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A “ZIMBRO” é editada pela Associação Cultural Amigos da Serra da Estrela, em formato digital e com distribuição gratuita. Os artigos de opinião são da responsabilidade dos seus autores.

Director José Maria Serra Saraiva (presidente da ASE) Corpo redactorial Tiago Pais José Amoreira Rómulo Machado José Duarte Saraiva

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Composição Paulo Mazzetti Grafismo Paulo Mazzetti Fotografia de capa Paulo Mazzetti Colaboraram neste número José Maria Serra Saraiva Armando Carvalho Sigurd Kalmar Matos Jorge Fidalgo

Sede e redacção: Rua General Póvoas, 7 - 1º 6260 - 173 MANTEIGAS www.asestrela.org ASE: asestrela@gmail.com Redacção: info@asestrela.org

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4 | Editorial 6 | Agricultura familiar e os Baldios 11 | Explicações precisam-se 19 | Ainda a questão do abastecimento de água ao concelho da Covilhã 21 | Que se passa com a famosa estrada da “Ribeira”? 26 | Poço do Inferno: uma proposta 33 | Passado e presente da vegetação na Serra da Estrela 54| Solos e as primeiras chuvas pós-incêndios 56| Grande rota do Zêzere 61| Os passadiços do rio Paiva 64| Eleições para os corpos gerentes 65| Convocatória I 66| Convocatória II

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Editorial Por J. Maria Saraiva

O tempo vai passando, as pessoas vão dando lugar umas às outras e também na Serra, ao nível da responsabilidade pela sua preservação, se vão passando coisas que gostaríamos de não ver acontecer. Quem vai entrando de novo parece não se dar conta de que o Poder não é tudo e que para o desempenho das funções é necessário algo mais do que um simples canudo ou a ocupação de um lugar cimeiro. Talvez um melhor conhecimento do meio, das pessoas que nele vivem e desenvolvem, há milénios, actividades que deviam ser acarinhadas, lhes fizesse bem e fosse uma mais-valia curricular. No fundo, seria um processo natural, da razão que nos faz andar neste mundo e que no caso concreto da Serra da Estrela até houve o talento de tornar claro tais evidências quando nela quiseram fazer um Parque Natural. Que o tempo, esse eterno barómetro, tem vindo a demonstrar que os princípios que o fundaram estão a ser protelados, direi mesmo ameaçados por causa de autoritarismos de legalidade duvidosa que só criam problemas a quem trabalha e em nada contribuem para a conservação da Natureza. As vítimas de tais desmandos estão a ser precisamente aqueles que mais têm contribuído para a manutenção dos ecossistemas e da preservação da paisagem rural. Não me parece que seja complicado para o corpo dirigente do Parque Natural da Serra da Estrela interpretar o reflectido no constituinte Dec. Lei 557/76 de 16 de Julho, quando salienta:

-“O maciço da serra da Estrela constitui

uma região de característica economia de montanha, onde vive uma população rural que conserva hábitos e formas de cultura local que interessa acautelar e promover.” - “Existem, porém, outros motivos de não

menor importância a considerar, com vista ao seu aproveitamento integral através de uma planificação que vise a protecção dos valores da serra e a promoção social das populações.” -“Não se pode também deixar de referir a

importância do património pecuário e de todo o circuito comercial no referente aos seus derivados, de que está dependente uma população e economia de montanha que interessa incentivar e desenvolver. A sucessão de casos de que vamos tomando conhecimento e que tem levado as pessoas a procurar na ASE um apoio, porque não conseguem interpretar como é possível que de um momento para o outro se mudem as regras e venham pôr em causa toda uma prática herdada de gerações que a memória já não abarca, prova que algo não vai bem no Parque Natural da Serra da Estrela. Na edição de Março desta revista questionávamos para que servia o PNSE, pela ausência de tudo o que se estava e estará a passar no caso concreto da Teixeira, concelho de Seia.

São os homens que trabalham a terra que terão algo a ensinar se as mentes de quem pensa que sabe porque tem o Poder, estiverem despertas para esse diálogo .

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Recentemente, realizou-se uma reunião na Câmara Municipal da Guarda, onde estiveram os presidentes das Juntas de Freguesia inseridas no Parque Natural, inconformados com as situações que estão a ocorrer nas suas Freguesias relacionadas com as acções fiscalizadoras do Parque Natural da Serra da Estrela. Nesse encontro, promovido pelo presidente do Município da Guarda e no qual participou o representante do PNSE, bem assim como responsáveis do SEPNA, procurou-se deitar um pouco de água na fervura, do tipo “olhar para o lado ou fechar um pouco os olhos”. Ora o que se torna urgente fazer é precisamente o inverso. É preciso que o olhar seja mais genuíno e diligente para dar cumprimento às prerrogativas que levaram à criação do Parque Natural da Serra da Estrela e não para punir quem trabalha em prol da conservação.

Na realidade, são os homens que trabalham a terra que terão algo a ensinar se as mentes de quem pensa que sabe porque tem o Poder, estiverem despertas para esse diálogo! Poderá parecer estranho ser uma Associação como a ASE a tecer duras críticas a um organismo de quem, supostamente, esperaria um aliado. Os compromissos da ASE são com a Serra da Estrela, com a defesa dos seus valores naturais, culturais e patrimoniais. Se o Parque Natural da Serra da Estrela demonstrar que comunga dos mesmos ideais não há motivos para que se duvide das intenções da Associação em relação ao PNSE.

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Agricultura familiar e os Baldios A área mais importante e interessante da Serra da Estrela, do ponto de vista da paisagem e da conservação da natureza está inserida em terrenos comunitários – os Baldios. Não fossem as raízes históricas e o cariz comunitário deste valioso espaço e talvez estivéssemos perante uma serra completamente diferente.

mantem um razoável volume de produção, produz alimentos saudáveis, defende o ambiente, produz elementos de coesão social, cultural e territorial.

“Se temos a Serra que temos, preservada, deve-se aos baldios” dizia o Arqtº Osório Gonçalves, que foi director do Parque Natural da Serra da Estrela, entretanto já falecido.

Produz bens e serviços públicos que até ao momento ainda não foram suficientemente reconhecidos pelo poder político. A própria ONU reconheceu formal e expressamente na sua “Resolução 66/222”:

E, se dúvidas houvesse, bastava atender para o triste espectáculo que são as Penhas da Saúde que, apesar de ser um território baldio, não conseguiu evitar aquele escândalo de construções clandestinas. O mesmo, mas em menor escala, para o Covão da Mulher ou ainda para a tentativa de fazer da Nave de Santo António um aldeamento de barracas que em boa hora o Município de Manteigas conseguiu erradicar, não deixando de evocar o facto de nenhum cidadão deste concelho ali ter alguma casa.

- “A Agricultura Familiar e as pequenas

As tentativas para quebrar os baldios enquanto património comunitário têm sido muitas. A importância da manutenção dos baldios para a manutenção dos ecossistemas da Serra da Estrela levou-nos a pedir ao presidente da Federação Nacional dos Baldios, sediada em Vila Real, que nos falase do que verdadeiramente pode estar em causa e a acontecer presentemente. A importância dos Baldios na agricultura familiar e na sustentabilidade dos territórios rurais. É sabido que a Agricultura familiar em todo o período de integração na U.E. mesmo não tendo tido os apoios necessários quer em termos comunitários quer nacionais,

explorações constituem um meio importante para se ter uma produção alimentar viável e capaz de assegurar a Segurança Alimentar.” Para dar maior visibilidade à importância da Agricultura Familiar, a ONU, nesta Resolução consagrou 2014 como o “Ano Internacional da Agricultura Familiar”. Implicitamente a ONU também reconheceu os múltiplos problemas regionais e globais causados pelo grande “agro-negócio” e pela Produção Agro-Industrial (super) intensiva que destroem recursos naturais, que “semeiam” a fome e a subnutrição, que provocam a ruína de milhões de pequenos e médios agricultores. A questão da agricultura familiar é um problema essencialmente político, nuns casos de más politicas e noutras de ausência delas, como no caso da regulação dos mercados, da produção e do escoamento e da não remuneração do trabalho agrícola.

É inegável a importância histórica dos baldios no quadro da agricultura familiar e na sustentabilidade dos territórios em que se inserem. 6


As estatísticas (censos agrícolas de 2009) indicam que, em Portugal, se ocupam mais de 305 mil Pessoas em explorações agro-rurais de base familiar, sendo estas mais de 90% do total das explorações, para uma área de SAU (superfície agrícola utilizada) superior a 55% da área nacional e que produzem mais de 50% da Produção Nacional. Por aqui se pode ver a enorme importância da Agricultura Familiar nos contextos: social, económico e ambiental do nosso País. É também agricultura familiar, as pequenas e médias explorações que, por serem a base da economia de milhares de famílias do interior do país, de zonas desfavorecidas e periféricas, que vai fixando populações, atenuando assim o êxodo rural, pelo que a sua valorização deve estar na primeira linha de combate à desertificação do interior do norte do País. A PAC 2014/20 – Ao nível do PDR pela 1ª vez admite a criação de subprogramas temáticos com os temas: jovens agricultores, pequenas explorações agrícolas, zonas de montanha, cadeias de abastecimento curtas e mulheres nas zonas rurais. Por exemplo, a criação de um subprograma temático para as pequenas explorações de menor dimensão, mecanismo que se poderia traduzir da maior importância num País como Portugal onde mais de 80% das explorações têm menos de 5 há e onde pouco mais de 6% dos agricultores acederam às medidas de apoio ao investimento do PRODER 2007/13.

Entendo que devia ser esta a orientação e não a reiterada opção do Governo em m a n te r um p rog r a m a n a ci on a l , subestimando os vários modelos da agricultura familiar e a especificidade do nosso mundo rural, aproveitando a estrutura minifundiária do norte e centro do país, complementada com os territórios comunitários que não obstante a sua continuada diminuição ainda ascende hoje, a cerca de 500 mil hectares. Historicamente os terrenos Baldios estão intimamente ligados aos povos serranos, a zonas rurais de montanha, a áreas de alguma altitude e relevo e, como tal, a floresta que aí existe é normalmente enquadrada naquilo a que podemos designar por floresta de montanha.

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É inegável a importância histórica dos baldios no quadro da agricultura familiar e na sustentabilidade dos territórios em que se inserem. Apesar da sua diminuição em termos de área, os baldios têm uma representatividade a nível local, concelhio e nacional, constituindo-se como uma maisvalia económica, social e ambiental nas zonas de montanha e em meio rural. Mesmo havendo significativas alterações na utilização do espaço comunitário nas últimas décadas, com o desaparecimento de centenas de milhares de pequenas explorações sobretudo com a integração do País na U.E. (consequência do modelo agrícola neoliberal em curso), é inequivocamente reconhecida a importância destes territórios comunitários. Ao baldio estará destinado um importante papel na necessária reversão do êxodo rural das zonas mais desfavorecidas. Os seus inúmeros recursos endógenos da sua potencial utilização e exploração, serão dos mais valiosos contributos para contrariar a destruição do tecido económico e social rural. Será através da manutenção da diversidade biológica e dos recursos genéticos que os baldios darão uma inevitável contribuição para o ecossistema. A montanha existente nos nossos Baldios é de facto especial não só pela sua especificidade, pela sua riqueza faunística, florística, paisagística, e produção de bens transaccionáveis, mas também pela história dura e trágica, pela ruralidade e pela saudade que representa em muitos de nós que junto ou perto dela tiveram origem. Aos baldios e à floresta de montanha, está reservado um nobre papel de intervenção, como factor de combate às alterações climáticas, à água das nossas fontes, o solo do nosso jardim, a madeira da nossa cama, o aroma dos nossos cozinhados, o ar que

respiramos, os cogumelos, a caça, são uma pequeníssima porção do que realmente nos fornecem. Porém, a floresta dos Baldios, a nossa floresta de montanha, é ainda mais valiosa, se lhe juntarmos a todos estes valores económico, social, ambiental, cultural, histórico, os valores comunitários. E assim como a água que chega às torneiras da cidade teve origem na nascente da floresta da montanha e dos baldios, também os valores da nossa sociedade não deveriam esquecer a sua origem. As aldeias comunitárias e a gestão dos terrenos baldios estão pejadas de factos históricos e de memórias que atravessaram séculos. É um direito patrimonial que aguentou as cobiças dos fidalgos, da nobreza e da igreja durante a monarquia feudal. Aguentou as tentativas de aposs ame nto por capitalis tas e comerciantes endinheirados durante o liberalismo. Aguentou a florestação forçada da ditadura de Salazar. Renasceu com o 25 de Abril. Aguentou as 19 tentativas para alterar o regime jurídico destes bens comunitários. É esta têmpera, este cerne de oliveira velhinha, esta contumaz dos compartes na defesa do seu quinhão baldio que se transmitiu ao longo dos séculos até aos dias de hoje, que faz com que ainda existam baldios. Vivemos um tempo de grandes mutações, à mistura com mitos não fáceis de explicar à luz da cultura serrana. Onde está o serrano despeitado e ferido pela injusta e incompreensível retirada de um direito que a democracia lhe deu, onde está um pastor desorientado e agredido pela falta de terras para os seus animais poderá estar alguém indiferente perante o braseiro da floresta e de costas voltadas para o futuro. Vem isto a propósito da nova alteração da lei dos baldios aprovados pelos partidos 8


PSD e CDS, contra o voto dos restantes partidos com assento parlamentar. Os pressupostos que estiveram na origem desta nova lei dos baldios são como sempre foram de geometria variável: os tradicionais interesses económicos insaciáveis quer da indústria de celulose quer da imobiliária ou outras, uma certa incapacidade técnica por parte da co-gestão/estado para assumir as suas competências legais, passando pelo impiedoso despovoamento de muitas aldeias serranas, consequência das políticas públicas levadas a cabo por este e anteriores Governos, etc. É comummente assente que falar dos baldios numa óptica de comparte é uma mistura de emoção, paixão, história, património, identidade, ditadura e liberdade. Falar hoje na gestão dos baldios são assumir inegavelmente um imenso património edificado, um verdadeiro legado que os compartes do norte e centro do País deixam aos seus vindouros nas áreas económica, social, ambiental e cultural. É uma obra notável que nenhum governo até ao momento assumiu nem valorizou como trabalho feito com abnegação dos compartes neste 40 anos que levamos de gestão democrática dos baldios. Ao invés, falar dos baldios na óptica do actual governo e dos partidos que o sustentam é tentar passar um atestado de incompetência aos órgãos gestores; acusação de má aplicação de receitas por parte das assembleias de compartes assim como ausência de reuniões por parte destas e que este património está ultrapassado e caduco nos dias de hoje. Algumas das principais alterações, discordâncias e eventuais inconstitucionalidades da republicada lei 68/93 (lei dos baldios) com as alterações introduzidas pela lei 72/2014. O conceito do comparte é talvez a maior inconstitucionalidade da lei. A definição do baldio está ligada historicamente à definição do comparte, a introdução de

