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+ SÃO PAULO, TERRA DE GAROA E DE ROCK + UBC TEM NOVO DIRETOR-EXECUTIVO + DJ HUM, ARNALDO ANTUNES, ROBERTA CAMPOS, MC SOFFIA

REVISTA DA UNIÃO BRASILEIRA DE COMPOSITORES #27 / FEVEREIRO 2016

RICA EM CANTORAS, NOSSA MÚSICA AINDA DEVE ÀS MULHERES MAIS ESPAÇO COMO COMPOSITORAS. SUELI COSTA (FOTO), ANA CAROLINA, ZÉLIA DUNCAN E OUTRAS CRIADORAS FALAM DESSA LUTA

AGORA É QUE SÃO

ELAS


JÁ DEU UMA PASSADINHA NA SUA CASA HOJE? O Portal do Associado é a casa dos nossos criadores na internet. Por meio dele você pode registrar ou alterar seus dados cadastrais, consultar créditos retidos, conhecer os números de arrecadação/distribuição do Ecad e da UBC e muito mais! Tudo com experiência de navegação perfeita tanto para seu computador quanto para os dispositivos móveis. Acesse portal.ubc.org.br e fique ligado nos seus direitos.


THALLES ROBERTO

REVISTA DA UNIÃO BRASILEIRA DE COMPOSITORES #27 : FEVEREIRO 2016

CANTADO

M

EDITORIAL

Por Manno Góes

Desde que Ch qu nha Gonzaga ompeu ba e as e p econce os ab ndo a as pa a novos o ha es sob e a mús ca p oduz da no nosso pa s a é os empos a ua s mu a co sa mudou Se an es as mu he es e am v s as apenas como musas nsp ado as de g andes canções ho e sabemos o quan o a pe cepção em n na con bu u com suas compos ções e o mas de se exp essa pa a cons u e en quece nossa mús ca nossa cu u a e nosso ap mo amen o a s co Nes a ed ção ep esen ada na capa pe o a en o pe a gen a dade e pe a s mpa a de Sue Cos a uma das nossas ma s mpo an es e e evan es au o as a UBC homenage a nossas s gn ca vas nsubs u ve s e a en osas c ado as

AGORA É QUE SÃO

ELAS

Compos ções são como hos E n nguém me ho que as mu he es pa a exp essa a a eg a e a de cadeza da a e de ge a nossas pequenas e va osas c as O au o ex s e As au o as ambém V da onga à UBC

NOVIDADES NACIONAIS

Em seu quarto álbum de estúdio, terceiro pela Deck Disc, a mineira Roberta Campos se supera. “Todo Caminho É Sorte”, como define o jornalista Marcus Preto, mantém a essência artesanal, autoral dos anteriores, mas, desta vez, ela se cercou de uma tropa de choque multitalentosa para dar um acabado ainda melhor à sua MPB pop cheia de bossa. Em parceria com Fernanda Takai, Roberta, que é autora, segundo conta, de mais de 400 canções, apresenta a delicada e tocante “Abrigo”. Com Marcelo Camelo e Marcelo Jeneci, nos vocais e nos teclados, respectivamente, traz “Amiúde”. Destaque ainda para “Minha Felicidade”, “No Tempo Certo das Horas” e “Cirandar”, cocriações com o amigo Danilo Oliveira, violonista clássico. Gravado ano passado, entre São Paulo e o Rio, o álbum tem a participação dos músicos Fabio Pinczowski (piano, teclados, sintetizadores), Adriano Paternostro (baixo) e Loco Sosa (percussão), entre outros amigos e parceiros de Roberta, como Jeneci, Danilo Oliveira, Jota Moraes, Zé Nigro e Marcos Suzano.

SE ESSAS PAREDES FALASSEM... Como não podem falar, as paredes do Beco das Garrafas, em Copacabana, no Rio, ganham ajuda para contar a história de grandes encontros que vêm testemunhando desde o início dos anos 1960. O músico Alex Moreira, do Bossacucanova, lança o selo Beco das Garrafas Records para registrar e eternizar shows que o mítico berço da bossa nova voltou a abrigar desde a sua reabertura, há pouco mais de dois anos, depois de um hiato em silêncio. Os três primeiros álbuns a sair serão os do trombonista Raul de Souza, do compositor João Donato e da cantora Cris Delanno. O material será disponibilizado também em streaming, pela plataforma Batuke Music.

A apropriação, pelas elites, do som da periferia, do gueto, fez mais bem ou mais mal ao estilo? Estamos em outra época! Hoje essa “nova” geração tem a tecnologia à disposição, com várias ferramentas de auxílio... A mensagem chega mais rápido ao público, e, assim, os investidores que trabalham com marketing aceitam melhor o rap. Antes, nossa divulgação era por meio dos discos e dos shows nos bailes blacks, com as equipes de som das periferias, e por meio de fanzines e jornais. O hip hop ganhou espaço porque o controle das empresas de mídia e marketing estratégico está nas mãos de uma geração que cresceu nos anos 1990, os filhos das elites que ouviram a nossa música. Eles estão abertos a novas propostas e ideias e aceitam as diferenças culturais e sociais. Nos anos 1990, brigamos pelos espaços, e o hip hop se tornou popular. O filho cresceu, e isso lhe fez muito bem. Ele só não pode se esquecer de onde veio.

FERNANDO TOCA JIMI

Tecnicamente, você também resgatou um certo método de fazer de antigamente? Ou usou toda a tecnologia empregada no rap/hip hop hoje em dia?

Parceiros no recém-lançado álbum “Universo Carapuça”, os compositores, músicos e amigos Lucas Fainblat e Marcos Frederico, ambos de Belo Horizonte, reuniram uma turma boa em torno do projeto. Em dez canções autorais e inéditas compostas pelos dois e por Flávio Henrique, Edu Krieger e Rômulo Marques, passeia-se por choro, bolero e bossa nova de maneira original e fluida. Thiago Delegado, João Antunes e Frederico Heliodoro são os instrumentistas mineiros que os acompanham na empreitada, com participação da cantora belo-horizontina Mariana Nunes e da portuguesa Susana Travassos. Também tocam com eles Carlos Walter (violão), Bruno Vellozo (baixo), Ricardo Acácio (pandeiro), Vinicius Ribeiro (baixo), Alaécio Martins (trombone), Felipe Bastos (percussão), Chico Bastos (cavaquinho), Clécio Araújo (fagote), Elisa Behrenz (acordeão), Geraldo Magela (violão de sete cordas) e Lucas Viotti (acordeão). Lançado em vinil e CD, “Universo Carapuça” foi apresentado pela primeira vez no final de outubro, num show em BH, e já começou seu voo por outros palcos.

A RIQUEZA QUE SUCEDE AO SILÊNCIO

CAPA : UBC/15

MC SOFFIA, A ‘PRINCESINHA DO RAP’ Ela tem só 11 anos, mas já fala alto quando o assunto é racismo. “Princesinha do rap”, como vem sendo chamada, MC Soffia ainda nem deixou o colégio na periferia de São Paulo, onde nasceu, mas já faz shows pelo país cantando canções explosivas que pregam o empoderamento da mulher negra. Em “África”, ela diz: “Que beleza suas danças/Que da hora suas roupas/ Essa cor, essa alegria/Eu trago como herança/Do continente africano eu não trago só o gingado/Trago conhecimento/Navio negreiro não foi apagado”. “Desde a infância as pessoas sofrem com o racismo. Eu não ia esperar crescer para cantar as coisas que me incomodam, entende? Quero mostrar para as meninas da minha idade que é bonito ter o cabelo crespo, que somos rainhas”, afirmou em entrevista ao jornal “O Globo” no fim do ano passado. Ela agora aposta no financiamento coletivo para produzir seu primeiro EP, “Menina Pretinha”, que tem previsão de lançamento no segundo semestre.

Elaborado pelo Conselho Internacional de Autores de Música (Ciam), e apresentado orginalmente em outubro de 2014 nos Estados Unidos, o “Estudo sobre compensação justa para criadores de música na era digital”, a cargo do economista e catedrático Pierre-É. Lalonde, acaba de ganhar tradução para o português por iniciativa da UBC. No trabalho, tema da reportagem de capa da Revista UBC 25 (agosto de 2015), Lalonde demonstra com farta numeração que grandes gravadoras recebem até 97% das receitas que fluem de streaming para todos os titulares de direitos musicais, deixando apenas 3% para serem divididos entre compositores, editores de música, outros titulares e administradores. Mais: Lalonde foi um dos primeiros a denunciar o valor de pouco mais de US$ 0,001 por taxa de transmissão pago por serviços como Spotify a intérpretes, com cifras ainda menores para compositores. O estudo completo pode ser lido em português em www.fairtrademusic.info, página oficial da iniciativa Fair Trade Music, criada no âmbito do Ciam para promover relações mais justas no mercado musical. Dois diretores da UBC, Geraldo Vianna e Ronaldo Bastos, integram o conselho internacional.

Foto: Bruno Sena

ZÉLIA DUNCAN

Foto: Roberto Setton

ELAS AGORA PASSAM A INSPIRAR

Leia mais sobre Sueli Costa na reportagem “Elas têm voz”, a partir da página 12

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Os demonstrativos de pagamentos da UBC aderem de vez à era digital. A partir do próximo pagamento, em março, os demonstrativos em papel deixam de ser enviados e estarão disponíveis para acesso de qualquer parte do mundo por meio do Portal do Associado (portal.ubc.org.br), na internet. Uma das principais razões para a decisão é cortar custos e garantir uma taxa de administração sempre baixa e enxuta. Com a medida, também esperamos evitar o desperdício de recursos naturais envolvidos na produção de papel. Um e-mail será enviado a você sempre que tiver um extrato à sua disposição no site. Se ainda não cadastrou o seu nos nossos sistemas, pode fazê-lo pelo telefone 21 2223-3233.

“Começamos a nos encontrar para organizar os lançamentos dos discos e pensar em projetos, em estratégias de divulgação e eventos”, contou Victor Chaves na época do lançamento. “Não somos um movimento, mas podemos ser”, completou outro fundador do selo, Gabriel Millet, das bandas Memórias de Um Caramujo (MPB, pop alternativo) e Grand Baazar (música balcânica cigana).

Para o baterista “poronguiano” Jorge Anzol, o esforço compensa: “Fomos a primeira banda de rock de Rio Branco a fincar bandeira em São Paulo, o que motiva as bandas de lá. É muito legal.” Cria própria da terra, o power trio de rock alternativo O Terno bebe na fonte de paulistanos – autóctones ou adotivos – graúdos, gente do quilate de Rita Lee, Arnaldo Baptista, Arrigo Barnabé, Tom Zé. Com o arrasador álbum de estreia, “66” (2012), e o segundo, “O Terno” (2014), premiado com o Troféu APCA e indicado ao Prêmio Multishow, Guilherme D'Almeida

Visto de longe, como deve ser apreciado um quadro grande, com muitos elementos, o panorama roqueiro de São Paulo já virou movimento há bastante tempo. A onda da autoprodução e as inúmeras parcerias surgidas entre diferentes integrantes das muitas bandas que habitam estas terras ou para elas convergem acabam criando um só corpo, um organismo colaborativo e de estética afim. E que pode se manifestar em outros coletivos, como o Avalanche Tropical, um amálgama de sons surgido em 2012 envolvendo o Holger, a Banda Uó, o Bonde do Rolê e outros criadores alternativos.

“Não faço a menor ideia de onde eu estou, em que lugar eu estou... O meu trabalho é fazer, e eu estou tentando fazer desesperadamente há 32 anos. O dia em que tiver a ilusão de que achei alguma coisa, tudo vai ficar sem graça, e eu não vou ter mais nada para falar. Tenho plena consciência de que, agora que eu espero fazer 50 anos, estou pronta para aprender”, conclui Zélia Duncan.

Naquela noite quente de dezembro, e apesar da agenda intensa de shows por todo o Brasil, eles não tocaram em São Paulo. Mas o fizeram João Gil, neto de Gilberto, e Bárbara Ohana, ex-backing vocal do mestre baiano e sobrinha da atriz Clauda Ohana. Cariocas com os pés e a cabeça fincados em Sampa, eles mostraram que o fermento indie-rock-eletrônico é tão forte que atravessa a ponte aeromusical e faz crescer a massa criativa também no balneário-metrópole. Mas isso já é assunto para outra apresentação...

“A gente está fazendo a parada que gosta, do jeito que gosta, sem grandes pretensões além de estar satisfeito. Então, realmente, nossa grande busca é sacar quem a gente é realmente, e não tem muito mais o que ser, a não ser nós mesmos, e se divertir para caramba com isso”, explicou o vocalista e guitarrista do Holger Marcelo Altenfelder, o Pata, ao site Noisey. Com um disco lançado a cada dois anos, deve vir coisa por aí, uma vez que o terceiro (e mais recente),

HELLBENDERS

HOLGER

Sua expertise em meios digitais e novos mercados será, segundo a presidente da UBC, Sandra de Sá, de grande importância para a UBC diante dos desafios vividos pelo negócio musical. “Marcelo é antenado, sensível para a música, para as necessidades dos criadores. Entende de arte, não só de números”, descreve Sandra. “Sem dúvida, a experiência dele com o mundo digital e mercados internacionais vai enriquecer demais a nossa atuação.” Para Castello Branco, a dinâmica vertiginosa do mercado exige atenção e ação com objetividade e ponderação. “Minha experiência de gestão em vários mercados obedece a uma vontade constante de aprender e de me renovar. Experiências de outros países e negócios são sempre importantes mas nem sempre replicáveis, dada a natureza particular de cada mercado. Não acredito numa só saída”, afirma o novo diretor-executivo, cuja nomeação faz parte do planejamento estratégico da diretoria da associação e foi decidida cuidadosamente, com o envolvimento de Marisa. A base deixada pela ex-diretora, destaca Sandra, foi fundamental para o início desta nova fase. “Toda transformação - e falo em transformação, em transição, porque não se trata de uma simples mudança de cargos - é altamente

CATÁLOGO INTEGRAL DOS BEATLES É DISPONIBILIZADO EM STREAMING Os administradores das obras de uma das maiores bandas de pop rock de todos os tempos fecharam um acordo com os principais serviços de streaming e passaram a disponibilizar todo o catálogo desde o último dia 24 de dezembro. Agora, os usuários de Spotify, Apple Music, Google Play, TIDAL, Deezer, Groove, Slacker, Rhapsody e Amazon Prime Music pode escutar as canções dos Beatles sem necessidade de descarregá-las. O montante do acordo não foi revelado, mas especialistas da indústria fonográfica especulam que a demora pode ter se dado em função dos conhecidos baixos repasses feitos pelos serviços de streaming aos criadores.

'MEGAPIRATA', KIT DOTCOM DEVERÁ SER EXTRADITADO PARA JULGAMENTO NOS ESTADOS UNIDOS

BMG GANHA AÇÃO CONTRA PROVEDOR DE INTERNET AMERICANO QUE “NÃO COIBIA” PIRATARIA Um júri federal do estado americano da Virginia condenou um dos maiores provedores de serviços de internet dos Estados Unidos, a Cox Communications, a indenizar a editora BMG em US$ 25 milhões por prejuízos decorrentes da pirataria dos seus clientes. De acordo com a sentença, além de não combater as descargas ilegais, a Cox tinha por prática reconectar o sinal de clientes que haviam sido pegos infringindo as leis de direitos autorais – crime que, em muitos estados americanos, resulta na perda de acesso à rede. Como a Revista UBC noticiou na edição 22 (fevereiro de 2015), as editoras BMG e Round Hill alegam ter alertado à Cox sobre infrações contumazes praticadas por cerca de 200 mil pessoas. Durante o julgamento vieram à tona e-mails em que o provedor de internet orientava suas subsidiárias a “manter cada assinante que tivermos. Ou seja, se ele perder o acesso (por pirataria), devemos reativá-lo o mais rapidamente possível depois de enviar uma carta de advertência.” O caso abre jurisprudência para a responsabilização de mais provedores nos Estados Unidos e, segundo analistas, pode servir de inspiração para decisões semelhantes em outros países.

