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Associação Cultural AMIGOS DA SERRA DA ESTRELA * 1º Trimestre *Março * 2016


FICHA TÉCNICA

SUMÁRIO

DIRECTOR: J. Maria Saraiva (Presidente da ASE)

CORPO REDACTORIAL: José Veloso Tiago Pais João Pedro Sousa Susana Noronha

Editorial 3 Trilhos 4 Aspiring Estrela Geoprak 7

Ruta del Jabalí 11

COMPOSIÇÃO: J. Maria Saraiva Paulo Silva

Observação de um lince 18 As Aldeias da Serra 36

GRAFISMO: J. Maria Saraiva Paulo Silva

Aldeia do Bispo 37

REVISÃO:

Valezim 41

José D. Saraiva Luís F. Saraiva

Ecologia 48

COLABORAM NESTE NÚMERO: Filomena Marona Beja; Gonçalo Fernandes e Emanuel castro; Lemos Santos; Jan Jansen; José Conde; Juan Luís Reguilón; Gert Verrijdt; José Saraiva; Pablo Montes;

SEDE E REDACÇÃO: Rua General Póvoas, 7-1º 6260-173 MANTEIGAS www.asestrela.org asestrela”gmail.com info@asestrela.org

E.N. 230 52 A matança nos canais 53 Salvamentos no Gerês 54 ...e na serra da Estrela 59

A revista “ZIMBRO” é editada pela Associação Cultural AMIGOS DA SERRA DA ESTRELA, em formato digital e com distribuição gratuita. Os artigos de opinião são da responsabilidade dos seus autores e podem, ou não, ser coincidentes com a linha orientadora da Associação na defesa e promoção da serra da Estrela.

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Editorial

No dia 2 de Fevereiro de 2016, a Associação Portuguesa de Guardas e Vigilantes da Natureza (APGVN) comemorou o seu XIX Encontro Nacional e as XIII Jornadas Técnicas, subordinadas ao tema “CONSERVAÇÃO DA NATUREZA E SOCIEDADE CIVIL”, desta vez no Parque Natural do Douro Internacional.

O encontro de vigilantes teve lugar em Mogadouro e Miranda do Douro, entre os dias 31 de Janeiro e 2 de Fevereiro. A “ousadia” da APGVN em convidar 12 organizações civis, de Portugal e Espanha, para debater a problemática da Conservação da Natureza, é muito gratificante para a ASE porque se trata de um tema que motivou a sua criação na medida em que não acredita que seja possível implementar políticas de conservação sem a participação da população. Foi, porventura, uma oportunidade para o Instituto de Conservação da Natureza e Florestas (ICNF), e demais organismos que tutelam os vigilantes da Natureza, alterarem o seu relacionamento com as populações que vivem nas Áreas Protegidas e que tem vindo a deteriorar-se de uma forma sistemática, alimentando nas populações a convicção da inexistência do referido Instituto ou então da sua intervenção pelos piores motivos. A nossa Associação congratula-se por ter sido uma das ONGA’s convidadas para participar no encontro, tendo contribuído com duas soluções para o desenvolvimento de um formato de turismo, radicalmente oposto ao que tem vindo a ser promovido para a Serra da Estrela.

Durante o debate com o público tivemos a oportunidade de levantar uma questão que nos parece de grande importância, já que o país e a deprimida situação económica que vive, não se pode dar ao luxo de tolerar processos de gestão dos recursos humanos muito duvidosos, que contribuam para uma sobreposição de tarefas e que podem gerar conflitos entre organismos e entre as populações. De facto não se compreende como pode o ICNF que criou, o 1.º Corpo de Vigilantes da Natureza para fazer a fiscalização e a monitorização do ambiente e da conservação da Natureza dentro das Áreas Classificadas, e que fez questão de referir e relembrar, neste encontro serem os vigilantes a imagem pública do Instituto, ter dado formação a elementos da GNR para actuarem dentro das Áreas Protegidas?! Com um país a necessitar de uma fiscalização preparada para as áreas do ambiente, é óbvio que foi interessante a formação ministrada aos quadros da GNR que integram o Serviço Especial de Protecção da Natureza e Ambiente (SEPNA). Mas colocar este Serviço a fiscalizar dentro das Áreas Classificadas quando já existe um quadro profissional preparado para o efeito, é um atentado aos contribuintes e revoltante quando se assiste a assaltos, sistemáticos, a pessoas idosas que vivem isoladamente e até em comunidade. A protecção e segurança dos idosos deverá ser uma área onde a GNR disponha de mais meios, para que as pessoas que vivem nas regiões mais interiores e onde ainda promovem uma prática de boa gestão dos espaços que importa apoiar e desenvolver não sejam, afinal, aquelas que se encontram mais expostas à criminalidade impune. J. Maria Saraiva 3


Foi no Verão... em 1983? Em 84?... Já não me lembro. Onde? Oh... em Linhares! Inesquecível: Linhares da Beira. Ou da Serra, por ficar para os lados da Estrela. Quantos éramos? Talvez trinta, uns mais novos outros mais velhos. Eu? Eu ia quase nos quarenta, nessa época. Nisto, dois desconhecidos. Chegaram ao anoitecer e falavam uma língua agreste. Sim, agreste. Quase tanto quanto a ventania que entretanto se levantara, ameaçando-nos as tendas, pondo-nos à volta das espias. Não estariam esticadas demais? Seriam alemães? Holandeses. Dois rapazes holandeses. “Bebem do nosso vinho”, dissemos-lhes. Beberam. “Comam do nosso pão!...”, “Da nossa carne”. “Das febras e chouriças que já estamos a assar...”, “...das nossas maçãs. Comam!” Sentaram-se connosco à beira do fogo. Comeram. Ao serão, conversamos sobre o que iríamos fazer, na manhã seguinte. “Levantar com o sol!” Aquecer o chá de zimbro que ficara da véspera. Aviar os bornais. “Estão todos?...”, “Vamos!” A caminhada seria até Folgosinho, passando por uma ponte e uma calçada romanas. “A calçada dos Galhardos”, explicava o João. O João Martins que ainda não se fora para New Jersey. Lançaram-se logo propostas para um esticão maior. “Até ao Vale do Rossim!” Chegar lá e voltar?! “Porque não?” Haveria quem não aguentasse. E eu era dos que se encolhiam. Dos que sabiam que ficariam pelo caminho. 6


Dos que sabiam que ficariam pelo caminho. Oh!... estava ali quem já tivesse feito mais. Muito mais! Falava-se da rua das Roseiras, da rua dos Mercadores. Dos Cântaros. “O Magro!”. “O Gordo!” E foi então que se ouviu um conselho: “Não se ponham a mijar para o mar!” A voz do Germano! Querido Germano... Os holandeses não nos percebiam. Claro! No entanto, sempre houve quem lhes passasse para inglês a súmula do que se ia dizendo. “Ficai connosco, esta noite”. Ficaram. Nós a cantar, até tarde. Eles a virem-nos.

ou-

Eu não sei como te chamas, Ó Maria Faia! Nem que nome te hei-de eu pôr, Ó Maria Faia. Ó Faia Maria! Cravo não, que tu és rosa, Ó Maria Faia! Rosa não, que tu és flor ... ... ... Recordam-se? Ali perto, o Castelo. Formas a parecerem estranhas entre o escuro da noite e as labaredas da fogueira. Naquela época, ainda ninguém se pusera a saltar lá de cima. Nem a planar em parapente, como as águias de asa redonda. À Holanda, porém, já chegara a notícia daquelas muralhas daquelas ameias. E soubera-se que marcavam um lugar único, no caminho entre a fronteira e o mar. LINHARES. Por isso os dois rapazes tinham posto as mochilas às costas. Tinham principiado a caminhar. De manhã, madrugada, pusemo-nos em andamento. 7


O Zé Maria adiante, regulando a marcha. Segurando o pelotão dos quinze anos. Eles e elas ávidos uns dos outros e dos trilhos que se lhes desdobravam à frente. A seguir, a gente mais madura. Os que iam falando de Virgílio Ferreira e de Aquilino. Dos baldios arrancados ao povo no tempo do Salazar. Com estes, os holandeses. Avermelhados pelo sol, tontos com a altitude. Mais atrás, o Zé do Rio a olhar pelos últimos. E a última era eu. Vendo. Guardando o que via. Plantas, pedras, pássaros. Devagar, sempre devagar. De vez em quando, a dúvida: não me estaria a afastar do percurso combinado? Não. Lá estava o fiozinho de água que nos orientava. A ribeira do Freixo que me levaria às casas do Moinho do Forno. E um café? Haveria por lá um café? A dada altura, uma mulher agachada numa pedra. “Bom dia, senhora!” Pés descalços, saias arregaçadas, aproveitava a água que corria para lavar uma panela de ferro. “Bom dia!... Como está?”, “Olhe, estou para aqui...” Pala ali, de faca na mão, a raspar por dentro e por fora um bojo que passara o Inverno ao lume. Fervera água. Cozera nabos. Apurara caldo. “...um trabalhão! Mas estou acostumada. E a senhora, anda a pé, por aqui?...” Como os outros, não era? Os que já por ali tinham passado e de quem, a pouco pouco ela fora sabendo quem eram. O que levavam ao ombro e às costas. Que botas calçavam. Onde iam. “E até levais convosco uns estrangeiros!” Os rapazes holandeses. “Eles gostam. Estão de férias por aqui...” “Ah!... e vós?” Eu? Claro, eu também estava de férias. “E tendes ainda muitos dias?...” Sim. Ainda me restava quase um mês de férias. “Ai, meu Deus!... Se, pela Sua Graça alguma vez eu tivesse um mês de férias....” Deixara a panela e a faca de arrancar mascarras. Compunha o lenço, na cabeça. E muito a sério: “...Olhai que não era a andar aí pelos carreiros do gado, nem a dormir pelas cortes, que eu havia de gastar as minhas férias. Ai isso não!” Talvez não. Filomena Marona Beja, Sintra / Fevereiro, 2016.

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Aspiring Estrela Geopark: Estratégia para a valorização e desenvolvimento do território da Serra da Estrela Gonçalo Fernandes & Emanuel castro 1

O conceito de geoparque surgiu no final do século XX na Europa, com a constituição da Rede Europeia de Geoparques. Um geoparque é um território, bem delimitado geograficamente, com uma estratégia de desenvolvimento sustentado, baseada na conservação do património geológico e geomorfológico, em associação com os restantes elementos do património natural e cultural, com vista à melhoria das condições de vida das populações que habitam no seu interior, promovendo os valores endógenos de modo integrado e a sua apropriação turística. A criação de geoparques constituiu um novo paradigma no modo como se divulga as Geociências, os territórios, o seu património (material e imaterial) e os modos de vida das suas comunidades. A estratégia de gestão de um geoparque não é só o património geológico, como também a biodiversidade, a arqueologia e outros aspetos da herança cultural. Desta forma as Geociências ganharam visibilidade pública e dimensão patrimonial. 9

A filosofia de base na criação de geoparques centra-se no desenvolvimento de redes que permitam uma promoção conjunta do conceito e de cada um dos membros da rede. Assim, a Rede Global de Geoparks foi criada em 2004, com o apoio da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura), incorporando a definição já trabalhada pela Rede Europeia de Geoparques, incluindo 8 geoparques chineses e 17 geoparques europeus existentes na altura. Atualmente, a Rede Global de Geoparques conta já com 120 geoparques em 33 países no Mundo (Figura1). Neste sentido, os Geoparques introduzem uma grande responsabilidade na criação de valor económico, turístico e social. Isto é, as suas potencialidades podem ser transversais na ajuda à criação de valor territorial de determinada área geográfica, mas por outro lado as suas potencialidades podem ser apropriadas pelo turismo com base na construção de estratégias de desenvolvimento para o bem-estar da comunidade e valorização integrado


Figura 1. Rede Global de Geoparks.

