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#48

COMPRA DE CATÁLOGOS O que há por trás da disputa entre fundos de investimento e editoras pela aquisição das criações de grandes artistas da música

MAIO 2021

RE VIS TA

PELO PAÍS Álbuns visuais: o encontro definitivo de som e imagem LÁ FORA China e Índia seguem os passos da Coreia no pop global E MAIS Alceu Valença, Ana Cañas, Anitta, Marina Lima, Fiduma & Jeca, Tássia Reis e Rico Dalasam


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VOCÊ VIU? UBC promove conversa sobre os NFTs, uma certificação que gera negócios milionários, inclusive na música.

TOPO DAS PARADAS 1º 04/02/2021 Pitch: como emplacar sua música numa playlist editorial no streaming ubc.vc/PitchEmplacar

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2° 10/03/2021 Tendências 2021: o patrocínio de marcas à música ubc.vc/Marcas2021

3° 05/04/2021 NFTs: Revolução no mercado musical ou bolha com os dias contados? ubc.vc/NFTs


#48

MAIO 2021

RE VIS TA

A REVISTA UBC É UMA PUBLICAÇÃO DA UNIÃO BRASILEIRA DE COMPOSITORES, UMA SOCIEDADE SEM FINS LUCRATIVOS QUE TEM COMO OBJETIVOS A DEFESA E A DISTRIBUIÇÃO DOS RENDIMENTOS DE DIREITOS AUTORAIS E O DESENVOLVIMENTO CULTURAL.

Diretor executivo Marcelo Castello Branco Coordenação editorial Vanessa Schütt Assistente de coordenação editorial Pedro Henrique Guzzo Projeto gráfico e diagramação Crama design estratégico Editor Alessandro Soler (MTB 26293) Textos Alessandro Soler (Madri), Aloysio Reis (Rio de Janeiro), Bruno Albertim (Olinda, PE), Chris Fuscaldo (Rio de Janeiro), Eduardo Lemos (Londres), Fabiane Pereira (Rio de Janeiro), Hérica Marmo (Lisboa), Isaque Criscuolo (São Paulo), Peter Strauss (Rio de Janeiro), Ricardo Silva (São Paulo) Fotos Imagens cedidas pelos artistas. Créditos nas respectivas páginas, ao longo da edição. Rua do Rosário, 1/13º andar, Centro Rio de Janeiro - RJ, CEP: 20041-003 Tel.: (21) 2223-3233 atendimento@ubc.org.br

por_ Marcelo Castello Branco

A música gravada vive seu melhor momento do século 21. Promissoras expectativas aceleradas pela pandemia, o protagonismo do digital e a consolidação frenética de aquisições, além de fusões e invenções como os NFTs, excitam o mercado criativo com oportunidades e desafios.

EDITORIAL

Diretoria Paulo Sérgio Valle (Presidente) Antonio Cicero Erasmo Carlos Geraldo Vianna Manno Goes Marcelo Falcão Paula Lima

Todo este movimento coexiste com uma insatisfação crescente e justa a respeito da remuneração aos criadores de conteúdo, autores, artistas, músicos — agentes insubstituíveis de um ecossistema que, para ser sustentável, precisa contemplar a todos. Neste cenário de muitas possibilidades e de uma certa estagnação do mercado financeiro, a música surge como um pretenso commodity, uma mercadoria aditivada com fatos e combustíveis recentes: • Uma discussão acalorada no Parlamento do Reino Unido sobre a matemática da distribuição no streaming, envolvendo plataformas, sociedades de gestão autoral, artistas, compositores, gravadoras e editoras. • O inicio do funcionamento, em janeiro, da MLC (Mechanical Licensing Collective), agência criada nos EUA para identificar e distribuir direitos mecânicos digitais. • A entrada no mercado de fundos de investimento, que deve colocar mais pressão no lobby da redivisão dos direitos envolvidos no streaming. • O duelo de viabilidade de dois modelos de pagamento aos titulares no streaming, o “market centric”, em predominante vigor e que leva em conta todo o bolo, e o “user centric”, onde o dinheiro de cada assinante iria para o que ele consome. Neste circo de novidades, é natural que o mercado se interesse pelo complexo mundo da propriedade autoral. O papel da sociedade de gestão de direitos é pró-titularidade de obra e fonograma por seus criadores e produtores originais. Por outro lado, os criadores são soberanos em suas decisões de vender ou não. Não interferimos no processo, mas os municiamos de dados e ponderações de mercado. Não existe divórcio entre cultura e negócio.


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NOTÍCIAS INTERNACIONAIS FIQUE DE OLHO MERCADO: Acordo UBC-SPA MERCADO: TikTok e a música antiga

ARRECADAÇÃO E DISTRIBUIÇÃO: TV aberta DÚVIDA DO ASSOCIADO

PELO PAÍS: Alceu Valença

20

LÁ FORA: Pop asiático

NOVIDADES NACIONAIS

16

CAPA: Compra de catálogos

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PELO PAÍS: Álbum visual

6

PELO PAÍS: Tássia Reis e Rico Dalasam

5

JOGO RÁPIDO: Ana Cañas

ÍN DI CE 12

20

1 50

24 32 40


JOGO RÁPIDO

REVISTA UBC

5

Aos 40 anos, cantora e compositora alcança uma liberdade inédita para experimentar, em novo álbum e na TV por_ Chris Fuscaldo

do_ Rio

foto_ Marcus Steinmeyer

ANA CAÑAS

A nova idade de Ana Cañas, completada em setembro do ano passado, está sendo comemorada em grande estilo. A cantora e compositora realizou em forma de live um dos shows mais aclamados de sua carreira, um tributo a Belchior, que derivou num álbum a ser lançado este ano com financiamento coletivo dos fãs. Também estreia um programa na TV sobre sexo. Seu principal projeto no momento é o tributo a Belchior? Num momento tão difícil como esse que vivemos, foi uma surpresa imensa quando os fãs sugeriram que eu gravasse o disco e se mostraram dispostos a colaborar financeira e emocionalmente. Cantá-lo continua sendo um dos maiores desafios da minha carreira, não só pela idiossincrasia do próprio universo belchiorano – sempre profundo e direto –, mas pela atualidade e complexidade das letras. O que significa ter 40 anos? Me sinto mais madura, mais segura, mais bonita e com uma liberdade maior nas escolhas, no sentido de não me importar tanto com os rótulos ou com as cobranças. Faço algo se sinto que devo ou quero fazer. Percorri caminhos não lineares, e minha música sempre refletiu as diversas fases da minha vida, para o bem e para o mal.

VEJA MAIS A live dela com canções de Belchior na íntegra ubc.vc/ACanas

E o programa na TV? Vai se chamar “Sobrepostas”, no Canal Brasil. O programa é escrito e dirigido por mulheres incríveis e ficcionalizará vivências sexuais reais de mulheres cis e trans, mulheres pretas, gordas, pessoas queers. Acho que será uma grande conquista, entendendo que a sexualidade feminina é extremamente oprimida e ainda é um tabu em 2021.


