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A “ZIMBRO” é editada pela Associação Cultural Amigos da Serra da Estrela, em formato digital e com distribuição trimestral gratuita. Os artigos de opinião são da responsabilidade dos seus autores.

Director José Maria Serra Saraiva (presidente da ASE) Corpo redactorial Tiago Pais José Amoreira Rómulo Machado José Duarte Saraiva

VISITE A SERRA DA ESTRELA

Composição Paulo Mazzetti Grafismo Paulo Mazzetti Fotografia de capa José Maria Serra Saraiva Colaboraram neste número José Maria Serra Saraiva Carola Meierrose João M. Gil Paulo Mazzetti

Sede e redacção: Rua General Póvoas, 7 - 1º 6260 - 173 MANTEIGAS www.asestrela.org ASE: asestrela@gmail.com Redacção: info@asestrela.org

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4 | Editorial 5 | Opinião: Rali da “Serra da Estrela” 6 | Informação: Condução em estradas de Terra Batida 8 | Opinião: Para que serve o Parque Natural? 13 | Notícia: XVIII Encontro Nacional de Vigilantes da Natureza - XII Jornadas Técnicas 16 | Opinião: Turismo de Montanha: o eco das nossas propostas 17 | Proposta da ASE : Turismo de Montanha na Serra da Estrela 22 | Proposta da ASE: Os erros EMENDAM-SE, não se eternizam! 28 | Informação: Para a História da Segurança na Serra da Estrela 37 | Notícia: Protocolo de colaboração entre a ASE e o CAAL 38 | Notícia: ASESTRELA 2015 41| Divulgação Cientifica: Os insectos ditos indiferentes 56| Experiência: Outono na Serra da Estrela 64| Ensaio Fotográfico: É sempre diferente. Só depende de cada um

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Editorial Por J. Maria Saraiva

Há umas décadas atrás, numa atitude autoritária, uma funcionária superior do Parque Natural da Serra da Estrela, com responsabilidades na área florestal, tomou medidas extremas perante uma prática perfeitamente natural e habitual de um pequeno corte de pinheiros por parte de um proprietário residente. Uns dias depois, um violento incêndio varreu toda a encosta do ribeiro do Carneiro, em Vale de Amoreira, concelho de Manteigas, precisamente na zona onde se estava a fazer o corte dos pinheiros. Não se sabe se a origem do fogo teve consequências na atitude da “zelosa” funcionária. Mas na memória, retenho bem presente o comentário que o senhor engenheiro, amigo pessoal e da ASE, João Feliciano Farraia Alves Baltazar, administrador florestal em Manteigas, me fez enquanto combatíamos o fogo – “está a

ver o resultado da actuação da senhora engenheira?” Tive ao longo da minha vida profissional ocasiões onde pude confirmar situações análogas às descritas anteriormente e sinto -me perfeitamente à vontade para poder afirmar que nunca o PNSE foi capaz de interagir com as populações residentes dentro dos seus limites.

De tal maneira essa postura tem vindo a reflectir-se na sociedade, que já deu origem a uma recomendação, votada por unanimidade, da Assembleia Municipal de Manteigas para que o Executivo Municipal abandone o Conselho Estratégico do Parque Natural. Por sua vez, um abaixo-assinado da

Nunca o PNSE foi capaz de interagir com as populações residentes dentro dos seus limites. população de Valhelhas foi entregue na Junta de Freguesia que, revoltada com as atitudes impositivas do PNSE, exige a saída daquela Freguesia da Área Protegida. Preocupações semelhantes já levaram a Junta de Freguesia de Famalicão da Serra a notificar as entidades tutelares do Parque Natural, denunciando iniciativas deste que são lesivas da população da referida Junta de Freguesia. Entretanto, a Serra da Estrela vai sendo cercada de parques eólicos e de outros atentados, bem mais graves, pelo seu impacto e por ocorrerem na zona com estatuto mais restrito e sensível a nível da preservação da biodiversidade.

Contrariando toda a lógica que fundamentou a salvaguarda da Serra da Estrela numa área protegida, as situações de confronto têm vindo a ser o pão nosso de cada dia com contornos a revelarem-se preocupantes ultimamente, recaindo nos mais frágeis, agricultores e pastores, nos que, afinal, têm sido o suporte do que ainda se preserva de bom dentro do PNSE, uma postura errada por parte do PNSE que pode ter consequências imprevisíveis no próximo futuro.

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Rali da “Serra da Estrela” A estrada que liga o Covão da Ponte a Folgosinho e Gouveia foi completamente renovada, ficando uma pista com um tapete betuminoso, i. e., em alcatrão. A partir do momento em que o Covão da Ponte já era servido por uma estrada alcatroada a partir de Manteigas, era legítimo dar-lhe continuidade ligando as vertentes Sul e Norte da Serra na zona do alto Mondego. Em todas as regiões montanhosas é fácil de observar o constante atravessamento das Portelas (locais de passagem das vias romanas e das que se lhes seguiram) por estradas tradicionais, por serem zonas de transposição mais fácil e de menor altitude. Lá diz o povo que os vales unem e os

montes dividem!

Quando tudo parecia estar a encaminhar-se para que a estrada tivesse a integração desejável com o crescimento dos matos, somos surpreendidos pela aplicação de rails em, praticamente, todo o seu traçado – um completo disparate e um sobrecusto desnecessário.

A Serra avança cada vez mais para obter melhores estradas, mas, ao mesmo tempo, esse pretenso progresso prejudica o seu valor paisagístico e o património natural, infelizmente É que não se justificam razões de segurança para uma estrada rural, cuja circulação não deverá ser superior a 50 kms/hora, velocidade máxima recomendável para não perturbar a fauna silvestre e a doméstica, e sem grandes declives, salvo na descida para Folgosinho onde, nalguns troços, se deveria ter pensado na colocação de rails que, afinal, não existem. Ainda não compreendemos por que não se colocam rails em madeira com resistências metálicas ocultas, como se constata na Serra da Arrábida e na generalidade dos parques nacionais e naturais por essa Europa fora.

Pode-se dizer que a estrada tem a largura razoável, o arranjo das obras de arte denota alguma preocupação pelo enquadramento da via na paisagem envolvente, o que é de assinalar. Talvez necessite agora de cuidados ao nível da plantação de pequenos bosquetes de árvores, alternados em relação às suas bermas, para quebrar o seu impacto na rica paisagem, caracterizada pela moldura suave dos campos do Mondego e pelo mosaico em que alternam as terras de pousio com as folhas de centeio cuja ondulação faz lembrar o Alentejo mas não conseguem camuflar a estrada.

Pensamos que os promotores do projecto da regenerada estrada do Covão da Ponte a Folgosinho e Gouveia fizeram tudo o que era recomendável para que a mesma possa ser candidata ao Rali de Portugal, do Vinho do Porto ou, sabe-se lá se o não pensaram, na eventual candidatura a um RALI SERRA DA ESTRELA! A Serra avança cada vez mais para obter melhores estradas, mas, ao mesmo tempo, esse pretenso progresso prejudica o seu valor paisagístico e o património natural, infelizmente.

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CONDUÇÃO EM ESTRADAS DE TERRA BATIDA por J. Maria Saraiva

A condução de viaturas em estradas de terra batida é um tema que já mereceu a nossa atenção quando a Zimbro ainda se publicava em papel. É um tema que nos merece de novo destaque, pela importância que as estradas de terra têm para as comunicações entre as populações mais isoladas na Serra, por questões de ordem económica já que a manutenção tem custos elevados e, questão importante, por problemas de ordem ecológica e ambiental. Uma estrada de terra batida com uma plataforma bem regularizada e com um bom sistema hidráulico permite uma melhor circulação, maior segurança para quem nelas circula e mais protecção dos veículos, para além de assegurar uma circulação mais rápida em caso de incêndios ou de uma outra emergência qualquer. Sem grande esforço, todos quantos circulam com as suas viaturas em qualquer estrada de terra batida, sejam de tracção às quatro rodas ou não, podem contribuir para que a sua plataforma se mantenha em bom estado e para uma melhor e mais segura circulação evitando danos, em muitos casos onerosos, para os seus proprietários. O alcatroamento de todas as estradas tem custos económicos que o país não estará

em condições de suportar mas, também, porque a sua pavimentação em betuminoso levanta problemas de ordem ecológica que convém ter presentes sempre que se decide alcatroar uma estrada.

O alcatroamento de todas as estradas tem custos económicos que o país não estará em condições de suportar ... A impermeabilização do solo ao longo de alguns quilómetros, entre outros aspectos negativos a considerar que resultam da aplicação da massa betuminosa no meio natural, altera o ciclo da capacidade de retenção de água no solo, aumenta os níveis de escoamento das águas pluviais que, escorrendo a velocidades muito maiores, por serem encaminhadas através de bases impermeáveis, poderão causar

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prejuízos a jusante se atendermos a que não se trata de um caso isolado mas do conjunto de muitas estradas a drenar com o mesmo efeito. Para além de serem mais caras, as estradas alcatroadas também têm uma manutenção mais dispendiosa, se bem que mais espaçada no tempo. Tendo presente que estamos a falar de estradas em zonas de montanha e em áreas de grande sensibilidade pelo estatuto de protecção que possuem, como é o caso da Serra da Estrela, o alcatroamento vai aumentar o tráfego, permitindo que todo o tipo de veículos circule por essas vias influenciando negativamente os níveis de poluição e de ruído sem que daí resultem benefícios significativos para os naturais. Por outro lado, afasta os potenciais interessados em promover passeios por zonas de paisagens singulares e que optam preferencialmente pelo uso de estradas em terra batida com veículos todo-o-terreno. Mas não se pense que as estradas de terra batida não trazem também alguns problemas. Estes, contudo, podem ser atenuados se os automobilistas tiverem a preocupação de fazer uma condução preventiva e ecológica. Este tipo de estradas, pelo desgaste a que são submetidas, bem como pela falta de limpeza das valetas, sofrem irregularidades no pavimento cuja regularização tem sido

feita à custa de grandes escavações para a obtenção de saibro, deixando na paisagem “feridas” difíceis de reparar porque ninguém, aparentemente, tem estado a acompanhar este tipo de intervenção, e muito menos a pensar na recuperação ecológica através da modelação da paisagem. Como dizíamos, para atenuar os efeitos erosivos nas estradas de terra batida causados pelo desgaste da passagem das viaturas, os seus condutores devem procurar guiá-las de acordo com as imagens bastante elucidativas que ilustram o texto. Circulando sempre encostado à direita e mantendo a roda interior no centro da via, contribui-se para manter a plataforma mais plana, permitindo uma melhor circulação, poupando os veículos a situações que podem causar danos, nomeadamente no cárter, provocando a sua imobilização. Quando estiver a conduzir em estradas de terra batida, pense no muito que pode dar à ecologia com muito pouco esforço. Verá que até lhe irá dar especial prazer fazer este tipo de condução.

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Para que serve o Parque Natural?

No dia 2 de Setembro de 2014, um violento incêndio que, segundo nos foi revelado, se veio a confirmar ter tido origem criminosa, deixou em cinzas a encosta da freguesia de Teixeira, no concelho de Seia. Como um “azar” raramente vem só, no dia 16 daquele mês de Setembro, uma forte chuvada, frequente nestas alturas do ano, arrastou tudo quanto a fúria da água foi capaz, arrasando e alterando os socalcos (açudes), construídos pelo homem ao longo da ribeira da Teixeira, lixiviando o que ainda havia da camada superficial do solo, restando as pedras que a energia hídrica não foi capaz de arrastar. No dia 7 de Fevereiro de 2015 visitamos a área e pudemos conversar com dois naturais de Teixeira que andavam nos seus terrenos a trabalhar, tentando reconstruir o que o fogo e a chuva destruíram. Conversámos com os dois proprietários e mais alongadamente com o senhor António Pereira Teixeira que descortinámos no fundo de uma vala aberta pela água, que procurava recompor reconstruindo sozinho, pedra sobre pedra, até o muro atingir o nivelamento da terra arável. A ausência de solos aráveis em abundância nos vales encaixados das vertentes Sul da Serra levou os naturais a procurar as linhas de água e a construir os açudes, sem os quais se tornava impossível, em épocas

recuadas, sobreviver. Fazem presentemente parte de ecossistemas e de um património edificado riquíssimo que importa preservar e valorizar já que a sua harmonia com o meio é exemplar.

Os açudes fazem presentemente parte de ecossistemas e de um património edificado riquíssimo que importa preservar e valorizar já que a sua harmonia com o meio é exemplar.

Quisemos saber, do senhor António Teixeira, se já tinha recebido a visita de algum representante do Parque Natural da Serra da Estrela para avaliar os impactes, não só do ponto de vista ecológico mas, também, do património construído e dos prejuízos na agricultura, tendo-nos respondido que ainda não. Ainda pusemos a hipótese de alguma deslocação ter acontecido, por parte daquela entidade mas que lhe tivesse passado despercebida, o que nos levou em a entrar em contacto com o senhor presidente da Junta de Freguesia daquela localidade, José Manuel Domingos. Esse telefonema aconteceu no dia seguinte, dia 8, e foi-nos garantido que não houve nenhum contacto, presencial ou por qualquer outro meio, com a Junta de Freguesia de Teixeira, da parte do PNSE. Temendo tudo o que se está a verificar um pouco por toda a área da Serra da Estrela, que ultimamente se está a revelar com uma

O senhor António Teixeira em cima do muro reconstruído

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dinâmica cada vez mais inusitada, a ASE, nos seus primórdios, na discussão sobre o nome a adoptar, ainda se pensou seguir os passos dados pela remota Associação dos Amigos do Parque Nacional da Peneda Gerês, onde se foram “beber” os fundamentos estatutários. Mas venceu a corrente que defendeu o nome existente – Associação Cultural Amigos da Serra da Estrela.

