Revista UBC #50

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NOVEMBRO 2021

ELE POR ELES Time de estrelas que interpretou Djavan na festa do Prêmio UBC fala sobre o homenageado, música e criação


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#50

NOVEMBRO 2021

RE VIS TA

A REVISTA UBC É UMA PUBLICAÇÃO DA UNIÃO BRASILEIRA DE COMPOSITORES, UMA SOCIEDADE SEM FINS LUCRATIVOS QUE TEM COMO OBJETIVOS A DEFESA E A DISTRIBUIÇÃO DOS RENDIMENTOS DE DIREITOS AUTORAIS E O DESENVOLVIMENTO CULTURAL.

Diretor-executivo Marcelo Castello Branco Coordenação editorial Mila Ventura Assistente de coordenação editorial Pedro Henrique Guzzo Akemy Morimoto Projeto gráfico e diagramação Crama design estratégico Editor Alessandro Soler (MTB 26293) Textos Akemy Morimoto (Rio de Janeiro), Alessandro Soler (Madri), Antonio Cicero (Rio de Janeiro), Eduardo Lemos (Londres), Fabiane Pereira (Lisboa), Gilberto Porcidonio (Rio de Janeiro), Isaque Criscuolo (São Paulo), Kamille Viola (Rio de Janeiro), Lucia Mota (San Francisco, EUA) Fotos Capa: Nana Moraes (foto de Djavan) e Miguel Sá (demais). Imagens cedidas pelos artistas. Créditos nas respectivas páginas, ao longo da edição. Rua do Rosário, 1/13º andar, Centro Rio de Janeiro - RJ, CEP: 20041-003 Tel.: (21) 2223-3233 atendimento@ubc.org.br

GIL NA ABL

EDITORIAL

Diretoria Paulo Sérgio Valle (Presidente) Antonio Cicero Erasmo Carlos Geraldo Vianna Manno Goes Marcelo Falcão Paula Lima

por_ Antonio Cicero

Fiquei muito feliz com o fato de termos eleito Gilberto Gil para fazer parte da nossa Academia Brasileira de Letras. Além de ser um grande compositor, cantor, instrumentista, letrista e produtor musical, Gil é extremamente inteligente e culto. Conviver com esse ex-ministro da cultura numa instituição como a ABL, que – como queria Joaquim Nabuco – no fundo funciona à maneira de uma Academia Brasileira de Cultura, será não apenas prazeroso, mas, sem dúvida, produtivo. Ademais, sua eleição foi importante por, entre outras coisas, combater preconceitos que dizem respeito à própria ABL. O mais difundido desses preconceitos é, evidentemente, o que a acusa de racista. Outro preconceito destruído pela eleição de Gil é o de que a ABL leva a sério a cultura erudita, porém despreza a cultura popular. Na realidade, esse desprezo, que foi muito comum entre intelectuais, sobretudo até a segunda metade do século XX, manifestava-se com muita força nas universidades brasileiras através, por exemplo, dos muitos discípulos de Adorno e Horkheimer, da Escola de Frankfurt. Há já algum tempo porém que, de maneira geral, os membros da ABL são conscientes de que estariam cometendo um grande erro se desprezassem a importância da contribuição de movimentos da cultura popular – tanto tradicionais, como o samba, o cordel, o candomblé etc., quanto modernos, como o Cinema Novo, a Bossa Nova, o Tropicalismo etc. – para a constituição da cultura brasileira. Ora, como bem disse Marco Lucchesi, o presidente da ABL, “Gilberto Gil traduz o diálogo entre a cultura erudita e a cultura popular. Poeta de um Brasil profundo e cosmopolita. Atento a todos os apelos e demandas de nosso povo. Nós o recebemos com afeto e alegria.” E não posso deixar de lembrar, com grande prazer, que Gilberto Gil foi o primeiro artista a ser homenageado pelo Prêmio UBC, em 2017.


6 12 14 18

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NOVIDADES NACIONAIS ENTREVISTA: Caetano Veloso PELO PAÍS: Mês da Consciência Negra MERCADO: Podcasts

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LÁ FORA: O novo pop lusófono NOTÍCIAS INTERNACIONAIS

42 44 DÚVIDA DO ASSOCIADO

Usuários gerais

ARRECADAÇÃO E DISTRIBUIÇÃO:

40 FIQUE DE OLHO

38 CARREIRA: Impulso 2.0

das gravadoras

NEGÓCIOS: A volta por cima

24

PELO PAÍS: Gil, ‘imortal’ da ABL

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CAPA: Homenagem a Djavan

e perspectivas 2022

MERCADO: Balanço 2021

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JOGO RÁPIDO: Marina Senna

ÍN DI CE 12 14

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JOGO RÁPIDO

REVISTA UBC

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BRILHO PRÓPRIO

Marina Sena, da Rosa Neon, se lança a uma aventura solo cercada de grandes expectativas — e já aclamada por público e crítica por_ Kamille Viola

do_ Rio

VEJA MAIS O ‘visualizer’ de ‘Por Supuesto’ ubc.vc/Supuesto

Ela fez barulho na cena alternativa como integrante da banda Rosa Neon, e seu álbum solo já foi lançado cercado de expectativas. “De Primeira”, de Marina Sena, saiu em agosto, e todas as previsões de que a mineira de Taiobeiras se tornaria um novo fenômeno vêm se confirmando. Aos 25 anos, ela é destaque no Prêmio Multishow, com quatro indicações, e a faixa “Por Supuesto” estourou no Instagram e no Tik Tok, impulsionando os streams da música. Como é seu processo como compositora? Eu tenho uma relação muito forte com a composição. Tenho até dificuldade de cantar músicas de outras pessoas, porque gosto muito das minhas. Acho que consigo expressar muito o que está dentro do meu coração, então significa muito para mim. Eu tenho mais de 60 músicas. Se eu pegar o violão, faço uma música. Você desponta num período de destaque para as cantoras que são compositoras do próprio repertório. Como vê este momento? Tem muito o que melhorar, você vê muito homem meia-boca sendo muito mais aclamado do que mulheres que são muito fodas. A mulher tem que provar demais que ela é boa para ser reconhecida. Mas já está bem melhor. Você fez shows do disco novo, e deu para ver nas redes todo mundo cantando junto. Como tem sido a receptividade? No primeiro show, no festival Sarará (em Belo Horizonte), chorei quando vi todo mundo cantando e gritando, fiquei muito emocionada. Toda hora eu falo: “Gente, vocês estão cantando todas as músicas!”. Isso é muito chocante. Porque tem um hit, tem um ali que vai. Mas, no caso do meu show, pelo menos o que pude ver até agora, todo mundo canta todas as músicas.


NOVIDADES NACIONAIS por_ Kamille Viola

do_ Rio

RAFAEL MIKE,

Artista multifacetado, Rafael Mike lança o single e clipe “Sunshine”, que compôs ao descobrir que Lara, sua filha de 11 anos, havia sido diagnosticada com meduloblastoma, um tipo de câncer que acomete crianças. “Eu raramente escrevo algo porque estou vivendo um momento x ou y. Sou um tipo de compositor que escreve o que vem na cabeça. Nesse caso, depois do resultado do exame da minha filha, senti algo muito profundo que me dizia o tempo todo que eu não poderia perder a alegria. Muito pelo contrário, eu devia extraí-la de dentro da alma e fazer com que ela se refletisse para os olhos da minha garotinha”, diz Mike. A menina conta que escuta a música nos dias tristes — e funciona. Uma inspiração para a canção foi “Happy”, de Pharell Williams, não só pela temática de celebração à vida, mas também pela sonoridade, com guitarras limpas e bateria muito dançante. A música é um feat com Cenora, nome da nova geração.

SOLAR

VEJA MAIS O clipe de ‘Sunshine’ ubc.vc/Sunshine

foto_ Cleber Barbe

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SONHO PANDÊMICO Como tantos de nós, no início da pandemia, Guilherme Barros se viu preso em casa da noite para o dia. Foi assim que ele passou a frequentar diariamente seu pequeno estúdio doméstico em São Paulo. O resultado da imersão é “Entre Miranda e Jangada”, experiência sonora em uma faixa de mais de 30 minutos. “Acho que a tristeza que a pandemia trouxe, com seus lutos, solidões e imobilidades, foi a força principal que atravessou esse trabalho. Ele almeja ser uma viagem para fora do contexto pandêmico, meio sonho, meio memória”, resume Barros à UBC. Munido de seu violão, ele adicionou a prática como captador de som direto para documentários à receita. Os galos, por exemplo, gravou em uma aldeia no Pará, de madrugada. Já o tear, registrou para sonorizar uma exposição do Museu do Café, em Santos (SP).

