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ano X • nO 43 jan/fev/mar 2018

Afinal, o que é

BNCC

A ANEC apoia o documento que entra em vigor trazendo diretrizes para a implantação da educação inclusiva e a melhoria do nível de ensino brasileiro

CONTRA O BULLYING Ações devem unir a comunidade escolar e as famílias dos alunos

PORTUGUÊS PARA IMIGRANTES

Iniciativas de escolas ajudam a integrar haitianos na sociedade

REFORMA TRABALHISTA As mudanças na legislação à luz de algumas encíclicas papais


sumário 4 Editorial 6 Notícias Mural 10 Turismo para evangelizar Educação Básica

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12 Casos de sucesso de inclusão em escolas católicas 16 Formação continuada de professores Ensino Superior 20 Cresce o número de deficientes nas universidades 24 Português para imigrantes, sobretudo haitianos 40 Cursando a universidade depois dos 50

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Artigo 28 A reforma trabalhista sob a ótica de encíclicas CAPA 32 Base Nacional Comum Curricular – preparando o futuro Boas práticas 44 A escola e o combate ao bullying

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52 Projeto Paradesporto muda a vida de pessoas com deficiência 56 O papel da coordenação pedagógica na integração REFLEXÃO 48 O papel da família na inclusão escolar Artigo 60 Fraternidade na superação da violência

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62 Estante jan/fev/mar 2018 | nº 43 | Revista da ANEC | 3


editorial

Jonathan Oliveira

A Revista da ANEC

em nova versão!

É

com grande satisfação que apresento a nova versão da Revista da ANEC: mais clean, mais leve, menor, com o objetivo de conquistar ainda mais leitores, mas sem perder a qualidade do conteúdo e mantendo a seriedade de sempre. Em razão dessa mudança, a Revista Informativa Educacional passa a se chamar Revista + Educação. Registramos o trabalho da gestão 2018/2020, com a reunião de planejamento estratégico do final do ano e a 44ª Reunião da Diretoria da ANEC, bem como a 28ª Reunião do Conselho Superior da entidade. A ANEC pretende, entre outras coisas, evoluir de uma gestão operacional/tática para uma estratégica. Também queremos aumentar a representação para as associadas, como aconteceu recentemente com a conquista de uma cadeira no Fórum Nacional de Educação, o que representa mais um passo na luta pelos interesses da educação católica. Nesta primeira edição da Revista + Educação destacamos a nova Base Nacional Comum Curricular (BNCC) que, depois de um longo processo de discussão – do qual a ANEC participou ativamente – entra em vigor com o objetivo de melhorar o nível de Ensino Básico brasileiro e promover a educação inclusiva, uma das principais bandeiras das escolas católicas. Inclusão, aliás, é o grande tema desta edição. Você poderá conferir reportagens sobre escolas ministrando cursos de português para imigrantes, principalmente haitianos; sobre os desafios da lidar com o crescimento do número de alunos com deficiência no Ensino Superior; sobre a necessidade de formação continuada para os professores que lidam com inclusão; sobre o combate ao bullying e o papel da família na inclusão escolar de pessoas com deficiência, entre outros. Por fim, permitam-me terminar com uma citação de São Tomás de Aquino que, acredito, representa nossa filosofia: “Há pessoas que desejam saber só por saber, e isso é curiosidade; outras, para alcançarem fama, e isso é vaidade; outras, para enriquecerem com a sua ciência, e isso é um negócio torpe; outras, para serem edificadas, e isso é prudência; outras, para edificarem os outros, e isso é caridade”. Boa leitura! Prof. Dr. Paulo Fossatti, fsc Diretor Presidente ANEC

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Diretoria Nacional Ir. Paulo Fossatti (Presidente) Ir. Adair Aparecida Sberga (1ª Vice-Presidente) Ir. Natalino Guilherme de Souza (2° Vice-Presidente) Ir. Marli Araújo da Silva (1ª Secretária) Prof. Francisco Angel Morales Cano (2° Secretário) Pe. Roberto Duarte Rosalino (1° Tesoureiro) Frei Claudino Gilz (2° Tesoureiro) Evandro Luís Amaral Ribeiro (Secretário Executivo) Conselho Superior Ir. Irani Rupolo (Presidente) Pe. Mário Sundermann (Vice-Presidente) Ir. Cláudia Chesini (Secretária) Conselheiros Pe. João Batista Gomes de Lima (Conselheiro Titular) Pe. Maurício da Silva Ferreira (Conselheiro Titular) Ir. Lioneide Brito da Silva (Conselheiro Titular) Ir. Márcia Edvirges Pereira dos Santos (Conselheira Titular) Frei Gilberto Gonçalves Garcia (Conselheiro Titular) Dom Joaquim Giovani Mol Guimarães (Conselheiro Titular) Ir. Iranilson Correia de Lima (Conselheiro Suplente) Ir. Ivanise Soares da Silva (Conselheira Suplente) Pe. Josafá Carlos de Siqueira (Conselheiro Suplente) Departamento de Comunicação Ex-Libris Comunicação Integrada Jornalista responsável: Jayme Brener (Mtb 19.289-61-SP) Edição: Cláudio Camargo Produção: Geralda Privatti e Jamile Santos Rodrigues Projeto Gráfico e Diagramação Regina Beer

Impressão: FTD Parque gráfico da Editora FTD (11) 3545-8600 Tiragem: 8000 mil exemplares A Revista +Educação é uma publicação da Associação Nacional de Educação Católica do Brasil (ANEC)

SEPN Quadra 516, Conjunto D, Lote 09 – Edifício Via Universitas - 4° Andar CEP: 70770-524 Telefone: 61 3533-5050 Fax: 61 3533-5070 E-mail: comunicacao@anec.org.br Site: www.anec.org.br


notícias

Francisco com professores E

m janeiro deste ano, o papa Francisco recebeu a Associação Italiana dos Professores Católicos. Na Sala Clementina, no Vaticano, o Sumo Pontífice pronunciou um discurso no qual propôs aos membros da Associação Italiana de Professores Católicos três temas: a cultura do encontro, a aliança entre escola e família e a educação ecológica. O papa pediu a promoção da cultura do encontro de forma mais extensa e incisiva, exortando os professores a estimularem nos alunos à abertura ao outro, como irmão e irmã.

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Bullying Para Francisco, o desafio é cooperar para formar jovens abertos e interessados na realidade que os circunda, livres do preconceito segundo o qual para se impor é preciso ser competitivo e agressivo, especialmente diante de quem é diferente, e citou o fenômeno do bullying. “Infelizmente, este é o ‘ar’ que com frequência as nossas crianças respiram, e o remédio é fazer de modo que possam respirar um ar diferente, mais saudável, mais humano. Para este fim, é muito importante a aliança com os pais”.


Pacto rompido Francisco declarou-se convicto do rompimento do pacto educativo entre escola, família e Estado. Antigamente, afirmou, havia um fortalecimento recíproco entre os estímulos dados pelos professores e aqueles oferecidos pelos pais. Mas, a partir do momento em que esta sinergia não acontece mais de modo “natural”, é preciso favorecê-la com planejamento, inclusive com a contribuição de especialistas no campo pedagógico. Todavia, antes disso, o papa defendeu uma nova “cumplicidade” entre professores e pais, não como antagonistas, mas como cúmplices na tarefa da educação – o que definiu como “cumplicidade solidária”. Educação ecológica integral O terceiro aspecto destacado pelo Santo Padre foi o da educação ecológica sobre o qual, segundo ele, não se trata somente de dar algumas noções, mas de educar a um estilo de vida baseado numa atitude de proteção da casa comum. “Um estilo de vida que não seja esquizofrênico, que, por exemplo, cuide dos animais em extinção, mas ignore os problemas dos idosos; ou defenda a floresta amazônica, mas esqueça dos direitos dos trabalhadores a um salário justo, e assim por diante. Isso é esquizofrenia. Não. A ecologia para a qual educar deve ser integral”. De modo especial, Francisco citou a educação no sentido de responsabilidade, não transmitindo slogans, mas suscitando o prazer de experimentar uma ética ecológica partindo de escolhas e gestos de vida cotidiana. O papa concluiu encorajando a perseverança no trabalho da Associação e exortou: “Não tenham medo das diferenças e também dos conflitos que normalmente existem nas associações laicais; não os escondam, mas os enfrentem com estilo evangélico, na busca do verdadeiro bem da Associação”. fonte: VaticanNews

DIA ANEC 2018

Primeiras cidades a receber os encontros comemoram sucesso de público

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s eventos que marcam o início do ano letivo e a união das escolas católicas do Brasil já aconteceram em Goiânia, Brasília, São Paulo. Os assuntos são variados e trazem para gestores, coordenadores pedagógicos e professores, debates importantes sobre a prática pedagógica das escolas; a nova Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e outros. Em Goiânia, por exemplo, os 400 participantes puderam discutir política e segurança da informação no uso das redes sociais, além de debater sobre o contexto da ideologia de gênero. Para a Irmã Cláudia Chesini, secretária do Conselho Superior da ANEC, encontros como esse qualificam a prática de gestores e professores. ‘‘Dias ANEC fortalecem nosso SER Igreja e estreitam laços que garantem a unidade e a visibilidade da Educação Católica regionalizada e também em nível nacional”, comentou. Já em São Paulo, 13 oficinas abordaram o tema Fraternidade e Superação da Violência (Campanha da Fraternidade 2018). Roberta Guedes, gerente da Câmara de Educação Básica, recordou que os eventos existem para promover conhecimentos técnicos sobre assuntos educacionais e também para que as escolas se enxerguem como instituições irmãs que lutam para ter uma educação católica de qualidade. A BNCC e o Projeto Político Pedagógico (PPP) foram os destaques do encontro em Brasília. Com apoio da International School, os presentes acompanharam uma palestra sobre bilinguismo. Também houve uma mesa redonda composta pelos professores Francisco Thiago (UniPROJEÇÃO), Álvaro Moreira Júnior (Presidente do SINEPE/DF), Joaquim José Soares (UnB) e Fábio Pereira de Souza (SUPLAV). Outras cidades ainda vão receber os encontros e se você deseja saber mais sobre eles, basta acessar www.anec.org.br/diaanec.

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Carlos Guilherme Alencar

notícias

Integrantes da atual gestão 2018/2010 da ANEC reunidos em Brasília

ANEC promove encontro de Planejamento Estratégico em Brasília

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correu nos dias 6 e 7 de dezembro de 2017, no Centro de Convenções Israel Pinheiro, em Brasília, o Planejamento Estratégico da ANEC. Este é um encontro que ocorre anualmente e se faz fundamental para alinhar as demandas em nível nacional. Tiveram lugar também a 44ª Reunião da Diretoria da ANEC e a 28ª Reunião do Conselho Superior, sendo esta última em edição extraordinária. Segundo o diretor-presidente, Ir. Paulo Fossatti, faz-se necessária uma participação ativa da ANEC e, para tal, esse encontro foi fundamental. “É importante para a Associação a profissionalização da nossa gestão e, principalmente, sair de uma gestão operacional/ tática e irmos para uma gestão estratégica. Porque só assim nós teremos os grandes objetivos alcançados, o que, de fato, fará a diferença para a ANEC Brasil”.

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Para Evandro Ribeiro, secretário-executivo da ANEC, esses dois dias de planejamento estratégico, nos quais trabalharam tanto a Diretoria Nacional quanto o Conselho Superior e representantes dos conselhos estaduais, foram de trabalho intenso e estratégico. “Essa nova visão vai reposicionar a ANEC naquilo que é essencial à sua atividade: a representação das nossas associadas. Vamos fortalecer cada vez mais as nossas articulações, tanto em nível nacional como estadual.” Entre os pontos destacados no encontro, foi discutido também o orçamento para 2018. “É bem verdade que essa missão supõe também o aspecto financeiro. Aprovamos nosso orçamento para 2018 para atender todas as necessidades e demandas da ANEC”, afirma o Pe. Roberto Duarte, diretor 1º tesoureiro.


ANEC no Fórum Nacional da Educação

O

ministro da Educação, Mendonça Filho, oficializou em janeiro último a participação da Associação Nacional de Educação Católica (ANEC) e de outras três entidades no Fórum Nacional de Educação (FNE). A ANEC indicou Roberta Guedes, gerente da Câmara de Educação Básica, como representante titular, e a Irmã Cláudia Chesini, secretária do Conselho Superior, como suplente, para participarem das atividades junto à Coordenação do Fórum. Segundo Roberta, a presença da ANEC no FNE representa mais um passo na luta pelos interesses da Educação Católica. ‘‘Este é um território político e pedagógico e, por este motivo, estamos prontos para representar as escolas católicas diante das políticas públicas que são feitas para a Educação Básica. A ANEC foi referência na construção do texto final da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), aprovado pelo Conselho Nacional de Educação. Isso prova, não só pedagógica, mas a competência política da ANEC em defesa da educação’’, comenta a gerente.