do território, promovendo sentimento de pertença e de trabalho colaborativo. Uma paisagem, por exemplo, deixa apenas de ser apreciada pelo seu valor estético, mas também por aquilo que ela representa em termos de evolução dos processos geológicos, biológicos e humanos. De facto, a palavra paisagem, mais do que um conceito e objeto de estudo de várias ciências, surge como o território, físico e imaterial, no qual se desenvolvem e interagem um conjunto complexo de fenómenos, contribuindo para a identificação e diferenciação de diferentes territórios. Neste sentido, a paisagem emerge como um elemento fundamental no desenvolvimento local dos territórios, acima de tudo porque esta é o próprio território, proporcionado 10

elementos e argumentos para reorientações de desenvolvimento e qualificação dos recursos, suas comunidades e “utilizadores” (Figura 2). Por outro lado, emerge também uma nova tendência turística, ancoradas no potencial endógeno e centradas nas próprias comunidades, o “Geoturismo”, enquanto estratégia de valorização territorial em contextos da educação ambiental, entendida na perspetiva de um turismo sustentável que tem como objetivo principal experienciar e conhecer os aspetos geológicos de forma a promover a sua compreensão, valorização ambiental e cultural, sendo o principal beneficiário a comunidade local. Paralelamente à valorização turística desenvolvem-se contextos educativos/pedagógicos, os quais nem sempre entendidos de for-


Figura 2. Paisagem cultural Serra da Estrela – modos de vida. Fonte. Manuel Ferreira

ma integrada, assim como o aprofundamento científico, face ao laboratório natural que estes espaços encerram, fomentado novos interesses, novos públicos e procuras. As três principais áreas de atuação de um Geopark são: Conservação do Património Geológico, a Educação para a Sustentabilidade e o Turismo e o Desenvolvimento Local. De acordo com a Rede Global de Geoparques, um geoparque deve ainda valorizar, promover e preservar a Biodiversidade, o Património Cultural, a Gastronomia e a Investigação Científica (Figura 3). Assim, na base de uma estratégia de geoturismo deve estar o valor didático de um geossítios, numa lógica participativa e inclusiva, aliada a processos conducentes ao desenvolvimento turístico. A este propósito, a Serra da Estrela . 11

configura um território, geograficamente definido, com recursos de interesse geológico e geomorfológico, nem sempre devidamente valorizados, capazes de fomentar a qualificação do território e a sua capacitação para novas valorizações e fluxos para a região, potenciando a sustentabilidade de recursos, o fomento da economia e a elevação do bem-estar social. Assim, a criação do Geopark Estrela permitirá demostrar a diversidade de recursos capazes de sustentar esta classificação, assim como a sua importância para o desenvolvimento da região de modo holístico, promovendo sítios através de redes geopatrimoniais. A diversidade das marcas glaciárias, a riqueza do seu património e o carácter da sua paisagem fazem da Serra da Estrela uma geografia única, cuja sua abordagem estruturada permitirá a


Figura 3. Potencialidades do Geoturismo na Serra da Estrela (Covão Cimeiro) Fonte. Manuel Ferreira

criação de uma marca forte, com potencial turístico, patrimonial e cultural. Deste modo, o Aspiring Geopark Estrela é composto pelos municípios da Guarda, Seia, Gouveia, Celorico da Beira, Fornos de Algodres, Manteigas, Belmonte, Covilhã e Oliveira do Hospital (com uma área total: 2.737,72 Km2 e 171.668 habitantes). Para além dos municípios, pretende-se que a rede do Geopark Estrela possa ser composta por outros agentes locais como instituições de ensino, associações locais, operadores turísticos, assim com os diferentes stakeholders da Serra da Estrela. O Geopark aposta igualmente na rede de responsabilidade social, bem como no estabelecimento estratégico de parcerias que promovam o fortalecimento do território no que respeita à 12

sua qualidade de vida, assente, nomeadamente, em atividades económicas suportadas em produtos e serviços de alto valor acrescentado e de índices de conhecimento e rendimento. A integração na rede mundial de geopraks e a chancela UNESCO, permitem aportar um reconhecimento das potencialidades naturais deste território e seus modos de vida. O Geopark Estrela terá por missão contribuir para a proteção, valorização e dinamização do património natural e cultural, com especial ênfase no património geológico, numa perspetiva de aprofundamento e divulgação do conhecimento científico, fomentando o turismo e o desenvolvimento sustentável do território. 1 Instituto

Politécnico da Guarda Equipe Técnica da Candidatura da Estrela a Geopark Mundial da UNESCO


RUTA DEL JABALÍ (SIERRA DE LA ESTRELLA) PABLO MONTES, Periodista, ENERO 7, 2015

La Sierra de la Estrella en Portugal ha sido uno de los descubrimientos naturales más sorprendentesque hemos experimentado desde que practicamos senderismo. A poco más de dos horas de Salamanca por la A-62 española y la A25 portuguesa nos ponemos en el corazón de este Parque Natural, la bella localidad de Manteigas. La Sierra de la Estrella es un desconocido para muchos españoles a pesar de la cercanía con nuestro país. Se podría decir que es el Parque Natural más bello del país luso y en él se encuentra el punto más alto del Portugal continenVista de Manteigas al inicio de la tal. Se trata del pico Torre, ubicado a 1.993 metros de altura. Allí se construyó la Estación de Esquí Vodafone, la única del país. Pero su principal atractivo son unos impresionantes paisajes marcados por la piedra granítica, una variada y rica vegetación autóctona demasiado castigada por los incendios y los restos de antiguos glaciares. Ruta del Jabalí y Pozo del Infierno. Dificultad: Moderada. Distancia: 14 kilómetros (circular). Duración: 6 horas aproximadamente. Manteigas es el lugar en que nos alojamos en la Semana Santa de 2014 para hacer un par de rutas senderistas. La localidad merece una visita al conservar la esencia del típico pueblo de montaña con una arquitectura muy cuidada, calles empedradas en cuesta y todo ello con la belleza que le 13

da el paso del río Zezere por su casco urbano. Pertenece al Distrito de Guarda, como la mayor parte del parque Natural de la Sierra de la Estrella. Elegimos para pasar dos noches el Hotel Berne (Quinta de Santa Antonio) (60 euros la noche con desayuno). Está situado en las afueras de la villa y


Manteigas, para posteriormente disfrutar de la cascada del Pozo del Infierno y hacer el tramo final sobre un paisaje más granítico.

Paisaje que ofrece la Ruta del Jabalí

desde sus habitaciones se tienen unas magníficas vistas de Manteigas. Trato excepcional, habitaciones muy cómodas, ambiente de tranquilidad y sosiego y un desayuno estupendo. Sin duda alguna cien por cien recomendable para alejarse del mundanal ruido y disfrutar de la naturaleza en estado puro. Además, cuenta con un restaurante que ofrece una carta de platos portugueses muy bien elaborados, aunque a un precio más elevado que en el resto del país (25 euros por persona). Desde la localidad y sus alrededores se pueden hacer un total de 16 rutas senderistas perfectamente indicadas gracias a una importante labor de promoción turística y cuidado del entorno que se ha acometido en los últimos años. En esta página, que además tiene una versión en español, podéis ver los trayectos existentes y descargar un folleto explicativo de cada uno de ellos. Una de las dos rutas que hicimos fue la del Jabalí con la del Pozo del Infierno, todo un muestrario de la belleza de la Sierra de la Estrella. Comienza en 14

La ruta comienza junto al mismo Hotel Berne, en el barrio de San Antonio de Manteigas. Está perfectamente señalada con el indicativo PR-2-MTG y al comienzo de la misma podemos ver un panel en el que aparece explicado todo el recorrido. Los primeros metros son de subida constante en mitad de un frondoso bosque de pinos que nos deja ver a nuestra derecha unas estupendas panorámicas de la localidad de Manteigas y el cauce del río Zezere.

Primera cascada del recorrido


otra ruta que se puede sumar a la del Jabalí sin ningún tipo de problemas, ya que en su final, podremos enlazar con el camino de regreso a Manteigas. Además, lo recomiendo fervientemente, porque son casi tres kilómetros más sin ninguna dificultad que nos permiten ver una fantástica cascada. Parte de ese trayecto se hace por la carretera que va a la localidad en la que estábamos alojados, por lo que es

Vista de la primera cascada que nos encontramos en el recorrido

Vamos avanzando en paralelo al río hasta que el sendero va girando hacia la derecha sin ningún tipo de confusión. Seguimos disfrutando de un frondoso bosque con pinos, castaños, fresnos, rebollos y sauces. Llegamos a un punto en el que vemos una desviación que nos indica el Pozo del Infierno (PR-1-MTG). Se trata de Cascada del Pozo del Infierno

Vista de la Ribeira de Leandres

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normal ver a turistas que van directamente en coche. Antes de llegar a la cascada del Pozo del Infierno nos encontraremos con otra más pequeña que también forma parte de la misma Ribeira de Leandres y en la que nos podremos relajar con el sonido del cayendo


entre las rocas mientras hacemos un pequeño descanso.

Paisaje escarpado

Tras hacer una pequeña ruta circular por la zona siguiendo siempre las indicaciones llegaremos al Pozo del Infierno, donde veremos que hay unos miradores habilitados para poder disfrutar de la cascada en su plenitud. Eso será posible si hacemos la ruta en una época en la que haya habido bastantes lluvias, como fue nuestro caso. Al otro lado de la carretera hay unos amplios merenderos para poner reponer fuerzas con la comida que hayamos llevado antes de emprender el camino de vuelta. Volveremos a tomar el PR-2-MTG (Ruta del Jabalí) para regresar a Manteigas por otro camino con un paisaje muy distinto al de ida. La vegetación desaparece, las rocas graníticas se adueñan del ter16

veremos los estragos causados por los numerosos incendios que ha sufrido este Parque Natural en los últimos años. Primero abra que superar un fuerte desnivel, que es sin duda el tramo más complicado de la ruta, hasta que llegamos a una carretera que atravesaremos para comenzar el descenso en dirección a Manteigas. Superado el tramo de ausencia de vegetación, volveremos a meternos en un frondoso bosque de pinosque nos anunciará que estamos próximos al final. Tendremos que hacer un tramo por carretera en esa bajada y luego nosotros tuvimos una pequeña confusión, ya que en lugar de tomar un sendero que salía a la derecha en dirección a Manteigas, no lo vimos y seguimos por la carretera, que

también llega al pueblo aunque haciendo más rodeo y con la molestia del paso constante de vehículos.


Entramos en la villa por la rua Da Lapa y nos tocó atravesarlo entero, mientras que el sendero que nos “comimos” desembocaba en el punto inicial del recorrido. Una pequeña equivocación que no deslució para nada una ruta extraordinaria que, con limitaciones, también se puede hacer en BTT. Una recorrido para hacerse una idea de la belleza de este rincón de Portugal que sorprende al visitante y que últimamente se está abriendo más al turismo. Si a todo ello le sumamos que podemos disfrutar de la

Vista de Manteigas en el camino de vuelta

estupenda gastronomía portuguesa en la propia localidad de Manteigas y en la cercana de ciudad de Covilha, entonces nos encontramos ante la escapada ideal para dos o tres días.

Nota da Redacção O presente texto foi tirado do blog do Pablo Montes, que não conhecemos e a sua publicação autorizada pelo autor.