OUÇA MAIS A faixa ‘Entre Miranda e Jangada’ ubc.vc/barros


REVISTA UBC

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FRESNO:

INVENTÁRIO DE COMPOSIÇÕES

OUÇA MAIS A playlist ‘INventario’ ubc.vc/IN

Recentemente transformada em trio, com a saída do tecladista, a banda Fresno passou os últimos meses liberando as faixas da playlist “INVentário”. De agosto a outubro, o grupo foi soltando aos poucos as músicas, entre regravações e canções inéditas, que contam com participações de Jup do Bairro (“Veja Só”), Lio, da banda Tuyo (“Eu Inventei Você”), Terno Rei (“Teu Inverno Faz Calor”), Keops e Raony (“O Sonho é a Senha”) e a banda japonesa Magic Of Life (“Baka”), entre outros. Lucas Silveira, vocalista e guitarrista, contou que a ideia foi lançar músicas que, para o grupo, não caberiam em um álbum. “‘INVentário’ é justamente uma busca por corromper essa forma consagrada de compor, tem muita música ali que as pessoas vão achar que é inacabada, ao não ter verso ou refrão,mas isso somos nós, basicamente, compondo de maneiras diferentes”, disse Silveira, que forma a banda ao lado de Gustavo “Vavo” Mantovani (guitarra) e Thiago Guerra (bateria). No fim do projeto, o grupo anunciou por meio de uma nova faixa o álbum “Vou Ter Que Me Virar”, seu nono trabalho de estúdio, previsto para 5 de novembro.

VANESSA, FALCÃO

E OS PÁSSAROS Vanessa da Mata e Marcelo Falcão uniram forças no single “Nação de Passarinhos”, lançado no final de outubro. Com letra dela e música dele, a obra evoca um país “preso na gaiola esperando a tempestade passar”, com clima esperançoso e sutis mensagens políticas. “É uma música pra cima, de força, revigoramento”, descreveu Vanessa ao blog de Mauro Ventura na globo.com. Maurício Pacheco (guitarra e programação), Ruvício Santos (bateria e shaker) e Rodrigo Braga (teclados e baixo synth) participam. A produção é de Vanessa e Falcão.

VEJA MAIS clipe de ‘Nação de Passarinhos’ ubc.vc/passarinhos


NOVIDADES NACIONAIS 8

MILTON:

ÚLTIMA SESSÃO? 2022, ano em que celebrará 80 anos de vida, poderá ser o último em que Milton Nascimento subirá ao palco numa grande turnê própria. O anúncio da série de shows “A Última Sessão de Música” faz menção à canção homônima que ele compôs e entrou no disco “Milagre dos Peixes”, de 1973. Um sucinto texto nas redes sociais deu a entender sutilmente que a turnê poderá ser a derradeira (ao menos no formato de uma grande produção com apresentações seriadas).

LEIA MAIS Relembre a homenagem a Milton no Prêmio UBC 2019 ubc.vc/PremioUBC2019

UM SOM

O cantor e compositor mineiro Bemti lança seu segundo álbum, “Logo Ali”. Com 12 faixas, o disco conta com participações especiais de Fernanda Takai, Jaloo, Josyara, do artista português Murais (membro da emblemática banda Linda Martini) e do duo paulistano ÀVUÀ. Entre os instrumentistas convidados estão Helio Flanders, Paulo Santos (do grupo Uakti) e Marcelo Jeneci, que coproduziu, tocou e fez vocal de apoio na faixa “Livramento”, junto a Paulo Novaes. “Desde 2019, eu tinha essa vontade de falar sobre a iminência de algo muito grandioso, um apocalipse ou um futuro utópico. Com a pandemia, esse ‘Logo Ali’ acabou virando as jornadas que a gente precisa aguentar, individualmente e coletivamente, rumo a um ‘depois’ que a gente não sabe qual é. Tudo permeado por um ‘tropical pesado’, um Brasil azul petróleo e verde musgo”, explica Bemti.

OUÇA MAIS O novo álbum de Bemti na íntegra ubc.vc/logoali

foto_ Rafael Sandim

‘TROPICAL PESADO’


REVISTA UBC

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A VOZ DE

CRIS BRAUN,

Inspirada pelo universo feminino, a cantora Laura Zandonadi fez o EP “A Voz de Alguém”. A partir de três composições de grandes nomes masculinos da nossa música, “Alguém Cantando” (Caetano Veloso), “Água” (Djavan) e “A Menina Dança” (Moraes Moreira/Galvão), ela buscou ressignificar as canções sob a ótica feminina. Tudo surgiu quando Laura começou a conversar sobre a música de Djavan com uma amiga. A partir dali, teve a ideia de regravar canções atribuindolhes novos sentidos ligados ao feminino. Um grupo de WhatsApp surgiu para debater com mais mulheres. O processo derivou no EP. “O contato foi totalmente virtual num momento em que estava todo mundo querendo se conectar. Isso tornou o grupo ainda mais potente, todo mundo participou de um jeito muito feliz, muito emocionado”, comemora a cantora.

A cantora e compositora Cris Braun chega ao quinto disco solo com “Quase Erótica”. Aos 59 anos, ela conta que, refletindo sobre a queda hormonal da menopausa, percebeu uma nova forma de erotismo, libido e tesão. Daí o bem-humorado título do álbum. Produzido pela própria Cris com Dinho Zampier, o trabalho traz releituras de músicas da juventude da artista, que tornou-se cult à frente da banda Sex Beatles, nos anos 90. Essa espécie de balanço da carreira, ela jura, foi completamente inconsciente. “Talvez (tenha a ver com) a tristeza, este momento Tânatos, por motivos políticos também, não só pandêmicos”, pondera a artista. “Fui aprender a mexer no home studio, e tudo era lúdico. Fui bater lá atrás. Desejo de vida, Eros. Acho que fui fazer um balanço bemhumorado de mim mesma”, analisa o trabalho de base pop-rock com tintas indie e de MPB psicodélica.

LAURA ZANDONADI

OUÇA MAIS O EP ‘A voz de Alguém’ ubc.vc/voz

foto_ Henrique Oliveira

foto_ Juliana Ramos

DESEJOS

OUÇA MAIS As 8 faixas do álbum ubc.vc/braun


NOVIDADES NACIONAIS 10

LARISSA MANOELA:

DE MENINA A MULHER Marcando oficialmente sua transição de artista infantojuvenil para adulta, a cantora e atriz Larissa Manoela lança a faixa e clipe “Me Deixa a Milhão”. Composta por Cabrera e Breno Casagrande, a canção fala sobre uma mulher que vive o amor intensamente. “O título dessa música é muito minha cara, porque existem várias coisas que me deixam a milhão, eu sou ligada no 220 o dia todo. Essa música fala muito sobre você se entender, se encontrar, ser feliz e ver que você não precisa estar necessariamente com alguém pra se descobrir e ficar bem”, explicou a artista em coletiva de imprensa. “Iniciar essa nova fase da minha vida, saindo da Lari que todos conheceram quando pequena, pra Larissa Manoela, a mulher, é muito importante pra mim, é importante que as pessoas vejam que eu cresci.” VEJA MAIS O clipe de ‘Me Deixa a Milhão’ ubc.vc/milhão

O ‘CIRCO DOS HORRORES’

A cantora e compositora Gloria Groove lançou o single e clipe “A Queda”, de autoria dela e de Pablo Bispo, Ruxell e Lukinhas. A música, que fará parte do álbum “Lady Leste”, fala sobre a cultura do cancelamento. “Já estive nesse lugar algumas vezes, sim. Mais de uma vez. Sempre foram experiências traumáticas, nem sempre coisas com as quais consegui lidar diretamente. Creio que depositei na letra e no vídeo toda essa sensação de horror e exposição”, disse a artista ao jornal “Extra”. A faixa, a segunda do disco a ser divulgada — em junho, ela já havia disponibilizado “Bonekinha” — tem sido a mais bem-sucedida da carreira da cantora nas plataformas digitais. O vídeo foi dirigido por Felipe Sassi e tem clima entre o gótico e o burlesco, com inspirações nos filmes de Tim Burton e nos clipes de Marilyn Manson.

foto_ Rodolfo Magalhaes

DO CANCELAMENTO

VEJA MAIS O clipe de ‘A Queda’ ubc.vc/aqueda


REVISTA UBC

foto_ Lucas Silvestre

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VEJA MAIS O ‘visualizer’ do single homônimo ‘Próspera D+’ ubc.vc/demais

OUÇA MAIS A faixa ‘Lá Fora’ ubc.vc/láfora

BILTRE

O ANTÍDOTO

EM CLIMA RETRÔ

TÁSSIA REIS

Enquanto prepara álbum a ser lançado ainda este ano, a banda Biltre adiantou o single e clipe “Lá Fora”. Conhecido pelo clima solar e bem-humorado de suas músicas, aqui o grupo formado por Arthur Ferreira, Dioclau Serrano, Vicente Coelho e Diogo Furieri aposta em um lado romântico, com influência do R&B dos anos 1980. Autor da canção, Ferreira explica que a inspiração veio depois de ver um episódio da série “Black Mirror” que mostra uma história de amor em uma realidade simulada. “Escrita durante a pandemia, a letra reflete um pouco esse desejo de amar e viver grandes aventuras, de dirigir um carro sentindo vento no rosto, cantando uma música divertida. Num mundo onde o amor pode ser vivido sem vergonhas nem humilhações, sem governos autoritários e políticos preconceituosos”, diz.