E assim como a água que chega às torneiras da cidade teve origem na nascente da floresta da montanha e dos baldios, também os valores da nossa sociedade não deveriam esquecer a sua origem. cidadãos eleitores, inscritos, associado à reorganização administrativa das freguesias levou a que todos os eleitores passam agora possuidores de estatuto de comparte, mesmo que não conheçam nem queiram usufruir do baldio. Ao retirar os costumes e os usos como formadores de direito de uso e fruição dos baldios e assim delimitar o uso de comparte, faz cidadãos que outrora não seriam considerados compartes agora o sejam unicamente por serem eleitores dessa Freguesia. As figuras de arrendamento dos baldios, a entrega destes na bolsa de terras, sendo novas, são figuras que ao transferir a gestão para terceiros, viola o princípio constitucional da protecção de propriedade dos meios de produção comunitários e a posse de gestão pelas respectivas comunidades locais. Assim como, a alteração da passagem do baldio de património comunitário a património autónomo, ou ainda, o conceito sobre a extinção dos baldios pelo não uso por um período igual ou superior 15 anos, para além da descaracterização destes, é entendida como forma sub-reptícia da privatização destes bens comunitários. Assim como não se entende a inexistência de cadernos de recenseamento dos compartes e a sua não aprovação pela assembleia, instrumento fundamental para um normal funcionamento desta. Que futuro baldios?

está

reservado

aos

Qual o papel que o co-gestor Estado pretende ter no futuro dos Baldios? 9


Aparentemente parece existir uma certa contradição! Parece-nos importante essa clarificação para que a co-gestora comunidade possa entender qual é o desafio que tem pela frente. Não chega mudar a lei nem a sua eventual regulamentação. Há que revisitar o regime florestal e entender o desafio que tem que ser assumido pelas comunidades locais. Tenho para mim que o Estado nesta fase em que se perspectiva a sua saída como co-gestor em muitas áreas comunitárias, não devia preocupar-se muito com as ditas putativas compensações, mas sim com a gestão ou com a sua ausência que tem sido constante. Partindo do pressuposto que o Estado sai como Entidade co-gestora das áreas submetidas a regime florestal e as comunidades optam pela assunção de gestão directa dos seus baldios, que modelo de gestão a BALADI – Federação Nacional dos Baldios preconiza? Entendemos ser necessário assumir um novo modelo. Deve ser atendida de uma vez por todas a constituição de grupos de baldios já que na sua génese está identificado o cumprimento da legislação em vigor. Estes grupos de baldios são a forma associativa que corresponde aos dias de hoje. Assim como se encontrou o modelo associativo para a propriedade privada - através das ZIFs, o governo deve apoiar rapidamente sem mais delongas um caminho que possibilite uma maior atractividade por parte dos compartes e este caminho é a constituição de grupos de baldios lá onde as entidades gestoras livremente entendam constituir-se.

O grupo apresenta virtualidades que se reflecte na preservação da tipologia da propriedade. Deve haver uma área mínima base da sua constituição suficientemente bem dimensionada capaz de sustentar um modelo de gestão eficiente e profissionalizado. A evolução na atitude de gestão aquando da constituição em grupo de baldios será sempre reflectiva e com possibilidade efectiva de ser usufruída pelos compartes, enquanto figuras centrais deste modelo. As comunidades locais têm que estar preparadas para eventuais parcerias em áreas como: Energias renováveis, gestão de inertes, valorização dos recursos turísticos, gestão da caça e pescas em águas interiores, recursos múltiplos da floresta, fixação de carbono, assim como uma incomensurável valorização ambiental que tem sido continuamente inacessível aos compartes. Vila Real, 23 de Junho de 2015 Armando Carvalho Direcção da BALADI

Presidente

da

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EXPLICAÇÕES PRECISAM-SE! I - Agricultura e Pastorícia Os dois casos que vamos descrever são reveladores de que alguma coisa não vai bem no ICNF/PNSE e que precisam de ser explicados, na medida em que são demasiado graves para que deles não dêmos conhecimento público, por um lado em defesa dos cidadãos visados e por outro lado porque não nos parece inteligente ver o Parque Natural da Serra da Estrela desperdiçar as suas energias onde não existem razões que o justifiquem, bem pelo contrário: deveria ser em acções de apoio a estes cidadãos que têm imensas responsabilidades e trabalho na defesa e conservação da Natureza, dos valores bióticos e abióticos, culturais e patrimoniais, procurando, assim, ganhar a população residente para a dinâmica de um desenvolvimento sustentável que a beneficie primeiramente. Já descreveremos adiante porque é importante que a melhoria da qualidade de vida de quem vive dentro da Área Protegida se concretize para que a biodiversidade saia beneficiada. O vale da ribeira de Famalicão (que abrange as freguesias de Famalicão da

Serra e Valhelhas do concelho da Guarda), como a generalidade dos vales de montanha, é servido por uma linha de água que irriga os campos agrícolas das suas margens através de levadas, sabiamente construídas pelo homem muito antes de nos reconhecermos como Estado. O sistema de irrigação é por gravidade e está definido desde que o homem habita a Terra, sendo por isso um disparate alguém do Parque pedir a um agricultor que proceda a um levantamento da sua área de regadio, pagando obviamente, quando todo o sistema está definido pelas levadas que conduzem a água a todos os terrenos que as mesmas podem abastecer. Um mosaico agro-pastoril tradicional que o Parque Natural da Serra da Estrela prometeu proteger e defender, conforme se pode comprovar pelo Decreto-Lei que o criou. O vale era percorrido pela principal estrada romana que atravessava a Serra da Estrela, vinda de Bracara-Augusta, passando por Folgosinho, Galhardos, Casais das Pias e Reigoso, Quinta da Taberna, Barrelas (alto de Famalicão) e V a l h e l h a s , estrategicamente bem localizada e de onde derivavam duas vias que se dirigiam para Sul, pelas margens do Zêzere, para atingir Mérida, entre outros centros romanos. A imagem 2 mostra a área mais próxima de Valhelhas, a mais espalmada, com os 11


campos mais abertos e mais fáceis de cultivar inclusive com a introdução de maquinaria, condição mais complicada de fazer a montante do vale pelo declive mais acentuado das encostas e redução das áreas cultiváveis. Foi na primeira propriedade que a imagem revela, precisamente onde o traço a verde assinala a captação da água da ribeira de Famalicão que acompanha o percurso da levada que irriga todos os campos assinalados, que o seu proprietário viveu e assistiu a momentos de alguma irracionalidade inclusive a defesa da sua honra quando confrontado por duas senhoras do PNSE/ICNF que o acusavam de estar a fazer obras novas. Acharam as funcionárias daquela instituição que o proprietário não devia limpar a levada com a máquina nem cortar a erva por onde se passa ao lado da levada! E se tudo isto não fosse suficiente para deixar um homem de rastos, ainda lhe foi exigido que fizesse um levantamento da sua área de regadio. Levantamento que mandou fazer e pagou, assim como teve de requerer uma licença para poder regar os seus terrenos, que sempre foram regados desde que o homem existe neste vale e o cultivou. 1.º - Parece-nos completamente absurdo que técnicas do PNSE/ICNF se dirijam a um agricultor para o informar de que não pode limpar as levadas nem cortar o pasto à sua volta.

2.º- Só uma completa ignorância sobre o que é um sistema de regadio por gravidade pode levar a pedir ao proprietário para proceder ao levantamento da área de regadio quando se sabe que a mesma se encontra definida há séculos, quiçá milénios, e qualquer leigo pode identificar in loco, bastando para o efeito seguir a água da levada e ver até onde o seu nível abrange os solos a irrigar. Uma simples consulta do Google Earth por parte das referidas funcionárias faria com que ficassem mais informadas e aprendessem ao mesmo tempo como se faz o melhor aproveitamento da água. 12


3.º - O que pensa fazer agora o PNSE/ICNF uma vez que este proprietário passou a ser o único que possui licença para regar e todos os restantes se encontram em situação ilegal, ou seja, na condição em que sempre estiveram e que o Parque Natural da Serra da Estrela, quando foi criado, se comprometeu ao definir por escrito os seus objectivos a respeitar, preservar, apoiar e promover? Afinal, o que é que mudou para que o Parque Natural da Serra da Estrela deixasse de cumprir o que se comprometeu a fazer conforme o que ficou estabelecido no Decreto-Lei nº 557/76 de 16 de Julho. Ter-se-ão alterado os preceitos legislativos que levaram à criação desta Área Protegida? Terá a área do PNSE/ICNF sofrido alterações que justifiquem a mudança dos conceitos? O vale de que temos vindo a falar, o da ribeira de Famalicão, deveria ser um motivo de orgulho para o Parque Natural da Serra da Estrela, por variados motivos.

Imagem 4— Levada com passagem entre terrenos em manilhas, outrora era com troncos ou pedras e que gerou confusão na cabeça das funcionárias do PNSE/ICNF 13


- Como em praticamente todos os vales de montanha a beleza da paisagem agropastoril que ainda preserva (muito à custa do trabalho árduo dos seus cultivadores, que contribuem ainda para o alimento da fauna), o fomento da biodiversidade, o facto de servirem de tampão à propagação dos incêndios, a redução da importação de bens alimentares (contribuindo para o equilíbrio da balança comercial) são tudo dádivas que deveriam levar as funcionárias que intervieram neste caso a reflectir profundamente sobre a real eficácia da intervenção de que foram protagonistas para a conservação da natureza e dos

valores que a instituição de que dependem se comprometeu, incorporar. De uma coisa não temos dúvidas: os campos estão cada vez mais abandonados e à medida que vamos avançando no tempo o número daqueles que os cultivam tende a diminuir. Atitudes como a que descrevemos não serão ajudas para inverter essa tendência. Infelizmente tais atitudes têm origem em pessoas que nunca imaginaríamos que as pudessem protagonizar!

II - Floresta O segundo caso dista do primeiro uns 6,5 kms e localiza-se na partilha das freguesias de Vale de Amoreira e Sameiro, no concelho de Manteigas.

O dono de uma serração trata da necessária documentação para proceder ao corte de um pinhal, sendo-lhe concedida autorização para o efeito, passe a burocracia. 14


Procedendo ao corte dos pinheiros e dado o acentuado declive da encosta, teve necessidade de realizar uma pequena escavação para que o manobrador do equipamento ficasse em segurança, evitando que a máquina se pudesse virar e causar um acidente grave.

Com esta prática privilegiou-se a vertente económica em detrimento da ecológica, embora não pretenda aqui avaliar qual das situações poderá ser a mais económica já que as dúvidas quanto à conservação do património biológico e da biodiversidade persistem face à preferência da escolha.

Durante o corte, o derrube de alguns pinheiros provocou danos nos ramos de umas azinheiras que, diga-se, mal se identificavam no meio do pinhal e mesmo depois do abate das árvores mal se reconhecem nas imagens do local.

Não estaríamos hoje com políticas emergentes para salvar o que resta das espécies autóctones, se o Estado tivesse tido uma outra prática na gestão do património florestal.

Claro que vamos ter azinheiras em abundância se a gestão florestal que se seguir não der de novo a primazia aos pinheiros.

E isto sem questionar a necessidade que houve em utilizar a semente do pinheiro bravo, em determinadas áreas, pela sua rusticidade e utilidade em preparar os solos para a posterior reconversão com espécies autóctones, o que não se verificou.

Refira-se que esta especial preocupação pelo azinhal choca muito com as políticas florestais que o Estado foi promovendo, ao dar preferência à cultura do pinheiro bravo e, nas últimas décadas, à plantação intensiva do eucalipto.

Se o Estado assim tivesse procedido, talvez não andasse à procura de insignificâncias que atingem quem procura laborar o melhor que sabe e que se prevarica é 15


inconscientemente, como se quisesse curar-se do trauma que foi transformar a nossa diversidade florestal na monocultura do pinheiro e do eucalipto. Foi o que nos pareceu que o PNSE/ICNF fez, ao mandar levantar neste caso um Auto-de-Notícia e o correspondente processo de Contra-Ordenação o qual, independentemente do seu resultado final, já perturbou o normal funcionamento da empresa e originou despesas para organizar a defesa judicial.

procurando mostrar como se faz, até para dar o exemplo, com eventual benefício para todas as partes. Uma vez que o PNSE/ICNF já possui os técnicos, condição que as pequenas empresas não têm, poderia ser este organismo a proceder ao corte dos pinhais, colocando a madeira em zona de carga e teríamos o assunto resolvido. Vejamos as vantagens:

Não vemos como seja possível que alguém proceda a um corte de árvores com resquícios de azinheiras pelo meio, sem que haja pernadas ou até arbustos quebrados por muita prática e cautela que tenham os operadores florestais!?

1.º - permitia aos seus técnicos a possibilidade de melhorar os seus conhecimentos florestais, uma vez que o seu envolvimento com a floresta seria mais autêntico o que não faculta o trabalho de gabinete;

Se o PNSE/ICNF e os seus técnicos acham que estamos a ser injustos com este juízo e a falar do que não conhecemos, então talvez seja o momento de procurar dar um outro desfecho para os cortes florestais,

2.º - dispensavam-se os pareceres uma vez que esses técnicos já teriam a noção das regras que teriam de ser cumpridas; 3.º - eliminavam-se os problemas com que nos confrontamos, como no presente 16


caso, em que houve corte de ramos de azinheiras e alterações à geomorfologia; 4.º - poderia ser uma fonte de receita para o Estado e um benefício para os donos das serrações que se viam isentos de riscos e do livre arbítrio de quem um dia acorda mal disposto e decide seguir à letra o que nenhuma lei consegue estabelecer – bom senso; 5.º - poderíamos, finalmente ficar sossegados, porque mesmo que houvesse derrube de pernadas e alterações do relevo, saberíamos à partida que tais incidentes não dariam origem a processo disciplinar, e muito menos a ContraOrdenação!

xisto os solo são argilosos, logo não se compreende como se está a fazer a compensação da erosão através de solo granítico. Tanto no caso desta pista como num outro similar; o do Cabeço da Azinha, questionamos se houve algum parecer prévio dado pelo PNSE/ICNF . - Se não houve intervenção do PNSE/ICNF que atitude foi tomada para resolver a situação? - E se houve conhecimento atempado e foi dado um parecer positivo, que monitorização tem estado a ser feita uma vez que a sensibilidade ambiental destes casos é bem mais graves?

Os casos que descrevemos merecem o nosso repúdio pelos conflitos sociais que geram e por em nada contribuírem para a conservação da natureza, bem pelo contrário: provocam antagonismos entre as populações e o PNSE/ICNF, quebrando um elo de confiança que se torna indispensável para a gestão de qualquer área que se queira proteger e que passa necessariamente por envolver nesse processo as populações que lá residem. Essa batalha nunca foi ganha e ameaça ficar perdida se o rumo das políticas que têm vindo a ser seguidas não mudar. Mas a nossa preocupação aumenta quando verificamos que muito próximas das situações que descrevemos existem outras bem mais graves, o que nos deixa perplexos. Por exemplo; o caso da pista de descolagem de parapente, próximo do cabeço da Azinheira, numa linha de festo que foi sujeita a terraplanagem, sem qualquer medida que mitigasse a erosão do solo. Como se trata de uma zona de 17


trabalhadores e eles poderiam ter deixado o terreno nas mesmas condições! Acreditamos que o ICNF, através de um conjunto de medidas que têm v i n d o a implementar, procurará proteger os valores naturais, a biodiversidade e preservação das espécies.