Com excepção da imagem que descreve o percurso efectuado com o GPS, o texto manteve-se tal como foi publicado no blog, bem assim como a sequência das fotos. Pablo Montes fez a melhor publicidade aos percursos pedestres da Serra da Estrela e a selecção por que optou teve como ponto de partida a vila de Manteigas que lhe merece óptimos elogios. A descrição que é feita vem confirmar toda a lógica que tem sido defendida e aplicada pela ASE sobre os percursos na Serra da Estrela e, se dúvidas houvesse, nada melhor do que quem sabe do que fala para as contrariar. A Rota do Javali e do Poço do Inferno totalizam aproximadamente 14 quilómetros. O circuito do Poço do Inferno, o que foi construído pela ASE, nos anos 90 do século passado, tem apenas 2,5 kms. Pois bem, no texto do Pablo é contemplado com 11 imagens, sete tiradas na vereda que a nossa Associação abriu, 2 sobre a vila de Manteigas e as outras duas na encosta da Rasa, sobre o Poço do Inferno. O que significa dizer que houve muito mais interesse no circuito implementado pela ASE que conta com 2,5 kms., do que atracção ao longo dos outros 11,5 kms. Isto não significa dizer que não sejam interessantes as paisagens por onde passa a rota do Javali. O traçado é que não tem o interesse que, pensamos, 17

poderia e deveria ter. O Município de Manteigas fez um grande progresso ao decidir avançar com os percursos pedestres na sua área. Pensamos que neste espaço de tempo, os responsáveis pela implementação da rede de percursos de Manteigas, já terão assimilado da importância destas infraestruturas para o desenvolvimento do turismo no seu Concelho. Provavelmente também já terão em devida conta a necessidade de melhorar a qualidade da oferta e proceder a uma melhor manutenção, melhorar o traçado de alguns percursos para que Manteigas se torne, de facto, no centro do pedestrianismo português.


Observação de um lince-ibérico Lynx pardinus (Temminck, 1827) na serra da Estrela: um evento isolado? Jan Jansen, Radboud University, Experimental Plant Ecology/ Pan & Demeter Nijmegen José Conde, Centro de Interpretação da Serra da Estrela / Município de Seia Juan Luís Reguilón, naturalista Espanhol Gert Verrijdt, naturalista Holandês

Resumo Em abril de 2008, um lince-ibérico Lynx pardinus (Temminck, 1827) foi observado no sopé da vertente ocidental da serra da Estrela. Tendo em conta que em Portugal, desde 2014, foram libertados na natureza, pela primeira vez, vários exemplares de lince-ibérico criados em cativeiro é razoável especular sobre a possibilidade de novos avistamentos desta espécie na região da Estrela. Numa primeira análise, uma vez que as populações selvagens de lince-ibérico se encontram à beira da extinção, poderia concluir-se que novas observações são altamente improváveis. Porém, se o programa de reintrodução em curso tiver êxito, i.e. se o efetivo das populações deste felino que vivem na natureza aumentar de forma expressiva, pode esperar-se um correspondente aumento das hipóteses de que também na serra da Estrela, o lince-ibérico possa ser visto com mais frequência.

O mamífero carnívoro mais ameaçado da Europa e o felino mais ameaçado do mundo O lince-ibérico (Lynx pardinus) foi descrito pela primeira vez para a ciência pelo zoólogo de nacionalidade holandesa Coenraad Jacob Temminck, em 1827, a partir de exemplares capturados em território português, na região de Lisboa (Temminck, 1827). À época, o lince-ibérico apresentava uma distribuição alargada, encontrando-se presente em Portugal, Espanha e, ainda, no sul de França. Em Portugal, de acordo com Sarmento et al. (2009), a

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distribuição histórica deste felino abrangia uma área ampla, encontrando-se presente em grande parte do território nacional. No entanto, em 1914, a sua ocorrência estaria já confinada sobretudo à metade meridional da Península Ibérica (Large Herbivore Network, 2014). Segundo Rodríguez (2004), em apenas cinco décadas, a área de distribuição do lince-ibérico terá diminuído em 2cerca de 99%, passando de 58.000 km , em 1950, para cerca


de 350 km2, em 2000. Na atualidade, quase dois séculos após a descrição de Temminck, o lince-ibérico é a espécie de felino, mais ameaçada no mundo (IUCN 2002) e o mamífero carnívoro mais ameaçado na Europa (Nowell & Jackson, 1996).

2005). No entanto, recentemente, Simon et al. (2012b) assinalou que o número de linces na natureza tem aumentado nos últimos anos, embora este incremento deva ser visto com alguma reserva (Rodríguez et al., 2012).

Ilustração 1 Lince-ibérico (Luísa Ferreira Nunes 2013 - Diário da Natureza: Lince Ibérico).

Presentemente, em Espanha, a espécie possui um efetivo muito reduzido e uma distribuição muito fragmentada, encontrando-se à beira da extinção (Rodríguez & Delibes, 1992; Rodríguez, 2004). No total, estima-se que vivam ainda em estado selvagem cerca de 300 indivíduos adultos (Simón et al., 2012), distribuídos por duas populações isoladas na Andaluzia: serra Morena e Parque Nacional de Doñana (Rodríguez, 2004; Cunha Serra et al.,

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Em Portugal, ainda na década de 90, do século passado, havia conhecimento da existência de cinco populações, que no conjunto se distribuiriam por uma área de 2.400 km2 e incluiriam um total de 40-53 indivíduos (Ceia et al., 1998). Duas destas populações, serra da Malcata e serra de São Mamede, situavam-se relativamente próximo da serra da Estrela (Loureiro, 2013), sendo ambas consideradas em continuidade com populações espanholas localizadas


junto à fronteira (Sarmento et al., 2009). De acordo com Sarmento et al. (2009), a extinção do lince-ibérico no país não foi confirmada, todavia, desde janeiro de 1992, desconhecemse evidências diretas da presença da espécie (i.e. animais capturados, cadáveres ou imagens), refletindo assim a aceleração do processo de extinção da espécie, em particular na segunda metade da década de 1990. Na serra da Estrela, são várias as espécies de predadores de topo cujo desaparecimento se verifica durante o século XX, incluindo o lince-ibérico (Seabra, 1910), a águia-real (Aquila chrysaetos) (Seabra, 1910; Lletget 1945) e, já na década de 1980, o lobo (Canis lupus) (Cándido & PetrucciFonseca, 2000).

Contudo, em 2008, um lince-ibérico foi observado próximo de Seia, na serra da Estrela, e, mais recentemente, em Maio de 2013, câmaras de armadilhagem fotográfica permitiram a deteção de um outro animal na área de Vila Nova de Milfontes, no Sudoeste Alentejano (Público, 2013). Através do padrão da pelagem, que como uma impressão digital é exclusivo de cada indivíduo, o animal pôde ser identificado como Hongo, um macho nascido em 2011, em Aznalcázar, perto de Sevilha. Hongo fazia parte da população de Lynx pardinus de Doñana, onde havia sido observado pela última vez em outubro de 2012, a uma distância de cerca de 250 km do litoral alentejano. Mais tarde, este lince foi detetado em

Ilustração 2 Lince-ibérico (Luisa Ferreira Nunes 2013 - Diário da Natureza: Lince Ibérico).

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diferentes zonas do território nacional, nomeadamente entre Santarém, Cartaxo e Tomar, tendo vindo a morrer atropelado em Outubro de 2015, na A23, próximo de Vila Nova da Barquinha (Público, 2015). O comportamento dispersante de Hongo tem-se manifestado ainda noutros exemplares de lince-ibérico, como é o caso de Kahn e Kentaro, reintroduzidos em Castela-A Mancha, Espanha, e cujos movimentos dispersivos têm sido possíveis de seguir através dos seus emissores de satélite, encontrando-se Kentaro, atualmente, a norte entre a região de Vila Real e a Galiza (Expresso, 2015). Ameaças As maiores ameaças à conservação do lince-ibérico são, em grande medida, uma consequência do declínio das populações das suas presas selvagens e da destruição e modificação dos seus habitats de ocorrência. Devido a mudanças na utilização do solo, há muito iniciadas, mas que se intensificaram no último decénio, as populações deste felino sofreram uma perda degradação e fragmentação do seu habitat muito expressivas (Alda et al., 2008; Simón et al., 2012a). Por outro lado, o declínio do coelho-bravo (Oryctolagus cuniculus s.l.), verificado em grande parte do território peninsular, nos últimos 50 anos, que representa uma parte fundamental da dieta do lince-ibérico (Delibes et al., 2000; Rodríguez & Delibes, 1992; Rodriguez, 2004), contribuiu de sobremaneira para o estatuto de Criticamente em Perigo que Lynx pardinus apresentou até

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muito recentemente (Von Arx & Breitenmoser-Wursten, 2008). Com efeito, no final da década de 50, do século XX, a proliferação da mixomatose na Península Ibérica, teve como consequência um declínio muito acentuado do número de coelhosbravos. Em 1988, o surgimento de uma nova patologia, a doença hemorrágica viral, vem acentuar este cenário, contribuindo ainda mais para o decréscimo da principal presa do lince-ibérico (Alda et al., 2008). Ambas as doenças são uma consequência de introduções resultantes do processo de globalização e permitem antever, num futuro próximo, que outras doenças poderão atingir as populações de coelho ibéricas. Além disso, a reduzida variabilidade genética das populações de lince determinam que os exemplares sejam muito vulneráveis a diversas patologias. Doenças como a leucemia felina, a toxoplasmose e a tuberculose bovina representam uma séria ameaça à sobrevivência da espécie (ICNF, 2015). A estes fatores que atingem severamente as populações de lince-ibérico, acresce ainda a mortalidade induzida pelo homem, em particular o abate intencional, a utilização de laços e armadilhas, o envenenamento e os atropelamentos (ICNF, 2015).

Dieta e Habitat O lince-ibérico é um carnívoro especialista, no que concerne à dieta e ao habitat, sendo altamente dependente da estrutura e composição da vegetação, tanto para o estabelecimento de territórios como para a


reprodução (Palomares et al., 1991; Ferreras et al., 1997). No que à dieta diz respeito, dificilmente se pode falar de uma alimentação variada, pois o coelho-bravo constitui a maior fração das presas do lince. De facto, a maioria dos estudos mostram que, pelo menos, três quartos da sua dieta são compostos essencialmente por coelho -bravo, que na metade meridional da Península Ibérica pertencem à subespécie Oryctolagus cuniculus algirus (Gomes, 2004). Apresenta também uma muito limitada capacidade para responder funcionalmente a uma redução na disponibilidade da sua presa principal. Com efeito, as variações na distribuição e abundância descritas para o linceibérico, a todos os níveis, são consistentes com uma forte resposta do efetivo deste felino a flutuações na disponibilidade de coelho-bravo. A dieta pode incluir ainda outras pequenas presas, em particular aves, mamíferos e, mais raramente, répteis. Entre as aves salientam-se a perdiz-comum (Alectoris rufa) e os anatídeos (patos e gansos). Nos mamíferos, a lebre-ibérica (Lepus granatensis) e várias espécies de roedores estão entre as suas presas preferenciais (Rodríguez, 2004). No outono e inverno, em Doñana, quando a disponibilidade de coelhos diminui, cervídeos como o gamo (Dama dama), podem adquirir alguma relevância, enquanto o veado-vermelho (Cervus elaphus), de ocorrência mais frequente naquela área protegida, raramente é predado. Este cenário evidência que o lince-ibérico é muito

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seletivo na escolha das suas presas, sendo ainda importante assinalar que a sua dieta mostra também uma reduzida variação a nível geográfico.

Em relação ao habitat, em geral, o lince-ibérico ocorre em áreas de relevo montanhoso situadas entre os 400 e os 1.300m de altitude e onde a vegetação se caracteriza por apresentar um coberto vegetal tipicamente mediterrâneo (Rodríguez & Delibes, 1992). Em algumas áreas, tais como o Sistema Central, a serra de Andújar e partes da Extremadura, a meteorização das rochas graníticas levam à formação de solos profundos e arenosos favoráveis às populações de coelho-bravo. Essas áreas podem ser especialmente adequadas ao lince -ibérico quando grupos dispersos de blocos graníticas de grandes dimensões estão presentes, uma vez que proporcionam refúgio e locais para a reprodução (Gonzalez & San Miguel, 2004; Gil et al., 2006). Num estudo realizado na metade ocidental do Sistema Central espanhol, em 2007, foram identificadas oito áreas principais com sinais de presença de lince (Asociación La Raya, 2007) O conjunto destas áreas situa-se nos sectores mais ocidentais das províncias de Salamanca e Cáceres, a uma distância relativamente reduzida da fronteira portuguesa. Todavia, em cinco destas áreas, os sinais são referentes a evidências indiretas, fornecidas por investigadores, pastores e caçadores, não tendo sido possível confirmar de forma indubitável a ocorrência deste felino por parte de elementos da equipa de investigação (Asociación La Raya, 2007).