Depois de quatro anos de adiamentos, Kit Dotcom perdeu. Tido como um dos maiores promotores da pirataria musical em nível global, o fundador do site MegaUpload teve sua extradição aos Estados Unidos deferida por um tribunal da Nova Zelândia, onde procurou se refugiar do processo a que é submetido pela Justiça Federal americana. Seu advogado afirmou que recorrerá ao Tribunal Supremo da Nova Zelândia para impedir a extradição. Kit, um cidadão alemão cujo estilo de vida ostentoso rivaliza em fama com o site pirata que criou, chegou a comparar-se a Julien Assange, fundador do Wikileaks, e a Edward Snowden, ex-agente da NSA. “Sou um mártir da liberdade”, afirmou. As informações são do diário espanhol “El País”.

ÓRGÃO REGULADOR AMERICANO MANDA PANDORA PAGAR MAIS POR STREAM O escritório regulador dos direitos autorais nos Estados Unidos (CRB, na sigla em inglês) determinou que o serviço de webcasting Pandora passe a pagar US$ 0,00017 por cada stream que tiver, valor pouco maior do que os US$ 0.00014 pagos ao longo de 2015. Webcasting é um serviço análogo ao de radiodifusão, mas baseado na internet e que, diferentemente de uma transmissão em FM, por exemplo, permite que a audiência escolha o que quer ouvir. O Pandora, que recentemente adquiriu outro serviço de webcasting, o Rdio, queria baixar ainda mais (para US$ 0,00011) o pagamento, já considerado insuficiente por inúmeros artistas.

ELAS

CAPA : UBC/13

12/UBC : CAPA

TÊM

ÀS VÉSPERAS DE MAIS UM DIA INTERNACIONAL DA MULHER, A LUTA DAS NOSSAS COMPOSITORAS É AUMENTAR SUA PARTICIPAÇÃO NUM MERCADO QUE, QUASE DOIS SÉCULOS DEPOIS DA PIONEIRA CHIQUINHA GONZAGA, CONTINUA DOMINADO PELOS HOMENS

Por Christina Fuscaldo, do Rio

SUELI COSTA

E CHIQUINHA ABRIU ALAS Foi somente em meados do século XIX que essa história começou. Na época, o piano era um objeto que traduzia claramente um status social numa sociedade escravista e colonizada. Mulheres já tocavam e até criavam canções, mas não se profissionalizavam como musicistas. Nascida em 1847, Chiquinha Gonzaga foi a primeira mulher a se firmar como compositora, tendo começado em 1877 com a polca “Atraente”. Entre mais de duas mil (!) composições, divididas em valsas, polcas, tangos, lundus, maxixes, fados, choros e serenatas, seu maior sucesso ficou marcado também como a primeira marchinha do Brasil. “Ô Abre Alas” foi escrita em 1899, quando Chiquinha já era uma artista consagrada. Enfrentando todo tipo de preconceito, ela conseguiu realizar o sonho de viver de música até sua morte, em 1935, aos 87 anos, e, sem dúvida, abriu alas para cantoras e compositoras, ainda que em velocidade aquém da desejada. “É muito bonito esse momento em que as mulheres começam a ter o próprio texto, a compor e dizer suas coisas... É muito significativo! Fazer parte disso é uma honra, nem sei se mereço. É uma coisa incrível essa de a mulher definir o que vai dizer. O Brasil é o país de grandes cantoras. Eu comecei a compor porque pensei: 'Tenho que ter meu texto, porque, como intérprete, eu estou concorrendo com muita gente boa'”, lembra a cantora e compositora Ana Carolina, autora de 150 canções.

Há quase um século (99 anos, mais precisamente), elas sacudiram as fábricas russas durante vários dias e, literalmente, deram a vida por melhores condições de trabalho, visibilidade e direitos similares aos dos homens. Neste próximo 8 de março, a luta não é cruenta, mas nem por isso deixa de ser importante. Donas de algumas das vozes mais destacadas da música, as mulheres ainda não têm o mesmo espaço como compositoras e se esforçam para ocupar seu merecido lugar na nossa arte.

DOLORES, MAYSA, SUELI: NOVOS ACORDES

Para se ter uma ideia do tamanho desse desafio, apenas 8% dos compositores filiados à UBC são mulheres. Nada que desanime a cantora e compositora Fernanda Takai, líder da banda mineira Pato Fu. Para ela, dona de 44 composições, o desejo de se expressar através de letras musicais cresce à medida que as mulheres conquistam mais posições na sociedade: “A história do nosso país é muito recente. A das mulheres (no poder) é mais ainda. Lembro que meu pai gostava muito de Dolores Duran e, quando ela morreu, ficou um vazio. Mas acho ótimo que esse espaço esteja se alargando, sendo conquistado... E que haja mais mulheres escrevendo música. É genuíno que, em um país com tão grandes intérpretes, vozes femininas também escrevam para falar diretamente através de uma canção.”

Nessa mesma época, despontou no mundo do samba uma grande mulher, a carioca Ivone Lara, que enfrentou a resistência machista e compôs, em 1947, o enredo da escola Prazer da Serrinha “Nasci Para Sofrer”. Mas sua fama veio somente na década de 60, momento em que outra mulher apareceu compondo, só que defendendo os ritmos nordestinos: ela se chama Anastácia, é pernambucana e foi esposa do acordeonista Dominguinhos.

CHIQUINHA GONZAGA

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Com o fim da produção musical de Chiquinha, afirma-se por aí que foi instaurado um vazio no universo das compositoras, que durou até os anos 1950, quando despontaram Dolores Duran e Maysa. Na década seguinte veio uma das nossas grandes compositoras, ainda em atividade: Sueli Costa. Mas um trabalho de pesquisa quase arqueológico mostra que, nas décadas de 1930 e 1940, três nomes também fizeram parte da história das mulheres na música e acabaram negligenciados pela falta de registros: Bidu Reis, cantora de rádio que produziu baiões, sambas e boleros; Dora Lopes, compositora com mais de 300 canções registradas em disco; e Carmen Miranda, maior símbolo brasileiro no exterior, cuja faceta compositora acabou abafada pela cantora e pela atriz. “Os Hôme Implica Comigo” é uma parceria dela com Pixinguinha que destaca a mulher brasileira como vítima do preconceito, tentando a todo custo viver em uma sociedade dirigida e organizada por eles.

Também representando o Nordeste, Glória Gadelha venceu em 1970 o terceiro festival de Música Popular da Paraíba com uma composição própria intitulada “O Mundo da Gente”, além de se destacar no programa de Flávio Cavalcanti, na TV Tupi. A cantora, compositora e acordeonista se formou em Medicina e renunciou à carreira para abraçar a música de vez. Casou-se com o maestro Sivuca nos Estados Unidos e criou diversas canções com ele. “Eu sempre estudei música, toquei violão e acordeão... Quando me casei com Sivuca, as circunstâncias me levaram à posição de liderança nos nossos trabalhos. Mas sempre houve dificuldade de aceitação (de uma) mulher no mundo da criação musical, (principalmente pelo) fato de ser companheira de um imenso músico internacional. Até hoje, tendo provado minha competência como compositora, escritora, instrumentista e cantora, as vendas do preconceito continuam obscurecendo as visões das pessoas.” O assunto, que já começara a ser tratado há 80 anos, continua atual, segundo Jessica Sobhraj, presidente do Women in Music, uma organização sem fins lucrativos fundada nos Estados Unidos em 1985, que vem trabalhando pela regulamentação da mulher nos diversos setores da música no mundo todo. “Enquanto as mulheres de qualquer categoria enfrentam problemas de discriminação, sofrem assédio sexual e são prejudicadas pela desigualdade salarial, as que estão na indústria da música também enfrentam o obstáculo de ter que navegar em nuances desta indústria com acesso limitado a recursos e conhecimentos. As mulheres sempre tiveram que trabalhar duro para estar nos holofotes. Nos últimos anos, temos notado uma quantidade crescente de mulheres tornando-se profissionais bem-sucedidas, e isso é o resultado de décadas de esforços de líderes feministas que vieram antes de nós. Continuar a promover o crescimento de profissionais do sexo feminino em nossa indústria é uma prioridade para nós. Queremos que as mulheres tenham igualdade de acesso às oportunidades”, afirma Jessica. Depois de Carmen, muita coisa mudou. A mulher ganhou cada vez mais espaço na vida política do país, e as cantoras de rádio tinham aberto os caminhos para as novas gerações ganharem dinheiro na vida artística. Dolores Duran começou como atriz de rádio e, logo, estava cantando em boates, impulsionada por amigos que acreditavam na sua música. Outro expoente feminino da década de 1950, Maysa também foi uma cantora que, para se firmar como autora de suas canções, rompeu barreiras: separou-se, parou de usar o sobrenome de casada e deixou o filho, Jayme Monjardim Matarazzo, para o ex-marido criar. Sorte dos fãs da artista, que gravou músicas próprias durante duas décadas, até pouco antes de sua morte prematura, aos 40 anos. Com letras românticas, beirando a depressão, Maysa também foi a rainha da dor de cotovelo. E, enquanto ela criava suas canções sobre amor e fossa no Rio, em Juiz de Fora (MG) a carioca Sueli Costa começava a dar os primeiros passos de uma carreira marcada por inúmeros sucessos - tantos que ela sequer sabe o número de músicas que criou ao certo (o Dicionário da MPB, de Ricardo Cravo Albin, elenca 95, grande parte em parceria com Abel Silva, Cacaso e Tite de Lemos).

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ANÁLISE : UBC/19

CRESCER

OBSTÁCULOS

COM MAIS DE 30 ANOS DE EXPERIÊNCIA NO SETOR DE MÚSICA E ENTRETENIMENTO, ELE ASSUME DESAFIO DE LIDERAR A MAIOR SOCIEDADE DE GESTÃO COLETIVA DO PAÍS NUM MOMENTO DE PROFUNDA TRANSFORMAÇÃO NO MERCADO

Do Rio

Com mais de 30 anos de experiência na indústria do entretenimento, Castello Branco é vice-presidente do Conselho Diretivo do Grammy Latino. Consultor internacional, criador da MCB – Music, Content, Branding e mentor de plataformas digitais e de crowdfunding, ele também foi presidente da Universal Music Brasil, Cone Sul e Península Ibérica e da EMI Music Brasil, América do Sul e Central. Durante sua carreira, Marcelo foi peça fundamental no crescimento da música brasileira aqui e em outros mercados, como a América Latina, Espanha e Portugal, e auxiliou grandes nomes da música a ultrapassar as barreiras e se beneficiar com os novos modelos de negócio.

Todos os anos, conforme determina o estatuto da UBC, é realizada, no mês de março, a Assembleia Geral Ordinária para prestação de contas e apreciação do balanço do ano anterior. A próxima não fugirá à regra e terá lugar na sede da UBC, no Rio de Janeiro. Fique de olho e participe, a sua presença é muito importante. A UBC é dos seus associados, portanto, cabe a eles apreciar as contas, verificar os números e tomar ciência dos resultados do ano. Conheça todos os detalhes sobre o dia e o horário da assembleia no nosso site (ubc.org.br).

PORONGAS

A Confederação das Sociedades de Autores e Compositores (Cisac) apresentou no fim do ano passado, na sede da Unesco, em Paris, o estudo “Tempos culturais – O primeiro mapa global das indústrias cultural e criativa”. A partir de um extensivo levantamento de dados financeiros e números de empregos gerados, o trabalho realizado pela consultoria EY quantificou, de maneira inédita, o impacto da indústria cultural na economia do planeta, com foco em 11 setores: arquitetura, artes visuais, artes cênicas, cinema, jogos eletrônicos, mercado editorial, mídia impressa, música, publicidade, rádio e televisão. A conta surpreende e faz pensar: somadas, essas indústrias geram um PIB global anual de US$ 2,25 trilhões, pouco mais do que toda a soma de riquezas produzidas pelo Brasil em um ano e mais do que movimenta o mercado mundial de telecomunicações, por exemplo. Com 29,5 milhões de empregos (cerca de 1% de toda a mão de obra do mundo), as indústrias cultural e criativa envolvem mais pessoas do que a produção de automóveis de União Europeia, Estados Unidos e Japão somados. Com 3,98 milhões de empregos, o setor de música fica atrás apenas do de artes visuais (6,73 milhões) e gera US$ 65 bilhões anuais, décima posição entre os onze setores, o que mostra o impacto de desafios recentes, como a pirataria, além de traduzir um enorme espaço de crescimento potencial.

“Holger”, saiu em 2014 e, como definem os rapazes, é marcado por “mais cabelo no peito”, mais tranquilidade e maturidade.

08-09

O ano de 2016 começou com uma grande mudança na estrutura administrativa da União Brasileira de Compositores. O executivo do mercado musical Marcelo Castello Branco assume em fevereiro o cargo de diretor-executivo no lugar de Marisa Gandelman, que ficará responsável pelas relações exteriores e institucionais da UBC. Desde o início de janeiro os dois vêm trabalhando juntos na transição.

UBC REALIZA ASSEMBLEIA GERAL ORDINÁRIA EM MARÇO Imagem: bordado de Caroina Hermeto

Foto: Fernando Torquatto

“Eu gostava muito de pegar o violão e dublar, fingir que estava tocando. Um dia minha mãe me flagrou, decidiu me mostrar os três acordes que ela sabia e me ensinou a tocar 'Ovelha Negra'. Com esses três acordes, eu consegui fazer um monte de músicas”, conta Tulipa Ruiz, que demorou a se assumir como profissional da música, mas já acumula 59 composições: “Acho que só consegui me relacionar com a palavra cantora quando comecei a fazer minhas músicas. E não foi fácil, porque sempre fui apaixonada por cantoras e compositoras. Vejo que, mais recentemente, principalmente, é que as mulheres começaram a compor sem medo. Elas têm arriscado mais.”

M

NO ANO EM QUE O PAÍS SEDIA O MAIOR EVENTO ESPORTIVO DO PLANETA, OS NOSSOS CRIADORES TAMBÉM ENFRENTAM DESAFIOS OLÍMPICOS. E NEM SEMPRE O OURO É GARANTIDO Os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro vão agitar o país em agosto. Antes disso, serão muitas as provas enfrentadas por nossos compositores, músicos, editores e administradores de repertório. Das contradições do poder público – que se intrometeu na gestão coletiva mas nem sempre faz a lição de casa, ou seja, não paga corretamente pelo uso de obras musicais em suas rádios e seus eventos – à persistente inadimplência de rádios e operadoras de TV, passando pela má remuneração dos serviços de streaming, os obstáculos são muitos.

benéfica por trazer um novo olhar, novas perspectivas. O mercado está em constante mudança, e é com felicidade que eu vejo a UBC mudando junto. Estamos fazendo uma aposta na sobrevivência, no agora, no futuro, porque a vida é assim. O Marcelo tem um amor muito grande pelo que faz, e eu tenho amor por ele”, ela diz. “Quanto à Marisa, a herança que ela deixa é benéfica. Qualquer um pode entrar no nosso site e ver claramente o estágio em que estamos, o que temos para apresentar. Só podemos caminhar para o futuro porque temos uma excelente estrada pavimentada. Agora, é seguir em frente.” A complexa transformação por que passa o negócio musical - marcada pela pirataria, o salto para o mundo digital, uma nova dinâmica na produção e na distribuição - instiga o novo diretor em seu trabalho. “O mercado de direitos autorais sempre foi prioritário no meu radar, e o momento é desafiador. É disso que eu gosto mais. Tem muita coisa acontecendo o tempo todo no mundo. Estou entrando numa sociedade líder em seu negócio, com 73 anos de uma história inspiradora, uma equipe e uma diretoria que respeito e um universo de titulares que admiro. A UBC tem tradição de futuro. A nossa agenda vai ser construída coletivamente, como corresponde”, conclui Castello Branco.