NOVIDADES NACIONAIS 6

por_ Chris Fuscaldo

do_ Rio

HOMENAGEM A

GIL Parceiro de banda e produções de Gilberto Gil desde 1997, o multi-instrumentista Sérgio Chiavazzoli se une à cantora Laura Zandonadi para homenagear o baiano em um single. Será o primeiro de uma série. Curiosamente, em mais de 20 anos de parceria com Gil, Chiavazzoli nunca havia tocado “Preciso Aprender A Só Ser”, canção de 1974 escolhida pela cantora (niteroiense como ele), que tem tudo a ver com o momento que o mundo está vivendo: “Em meio à pandemia, ela adquiriu um novo sentido. Para mim, parece extremamente atual. Gil é um mestre da arte do viver. E eu tenho absoluta certeza de que esses mesmos versos podem tocar outras pessoas na perspectiva atual de isolamento”, diz Laura. OUÇA MAIS Preciso Aprender a Só Ser”, com Laura e Sérgio ubc.vc/SoSer

ANITTA

FROM BRAZIL

VEJA MAIS O clipe de “Girl From Rio”, gravado no Piscinão de Ramos, no Rio ubc.vc/FromRio

LEIA MAIS Anitta, a construção de uma estrela, na Revista UBC # 28 ubc.vc/Estrela

foto_ Mari Magno

A cantora e compositora se prepara para lançar seu quinto álbum e, como vem fazendo há anos, o soltará em pílulas. O primeiro single, “Girl From Rio”, saiu no último dia de abril, em inglês, com produção da dupla Stargate, também responsável pela composição da faixa ao lado da própria Anitta e de duas outras mulheres: Gale e Raye. Na obra, Anitta flerta com o trap, sem abandonar os temperos funk e pop que marcam sua peculiar mistura de referências, e apresenta um sample de “Garota de Ipanema”. O álbum, com previsão de lançamento nos próximos meses, é um novo passo da cantora na direção da internacionalização que persegue há anos.


REVISTA UBC

7

foto_ Candé Salles

MARINA LIMA:

Marina Lima está a fullgás. Logo após avisar que vai lançar um songbook com sua obra compilada, a cantora e compositora anunciou “Motim”, seu novo EP, com quatro músicas inéditas. “Marina Lima – Música e letra”, o ebook, trará partituras de 175 composições gravadas entre 1978 e 2021, inclusive as canções novas de “Motim”. Uma delas, “Nóis”, conta com a participação do rapper Mano Brown.

MÚSICA, LETRA E LIVRO OUÇA MAIS O EP na íntegra ubc.vc/Motim

CANTO CEGO:

A banda carioca Canto Cego lançou em seu canal do YouTube uma releitura de “Admirável Gado Novo”, de Zé Ramalho. É a sétima faixa que o grupo liderado por Roberta Dittz registra para o projeto “Canto Cego (Em Casa)”, no qual os músicos lançam regravações feitas no isolamento acompanhadas sempre de bem produzidos clipes, um dos melhores trunfos que eles têm. Para os fãs, um alento em tempos de quarentena: “Essa letra traduz muito do que a gente vive nos dias de hoje e, de certa forma, é uma maneira da gente colocar pra fora muitas das nossas angústias. Unir o rock à MPB é sempre uma coisa que adoramos fazer”, conta Roberta.

QUARENTENA CRIATIVA

VEJA MAIS O clipe de “Admirável Gado Novo” ubc.vc/Gado


NOVIDADES NACIONAIS 8

BIQUINI CAVADÃO,

MASSA,

Em março, o Biquini Cavadão completou 36 anos de carreira. O presente foi um disco de platina duplo referente a um lançamento de 2014, o álbum ao vivo “Me Leve Sem Destino”. No entanto, as celebrações não param por aí. Com seus integrantes em isolamento sanitário, a banda começou a registrar um novo trabalho, que já tem nome: “Através dos Tempos”. Produzido pelo britânico Paul Ralphes – responsável por grandes êxitos da discografia brasileira –, o álbum trará canções inéditas, inclusive parcerias com Dudy Cardoso, Manno Góes, Rodrigo Coura, Marcelo Hayena e Eric Silver.

O cantor e compositor carioca Massa chega ao mercado com jeito de amante latino, mas totalmente fiel às raízes. Sua estreia em clipe tem um tempero especial: a participação de seu compositor favorito, Zeca Baleiro, e da esposa, a cantora Aline Diniz. O single “La Muchacha de Madrid” mistura salsa, merengue, rock e MPB e faz parte do EP “¡Arriba!”, que em maio chega completo às plataformas digitais com outras participações, entre elas Sidney Magal. Além da lealdade aos ídolos e à companheira, que divide as cenas de “La Muchacha de Madrid” como se fosse parte de um duo, a fidelidade também passa pelo DNA: o suingue brasileiro Massa deve ter herdado da prima de seu avô, a internacionalmente conhecida como Carmen Miranda.

ANO 37 E ALÉM

ALINE E BALEIRO

VEJA MAIS Assista ao clipe do single ubc.vc/Muchacha

CHICO E MÁRIO

Logo após lançarem “Fortuna e Paz”, Chico Chico e o músico, pintor, poeta e político caboverdiano Mário Lúcio soltam no YouTube o clipe da canção que compuseram juntos. Dirigida por Carol Santana, a videoarte traz as imagens dos dois artistas borradas entre cores e traços. A canção é uma balada sobre saudade. “Ouvi-lo cantar é, para mim, aprender sobre calmarias e tempestades. É se lançar aos mares e ver de perto seus temores e também, inevitavelmente, suas belezas. Aprendo, sempre que escuto, VEJA MAIS A videoarte de “Fortuna sobre as pequenezas. Ou, melhor, sobre coisas gigantes”, declarou Chico Chico em e Paz” ubc.vc/Paz seu Instagram.


REVISTA UBC

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RAPPERS

UNIDOS

OUÇA MAIS O disco na íntegra ubc.vc/Rappers

CAFÉ COM

Depois de lançar alguns singles e um EP, o duo Feito Café disponibiliza em maio nas plataformas digitais o álbum “Stand-up Drama”, com nove canções autorais produzidas pelo músico e produtor carioca Clower Curtis. Formado por Hugo Oliveira (violão e composições) e Letícia Pacheco (voz), o Feito Café nasceu em 2014, em Angra dos Reis (RJ), misturando folk, pop e MPB. No novo disco, a dupla viaja de canções delicadas como “Triste de Quem” até músicas mais agitadas, como “Num Dia Como Outro Qualquer” e “Parece”. Nesta última, o lendário guitarrista Rick Ferreira reforça a banda com seu steel guitar.

OUÇA MAIS As 9 canções do álbum ubc.vc/Drama

foto_ Felipe Sales

RICK

Idealizado pelos rappers Dowsha, De Leve e DJ Erik Skratch, o álbum “Poesia Rústica Mixtape” chegou às plataformas digitais em meados de abril, resgatando o espírito contestador e multiartístico da cena hip hop do início dos anos 90. “As músicas falam de respeito, coletividade e comunhão. Trazem crítica social, mas também questionam os rumos do próprio movimento, que vem se perdendo num apelo puramente comercial”, definem os artistas, que se uniram na composição das 14 músicas do primeiro disco do projeto, que tem ainda Eloy Polemico coassinando “Marginal Alado”. A direção do projeto é de Dowsha (Daniel Shadow), e a mixagem é de Johnny Monteiro.


NOVIDADES NACIONAIS

foto_ Leo Aversa

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DORA E

OS BONS

Uma MPB fresca e, ao mesmo tempo, conectada à melhor tradição da música brasileira, de letras profundas e verdadeiras, marca o novo disco de Dora Toiá. Em “Sim, Eu Te Amo”, a cantora fluminense se uniu a parceiros como Ronaldo Bastos, Fernando Caneca e Vytória Rudan na composição das faixas e recebeu um time de músicos convidados como Gastão Villeroy, Pedro Braga, Mac Willian, Kiko Horta e Federico Puppi, entre vários outros. Dois dos destaques são a faixa-título e “Canção do Mar”, de Ferrer Trindade e Frederico de Brito, que ela apresentou na sua turnê por Portugal em 2018.

ZÉ MANOEL

EM VINIL OUÇA MAIS Faixa a faixa, “Do Meu Coração Nu” ubc.vc/nu

Aclamado pela crítica no final de 2020, o álbum “Do Meu Coração Nu”, de Zé Manoel, ganha versão em vinil. No disco, o cantor, compositor e pianista pernambucano ressalta sua ancestralidade em canções como “Adupé Obaluaê” e “História Antiga”. Produzido por ele mesmo, o álbum tem participações de Luedji Luna, Bell Puã, Gabriela Riley, Grupo Bongar e Letieres Leite. O vinil chega através da parceria entre Três Selos, Discos ao Leo e Jóia Moderna.