Foto 1 – Habitat de lince-ibérico no Sistema Central espanhol (Juan Luís Reguilón 2013 Diario de un naturalista Castellano de aldea e corte. Sobre la distribución, el rastreo y la ecología del lince iberico en el Sistema Central)

O lince-ibérico ocorre também ao longo da costa, como ainda hoje se observa no Parque Nacional de Doñana e zonas limítrofes. No passado, quando a sua área de distribuição abrangia uma parte significativa da Península Ibérica, terá ocupado igualmente ambientes mais atlânticos, de que a região litoral a sul de Lisboa, onde o espécime tipo, descrito por Temminck, foi capturado (Rodrigues, 2004), representa um bom exemplo. Recorde-se ainda a observação recente de Hongo, o macho de lince-ibérico, nascido em Aználcazar, numa zona não muito distante da costa atlântica, em Vila Nova de Milfontes.

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Estudos desenvolvidos por Palma et al. (1999) demonstraram que no Algarve Ocidental a probabilidade de ocorrência de lince-ibérico aumentava com o aumento da abundância de coelho-bravo e da cobertura de vegetação mediterrânea, e diminuía com o aumento da densidade rodoviária e de áreas urbanizadas. Outros trabalhos revelam também que os matagais mediterrâneos densos que forneçam abrigo, tanto para o linceibérico como para o coelho-bravo, em combinação com manchas de vegetação herbácea adequadas para este herbívoro, estão positivamente ligados à possível ocorrência do lince (Fernández et al., 2003; Palma et al., 1999; Palomares et al., 1991).


A tipologia dos locais eleitos para o nascimento e início da lactação das ninhadas são diversos, dependendo em larga medida do meio envolvente. Cavernas, afloramentos rochosos e tocas no solo constituem exemplos de locais adequados. Tal como a maioria das espécies de felinos, os linces não constroem tocas para a procriação, ocupando antes estruturas naturais como refúgios para as suas crias. Antes de dar à luz, a fêmea de linceibérico seleciona um abrigo isolado, o qual servirá como toca. Os afloramentos rochosos são utilizados também com frequência como postos de observação, tendo ainda a vantagem de permitir aos animais, durante a caça, se movimentarem silenciosamente (Reguilón, 2013) Em Doñana, onde as rochas são escassas, é comum os nascimentos ocorrerem em troncos ocos de árvores de grande porte, como carvalhos (Quercus spp.) e freixos (Fraxinus angustifolia), silvados (Rubus spp.) ou matos densos de aroeiras (Pistacio lentiscus) e urzes (Erica spp.) (Rodríguez de la Fuente, 1970; Fernández & Palomares, 2000; Fernández et al., 2002). Durante o desenvolvimento das crias são utilizadas várias tocas auxiliares, uma vez que a deslocação frequente das ninhadas, uma adaptação comportamental comum entre os felinos, é essencial à redução da incidência de ecto-parasitas e diminuição do risco de predação (Fernández et al., 2003; Ferreras et al., 2004; Palomares et al., 2000). Nos períodos, pós-natal e pósreprodutor, indivíduos desta espécie empreendem com frequência

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deslocações, para além das áreas onde nasceram ou dos seus territórios habituais, em busca de novas áreas para se fixarem, podendo então ser encontrados em habitats menos adequados à espécie (Palomares et al., 2000). A dispersão é um dos períodos mais críticos do ciclo de vida do lince e onde se podem verificar as taxas de mortalidade mais elevadas. De acordo com estudos realizados, na década de 1990, os animais em dispersão podem percorrer distâncias extensas, estando os seus movimentos fortemente condicionados pela estrutura e composição do habitat (ICNF, 2015).

Por último, importa referir também que a existência de pontos de água e de uma reduzida perturbação antrópica são requisitos fundamentais dos habitats aquando da seleção de locais adequados para a reprodução do lince (Rodríguez, 2004). Reintrodução Desde dezembro de 2014, e pela primeira vez em Portugal, um total de dez lince-ibéricos criados em cativeiro em Espanha e no Centro Nacional de Reprodução do Linceibérico, em Silves, foram reintroduzidos em habitats adequados no Parque Natural do Vale do Guadiana, uma área de presença histórica da espécie, ainda recentemente ocupada pela espécie (Expresso, 2015). A libertação destes animais resulta de um compromisso assumido entre Portugal e Espanha para a conservação do lince-ibérico, que tem por objetivo reverter o risco de extinção desta espécie na natureza. Para já, as


medidas implementadas no âmbito deste acordo permitiram que a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), revisse o nível de ameaça do Lynx pardinus de Criticamente em Perigo para Em Perigo, na última avaliação da lista vermelha das espécies ameaçadas, divulgada em junho de 2015. Dos dez animais reintroduzidos na natureza, em Portugal, apenas um exemplar não sobreviveu, Kayakweru, uma fêmea que foi vítima de envenenamento, escassas semanas após a sua libertação (Expresso, 2015). Para 2016, prevê-se a libertação de mais exemplares de lince-ibérico nascidos em cativeiro no território do Vale do Guadiana, num total de seis fêmeas e três machos (Expresso, 2015). Definiu-se como meta, num prazo de cinco anos, a fixação de uma população estável que deverá ser composta por cerca de 45 exemplares. À data ainda não houve reprodução dos animais libertados, mas há a expectativa de que as primeiras crias de lince possam nascer já na próxima primavera (Expresso, 2015). Para já, a reprodução do lince-ibérico em cativeiro pode ser considerada um sucesso, mas sem a confirmação de que aos animais libertados são capazes de estabelecer populações estáveis na natureza, não é possível avaliar o sucesso do programa de reintrodução. No início de 2014, a ANPC (Associação Nacional de Proprietários Rurais Gestão Cinegética e Biodiversidade) defendeu que a reintrodução do linceibérico poderia estar em risco por falta de condições mínimas.

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Com efeito, às muito depauperadas populações de coelho-bravo, acresce a expectativa do surgimento de novos surtos de doença hemorrágica viral do coelho (Jornal i, 2014). Ainda de acordo com a ANPC, se não houver coelho selvagem em número suficiente, os exemplares de lince-ibérico terão de percorrer grandes distâncias em busca de alimento e de encontrar presas alternativas, aumentando assim o risco de mortalidade e de fracasso na reprodução. De Espanha é relatado que, desde o início do programa de reintrodução, em 2009, e até ao ano de 2014, 65 espécimes foram libertados, em Doñana (Huelva), Guadalmellato (Córdoba) e Guarrizas (Jaén), tendo 40% destes animais morrido por causas várias. Observação de um lince-ibérico na serra da Estrela

Em abril de 2008, pelo entardecer, uma família de origem holandesa, de férias em Portugal, após uma longa caminhada no Parque Natural da Serra da Estrela, regressa de carro à sua propriedade. Precisamente naquele momento, um familiar que havia permanecido na residência, ouviu um ruído suspeito num mato próximo. Tendo concentrado a sua atenção na origem do som, detetou um animal em movimento, possivelmente, perturbado pela chegada do carro. De imediato, pegou numa câmara fotográfica e registou aquele instante. Foi tudo muito rápido. Infelizmente, a câmara não possuía a lente mais adequada e a luz fraca do final de tarde não permitiram um registo com a qualidade que se desejaria. O resultado é mostrado nas imagens que


se apresentam. Numa primeira análise, a interpretação é difícil mas ampliando o plano central da imagem, é possível visualizar um animal quando saltava um muro em pedra. Na foto 4, através de um processo de edição fotográfica removeram-se as cores do enquadramento de modo a realçar o animal. É inegavelmente um lince-ibérico: a cauda curta de extremidade preta, a cor da pelagem castanho-acinzentada, a linha escura sobre o dorso, a forma escura típica das orelhas e a dimensão do animal são características típicas deste felino. A fim de ser capaz de estimar o tamanho do animal, Gert Verrijdt e sua esposa Mia fizeram mais fotos este mês, fevereiro de 2016. Na Foto 5 pode-se ver Mia junto à rocha onde o Lince pulou com algumas distâncias medidas em cms. Pedimos ao zoólogo Prof. Dr. Emilio Virgós e seus colegas da Universidade Rey Juan Carlos (Madrid) e confirmaram que o animal só poderia ser um Lynx pardinus. Como a velocidade da câmara era

lenta, e o Lince saltou veloz o corpo apresenta uma aparência lisa, sem o padrão característico do animal. O registo efetuado foi apresentado à Liga para a Proteção da Natureza e ao Instituto para a Conservação da Natureza e Biodiversidade e, nos dias subsequentes á observação, técnicos do Centro de Interpretação da Serra da Estrela, em Seia, deslocaram-se ao local com intuito de identificar possíveis sinais da presença do animal. Mas, chuvas intensas terão apagado, infelizmente, os possíveis vestígios deixados pela passagem do animal. Mais recentemente, Gert Verrijdt e a sua mulher Mia, para auxiliar numa avaliação mais exacta do tamanho do animal observado captaram várias imagens exactamente no mesmo local onde o registo havia sido efectuado, em 2008. Numa dessas imagens, foto 5, é possível identificar Mia sentada sobre uma rocha apoiada no bloco granítico então transposto pelo animal e por comparação com a foto original, à qual se editaram múltiplas

Foto 5 – A propriedade onde se efectuou a observação e a cidadã que obteve a foto da esquerda da espécie terá resultado pouco contrastado, como é característico na espécie.

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medições de referência, foto 7, obtém-se conjunto de dados de extrema utilidade para uma aferição da real dimensão do animal. Para auxílio na identificação do espécime observado solicitou-se ao zoólogo Prof. Dr. Emílio Virgós e aos seus colegas da Universidade Rey Juan Carlos de Madrid, qual a sua opinião sobre a plausibilidade deste registo, tendo estes especialistas afirmado que o animal observado só poderia ser um linceibérico. Consideraram, ainda, que uma vez que a velocidade de obturação da câmara utilizada no registo era baixa e o lince terá saltado a uma velocidade elevada, o padrão típico da espécie terá resultado pouco contrastado, como é característico na espécie. A propriedade onde se efetuou a observação descrita localiza-se num vale de um afluente do rio Seia, a escassos quilómetros da cidade de Seia, a uma altitude inferior a 300 m. A área é potencialmente adequada para o lince-ibérico, apresentando grandes blocos graníticos e vários pontos de água. Aspetos propícios á ocorrência do lince, que como já foi referido utiliza as rochas para se deslocar em silêncio e como pontos privilegiados para emboscar as suas presas. A vegetação do vale revela um caráter marcadamente Mediterrâneo, aspeto igualmente adequado à presença do lince-ibérico. O elenco florístico inclui entre outras espécies a gilbardeira (Ruscus aculeatus), o medronheiro (Arbutus unedo), o carvalhoroble (Quercus robur sl.), o sobreiro (Quercus suber), o carvalho-negral (Quercus pyrenaica), loureirocommun (Laurus nobilis) e a cássia (Osyris alba). Deste elenco pode

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inferir-se que a vegetação potencial seria constituída por uma floresta de carvalhos do tipo Rusco aculeatiQuercetum roboris Br.-Bl., P. Silva & Rozeira 1956 in Amigo, Izco, Guitián & Romero 1998 subass. suberis quercetosum. À data da observação, a área exibia um coberto arbóreo caracterizado por uma forte regeneração de carvalho, em claro contraste, com o que se verificava dez anos antes, quando uma fração considerável da propriedade se apresentava coberta por pinheiro-bravo (Pinus pinaster). Para tal, muito terá contribuído, um incêndio florestal ocorrido em 2002 e a gestão levada a cabo pelos proprietários, com vista à regeneração da vegetação natural. Em resultado deste maneio, a área suporta uma elevada biodiversidade de fauna. No que concerne aos répteis e anfíbios, estão presentes 25 espécies, de que se salientam a cobra -de-capuz (Macroprotodon cucullatus), a cobra-cega (Blanus cinereus) e o sapo-de-unha-negra (Pelobates cultripes), de presença escassa na região. As aves são também muito abundantes destacando-se um número muito elevado de espécies de passeriformes e diversas aves de rapina, tais como o falcãoabelheiro (Pernis apivorus), o açor (Accipiter gentilis) e a águia-de-asaredonda (Buteo buteo). Quanto aos mamíferos, podem citar-se, entre outros, o javali (Sus scrofa), o saca -rabos (Herpestes ichneumon), a gineta (Genetta genetta) e a fuinha (Martes foina). O coelho-bravo (Oryctolagus cuniculus algirus), espécie chave para o lince, está presente, mas em números muito baixos. A escassez de coelho permite assumir que, apesar da morfologia do


terreno possuir características favoráveis à ocorrência de lince, a área não será ideal para a espécie. Por tal, é razoável considerar, que o animal observado se encontraria em dispersão, não podendo evitar-se as seguintes questões. Qual a sua origem? Qual o seu destino? A serra da Estrela encontra-se a uma distância não muito distante da serra da Malcata, montanha onde a existência de uma população de lince impulsionou, na década de 70, uma

assumir-se que o animal observado teria outra proveniência. A região ocidental do Sistema Central espanhol onde a Asociación La Raya detetou, em 2007, a persistência de uma população deste felino, a uma distância de aproximadamente 125 km da serra da Estrela, é uma m hipótese a considerar. Outra possibilidade ainda é que o animal possa ter tido origem em populações situadas a distâncias maiores, como são os casos da serra Morena e área de Doñana, no sul de Espanha, e que

Foto 6 – Afloramentos graníticos, vegetação e pequeno charco na propriedade onde se efectuou a observação do lince-ibérico. (Gert Verrijdt).