Já para a Irmã Cláudia Chesini, pertencer ao Fórum Nacional de Educação é ficar no mesmo patamar das discussões de outras instituições de ensino. ‘‘Nossa responsabilidade é a de fornecer uma educação verdadeiramente de excelência. Por este motivo, estaremos presentes no FNE para a elaboração de propostas pedagógicas de qualidade para todos’’, diz. Junto à ANEC, a Portaria 12, de 9 de janeiro de 2018, incluiu ainda o Movimento Amazônia Negra, a Comissão de Educação Escolar Indígena (CNEEI) e a Associação Brasileira de Instituições Educacionais Evangélicas (ABIEE) como entidades participantes do FNE. Criado em 2010, o FNE é um espaço de interlocução entre a sociedade civil e o Estado brasileiro. As entidades podem participar do processo de concepção, implementação, acompanhamento e avaliação da política nacional de educação. Com a inclusão da ANEC e dos demais, o FNE passa a contar agora com 39 entidades.

Seminário de Gestão 2018

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partir deste ano, o Seminário de Gestão realizado pela ANEC passa a ser realizado em cinco capitais brasileiras. A mudança acontece para aumentar a participação dos gestores, assessores e representantes das instituições Mantenedoras associadas à ANEC, e também para diminuir custos. O evento tem o objetivo de congregar todas as associadas em um espaço de reflexão e formação continuada. Além disso, o encontro é feito para ampliar o apoio a gestão das associadas, abordando práticas inovadoras que consolidam temas de

interesse das instituições católicas. Os encontros vão acontecer em: Porto Alegre/RS (16 e 17 de abril); São Paulo (18 e 19 de abril); Belo

Horizonte/MG (23 e 24 de abril); Recife/PE (25 e 26 de abril); Manaus/AM (21 e 22 de maio). Mais informações: www.anec.org.br jan/fev/mar 2018 | nº 43 | Revista da ANEC | 9


mural

Ulparibea voluptatiis sollabor aut voluptatem

Turismo para evangelizar Pastoral do Turismo busca promover integração entre pessoas envolvidas com a atividade, ensinando-lhes o respeito ao próximo e à natureza Por José Maciel

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Pastoral do Turismo (Pastur) é uma ação da Igreja Católica para evangelizar pessoas envolvidas na prática do turismo, sejam viajantes ou agentes do setor, ajudando-as a descobrirem a presença de Deus nas belezas naturais, nas manifestações culturais e religiosas e contribuindo, pelo intercâmbio de experiências, para o enriquecimento pessoal. Em sintonia com a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), a Pastur – que atualmente está presente em 11 dioseses do país –, além de promover o respeito pela diversidade, incentiva o turista a inserir-se na vida da comunidade local, assumindo um compromisso pastoral concreto. Para o Padre Manoel de Oliveira Filho, coordenador Nacional da Pastoral do Turismo, alinhar a abordagem e ensinar o turista a ter respeito pela natureza e pelo ser humano

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que vive nos lugares visitados e por sua cultura são as premissas do trabalho mantido pela Pastoral. “O turismo permite o diálogo entre povos. Diferentes culturas e raças se encontram, diariamente; e, em razão disso, a nossa missão é fazer com que os turistas olhem os lugares com a ótica da fé. Perceber que cada ser humano tem sua dignidade e que ela deve ser respeitada”, explica. Dessa forma, o combate ao trabalho infantil, ao tráfico de seres humanos e às atividades que exploram o ser humano, como a prostituição, são as situações em que a Pastoral está diretamente envolvida. “São circunstâncias que necessitam de uma boa acolhida. Nosso compromisso, como cristãos, é com a defesa e o respeito pela vida”, acrescenta o padre. O campo de ação da Pastur abrange regiões, cidades e áreas turísticas. As dioceses


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de Manaus, Belém, Recife, Natal, Salvador, Caldas Novas, Rio de Janeiro, Aparecida, Vitória, Maringá e Belo Horizonte são lugares onde já existe um coordenador responsável por direcionar as ações da Pastoral, que envolvem não só o turismo religioso, mas ações em aeroportos, terminais rodoviários, ferroviários e náuticos, parcerias com agências de turismo e seus colaboradores, e desenvolvimento de roteiros. Para atingir seus objetivos, a Pastur tem adotado estratégias nas dioceses para sensibilizar e formar as pessoas no acolhimento aos turistas. Entre elas destacam-se o fomento à informação, com o uso das novas tecnologias; a celebração da fé com idiomas estrangeiros; a manutenção de igrejas e serviços de acolhimento abertos por mais tempo para os visitantes; a busca de parcerias para a

capacitação de agentes de turismo e o estabelecimento de vínculos com outras pastorais da igreja, como a Pastoral da Mulher Marginalizada, Pastoral do Povo de Rua, Pastoral dos Migrantes, Pastoral DST/Aids, Pastoral do Menor, entre outras. Além de padres, religiosos e leigos podem tomar a iniciativa e começar as atividades da Pastoral em sua cidade. Para isso, é preciso comunicar o interesse ao Bispo responsável pela diocese. Dessa forma, será mais fácil para a coordenação nacional da Pastur fornecer suporte por meio de encontros e visitas para unificar a base interessada com as já existentes pelo Brasil. “Não somos um grupo que organiza viagens, mas um grupo de ação evangelizadora. Mantemos parceria com agentes de viagens para conseguir atender a todo tipo de turista. Com essas extensões estamos conseguindo atingir o

nosso objetivo missionário e também divulgar o nosso trabalho para quem ainda não o conhece”, acrescenta o Padre Manoel.

Novos turistas – A Pastoral iniciou uma parceria com a ANEC com o objetivo de formar turistas conscientes e respeitosos. A ação tem como público as escolas católicas do Brasil, nas quais serão implementadas ações para formar futuros turistas brasileiros com consciência evangélica. Para o Padre Manoel, o ambiente escolar é propício ao desenvolvimento deste trabalho, já que reúne os estudantes em fase de aprendizado, facilitando a dinâmica do assunto. “Iremos trabalhar de forma interdisciplinar com esses alunos, para que sejam conscientes e respeitosos com os lugares que irão visitar e com as pessoas com que irão se relacionar”, finaliza. ¥ jan/fev/mar 2018 | nº 43 | Revista da ANEC | 11


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educação básica

Casos de sucesso E Escolas católicas apostam na eliminação de barreiras para atender estudantes com necessidades especiais

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liminar as barreiras educacionais é a melhor forma de atender ao estudante com necessidades educativas especiais. Essa é a diretriz das escolas católicas, a exemplo do Colégio Marista Nossa Senhora de Nazaré, de Belém (PA). “Desde meados do ano de 2008, não temos medido esforços na construção de uma sociedade in-

clusiva por meio da educação. Para tanto, temos realizado com muito êxito a inserção de estudantes com necessidades educacionais especiais em nossas salas de aula”, diz o diretor do colégio, Iranilson Correia de Lima. Ele conta que a instituição, para melhor atender ao estudante com necessidades educativas es-


peciais, tem uma área de atendimento especializado, cuja função é identificar, elaborar e organizar os recursos pedagógicos e de acessibilidade para garantir a eliminação de barreiras educacionais para a plena participação dos estudantes, considerando suas necessidades específicas. “O atendimento especializado oferecido pelo nosso Núcleo de Apoio à Inclusão (NAI) complementa a formação dos estudantes, com vistas à autonomia e independência no contexto escolar”, completa o diretor.

Ele relata o caso de uma estudante com diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista que ingressou na instituição para cursar o primeiro ano do Ensino Médio. “Ela apresentava problemas emocionais e afetivos, com intensa inibição na expressão de suas necessidades imediatas, desajustes nos relacionamentos interpessoais, configurados pela sensação de inadequação, pela insegurança diante de soluções de problemas e alto nível de ansiedade”, relembra Iranilson. O diretor conta que a aluna tinha dificuldades de atenção, concentração e memorização. “Seu desempenho mental era moderado, demonstrando dificuldades nas tarefas que exigem abstração e correlação analógica. Sua eficiência intelectual apresentava-se abaixo da média. Diante dessas dificuldades, fizemos a sondagem das competências e habilidades de seu domínio em cada disciplina, para a elaboração do PEI (Plano Educacional Individual)”, explica. À medida que cada docente se sentia mais seguro na relação com a estudante na sala de aula, eram elaborados materiais diferenciados para que ela se sentisse motivada e útil. Trimestralmente, eram realizadas reuniões entre a escola, a família e os profissionais especializados que acompanhavam a menor para avaliação do seu plano educacional. “A jovem avançou positivamente em seu desenvolvimento pessoal, emocional, relacional e acadêmico. Hoje, ela faz curso superior de tradutora de língua inglesa”, conclui Iranilson.

Apoio familiar A educação inclusiva ainda é um tema bastante desafiador para famílias e escolas. “Para alcançar sucesso com a inclusão se faz necessária uma rede de apoio”, analisa Luanna Gabriela de Araújo Silva Soares, orientadora educacional do Colégio Jesus, Maria e José, de Taguatinga, no Distrito Federal, que atende a estudantes com diversos problemas, como déficit de atenção, Distúrbio do Processamento Auditivo Central (DPAC), autismo e Síndrome de Down, entre outros. Ela explica que o colégio executa um plano de atendimento individualizado ao estudante, “com o objetivo de conhecer suas necessidades e potencialidades, de modo a poder desenvolver um atendimento pedagógico personalizado trabalhando as habilidades de cada estudante, para que elas se ampliem e esse indivíduo consiga de fato incluir-se em todos os aspectos”. A orientadora educacional reforça, no entanto, que as crianças e adolescentes deficientes necessitam de uma rede de apoio que consiste na parceria da família, da equipe docente, dos gestores escolares e dos profissionais de saúde. Segundo Luanna, é muito importante a família entender que o primeiro passo para uma educação inclusiva é dado em casa. “A família deve reconhecer a criança como alguém que tem potencialidades e habilidades a serem desenvolvidas independentemente de suas limitações”, explica. E ela chama a atenção para outro fator relevante: “É muito im-

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educação básica

portante que a criança se sinta acolhida e estabeleça um vínculo de confiança com os profissionais que a acompanham”. O diretor Iranilson Correia de Lima concorda. “No colégio, realizamos reuniões periódicas com a família e os profissionais especializados que acompanham os alunos para avaliação do plano educacional adotado”. Centro Educacional Agostiniano A Irmã Rita Cola, diretora do Centro Educacional Agostiniano de Vitória (ES), também enfatiza a importância da família. Ela cita o caso de um aluno que não conseguiu passar de ano em 2017. Segundo ela, neste caso a família não se envolveu como era esperado. “A família tem um papel muito 14 | Revista da ANEC | nº 43 | jan/fev/mar 2018

importante; ela precisa ser verdadeira para relatar a real situação do aluno. É preciso uma parceria intensa entre a escola, a família e os alunos”, explica. A religiosa relata, ainda, o caso de um aluno com Síndrome de Down: “Ele tinha um laudo médico relatando sua dificuldade de atenção e de aprendizagem. Nós o acolhemos e ele se destacou por si mesmo, sem precisar recorrer ao laudo, mesmo tendo Síndrome de Down. Ele se desenvolveu de um ano para o outro, desde o Ensino Infantil até o Ensino Médio, por seu esforço e pelo acompanhamento dos professores e da família. Sempre alcançou as notas necessárias para passar de ano e se formou no Ensino Médio. O tipo de trabalho que fizemos junto com a família fez com que ele atingisse notas pelo

seu esforço e dedicação”, relembra a Irmã Rita Cola. “No Centro Educacional Agostiniano tentamos fazer com que o aluno passe de um ano para outro sem o uso do laudo, se possível. Temos tentado fazer com que o uso do laudo se dê só na reta final. Ao longo do ano, lidamos com o aluno da forma que ele precisa para assimilar o conteúdo”, afirma ela. Já a Irmã Luanna relata um caso do Colégio Jesus, Maria e José, de Taguatinga: “Quando criança, uma aluna foi acometida por meningite, o que ocasionou seu comprometimento cognitivo. Ela chegou à nossa escola aos 15 anos, com baixa autoestima, sentimento de incapacidade e com muitas dificuldades de aprendizagem. Fizemos um trabalho de toda equipe pedagógica buscando estratégias para que ela