A razão de tal escolha foi visionária na medida em que se tivesse sido seguida a mesma lógica da Associação do Gerês, que acabou pouco anos depois, vá-se lá saber por quê(!), poderíamos estar a defender orientações e práticas que não eram coincidentes com a visão que a ASE tem para a preservação da Serra e o correspondente desenvolvimento sustentável que beneficiasse as populações residentes e que se encontram no objecto da criação do PNSE, enquanto que o nome que detemos defende o espaço natural da Serra da Estrela, logo, simultaneamente, a Área Protegida. A vida parece ter dado razão aos que assim pensaram em 1981, pois o acumular de erros, por parte das direcções do Parque Natural, tem sido uma constante e ultimamente ainda mais com maior agravamento como se depreende pelo alheamento e inércia relativamente ao que aconteceu na Freguesia de Teixeira que viu grande parte dos açudes e terras chãs profundamente danificadas pela enxurrada, na sequência do incêndio de 2 de Setembro de 2014. Pela iniciativa assumida pela Assembleia Municipal de Manteigas, foi votada por unanimidade uma recomendação ao Executivo Camarário para que este abandone o Conselho Estratégico do Parque Natural, não ignorando que o Presidente 9


deste Conselho é precisamente o Presidente da Câmara Municipal de Manteigas que, em ofício, informou todos os Presidentes de Câmara dos Concelhos que integram o referido Conselho Estratégico do posicionamento da Assembleia Municipal de Manteigas.

rolar com consequências imprevisíveis. Pouco preocupados porque a distância a que se encontram da Serra os fará sentir que a responsabilidade não será deles, mas sim de quem legisla, desiludam-se: quem aceita cargos para gerir um Parque Natural como o existente na Serra da Estrela, ou

No abaixo-assinado subscrito pela população da Freguesia de Valhelhas, entregue na Junta de Freguesia e que o irá submeter à Assembleia de Freguesia para pronunciamento, pede-se a saída da Freguesia da área do Parque Natural. De salientar ainda a deliberação da Assembleia de Freguesia de Famalicão da Serra, cujo documento se transcreve no final do presente artigo, o qual devia levar a direcção do PNSE e o ICNF a uma profunda reflexão sobre as causas para esta revolta da população. A ASE tem muitas razões de queixa a apontar ao Parque Natural, demonstrando quão negativa tem sido a sua intervenção, quer em relação à Associação, quer no que diz respeito à conservação do Parque, cuja realidade os seus dirigentes não conhecem. A neve, na Serra da Estrela, está a desenhar e ampliar uma bola que ameaça

reconhece os erros de quem legisla e que põem em causa práticas ancestrais que vão contra os interesses das populações, cujo contributo para a conservação dos solos é de uma evidência que o Parque não é capaz de negar, e se manifestam contra os legisladores; ou então aceitam as imposições de tais normas e são coniventes com elas, devendo tirar daí as devidas conclusões e consequências. ASE 10


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XVIII Encontro Nacional de Vigilantes da Natureza - XII Jornadas Técnicas Monitorização Ambiental, de Espécies e Habitats Vigilantes da Natureza 40 anos ao serviço da Conservação da Natureza

As Jornadas Técnicas realizaram-se com a participação activa de todos os presentes, abrindo novas expectativas, novos horizontes, tendo propiciado um diálogo crítico, criativo e construtivo sobre os temas abordados. Evidenciou-se um grande interesse em relação às temáticas tratadas, existindo uma consciencialização dos perigos que a poluição e a degradação ambiental constituem para a Conservação da Natureza. Existe um entendimento generalizado da necessidade de proteger os elementos naturais, recursos de inestimável importância para a preservação da vida na terra. Concluiu-se que a variedade climática e hidrológica existente em Portugal determina a existência de ecossistemas com condições físico-químicas e geológicas singulares e com importantes componentes de flora e fauna. O crescente aumento das pressões ambientais derivadas de numerosas fontes como as alterações climáticas, a contaminação dos solos, a proliferação de espécies invasoras, a perda e fragmentação de

habitats e a poluição dos nossos recursos hídricos atingem valores preocupantes. A monitorização ambiental, de espécies e habitats, resulta da recolha periódica e organizada de dados recolhidos, seguida de uma análise sistemática da informação reunida. Esta informação permite-nos a obtenção de mais conhecimentos sobre a Biodiversidade, através de inventários de fauna e flora o que poderá proporcionar a definição de áreas prioritárias para a conservação da natureza, a formação de novas áreas classificadas e de corredores ecológicos.

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Nestes últimos 40 anos muita coisa mudou na Conservação da Natureza em Portugal. A rede nacional de áreas protegidas, as competências e atribuições das entidades com responsabilidades na Conservação da Natureza mudaram muito desde 1975. Modificaram-se as responsabilidades e compromissos internacionais. Mudou o Mundo em que vivemos. Alterou-se a tomada de consciência sobre a importância e os comprometimentos que se colocam à sociedade relativamente à Conservação da Natureza. As entidades com competências na área do ambiente cresceram, ganharam territórios e mais atribuições. Dos 188 Vigilantes da Natureza existentes no ICN (Instituto da Conservação da Natureza) em 1999 restam 120 em 2015, para fiscalizar 21,7% do país, enquanto o restante território nacional é fiscalizado por 56 Vigilantes da Natureza das CCDR ( C o m i s s õe s de Coordenação e Desenvolvimento Regional) e APA (Agência Portuguesa do Ambiente). A conservação do Património Natural, da Biodiversidade e da Paisagem são o garante da preservação de uma parte estruturante da nossa Identidade Nacional. As Áreas Classificadas, o Parque Nacional, os Parques Naturais, as Reservas Naturais e o património natural fazem parte da nossa herança colectiva, sendo a escassez de Vigilantes da Natureza uma das grandes ameaças que enfrentam. Apesar das dificuldades que os Vigilantes da Natureza sempre encararam, consideramos existirem razões para festejar os 40 anos de existência da profissão. Os Vigilantes da Natureza têm como missão a preservação das Áreas Naturais e a protecção do Meio Ambiente.

Estes profissionais são a peça vital para a protecção da Natureza devido ao seu conhecimento do terreno e dos habitats, sendo o reconhecimento da sua missão por parte das populações uma mais-valia para a resolução de muitos dos problemas que afectam o meio ambiente. O Dia Nacional do Vigilante da Natureza é um dia dedicado ao reconhecimento do árduo trabalho a que estes profissionais se dedicam de corpo e alma, suportando as inclemências do tempo e da natureza, enfrentando com coragem a sua missão de salvaguarda do Ambiente. O Dia Nacional do Vigilante da Natureza é um dia de esperança de um futuro melhor para a profissão e para a preservação da Natureza! Cronologia do evento: A sessão de abertura do XVIII Encontro Nacional de Vigilantes da Natureza - XII Jornadas Técnicas realizou-se com o discurso de Boas Vindas do Presidente da APGVN – Associação Portuguesa de Guardas e Vigilantes da Natureza, Francisco Correia, e do Doutor Nuno Grade, Chefe de Divisão de Gestão Operacional e Fiscalização (DGOF) do Departamento de Conservação da Natureza e Florestas do Algarve. O Presidente da APGVN efectuou a leitura da mensagem de saudações enviada pela Direcção Nacional da Federação Nacional dos Sindicatos dos Trabalhadores em Funções Públicas e Sociais. Deu-se

início

às

palestras!

A primeira apresentação esteve a cargo dos Vigilantes da Natureza Paulo Cabrita – “Monitorização do Plantago almogravensis no PNSACV”, Pedro Alverca “Monitorização do Falcão Peregrino Falco Peregrinus no PNSACV” e Vitor Casalinho “Gralha-deBicoVermelho”. 14


O Vigilante da Natureza João Correia apresentou a palestra denominada “A Perdiz-do Mar no Estuário do Tejo”. “Monitorizações realizadas no PNVG – Parque Natural do Vale do Guadiana” foi a apresentação efetuada pelas Vigilantes da Natureza Célia Medeiros e Eunice Pereira. O Vigilante da Natureza António Frazão apresentou o tema “Monitorização da Perdiz - Vermelha no Parque Natural da Serra de Aire e Candeeiros”. A Doutora Ana Cordeiro expôs o tema “Monitorização de impactes de um parque eólico na avifauna e implementação de um plano de medidas de mitigação e compensação”. O Doutor João Castro, da Universidade de Évora, apresentou o tema “Estudo do percebe e das áreas de reserva marinha do Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina”. O Doutor José Lino Costa, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, efectuou uma apresentação denominada “Os peixes no estuário do Mira”. A Doutora Rita Alcazar, da LPN - Liga para a Proteção da Natureza, apresentou o tema “Charcos mediterrânicos temporários”. Realizou-se a homenagem ao Vigilante da Natureza António João Severo pela sua dedicação à profissão e à Conservação da Natureza. É com muito orgulho que temos como companheiro este profissional que prestou com grande empenho e devoção a sua missão de protector da Natureza. O nosso muito obrigado por seres Vigilante da Natureza! Após o jantar os participantes no XVIII Encontro Nacional de Vigilantes da Natureza foram brindados com a magnífica actuação do Grupo Coral de Vila Nova de

Mil Fontes que elevou o Cante Alentejano à sua máxima expressão. O Vigilante da Natureza David Carvalho encantou todos os presentes com a demonstração dos seus dotes de executante do Cante Alentejano. No Dia 2 de Fevereiro, realizou-se a Sessão Comemorativa do Dia Nacional do Vigilante da Natureza e do Dia Mundial das Zonas Húmidas, com a abertura do evento a ser efectuada pela Engenheira Paula Sarmento, Presidente do ICNF – Instituto da Conservação da Natureza e Florestas, seguida do comunicação do Presidente da APGVN – Associação Portuguesa de Guardas e Vigilantes da Natureza e por último a explanação do Doutor José Alberto Guerreiro, Presidente da Câmara Municipal de Odemira. O presidente da APGVN fez uma retrospectiva dos 40 anos da profissão de Vigilante da Natureza em Portugal. O Doutor João Carlos Farinha, Chefe de Divisão de Valorização de Áreas Classificadas (DVAC) do ICNF, fez uma breve referência ao Dia Mundial das Zonas Húmidas e efectuou a apresentação do projecto “Natural.pt”. Terminando a Sessão Comemorativa com a apresentação da Professora Doutora Helena Adão, da Universidade de Évora, abordando o tema “O Estuário do Mira”. Seguiu-se o Almoço Comemorativo do Dia Nacional do Vigilante da Natureza e de seguida a saída de campo a um charco mediterrânico, acompanhada por Cientistas da Universidade de Évora. Terminou-se o evento com a visita ao Cabo Sardão.

APGVN

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Turismo de Montanha por J. Maria Saraiva

O eco das nossas propostas No dia 23 de Janeiro, no Auditório Municipal de Manteigas, a ASE apresentou duas propostas destinadas a alterar duas realidades que se vivem na região da Serra da Estrela. A primeira tem a ver com o tipo de oferta turística que tem sido promovido e desenvolvido o qual, na opinião da ASE, é profundamente errado e está desajustado face ao potencial que a Serra tem para oferecer e às dinâmicas da procura. A segunda procura dar resposta às vias de comunicação rodoviárias visando alterar radicalmente a situação presente.

A apresentação foi noticiada na generalidade dos meios de Comunicação Social sendo esperado, como aconteceu, que os jornalistas dedicassem maior atenção à segunda proposta, pelo impacto que a mesma suscitaria na opinião pública e muito menos à primeira, afinal de contas a que na nossa opinião poderá ser realizável num prazo imediato e tem relevante interesse para o desenvolvimento do turismo na região da Serra da Estrela.

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A SERRA DA ESTRELA É MUITO MAIS QUE A TORRE

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Proposta para o turismo de montanha Introdução O turismo na Serra da Estrela começou a iniciar-se depois da Sociedade de Geografia de Lisboa ter realizado na Serra a 1ª Expedição Científica em 1881. Entre outros, são os estudos do Dr. Sousa Martins que revelam a boa qualidade dos Montes Hermínios para a cura da tuberculose. Estava aberta a porta para a procura na Serra do tratamento da Tísica, doença que atingia brutalmente a sociedade daquela época. Com a instauração da I República (1910), começam a surgir as estâncias de altitude nas Penhas Douradas e Penhas da Saúde, edificadas pela burguesia resultante das transformações sociais ocorridas na época. Realço duas grandes obras em resultado dos estudos do Dr. Sousa Martins: o Sanatório dos Ferroviários, na encosta da Covilhã e o Sanatório da Guarda, actual Hospital Distrital, nesta cidade. A partir de meados de 60, do século XX, a Serra ganha uma nova dinâmica sob a influência da classe empresarial da Covilhã ao investir na promoção dos desportos de inverno. Primeiramente na zona dos Piornos e mais tarde, pela insuficiência de neve nessa zona, procurou-se alcançar maior altitude, o que foi facilitado pela abertura da estrada da Torre, depois de abortada a tentativa de a fazer por teleférico, transferindo-se toda a pressão de visitantes para o topo da Serra. Foi esta a lógica que herdámos e que se mantém como filosofia do turismo para a Serra da Estrela, ressalvando o crescimento das infra-estruturas que, entretanto, foram sendo aumentadas de acordo com a procura e à custa de um património natural completamente delapidado por falta de medidas que o acautelassem.

Com o 25 de Abril, foi a vez de as classes sociais mais desfavorecidas invadirem as Penhas da Saúde transformando-as num autêntico arraial de tendas de campismo, que foram evoluindo para barracas e vivendas construídas clandestinamente em terreno baldio, que não devia nem podia ser alienado em circunstância alguma. Na Torre foram os feirantes que, durante anos, ali instalaram, sem rei nem roque, barracas onde se vendia de tudo, inclusive gato por lebre! Na Nave de Santo António, as barracas foram aumentando e chegaram quase à meia centena. Felizmente que os naturais de Manteigas não usurparam, como outros fizeram, qualquer lugar da Serra, nem na Nave, que se encontra nos limites do seu Concelho. Tal comportamento exemplar facilitou a retirada coerciva de todas as barracas, situação que não se verificou nas Penhas da Saúde, nem no covão da Mulher. É caso para dizer que (ainda) vale a pena prevaricar! Depois de tanta confusão, de tanto atentado ao ambiente, de tanto falar de turismo na Serra da Estrela, chega-se à conclusão de que tudo se encontra por fazer, ao mesmo tempo que não surgem ideias, nem da parte das entidades oficiais, nem dos privados

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Proposta Fundamentalmente, a ASE parte de uma realidade muito simples para projectar as suas ideias em algo de concreto. É do conhecimento geral que a promoção turística da Serra da Estrela se tem fundamentado na neve e, mais concretamente, no esqui. Também não será novidade para ninguém que a prática do esqui, pelas exíguas condições naturais e a consequente falta de neve, não é suficientemente atractiva para que os turistas estrangeiros venham à Serra da Estrela. No entanto, o contrário é verdadeiro, ou seja, há milhares de portugueses a deslocarem-se para as estâncias internacionais a fim de praticar esqui. Com o mesmo raciocínio constata-se que há milhões de cidadãos europeus a utilizar as montanhas para caminhar, quer pelo simples prazer que tal prática lhes dá, quer para se manterem em boa forma física.

Sabendo das excelentes condições que a Serra da Estrela tem para se caminhar, aliadas a um conjunto de outras mais-

valias que as poderão potencia lizar, como o clima, a gastronomia, a hospitalidade, segurança, enfim, um leque de características que se revelam muito interessantes para convencer muitos dos praticantes estrangeiros a vir à Serra da Estrela. Tudo isto seria fácil se a Serra da Estrela estivesse apetrechada com uma boa rede de veredas, cujos traçados fossem criativos e muito bem consolidados, que tivessem em consideração as áreas mais sensíveis, como são os cervunais e os charcos cuja proximidade devia ser evitada. Condição que não foi tida em consideração pelo próprio PNSE quando criou a sua rede de percursos. As veredas podem permitir a vista das zonas mais frágeis sem que haja pisoteio como infelizmente acontece, por não ter havido a mínima preocupação ao nível da conservação, havendo mesmo a convicção desse propósito, ou seja, o de os trilhos percorrerem tais áreas sensíveis, para as admirar e usufruir, ignorando o impacte que isso poderia ter a médio prazo. Na proposta da ASE essa preocupação está nitidamente inserida. Para criar estas infraestruturas é necessário alguém que saiba fazê-lo e também quem o execute dentro de uma lógica que valorize o potencial a promover, desenvolvendo-as tendo em consideração

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a Serra, no seu todo, de maneira a envolver todas as aldeias que a circundam. Como elemento valorizador, a ASE propõe a criação do um circuito no Planalto Superior, que denomina por CPS, com uma distância de 50 quilómetros, aproximadamente, permitindo dar a conhecer os aspectos mais significativos e interessantes da Serra da Estrela e proporcionando o acesso a todos os horizontes que seja possível percorrer com o olhar.