Campanha de conservação que resultou na classificação desta área da Beira Interior como Reserva Natural. Porém, e apesar dos indivíduos desta espécie poderem facilmente cobrir essa distância, na atualidade, o lince já não ocorre naquela Área Protegida, devendo 28

se encontram a aproximadamente 350 km da serra da Estrela. Recorde-se que o animal observado em Vila Nova de Milfontes, em maio de 2013, era originário de Doñana, tendo percorrido uma distância mínima de cerca de 250 km para alcançar o litoral português, num período não


Foto 7 – Aspecto geral do vale onde o lince-ibérico foi observado, em Abril de 2008. (Gert Verrijdt).

superior a seis meses. Assim, não surpreende que um lince possa ter percorrido uma distância de 350 km num período de tempo mais longo. Por outro lado, os incêndios que anualmente assolam o norte e centro de Portugal ao promoverem o desenvolvimento das gramíneas, componente fundamental da dieta do coelho, podem igualmente beneficiar as populações deste herbívoro. Deste modo, e reconhecendo o facto de que um lince-ibérico na falta da sua presa principal pode efetuar longos movimentos dispersivos, constituem aspetos determinantes para a compreensão das causas da observação de um lince, na área de Seia, em 2008. O abandono das terras e a

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acentuada queda demográfica que se observa em muitas regiões do interior de Portugal, são também fatores que poderão contribuir para um melhor entendimento deste registo.

Na década de 80, do século passado, o lince-ibérico ocorreria ainda em muitas das montanhas que como a serra da Estrela, fazem parte do Sistema Central Ibérico, nomeadamente nas serras da Gata e de Gredos (Rodríguez & Delibes, 1992). Na serra da Estrela, embora as áreas a altitudes superiores a 1500 metros não apresentam condições para o coelhobravo alcançar densidades elevadas, alguns locais situados a altitudes mais baixas possuem esse potencial (Gomes, 2004; Pires, 1996). Contudo,


Foto 8 – Aspecto geral do vale do rio Seia após incêndio florestal de 2002 (Gert Verrijdt).

mesmo nesses locais onde a estrutura da paisagem é favorável à ocorrência das principais presas do lince, a abundância de coelho-bravo e também de lebre é reduzida, sendo pouco provável que possam suportar uma população de lince. Sarmento et al. (2004) referem que nas áreas mais próximas onde o lince esteve presente, há não muito tempo, nomeadamente na serra da Malcata e nas áreas adjacentes da serra da Gata e de Las Hurdes, a disponibilidade de coelhos seria muito baixa. Ainda de acordo com Sarmento et al. (2009), é possível que a escassez de presas possa ter conduzido ao alargamento dos limites dos territórios de lince e

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até mesmo à sua disrupção. Deste modo, o decréscimo rápido das populações de coelhobravo e a deterioração dos habitats, numa área que apresentaria já uma baixa densidade de linces e cujas populações mostrariam territórios em processo de dissolução, pode ter impedido os animais de manter os seus territórios e a reprodução poderá terse tornado inexoravelmente comprometida (Palomares, 2001). Em resultado, tais animais poderão então ter sido impelidos a realizar movimentos, mais ou menos amplos, em busca de novos territórios e esta pode ser a explicação mais plausível para um lince-ibérico ter sido


avistado na serra da Estrela, em abril de 2008.

Conclusão

Para que um lince-ibérico possa ser observado novamente na serra da Estrela considera-se fundamental que a população selvagem deste felino recupere. Todavia, as condições nas zonas onde no presente se procede à reintrodução desta espécie ainda não permitem assegurar que a população aumente de modo significativo. Recentemente, a ANPC defendeu que a reintrodução do lince-ibérico em Portugal poderá estar comprometida por inexistência de condições mínimas que garantam a sua sobrevivência, quer devido à muito baixa população de coelhos quer devido à probabilidade de ocorrência de novos surtos da doença hemorrágica do coelho (Jornal i, 2014). Ainda de acordo com a ANPC, se a densidade de coelho-bravo se mantiver em níveis insuficientes, os animais terão que percorrer grandes distâncias na procura de alimento e selecionar outras presas, aumentando assim o risco de fracasso do projeto de reintrodução. Em Portugal, além da reintrodução do lince-ibérico no Parque Natural do Vale do Guadiana, no Alentejo, discute-se a sua libertação noutras áreas, incluindo a Reserva Natural da Serra da

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Malcata. A concretizar-se a libertação de animais nesta Área Protegida, poderá então haverá hipóteses de que animais estabelecidos na Malcata possam rumar em direção à serra da Estrela. Também o sucesso dos programas de reintrodução de lince que estão a acontecer em Espanha, poderão aumentar a expectativa de que as áreas históricas de ocorrência do lince possam novamente ser ocupadas por este felino. Porém, para que tal possa acontecer, é fundamental que as populações de coelho-bravo aumentem de forma significativa. Entre as medidas de gestão a ser adotadas para fomento do coelho, considera-se de extrema importância o aumento de habitat adequado, em especial através da conversão de áreas de matos em pastagens. Mas, realcese que a implementação destas medidas é mais fácil de projetar do que concretizar. Na Serra da Malcata, as autoridades responsáveis pela conservação da natureza aplicam estas medidas de gestão há vários anos, mas até à data não se pode afirmar que tenham alcançado um nível de sucesso satisfatório (Sarmento, 2012). Enquanto tais medidas não produzirem os resultados esperados, é fundamental continuar a investir recursos na conservação do linceibérico em cativeiro, de forma a permitir a reintrodução da espécie sempre que as condições na natureza o permitirem.


Agradecimentos Os autores agradecem a Luísa Ferreira Nunes, que gentilmente cedeu algumas das belas ilustrações que acompanham a obra Diário da Natureza: Lince Ibérico, e ao Paulo Barbosa da Silva pela sua colaboração na tradução deste artigo a partir do original inglês e na edição de algumas das imagens. Agradece-se ainda ao Prof. Dr. Emilio Virgós e aos seus muitos colegas da Universidad Rey Juan Carlos a identificação do lince na imagem. Também aos membros do grupo facebook SOS Linces Spain agradece-se a confirmação (consulte: https:// www.facebook.com/soslincesspain/?fref=photo).

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Visita da Família Real a Manteigas 1906 Ao volante o Príncipe Real D. Luíz Filipe. Atrás, o Infante D. Manuel (futuro Rei), o Visconde de Asseca e o Marquês de Lavradio. 10 de Agosto de 1906. (Imagem obtida no Facebook)

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As Aldeias da Serra da Estrela A nossa Associação, através das páginas da revista Zimbro online vai, já neste número, iniciar uma série de reportagens sobre as aldeias da Serra da Estrela. Neste trabalho que vamos procurar realizar com empenho, queremos ouvir quem vive nas aldeias, para saber mais sobre as suas memórias, o presente que estão a viver e que expectativas têm para o futuro. Com esta série de artigos sobre os povoados da Serra da Estrela, a ASE pretende ser um interlocutor entre as ansiedades de quem vive na serra da Estrela, longe dos poderes que lhes gizam o presente e o futuro, quase sempre sem a sua anuência, enaltecer as capacidades de resistência de quem ainda vive nas aldeias, revelar a riqueza do património natural e cultural aos leitores da Zimbro online. De três em três meses iremos escrever sobre duas aldeias. É o contributo mínimo, diga-se, da ASE para homenagear a tenacidade das gentes que ainda vivem nas povoações da Serra da Estrela, dando-lhes vida, sustentando e gerindo a paisagem humanizada que tão ignorada e menosprezada tem sido por quem tinha o dever de a apoiar e acarinhar – o Parque Natural da Serra da Estrela (PNSE). Trimestralmente propomo-nos divulgar e promover as aldeias deste interior serrano, o esforço de quem ainda as habita dando-lhes continuidade e força para as manter de pé, num processo que radica nas gerações passadas e se projeta com o pensamento na melhoria de condições das próximas! Este número é dedicado às localidades de Aldeia do Bispo (concelho da Guarda) e Valezim (concelho de Seia).

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AL-

A freguesia de Aldeia do Bispo localiza-se a Sul da cidade da Guarda, sede do Concelho de que faz parte e da qual dista escassos 3,5 kms. O “Estudo Sobre a Delimitação Geográfica da Serra da Estrela”, da autoria do nosso associado Alberto Serrão, estabeleceu duas linhas de fronteira: uma, correspondente ao perímetro da cota dos 800m; uma segunda linha, mais criteriosa e que considera os aspetos geomorfológicos e linhas de água, já inclui esta aldeia na Serra da Estrela (SE). É possível que seja esta última a visão mais correta, na medida em que os seus habitantes se consideram inseridos nela (SE), argumentando que se situam a mais de 900m de altitude e se inserem na mesma cordilheira que está alinhada com o Planalto da Serra da Estrela! Rezam os escritos que Aldeia do Bispo terá sido um priorado do prelado da Guarda, o que pode explicar nome da povoação “… 37

DEIA DO BISPO

Coordenadas Geográficas: 40° 29' 17" N 7° 16' 41" O UTM 29T 645936 4483353 Área: 13,17 km2. Densidade: 16,7 hab/km². População: 220 (Censo de 2011). Orago: São Salvador. Sítio: www.freguesia aldeiadobispo.com


Na foto, da esquerda para a direita: os senhores António Abrantes, Paulo Abrantes (Presidente da Junta de Freguesia), Augusto Bidarra, João Henriques, e Lemos Santos (ASE), que tiveram a amabilidade de nos receber e conviver para falarmos da sua terra.

do Bispo”. Apesar de haver evidência da sua existência antes da nacionalidade, podem encontrar-se referências à aldeia em textos Paroquiais datados de 1758 que revelam aspectos curiosos relacionados com a sua localização. Dali se podem descobrir ao livre olhar “as villas de Jarmelo, Monsanto, Belmonte, os lugares de Caria, Pena-Boa (provavelmente Peraboa) e Valverdinho”. (Fonte: Dorindo Vaz, in http:// www.terralusa.net/?site=110&sec=part8). Na encosta em frente de Aldeia do Bispo e a uma cota relativamente mais baixa da sede de freguesia, encontram-se os lugares da Santa Cruz atravessado pela EN18 e, um quilómetro mais na direção da cidade da Guarda, a Quintinha, fazem parte da povoação, completando assim o aglomerado urbano. É uma das