Como tantas pessoas, a cantora e compositora Tássia Reis viu a pandemia de Covid-19 jogar um balde de água fria em seus planos. O disco “Próspera D+” (o anterior, de 2019, se chama “Próspera”), lançado por ela recentemente, é uma espécie de antídoto para o desânimo causado por esse momento. “Eu me vi triste, cansada e sem esperança. Precisava dessa injeção de vida”, contou à revista “Glamour”. Com 11 faixas inéditas, o trabalho traz participações de Tulipa Ruiz, Urias, Preta Ary, Monna Brutal e Melvin Santhana. “Fico muito contente de trabalhar com artistas que admiro e que me admiram também, a energia flui”, afirmou.

BOAS NOVAS A UBC estreou no site a seção Boas Novas. Semanalmente, publicamos lançamentos dos nossos associados, de todos os gêneros musicais, regiões e perfis. A ideia é democratizar a difusão do trabalho de quem faz a nossa música; portanto, o seu trabalho também é bem-vindo. Se quiser submetê-lo à curadoria da seção, mande as informações sobre ele (data de lançamento, foto, link para ser escutado) para comunicacao@ubc.org.br, não se esquecendo de mencionar Boas Novas no título!


ENTREVISTA 12

CAETANO VELOSO Todo mundo — Caetano Veloso incluído — pensava que “Meu Coco” era o primeiro, entre três dezenas de álbuns de estúdio que lançou ao longo dos últimos 55 anos, totalmente composto por ele, sem parceiros. “Acabo de me dar conta de que não: o ‘Cê’ era assim. Um amigo me alertou”, disse em entrevista à UBC o artista recém-premiado no Grammy Latino com o troféu de Gravação do Ano, ao lado do filho Tom, pelo single “Talvez”. “Temos de admitir, no entanto, que ‘Meu Coco e ‘Cê’ são dois discos que abrem áreas diferentes no histórico de minha criação.” De fato, se “Cê”, de 2006, evoca tão explicitamente hedonismo e mergulha em questões interiores de seu criador, “Meu Coco” abre olhos e ouvidos ao mundo, indagando tudo ao redor. Se um álbum de música reflete o zeitgeist, como descreveria este seu, lançado num momento tão particular do Brasil? As canções deste disco não tematizam a atualidade, mas estão trespassadas por ela. “Anjos Tronchos”, que fala da subida da extrema direita, de sexo à distância, de controle total na China. “Não Vou Deixar” é um enfrentamento do poder político atuante hoje no Brasil, uma resposta da cultura brasileira à opressão que se

Quatro perguntas para o cantor e compositor, recém-premiado no Grammy Latino, sobre seu mais recente álbum, ‘Meu Coco’ por_ Alessandro Soler

de_ Madri

esboça. “Meu Coco” enfrenta a rejeição ao narcisismo básico brasileiro sempre exposto no louvor à miscigenação. Por que decidiu prescindir dos parceiros de composição? Não decidi. Aconteceu. Eu estive quase todo o tempo em casa, sem encontrar amigos compositores, sem rodas de cantoria. Mas é verdade que esboços de parcerias iniciadas antes da pandemia ficaram guardadas aqui para compor um disco futuro. Letras que tinha recebido de amigos antes da quarentena.

Além do próprio disco, Caetano publicou uma carta em que comenta as canções. “Muitas vezes sinto que já fiz canções demais. Falta de rigor?, negligência crítica? Deve ser. Mas acontece que desde a infância amo as canções populares inclusive por sua fácil proliferação”, começa o artista, antes de descrever em detalhes cada uma das 12 músicas, citando Pretinho da Serrinha, Hamilton de Holanda, Jacques Morelenbaum, os filhos Zeca e Moreno e outros artistas que participam e/ou inspiram as sonoridades.

Como é o seu processo de edição do que entra ou não entra num álbum? Teve que deixar muita coisa de fora? Não. Quase nunca, ao longo da minha carreira, deixei canções de fora do álbum que estou fazendo. Agora não foi diferente. Numa era de consumo e comunicação fragmentados, uma era em que os singles são o modelo preferencial de lançamentos, por que seguir apostando pela entrega de um álbum todo de uma vez? Sou do tempo do long play. Acho que muita gente gosta de pensar num conjunto de canções que formam um todo. Isso não morreu nas pessoas por causa do streaming.

LEIA MAIS O álbum ‘Meu Coco’ na íntegra ubc.vc/meucoco


REVISTA UBC

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PELO PAÍS 14

foto_ Andre Giorgi

Paula Lima: “Sou uma pessoa que protesta e é consciente da estrutura racista que vigora.”


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UMA NOVA CONSCI ÊNCIA

Neste mês de novembro dedicado à valorização da ancestralidade negra, artistas da música reforçam debate sobre o racismo institucional do país por_ Gilberto Porcidonio

do_ Rio

A cada 23 minutos, um jovem negro morre assassinado no Brasil. O desprezo pela vida de pessoas afrodescendentes é um flagelo que marcou toda a nossa história — mas, de uns tempos para cá, algo mudou. A sociedade trouxe de vez este tema para a ordem do dia, e na música não é diferente. Emicida, Mano Brown, Paula Lima, Jeza da Pedra, Mombaça: são muitos os artistas que denunciam, na sua obra e no seu discurso público, a desigualdade racial e as vulnerações sistemáticas dos direitos da população negra. Em seu podcast, Mano a Mano, o rapper Mano Brown resumiu: “Já vi muito George Floyd (homem negro assassinado por um policial branco, ano passado, nos Estados Unidos) na minha vida. (A onda de protestos por sua execução) é um marco que, mesmo sendo moda, impulsionada por uma moda, impactou o mundo.” Cantora, compositora e diretora da UBC, Paula Lima sabe bem disso. Ela se define como uma mulher negra que sabe quem é e de onde veio. Por isso, sempre teve aflorada a questão racial, com suas necessárias e urgentes reflexões. Porém, admite, o episódio de Floyd, cuja morte terrível foi gravada por um celular e deu a volta ao mundo, fez aflorar algo diferente nela.


PELO PAÍS 16

A ARMA QUE NÓS TEMOS É A MÚSICA.” Mombaça

Há um ano, o cantor e compositor Mombaça lançou o clipe “Vidas Negras Importam – Eu Também Não Consigo Respirar”, no qual reuniu personalidades negras como a cantora e atriz Zezé Motta, o atleta Robson Caetano e a atriz senegalesa Mariama Bah. Nascido em uma família evangélica bem musical do bairro de Paciência, na Zona Oeste do Rio,

foto_ George Cambeiro

“Eu venho de uma época em que pouquíssimas pessoas falavam abertamente sobre isso. Antes, era entre a família, com os amigos. Depois, discussões em grupos pequenos sobre cotas, discriminação e o genocídio (dos negros). A partir do assassinato brutal do Floyd, todo o mundo se colocou naquele lugar. Eu me vi ali, vi meu pai, meu primo, meu amigo”, relata Paula, que também tem no assassinato da vereadora carioca Marielle Franco, em 2018, outro ponto de mudança na sua forma de se portar, inclusive artisticamente: “Hoje, posso dizer que essa voz faz parte da minha fala e da minha música. Sou uma pessoa que protesta e é consciente da estrutura racista que vigora.”


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Jeza da Pedra: “Acredito que a classe artística preta vem denunciando cada vez mais (a letalidade provocada pelo racismo).”

o multiartista já havia se engajado fortemente em 2014, na véspera da Copa, quando se discutia o racismo das torcidas.

engano”, no Rio: “Se o Brasil tivesse respeito pelos seus cidadãos, era para esse país estar pegando fogo hoje.”

“O dia em que estávamos fechando o clipe (de ‘Vidas Negras’) foi o mesmo do assassinato do João Alberto Freitas no Carrefour de Porto Alegre, então pegamos uma cena e colocamos com um texto de repúdio”, explica Mombaça.

O rapper Jeza da Pedra analisa: “Assistimos à letalidade provocada pelo racismo no conforto da tela dos nossos celulares e, a despeito de ainda não haver mudanças estruturais consistentes, acredito que a classe artística preta vem denunciando cada vez mais (essa realidade).”

A ira contida contra séculos de opressão e desprezo pelas vidas pretas derivou em uma onda de manifestações. Ao GNT, o rapper Emicida disse, comentando o caso do músico Evaldo Rosa e do reciclador Luciano Macedo, mortos por soldados do Exército com 80 tiros, “por

Mombaça faz coro. O discurso coletivo contra o racismo e a falta de igualdade, ele crê, é o que fará a diferença: “Eu não consigo fazer nada sozinho, por isso chamo os meus irmãos (da arte e da academia) para trazer um olhar mais refinado para a questão. A arma que nós temos é a música.”