Esta rede de veredas que constitui e integra o CIRCUITO DO PLANALTO SUPERIOR (CPS) será o elemento preponderante, sugerindo uma lógica de vasos comunicantes e permitindo aos utilizadores a maior flexibilidade possível na escolha das opções. A proposta considera ainda a criação de uma rede de refúgios de montanha como apoio aos caminhantes, para já apenas em

relação ao CPS. Sem este tipo de infraestruturas não terá qualquer sucesso o desenvolvimento dos percursos na medida em que a ausência deste suporte impede que o turismo possa ter uma permanência maior na Serra e deixe de ser apelativo internacionalmente. Os refúgios de montanha, de acordo com as normas da Federação Internacional de Montanhismo e Escalada (UIAA), são infraestruturas situadas acima dos 1.500 metros e sem acesso a veículos

motorizados. Podem ou não ser guardados, mas a ASE defende que todos devem ter vigilância próxima. Os refúgios têm a vantagem de poder ser inseridos na rede internacional de refúgios, sendo importante que se encontrem na alçada da Federação de Montanhismo, o que lhes garantirá uma maior reputação e difusão junto do movimento federativo de montanha espalhado pelo Mundo e na Europa particularmente. 19


Os refúgios são infraestruturas muito práticas, fáceis de gerir porque os utilizadores cumprem algumas regras, acessíveis à interpretação e reconhecimento por quem pratica o montanhismo, apesar de oferecerem um bom conforto perante as condições naturais onde são inseridos. A proposta considera para a primeira fase a implementação de dois refúgios que deveriam ser edificados em simultâneo com a criação do CPS. Um no Covão d’Ametade, aquele que poderá ser o principal catalisador para todos os outros, pelas condições naturais onde se posiciona, pelas facilidades de acesso e pela centralidade relativamente aos demais. A segunda selecção recai na Garganta de Loriga, a montante da barragem do Covão do Meio, aproveitando as ruínas dos edifícios utilizados para a construção da albufeira. Neste local encontra-se o maior túnel da Serra da Estrela que serve de transvase para levar a água deste vale para a Lagoa Comprida. A opção por estes dois locais tem a ver, não só com o traçado do CPS, mas também por se situarem num eixo tradicional muito importante e interessante na circulação dos montanhistas, e ainda pela magnitude da morfologia altamente influenciada pela glaciação do Período Quaternário.

Cada aldeia seria desafiada a criar a sua vereda que a ligará ao Circuito do Planalto Superior, procurando-se gerar uma competição sadia que leve as várias localidades a procurar ser o mais originais e criativas possível, tentando cada uma procurar diferenciar-se e fazer melhor que as vizinhas.

Os refúgios do Covão d’Ametade e da Garganta de Loriga, como aliás os demais que vierem a ser criados, estão pensados para serem auto-suficientes em termos energéticos, através do aproveitamento solar, hídrico e eólico.

Para a criação das veredas, não é necessário a utilização de qualquer tipo de maquinaria, sendo apenas usadas ferramentas individuais e mão-de-obra absorvida localmente, o que pode contribuir para interessar as comunidades

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ao gerar sinergias que poderão contrariar a erosão social que está a minar a estabilidade das nossas aldeias serranas. Esta nova realidade irá catapultar as várias populações da Serra para a ribalta do interesse pelo turismo e pelas suas terras, inserindo-as num processo dinâmico no qual devem ser actores de pleno direito, uma vez que a oferta turística não se limita às caminhadas mas a todo um conjunto de valores que cada terra possui e que precisam de ser recuperados e valorizados. Desde a própria arquitectura das aldeias, à prática agrícola e pastoril de montanha, à gastronomia, à convivência social, ao clima, há todo um conjunto de valores e características que não deixará de ser muito apreciado por quem as visitar.

Os refúgios são infraestruturas destinadas a dar abrigo aos montanhistas e a prestar um conjunto de outros serviços, mediante pagamento, essenciais a quem usa as montanhas por mais de um dia. São edifícios adaptados ao tipo de clientes que os utiliza e são guardados para garantir a sua integridade e segurança a quem os utiliza. Na generalidade, estão inseridos na rede internacional de refúgios, no âmbito das federações nacionais e/ou regionais, de acordo com a organização federativa de cada país, funcionando em rede e permitindo à partida que esteja praticamente assegurada a sua promoção, dado que direccionada para o público que interessa atingir.

Há que fazer aderir gente capaz de estancar a sangria da desertificação das aldeias serranas à nossa proposta, muito fácil de concretizar e de custos reduzidíssimos, podendo esta ser apenas uma entre muitas outras que poderão surgir, quer na aplicação das ideias que acabamos de apresentar, quer como resultado de outras movimentações sociais que possam surgir. O objectivo é que as povoações à volta da Serra da Estrela possam voltar a ter o dinamismo e a alegria da juventude que já tiveram e merecem. Dadas as condições amenas do clima em Portugal, o interesse pela implementação do CPS e das veredas que lhe seriam associadas, bem como os refúgios que atrás se referiram, deve merecer por parte das entidades locais, regionais e nacionais com responsabilidades na área do turismo, a maior atenção e interesse na avaliação das suas potencialidades já que, na opinião da ASE, se apresentam como uma maisvalia em que podemos ser muito competitivos relativamente aos países onde o interesse pela prática do pedestrianismo se revela importante e que, na Serra da Estrela, poderá ser praticado ao longo de todo o ano.

Obviamente que importará promover nos primeiros anos com mais afinco, todas as potencialidades de que estamos dotados e podemos oferecer a quem nos quiser visitar.

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Os erros EMENDAM-SE, não se eternizam! Porque fecha a estrada da Torre? A segunda proposta da ASE tem a ver com as vias de comunicação na Serra da Estrela, mais concretamente com o encerramento sistemático da EN 339, mais conhecida por estrada da Torre, nos períodos em que há queda de neve.

epítetos que não condiz com o esforço que os seus trabalhadores exercem para manter a via em boas condições de circulação, algumas vezes com risco para as suas vidas, quando estão a zelar pela segurança de todos nós.

Independentemente das complicações causadas pelo encerramento da dita estrada, a ASE considera que foi um tremendo erro construir uma via até ao topo da Serra da Estrela e a atravessar o seu Planalto Superior.

A ASE considera que foi um tremendo erro construir uma via até ao topo da Serra da Estrela e a atravessar o seu Planalto Superior

Há um ditado popular que diz: os vales unem e os montes dividem! Tal verdade tem sido aplicada por essas montanhas fora e é normal a passagem das estradas ser pelas Portelas (depressões em zonas montanhosas), sendo uma excepção o caso da Serra da Estrela.

Mas se é normal e natural que muitos portugueses não saibam por que é que isto acontece, já nos parece desajustado que responsáveis autárquicos da área da Serra da Estrela se mostrem indignados com o encerramento sistemático da estrada e até queiram assumir a gestão do Centro de Limpeza da Neve se as coisas não mudarem. Apetece pedir à Estradas de Portugal, S.A. que entregue já, aos autarcas reclamantes, o Centro de Limpeza da Neve!

Esclarecido o posicionamento da ASE torna-se importante informar sobre as causas que originam o constante fecho da estrada 339 nomeadamente entre a Nave de Santo António e a Lagoa Comprida, quando neva, por muito pouco que seja. O Maciço Hermínio situa-se a escassos 100 quilómetros da Costa Atlântica e não tem nenhuma barreira física, entre o Mar e a Serra da Estrela que lhe atenue a influência marítima, nomeadamente dos ventos ciclónicos, carregados de humidade, que sopram daqueles quadrantes. O vento, a precipitação e a altitude, associados, podem originar temperaturas que ultrapassam os 30 graus negativos (já tivemos oportunidade de medir -34,5º nas proximidades da Torre). Tal valor é capaz de deixar surpreendidos muitos dos leitores, como surpreendidos ficam sempre que a estrada encerra e se culpa o funcionamento do Centro de Limpeza da Neve com uma série de

Tendo em consideração o que foi dito anteriormente, convém ainda salientar que o tipo de neve que habitualmente cai na Serra é muito diferente daquele que se precipita nas montanhas de clima continental, a maioria das montanhas da Europa central. A “nossa” neve tem um teor de humidade consideravelmente superior, é mais pesada por causa disso, o que dificulta a sua remoção. A neve que cai noutras montanhas é mais seca, muito mais leve, neve polvo, e muito mais fácil de limpar. Obviamente que a realidade atrás referida, não é conhecida da maioria dos portugueses, razão que leva muitos à conclusão de que lá fora não acontece o encerramento das estradas como 22


acontece entre nós. Na verdade, as situações não podem ser comparáveis como o não são as estradas de lá e de cá. Na Serra da Estrela a estrada passa pelo topo, lá fora muito abaixo dos cumes das montanhas. Quisemos nesta introdução procurar explicar as razões por que o Centro de Limpeza de Neve não consegue, por muitos meios de que disponha e por muitas horas de trabalho que faça, resolver o problema do encerramento da estrada da Torre. Iremos de seguida expor as razões que nos levam a defender o encerramento da EN 339, entre a Nave de Santo António e a Lagoa Comprida, propondo alternativas para alterar profundamente toda a lógica das vias de comunicação na Serra da Estrela e soluções para levar as pessoas ao ponto mais elevado do continente.

Primeira Medida Uma vez que a estrada da Torre não resolveu a questão das comunicações entre as duas vertentes da Serra, muito menos da ligação entre povoações a Sul da Serra, caso contrário os autarcas e a população não exigiam melhores vias, é necessário resolver o problema sem o enfoque na EN 339. Deixemos, por enquanto, essa estrada em “paz”. Se a estrada 231, que liga a A23 (no nó do Tortosendo, Covilhã), à EN 17 (no cruzamento de Vila cova à Coelheira, Seia) for rectificada de acordo com a nossa proposta, é possível baixar os actuais 80 kms para 43, não isolando nenhuma povoação, construindo dois túneis, um de 4 kms, e outro com 300 metros. Como a cota máxima da estrada não ultrapassaria os 850 metros e ela se desenvolve na vertente Sul, a mais soalheira, a limpeza da neve seria dispensável.

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Segunda Medida Para assegurar o transporte das pessoas ao Planalto Superior sem os transtornos do encerramento da estrada, defende-se a construção de um teleférico entre o Covão da Mulher e a Torre. Com esta solução reduz-se a poluição originada pelas viaturas, eliminam-se as questões com a segurança, evitam-se custos com o consumo de combustível, acaba-se com os engarrafamentos, garante-se a conservação dos valores naturais e da qualidade da água, entre outros factores importantes que serão referidos na terceira medida.

Para a travessia sugerem-se dois tipos de teleféricos: o teleférico de pêndulo 160ATW, suportado por um único braço e cabo e o teleférico Funifor 60-FUF suportado por dois braços e dois cabos que lhe permitem uma maior estabilidade face aos ventos, embora a capacidade de transporte seja mais reduzida que a do 160-ATW.

A distância a percorrer pelo teleférico é de 1.500 metros, praticamente metade do planeado, e nunca construído, na década de 60 do século passado (tinha 2.750 metros e por falta de dinheiro e, na opinião da ASE, também por questões de segurança), nunca chegou a funcionar. Tendo em consideração o atravessamento de vales onde os ventos sopram sempre mais fortes e as correntes dominantes, o alinhamento para a construção do teleférico foi profundamente estudado pela ASE. Dessa análise ressaltaram as preocupações com os valores naturais, o impacto do teleférico na paisagem, a protecção em relação aos ventos, os custos com a sua implantação, o tempo do trajecto, a evacuação em caso de alterações atmosféricas bruscas, os meios de acesso e a condicionante do local face ao que já existe. A escolha recaiu na zona do Covão de Ferro, mais propriamente no Covão da Mulher como local para a base do teleférico. A estação terminal ficaria no alinhamento da planeada para o anterior teleférico mas mais perto da Torre. O percurso está protegido pela vertente Sul do Cântaro Raso com os seus 1.900 m, enquanto a deslocação se faz, aproximadamente, à cota dos 1.600 m.

É importante referir que o Funifor 60-FUF tem as hastes de suspensão mais curtas, aproximando a cabine dos cabos de 24


suspensão, o que lhe garante um maior equilíbrio. Sendo mais baixo obriga a que as estações e os cais sejam mais baixos, logo, menos onerosos e com menor impacto.

Teleférico apoiado, do tipo representado na imagem (modelo 110-FUL).

Caberá aos técnicos elaborar os estudos necessários à escolha da solução mais rentável atendendo às múltiplas condicionantes que têm de ser ponderadas. Os acessos rodoviários para aceder à estação do teleférico de pêndulo e funifor seriam feitos através da EN 339 a partir da A23, de Manteigas pela ER 338 e de Unhais da Serra pela Estrada Municipal. Nesse sentido, há toda a vantagem e necessidade de serem beneficiadas as rodovias de Manteigas e Unhais da Serra pela importância que este eixo viário representa para o turismo e para estas duas Vilas serranas. Para o transporte das pessoas à Torre pela vertente do lado de Seia a solução que a ASE defende passa pela utilização de um

Este tipo de teleférico pode ser instalado em zonas montanhosas e o sistema é tracionado por cabo e apoiado sobre carris, superando curvas e desníveis sem problemas. 25


A condução próxima ao solo faz com que o teleférico fixo apresente uma disponibilidade ideal em todas as condições climáticas, tendo uma vida útil de, aproximadamente, 40 anos e moderados custos de manutenção. Terceira Medida Consumadas as duas anteriores propostas, defende-se o encerramento da EN 339 (estrada da Torre). São muitas as razões que justificam esse desejável encerramento.

Estima-se que em apenas 15 quilómetros de estrada o Centro de Limpeza da Neve derreta mais de 200.000 m3 de neve por época! Comecemos por evidenciar as de ordem ambiental: situa-se no ponto mais alto do continente e atravessa uma das áreas mais sensíveis da Serra da Estrela, onde se iniciam as bacias de três rios muito importantes e que abastecem cerca de 40% da população portuguesa de água potável.

Já se estudou, ou alguém sabe qual o efeito do sal no meio físico e biológico? Não há cidadão ou organismo que não deseje a Serra com neve. Entretanto, estamos todos a pagar a um Organismo para fundir a neve que todos queremos, o que é um contra-senso! Estima-se que em apenas 15 quilómetros de estrada o Centro de Limpeza da Neve derreta mais de 200.000 m3 de neve por época! Deixaríamos de ter o problema com o encerramento da estrada quando neva! É preciso saber quanto custa manter anualmente o funcionamento do Centro de Limpeza da Neve por causa da limpeza de 15 quilómetros de estrada. É necessário que se saiba quanto custa manter anualmente o grupo da GNR, que deixará de ser necessário com o encerramento da estrada. Qual o custo com um maior consumo em combustível, pelos milhares de veículos que têm de vencer os 1.400 metros de desnível, para além de outras despesas criadas pelo desgaste do equipamento das viaturas, nomeadamente em pneus, travões…

Os milhares de veículos que circulam anualmente na EN 339 causam poluição e obrigam à aplicação de milh ares de toneladas de sal-gema para ficar circulável. Há estudos que referem altos valores de cloreto de sódio na água de algumas nascentes decorrentes do uso intensivo daquele produto.