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freguesias mais antigas do concelho, encontrando-se o seu território alcantilado entre os vales de Santo Amaro, e Amezendinha. Outrora, as gentes de Aldeia do Bispo viviam essencialmente da agricultura e da pastorícia. A encosta dominante do vale da Amezendinha, exposta a nascente, onde está edificada a povoação, era coberta por soutos (Castanea sativa Mill) dizendo os nossos anfitriões que não havia na região terra que produzisse e exportasse tanta castanha. Os constantes incêndios, as doenças do castanheiro e a avançada idade das pessoas ligadas à agricultura contribuíram para o abandono das terras de cultivo e a encosta encontra-se actualmente coberta de matos e rebentos de carvalho negral (Quercus pyrenaica Willd), à espera que as chamas os devorem ou por uma gestão mais cuidada por que anseiam os seus residentes. A sua proximidade à sede do concelho e a excelente exposição que a invade dos raios solares matinais que só a abandonam com a chegada do ocaso, con-

dições que estão a revitalizar a vida social da Aldeia do Bispo com novas urbanizações, parece denunciar uma apetência das pessoas que trabalham fora, na procura da conciliação em viver na “montanha” com os pés na cidade. Como chegar – Vindo do Sul, pode optar pela A23 e sair no nó 34 (Benespera), apanhar a EN 18 e seguir a direção da Guarda. Depois de percorrer 12 kms, encontra-se no lugar da Santa Cruz. E também na Aldeia do Bispo. Caso não venha pela auto estrada, basta seguir a EN18, direção da Guarda e encontra com facilidade o lugar da Santa Cruz. Vindo do Norte, deve seguir pela A25 até à Guarda, entrar na A23 na direção da Covilhã e sair no nó 35 (Guarda Sul), tomando a a EN233 na direção daquela 39


cidade, através da VICEG até encontrar a EN18. Seguindo direção da Covilhã encontrará o lugar da Santa Cruz e estará em Aldeia do Bispo. Se pretender seguir por uma estrada nacional, deve tomar a que indica a Guarda e depois entrar na EN18 como referido anteriormente. O que visitar - A Igreja Matriz e o núcleo mais antigo de casas ao redor da Igreja e a Capela da Santa Cruz. Possui um Museu da Castanha, cujas visitas são combinadas previamente através dos contactos: 963811056 / 965867250. Vale a pena percorrer o planalto que domina a povoação para se ter uma paisagem privilegiada sobre a cidade da Guarda e toda a planície, da Vela, Gaia, Gonçalo e Belmonte. Subindo até à linha de cumeada a partir da estrada dos Albardeiros, e depois pela que segue a orientação das torres eólicas (esta não é alcatroada mas tem bom piso) e, a cerca de 1.010 m de altitude, pode ver um padrão que define o ponto de intersecção de três importantes bacias hidrográficas. Para Este nasce o rio Noéme, afluente do rio Côa (Douro), para Norte nasce um afluente da ribeira do Caldeirão (Mondego) e para Sul nasce a ribeira de S. António, afluente da ribeira da Gaia que desagua no rio Zêzere (afluente do Tejo). A proximidade à cidade da Guarda justifica uma visita a esta cidade e ao seu 40


VALEZIM

Coordenadas Geográficas:

40° 21' 33" N 7° 43' 11" O Área: 10,94 km² Densidade: 28,3 hab/km². População: 310 (Censo de 2011). Gentílico: Valezinense Código postal 6270-621 Sítio: www.valezim.com

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A aldeia de Valezim é uma Freguesia do Concelho de Seia, distando cerca de 10 quilómetros desta cidade. Atravessada pela EN231, Valezim goza de uma exposição SW, abençoada pelos raios solares do ocaso mas também pelas frentes chuvosas vindas do Atlântico. Situada a 720m de altitude e com cerca de 11 km2 de superfície, a povoação de Valezim sobressai pelo branco do casario e rudeza do granito, pelos socalcos verdejantes dos lameiros que as águas das ribeiras de Coruche e de Valezim embebem através de um sistema primitivo de levadas, que depois de encharcarem as terras regressam ao leito agora mais encorpado de uma ribeira que se forma próximo da calçada romana, e também de um lagar a suscitar interesse na sua recuperação. O nome da terra, que adiante será referido segundo a memória lúcida dos Valezinenses que nos receberam, poderá remontar à


ocupação romana que terá estabelecido que nos pastos se não podia construir, mas no “Vale Sim”. O Prof. Dr. Orlando Ribeiro descreve (no 3.º volume do Guia de Portugal, edição da Fundação Calouste Gulbenkian) a sua passagem por Valezim (provavelmente por volta de 1920) considerando-a uma aldeia grande, de 2.200 habitantes, longe de qualquer correspondência com o quadro da evolução da população que ilustra o texto dado que nesta data conta com 729 habitantes. É na sequência desta visita que o Dr. Orlando Ribeiro escreveu que “A verdadeira Serra da Estrela acaba aqui, nesta queda de 1.000 metros”.

Valezim foi vila durante 635 anos, de 1201 a 1836, e chegou a ser concelho no período de Agosto de 1834 a Setembro de 1835, integrando posteriormente o 42


Concelho de Loriga antes de fazer parte, como na atualidade, do Concelho de Seia. Como chegar – Chegar a Valezim é muito fácil para quem vier do Norte. Uma vez em Seia é tomar a EN231 e em escassos 15 minutos chega-se à aldeia. O mesmo já não sucede para quem procede de Sul, da EN18 ou A23. Para além de ter se percorrer uma maior distância em plena Serra da Estrela, a sinuosidade da estrada torna a distância mais cansativa pelo menos até às Pedras Lavradas (limite dos distritos de Castelo Branco e Guarda). Quem utilizar a EN 230, em Vide entra na EN338 e na Portela do Arão vira à esquerda tomando a EN 231 e chega a Valezim que fica próxima. O que visitar – Valezim possui um património arquitetónico muito interessante do qual se destaca: a Igreja de Nossa Senhora do Rosário (estilo romano com três naves separadas entre si), o Pelourinho (classificado como imóvel de interesse Público), a Ermida de Nossa Senhora da Saúde, a Capela de São Domingos, o Solar da família Castelo Branco, a Casa do Forno, o Lagar, a Casa do Engenho, alguns troços de calçada Romana em bom estado de conservação, Vestígios arqueológicos romanos e castrejos do Monte do Crasto. Também os fontanários e o sistema de aproveitamento da água merecem ser visitados.

Onde dormir e comer – Notam-se sinais de que algo está para mudar no que toca a alojamentos e locais para uma boa refeição. De momento apenas as Casas de Valezim, com a classificação de alojamento local, proporciona dormidas. O restaurante Melmequer, que não tivemos oportunidade de visitar, garantirá um serviço de bem servir como é típico na Serra da Estrela e nas Beiras. 43


VALEZIM Valezim, freguesia do concelho de Seia, com cerca de 11 km2, fica encaixada em vale apertado na vertente sudoeste da Serra da Estrela e é ladeada pelas Ribeiras de Coruche e de Valezim. Por detrás da cumeada da encosta das águas vertentes de tais ribeiras, localiza-se a barragem da Lagoa Comprida. Antes desta - início do século XX - o caudal de tais ribeiras seria certamente mais abundante. Depois dela a água foi e é ainda mais preciosa no verão, pelo

que é labiríntico o seu percurso em cascata: dos fontanários, ao lagar, deste aos moinhos e regadio ribeira abaixo. Chegou a ser concelho por um breve período de tempo entre agosto de 1834 e setembro de 1835 e antes de integrar o concelho de Seia ainda pertenceu ao concelho de Loriga. Dizem com graça alguns dos seus atuais residentes, com quem convivemos numa tarde de sol que a neve refletia lá no cimo, que deve a origem do seu nome à mourama, que quando procurava um local para montar acampamento, chegou à cumeada da Serra e exclamou: este “Vale Sim”. Tem seguramente muito mais graça, até porque põe os Mouros a falar o que viria a ser o Galaico-Português, do que a origem atribuída, embora com muitas dúvidas, pelos eruditos: do latim Vallecinus (Vale pequeno). Há mesmo quem, em homenagem a tal origem, nos tenha confessado que sempre escreve, embora sem qualquer azedume para com o acordo ortográfico, Valesim com “s” e não com “z”. As décadas de quarenta, após a II Grande Guerra, e cinquenta do século 44


passado, terão sido de forte crescimento demográfico, como aconteceu em toda a região, tendo-se atingido um máximo de 850 habitantes. Em 2001 ainda eram 382, mas em 2011 já só restavam 310 habitantes. Foram também décadas douradas da sua economia. Não tanto pelo ouro, que por estas bandas não há notícia de que tenha aparecido, mas antes pelo volfrâmio de densidade próxima à do ouro, mas de pondo de fusão bem mais elevado e por isso apreciado pela indústria bélica para tornar o aço mais resistente. Chegou a atingir e mesmo a ultrapassar o preço do ouro durante a II Guerra Mundial. As minas do Círio foram exploradas até ao ano de 1945, depois de em 1944 Salazar, pressionado pelos aliados, anunciar o fim da exploração e venda de volfrâmio, para todos os países beligerantes, no dia 5 de Junho de 1944. Um dia antes do desembarque na Normandia, tal era o jogo de cintura do ditador para com os aliados. Reabriram ainda no início dos anos cinquenta, com alguns dos anteriores sócios, mas encerraram pouco depois. Roubo, tráfico, batalhas campais, condições de trabalho miseráveis, fortunas construídas e destruídas são algumas das vivências da época quando se fala destas explorações entre 1940 e 1944. Agora as Minas do Círio, num contexto bem mais adequado ao seu nome, poderão vir a integrar a “Rota do Volfrâmio na Europa”, como um dos polos de atração turística, num projeto que atravessa fronteiras e que pode criar uma rota que passa por explorações em Portugal, Espanha e França. Antes de tal época de fortunas que se faziam e desfaziam, a emigração para a América do Sul foi significativa e após os anos cinquenta predominou a emigração para Lisboa e para França, embora para este último destino não tenha sido muito significativa. A indústria de lanifícios de Seia ocupou grande parte da população ativa e a manutenção de uma agricultura de subsistência, com o emprego em simultâneo dos casais nas fábricas de tecidos e alcatifas, evitou muita emigração para a Europa. Não há notícias do retorno dos emigrantes que nas décadas de 20 e 30 foram para a América do Sul, pelo que no património construído nada se assemelha a “Casa de Brasileiro”. Também como houve pouca emigração para a Europa

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não se registam grandes atentados. Salienta-se no interior do burgo, casa senhorial típica, da família de João da Fonseca Castelo Branco e recuperações bem conseguidas de arquitetura popular da Beira Alta, em boa pedra de granito. Curiosa é a história do Doutor António da Fonseca Castelo Branco, tio de João da Fonseca, que foi Capelão de D. Carlos e que quando constatou, após a implantação da República, que do fontanário da aldeia haviam sido retiradas as armas da monarquia e substituídas pela esfera armilar da nova bandeira nacional, jurou que nem mesmo quando morto voltaria a passar por tal fontanário. Foi por isso preciso, quando do funeral, dar a volta ao povoado para cumprir a vontade do defunto. A Igreja antiga de Nossa Senhora do Rosário, padroeira de Valezim, é um imponente templo em granito e em conjunto com o Pelourinho que é do século XVI, constituem os melhores exemplos do património mais antigo. Dos notáveis menos antigos, ou mais recentes, nascidos em Valezim destacam-se na memória dos atuais residentes, Cândido Augusto de Albuquerque Calheiros, nascido em Valezim, que partiu para trás de Serra e encontrou no lugar do Refúgio – Covilhã, mais do que refúgio, pois angariou enorme fortuna como industrial de lanifícios e adquiriu ou herdou o Palácio do Refúgio. Quando se inaugurou em 1891 o caminho-de-ferro da Beira Baixa, hospedou no seu Palácio o Rei D. Carlos I de Portugal e a Rainha D. Amélia. O título de 1.º Conde do Refúgio foi-lhe concedido, em duas vidas, por Decreto de D. Carlos I de Portugal de 6 de Outubro de 1891, mudado para 1.º Conde da Covilhã por Decreto de D. Carlos I de Portugal de 16 de Fevereiro de 1898. Teve como herdeiro do título seu filho José Mendes da Veiga de Quental Calheiros, 2.º Conde da Covilhã, que foi um empresário industrial de grande mérito, e que fora do casamento teve dois filhos, que legitimou, um dos quais Júlio Anahory de Quental Calheiros que usou o título de 3.º Conde da Covilhã e foi destacada figura da sociedade portuense, gerindo atividades bancárias, de seguros e industriais. 46


