade da senhora. Achei tudo muito estranho, era tudo como eu sonhava, até que vi que era o meu futuro, que aquela senhora era eu, os filhos eram meus, era o meu marido e a minha casa simples, perto de um lago. O único jeito de eu mudar a minha morte, era eu viver ali, cada segundo, minuto, hora, presenciando tudo cada passo "deles". Tudo fora interrompido de súbito, uma confusão de sons e imagens. E o barulho de uma ambulância soa cada vez mais forte, assim como desaparecera. Sou interpelada pela linda e suava voz de meu marido e filhos, que saem cabisbaixos pela porta; e está foi a última vez que os vi. Lizzie Camilly Bernardi Etz 8º Ano 2

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Viagem à terra elefantina No ano 5085, quando o mundo era praticamente selvas, animais, dinossauros, australopithecus, vulcões etc. estava a tribo patachoca caçando tigres dentes de sabre, quando de repente passou uma nave, e a tribo ficou louca e tentou derrubá-la, mas eles não conseguiram e fugiram. Quando eles chegaram em sua caverna, encontram-na repleta de smartphones, computadores e um objeto muito grande que cabia três hominídeos dentro. Eles ficam meia hora decidindo qual dos três iriam entrar. Eles decidiram e entraram. Ao entrarem, perceberam que não teria mais volta. Eles nem sabiam o que eram aqueles trecos. Depois de uns três minutos, desmaiaram... Depois de algum tempo, acordaram... estavam em um lugar muito diferente, até eles estavam diferentes, com roupas, sabiam falar, tinham mais inteligência... mas isso havia um porém: a população dali era elefantes que falavam, andavam em pé, usavam roupas e se locomoviam de patinete. Já que eles sabiam falar, eles perguntaram para um elefante: – Onde nós estamos e em que ano estamos? O elefante respondeu: – Em 1300 a.C. Eles ficaram pasmos! Tentaram procurar o objeto no qual eles entraram, mas o elefante percebeu que eles não eram elefantes e pegou seu patinete e correu atrás deles para entregá à delegacia elefantina. Quando eles chegaram à delegacia, foram na pior cela. Estava na frente da cela deles um duende, que foi preso por roubar do presidente um pirulito de marfim de seus ancestrais, os mamutes. O duende disse: – Ei vocês, aí na frente, eu sei como escapar! - Como?! Fale agora! – Pelo tubo de ventilação que chegará em um mar de chocolate cheio de homúnculos saltitantes, logo após, passem e poderão entrar numa sala cheia de máquinas do tempo que os levarão aonde vocês quiserem! No meio do tubo de ventilação, havia dois guardiões do mar de chocolate. Eles foram por trás deles e os pegaram e os jogaram no mar de chocolate. Em seguida, pularam no mar e os homúnculos começaram a morder seus traseiros... o que fez com que eles nadassem mais rápido. Quando atravessaram, avistaram a sala, mas não sabiam como entrar. Encontraram uma toupeira que falou para eles: – Tomem esse canudo... vai ajudá-los a entrar sala. Não entenderam nada, mas continuaram a andar. Acharam um lago de suco de bergamota

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do reino dos elefantes e viram que tinham um buraco que entrava na sala. Eles mergulharam e seus olhos ardiam muito. Quando eles entraram, viram uma máquina do tempo de marfim de seus antepassados mamutes, e os três perceberam que os elefantes extinguiram todos os mamutes - ficaram chocados com isso. Quando eles entraram na máquina, seus dedos eram muito grossos para clicar nos botões... pegaram o canudo que a toupeira deu e clicaram nos botões. E dessa vez entraram em coma por 1.000 anos! Acordaram num lugar muito diferente de todos os outros, lá era tudo branco... havia uma escada pra cima e outra para baixo, eles foram na de cima, e quando chegaram, eles podiam ver todo o mundo de cima, mas não poderiam nunca mais voltar. Quem fez a máquina do tempo não levá-los ao destino foi o duende, porque as máquinas não estavam prontas. Caetano Kaempf Farret 7º Ano 1

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A artista e seu pensamento Eram onze horas de uma noite escura em Paris, quando, Julie trabalhava em sua pintura. Ao som de uma música serena: “La Vie en Rose”, pintava cada traço como se os sentimentos saltassem da tinta. O quadro apresentava um desenho místico de uma noite, com rabiscos no céu e personagens exóticos. A moldura de madeira envelhecida estava coberta por farpas. Após uma longa noite de trabalho, a artista adormeceu próxima às suas tintas. Dormindo, teve um sonho inexplicável, em que objetos andavam e sentimentos voavam como belas borboletas. Ao acordar, começou a pintar algo novo, pois, desta vez, estava mais inspirada, portanto, representou as imagens que se apresentavam em seu devaneio, quando de repente, estava dentro do seu paraíso sonhado. Havia pincéis, quadros e tintas falantes, lá, suas emoções pulsavam fortemente, sua paixão exaltava sobre um mundo só, onde obras pertencentes a pintores famosos, como as de Claude Monet e Salvador Dalí, flutuavam ao seu redor. Para aformosar mais o ambiente, transcorriam tintas com um aroma frutado (e levemente amadeirado) em uma imensa cascata. Naquele encantador mundo, os seres e objetos pequenos eram grandes, e vice-versa. Inclusive, lá, as borboletas eram enormes, e mais charmosas ainda, pois seus corpos se compunham com diversas cores, como se tivessem derrubado latas de tintas em cima delas. Ao seu lado estavam pincéis andantes e brincalhões cantando alegres canções. Julie empeçou a andar pelo ambiente, e conforme se movia seus olhos brilhavam por emoção. As árvores eram compostas por cores aquarelas e suas flores voavam lentamente pelo ar limpo e refrescante... As nuvens eram feitas de algodões molhados por tintas coloridas e delicadas, delas escorriam uma chuva calma de pigmentos diversos. Aos passos da moça, flores imensas transbordavam um doce perfume e pequenas girafas dormiam em cima delas, quando, por surpresa, um animal igual ao de uma antiga criação sua, passou voando. Ele era extremamente estranho: baseava-se na mistura de um cavalo marinho com leão, além do mais, era colorido igual a um arco-íris e voava na sintonia dos voos dos pássaros. Assim, a jovem, como sua criadora, pegou uma carona com o ser voador: a brisa batia em seus cabelos e os sentimentos passavam batendo asas livremente ao seu lado. Então o animal pousou em uma paisagem parecida com o quadro do pintor surrealista Dalí: no chão haviam relógios derretidos, e no fundo apareciam montanhas imensas. Julie surpreendeu-se, pois era um local exótico, lá longe, animais prateados moviam-se perto das montanhas. A