Foto cedida pela escola

se desenvolvesse e, ao longo dos três anos do Ensino Médio, ela se tornou uma menina muito dedicada, confiante e focada em seus estudos. Ela e sua família recebiam todos os trimestres um relatório que apontava os pontos de avanço da aluna e também aquelas habilidades que ainda precisavam ser desenvolvidas”. A Irmã Luanna conta, ainda, outro caso de sucesso, de uma menina que nasceu com surdez. “A mãe dela, que fazia toda sua estimulação, faleceu em um acidente de carro e o pai ficou seis meses na UTI. A psicóloga e a psicopedagoga do hospital passaram a cuidar dela e a fazer todo o acompanhamento, inclusive na escola. Ela chegou aqui ao colégio no Ensino Médio com um histórico de não adaptação à escola anterior, mas foi muito bem acolhida por todos e atendida em suas necessidades. Aqui ela viveu suas primeiras experiências sociais com os colegas de turma fora da escola

e de casa. Ela se formou em Artes e neste ano procurou a escola com o objetivo de retornar para ministrar curso de Libras para toda comunidade escolar”, conclui Luanna. Missionárias capuchinhas do Maranhão A psicóloga e psicanalista Mônica da Costa B. P. Marques, coordenadora de Integração da Escola Santa Teresinha, de Imperatriz (MA) narra sua experiência: “A Escola Santa Teresinha é pautada pela educação franciscana, própria das Irmãs Missionárias Capuchinhas”, diz. Ela acredita que a inclusão escolar favorece a participação, aumenta as oportunidades e a cidadania das pessoas com deficiência. Dar oportunidades às pessoas com deficiência abre um espaço de convivência entre as diferenças, combatendo o preconceito e a marginalização. Pois inclusão escolar é a possibilidade de introduzir a noção de diferença

no fundamento educativo, promovendo o laço social e a valorização do ser humano. “Temos em nossa instituição alunos e funcionários com deficiência auditiva, motora e cognitiva, assim como transtornos de aprendizagem e outros. Vários são os desafios, mas trabalhamos os impasses que podem surgir em cada caso de inclusão”, afirma a coordenadora. Tudo é importante: o acompanhamento do aluno e do funcionário deficientes; a aliança entre professores, profissionais e as famílias dos deficientes; as estratégias de ensino, a formação continuada de professores, mas acima de tudo o desejo de que cada sujeito possa ter oportunidades de estar inserido no meio social. “Gosto de trabalhar na Escola Santa Teresinha. Os amigos me auxiliam, explicam quando eu não compreendo uma atividade que deve ser feita. Quando percebem que eu não entendi, escrevem para me explicar”, diz o funcionário Antônio dos Santos, 42 anos, deficiente auditivo (surdo e mudo). Ele acrescenta que a relação com alunos e professores é excelente, sem paternalismo. “Eles mostram quando um trabalho não ficou bem feito”, garante. “Nesses dez anos que estou na escola, tive melhoras. Consegui comprar moto, namorar, arrumar a casa própria”, finaliza Antônio. ¥

Antônio dos Santos, surdo e mudo, trabalha na Escola Santa Teresinha/MA há dez anos e se sente acolhido no meio escolar

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educação básica

Colocando as

diferenças de lado Escolas não devem diferenciar alunos com necessidades especiais; formação continuada dos professores é fundamental para a inclusão

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educação é para todos e não pode ser dividida entre educação para alunos não deficientes e para deficientes. Esta é a premissa para uma educação inclusiva, na visão de Maria Teresa Eglér Mantoan, doutora em Educação, coordenadora regional do Fórum Nacional de Educação Inclusiva e professora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), onde coordena o Laboratório de Estudos e Pesquisas em Diferenças (Leped). Segundo ela, a escola é inclusiva por sua própria natureza e fins,

dado que não se concebe que uma instituição destinada à formação possa excluir, segregar ou marginalizar alguns de seus alunos, separando-os em espaços educacionais diferenciados. Ela lembra que a Política Nacional de Educação Especial, de 2008, na perspectiva da educação inclusiva, foi elaborada para garantir aos alunos deficientes o direito de fazerem parte das turmas comuns, deixando claro que a escola é uma só para todos os alunos, indistintamente, sejam eles

“normais” ou deficientes – pessoas com transtornos do espectro do autismo, com altas habilidades ou superdotados. “No contexto inclusivo, as escolas especiais não são mais admitidas”, diz ela. Maria Teresa ressalta que a educação deve sempre beneficiar a todos e não apenas aos alunos que estão dentro de um padrão que a escola elege como ideal ou normal. “As escolas precisam deixar de ser seletivas. Elas devem aprender a dar conta das diferenças”, analisa. jan/fev/mar 2018 | nº 43 | Revista da ANEC | 17


educação básica

Formação continuada Para atender aos desafios do ensino sob uma perspectiva inclusiva as escolas têm buscado caminhos pedagógicos de forma a proporcionar formação continuada aos professores. “Nos primeiros tempos de implementação da Política Nacional de Educação Especial, que neste ano completa dez anos, havia um investimento maciço do Ministério da Educação (MEC) em formação continuada”, 18 | Revista da ANEC | nº 43 | jan/fev/mar 2018

lembra Maria Teresa Eglér Mantoan. “Neste último governo, mudaram as prioridades, embora ainda existam alguns poucos cursos gratuitos de EAD, na Plataforma Paulo Freire, que oferecem subsídios e formação continuada a professores do ensino comum e especial, na concepção inclusiva”. O fato é que grande parte dos professores ainda apresentam lacunas em sua formação inicial em relação à educação inclusiva, principalmente no que tange à prática pedagógica e à avaliação, ela afirma. Segundo Maria Teresa, a formação continuada em educação inclusiva implica uma virada no modo de se capacitar o professor a assumir suas funções, tendo como premissas básicas da educação os itens a seguir:

O fato é que grande parte dos professores apresentam lacunas em sua formação inicial em relação à educação inclusiva, principalmente no que tange à prática pedagógica e à avaliação

ww todos nós somos capazes de aprender, a partir de nossos interesses e capacidades; ww ensinar não é sujeitar o aluno a reproduzir conteúdos, mas disponibilizar esses conceitos, assegurando a emancipação intelectual de cada um para recriá-los; ww aprender é um ato livre e criativo; não implica treino, repetições sem sentido ou adaptações curriculares, pois estas são excludentes e diferenciam alguns alunos pela deficiência, incompetência – o que implica discriminação.

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Resistência à inclusão “Historicamente, os sistemas de ensino ignoraram essa particularidade que faz da escola um lugar de inclusão, porque adotavam um modelo de estudante arbitrariamente definido, aceitando nas turmas comuns apenas aqueles que correspondem a esse modelo”, diz. “É por isso que muitas escolas ainda demonstraram resistência à inclusão. Ocorre que todos nós somos seres singulares, mutáveis, sujeitos a transformações ilimitadas e, portanto, diferentes. E é com essa diferença de todos que muitas escolas não conseguem lidar”, analisa a especialista. Maria Teresa aconselha que as escolas e redes busquem o entendimento correto do que significa ser uma escola para todos, bem como conheçam a fundo a Política Nacional de Educação Especial e seu novo serviço, o Atendimento Educacional Especializado (AEE). Este atendimento é obrigatório para as escolas e se destina a retirar as barreiras que impedem os alunos-alvo da educação especial de terem acesso às aulas e à instituição como um todo, participando e aprendendo com seus colegas de turma.


MESMO ENSINO; APRENDIZADO DIFERENTE Para a professora, as lacunas na formação de professores estão no modo de se entender o que é inclusão. “A educação inclusiva não se limita a ensinar em um mesmo ambiente educacional a alunos ditos normais e a outros, ditos diferentes. Acontece que todos nós somos diferentes. A educação inclusiva é, pois, aquela que acontece em escolas nas quais o ensino é o mesmo para todos os alunos, mas a aprendizagem é, necessariamente, diferente para cada um”, explica a professora. Segundo ela, no geral, muitos cursos de formação em educação inclusiva ainda repetem o que se ensinava antes do advento da Política Nacional de Educação Especial. Ou seja, a capacitação se destina a oferecer aos professores comuns conhecimentos que antes eram próprios da formação de professores da educação especial: como ensinar de modo diferenciado os alunos com deficiência, sejam superdotados ou com transtornos do espectro autista, para que aprendam os conteúdos curriculares; como alfabetizá-los; como adaptar e facilitar uma atividade para alunos com deficiência intelectual; como ensinar alunos cegos a escrever em Braille etc. Apesar disso, ela avalia que algumas escolas de diferentes redes de ensino brasileiras já começam a contemplar em seus projetos pedagógicos e de formação continuada de professores a diferença como característica que define os seres

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Todo o planejamento das atividades escolares, inclusive a avaliação, é desenvolvido a partir dessas premissas básicas.

Educação Católica preparada para atender alunos com deficiência visual através da linguagem Braille

humanos. “Elas compreenderam que o ensino deve ser o mesmo para todos, mas a aprendizagem, diferente”, insiste. “São essas escolas as que mais têm avançado na direção da inclusão”, conclui.¥ jan/fev/mar 2018 | nº 43 | Revista da ANEC | 19


ensino superior

Alguns progressos;

muitos desafios

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Nos últimos anos, cresceram as medidas para incluir pessoas com deficiência nas universidades, mas a realidade mostra que ainda há um longo caminho a ser percorrido

20 | Revista da ANEC | nº 43 | jan/fev/mar 2018


Lucas Silva Lopes

Pessoa com deficiência, estudante e pesquisador de iniciação científica do curso de Direito da PUC-Campinas

O

mais recente censo do IBGE (2010) indicou que no Brasil existiam 45.606.048 pessoas que se diferenciam socialmente em razão de alguma deficiência. Elas representavam 23,9% da população total, um número expressivo, que evidencia o quão as pessoas com deficiência estão afastadas do convívio social. O censo também apontou que apenas 6,7% das pessoas com deficiência têm curso superior. Considerando que o Relatório Sobre os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (2015) apontou que em países em desenvolvimento cerca de 1/3 das crianças não escolarizadas têm alguma deficiência, fica fácil compreender que a relação entre deficiência e incapacidade é equivocada. Na realidade, qualquer desvantagem suportada pela pessoa com deficiência é fruto da inexistência de condições socioeconômicas e de ambiente adequa-

Pedro Pulzatto Peruzzo

Advogado, doutor em Direito pela USP e professor pesquisador da faculdade de Direito da PUC-Campinas

do à plena participação e ao exercício de direitos em paridade com as demais pessoas. Os problemas que “escondem” grande parte das pessoas com deficiência são de vários tipos, como o preconceito. Mais os principais decorrem das barreiras que impedem o acesso dessas pessoas ao espaço público onde convivemos, fazemos amizades, estudamos e participamos da política. Quando tratamos do acesso à educação das pessoas com deficiência, precisamos ter consciência, desde o início, de que este é um tema que não se limita a essas pessoas, mas que aponta para um projeto de sociedade que contemple o convívio na diversidade. Considerando que o artigo 205 da Constituição Federal diz que a educação visa não apenas à qualificação para o trabalho, mas também ao pleno desenvolvimento da pessoa e ao seu preparo para o jan/fev/mar 2018 | nº 43 | Revista da ANEC | 21


ensino superior

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exercício da cidadania, a inclusão da pessoa com deficiência no Ensino Superior tem o objetivo maior de proporcionar experiências positivas de convívio na diversidade para toda a comunidade acadêmica que está se preparando para as mais diversas atividades, como projetos arquitetônicos, de engenharia, medicamentos, políticas públicas.

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Nesse sentido, precisamos superar a visão pautada na comiseração e assumir o compromisso de sair da zona de conforto para nos envolver de corpo e alma na complexa rede de desafios que o convívio com a diferença exige para que possamos construir uma sociedade realmente mais justa e solidária.

Pelo fato de que corpos diferenciados são expressão da diversidade humana e qualquer desvantagem não decorre da diferença em si, mas sim de ambientes hostis, a acessibilidade arquitetônica e comportamental é necessária para a efetiva participação da pessoa com deficiência na sociedade Esse novo olhar busca situar as pessoas que segregaram deficientes ou que, de alguma forma, deixaram de propiciar a elas o acesso aos seus direitos por concebê-las como incapazes ou imperfeitas. Esse novo olhar trabalha com a ideia de inclusão que, ao invés de focar apenas na pessoa diferente ou na necessidade específica, típica das políticas de integração ou assimilação, se preocupa em promover mudanças que beneficiam todas as pessoas que dividem um mesmo espaço de convivência. Essa concepção de inclusão tem como fundamento o “modelo social da deficiência”, que nada mais é do que uma forma de considerar a deficiência 1) como um aspecto da diversidade humana (aspecto positivo); e 2) como consequência da falta de acessibilidade no meio ambiente (aspecto negativo).