BAHIAMARANHÃOURUGUAI O BaianaSystem incluiu uma faixa extra no recémlançado álbum “OXEAXEEXU”, apresentado em três partes — “Navio Pirata”, “Recital Instrumental” e “América do Sol”. Em “Brasiliana”, mais uma potente crítica social embalada ao som da guitarra baiana, o grupo liderado por Russo Passapusso conta com luxuosa participação do maranhense Chico César, que mandou sua participação pré-gravada do Uruguai, onde está vivendo. Com o single, o repertório de 21 canções do álbum foi concluído.

OUÇA MAIS A faixa “Brasiliana” ubc.vc/brasiliana

foto_ Maquina

VEJA MAIS O clipe de “Sim, Eu Te Amo” ubc.vc/Sim


REVISTA UBC

foto_ Brunkaiuca

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Música de 2003 lançada por Gabriel O Pensador, “Racismo é Burrice” acaba de ganhar uma releitura do Detonautas Roque Clube, com participação de seu autor. Primeiro single e videoclipe da banda de Tico Santa Cruz em 2021, a faixa já denunciava a discriminação no início do século e segue mais atual do que nunca. “Essa música foi gravada há alguns anos pelo meu parceiro Gabriel O Pensador e, de lá pra cá, muito pouco mudou. Nós, que temos a pele clara, sabemos que somos privilegiados, e as nossas responsabilidades são do tamanho dos nossos privilégios. Consciente disso, o Detonautas traz de volta essa canção pra que a gente possa colaborar na luta contra o racismo estrutural”, explica o vocalista antes de cantar a letra.

DETONAUTAS E GABRIEL O PENSADOR

JUNTOS

VEJA MAIS O clipe da faixa ubc.vc/racismo

21 ANOS DE

SERTANEJO Pelo menos desde o início deste século, o sertanejo deixou de ser um estilo regional do interior do Centro-Sul do país para virar um fenômeno nacional. Celebrando o auge desse gênero que conquistou virtualmente todos os públicos, a dupla Fiduma & Jeca lança um álbum que revisita clássicos recentes das violas. “2000 Pra Frente” traz releituras da dupla para canções como “Caso Indefinido”, de Cristiano Araújo, “E daí?”, de Guilherme e Santiago, “Delegada”, de Fernando e Sorocaba, e “Você Não Sabe o Que é Amor”, de Luan Santana, que se somam a temas de outros gêneros, como pop, rock ou forró. É o caso de “Só os Loucos Sabem”, da banda Charlie Brown Jr, e “Xote de Alegria” e “Rindo à Toa”, do Falamansa. “São obras que mudaram o rumo da música, a forma de compor, quebraram barreiras”, diz Fiduma. “Tem muita nostalgia de uma época maravilhosa. Que saudade do começo dos anos 2000, de um mundo mais leve, mais suave”, completa Jeca.

OUÇA MAIS A dupla canta “Falando Sério” e “Querendo Te Amar” ubc.vc/fj


PELO PAÍS 12

‘EXÍLIO’ E VIOLÃO


REVISTA UBC

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Já banguela e ainda disposta a mordidas, a última ditadura brasileira angustiava Alceu Valença. Coagido em alguns episódios pela censura oficial, partiu para um exílio voluntário na França no final da década de 1970. No pequeno apartamento francês, esperava a noite cair para poder flanar pelas ruas. “Eu passava os dias convivendo apenas com meu violão”, lembra Alceu que, do período, trouxe ao Brasil o hoje clássico “Saudade de Pernambuco”. É o único álbum na extensa discografia em que Alceu se faz acompanhar do instrumento. Era.

Como no clássico ‘Saudade de Pernambuco’, que lançou na ditadura, Alceu Valença apela instintivamente ao instrumento para evocar memórias no seu novo álbum, ‘Sem Pensar no Amanhã’ por_ Bruno Albertim

de_ Olinda (PE)

fotos_ Leo Aversa

Agora, vivendo uma outra espécie de exílio, Alceu está de novo às voltas com as cordas. Estradeiro que é, capaz de até vinte shows num único mês, ele se viu “exilado” em casa durante a pandemia. De máscaras duplas e álcool às mãos, só tem saído do apartamento onde mora a maior parte do ano (quando não está nas residências de Olinda ou Lisboa), no bairro carioca do Leblon, para ir muito rapidamente a uma farmácia.


PELO PAÍS 14

“Descobri que não tinha intimidade nenhuma com este apartamento”, ri, numa conversa por telefone com a reportagem da UBC. “Estou aqui totalmente isolado com Yanê, minha mulher, desde março do ano passado. Então, comecei a ocupar os dias tocando violão. Com exceção daquela temporada em Paris, desde que me entendo por compositor, músico e cantor, nunca toquei tanto violão como agora.” O resultado da redescoberta não programada do instrumento é “Sem Pensar no Amanhã”, lançado pela Deck Discos como o primeiro dos quatro álbuns digitais dele que devem chegar até o final do ano.

O primeira abordagem foi intuitiva, despretensiosa. Alceu ia naturalmente visitando temas de seu repertório, ou canções a ele vizinhas, filiadas. “O que só conseguia fazer à noite, porque durante o dia a interminável reforma de um apartamento aqui perto não permitia.” Inicialmente, a ideia não era produzir um álbum, mas ocupar o tempo subitamente ocioso depois do carnaval do ano passado – Alceu tinha 45 shows marcados pelo Brasil e mais 16 de uma breve turnê europeia para depois de fevereiro. Mas as versões foram saindo e, com as certeiras críticas de Yanê, terminaram levadas à Deck para a gravação. O samba que dá título ao álbum é a única inédita.

Um roteiro de inspiração cinematográfica guia poeticamente o repertório de “Sem Pensar no Amanhã”. “Um disco pode ser pensado como um filme. Neste, a câmera sai da praia de Boa Viagem, em ‘La Belle de Jour’ e voa sobre as igrejas de Olinda em ‘Mensageira dos Anjos’, que é uma figura que de fato eu vi há muito tempo, uma moça dançando balé sozinha na beira da praia”, diz Alceu, puxando da memória a inspiração para a letra antiga. Na viagem proposta pelo repertório, o itinerário segue no “Táxi Lunar”, grande parceria com Geraldo Azevedo, para “um trem de cores” tomado na “Estação da Luz”, “que sobe a Bahia, Sergipe e Alagoas, até chegar à Ilha de Itamaracá”, com “A Ciranda da Rosa Vermelha”. Depois, continua até a sede do bloco carnavalesco Pitombeira dos Quatro Cantos, atrás do sobrado do cantor, em Olinda, com uma série de canções apaixonadas em louvor da cidade.

Cineasta bissexto, Alceu tem uma relação intensa com a imagem – e é dono de letras de extensa evocação imagética. Em 1974, atuou como ator no filme “A Noite do Espantalho”, musical de Sérgio Ricardo sobre os maus humores do latifúndio nordestino com trilha composta por ele e Geraldo Azevedo. Rodado em 2014, um bem-recebido faroeste nordestino ancorado nas figuras de Lampião e Maria Bonita, “A Luneta do Tempo”,marcou a estreia de Valença como diretor tardio.