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moça forçou a vista e enxergou formigas vindas à sua direção, como as da obra, porém elas eram enormes e brilhantes, por isso, começou a correr rapidamente, mas devido o clima abrasador, perdeu muita energia, fazendo com que elas conseguissem alcançá-la. Com medo sua pele arrepiou-se toda, e pediu para os fortes animais não fazerem nada de mal a ela. Então as formigas riram, e esclareceram que não fariam nada ruim a ela, apenas ofereceram-se como um meio de transporte para sair do local de calor sufocante. Chegando ao topo de uma bela montanha, deparou-se com um portão, tão grande, que alcançava o céu. Um homem misterioso com capuz negro encontrava-se à frente do objeto. Então a moça questionou-o se poderia passar pelo grande portão, pois acima da cabeça do misterioso flutuava uma grande coroa. Ele olhou firmemente para os olhos castanhos claros da artista e gargalhou... Assim respondeu-a que não teria como impedi-la, afinal, era fruto da mente dela mesma. Julie, confusa pela resposta pediu ao final como era o nome dele. O encapuzado sorriu e disse que não era nada mais que o interior de Julie: chamava-se Pensamento e tinha o apelido de Imaginação. De súbito, a moça abriu os olhos, com a vista embaçada, esfregou as mãos neles, e suspirou profundamente. Desenhou um último detalhe na tela e levantou-se calmamente para pendurá-la na parede do seu quarto. A mulher sentiu-se emocionada, pois lá era um lugar onde valorizavam mais o interior e seus sentimentos do que o exterior com os seus conceitos, e o mais importante, era que no local, os sentimentos eram livres. Ademais, as nuvens estavam ao seu alcance e a alegria era constante, porém estava decidida a buscar essas maravilhas na vida real com ajuda de seu misterioso pensamento. Grace Johnson Adelaine. Estela Almeida Sandrin 8º Ano 1

Ilustração: Estela Almeida Sandrin Conto: A artista e seu pensamento

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Os sonhos de Amanda Em uma linda noite de sono, uma garota chamada Amanda estava se preparando para deitar em sua velha cama de madeira, cujo colchão de solteiro macio era coberto por um lençol de cetim. A garota tinha cabelos ruivos e longos, com olhos castanhos, magra alta e envergonhada. Quando deitou em sua cama, começou a sonhar com o seu futuro e com um mundo imaginário. Ao pegar mais profundamente no sono, Amanda sonhou que estava em um mundo imaginário, completamente diferente da realidade em que vivia. Pensava que todos os seus desejos tinham sido realizados. Dentro de seu sonho, acreditava estar cursando faculdade de medicina, namorando um belíssimo rapaz chamado João, que era loiro, alto, magro, olhos azuis e tímido. No começo, os dois só se olhavam, porque Amanda tinha vergonha de falar com ele e João devido a sua timidez não conseguia se expressar, mas depois começaram a conversar normalmente, e o local onde viviam, o Polo norte, era extremamente gelado, agradável e muito aconchegante. Quando acordava de manhã, esquecia-se completamente de seus sonhos, sem se lembrar dos mínimos detalhes. A única maneira era pedir para sua mãe, só que tinha vergonha de falar com ela, pois não sabia se a ajudaria, no entanto tomou coragem e foi em sua direção, a mãe aconselhou-a a escrever seus sonhos. À noite, deitou-se para dormir e sonhou que estava em uma floresta, dentro da Via Láctea, contudo ao invés de ter paz e tranquilidade, era bonita e ao mesmo tempo horripilante, havia árvores verdes, coloridas, floridas e animais de diversas espécies. No céu, brilhavam as estrelas, porém, com um monte de matéria cósmica em volta. Junto delas estavam zumbis, vampiros, abóboras e outros elementos de aparência assustadora. Pela manhã, logo que acordou, pegou um caderno e anotou seu sonho da floresta, na Via Láctea. Todo o dia, ao levantar, fazia isso e também anotava os seus sentimentos, o que havia gostado e um desenho de seu sonho. Em seguida, mostrava-o para a sua mãe e as duas ficavam lendo aquela espécie de diário e rindo de seus devaneios. Em um desses sonhos, voltou a um mudo surreal que conhecera em seu primeiro sonho. Era como se aqueles desejos tivessem tornado realidade. Só que o lugar onde se desenvolveu não foi em uma cidade comum, contudo em todos os lugares em que seus desejos ocorriam. Teve ainda vários sonhos, completando o seu caderno e fazendo mais um diário, seu primeiro desejo se tornou realidade, cursou uma faculdade de medicina, se casou com João e teve dois filhos, chamados Joaquim e Maria, o rapaz era muito parecido com o pai, tinha cabelos loiros, olhos

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castanhos, magro, alto e reservado, Maria já era mais parecida com a mãe cabelos ruivos e longos, olhos azuis, magra, alta e envergonhada. Amanda mostrou todos os diários que fez para sua família e seus filhos também fizeram os deles, a única coisa que não foi igual ao seu primeiro sonho foi o local onde moram, ao invés de ser no Polo norte é no Polo sul e também tem um urso polar de estimação chamado Ploqui. Silveiro da Silva júnior Felipe Diefenbach Tansini da Silva 8º Ano 2

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A viagem para a Estação Ciência Naquela escura noite de lua nova, a família Alfred tinha se decidido, iria viajar para Los Santos. Mal sabendo eles como e onde iriam se hospedar. No entanto, eles iriam visitar a Estação de Ciências da cidade. Conversa vai, conversa vem e o pai Pablo falou: - Vamos fazer as malas nesta sexta-feira! Eu compro as passagens! A família se alegrou mais ainda. Estavam alegres e a tão esperada sexta-feira chegou. Foram para o aeroporto municipal e viajaram... Dentre balanços e sorrisos, eles chegaram em Los Santos no estado de Los Angeles nos EUA. Todos os Alfreds se chocaram com o tamanho da metrópole e se perguntaram: - Onde vamos ficar? O pai respondeu que tinha um hotel ali por perto. Chegando lá, todos ficaram arrepiados pelo fato de ser um castelo em cima de uma nuvem. E aí começou a inesquecível viagem à Estação Ciências de Los Santos. Eles subiram em um elevador de algodão até a nuvem e se hospedaram no hotel, ficaram dois dias conhecendo a cidade e então, no terceiro dia, foram para a Estação Ciência (foco da viagem). Quando chegaram à exposição, logo de cara, depararam-se com um dinossauro vivo em uma jaula, macacos trabalhando de guias turísticos entre muitas outras coisas surreais para eles, mas que, ali, era realidade. E bem no fim eles se divertirão muito com tudo e voltaram para sua cidade com uma nova visão do mundo a sua volta e é claro com novas histórias. Franchesco Henrique Bringhenti da Silva 7º Ano 2