O “modelo social” foi consagrado nos principais documentos internacionais e nacionais que tratam dos direitos humanos da pessoa com deficiência, sendo importante anotar que o Texto Base da Campanha da Fraternidade de 2006, que tratou do tema, já esclarecia o sentido desse modelo. A Convenção da ONU sobre os Direitos da Pessoa com Deficiência reconhece que a deficiência diz respeito à diversidade humana e também que ela resulta da interação entre pessoas com impedimentos físicos, mentais, intelectuais ou sensoriais e as barreiras decorrentes das atitudes e do ambiente que impedem a plena e efetiva participação dessas pessoas na sociedade em igualdade de oportunidades.

A Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência), de 2015, também adotou o modelo social na definição da deficiência e, do mesmo modo que a CDPD, previu expressamente o direito dos deficientes de acesso às instituições de Ensino Superior e de educação profissional e tecnológica em igualdade de condições com as demais pessoas

1

O direito à educação é garantido à pessoa com deficiência em todos os graus de ensino com vistas ao desenvolvimento de todas as suas potencialidades. O aumento do número de representantes desse grupo socialmente diferenciado nas instituições de Ensino Superior, apesar de ainda estar longe do desejado, representa um passo importante na concretização de objetivos presentes nas normas nacionais e internacionais de direitos humanos. A garantia do acesso à educação se dá no instante em que todo processo de criação e mudança na estrutura arquitetônica, pedagógica e comportamental é orientado pelo princípio do desenho universal, que afirma a necessidade de que toda elaboração de produtos, ambientes, programas e serviços tenha a preocupação de que o resultado final possa ser acessado e usufruído por todas as pessoas, convivam elas ou não com alguma deficiência. Neste ponto, o acesso da pessoa com deficiência ao Ensino Superior não deve se resumir à eliminação de barreiras no campo arquitetônico, tais como garantir a presença de rampas e elevadores, mas, sobretudo, no aspecto pedagógico, seja pela disponibilização de materiais didáticos que possam ser lidos e reproduzidos pela via tátil, como o sistema Braille, a contratação de guia-intérprete, o uso de legenda fechada e audiodescrição na reprodução de materiais audiovisuais e até mesmo a disponibilização de profissional de apoio escolar. Nesse sentido, é imprescindível haver programas que façam a pon-

te entre a universidade e o mercado de trabalho e que negociem com os órgãos públicos transporte público acessível não apenas nos trajetos entre a casa da pessoa com deficiência e a universidade, mas em toda a cidade, uma vez que o acesso à universidade pressupõe um projeto profissional e os estágios são fundamentais não apenas para aprimorar o conhecimento técnico, mas também para assegurar a muitos estudantes uma renda para a aquisição de material de estudo. Por outro lado, ainda existe pouco material didático acessível para a pessoa com deficiência. Apenas a título de exemplo, o Senado Federal oferece, gratuitamente, a órgãos da administração direta e indireta textos legislativos em Braille1, mas isso está bastante distante das necessidades para que o acesso à Educação Superior se faça de forma justa em relação às pessoas com deficiência. Portanto, tendo em vista a concepção de que corpos diferenciados são expressão da diversidade humana e que qualquer desvantagem não decorre da diferença em si, mas sim de ambientes hostis, a acessibilidade arquitetônica e comportamental faz-se necessária para a efetiva participação da pessoa com deficiência na sociedade, sobretudo, nas atividades desenvolvidas no campo pedagógico, tendo em vista que são nestas últimas que aprendemos acerca da realidade, especialmente da realidade que nos apresenta a existência e as potencialidades das pessoas que convivem com alguma deficiência.¥

Cf. https://www12.senado.leg.br/publicacoes/braille/publicacoes-em-braille jan/fev/mar 2018 | nº 43 | Revista da ANEC | 23


ensino superior

Camila Cunha

Ensinando o portuguĂŞs para imigrantes

24 | Revista da ANEC | nÂş 43 | jan/fev/mar 2018


Iniciativas de faculdades e instituições do sul do país ajudam a integrar haitianos na sociedade brasileira

A

mpliar as possibilidades de participação social e a empregabilidade dos imigrantes haitianos no Brasil. Este é o objetivo do curso de português para imigrantes e refugiados da Fundação Honorina Valente, em parceria com a Faculdade Padre João Bagozzi, em Curitiba, no Paraná. “Iniciado em agosto de 2015, o projeto já atendeu a 100 haitianos, sendo que 20 já conseguiram a revalidação de seus diplomas de Ensino Médio e os demais estão em período de preparação”, explica Humberto Silvano Herrera Contreras, coordenador do Núcleo de Inovação, Pesquisa e Extensão da Faculdade Padre João Bagozzi. Segundo ele, ao aprender a língua os imigrantes podem acessar o Ensino Superior, ser inseridos no mercado formal de trabalho e conquistar posições melhores na sociedade “para poder viver com mais dignidade”. A Fundação Honorina Valente é a responsável pela contratação dos professores e intérpretes para ministrar as aulas e potencializar empregabilidade e vivência cultural dos participantes. A Faculdade Bagozzi acompanha o projeto visando a garantia de infraestrutura física e tecnológica, bem como a participação dos haitianos em atividades de extensão universitária e a certificação de participação no curso. “Já temos seis alunos que cursam o Ensino Superior em Curitiba, estudando Mecatrônica, Ciência da Computação, Engenharia Elétrica, Enfermagem, Psicologia e Administração (dois deles na Faculdade Bagozzi). Na faculdade, eles recebem apoio psicopedagógico nos processos de aprendizagem e convivência com os professores e demais alunos”, diz Contreras. O projeto também tem ajudado alunos do curso de Pedagogia na realização de pesquisas referentes jan/fev/mar 2018 | nº 43 | Revista da ANEC | 25


ensino superior

a temas como a inclusão social da criança haitiana na escola, especificamente a partir da relação currículo e cultura. Projeto no Rio Grande do Sul “Você que está chegando, bem-vindo! Só faltava você aqui!”. A música do Padre João Carlos ganhou novo significado quando entoada pelos imigrantes haitianos e senegaleses da Lomba do Pinheiro, em Porto Alegre. Atuando como voluntárias, as professoras Cristina Perna e Regina Kohlrausch, do curso de Letras, e a doutoranda Graziela Andrighett, encorajavam os 24 alunos. O então diretor da Pastoral da PUCRS, Marcelo Bonhemberger, e o agente de pastoral, Rafael Rossetto, tocavam acordes de violão. Este era o clima nas aulas gratuitas de português ministradas pela PUCRS para imigrantes e refugiados nas manhãs de sábado do primeiro semestre de 2017, na Paróquia Santa Clara. O curso ensina o idioma aplicado a temas de uso cotidiano e do mundo do trabalho. As educadoras também auxiliaram na elaboração de currículos. Para Regina Kohlrausch, foi uma forma de contribuir com quem chega ao País e precisa do idioma para integração na comunidade. “É uma maneira de fazer com que a adaptação, longe da terra natal, seja menos dolorosa”, observa. Com o apoio da Cáritas Arquidiocesana, que presta atendimento aos imigrantes, a Pastoral propôs uma parceria com a Paróquia Santa Clara. Assim, o projeto ganhou vida, alinhado ao movimento PUCRS 26 | Revista da ANEC | nº 43 | jan/fev/mar 2018

O governo brasileiro estabeleceu, em 2012, uma nova modalidade de visto, o visto humanitário. Atualmente, existem menos de 10 mil refugiados reconhecidos no País; cerca de 40 mil ainda aguardam a decisão do Comitê Nacional para Refugiados, órgão que avalia as solicitações de refúgio

360o - Universidade em transformação – que reitera, entre outras dimensões, a compreensão integral das pessoas e da educação. Em busca de trabalho Nandie Sain Paul, 22, está no Brasil há dois anos, com o marido e o filho. “Está difícil conseguir trabalho”, lamenta. No Haiti, era cozinheira. A dificuldade na comunicação foi uma das principais barreiras que ela enfrentou. “Quando cheguei, não entendia nada do que falavam. Nas aulas de português, aprendi muito. Acho que isso me ajudará a conseguir um emprego”, diz. Nadie gostaria de ser secretária. “Mas eu seria feliz trabalhando com qualquer coisa”, constata.

Joseph Bazelais, 31, encara o mesmo problema. “Estou em Porto Alegre há um ano, sem trabalho. Meu aluguel está atrasado há meses e não tenho ninguém para me ajudar”, relata. Este foi o motivo para frequentar as aulas de português: qualificar-se para conseguir um emprego. “Tenho família no Haiti e a vida está muito difícil lá. Eu, que poderia ajudar, não consigo”. Em seu


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país, Joseph trabalhava na construção civil e como jardineiro. Rafael Rossetto diz que iniciativas como esta integram a própria missão da PUCRS. A Rede Marista presta atendimento a 82 países. “Trabalhar a solidariedade durante o processo educativo, seja dos estudantes ou dos funcionários é um desafio com o qual a Pastoral sem-

pre se preocupa. Um exemplo é o próprio Voluntariado Marista”, sustenta Rossetto. Visto humanitário O governo brasileiro estabeleceu, em 2012, uma nova modalidade de visto, o humanitário. Atualmente, existem menos de dez mil refugiados reconhecidos no País. Cerca

de 40 mil aguardam a decisão do Comitê Nacional para Refugiados, órgão responsável por avaliar as solicitações de refúgio. Segundo o professor Gustavo Pereira, da Escola de Direito, quando estrangeiros são considerados ilegais pela legislação brasileira, eles têm oito dias para deixar o País. Se não o fizerem, tornam-se imigrantes irregulares. ¥ jan/fev/mar 2018 | nº 43 | Revista da ANEC | 27


artigo

Os Danos Extrapatrimoniais na Reforma Trabalhista

e a voz da Igreja através das Encíclicas A reforma trabalhista contraria os preceitos católicos consagrados em encíclicas papais sobre o mundo do trabalho, de Leão XIII a João Paulo II

A Adilson Souza

Superintendente do Axis Instituto

28 | Revista da ANEC | nº 43 | jan/fev/mar 2018

despeito de várias contestações; manifestações contrárias de entidades diversas; de juristas; de parte da Igreja e de inúmeros cidadãos, foi “aprovada” a reforma trabalhista, que está em vigor desde novembro de 2017. A reforma, através da lei 13.467/17, traz em seu bojo centenas de alterações, envolvendo diversos aspectos e situações do dia a dia das empresas e empregados. E, como contraponto às condições estabelecidas na reforma, torna-se oportuno ouvir a voz da Igreja através de suas encíclicas, desde Leão XIII quando escreveu a Rerum Novarum sobre a condição dos operários em 1891, a João Paulo II que em 1981, exatos 90 anos depois de Leão XIII, discorreu sobre o trabalho e suas condições na Laborem Exercens. A proposta deste texto é, a partir das falas de alguns papas, fazer um contraponto às injustiças a serem cometidas contra o trabalhador brasileiro, em nome da “lei”, e os enormes retrocessos, nos campos do direito e da dignidade humana, que esta “lei” traz em seu bojo.