LEIA MAIS Amaro Freitas e Jonathan Ferr: ancestralidade negra ao piano ubc.vc/ancestralidade


MERCADO 18

MÚSICA, LETRA E PAPO

por_ Isaque Criscuolo

de_ São Paulo Mano Brow

foto_ Jef

Podcasts — formato da vez nas plataformas de streaming — são cada vez mais pilotados por uma turma habituada aos microfones: os cantores e compositores


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É bem possível que agora, enquanto lê este texto, você esteja ouvindo uma música. Ou até, de repente, seu podcast favorito. O formato, que de novidade tem somente o meio digital no qual é hoje distribuído, bebe na fonte dos conteúdos de rádio: da famosa mesa-redonda, passando pelo informativo e chegando a narrativas roteirizadas e programas de entrevistas. Só no Spotify — que aposta forte nos podcasts —, o crescimento do modelo foi de 95% no segundo trimestre em relação ao mesmo período de 2020. A enorme onda de popularidade não se dá só entre os ouvintes; muitos cantores e compositores têm apresentado podcasts de grande repercussão. É o caso de Mano Brown, com seu Mano a Mano, criado com exclusividade para o Spotify. Logo em seus primeiros episódios, o rapper entrevistou Karol Conká sobre a polêmica participação da artista no “Big Brother Brasil 2021”,,além do ex-presidente Lula. Ambas as

entrevistas foram seguidas por uma forte onda de reações nas redes. E é essa a ideia de Brown: provocar debate e fazer pensar questões ligadas à raça, à vida na periferia, às diferenças sociais e a temas do momento no país. Em agosto, a cantora, escritora e atriz Letrux se juntou à escritora, jornalista e designer Leïlah, sua grande amiga, para apresentar o podcast Taradas por Letras, no Spotify, dentro de uma nova feature chamada Música & Papo. No programa, elas conversam sobre letras de música que contam boas histórias sobre seus autores, seu tempo e temas universais. “Sem a possibilidade de a música tocar inteira, a proposta estava mais na veia de um sarau, com a gente lendo estrofe a estrofe as letras e comentando”, conta Leilah. “O mais divertido é que nem sempre se concorda, não estamos ali dando uma verdade absoluta e definitiva, estamos nos questionando, viajando junto com a pessoa que nos escuta”, completa Letrux. LEIA MAIS Podcasts musicais: canais para divulgar a sua canção ubc.vc/Podcasts

Emicida

Letrux

Na mesma linha, o rapper Emicida também manteve um podcast para complementar a experiência do projeto “AmarElo”, que teve álbum, show, documentário, site interativo e outros formatos. A proposta era provocar, através de suas vivências pessoais, uma mudança de comportamento e reflexões.

Como já mostramos várias vezes no site da UBC, é um processo complicado usar músicas em podcasts. Apesar de estar sendo estruturado um processo centralizado de emissão de licenças no Brasil, um grande desafio ainda é garantir a distribuição dos valores aos titulares — o que, na prática, torna muito difícil o uso de faixas inteiras nos programetes.


MERCADO 20

EXPRESSO

2022 Tendências e desafios para a música no ano que está chegando por_ Eduardo Lemos

de_ Londres

O ano de 2021 está quase no fim, mas muitos temas que a indústria da música debateu continuarão em cena em 2022. Da batalha dos streamings por assinantes ao retorno dos eventos presenciais, passando por comunicação e relacionamento com marcas, conversamos com especialistas para mapear os diferentes caminhos que o mercado musical percorrerá no próximo ano.


REVISTA UBC

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NOVOS CAPÍTULOS DO CABO DE GUERRA ENTRE PLATAFORMAS E ARTISTAS, NOVAS MANEIRAS DE ASSINAR E OUVIR MÚSICA O mercado de sincronização está em alta, e o ritmo deverá continuar frenético em 2022, graças ao crescimento do mercado audiovisual, que terá Globoplay, Netflix, HBO, Apple TV +, Disney e outros players investindo pesado em novas produções. Combater os contratos buyout, em que os produtores do audiovisual pagam aos compositores das trilhas uma quantia fixa em troca da cessão total de direitos futuros, é um grande desafio. Assim como fazer com que redes sociais e plataformas ainda inadimplentes regulizarem os pagamentos aos criadores das músicas que são a base dos seus vídeos virais. A guerra de plataformas como Amazon, Spotify e Apple Music para oferecer música em alta definição e pacotes de serviços mais baratos para os assinantes é positiva. Mas a redução extrema de preços que algumas delas estão começando a implementar pode impactar as já baixas remunerações aos titulares de direitos autorais das músicas. Alguns dos principais interessados, os artistas, têm se envolvido cada vez mais na discussão. “Artistas e suas equipes querem debater o streaming, e não apenas aprender como funciona. Isso é muito positivo. O principal desafio é o poder econômico dos grandes players e a tendência de concentração de capital. O papel do Estado é importante na regulação de mercados, e aqui no Brasil o Estado não olha estrategicamente para o setor, como no Reino Unido, por exemplo”, explica Dani Ribas, diretora da Sonar Consultoria e coordenadora do Curso Estratégias de Carreira no Music Rio Academy.


MERCADO 22

COM TANTA OFERTA DE MÚSICA NA REDE, DESTACAR-SE SERÁ CADA VEZ MAIS DESAFIADOR

foto_ Nadja Kouchi

Carol Pascoal

Ainda que a pandemia não tenha terminado, os números mais baixos de contágios e mortes e o bom ritmo de vacinação fazem com que os shows comecem a voltar no Brasil. Artistas consagrados têm comemorado noites de ingressos esgotados, enquanto a cena independente mostra um retorno mais lento. Para Fabiana Batistela, diretora da SIM-SP, um dos desafios para 2022 será convencer as pessoas de que sair de casa é seguro. “A comunicação, mais do que nunca, terá a tarefa de difundir as orientações oficiais do que é preciso para comparecer em cada evento, como se comportar, como se proteger e como não colocar os outros em risco”, complementa Carol Pascoal, CEO e diretora criativa da Trovoa

Comunicação, agência responsável pela comunicação de festivais como Lollapalooza e Coala e artistas como Emicida e Sepultura. Na divulgação, o desafio é convencer os meios tradicionais a apostar por artistas sem tantos streams ou seguidores. Mas há boas estradas novas a explorar. “Acho a consolidação dos podcasts como um espaço possível para a divulgação de artistas um dos melhores avanços recentes. Há anos, os podcasts eram tidos como uma tendência, um eterno ‘vem aí…’”. Acho que finalmente aconteceram”, observa Carol, acrescentando que muitas vezes o formato rende mais retorno do que uma matéria em jornal, por exemplo.


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RELAÇÕES COM MARCAS: UMA TENDÊNCIA SEM VOLTA

foto_ Patricia Soransso

Dani Ribas

O AO VIVO VOLTOU, E O ONLINE NÃO VAI EMBORA “Tenho certeza de que as lives e os produtos digitais vão permanecer. Qualquer evento ou produção artística não pode mais se imaginar fora do digital, seja com redes sociais fortes ou com transmissão ao vivo. A gente entendeu que pode trabalhar e participar de eventos de qualquer lugar do mundo. Isso vai permanecer”, analisa Fabiana.

ou Organizações Autônomas Descentralizadas, em tradução livre), comunidades que, através do sistema de blockchain, estão elaborando novas formas de criar valor”, explica. Ela destaca dois exemplos fortes no mercado: a Opulous, iniciativa da distribuidora Ditto Music que possibilita aos artistas conseguirem empréstimos usando sua futura receita como garantia, e a Audius, cujos membros financiam diversas ações musicais (festivais, discos, concursos) através de um sistema de pagamento próprio, que utiliza “tokens” da plataforma. Fabiana Batistela

Para Dani Ribas, o digital ainda cumprirá um importante papel na formação de público, um dos maiores desafios para artistas iniciantes, mas não apenas com marketing digital, e sim com mecanismos de comunidade que se multiplicaram durante a pandemia e devem crescer no próximo ano. “Um exemplo são as DAOs (Decentralized Autonomous Organizations,

foto_ Jardiel Carvalho

Outra frente é o relacionamento entre música e marcas, que se estreitou na pandemia e deve ser uma importante fonte de receitas para os artistas em 2022, seja nas empresas apoiando e patrocinando eventos presenciais, como também na criação de conteúdos digitais. “Quanto mais as marcas apoiarem artistas e projetos que promovam ideias para o bem de todos, melhor para elas. Acredito que, no próximo ano, elas estarão ainda mais preocupadas em se conectar com pessoas que têm discursos voltados para o bem de todos, que promovam debates sobre questões antirracistas, feministas, LGBTQIA +, acessibilidade e sustentabilidade”, enumera Fabiana.