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A última sombra Com os olhos sujos e húmidos eu o encarava. Aquele objeto refletor que mostrava em todas as cores, a alma podre que vinha enfraquecendo cada vez mais dentro de mim. Fitava meus olhos com forte intensidade, o medo naquele momento havia se tornado parte de mim, no mesmo instante. A cada minuto, que se passava mais lágrimas escorriam pelo meu rosto, conseguia sentir meu coração batendo bem devagar, enquanto meus olhos inchavam com o passar do tempo. Fixada ali na frente, minha atenção foi tirada com uma luz tão forte quanto o brilho das estrelas, e tão branca quanto minha pele naquele momento. Aproximei-me e senti todos os meus pensamentos mudarem, uma escuridão enorme tomou conta do local, fui tomada por uma grande agonia, como se estivesse sendo sugada, após isso, naquele banheiro podre só havia sobrado as gotas de lágrimas que haviam escorrido pelas curvas de meu corpo. A mesma escuridão que tomou conta do lugar acabou se tornando um imenso corredor com muitos retratos. Milhares de fotos com pessoas desconhecidas, mas todas tinham uma coisa em comum: uma sombra, sim uma sombra no canto de todas as imagens, e ela se repetiam constantemente para cada foto que eu olhava. Fui andando pelo corredor frio e morto, com somente uma toalha enrolada sobre meu corpo. Cada passo dado era uma tortura, meus pelos estavam arrepiados e eu tilintava de tanto frio. Estava me sentindo vazia, minhas emoções eram inúteis, eu tinha vontade de rasgar cada foto que aparecia na minha frente, todas retratavam momentos em que eu jamais teria a graça de participar. Eu apenas gritei. Gritei tão alto que minha garganta chegou a doer. Gritei querendo extravasar o que guardei por tempos dentro de mim. Gritei em busca de socorro. Gritei através de um perdão, mas infelizmente ninguém me ouviria. Continuei andando mortamente pelo corredor imenso e avistei uma foto colorida, diferente das outras que eram em preto e branco, dei um suspiro e fiquei admirando-a. Ela mostrava um lindo campo de girassóis, lembrei-me de uma viagem que havia feito há alguns anos, tinha o sonho de conhecer uma plantação daquelas, meus pais me levaram em uma que havia perto da minha cidade. Eu abri um sorriso no canto do rosto ao me lembrar daquele momento, que parecia revivê-lo através daqueles traços, tentei tirá-la da parede, mas estava pregada, isso me deixou um pouco abalada, pois queria guardá-la comigo, afinal de certo modo, me pertencia. Parecia que aquele corredor não tinha fim, cada vez mais fotografias, o que seria isso? Era a curiosidade que me fazia andar cada vez mais. Até que avistei o fim. Uma câmera seria isso que me motivou a andar cada vez mais? Uma máquina velha, empoeirada e sem nenhuma

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utilidade. Com o canto do olho vi um vulto preto passando ao meu lado nesse momento a câmera disparou, o flash era muito forte e fez com que eu tampasse meu rosto. - Diga X. Foi isso que ouvi antes da minha foto ser mais uma a ficar exposta naquele corredor sujo e escuro, com a mesma sombra aterrorizante de todas as outras. E agora, eu era mais uma... Shay Georgia Gorham Miolo 8º Ano 2

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Fauno Fausto e a emboscada Em uma noite chuvosa em um planeta pouco distante havia uma baboseira, nela havia dois detetives: - Acabe logo com o seu suco de babosa! Temos uma investigação pendente! Dirigiu-se assim o policial Nigel ao detetive fauno cujo nome era Fausto, ele pensou “que arrogância” e apenas o fitou com seus olhos azuis de modo em que Nigel se arrependei do que havia feito, depois de alguns segundos Fausto se levantou e disse: - Estou indo, mas acho que um policial deveria se dirigir a um detetive de forma mais educada, a menos que não se importe de ficar com o olho roxo. -S-s-sim, senhor, ocorreu um assassinato na rua loira 3/10, suspeitamos que o assassino ainda esteja no local. E assim se dirigiram, através do escrementomóvel, chegaram: - Rrrrrrr, chic! O local fora invadido com tanta brutalidade que suas escadas de ouro feitas de prata traziam arranhões, como se o autor fosse um psicopata, o que provavelmente era. Primeiro andar: “poct, poct, poct”. Vidros quebrados. Segundo andar: “tlac, tlac, tlac”. Recarregaram as armas. Terceiro andar: “Silêncio”. - Vão formigas! Arrombaram a casa com sangue verde espalhado nas paredes, no banheiro um corpo magro e esguio, quando tomou conta de que quem era aquele corpo falou: - Oh não, Lisa!! Segurou a cobra em seus braços e chorou. - Toft. A formiga ao seu lado caíra. - Reagir formigas! O resto do ataque se simplificou em gritos tiros e partes dilaceradas de formigas voando e sendo estraçalhadas por um ícone rosa purpurina na forma de fada, ou a cor do ícone seria vermelho sangue? Os momentos finais foram aterrorizantes: - Apareça maldita fada! - Tum. A única coisa que apareceu foram suas “macias mãos de fada” na cara do detetive ao mesmo tempo em que anjos endiabrados do céu infernal cantavam sobre a cabeça do detetive. Silêncio, aliás, era uma noite calma. Guilherme de Almeida Ponte Gomes / 7º Ano 2