UMA PLAYLIST ESPECIAL A partir desta edição, a UBC publicará playlists especiais com a obra dos personagens das principais reportagens. Hospedadas no perfil da UBC no Spotify, elas terão a curadoria de Ronaldo Bastos e Leonel Pereda. “Quando pensamos em um projeto de playlists da UBC, os primeiros nomes que nos vieram à cabeça foram os dos dois. As compilações da Dubas ainda na era analógica eram obras de arte em si, do projeto gráfico a cada faixa escolhida por uma razão meticulosa qualquer, que você ia descobrindo enquanto ouvia de forma quase demencial”, diz Marcelo Castello Branco, diretorexecutivo da UBC. “Esse olhar autoral vai estar presente nesta leitura sensível de tudo que as Revistas da UBC cobriram em sua ainda breve existência. Serão retratos musicais dinâmicos, plurais, sem pretensão de repetir o óbvio já tão predominante e previsível dos algoritmos. Os Prêmios UBC também serão objetos de nossas playlists. Nosso objetivo é retratar a diversidade e a riqueza da música brasileira, além de seu mosaico autoral ilimitado.” OUÇA A playlist com canções de Alceu ubc.vc/playAlceu


REVISTA UBC

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VIOLONISTA ALCEU Com essa série de discos, Alceu não tem a pretensão de ser considerado um violinista revelado por trás do cantor e compositor. “Eu nunca levava violão nas viagens. Agora, na pandemia, aconteceu esse jeito de tocar, que é um jeito meu. Até porque, quando menino, eu nem ouvia música. Meu pai, que queria que eu seguisse Direito, nem permitia radiola em casa, para não roubar nossa concentração. Eu sabia imitar todo mundo: Nelson Gonçalves, Cauby, Dolores... que eu só ouvia no rádio da casa do meu avô”, ele lembra. Os outros discos desta série, já gravados, não têm ainda data de lançamento. O segundo, adianta ele, versa em repertório sobre sua relação com o verão da cidade do Rio de Janeiro. O terceiro, uma incursão a sertões mais profundos. Sobre o quarto, ele ainda não fala. “Mas já está pronto”, ele ri. “Estou segurando ao máximo para não lançar, estou depurando... Para não ficar sem ter o que fazer depois.”

OUÇA MAIS As 11 canções de “Sem Pensar no Amanhã” ubc.vc/Alceu


PELO PAÍS 16

TÁSSIA REIS


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Integrantes de minorias frequentemente discriminadas no universo do rap, eles entrevistam um ao outro e falam sobre criação, carreira e representatividade por_ Isaque Criscuolo

de_ São Paulo

RICO DALASAM


PELO PAÍS 18

Dizer que Tássia Reis e Rico Dalasam são duas das maiores vozes da música brasileira contemporânea não é um exagero. Ambos representam uma nova cena do rap nacional e o renascimento do R&B em um contexto que não envolve apenas música, mas quebra de padrões, militância e representatividade. Rico, homem negro e LGBTQIA+. Tássia, mulher negra e plus size. De 2014, quando ambos lançaram suas primeiras músicas, até hoje, a arte dos dois ganhou mais alcance, profundidade e complexidade. Num bate-papo promovido pela Revista UBC através de um aplicativo de vídeo, um entrevistou ao outro — e ambos falam sobre criação, carreira e o momento complicado para fazer música. Tássia: Como é o seu processo criativo? Como você reúne informações para criar? Rico: Tenho descoberto algumas coisas sobre mim, e elas se repetem no meu processo. Uma delas é que tudo o que me cerca é inspiração, conversas com minhas amigas etc. As questões de relacionamento também estão muito presentes nas coisas que faço, especialmente porque me instigam. Gosto de pensar os encontros e tento ser muito simples no poema, para caber na métrica. Rico: Como eu, você vive tudo de forma intensa. Como isso influencia a sua arte? Tássia: A gente fica muito preocupada em como as pessoas vão sentir as coisas, já fiquei preocupada com isso, mas tenho descoberto que não tenho como interferir. Não posso fugir do fato de ser uma mulher preta com tudo isso aqui dentro. É por isso que eu crio. Eu sinto demais e, por isso, crio. Preciso tirar tudo de dentro de mim.

Em março, Rico lançou seu novo álbum, “Dolores Dala Guardião do Alívio”, marcando um retorno depois de um hiato musical. No início de abril, Tássia interpretou músicas de Alcione no programa “Versões”, do Multishow, e prepara uma versão deluxe de “Próspera”, álbum lançado em 2019 e considerado um dos 25 melhores discos do ano da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes).


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lives, feats. Me apeguei a esses trabalhos para continuar me sentindo viva. Ainda é estranho encontrar as pessoas para trabalhar, para gravar. Tudo é estranho... Não poder abraçar, por exemplo, é muito triste. Para mim, fazer música é uma coisa muito afetiva, e não poder ter esses encontros físicos é doloroso.

Tássia: Como você está se sentindo neste momento novo, com seu retorno e o novo disco? Quais são os seus novos sonhos? Rico: Meu primeiro disco é de 2016, fiz outras coisas no meio, mas estamos falando de quase cinco anos depois. Nesse meio tempo, a gente não fica no mesmo lugar. Você dá uma amadurecida, umas cambalhotas. Quando vê, mudou e se transformou numa outra coisa. Encontrei minha paz neste processo. A experiência em que tenho menos pensado no momento é a do show, mas como criar outras experiências para passar o que eu escrevo? Este novo disco representa um momento que eu talvez não tenha vivido e está me dando fôlego diante de tudo que estamos vivendo. Tássia: Nesta pandemia, aceitei convites para

Rico: O seu disco de estreia é muito especial, um acontecimento para a música brasileira. O que você quer fazer de música para o futuro? Tássia: Eu não tinha ideia de que poderia causar tanto impacto na cena em que fui inserida. Quando lancei ‘Meu Rap Jazz’, foi muito bem recebido, mas porque as pessoas não estavam vendo nada parecido por aí. Estou num momento de tomar consciência da minha importância, mas também de não pegar o peso disso, e de continuar crescendo. Venho falando de dinheiro há algum tempo, e isso se intensificou com “Dólar Euro”. Ambição não é ganância e não tem nada de errado em querer mais do que tenho hoje, se o que tenho hoje é muito pouco. A maioria das pessoas pretas e periféricas não tem a possibilidade de almejar porque está muito ocupadas trabalhando em horários horríveis com salários horríveis para sobreviver. E, ainda assim, elas fazem, elas criam, elas vivem.


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ÁLBUM VISUAL

QUANDO MÚSICA E IMAGEM SE CASAM

Versões de discos com clipes encadeados e outros produtos audiovisuais atrelados viram tendência no mercado por_ Fabiane Pereira

do_ Rio


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PELO PAÍS 22

Nesse tipo de performance, as músicas ganham divulgações com estratégias diferentes. É como se o artista entregasse vários singles para que seu público escolhesse seus preferidos. Naturalmente, entram em destaque as músicas mais engajadas pela maioria. A indústria da música tem se direcionado para criar atmosferas únicas, que se aliem à melodia, ao ritmo e às letras, enriquecendo a experiência do usuário e, consequentemente, aumentando o alcance da faixa de um artista.

Também lá fora esta estratégia de divulgação — ou nova forma de se consumir música — tem sido a principal aposta de muitos artistas. A mais conhecida pela produção de álbuns visuais é a cantora americana Beyoncé. Dentre os vários já produzidos por ela, destaca-se seu sexto álbum de estúdio, “Lemonade”, lançado em 2016. Este conteúdo visual tem aproximadamente uma hora de duração, e os 12 registros visuais, apesar de não terem uma narrativa clara, compõem uma história.

foto_ Wilmore Oliveira

O consumo de música e imagem tem se misturado tanto que os álbuns visuais tornaram-se um fenômeno com grande popularidade no Brasil. Com pelo menos metade das faixas dotadas de um complemento visual (videoclipe) e que, em seu conjunto, contem uma história e traduzam em imagens as canções, o formato é a opção principal de difusão para artistas como Baco Exu do Blues, Anitta, As Baías, Luedji Luna, MC Tha e vários outros.