Dentre as mudanças, foi estabelecida na reforma a “fórmula” de indenização da parte que venha a ser ofendida pela outra, seja empregado denegrindo a imagem, marca, nome e o segredo da empresa, ou a empresa ofendendo a moral, honra, intimidade, sexualidade, saúde e a integridade física e psicológica do empregado. A situação não causa estranheza por si só, exceto se os cálculos das supostas indenizações não estivessem atrelados aos valores dos salários dos empregados. O custo “para reparar” o dano será proporcional ao salário de quem ofendeu ou foi ofendido, ou seja, a moral ou a integridade das pessoas terá, para efeitos de indenizações, um valor relativo ao seu salário, independente de a ofensa ser a mesma para diferentes ofendidos. Como exemplo, imaginemos dois empregados de uma instituição (um auxiliar de serviços com salário mensal de R$ 1,2 mil e uma superintendente financeira com salário de R$ 25 mil mensais) sendo maltratados em sua honra, moral, orientação sexual e em outros aspectos, por um diretor dessa


Leão XIII (à esq.), autor da primeira encíclica aos operários (1891) e João XXIII, autor da Pacem in Terris (1963)

empresa. E, para efeito de análise, suponhamos que as ofensas proferidas por este diretor foram simultâneas e exatamente as mesmas aos dois empregados, causando neles “similares” danos psicológicos e emocionais. Consideremos, ainda, que não houve, em nenhum dos casos, esforço para minimização da ofensa, ou perdão, ou retratação. No julgamento dos hipotéticos fatos ocorridos nessa instituição, o Judiciário poderá, face à situação, considerar que os danos extrapatrimoniais foram de “natureza gravíssima”, o que, segundo a legislação, implica indenizações de até 50 vezes1 o salário do ofendido. Assim, pelo sofrimento e danos similares, aos quais os dois empregados estiveram expostos, a indenização poderá ser no valor de R$ 60 mil para o auxiliar de serviços e de R$ 1,25 milhão para a superintendente, ou seja, a previsão legal possibilita

inferir que um dos ofendidos vale mais de 20 vezes o colega de trabalho que recebeu a mesma ofensa. A reação que se tem é de perplexidade e, numa análise histórica das encíclicas, pode-se detectar, no texto da lei, uma explícita afronta aos documentos papais que versaram, de forma pertinente, sobre as relações humanas e os valores daqueles envolvidos no meio laboral. Na encíclica Rerum Novarum (1891), o Papa Leão XIII dizia que “os ricos devem precaver-se religiosamente de todo o ato violento, toda a fraude, toda a manobra usurária que seja de natureza a atentar contra a economia do pobre e isto mais ainda porque este é menos apto para defender-se, e porque os seus haveres, por serem de mínima importância, revestem em caráter mais sagrado”. E citava ainda, são a esses que, “...o coração de Deus parece reclinar-se mais”.

Na Pacem in Terris (1963), sobre a paz de todos os povos, João XXIII proferiu assertivas em torno da dignidade e do valor da pessoa humana, dentre elas que, “universalmente prevalece, hoje, a opinião de que todos os seres humanos são iguais entre si por dignidade de natureza.” Ou ainda, “em nosso tempo, estão superadas seculares opiniões que admitiam classes inferiores de homens e classes superiores, derivadas de situação econômico-social, sexo ou posição política.” E, finalizando, “não pode um homem ser superior a outro por natureza, visto que todos gozam de igual dignidade natural”. E o Papa João Paulo II, na encíclica Laborem Exercens (1981), discorrendo sobre o trabalho humano, destacava que “em última análise, a finalidade do trabalho, de todo e qualquer trabalho realizado pelo homem — ainda que seja o tra-

1 § 1° do art. 223 da Lei 13.467/17 jan/fev/mar 2018 | nº 43 | Revista da ANEC | 29


artigo

O Papa João Paulo II escreveu a encíclica Laborem Exercens em 1981

balho mais humilde de um serviço e o mais monótono na escala do modo comum de apreciação e até o mais marginalizador — permanece sempre o mesmo homem”. E, ao contrário da forma definida para a indenização citada na reforma trabalhista, o papa afirmava: “o fundamento para determinar o valor do trabalho humano não é, em primeiro lugar, o gênero de trabalho que se realiza, mas o fato de aquele que o executa ser uma pessoa. As fontes da dignidade do trabalho devem ser procuradas, sobretudo, não na sua dimensão objetiva, mas sim na sua dimensão subjetiva”. Como se percebe, há mais de um século a Igreja já falava sobre a situação dos operários e desde então, seja nas encíclicas, seja em outros documentos ao longo da história, ela continua reafirmando a importância da pessoa humana

e de sua dignidade, dentre outros aspectos, no ambiente de trabalho. E hoje, reduzido o papel histórico da Igreja, recebemos uma reforma que, mesmo necessária em alguns pontos por ela abordados, coloca o homem e a mulher, em especial os mais pobres, num patamar de sujeição, de menos valia e de rasa importância na sociedade. O Papa Francisco, falando sobre a inclusão social2, que exige educação, acesso à saúde e trabalho para todos, exclama: “o crescimento das desigualdades e da pobreza põe em risco a democracia inclusiva e participativa, que pressupõe sempre uma economia e um mercado que não excluem e que são justos”. O papa ratifica a voz histórica da Igreja, afirma a necessidade de vencer as causas estruturais das desigualdades e da pobreza, de ma-

2 Papa Francisco; Pontifício Conselho Justiça e Paz, 2014.

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neira clara e justa, sem diferenças e desigualdades no tratamento do homem e do mais fraco. Assim, é real a possibilidade que enfrentaremos, de uma total desconsideração da lei e do governo aos direitos básicos do cidadão, sob a égide de uma suposta alavancagem da geração de empregos e da competitividade das empresas do país. O resultado dessa estratégia, ainda sem comparativos de sucesso em outras nações, poderá ser o aumento da exclusão, a desvalorização das pessoas, a elevação dos índices de violência e a perpetuação da miséria, de maneira mais explícita e grave, daqueles que, historicamente, têm sua dignidade aviltada, exatamente por não verem respeitados os seus direitos, aqueles pelos quais grita o Evangelho. ¥

O Papa Francisco defende a inclusão social


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32 | Revista da ANEC | nยบ 43 | jan/fev/mar 2018


Implementando a

Base Nacional Comum Curricular Depois de muito debate, o documento entra em vigor com diretrizes para promover a educação inclusiva, com equidade, e melhorar o nível de ensino

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Anec acompanhou de perto o caminho percorrido pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC) até sua aprovação final e homologação, em dezembro de 2017. Agora, o documento é a referência obrigatória para nortear os currículos e propostas pedagógicas das escolas e redes do Ensino Básico (Infantil, Fundamental e Médio), públicas ou particulares. A BNCC estava prevista no Plano Nacional de Educação (PNE), que entrou em vigor em 2014; na Lei de Diretrizes e Bases (LDB), válida desde 1996; e na Constituição Federal de 1988. A primeira versão do documento foi apresentada em setembro de 2015 e contou com 12 milhões de contribuições. Mais duas versões foram elaboradas: em maio de 2016 e em abril de 2017. O Ministério da Educação (MEC), por sua vez, encaminhou estas versões ao Conselho Nacional de Educação (CNE), onde a proposta acolheu mais sugestões recebidas de audiências públicas. Estados e municípios têm, a partir de agora, prazo até o início do ano letivo de 2020 para implementar a BNCC. Ao longo de 2018, as escolas e redes de ensino devem começar a adaptar seus currículos para que as diretrizes do documento comecem a ser colocadas em prática já em 2019. “O objetivo da BNCC é estabelecer as aprendizagens essenciais que os alunos precisam ter ao longo das etapas e modalidades da Educação Básica. A Base Curricular também vai orientar políticas para a formação de professores, materiais didáticos, matrizes de avaliação etc., levando

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as escolas a repensar seus currículos”, explica Cláudia Lima Gonçalves, coordenadora do GT Pedagógico do Rio Grande do Sul. Para Rosemari Fackin, assessora Educacional da Educação Básica da Rede La Salle Brasil, o principal objetivo da Base Curricular é “garantir a educação com equidade, por meio da definição das competências essenciais para a formação do cidadão em cada ano da Educação Básica”. “Primeiro, é preciso entender que a BNCC é um documento normativo. Ele define o conjunto orgânico e progressivo de aprendizagens essenciais que todos os alunos devem desenvolver ao longo da Educação Básica, de modo que tenham assegurados seus direitos de aprendizagem e desenvolvimento, em conformidade com o que preceitua o Plano Nacional de Educação”, lembra a professora Alice Costa do Nascimento Melo, do Colégio Preciosíssimo Sangue, de Manaus. Segundo ela, o objetivo da Base Curricular é diminuir as desigualdades de aprendizado, de modo que todos os alunos tenham direito e garantia de acesso às mesmas oportunidades. Para a professora, a BNCC normatiza ações para fortalecer o regime de colaboração entre as esferas de governo, dando equilíbrio aos “sistemas de ensino, redes e escolas, de maneira a garantir aos estudantes aprendizagens citadas nas dez competências gerais da BNCC”, explica. Assim, as competências e diretrizes são comuns e os currículos, diversos, possibili-

tando o desenvolvimento de habilidades específicas. Cláudia Gonçalves, do GT RS, explica a diferença entre a Base Nacional e o currículo das escolas: “a BNCC indica as competências que os alunos devem aprender em cada área do conhecimento e nos respectivos componentes curriculares”, diz. Para ela, o documento apresenta a sequência de conteúdos que deve ser implementada nas escolas. Já o currículo é o documento que norteia toda a ação pedagógica da escola, com a organização de conteúdos. “A partir da aprovação da Base pelo CNE, as escolas farão as adaptações necessárias à sua implantação”, explica.


Ela destaca que o direito a um aprendizado de qualidade para todos fica garantido e as diversidades regionais e a autonomia do professor, também. “Cada município deve definir seu próprio currículo. Cada rede poderá incluir, além do que determina a BNCC, os conhecimentos regionais que julgar pertinentes”, diz. Segundo Rosemari Fackin, “a Base Nacional tem 60% das competências e habilidades necessárias aos educandos. Os restantes 40% cada escola poderá sugerir em

A Base Nacional Comum Curricular é uma referência obrigatória, mas diferente do currículo. A BNCC estabelece os objetivos que se busca alcançar, enquanto o currículo define como alcançá-los

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Rosemari Fackin também enfatiza que a Base Nacional Comum Curricular é uma referência obrigatória, mas diferente do currículo. A BNCC estabelece os objetivos que se busca alcançar, enquanto o currículo define como alcançá-los. “As redes de ensino têm autonomia para elaborar ou adequar seus currículos de acordo com o estabelecido na BNCC – assim como as escolas têm a prerrogativa de contextualizá-los e adaptá-los aos seus projetos pedagógicos”, diz.

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seu currículo e nas propostas pedagógicas, de acordo com a decisão do Conselho de Educação de cada município”. Avanços A Base Nacional Comum Curricular proporcionará mudanças e avanços na educação no Brasil. “Todo o processo envolveu muito trabalho, além das políticas públicas direcionadas à educação”, analisa Alice Melo, de Manaus. Ela cita como exemplos a valorização dos profissionais da educação e os incentivo à educação, “desde que isso seja levado a sério e que as verbas realmente cheguem ao seu destino”. Segundo Rosemari Fackin, “espera-se que a BNCC possa auxiliar a superar as diferenças existentes entre as necessidades de aprendizado dos alunos, possibilitando com isso melhorar seu desempenho em avaliações nacionais e internacionais”. A coordenadora Cláudia Lima Gonçalves acredita que, com a BNCC, os conteúdos serão apresentados de uma forma mais aplicável, interessante e sequencial, “tornando-os mais próximos da realidade do aluno”. Ela enfatiza que, se cada escola conseguir garantir a aplicação das competências gerais que a BNCC apresenta, “estaremos colaborando com a construção de uma sociedade mais solidária, responsável e com consciência crítica. Além disso, currículos que despertem mais a curiosidade dos alunos tendem a ampliar o interesse deles pela escola e, consequentemente, haverá um aperfeiçoamento do desempenho escolar e dos indicadores que avaliam a qualidade de ensino no Brasil”. 36 | Revista da ANEC | nº 43 | jan/fev/mar 2018

Outro ponto interessante da Base Nacional Comum Curricular é que as aulas serão sempre diferentes umas das outras, porque “os estudantes têm realidades próprias e contextos diferentes, que irão exigir do professor conhecimento e manejo para definir uma proposta de ensino adequado a eles”, opina Alice Melo. Cláudia Gonçalves lembra que a Lei de Diretrizes e Bases (LDB) já assegura à escola a possibilidade de, ao elaborar seu Projeto Político-Pedagógico (PPP), organizar os tempos e espaços mais adequados ao desenvolvimento do currículo. Portanto, a metodologia adotada pela escola será desenvolvida dentro de seu ritmo; observados os objetivos propostos para cada série, etapa e nível. O aluno que não conseguir acompanhar o desenvolvimento da classe deverá ter monitoramento e apoio pedagógico da escola, dentro de um contexto de inclusão. Ela enfatiza que a BNCC determina que o currículo precisa “contextualizar os conteúdos de seus componentes, identificando estratégias para apresentá-los, representá-los, exemplificá-los, conectá-los e torná-los significativos, com base na realidade do aluno”. “Como o próprio documento relata, não há condutas ou ações específicas exigidas dos professores, nem opções por abordagens ou metodologias. Caberá ao Projeto Político-Pedagógico da escola considerar o contexto escolar e as características de seus alunos”, diz Cláudia Gonçalves. Ela destaca, ainda, que os coordenadores pedagógicos e diretores das escolas podem ajudar

As aulas serão sempre diferentes uma das outras porque os estudantes têm realidades próprias e contextos diferentes, que irão exigir do professor conhecimento e manejo para definir uma proposta de ensino adequado a eles

os professores no dia a dia para a implementação da Base Nacional. “É preciso capacitar os professores por meio de reuniões pedagógicas e de encontros de formação para que, juntos, possamos aprender mais sobre a BNCC. Também é necessário fomentar nos professores o desejo de estudar e desenvolver as competências que a BNCC nos apresenta tão claramente”, diz a coordenadora Cláudia Lima. Alice Melo acrescenta que bons professores são aqueles que têm desejo de ensinar e de aprender. “Por isso, é importante saber identificar e incentivar esse tipo de profissionais. Coordenadores pedagógicos e diretores precisam perceber quais profissionais exibem tal vocação.”