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Viagem ao mundo inverso Caribe, praias maravilhosas, águas cristalinas, um lugar perfeito para passar as férias e esquecer os problemas. Daniel, um Brasileiro bemsucedido, decide ir para lá com seus dois amigos, Roberto e Lucas. Ambos eram muito festeiros e malucos, tinham até bonecas imaginárias que diziam ser suas namoradas. O que os motivou viajarem foi que lá haveria uma caça ao tesouro mundial, cujo vencedor receberia fama e todas as riquezas que existiam na região. Após uma longa e bela viagem finalmente chegaram ao tão magnífico Caribe. Era possível ver de longe, os olhos dos três rapazes brilhando de alegria e com sede de diversão. Mal podiam esperar o dia seguinte para desfrutar a tão esperada caçada. Passou-se um dia, e os garotos estavam cada vez mais ansiosos. Aliás, esse era o grande dia. Horas de muita espera e entusiasmo acabaram-se, pois, enfim, o momento tinha chegado. Era uma correria imensa, todos desejando ganhar os prêmios incríveis que a caçada os disponibilizaria. Daniel, Roberto e Lucas combinaram de cada um procurar em lugares diferentes, aliás, independente de quem achasse dividiria com os outros dois a fortuna. Daniel foi o encarregado de procurar no fundo do mar, pois tinha um dom incrível de natação. Depois de alguns segundos mergulhando sem encontrar nada, ele avistou algo nadando próximo dele que não era humano. Tinha uma aparência feminina, era dotada de uma longa calda que brilhava. Era realmente maravilhoso. Daniel, então, com toda sua curiosidade se aproxima da criatura lentamente. Ela, quando percebe a movimentação vira-se e olha para ele rapidamente. Seu olhar era muito claro, a ponto de deixá-lo cego. Daniel, assustado, sem saber para onde estava nadando, finalmente encontra a superfície. Minutos iam se passando e sua visão retornando. Quando estava voltando a enxergar avista crianças negras e brancas brincando sorridentemente. Ouviam-se muitas risadas, parecia um lugar onde não havia tristeza, um paraíso. Quando se levantou, uma garrafa com um papel dentro veio a seus pés. Sem pensar duas vezes, pegou o papel onde dizia: Parabéns, você achou o tesouro! Daniel meio confuso e sem saber o que fazer, começa a perguntar para as pessoas que via em que cidade ele estava, porém ninguém o respondia e nem se quer olhavam para ele, parecia que ele era invisível, a ponto de ficar parado esperando o tempo passar, ele começa a ouvir umas vozes estranhas e tenebrosas em seu interior que diziam: “Quer sair do paraíso? Vá até o mar e fale com a mesma moça que o trouxe aqui, mas cuidado se for embora, nunca mais poderá voltar”.

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Daniel sem outra alternativa vai até o mar e começa a procurar a moça. Não demorou muito tempo até achar ela, e quando achou foi tudo igual, ficou meio cego e atordoado subindo e subindo a procura da superfície. Passou-se alguns segundos e encontrou, e lá estava ela a praia do Caribe, porém não havia nenhuma caça ao tesouro ali, a única coisa que conseguia ver e ouvir eram Lucas e Roberto gritando: “Corre Daniel estamos atrasados para o voo”. Zé Maroto João Gabriel Sanagiotto 8º Ano 1

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Um pequeno dia Em uma rua simples, em uma pequena cidade no Japão dois irmãos saíram para caçar insetos (hábito comum entre os anos 50 a 90 no país). Orimura, o irmão mais velho avistou uma espécie não conhecida por ele e disse: - Ichika! Veja meu irmão, esta espécie, nunca vi algo do tipo, será que lutará bem contra besouros? Ichika então responde: - Não sei, mas por ser provavelmente o único nesta área deveríamos capturá-lo. Orimura confirma com a cabeça e se aproxima do inseto, mas no instante que seria captura do o bichinho voa e more Ichika, o garoto então desmaia. Ao acordar o menino jogado no chão em meio a vegetação alta que perecia-lhe não estar ali antes do ocorrido com o inseto misterioso. Nesse momento ele dirigiu-se até o local onde se encontrava Orimura e ao analisar seu irmão ele levantou a cabeça e olhando para o céu gritou: - O que houve com meu irmão? Como será que chegamos a este lugar? E o que nos acontecerá? Em seguida virou-se para verificar a região em busca de ajuda ou de alguma pista de onde se encontravam. Ao analisar a área percebeu que todas as árvores e arbustos do local da busca por insetos estavam ali, porém muito maiores que o normal, teriam eles sido encolhidos por aquela criatura? Então o garoto ouve de longe o grito por socorro do irmão, ele dirigiu-se rapidamente ao lugar onde havia encontrado Orimura, mas em vão, o seu amigo e irmão tinha sido levado. Ichika logo entraria em desespero e disse a si mesmo: - Meu irmão é três anos mais velho e conta com um treinamento de escotismo, eu sobreviverei sem a força e os conhecimentos dele? Logo ele pensou alto: - Devo concentrar meus esforços, conhecimentos e sanidade mental para encontrá-lo o mais cedo possível ou terei de viver sem meu irmão. O menino então começou a procurar algum tipo de rastro deixado pelo sequestrador, ele encontrou pequenas pegadas que o levaram a um buraco, o garoto pensou melhor e novamente pensou alto: - Este deve ser o ninho de algum animal, em minha condição atual não devo entrar em combate ou disputa com nenhum tipo de bicho. Então devo ter garantia de que meu irmão se encontra no local. Ele então gritou: - Orimura!

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E esperou ao ouvir o som ecoar por aquele que deveria ser o maior buraco que o menino teve a chance de ver, em seguida ouviu: - Ichi. Então ecoou pela caverna um forte som de estrondo. O menino cautelosamente entrou caverna a dentro em busca de seu irmão, ao percorrer os 80 cm mais longos de sua vida, o menino avistou de relance um escorpião que residia no que provavelmente já foi o ninho de uma coruja. Nesse momento, Ichila escondeu-se e começou a planejar, porém a criatura que sequestrara se irmão, também o atacou. Quando acordou o menino se viu preso ao lado de seu irmão, porém a criatura havia saído ele acordou seu irmão e disse como um sussurro: - Orimura, temos uma chance de escapar, você esteve aqui desde antes que eu chegasse, sabe de algo que nos permita fugir ou o que ele fará conosco? Orimura respondeu: - Ele esta reservando nossa carne provavelmente, nunca havia ouvido falar desta atitude da espécie. Mas com relação a fuga eu sei, depois de caçar ele sempre vai e arte mais profunda do buraco e fica lá por uma hora, vi ele fazer isso duas vezes. Nesse tempo conseguiremos, só faltavame alguém que me assistisse a subir o buraco da caverna no qual nos encontramos. Logo que o escorpião voltou os meninos colocaram em prática seu plano mas um pequeno erro os atrasou ao sustentar o peso de Ichika no momento em que o segundo irmão fugia Orimura sentiu-se como se tivesse quebrado a coluna ele gritou: - Ahh! Ichika conseguiu subir mas o escorpião os alcançou, Ichika tentou lutar com a criatura até que o irmão se recuperasse o menino estava segurando bem o bicho, que se demonstrava bem cansado. Mas no momento que Orimura se recuperou disse: - Venha irmão estamos próximos a saída, porém a noite aproxima-se devemos voltar. O se distraiu e foi acertado no peito, Orimura matou o monstro e vez seu máximo para assistir o irmão. Quando acordou Ichika estava no hospital e seu irmão insistia em não falar sobre o que aconteceu, mas havia pontos em seu peito. João Pedro Perez Resmer 7º Ano 2