“Música sempre foi imagem. Elvis era o rostinho que os Estados Unidos precisavam para entender o que era aquele embrião do rock. Os Beatles já entendiam isso nos anos 60, faziam filmes etc. A imagem é cada vez mais valorizada em tempos de Instagram e TikTok. Eu entendo álbuns visuais como uma intenção de fechar mais o conceito do que um álbum. Nesta era de singles, um álbum é um ‘acontecimento’. E o álbum visual potencializa a narrativa”, explica o jornalista e crítico musical Pedro Antunes.

além de muita visibilidade. No ano seguinte, Anitta fez o mesmo com o disco “Kisses”: 10 faixas, todas elas com clipes sem relação direta entre suas histórias, mas com óbvias narrativa e estética unificadas.

O rapper baiano Baco Exu do Blues deu seus primeiros passos nessa estética já em 2018, com seu segundo álbum de estúdio, “Bluesman”. Além das faixas, um curta-metragem dirigido por Douglas Ratzlaff Bernardt complementava o discurso das faixas. O projeto ganhou o Grand Prix do Cannes Lions – Festival Internacional de Criatividade,

“Carrega referências sobre minha religião e meu entendimento enquanto mulher negra”, define Luedji. Após ganhar a categoria álbum do ano no WME Awards Music, o álbum visual, dirigido pela cantora, foi vencedor da premiação no Music Video Festival como melhor vídeo nacional em formato estendido. “A construção da narrativa fílmica é paralela à ordem das músicas e

No final do ano passado, a baiana Luedji Luna finalmente lançou seu aguardado segundo disco, “Bom Mesmo É Estar Debaixo Dágua”. Com 12 faixas, tem versão visual que agrega cinco delas e alude a “Black is King”, o mais recente trabalho de Beyoncé — este também, claro, todo calcado nas imagens.


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foto_ Caroline Lima

DANIEL GANJAMAN: FORMATO NÃO VALE EM QUALQUER CASO

funciona como um complemento para as letras”, afirma a cantora baiana. Essas movimentações na indústria do entretenimento comprovam que, embora o videoclipe também seja uma tradução visual de um trabalho sonoro, o álbum visual é um passo além, uma evolução deste formato. Victor Patesh Chiovetto, Cross-Category Marketing Manager da Amazon Music, acredita que a ascensão do formato tem ligação direta com a demanda do público. “O consumidor tem procurado cada vez mais conteúdo online. A tendência é que artistas explorem mais o álbum visual e outros formatos híbridos para que o trabalho tenha diversas perspectivas e alcance diferentes camadas”, diz. “Em um futuro próximo, e com os dispositivos usáveis, como smart glasses, podemos esperar também a mescla deste formato com novas tecnologias, como realidade aumentada (AR), realidade virtual (VR) e realidade estendida (XR).”

Daniel Ganjaman, um dos mais respeitados produtores musicais do Brasil, pondera: obras como “Tommy” (The Who), “The Wall” (Pink Floyd) e “Interstellar” (Daft Punk) já anteciparam, anos atrás, a indissociável conexão entre som e imagens no mundo da música. “Na época do lançamento de ‘Nó Na Orelha’ (disco de Criolo produzido por Ganja, há mais de dez anos), muita gente do cinema veio atrás de nós com a intenção de fazer o clipe de ‘Não Existe Amor em SP’. A gente conversou muito e concluiu que transpor aquela letra para um videoclipe tiraria todo seu lúdico, porque cada pessoa que escuta essa música tem um filme na cabeça, e esse filme é muito subjetivo. Quando você leva a música ao mundo visual, precisa ter muita certeza do que quer fazer, porque invariavelmente vai atrelar aquilo a algo muito palpável. O último disco que eu trabalhei com esse conceito foi o álbum ‘Drama Latino’, d’As Baías. Todas as músicas ganharam um videoclipe dirigido pelo Gringo Cardia. Acho que agora, mais do que nunca, álbum visual faz sentido, mas você tem que saber o que quer, onde quer chegar, por quê. Se não, ao invés de expandir, aprisiona o ouvinte.”


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A GRANDE

APOSTA Analistas e especialistas comentam a febre da compra de catálogos musicais, tendência acelerada pela pandemia e que opõe fundos de investimento e editoras por_ Alessandro Soler

de_ Madri


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Entre os muitos processos acelerados pela pandemia de Covid-19, está uma grande reorganização em curso no mercado musical. É a compra de catálogos inteiros de artistas famosos, algo que já vinha ocorrendo pontualmente há décadas, mas que agora vive ares de uma guerra que opõe, de um lado, fundos de investimento multimilionários e, de outro, editoras desejosas de conservar seus talentos e manter seu negócio de pé.

A compra das mais de 600 canções de Dylan pela Universal, em dezembro, causou alvoroço entre os fãs. Mas, no mercado, zero surpresa. Era só a mais estelar de uma série de negociações. Três estrelas da banda Fleetwood Mac, Lindsey Buckingham (em acordo com o Hipgnosis Songs Fund), Mick Fleetwood (com a megaeditora BMG) e Stevie Nicks (com a editora Primary Wave) embolsaram, somados, mais de US$ 200 milhões. Shakira também vendeu, por valor não divulgado, suas 145 canções à Hipgnosis em janeiro, assim como Neil Young, que passou à Hipgnosis os direitos sobre suas 1.200 músicas por US$ 50 milhões. Em 4 de maio, a mais recente transação: o Red Hot Chili Peppers foi outro a vender seu catálogo, por US$ 140 milhões, ao mesmo fundo Hipgnosis.

Por trás dessas megatransações, como a midiática aquisição de todo o cancioneiro de Bob Dylan por mais de US$ 300 milhões anunciada em dezembro, estariam principalmente dois fatores: os crescentes sinais de que Estados Unidos e União Europeia imporão maiores taxações ao capital financeiro, o que levaria investidores a buscarem outros portos “seguros” para seu dinheiro; e a prevista explosão do streaming, que liderará a expansão do mercado para coisa de US$ 131 bilhões em 2030, quase o dobro dos US$ 62 bilhões gerados em 2017, segundo um estudo recente do Goldman Sachs. Mas, para além da miragem dos números chamativos envolvidos nessas aquisições, estão os autores. Ao vender seus catálogos, renunciando aos ganhos futuros com sua própria criação, muitos deles parecem movidos pela necessidade de dinheiro rápido — o que, a experiência ensina, quase nunca é a melhor maneira de fechar um negócio. “Não há um problema em si numa transação de compra e venda. O problema começa quando você se aproveita de um cenário em que a renda com os shows desapareceu e houve uma acentuada redução nas receitas com direitos autorais. Tem artista literalmente passando fome e que, claro,

David Bowie protagonizou, já em 1997, um dos casos mais emblemáticos na relação entre artistas e o mercado. Ele fechou um acordo com a Prudential Insurance of America e capitalizou parte das suas criações futuras, transformadas em bonds que renderam US$ 55 milhões. No Brasil, em 2013, o grupo Opportunity também fez um polêmico negócio com João Gilberto, na época em sérias dificuldades financeiras, pagando R$ 10 milhões para tornar-se “sócio” do gênio da bossa nova e receber os direitos autorais por alguns de seus discos mais emblemáticos. Sem envolvimento de um grande banco ou fundo, Michael Jackson fez história bem antes disso, ao comprar o catálogo dos Beatles por US$ 47,5 milhões em 1985.


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topa qualquer coisa para ter liquidez. Não compactuo com uma visão de mercado predatória, em que se oferecem valores sabidamente baixos para comprar o patrimônio de pessoas que precisam pagar as contas”, analisa Igor Bonatto, fundador e diretor-executivo do banco Noodle, voltado especificamente para o mercado musical. Embora o Brasil ainda esteja engatinhando nesse tipo de transação, já há movimentações crescentes no país, como as parcerias recentes fechadas pelo fundo de investimentos Hurst Capital. Nos últimos meses, eles compraram participações de até 30% dos catálogos de artistas como Toquinho, Paulo Ricardo, Luiz Avellar e Felipe Goffi. Além disso, em alguns casos, ofereceram adiantamentos a artistas buscando liquidez e, em troca, ficarão integralmente com seus valores de direitos autorais por prazos que variam de 4 a 6 anos.