Que dizer das alterações à geomorfologia, através da criação dos socalcos que a imagem mostra, cuja pendente dada aos patamares não acompanha as curvas de nível, identificada na ilustração através da linha A/B quando a mobilização de solo que criou os socalcos ficou com a pendente que mostra a linha vermelha? Ignoramos se a intervenção revelada pela imagem teve ou não parecer do PNSE/ICNF. Acreditamos que sim dado tratar-se de um projecto financiado e seria impensável que as entidades intervenientes no processo o fizessem sem auscultar o Parque Natural. Acreditando que foi emitido parecer como é possível, perante o que vemos, que tenha sido elaborada uma ContraOrdenação por causa de um pequeno aterro, que não identificamos quando visitamos o local do corte mas acreditamos poder ter existido, por necessidade de garantir a segurança dos trabalhadores? Quando bastava ter conversado com os

Por causa da nidificação têm sido condicionadas algumas actividades, dependentes da floresta, que têm sido penalizadoras para a indústria madeireira. Não temos conhecimento de estudos que nos informem das vantagens para a fauna das medidas que estão a ser aplicadas. De uma coisa temos no entanto a certeza; - Quando havia uma actividade agrícola e florestal intensa havia muito mais fauna do que actualmente. O que nos leva a crer que a sua diminuição poderá estar relacionada com o abandono destas actividades e seria talvez muito mais interessante apoiar a sua dinâmica para a preservação das espécies animais do que andar a procurar bodes expiatórios para justificar a incapacidade que têm sido as políticas de conservação que têm estado a ser postas em prática na maior Área Protegida do território nacional.

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Ainda a questão do abastecimento de água ao concelho da Covilhã Por J. Maria Saraiva

Já tive ocasião de escrever, nas páginas da “Zimbro”, que de acordo com os estudos da COBA a melhor opção para a construção da barragem seria a localização mais próxima da cota dos 1.200 metros, a que juntei mais alguns dados de interesse ecológico por confrontação com as opções que foram apresentadas e não a que foi escolhida pelo Município da Covilhã e que acabou por gerar a polémica que é do domínio público. Não tenho dúvidas de que o Município da Covilhã tem necessidade de procurar uma solução mais estável para o abastecimento de água à sua população, na medida em que para fazer face à sua escassez se viu na necessidade de explorar e canalizar mais de meia centena de nascentes das encostas adjacentes, que foram perturbadas pela devassa de tal intervenção, a que acresceram os furos para obter água do rio Zêzere. Refiro que com a construção da barragem é garantida a reposição no meio natural das nascentes entretanto canalizadas para as ETA’s, significando dizer que o facto de tal constar dos textos não equivaler à garantia de que se cumpra. E a melhor forma dessa situação poder vir a acontecer é baixar os níveis de vigilância. Na análise das várias hipóteses para o armazenamento da água destinada a abastecer a Covilhã ponderou-se também a possibilidade de altear o coroamento da albufeira da Cova do Viriato, proposta que veio a ser preterida por razões técnicas e de segurança. Independentemente destas razões havia uma outra que se relacionava com a falta de alternativa de abastecimento enquanto decorressem as obras na actual barragem.

A subida do paredão da barragem da Cova do Viriato é possível e muito mais económica do que fazer uma barragem nova... Na busca de obter mais informação constatei que o Eng.º Moreno Ferreira, que participou há 30 anos nas obras de remodelação e alteamento da barragem da Cova do Viriato, defende que a subida do paredão é possível e muito mais económica do que fazer uma barragem nova, podendo tal intervenção ser feita por fases sem perturbar o abastecimento. É para mim um dado novo que merecia ser melhor apreciado antes de se iniciarem as obras da nova barragem. Se a subida do paredão da actual barragem pode ser viável, não é menos verdade que o aumento da capacidade de armazenamento poderá ser garantida pela extracção de solo ao longo das suas margens. Mas o facto do alteamento da barragem da Covão do Viriato poder ser tecnicamente viável e o alargamento da área de armazenamento também, sem causar perturbação ao normal fornecimento da água à população, não significa que o problema não se coloque futuramente pelo assoreamento da albufeira. Com efeito, a barragem foi construída em 1962, ou seja, há 53 anos, e o seu tempo de vida, pelo efeito dos sedimentos, poder estar a meio. Evidentemente que o tipo de solo, a reduzida bacia de abastecimento, a densidade e o tipo de coberto vegetal, o declive pouco acentuado, entre outros factores, contribui para uma diminuição do 19


transporte e consequente acumulação dos sedimentos na albufeira. E tal acontece apesar das queimadas que os pastores, sistematicamente, vão fazendo para renovar as pastagens e poderem passar com o gado. É nesta complexidade que tem de ser encontrada a melhor opção, não ignorando quão importante é a retirada de todos os sedimentos que ocupam actualmente uma boa parte da capacidade de armazenamento da albufeira da Cova do Viriato.

Opção que implicará o estudo de uma alternativa enquanto os trabalhos decorrerem já que estes não poderão ser efectuados no período do inverno mas apenas no estio que é quando a água é fundamental, determinando neste caso a necessária alternativa. Por outro lado, seria interessante que pudesse vir a ocorrer a retirada dos sedimentos e que estes fossem depositados em locais seleccionados de maneira a recuperar, paisagisticamente, zonas prejudicadas pela acção irresponsável do homem.

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Que se passa com a famosa estrada da Ribeira? Por J. Maria Saraiva

Assistimos, nestes últimos dias, nas televisões, a manifestações, concentrações por parte da população de Manteigas e a uma conferência de imprensa e duas providências cautelares, da parte do seu Município por causa da intervenção que a agora designada Infra-estruturas de Portugal, S. A. está a fazer na ER 338 (conhecida por estrada do Vale do Zêzere ou da Ribeira), fechando-a durante 4 meses e onde vai gastar perto de 1 milhão de euros. Parece absurdo uma população reagir desta forma quando, supostamente, estão a investir numa infra-estrutura que a irá beneficiar. Às vezes as coisas não funcionam como parece e é o que está a acontecer com as obras que estão a decorrer, no período de maior afluxo de turistas a este concelho (admita-se que seria difícil intervir noutra altura por causa das condições atmosféricas) que, refira-se, é o único cuja área total está integrada no Parque Natural da Serra da Estrela. Tal pretenso “privilégio” consubstancia valores ao nível da preservação ambiental em todo o Município e, por causa disso, encontra-se como alguém com um garrote a apertá-lo de tal modo que mal o deixa respirar. Só por isto o Município de Manteigas e a sua população mereciam uma atenção especial porque conseguiram legar ao País um património natural num estado de conservação tal que devia ser um exemplo para os demais municípios e para o Estado. O comportamento reactivo do Município de Manteigas e da sua população foi natural. Quando lhes é prometido pelo Estado, e está escrito, que irão ter direito a um projecto que contempla uma via com 6 metros (a estrada actual tem 5) de faixa de rodagem e depois se verifica que não é

nada disso que vai acontecer, gastando um milhão de euros e fechando a estrada durante 4 meses no período de maior movimento, quem não reagiria da mesma maneira? O que pensa a ASE, ou seja, qual o seu posicionamento sobre a estrada ER 338? Para perceber melhor porque está a acontecer todo este alarido temos de recuar a Agosto de 2005. No dia 7 desse mês, um violento incêndio que se terá iniciado próximo da fonte Paulo Luís Martins (Vale do Zêzere), presumivelmente de origem criminosa, consumiu durante quase três dias cerca de 3.500 hectares (ha) de floresta e mato, atingindo zonas ecologicamente sensíveis. Uma estimativa da Câmara Municipal de Manteigas refere que “Os danos provocados pelo incêndio do dia 7 de

Agosto de 2005, em Manteigas, poderão ter ascendido aos € 8.700.000, uma vez que foram consumidos cerca de 2800 ha de uma área valiosíssima do ponto de vista dos recursos naturais e ecológicos existentes.” Ainda durante a ocorrência do fogo atrás datado, o presidente da ASE teve a oportunidade de alertar as autoridades competentes, através dos meios de comunicação que na altura foram bastantes, para a necessidade de actuar antes da chegada das primeiras chuvas do Outono. O que havia a fazer era muito importante e pouco significativo do ponto de vista económico: limpeza das valetas, estabilização de algumas rochas nos caminhos florestais acima da ER 338, sem ignorar a que se encontra acima da nascente da Fonte Paulo Luís Martins e que nunca deveria ter sido aberta, dado que é e continua a ser um problema. 21


Ninguém, por parte da Administração Florestal, Baldios, Protecção Civil, Município, população em geral, fez caso dos alertas que foram lançados.

para abastecer a Vila de Manteigas e a unidade de engarrafamento de água, Glaciar. A encosta percorrida pela estrada é dos Baldios em co-gestão com o ICNF.

Chegaram as chuvas do Outono e assistiuse ao que a ASE tinha previsto que acontecesse: derrocadas atrás de derrocadas com o bloqueamento da ER 338 em vários pontos do traçado, salientando que num só local, para se ter a noção do impacto que as derrocadas tiveram, o amontoado de inertes depositados na estrada atingiu mais de 6 metros de altura.

Esta realidade de dependência de interesses sugeria uma partilha de compromissos que exigiria muito bom senso, pelo menos, com alguma astúcia à

A consequência do sucedido resultou em três dias do corte da estrada tendo, nalguns casos, o pavimento sido completamente danificado. Os trabalhos de remoção do material depositado na estrada não mereceram qualquer cuidado do ponto de vista ecológico, na medida em que em vez de ser utilizado para consolidar a encosta foi removido pela encosta abaixo pelas máquinas que estavam a operar. Com tudo o que aconteceu ficaram reunidas as condições para alimentar o receio, que permanece, em intervir na encosta na medida em que na memória e nos relatórios persiste o quadro entretanto vivido. Tem sido esta preocupação (trauma) a dificultar uma intervenção mais consistente que resolva, de vez, a questão da estrada, possibilitando uma fluidez do trânsito mais segura, sem gerar maiores velocidades ou criar impactos negativos na paisagem. Na estrada ER 338 passam duas condutas de água que servem 22


mistura visando a melhor solução, sem que resultasse desta apreciação qualquer retirada do direito do Município de Manteigas a uma estrada que cumpra as funções mínimas de segurança e circulação. A ASE, conhecendo muito bem a realidade da estrada e da geomorfologia que a suporta, apresentou publicamente, em 2009, uma proposta, que mantém e que foi apresentada numa reunião em Almada, na sede da empresa Estradas de Portugal S.A. (presentemente, Infra-estruturas de Portugal - IP), a pedido da nossa Associação, com o propósito de dar conhecimento à referida empresa das soluções rodoviárias e turísticas que preconizamos para a Serra da Estrela. Nesse encontro ficámos ainda mais convencidos da necessidade de um diálogo mais profícuo na medida em que não fomos insensíveis aos receios, que testemunhámos, da parte desta empresa em intervir no Vale do Zêzere, pela instabilidade das suas vertentes, preenchidas por depósitos de origem glaciária e, também, pela sensibilidade da

área e do impacto que as obras poderiam causar na paisagem. Tendo em consideração as verbas que já foram gastas com a finalidade de beneficiar o trânsito e a sua segurança (sem sucesso, diga-se) com a instalação de várias escapatórias e recentemente com a instalação da malha de aço elástica, talvez o seu montante fosse suficiente para fazer uma intervenção que desse garantias de resolver a questão definitivamente. Do nosso ponto de vista a estrada foi muito bem projectada pelos Serviços Florestais, há quase um século. Foi aberta sem o uso de qualquer maquinaria e os materiais utilizados foram aqueles que estavam no local, a pedra e o saibro. Mãode-obra também havia com abundância naquela época. Com o aumento do turismo a estrada teve um maior afluxo de viaturas e isso obrigou a que os Serviços Florestais a alcatroassem, retirando-lhe o sistema de drenagem para aumentar a faixa de rodagem. Esta nova realidade tornou a estrada mais perigosa uma vez que a água das chuvas

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passou a inundar a plataforma tornando-a numa pista de gelo quando as temperaturas descem ao ponto da congelação. O que propomos procura responder aos dois problemas que a estrada tem: o aumento do tráfego e o sistema hidráulico. Mas quisemos ir mais além e sugerimos que se atenda a outras variáveis: o seu enquadramento no meio físico, melhorando algumas intervenções que foram feitas com a criação de taludes para alinhar a via quando o que se pretende é que se mantenham as mesmas curvas, acompanhando sempre o perfil do relevo. Tal e qual como foi concebida e alargando a plataforma em apenas 90 cm, o suficiente para o cruzamento de duas viaturas; instalando uma caixa técnica na

berma da encosta por onde seria feito o sistema de drenagem mas também possibilitando o reposicionamento das condutas de água que passam agora no meio da plataforma e estão em constante rotura. Esta solução permite a inspecção/reparação das canalizações sempre que seja necessário sem necessidade de intervir no piso da estrada. Tendo em conta que o alargamento da via em 90 cm. origina um excesso de inertes, estes seriam absorvidos no mesmo sitio de onde eram retirados, subindo ligeiramente os muros de suporte que iriam originar uma base onde podiam ser constituídos bosques, os quais contribuiriam para travar qualquer pedra que deslizasse pela vertente.

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Ao subir os muros de pedra seca, da mesma maneira que a dos existentes, ou seja, que permitem uma excelente drenagem e sem gastos em mais betão, estava-se também a evitar o risco de incêndio causado por qualquer foco de ignição atirado das viaturas. Por último, em dois ou três pontos é possível a criação de áreas de estacionamento para duas ou três viaturas, sem que isso provoque mais impacto do que já têm esses pontos na actualidade, embora, lamentavelmente, sem o cuidado que mereceriam para beneficiar mais o turismo.

Atrevemo-nos a provocar, no bom sentido, a Infra-estruturas de Portugal – IP, para fazer uma intervenção em escassos metros segundo a concepção que desenhamos para a estrada. Estamos convictos de que se as pessoas estivessem estimuladas para enfrentar o nosso desafio, ficariam aliviadas por ter encontrado a solução ideal (é a nossa convicção), mas também terminaria de vez o “trauma” da estrada que tanta controvérsia está a causar, para além dos danos gravosos causados à população de Manteigas.

Serra da Estrela: um excepcional património natural a perseverar

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O Poço do Inferno Por J. Maria Saraiva

Data do início da década de 2000, embora já estivesse presente como preocupação, o conjunto de ideias que alinhavei com o objectivo de poder contribuir para o seu debate, salientando alguns problemas que afectam o Poço do Inferno e o espaço envolvente. Foram diversas as razões que despertaram o meu interesse em procurar soluções que pudessem ser uma mais-valia para um dos locais mais procurados e mais pitorescos da Serra, com o propósito de o procurar valorizar em todas as vertentes, como a do ambiente, da salvaguarda dos recursos naturais, do turismo, do desenvolvimento sustentável, da geração de riqueza e, inclusive, da criação de postos de trabalho. Nunca me passaria me cabeça arriscar a proposta de execução de medidas que me comprometessem negativamente perante uma vida dedicada à defesa e conservação da Serra da Estrela. Isto não significa afirmar que as ideias que me proponho partilhar com os associados da ASE e demais leitores da Zimbro, não estejam eivadas de possíveis lacunas que possam desbotar os valores que me escapam e penso estar a defender e proteger. Os recursos existem e têm estado disponíveis para o homem desde que este habita o planeta, procurando geri-los de forma inteligente e duradoura. Não fosse o caso e não estaríamos a inserir nos contextos das áreas protegidas a promoção e defesa do património edificado porque se entendeu que a partilha e vivência do ser humano com o meio natural acabou por gerar simbioses

que se confundem e que contribuíram para a valorização de ambos: Natureza e Humanidade. É o que pretendo com as ideias que preconizo. O problema é quando não há vivência e muito menos convivência, e se importam e implantam medidas desinseridas da complexidade que envolve toda uma arte de integração, muito pouco pensadas e nem sequer discutidas com quem vive em tais espaços naturais. Há quase um século, a zona do Poço do Inferno foi sujeita a diversas

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intervenções, por parte dos Serviços Florestais que, já naquela época, tiveram duas orientações: a vertente florestal, através da abertura da estrada que, de maneira inteligente, souberam encaixar naqueles penhascos e o aproveitamento da zona para fins turísticos que se resumiram na criação de meios para levar as pessoas à cascata, como a criação de socalcos com mesas a jusante da estrada e ainda a construção de uma vereda que possibilitava o acesso até ao início da queda de água.