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Acabavam de uma vez por todas as filas intermináveis de viaturas para chegar ao cimo da Serra, com os condutores num completo stress porque andaram centenas de quilómetros para vir à neve e acabam por partir desgostosos por nem sequer poderem parar para a tocar. O encerramento da estrada implicaria que o topo da Serra com neve fosse todo esquiável uma vez que a própria via serviria de pista para o ski de fundo com a vantagem dos seus praticantes terem transporte de retorno nas duas vertentes. Enquanto presentemente a abertura da via não traz vantagens para as populações à volta da Serra, é claro que apenas 3 localidades estão a beneficiar com a actual situação mas beneficiavam muito mais com a nossa proposta. A grande diferença entre a realidade de hoje e o encerramento da estrada da Torre é que presentemente os gastos em combustível e em tempo perdido não

aproveitam a ninguém, ao passo que a proposta da ASE faria com que fossem criados mais postos de trabalho e consequente maior riqueza, a par de melhor controlo nas subidas e na segurança. As infraestruturas sugeridas devem ser propriedade de um consórcio constituído pelos 3 Municípios cujos limites confinam na Torre: Covilhã, Manteigas e Seia, embora a gestão das mesmas possa ser feita por empresas privadas. A ASE acha fundamental que as propostas que aqui reproduz possam e devam ser motivo de estudos por parte das universidades públicas, preferencialmente das áreas da economia, gestão, ambiente e conservação da natureza, geologia, recursos hídricos e turismo, para que seja feita uma avaliação objectiva entre o presente e o que se propõe para o futuro.

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Para a História da Segurança na Serra da Estrela por J. Maria Saraiva

Até meados da década de 90 do século passado, não havia quaisquer meios, preparados e equipados, para ocorrer a situações de busca e salvamento na Serra da Estrela. O socorro estava na tutela dos Bombeiros que não tinham os conhecimentos, a preparação técnica e os meios para realizar acções de busca e salvamento com padrões mínimos de operacionalidade. Tal realidade associada a uma série de casos que iam acontecendo esporadicamente, nomeadamente de pessoas que se perdiam ou de acidentes diversos, foi “empurrando” a ASE para uma situação de conflito de solidariedade. De facto, o conhecimento que alguns dos seus membros detinham sobre a Serra, bem como a presença sistemática na montanha, permitiu-lhes assistir a cenários confrangedores de operacionalidade, à falta de lógica nas análises das ocorrências, à péssima preparação e à ausência de quaisquer meios e consequente ignorância sobre o seu domínio, para enfrentar situações de risco. Essa realidade foi aproximando os membros da Associação das ocorrências difíceis e a procurar colaborar sem quaisquer pretensões, apenas por mera questão de solidariedade perante os dramas que se presenciavam. Nalguns casos, chegaram mesmo a ser solicitados depois de muitas horas de buscas sem sucesso… Os salvamentos em zonas montanhosas são muito específicos, do mesmo modo que o são num outro ambiente diferente como no Mar, por exemplo, onde o emprego dos meios e das técnicas terá de ser o mais adequado. Acontece, porém, que os casos graves iam-se sucedendo, ainda que

esporadicamente, uma vez que não acontecem, felizmente, assim tantos acidentes na Serra da Estrela, mas a realidade operacional mantinha-se indiferente à situação, à importância que a existência de meios de prevenção e socorro podia ter no turismo. Tudo associado, acrescido de uma profunda reflexão que teve de ser feita por parte dos membros da ASE que não tinham treino, equipamento e algumas vezes se sujeitavam a enfrentar riscos para a própria segurança, e que não detinham qualquer responsabilidade pública nas operações de salvamento, foi a ponta do iceberg para procurar uma saída que o problema da segurança na Serra impunha. Nesta primeira fase não havia a mínima intenção de a ASE se envolver directamente na operacionalidade dos salvamentos. Procurou, no melhor sentido d o t e r m o, e x p lor a r t o d a s a s potencialidades que poderiam 28


Os salvamentos em zonas montanhosas são muito específicos, do mesmo modo que o são num outro ambiente diferente como no mar, por exemplo, onde o emprego dos meios e das técnicas terá de ser o mais adequado. consubstanciar-se a partir dos organismos com responsabilidades em matéria da segurança e de socorro aos cidadãos. O que levou a uma análise geral de todas as entidades com intervenção na área da Serra da Estrela, na tentativa de encontrar alguma relação das suas funções públicas com a disponibilidade de recursos humanos e respectivas áreas de intervenção. A apurada análise a que se procedeu teve em consideração as Corporações de B om be i r os , a G u ar da N aci on al Republicana, o Centro de Limpeza da Neve, o Parque Natural da Serra da Estrela e o próprio movimento na montanha através dos clubes, existentes.

Se o Parque Natural tem seguido esta orientação e prática a sua imagem junto da opinião pública teria sido bem mais positiva. Infelizmente, o Director do PNSE de então não acolheu da melhor maneira a informação que lhe foi transmitida por um funcionário, simultaneamente membro da ASE, pela qual procurava fazer uma retrospectiva sobre o vazio em que se encontrava a Serra, relativamente aos meios para a segurança dos visitantes. Simultaneamente, da informação constava um esclarecimento sobre os recursos humanos do PNSE, a sua responsabilidade institucional na Serra, bem como o zelo a

Chegou-se à conclusão de que o Parque Natural da Serra da Estrela (PNSE) era o organismo que reunia as melhores condições para assumir a responsabilidade inerente à segurança na Serra. E foi muito fácil apurar esta conclusão porque o PNSE tinha a responsabilidade de zelar por um território que ia para além das áreas mais susceptíveis para a ocorrência dos acidentes, dispunha de um corpo de vigilantes, profissionais a quem cabia a responsabilidade de percorrer tais áreas mais perigosas, com a missão de zelar pela segurança dos visitantes inscrita na sua orgânica de funções e de forma permanente. Afinal, eram exactamente aqueles que mais proximamente perto e com maior rapidez poderiam assumir o controlo da situação com a particularidade de poderem estar disponíveis 24 horas/dia. Só era necessário que a direcção do PNSE assumisse tal encargo, orientasse a formação dos seus funcionários e os equipasse. 29


adoptar na segurança dos visitantes, que constavam nos diplomas legais. O mesmo funcionário rematava a sua exposição sugerindo as soluções necessárias para o sucesso da constituição de um grupo de resgate no seio dos PNSE. O Director do PNSE exarou um Despacho aterrador para o funcionário e totalmente contrário às normas existentes no funcionalismo público. Concluindo: a grande esperança depositada no PNSE tinha sido gorada e não se vislumbrava mais nenhuma saída para a prossecução dos objectivos que a ASE desejava alcançar, ou seja, a garantia de dotar a Serra com uma equipa bem preparada para os salvamentos. Convém voltar a relembrar que o empenho da ASE para que a questão da segurança fosse resolvida, tinha a ver com o chamamento, sistemático, para acorrer nas buscas de visitantes desaparecidos, motivado pelo conhecimento detalhado que tinha do território serrano, bem assim como da realização de alguns salvamentos que obrigaram ao recurso de manobras com cordas que alguns dos seus associados iam praticando por mero prazer. Perante tantos obstáculos para conseguir qu e org an is mos pú blicos , com responsabilidade na área da segurança, se decidissem a assumir o compromisso de criar um grupo de socorro para a Serra da Estrela, a ASE, uma associação que não tem quaisquer responsabilidades nessa

área, e muito menos deter no seu âmbito estatutário este tipo de competência, deu luz verde ao seu associado José Maria Saraiva para que assumisse o compromisso de criar no seio da Associação um grupo de salvamento. Ficou claro desde o início que o objectivo principal da criação da EQUIPA SOSESTRELA era provar como era simples formar um grupo com preparação, com o domínio das técnicas e com os meios necessários para realizar todo o tipo de acções de salvamento, nas mais severas condições atmosféricas. A segunda intenção era alcançar o reconhecimento público necessário, com base na sua capacidade de intervenção, de maneira a que se reflectisse no primeiro argumento, ou seja, na prova de que uma simples Associação tinha sido capaz, ao contrário de outras instituições às quais competia essa responsabilidade!? Finalmente foi decidido aguardar que o “orgulho ferido”, e já esperado, das Corporações de Bombeiros e principalmente da de Manteigas (o velho ditado de que Santos da casa não fazem milagres, assenta como uma luva neste caso) passasse rápido e se desse início à cooperação com a passagem dos conhecimentos da EQUIPA SOS-ESTRELA para os bombeiros. Uma vez conseguida esta tarefa e reconhecido o bom trabalho prático dos grupos de intervenção dos bombeiros, a EQUIPA SOS-ESTRELA deixaria de ter 30


sentido e “arrumaria as botas”. E assim aconteceu! Foram muitas as iniciativas e também os contactos para obter equipamento. Em Lisboa houve uma reunião com o senhor Pedro Feist, já falecido, que foi vereador na Câmara Municipal de Lisboa, com o propósito de obter vestuário para a equipa. Mandou-se vir de Itália 7 fatos especiais que pagámos por um valor muito baixo mas que não serviam para uma equipa de salvamento de montanha. Era roupa própria para a prática de ski!

zona do Mondeguinho. Durante o jantar, o José Maria deve ter causado boa impressão, pela revelação dos conhecimentos que possuía da Serra ia causando nos presentes.

O jeep, um Defender 110, foi oferecido pela Land Rover Portugal ficando a ASE apenas com os encargos do Imposto Automóvel. Vale a pena contar como se conseguiu esta “prenda” porque tem uma relação com a Serra. O Gonçalo Velez, economista que em 1979 conseguiu subir o Pik Korjenyevska (7104 metros), no Pamir, e o Annapurna (8091 metros), sendo o primeiro português a atingir os 8.000 metros de altitude, criou a primeira empresa de turismo de aventura, a Rotas do Vento. Numa visita à Serra com clientes da sua empresa, cruzou-se com o José Maria que já tinha feito o reconhecimento de alguns trilhos com ele. Foram jantar todos à Casa Anita. Seriam uns oito os clientes que iam fazer a descida para Alvoco da Serra, a partir da Torre e subiriam, no dia seguinte, a Garganta de Loriga até ao ponto de onde iniciariam as caminhadas e onde tinham ficado as viaturas que os clientes trouxeram até à Serra. Um dos clientes era o Dr. João Sachetti, Director da Bates Portugal-Publicidade Marketing, Lda., empresa que promovia a Land Rover e conhecia o Dr. Boieiro. Este último, desempenhava funções na área de marketing da Land Rover e era filho do Eng. Boieiro que durante muitos anos tinha sido Administrador Florestal, em Gouveia, a quem se deve o magnífico povoamento florestal do Mondego superior, visível para quem atravessa a estrada de Manteigas para Gouveia, na 31


No segundo dia após o jantar apareceu o Dr. Sachetti, visivelmente preocupado com os companheiros de caminhada. Tinham feito uma descida complicada para Alvoco e, o facto do Gonçalo Velez não levar um rádio emissor-receptor (naquele tempo ainda não havia telemóveis), começou a preocupar o Dr. Sachetti, um executivo habituado a dar importância aos pormenores. Estava apreensivo com o que podia estar a acontecer aos outros que iriam fazer a caminhada de Loriga para a Torre e tinha vindo pedir ajuda ao José Maria para ver se podia ir ver deles. E assim foi: depois de terem almoçado, novamente na Casa Anita, lá foram ver o que se passava com o grupo de caminhantes. O grupo foi alcançado um pouco abaixo do Covão do Meio e vinha a subir calmamente, cumprindo o programa definido pelo Gonçalo. Que, diga-se, não terá ficado lá muito satisfeito com a nossa presença uma vez que esta podia colocar em causa o seu profissionalismo. Pelo menos foi essa a impressão que deixou no José Maria que apenas tinha acedido ao pedido de uma pessoa preocupada com os companheiros do programa. O Dr. Sachetti já não voltou para Lisboa nesse dia e por cá ficou mais uns tempos a deambular pela Serra no seu Range Rover, sempre acompanhado pelo José Maria. Foi nessas andanças que o José Maria lhe falou no plano da equipa da ASE e da necessidade em ter uma viatura todo-oterreno. É fácil depreender o que a partir desta conversa se desenvolveu para que o

jeep viesse a fazer (e ainda hoje faça) parte do património da ASE. A promoção de um seminário sobre segurança, da iniciativa da Câmara Municipal de Sintra, onde se destacava a presença de José Manuel Pérez-Prego, director da Escola de Escalada de Alta Montanha de Benasque (EEAMB), nos Pirenéus espanhóis, bem assim como a de um inglês, especialista em equipamento de resgate, fez o José Maria rumar até à romântica Sintra para participar no encontro. Conversou com o José Manuel PéresPrego, explicando-lhe o que se passava na Serra da Estrela e as ideias que tinha para alterar a situação. Foi importante o diálogo entre os dois, inclusivamente os alertas do José Manuel para algumas questões como a responsabilidade que podia advir relacionadas com os seguros se algo corresse mal. O facto de ser Galego tornou o diálogo mais familiar e, provavelmente, tudo o que se seguiu teve muito a ver com isso. Com alguma surpresa, um mês depois do Seminário, o José Maria recebe uma carta da Escola de Benasque a convidá-lo para participar, gratuitamente, num curso de auto-resgate com a duração de 8 dias. E foi assim, já no jeep doado pela Land Rover, que partiu sozinho para Benasque onde participou, juntamente com outros alunos, oriundos de várias províncias espanholas e de países da América Latina, no curso de auto-resgaste, tornando-se 32


no primeiro português a frequentar tal curso naquela escola. No regresso passou por Andorra para adquirir algum e qu i pame n to imp re s cin dív e l aos salvamentos na Serra. Tinham-se dado os primeiros e mais importantes passos para a obtenção das condições que proporcionariam à EQUIPA S O S -ES TREL A os con h e cime n tos fundamentais para enfrentar os obstáculos que se iriam colocar enquanto objectivos delineados para a equipa. Já em Portugal, iniciaram-se os primeiros exercícios resultantes das técnicas adquiridas em Benasque, tendo para o efeito sido convidadas as Corporações dos Bombeiros da Covilhã, Manteigas, Seia e Loriga. Infelizmente, a presença dos bombeiros foi nula, nada que não tivesse sido previsto, atitude que só o tempo e os casos relacionados com a intervenção de socorro iriam alterar, como calculado, também desde o princípio. A formação da equipa foi tendo o ritmo que a disponibilidade de cada um permitia, havendo por isso uns membros que obtinham conhecimentos e rendimento diferenciados ao mesmo tempo que se iam revelando as qualidades de cada indivíduo para as funções que uma equipa de salvamento em montanha requer. Um grupo de resgate que é solicitado a intervir em condições atmosféricas extremas, sempre com o objectivo de procurar salvar vidas, não evita a sobrecarga do stress. Só uma boa preparação física, confiança em todos os elementos do grupo, domínio das técnicas de sobrevivência e das manobras de resgate, com a garantia de um bom equipamento individual e colectivo, podem minimizar o medo e dominar a tensão porque, psicologicamente, a equipa parte confiante dada a aprendizagem adquirida e o estar dotada de meios indispensáveis à sua salvaguarda. Ao nível do vestuário todos os membros estavam equipados com o que de melhor

apetrecham os grupos de resgate no mundo. Atendendo às características físicas da Serra da Estrela, adquiriu-se o melhor e o mais versátil equipamento capaz de proceder à evacuação de qualquer sinistrado nas condições mais difíceis, garantindo-lhes a estabilidade necessária de maneira a realizar o salvamento sem aumentar os riscos para a sua saúde. De tal maneira foi rigorosa a análise sobre o equipamento mais adequado para a realização das operações de resgate no cenário da Serra da Estrela que o mesmo teve de vir directamente de Itália porque em Portugal não existia. Foi o primeiro equipamento do género no nosso país e o único durante largos anos. Só há relativamente pouco tempo surgiu um outro comparável.