“A obra é do artista, é uma criação do espírito dele, não tem que ficar sem ela. Queremos ser o sócio financeiro minoritário”, define Arthur Farache, diretor-executivo da Hurst. “Eu já tinha experiência prévia bem curta e não profunda em direitos autoral. Em dezembro de 2019, começamos a estudar a possibilidade de investir em propriedade intelectual como um todo. A conclusão foi que a música era a área mais pronta para isso.” O modelo de negócio da Hurst é manter a administração nas mãos do artista ou da sua respectiva editora e receber unicamente a sua parte como sócia minoritária: “Para a gente, a vantagem é ter uma relação de longo prazo com o artista, tornando-nos parceiros dele para seus projetos futuros.”


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TEM ARTISTA PASSANDO FOME E QUE, CLARO, TOPA QUALQUER COISA PARA TER LIQUIDEZ.” Igor Bonatto, diretor-executivo do banco Noodle

Os métodos usados pelos fundos para estimar o valor a ser oferecido aos artistas nem sempre são de todo claros. “Fazemos uma estimativa do múltiplo de faturamento/ ano daquele catálogo e calculamos o valor”, resume Arthur Farache. Uma fonte com ampla experiência no mercado brasileiro disse à Revista que alguns dos fundos têm utilizado táticas agressivas, no limite da ética. “Eles procuram sociedades de gestão coletiva para saber quem fatura mais em direitos autorais por ano, por exemplo, um dado cujo compartilhamento é ilegal por se tratar de informação fiscal de uma pessoa”, afirmou, citando a Lei Geral de Proteção de Dados (13.709/2018), que prevê penas de multas altas para quem difundir dados sem autorização. “Com essa informação privilegiada em mãos, vão atrás do artista para oferecer um valor, quase sempre abaixo do que vale. A ideia é tentar seduzir pela cifra em si.” Um modus operandi que analistas do mercado dizem não diferir muito daquele usado por fundos como o Hipgnosis Songs Fund, do Reino Unido. A peculiaridade da empresa criada Merck Mercuriadis, empresário de 57 anos nascido no Canadá e ex-agente de Beyoncé, Elton John e Iron Maiden, é fazer sempre a compra total, seja de catálogos fechados. Com cerca de US$ 1,7 bilhão já investidos na aquisição de mais de 57 mil canções, de Mariah Carey a George Benson, de 50 Cent a Starrah (a jovem compositora por trás de sucessos de Rihanna, Drake e Maroon 5), o Hipgnosis aposta no retorno através do recebimento de 100% dos direitos fonomecânicos do streaming e da execução pública em rádio, TV e shows, por exemplo,


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além da administração direta do catálogo. Para isso, montou equipes inteiras dedicadas a buscar oportunidades de sincronização do catálogo em filmes, séries de TV e publicidade. “O modelo tradicional de edição musical é algo que eu quero destruir completamente. O editor musical, hoje em dia, é um eufemismo para alguém que recebe seu dinheiro mas que realmente não faz muito para agregar valor à sua canção”, Mercuriadis disse, em dezembro, em entrevista ao diário americano “The New York Times”. Uma ideia que Aloysio Reis, diretor-geral da Sony/ATV no Brasil, não poderia refutar mais fortemente: “É uma tolice oportunista de quem utiliza uma pretensa modernidade como isca para atrair incautos. Não há fórmula mágica para realizar a gestão de obras musicais”, sentencia (veja um texto assinado por Aloysio na página 31).

Seja como for, o movimento que Mercuriadis iniciou provocou a resposta, na mesma moeda, de editoras como a BMG e a Universal, cuja megacompra do catálogo de Dylan foi uma clara declaração de intenções: os players tradicionais também estão no jogo. “A indústria musical deve muito a Merck, já que foi ele quem abriu a porta e persuadiu o mundo financeiro a descobrir o enorme valor que há nos direitos autorais, Mas é a BMG quem está mais preparada para o mercado”, disse Hartwig Masuch, diretor-executivo da megaeditora, em entrevista ao jornal inglês “The Sunday Telegraph”, na qual garantiu: a BMG vai continuar a investir na aquisição de catálogos. A Warner Chappell também se diz abertamente em busca de oportunidades de fechar acordos do gênero. Mas seu diretorexecutivo global, Guy Moot, ressalva: “há uma grande diferença entre alguém com


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um talão de cheques e um editor musical.” Para ele, os fundos de investimento não têm a expertise e o domínio do mercado como uma grande editora: “Antes eu costumava dizer aos meus compositores ‘não venda a sua casa’. Mas, quando oferecem a eles 19, 20, 21 vezes o valor, não posso olhar nos olhos deles e continuar a dizer o mesmo.” No Brasil, ainda não há, nem de longe, movimento similar. “Mas não descarto que grandes editoras comecem a investir na compra de empresas daqui, com seus respectivos catálogos”, afirma Cris Falcão, diretora administrativa da Ingrooves Music Groove Brasil, subsidiária da Universal Music, citando a recente aquisição da Som Livre pela Sony Music como um sinal de interesse estrangeiro no mercado local. “Me preocupa um pouco a falta de conhecimento de alguns fundos sobre o mercado musical. Música não é commodity, é criação artística. Tem que ser trabalhada. Comprar parte de um catálogo para sentar em cima dele esperando o streaming pagar melhor, sem buscar oportunidades para explorá-lo, não acho um bom modelo”, pondera Falcão.

Na segunda quinzena de abril, pesos-pesados da música britânica, como Paul McCartney, Kate Bush, Sting, Annie Lennox e Jimmy Page, mandaram uma carta aberta ao primeiroministro do Reino Unido, Boris Johnson, pedindo maior envolvimento do governo na pressão às plataformas de streaming por melhores remunerações, além de outro sistema de arrecadação e distribuição de royalties. Para Cris Falcão, eles não estão sozinhos no lobby. “Certamente, grandes fundos também têm trabalhado com essa expectativa. Não faria sentido jogar tanto dinheiro na compra dos catálogos e esperar de braços cruzados. Eles querem aumentar a fatia autoral para se beneficiar.” Outro lobby que poderia estar em curso é para aumentar o tempo de exploração da música, na maior parte do mundo estabelecido em 70 anos após a morte do último dos parceiros na composição. “De qualquer maneira, 70 anos são tempo mais do que suficiente para esses fundos terem o retorno que esperam, caso saibam trabalhar bem o repertório”, conclui Falcão.

Para Bonatto, a própria lógica que move o capital — ou seja, a busca do risco zero — tende a gerar ainda mais concentração no mercado, caso a onda de aquisições persista: “A música já está nas mãos de três ou quatro empresas. Os investidores vão querer ir aonde creem que seu dinheiro estará mais seguro. Ninguém investirá nos pequenos. Com isso, cresce a lógica que já impera: uns poucos com muito, e a maioria brigando por migalhas.” Análise semelhante faz Paulo Sérgio Valle, compositor e presidente da UBC, para quem a melhor solução passa sempre pela possibilidade de o autor manter o controle sobre seu trabalho e ser capaz de explorá-lo economicamente sem renunciar aos seus direitos: “Minha opinião é simples. Quando um autor vende sua obra, vende parte da sua alma.” LEIA MAIS Conheça os NFTs, outra forma de capitalização crescente no mercado musical. Afinal, são salvação ou só uma bolha? ubc.vc/NFTs

NÃO DESCARTO QUE GRANDES EDITORAS COMECEM A INVESTIR NA COMPRA DE EMPRESAS DO BRASIL.” Cris Falcão, diretora administrativa da Ingrooves