Tem sido, de alguns anos a esta parte, uma total desolação visitar o Poço do Inferno nos meses de Julho, Agosto e Setembro, os de maior afluxo de turistas e constatar não haver água na cascata, nem no leito por ela talhado.

A policromia de cores no Outono é tão intensa que merecia uma aposta turística diferente.

Mais tarde, o senhor António Coelho de Campos, industrial de hotelaria que exerceu a actividade em Manteigas, valorizando-a com a arte de quem nasceu para o meio, ali construiu um bar, perfeitamente enquadrado no local, mas que a derrocada do muro de suporte e a falta de manutenção acabaram por derrubar. Era uma edificação sóbria e em madeira que sempre admirei e que me faz falta para completar o quadro que desde a

infância me habituei a apreciar no Poço do Inferno. Sinto que o Poço do Inferno, comparandoo com o da minha memória de infância, tem vindo a perder algo que poderia ir sendo corrigido casuisticamente se houvesse sensibilidade para tal uma vez que não era uma questão de dinheiro que impossibilitava que isso acontecesse. Falo da “Pedra do Camelo” que vi em postais e que foi derrubada e nunca reposta até que desapareceu, e também 27


do aumento das potencialidades turísticas, de pequenos arranjos em muretes, de degraus em pedra, da arborização, da segurança, da limpeza, de casas de banho, etc… Convivi muitos anos com a cascata e poços gelados onde cheguei a deslizar e a escalar sem qualquer segurança as vertentes que os envolvem.

Cada vez mais verifico que a água vai reduzindo na ribeira, assim como são excepcionais os dias em que a cascata se encontra gelada, dada a menor abundância de gelo, talvez a acompanhar a curva decrescente das escaladas que findaram para mim. Tem sido, de alguns anos a esta parte, uma total desolação visitar o Poço do Inferno nos meses de Julho, Agosto e Setembro, os de maior afluxo de turistas e constatar não haver água na cascata, nem no leito por ela talhado. Olho os visitantes e vejo neles alguma insatisfação por a deslocação não ter correspondido às expectativas. Observo neles um

sentimento de desamparo por não existir no local algo que os oriente e melhore a qualidade turística, compensando as expectativas com algumas nuances perfeitamente ao alcance, dadas as potencialidades que toda a envolvente ao Poço do Inferno compreende. Foi por causa da frustração que atrás referi que me dispus a procurar soluções que

dignificassem mais este recanto da Serra, não ignorando as questões de ordem ambiental e ecológica que, reafirmo, não me recuso a admitir que possam existir e necessitem de ponderação. Importa, pois, discuti-las através da partilha com quem possa estar atento e interessado, objectivo a que me propus com a presente tomada de posição. Tive já a oportunidade de apresentar estas ideias a um conjunto de amigos, também no seio da direcção da ASE e ainda num evento promovido pelo Município de Manteigas, cuja assistência não foi muito além dos oradores que me 28


antecederam e os que vieram a seguir à minha intervenção. E foi pelo facto de não ter sido interpelado por ninguém nesse colóquio e me terem chegado, a posteriori, comentários depreciativos de que se tratava de uma utopia (que feliz que sou por ainda não ter perdido a vontade de sonhar) que me decidi a transcrevê-las nas páginas deste número da revista na expectativa, sincera, de que possam brotar as necessárias críticas e até muitas mais utopias. Observando as fotos do Poço do Inferno supra é notório que na da direita não corre pinga de água, situação que se vem verificando há anos e que não existia décadas atrás. Foi essa realidade que despertou a minha preocupação e me levou a procurar uma solução para que a linha de água pudesse continuar a ter água no seu leito.

O Poço do Inferno, durante o Inverno, tem uma espectacularidade maior do que no Verão, pelo impressionante caudal que jorra da cascata e da congelação provocada pelas baixas temperaturas, mais evidente neste local por ser muito sombrio e ter pouca entrada da luz solar. No entanto, é no Verão que o Poço do Inferno é mais visitado porque é nesse período que as pessoas têm férias e os estrangeiros mais procuram a Serra da Estrela. Infelizmente, a demanda do local pelos turistas nesta altura do ano coincide com o momento em que a paisagem é mais desoladora, principalmente porque não corre água na cascata e leito subsequente da ribeira, os poços ficam com a água estagnada e algum cheiro desagradável causado por hábitos pouco dignos das pessoas, factores que acentuam o conjunto de aspecto negativos que o lugar esplendoroso não merece.

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Salvam-se o bosque e resquícios de algumas espécies florestais que o incêndio de 2005 não destruiu, já que desde então não houve qualquer medida no domínio da reflorestação para repor as árvores que arderam. Para resolver o problema da falta de água no Estio, proponho a construção de uma albufeira, cerca de 700 metros a montante do Poço do Inferno e à cota aproximada dos 1.260 metros, 160 acima da (cota) do Poço do Inferno. O sítio que defendo para a construção da barragem situa-se no Valandinho e não causa nenhum impacto visual na medida em que só é possível observá-la na imediação do local da sua implantação. O objectivo da construção da albufeira seria o de servir de reservatório para fornecer a cascata no período em que a água lhe faz falta. Mas não teria muita lógica construir uma pequena barragem apenas para “dar de beber água a uma cascata”! O local da projectada albufeira foi outrora cultivado de centeio, prática que originou uma tal erosão do solo que dificilmente se encontra por ali alguma bolsa de terra. São os matos, os grãos grosseiros de granito e as ruínas de algumas cortes que marcam a paisagem e história do lugar.

mínimos os impactes, podendo até revelarse interessante para o incremento e equilíbrio da biodiversidade a edificação da barragem. A capacidade da albufeira seria superior à da barragem da Cova do Viriato, nas Penhas da Saúde, que armazena 1.400.000m3, quando a previsão para a do Valandinho é de 2.230.000m3. A zona do coroamento da barragem seria 1/3 do comprimento da das Penhas da Saúde o que a torna interessante do ponto de vista dos custos de construção. É importante referir que o perímetro da zona já está servido por estradas em terra batida, o que facilitaria os trabalhos inerentes à obra com o Nível Pleno de Água (NPA) ligeiramente abaixo do limite da estrada mais próxima da linha de água.

Do ponto de vista ecológico e ambiental não se conhece nenhum estudo que identifique alguma espécie ou dado que seja motivo de preocupação.

Os terrenos são particulares e o seu valor será muito mais sentimental do que económico uma vez que nenhum dos seus proprietários alguma vez pensará em fazer o que quer que seja e a sua compra até poderia ser vantajosa para as partes.

Ao situar-se na formação da linha de água, também me permite afirmar que serão

Basicamente seria possuir um recurso através do armazenamento da água 30


para manter a cascata pujante quando fosse necessário e aproveitar simultaneamente as suas potencialidades para produzir energia, captando a água a jusante do Poço do Inferno, sem a mínima intervenção na sua envolvente e sem que alguma obra fosse visível. Uma vez que no Vale de Leandres os campos agrícolas só se constituem abaixo da cota dos 725 metros, a água seria restituída a esta altitude para que ninguém ficasse prejudicado, tornando possível obter o desnível de 325 metros, inclinação muito interessante para a produção de energia eléctrica.

Como a zona do Poço do Inferno está insuficientemente dotada de parques de estacionamento e não possui casas de banho, nem tem vigilância (a todos os níveis, ou seja, os que dizem respeito à prevenção dos incêndios, à segurança, informações, recolha de lixo…) penso que seria indispensável dotar o espaço de

condições que colmatassem estas lacunas e pudessem gerar economia e criação de postos de trabalho, sem pôr em causa os valores naturais e de excelência ambiental do local. Outras valências que resultam objectivamente das que enumerei facultariam ao Poço do Inferno condições para uma maior atractividade que iria beneficiar e potenciar aquele recanto único na Serra, garantindo assim uma melhor oferta turística sem que resultem da concretização do projecto, do meu ponto de vista, aspectos negativos que possam prejudicar os valores naturais que o Poço do Inferno (ainda) possui presentemente.

Indico no quadro seguinte o conjunto de hipóteses que podem obter-se a partir das intervenções que sugiro:

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AS VERTENTES DA PROPOSTA TURISMO Implementação de um restaurante, bar, loja de artesanato e residência. Melhores condições de visitação e manutenção do caudal da ribeira

Melhores Circuitos para BTT e veículos automóveis. Melhoria na Rede de percursos pedestres. Beneficiação dos povoamentos florestais.

ENERGIA

FOG.FLORESTAIS

Construção de uma albufeira a montante do Poço do Inferno

Disponibilidade de água para o combate aos fogos florestais.

Construção de uma ou mais minihídricas ou central hídrica a jusante do Poço do Inferno.

Criação e dinamização da rede de percursos pedestres a pensar na gestão dos recursos florestais

ABAST. PÚBLICO Reserva de água para abastecimento público Aproveitamento da rede estradas existente.

Aproveitamento da rede estradas existente.

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Passado e presente da vegetação na Serra da Estrela Por Sigurd Kalmar Matos *

Em 18 de Abril foi realizado na Serra da Estrela, mais concretamente no vale glaciar do Zêzere, um passeio pedestre de cariz cientifico. O objectivo foi a observação e comentário de alguns aspectos relevantes da flora local. Publicamos aqui o roteiro deste passeio.

Roteiro do passeio pedestre no Vale Glaciário do Alto Zêzere 1ª paragem – Orjais / Quinta da Lageosa 2ª paragem – Manteigas, estrada dos Covões 3ª paragem – Manteigas, ponte de Santo António 4ª paragem – Vale Glaciário Subida pela encosta do vale Intervalo para almoço Final do percurso pedestre Discussão: 

A arborização da Serra

Reordenamento do turismo

Técnicas de análise do passado ambiental: 

Criocronologia

Palinologia

Evolução paleoambiental da Serra da Estrela

Comunidades vegetais na Serra da Estrela: 

Noções gerais de bioclimatologia

Zonas de vegetação em função da altitude

As comunidades vegetais naturais na Serra: 

Andar inferior

Andar médio

Andar superior

Outros andares e comunidades vegetais

* Licenciado em Geografia pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Portugal Mestrado em Geomorfologia pelo Instituto de Geografia da Universidade de Copenhaga, Dinamarca 33


Roteiro do passeio pedestre no Vale Glaciário do Alto Zêzere “Earth provides enough to satisfy every man's needs, but not every man's greed.” ― Mahatma Gandhi

Escola Agrária de Orjais: Palestra do Dr. Agostinho

1ª paragem – Orjais / Quinta da Lageosa Neste local existem dois pontos de observação; junto do Rio Zêzere e na Quinta da Lageosa. Em primeiro lugar vai-se observar o rio, o seu caudal, a morfologia do leito no que se refere ao perfil transversal e longitudinal e explicitar algumas noções de hidrografia. O Rio Zêzere e os seus afluentes sustentam a alimentação das albufeiras que fornecem água potável à capital. Para além disso há, na Serra, várias empresas de captação e engarrafamento de água. Pode-se considerar que a Estrela fornece água a um terço da população portuguesa…

Em segundo lugar vamos visitar a Escola Profissional de Agricultura. É um estabelecimento de ensino com uma área muito extensa onde mantêm animais de exploração pecuária experimental (cavalos, burros, ovelhas e cabras) e têm cultivo experimental de várias espécies vegetais. Têm ainda manchas de floresta semiselvagem de Carvalho negral, de modo a se poder observar o ecossistema supraMediterrânico. 2ª paragem – Manteigas, Rua da estrada Nova A meia-encosta e em posição sobranceira sobre a vila de Manteigas este local tem uma visão privilegiada de 180° sobre a concha de Manteigas e sobre o sector inferior do Vale Glaciário. 34


Correspondem aos materiais depositados no evento descrito no início do capítulo sobre Palinologia. As características destes dois depósitos permitem-nos concluir sobre a extensão máxima do glaciar, neste vale. Em estudos anteriores de Suzanne Daveau (1971), tinha-se como dado aceite que a língua de gelo do Vale do Zêzere teria o seu términus em São Gabriel, na Lomba do Crasto.

Caracterização da dinâmica glaciária – acumulação de neve, formas erosivas a montante transporte, fusão e deposição a jusante. Contextualização paleoambiental. Análise da diferença litológica como causa da abertura aparentemente excessiva do vale, no sector onde fica a Vila de Manteigas, conhecido por ‘concha’. Observação dos padrões de erosão no Vale Glaciário e dedução da posição do desaparecido glaciar do Zêzere. 3ª paragem – Manteigas, ponte de Santo António Um local novamente com dois pontos de observação. Caracterização dos depósitos glaciários. No fundo do vale, junto do Rio Zêzere, podemos observar, caracterizar e analisar dois depósitos em corte. Por abertura de duas estradas, os materiais depositados estão visíveis em corte transversal.

As características dos dois depósitos, típicos dos depósitos pré-glaciários, e não dos depósitos sub-glaciários, juntamente com as evidências observadas na paragem anterior, estabelecem o términus glaciário poucas centenas de metros a montante desta posição, próxima da fábrica de engarrafamento de água (marca ‘Glaciar’/Pingo Doce). 4ª paragem – Vale Glaciário Saída do autocarro e início do percurso pedestre. Ambientação ao local. Caminhada pelo fundo do vale da ponte de Covões à ponte do Espinhaço de Cão. 1º ponto de observação Observação de depósitos fluvioglaciários: Terraços de kame e terraços de obturação lateral. Contextualização com o ambiente de recuo glaciário. 2º ponto de observação - Por baixo do Vale de Covões. Contextualização com a configuração local da calote de gelo da Serra e com a dinâmica glaciária do sector nordeste do glaciar. Subida pela encosta do vale. 3º ponto de observação - Cascata da Candeeira. Observação do teixo milenar. Discussão do potencial regenerativo das comunidades vegetais residuais da actualidade. 35


vegetação na Serra da Estrela e relação com a evolução climática global nos últimos 20000 anos. Intervalo para almoço. 6º ponto de observação - Fundo do Vale da Candeeira. Discussão da dinâmica glaciária e relação com os relevos e as microformas. Evidências do recuo e dos avanços das massas de gelo desde o último período glaciário na Serra.