Estamos a referir-nos à maca e à cana de pesca (nome dado ao guindaste telescópico, onde é incorporado um molinete capaz de resgatar uma vítima 33


através do esforço de um só elemento). Ambos possíveis de ser transportados por qualquer um dos elementos e de ser montados rapidamente em qualquer cenário que surja.

Por outro lado, e dadas as especificidades do ambiente físico da Serra da Estrela, a vítima pode ser transportada apenas por duas pessoas, de uma maneira mais fácil, rápida e segura do que com o uso das macas normais para que eram necessários 4 ou mais socorristas para realizar o transporte dos sinistrados. Equipada em todos os seus pormenores, do vestuário aos equipamentos de evacuação, com capacidade de deslocação em viatura todo-o-terreno, apetrechada com guincho, correntes para a neve e meios de comunicação móvel que cobriam, porque foram feitos testes prévios, todos os pontos da serra, a EQUIPA SOSESTRELA interveio em situações que causaram incómodos em algumas instituições. De tal maneira essa situação foi factualmente comprovada que, essas entidades, ignorando as realidades da Serra da Estrela, procuraram mostrar a sua “força” e “capacidade” tentando, inclusive, operar com helicóptero em manobras de salvamento. Ignoraram que uma casa não

se começa pelo telhado, do mesmo modo que uma aviação militar não ganha uma guerra se não tiver infantaria. Bombardeia, bomdardeia, mas se não ocupar o território de nada lhe vale. Foi o que aconteceu: ter um helicóptero sem equipa de terra para operar junto das vítimas era deitar areia para os olhos dos cidadãos que as bonitas imagens televisivas iludiam, dado tratar -se de u ma capacidade assente em pés de barro. Para além da complicação que é operar de helicóptero, na Serra da Estrela, o Inverno é a época em que os acidentes mais acontecem dado que na maioria dos dias não há condições para os meios aéreos poderem operar. No ponto mais alto do continente foi construída uma estação meteorológica, em terreno para o efeito cedido à Equipa da ASE, através de um protocolo com o Instituto de Meteorologia que forneceu os instrumentos necessários. Acontece que

tais instrumentos não foram os ideais para o ambiente da Torre e logo no primeiro inverno os ventos e a acumulação do gelo partiram o anemómetro. A informação das condições atmosféricas é muito importante para qualquer grupo que tenha de intervir, bem como para alertar, antecipadamente, sobre os riscos de se permanecer na Serra em determinadas 34


condições. Sabíamos que o caminho que tínhamos começado a trilhar iria colidir com incompreensões e com o status quo indiferente às realidades. Estávamos preparados para isso e muito mais porque tínhamos confiança nas nossas

capacidades e conhecíamos muito bem o funcionamento e a dinâmica do sistema. Era uma questão de tempo que acabou por ditar as regras. Rapidamente foi percebido que era urgente fazer alguma coisa e a cooperação foi sendo conseguida através da formação gratuita que a EQUIPA SOS-ESTRELA deu a algumas corporações de Bombeiros, a par da preparação e organização do equipamento necessário para as suas equipas.

contacto com o oficial responsável pelas buscas na área, o Tenente Vitorino Delgado. O comportamento e organização da equipa contribuíram, para quebrar o “gelo”, instalado entre os grupos de resgate espanhóis e os portugueses que se tinham aventurado, sem pensar muito bem nas consequências, já que para além do melindre de poderem ferir susceptibilidades, tratava-se de entrar num outro país. Para não falar da competência e experiência dos grupos de resgate espanhóis, muito considerados no mundo e a sentirem-se pressionados, “numa competição” onde era perceptível uma vontade de tentar descobrir primeiro, sobressaindo talvez uma certa pequenez da nossa parte para procurar provar que nós é que somos bons! Foi através do emissor-receptor da nossa equipa que funcionava na banda dos 2 metros que o Óscar, um dos responsáveis do grupo de resgate do principado das Astúrias, comunicou o aparecimento do corpo da Maria João.

A EQUIPA SOS-ESTRELA participou, também, nas buscas da portuguesa, a Maria João, desaparecida nos Picos da Europa, nas imediações do refúgio de Vega d’Ário e que, infelizmente, acabou por aparecer já cadáver passados 7 dias. Ao contrário de todos os participantes que se deslocaram aos Picos da Europa para ajudar nas buscas, a nossa equipa só saiu de Portugal depois de ter entrado em contacto com as autoridades espanholas, nomeadamente com o Comandante António Campos, do Destacamento de Montanha da Guardia Civil, em Jaca, Pirenéus. Através dele foi estabelecido o

Pensamos que teremos deixado boa impressão junto das autoridades que operam nas Astúrias, caso contrário não teriam feito o convite para que a EQUIPA SOS-ESTRELA, sempre que quisesse treinar nos Picos, em qualquer cenário e com o apoio de helicóptero, o pudesse fazer bastando ligar para combinar os pormenores do treino. 35


Nos dias 10, 11 e 12 de Junho de 1999, a EQUIPA SOS-ESTRELA organizou as primeiras Jornadas Regionais de Emergência, em colaboração com os Bombeiros de Mem-Martins e de Manteigas, numa antevisão do que viria a verificar-se com o aumento de tráfego e dos consequentes riscos de acidentes resultantes da construção de vias rápidas na região. Nessas jornadas a EQUIPA SOS-ESTRELA mostrou as suas capacidades e a v e rs ati l i dade do s e u equipamento, de que as imagens aqui reproduzidas são testemunho. A partir daquele momento sucederam-se uma série de iniciativas na área da formação, ministrada pela EQUIPA SOS-ESTRELA, sempre de forma graciosa. Foi o que aconteceu com as corporações de Bombeiros de Seia e Loriga, com cursos dados no âmbito das Jornadas Nacionais de Emergência em Algueirão Mem-Martins a elementos de várias partes do país e da Ilha da Madeira. A formação foi extensiva aos Bombeiros de Oliveira do Hospital, a funcionários do Instituto de Conservação da Natureza e, por último, a elementos da Protecção Civil de todas as Ilhas dos Açores, centralizados na Ilha do Pico, a convite do Governo Regional daquele arquipélago.

A formação incidiu sobre a montanha da referida ilha, falésias e túneis de lava. De salientar a maneira principesca como a equipa foi acolhida pelo Governo dos Açores. Toda a formação que foi dada pela EQUIPA SOS-ESTRELA e fundamentou-se nas técnicas clássicas, onde o recurso a m e i o s m e c â n i c os e s te v e ausente. Precisamente para que qualquer um dos participantes ficasse habilitado a fazer socorro sem possuir os meios mecânicos, usando apenas o equipamento mais simples utilizado para a escalada clássica, permitindo ao mesmo tempo a liberdade aos organismos de que dependiam p ar a a dq u i rir o s me i os mecânicos que se revelassem mais capazes para cada ambiente. A EQUIPA SOS-ESTRELA cumpriu os objectivos a que se tinha proposto, saindo de cena quando considerou que a Serra da Estrela passou a dispor de Corporações de Bombeiros equipadas e preparadas para socorrer os visitantes.

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Novidade ! A Associação Cultural dos Amigos da Serra da Estrela e o Clube de Actividades Ar Livre celebraram um protocolo de colaboração para a realização de actividades em conjunto. O acordo foi subscrito nos seguintes termos:

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ASESTRELA 2015 por J. Maria Saraiva (Texto e fotos)

Nos dias 14 e 15 de Fevereiro de 2015 realizou-se mais um ASESTRELA – ENCONTRO COM A MONTANHA Pela primeira vez, desde há 32 anos, o ASESTRELA foi cheio de surpresas. Desde logo por ter começado e terminado na vila de Manteigas. Também por ter sido organizado sem ter por base o tradicional acampamento, nem o bivaque, recaindo a escolha da dormida num “refúgio” em plena Serra. Para alegrar os participantes, a actividade contou com a presença de dois vigilantes da Natureza do Parque Natural da Serra da Estrela, vindos de Seia expressamente para fiscalizar o ASESTRELA! Os participantes no evento, que decorreu com total normalidade como aliás aconteceu com todos os anteriores, foram mais enriquecidos pelo convívio que a organização soube granjear, ou seja:

A Serra da Estrela obteve mais amigos que ficaram mais despertos em relação aos apelos da ASE para ajudar a conservála. Pena foi que os vigilantes da Natureza do PNSE não os tenham acompanhado para assim poder fazer chegar aos seus

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A Serra da Estrela obteve mais amigos que ficaram mais despertos em relação aos apelos da ASE para ajudar a conservá-la.

Os participantes no ASESTRELA tinham iniciado a caminhada em Manteigas, com um dia agradável, soalheiro e com nuvens brilhantes parecendo novelos de lã, para deleite dos apaixonados da fotografia que iam vencendo os desníveis que os haviam de levar até aos 1.700 metros de altitude.

superiores a lição de como se faz a pedagogia da conservação da Natureza andando a pé! Por não ter, a ASE, pedido autorização ao Parque Natural da Serra da Estrela, para a realização do ASESTRELA, cujas actividades consistiram em andar a pé pelo território de Manteigas e por veredas de uso e direito público, foi levantado, ao seu presidente, um AUTO DE NOTÍCIA, no dia 16 de Fevereiro passado, o que quer dizer que iremos ter assunto para novos desenvolvimentos. Voltando ao ASESTRELA deste ano, os que nele participaram foram surpreendidos pelo rigor das condições atmosféricas e da sua imprevisibilidade em zonas de montanha, particularmente na Serra da Estrela.

Mal puseram a “cabeça de fora”, ou seja, logo que chegaram ao descampado da Serra, com as portas do Atlântico escancaradas para o alto da Estrela, começaram a sentir o ar agreste e húmido, no rosto primeiramente e depois por todo o corpo que de tão imerso em água dava para torcer como se fosse uma peça de vestuário. O nevoeiro adensa-se, a visibilidade diminui e é já de noite que os três últimos caminhantes do grupo chegam ao “refúgio”, que mais parecia um estendal de refúgio de um exército depois de sofrer uma derrota militar.

Estes amigos não vão mais ser enganados pelas notícias que dizem mal do Centro de Limpeza da Neve e dos que lá trabalham, responsabilizando-os pelo encerramento da estrada da Torre quando cai neve.

Nada que uma excelente ementa de feijocas serranas regadas com vinho da região não tenha resolvido, fazendo com que a dura final da caminhada pertencesse ao passado. Após o jantar houve lugar a uma apresentação, seguida de debate, das propostas da ASE para dar uma nova dinâmica ao turismo de montanha e 39


criar alternativas rodoviário.

ao

actual

sistema

A noite foi longa e muito chuvosa, com vento a soprar forte. A manhã acordou com sinais ténues de querer abrir mas foi sempre o vento e a chuva miudinha que acompanharam o grupo na segunda caminhada que os levaria de volta a Manteigas.

A ASE tem agora um ano à sua frente para começar a preparar a actividade de 2016, esperando não ter de a fazer por terras de Espanha, face aos entraves administrativos com que entidades promotoras do turismo na nossa montanha parecem estar empenhadas, criando dificuldades artificiais ao nível burocrático de forma injusta e injustificada aos que amam e defendem a preservação da montanha!

Só a partir dos 1.000 metros e abrigados pelo vale encaixado do Pandil, orientado a Sul, o Sol marcou presença e até aqueceu o suficiente para obrigar a tirar a roupa. Os participantes do ASESTRELA tiveram a oportunidade de visitar a Mostra de Actividades (EXPO ESTRELA de Manteigas) e confortar o estômago com a digressão pelas tasquinhas.

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Os insectos ditos indiferentes por Carola Meierrose

Palavras chave: Insectos, funções ecológicas, preservação de biodiversidade desconhecida, valor do “economicamente indiferente”, Helicoverpa armigera Sumário O esforço de proteger a natureza dos efeitos negativos da acção humana, a bem da sobrevivência sustentável da nossa espécie, tem de incluir toda biodiversidade atual, e não apenas os seres vivos mais emblemáticos e conhecidos. A sua parte ainda desconhecida deve ser valorizada, mesmo antes de conhecermos o seu valor. É difícil fazer os detentores do poder financeiro entenderem o quanto é urgente e necessário preservar, valorizar e estudar aprofundadamente o serviço proporcionado por todos os elos vivos da teia trófica – por sorte ainda gratuito que contêm em si o poderoso mas

desconhecido "valor económico”. Neste Século parece que tudo o que não for i me d i a t a me n t e rentável, é negligenciado, se não destruído. O valor económico já comprovado constitui, aparentemente, o único argumento válido na acepção dos decisores nos governos. Importa pois contribuir e divulgar uma noção cada vez mais concreta do ilimitado serviço dos ecossistemas e, neste caso. do mundo funcional embora ainda amplamente desconhecido dos insectos e demais artrópodes. Este contributo não pode ser mais que um pequeno aperitivo.