NÃO FAÇA O QUE EU FAÇO Enquanto se configura como um “grande irmão”, um ente vigilante da gestão coletiva, o poder público não dá exatamente um bom exemplo de correção. Acumulam-se os casos de inadimplência de rádios e TVs governamentais em estados e municípios. Além disso, em grandes shows e eventos ao ar livre, o sucesso de público não é garantia do correto pagamento. Quase dois anos depois da realização da Copa do

“ESTOU ENTRANDO NUMA SOCIEDADE LÍDER EM SEU NEGÓCIO, COM 73 ANOS DE UMA HISTÓRIA INSPIRADORA. A NOSSA AGENDA VAI SER CONSTRUÍDA COLETIVAMENTE.” Marcelo Castello Branco

FERNANDA ABREU

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A Rev

A exemplo do que ocorre na cena MPB, São Paulo virou terra para onde convergem bandas roqueiras de todo canto – com trocadilho, por favor. Não é à toa que o Hellbenders fez miniturnê por aqui em dezembro. O quarteto goiano, formado por Diogo Fleury e Braz Torres (ambos voz e guitarra), Rodrigo Andrade (bateria) e Augusto Scartezini (baixo), é um novo e feliz fruto da cena goianiense, que se esparrama por Sampa e já salta para voos bem altos. Na noite do show na Funhouse, eles mostraram as músicas do segundo álbum, “Hellbenders Especial Rancho De La Luna”, gravado no famoso estúdio californiano por onde já passaram Foo Fighters, Arctic Monkeys e QOTSA. Privilégio que chegou a convite do próprio dono do lugar, Dave Catching, que os viu – e aprovou – no festival texano South By Southwest em 2014.

INDÚSTRIA CULTURAL GLOBAL É MAIOR DO QUE O PIB DO BRASIL, REVELA ESTUDO

JOÃO GIL E BÁRBARA OHANA

Previsíveis é o que eles não são. Para debelar a lendária dificuldade de produção e distribuição de música experimental no país, criaram o selo Risco, pelo qual lançaram o segundo disco e forjam novas produções de diferentes bandas da cena alternativa paulistana. A lógica do artista operário que arregaça as mangas e põe a roda para girar determinou o encontro de gente com estilos muito variados. Se faltam apoio, grana, mídia, distribuição, nada como espantar o chororô e assumir as rédeas.

Diferentemente deles, que continuam com um pé em Goiânia e muitos tentáculos por diversas partes, os acreanos dos Los Porongas se fixaram de vez em São Paulo. Uma das melhores revelações do rock nacional em muitos anos, o grupo, surgido há 13 anos, em Rio Branco, e estabelecido há quase oito na capital paulista, tem girado o país apresentando as dez canções do novo álbum de estúdio, “Infinito Agora”, títuloemblema da onda que o quarteto vibra no momento.“Não há dúvida de que São Paulo virou um polo de atração para músicos. Mas o mercado de shows no Brasil é um não mercado, não temos uma oferta, fomos para São Paulo acreditando que teríamos um circuito de shows, coisa que não aconteceu, por isso é uma batalha diária”, opina o vocalista Diogo Soares, fazendo coro com o que pensa o xará do Hellbenders.

CORRIDA DE

É O NOVO DIRETOR-EXECUTIVO DA UBC

Lançado em março do ano passado nos Estados Unidos, o serviço de streaming Tidal, parceria do rapper Jay Z com artistas como Kanye West, Rihanna e Beyoncé, chegou em setembro passado ao Brasil. Um dos principais rivais do Spotify, o Tidal surgiu, nas palavras de Jay Z, para “remunerar melhor” os artistas. Tradicionalmente, serviços de execução de músicas na rede são acusados de fazer repasses insuficientes aos criadores. No país, o serviço tem duas modalidades de pacotes: o premium, que dá acesso a todo o catálogo por R$ 14,90 por mês, e o de alta qualidade, que, sem compressão e “com qualidade de vinil ou CD”, cobra R$ 29,80 mensais dos assinantes. Diferentemente do que ocorre em outros serviços, não há uma opção de pacote gratuito. Novos usuários, contudo, podem prová-lo de graça por um mês. Não há anúncios no Tidal. O serviço está disponível no site www. tidal.com, na iTunes App Store e no Google Play.

Seguras ou não, respeitadas ou impostas, todas elas realizaram o sonho de viver do que amam e dão orgulho ao Brasil por representar o país por um de seus melhores bens: a música. Ainda sem regulamentação, a profissão dessas mulheres promete ser pauta de muitas discussões para que, cada vez mais, as compositoras tenham seu lugar garantido na sociedade e que, no futuro, não haja necessidade de dúvida quanto à flexão do gênero na hora de escrever na ficha do hotel: “Profissão: Compositora”.

ÍNDICE

Por Alessandro Soler, de São Paulo São 23h de uma quinta-feira quente de dezembro, e o Beco 203, no Baixo Augusta, região que é o epicentro da renovação musical paulistana desde meados da década passada, nem começou a encher. Mas encherá. Transbordará ávidos roqueiros, que se espalharão entre sua pista regada a sets de indie e a vizinha festa Surdina, na boate Funhouse, onde, em noite garage-hard-metal, haverá apresentações dos goianos Hellbenders e dos curitibanos Water Rats. Alguns dos convivas que transitam nesse eixo chegam do Sesc Pompeia, um dos palcos mais constantes na nova cena rock da cidade. Outros virão do Alberta #3, na cêntrica Avenida São Luís, que tem happy hour roqueiro e pocket shows. Haverá ainda quem dê uma passada a caminho do Bar Secreto, em Pinheiros... O vaivém é constante e fervilha. Não podia ser diferente. Depois de fagocitar a música eletrônica e espalhar seus genes pelo pop que se faz por aqui, o rock se reinventa como símbolo máximo da juventude alternativa nesta metrópole de todos os estilos. E faz barulho, muito barulho.

18/UBC : ANÁLISE

MARCELO CASTELLO BRANCO

DEMONSTRATIVOS DE PAGAMENTO PASSARÃO A SER 100% DIGITAIS

SERVIÇO DE STREAMING DE JAY Z CHEGA AO BRASIL

Isabella Taviani deixa que digam, que pensem, que falem. Ela assume o que faz de melhor: cantar suas composições. Talvez pelo fato de ter pego o embalo dessas mulheres maravilhosas, vendo-as alcançarem seus objetivos sem saber o esforço feito por elas, começou a carreira se sentindo menos cobrada. Hoje tem 125 músicas de sua autoria. “Preconceito por eu ser mulher na música nunca existiu. Acho que foi até uma vantagem… Quando eu era adolescente, meus ídolos, Elis Regina, Simone e Maria Bethânia, não compunham. Mas eu me encantei também por Adriana Calcanhotto, Fátima Guedes, Sueli Costa, e aquilo foi fazendo parte da rotina da MPB. As mulheres não mais só tocavam o coração dos outros, elas também começaram a pegar seus violões para compor. Aí virou quase que uma consequência: se você é cantora, então precisa compor material inédito. Acho que me senti obrigada a compor”, diz Taviani.

ROCK ‘N’ ROLL. GÊNERO: FEMININO Na década de 1960, grande parte das sugestões, das ideias e das inovações na música dos Mutantes eram propostas por Rita Lee, que levou o bom humor de suas sacadas às canções que compôs em carreira solo, após sair da banda, em 1972. Em parceria com seu segundo marido, Roberto de Carvalho, escreveu seus maiores sucessos. Rita Lee é considerada a primeira compositora de rock do Brasil e virou referência para diversas mulheres que seguiram a carreira artística.

A segurança e a autoestima são mesmo conquistas recentes para essas mulheres que exalam música. Expoente da década de 1980, década em que integrou, como backing vocal, a banda Blitz, Fernanda Abreu é outra que, apesar

Acho que aumentou demais a (produção de) música de má qualidade. A minha geração sempre buscou o acorde bonito, a superação, a letra trabalhada. Hoje você vê dois acordes e pronto. Como dizia o Tom (Jobim), ainda nem aprenderam o terceiro acorde. O bom é que, quando está muito ruim, eles pedem socorro à gente (risos). Quando ninguém aguenta mais, chamam a gente de volta. Acredito que tenha gente boa, uma possibilidade de renovação. Mas faltam oportunidades. Embora a internet possa ser uma saída.

NOTÍCIAS : UBC/17

ESTUDO SOBRE DISTORÇÕES DA ERA DOS STREAMINGS GANHA TRADUÇÃO PARA O PORTUGUÊS

ISABELLA TAVIANI

“Joyce é uma compositora incrível e uma violonista maravilhosa. Ela gosta de contar uma história. Um dia um cara disse para ela assim: 'Nossa, você toca tão bem que parece um homem tocando'. Só que ela é uma mulher incrível com M maiúsculo e toca tão bem quanto uma mulher pode tocar. Essas mulheres que persistiram e tiveram atitude perante a sua obra me chamavam muito a atenção. Acho que é um legado que deixaram para a gente”, diz Zélia Duncan, que assina 152 músicas. “Rita Lee e Marina são muito importantes para todos nós da minha geração, que é a mesma de Adriana Calcanhotto e Marisa Monte. Mas, sem dúvida, a Rita é uma desbravadora de uma fase contemporânea muito séria, muito intensa. Ela chegou, e dizendo ainda que é mais macho que muito homem! A Rita inspira a gente a ser autoral na vida.”

Você crê que a nossa música, então, vive um mau momento?

16/UBC : NOTÍCIAS

ANA CAROLINA

RITA LEE

Melhoram muito quando tenho música em novela. Agora mesmo eu estava com “Medo de Amar Número 2”, em “Sete Vidas” (TV Globo). Mas o quadro geral da música brasileira anda meio estranho. O espaço para a boa música no nosso país parece que tem caído uma barbaridade. Cada um ouve o que quer, mas também precisa haver espaço para a música de qualidade.

A cantora e compositora Luiza Caspary é a primeira artista inclusiva, e não exclusiva, da plataforma de vídeos Vevo. Seus clipes e shows trabalham com a questão da acessibilidade e contam com audiodescrição e tradução para Libras (língua brasileira de sinais).

RO CK SP

Apesar da sorte que tiveram e da convergência de talento na cena independente, eles veem espaço para mais. “Precisamos de mais mobilização, mais casas especializadas, mais divulgação. Isso permitiria o crescimento saudável do circuito”, afirma Diogo.

FIQUE DE OLHO de tantos anos de sucesso como cantora e compositora em carreira solo, não assume até hoje o que ela realmente é. “Não me sinto nem cantora nem compositora… Eu me sinto mais uma comunicadora! Não tenho essa voz toda, como Elis Regina e Alcione, e tampouco me sinto compositora como Chico Buarque e Djavan. Acho que o que tenho de mais interessante é que, no meu processo de construção, a estética é parte fundamental da minha linguagem musical. Isso traz uma singularidade ao meu trabalho dentro da MPB e acredito ser esse o diferencial da minha música e das minhas composições”, afirma Fernanda Abreu, 68 composições.

TULIPA RUIZ

Contemporânea de Sueli, Joyce surgiu tocando violão e escrevendo músicas na primeira pessoa do singular, causando um escândalo logo em sua primeira apresentação, no Festival Internacional da Canção de 1967, com a música “Me Disseram”.

Com tantos sucessos, como avalia os ganhos com direitos autorais?

OOOPS!

Xote, jazz, samba. É, mais uma vez, rico e complexo o universo percorrido por Djavan em “Vidas Pra Contar”, seu 23º disco. Quase sem parcerias, o trabalho, com 12 canções inéditas, foi concebido no silêncio do seu estúdio Em Casa, que fica, como a UBC mostrou na edição 14 (setembro de 2012), em sua própria casa, na Zona Oeste do Rio. “Faço música e letra desde o início. Gosto dessa coisa solitária de sentar e fazer música”, disse em entrevista ao jornal “O Estado de S. Paulo”. Nos dias 11 e 12 de março ele dará início, no Citibank Hall, em São Paulo, a uma longa turnê de lançamento do trabalho que coroa os 40 anos de uma carreira de êxito, homenageada com um troféu especial na última edição do Grammy Latino, em novembro.

Foram sete discos gravados, o último em 2007. Tem muita coisa inédita ainda? Planos para um novo álbum? O novo deve sair em 2017, quando comemoro os 50 anos de carreira. Tenho inéditas suficientes para fazer um disco ou mais. Depois de ter sido gravada por (Maria) Bethânia, Nana (Caymmi), grandes cantoras, não dá vontade de regravar sucessos, não teria graça (risos). O último disco foi quando completei 40 anos de carreira. Chamei, além delas duas, a Simone, que também está entre as que mais me gravaram, e três pessoas mais novas, o Gabriel Gonzaga, filho do Gonzaguinha, a Fernanda Cunha, minha sobrinha, e o Celso Fonseca. Foi muito surpreendente a quantidade de discos que eu vendi, a repercussão foi enorme. Mas ainda tinha loja de música física, era outro momento. O processo foi todinho independente. Fiquei quase doida, mas foi um barato. Eu ficava a madrugada inteira no site, recebendo pedidos e enviando. Agora vou ter que aprender tudo sobre o meio digital (risos).

Diferentemente do que informamos na edição anterior, a canção “Demônio Colorido” foi composta apenas por Sandra de Sá.

FERNANDA TAKAI

Para a grande compositora, até hoje faltam mulheres nesse meio. “Mas as vitórias que já tivemos são muitas. Nossa, como mudou o mundo nesses 50 anos! Hoje, nós, mulheres, estamos entre os melhores profissionais, conquistamos espaço. Outro dia li uma entrevista de uma estrela de Hollywood que reclamava da ausência de bons papéis para as mulheres nos filmes. Se ela soubesse como era no meu tempo… (risos).”

Foi sorte, sim. Muita. Me sinto privilegiada, e ter começado bem me pôs para cima, me fez continuar. Segui em frente, sem me importar com o sucesso. Isso, sim, trabalhando muito, sem parar de criar.

NOVIDADES INTERNACIONAIS

(baixo), Tim Bernardes (guitarra e voz) e Biel Basile (bateria) produzem um som indie, lírico, elegante, internacional, mas salpicado de referências bem locais. “Eu confesso/Que gosto das moças do bairro onde eu moro/Do estilo indie-hippie-retrô brasileiro/Que habita os bares e ruas daqui/E eu não quero deixar ninguém ver que eu sou mesmo/O que pensam de mim quando me veem na rua/Classe média enjoada com pinta de artista/Será que eu sou tão previsível assim?”, diz a gostosa e autoirônica letra de “Eu Confesso”, composta pelos associados Guilherme e Victor Chaves (ex-integrante da banda) e pelo companheiro Tim Bernardes.

O TERNO

A METRÓPOLE PARA ONDE TUDO CONVERGE VIVE UMA CENA INDEPENDENTE EXPLOSIVA, MAS, COMO DEFINEM SEUS INTEGRANTES, AINDA COM MUITO ESPAÇO PARA CRESCER

NOTÍCIAS : UBC/11

10/UBC : REPORTAGEM

PELO PAÍS : UBC/9

8/UBC : PELO PAÍS

Há 55 anos você compôs sua primeira canção, “Balãozinho”. Há quase 50, em 1967, teve a primeira música gravada, “Por Exemplo Você”, por Nara Leão. Ou seja, começou cedo e com o pé direito, não?

06-07

Foto: Teca Lamboglia

MODELOS QUASE SEMPRE MASCULINOS A ausência de referentes femininos era tamanha que Sueli atribui aos amigos músicos mineiros, todos homens, o gosto pelo ofício: “Até meados da adolescência eu tinha muitas amigas. De repente, do nada, fiquei só com amigos homens lá em Juiz de Fora. E coincidiu de todos eles serem ligados à música. Acho que foram esses amigos que me despertaram o desejo de viver da música. Naquele tempo eu só respirava música, falava de música, pensava em música. As únicas mulheres do nosso grupo eram as namoradas e esposas deles. Eu não conhecia nenhuma outra que se envolvesse com isso. Todos se perguntavam: que mulher é essa? (risos).”

SUELI COSTA CRITICA O QUE CHAMA DE EXPANSÃO DA “MÚSICA RUIM” E, COM QUASE 50 ANOS DE CARREIRA, NÃO PARA DE PRODUZIR

OPS!

04-05 14/UBC : CAPA

Prestes a completar 50 anos de uma bem-sucedida carreira coalhada de sucessos, a compositora, instrumentista e cantora Sueli Costa continua inquieta como “nos tempos de Juiz de Fora (MG), quando só respirava música”. Com material inédito suficiente para mais de um disco, como descreve, a carioca criada em Minas planeja um álbum para celebrar seu meio século de envolvimento com a arte. O último, “Amor Blue” (2007), foi produzido e distribuído de forma totalmente independente, o que lhe consumiu madrugadas recebendo, pelo site, pedidos de envio de novas cópias para lojas de todo o Brasil. Os tempos são outros, e, agora, ela diz precisar aprender tudo sobre a distribuição digital. Só o que não mudou é sua disposição: “Apesar de dar desânimo a qualidade atual da nossa música, acho que, quando cansam de (ouvir) coisa ruim, acabam voltando para a gente”, ela ri.