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‘’A BNCC está igualando a todos pela educação, reconhecimento práticas pedagógicas inclusivas’’, afirma Rosemari Fackin

Inclusão de deficientes A inclusão de alunos com deficiências é contemplada na Base Nacional Comum Curricular. Segundo Cláudia Gonçalves, “desde a introdução, a BNCC cita a construção de uma sociedade justa, democrática e inclusiva. Nas competências gerais, menciona a educação inclusiva. Sobre educação integral e escola como espaço de aprendizagem e democracia inclusiva, o documento reforça a necessidade de práticas pedagógicas inclusivas e de diferenciação curricular, citando a Lei 13.146/2015”. Cláudia observa, ainda, que a escola precisa selecionar e aplicar metodologias e estratégias didático-pedagógicas diversificadas, recorrendo a ritmos diferenciados e a conteúdos complementares, se necessário, para trabalhar com as

necessidades de grupos distintos de alunos, suas famílias e culturas de origem, suas comunidades, seus grupos de socialização etc. “Cabe às escolas, por meio de seu regimento e PPP, organizar e orientar o currículo inclusivo, adequando-o às necessidades especiais dos alunos”, assegura a professora. Alice Melo, por sua vez, lembra que a inclusão está presente em outros documentos anteriores à Base Nacional. “Encontramos essa exigência em alguns marcos legais que embasam a BNCC, como a Lei de Diretrizes e Bases (LDB) e várias leis dos últimos anos, entre elas a Lei 13.005/2014, que aprovou o Plano Nacional de Educação”, acrescenta. Para Rosemari Fackin, as indicações para a inclusão de alunos com deficiência também devem ser explicitadas no regimento e no

PPP de cada escola. “Ao detalhar as aprendizagens essenciais para os educandos de todo Brasil, a BNCC está igualando a todos pela educação, reconhecendo práticas pedagógicas inclusivas e de diferenciação curricular, conforme estabelecido pelo Estatuto da Pessoa com Deficiência (Lei de Inclusão da Pessoa com Deficiência, Lei nº 13.146/2015)”, diz. Segundo ela, “com competências e habilidades mínimas estabelecidas pela BNCC, a escola desenvolverá o ‘como’ trabalhar essas competências, dando oportunidade de aprendizagem a todos, reconhecendo que as necessidades dos educandos são diferentes. Cada escola deverá executar seu planejamento com foco na equidade, com claro compromisso de reverter a situação de exclusão”, conclui. ¥ jan/fev/mar 2018 | nº 43 | Revista da ANEC | 37


Camila Cunha

ensino superior

Suzy Craidy realizou o sonho de cursar Psicologia

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Fonte de conhecimento e juventude Alunos acima de 50 anos levam inspiração e troca de experiências para a sala de aula

Por Vanessa Mello Repórter da Assessoria de Comunicação e Marketing da PUCRS

“Envelheço aprendendo sempre muitas coisas” (Sólon, estadista e legislador grego, 638a.C.-558a.C.)

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universidade é um lugar de busca de conhecimento, formação profissional, preparação para o mercado, troca de experiências, interação, criação de vínculos com colegas e professores, amizades que ultrapassam os bancos acadêmicos, renovação e atualização constantes. É um espaço para todas as idades, do jovem adulto à maturidade. E o número de alunos acima de 50 anos de idade que ingressam no Ensino Superior tem

aumentado muito nos últimos anos. Seja pela busca de recolocação ou de uma nova carreira; para realizar o sonho de conquistar um diploma de graduação; para aproveitar a fase de vida depois da aposentadoria ou pelo simples fato de poder alçar os próprios voos, os alunos sêniores estão se destacando cada vez nas salas de aula universitárias. Com o propósito de gerar transformação na vida das pessoas e na sociedade, a PUCRS é um espaço

de construção permanente do conhecimento, com ensino e pesquisa de excelência, promovendo inovação, interdisciplinaridade e valorizando a diversidade. Em 2017, foram 241 alunos acima de 50 anos matriculados na graduação. Destes, 147 eram mulheres e 94, homens. Os cursos mais buscados por esse público foram Direito, Psicologia e História. Essa convivência entre as diferentes faixas etárias no campus reforça o propósito do mojan/fev/mar 2018 | nº 43 | Revista da ANEC | 41


Camila Cunha

ensino superior

Alunos acima de 50 anos enriquecem a sala de aula

vimento PUCRS 360, com trajetória acadêmica aberta, formação transversal, aprendizagem em ambientes de pesquisa, ampliação da formação humana e muitas novidades na infraestrutura. Há três importantes aspectos em ter esse perfil de aluno na PUCRS. O primeiro deles é o conceito de life long learning, de aprendizado continuo ao longo da vida. O 42 | Revista da ANEC | nº 43 | jan/fev/mar 2018

segundo é a lógica da carreira, na qual, cada vez mais, as pessoas terão diferentes profissões ao longo da vida. Por fim, ter alunos acima de 50 anos na graduação é uma oportunidade de enriquecimento para todos na sala de aula. De professora a psicóloga Formada em Estudos Sociais em 1979, Suzelmara de Mello Crai-

dy era professora de escola pública no Ensino Fundamental. Ao se aposentar, decidiu concretizar um sonho antigo, cursar Psicologia. Suzy, como é chamada pelos colegas, ingressou na PUCRS como diplomada e formou-se no final de 2017. Voltar à universidade foi uma forma de aprender, prosseguir ativa, produzir algo útil e buscar satisfação pessoal. Aos 60 anos, conta que a


O número de alunos acima de 50 anos que ingressam no ensino superior aumentou muito nos últimos anos. Eles buscam a recolocação ou uma nova carreira; realizar o sonho de ter um diploma de graduação; aproveitar a fase de vida depois da aposentadoria ou poder alçar seus próprios voos

diferença de idade com os colegas não é nada negativa. “Vou a barzinhos, em reuniões nas casas dos colegas e sempre levo meu marido junto. Tenho uma relação de amizade sincera, fui até madrinha de casamento de uma colega”, comenta. Em busca do diploma Quem disse que existe idade limite para se conquistar o primei-

ro diploma de graduação? Depois de se aposentar como vendedora em uma livraria, Silvana Beatriz Anghinoni recebeu da filha muito incentivo para realizar o desejo de cursar o Ensino Superior. Silvana se preparou, fez aulas de revisão e foi aprovada no vestibular. Ingressou no curso de Pedagogia em 2014 e concluiu o curso no final de 2017. A escolha por Pedagogia foi pelo amor que tem por crianças e por acreditar que somente por meio da educação é possível “salvar” a humanidade. Natural de Tapera, Silvana mudou-se para Porto

Alegre em 1990 com o objetivo de trabalhar com os irmãos. Segundo ela, estar em sala de aula abriu sua mente para diferentes questões. “O ambiente, a convivência com os jovens e com as professoras trazem um conhecimento que teoria e livro nenhum ensinam”, recomenda. Pensamento e físico revigorados A constante vontade de aprender e renovar ideais levou Oscar Lorenzo Inzulza Concha a ser aluno universitário pela terceira vez. O primeiro diploma ele conquistou no Chile, onde nasceu, em Administração, no ano de 1974. O segundo foi na PUCRS, em Economia, há 36 anos. Em 2016, concluiu a graduação em Direito. “Cumpri todo o programa proposto em cinco anos, incluindo as disciplinas complementares”, celebra. Nascido em Valparaiso, Concha veio para o Brasil a trabalho em 1975. A escolha pelo Direito foi pela necessidade do mercado, já que atua em comércio exterior. “Como economista, preciso estar atualizado com informações, especialmente sobre normas e tributos”, explica. A integração com colegas foi natural e a diferença de gerações passou despercebida. “Participo de grupos de WhatsApp e Facebook, vou a churrascos e aniversários. Ganhei anos de vida. É como se o pensamento e o físico se renovassem. Aprendi muito com eles, especialmente nessa parte de dinâmica da comunicação, que é constante e empolgante”, elogia.¥ jan/fev/mar 2018 | nº 43 | Revista da ANEC | 43


boas prรกticas

A escola e o combate ao

bullying

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É preciso preparar a comunidade escolar e envolver a família para coibir essa prática habitual no ambiente escolar

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mbora possa se manifestar em diversos lugares ou grupos sociais, o bullying é mais frequente na escola, onde as crianças iniciam sua socialização. Já prejudicial quando direcionado a alunos de qualquer condição, tal prática se torna particularmente nociva quando atinge crianças com alguma necessidade especial, por reforçar a discriminação. Segundo Bianca Drolhe, orientadora educacional do Colégio Madre Carmen Sallés, no Distrito Federal, o termo bullying, que vem do inglês bully (“valentão”), se refere a todas as formas de atitudes agressivas, verbais ou físicas, intencionais e repetitivas, que ocorrem sem motivação evidente e são exercidas por um ou mais indivíduos com o objetivo de intimidar ou agredir uma pessoa que tem pouca possibilidade ou capacidade de se defender. “As vítimas são os indivíduos mais fracos e frágeis, transformados em objeto de diversão e prazer por meio de brincadeiras maldosas e intimidadoras”, diz, acrescentando que estão inclusos no bullying os apelidos pejorativos criados para humilhar os colegas. A orientadora educacional explica que, quando o problema é detectado na escola, a criança precisa ser ouvida e os pais devem ser chamados, tanto os da vítima quanto os dos agressores. “É necessário orientar as famílias para que, juntas com a escola, busquem estratégias visando a fortalecer emocionalmente a criança afetada”, explica a orientadora educacional. Segundo ela, é necessário que a família e a escola estejam atentas às mudanças repentinas de comportamento da criança e do adolescente. “Já é comprovado que crianças e adolescentes que sofrem bullying perdem a espontaneidade e costumam se isolar socialmente, evitando relacionar-se com os colegas da mesma idade”, explica Bianca Drolhe. jan/fev/mar 2018 | nº 43 | Revista da ANEC | 45


boas práticas

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A orientadora esclarece que há uma tendência de as escolas não admitirem a ocorrência do bullying entre seus alunos; ou elas desconhecem o problema ou se negam a enfrentá-lo. “Esse tipo de agressão geralmente ocorre em áreas onde a presença ou supervisão de adultos ou responsáveis é mínima ou inexistente”, explica Bianca Drolhe. “As pessoas que testemunham o bullying, na grande maioria alunos, convivem com a violência e silenciam por temerem se tornar as ‘próximas vítimas’ do agressor. No espaço escolar, quando não ocorre uma intervenção efetiva contra o bullying, o ambiente fica contaminado e os alunos, sem exceção, são afetados negativamente, expe-

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Pesquisa realizada em 2010 com alunos de escolas públicas e particulares brasileiras revelou que o bullying é mais comum em alunos das 5ª e 6ª séries

rimentando sentimentos de medo e ansiedade”, afirma a orientadora. Uma pesquisa realizada em 2010 com alunos de escolas públicas e particulares brasileiras revelou que as humilhações típicas do bullying são mais comuns em alunos das 5ª e 6ª séries. E as três cidades brasileiras com maior incidência dessa prática são Brasília, Belo Horizonte e Curitiba. Envolver a comunidade escolar Para a orientadora, o combate ao bullying deve começar dentro da escola. “Primeiro, é preciso formar e informar toda a comunidade escolar sobre o assunto, desde o porteiro até o auxiliar da área administrativa”, diz. A escola também deve promover ações de esclarecimento aos educadores, demais funcionários e pais. “Isso pode ser feito por meio de palestras com profissionais da área da saúde, como psicólogos,


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psiquiatras ou educadores-pesquisadores que tenham dados concretos sobre o assunto, esclarecendo dúvidas e propondo soluções”, aconselha. Ela sugere ainda que a escola realize reuniões temáticas com os pais ou que proponha grupos internos de estudo/discussão. Bianca Drolhe lista outras ações de conscientização constante que podem ajudar a combater a prática de bullying: “Projetos ou miniprojetos no espaço escolar sobre valores como respeito mútuo, paz, tolerância e respeito às diferenças permitem aos alunos exporem suas opiniões sobre o assunto – e até seus medos –, numa espécie de terapia ocupacional. Isso pode transformar os alunos em aliados contra esse mal”, acredita.