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“A OBRA NECESSITA DE UMA GESTÃO PROFISSIONAL” * por_ Aloysio Reis

do_ Rio

Não existe nada de errado na decisão de um autor de vender os direitos patrimoniais de sua obra. No entanto, depois dessa operação, a obra negociada continuará necessitando de uma gestão profissional de alguém que conheça o mercado editorial. A declaração de Mercuriadis (“o modelo tradicional de edição musical é algo que eu quero destruir completamente. O editor musical, hoje em dia, é um eufemismo para alguém que recebe seu dinheiro mas que realmente não faz muito para agregar valor à sua canção”) é apenas uma tolice oportunista de quem utiliza uma pretensa modernidade como isca para atrair incautos. Não é a primeira vez que declarações como esta são publicadas, como se seus autores tivessem uma fórmula mágica para realizar a gestão de obras musicais. Na verdade, essa é uma estratégia-bolha de curtíssima duração usada de tempos em tempos por oportunistas e traz dentro desse discurso o pressuposto de que a atividade editorial está congelada quando, ao contrário, encontra-se em seu momento de transformação mais efervescente, na luta para obter melhores tarifas para os titulares de direitos de autor através de melhores acordos com os DSPs. Essa mensagem insere também, dentro de seus conteúdo “mágico” e nefasto, a ideia de que todos os grandes compositores do mundo são seres desprotegidos e inocentes, desprovidos do apoio de grandes advogados autoralistas, e por isso assinam contratos com editoras que “não fazem muito para agregar valor à sua canção”. O autor é soberano, e os compositores são e serão sempre livres para negociar seus direitos patrimoniais ou para manter suas propriedade, protegendo ou não suas obras através de uma editora ou entregando sua obra a um desses “gênios” que surgiram do nada para “resolver a vida” dos criadores, apresentando um fórmula imaginária de gestão. *Aloysio Reis é diretor-geral da Sony Music Publishing do Brasil e presidente da Ubem


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ÁSIA

POP

Na esteira do sucesso da música da Coreia do Sul, agora Índia e China também querem cruzar fronteiras por_ Eduardo Lemos

de_ Londres

O sucesso global de bandas sulcoreanas como BTS e Blackpink faz o mercado voltar suas atenções para a Ásia, região que concentra 60% da população mundial e registra os melhores resultados econômicos do momento. “O que o K-Pop fez na última década é apenas um indicador do que pode acontecer ao longo do tempo”, avisou Shridhar Subramaniam, presidente do braço asiático da Sony Music, quando a Federação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI) publicou seu mais recente relatório, em março. Para Simon Robson, presidente internacional de música gravada da Warner Music Group, a região também se destaca pela inovação. “As lives, o merchandising e as gorjetas digitais estão estabelecidos há muito tempo na Ásia, e os serviços de streaming da China funcionam como mídia social, o que ainda não foi possível com as plataformas globais até agora.”

Ainda que estejam próximas geograficamente e no ranking de maiores mercados da IFPI — a Coreia ocupa o sexto lugar, com a China em sétimo —, a indústria da música funciona de forma diferente nos dois países. O governo chinês não investe na exportação da cultura local como faz o Estado coreano, e a própria força do mercado da China é um “obstáculo” para o ímpeto exploratório dos artistas, já que os nomes mais populares da música também costumam trabalhar como atores, modelos ou apresentadores de TV. Um bom exemplo é o rapper Jackson Wang, que, com apenas 26 anos, acumula as funções de estrela da música, da TV, da moda e da publicidade. Ainda assim, no ano passado, ele lançou um disco só com músicas em inglês e prepara para este ano outro álbum com foco no público dos EUA.

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Nos últimos anos, muitos artistas locais têm se distanciado do poderoso mercado de trilhas sonoras de Bollywood em busca de mais liberdade criativa. Este movimento criou uma cena alternativa mais ‘cosmopolita’, que tem seus próprios selos e produz música eletrônica, R&B, hip-hop e até folk, como no caso da banda When Chai Met Toast. “É o mercado independente, e não Bollywood, que fará a música indiana cruzar a fronteira”, escreveu Amit Gurbaxani, jornalista que cobre a indústria musical do país, em ensaio publicado no site Music Ally.

A banda chinesa Orange Ocean se encaixa muito bem com o som típico das bandas indies estrangeiras. A Sunset Rollercoaster, de Taiwan, também já conseguiu muita aclamação no exterior. No reino pop, artistas como a chinesa Tia Ray estão fazendo coisas realmente interessantes, colaborando com artistas e selos estrangeiros. Taiwan também tem a cantora 9m88, que passou um tempo em Nova York e traz interessantes influências de jazz e neo-soul. Todos são artistas que parecem ter um interesse natural pelo mercado externo, e acho que essa intenção é muito importante, pois vai nortear a direção e os sons desses artistas no futuro.

Jackson Wang

foto_ Team Wang

Na Índia, Armaan Malik, considerado o “príncipe do pop”, assinou contrato com o selo norte-americano Arista Records, pertencente à Sony Music. “A música pop indiana irá dominar o mundo em breve”, disse recentemente Daniel Ek, CEO do Spotify.

“Os países não estão trabalhando em conjunto para expandir a música asiática no exterior; cada um está focado em sua própria música e como fazer para exportá-la”, explica Jocelle Koh, fundadora do Asian Pop Weekly, plataforma que pesquisa o mercado musical da região. Ela acredita que Taiwan, Filipinas e Indonésia também podem furar a bolha dos mercados ocidentais, já que por lá há muitos artistas que cantam em inglês e utilizam plataformas globais, como o Spotify. Koh alerta, no entanto, que o sucesso do K-Pop não será facilmente reproduzido. “Embora a Coreia do Sul seja muito aberta sobre a sua estratégia, acho que será muito difícil para outros países obterem os mesmos resultados”, opina.

Armaan Malik


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9m88

Seja qual for o próximo sucesso do pop asiático, é certo que ele terá forte apelo audiovisual. “A Ásia aprendeu com os Estados Unidos nos anos 90 e 2000 que a imagem é fundamental e criou uma verdadeira indústria de videoclipes”, observa Lourival Neto, diretor criativo e de conteúdo audiovisual da Sony Music Latin Iberia. Para Joe Newman, professor do departamento de música da Universidade Goldsmiths, de Londres, é positivo que o mercado abra espaço para artistas fora do eixo EUA-Europa. “A música pode contribuir para que o público tenha uma maior consciência das diferentes culturas e experiências que estão acontecendo no mundo.”

Sunset Rollercoaster

LOURIVAL NETO: COMO O POP BRASILEIRO PODE SE TORNAR GLOBAL “Para fazer um trabalho fora do Brasil, é necessário dedicar a mesma quantidade de tempo, ou até maior, na promoção no exterior. Artistas que investem em conteúdo audiovisual a nível mundial, e não somente local, acabam tendo melhores resultados. A Anitta foi um dos primeiros nomes a perceber isso e hoje está colhendo os frutos. Pabllo Vittar, Iza, Luísa Sonza, Gusttavo Lima, Luan Santana, entre outros, estão pouco a pouco conquistando espaço fora do Brasil. Vivemos num mundo globalizado, onde as pessoas querem se conectar com culturas diferentes. O mercado no exterior nunca esteve tão preparado e disposto a consumir a nossa música. Cabe ao artista explorar esse universo audiovisual.”

LEIA MAIS Relembre a reportagem da Revista UBC 41 sobre a ascensão do mercado chinês ubc.vc/china


NOTÍCIAS INTERNACIONAIS 36

do_ Rio

EUA GANHAM

NOVA SOCIEDADE

PAUL MCCARTNEY

Os Estados Unidos ganharam uma nova entidade de gestão coletiva de direitos fonomecânicos, voltada especialmente para o streaming e os downloads de música digital. O Mechanical Licensing Collective (MLC) foi criado por determinação do escritório estadunidense de direitos autorais/copyright e já opera desde janeiro passado. A entidade emite as chamadas licenças-cobertor que permitem a serviços de streaming e download utilizar músicas licenciadas de maneira legal. O MLC também recolhe os valores relativos aos royalties e os distribui a compositores, letristas e editores musicais. A entidade diz ter criado uma base de dados robusta e alimentada pelos próprios usuários, o que dará agilidade aos processos de emissão das licenças. As mais importantes editoras musicais do mercado e vários compositores participam do conselho de administração do MLC. Vale lembrar que os direitos de execução pública continuam a ser cobrados e distribuídos nos EUA pela Ascap e a BMI.