A interface Homem - Insecto Poucas serão as pessoas que não se sintam incomodadas por insectos e aranhas, pelo menos em casa, nas culturas, em gado e animais domésticos e em silos de alimentos. Para melhor combater os nossos inimigos temos de os conhecer. Assim sabemos muito sobre as principais pragas na agricultura e nas florestas, os parasitas do gado bem como sobre os vectores de doenças. Fazendo as contas, trata-se aproximadamente de 1000 espécies "maléficas" consideradas praga verdadeiras (num total de cerca de 925.000 espécies de insectos registados) das quais conhecemos mais do que o nome científico e o local de captura. Ocasionalmente haverá menos de 10.000 espécies de insectos que poderão, em

condições raras e localizadas, provocar estragos (John R. Meyer, 2006). Há talvez uns 120 anos (a descontar o período entre 1942 e 1972, em que se pensou que o DDT resolveria o problema do combate às pragas) que se procuram sistematicamente os inimigos naturais das principais pragas das culturas, com o objectivo de as utilizar como agentes de Luta Biológica, pelos métodos inspirados na Natureza, desenvolvidos ao longo da coevolução entre plantas e animais. As espécies mais prometedoras para estes fins são selecionadas nos campos, estudadas, testadas, criadas em massa em biofábricas, e reintroduzidas nos campos, em quantidades maiores e em momentos mais precoces do que ocorreriam na natureza, assim limitando as populações das pragas. 41


Grimaldi&Engel,2005,in http://www.mzufba.ufba.br/WEB/MZV_arquivos/insecta.html

Falamos de aproximadamente 750 espécies de insectos auxiliares, já criados e usados em ensaios científicos de âmbito limitado, dos quais mais de 230 espécies estão disponíveis para a luta biológica em todo o mundo graças às biofábricas (Van Lenteren, 2011), havendo ainda bactérias, fungos, ácaros e nemátodos no arsenal da luta biológica. Juntando a esta seleção as espécies mais vistosas pela sua grande beleza ou curiosidade anatómica, pela utilidade para estudos, nomeadamente na medicina ou na biologia fundamental (tais como a Drosophila ssp.), podemos partir do princípio que conhecemos a fundo, quanto muito, e sendo muito generoso, cerca de 12.000 espécies - num total da metade de toda a biodiversidade hoje conhecida à Ciência. Estima-se que, em termos de futuras descobertas, existam entre 2,75 e 5 milhões de espécies de insectos ainda desconhecidos, ou 6 a 9 milhões de espécies de artrópodes (J. Adams, 2009). Para já, todas estas demais espécies são (ou eram até há bem pouco tempo) considerados "indiferentes", pelo menos às atividades económicas do Homem.

curiosidade especial. O que "não interessa" não merece investimento financeiro para investigação, e assim esta imensidão de biodiversidade "menor" ficou muito tempo escondida às nossas considerações de impacto ecológico e, em última análise, económico. À parte do número de espécies de insectos, cada espécie está representada por populações extremamente numerosas. Nos insectos sociais, cada termiteira pode conter 9,5 milhões de indivíduos (Syntermes sp.). No Quénia, estimou-se em 27 milhões, as térmitas individuais existentes por hectare. Como estes insectos vivem não só em superfície, mas também nas profundidades do solo, convém não esquecer que as térmitas podem descer até 30m no terreno em que se encontram (Cloud, 1966), construindo galerias até ao lençol freatico.

Ora, distinguindo entre insectos úteis, prejudiciais e indiferentes, estes últimos não foram objecto da nossa 42


Números parecidos são conhecidos para formigueiros:

a

- Formigueiros das mais variadas espécies poderão apresentar como densidade populacional máxima por colónia: Atta colombica 1 a 2,5 milhões, Formica yessensis 307 milhões e Dorylus wilverthi 2 a 22 milhões (L.R.Fontes & Berto Filho, 1998, Hölldobler & Wilson, 1990). A descendência de insectos solitários ainda alcança milhares por fêmea fecundada

Fotos: Meierrose, 2008

c

b Figura 3 a. Formigas na reciclagem de gafanhoto morto. b. A entrada do ninho mentação vertical de elementos do solo até a superfície, por formigas.

c. Testemunho de movi-

Mobilização dos solos Entre as espécies de insectos que mobilizam os solos, não só agrícolas e florestais em superfície, muitos dos decompositores da manta morta poderão ser mencionados. Não menos importantes são as moscas na decomposição de cadáveres de animais, bem como certas espécies de coleópteros que enterram os restos ou transformam as bostas em adubo. Pode-se dar tantos exemplos quanto há de insectos úteis à nossa volta e cuja acção, muitas vezes, nos passa despercebida.

Quando falamos em úteis, por exemplo as larvas de lepidópteros, representam uma potencial praga, já que consomem raízes de plantas vivas. Seria um efeito positivo ou negativo, dependendo da espécie de planta consumida. Se esta for objecto das actividades económicas do Homem, será considerado negativo. No entanto, se a planta englobar o número das espécies de ervas “daninhas”, a acção do coleóptero seria “indiferente”. 43


http://www.jeffersonsdaughters.com/2014/06/28/horse-and-cow-patoots/

Ao mesmo tempo, sob ponto de vista ecológico, a sua acção é positiva, pela sua acção mecânica no solo, mobiliza-o, tornao mais arejado e permeável à água, além de transformar nutrientes em formas aproveitáveis por outros organismos do solo.

Este exemplo mostra que, o ponto de vista agronómico difere do biológico, havendo diferentes níveis de integração dos dados. A nossa noção de “sujo” muitas vezes nos impede de perceber o benefício da acção dos insectos. Menosprezamos por ignorância ou distração os serviços gratuitos da Natureza. Só mais uma curiosidade: W. Tischler (1990) cita que os organismos da manta morta, numa floresta de folha caduca, precisam, no seu conjunto, 90 anos para produzirem 1 cm de espessura de húmos. Este valor dá-nos uma medida de tempo para a formação de solos férteis.

TODOS PRECISAMOS DE AMIGOS E A SERRA DA ESTRELA TAMBÉM

Ninho de Myrmica sp. http://www.senckenberg.de/root/index.php?page_id=5920

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Consumidores de insectos Ao grande número de indivíduos de cada espécie de insectos corresponde um universo de consumidores, que depende vitalmente deste recurso alimentar para o seu desenvolvimento. Entre os consumidores principais são bem conhecidas as aranhas, cuja dieta principal é constituída por insectos. Muitos são os representantes da própria classe Insecta que predam ou parasitam insectos. Alguns exemplos são a joaninha (Coccinela septempunctata) que se alimenta de piolhos das plantas (afídeos) ou as libelinhas que caçam mosquitos. Sabemos por alto que muitas aves passeriformes alimentam inicialmente as suas crias com insectos, mesmo que mais tarde se tornem frutívoros.

(Procure em daily Insect consumption by birds e encontra muitas referências da importância apenas destes insectivoros). Um destes exemplos diz: - In the Sacramento Valley, California, Western Meadowlarks Sturnella neglecta were reckoned to require 193 tons of insects daily during the breeding season, and in an area north-west of Wichita, Kansas, some 15–20 million Redwinged Blackbirds Agelaius phoeniceuswere estimated to have fed their young, from hatching to independence, the equivalent of 4,260 tonnes of insects or 6.3 billion cutworms (moth larvae notoriously harmful to plants) (Henderson 1927,

http://www.birdlife.org/datazone/sowb/cas estudy/99 ).

Imagem obtida em: http://www.tiendanimal.es/jarad-pasta-cria-para-insectivoros-p-9092.html

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Outros consumidores são anfíbios, lagartos e cobras, bem como micromamíferos. Certos peixes alimentam-se de larvas de mosquitos e outros insectos que passam uma parte da sua vida em água doce corrente. Pouco ou quase nada se sabe sobre relações de especificidade entre predadores e presas, caso haja.

Serão os insectos consumidos apenas ocasionalmente ou haverá preferências por parte dos predadores? Será que os venenos das aranhas e dos lacraus dependem, na sua toxicidade, do consumo de presas que por sua vez possuem glândulas de veneno?

Ecossistema agrícola ou as interações entre espécies de insectos e plantas Nos insectos solitários, um exemplo, a borboleta (H. armigera, lepidóptero noctuídeo,

http://en.wikipedia.org/wiki/Helicoverpa_a rmigera) que dá origem à lagarta de tomate, pode, ao longo da sua vida adulta de cerca de 4 semanas, pôr a volta de 2.000 ovos que coloca individualmente nas suas muitas plantas hospedeiras.

Em laboratório, Hardwick (1965) obteve de uma fêmea no máximo 4600 ovos. Se cada ovo desse origem a uma lagarta voraz, uma pessoa assustada poderá pensar que a simples presença desta praga (potencial), numa das culturas hospedeiras, possa conduzir à perda total da colheita.

Este temor está na origem do desenvolvimento e uso abusivo dos insecticidas mais tóxicos que o Homem inventou e aplica nos ecossistemas de cultivo. Estudando com atenção H. armigera no campo, colhendo ovos, larvas, e capturando adultos por via de armadilhas, descobrimos que a sua inicial abundância alimenta todo um cortejo de inimigos naturais, bem como as populações destes.

Telenomus e Trichogramma, ovo de Helicoverpa, 0,5 mm diámetro http://entomology.ces.ncsu.edu/wp-content/uploads/2014/01/Telenomus-podisi.jpg http://orquideassemmisterio.blogspot.pt/2011/05/pragas-doencasdor-de-cabecadesespero.html

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Os ovos são alvo de parasitismo por vespas de tamanho diminuto, chamadas de Telenomus heliothidis(8%) ou de Trichogramma sp. (72%) (Meierrose e Araújo, 1986). No total encontraram-se em simultâneo nos campos de tomate, 5 destas espécies de parasitóides oófagos (Silva, Stouthamer, 1999), que reduziram num campo sem pesticidas 80% dos ovos postos pelas fêmeas de H. armigera. Adicionalmente existiam percevejos e crisopas (Chrysoperla carnea) a predar ovos. Dos 20% dos ovos remanescentes dos quais resultam larvas, 75% eram por sua vez parasitadas por vespas maiores de duas outras espécies (Cotesia kazac, 65% e Hyposoter didymator, 10%), o que no cômputo final reduziu os 20% das lagartas a 5% que alcançariam - em teoria - o estado da pré-pupa. No entanto, existem ainda predadores na cultura, tais como vespas caçadoras, aves que procuram larvas grandes na folhagem e muitas espécies de aranhas, que auxiliam na dizimação destas larvas. Não incluímos fungos, bactérias e vírus que também aproveitam este recurso. Na fase de prépupa, estes insectos iniciam a migração ao solo, onde escavam um túnel, de diminuto diâmetro até 1 m de profundidade. Por baixo constroem um casulo de grãos de terra dentro do qual se transformam em pupa.

No solo existem ácaros, nemátodos, bactérias, fungos e toupeiras que consomem larvas e pupas, o que ainda diminui este estádio de desenvolvimento. Ao fim de um tempo, que vai de 15 dias até 7 meses, dá-se a emergência da borboleta, no espaço estreito subterrâneo, e o regresso à superfície, onde descansa para mais tarde levantar voo à procura de cópula e oviposição. Rente ao solo passam formigas, aranhas e lagartos à procura de alimento, reduzindo assim o número de adultos. Ao entardecer, quando começam a voar, encontram à sua espera mochos e morcegos durante estas 4 semanas de possível longevidade adulta. É difícil que no fim de uma geração sobrevivam mais que duas fêmeas e um macho, duma população bastante numerosa (oriunda de cada fêmea fecundada), que afinal serviu para a sobrevivência de um grande número de populações de inimigos naturais que precisam desta "praga" (potencial!) para se manterem nos campos (Meierrose, 1990). É assim apresentado um exemplo duma espécie muito bem estudada, já que ainda não conhecemos outras de inserção ecológica entre as espécies “indiferentes”, mas é natural que, em princípio, não difiram do observado.

Papel da tesoura de poda Cada indivíduo desta potencial praga consome apenas uma diminuta parte da planta hospedeira, geralmente as sementes nuns frutos, ou, no início do seu ciclo evolutivo, também folhas. O peso final de cada pupa ronda os 200mg. Aí está, pensa o leitor atento, se come fruta num campo de tomate, é praga.

Que importa ser recurso natural de muitas populações de consumidores, se consegue comer o fruto do esforço do agricultor. Mais uma vez, é preciso observar com atenção: a planta cultivada, tomate para indústria, desenvolve ao longo da campanha de cultivo folhas, flores e frutos. 47


A estrutura da planta permite suportar cerca de 40 frutos maduros com + 100g cada, já que precisa para a maturação de cada fruto o funcionamento de 3 folhas completas. Como produz 120 folhas, no máximo, podem esperar-se uns 40 frutos. No entanto, encontramos ao longo das semanas, até 364 flores em simultâneo por planta (Meierrose, 1990). Fecundadas, elas formam frutos de tamanhos sucessivos de ervilha, noz, etc. É sobretudo nos frutos verdes que se e n con tram as pe qu en as larv as da H.armigera, com preferência para os de ervilha e noz. Observando bem, a função desta potencial praga é a de “tesoura de poda” que liberta os ramos da planta de um eventual peso excessivo de frutos que estragaria os ramos. A planta produz uma oferta de matéria vegetal muito acima do seu real potencial de produção de frutos. Cada um dos diversos fitófagos aproveita uma ínfima parte desta oferta, sem no entanto pôr em causa a saúde do seu hospedeiro. Cada uma das populações de fitófagos serve como recurso alimentar aos seus parasitoides, parasitas, predadores e superpredadores. Deste ponto de vista, a cultura apresenta-nos um sistema dinâmico de muitas espécies em interação. Se apenas estivermos habituados a reparar no que compete connosco, apenas veremos alguns insectos praga que "urge combater". Usando fortes insecticidas de modo repetido (e cego), alcançamos sobretudo as espécies que não vemos e que nos serviriam de auxiliar no combate à praga, já que esta, quando presente, se esconde por baixo do coberto vegetal, ao abrigo do produto, quando eventualmente já entrou mesmo em alguns frutos. O papel da tesoura de poda, que outras espécies de insectos assumem, é também observável nos citrinos.

Quem tenta contar o número de flores numa árvore de porte reduzido, rapidamen te desiste peran te a superabundância.

Pressupondo que cada flor se possa transformar numa laranja, percebemos rapidamente que a estrutura desta planta quebraria com o peso. Assim é possível que os micro-lepidópteros que consomem as flores sejam mesmo atraídos por substâncias voláteis da laranjeira para desbastar o que logo á partida não seria comportável pela árvore. Consideremos mais um exemplo de generosidade da natureza: - A longevidade de algumas oliveiras existentes na zona de Viana do Alentejo ronda comprovadamente mais de 3200 anos. Pensando na produção anual de azeitonas, admira-nos a quantidade de frutos oferecidas ano após ano, quando, para a substituição desta árvore bastaria uma única azeitona, de 3200 em 3200 anos. Será que não podemos partilhar alguns frutos com outros consumidores, tais como a mosca da azeitona? Um outro argumento se insinua: Como chegaram estas árvores a uma tal longevidade, quando a nossa ajuda à sua saúde não data de há mais de 150 anos? Como se resolveram os problemas das pragas sem nós? Não será que uma árvore velha contenha em si tanto os problemas quanto as soluções?! Ao estudar esta questão descobrimos a 48


interação entre fitófagos e os seus inimigos naturais, em equilíbrio dinâmico (Meierrose, C., 2013, in Boehm, 2013).

PROCURE PRESERVAR A SERRA DA ESTRELA SEMPRE QUE A VISITAR

Resistência a toxinas A lagarta de tomate, que também é lagarta do tabaco, do algodão, do milho e de 62 culturas chamadas de cash crop, como de um total de 250 espécies de plantas (Meierrose, 1990), possui um sistema enzimático que lhe permite desintoxicar as substâncias de autodefesa química das plantas hospedeiras, tais como os alcaloides do metabolismo secundário, a tomatina, a nicotina, a maizina, etc., e com este mecanismo consegue tornar-se resistente aos insecticidas. Resultado final: com insecticidas, as espécies de insectos tais como a H. armigera vêem-se libertadas dos seus inimigos naturais, enquanto uma parte da população se torna resistente e se transforma, graças à acção humana, numa verdadeira praga. Este exemplo é apenas um, que nos mostra as ricas interações entre a planta hospedeira, uma das suas pragas

potenciais e um número elevado de inimigos naturais desta, seus consumidores. Nesta cultura existem mais 4 ou 5 espécies de "lagarta", prole de borboletas que se contentam com uma pequena porção de folhas. Também estas têm algumas espécies, diferentes, de inimigos naturais. Para além dos lepidópteros existem afídeos (piolhos), moscas brancas e ácaros, para apenas mencionar mais algumas espécies, que igualmente atraem os seus consumidores que libertam a planta, no melhor dos casos, em pouco tempo, destas populações (Meierrose, 1990). Nenhuma destas espécies de insectos potenciais pragas que se alimentam de pequenas porções do seu hospedeiro, matam a planta (situação que ecologicamente não faria sentido).