Cascata da Candeeira

4º ponto de observação Desembocadura do Vale da Candeeira. Vale suspenso. Caracterização do escoamento glaciar e análise das suas especificidades por contraponto à dinâmica (erosão, transporte e morfologia) fluvial. 5º ponto de observação - Turfeira do ‘Charco da Candeeira’. Caracterização do método científico da Palinologia e a sua aplicabilidade à Paleobotânica. Caracterização e análise da evolução da

Vale da Candeeira

7º ponto de observação - Topo da encosta sul da Candeeira. Perspectiva de 180° sobre o vale. Conclusões da análise da dinâmica glaciária na perspectiva temporal. 8º ponto de observação - Interflúvio das Candeeirinhas. Caracterização e análise da dinâmica glaciária da face oriental da Serra. Assincronicidade do avanço máximo nas faces oriental e ocidental da Serra. 9º ponto de observação Apresentação e observação do projecto de plantação de carvalhos da ASE. Discussão das motivações, vantagens, desvantagens e consequências das queimadas. Trabalho preventivo de limpeza de mato de giesta junto ao local de plantação. 36


10º ponto de observação - Lage do fantasma. Local muito utilizado para actividades de escalada e formação de socorristas. Local com vista muito ampla sobre o alto vale do Rio Zêzere, 270° de vista. Observação da moreia lateral direita do glaciar do Zêzere, e análise das formas erosivas na encosta. Observação do núcleo florestal da Barroca, exemplo de floresta primitiva do andar supra-Mediterrânico com carvalho negral e teixo. 11º ponto de observação - Observação do Covão de Ametade e Covão Cimeiro. Caracterização da erosão glaciária. Importância do vento na assimetria E-W das cabeceiras dos vales glaciados na Serra da Estrela 12º ponto de observação - O Covão de Ametade. Apresentação e discussão das propostas da ASE para o turismo sustentável. 13º ponto de observação - Fonte da Jonja. Observação do perfil transversal e longitudinal do Vale Glaciário – recapitulação das características da erosão glaciária e seus reflexos na morfologia das paisagens sujeitas à passagem do gelo.

14º ponto de observação - Floresta da Barroca. Observação e identificação das espécies típicas da floresta do andar supraMediterrânico – carvalho negral, teixo, azevinho. Musgos e líquenes. Caracterização da técnica da liquenometria. Observação do ‘ser vivo mais antigo de Portugal’ - os líquenes da espécie Rhizocarpon geographicum nos rochedos da moreia lateral. 15º ponto de observação - Nave de Santo António. Discussão da evolução da depressão fechada da nave – terá tido um lago por barragem lateral das massas de gelo. Observação das várias formas morénicas e relativização com a sua génese Final do percurso pedestre 16º ponto de observação - Centro de limpeza de neve. Enquadramento da matéria apresentada, do ponto de vista científico, cronológico e ambiental. Paragem final - Pousada de Juventude. Perspectiva global do passeio no que se refere ao turismo na Serra: a natureza pode ser aproveitada, sem ser explorada. Na Serra a sensibilidade dos ecossistemas é muito elevada e o ordenamento do turismo é urgente.

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Discussão: A arborização da Serra Por que a Estrela não tem mais floresta? O caso das Penhas da Saúde. ➊ ’Se estivesse na Suíça, haveria árvores

em todo lado, à volta das casas - Aqui, na Serra da Estrela, não há aqui nenhuma. Só se vêm encostas ‘carecas’ à volta.’ Porquê? As pessoas gostam de ver a natureza assim, despida? ➋ ‘Se estivessem na Suíça, as Penhas da

Saúde não conseguiam atrair ninguém’ Então aqui atraem…Porquê?

A desresponsabilização das várias autoridades como causa da desflorestação. ➌ Reordenamento do turismo

Será o turismo na Serra melhor se não for motorizado? E se houvesse trilhos bons, com abrigos a dar apoio ao caminhantes? Seria possível? Seria melhor? E para o ambiente e para os habitats destruídos e para os animais ameaçados… Seria melhor? ————————————————————Ao lado (de cima para baixo): - Quercus Pyrenaica (carvalho negral) de grande porte - Quercus Pyrenaica: detalhe do ramo e da bolota - Fraxinus_angustifolia (freixo comum) Página seguinte: Localização de alguns dos pontos de observação ao logo do percurso desta actividade (imagens retiradas do Google Earth)

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Técnicas de análise do passado ambiental ( Conjunto de textos científicos de apoio á realização do passeio no Vale Glaciário do Alto Zêzere )

Até há poucos anos atrás, a única forma fiável de avaliar as condições climáticas do passado, era pela interpretação de vestígios na paisagem, originados em determinadas condições ambientais. Podia ser em formas de relevo, no polimento ou desgaste de determinadas rochas ou até no tamanho dos grãos na matriz arenosa ou argilosa dos materiais que preenchem, ou não, as pequenas concavidades das encostas. Era possível determinar, a partir destas evidências, se uma região teria estado sob influência de um clima tropical ou árctico e se esteve coberto pelo mar ou por um, ou mais, glaciares. Os avanços tecnológicos das últimas duas décadas do século passado permitiram explorar de forma mais aprofundada duas técnicas que, tanto uma como a outra , permitem reconstruir com grande pormenor as condições ambientais no passado. Os dois métodos são muito diferentes em quase tudo, mas resultaram em uma melhoria muito significativa do conhecimento do passado recente do nosso planeta.

Criocronologia Quando o clima arrefece, há manchas de neve que não chegam a fundir-se por completo durante o Verão e Outono. Durante o Inverno seguinte, a acumulação de neve pode ultrapassar a quantidade de neve que derreteu e evaporou no ano anterior. Nestas condições, haverá tendência para um aumento da extensão das manchas de neve e do respectivo grau de compactação, devido ao acumular de neve de ano para ano. De tal modo que ao fim de poucos anos, onde anteriormente se registava apenas manchas dispersas de neve, poderá agora observar-se a formação de uma grande mancha única em que os cristais se fundem numa massa

de gelo compacta. Esta compactação é tal que o gelo na sua base adquire propriedades físicas de uma ligeira plasticidade. O simples peso da neve acumulada aumenta a pressão exercida sobre o leito a tal ponto que o gelo acaba por se fundir na superfície de contacto entre este e o leito rochoso. Este processo resume basicamente a formação de um glaciar. E enquanto ele ocorre verifica-se outro processo de cariz físico e que tem a ver também com a compactação; trata-se da incorporação de pequenas quantidades de ar atmosférico no gelo, proporcionada pela formação de bolhas de microscópicas. Estas bolhas guardam o ar de forma absolutamente hermética e pela sua análise podemos extrair diversas conclusões sobre o clima da terra na altura em que se formaram. A observação cuidada do gelo glaciar permite identificar, camada sobre camada, as deposições anuais de gelo e a alternância das estações. Com efeito no inverno acumula-se mais gelo e no Verão ocorrem fenómenos de fusão e recongelamento superficial. É possível identificar os estratos anuais durante dezenas e até centenas de milhares de anos. Em cada camada anual ficará guardado o ar atmosférico que existia no nosso planeta nesse Inverno em que se acumulou a respectiva camada de neve. Esta técnica de investigação, que analisa o ar, e por conseguinte o ambiente, do passado, designa-se por criocronologia. Deriva de dois léxicos gregos, “cryos” (gelo) e “cronos” (tempo). Significa então, o estudo do tempo passado através do estudo do gelo. Têm-se feito expedições científicas às calotes glaciárias da Groenlândia e da 40


Ilustração 1 - Glaciar de Nigardsbeen, Noruega. O seu aspecto actual assemelha-se ao dos glaciares na Serra da Estrela, há 20 mil anos.

Antárctida com a finalidade de extrair dessas massas de gelo colunas transversais às camadas anuais. Usa-se para isso uma broca circular que extrai um cilindro de gelo de cerca de vinte centímetros de diâmetro. A Groenlândia e a Antárctida são os únicos sítios onde o gelo não desapareceu durante períodos quentes no passado. Na Groenlândia esse registo contínuo chega até perto de 150 mil anos. Aí a broca “bate no fundo”, literalmente, ao fim de pouco mais de 3km; na Antárctida o registo chega até quase meio milhão de anos, ao longo de pouco mais de 4km. Aqui não se chegou ao leito rochoso por que existe um enorme lago por baixo do gelo antárctico. Se o gelo fosse furado até esse lago, a enorme pressão exercida pelo gelo faria a água sair num grande jorro e o seu esvaziamento teria consequências imprevisíveis para a dinâmica glaciar do continente gelado. Consegue-se extrair e deduzir uma grande quantidade de informação a partir da análise da composição do ar atmosférico

retido no gelo. Entre outras informações é possível avaliar a temperatura ambiental com a exactidão da décima do grau. Baseado em várias pesquisas da Groenlândia e da Antárctida, consegue-se assim reconstituir o histórico das oscilações da temperatura ao longo dos últimos 400 000 anos (ver fig. 2). Após a fusão do gelo de determinada região, muito raramente a paisagem passa a ser uma verdejante floresta ou um jardim florido. O gelo tem uma capacidade erosiva enorme; mesmo glaciares pequenos são agentes erosivos potentes, não-selectivos. Isto significa que o glaciar leva, literalmente, tudo pela frente. Por baixo do gelo apenas existe rocha limpa e polida. à sua frente, na posição do seu avanço máximo, deixa um arco de detritos como que fosse uma pegada com a forma exactamente inversa da língua de gelo. Como o gelo é um agente erosivo “não-selectivo” este arco de detritos contém material de todos os tamanhos, 41


Ilustração 2 - Evolução da temperatura e concentração de CO2 nos últimos 450 mil anos. Fonte: NOAA, Agência Norte americana de Observação e Previsão Meteorológica.

desde rochas com dezenas de metros, brita, areia até as mais finas argilas. Estes materiais podem, posteriormente, ser deslocados, agora sim, de forma selectiva, por outros agentes de erosão, ao longo dos tempos: a chuva tende a levar os materiais mais finos, a gravidade os maiores; um novo glaciar leva tudo, menos o que fica “guardado” em pequenas concavidades na rocha. A fase de recessão de um glaciar é, no fundo, um período em que a quantidade de neve recebida na área superior do glaciar é inferior à quantidade de gelo perdida por evaporação e derretimento ou fusão, na parte inferior do mesmo.

Palinologia Quando um glaciar entra em declínio, dependendo do seu tamanho, vários cenários poderão ocorrer: - Fusão ligeira de uma língua de gelo com poucas centenas de metros; - Fusão ao longo de centenas de quilómetros e ocorrendo durante dezenas ou mesmo centenas de anos. - Fusão caótica do gelo, provocando fenómenos como implosões de túneis subglaciários, desabamentos de encostas sobre o local ocupado anteriormente pelo gelo ou esvaziamento de lagos devido a desaparecimento de paredes de gelo que funcionavam como uma barragem natural.

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Logo que o gelo desapareça de uma superfície rochosa, a humidade atmosférica e as alterações de temperatura iniciam o processo de “alteração” da rocha: é um processo químico que resulta numa modificação das propriedades mecânicas daquelas e tende a intensificar-se com o tempo. Juntamente com poeiras minerais e orgânicas (ou seja com origem em rochas ou em húmus/terra) estes detritos vão ser o substrato para a nova geração de seres vivos. Ao fim de poucos anos já encontramos pequenos tapetes de musgos e pequenos arbustos. São as chamadas espécies pioneiras -- as primeiras espécies vegetais que aparecem em bolsas de terra, que às vezes não chegam a ter mais do que meio metro e alguns centímetros de profundidade, rodeados pela rocha limpa que saiu debaixo do glaciar. Sendo o gelo um sólido, com a capacidade de se moldar ao substrato rochoso, tem também a capacidade de descer o vale e de subir e abrir caminho por irregularidades no seu trajecto. Depois de recuar, vale acima, o gelo deixará para trás, frequentemente superfícies cuja inclinação não acompanha o declive “normal” dos vales fluviais: - há secções dos vales glaciários que sobem, em vez de descerem. Desaparecido o gelo, a água vinda do glaciar em fusão e da chuva rapidamente encherá a depressão fechada com um lago (ver ilustração 1). Esta vai gradualmente sendo preenchida com areias provenientes do escoamento do glaciar. À medida que o lago se for enchendo, o glaciar se for afastando progressivamente e as encostas em seu redor ficarem gradualmente mais preenchidas por vegetação, os detritos que enchem o lago vão também alterando as suas características. Serão detritos típicas de ambientes cada vez mais florestais e menos parecidos com os registados num

“deserto” característico da proximidade ide um glaciar. Normalmente estes detritos vão-se depositando ordenadamente em camadas, com os mais antigos por baixo e os mais recentes em cima. Juntamente com os detritos levados pelas águas, as plantas em redor do lago produzem as suas sementes e o pólen, em quantidades que são conhecidas de estudos de campo feitos nos sítios onde essas plantas vivem. Naturalmente aqueles vão sendo incorporados nos depósitos do fundo do lago, que assim passa a ter também o testemunho da composição da vegetação dentro e à volta do lago, desde a sua criação. Por razões naturais, um lago de águas límpidas e profundas tem uma flora de plantas aquáticas completamente diferente de um lago de fundo lodoso, rodeado de plantas e árvores de grandes e sombrias copas ou de uma turfeira que seca à superfície todos os Verões, rodeada de arbustos espinhosos. Como se sabe á partida que condições ambientais correspondem a cada planta, ou melhor, cada conjunto de plantas e se reconhece igualmente a quantidade de pólen produzido por cada espécie - é apenas a questão de as visitar na natureza - então, pela análise do conjunto de pólenes em determinado depósito, consegue-se inferir a vegetação existente dentro e à volta do lago. Tal como no caso dos trabalhos levados a cabo no gelo da Groenlândia e na Antárctida, inúmeras turfeiras têm sido “furadas”, para delas se retirar cilindros, não de gelo mas de camadas de areia, argila, turfa e outros materiais de cores variadas entre o quase branco ao negro, passando pelo castanho esverdeado e avermelhado. Este material não permite distinguir camadas anuais, pelo que a sua datação

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terá de se apoiar em métodos como por exemplo o do “carbono-14”. Sem entrar em grandes pormenores, que saem do âmbito deste artigo, podemos explicar que este tipo de datação se baseia no decaimento radioactivo natural de um isótopo de carbono, que se verificou ocorrer na natureza a uma taxa regular anual. Este isótopo do carbono existe naturalmente em todo o tecido vivo e é absorvido pelo organismo enquanto este está vivo; com a morte dele deixa de ocorrer essa absorção e verifica-se então que a relação entre aquele isótopo e o carbono dito “normal” se vai alterando com a idade, à medida que aquele se vai decompondo gradualmente em carbono estável. Pelo calculo do rácio “carbono 14” / carbono “normal” é possível então identificar a quantidade do isótopo que já decaiu e sabendo á partida o valor da taxa de decaimento anual fica-se a conhecer o período de tempo que já passou desde que o organismo morreu. Fazem-se recolha de amostras em turfeiras em várias profundidades e em cada um a avalia-se a idade do material orgânico. Em algumas bacias mais fundas a sedimentação de material pode manter-se activa durante milhares de anos. Se não for interrompida, os sedimentos vão acabar por preencher completamente a bacia. Deixa de existir um lago e passa a haver um paul que evoluirá para uma turfeira. Do núcleo de sedimentos que se recolhe do fundo do lago, ou se for caso disso, da turfeira, retiram-se cuidadosamente amostras sobre as quais se faz uma identificação e uma contagem exaustiva dos pólenes microscópicos existentes em cada camada. A quantidade de pólenes atribuídos a cada espécie é então ponderada pela taxa de produção de pólen da espécie em causa, a qual já é conhecida de estudos feitos a essas plantas.