Assumiu a Presidência do Conselho de Administração do Banco Borges & Irmão e foi um dos criadores e fundadores da Manufatura Nacional de Borracha (MABOR), pioneira da indústria de pneus em Portugal. O mais recente dos notáveis menos antigos é o Capitão da Força Aérea Benjamim de Almeida, que foi fundador da TAP. Em época de companhia aérea tão badalada, seria interessante ouvir a opinião de um dos seus fundadores sobre a privatização da TAP. Vantagens e inconvenientes de uma gestão privada e se alguma vez os fundadores admitiram poder transferir para os privados a gestão da companhia. A romaria de Nossa Senhora da Saúde, a 2ª mais importante do concelho de Seia, como fizeram questão de sublinhar os nossos interlocutores, decorre no primeiro domingo de setembro, no adro/miradouro da Capela do mesmo nome, sobre as generosas sombras de exemplares centenários de carvalho alvarinho e pinheiro manso, com deslumbrante vista para a Serra do Caramulo. O turismo será a atividade que a atual reduzida população de Valezim pode encarar como aposta. Já existem três casas de alojamento turístico as Casas de Valezim logo por cima do café de delicioso nome “Melmequer” e a Casa do Forno. Em preparação adiantada encontra-se um “Hostel” no centro da povoação que irá constituir uma oferta de alojamento para os mais jovens, embora venha a dispor de ampla suite para quem, mais endinheirado, se sinta bem com o pessoal das mochilas. O Geocache para o qual tem vocação todo o território sudoeste do concelho de Seia é uma das possíveis atrações de Valezim. A calçada romana da região e os trilhos para percursos pedestres, bem como o acima referido possível polo da Rota do Volfrâmio na Europa são outras das possíveis atrações. A “Magia das Aldeias de Montanha” edição de 2013 de um guia de viagens das aldeias da vertente sudoeste da Estrela criou expetativas a que seguramente irá corresponder a iniciativa dos empreendedores da freguesia com a oferta de alojamento e da restauração que ainda falta.

A série de artigos sobre as aldeias da serra da Estrela é da responsabilidade e partilha ,de António Lemos Santos e José Maria Saraiva, podendo vir a ser alargada dependendo do interesse e disponibilidade que nos venha a ser manifestada. 47


As, 3 fotos das páginas 4 e 5 que, propositadamente, não foram comentadas, in sítio, para que os leitores as olhassem desinteressadamente, à primeira vista parece nada terem em comum. Uma retrata uma das últimas nevadas deste inverno, uma outra de um corte de árvores e, uma terceira leva-nos o olhar para o meio da negrura deixada pelo fogo, de um pequeno oásis verdejante que lhe resistiu! Do ponto de vista ecológico, a limpeza da neve, as orientações que estão a ser seguidas para os cortes dos povoamentos florestais, as actividades agrícolas e os fogos florestais, produzem danos nos ecossistemas de montanha difíceis de corrigir, os quais têm vindo a ser motivo de preocupação da nossa Associação que não nos poupamos de alertar. A neve que gostaríamos de ter em abundância, é fundida através da aplicação de cloreto de sódio. Ou seja, queremos neve e ainda pagamos para a derreterem, num processo 48

cientificamente comprovado de alteração na qualidade da água de algumas nascentes com elevados níveis de salinização. Calculámos que em cada ano se percam 200.000m3 de neve só no planalto superior pela acção do Centro da Limpeza da Neve, através da aplicação de sal-gema (que está já a causar alterações na qualidade da água) para manter em boas condições de circulação a via que atravessa o ponto mais elevado do Continente.

Sabendo que as montanhas estão a perder solo constantemente estranha-se que estejam a ser dadas orientações às empresas que procedem aos cortes das árvores, neste caso dos povoamentos varridos pelo fogo, à queima do material lenhoso sobrante; a) Com este procedimento a queima reduz a cinzas o material lenhoso alterando-o de tal maneira que acabará por ser transportado pelo vento e o primeiro a ser arrastado pelas chuvas; b) Os seres vivos, nomeadamente os micro-organismos que se estariam a desenvolver e a alterar o material acabarão por ser queimados. c) A água das chuvas deixará de encontrar


obstáculos e jorrará encostas abaixo, arrastando o que pode, lixiviando-as ainda mais; d) o processo de reabastecimento dos aquíferos deixa de ter condições porque as águas ficam com o caminho livre e a infiltração não se verifica com a mesma capacidade se resíduos florestais tivessem ficado no local; e) limpas as encostas a hipótese de recuperar solo diminui e ainda se agrava. Ao procederem à queima ou limpeza do material lenhoso está-se a eliminar a única possibilidade de compensar a erosão a que as zonas de montanha são sujeitas sistematicamente pela acção dos agentes erosivos naturais, mais os causados pela acção humana como é o caso dos incêndios ou dos métodos de intervenção que descrevemos. Por último não podíamos deixar de referir, uma vez mais, a importância das actividades agrícolas e a necessidade de as apoiar, não só do ponto de vista estratégico como o equilíbrio da balança comercial, uma vez que produzindo internamente, menos necessidade há de importar bens alimentares e por isso menos pagamentos ao estrangeiro. Mas, acima de 49

tudo, pela eficácia no controlo do avanço das chamas dos incêndios florestais. Com efeito, a foto é bem a prova disso, as terras cultivadas que, ao contrário da que a foto mostra, se situam normalmente nas terras chãs, são um excelente tampão à evolução das chamas entre encostas e muitas vezes a melhor frente de combate aos fogos rurais. Os fogos, pelo número de operacionais e corporações que envolve, assim como da necessária base orçamental para lhes dar cobertura, atingiram uma importância tal nas políticas do país, que não permite aos responsáveis enxergar que é nas coisas simples que a solução para a problemática dos incêndios florestais tem de ser encontrada, e não na continuada política do combate, através de uma máquina concebida sobre bases completamente erradas, que se tornou numa poderosa engrenagem que precisa ser confrontada com a aposta nas coisas simples, nas actividades agrícolas e florestais tradicionais.

Para que preservar "Meio Ambiente"? Precisamos dele inteiro!!! JossaLandy


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ESTRADA NACIONAL 230 Com a chegada das primeiras nevadas as notícias a dar nota do encerramento da estrada da Torre é tema em praticamente todas as televisões, rádios e jornais nacionais. Como se trata de acontecimento habitual nem deveria merecer o destaque que lhe dão ou, então, deveria ser motivo de uma melhor análise sobre as razões para o encerramento da estrada acontecer, sistematicamente quando cai alguma neve e descem substancialmente as temperaturas. Detalhe que ainda não vimos acontecer por parte de nenhum Órgão de Comunicação Social, o que é revelador do pouco interesse em procurar apurar das razões que levam ao encerramento da estrada, uma vez que nos parece do interesse geral que se informem os cidadãos sobre o assunto que se repete todos os anos. Por outro lado o troço da estrada da Torre que normalmente fica encerrado ao trânsito não isola nenhuma localidade pelo que não nos parece que merece uma preocupação de maior. Aliás, a sua abertura no período do inverno tem mais a ver com a prática do esqui do que com qualquer outra razão. O que faz com que se eliminem mais de 200.000m3 de neve para a desobstrução da via, neve que muita falta faz para reabastecimento dos aquíferos e para o turismo. Mas, enquanto se faz eco do que se passa com o encerramento da estrada da Torre por causa da neve, a EN 230, às portas da povoação da Teixeira e que liga Coimbra à Covilhã está bloqueada ao trânsito, conforme mostram as imagens, desde Outubro de 2015! Convém referir que a EN 230 já se encontrava condicionada há uns largos meses, tendo em Outubro do ano transacto sido definitivamente encerrada. Numa sociedade democrática como nos pretendem fazer crer ser aquela em que vivemos, a importância e o respeito pelos cidadãos que dependem da EN230 para circular, deveria ser igual dos quem utilizam diariamente o IC19 para se deslocar. Deveria, dizemos, mas ninguém acredita que o IC19 ou outras vias do país estivessem encerradas há cinco meses? 52


CANAIS CONTINUAM A MATAR Mais animais, desta vez três bovinos, morreram afogados no canal que conduz a água para a câmara de carga da Central Hidroeléctrica da Pedra Figueira, no vale da Alforfa, Unhais da Serra. Há muito que estão identificados os perigos que os canais adutores das centrais hidroeléctricas provocam na fauna selvagem. Com efeito um animal que caia num qualquer canal dos que existem na serra da Estrela, não tem a mínima possibilidade de salvar-se porque mesmo que consiga flutuar vai acabar por morrer de cansaço, uma vez que os canais não possuem rampas de saída e a altura entre o nível da água e o coroamento dos canais é muito grande.

Os canais são as infraestruturas que mais fauna mata na serra da Estrela. Para resolver o problema a empresa responsável tem várias alternativas para tentar resolver o problema e evitar que mais animais continuem a morrer. As rampas, colocadas espaçadamente, poderão ser a solução mais rápida, económica e de menor impacto visual. A ASE espera da EDP um maior comprometimento no encontrar da melhor solução para os canais e disponibiliza-se para colaborar nesse sentido. 53


O vale do rio Homem começa a dar os primeiros passos nas proximidades das antigas minas de volfrâmio dos Carris,

variação pode ser 0,8 °C, aproximadamente; mais alta, se descermos e, inversamente, se su-

Vale do rio Homem

a 1.430 metros de altitude. Um quilómetro mais para montante e estaremos na linha de fronteira com a Espanha, perto do ponto mais elevado da serra do Gerês – o Pico da Nevosa, a 1.548 metros.

A zona planáltica dos Carris é sujeita a ventos fortes vindos dos vários quadrantes, mas com predominância para o alinhamento Este/Oeste. Andando cerca de 1.000 metros no sentido do vale, os ventos quebram substancialmente e a temperatura sobe, uma vez que em montanha, por cada 100 metros de desnível, a 54

birmos. O vale do rio Homem é percorrido por um caminho empedrado com cerca de 9 quilómetros, que começa na estrada que liga a vila do Gerês à Portela do Homem, construído pela empresa mineira para garantir o acesso por viaturas para apoiar a actividade das minas e o escoamento do minério. Entre a cota mais baixa e o local onde estão as ruínas das minas dos Carris há um desnível de 700 metros, o que em 9.000 metros dá um declive médio de 8%. Trata-se, assim, de um caminho muito fácil de percorrer para quem


anda a pé, salvo pequenos troços onde é necessário algum cuidado por causa da falta de manutenção e da erosão que foi destruindo a plataforma. Feito o enquadramento geográfico da

zona do vale do rio Homem e equacionados os factores mais significativos, a ter em consideração num processo de salvamento, vamos debruçar-nos sobre os acontecimentos com base nas notícias que vieram a público. Desde logo, para contrariar o alarido anunciado da existência de pessoas desaparecidas na serra do Gerês quando, 55

tudo o indicou, as pessoas sempre estiveram localizadas tendo, inclusive, sido elas a pedir o socorro e a indicar o local onde se encontravam. Depois foram avançadas notícias de que seriam 6 ou 7 as pessoas a necessitar de socorro e nada disso era verdade. Havia dois grupos na zona e apenas um, constituído por 3 caminhantes, que necessitava de ajuda, tendo o outro grupo ficado no local para prestar o apoio que lhes foi possível sem os abandonar. É uma prática comum em montanha prestar auxílio a quem o necessita e este grupo revelou estar à altura dos melhores montanhistas. As suas declarações à chegada revelavam controlo emocional, segurança e tranquilidade, o que contraria com as notícias vindas a público e com o descontrolo que parece ter havido da parte de quem comandou as operações.