Foto: Canal Brasil

Vamos dizer que resgatei e fiz uma mistura louca! Tem samplers misturados com sons orgânicos, e utilizo o tocadiscos como instrumento musical interagindo com a banda, criando uma atmosfera vintage, inovadora e atual. No show, o repertório tem releituras de clássicos da música negra nacional, samba-rock, grooves instrumentais, disco music, rap, jazz funky dos anos 70, além de sucessos da minha carreira e sons do novo disco, como o single de estreia “Vem Pro Baile”, o samba rock “Sunset” e o new bossa “Ilha Bela”.

A CARAPUÇA SERVIU – E AGRADOU

‘QUANDO ESTÁ MUITO RUIM, ELES PEDEM SOCORRO À GENTE’

Foto: Leandro Neves

O músico carioca Fernando Vidal tem rodado o país numa aclamada turnê em que toca clássicos de Jimi Hendrix. "Purple Haze", "Fire", "Voodoo Child", "The Wind Cries Mary" e "Litlle Wing" são algumas das músicas que ganharam potente versão na guitarra de Vidal, músico e compositor que soma inúmeras parcerias com Marina Lima, Ronaldo Bastos, Fernanda Abreu, Fausto Fawcett e Zélia Duncan, além de participações, como músico, em trabalhos de Gabriel O Pensador, Gilberto Gil, Daniela Mercury, Lenine. Paralelamente ao projeto em homenagem a Hendrix, que marca os 35 anos de carreira de Vidal, celebrados este ano, ele também tem tocado com Seu Jorge e Marina e no seu Fernando Vidal Trio. “Nada como comemorar com grandes amigos ao meu lado, tocando e cantando a atemporal arte de Jimi”, ele diz.

Foto: Murillo Meirelles

Venho da geração dos bailes blacks. Festa de preto era para preto, e festa de branco era para branco, em raras exceções havia mistura. Musicalmente falando, havia uma linha imaginária que dividia os estilos e as classes sociais. Foi somente com a chegada da cultura hip hop, por meio do break, que começou a miscigenação cultural e musical que conhecemos. As reuniões nas ruas eram reprimidas, fossem para ouvir um som, treinar ou discutir questões políticas, então o nosso templo era o baile. Nossa missão foi desbravar esse caminho e inserir na sociedade uma nova maneira de se pensar e fazer música. Havia muito preconceito, lidávamos diretamente com uma elite conservadora, que ainda não aceitava a popularidade da música negra, cujos responsáveis eram os disc jockeys. Passados 25 anos, percebi a necessidade de lançar um disco em homenagem à cultura de baile, com músicas inspiradas nas pistas, visitando gêneros pouco conhecidos pela grande maioria. Faço parte da história viva da formação do movimento hip hop no Brasil, no início totalmente influenciado pelas tendências soul e black music dos anos 1970 e 1980, e quis narrá-la de uma maneira musicada.

Os americanos têm uma outra visão sobre o Brasil. Talvez o Ja Rule tenha falado isso sem conhecer a realidade social, cultural e econômica do Brasil. Não dá para comparar! Mesmo um artista fazendo um rap que estoure e se torne comercial nunca vai ganhar grana igual à do americano. Em 2005, ganhei o Prêmio Multishow com o grupo que montei, o Motiro, responsável pelo estrondoso sucesso da música “Senhorita”. Tocou em todas as rádios, fizemos shows e conseguimos pôr o rap no mainstream. Isso não nos deixou milionários. Penso que o Ja Rule quis dizer: rappers, não sejam hipócritas; assumam que querem ganhar grana e viver da indústria do entretenimento! Mas ainda temos fome, desigualdade social, má gestão econômica, péssima política de educação... O nosso rap reflete isso, é sobre isso que falamos… Embora também tenhamos diversão. Praticamos esporte, namoramos, queremos conforto, carro, casa própria, ser felizes. E nosso rap reflete isso também. Estamos no caminho certo.

ROBERTA CAMPOS: A MESMA SUPERAÇÃO

Foto: Mario Rodrigues

A sonoridade “saudosista” salta aos ouvidos de cara no disco. Qual foi a intenção? Resgatar um tempo “melhor” no mundo da black music?

ARNALDO NA PRAIA Em 24 anos “fora” dos Titãs (mas, eventualmente, ainda engajado em projetos pontuais com os ex-companheiros da banda), Arnaldo Antunes havia lançado, até setembro passado, 16 álbuns de estúdio. Tão rica produção carecia de um tempero carioca. E ele é farto em “Já É”, primeira parceria do compositor com o produtor Kassin. Pródigo em composições divididas com Marisa Monte, o trabalho, com 15 canções, tem participações de peso, como Carlinhos Brown, Cezar Mendes, Dadi Carvalho, Davi Morais, Pedro Sá e Domenico Lancellotti, entre diversos outros bambas. Vindo de uma fase vertiginosa em que “gravava um disco por ano”, como define, ele parou tudo e imergiu num período sabático de pouco mais de seis meses, em que visitou de Paraty (RJ) à Índia, de Nova York a Milão, e trouxe de cada canto novas ideias e composições. No ano passado, assentou-se por algumas semanas no Rio, onde se deu a gravação, e o resultado é “o disco menos tenso que já gravei, o mais tranquilo”, segundo contou em entrevista ao diário “O Estado de S. Paulo”. “Foi maravilhoso ter ido para o Rio, gravar com a galera lá”, diz o músico paulistano. “Deu uma renovada no meu trabalho.”

Uns anos atrás eu entrevistei o rapper americano Ja Rule, que criticou os colegas brasileiros, dizendo que eles deveriam aprender com os americanos, que sabem ganhar dinheiro, não ficam focados em questões “políticas ultrapassadas” e, falando de mulher, carrões e grana, “se dão bem”. Você acha que há mesmo essa dicotomia entre o rap daqui e o de lá?

Foto: Bruno Barreto

O samba-rock, o soul e o groove não morreram e, no que depender de um de seus maiores conhecedores no país, o DJ Hum, terão ainda vida longuíssima. Engajado no projeto Expresso do Groove, ele lançou o álbum homônimo coalhado de delícias dançantes que prestam homenagem nada saudosista ao melhor da black music, seara em que milita desde 1985, no apagar das luzes do regime militar. “Faço parte da história viva da formação do movimento hip hop no Brasil. Quis narrá-la de maneira musicada”, resume.

NOTÍCIAS : UBC/7

6/UBC : NOTÍCIAS

Por Alessandro Soler, de São Paulo Em alguns momentos, o hip hop entra em cena com rap e scratch, tudo num clima oldschool. O show é uma grande festa, um baile ao vivo com 11 músicos no palco e DJ. Já no disco, procurei usar na produção ferramentas digitais que são essenciais, mas mantenho vivos o sintetizador Moog, o DX7, a percussão, a bateria acústica, e por aí vai.

Foto: Rui Mendes

UM DOS MAIORES ESPECIALISTAS NO GÊNERO NO PAÍS, O DJ HUM LANÇA O DISCO “DJ HUM E O EXPRESSO DO GROOVE”, UM PASSEIO HISTÓRICOMUSICAL PELAS ORIGENS DA BLACK MUSIC NACIONAL

Foto: Ariel Martini

NOTÍCIAS : UBC/5

4/UBC : NOTÍCIAS

'O HIP HOP SÓ NÃO PODE SE ESQUECER DE ONDE VEIO'

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4/UBC : NOTÍCIAS

NOVIDADES NACIONAIS

'O HIP HOP SÓ NÃO PODE SE ESQUECER DE ONDE VEIO' UM DOS MAIORES ESPECIALISTAS NO GÊNERO NO PAÍS, O DJ HUM LANÇA O DISCO “DJ HUM E O EXPRESSO DO GROOVE”, UM PASSEIO HISTÓRICOMUSICAL PELAS ORIGENS DA BLACK MUSIC NACIONAL O samba-rock, o soul e o groove não morreram e, no que depender de um de seus maiores conhecedores no país, o DJ Hum, terão ainda vida longuíssima. Engajado no projeto Expresso do Groove, ele lançou o álbum homônimo coalhado de delícias dançantes que prestam homenagem nada saudosista ao melhor da black music, seara em que milita desde 1985, no apagar das luzes do regime militar. “Faço parte da história viva da formação do movimento hip hop no Brasil. Quis narrá-la de maneira musicada”, resume. A sonoridade “saudosista” salta aos ouvidos de cara no disco. Qual foi a intenção? Resgatar um tempo “melhor” no mundo da black music? Venho da geração dos bailes blacks. Festa de preto era para preto, e festa de branco era para branco, em raras exceções havia mistura. Musicalmente falando, havia uma linha imaginária que dividia os estilos e as classes sociais. Foi somente com a chegada da cultura hip hop, por meio do break, que começou a miscigenação cultural e musical que conhecemos. As reuniões nas ruas eram reprimidas, fossem para ouvir um som, treinar ou discutir questões políticas, então o nosso templo era o baile. Nossa missão foi desbravar esse caminho e inserir na sociedade uma nova maneira de se pensar e fazer música. Havia muito preconceito, lidávamos diretamente com uma elite conservadora, que ainda não aceitava a popularidade da música negra, cujos responsáveis eram os disc jockeys. Passados 25 anos, percebi a necessidade de lançar um disco em homenagem à cultura de baile, com músicas inspiradas nas pistas, visitando gêneros pouco conhecidos pela grande maioria. Faço parte da história viva da formação do movimento hip hop no Brasil, no início totalmente influenciado pelas tendências soul e black music dos anos 1970 e 1980, e quis narrá-la de uma maneira musicada. Tecnicamente, você também resgatou um certo método de fazer de antigamente? Ou usou toda a tecnologia empregada no rap/hip hop hoje em dia? Vamos dizer que resgatei e fiz uma mistura louca! Tem samplers misturados com sons orgânicos, e utilizo o tocadiscos como instrumento musical interagindo com a banda, criando uma atmosfera vintage, inovadora e atual. No show, o repertório tem releituras de clássicos da música negra nacional, samba-rock, grooves instrumentais, disco music, rap, jazz funky dos anos 70, além de sucessos da minha carreira e sons do novo disco, como o single de estreia “Vem Pro Baile”, o samba rock “Sunset” e o new bossa “Ilha Bela”.

Por Alessandro Soler, de São Paulo Em alguns momentos, o hip hop entra em cena com rap e scratch, tudo num clima oldschool. O show é uma grande festa, um baile ao vivo com 11 músicos no palco e DJ. Já no disco, procurei usar na produção ferramentas digitais que são essenciais, mas mantenho vivos o sintetizador Moog, o DX7, a percussão, a bateria acústica, e por aí vai. Uns anos atrás eu entrevistei o rapper americano Ja Rule, que criticou os colegas brasileiros, dizendo que eles deveriam aprender com os americanos, que sabem ganhar dinheiro, não ficam focados em questões “políticas ultrapassadas” e, falando de mulher, carrões e grana, “se dão bem”. Você acha que há mesmo essa dicotomia entre o rap daqui e o de lá? Os americanos têm uma outra visão sobre o Brasil. Talvez o Ja Rule tenha falado isso sem conhecer a realidade social, cultural e econômica do Brasil. Não dá para comparar! Mesmo um artista fazendo um rap que estoure e se torne comercial nunca vai ganhar grana igual à do americano. Em 2005, ganhei o Prêmio Multishow com o grupo que montei, o Motiro, responsável pelo estrondoso sucesso da música “Senhorita”. Tocou em todas as rádios, fizemos shows e conseguimos pôr o rap no mainstream. Isso não nos deixou milionários. Penso que o Ja Rule quis dizer: rappers, não sejam hipócritas; assumam que querem ganhar grana e viver da indústria do entretenimento! Mas ainda temos fome, desigualdade social, má gestão econômica, péssima política de educação... O nosso rap reflete isso, é sobre isso que falamos… Embora também tenhamos diversão. Praticamos esporte, namoramos, queremos conforto, carro, casa própria, ser felizes. E nosso rap reflete isso também. Estamos no caminho certo. A apropriação, pelas elites, do som da periferia, do gueto, fez mais bem ou mais mal ao estilo? Estamos em outra época! Hoje essa “nova” geração tem a tecnologia à disposição, com várias ferramentas de auxílio... A mensagem chega mais rápido ao público, e, assim, os investidores que trabalham com marketing aceitam melhor o rap. Antes, nossa divulgação era por meio dos discos e dos shows nos bailes blacks, com as equipes de som das periferias, e por meio de fanzines e jornais. O hip hop ganhou espaço porque o controle das empresas de mídia e marketing estratégico está nas mãos de uma geração que cresceu nos anos 1990, os filhos das elites que ouviram a nossa música. Eles estão abertos a novas propostas e ideias e aceitam as diferenças culturais e sociais. Nos anos 1990, brigamos pelos espaços, e o hip hop se tornou popular. O filho cresceu, e isso lhe fez muito bem. Ele só não pode se esquecer de onde veio.


NOTÍCIAS : UBC/5

ARNALDO NA PRAIA Em 24 anos “fora” dos Titãs (mas, eventualmente, ainda engajado em projetos pontuais com os ex-companheiros da banda), Arnaldo Antunes havia lançado, até setembro passado, 16 álbuns de estúdio. Tão rica produção carecia de um tempero carioca. E ele é farto em “Já É”, primeira parceria do compositor com o produtor Kassin. Pródigo em composições divididas com Marisa Monte, o trabalho, com 15 canções, tem participações de peso, como Carlinhos Brown, Cezar Mendes, Dadi Carvalho, Davi Morais, Pedro Sá e Domenico Lancellotti, entre diversos outros bambas. Vindo de uma fase vertiginosa em que “gravava um disco por ano”, como define, ele parou tudo e imergiu num período sabático de pouco mais de seis meses, em que visitou de Paraty (RJ) à Índia, de Nova York a Milão, e trouxe de cada canto novas ideias e composições. No ano passado, assentou-se por algumas semanas no Rio, onde se deu a gravação, e o resultado é “o disco menos tenso que já gravei, o mais tranquilo”, segundo contou em entrevista ao diário “O Estado de S. Paulo”. “Foi maravilhoso ter ido para o Rio, gravar com a galera lá”, diz o músico paulistano. “Deu uma renovada no meu trabalho.”

SE ESSAS PAREDES FALASSEM... Como não podem falar, as paredes do Beco das Garrafas, em Copacabana, no Rio, ganham ajuda para contar a história de grandes encontros que vêm testemunhando desde o início dos anos 1960. O músico Alex Moreira, do Bossacucanova, lança o selo Beco das Garrafas Records para registrar e eternizar shows que o mítico berço da bossa nova voltou a abrigar desde a sua reabertura, há pouco mais de dois anos, depois de um hiato em silêncio. Os três primeiros álbuns a sair serão os do trombonista Raul de Souza, do compositor João Donato e da cantora Cris Delanno. O material será disponibilizado também em streaming, pela plataforma Batuke Music.

FERNANDO TOCA JIMI A RIQUEZA QUE SUCEDE AO SILÊNCIO Xote, jazz, samba. É, mais uma vez, rico e complexo o universo percorrido por Djavan em “Vidas Pra Contar”, seu 23º disco. Quase sem parcerias, o trabalho, com 12 canções inéditas, foi concebido no silêncio do seu estúdio Em Casa, que fica, como a UBC mostrou na edição 14 (setembro de 2012), em sua própria casa, na Zona Oeste do Rio. “Faço música e letra desde o início. Gosto dessa coisa solitária de sentar e fazer música”, disse em entrevista ao jornal “O Estado de S. Paulo”. Nos dias 11 e 12 de março ele dará início, no Citibank Hall, em São Paulo, a uma longa turnê de lançamento do trabalho que coroa os 40 anos de uma carreira de êxito, homenageada com um troféu especial na última edição do Grammy Latino, em novembro.