Há grandes diferenças na produção de pólen de género para género de planta Assim encontrar numa lâmina de depósito 6000 pólenes de uma espécie e 100 de outra não significa necessariamente que existia 60 vezes mais indivíduos duma espécie do que da outra. Os pinheiros são espécies com produção muito grande de pólen, ao contrário, por exemplo, dos carvalhos. Feita essa ponderação, a identificação e contagem de pólen revela a composição da comunidade vegetal, que por sua vez é uma indicação da actividade humana e do ambiente climático. Com o aumento da quantidade de amostras e da quantidade de locais de onde são retirados núcleos de lagos/turfeiras, melhor é a imagem que se consegue fazer da evolução do clima em determinado local ou região. A este método científico dá-se o nome palinologia. Também é derivado de léxicos gregos. “paluno” que significa borrifar, espalhar pelo ar e “pale” que significa pó. Refere-se ao pólen, que é o “pó” disseminado pelas plantas. Como os pólenes não apodrecem facilmente, conseguimos encontrá-los mesmo após muitos anos.

Evolução paleoambiental da Serra da Estrela Se juntarmos as duas técnicas que descrevemos, ficamos com as ferramentas necessárias para descrever o passado das condições ambientais, os ciclos de clima quente e frio, e a evolução das comunidades vegetais. A última época glaciária teve três fases de clima frio, que deram originaram três períodos de formação e recuo de glaciares. É um facto que é consensual para praticamente todas as regiões do globo. É nítido nos dados extraídos dos núcleos de gelo, tanto da Groenlândia como da 44


Antárctida. Começou há cerca de 110 mil anos e acabou há 16 mil anos. De acordo com a nomenclatura utilizada nos Alpes (que é também a utilizada de forma generalizada em todo o Sul da Europa), a última época glaciária designase por Würm. As variações climáticas entre regiões contribuem para que a severidade das condições glaciárias não seja igual em todo o globo. Mesmo em regiões próximas, há variações. Assim, nos Pirenéus, a segunda fase de glaciação terá sido a mais intensa, enquanto nos Alpes a última fase foi mais intensa e culminou há cerca de 25 000 anos; na Escandinávia as últimas duas terão sido semelhantes com culminação há cerca de 18 000 anos.

Em Portugal terá havido oscilações em função da exposição ao longo das várias fases de frio da última época glaciária, e a análise cuidada de depósitos em vários locais da Serra permitem retirar algumas conclusões sobre a sua evolução ambiental durante a última época glaciária. A ideia ‘clássica’ de uma cartografia a mostrar o avanço máximo dos glaciares da Serra, como uma imagem de um determinado período no tempo, não é possível. O avanço dos aparelhos glaciários não terá sido simultâneo, principalmente devido à forma da própria Serra e à sua exposição aos ventos. Ao longo dos milénios, com as mudanças das linhas de costa, das calotes de gelo continentais e da circulação dos oceanos, verificou-se também alterações na

Ilustração 3 - Reconstituição tridimensional em perspectiva dos glaciares da Serra da Estrela durante a Glaciação Würmiana - Vista de Norte para Sul. (adaptado de Vieira, 2004)

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circulação atmosférica. Estas reorientaram com facilidade os canais de alimentação e escoamentos das massa de gelo.

Aqui verificou-se uma regressão ambiental intensa, com condições próximas de um semi-deserto polar.

Os relevos de origem glaciária que encontramos nos vales ocidentais da serra, apesar de mais pequenos, constituem formas mais nítidas e com um grau de conservação mais elevado, relativamente aos observados nos vales que escoam do Planalto Central para sul e sueste.

Dado que já foram feitos vários estudos sobre a evolução da vegetação no noroeste da Península Ibérica, há uma ideia bastante exacta da forma como evoluíram as condições ambientais desta região no período abrangido pelos depósitos das turfeiras.

Pela comparação com outros locais (Gerês, Galiza, e Gredos) as formas correlativas do avanço máximo do gelo na face atlântica da Serra aparentam ser de idade relativamente recente - terá ocorrido na última fase fria do Würm - enquanto a parte da calote de gelo que escoava os seus gelos para oriente terá tido a sua alimentação mais intensa numa fase anterior, possivelmente há 60.000 anos. Há elementos que colocam a deglaciação do Vale do Zêzere antes de 28.000 anos, ou seja, antes da última fase fria do período Würm.

Uma das turfeiras que permitiu fazer uma sondagem mais funda, com pouco mais de 16 metros, foi precisamente na Serra da Estrela, mais concretamente no Vale da Candeeira, próximo da sua abertura para o Vale do Zêzere.

Na parte superior dos vales da Serra da Estrela verifica-se Ilustração 4 - Vale da Candeeira. Logo abaixo do centro da uma situação muito imagem está a turfeira da Candeeira interessante. Pela análise conjunta dos pólens das turfeiras e dos vestígios glaciários, podemos deduzir que as Esta sondagem abrange todo o período turfeiras mais baixas começaram a ser desde que os glaciares da última época do preenchidas de sedimentos há cerca de gelo recuaram até as cabeceiras dos vales 16.000 anos enquanto as que preenchem superiores da Serra. Isto terá acontecido as cabeceiras dos vales mais elevados, há cerca de 16 000 anos. parecem começar há 11.000 anos. Devido à precisão dos dados extraídos do Correlacionando este facto com as formas gelo da Groenlândia, pode-se correlacionar deixadas na paisagem, os arcos morénicos estes dados e as oscilações climáticas aí que descem algumas cabeceiras da Estrela verificadas com as variações ambientais e serão contemporâneas de uma fase fria climáticas conforme deduzidas da que está muito bem definida nos núcleos vegetação existente na Serra da Estrela. de gelo Groenlândico e Antárctico há 11.600 anos e muito nítida na alteração Alguns métodos de análise científica das comunidades vegetais, bem tendem a “ver” com mais pormenor o evidenciada nos perfis polínicos das presente e o passado recente - à medida turfeiras mais baixas - caso do ‘Charco da que recuamos para o passado mais Candeeira’ a 1610m altitude. afastado, o “nevoeiro do tempo” tende 46


a deixar os pormenores um tanto ou quanto indefinidos. Aceita-se, por norma, que os acontecimentos de há 10 ou 20 mil anos tenham uma margem de erro de dezenas ou de centenas de anos. Com o método da criocronologia, consegue-se obter dados com idêntico nível de precisão, quer sobre camadas relativas a acontecimentos com 100 anos, quer sobre camadas com 50.000 anos. A proliferação de estudos de palinologia contribuiu para uma melhor definição da evolução das comunidades vegetais depois da última época do gelo. É possível identificar padrões espaciais na deglaciação, rotas de migração de algumas espécies (como a aveleira, Corylus avellana ou a faia, Fagus sylvatica) e o aparecimento e intensificação da acção humana, há 5700 e há 3200 anos, respectivamente. O cruzamento destas duas vias de investigação permite atribuir datas muito exactas aos acontecimentos, de modo que se consegue determinar com precisão a velocidade com que a natureza reage a determinadas alterações. Chegou-se assim à conclusão que a resposta natural é bastante mais rápida do que se pensava anteriormente - a colonização por parte de plantas pioneiras demora apenas algumas dezenas de anos; a ‘invasão florestal’ também. O estabelecimento das comunidades climáticas (ver explicação no capítulo seguinte) demora algumas centenas de anos. Na Serra da Estrela, as investigações conduziram a um conhecimento aprofundado da cronologia do período do final da última época glaciária e mostram a existência de comunidades vegetais muito diversificadas ao longo dos últimos 16 mil anos. Há cerca de 9 mil anos, as condições climáticas estabilizaram. Houve oscilações climáticas nesse período, mas pouco significativas: os últimos dez mil anos

marcam o período duradoiro termicamente mais estável dos últimos 200 000 anos! Coloca-se assim a questão de saber se a estabilidade climática, que tanto se procura nos dias que correm, é o normal ou se constituirá uma excepção?

Comunidades vegetais na Serra da Estrela Noções gerais de bioclimatologia A Bioclimatologia tenta encontrar relações entre o clima (principalmente temperatura e precipitação) e a distribuição de plantas, tipos de vegetação e de comunidades de vegetação. A classificação bioclimática global inclui cinco macrobioclimas: - Tropical, Mediterrâneo, Boreal e Polar.

Temperado,

Dentro de cada um dos macrobioclimas, podemos identificar subtipos dependendo de padrões na temperatura, precipitação e vegetação. Quando as condições ambientais são estáveis, ao fim de algumas centenas de anos, as comunidades vegetais, e todo o ecossistema atingem um estado de equilíbrio. Designa-se este pleno desenvolvimento vegetal por comunidade clímax ou climácica. A cada bioclima corresponde uma determinada comunidade climácica. A Serra da Estrela encontra-se na charneira de dois macroclimas; o Temperado que geralmente predomina na franja atlântica da Europa, desde o noroeste e norte da Península Ibérica, até ao Sul da Suécia, abrangendo a maior parte da França, das Ilhas Britânicas e o litoral do Sul da Noruega. Na Estrela, predomina nas encostas expostas a oeste e norte e nas maiores elevações.

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O macroclima Mediterrânico abrange o restante da Península Ibérica, o litoral dos países banhados pelo Mar Mediterrâneo e as suas ilhas, desde o Sul de França, até o Sul de Israel e o extremo Norte da Tunísia, da Argélia e de Marrocos até próximo de Casablanca. Na Serra da Estrela predomina no sopé da montanha e encostas expostas a sul e nascente e em alguns vales. Estes dois macroclimas estão aqui representados por subtipos semelhantes porque os limites das áreas de influência dos macroclimas se encontram num mesmo espaço que é o da Serra da Estrela.

Zonas de vegetação em função da altitude: a estratificação por andares As comunidades vegetais têm portanto subtipos específicos de acordo com as pequenas alterações induzidas pelas variações climáticas em função da altitude - forçosamente uma diminuição da temperatura e normalmente um aumento da precipitação (chuva e neve). Dá-se a designação de andar a cada subtipo, ou comunidade, definida em função da altitude. À vegetação tipo, ou seja sem influência de relevo, aplica-se o prefixo ‘meso’ As variantes desta, designam-se por ´infra’ no caso de ser uma variante de menor altitude e por ‘supra’, no caso da variante de altitude superior. Por cima do andar ‘supra’ usa-se designações que derivam do tipo de característica do ambiente em causa: ‘oro’ - montanha, ‘crio’ - gelo, ‘nivo’ - neve, etc. A vegetação da Serra da Estrela revela a presença de 5 ou 6 variantes de altitude. O macrobioclima temperado cobre uma parcela maior do maciço, incluindo os andares de altitude designadas por meso, supra, oro (e talvez) o crio-temperado; O Mediterrânico inclui o andar meso e supra-Mediterrânico.

Cada andar tem a sua própria formação clímax e os patamares de degradação ambiental de uma formação difere frequentemente dos outros andares. Mais ainda, a forma e a intensidade do uso da terra, por parte das actividades humanas, também apresenta grande variabilidade, em parte determinada pela altitude. Como na actualidade, as formações climáticas não existem, teremos de as inferir através das suas respectivas comunidades subclímax. Como o nosso conhecimento da vegetação da Estrela não é suficientemente aprofundado para distinguir e atribuir todas as fases sub-clímax das várias comunidades, iremos usar os termos mais gerais para os 5 ou 6 sub-tipos de bioclimas, incluindo-os em um andar inferior, um intermédio e um andar superior. O andar inferior abrange ambos os subtipos ‘meso’ (Temperado e Mediterrânico) que se estendem desde o sopé da montanha (a ca. 450m) até ca. 800m alt.; O andar intermédio inclui os dois subtipos supra-Temperado e supra-Mediterrânico e estende-se de ca. 800m até cerca de 1.600 m; O andar superior inclui o oro-Temperado de ca. 1.600 metros até o topo e localmente talvez fragmentos do cryorotemperado que poderá existir em locais em situação desfavorável, nas maiores elevações. Segue uma análise sucinta dos andares biogeográficos da Serra

três

Andar inferior Nos locais mais húmidos, a vegetação climácica da comunidade mesoMediterrânica seria sobretudo formada por florestas de carvalho de folhagem perene ou mistos com folhagem decídua onde a espécie arbórea predominante seria o 48


Ilustração 5 - Andares bioclimáticos da Serra da Estrela num trajecto de Seia para Covilhã (adaptado de Jansen , 2002)

sobreiro (Quercus suber); em locais menos húmidos as florestas seriam formadas por comunidades de azinheira (Quercus ilex, sp. rotundifolia). A vegetação climácica natural nas áreas onde predomina o macroclima temperado seria formado por florestas de carvalhos com folhagem decídua, onde predominaria o carvalho alvarinho (ou c. roble, ou c. europeu), Quercus robur, ocasionalmente misto com sobreiro, e em áreas com solos mais húmidos com freixo (Fraxinus angustifolia) e ao longo dos rios e nos vales haveria floresta em galeria de amieiro (Alnus glutinosa), da família do vidoeiro, e ginjeira-brava (Prunus lusitanica). Em ambos os macroclimas, no andar inferior a densidade do povoamento humano é mais elevado e, consequentemente, a perturbação mais intensa. Todas as florestas clímax desapareceram e são substituídas por várias formações degradadas devido às actividades humanas como a queima, corte, pastagem, lavoura, arborização e cultivo. Hoje, existem apenas pequenos e incompletos fragmentos de florestas seminaturais residuais. As fases de degradação vegetal incluem pequenos arvoredos e extensões mais amplas de comunidades vegetais abertas onde predominam as estevas (Género Cistus) e rosmaninho ou

alfazema (Género Lavandula). A intensificação da degradação leva à formação de pastagens relativamente abertas ricas em plantas anuais, denominadas terófitos. (4)

Andar médio A vegetação climácica natural do andar supra-Mediterrânico seria formada por florestas caducifólias (decíduas) ou mistas com folhagem perene; especialmente carvalho negral (Quercus pyrenaica) e azinheira (Quercus ilex, var. rotundifolia). A vegetação potencial natural do andar supra-Temperado seria principalmente formada por florestas com forte predominância de Carvalho negral. Em condições climáticas e edáficas (5) específicas, a floresta mista com vidoeiro (Betula celtiberica) ou teixo (Taxus baccata), por vezes misturada com azevinho (Ilex aquifolium) seria a fase final de desenvolvimento florestal espontâneo. Solos mais húmidos teriam suportado floresta de freixo (Fraxinus angustifolia) e florestas de Amieiro (Alnus glutinosa) em galeria ao longo dos rios, nos vales. De entre todas estas florestas apenas alguns núcleos pequenas e incompletas permanecem, principalmente como resultado dos incêndios, e das actividades agrícolas e silvo-pastoris. 49


A degradação das florestas originais levou normalmente à formação de comunidades não-arbóreas, do tipo charneca, com predominância para a giesta (géneros Cytisus e Genista) e a urze arbórea (Erica arborea) e em situação de maior degradação ocorrem comunidades rasteiras de urzes arbustivas (E. umbellata, Calluna vulgaris e outras), pastagens pioneiras ou em situações de campos húmidos com predominância de fetos (Pteridium aquilinum). O cultivo do centeio (Secale cereale), da família dos cereais (Poaceae) tem criado comunidades vegetais específicas que sobem até o andar superior.