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Como assim acabou? Era uma vez numa cidade muito pequena, uma menina que estava passeando com o seu cachorro que tinha o nome de Corajoso. Essa menina se chamava Natasha, olhos castanhos, cabelos ruivos, de 15 anos e um sonho, queria se formar numa faculdade de Artes. O amor de sua vida se chamava Eduardo. Ele também gostava muito de pintar e já estava se dedicando a uma faculdade de Artes. Eduardo não sabia que Natasha gostava dele. Mas um dia, após saírem da aula de Artes, sem querer Eduardo esbarrou em Natasha, no entanto ele ajudou a recolher os livros caídos no chão. Os dois olharam um no olho do outro e se apaixonaram. Natasha ficou um pouco envergonhada no começo, mas os dois se entenderam muito bem, então combinaram um cinema. Dez anos se passaram, os dois se apaixonaram profundamente, terminaram a faculdade, o Corajoso também encontrou seu amor. E então veio o esperado casamento dos dois, as famílias concordaram, e foi uma bela cerimônia. Eles abriram uma escola de Artes para os jovens que não tinham dinheiro para pagar uma faculdade. Lá eles ensinavam a pintar, desenhar e fazer fotografia. Todavia, a mulher que fazia a limpeza da escola, encontrou uma porta escondida atrás do papel de parede, ela foi correndo contar para Natasha e Eduardo, então resolveram chamar os irmão Camila e Vinícius, que eram conhecidos por desvendarem todos os mistério daquela região. Judite, a mulher da limpeza, ficou sabendo que antes de fundarem a escola, morava ali uma família de cinco pessoas e que aquela porta levava até uma antiga fábrica de brinquedos que ficava embaixo da casa. Lá eles encontraram: tintas, máquinas e brinquedos... Quando estavam vasculhando o local, Camila encontrou um pergaminho que dizia: “Quem encontrar este Pergaminho estará Sujeito a sofrer uma Grande maldição por nós seres Sobrenaturais” Vinicius assustado, pediu para que Camila e os outros não se envolvessem com o assunto antes de investigarem o que realmente aconteceu a anos atrás. Marina Moschem. Lara Furlanetto / 7º Ano 1

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As lendárias Super Cinco Esta é a história de uma menina que era apaixonada por futebol. Lá na cidade de Chapecó, no Oeste de Santa Catarina, morava uma menina chamada Luiza, que por acaso é a autora desta história. Ela, sempre gostou de jogar futebol, praticamente desde quando nasceu. Mas havia um problema; na sua escola, as garotas não gostavam de futebol, então a Luiza não tinha como jogar com elas, tendo que jogar com os meninos que a receberam muito bem. Mas ela queria outra coisa, não estava muito feliz, o sonho dela era ser famosa como uma estrela do futebol. Porém, em sua cidade, ela não encontrava treinos femininos para realizar seus sonhos. Além disso, as meninas de sua escola ficavam tirando sarro dela por ela gostar tanto de futebol. Fazendo com que ela pensasse em desistir do seu sonho pouco a pouco. Houve um dia, em que o professor Júnior, de educação física, promoveu as primeiras interséries de futebol, e por incrível que pareça, havia feminino. Então um grupo de meninas me convidou para montar um time. Assim este time foi composto por: Luiza (eu), Ana Maria, Raíssa, Vitória, Julia, mais conhecida como Monari (seu sobrenome), Lara e Ana Clara. Dessa forma se criou-se o timão denominado Inazumafive (Super Cinco). Essas meninas foram treinar com a ajuda dos meninos para as interséries e ficaram melhores, mas não melhores que a protagonista desta história, eu, a Luiza, hehe. Elas tinham um lugar específico, para treinar aos sábados, que ficava pertinho da escola e possuía ainda uma salinha para as reuniões. Um dia, estavam reunidas lá e descobriram que embaixo de uma cesta de bolas, havia um X, elas puxaram uma alavanca, e apareceu um escorregador, que elas desceram e foram parar em um lugar secreto. Lá, tinha uma caixa de ferro, fechada, elas abriram e descobriram um papel que estava escrito: “Nunca desista de seus sonhos, siga em frente”, então elas desceram mais um pouco lá encontraram mecanismos especiais para treinar. Essas meninas depois de um tempo, descobriram que lá treinaram as lendárias do futebol feminino e estava em um papel envelhecido que quem achasse aquele lugar, se tornariam as lendárias e teriam sorte. Então elas entenderam tudo isso como poderes. Daí pra frente, treinando neste lugar mágico, o time Inazumafive ganhou muitos campeonatos e no final foi assim, tornaram-se as novas lendárias Super Cinco. Ficamos todas muito felizes, e nunca mais abandonamos o futebol. E mais uma coisa, fomos reconhecidas mundialmente. Que esse era o sonho

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de Luiza, entรฃo ela aprendeu que nunca se desiste de seus sonhos, pois um dia chega lรก. Luiza Vargas Bitencourt 7ยบ Ano 1