Foto: Murillo Meirelles

O músico carioca Fernando Vidal tem rodado o país numa aclamada turnê em que toca clássicos de Jimi Hendrix. "Purple Haze", "Fire", "Voodoo Child", "The Wind Cries Mary" e "Litlle Wing" são algumas das músicas que ganharam potente versão na guitarra de Vidal, músico e compositor que soma inúmeras parcerias com Marina Lima, Ronaldo Bastos, Fernanda Abreu, Fausto Fawcett e Zélia Duncan, além de participações, como músico, em trabalhos de Gabriel O Pensador, Gilberto Gil, Daniela Mercury, Lenine. Paralelamente ao projeto em homenagem a Hendrix, que marca os 35 anos de carreira de Vidal, celebrados este ano, ele também tem tocado com Seu Jorge e Marina e no seu Fernando Vidal Trio. “Nada como comemorar com grandes amigos ao meu lado, tocando e cantando a atemporal arte de Jimi”, ele diz.


6/UBC : NOTÍCIAS

ROBERTA CAMPOS: A MESMA SUPERAÇÃO Em seu quarto álbum de estúdio, terceiro pela Deck Disc, a mineira Roberta Campos se supera. “Todo Caminho É Sorte”, como define o jornalista Marcus Preto, mantém a essência artesanal, autoral dos anteriores, mas, desta vez, ela se cercou de uma tropa de choque multitalentosa para dar um acabado ainda melhor à sua MPB pop cheia de bossa. Em parceria com Fernanda Takai, Roberta, que é autora, segundo conta, de mais de 400 canções, apresenta a delicada e tocante “Abrigo”. Com Marcelo Camelo e Marcelo Jeneci, nos vocais e nos teclados, respectivamente, traz “Amiúde”. Destaque ainda para “Minha Felicidade”, “No Tempo Certo das Horas” e “Cirandar”, cocriações com o amigo Danilo Oliveira, violonista clássico. Gravado ano passado, entre São Paulo e o Rio, o álbum tem a participação dos músicos Fabio Pinczowski (piano, teclados, sintetizadores), Adriano Paternostro (baixo) e Loco Sosa (percussão), entre outros amigos e parceiros de Roberta, como Jeneci, Danilo Oliveira, Jota Moraes, Zé Nigro e Marcos Suzano.

A CARAPUÇA SERVIU – E AGRADOU Parceiros no recém-lançado álbum “Universo Carapuça”, os compositores, músicos e amigos Lucas Fainblat e Marcos Frederico, ambos de Belo Horizonte, reuniram uma turma boa em torno do projeto. Em dez canções autorais e inéditas compostas pelos dois e por Flávio Henrique, Edu Krieger e Rômulo Marques, passeia-se por choro, bolero e bossa nova de maneira original e fluida. Thiago Delegado, João Antunes e Frederico Heliodoro são os instrumentistas mineiros que os acompanham na empreitada, com participação da cantora belo-horizontina Mariana Nunes e da portuguesa Susana Travassos. Também tocam com eles Carlos Walter (violão), Bruno Vellozo (baixo), Ricardo Acácio (pandeiro), Vinicius Ribeiro (baixo), Alaécio Martins (trombone), Felipe Bastos (percussão), Chico Bastos (cavaquinho), Clécio Araújo (fagote), Elisa Behrenz (acordeão), Geraldo Magela (violão de sete cordas) e Lucas Viotti (acordeão). Lançado em vinil e CD, “Universo Carapuça” foi apresentado pela primeira vez no final de outubro, num show em BH, e já começou seu voo por outros palcos.

OPS! Diferentemente do que informamos na edição anterior, a canção “Demônio Colorido” foi composta apenas por Sandra de Sá.

Foto: Mario Rodrigues

OOOPS! MC SOFFIA, A ‘PRINCESINHA DO RAP’

Foto: Leandro Neves

Ela tem só 11 anos, mas já fala alto quando o assunto é racismo. “Princesinha do rap”, como vem sendo chamada, MC Soffia ainda nem deixou o colégio na periferia de São Paulo, onde nasceu, mas já faz shows pelo país cantando canções explosivas que pregam o empoderamento da mulher negra. Em “África”, ela diz: “Que beleza suas danças/Que da hora suas roupas/ Essa cor, essa alegria/Eu trago como herança/Do continente africano eu não trago só o gingado/Trago conhecimento/Navio negreiro não foi apagado”. “Desde a infância as pessoas sofrem com o racismo. Eu não ia esperar crescer para cantar as coisas que me incomodam, entende? Quero mostrar para as meninas da minha idade que é bonito ter o cabelo crespo, que somos rainhas”, afirmou em entrevista ao jornal “O Globo” no fim do ano passado. Ela agora aposta no financiamento coletivo para produzir seu primeiro EP, “Menina Pretinha”, que tem previsão de lançamento no segundo semestre.

A cantora e compositora Luiza Caspary é a primeira artista inclusiva, e não exclusiva, da plataforma de vídeos Vevo. Seus clipes e shows trabalham com a questão da acessibilidade e contam com audiodescrição e tradução para Libras (língua brasileira de sinais).


NOTÍCIAS : UBC/7

‘QUANDO ESTÁ MUITO RUIM, ELES PEDEM SOCORRO À GENTE’

Prestes a completar 50 anos de uma bem-sucedida carreira coalhada de sucessos, a compositora, instrumentista e cantora Sueli Costa continua inquieta como “nos tempos de Juiz de Fora (MG), quando só respirava música”. Com material inédito suficiente para mais de um disco, como descreve, a carioca criada em Minas planeja um álbum para celebrar seu meio século de envolvimento com a arte. O último, “Amor Blue” (2007), foi produzido e distribuído de forma totalmente independente, o que lhe consumiu madrugadas recebendo, pelo site, pedidos de envio de novas cópias para lojas de todo o Brasil. Os tempos são outros, e, agora, ela diz precisar aprender tudo sobre a distribuição digital. Só o que não mudou é sua disposição: “Apesar de dar desânimo a qualidade atual da nossa música, acho que, quando cansam de (ouvir) coisa ruim, acabam voltando para a gente”, ela ri.

SUELI COSTA CRITICA O QUE CHAMA DE EXPANSÃO DA “MÚSICA RUIM” E, COM QUASE 50 ANOS DE CARREIRA, NÃO PARA DE PRODUZIR

Foi sorte, sim. Muita. Me sinto privilegiada, e ter começado bem me pôs para cima, me fez continuar. Segui em frente, sem me importar com o sucesso. Isso, sim, trabalhando muito, sem parar de criar.

Há 55 anos você compôs sua primeira canção, “Balãozinho”. Há quase 50, em 1967, teve a primeira música gravada, “Por Exemplo Você”, por Nara Leão. Ou seja, começou cedo e com o pé direito, não?

Foram sete discos gravados, o último em 2007. Tem muita coisa inédita ainda? Planos para um novo álbum? O novo deve sair em 2017, quando comemoro os 50 anos de carreira. Tenho inéditas suficientes para fazer um disco ou mais. Depois de ter sido gravada por (Maria) Bethânia, Nana (Caymmi), grandes cantoras, não dá vontade de regravar sucessos, não teria graça (risos). O último disco foi quando completei 40 anos de carreira. Chamei, além delas duas, a Simone, que também está entre as que mais me gravaram, e três pessoas mais novas, o Gabriel Gonzaga, filho do Gonzaguinha, a Fernanda Cunha, minha sobrinha, e o Celso Fonseca. Foi muito surpreendente a quantidade de discos que eu vendi, a repercussão foi enorme. Mas ainda tinha loja de música física, era outro momento. O processo foi todinho independente. Fiquei quase doida, mas foi um barato. Eu ficava a madrugada inteira no site, recebendo pedidos e enviando. Agora vou ter que aprender tudo sobre o meio digital (risos). Com tantos sucessos, como avalia os ganhos com direitos autorais? Melhoram muito quando tenho música em novela. Agora mesmo eu estava com “Medo de Amar Número 2”, em “Sete Vidas” (TV Globo). Mas o quadro geral da música brasileira anda meio estranho. O espaço para a boa música no nosso país parece que tem caído uma barbaridade. Cada um ouve o que quer, mas também precisa haver espaço para a música de qualidade. Você crê que a nossa música, então, vive um mau momento?

Leia mais sobre Sueli Costa na reportagem “Elas têm voz”, a partir da página 12

Foto: Canal Brasil

Acho que aumentou demais a (produção de) música de má qualidade. A minha geração sempre buscou o acorde bonito, a superação, a letra trabalhada. Hoje você vê dois acordes e pronto. Como dizia o Tom (Jobim), ainda nem aprenderam o terceiro acorde. O bom é que, quando está muito ruim, eles pedem socorro à gente (risos). Quando ninguém aguenta mais, chamam a gente de volta. Acredito que tenha gente boa, uma possibilidade de renovação. Mas faltam oportunidades. Embora a internet possa ser uma saída.


RO CK 8/UBC : PELO PAÍS


PELO PAÍS : UBC/9

O TERNO

Por Alessandro Soler, de São Paulo São 23h de uma quinta-feira quente de dezembro, e o Beco 203, no Baixo Augusta, região que é o epicentro da renovação musical paulistana desde meados da década passada, nem começou a encher. Mas encherá. Transbordará ávidos roqueiros, que se espalharão entre sua pista regada a sets de indie e a vizinha festa Surdina, na boate Funhouse, onde, em noite garage-hard-metal, haverá apresentações dos goianos Hellbenders e dos curitibanos Water Rats. Alguns dos convivas que transitam nesse eixo chegam do Sesc Pompeia, um dos palcos mais constantes na nova cena rock da cidade. Outros virão do Alberta #3, na cêntrica Avenida São Luís, que tem happy hour roqueiro e pocket shows. Haverá ainda quem dê uma passada a caminho do Bar Secreto, em Pinheiros... O vaivém é constante e fervilha. Não podia ser diferente. Depois de fagocitar a música eletrônica e espalhar seus genes pelo pop que se faz por aqui, o rock se reinventa como símbolo máximo da juventude alternativa nesta metrópole de todos os estilos. E faz barulho, muito barulho. A exemplo do que ocorre na cena MPB, São Paulo virou terra para onde convergem bandas roqueiras de todo canto – com trocadilho, por favor. Não é à toa que o Hellbenders fez miniturnê por aqui em dezembro. O quarteto goiano, formado por Diogo Fleury e Braz Torres (ambos voz e guitarra), Rodrigo Andrade (bateria) e Augusto Scartezini (baixo), é um novo e feliz fruto da cena goianiense, que se esparrama por Sampa e já salta para voos bem altos. Na noite do show na Funhouse, eles mostraram as músicas do segundo álbum, “Hellbenders Especial Rancho De La Luna”, gravado no famoso estúdio californiano por onde já passaram Foo Fighters, Arctic Monkeys e QOTSA. Privilégio que chegou a convite do próprio dono do lugar, Dave Catching, que os viu – e aprovou – no festival texano South By Southwest em 2014.

Apesar da sorte que tiveram e da convergência de talento na cena independente, eles veem espaço para mais. “Precisamos de mais mobilização, mais casas especializadas, mais divulgação. Isso permitiria o crescimento saudável do circuito”, afirma Diogo. Diferentemente deles, que continuam com um pé em Goiânia e muitos tentáculos por diversas partes, os acreanos dos Los Porongas se fixaram de vez em São Paulo. Uma das melhores revelações do rock nacional em muitos anos, o grupo, surgido há 13 anos, em Rio Branco, e estabelecido há quase oito na capital paulista, tem girado o país apresentando as dez canções do novo álbum de estúdio, “Infinito Agora”, títuloemblema da onda que o quarteto vibra no momento.“Não há dúvida de que São Paulo virou um polo de atração para músicos. Mas o mercado de shows no Brasil é um não mercado, não temos uma oferta, fomos para São Paulo acreditando que teríamos um circuito de shows, coisa que não aconteceu, por isso é uma batalha diária”, opina o vocalista Diogo Soares, fazendo coro com o que pensa o xará do Hellbenders. Para o baterista “poronguiano” Jorge Anzol, o esforço compensa: “Fomos a primeira banda de rock de Rio Branco a fincar bandeira em São Paulo, o que motiva as bandas de lá. É muito legal.” Cria própria da terra, o power trio de rock alternativo O Terno bebe na fonte de paulistanos – autóctones ou adotivos – graúdos, gente do quilate de Rita Lee, Arnaldo Baptista, Arrigo Barnabé, Tom Zé. Com o arrasador álbum de estreia, “66” (2012), e o segundo, “O Terno” (2014), premiado com o Troféu APCA e indicado ao Prêmio Multishow, Guilherme D'Almeida

HELLBENDERS

Foto: Rui Mendes

A METRÓPOLE PARA ONDE TUDO CONVERGE VIVE UMA CENA INDEPENDENTE EXPLOSIVA, MAS, COMO DEFINEM SEUS INTEGRANTES, AINDA COM MUITO ESPAÇO PARA CRESCER


10/UBC : REPORTAGEM

(baixo), Tim Bernardes (guitarra e voz) e Biel Basile (bateria) produzem um som indie, lírico, elegante, internacional, mas salpicado de referências bem locais. “Eu confesso/Que gosto das moças do bairro onde eu moro/Do estilo indie-hippie-retrô brasileiro/Que habita os bares e ruas daqui/E eu não quero deixar ninguém ver que eu sou mesmo/O que pensam de mim quando me veem na rua/Classe média enjoada com pinta de artista/Será que eu sou tão previsível assim?”, diz a gostosa e autoirônica letra de “Eu Confesso”, composta pelos associados Guilherme e Victor Chaves (ex-integrante da banda) e pelo companheiro Tim Bernardes.

JOÃO GIL E BÁRBARA OHANA

Previsíveis é o que eles não são. Para debelar a lendária dificuldade de produção e distribuição de música experimental no país, criaram o selo Risco, pelo qual lançaram o segundo disco e forjam novas produções de diferentes bandas da cena alternativa paulistana. A lógica do artista operário que arregaça as mangas e põe a roda para girar determinou o encontro de gente com estilos muito variados. Se faltam apoio, grana, mídia, distribuição, nada como espantar o chororô e assumir as rédeas.

Foto: Ariel Martini

“Começamos a nos encontrar para organizar os lançamentos dos discos e pensar em projetos, em estratégias de divulgação e eventos”, contou Victor Chaves na época do lançamento. “Não somos um movimento, mas podemos ser”, completou outro fundador do selo, Gabriel Millet, das bandas Memórias de Um Caramujo (MPB, pop alternativo) e Grand Baazar (música balcânica cigana). Visto de longe, como deve ser apreciado um quadro grande, com muitos elementos, o panorama roqueiro de São Paulo já virou movimento há bastante tempo. A onda da autoprodução e as inúmeras parcerias surgidas entre diferentes integrantes das muitas bandas que habitam estas terras ou para elas convergem acabam criando um só corpo, um organismo colaborativo e de estética afim. E que pode se manifestar em outros coletivos, como o Avalanche Tropical, um amálgama de sons surgido em 2012 envolvendo o Holger, a Banda Uó, o Bonde do Rolê e outros criadores alternativos.

PORONGAS

“Holger”, saiu em 2014 e, como definem os rapazes, é marcado por “mais cabelo no peito”, mais tranquilidade e maturidade. Naquela noite quente de dezembro, e apesar da agenda intensa de shows por todo o Brasil, eles não tocaram em São Paulo. Mas o fizeram João Gil, neto de Gilberto, e Bárbara Ohana, ex-backing vocal do mestre baiano e sobrinha da atriz Clauda Ohana. Cariocas com os pés e a cabeça fincados em Sampa, eles mostraram que o fermento indie-rock-eletrônico é tão forte que atravessa a ponte aeromusical e faz crescer a massa criativa também no balneário-metrópole. Mas isso já é assunto para outra apresentação...