Existe grande variabilidade ambiental, desde lagoas naturais e terrenos pantanosos até os taludes e os depósitos arenosos e rochosos, onde a água quase só existe quando chove. A vegetação está por isso adaptada a extremos, tanto no que diz respeito ao vento, às baixas temperaturas (que regularmente podem descer abaixo de -20°C nos meses de Inverno), ao excesso e à falta de água, ao gelo no solo e à cobertura prolongada de neve. As queimadas, pastagens de verão e localmente a sobrecarga de actividades de turismo são a principal causa da degradação das comunidades vegetais já naturalmente muito sensíveis, deste andar.

Andar superior Neste andar as árvores desaparecem naturalmente. A vegetação climácica do andar superior seria principalmente formada por comunidades vegetais onde predomina o zimbro (Juniperus comunis) e outras plantas que se desenvolvem com forma de almofada, como é o caso da Caldoneira (Echinospartum ibericum subsp. pulviniformis).

Ilustração 6—Em cima; cervunal, de Cervunal (Nardus stricta) e urze, e zimbro em segundo plano. Saxifraga, outra planta típica do andar superior, assim como as plantas do género Minuartia, e, a uma escala ainda mais ‘baixa’, Sedum hirsutum, aqui em flor.

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Outros andares vegetais

e

comunidades

líquenes existem sem dependência directa com a humidade permanente.

Como a Serra da Estrela não tem glaciares - e teria de ter mais 900 a 1000 metros de altitude para os ter - os andares superiores não existem aqui. No entanto há alterações na tipologia da comunidade vegetal mais alta da Serra, coincidente com outros maciços montanhosos próximos (Serra de Gredos a nascente e Maciço de Manzanares e Trevinca a norte), que são indicativos da transição para o andar crio-oro-temperado. Será o andar que faz a transição entre os andares arbóreos, a menor altitude e o deserto alpino e glaciário acima. Acontece que a área mais alta da Serra é também o local da Serra onde a intensidade das actividades humanas associadas ao turismo selvagem têm sido mais elevada. É, por isso, difícil fazer uma análise assertada e correcta da comunidade vegetal, que na Serra da Estrela presentemente se desenvolve acima dos 1850 a 1900 metros de altitude.

São um bom indicador do grau de pureza do ar, já que o número de espécies aumenta significativamente com a diminuição dos poluentes atmosféricos, principalmente o dióxido de enxofre SO2, o ozono O3 e os hidrocarbonetos complexos.

Uma nota ainda para dois grupos de plantas especiais, e que marcam presença em todos os andares, numa grande diversidade de micro habitats onde crescem musgos e líquenes. Desempenham um papel importante, na formação primária de substrato mineral e orgânico para organismos vegetais mais complexos. Os musgos estão intimamente ligados a habitats per-húmidos, enquanto os

Os líquenes são formados por uma coexistência simbiótica à escala celular entre um fungo e uma alga fotossintetizante. Como algumas espécies têm taxas de crescimento muito constante, o seu tamanho pode ser utilizado para avaliação da sua idade, e logo para aferir a idade do objecto onde o líquen está fixado; a este método científico dá-se o nome ‘liquenometria’.

O mar e a serra A bacia do Mar Mediterrânico tem características naturais únicas. É um mar quase fechado, sem correntes fortes, sem águas gélidas e onde o clima permite todo o tipo de actividades regulares ao longo de todo o ano. É normalmente considerada como ‘o berço da civilização’ humana. Em tempos mais remotos, a humanidade teve raízes noutras partes do globo, mas a cultura dita ocidental, baseada na filosofia grega e na organização social romana, que nos deu a nossa cultura (idioma, escrita, organização social e política) e os seus antecessores do Egipto e da Mesopotâmia teve sem dúvida as suas raízes na bacia do Mar Mediterrânico. Desde que a humanidade se sedentarizou e começou a utilizar práticas agrícolas, há talvez 7 mil anos, que as terras à volta deste mar têm sido exploradas. Deste modo, os ecossistemas naturais há muito que tiveram de ceder o lugar ao espaço humano, quase sempre incompatível com o espaço natural. Será essa a razão pela qual a região mediterrânica apresente tão pouca extensão de ambiente natural 51


primitivo, no sentido de não ter sofrido alterações significativas ou aparentes por parte do Homem.

espécies seleccionadas, de modo a manter vivo o fio que possa dar continuidade às comunidades que já quase extinguimos.

Frequentemente as regiões montanhosas escapam durante mais tempo à cobiça humana de explorar, e assim estas regiões por vezes ainda conseguem manter alguns ambientes naturais residuais, que no restante espaço já terão desaparecido por completo.

Explorar e delapidar a nossa Terra, sem termos consciência dos estragos que estamos a fazer, é mau, mas teremos de o aceitar. Mas será que temos ou que podemos sequer aceitar esses estragos, depois de já termos o conhecimento e a consciência sobre a gravidade social dos nossos actos?

Como referido anteriormente, a Serra da Estrela está localizada no limite meridional da região do macrobioclima temperado e recebe muita influência dos Invernos chuvosos e frescos do Oceano Atlântico e muitas plantas (e animais) típicos da franja oceânica da Europa ainda chegam até aqui. Por outro lado a Serra da Estrela também está no limite setentrional da região do macrobioclima mediterrânico. Por isso notase igualmente uma forte influência do clima de Verão quente e seco, e as comunidades vegetais adaptadas ao calor e à secura, ainda chegam até a Serra da Estrela. O alargamento dos vales que entalham de forma radial o maciço da Serra da Estrela não atingiram a sua amplitude actual apenas pela glaciação Würmiana - a Serra terá sido sujeita à acção erosiva do gelo em várias épocas glaciárias. Antes da primeira, a sua paisagem terá evidenciado com mais nitidez o realinhamento dos blocos tectónicos ao longo das falhas hercínias reactivadas pela compressão alpina. Sem a erosão glaciária e sem a destruição dos solos pelo Homem a Serra terá evidenciado as escarpas e os desníveis da actualidade, mas com cumeadas mais suaves, cobertas de solos herdados do passado e com densa vegetação, adaptada aos climas quentes e relativamente húmidos da era Terciária, que terminou com uma crise climática de secura há cerca de 2 milhões de anos. Por estar numa situação de limite é que o seu estudo é tão importante e mais importante ainda, é a preservação dos habitats, a protecção dos locais onde existem comunidades vegetais/ecológicas críticas e o repovoamento em locais e com

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Notas: (2) as folhas nascem todas as primaveras em rebentos nas pontas dos ramos do ano anterior e ficam durante três ou quatro anos até murcharem e caírem. (3) as folhas (ou em alguns casos, agulhas) caem todos os anos, no Outono; ficam as árvores despidas durante o Inverno - nascem novas folhas na Primavera. Os tecidos das folhas são mais sensíveis às baixas temperaturas e em locais com Invernos mais rigorosos o largar das folhas é uma protecção contra o frio. (4) plantas de pequeno porte que completam o seu ciclo vegetativo em uma só época de crescimento. (5) edáfico = referente ao solo; edafologia: a ciência que estuda o solo, enquanto substrato de crescimento vegetal.

Bibliografia: L. Bazin, A. Landais, B. Lemieux-Dudon, H. Toyé Mahamadou Kele, D. Veres, F. Parrenin, P. Martinerie, C. Ritz, E. Capron, V. Lipenkov, M.-F. Loutre, D. Raynaud, B. Vinther, A. Svensson, S.O. Rasmussen, M. Severi, T. Blunier, M. Leuenberger, H. Fischer, V. MassonDelmotte, J. Chappellaz, and E.Wolff. (2013): An optimized multi-proxy, multi-site Antarctic ice and gas orbital chronology (AICC2012): 120-800 ka. Climate of the Past, Vol. 9, Issue 4, pp. 1715-1731. DOI: 10.5194/cp-9-1715-2013 Bordonau (1992): Els complexes glàcio-lacustres relacionat amb el darrer cicle glacial als Pirineus. Geoforma, eds.., 251p. Logroño. Jalut, G., Montserrat, J., Fontugne, M., Delibrias, G., Vilaplana, J. y Juliá, R. (1992): Glacial to Interglacial vegetation changes in the northern and southern Pyrenees: Deglaciation, vegetation cover and chronology. Quaternary Science reviews, 11, 449-480. Matos, S. (1994): Glacial Geomorphology and Vegetation Chronology in Serra da Estrela, Portugal. Proceedings of the 28th Congress of the International Geographical Union. Hague, Netherlands. Sugita, S. (1994): Pollen representation of vegetation in Quaternary sediments - theory and method in patchy vegetation. Journal of Ecology, 82, 4, 881-897. Vieira, G. (2004): Geomorfologia dos Planaltos e Altos Vales da Serra da Estrela. Doc. Thesis,701p., Faculdade de Letras, Lisboa. W.O. van der Knaap, J.F.N. van Leeuwen (1997): Late Glacial and early Holocene vegetation succession, altitudinal vegetation zonation, and climatic change in the Serra da Estrela, Portugal. Review of Palaeobotany and Palynology, Volume 97, Issues 3–4, September 1997, Pages 239–285.

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Os solos e as primeiras chuvas pós-incêndios “Os solos de montanha são particularmente susceptíveis às mudanças climáticas, à desflorestação, às práticas agrícolas não sustentáveis e aos métodos de extração de recursos que afetam a fertilidade, provocam a degradação da terra, a desertificação e os desastres como inundações e deslizamentos de terra, o que leva à pobreza”, (Diretor-geral da FAO, José Graziano da Silva no prefácio do livro “Compreender os solos de montanha“.)

A questão dos solos em ambientes de montanha, com destaque para a Serra da Estrela, tem sido um dos temas que mais tem preocupado a ASE desde a sua fundação há vinte anos. O despertar para as preocupações dos frágeis ecossistemas de montanha já tinha levado as Nações Unidas a procurar consciencializar a população mundial para a importância das montanhas no Mundo, consagrando 2002 como Ano Internacional das Montanhas. Pelas mesmas razões, a Organização da ONU para a Alimentação e a Agricultura (FAO), declarou 2005 como o Ano Internacional dos Solos, e o livro “Compreender os solos de montanha“, publicado por esta organização em conjunto com a Secretaria da Aliança para as Montanhas, a Aliança Mundial pelo Solo e a Universidade de Turim, desenvolve vários estudos sobre o tema

dos solos em todo o Mundo onde são abordados aspectos humanos, produtivos e geológicos. Um dos objectivos do livro atrás citado é o de “promover a gestão sustentável dos solos de montanha em nome dos povos de montanha, que frequentemente são marginalizados, excluídos dos processos de decisões e programas de desenvolvimento, e estão cada vez mais afetados pelos desastres relacionados com o solo”, de acordo com o relato de Ermanno Zanini, especialista em geleiras e riscos naturais e professor da Universidade de Turim. As preocupações das Nações Unidas, relativamente às montanhas, têm vindo a acentuar-se cada vez mais, como prova o pedido do aumento dos recursos e reservas de terras para uma gestão sustentável do solo e da água em áreas montanhosas para que estas possam

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continuar a fornecer água doce a metade da população mundial. Transpondo as preocupações das Nações Unidas sobre as montanhas para a Serra da Estrela, a questão dos fogos florestais merecem uma atenção muito especial. A erosão dos solos causada pelos incêndios, que normalmente ocorrem no Verão, e o arrastamento dos sedimentos residuais pelas primeiras chuvas outonais, que ocorrem cada vez com mais precipitação e violência, degradam os solos que ficaram vulneráveis à superfície lixiviando-os, com custos irreparáveis para os ecossistemas. O que se nos afigura preocupante, dada a experiência de mais de 30 anos a procurar despertar consciências e a trabalhar na defesa da maior montanha do país, é o facto de nada visivelmente útil estar a ser feito para proteger os solos. Podendo mesmo testemunhar que, nalguns casos, as intervenções realizadas se processam no sentido de acelerar o processo erosivo em vez de o combater.

Não sendo a primeira vez e convencidos de que não será a última, previmos e alertámos, em Julho do corrente ano, inclusive com o envio de uma carta à Câmara Municipal da Covilhã, da qual foi dado conhecimento ao CDOS de Castelo Branco e à Junta de Freguesia de Verdelhos, para a necessidade de estabilizar as encostas, ainda que precariamente, antes das chuvas do

Outono, para evitar ou minimizar os riscos de erosão provocada pelas enxurradas. Até ao momento tudo tem vindo a acontecer de forma normal porque a precipitação tem sido suave, factor que leva ao crescimento das primeiras gramíneas, indispensáveis à fixação da camada de solo rico em nutrientes e que são imprescindíveis para a sobrevivência deste estracto de plantas. Um pouco de precipitação mais intensa num período de tempo bastante curto, foi o suficiente para revelar o quanto se justificam as preocupações que temos vindo a manifestar. É também necessário e urgente que o Parque Natural da Serra da Estrela, incumbido por Decreto-Lei de desenvolver esforços para conservar os solos e os ecossistemas da Serra da Estrela, seja o protagonista e se esforce por gerar consensos com as demais entidades e população em geral para que a erosão dos solos seja minimizada e/ou contrariada. No caso de áreas florestais que tenham sido queimadas pelo fogo, a técnica para procurar salvaguardar os solos é de fácil execução e com custos reduzidos. O que lamentamos é que nada esteja a ser feito na Serra da Estrela para minimizar o processo erosivo e essa realidade é muito preocupante. ASE 55