A orientadora ressalta que os educadores também devem se policiar, tendo cuidado, por exemplo, com a forma como se dirigem a um aluno, evitando reforçar apelidos ou termos depreciativos, “porque o professor é que está na linha de frente; é ele quem estabelece contato direto com o aluno. Muitas vezes, por falta de tato do professor com essa questão, o aluno fica intimidado e prefere se calar”, explica. Contexto familiar Ao constatar a ocorrência de um caso de bullying, a escola deve investigar o contexto familiar do agressor para saber quais parâmetros de educação os responsáveis utilizam na formação dos filhos. E então, se for o caso, procurar orien-

tar a família. “A escola também precisa conversar e orientar o agressor sobre seus atos em relação ao grupo, a si e às vítimas que elege”, diz Bianca Drolhe. “A escola pode, ainda, buscar ajuda de outros segmentos como Conselho Tutelar ou assistência psicológica de orientação familiar.” “Em relação à vítima, é importante procurar saber quais são seus medos e qual é a percepção que ela tem de si em relação ao grupo. E também alertar, muitas vezes, para atitudes comportamentais que atraem o bullying, como uma roupa suja ou o cabelo não muito arrumado. Tais ‘problemas’ não justificam a agressão, mas tornam um aluno alvo de bullying. Cabe à escola esse papel de orientação geral”, finaliza. ¥ jan/fev/mar 2018 | nº 43 | Revista da ANEC | 47


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reflexรฃo

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Família,

elemento essencial para a integração O esforço para incluir crianças com necessidades especiais deve ser compartilhado por pais e educadores

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ma parceria. É assim que Mari Elise Kirch Stein vê as relações entre a família e a escola que abriga um aluno especial. Psicopedagoga institucional do Colégio Santa Catarina, de Novo Hamburgo, no Rio Grande do Sul, Mari diz que a família tem um papel importantíssimo nas perspectivas de vida escolar do aluno com necessidades especiais. “A família, ao levar uma criança a uma instituição de ensino pela primeira vez, traz consigo sonhos, perspectivas e planos para seu filho ou filha, do mesmo modo como ocorreu durante os meses da gestação dessa criança”, analisa. Porém, segundo ela, no caso de alunos com necessidades es-

peciais, sentimentos contraditórios se misturam, porque a criança na qual os pais depositaram tanta expectativa já precisou enfrentar algumas batalhas e deverá encarar muitas outras. Em sua experiência como psicopedagoga, Mari Elise Stein afirma: “ao receber pais de crianças com necessidades especiais, a escola precisa ter consciência de que se trata de uma família que teve de construir outros sonhos, outros objetivos e encarar desafios que nem imaginava”. Para a especialista, cada família necessita de tempos diferentes para encarar a realidade e isso deve ser respeitado. “É com esse tempo que cada integrante da

Ao receber pais de crianças com necessidades especiais, a escola precisa ter consciência de que se trata de uma família que teve de construir outros sonhos, outros objetivos e encarar desafios que nem imaginava

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reflexão

A interação entre escola, pais e professores é fundamental para que a integração ocorra de maneira transparente, com confiança e clareza no papel de cada um nesse processo 50 | Revista da ANEC | nº 43 | jan/fev/mar 2018

família ‘fará o seu luto’, por assim dizer, e, ao fazê-lo, estará mais fortalecido para encarar o que vier”, aconselha a profissional. Se para a escola a parceria com a família é muito importante, torna-se ainda mais importante essa família confiar na instituição que procurou, acredita Mari Elise. “Escola, família e profissionais que trabalham com o aluno com necessidades especiais precisam ter consciên-


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De acordo com o Censo Escolar do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), entre 2005 e 2015 o número de estudantes especiais convivendo com demais alunos subiu de 114.834 para 750.983 nas escolas brasileiras. Fonte: INEP

Ela ressalta que a interação entre escola, pais e profissionais é fundamental e que isso deve acontecer “de maneira dialógica, transparente, com confiança e clareza do papel de cada um nesse processo”. Segundo Mari Elise, há demandas que são da escola; outras que são dos pais e outras, ainda, dos profissionais, mas “tudo isso precisa estar permeado pela confiança. Com essa parceria, a escola poderá contribuir com os projetos que a família tem para seu filho ou filha”.

cia de que um transtorno, uma deficiência ou alta habilidade existe para toda a vida, mas que elas não são sentenças de morte. Muito pode ser feito para melhorar as perspectivas de vida do aluno, mesmo que em alguns momentos o retorno não seja o esperado”, explica a especialista.

Identidade Outro ponto que necessita ser destacado é o quanto a escola e a família têm de responsabilidade na formação da identidade da criança. “A escola e a família desempenham um papel importantíssimo nessa formação. Para tanto, precisam deixar o aluno enfrentar as frustrações que surgirem para que ele possa se tornar autônomo, sujeito e escritor de sua história”, ensina. Mari Elise ressalta que a inclusão de crianças com necessidades especiais no ambiente escolar vai

além da adaptação curricular e do espaço físico. “Quando chega à escola, a criança é vista por muitos como um ser estranho. Mas a escola é um dos primeiros convívios sociais que temos. É nela que começamos a ver e a perceber o mundo além do nosso lar, principalmente em sua multiplicidade. E cabe lembrar que a sociedade tem seus propósitos frente à escola, porque espera que ela promova a educação eficiente de todos que por ela passarem”. Por fim, a psicopedagoga do Colégio Santa Catarina garante que todos os envolvidos no processo educacional de um aluno com necessidades especiais devem ter o cuidado de proporcionar aos educandos um espaço onde possam se desenvolver com autonomia e subjetividade, tendo a consciência de que os sentimentos trazidos pela família precisam ser respeitados. Mas isso não significa que esses sentimentos não possam ser analisados e repensados, principalmente aqueles que possam atrapalhar ou limitar o desenvolvimento da criança. ¥ jan/fev/mar 2018 | nº 43 | Revista da ANEC | 51


boas prรกticas

A metodologia aplicada no projeto respeita os limites de cada aluno

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Esporte para todos O Projeto Paradesporto está mudando a vida de pessoas com deficiência em Canoas (RS), onde cerca de 50 paratletas vêm sendo treinados Por Maíra Gatto Analista de Comunicação – UNILASALLE

Foto cedida pela Universidade

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ivendo uma crise depressiva nos últimos anos, Andressa Silveira, 30 anos, perdeu a vontade de sair de casa. Com a ajuda de um tratamento com profissionais e medicação, ela voltou ao convívio social e passou a acompanhar a irmã, Vanessa da Silveira, que praticava natação na Universidade La Salle. “Ela vinha e ficava só olhando, me observando nadar, porque nunca gostou de água. Mas aí um dia ela sentiu vontade e começou a praticar também”, conta. Andressa tem Síndrome de Down e hoje faz parte do Projeto “Em Canoas, o esporte rendimento é para todos”, o Paradesporto, uma iniciativa da Fundação La Salle, que é financiada por meio da Lei Pró-Esporte, do Governo Estadual. O projeto conta com patrocínio das Lojas Lebes e é realizado em parceria com a Prefeitura de Canoas e com a Universidade La Salle. A proposta tem por objetivo incentivar equipes paraolímpicas em esporte de alto rendimento, mas vai muito além disso. “A gente sempre jan/fev/mar 2018 | nº 43 | Revista da ANEC | 53


boas práticas fael Celi. Atualmente, cerca de 50 paratletas vêm sendo treinados nas modalidades atletismo, basquete em cadeiras de rodas, futebol de 5, goalball e natação. Dentro da piscina do Poliesportivo da Universidade La Salle, o professor Vinicius Schoeneberg

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liga a prática de esportes aos benefícios para a saúde, mas outro dia um atleta com deficiência visual me disse que o projeto acabou com a baixa autoestima, melhorou o senso locomotor e mudou o dia-a-dia dele”, explica o coordenador do Paradesporto, o educador físico Ra-

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da Silva passa as orientações para Andressa, Fran e Larissa. Ele pede calma às mais experientes com uma das colegas que está chegando e se adaptando ao mergulho. “O grande diferencial na metodologia aplicada é o respeito aos limites dos atletas e futuros atletas. Porém, sempre na busca da superação destes limites, adaptando, desenvolvendo, ensinando e aprendendo a cada dia, para assim, juntos, atingirmos nosso objetivo”, explica o professor. Mara Alves, mãe de Larissa, que sofre de hipotrofia – uma síndrome que causa perda dos movimentos – celebra a evolução da filha no projeto desde o ano passado: “ela está com mais agilidade e estabilidade nos movimentos. Além da sociabilização, que melhorou muito”, explica.

Alguns atletas têm se destacado e competições de futebol de 5 e basquete estão previstas para os próximos meses. Profissionais desse projeto pioneiro vão formular conteúdo para servir de incentivo a outros profissionais


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O coordenador do projeto relata que alguns atletas têm se destacado e que competições de futebol de 5 e basquete estão previstas para os próximos meses. Devido ao pioneirismo, a atividade pretende formular conteúdo que sirva como apoio para incentivar profissionais da área da Educação Física a investirem nesse tipo de ação. “Não temos acesso a muitos livros e artigos sobre esse tema; então, outro objetivo dos profissionais que estão no projeto é formular conteúdo a partir do que estamos vivenciando na prática”, completa Celi. ¥

Serviço As inscrições para o projeto estão abertas. Ele destina-se a pessoas com deficiência física, visual ou intelectual, que atendam às características específicas de cada modalidade, a partir de 12 anos de idade. Documentação necessária: Ficha de inscrição, laudo médico com a CID, atestado médico liberando para a prática de exercícios físicos, cópia do RG e CPF.

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boas práticas

Coordenação pedagógica, a construtora de pontes Os coordenadores pedagógicos são fundamentais para acelerar o processo de inclusão de alunos com deficiência nas escolas

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função principal de um coordenador pedagógico é planejar e acompanhar a execução de todo o processo didático-pedagógico da instituição educacional onde atua. “Neste contexto, é atribuição do coordenador conduzir o processo educacional inclusivo”, analisa Inês Alves Lourenço, diretora da Escola Franciscana Nossa Senhora de Fátima, em Brasília (DF). “O cumprimento dessa atribuição interfere na qualidade do atendimento, pois a ausência de uma ação junto à sua equipe de professores para o cuidado com os alunos com necessidades especiais pode favorecer a exclusão escolar. E a falta de um projeto de formação contínua dos professores na escola prejudica a qualidade da educação ofertada e, consequentemente, a inclusão escolar”, ensina a diretora. “O processo participativo permite aos professores, primeiramente, conhecer as necessidades de seus alunos especiais; o que gostam de estudar; como preferem aprender; o que os faz desistir; em que costumam errar; quais

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emoções os dominam quando fracassam ou são provocados, estimulando-os a descobrir quais são suas potencialidades e sonhos e de que forma persistir para alcançá-los”, explica Inês Alves. Segundo ela, nesse processo é preciso respeitar as diferenças físicas, sociais, culturais e as necessidades socioemocionais de cada aluno, favorecendo a convivência humana, para que todos sejam respeitados em suas individualidades. “E a intervenção pedagógica pode compensar estes condicionamentos ou deficiências, apresentando um plano de desenvolvimento integral desse aluno a partir de suas potencialidades”, analisa. E ela acrescenta que o pensar pedagógico de uma escola inclusiva deve estar voltado para o respeito às necessidades específicas de cada aluno, focando nas suas potencialidades e desenvolvimento integral. “Esse pensar pedagógico deve ser organizado com adaptações: na organização dos conteúdos, nos objetivos, na metodologia, na avaliação e na temporalidade.

O pensar pedagógico de uma escola inclusiva deve estar voltado para o respeito às necessidades específicas de cada aluno, focando nas suas potencialidades para permitir um desenvolvimento integral Essas adaptações se classificam como ‘muito significativas’ e ‘pouco significativas’, de acordo com o grau de intervenção nos componentes curriculares”, detalha. Segundo a diretora, as adaptações muito significativas são estratégias para superar os obstáculos no processo de aprendizagem, levando em consideração as potencialidades e capacidades do aluno e a complexidade das atividades. Já


de prioridade é estabelecida para aquele aluno, a partir da análise do conhecimento já apreendido e do grau de importância do referido objetivo para o seu desenvolvimento e a aprendizagem significativa”, acrescenta. Uma “avaliação adaptada” prioriza os tipos, áreas ou unidades de conteúdos para a reformulação da sequência ou a eliminação de conteúdos secundários, acompanhando as adaptações a serem trabalhadas por todos os alunos conforme o laudo de cada um.