“A gente está fazendo a parada que gosta, do jeito que gosta, sem grandes pretensões além de estar satisfeito. Então, realmente, nossa grande busca é sacar quem a gente é realmente, e não tem muito mais o que ser, a não ser nós mesmos, e se divertir para caramba com isso”, explicou o vocalista e guitarrista do Holger Marcelo Altenfelder, o Pata, ao site Noisey. Com um disco lançado a cada dois anos, deve vir coisa por aí, uma vez que o terceiro (e mais recente),

HOLGER


NOTÍCIAS : UBC/11

NOVIDADES INTERNACIONAIS INDÚSTRIA CULTURAL GLOBAL É MAIOR DO QUE O PIB DO BRASIL, REVELA ESTUDO A Confederação das Sociedades de Autores e Compositores (Cisac) apresentou no fim do ano passado, na sede da Unesco, em Paris, o estudo “Tempos culturais – O primeiro mapa global das indústrias cultural e criativa”. A partir de um extensivo levantamento de dados financeiros e números de empregos gerados, o trabalho realizado pela consultoria EY quantificou, de maneira inédita, o impacto da indústria cultural na economia do planeta, com foco em 11 setores: arquitetura, artes visuais, artes cênicas, cinema, jogos eletrônicos, mercado editorial, mídia impressa, música, publicidade, rádio e televisão. A conta surpreende e faz pensar: somadas, essas indústrias geram um PIB global anual de US$ 2,25 trilhões, pouco mais do que toda a soma de riquezas produzidas pelo Brasil em um ano e mais do que movimenta o mercado mundial de telecomunicações, por exemplo. Com 29,5 milhões de empregos (cerca de 1% de toda a mão de obra do mundo), as indústrias cultural e criativa envolvem mais pessoas do que a produção de automóveis de União Europeia, Estados Unidos e Japão somados. Com 3,98 milhões de empregos, o setor de música fica atrás apenas do de artes visuais (6,73 milhões) e gera US$ 65 bilhões anuais, décima posição entre os onze setores, o que mostra o impacto de desafios recentes, como a pirataria, além de traduzir um enorme espaço de crescimento potencial.

CATÁLOGO INTEGRAL DOS BEATLES É DISPONIBILIZADO EM STREAMING Os administradores das obras de uma das maiores bandas de pop rock de todos os tempos fecharam um acordo com os principais serviços de streaming e passaram a disponibilizar todo o catálogo desde o último dia 24 de dezembro. Agora, os usuários de Spotify, Apple Music, Google Play, TIDAL, Deezer, Groove, Slacker, Rhapsody e Amazon Prime Music pode escutar as canções dos Beatles sem necessidade de descarregá-las. O montante do acordo não foi revelado, mas especialistas da indústria fonográfica especulam que a demora pode ter se dado em função dos conhecidos baixos repasses feitos pelos serviços de streaming aos criadores.

'MEGAPIRATA', KIT DOTCOM DEVERÁ SER EXTRADITADO PARA JULGAMENTO NOS ESTADOS UNIDOS

BMG GANHA AÇÃO CONTRA PROVEDOR DE INTERNET AMERICANO QUE “NÃO COIBIA” PIRATARIA Um júri federal do estado americano da Virginia condenou um dos maiores provedores de serviços de internet dos Estados Unidos, a Cox Communications, a indenizar a editora BMG em US$ 25 milhões por prejuízos decorrentes da pirataria dos seus clientes. De acordo com a sentença, além de não combater as descargas ilegais, a Cox tinha por prática reconectar o sinal de clientes que haviam sido pegos infringindo as leis de direitos autorais – crime que, em muitos estados americanos, resulta na perda de acesso à rede. Como a Revista UBC noticiou na edição 22 (fevereiro de 2015), as editoras BMG e Round Hill alegam ter alertado à Cox sobre infrações contumazes praticadas por cerca de 200 mil pessoas. Durante o julgamento vieram à tona e-mails em que o provedor de internet orientava suas subsidiárias a “manter cada assinante que tivermos. Ou seja, se ele perder o acesso (por pirataria), devemos reativá-lo o mais rapidamente possível depois de enviar uma carta de advertência.” O caso abre jurisprudência para a responsabilização de mais provedores nos Estados Unidos e, segundo analistas, pode servir de inspiração para decisões semelhantes em outros países.

Depois de quatro anos de adiamentos, Kit Dotcom perdeu. Tido como um dos maiores promotores da pirataria musical em nível global, o fundador do site MegaUpload teve sua extradição aos Estados Unidos deferida por um tribunal da Nova Zelândia, onde procurou se refugiar do processo a que é submetido pela Justiça Federal americana. Seu advogado afirmou que recorrerá ao Tribunal Supremo da Nova Zelândia para impedir a extradição. Kit, um cidadão alemão cujo estilo de vida ostentoso rivaliza em fama com o site pirata que criou, chegou a comparar-se a Julien Assange, fundador do Wikileaks, e a Edward Snowden, ex-agente da NSA. “Sou um mártir da liberdade”, afirmou. As informações são do diário espanhol “El País”.

ÓRGÃO REGULADOR AMERICANO MANDA PANDORA PAGAR MAIS POR STREAM O escritório regulador dos direitos autorais nos Estados Unidos (CRB, na sigla em inglês) determinou que o serviço de webcasting Pandora passe a pagar US$ 0,00017 por cada stream que tiver, valor pouco maior do que os US$ 0.00014 pagos ao longo de 2015. Webcasting é um serviço análogo ao de radiodifusão, mas baseado na internet e que, diferentemente de uma transmissão em FM, por exemplo, permite que a audiência escolha o que quer ouvir. O Pandora, que recentemente adquiriu outro serviço de webcasting, o Rdio, queria baixar ainda mais (para US$ 0,00011) o pagamento, já considerado insuficiente por inúmeros artistas.


ELAS 12/UBC : CAPA

TÊM

ÀS VÉSPERAS DE MAIS UM DIA INTERNACIONAL DA MULHER, A LUTA DAS NOSSAS COMPOSITORAS É AUMENTAR SUA PARTICIPAÇÃO NUM MERCADO QUE, QUASE DOIS SÉCULOS DEPOIS DA PIONEIRA CHIQUINHA GONZAGA, CONTINUA DOMINADO PELOS HOMENS

Por Christina Fuscaldo, do Rio Há quase um século (99 anos, mais precisamente), elas sacudiram as fábricas russas durante vários dias e, literalmente, deram a vida por melhores condições de trabalho, visibilidade e direitos similares aos dos homens. Neste próximo 8 de março, a luta não é cruenta, mas nem por isso deixa de ser importante. Donas de algumas das vozes mais destacadas da música, as mulheres ainda não têm o mesmo espaço como compositoras e se esforçam para ocupar seu merecido lugar na nossa arte. Para se ter uma ideia do tamanho desse desafio, apenas 8% dos compositores filiados à UBC são mulheres. Nada que desanime a cantora e compositora Fernanda Takai, líder da banda mineira Pato Fu. Para ela, dona de 44 composições, o desejo de se expressar através de letras musicais cresce à medida que as mulheres conquistam mais posições na sociedade: “A história do nosso país é muito recente. A das mulheres (no poder) é mais ainda. Lembro que meu pai gostava muito de Dolores Duran e, quando ela morreu, ficou um vazio. Mas acho ótimo que esse espaço esteja se alargando, sendo conquistado... E que haja mais mulheres escrevendo música. É genuíno que, em um país com tão grandes intérpretes, vozes femininas também escrevam para falar diretamente através de uma canção.”

CHIQUINHA GONZAGA

SUELI COSTA


S

CAPA : UBC/13

Nessa mesma época, despontou no mundo do samba uma grande mulher, a carioca Ivone Lara, que enfrentou a resistência machista e compôs, em 1947, o enredo da escola Prazer da Serrinha “Nasci Para Sofrer”. Mas sua fama veio somente na década de 60, momento em que outra mulher apareceu compondo, só que defendendo os ritmos nordestinos: ela se chama Anastácia, é pernambucana e foi esposa do acordeonista Dominguinhos.

Foto: Bruno Barreto

E CHIQUINHA ABRIU ALAS Foi somente em meados do século XIX que essa história começou. Na época, o piano era um objeto que traduzia claramente um status social numa sociedade escravista e colonizada. Mulheres já tocavam e até criavam canções, mas não se profissionalizavam como musicistas. Nascida em 1847, Chiquinha Gonzaga foi a primeira mulher a se firmar como compositora, tendo começado em 1877 com a polca “Atraente”. Entre mais de duas mil (!) composições, divididas em valsas, polcas, tangos, lundus, maxixes, fados, choros e serenatas, seu maior sucesso ficou marcado também como a primeira marchinha do Brasil. “Ô Abre Alas” foi escrita em 1899, quando Chiquinha já era uma artista consagrada. Enfrentando todo tipo de preconceito, ela conseguiu realizar o sonho de viver de música até sua morte, em 1935, aos 87 anos, e, sem dúvida, abriu alas para cantoras e compositoras, ainda que em velocidade aquém da desejada. “É muito bonito esse momento em que as mulheres começam a ter o próprio texto, a compor e dizer suas coisas... É muito significativo! Fazer parte disso é uma honra, nem sei se mereço. É uma coisa incrível essa de a mulher definir o que vai dizer. O Brasil é o país de grandes cantoras. Eu comecei a compor porque pensei: 'Tenho que ter meu texto, porque, como intérprete, eu estou concorrendo com muita gente boa'”, lembra a cantora e compositora Ana Carolina, autora de 150 canções. DOLORES, MAYSA, SUELI: NOVOS ACORDES Com o fim da produção musical de Chiquinha, afirma-se por aí que foi instaurado um vazio no universo das compositoras, que durou até os anos 1950, quando despontaram Dolores Duran e Maysa. Na década seguinte veio uma das nossas grandes compositoras, ainda em atividade: Sueli Costa. Mas um trabalho de pesquisa quase arqueológico mostra que, nas décadas de 1930 e 1940, três nomes também fizeram parte da história das mulheres na música e acabaram negligenciados pela falta de registros: Bidu Reis, cantora de rádio que produziu baiões, sambas e boleros; Dora Lopes, compositora com mais de 300 canções registradas em disco; e Carmen Miranda, maior símbolo brasileiro no exterior, cuja faceta compositora acabou abafada pela cantora e pela atriz. “Os Hôme Implica Comigo” é uma parceria dela com Pixinguinha que destaca a mulher brasileira como vítima do preconceito, tentando a todo custo viver em uma sociedade dirigida e organizada por eles.

Também representando o Nordeste, Glória Gadelha venceu em 1970 o terceiro festival de Música Popular da Paraíba com uma composição própria intitulada “O Mundo da Gente”, além de se destacar no programa de Flávio Cavalcanti, na TV Tupi. A cantora, compositora e acordeonista se formou em Medicina e renunciou à carreira para abraçar a música de vez. Casou-se com o maestro Sivuca nos Estados Unidos e criou diversas canções com ele. “Eu sempre estudei música, toquei violão e acordeão... Quando me casei com Sivuca, as circunstâncias me levaram à posição de liderança nos nossos trabalhos. Mas sempre houve dificuldade de aceitação (de uma) mulher no mundo da criação musical, (principalmente pelo) fato de ser companheira de um imenso músico internacional. Até hoje, tendo provado minha competência como compositora, escritora, instrumentista e cantora, as vendas do preconceito continuam obscurecendo as visões das pessoas.” O assunto, que já começara a ser tratado há 80 anos, continua atual, segundo Jessica Sobhraj, presidente do Women in Music, uma organização sem fins lucrativos fundada nos Estados Unidos em 1985, que vem trabalhando pela regulamentação da mulher nos diversos setores da música no mundo todo. “Enquanto as mulheres de qualquer categoria enfrentam problemas de discriminação, sofrem assédio sexual e são prejudicadas pela desigualdade salarial, as que estão na indústria da música também enfrentam o obstáculo de ter que navegar em nuances desta indústria com acesso limitado a recursos e conhecimentos. As mulheres sempre tiveram que trabalhar duro para estar nos holofotes. Nos últimos anos, temos notado uma quantidade crescente de mulheres tornando-se profissionais bem-sucedidas, e isso é o resultado de décadas de esforços de líderes feministas que vieram antes de nós. Continuar a promover o crescimento de profissionais do sexo feminino em nossa indústria é uma prioridade para nós. Queremos que as mulheres tenham igualdade de acesso às oportunidades”, afirma Jessica. Depois de Carmen, muita coisa mudou. A mulher ganhou cada vez mais espaço na vida política do país, e as cantoras de rádio tinham aberto os caminhos para as novas gerações ganharem dinheiro na vida artística. Dolores Duran começou como atriz de rádio e, logo, estava cantando em boates, impulsionada por amigos que acreditavam na sua música. Outro expoente feminino da década de 1950, Maysa também foi uma cantora que, para se firmar como autora de suas canções, rompeu barreiras: separou-se, parou de usar o sobrenome de casada e deixou o filho, Jayme Monjardim Matarazzo, para o ex-marido criar. Sorte dos fãs da artista, que gravou músicas próprias durante duas décadas, até pouco antes de sua morte prematura, aos 40 anos. Com letras românticas, beirando a depressão, Maysa também foi a rainha da dor de cotovelo. E, enquanto ela criava suas canções sobre amor e fossa no Rio, em Juiz de Fora (MG) a carioca Sueli Costa começava a dar os primeiros passos de uma carreira marcada por inúmeros sucessos - tantos que ela sequer sabe o número de músicas que criou ao certo (o Dicionário da MPB, de Ricardo Cravo Albin, elenca 95, grande parte em parceria com Abel Silva, Cacaso e Tite de Lemos).


14/UBC : CAPA

MODELOS QUASE SEMPRE MASCULINOS A ausência de referentes femininos era tamanha que Sueli atribui aos amigos músicos mineiros, todos homens, o gosto pelo ofício: “Até meados da adolescência eu tinha muitas amigas. De repente, do nada, fiquei só com amigos homens lá em Juiz de Fora. E coincidiu de todos eles serem ligados à música. Acho que foram esses amigos que me despertaram o desejo de viver da música. Naquele tempo eu só respirava música, falava de música, pensava em música. As únicas mulheres do nosso grupo eram as namoradas e esposas deles. Eu não conhecia nenhuma outra que se envolvesse com isso. Todos se perguntavam: que mulher é essa? (risos).”

ANA CAROLINA

FERNANDA TAKAI

Foto: Bruno Sena

Para a grande compositora, até hoje faltam mulheres nesse meio. “Mas as vitórias que já tivemos são muitas. Nossa, como mudou o mundo nesses 50 anos! Hoje, nós, mulheres, estamos entre os melhores profissionais, conquistamos espaço. Outro dia li uma entrevista de uma estrela de Hollywood que reclamava da ausência de bons papéis para as mulheres nos filmes. Se ela soubesse como era no meu tempo… (risos).” Contemporânea de Sueli, Joyce surgiu tocando violão e escrevendo músicas na primeira pessoa do singular, causando um escândalo logo em sua primeira apresentação, no Festival Internacional da Canção de 1967, com a música “Me Disseram”. “Joyce é uma compositora incrível e uma violonista maravilhosa. Ela gosta de contar uma história. Um dia um cara disse para ela assim: 'Nossa, você toca tão bem que parece um homem tocando'. Só que ela é uma mulher incrível com M maiúsculo e toca tão bem quanto uma mulher pode tocar. Essas mulheres que persistiram e tiveram atitude perante a sua obra me chamavam muito a atenção. Acho que é um legado que deixaram para a gente”, diz Zélia Duncan, que assina 152 músicas. “Rita Lee e Marina são muito importantes para todos nós da minha geração, que é a mesma de Adriana Calcanhotto e Marisa Monte. Mas, sem dúvida, a Rita é uma desbravadora de uma fase contemporânea muito séria, muito intensa. Ela chegou, e dizendo ainda que é mais macho que muito homem! A Rita inspira a gente a ser autoral na vida.”

RITA LEE

ROCK ‘N’ ROLL. GÊNERO: FEMININO Na década de 1960, grande parte das sugestões, das ideias e das inovações na música dos Mutantes eram propostas por Rita Lee, que levou o bom humor de suas sacadas às canções que compôs em carreira solo, após sair da banda, em 1972. Em parceria com seu segundo marido, Roberto de Carvalho, escreveu seus maiores sucessos. Rita Lee é considerada a primeira compositora de rock do Brasil e virou referência para diversas mulheres que seguiram a carreira artística. “Eu gostava muito de pegar o violão e dublar, fingir que estava tocando. Um dia minha mãe me flagrou, decidiu me mostrar os três acordes que ela sabia e me ensinou a tocar 'Ovelha Negra'. Com esses três acordes, eu consegui fazer um monte de músicas”, conta Tulipa Ruiz, que demorou a se assumir como profissional da música, mas já acumula 59 composições: “Acho que só consegui me relacionar com a palavra cantora quando comecei a fazer minhas músicas. E não foi fácil, porque sempre fui apaixonada por cantoras e compositoras. Vejo que, mais recentemente, principalmente, é que as mulheres começaram a compor sem medo. Elas têm arriscado mais.” A segurança e a autoestima são mesmo conquistas recentes para essas mulheres que exalam música. Expoente da década de 1980, década em que integrou, como backing vocal, a banda Blitz, Fernanda Abreu é outra que, apesar


Foto: Teca Lamboglia

CAPA : UBC/15

de tantos anos de sucesso como cantora e compositora em carreira solo, não assume até hoje o que ela realmente é. “Não me sinto nem cantora nem compositora… Eu me sinto mais uma comunicadora! Não tenho essa voz toda, como Elis Regina e Alcione, e tampouco me sinto compositora como Chico Buarque e Djavan. Acho que o que tenho de mais interessante é que, no meu processo de construção, a estética é parte fundamental da minha linguagem musical. Isso traz uma singularidade ao meu trabalho dentro da MPB e acredito ser esse o diferencial da minha música e das minhas composições”, afirma Fernanda Abreu, 68 composições.