Grande Rota do Zêzere

Já é possível percorrer o Vale do rio Zêzere, entre o Covão d’Ametade (na Serra da Estrela – Manteigas) e a foz, no rio Tejo, onde ambos banham a vila de Constância. Nos dias 26 e 27 de Setembro de 2015 os 13 Municípios (dos 17 que têm limites com a bacia hidrográfica do Zêzere) e que promoveram a Grande Rota do Zêzere, ligando o Covão d’Ametade (magnífico espaço na Serra da Estrela por onde corre o rio Zêzere) à foz em Constância, fizeram o lançamento público, disponibilizando-a a partir de agora, devidamente sinalizada. O processo da GRZ que remonta a 2008, foi liderado pela ADXTUR – Agência para o Desenvolvimento Turístico das Aldeias do Xisto, que organizou também o seu lançamento tendo para o efeito promovido uma estafeta que mereceu o patrocínio de vários atletas ligados ao alpinismo, BTT e canoagem já que o percurso foi concebido para poder ser feito também por estas modalidades nalguns troços da Rota. A saída dos estafetas foi dada no Covão d’Ametade onde o Presidente da Câmara Municipal de Manteigas, José Manuel Biscaia, procedeu à entrega do testemunho, representado por uma pequena botija onde foi depositada uma porção de água do rio, que foi sendo aumentada nas várias passagens de testemunho ao longo do percurso até atingir Constância ao fim dos dois dias que demorou a percorrer. A ideia de construir um percurso ao longo do rio Zêzere nasceu em finais de 2002 no seio da Associação Cultural Amigos da Serra da Estrela (ASE). Como todas as ideias, também esta surgiu de um momento feliz que evoluiu para algo de mais concreto após uma avaliação também mais cuidada. Numa primeira fase a atenção da ASE começou por ignorar a componente social e económica atendendo muito mais aos

aspectos físicos de toda a geomorfologia do vale do Zêzere. Para o efeito foram realizadas várias visitas a toda a bacia do rio Zêzere e concluiu-se que a magnitude das paisagens, que ao longo de milénios o rio foi capaz de modelar com o rasgar das montanhas pelas suas águas, compunha uma beleza que não podia deixar de ser atendida e estar disponível para um tipo de turismo mais rentável e sustentável. As margens do rio Zêzere possuem uma galeria ripícola muito interessante e apelativa dando abrigo a uma fauna rica em biodiversidade. Infelizmente nem tudo foi positivo na avaliação que foi feita sobre as 56


paisagens que envolvem as vertentes sobranceiras ao rio Zêzere. Em mais de três quartos da Grande Rota constata-se a existência de monoculturas de eucalipto e pinheiro, plantados com a alteração do relevo natural em patamares, quase tocando as águas do rio e nalguns casos destruindo mesmo a galeria das suas margens, o que era (é) de facto muito

possibilidade de o percorrer em ambos os sentidos, entre a nascente e a foz. Do ponto de vista social e económico os rios foram sempre áreas de fixação das pessoas e eixos muito importantes de desenvolvimento e mobilidade. Também são fonte de riqueza pelo alimento que o rio possibilita e pela fertilidade dos solos aluvionares criados pelas águas fluviais. Foram preferidos pelos exércitos invasores para avançar com as suas tropas por ser mais fácil a progressão ao longo das suas margens. Quem melhor do que a sabedoria popular para aferir da importância dos vales ao ditar que “os vales unem e os montes dividem”, dando sentido ao interesse da ASE em desenvolver esforços para a criação de uma rota que ligasse o vale, unindo gentes e povoações, num interesse comum?

negativo. As massas de água criadas pelas albufeiras de Cabril, Bouçã e Castelo de Bode, contrariavam as águas bravas que as precediam, transformando a rebeldia do rio numa acalmia de espelhos reflectidos nas suas águas que a paleta de cores alterava conforme a hora do dia e o ângulo dos raios solares. Mas as noites de luar criavam cenários de cortar a respiração só apreciáveis por quem ousasse abeirar-se de locais idílicos que a GRZ poderia proporcionar. Do ponto de vista paisagístico, o rio possuía todos os ingredientes para se apostar num trajecto que desse a

Entre a nascente e a foz existiam nas margens do rio Zêzere meia centena de povoações, não contabilizando, naturalmente, as que ficaram submersas pelas águas das barragens. Muitas mais se encontram nas proximidades destas e do rio. Era evidente a sangria da desertificação e a falta de perspectivas para a estancar. Nas aldeias quase desertas eram os mais velhos que teimavam em dar continuidade à vida e à necessidade de manter acesa a chama da esperança e do apego às suas raízes. Era imperioso fazer alguma coisa para que não se perdesse aquela energia e com ela todo um acumular de cultura, de hábitos e tradições. Tendo por base a avaliação atrás referida, a ASE consolidou a ideia de desenvolver e 57


dar corpo a uma proposta e de a apresentar a quem se considerou ser mais credível para a sua concretização – os Municípios que fazem parte da bacia hidrográfica do rio Zêzere. Por um lado, por serem quem mais próximo está das populações e, por outro, por ser da sua competência a criação de infraestruturas como os percursos pedestres.

também que as populações sentissem a ideia como uma coisa sua e não algo que lhes seria imposto. Sabe-se bem como reagem as populações quando não são ouvidas nem achadas em causa própria! Também

se

defendeu

que

seria

Procurou-se gerir o convite às Câmaras integradoras da bacia hidrográfica do Zêzere com o cuidado necessário para que não houvesse o mínimo pretexto para a falta de comparência. Daí a escolha do local do encontro ter sido em Cambas, sensivelmente a meio da distância entre a nascente e a foz do Zêzere. O encontro teve lugar no dia 11 de Dezembro de 2007, no restaurante SLIDE, em Cambas, freguesia de Oleiros, nas margens do rio Zêzere. Foram convidados 16 Municípios e estiveram presentes 13. Ficámos a saber, no encontro, que afinal eram 17 e não 16 os municípios que tinham limites na bacia hidrográfica. Tinha escapado Vila Nova da Barquinha que confina com o Zêzere próximo da foz. A proposta apresentada pela ASE defendia que o projecto tinha de ser integrador e devia envolver desde o início as populações que se distribuíam ao longo das margens do rio. Partiu-se do pressuposto de que as populações, melhor que ninguém, teriam um conhecimento mais apurado das veredas que eram utilizadas entre aldeias, muito antes de haver estradas, constituindo esse saber uma mais-valia para se conseguir um bom trilho. Era importante

interessante a aposta na diversidade, marcando a diferença entre as várias paisagens e o património edificado, de zona para zona. Sugeriu-se consequentemente que o tipo de suporte dos leitores de paisagem e painéis informativos deveria ficar ao critério e livre criatividade de cada concelho ou freguesia, propondo-se que fosse comum a tipologia dos painéis e leitores, bem assim como o símbolo da rota. A concepção dos suportes deveria ter em consideração a durabilidade dos

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bicicleta ou de canoa. Assim, pode realizar-se de forma contínua e encadeada, por troços ou mesmo em circuitos multimodais, recorrendo a mais do que uma disciplina. Para este aspeto contribui o caráter inovador das 13 Estações Intermodais existentes ao longo do percurso.

mesmos e ainda a protecção informação contra os raios UV.

da

Um outro aspecto, relevante, que foi referido no encontro com os autarcas relacionou-se com a necessidade do percurso se aproximar do rio, alternando o percurso pelas duas margens de acordo com a sua importância, utilizando para o efeito pontes suspensas. Quem tem experiência neste tipo de infraestruturas sabe que o simples facto de existir uma ponte suspensa é um elemento motivador para uma maior procura. Durante o debate, em Cambas, queríamos destacar as palavras proferidas por Paulo Fernandes, representante da Câmara Municipal do Fundão, pelo Prof. Pedro Guedes de Carvalho, da UBI e pelo Dr. João Marques, presidente da Câmara Municipal de Pedrogão Grande. Deve-se ao Dr. João Marques a argúcia de olhar distante e propor-se como anfitrião para um novo encontro que teve lugar no dia 16 de Janeiro de 2008. Não fosse essa disponibilidade e entusiasmo e teríamos regressado, embora bem impressionados com a ideia, mas sem uma definição de como agir no futuro. O segundo encontro resolveu esse problema, que não terá sido tarefa fácil, tendo em conta que levou 8 anos a concretizar. O texto tornado público para anunciar a GRZ, informa que: “O percurso desta

Grande Rota foi projetado para ser multimodal, podendo ser feito a pé, de

Instaladas em locais próximos do rio, as Estações Intermodais são estruturas multifuncionais de apoio, que permitem aos utilizadores da rota alternarem o modo de locomoção ao longo do itinerário (pedestre, BTT e canoa), sem necessidade de sair do percurso para trocar o equipamento utilizado, ou seja, bicicletas e canoas. No decorrer dos trabalhos de planeamento da GRZ, foram-se desenvolvendo diferentes conceitos capazes de transportar este itinerário para um patamar superior aos que atualmente existem a nível nacional e mesmo internacional – as estações intermodais são um deles. Outra das características é a existência de percursos complementares, quer circulares tipo Pequenas Rotas em torno de pontos onde a GRZ passa, fixando utilizadores mais tempo num determinado ponto, quer derivações a partir do itinerário principal que levam os utilizadores a áreas geográficas e pontos de interesse próximos, como as Aldeias do Xisto, as praias fluviais, as albufeiras e barragens, entre outros. Com o lançamento da GRZ, e à semelhança da rede de percursos pedestres Caminhos do Xisto e da rede de Centros de BTT, as Aldeias do Xisto dotam o território de mais uma infraestrutura de animação permanente, passível de ser usufruída por qualquer pessoa em qualquer altura. A abordagem macro ao território assente numa lógica supramunicipal tem sido a 59


chave da intervenção que a marca Aldeias do Xisto tem liderado em prol do desenvolvimento turístico da Região. A GRZ, pela sua extensão e importância, pela sua multimodalidade e fator de atração, pelo conjunto de parceiros que agrega e caráter inovador, representa o espírito experimentador das Aldeias do Xisto.

Os Municípios e os agentes privados parceiros das Aldeias do Xisto farão em conjunto a gestão e dinamização da Grande Rota do Zêzere, cuidando da sua manutenção e desenvolvendo programas e eventos de animação em torno da rota.”

ASE

O traçado da rota acompanha de perto o rio. Aqui junto ao Moinho das Freiras, Pedrógão Pequeno (Sertã).

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Os passadiços do rio Paiva Jorge Fidalgo

Em finais de Julho visitei e percorri uma grande parte dos passadiços de madeira alcantilados na margem esquerda do rio Paiva, no sentido da praia do Areinho e a ponte de Espiunca. Lembro-me de ter comentado para quem me acompanhou nesta caminhada que não demoraria um ano sem que os incêndios destruíssem os passadiços de madeira. Mas não estava à espera de que mês e meio depois 600 metros do passadiço fossem queimados pelas chamas incêndio que varreu a encosta do rio.

do

O passeio de madeira faz a separação da interessante galeria ripícola que compõe as margens do rio do eucaliptal plantado que destruiu a vegetação autóctone contribuindo ainda para a pobreza da paisagem e para facilitar os fogos dado ser de mais fácil combustão e propagação. A Associação S.O.S. Rio Paiva, criada em 1999, constituiu-se com o propósito de denunciar a destruição do Rio Paiva, considerado como um dos rios mais selvagens e interessantes do nosso país e dos menos poluídos da Europa. No centro das suas preocupações estavam, e provavelmente agora ainda mais – a poluição das suas águas e dos seus afluentes; a construção de infraestruturas nas margens; a destruição da galeria ripícola; a plantação de monoculturas (com destaque para o eucalipto); os fogos florestais e a desertificação.

Para apaziguar as preocupações enunciadas, a S.O.S. Rio Paiva defendia uma gestão sustentável que tivesse em consideração: a identificação e eliminação dos principais focos de poluição; a definição dos espaços destinados ao lazer e prática balnear; a criação de zonas de protecção para as espécies mais vulneráveis e ameaçadas, a eliminação das espécies infestantes e a reflorestação das margens do Paiva. Pois bem, para dar resposta às preocupações expressas pela Associação nada melhor do que uma obra de engenharia, onde se consumiram mais de 2000 metros cúbicos de madeira ao longo de 8,7 quilómetros e com um custo que se cifrará nos milhões de euros. Por exemplo, a Grande Rota do Zêzere tem 370 kms e o montante investido na sua edificação não terá chegado a um milhão de euros. Não pretendo fazer comparações com o que não pode ser comparável, mas apenas chamar a atenção para o enorme investimento que foi feito numa 61


infraestrutura cuja manutenção no futuro não ficará barata. A atracção do público pelos passadiços é grande, pois são milhares as pessoas que ali afluem e se cruzam numa correria desenfreada como se estivessem no corredor da Expo, junto ao Tejo, ou em Gaia junto às margens do Douro. Ganham os taxistas com o negócio porque há quem não aguente completar a ida e a volta (cerca de 17 kms) e são eles, os donos dos táxis, a transportar quem não tem pernas para fazer o percurso de regresso. Também o comércio local aproveita com os Passadiços do Paiva, sem dúvida. Parece-me evidente que a principal razão para a colocação deste tipo de infraestrutura terá sido a de causar uma forte e original imagem de marketing e com tal estratégia captar um número significativo de visitantes que ao mesmo tempo viessem dinamizar a economia da região. O que me leva a concluir que poderiam obter igual sucesso, ou talvez mais ainda, se tivessem optado por uns carrinhos eléctricos, um comboio ou uma telecabine. Qualquer destes meios de transporte não causaria mais impacto visual que os passadiços de madeira. A inserção dos Passadiços do Paiva ao longo do rio revelou uma falta de bom senso para com os valores

paisagísticos, anulando-os em benefício do projecto que se sobressai sobre a beleza natural do vale que o Rio percorre. Ignoro porque não se avançou com uma outra solução que já deu provas de durabilidade e bom enquadramento no ambiente natural da região de Arouca que beneficia de um património riquíssimo neste domínio.

As últimas fotos que ilustram o presente texto, revelam veredas tradicionais em pedra e terra que não necessitam de uma manutenção significativa, pois quanto mais uso tiverem menos trabalhos exigem. Para além dos materiais se encontrarem na área, a mão-de-obra seria local, gerando emprego temporário para as pessoas da região, certamente mais capazes de executar aquele tipo de trabalho. Aliás, os Passadiços do Paiva foram construídos, em grande parte do traçado, sobre um

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trilho que já existia e que me lembro de ter percorrido.

evidentes alguns locais que serviam para improvisar os W.C.’s em falta.

Veremos a evolução da visitação às margens do Rio Paiva que, já se fala nessa hipótese, possivelmente irá implicar um custo monetário para se poder utilizar o Passadiço. Também se ouviram voes a reclamarem por casas de banho, sendo

Espero que a moda dos passadiços não pegue e não venhamos a ter exemplos destes na Serra da Estrela. É que já bastam as torres eólicas para que a paisagem dos Montes Hermínios seja tão violentamente posta em causa.

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6260-173 MANTEIGAS ELEIÇÕES PARA OS ÓRGÃOS SOCIAIS CALENDÁRIO ELEITORAL As eleições para os Órgãos da ASE irão realizar-se no dia 16 de Janeiro de 2016, de acordo com a Convocatória para o efeito, publicada neste número da Zimbro.

APRESENTAÇÃO DE LISTAS Os subscritores ou mandatários das listas deverão enviar as mesmas, devidamente assinadas pelos respectivos candidatos, até ao dia 20.12.2015 para a seguinte direcção: Em correio registado Com data de 18.12.2015

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Por E-mail

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PUBLICAÇÃO DAS LISTAS CANDIDATAS As listas são divulgadas na revista Zimbro de Dezembro, e enviadas a todos os associados com e-mail nos ficheiros da direcção.

VOTAÇÃO Os associados em condições de poder exercer o direito de voto (ter a quotização de 2015 regularizada) podem fazê-lo do seguinte modo: - Por e-mail para: eleições.ase@gmail.com (entre o dia 11.01.2016 e as 15:00 horas do dia 16.01.2016). - Por correio, em carta registada para:

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- Presencialmente, na sede da Associação, Rua General Póvoas, 7 – 1º Manteigas, entre as 17:00 e as 19:00 horas.

RESULTADOS E TOMADA DE POSSE Os resultados eleitorais serão divulgados pelo Presidente da Mesa da Assembleia Eleitoral, que dará Posse de imediato aos Órgãos Sociais Eleitos.

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Zimbro Novembro 2015  

Edição da revista Zimbro publicada pela ASE; associação cultural dos Amigos da Serra da Estrela