Na fase de conclusão do salvamento, um responsável da Protecção Civil veio dar um “puxão de orelhas” aos caminhantes que foram socorridos, pela aventura em que se meteram, argumentando que a deslocalização dos meios para a zona dos Carris

Pico Nevosa a 1.548 m


Ruínas das minas dos Carris

poderia ter feito falta para outras eventuais ocorrências. Foi uma postura pouco condescendente, na na medida em que a PC existe precisamente para as ocorrências imprevistas, caso contrário não tinha razão para existir. A GNR não se ficou por menos e os jornais deram conta da intenção (que se veio a confirmar) desta força poder processar os sinistrados por terem andado numa zona para a qual não teriam a autorização do Parque Nacional da Peneda-Gerês. Estas situações começam a ter parecenças com os tempos em que os namorados não podiam passear de mãos dadas e três pessoas a conversar na via pública

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considerado um ajuntamento! Antes do socorro nos Carris já tinha havido outros e, depois deste, surgiu já um outro caso. Comecemos pelo socorro. Em vez do “puxão de orelhas” que o responsável operacional deu aos três socorridos, teria sido muito mais inteligente se explicasse quais os motivos que o levaram a mobilizar aproximadamente 80 socorristas para ir até aos Carris evacuar 3 sinistrados. Nem sequer comentamos o disparate que tem sido andarem equipas de salvamento de várias entidades a acumular-se no socorro, como se uns fossem super-homens e outros, pau para toda a colher quando, afinal, tudo se .


resumiu a uma maca que uns tinham e outros não. Situação que deu lugar a comunicados para esclarecer o sucedido e justificar os actos ocorridos. O que se passou com o salvamento nos Carris (Gerês) foi folclórico, revelador de quem não está preparado para este tipo de ocorrências e, por isso, a necessitar de reflexão para que, de futuro, os meios sejam os adequados às situações e para que uma única equipa operacional esteja preparada e devidamente equipada para assumir o controle de uma situação como a que se viveu nos Carris. Se possível, sem se porem a jeito, na expectativa de captarem os holofotes menosprezado, dessa maneira, o esforço que outros também fizeram, pelos vistos com o domínio da situação, cujo sucesso só não se verificou por causa de uma maca! Ou seja, os bombeiros só não concluíram com eficácia a intervenção que iniciaram, porque o equipamento que levavam não era o mais adequado para fazer a evacuação da vítima naquele meio físico. Talvez uma questão a merecer a atenção do presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses, Cmdt. Jaime Marta Soares, no sentido de dotar as Corporações de Bombeiros com intervenção em zonas montanhosas para serem dotados deste tipo de equipamento. O que nos desconforta mais é o facto de casos como estes estarem a suceder a uma cadência crescente, os quais, associados a algumas declarações que temos lido, ameaçam um desfecho facilmente previsível que irá confluir em mais restrições ou 57

burocracias no acesso ao Parque Nacional da Peneda-Gerês, principalmente para quem o desejar percorrer a pé. Esperemos que estas nossas apreensões não tenham razão de ser, até porque temos a forte convicção que terão sido as restrições, impostas pelo Parque Nacional da Peneda Gerês/ICNF de se poder caminhar livremente pela serra do Gerês, e também por outras AP’s, a razão principal para o que tem vindo a passar-se com as pessoas que se têm perdido. Na serra da Estrela nunca foi provado que as pessoas a caminhar pudessem pôr em causa qualquer valor para a conservação e temos razão para duvidar que no Parque Nacional da Peneda-Gerês não suceda o mesmo. Quando o PNPG era percorrido pelos montanhistas, a sua presença era uma forma de garantir a segurança dos mais inexperientes e também uma oportunidade de lhes passar todo o conjunto de conhecimentos sobre os cuidados a ter na montanha e do máximo respeito pelos valores do património natural. “Na montanha não deixe mais que pegadas nem tire mais que fotografias”. Este bradar ao bom senso não nasceu no seio do ICNF, das direcções das Áreas Protegidas, da GNR ou da Protecção Civil. Nasceu dos montanheiros, no seio das montanhas, para despertar consciências face à massificação que se estava a presenciar sobre as grandes cadeias montanhosas, fruto da melhoria das condições de vida dos cidadãos e da procura dos grandes espaços como uma


Foram os montanheiros quem primeiro se preocupou para que fossem criadas regras de conduta e não o contrário Infelizmente, a insipiência dos responsáveis do ICNF sobre o movimento montanhista nacional e internacional deu origem a medidas que penalizaram o maior aliado da conservação, ao impor burocracias, taxas, pareceres, que em nada contribuíram para melhorar o património natural e a sua conservação. As AP’s, salvo muito raras excepções, devem ter acesso livre para quem quiser andar a pé. Em vez das taxas de má memória, que só ridicularizam quem as delineou, definam-se regras simples e perceptíveis que enfoquem os elementos fundamentais da salvaguarda dos valores naturais. Verão que os cidadãos serão sensíveis e até fundamentais nas políticas de conservação. Haverá comportamentos desviantes sobre atitudes pouco respeitadoras para com a natureza, sem dúvida que sim, provavelmente uma condição a

suportar ad eternum. Mas é aqui que consideramos que as direcções das Áreas Protegidas mais têm falhado, penalizando quem gosta de andar a pé pelas montanhas, talvez aqueles que mais as respeitam e que deveriam ser uma mais-valia que a tutela das AP’s poderia e deveria aproveitar para ter conservação, mais vigilância sobre hipotéticas intenções de fogos criminosos ou outros atentados ao ambiente e à conservação da natureza.

Por último e não menos importante, já que tornar livre o acesso às AP’s a quem gosta de andar a pé é uma convicção que arrasta uma experiência de várias décadas, dos tempos em que o Serviço Nacional de Parques, Reservas e Conservação da Natureza ainda nem seria provavelmente um projecto, é a aposta na formação de pessoas que vivam dentro das áreas para serem os melhores agentes da divulgação dos espaços naturais e possam guiar as pessoas que pretendam requisitar os seus serviços. Vejam-se as pessoas como aliadas e não inimigas da natureza. J. Maria Saraiva

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“SALVAMENTOS” a mais… ética a menos! No passado fim-de-semana de 27/28 de Fevereiro, os portugueses foram uma vez mais alertados pelas notícias de pessoas perdidas na serra da Estrela. Desta vez o eco chegava aos cidadãos informando que tinham sido “Cinco pessoas resgatadas após pernoitarem na serra da Estrela” O alarmismo foi tal que não terá havido português que não tenha interiorizado que os cinco montanhistas foram uns irresponsáveis e que será necessário pensar numa maneira de acabar com isto e, sabe-se lá, se não terá mesmo passado por alguma cabeça a necessidade encontrar forma de punir quem anda a dar que fazer às equipas de salvamento! Qualquer grupo de resgate de montanha deve, no mínimo, ter um código compatível com quem pratica o montanhismo e que se fundamenta no respeito pelas montanhas e por quem as procura na busca de algo que só as montanhas lhe pode dar. Infelizmente, não foi isso que se passou no Gerês recentemente e, agora, na serra da Estrela. Que se passou, de facto, no dito fim-de-semana e que nenhum Órgão da Comunicação Social foi capaz de contar? Como as notícias nos pareciam uma história muito mal contada, com peças muito desligadas umas das outras, deixando-nos sérias suspeitas de que o sucedido podia não ter sido aquele que nos foi contado, quisemos ouvir a opinião de quem viveu aqueles momentos. Foi o que fizemos e que passamos a transcrever. No dia 27 de Fevereiro um grupo de cinco montanhistas estaciona nas imediações do Covão d’Ametade para iniciar uma actividade previamente programada. Enquanto se faziam os últimos preparativos para deambular serra acima, são abordados, indistintamente, por duas patrulhas da GNR com quem travam algumas palavras. Em circunstância alguma foram desaconselhados a ir e, ainda bem, porque estavam bem preparados física e materialmente. Com o procedimento normal que qualquer membro de uma equipa de resgate deve 59


ter, foi dado um contacto telefónico e desejada boa jornada. O grupo tinha definido subir a rua dos Mercadores, com a probabilidade de escalar uma cascata de gelo numa bifurcação do corredor, contornar o Cântaro Magro, descer ao Covão Cimeiro e daqui ao Covão d’Ametade onde estavam as viaturas. Era uma aventura com pouco mais de 3 quilómetros e um acentuado desnível bem conhecido dos montanhistas. O estado da neve dificultou a subida e esta demorou muito mais que o previsto. Também obrigou a um esforço muito maior, que foi ressentido mais num membro do grupo. Esse facto e o avançado da hora forçou a um repensar do traçado inicialmente previsto, levando-os a dirigirem-se para a estrada 339 que fica a 50 metros da entrada da rua dos Mercadores. Uma vez na estrada nacional, decidiram deslocar-se para a Torre, seguindo-a e vencendo o desnível de 100 metros e a distância de pouco mais de 1 quilómetro. Uma vez na Torre e desconhecendo que alguém pudesse estar naquele local, procuram uma zona protegida junto do centro comercial. Nunca se sentiram perdidos, nenhum elemento se encontrava desidratado ou em estado de hipotermia como foi noticiado. Tinham uma visibilidade na ordem dos 10 metros, identificaram o marco geodésico da Torre e os edifícios. Estavam dispostos a permanecer abrigados e fazer a descida pela manhã. Um elemento do grupo lembra-se de ligar para o contacto entregue pela patrulha da GNR e é assim estabelecido o contacto visual com a luz da casa do guarda da Torre, que foi entretanto acesa na sequência, provável, de um telefonema da GNR. Guarda da Torre e montanhistas já tinham combinado que ficariam a noite em sua casa e pela manhã desceriam normalmente até às viaturas. Apenas se mantinha o cansaço de um membro que, entretanto, se deita e adormece. O diálogo na casa do guarda é interrompido pela chegada de 3 GNR’s. Estes procuram que os cinco montanhistas vão para o posto desta Guarda, na Torre, mas como não tinham levado as chaves manteve-se a situação e todos acabaram por permanecer na casa do guarda, guardas da GNR inclusive. Cai assim por terra a desidratação e a hipotermia anunciada, caso contrário a evacuação teria de ser realizada de imediato e não esperar pela manhã! 60


Foi uma noite de convívio, com jogo de cartas à mistura. Pela manhã, um elemento da GNR já tinha partido e voltado com uma mota de neve quando os cinco montanhistas já se tinham feito à estrada.

Perto da zona do túnel entraram para os jeeps da GNR. Estavam todos bem, apenas queriam chegar às viaturas no Covão da Ametade, ninguém a precisar de ir para o hospital, o que só foi conseguido pela “pressão” exercida para que assim sucedesse. O único contacto realizado pelos cinco montanhistas foi com o guarda da GNR. À chegada ao Centro de Limpeza da Neve depararam-se com um aparato de jornalistas. Ao lerem as notícias, os montanhistas verificaram que vinham transcritos excertos do diálogo informal havido à volta da mesa na casa do guarda da Torre. Portugal, apesar de não possuir grandes montanhas, tem excelentes montanhistas. Não pretendendo fazer um caso desta triste novela, apela-se ao bom senso de quem chegou há relativamente pouco tempo às montanhas, para que tenha o respeito e a humildade que os montanhistas e as montanhas merecem.

Alunos de Mestrado em Ciências do Desporto e professores, da Universidade da Beira Interior, visitaram, no dia 10 de Março, os trabalhos de identificação e recuperação das antigas veredas de carvoeiros e pastores, que a nossa Associação tem vindo a realizar no vale do rio Beijames com o objectivo de valorizar e potencializar o turismo nesta zona da serra da Estrela. 61


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