TULIPA RUIZ

ISABELLA TAVIANI

ZÉLIA DUNCAN

Foto: Roberto Setton

ELAS AGORA PASSAM A INSPIRAR Isabella Taviani deixa que digam, que pensem, que falem. Ela assume o que faz de melhor: cantar suas composições. Talvez pelo fato de ter pego o embalo dessas mulheres maravilhosas, vendo-as alcançarem seus objetivos sem saber o esforço feito por elas, começou a carreira se sentindo menos cobrada. Hoje tem 125 músicas de sua autoria. “Preconceito por eu ser mulher na música nunca existiu. Acho que foi até uma vantagem… Quando eu era adolescente, meus ídolos, Elis Regina, Simone e Maria Bethânia, não compunham. Mas eu me encantei também por Adriana Calcanhotto, Fátima Guedes, Sueli Costa, e aquilo foi fazendo parte da rotina da MPB. As mulheres não mais só tocavam o coração dos outros, elas também começaram a pegar seus violões para compor. Aí virou quase que uma consequência: se você é cantora, então precisa compor material inédito. Acho que me senti obrigada a compor”, diz Taviani.

Foto: Fernando Torquatto

Seguras ou não, respeitadas ou impostas, todas elas realizaram o sonho de viver do que amam e dão orgulho ao Brasil por representar o país por um de seus melhores bens: a música. Ainda sem regulamentação, a profissão dessas mulheres promete ser pauta de muitas discussões para que, cada vez mais, as compositoras tenham seu lugar garantido na sociedade e que, no futuro, não haja necessidade de dúvida quanto à flexão do gênero na hora de escrever na ficha do hotel: “Profissão: Compositora”. “Não faço a menor ideia de onde eu estou, em que lugar eu estou... O meu trabalho é fazer, e eu estou tentando fazer desesperadamente há 32 anos. O dia em que tiver a ilusão de que achei alguma coisa, tudo vai ficar sem graça, e eu não vou ter mais nada para falar. Tenho plena consciência de que, agora que eu espero fazer 50 anos, estou pronta para aprender”, conclui Zélia Duncan.

FERNANDA ABREU


16/UBC : NOTÍCIAS

FIQUE DE OLHO ESTUDO SOBRE DISTORÇÕES DA ERA DOS STREAMINGS GANHA TRADUÇÃO PARA O PORTUGUÊS Elaborado pelo Conselho Internacional de Autores de Música (Ciam), e apresentado orginalmente em outubro de 2014 nos Estados Unidos, o “Estudo sobre compensação justa para criadores de música na era digital”, a cargo do economista e catedrático Pierre-É. Lalonde, acaba de ganhar tradução para o português por iniciativa da UBC. No trabalho, tema da reportagem de capa da Revista UBC 25 (agosto de 2015), Lalonde demonstra com farta numeração que grandes gravadoras recebem até 97% das receitas que fluem de streaming para todos os titulares de direitos musicais, deixando apenas 3% para serem divididos entre compositores, editores de música, outros titulares e administradores. Mais: Lalonde foi um dos primeiros a denunciar o valor de pouco mais de US$ 0,001 por taxa de transmissão pago por serviços como Spotify a intérpretes, com cifras ainda menores para compositores. O estudo completo pode ser lido em português em www.fairtrademusic.info, página oficial da iniciativa Fair Trade Music, criada no âmbito do Ciam para promover relações mais justas no mercado musical. Dois diretores da UBC, Geraldo Vianna e Ronaldo Bastos, integram o conselho internacional.

SERVIÇO DE STREAMING DE JAY Z CHEGA AO BRASIL Lançado em março do ano passado nos Estados Unidos, o serviço de streaming Tidal, parceria do rapper Jay Z com artistas como Kanye West, Rihanna e Beyoncé, chegou em setembro passado ao Brasil. Um dos principais rivais do Spotify, o Tidal surgiu, nas palavras de Jay Z, para “remunerar melhor” os artistas. Tradicionalmente, serviços de execução de músicas na rede são acusados de fazer repasses insuficientes aos criadores. No país, o serviço tem duas modalidades de pacotes: o premium, que dá acesso a todo o catálogo por R$ 14,90 por mês, e o de alta qualidade, que, sem compressão e “com qualidade de vinil ou CD”, cobra R$ 29,80 mensais dos assinantes. Diferentemente do que ocorre em outros serviços, não há uma opção de pacote gratuito. Novos usuários, contudo, podem prová-lo de graça por um mês. Não há anúncios no Tidal. O serviço está disponível no site www. tidal.com, na iTunes App Store e no Google Play.

Imagem: bordado de Caroina Hermeto

UBC REALIZA ASSEMBLEIA GERAL ORDINÁRIA EM MARÇO Todos os anos, conforme determina o estatuto da UBC, é realizada, no mês de março, a Assembleia Geral Ordinária para prestação de contas e apreciação do balanço do ano anterior. A próxima não fugirá à regra e terá lugar na sede da UBC, no Rio de Janeiro. Fique de olho e participe, a sua presença é muito importante. A UBC é dos seus associados, portanto, cabe a eles apreciar as contas, verificar os números e tomar ciência dos resultados do ano. Conheça todos os detalhes sobre o dia e o horário da assembleia no nosso site (ubc.org.br).

DEMONSTRATIVOS DE PAGAMENTO PASSARÃO A SER 100% DIGITAIS Os demonstrativos de pagamentos da UBC aderem de vez à era digital. A partir do próximo pagamento, em março, os demonstrativos em papel deixam de ser enviados e estarão disponíveis para acesso de qualquer parte do mundo por meio do Portal do Associado (portal.ubc.org.br), na internet. Uma das principais razões para a decisão é cortar custos e garantir uma taxa de administração sempre baixa e enxuta. Com a medida, também esperamos evitar o desperdício de recursos naturais envolvidos na produção de papel. Um e-mail será enviado a você sempre que tiver um extrato à sua disposição no site. Se ainda não cadastrou o seu nos nossos sistemas, pode fazê-lo pelo telefone 21 2223-3233.


NOTÍCIAS : UBC/17

MARCELO CASTELLO BRANCO É O NOVO DIRETOR-EXECUTIVO DA UBC COM MAIS DE 30 ANOS DE EXPERIÊNCIA NO SETOR DE MÚSICA E ENTRETENIMENTO, ELE ASSUME DESAFIO DE LIDERAR A MAIOR SOCIEDADE DE GESTÃO COLETIVA DO PAÍS NUM MOMENTO DE PROFUNDA TRANSFORMAÇÃO NO MERCADO

Do Rio O ano de 2016 começou com uma grande mudança na estrutura administrativa da União Brasileira de Compositores. O executivo do mercado musical Marcelo Castello Branco assume em fevereiro o cargo de diretor-executivo no lugar de Marisa Gandelman, que ficará responsável pelas relações exteriores e institucionais da UBC. Desde o início de janeiro os dois vêm trabalhando juntos na transição. Com mais de 30 anos de experiência na indústria do entretenimento, Castello Branco é vice-presidente do Conselho Diretivo do Grammy Latino. Consultor internacional, criador da MCB – Music, Content, Branding e mentor de plataformas digitais e de crowdfunding, ele também foi presidente da Universal Music Brasil, Cone Sul e Península Ibérica e da EMI Music Brasil, América do Sul e Central. Durante sua carreira, Marcelo foi peça fundamental no crescimento da música brasileira aqui e em outros mercados, como a América Latina, Espanha e Portugal, e auxiliou grandes nomes da música a ultrapassar as barreiras e se beneficiar com os novos modelos de negócio. Sua expertise em meios digitais e novos mercados será, segundo a presidente da UBC, Sandra de Sá, de grande importância para a UBC diante dos desafios vividos pelo negócio musical. “Marcelo é antenado, sensível para a música, para as necessidades dos criadores. Entende de arte, não só de números”, descreve Sandra. “Sem dúvida, a experiência dele com o mundo digital e mercados internacionais vai enriquecer demais a nossa atuação.” Para Castello Branco, a dinâmica vertiginosa do mercado exige atenção e ação com objetividade e ponderação. “Minha experiência de gestão em vários mercados obedece a uma vontade constante de aprender e de me renovar. Experiências de outros países e negócios são sempre importantes mas nem sempre replicáveis, dada a natureza particular de cada mercado. Não acredito numa só saída”, afirma o novo diretor-executivo, cuja nomeação faz parte do planejamento estratégico da diretoria da associação e foi decidida cuidadosamente, com o envolvimento de Marisa. A base deixada pela ex-diretora, destaca Sandra, foi fundamental para o início desta nova fase. “Toda transformação - e falo em transformação, em transição, porque não se trata de uma simples mudança de cargos - é altamente

benéfica por trazer um novo olhar, novas perspectivas. O mercado está em constante mudança, e é com felicidade que eu vejo a UBC mudando junto. Estamos fazendo uma aposta na sobrevivência, no agora, no futuro, porque a vida é assim. O Marcelo tem um amor muito grande pelo que faz, e eu tenho amor por ele”, ela diz. “Quanto à Marisa, a herança que ela deixa é benéfica. Qualquer um pode entrar no nosso site e ver claramente o estágio em que estamos, o que temos para apresentar. Só podemos caminhar para o futuro porque temos uma excelente estrada pavimentada. Agora, é seguir em frente.” A complexa transformação por que passa o negócio musical - marcada pela pirataria, o salto para o mundo digital, uma nova dinâmica na produção e na distribuição - instiga o novo diretor em seu trabalho. “O mercado de direitos autorais sempre foi prioritário no meu radar, e o momento é desafiador. É disso que eu gosto mais. Tem muita coisa acontecendo o tempo todo no mundo. Estou entrando numa sociedade líder em seu negócio, com 73 anos de uma história inspiradora, uma equipe e uma diretoria que respeito e um universo de titulares que admiro. A UBC tem tradição de futuro. A nossa agenda vai ser construída coletivamente, como corresponde”, conclui Castello Branco.

“ESTOU ENTRANDO NUMA SOCIEDADE LÍDER EM SEU NEGÓCIO, COM 73 ANOS DE UMA HISTÓRIA INSPIRADORA. A NOSSA AGENDA VAI SER CONSTRUÍDA COLETIVAMENTE.” Marcelo Castello Branco


18/UBC : ANÁLISE

CORRIDA DE

OBSTÁCULOS NO ANO EM QUE O PAÍS SEDIA O MAIOR EVENTO ESPORTIVO DO PLANETA, OS NOSSOS CRIADORES TAMBÉM ENFRENTAM DESAFIOS OLÍMPICOS. E NEM SEMPRE O OURO É GARANTIDO Os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro vão agitar o país em agosto. Antes disso, serão muitas as provas enfrentadas por nossos compositores, músicos, editores e administradores de repertório. Das contradições do poder público – que se intrometeu na gestão coletiva mas nem sempre faz a lição de casa, ou seja, não paga corretamente pelo uso de obras musicais em suas rádios e seus eventos – à persistente inadimplência de rádios e operadoras de TV, passando pela má remuneração dos serviços de streaming, os obstáculos são muitos.

ONDA RUIM A MÃO BEM VISÍVEL DO GOVERNO A lei 12.853/2013, que dispõe sobre a gestão coletiva de direitos autorais, continua sob questionamento no Supremo Tribunal Federal pelo Ecad e pela UBC. As principais razões da ação de inconstitucionalidade são a interferência do Estado em atividade essencialmente privada, criando instâncias no Ministério da Cultura para “mediar” conflitos entre associações e usuários das músicas; a alteração da histórica regra de negociação coletiva dos valores a serem pagos aos autores por usuários como redes de rádio e TV, substituída por acordos caso a caso; e o cerceamento à liberdade de associação, uma vez que a lei, regulamentada no ano passado, determina até o tempo de mandato nas diretorias das entidades, por exemplo. Em 2014 já houve audiências e reuniões no STF para debater o tema. O julgamento das ações pelos ministros da Corte, previsto para este ano, servirá para estabelecer o modelo de gestão coletiva que teremos pelos próximos anos no Brasil.

País afora, inúmeras rádios privadas simplesmente deixam de recolher os valores devidos ou os questionam na Justiça, protelando os repasses aos criadores. O problema cresce tanto que já há até mesmo um projeto de lei, o PL 1766/11, do deputado Otavio Leite (PSDB-RJ), que determina a não renovação da outorga de rádios que devam ao Ecad. Em audiência em novembro passado na Câmara dos Deputados, representantes de associações de rádios, dos deputados e de associações de gestão coletiva debateram o problema na Comissão Especial dos Direitos Autorais. Alegando falta de recursos, a Associação Brasileira de Radiodifusão Comunitária (Abraço) defende que as rádios comunitárias deixem de ser obrigadas a pagar pelo uso das músicas.

FOLIA COM BATUQUE ALHEIO O carnaval atrai turistas (e divisas), faz a economia como um todo girar, mas, para muitas prefeituras, a folia é sinônimo de bagunça na hora de pagar os direitos dos criadores. Sede de uma das celebrações carnavalescas mais tradicionais do Brasil, Salvador está inadimplente há anos, e a perspectiva de negociação, como pondera o diretor da UBC Geraldo Vianna, não é boa. Em Belo Horizone, onde há, a cada ano, um grande crescimento do carnaval de rua, com patrocínio de grandes marcas e fortalecimento do comércio e do turismo, a prefeitura se nega a assumir o pagamento dos direitos autorais sob alegação de que se trata de um movimento de iniciativa popular, e a Belotur, órgão de turismo da capital mineira, no carnaval de 2015, não efetuou o pagamento referente aos desfiles das escolas de samba e dos Blocos Caricatos, sob alegação de que possuía um documento com a autorização e liberação dos autores. O que até o presente momento não foi comprovado.

TENHA SANTA PACIÊNCIA! Preocupa uma movimentação grande de alguns grupos que tentam burlar a obrigatoriedade do pagamento de direitos autorais. Há representantes de religiões cristãs que pedem abertamente a isenção do pagamento, alegando natureza filantrópica, em alguns de seus eventos. Entre os políticos religiosos que pedem o mesmo, muitos têm concessões de rádio e TV.


ANÁLISE : UBC/19

STREAMING, OU COMO SOBREVIVER NA ERA DOS CENTAVOS O recém-traduzido para o português “Estudo sobre compensação justa para criadores de música na era digital”, publicado pelo economista e catedrático Pierre-É. Lalonde (saiba mais na seção Fique de Olho, na página 16), mostra que os grandes serviços de streaming, como o Spotify e a Apple Music, pagam entre US$ 0,001 e US$ 0,005 por taxa de transmissão a intérpretes, com cifras ainda menores para os compositores, o que levou a um verdadeiro movimento de boicote liderado por estrelas internacionais. Em diferentes frentes, Thom Yorke (Radiohead), Metallica, La Roux, Taylor Swift, Prince e Beyoncé protestaram contra os valores pagos ou ameaçaram retirar seu catálogo de tais serviços. No fim de setembro passado, La Roux disparou em sua conta no Twitter: “Spotify, obrigada pelas cem libras pagas neste trimestre. Mais um mês e eu talvez serei capaz de bancar a assinatura premium de vocês. Que sorte eu tenho!” De acordo com as estatísticas do próprio serviço de streaming, La Roux tem uma base de 811 mil ouvintes mensais. Mesmo que cada um ouvisse apenas uma canção por mês, o que é altamente improvável, ela deveria receber algo como US$ 15 mil, e não cem libras. Para evitar o problema, a cantora inglesa Adele radicalizou: seu último disco, “25”, lançado no fim do ano passado, não foi disponibilizado em streaming. O resultado foi surpreendente: 14 milhões de cópias vendidas física e digitalmente só em 2015, número comparável aos dos melhores anos de bonança do mercado discográfico.