LEIA MAIS Conheça a plataforma Your Music, Your Future, que informa sobre o buy-out em português ubc.vc/YMYFemPT


CAPA 24

DJAVANEANDO Um papo com as estrelas que participaram da grande homenagem ao cantor e compositor alagoano, Prêmio UBC 2021 por_ Akemy Morimoto do_ Rio fotos_ Nana Moraes (Djavan) e Miguel Sá (todas as demais)


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Geraldo Azevedo

Após um hiato de quase dois anos sem apresentações presenciais, a quinta edição do Prêmio do Compositor Brasileiro foi marcada por uma homenagem ao cantor e compositor Djavan, dono de mais de 300 canções e há 32 anos no quadro da UBC. Mesmo em formato híbrido, o evento conseguiu recuperar a essência e a emoção dos encontros e reencontros proporcionados pela música. A junção de tantos números marcantes foi uma verdadeira festa à altura do ganhador da premiação e dos convidados. Seguindo os protocolos de segurança contra a Covid-19, a Casa UBC, no Rio, foi palco de interpretações repletas de entrega e viagem pelo mundo da música e da poesia. Agnes Nunes, Anavitória, Criolo, Diogo Nogueira, Geraldo Azevedo, Giulia Be, Jonathan Ferr, Liniker, Mart’nália e Zé Ricardo “djavanearam” através das letras e melodias — boa parte delas tendo como tema o amor — desse mestre da música popular brasileira. Criolo confessou que a pandemia lhe causa sonhos nostálgicos dos tempos em que os shows aconteciam sem restrições e, por isso, acorda chorando de saudade da antiga realidade. Já Geraldo Azevedo disse que a apresentação no Prêmio UBC foi ainda mais especial pelo mesmo motivo: “A falta de público continua, mas só o fato de estar com a banda do lado, cantando junto, sentindo o clima da ‘nata’ da música, é maravilhoso.” Além da felicidade de participar do Prêmio UBC, todos os artistas, do mais jovem ao mais maduro, foram unânimes em afirmar a relevância de Djavan para a cultura nacional. Reconhecido internacionalmente não só pelo público, mas pela comunidade artística, o dono de canções como “Eu Te Devoro” consegue desbravar palavras e explorar novos ritmos.

Assumidamente curioso, Djavan é um especialista que preza por novos enfoques e ritmos, mas as temáticas amorosas são inevitáveis. “Falar de amor não é ser repetitivo. É inesgotável essa fonte. Você tem, hoje, milhões de formas de falar de amor. O amor é o que move e o que eleva as pessoas”, descreve o artista. Além da sensibilidade para falar de afeto, Djavan não esconde sua empatia com as causas femininas: “Quando eu escrevo sobre a mulher, na verdade, estou me revelando a partir de um olhar que quer ser cada vez mais assertivo. É uma coisa da sensibilidade de um homem que valoriza as mulheres e que procura aprender com elas.”

Criolo


CAPA 26

Mart’nália

Amiga pessoal dele e uma das convidadas para o Prêmio UBC deste ano, Mart’nália não conteve palavras ao elogiar o talento do cantor e compositor: “‘Dja’ tem um orquidário em casa e sabe o nome de tudo. Então, ele consegue levar essas palavras para dentro da melodia dele e encaixar de uma forma única.” Sofisticada e popular”. Foi assim que o diretor-presidente da UBC, Paulo Sérgio Valle, descreveu a obra de Djavan. Mesmo com letras complexas, o compositor conquistou o grande público com a sonoridade impecável dos seus desenhos melódicos. Quem não conhece a letra sabe, ao menos, cantarolar os grandes hinos do artista, mas “nessa hora, não existe ‘cantar errado’. Você está fechando os olhos e cantando com a pessoa que você ama”, como disse Criolo, que afirma se emocionar com as músicas do compositor desde criança.

Paulo Sergio Valle

“Eu, como compositora, não acho que, necessariamente, as letras precisam fazer sentido para todo mundo. Cada um tem a sua maneira de interpretar, porque ninguém sente igual”, afirma Agnes Nunes.

Ana e Vitoria

A popularidade de Djavan também pode — e deve — ser associada ao jeito singular de mostrar a brasilidade nas canções. Com a mistura de gêneros como samba, jazz, balada, pop, música nordestina e afro, ele reforça a representação de uma nação miscigenada que pulsa arte. Ao mesmo tempo, nada o impediu de conquistar o mundo. Devido à facilidade de cair no gosto universal, Stevie Wonder foi um dos que se apaixonaram pelas melodias do artista, participando da gravação original de “Samurai”.


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Resistindo aos dados estatísticos, Giulia Be mostra toda a força da mulher e luta por espaço no mercado autoral. Segundo o relatório “Por Elas Que Fazem a Música” de 2020, as compositoras representaram apenas 8% do total distribuído no respectivo ano. Mesmo com o cenário ainda desfavorável, a artista vê luz no fim do túnel: “Eu sinto que tem um caminho de conscientização das artistas que estão começando. A gente quer pesquisar e ter mais informação sobre o que é a indústria da música no Brasil.”

Nos últimos cinco anos, mais de 60% dos valores destinados a Djavan pela execução pública de suas obras foram provenientes dos segmentos de Música ao Vivo, Rádio e Show. O sucesso absoluto do artista também se reflete no número de regravações de suas músicas, que somam quase dois mil fonogramas. Dentre todas as suas obras, “Flor de Lis” é a que possui mais gravações e, para Diogo Nogueira, que interpretou a canção no Prêmio UBC, ela tem um significado ainda mais especial: “’Flor de Lis’ é arrasa-quarteirão e faz parte da minha história musical, da minha vida. Desde que eu comecei a cantar nos bares aqui da Lapa, do Rio de Janeiro e de São Paulo, ela tem que estar no repertório. É carro-chefe, aquela música que você canta, e o povo levanta, dança, canta junto, e a gente se diverte.”

Ao transcender o espaço e o tempo, o ganhador de dois troféus no Grammy Latino marca presença como um compositor plural e atemporal. “Djavan consegue captar o ‘zeitgeist’, ele captura a essência das coisas e consegue fazer todo mundo curtir o que é feito”, afirma Giulia Be, jovem cantora indicada ao Grammy Latino de 2021. Com duas canções entre as cinco músicas mais executadas no segmento de Música ao Vivo (bares, restaurantes, hotéis e clubes), o alagoano tem suas obras em constante movimento. Intérprete de “Açaí” em voz e violão, o duo AnaVitória se encanta pela eternidade proporcionada pela música: “A música não tem um prazo de validade. Quando você escreve e lança uma música, essa ‘coisa’ começa a fazer sentido para muita gente e já está ganhando continuidade. Isso me deixa feliz”, afirma Ana. “Depois que a gente for embora, a nossa música vai continuar ressignificando a vida das pessoas e fazendo sentido pra cada um”, acrescenta Vitória. Já para Liniker, a música é capaz de conectar a “tecnologia ancestral presente nas pessoas”, além de trazer representatividade: “A gente se conecta com o nosso passado para poder estar no presente e no futuro. Eu não faria (música) se não tivesse achado estímulo, principalmente preto, para poder reconhecer o meu som e de onde eu estava vindo.” Ainda falando sobre identificação, a cantora, que comenta escutar as músicas de Djavan todos os dias, diz que “ele significa muito no quesito de entender a perspectiva do afeto sobre pessoas pretas cantadas por uma pessoa preta.”

Agnes Nunes e Liniker

Giulia Be


CAPA

Ao reverenciar o trabalho dos compositores, muitas vezes relegados a um segundo plano, o Prêmio UBC ganha cada vez mais respeito no mercado musical, ao longo dos anos. “O público se encanta por um artista performático no palco, mas é o compositor quem dá a ferramenta para aquele artista poder brilhar, é ele quem tem a capacidade de tocar o coração das pessoas”, afirma o diretor artístico Zé Ricardo, também intérprete (da canção “Samurai”) na edição 2021 do prêmio. A celebração contou ainda com uma apresentação virtual de “Lilás” nas vozes de Jota Pê, Flor Jorge, Romero Ferro, João Napoli, Caca Magalhães, Mahmundi, Zé Manoel e Francisco Gil.

Zé Ricardo

“A música é medicina. E Djavan traz cura. Ele torna a gente sensível para a poesia, para a musicalidade que ele propõe, completamente disruptiva, única”, afirma o multi-instrumentista Jonathan Ferr. Mesmo que limitado pela ausência de público, o encontro proporcionou a reunião do setor musical, que se fortalece no coletivo. “A música não salvou só nesse momento (pandêmico), ela salva sempre, em todos os momentos. Desde que você nasce e aprende música, ela te salva”, diz Diogo Nogueira. Para Djavan, a arte também lhe causa cura: “Escrever letras e poesias é uma coisa que me deixa num estado de elevação enorme. Quando acabo de fazer uma música, me sinto o homem mais poderoso do mundo.”

VEJA MAIS A cerimônia completa do Prêmio UBC 2021 ubc.vc/PremioUBC2021

Prodígio do afrofuturismo e originário do subúrbio carioca, Jonathan vê a cultura como um cenário horizontal, em que não há gênero superior ou inferior: “Eu não gosto quando falam que vão levar cultura para a favela com a música erudita, é muito colonialista, é como se lá não houvesse cultura. Nesses lugares, a cultura presente é riquíssima.”

Jonathan Ferr


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UM PROCESSO CRIATIVO MUITO PRÓPRIO Que Djavan brinca com palavras e harmonias não é novidade. Entender de onde surge tamanha inspiração para escrever canções tão ricas é o que tira o sono de muitos dos seus admiradores. Mas, segundo o artista, não há uma fórmula para o sucesso. “Entro no estúdio com a melodia e harmonia prontas, desenvolvo os arranjos com os músicos e, depois, eu vou adiantando as letras com o que me envolve naquele período”, afirma o autor. Para ele, é um período de introspecção e alegria: “Provavelmente, é o momento que me traz mais felicidade. É a revelação do meu ser, de como é que estou me movendo diante dos acontecimentos, diante das quetões que envolvem a minha vida naquele período.”