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A preço de banana - “Bem-vindos, cheguem mais, divirtam-se!”. Meu tio estava recebendo todos os viajantes para um evento anual de nossa cidadezinha Falls, uma cidade bacana, de poucos habitantes. Eu e meu irmão Carlos passamos o verão com nosso tio, Nicolas, enquanto nossos pais estavam em São Diego, trabalhando. Mas, espera aí, não é isso que eu quero contar! Tudo começou quando, de tardezinha, ouvi um toque de celular, mas de onde será que vinha esse toque? Não parava, cada vez mais barulhento e com uma musiquinha que doía os meus ouvidos. Olhei para o chão e vi uma banana tremendo, parecia que o som vinha dali. Olhei para os lados, parecia que ninguém estava olhando e muito menos escutando o toque. Achei estranho, mas peguei e atendi o “celular”. Uma menina começou a falar. Perguntei o nome dela e ela disse: “sou a senhora Bananada, da terra das bananas ligando para o meu telefone bananoide. Estou querendo saber se esqueci do meu celular bananoide com você, menina que eu não conheço”. Não entendi quase nada do que ela falou, parecia mesmo viajar na banana. Aí então avistei uma menina esquisita, morena e muito rapidinha falando ao telefone. Parecia ter mesmo outro telefone banana no ouvido dela, mas o mais engraçado é que o telefone era uma banana de verdade. Comecei a perseguir ela e cada vez mais longe ela corria. Ia para bem longe da festa anual do meu tio. Uma hora ela parou. Cheguei mais perto e ela disse: “vamos nessa!”. De repente, eu vi muitas pessoas que nunca tinha visto antes, todos com roupas de estampa de bananas e tudo era de banana – as casas, a rua – ou derivado da banana – como suco de banana, bala de banana, salgadinho de banana, arroz de banana etc. Quando eu apareci todos olharam para mim e, de repente, todos vieram até mim e gritaram de felicidade, aplaudindo, gritando parabéns para a Sra. Bananada. Mas por que isso? Eu não sei. A Sra. Bananada me puxou e me levou até o castelo da Rainha Doce de Banana. Quando a rainha me viu veio até mim e falou: “Até que enfim vocês chegaram, mas não tenho muito tempo! Vou direto ao ponto. Nosso mundo gira em torno da banana principal, que é o núcleo da terra das bananas, o equilíbrio. A bruxa Bananeca Apimentada me avisou que viu na Banana de Cristal um cachorro cavando próximo à Banana Principal. Se ele não for detido até o pôr-do-sol, vai atingir as nossas raízes e destruir o nosso mundo! Nós, bananoides, precisamos de ajuda! Nenhum bananoide pode chegar perto de um cachorro, corre o risco de ser devorado.” Fiquei triste por eles e quis ajudar, então eu disse: “O que eu posso fazer para ajudar vocês? Sou só uma menina, mas posso tentar deter o

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cachorro com um osso de banana, enquanto um bananoide tenta tapar o buraco com terra bananesca!” A rainha aceitou meu plano e fui para essa aventura com a Sra. Bananada como minha assistente. Chegando lá, vi que o cachorro era do meu amigo Lucas e me conhecia. Então eu resolvi chamá-lo e ele veio correndo, pulou em mim, caí no chão. De canto de olho, conseguia ver a Sra. Bananada cumprindo nosso plano, mas de repente o cachorro começou a lamber meu rosto. Ao afastar o cachorro de cima de mim, vi meu tio, com um cacho de bananas, oferecendo para o público que estava na festa. Não conseguia entender nada, onde estava a Sra. Bananada? Perguntei para o meu tio e ele não sabia de nada, me olhava como se eu fosse louca. No final das contas, eu havia comido muitos cachos de banana e acabei adormecendo. A aventura na terra das bananas não passou de um delicioso sonho, pois quem não gosta de banana? por Princesa Consuela Banana Nanica Raissa Alves de Toledo 7º Ano 1

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Ilustração: Felipe Bortoluzzi Conto: O super peixe

BAÚ DOS SONHOS - CONTOS SURREAIS – NÍVEL I (Alunos do 6º e 5º Ano do Ensino Fundamental)

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O sonho Naquela tarde, estávamos na sala de aula estudando, quando, de repente, apareceu um pontinho preto no chão que começou a aumentar, abrir e esticar, transformando-se em um pequeno portal. Meus colegas e eu entramos no portal e caímos em um lugar diferente de tudo que já tínhamos visto. Era uma selva cheia de nuvens, nuvens que podíamos tocar e comer! Caminhamos até encontrar uma placa onde estava escrito: Bem-vindo ao céu. Neste momento, estranhamos e pensamos: - Céu? Como assim, céu? De repente, olhei para o lado e vi meu avô chegando com sua bengala, e me contava triste que estava cego! Foi então quando comecei a pensar... e pensar... até que tive uma ideia: encontrar uma cama e acomodar meu avô ali. Andamos mais um pouco e a cama estava ali, então deitei ao lado do meu avô e dormimos profundamente. Acontece que quando acordamos, percebi que meu avô estava curado e então começamos a saltitar... e quando percebemos, estávamos no meio do céu... entre muitas nuvens. Podíamos segurar nos cipós de nuvens e cair entre elas... tão fofas e perfumadas. Sentimos com a pontinha do pés as cócegas das nuvens e vimos o mundo inteiro lá do alto. Dançamos e corremos naquele lugar. Ficamos descalços e pulamos de uma nuvem para outra. O meu avô não precisava usar as bengalas, pois se caísse, as nuvens o segurariam... rimos tanto... mas tanto! Algumas nuvens eram fofas e grandes... quando pulávamos, éramos jogados para o alto. Outras nuvens eram rasas e, quando a gente pulava, caíamos nas nuvens abaixo. Tinha nuvem de dia de sol e nuvem de temporal... quando a gente subia, apertava e a chuva caía... Algumas eram brancas... outras cinza... e algumas azuis... Aquele céu, visto de perto, era muito lindo! Cansados, paramos para ver o mundo inteiro de cima. Vimos nossa cidade em movimento lá embaixo. Descansamos um pouco deitados cada um em uma nuvem. De repente, era hora de estudar... mas diferente de todo estudo que vimos, meus colegas e eu tínhamos que aprender a voar e a fazer acrobacias no céu. Foi delicioso! A melhor aula que já tive.