WEBCASTING OU RÁDIO? EIS A QUESTÃO A repetição da programação de rádios tradicionais na web se caracteriza como uma nova utilização e está, portanto, sujeita a pagamento ao Ecad. Mas e quando há a possibilidade de interação e escolha do repertório pelo ouvinte? No entendimento do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, em ação que opõe a Oi (dona de uma rádio web) ao Ecad, o chamado webcasting (quando há interatividade) não é execução pública, o que não obriga ao pagamento ao Ecad, deixando os autores desprotegidos. A ação foi parar no Superior Tribunal de Justiça. Para especialistas na área, a transmissão pela web também é execução pública, e os valores devem ser recolhidos.

ABAIXO ESTA BANDEIRA! A bandeira pirata ainda tremula alto no mundo digital. Enquanto plataformas como o The Pirate Bay mudam seus servidores de país em país para continuar a operar, e buscadores como o Google, tidos por especialistas como agregadores de links piratas, ainda combatem timidamente o problema, nações consideradas territórios livres para o compartilhamento ilegal de músicas dão passos tímidos. No último mês de setembro, as principais plataformas de streaming da China removeram 2,2 milhões de canções dos seus sistemas por não pagar direitos autorais. As autoridades locais haviam dado, em agosto, um ultimato aos sites para que regularizassem seus catálogos e eliminassem títulos sem licença. De acordo com o governo chinês, 16 plataformas de streaming obedeceram a determinação.

NÃO FAÇA O QUE EU FAÇO Enquanto se configura como um “grande irmão”, um ente vigilante da gestão coletiva, o poder público não dá exatamente um bom exemplo de correção. Acumulam-se os casos de inadimplência de rádios e TVs governamentais em estados e municípios. Além disso, em grandes shows e eventos ao ar livre, o sucesso de público não é garantia do correto pagamento. Quase dois anos depois da realização da Copa do Mundo de futebol da Fifa, as prefeituras de Fortaleza, Manaus, Natal, Porto Alegre, Recife e Salvador, bem como o governo distrital de Brasil, ainda não fizeram os repasses correspondentes pela realização dos chamados Fifa Fan Fests. A cobrança está sendo feita na Justiça.

TV QUE NÃO SE LIGA A Oi também é o único dos grandes operadores de TV por assinatura que ainda não fechou acordo para pagamentos atrasados referentes ao uso de músicas em sua programação. O débito se arrasta desde 2009. Nos últimos dois anos, contudo, Net, Sky, Vivo, Claro, Algar e GVT, entre outras grandes do setor, já começaram a quitar seus débitos, depois de decisões do Supremo Tribunal Federal (STJ) que julgaram procedente a cobrança. Somadas, as dívidas dessas empresas com o Ecad – que, muitas vezes, arrastavam-se desde 1994 – rondavam os R$ 550 milhões. Grande parte já foi paga e distribuída. Já entre as TVs abertas, a Band está em atraso desde setembro de 2014 (com a exceção dos valores equivalentes aos meses de outubro e novembro daquele ano, quitados). Um acordo de pagamento entre a emissora e o Ecad foi firmado em abril do ano passado, mas acabou descumprido. A Band alega estar em crise financeira para justificar a inadimplência.


20/UBC : ARTIGO

Fazendo

CRESCER

o bolo digital O DIRETOR-GERAL DA CISAC, GADI ORON, ABORDA OS DESAFIOS QUE AS SOCIEDADES DE GESTÃO COLETIVA ENFRENTAM Por Gadi Oron, de Paris Publicado originalmente na revista "Music Week" O mercado de licenciamento vive mudança acelerada. Com o desenvolvimento de tecnologias digitais, e com o aumento da penetração da internet, acompanhamos a chegada de novos serviços, enquanto os já estabelecidos se expandem para novos territórios. Estas transformações no mercado trazem consigo muitos desafios aos detentores de direitos autorais e aos administradores desses direitos, uma vez que as fronteiras entre os diferentes serviços e os diferentes direitos envolvidos se tornam menos definidas. As sociedades de gestão coletiva são o portal de acesso ao licenciamento de conteúdos criativos e, como tal, estão no epicentro de um ambiente em constante mudança. O Relatório de Arrecadação Global 2015, publicado pela Cisac, consolida dados relacionados a direitos autorais de 120 países e reflete a saúde do mercado de licenciamento no ano anterior. Ele comprova que 2014 foi um ano de sucesso para as sociedades de autores. Depois de um 2013 estável, os dados do ano seguinte refletem a volta ao crescimento, com a arrecadação em nome de cerca de 4 milhões de criadores atingindo, globalmente, impressionantes US$ 7,9 bilhões, aumento de 2,8% em relação ao período anterior. Se considerarmos o ambiente desafiador e até mesmo duro em que nossas sociedades vêm operando, estes dados não podem ser desprezados.

que nos aguardam. Nossa análise demonstra que 99% da arrecadação digital vêm do repertório musical, o que mostra que muito mais pode ser feito em relação a outros repertórios (como o audiovisual e o das artes visuais) a fim de aproveitar plenamente o potencial da área. Os consumidores de música claramente mostram que estão migrando da era da posse para o modelo de streaming: vimos um expressivo aumento de 56% nos ingressos de direitos de execução a partir de serviços digitais, coincidindo com a queda de 29% na arrecadação de direitos fonomecânicos neste mesmo meio. Conforme o mundo se torna cada vez mais digital, as infraestruturas e os sistemas de licenciamento se unem para aumentar os lucros de todos os criadores. Apesar disso, um ecossistema digital sustentável depende crucialmente de um arcabouço legal favorável. Leis ultrapassadas, proteção insuficiente e a ausência de um ambiente legislativo amigável atendem aos interesses dos que dão as costas aos criadores, editores e produtores ao mesmo tempo em que se beneficiam comercialmente deles. Isso não é apenas fundamentalmente injusto para os criadores, mas também serve como um desincentivo a atividades culturais, que agregam grande valor econômico. Todos os criadores merecem obter um quinhão justo do valor obtido pelo uso digital dos seus trabalhos. As dificuldades de determinar essa divisão são um problema que atravessa fronteiras. Leis adequadas, sistemas de licenciamento adaptados à realidade atual e campanhas educativas sobre o valor da criatividade são parte da solução. Na Cisac, estamos confiantes de que essas três questões podem ser trabalhadas e que o mercado digital que emergirá deste período de transição beneficiará verdadeiramente os criadores.

A Europa, que vem liderando o mercado, teve crescimento de 4,1% e atingiu 61% do total recolhido mundialmente. Tal taxa de expansão é impressionante, assim como foi a de 11% nos mercados dos Brics, cujo potencial para expansões ainda maiores permanece significativo.

LÍDER ENTRE OS BRICS, BRASIL É O OITAVO QUE MAIS ARRECADA

Quando examinamos os dados globais por repertório, é evidente que a esmagadora maioria da arrecadação vem do uso da música, com crescimento de 2,7%, para 87% do valor total arrecadado. Prova do estágio de desenvolvimento atingido nos licenciamentos da área musical, se comparado com os de outros setores da indústria criativa, como o audiovisual e as artes visuais.

Com € 248 milhões (cerca de R$ 800 milhões pelo câmbio de 31 de dezembro de 2014), o Brasil foi o oitavo país com maior arrecadação de direitos autorais naquele ano. O relatório da Cisac destaca que estamos no grupo dos que experimentam maiores crescimento e possibilidades de expansão nos próximos anos. Prova disso é que a arrecadação per capita de € 1,24 foi levemente abaixo da média global, de € 1,33. Se somados os outros países dos Brics (Rússia, Índia, China e África do Sul), a arrecadação vai para € 411 milhões (5% do total global), o que mostra que o Brasil liderou com folga nesse grupo de nações.

Ainda que os ingressos digitais correspondam a um percentual pequeno do total apurado pelas sociedades de autores (6,5% da arrecadação), um salto de 20% se deu de um ano a outro. É uma forte indicação das oportunidades


ARRECADAÇÃO : UBC/21

EXECUÇÃO PÚBLICA:

QUAL O LIMITE? EMPREGO NÃO AUTORIZADO DE FONOGRAMAS EM VÍDEOS DE GRIFES DE MODA E REPRODUÇÃO DE PROGRAMAÇÃO DE RÁDIO NA WEB SEM PAGAMENTO MOSTRAM QUE ALGUNS USUÁRIOS PARECEM NÃO ENTENDER BEM ATÉ ONDE VAI A UTILIZAÇÃO CORRETA DE OBRAS MUSICAIS Do Rio Em tempos de crise, usuários de músicas país afora decidiram empregar – por conta própria e sem consulta a titulares, administradores, editores e Ecad – a lógica do pague 1, leve 2. Dois casos de uso indevido de fonogramas envolvem titulares que tiveram canções usadas irregularmente por grifes em desfiles de moda e vídeos promocionais. O compositor Rômulo Fróes recorreu à Justiça depois que cinco de suas criações foram “adulteradas e remixadas” num desfile e, pior, publicadas nos canais da marca no YouTube e no SoundCloud sem autorização. Tanto a grife quanto a semana de moda alegam ter pagado pela “execução pública”, o que julgam que lhes daria cobertura para qualquer tipo de uso. O mesmo ocorreu com o DJ Dolores, que teve duas músicas inteiras anexadas a um vídeo promocional de uma grife, sem pagamento e com o crédito atribuído a outro DJ. Somados à disputa judicial entre o Ecad e uma rádio que repete sua programação via webcasting (transmissão na internet com possibilidade de escolha do repertório pelo ouvinte) mas alega não ser obrigada a pagar por isso, os casos dos dois mostram que muitos usuários de músicas parecem não entender bem os limites do que é considerado execução pública. “Não foi execução pública. Mexeram nas músicas do (álbum) 'Um Labirinto Em Cada Pé'. Alegaram que tinha pagado ao Ecad, mas fizeram peça publicitária no canal da marca no YouTube, em que sincronizavam canção minha com a marca deles. E ainda subiram tudo para o SoundCloud deles. Além de sequer ter recebido do Ecad, o que supõe que não pagaram, eu não posso considerar como simples execução pública o uso de uma música minha para vender roupa. Eu tenho o direito de escolher onde meu trabalho vai ser usado. É tão difícil assim de entender?”, indaga Fróes. Para o Ecad, o uso simples de uma música durante um desfile de moda de fato está contemplado pela categoria execução pública. O que não dá, no entanto, ao usuário o direito de manipular a canção nem de publicá-la em canais publicitários na internet. “Nos desfiles, que geralmente ocorrem num mesmo local, o pagamento deve ser realizado pela organização do evento. Caso haja execução pública em outros espaços, como estandes de marcas, é necessário um novo recolhimento com base no artigo 31 da lei 9.610/98”, explica a superintendente executiva do escritório, Glória Braga. “Os valores são calculados com base em um percentual

sobre a receita bruta, quando há venda de ingressos ou qualquer outra forma de cobrança de entrada, considerando também a atividade do usuário e o tipo de utilização da música, se ao vivo ou mecânico. Quando não houver receita, o valor é calculado em quantidade de UDAs (unidades de direito autoral), de acordo com o parâmetro físico da área sonorizada e a região socioeconômica onde ocorre o evento”, ela detalha. O DJ Dolores não recebeu nada pela inserção das suas músicas num vídeo publicitário. Por ora, limitou-se a pedir correção à grife, mas não descarta acionar a Justiça: “Quando é produção pequena, não me importo, até estimulo o uso. O que me chateia é quando tem coisa grande, que envolve dinheiro. Mas, de um modo geral, tenho política de produção independente, underground, desde que deem o crédito, pelo menos. Nem isso fizeram.” O caso da rádio que reproduz sua programação na internet, sem pagar nada além da execução pública da transmissão original, por FM, foi parar em Brasília. Depois de condenada em primeira instância, a rádio recorreu ao Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, que lhe deu ganho de causa ao julgar que webcasting (quando há possibilidade de escolha do repertório pelo internauta) não se caracteriza como execução pública, o que a desobrigaria de pagamentos ao Ecad. O escritório central foi ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) por discordar da avaliação dos desembargadores fluminenses. Em sua fundamentação, o Ecad lembra que o Tribunal de Justiça da União Europeia, ao julgar casos semelhantes, unificou seu entendimento de que webcasting é uma comunicação dirigida a um número indeterminado de destinatários potenciais, o que caracteriza a execução pública. Por isso, na avaliação da mais alta instância judiciária europeia, seria devida a cobrança por um órgão como o Ecad. “As diversas modalidades de utilização das músicas são independentes entre si, e a autorização concedida para uma delas não se estende às demais. Isso quer dizer que, se uma rádio disponibiliza a sua programação pelo sistema convencional e pela internet, está se utilizando de duas modalidades de execução pública distintas”, avalia Glória Braga. Espera-se para este ano a decisão em Brasília que poderá estabelecer jurisprudência sobre tema de vital importância numa era de acelerada expansão da distribuição digital.


22/UBC : SERVIÇO

DÚVIDA DO ASSOCIADO "PRECISO INCLUIR OS MÚSICOS NO CADASTRO DO FONOGRAMA CASO TENHA ACORDADO COM ELES UM PAGAMENTO ÚNICO PELA GRAVAÇÃO?" Leo Justi, DJ, músico e produtor (Rio de Janeiro, RJ)

REVISTA UBC: Para realizar o cadastro dos fonogramas na UBC, usamos o ISRC, um código ISO que identifica as gravações. Essa codificação foi criada com o intuito de evitar ambiguidades e simplificar a gestão dos direitos envolvidos, uma vez que as gravações podem ser utilizadas de diferentes maneiras, por diferentes serviços e em diferentes formatos. O produtor do fonograma é responsável por gerar o código de ISRC e cadastrá-lo na base de dados de sua associação. Para gerar esse código, ele preenche campos informando os nomes do intérprete e dos músicos, a obra gravada, a data da gravação e outros detalhes que conformam os metadados do fonograma. O produtor fonográfico geralmente contrata o intérprete e o músico celebrando um contrato de cessão de direitos. É comum os músicos assinarem uma cessão de todos os direitos em troca de um pagamento único, para que o produtor possa explorar comercialmente o fonograma. Também é comum que os músicos reservem o direito de participar dos rendimentos gerados pela execução pública dos fonogramas dos quais participam. Essa reserva deve estar expressa no termo de cessão. Neste caso, o produtor fonográfico fica obrigado a inserir os dados dos músicos participantes da gravação, sob pena de ser questionado pelo músico na hipótese de deixar de fazer o cadastro do fonograma corretamente e, consequentemente, impedir o músico de receber os rendimentos a que faz jus. A execução pública acontece quando o fonograma for utilizado no rádio, na TV ou em locais de frequência coletiva. Os valores devidos pelos usuários são arrecadados e distribuídos pelo Escritório Central de Arrecadação e Distribuição de Direitos Autorais, o Ecad, e quem faz o pagamento são os donos dos estabelecimentos ou serviços que utilizaram o fonograma. Quando o produtor inclui um músico no cadastro do fonograma, ou seja, no cadastro do ISRC, garante a participação desse músico nos rendimentos dos direitos autorais de execução pública que a UBC distribui. Então, não deixe de incluir os músicos no ISRC para que ele tenha seus direitos garantidos.


DE CARLINHOS BROWN A LUAN SANTANA

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demonstrativo ubc

NOSSO PAPEL TAMBÉM É CONTRIBUIR PARA O FUTURO DO PLANETA A partir do pagamento de março, os demonstrativos da UBC deixam de ser impressos e passarão a ser 100% digitais para todos. Você pode acessá-los pela internet, através do Portal do Associado (portal.ubc.org.br), de onde quiser.

O meio digital permite uma consulta rápida e segura. E, o mais importante: evita o desperdício de recursos naturais e contribui para um mundo mais sustentável. Você vai receber um e-mail sempre que um novo demonstrativo estiver disponível no Portal do Associado. Se ainda não tem endereço de e-mail ou não tem acesso à internet, entre em contato conosco por meio do telefone 21 2223-3233.

Revista UBC #27  

A Revista UBC é uma publicação trimestral direcionada a quem faz música.

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