Diogo Nogueira

Marcelo Castello Branco, diretor-executivo da UBC, que também participou das homenagens


PELO PAÍS 30

É ELEITO ‘IMORTAL’ DA ABL


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Cantor e compositor é o terceiro nome oriundo da música a ocupar uma vaga na instituição do_ Rio

foto_ Irakerly

O cantor, compositor, instrumentista — e poeta — Gilberto Gil foi eleito em 11 de novembro para a Academia Brasileira de Letras (ABL). Poucos dias depois da escolha da atriz Fernanda Montenegro para outra das vagas abertas, a instituição deu ao baiano radicado no Rio de Janeiro a cadeira que pertenceu ao jornalista Murilo Melo Filho, morto ano passado, e que tem como patrono Joaquim Manoel de Macedo. A disputa foi entre Gil e o poeta e compositor maranhense Salgado Maranhão, ambos associados à UBC, com 21 votos para um dos mais conhecidos artistas da música brasileira em todo o mundo, Prêmio UBC 2017, e 7 para o criador de grandes obras, como “Diamante Bruto” (sucesso na voz de Alcione) e “A Flor da Magia” (cantada por Elba Ramalho), entre dezenas de outras. Também

LEIA MAIS A repercussão da eleição de Gil ubc.vc/2ZhWBoU

concorrendo, o escritor e crítico Ricardo Daunt não teve votos. Representantes de movimentos pela igualdade racial no país celebraram a decisão final entre dois negros, Gil e Maranhão; atualmente, entre todos os 36 membros da ABL (as quatro cadeiras restantes estão vagas), o único não branco é o professor e pesquisador Domício Proença Filho — que, entre 2015 e 2016, foi presidente da instituição, o primeiro afro-descendente desde o seu fundador Machado de Assis a ocupar o cargo. “Muito feliz em ser eleito para a cadeira 20 da Academia Brasileira de Letras. Obrigado a todos pela torcida e obrigado aos agora colegas de Academia pela escolha”, declarou Gil, através do Twitter, logo após o anúncio.

ACADEMIA POP Nos últimos anos, a ABL tem experimentado uma tímida porém consistente guinada para o pop, com a eleição de pensadores e criadores oriundos de universos criativos cada vez mais diversos. Geraldo Carneiro foi o primeiro compositor (em 2016), seguido pelo associado Antonio Cicero (em 2017). Cacá Diegues (cinema) e Fernanda Montenegro (artes cênicas) são outros exemplos de “imortais” de fora dos tradicionais eixos da Academia: literatura, filosofia, história, direito, jornalismo, economia e crítica de arte. Na época da sua eleição, Antonio Cicero resumiu assim a relação entre música e literatura: “A primeira poesia que se conhece, a da Grécia clássica, era musicada. A própria expressão ‘lírica’ vem, é claro, de ‘lira’. Os primeiros poetas não escreviam seus poemas; eles os cantavam. Isso volta a ser reconhecido.”


LÁ FORA 32

Quem são os principais nomes da novíssima e efervescente cena mainstream que emana de Lisboa — mas é movida por artistas de vários países que falam português por_ Fabiane Pereira

de_ Lisboa

POP PORTUGAL


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foto_ Pluma

O Brasil, com suas cíclicas crises econômicas, políticas e sociais, deixou de ser o destino número um dos portugueses. Já Portugal tornou-se a primeira opção para brasileiros que querem fazer turismo ou morar num país estrangeiro. Com isso, as diferenças culturais que nos separam vêm sendo minimizadas na mesma proporção em que as conexões se potencializam.

É impossível entender a música brasileira sem refletir sobre a colonização, as influências lusas e, sobretudo, o tráfico de escravos africanos levados à América a partir do século XVI. Todos os gêneros e ritmos brasileiros se ramificam dessa raiz e se consolidam nos séculos seguintes: o maracatu (no século XVIII), o baião (século XIX), o choro (século XIX) e o samba (entre o final do século XIX e o começo do século XX). Depois, essa tradição forneceu elementos rítmicos e inspirou o surgimento da bossa nova, da tropicália, do mangue beat, do funk carioca... Esse DNA luso-africano continua impresso em trabalhos de artistas contemporâneos tão díspares como BaianaSystem, Tuyo, Emicida, Luedji Luna ou Adriana Calcanhotto.

Dino D’Santiago


LÁ FORA 34 Mayra Andrade

Se, por muitos anos, o Brasil era o lugar mais importante da música lusófona, dado o tamanho do seu mercado e a esmagadora presença de música em português entre as mais consumidas localmente, algo acontece também na costa Leste do Atlântico. Lisboa tornou-se um novo centro da música lusófona sob a ótica artística, ao ser o lar de uma boa parte dos artistas que estruturam a cena pop contemporânea em língua portuguesa.

Pongo

Nelson Freitas

foto_ Fabien Brochet

Unidos por uma estética cosmopolita, alinhada a ritmos tradicionais oriundos de países africanos e com proximidade estilística, muitos artistas têm produzido sons híbridos, que poderiam ser tanto do Brasil quanto de Portugal ou da África. Alguns deles são o premiadíssimo Dino D’Santiago, mente criativa por trás do trabalho mais recente de Madonna; a cabo-verdiana Mayra Andrade; a angolana Pongo, conhecida como rainha do kuduro; Nelson Freitas, um dos nomes mais relevantes da kizomba; King Ckwa, autor de hits de kizomba; Buruntuma, guineense que se tornou um dos mais importantes DJs do afrobeat lusófono; Ana Joyce (Angola); e Nenny (a juveníssima rapper de origem cabo-verdiana).

Buruntuma


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35 Anna Joyce

Dino D’Santiago explica que sua musicalidade começou a se destacar pela religião. “Fui criado em Quarteira, no Algarve, e a igreja católica é muito presente nessa região. Meu primeiro contato com a música foi através dos corais da igreja. À medida que fui crescendo e conhecendo a história da humanidade, afastei-me da igreja, mas não da música”, relembra. Outra das interessantíssimas vozes da música lusófona contemporânea é Mayra Andrade. Nascida em Cuba, mas emigrada com a família para Cabo Verde aos 20 dias de idade, a cantora e compositora residente em Lisboa mistura elementos que atravessam sua vivência. “Morei fora de Cabo Verde e em Cabo Verde em momentos diferentes ao longo da minha vida. Morei em Paris e na Alemanha antes de vir a Lisboa, e essa experiência me deu outras formas de cantar, de ouvir, de vestir, de rezar. Isso moldou uma

Nenny

Desde o Buraka Som Sistema, banda portuguesa de extraordinária projeção internacional, que um artista não era tão incensado como Dino. Com dois álbuns lançados - Mundo Nôbu (2018) e Kriola (2020) – e um EP Sotavento (2019) -, todos premiadíssimos, o artista português de ascendência cabo-verdiana se preocupa em modernizar o gênero pop sem alterar suas bases. “Trabalho com uma sonoridade etérea e alinhada aos signos da eletrônica global, mas não modifico nem a palavra nem o ritmo”, conta.

personalidade muito aberta e, antes de isso influenciar a minha música, influenciou a minha forma de ver o mundo”, conta. Para Adriana Calcanhotto, o fato de os brasileiros estarem mais abertos a conhecer e ouvir a música portuguesa contemporânea faz parte de um processo de retroalimentação. “Não entendo por que isso não se deu antes. Há muitos anos eu vou a Portugal e penso sobre isso”, conta. A artista acredita que o Brasil consome mais música anglo-saxã do que portuguesa ou da África lusófona por uma questão de costume. “É muito interessante que os brasileiros ouçam música brasileira. Mas eu não saberia explicar o porquê de nos fecharmos à música portuguesa, africana e latina, por exemplo. A relação que os portugueses têm com a poesia também se dá no Brasil, mas menos pela poesia e mais pelas canções”, comenta Adriana, que vive na ponte aérea Rio-Coimbra. LEIA MAIS Conheça a websérie “Ponte Aérea: Portugal-Brasil”, que aproxima artistas dos dois países ubc.vc/ponte


NOTÍCIAS INTERNACIONAIS 36

do_ Rio

ARRECADAÇÃO DE DIREITOS AUTORAIS

CAI R$ 6,7 BI EM 2020 Os titulares de direitos autorais perderam o equivalente a R$ 6,7 bilhões em 2020. O dado consta do Relatório Anual de Arrecadações Mundiais da Cisac e inclui as cifras referentes aos setores musical, audiovisual, dramático, literário e de artes visuais. Só na música, maior setor para a gestão coletiva mundial, a queda foi de 10,7%, e o total arrecadado foi de € 8,187 bilhões, ou R$ 53 bilhões. O Brasil também perdeu participação ano passado. Nosso país, que chegou a ocupar a sétima posição no ranking global, em 2017, caiu para 12º em 2020, com o equivalente a € 132 milhões arrecadados, uma redução de 28,6% em euros. Pelo relatório do Ecad, divulgado em setembro, o total arrecadado em 2020 foi de R$ 905 milhões, queda de quase 20% em reais. LEIA MAIS O relatório completo da Cisac ubc.vc/Cisac2021

ANÚNCIOS NO YT JÁ GERAM MAIS QUE TODA A

INDÚSTRIA DE MÚSICA GRAVADA A Alphabet, holding responsável pelo Google e pelo YouTube, divulgou na última semana de outubro que o lucro com anúncios do YT no terceiro trimestre deste ano foi de mais de US$ 7,2 bilhões. De janeiro a setembro de 2021, o montante gerado (que não inclui assinaturas nem outras formas de receita, mas unicamente anúncios exibidos durante os vídeos do YT) foi de US$ 20,21 bilhões. A expectativa para o ano todo é de algo próximo a US$ 30 bilhões, mais do que o total previsto pelo Goldman Sachs para a indústria da música gravada global: US$ 23,5 bilhões.