Polinização em perigo? Um outro exemplo, este muito conhecido de insectos de grande impacto nos ecossistemas, são as abelhas, uma espécie (Apis mellifica) domesticada há muito, acompanhada na natureza por mais de uma centena de abelhas chamadas de "selvagens" (por não serem domesticadas entre nós, de produtividade de mel menor e diferente). Em conjunto com inúmeras outras espécies de visitantes de flores, tais como borboletas, moscas, coleópteros, e mesmo alguns vertebrados como colibris, ratinhos etc., estas abelhas assumem o papel da

polinização de um terço das espécies de plantas (cujo total é estimado em 260.000). Considera-se que um terço da alimentação humana depende da acção dos polinizadores. Só a abelha doméstica poliniza 93 espécies de plantas cultivadas, pontualmente acompanhada por mais espécies de insectos (http://en.wikipedia.org/wiki/List_of_crop_ p l a n ts _ p o l l i n a te d _ b y _ b e e s , f o n t e consultada em 04/03/2015). 49


Entretanto também são conhecidas 18 espécies inimigas naturais da abelha doméstica. No entanto, muitas destas afirmações são estimativas ainda não corroboradas por estudos pormenorizados. Estamos na fase de reconhecimento da nossa relativa ignorância dos factos essenciais para a compreensão do impacto ecológico dos insectos. Há já alguns anos, surgiram estudos sobre as consequências do declínio das populações de insectos polinizadores (http://en.wikipedia.org/wiki/Pollinator_de cline#Consequences) e dos efeitos das nossas intervenções na biosfera, como são

o cultivo de monoculturas muito extensas, o uso de insecticidas de banda larga e a incorporação genética de toxinas provenientes de bactérias, nas plantas cultivadas, fenómeno que parece alastrar para as plantas "selvagens". A interferência humana nos ciclos biológicos naturais torna-se cada vez mais perigosa já que cada especialização profissional considera apenas os seus objectivos imediatos sem reportar os resultados das suas investigações ao grande conjunto de funcionamento dos ecossistemas, onde proezas julgadas positivas, em laboratório, poderão ter efeitos extremamente nefastos, na natureza.

Da abelha doméstica aos insectos "indiferentes" Há uma crescente preocupação com a diminuição maciça do número de abelhas nas colmeias, devido aos insectos que não regressam dos seus voos de colheita de néctar e pólen, e a subsequente diminuição da produtividade não só em termos de efeito de polinização como em colheitas de mel, cera e pólen. Culpam-se os novos insecticidas, contra a utilização dos quais se desenvolvem grandes campanhas públicas em defesa das abelhas, argumentando com os efeitos económicos nefastos da sua acção.

a alteração climática, de que tanto se fala. Ainda outros procuram as causas na diminuição da biodiversidade geral devido às monoculturas e ao uso generalizado de herbicidas que eliminam as plantas hospedeiras das espécies de insectos "indiferentes”. A fragmentação dos habitats, a interferência provocada pela iluminação noturna de largas áreas geográficas, bem observável nas imagens da Terra a partir das naves espaciais, tem sérias implica ções nas migrações de insectos.

Quem há-de aproveitar desta atenção a uma espécie conhecida e muito apreciada de insectos, são as inúmeras espécies "indiferentes" que felizmente, entretanto, atraem também a nossa atenção.

Igualmente importante mas raramente tida em consideração, será a matança totalmente inútil provocada pelos veículos em movimentação nas estradas. Basta, após uma curta viagem em Portugal, contar as manchas no parabrisas (e de toda a frente) da viatura em deslocação. Cada mancha foi um insecto que nem sequer deixou outro rasto. Multiplicando o número obtido pelos carros em andamento, talvez corrigido pelos km de estrada e a frequência de uso,

Naturalistas observam um pouco por todo o lado que se vêem menos borboletas vistosas. Têm a percepção de uma diminuição da diversidade dos insectos em geral. Há quem atribua o fenómeno aos pesticidas. Há quem declare como culpada

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chegaremos a quantidades de biomassa desperdiçada que se junta às outras causas em consideração. Será que tanto impacto poderá ficar impune? Citação traduzida:

A sobrevivência da diversidade de artrópodes é essencial à propagação de animais superiores na teia trófica, i.e. as tais espécies que predam insectívoros e outros taxa que consomem artrópodes. Mesmo se se preservar a biomassa total, após a extinção de certas espécies de artrópodes, a estabilidade do ecossistema é comprometida pela redução do numero

de espécies. Ora, a extinção de espécies de artrópodes ameaça extinguir centenas de milhares, se não milhões, de aves, anfíbios, repteis e mamíferos (http://en.wikipedia.org/wiki/Endangered_ arthropods). Perante este aviso, projetos atuais que pretendem transformar vegetação arbustiva "inútil" em pellets ou noutras fontes de energia "sustentável" põem em perigo muitas das espécies "indiferentes" de artrópodes que vivem destas plantas mas que não são consideradas como sendo de interesse económico, entenda-se.

Como valorizar este recurso Fala-se de insectos como fonte de produtos químicos de interesse futuro, nomeadamente para a medicina humana, para lhes atribuir uma importância económica ainda desconhecida. Pensa-se ultimamente em insectos criados em grande escala para fonte de alimentação. Há povos asiáticos tais como os Tailandeses que consomem mais insectos na sua alimentação que aqueles que são capazes de produzir.

A entomofagia, como é conhecido o fenómeno, está profundamente enraizada neste povo, em demais populações asiáticas e começa também a interessar o mundo ocidental. Existe um interesse recente e acrescido pela procura de informação relacionada com espécies de insectos que se poderão criar em larga escala para suplemento ou substituição de alimentação de gado, de peixes em viveiros, ou para a própria espécie humana (http://www.cals.ncsu.edu/course/ent425/

text01/impact1.html). http://www.theepochtimes.com/n3/53635eat-more-insects-un-food-agency- says/ ). Entre nós, a ideia de consumir insectos, ainda parece muito “exótica”, mas com a crescente fome no mundo chegará o momento em que teremos, em termos de espécie humana, de alterar preconceitos. Para já fala-se de introduzir insectos nas dietas de peixes e gado.

Se inicialmente, as chamadas bio-fábricas produziam insectos afim de proteger as culturas contra os seus inimigos - as pragas, recentemente criam-se insectos para fins de alimentação humana.

É interessante notar que, para criar 1 kg de biomassa de insectos bastam 1,7 kg de alimento, enquanto que para cada quilo de bovino são necessários 8 kg de alimento 51


( http://www.nature.com/scitable/blog/labcoat -life/why_should_we_eat_insects , http://www.economist.com/blogs/graphicdetail/2013/05/daily-chart-11).

Insectos como bio-indicadores de pureza ambiental Uma outra utilização de determinados insectos é a sua sensibilidade à poluição aquática ou ambiental. Deste modo, certas espécies de libélulas são bio indicadoras da pureza e limpidez das águas, um capítulo aprofundado na Suíça, há mais de 40 anos, onde Reservas Naturais comprovam o estado inalterado da pureza das águas superficiais pela presença destas espécies. Outros insectos atestam pela sua presença em campos de agricultura biológica a ausência do uso de insecticidas proibidos neste modo de produção. A sua ausência, em certas alturas do ano, compromete pelas autoridades competentes a atribuição do certificado valorizador do produto.

Também este capítulo tem muito que se lhe diga, e basta colocar as palavras chave do título dos capítulos nos motores de busca da Internet, para encontrar muitas informações interessantes. Apenas uma das referências segue aqui:

J.Gerlach, M. Samway, J.Pryke, 2013, Terrestrial invertebrates as bio indicators: an overview of available taxonomic groups https://www.academia.edu/4137187/Terre strial_invertebrates_as_bioindicators_an_o verview_of_available_taxonomic_groups._J ourn._Insect._Conserv

Conclusão Quando desperta o nosso interesse para o mundo dos artrópodes, e em particular para o dos insectos, percebemos, por um lado, quão pouco ainda sabemos deste mundo que nos rodeia, seja individualmente, mas também colectivamente. Parece mais fácil sermos atraídos pelas plantas e pelos animais de maior porte, cuja biologia é conhecida há mais tempo. Não devemos, no entanto, esquecer que os animais superiores e muitas espécies vegetais dependem direta ou indiretamente dos invertebrados terrestres. As interações são muitas vezes desconhecidas. Por sua vez, estes invertebrados dependem da existência de muitas

espécies de plantas “economicamente indiferentes” que tratamos de “ervas daninhas”, cuja presença nos parece ser “suja”. A industria dos herbicidas faz um marketing muito eficiente quando convida, por exemplo, as municípios a “limpar” as margens das estradas – eliminando assim indiretamente tantas espécies desconhecidas de insectos que dependem delas. E depois, admiramo-nos da diminuição da biodiversidade? Muitas vezes assusta-nos a descoberta do nosso conhecimento limitado, bem como a necessidade de ter que dizer, com respeito aos insectos, que "ainda não sabemos".

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Estando ainda tão ocupados com o registo das espécies existentes, como poderemos perceber mais sobre as interações entre elas? Temos a impressão que estamos a frente de um sem fim de belas fotografias, mas que nos faltam os filmes que as ligam entre si. É verdade, temos uma tarefa imensa a nossa frente. Somos poucos perante tamanho desafio. Cada um, mesmo com imenso trabalho e dedicação, apenas consegue contribuir com uma pequena parte para decifrar esta enciclopédia, no local onde está escrita: na natureza a nossa volta. O que nos ajuda hoje é a possibilidade de reunir todos os conhecimentos existentes no site da Encyclopedy of Life, http://eol.org .

O melhor é começar, arranjando tempo para observar, atentos, porque o caminho não só é muito prometedor, como é também cheio de belas surpresas. Não devemos ter medo das perguntas que ainda ficam sem resposta. A pergunta é o motor da inteligência. Ela é a base de qualquer projeto de investigação, a possível fonte de financiamento, do desenvolvimento de metodologias, da obtenção de resultados, das publicações, das carreiras e da contribuição para o nosso objectivo: manter o globo “verde”. Espero, com estes poucos exemplos, ter conseguido contribuir para uma crescente curiosidade dos amantes da natureza, no que respeita ao impacto dos insectos em geral, e dos insectos "indiferentes" em particular.

Imagem obtida em: http://entomology.ces.ncsu.edu/wp-content/uploads/2014/01/Telenomus-podisi.jpg

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Tischler W (1990) Ökologie der Lebensräume, UTB 1535, Gustav Fischer Ed., Stuttgart, 356 pp Estimates for still unknown arthropod species numbers (consulted 11/3/2015) https://books.google.pt/books? id=fPAO6kfbizMC&pg=PA273&lpg=PA273&dq=estimates+for+unknown+arthropods&source=bl&ots=bsgfOyQOl&sig=u2I5WVWxjrBnfEcGDxqSE-tq4WY&hl=en&sa=X&ei=tAAVdP_NsPyUuiOgKgG&ved=0CC8Q6AEwAg#v=onepage&q=estimates%20for%20unknown% 20arthropods&f=false

Jonathan Adams (2009) Species Richness: Patterns in the Diversity of Life, Springer Ed., páginas 266 https://books.google.pt/books? id=fPAO6kfbizMC&pg=PA273&lpg=PA273&dq=estimates+for+unknown+arthropods&source=bl&ots=bsgfOyQOl&sig=u2I5WVWxjrBnfEcGDxqSE-tq4WY&hl=en&sa=X&ei=tAAVdP_NsPyUuiOgKgG&ved=0CC8Q6AEwAg#v=onepage&q=estimates%20for%20unknown% 20arthropods&f=false

Hardwick (1965) http://www.google.pt/url? sa=t&rct=j&q=&esrc=s&source=web&cd=32&cad=rja&uact=8&ved=0CE4QFjALOBQ&url=http%3A%2F% 2Fbiocache.ala.org.au%2Foccurrences%2Fsearch%3Fq%3Draw_taxon_name%3A%2522Helicoverpa% 2520armigera%2520commoni%2520Hardwick%2C%25201965%2522&ei=zOcAVdVIMH8UMyog2g&usg=AFQjCNFCZ8d4Fe366s__2Sv1lZ6qvQuauQ&bvm=bv.87920726,d.d24

Meierrose, C.& Araújo, J. (1986) Natural egg parasitism on Helicoverpa (Heliothis) armigera Hbn. (Lepidoptera, Noctuidae) on tomato in South Portugal - Journal of Applied Entomology 01/1986; 101:11-18. Meierrose, C. (1990) Luta biológica contra Heliothis armigera no ecossistema agrícola ‘tomate para indústria’. Interacções Cultura-Fitófagos-Antagonistas. PhD Thesis, Évora, Portugal.