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Quando a aula terminou, tudo começou a tremer e a despencar. Era hora de ir para casa. Num suspiro, acordei na minha cama e pensei: “Nossa! Esse foi o sonho mais lindo que já tive!” Hinata Kalinka Martins de Quadros da Silva 5º Ano

Ilustração: Felipe Bortoluzzi Conto: O sonho

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Um sonho de bailarina Um dia lindo de sol, havia uma bailarina, chamada Amanda. Ela era bonita, educada não era tão alta, mas nem tão baixa resumindo... ela tinha uma estatura mediana e adorava dançar balé. A Amanda morava em uma cidade chamada Espelho da Sorte, pois lá existiam muitas praias e todas muito limpas. Naquele dia, ela estava fazendo o passaporte para Paris; ela iria competir com muitas outras bailarinas, os jurados iam ver qual era a melhor bailarina do mundo todo. Logo depois, ela foi tirar foto para enviar à exposição que teria lá onde ela se apresentaria. Vários dias se passaram, preocupou-se em experimentar a roupa apenas uma vez, os outros dias usou para ensaiar muito. Quando chegou o dia da viagem, houve um problema com o avião. Ela não se apavorou, porque embarcara com muita antecedência - marcado cinco dias antes. Quando ela voltou para casa, resolveu fazer um lanchinho e quando estava comendo, ladrões assaltaram a casa! – Amanda! Ela ouviu uma voz familiar, mas teve medo e disse que ligaria para os policiais... então eles se renderam e tiraram as máscaras... eram os parentes fantasiados! Ela ficou muito feliz, sabia que eles não fizeram por mal e sim para fazer uma surpresa. Naquele dia, ela se divertiu muito com seus familiares. No dia seguinte, os tios, as tias, a avó, o avô, o pai, a mãe, os primos iriam junto com ela. Chegaram lá, estava tudo muito lindo! Então Amanda foi ensaiar um pouco mais... depois todos foram almoçar... passaram-se três dias... eles davam muitas risadas... Quando chegou o dia do espetáculo, Amanda seria a última a se apresentar, todas as danças foram lindas... Quando chegou a vez da Amanda, ela estava muito assustada... ao se apresentar, deu uma trombada com um elefante que tinha a cabeça de hipopótamo... passou correndo... não fazia parte da apresentação... mas enquanto eles passavam,0 ela dançava... linda... desviando dos elefantes com cabeças de hipopótamo. Quando acabou a apresentação, aqueles elefantes estranhos sumiram. Logo em seguida, os jurados revelaram os resultados e um deles disse: - Eu adorei a sua apresentação, Amanda! Ficou linda e ainda mais com aqueles elefantes... você conseguiu! Ainda fez um espetáculo incrível... conseguiu desviar com passos de balé lindos e muito difíceis... então todos os jurados concordaram que você deva ser a ganhadora. Parabéns! A Amanda ficou muito feliz. Ela subiu ao palco para pegar seu troféu e agradeceu muito. Tornou-se a melhor bailarina de todos os tempos. Agora teria muitos compromissos e também começou a dar aulas... criou uma

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escola muito boa... Produziria muitos espetáculos... A Fantástica Fábrica de Chocolate, Matilda e esse ano fará Quebra Nozes. Ah, e já ia me esquecendo nome da escola da Amanda é Um Sonho De Ser Bailarina. A Amanda está agora com sua família relembrando o dia que ela realizou o principal sonho e conseguiu também muitos outros sonhos . Rainha do ballet Nadiny Warken Cremonini 5º Ano

Ilustração: Nadiny Warken Cremonini Conto: Um sonho de bailarina

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O super peixe Em um lindo dia de sol, estava curtindo minhas férias. Quando minha mãe me chamou, dizendo que havia uma visita para mim. Fui até à sala, estava sentado na cadeira o meu amigo Erick. Ele olhou para mim e veio em minha direção, abraçou-me e fomos brincar. Chegando ao meu quarto, ele veio com um papo de que iríamos pescar. Naquele momento, fiquei espantado, pois nunca pesquei na minha vida. Então, logo falei que iria pensar. O dia passou muito rápido, assistimos à TV, caçamos Pokemon e muito mais. Chegou a hora de Erick ir embora, então nos despedimos e ele foi para casa. À noite, fiquei em meu quarto, pensando na pescaria. Resolvi concordar com a ideia do meu amigo. Logo mandei uma mensagem confirmando que iria pescar. Mal consegui dormir, pois só pensava nisso. Pela manhã, vesti um calção e uma camiseta e fui tomar café com minha mãe. Chegando à cozinha, ela me perguntou se estava pronto para pescar. Perguntei a ela como ela sabia e ela me disse que a mãe do Erick já havia lhe contado. Tomei café rápido, arrumei minha mochila e fiquei aguardando o Erick vir me buscar. Logo ele chegou, entrei no carro e fomos até o local da pesquisa. Mas quando chegamos, lembrei que havia esquecido minha mochila em casa. Então, tivemos que retornar a minha casa para buscar minha mochila. Voltando ao local da pescaria, havia um lar gigantesco e muito lindo. Pegamos nossos anzóis e iniciamos a nossa pescaria e assim passamos o dia. Ao entardecer, eu havia pescado três peixes e o Erick cinco. A mãe do Erick já havia nos avisado que logo iríamos para casa. Quando senti fisgar meu anzol, percebi que era um peixe muito grande, pois não estava conseguindo segurar o anzol. Mesmo com a ajuda do meu amigo, estava difícil segurar. De repente percebemos que o peixe parou de puxar a linha e começou a vir em nossa direção. Larguei o anzol e aquela coisa estava subindo fora do lago, era um bagre gigantesco. Eu nunca havia visto algo daquele tamanho. Ele abriu sua enorme boca e acabou nos engolindo. Naquele momento, dentro da boca de um peixe, tive a certeza de que tiraria dez na próxima prova de Ciências. Na verdade, aquilo era muito nojento e logo tentei pular na língua dele, como nos filmes, mas não deu certo. Então a minha única solução era fazer cócegas no céu da boca do enorme peixe, como se este era um local sensível, pensei que pudesse

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dar certo. E acabou acontecendo o esperado, pois ele abriu a boca e nós conseguimos saltar sãos e salvos. Levamos um grande susto, mas enfim estava certo. Assim, percebemos o quanto era perigoso irmos pescar sozinhos. A partir daquele dia, ir pescar, somente na companhia de um adulto. Eloíza Ferrari 5º Ano