COMO A APPLE MUSIC QUER

DESTRONAR O SPOTIFY A Apple Music já não esconde seu projeto de se tornar a maior plataforma de streaming do mundo. Em agosto, anunciou a compra da Primephonic, serviço de streaming especializado em música clássica, para criar a partir dele a “maior plataforma global” dedicada ao gênero. Em setembro, revelou ter começado a usar o app Shazam para melhorar os pagamentos de direitos autorais de música eletrônica. Só cinco pontos percentuais separam a Apple (25% do mercado global) do Spotify (30%). À UBC, Larry Jackson, diretor criativo da empresa da maçã, disse ver com “razoável facilidade” superar essa distância. LEIA MAIS A reportagem completa no site da UBC ubc.vc/applemusic


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LIVE NATION TEM RECEITA DE

SPOTIFY CHEGA A

US$ 2,7 BI NO TERCEIRO TRIMESTRE

172 MILHÕES DE ASSINANTES PREMIUM

A gigante dos shows e eventos Live Nation anunciou seu reultado operacional no último dia 5 de novembro: no terceiro trimestre deste ano, as receitas globais da empresa alcançaram US$ 2,7 bilhões, contra só US$ 154,8 milhões no mesmo período do ano passado. O mercado reagiu com euforia, e as ações da empresa dispararam. Alguns dias depois, a tragédia na cidade americana de Houston, durante um festival promovido pela empresa, com oito mortos e centenas de feridos derrubou os papéis em até 8%. Analistas, no entanto, dizem que a tendência de alta se mantém. “A música ao vivo voltou a fazer barulho”, disse Michael Rapino, diretor-executivo da Live Nation.

A maior plataforma de streaming do mundo anunciou um aumento de 7 milhões de assinantes no terceiro trimestre deste ano, na comparação com o trimestre anterior. Somados os assinantes totais das modalidades premium e freemium, ou gratuita, o montante chega a impressionantes 381 milhões de pessoas no mundo todo. Já as receitas com os assinantes premium alcançaram US$ 2,52 bilhões no trimestre encerrado em setembro, 6% a mais do que nos três meses anteriores e um valor que mantém a empresa sueca no caminho de encerrar o ano com lucro operativo recorde.


NEGÓCIOS 38

A MÚSICA GRAVADA, PERTO DE FURAR SEU

PICO HISTÓRICO Grandes gravadoras, em crescimento contínuo, alcançam valores recordes após sair à bolsa; o que explica os resultados tão bons? por_ Lucia Mota

de_ San Francisco, EUA

Exatas duas décadas depois do pico histórico nas receitas — e do enorme tombo que veio a seguir, com a pirataria —, as gravadoras não só recuperaram sua força como alcançam valorizações recordes. Em outubro, por exemplo, um mês depois de fazer sua primeira oferta pública de ações (OPA), a Universal Music, maior do mundo, cravou estratosféricos US$ 52,4 bilhões de valor de mercado. A Warner Music, que também fez sua primeira OPA em 2020, cresceu US$ 10 bilhões em valor de mercado desde então, para coisa de US$ 27 bilhões. E a Sony Music viu suas receitas digitais se multiplicarem 33% unicamente no terceiro trimestre de 2021.


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Mas o que está provocando toda essa primavera de resultados fantásticos? A resposta longa é, talvez, longa demais e inclui fatores diversos, com destaque para o crescente interesse do mercado de capitais pela música, tida como um asset sólido. Basta lembrar a onda de mega-aquisições de catálogos por fundos de investimento, que apresentamos na edição de maio passado da Revista. Fiquemos, então, com a resposta curta: streaming. “A música, como ativo, vai se valorizar muito mais nos próximos anos. É uma aposta sem volta que acompanha essa explosão do

streaming”, disse Cris Falcão, diretora da Ingrooves Group. Gravadoras, como se sabe, são parte importante da composição acionária de importantes serviços de streaming. E mais: são as principais beneficiárias da distribuição do bolo de royalties. O analista de mercado Tim Ingham vê uma tendência de mais e mais lucros no médio prazo: “Os resultados positivos no forte mercado europeu têm mantido a Universal constantemente acima de US$ 50 bi de valor de mercado. Pensemos que, em 2013, a (francesa) Vivendi, controladora da gravadora, recusou uma oferta de venda por US$ 8,5 bilhões. Os acionistas devem estar festejando até agora.”

O valor total do mercado de música gravada, se transposto a um gráfico de barras, teria um formato claro de U. Desde o pico de 2001, a queda foi acentuada até 2010, com estabilidade até 2014 e, desde então, crescimentos contínuos. Este ano deve fechar em mais de US$ 25 bilhões, segundo projeção da IFPI, a federação internacional das gravadoras. Analistas preveem que 2022 ou 23, no máximo, marcarão a virada, o momento de recorde histórico do mercado de música. A grande diferença estará na composição das receitas: da quase totalidade advinda de mídias físicas de 2001, para o peso de 62% do streaming de agora, podendo chegar perto de uma quase totalidade num futuro não muito distante.

LEIA MAIS Reveja a reportagem de capa da Revista UBC #48 sobre a venda de catálogos ubc.vc/catálogos


CARREIRA 40

IMPULSO 2.0 MILHARES DE CHANCES DE BOMBAR SUA CARREIRA

Até 10 mil associados podem participar da primeira fase do projeto de mentoria, capacitação e networking para potencializar seu caminho na música; veja como do_ Rio

Já começou o Impulso 2.0, segunda edição do bem-sucedido projeto de mentoria, capacitação e networking criado pela UBC em 2019 para ajudar os participantes a alcançarem uma nova fase na sua carreira musical. Agora uma parceria entre a nossa associação e o Noodle, start-up financeira voltada para a área musical, o Impulso foi notavelmente ampliado, de modo a espalhar conhecimentos sobre o mercado, o mundo dos direitos autorais e do marketing/gestão de carreira a milhares de associados. Até 7 de janeiro, titulares filiados à UBC que quiserem participar podem se inscrever para ter acesso a conteúdos educativos sobre direitos autorais, indústria musical e finanças, além de quizzes para testar os conhecimentos adquiridos, tudo na área exclusiva do projeto: impulso.ubc.urg.br. Até 10 mil associados podem participar.


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Entre os mentores e condutores de oficinas estão Renata Mader (Altafonte Brasil), Pablo Bispo (selo Inbraza – Som Livre/ Brabo Music Team), Elisa Eisenlohr (Warner Chappell), Leo Feijó (Música & Negócios), Kamilla Fialho (K2L), Luisi Valadão (Lupa Comunicação), Marina Mattoso (Jangada), Constança Scofield (Toca do Bandido), Fabiane Costa (Produção Artística/Espaço Favela - Rock In Rio), Marisa Gandelman (Advogada especialista em Direitos Autorais e ex-CEO da UBC), Pedro Seiler (Queremos!), Pedro Tourinho (MAP Brasil) Igor Bonatto e Fabiano Guimarães (Noodle), Romero Ferro (Cantor, Compositor e vencedor da 1a edição do Impulso) e Maurício Spinelli (Rabixco), Fernando Lobo (Head of Music na TV Globo) e Paula Lima (cantora e diretora da UBC).

No final desta fase, em dezembro, os 100 que tiverem a melhor pontuação e maior potencial passam ao próximo nível, no qual participarão de oficinas (gravadas e ao vivo) em dez áreas, como rede de contatos/parceria, planejamento, participação feminina, marca e várias outras. Os participantes poderão ainda inscrever projetos, que serão analisados por uma comissão avaliadora. Os 5 melhores passam à terceira e última fase e terão a chance de desenvolvê-los. É essa etapa final que contemplará uma série de atividades similares às da primeira edição do Impulso: mentorias individuais, com capacitação e soluções personalizadas, de marketing à gestão de finanças. Além disso, os 5 finalistas serão premiados com um conjunto de serviços e um

songcamp exclusivo oferecidos pela UBC e parceiros. “Encontramos na Noodle a parceria ideal para anabolizar esta ideia de uma aceleradora digital de talentos e potenciar carreiras futuras, sem fins proprietários, com a ambição de ser uma incubadora para tanta gente buscando soluções para seguir em frente”, diz Marcelo Castello Branco, diretor-executivo da UBC. “Ao somarmos forças com a UBC, conseguimos dar escala na capacitação do mercado, formando uma geração mais preparada para as novas dinâmicas da indústria”, completa Igor Bonatto, fundador da Noodle. LEIA MAIS Tudo sobre a edição anterior e mais detalhes sobre o Impulso 2.0 impulso.ubc.org.br


FIQUE DE OLHO 42

do_ Rio

UBC LANÇA CAMPANHA

COMPOSITOR VIRA

PAGUE O INGRESSO

PROFISSÃO REGULAMENTADA

Com a retomada do mercado musical, as receitas dos shows serão a principal fonte de sustento para milhares de integrantes da cadeia produtiva. Por isso, a UBC lançou a campanha Pague o Ingresso, que estimula as pessoas a não pedirem entradas VIP e, assim, financiarem seus artistas favoritos. “O bom funcionamento do tripé casa, artista e público é o que vai definir o futuro da nossa cena”, resumiu Alê Youssef, ex-secretário municipal de Cultura de São Paulo e idealizador da casa de shows Studio SP. Criadores, produtores e mercado se engajam na iniciativa, que visa a contornar a falta de ajudas efetivas do governo à indústria musical durante a pandemia.