Na “avaliação adaptada” na temporalidade do processo de ensino e aprendizagem, o professor pode destinar um tempo maior para a realização das avaliações e atividades propostas de acordo com as necessidades específicas de cada aluno. “Para isso, o coordenador pedagógico deve conhecer a fundo a educação inclusiva, currículos adaptados e avaliação adaptada, capacitando-se continuamente para assessorar sua equipe e, assim, realizar um trabalho inclusivo de qualidade, oportunizando a formação continuada de seus professores”, finaliza.¥

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as adaptações pouco significativas consistem em pequenos ajustes no planejamento do professor e no cotidiano escolar. Ela ensina, ainda, que um currículo adaptado resulta em aulas adaptadas e, consequentemente, em uma avaliação adaptada. “A avaliação adaptada pode ser por adaptação de objetivos; por adaptação de conteúdos ou por adaptação na temporalidade do processo de ensino e aprendizagem” diz. Segundo ela a “avaliação por objetivos” é aquela na qual o professor prioriza determinados objetivos para atender às necessidades educacionais do aluno, investindo mais tempo e utilizando maior variedade de estratégias pedagógicas para alcançar determinadas finalidades em detrimento de outras, menos necessárias.. “A escala

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boas práticas

O papel da

gestão escolar na inclusão

Por Marisa Crivelaro da Silva Mestre em Educação e Diretora do Colégio Marista Sant’Ana

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Os gestores têm um papel fundamental não apenas na organização dos espaços físicos da escola como também para atingir corações e mentes das pessoas envolvidas na integração


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É preciso ter um olhar solidário para as pessoas com deficiência e pela luta de seus familiares para que elas tenham melhores condições de aprendizado

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uito mais do que uma exigência de ordem legal, a questão da inclusão escolar dos deficientes é um imperativo humano. É preciso ter um olhar solidário para essas pessoas e pela luta de seus familiares para que elas tenham melhores condições de aprendizagem, de modo que possam, dentro de suas possibilidades, exercer sua cidadania na sociedade. Sendo lideranças influenciadoras, os gestores escolares têm um papel proeminente como preparadores, na organização e adaptação dos espaços físicos do ambiente escolar; e como inspiradores, buscando atingir corações e mentes das pessoas que atuarão nesse cenário. Isso inclui capacitar e sensibilizar

funcionários da escola, professores, coordenadores e famílias dos demais estudantes para conviverem com as pessoas deficientes de forma saudável, harmônica e construtiva. Nesse sentido, cabe destacar algumas práticas inclusivas que os gestores podem mobilizar na escola e que produzem resultados animadores: ww Encontros de formação e preparação com os funcionários que estejam envolvidos no processo de acolhida e cuidados, desde a recepção até no pátio do colégio, fazendo simulações de situações que exijam intervenção imediata para ajudar e apoiar, enquanto outros buscam ajuda especializada das coordenações ou professores para atender e mediar as situações imprevistas. Cumpre lembrar uma das competências que o sociólogo Philippe Perrenoud defende: saber “agir na urgência e decidir na incerteza”. ww Formação dos educadores que atuarão com as crianças deficientes, desafiando-os a serem propositivos; a planejarem estratégias lúdicas e diferenciadas de ensino, pelas quais esses estudantes possam fazer uso de diversas linguagens; sobretudo da linguagem corporal nas suas diversas manifestações, movimentos e expressões; propostas de ativi-

dades que as coloquem em situação de experimentação, de exploração e de construções, respeitando seus limites e considerando o que Lev Vygotsky conceitua como “zona de desenvolvimento potencial”. ww Valorização e destaque às boas práticas de professores e funcionários, socializando-as em momentos de jornadas pedagógicas. O foco é a valorização das pessoas que decidem inovar e transformar suas práticas para poder incluir sempre com melhor qualidade. A dimensão da intencionalidade deve permear o processo de planejamento, desde a organização do ambiente escolar até os processos de ensino e de aprendizagem, elaborados para atender às necessidades específicas desses estudantes, com planos especiais. A maneira como os gestores organizam e realizam as dinâmicas de comunicação e relacionamento com as famílias dos estudantes deficientes e com as famílias dos demais estudantes influencia e tem implicações significativas na construção de um clima de harmonia, compreensão e de colaboração com a escola. Chamar à escola as famílias dos estudantes com deficiência para dar-lhes retornos positivos sobre os progressos deles e sobre as conquistas feitas pela escola e pelos professores que beneficiam o desenvolvimento desses estudantes, revelando, assim, a intenção da escola de buscar um aprendizado cada vez mais inclusivo. A educação para todos deve constituir-se em compromisso de todos no ambiente escolar. Champagnat alertava: “Para bem educar as crianças é preciso, antes de tudo, amá-las e amá-las todas, igualmente”. ¥ jan/fev/mar 2018 | nº 43 | Revista da ANEC | 59


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artigo

FRATERNIDADE

e superação da violência Uma oportunidade única para evangelizar e educar em prol de uma cultura de paz

A Por Frei Claudino Gilz, ofm *

60 | Revista da ANEC | nº 43 | jan/fev/mar 2018

Campanha da Fraternidade (CF) foi uma feliz iniciativa histórica e anualmente é promovida pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) durante o tempo litúrgico da Quaresma. O objetivo por excelência dessa campanha tem sido sensibilizar a sociedade à reflexão de certas problemáticas, buscando mudanças e, até mesmo, possíveis soluções.

Escolhe-se para a realização da referida Campanha, a cada ano, um novo tema e lema. Em 2018, “Fraternidade e superação da violência” é o tema, e “Em Cristo somos todos irmãos”, o lema. Em outras palavras, a CF2018 almeja “construir a fraternidade, promovendo a cultura da paz, da reconciliação e da justiça, à luz da Palavra de Deus, como caminho


de superação da violência”. E dois são os desafios mais evidentes que se apresentam à pesquisa e à análise do tema da Campanha da Fraternidade de 2018: 1. Compreender a violência nos seus múltiplos aspectos, visto que ela está presente em várias situações do cotidiano social: na rua, no esporte, no trânsito, nas redes sociais, nos meios de comunicação, nas famílias (dentro de casa...), nas escolas (bullying, preconceito, intolerância), entre outros; 2. Compreender o papel das atuais gerações na construção de uma cultura de paz. Modos como a violência se manifesta – A origem da palavra violência está relacionada à violação (violare) do bem-estar do próximo. Ela é identificada principalmente em ações impetuosas e agressivas de cunho intencional, das quais se desdobram consequências lamentáveis em termos de sofrimentos ou traumas alheios, ou até mesmo a morte. Manifesta-se a violência de diferentes modos, desde as relações cotidianas e familiares até as de âmbito estrutural ou institucional (cometidas por aqueles que deveriam zelar pelos direitos do cidadão): fome, sede, tortura, guerras, conflitos étnico-religiosos, assassinato, agressão verbal ou física, violência doméstica, violência sexual, abandono de vulnerável, violação dos direitos civis (liberdade, privacidade, proteção igualitária), violação dos direitos sociais (saúde, educação, segurança, habitação), entre outros.

A fraternidade é amizade, companheirismo, entreajuda, cuidado e zelo. Eis porque o tema da Campanha da Fraternidade de 2018 é uma oportunidade para se evangelizar e educar a comunidade escolar e a sociedade numa cultura de paz

Constatações lamentáveis – “Onde acaba o amor têm início o poder, a violência e o terror”, afirmava o psicanalista Carl Jung. “A violência destrói o que ela pretende defender: a dignidade da vida, a liberdade do ser humano”, dizia o então Papa João Paulo II. “A violência não é força, mas fraqueza, nem nunca poderá ser criadora de coisa alguma, apenas destruidora”, disse também o filósofo Benedetto Croce. O Papa Francisco convida-nos a perceber que vivemos em um mundo dilacerado: “a violência não é o remédio para o nosso mundo dilacerado. Responder à violência com a violência leva, na melhor das hipóteses, a migrações forçadas e a atrozes sofrimentos, porque grandes quantidades de recursos são destinadas a fins militares e subtraídas às exigências do dia a dia dos jovens, das famílias em dificuldade,

dos idosos, dos doentes, da grande maioria dos habitantes da terra”. É possível viver nos dias de hoje sem tanta violência: a evangelização e a educação podem muito – em educação, a superação de todas as formas de violência principia pelo desenvolvimento da habilidade crítico-reflexiva dos alunos, pelo amadurecimento do sentimento de repúdio a qualquer ação humana que possa endossar o desrespeito, a insensibilidade e a intolerância. Principia pelo resgate da própria compreensão da palavra fraternidade, que sinaliza para os inúmeros laços de comunhão entre uma pessoa e outra, com base no respeito à dignidade de cada uma, na igualdade de direitos, entre outros. “Sonho com o dia em que todos se levantarão e compreenderão que foram feitos para viverem como irmãos”, enunciava Nelson Mandela. Eis porque fraternidade também pode ser sinônimo de amizade, companheirismo, entreajuda, cuidado e zelo. Eis porque o tema da Campanha da Fraternidade de 2018 é uma oportunidade única para se evangelizar e educar a comunidade escolar e também a sociedade em prol de uma cultura de paz. ¥ * Doutorando em Educação pela Universidade São Francisco (USF) em Itatiba - SP, Mestre em Educação (2007) e graduado em Pedagogia (2005) pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Desde 2004 atua como assessor pedagógico, docente e pesquisador na área de Educação, com ênfase em História da Educação, Livro Didático, Formação Docente e Ensino Religioso. Também é 2° Tesoureiro da ANEC

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estante Editora Bom Jesus Título: Últimos cantos Autores: Marcelo Brum-Lemos (organizador), Cláudia Pedroso (organizador), Marcos de Mello (ilustrador), Antônio Gonçalves Dias (autor) Páginas: 228 Sinopse: Esta edição crítica procura facilitar o caminho às leituras de um dos mais interessantes poetas do Brasil do século 19, época de sentimentos conturbados e idealizações. Tomamos por base a edição Nova Aguilar (Poesia e Prosa Completas, org. Alexei Bueno, RJ, 1998), e o volume original (Edição Paula Brito, Rio de Janeiro, 1851), que trazia algumas notas elucidativas em seu final, escritas pelo próprio poeta, e que foram aqui mantidas. Além dessas, anexamos um vocabulário explicativo, inclusive do léxico indígena (a partir, entre outras fontes, do Dicionário Tupi que o próprio G. Dias elaborou em 1857), notas e comentários e, ainda, breves análises de forma e conteúdo.

Editora Vozes Título: A força da oração Autores: Anselm Grün (autor), Sebastian Painadath (autor), Gerondissa Diodora (autor) Páginas: 184 Sinopse: Conheça o livro A Força da Oração, de Anselm Grün, uma obra impecável que vai lhe proporcionar reflexão, meditação e crescimento pessoal. Nele, é possível observar diversos argumentos acerca do extraordinário poder que as orações podem exercer em nossas vidas. Um livro que proporciona inspiração para a busca de desenvolvimento pessoal e renovação espiritual.

Edições Loyola Título: E foram deixados para trás – uma reflexão sobre o fenômeno do suicídio Autor: Pe. Licio de Araujo VALE Páginas: 136 Sinopse: Não tenho dúvidas de que estas páginas vão lhe trazer boas inspirações. Ao final delas, você terá um novo jeito de olhar a vida. E a vida terá para você ainda mais valor. Dalcides Biscalquin Este livro chega em boa hora, em um momento de aumento do número de reportagens sobre o suicídio entre os jovens. Que as reflexões tão sensíveis e francas aqui contidas possam auxiliar pais e filhos a dialogarem sobre as dores da existência, sobre transtornos mentais, sobre como podemos estar mais atentos e solidários, para cuidarmos bem de nós e dos outros.

FTD Educação Titulo: Respeito, sim! Violência, não! Autor: Fernando Carraro Páginas: 48 Sinopse: Um acontecimento inesperado desencadeia momentos de reflexão sobre a violência social. Um assalto sofrido pelo personagem Pedro, de dez anos, desencadeia uma conversa em sala de aula sobre os vários tipos de violência social. Pedro e seus colegas contam as situações pelas quais passaram e como se sentiram. Com leveza, esta obra aborda situações como bullying, preconceito contra etnia, classe social, cor da pele, entre outras, promovendo momentos de reflexão e discutindo formas de superar as múltiplas faces da violência.

62 | Revista da ANEC | nº 43 | jan/fev/mar 2018


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Revista +Educação - Edição 43  

Confira a edição de transição da revista que antes era Informativa Educacional. Um material repleto de notícias importantes sobre o trabalho...

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