Ilustração: Eloíza Ferrari Conto: o super peixe

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Dinossauro em Tókio Eu estava nas ruas sombrias e escuras da cidade de Tókio com meu amigo Thiago. Nós estávamos procurando um crime para salvar pessoas. Era nosso sonho. Quando ouvimos o grito de uma mulher, vimos lá no fundo um dinossauro! Pessoas gritando... parecia a cena do caos... um dinossauro, rapidamente, agarrou uma mulher. Eu pulei em um poste, agarrei-me em um prédio, pulei no dinossauro e finquei minha lâmina oculta nele, que soltou a moça. Eu gritei: - Thiago, pega ela!!!!! Ele, num zás, correu muito, pulou e pegou a moça, entretanto o dinossauro ainda quis sua vingança, por isso se sacudiu e eu caí. Pensei: “Ferrou” – já era! Agora é o meu fim! Quando Thiago pegou sua excalibur, fincou a espada nele e disse: - “Ferrou”, já era, agora é o meu fim!!!!! Quando Thiago pegou sua excalibur, fincou a espada nele e disse para mim: - Nunca saia sem mim!!!! Mas esquecemos que o dinossauro tinha regeneração, então recuou e aquela mulher deu um beijo em Thiago e disse: - Obrigado, meu herói. Quando Thiago tentou olhar para mim, eu tinha desaparecido. Na semana seguinte, ele me encontrou treinando e fazendo parkour, chegou com uma empolgação dizendo: - Cara, voc-você lembra naquela noite quando eu te salvei e salvei aquela moça bonita e depois ela me beijou? - Fique quieto, só porque foi o “bonzão”, não precisa ficar se achando. - Tá bom, então obrigado! - RRRHAAAARRR!!!!!! - Thiago, o dinossauro voltou!!!!! E agora com armamentos!!!!! Enquanto estava fazendo parkour nos prédios, Thiago estava correndo lá embaixo, e eu avisei: - Eu vou chegar primeiro, Thiago. - Sem chance! Na verdade, Thiago atacou primeiro, mas o dinossauro quase nem perdeu vida e chutou Thiago, aí eu fiquei com muita raiva e disse: - Hora de revelar meu poder. Tirei meu casaco e minha máscara, tinha um olho mutante que via através de tudo e lançava laser. Também soltei minha fúria, estiquei meu braço e dei um socão... BOOM! Houve uma

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explosão, o dinossauro lançou uma bomba eu voei, mas consegui me segurar em um poste enquanto Thiago me dava cobertura. Eu cheguei um pouco machucado e dando um chute, porém o dinossauro ignorou Thiago e lançou um míssil que me prendeu no chão. Tentei me soltar mas não consegui. Thiago veio com tudo, mas o dinossauro lançou uma teia com chumbos muito forte e agora falei: - Socorro, Thiago, alguém!!!!! – E adivinha quem me salvou? A mulher que eu salvei, que deu um beijo em Thiago, ela cortou a cabeça do Dinossauro e me disse: - É, eu sabia que você ficaria com ciúmes, então te salvei. Depois disso tudo, Thiago e ela casaram, tiveram um filho muito legal e mutante e viveram muito felizes, acho que para todo sempre. Kenzo Mignon Ogochi 5º Ano

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A esfera Era uma vez um homem chamado Jony que vivia muito feliz e sorridente. Ele era um pouquinho comilão, mas tinha o peso ideal. A cidade onde ele vivia era grande, e todas as pessoas que moravam perto de Jony, gostavam dele. Um dia, quando Jony foi comer pizza em um restaurante, antes de se sentar, foi ao banheiro lavar suas mãos, quando viu uma luz muito forte vindo da caçamba de lixo do lado de fora da janela. Isso chamou muito a sua atenção, por isso foi até o local para entender o que estava acontecendo. Jony muito curioso começou a tirar parte do lixo, quando de repente, encontrou uma esfera luminosa com silhuetas e símbolos estranhos. Achou o objeto interessante, agitou tentando entender o que seria, quando inesperadamente um símbolo se projetou e Jony foi teletransportado para uma dimensão muito interessante e futurística. Jony estava apavorado, naves incríveis voavam ao seu lado com pessoas um tanto quanto estranhas, Jony agitou novamente a esfera e outro símbolo apareceu, foi então para outra dimensão, onde havia habitantes mais hostis ainda. Jony ficou muito interessado e foi experimentando cada símbolo e suas dimensões. Após todas as dimensões visitadas, Jony preferiu a primeira, pois a atual era, inacreditavelmente intrigante. E era um planeta totalmente habitado por cabras!! Nesse momento, Jony se agarrou a um outro objeto e desmaiou, acordando horas depois no planeta terra. Jony não sabia o que dizer, nem o que fazer. Estava assustado depois de tantas aparições e coisas adversas ao seu tempo. Olhou para todos os lados e percebeu que havia descido duas escadas no subsolo da sua casa, estando no porão. Pensou então, porque estava ali, como tudo aconteceu? Aparentemente havia dormido nesse local. Mas por quê? Nesse momento, tentou localizar o objeto que o teletransportava, a esfera, mas não encontrou. Saiu de casa e foi trabalhar. No trabalho contou a sua experiência para todos os seus colegas, que acharam que estivesse delirando, e sugeriram que voltasse para casa descansar. Tudo ainda estava confuso para Jony, que não sabia porque ninguém podia entender ou acreditar na sua experiência. Tentou então lembrar de cada passo dado no dia em que encontrou aquele objeto e se alguém estava com ele, quando de repente lembrou de Matias. Combinou um encontro, e uma hora antes do combinado, Jony já estava a espera de Matias, que chegou logo. Jony contou tudo para o amigo sobre sua experiência.

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Matias, ao ver o amigo apavorado, disse que não sabia o que ele tinha visto ou vivido nesse tempo, mas que estava preocupado com o amigo, pois havia passado mal durante o jantar. Matias então contou que na noite em que saíram para comer pizza, ele como sempre, havia exagerado nos pedaços, algo até normal para alguém conhecido como Jony, o comilão, mas que havia passado mal ao ponto de perder a consciência por alguns minutos. Jony imediatamente se questionou. Tudo o que vivi foi fruto da minha imaginação, do meu inconsciente, foi um sonho? Então, despediu-se do amigo, agradeceu e foi para casa. Lá, encontrou a esfera, teletransportou-se trazendo um objeto que lhe rendera bilhões! JOHN João Marcos Giovanetti 6º Ano

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Rua Mato Grosso, 420-E – Bairro Jardim Itália Chapecó – Santa Catarina – CEP: 89802-272 www.colegioinovacao.com.br - +55 (49) 3322-4422

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Livro Baú dos Sonhos - Contos Surreais  

Coletânea dos contos participantes do I Concurso “Baú dos Sonhos – Contos Surreais” do Colégio Trilíngue Inovação

Livro Baú dos Sonhos - Contos Surreais  

Coletânea dos contos participantes do I Concurso “Baú dos Sonhos – Contos Surreais” do Colégio Trilíngue Inovação

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