LEIA MAIS Outros detalhes sobre a campanha ubc.vc/PagueoIngresso

A Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) da Câmara dos Deputados aprovou o projeto de lei 4.308/2012, tornando a composição musical uma profissão regulamentada. Como o projeto tinha caráter terminativo, não requereu nenhuma etapa mais e foi diretamente a sanção presidencial. Apesar de, na prática, a regulamentação — que permite a sindicalização e o estabelecimento de horas mínimas e máximas de trabalho, entre outras coisas — não trazer mudanças substanciais coletivamente, já que poucos compositores trabalham em regime de CLT, o peso simbólico foi grande. Isso porque a aprovação ocorreu em 7 de outubro, Dia do Compositor Brasileiro. LEIA MAIS Sydney Sanches, consultor jurídico da UBC, comenta a aprovação ubc.vc/compositor

EXECUÇÃO PÚBLICA PERDE QUASE

R$ 200 MILHÕES POR ANO COM PIRATARIA A pirataria da TV por assinatura no Brasil tira dos titulares de direitos de execução pública das músicas usadas na programação das emissoras quase R$ 200 milhões por ano. O cálculo, feito pela UBC a partir de dados divulgados por Marcelo Bechara, diretor de Relações Institucionais do Grupo Globo, mostra o tamanho de um problema a ameaçar a própria sobrevivência da TV paga, setor que em 2019 respondeu por 23% de tudo o que o Ecad distribuiu entre compositores e outros titulares. E a proliferação das caixinhas piratas nas grandes cidades é, em grande parte, responsável por esse problema.

LEIA MAIS A reportagem completa no site da UBC ubc.vc/Tvpirata


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ESTUDO DO ECAD DETALHA IMPACTO DA

PANDEMIA NA ARRECADAÇÃO O Ecad lançou em setembro mais um estudo da série O Que o Brasil Ouve, no qual detalhou as perdas financeiras decorrentes da pandemia em vários segmentos do mercado musical. De janeiro a junho, foram distribuídos R$ 399 milhões a 185 mil titulares de direitos autorais, queda de 19% em relação a 2020. O segmento Show despencou 75%. Já os ganhos relacionados às apresentações e eventos do carnaval tiveram queda de 80% — vale lembrar que, em 2020, o segmento havia alcançado um bom resultado de R$ 24 milhões distribuídos, alta de 12,5% em relação a 2019.

LEIA MAIS Outros dados do relatório do Ecad ubc.vc/EcadRelatório

UBC TEM MAIS DE

30 INDICADOS AO GRAMMY LATINO Mais de 30 associados foram indicados em 13 categorias do Grammy Latino 2021, e vários saíram vencedores. Além de Caetano Veloso, que levou o troféu de Gravação do Ano ao lado do filho Tom, pelo single “Talvez”, Paulinho da Viola, Ivete Sangalo, Anavitória e Zeca Baleiro venceram nas categorias em língua portuguesa na qual concorriam. Nomes como Nando Reis, Diogo Nogueira, Giulia Be, Emicida, Duda Beat, Daniel e Daniela Araújo, entre muitos outros, foram finalistas.

LEIA MAIS Caetano e os demais vencedores ubc.vc/caetano


ARRECADAÇÃO E DISTRIBUIÇÃO 44


REVISTA UBC

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USUÁRIOS REGRAS BEM GERAIS... PRÓPRIAS Entenda como funciona a rubrica que, antes da pandemia, sempre esteve entre as mais importantes para a gestão coletiva do_ Rio

A Revista UBC continua a série que relembra as regras de arrecadação e distribuição das principais rubricas do Ecad. Nesta edição, apresentamos Usuários Gerais, um guarda-chuva que abriga grandes segmentos como Música ao Vivo (em restaurantes, por exemplo), Casas de Festas e de Diversão, além de Sonorização Ambiental (lojas e shoppings, por exemplo). A distribuição do segmento de Música ao Vivo é realizada com base nas amostras coletadas pelos técnicos de distribuição do Ecad que percorrem casas noturnas, pianos-bares, restaurantes e estabelecimentos congêneres que executam música ao vivo, com a finalidade de gravar o repertório executado. Para isso, é usada a amostragem de 50 mil execuções a serem captadas no trimestre nas cinco regiões do país. Tanto os estabelecimentos como as gravações são selecionados de forma aleatória, numa metodologia certificada pelo Ibope Inteligência. Os direitos pagos são os autorais. A distribuição do segmento de Casas de Festas e de Diversão — que contempla a música mecânica, ou seja, reproduzida no sistema de alto-falantes sem que ninguém

a esteja tocando ao vivo — é realizada com base em uma amostra específica coletada pelos técnicos de Distribuição do Ecad, em estabelecimentos como casas de festas, restaurantes, bares, boates e clubes, através da fixação do Ecad.Tec Som (equipamento de gravação digital), utilizado para gravar as músicas tocadas. A amostragem aqui é de 25 mil execuções. Os direitos pagos são os autorais e os conexos. Já a distribuição da rubrica de Sonorização Ambiental é realizada com base em uma amostra específica coletada pelos técnicos de distribuição do Ecad, em redes de lojas comerciais, supermercados e shopping centers, através da fixação do Ecad.Tec som (equipamento de gravação digital), utilizado para gravar as músicas tocadas. A amostragem é de 25 mil execuções, e os direitos pagos são os autorais e conexos. Nos três casos, a distribuição é trimestral, em janeiro, abril, julho e outubro.

LEIA MAIS O calendário de distribuição do Ecad ubc.vc/calendario


DÚVIDA DO ASSOCIADO 46

ENTENDA MAIS SOBRE O PROJETO EM UBC.VC/IMPULSO2 FAÇA SUA INSCRIÇÃO ATÉ 07/01 EM UBC.VC/INSCRICAO

Como vai funcionar a primeira fase do Projeto Impulso 2.0? REVISTA UBC Além de dar um gás na carreira dos cinco vencedores, o Projeto Impulso 2.0 tem como objetivo alcançar e impactar o maior número possível de associados em todas as etapas, trazendo o conhecimento necessário para que eles possam estruturar melhor suas carreiras e se desenvolverem como artistas. As inscrições para a iniciativa vão até 7 de janeiro, mas vale ressaltar que, quanto antes o cadastro for feito, maior tempo hábil para concluir a primeira etapa você terá. Para se inscrever, basta acessar impulso. noodle.cx/cadastro e preencher com os dados solicitados, inclusive seu número do Ecad, que você encontra no nosso Portal do Associado ou no app UBC.

Como o Impulso 2.0 tem foco educacional, a primeira fase está aberta a todos que estiverem interessados em obter conhecimentos sobre direitos autorais, indústria musical e finanças. Até dezembro, os participantes serão pontuados, na medida em que forem consumindo essas mídias e respondendo aos quizzes. No final deste período, a equipe da UBC fará uma seleção de 100 participantes, levando em conta a pontuação, o empenho e o potencial para desfrutar a próxima etapa. Vale ressaltar que, para passar à segunda fase, todos devem ser associados da UBC. Em casos de bandas, é necessário que pelo menos um membro seja associado da UBC, e os outros devem se associar até o final da primeira etapa para passarem à próxima fase.

E VOCÊ, TEM DÚVIDA? Entre em contato pela seção Fale Conosco, do nosso site (ubc.org.br/contato/faleconosco), pelo telefone (21) 2223-3233 ou pela filial mais próxima.


PARABÉNS AOS ASSOCIADOS VENCEDORES DO GRAMMY LATINO 2021 CAETANO E TOM VELOSO

A COR DO SOM

ZECA BALEIRO

Gravação do Ano - “Talvez”

(associados Dadi Carvalho, Mú Carvalho e Gustavo Schroeter)

Álbum de MPB “Canções D’Além Mar”

Álbum de rock ou alternativo em língua portuguesa - “Álbum Rosa”

ANAVITÓRIA

PAULINHO DA VIOLA

IVETE SANGALO

Álbum pop contemporâneo em língua portuguesa - “Cor”

Álbum de samba/pagode “Sempre Se Pode Sonhar”

Álbum de raízes em língua portuguesa - “Arraiá da Veveta”

ANA CAETANO (da dupla Anavitória) Canção em língua portuguesa “Lisboa” (com o não associado Paulo Novaes)


O número de edições da Revista UBC já é motivo de orgulho para nós. Saber que, nelas, ampliamos a voz de milhares de associados é ainda melhor.

Obrigada por fazer parte disso!