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Silva I. M. M. & Stouthamer R. (1999) Do sympatric Trichogrammaspecies parasitize the pest insect Helicoverpa armigera and the beneficial insect Chrysoperla carnea in different proportions? Entomologia Experimentalis et Applicata 92: 101–107 Kluwer Academic

Publishers. Meierrose, C. (2013) Olivicultura biológica, in Jorge Bohm, Carlos Godinho, Fernando Coelho, 2013 - O grande livro da oliveira e do azeite - Portugal oleícola, Dinalivro Ed., ISBN 9789725766200 Polinização, Wikipedia, consultado em Março 2015 http://en.wikipedia.org/wiki/List_of_crop_plants_pollinated_by_bees

Endangered arthropods

http://en.wikipedia.org/wiki/Endangered_arthropods

Alguma bibliografia complementar Associação Internacional de Fabricantes de agentes de luta biológica http://www.ibma-global.org

Insects as human food http://www.cals.ncsu.edu/course/ent425/text01/index.html

Mobilization of soils by insects https://books.google.pt/books?id=2KzokTLIysQC&pg=PA452&lpg=PA452&dq=soil+insects+mobilize+soils&so urce=bl&ots=Y2hn8DMZHI&sig=ZTakWegqxgvA8dF11ftABIGhPdM&hl=en&sa=X&ei=e9X4VKDzNoTvUPmmgf AL&ved=0CFIQ6AEwBw#v=onepage&q=soil%20insects%20mobilize%20soils&f=false

Compost insects and other - picture http://www.fao.org/docrep/field/003/ab467e/AB467E05.htm#ch3.2.4.4

PROCURE PRESERVAR A SERRA DA ESTRELA SEMPRE QUE A VISITAR. GOSTARIAMOS QUE NÃO HOUVESSE RECOLHA DE LIXO NO ESPAÇO NATURAL. ESTARÁ A CONTRIBUIR PARA A SUA CONSERVAÇÃO E PARA A ECONOMIA DA SERRA SE DEIXAR O LIXO NUM ESPAÇO URBANO ONDE EXISTEM SISTEMAS DE RECOLHA ORGANIZADOS

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Outono na Serra da Estrela: uma experiência memorável por P.Mazzetti (Texto e fotos)

A convite do nosso amigo Siggi Matos resolvemos participar numa mini campanha de reflorestação e manutenção de caminhos na Serra da Estrela, a qual iria decorrer no penúltimo fim-de-semana de Novembro 2014. A partida estava agendada para 6ª feira á noite, 21 de Novembro. O grupo era formado por nove pessoas, alguns já com presença habitual nestas andanças, outros iam pela primeira vez. Infelizmente, devido a diversos compromissos profissionais e pessoais, a partida acabou por se realizar já muito tarde o que implicou chegada tardia ao local previsto de pernoita; o parque de campismo de Beijames, situado no triângulo formado pelas povoações de Verdelhos, Valhelhas e Vale da Amoreira. Após uma viagem sem grandes problemas lá chegamos. Á nossa espera estava o José Maria, um dos fundadores da Associação dos Amigos da Serra da Estrela (ASE) e proprietário do parque, que teve a paciência de ficar acordado noite dentro para nos receber. Após uma rápida troca de cumprimentos entre todos os presentes – porque a noite já ia adiantada e no dia seguinte começaríamos a trabalhar logo de manhã rumamos então para as instalações que nos estavam destinadas para dormir. No nosso caso era um confortável bungalow que apresentava a curiosidade de ser construído em tijolo, com acabamento em lousa de xisto. Após uma boa noite de sono reparador, que só pecou por ser curta, levantamo-nos de manhã, Sábado, 22 de Novembro, prontos para dar o nosso contributo para a manutenção e conservação deste belo património natural que constitui a Serra da Estrela.

Depois de termos bebido o cafezinho matinal na aldeia de Verdelhos tomamos então um caminho florestal que nos levou para sudoeste, acompanhando sempre o vale do rio de Beijames.

Quando chegamos ao local onde a acção se iria desenrolar apeámo-nos dos veículos e iniciamos a ascensão de uma encosta, por um trilho marcado no terreno pela ASE. Como íamos carregados com todo o material necessário; para além das mochilas individuais transportávamos também pás, picaretas e as arvores que seriam plantadas, a tarefa acabou por não se revelar muito fácil!

Todos nós sentíamos que estávamos a contribuir para a conservação desta jóia preciosa que é a Serra da Estrela! Mas á medida que subíamos a encosta o peso também ia aliviando pois os pequenos carvalhos que transportávamos iam ficando plantados no terreno, ladeando o trilho que estávamos a palmilhar. E desta forma se passou a manhã.

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Há hora do almoço, já tendo terminado a plantação, escolhemos um local com vista privilegiada sobre todo o vale do rio Beijames, para nos sentarmos a comer as sandes e as peças de fruta que transportávamos connosco.

O trabalho consistiu basicamente em desviar e transportar pedras para criar uma pequena muralha de suporte que servisse de sustentação ao assentamento das lajes que faziam parte do caminho propriamente dito.

A paisagem era deveras formidável e digna de ser apreciada. E o facto de estarmos ali, naquelas circunstâncias, ainda contribuía mais para valorizar aquele momento. No fundo todos nós sentíamos que estávamos a contribuir para a conservação desta jóia preciosa que é a Serra da Estrela!

Sendo um trabalho duro não deixa de ter a sua ciência já que é necessário escolher os calhaus com as formas mais adequadas e saber inseri-los correctamente na estrutura já existente. E a matéria-prima não faltava já que por perto existia uma cascalheira! Graças também aos conselhos e orientação do Zé Maria a obra ficou minimamente decente! Obviamente que não a conseguimos terminar. Esse também não era o objectivo (seria necessário um exercito de participantes para o fazer). Mas conseguimos reconstruir o caminho por mais uns metros. E graças às pequenas mas múltiplas contribuições desinteressadas como a nossa, a obra vai decerto aparecendo no terreno.

Terminada a frugal refeição e já mais reconfortados iniciamos então o período de trabalho da tarde, o qual foi fundamentalmente dedicado a reconstruir e conservar o trilho de montanha que tínhamos feito até ali.

Espera-se assim que dentro de alguns meses a Serra da Estrela tenha mais um percurso disponível para usufruto de todos aqueles que gostam do contacto com a natureza. Com o fim da tarde a aproximar-se demos por encerrada a nossa actividade. Pegamos então nas ferramentas e materiais que levamos connosco e descemos a serra em direcção ao local onde estavam os carros. Seguiu-se uma curta viagem até ao parque de campismo, onde foi possível tomar um bom banho, trocar de roupa e descansar um pouco até à hora do jantar. Para o repasto dirigimo-nos á vila de Manteigas onde pudemos saciar o apetite 57


na churrasqueira local com uns bons frangos assados, entre outros acepipes, acompanhados de um bom vinho tinto. Com o dia tinha sido de trabalho duro o apetite não faltou…

Terminada a refeição e paga a conta ainda fizemos uma pequena caminhada digestiva para ficar a conhecer melhor os recantos da vila. Depois foi pegar nos carros e seguir de novo para o parque de campismo, para mais uma boa noite de sono. O Domingo, 23 de Novembro, acordou bastante nebulado. Quando nos levantámos de manhã o nevoeiro cobria os campos escondendo as formas e as estruturas, conferindo um ar de mistério a tudo. O facto de estarmos num local situado num vale percorrido por um pequeno rio não era estranho á formação daquela neblina.

Mas á medida que a manhã ia avançando o sol começou no entanto a espreitar timidamente por entre as nuvens. O que era bom sinal já que para o dia tinha sido planeada a realização de uma pequena caminhada; a rota do Poço do Inferno, com 2,5 km de extensão e de uma grande beleza. Este caminho, que igualmente reconstruído e mantido pelos colaboradores da ASE, permite visitar a cascata do Poço do Inferno, local que constitui um monumento geológico de grande importância. O trilho seguido contorna os montes circundantes á cascata, atravessa a ribeira que alimenta aquele curso de água e na parte final percorre uma floresta de folha caducifólia.

É portanto um trilho bastante cénico e na altura em que o percorremos ainda estava mais valorizado porque, sendo Outono, a floresta estava coberta por um mar de folhas douradas, amareladas e avermelhadas. O percurso em si fez-se bem, mas com alguns cuidados e preocupações, já que a humidade da neblina – que nunca chegou a passar – tornava a pedra molhada e escorregadia. A chuva que apareceu em algumas alturas também não ajudou á progressão. No final do passeio ainda podemos contemplar a beleza do vale que se estende para lá do Poço do Inferno. 58


Sendo um local bastante arborizado estava igualmente revestido pelos belíssimos tons outonais que as folhas assumem nesta altura do ano, apresentando múltiplos cambiantes de castanho, amarelo e vermelho. Uma verdadeira festa para o olhar! Finalizada a caminhada e feitas as fotos da praxe, pegamos então nos automóveis e dirigimo-nos para um pequeno cafezinho que o Zé Maria recomendava e onde pudemos comer alguns bons petiscos! Como a hora já ia avançada a refeição constitui uma mistura de almoço com lanche. No final, apesar de a vontade não ser muita, despedimo-nos entre nós e iniciamos o regresso a Lisboa, dando por concluído este programa de fim-desemana.

Os nossos agradecimentos vão para o José Maria, que além de ser o nosso anfitrião, colaborou connosco nos trabalhos de plantação e manutenção de caminhos e serviu-nos de guia no percurso realizado no Domingo. Sendo um profundo conhecedor da serra, das suas gentes, do património cultural e natural da região, é uma presença quase obrigatória nos eventos que fazemos, ou participamos, naquela zona.

Almada, 13 de Fevereiro 2015 Grupo de Caminhada Obeta

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É sempre diferente. Só depende de cada um. Sobre ir e fotografar na Montanha Por João M. Gil (textos e fotografias) *

Já não vinha à Serra da Estrela há uns tempos. Há demasiado tempo. Ou por estar fora do país, no meio de grandes cidades e bem longe de quaisquer montanhas, ou mesmo em Portugal noutras zonas de montanha ou em altitudes baixas. Quis há poucas semanas voltar para um encontro onde se anunciou uma excelente ideia ovo-de-colombo, para um circuito pedestre de 50km e vários refúgios de montanha na nossa Serra da Estrela. Quis ouvir da fonte, sobre do que se tratava, assim como mostrar o meu apoio a essa ideia para uma Montanha melhor e mais sustentável. E, tal como me obrigam estes tempos de austeridade, com muito esforço e pouco sumo (daquele que me ajuda a pagar as contas), juntei o útil ao agradável, com a missão de capturar novas fotografias da bela Estrela. Tive a missão, para mim próprio, de fazer aquilo que gosto mais, no meu trabalho de Fotógrafo – Fotografar.

As seguintes fotografias são alguns exemplos, onde na legenda guio o leitor pelo meu caminho de união entre olhos, mente e coração, vendo e reparando naquilo à minha volta. E também assim, a Montanha é sempre diferente, de cada vez que se lá volta. Só depende de cada um. * Dados biográficos: João M. Gil é Fotógrafo profissional, de Paisagens, Gentes e Culturas. Co-autor do livro “Olhares Montanheiros”, escreve as crónicas regulares “Fotografias com histórias por detrás da lente” em Revistas de Fotografia, vende e expõe as suas fotografias, ensina Fotografia nos workshops/tours In Vivo e CAUSAS, no país e fora. Presta vários serviços de vídeo e fotografia de eventos, retrato, arquitetura, interiores, publicidade. É o fundador da Alma Lux Photographia.

Pondo de lado os romantismos, os objetivos de trabalho foram de recolher fotografias específicas. Houve que definir objetivos, apostar, planear, e depois executar com esforço. As ocasiões chegaram, e algumas tiveram que ser repetidas e re-ensaiadas. Mas em todas elas, houve um exercício de fundo, constante – fazer convergir os olhos, mente e coração. E porque faz sentido também fazer convergir um Cartier-Bresson com um Saramago, ocorre-me a frase 'se podes olhar, vê; se podes ver, repara' (do ‘Ensaio sobre a Cegueira’). 64


“Aconchega-te”, Vale do Rossim Sem grande luz para fotografar, registar o branco pode ser muito interessante, pintando-o com notas de negro. O que me atraiu nesta captura foi o gelo e neve cobrindo a rocha como um cobertor; a rocha da esquerda apoia-se inclinada como um braço; a copa da esquerda e do pinheiro da direita, também inclinados, aconchegam o resto. Ouve-se o silêncio.

“Nuas ao deitar”, Covão d’Ametade É o final do dia, num dia de Janeiro. A luz já baixa com uns tons dourados nos picos do Cântaro Gordo, iluminando de forma indireta as bétulas no interior do Covão, encontrando a penumbra. Nos troncos nus das velhas bétulas (vidoeiros) do Covão, há dois tipos de luz – do lado direito a tal luz mais morna, amarela e refletida pelos rochedos; do lado esquerdo a luz fria, azul e difundida pela neve no local. 65


“Danças na luz”, Covão d’Ametade O sol baixa, e eu e dois amigos já tínhamos encontrado um “camarote” para observar, admirar e fotografar a maravilhosa dança de nuvens que se desenrolava junto aos topos, entre os três cântaros. Chegam de Oeste, rebolando no ar, acima de nós. Ardem cor-de-laranja, à luz dos últimos raios de sol. As formas são magníficas e múltiplas. Às vezes aparecem as cores do arco-íris, no meio do vapor. Apreciei também como a luz das nuvens também por vezes iluminava as encostas do Cântaro Raso, na sombra.

“Mesmo ao lado”, Poço do Inferno No Poço do Inferno, o centro das atenções vai para o salto maior da queda de água. É incrível como atrai tantos olhares e máquinas fotográficas. Parece que não há mais nada. A meu ver, é todo aquele entorno que é bonito e merece atenção. Mesmo abaixo da queda, desde a ponte da estrada, mesmo ao lado, descubro o meu ponto de interesse, na erosão daquela água nas rochas. Neste preto-e-branco, os negros contrastantes com os brancos da água e com os brilhos na rocha molhada, abraçam aquelas águas da serra. 66


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Mondego em aguarela”, Covão da Ponte O Mondego flui transparente e livre, no Covão da Ponte. Vêem-se umas trutas, tímidas no fundo, por entre os raios de sol de inverno que vão entrando na água. Recordo-me de outra vez no local, também a fotografar, havia muitos anos. Tenho bem na memória as árvores da ocasião, e vejo que algumas já não estão presentes. Num determinado ângulo, também me recordo que tinha fotografado os troncos, não tendo então visto os postes de eletricidade no enquadramento. Desta vez evito o problema, estudo melhor o ângulo e … rodo a fotografia.

“El Dorado”, Nave de Santo António Esta fotografia, como bom exemplo do registo do Alpenglow, é para mim quadruplamente significativa. Primeiro, retrata um momento único e incrivelmente fugaz, quando os picos das montanhas refletem o dourado dos raios de sol no horizonte. Depois, foi um segundo dia de tentativa de estar preparado no local certo, à hora certa. Em terceiro, mais profundamente, representa a ironia de um local a que uns continuam a chamar estância de esqui, para esses um El Dorado, para a Montanha e pessoas locais um desastre. Em quarto lugar, porque representa para mim um retorno à Serra da Estrela, com esperança de mudança, com a criação de um circuito de caminhada e de refúgios no local.68


Pernas sexy”, Covão da Ponte Passados vários anos de lá ter estado a fotografar, também numa ocasião de Inverno, volto a encontrar estes pinheiros nórdicos (Pinus Sylvestris). Conheço-os muito bem, tendo resultado numa fotografia que faz parte do projeto “Horizontes Verticais”. Revejo-os com igual admiração e questionamento de então: o que levou estes três exemplares a curvarem os seus troncos, quando todos os outros estão direitos? Terá sido a sombra de outras árvores, quando nasceram?

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“Congeladas na dor”, Nave de Santo António A neve da manhã, na Nave de Santo António, estala debaixo das minhas botas. Depois de ter assistido a um Alpenglow magnificamente vermelho, nos cumes dos três Cântaros, é altura de voltar. Dou uma volta maior, com o sol a subir, entre o branco da neve, os castanhos dos penedos, o azul do céu, os traços amarelos na marcação da estrada, as cores dos carros que se apressam para a Torre, e as cores do graffiti nas ruínas do teleférico. Não haveria mais cores, por ali (ainda falta o meu equipamento, verde!). Concentro-me nas formas negras dos arbustos queimados pelo fogo. Vejo formas curiosas, que imagino me mostram a dor de quando as chamas passaram ali, entre opostos de fogo e gelo, vida e morte, entre cor e falta dela. 70


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Profile for Revista Zimbro

Zimbro Marco 2015  

Edição de Março de 2015 da revista ZIMBRO, editada pela ASE - Associação Cultural dos Amigos da Serra da Estrela

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Edição de Março de 2015 da revista ZIMBRO, editada pela ASE - Associação Cultural dos Amigos da Serra da Estrela

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