ASCAP:

CONTRA AS PLATAFORMAS

SALTO DE 4,2% NA ARRECADAÇÃO

Na Inglaterra, músicos e criadores do naipe de Paul McCartney, Kate Bush, Sting, Annie Lennox e Jimmy Page, entre outros, pedem a criação de uma entidade similar ao MLC americano. Para eles, falta regulação no mercado inglês, o que deriva numa queda de braço desigual entre as plataformas de streaming e os criadores. Os artistas pedem mudanças no Copyright Act de 1988, a lei que rege os direitos autorais nos países britânicos, de modo a aproximar as remunerações do streaming daquelas já praticadas, por exemplo, no rádio.

A arrecadação da principal sociedade de gestão coletiva dos EUA, a Ascap, teve um salto de 4,2% em 2020, apesar da pandemia. Puxada pelo streaming, a arrecadação somou US$ 1,33 bilhão, do qual US$ 1,22 bilhão foi distribuído aos seus associados, segundo a organização. O resultado foi uma grande surpresa, como admitiu seu presidente, Paul Williams, que havia alertado em abril passado: “precisamos estar preparados para quedas tanto na arrecadação como na distribuição.”

LEIA MAIS A notícia completa no site da UBC ubc.vc/BritanicosStreaming


REVISTA UBC

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INDÚSTRIA

CRESCE 7,4% EM 2020 A indústria fonográfica teve um salto de 7,4% nas suas receitas em 2020, sexto ano consecutivo de expansão, apesar da forte crise do setor cultural derivada da pandemia de Covid-19. Os dados foram publicados em março pela IFPI, entidade que representa gravadoras e selos mundo afora. O total gerado por esse importante segmento do mercado musical foi de US$ 21,6 bilhões. O Brasil, com US$ 306,4 milhões gerados, aparece em 11º no ranking mundial da IFPI.

LEIA MAIS A reportagem completa no site da UBC ubc.vc/FonograficaCresce

RECEITA DA UNIVERSAL

ESPANHOLA

A Universal Music divulgou em abril resultados do primeiro trimestre deste ano que mostram que a retomada parece estar em marcha. As receitas da maior gravadora do planeta, propriedade do grupo francês Vivendi, cresceram 2,2% de janeiro a março, para € 1,8 bilhão. As receitas com música gravada da Universal saltaram 3,6% no mesmo período, incluindo surpreendentes 9,1% de crescimento nas vendas físicas. O resultado da editora da Universal se manteve igual: € 271 milhões tanto neste primeiro trimestre como no mesmo período do ano passado.

Depois de um escândalo de suposto favorecimento a alguns associados e fraude na cobrança de direitos relativos à trilha branca de programas da madrugada na TV espanhola que levaram à sua expulsão temporária da Cisac, a SGAE foi readmitida. Segundo a confederação internacional, as reformas implementadas na entidade espanhola foram robustas e incluem a renovação completa do quadro diretivo e um novo código de boas práticas para evitar erros ou problemas no futuro.

TEM ALTA NO 1º TRIMESTRE

LEIA MAIS Um momento positivo para gravadoras e editoras, no site da UBC ubc.vc/TendenciasMajors

SGAE VOLTA À CISAC


NOTÍCIAS INTERNACIONAIS 38

ubc no mundo YOUR MUSIC, YOUR FUTURE

GANHARÁ VERSÃO EM PORTUGUÊS por_ Peter Strauss

do_ Rio

Criado nos EUA por Joel Beckerman, David Vanacore, Gabriel Mann e Miriam Cutler, o projeto Your Music, Your Future surgiu da preocupação de prover a comunidade criativa com informações sobre geração de royalties, o fluxo desses royalties e em especial a prática do buy-out, historicamente muito comum no mercado americano. Esses modelos de contrato impõem uma cessão total dos direitos do criador de trilhas para o produtor do audiovisual em questão. Apesar de frequentemente ser oferecida uma remuneração única vantajosa para esse contrato, na prática o criador da trilha deixa de ter participação no potencial sucesso do produto audiovisual, que poderia multiplicar esse valor único por um fato significativo em ganhos. Nos últimos anos, especialmente com a popularização de produtos audiovisuais em escala global, a imposição desse tipo de contrato se disseminou pela indústria e foi um dos catalisadores não só para a criação do projeto como também de sua aliança com a Cisac, organização

que reúne as sociedades autorais de todo mundo e que tem voz ativa na representação de compositores e editores perante os desafios de um mercado em acelerada mutação. Um novo passo está sendo dado com a tradução, pela UBC, do material produzido pelo projeto para o idioma português, estendendo ainda mais o alcance dessa importante iniciativa de conhecimento e conscientização. Fiquem de olho em nossas redes para a divulgação do site traduzido em breve.

LEIA MAIS Conheça outros detalhes sobre a plataforma ubc.vc/YMYF


FIQUE DE OLHO

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do_ Rio

POR ELAS

VITÓRIA DEFINITIVA:

UBC É

QUE FAZEM A MÚSICA 2021

QUARTOS DE HOTÉIS PAGAM

FINALISTA DE DOIS PRÊMIOS

A UBC lançou em março a quarta edição do relatório anual Por Elas Que Fazem a Música. E um dado positivo se destacou: desde o início do levantamento, a participação feminina no quadro de associados cresceu 68%, índice ainda não suficiente para aumentar a participação delas para mais de 15% do total. Na distribuição por gênero, a categoria que mais se aproxima de uma (ainda longínqua) igualdade é a de versionista, onde elas são 29% do total. Em segundo lugar vêm os intérpretes (15% de mulheres). Em outras categorias, como autores (8%), músico executante (6%) e produtor fonográfico (7%), a disparidade ainda é grande.

A quarta-feira, 24 de março, ficará marcada como um dia histórico para os autores musicais brasileiros. Em decisão que pacifica de uma vez a várias vezes questionada cobrança de execução pública pelas músicas tocadas em quartos de hotéis, pousadas, camarotes de navios e estabelecimentos congêneres, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) voltou a dar a razão aos criadores: a cobrança é justa e será mantida. A questão não deve ir para o STF. “Foi uma vitória muito importante de uma batalha que acontece há décadas”, resume Sydney Sanches, advogado especialista em direitos autorais e assessor jurídico da UBC.

A quarta edição do Prêmio SIM São Paulo, realizado por uma das maiores feiras de música da América Latina, teve a UBC como finalista em duas categorias: empresa do ano e music aid (esta, pela iniciativa Juntos Pela Música). O Juntos também rendeu à UBC outra indicação, ao primeiro Prêmio Benfeitoria. O resultado deste último será anunciado em 19 de maio.

LEIA MAIS Confira outros números do relatório ubc.vc/altamulheres

LEIA MAIS 1 milhão de obras cadastradas e outros grandes feitos da UBC em 2020 ubc.vc/Retrospectiva


MERCADO 40

UBC FECHA ACORDO COM SPA, UMA NOVA PONTE ENTRE

BRASIL E PORTUGAL Três dos maiores artistas da ‘terrinha’ celebram a parceria, pela qual serão representados exclusivamente em território brasileiro pela nossa associação por_ Hérica Marmo

de_ Lisboa


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A saudade, essa palavra tão própria da língua portuguesa, é grande além-mar. Acostumados a cruzar o oceano várias vezes ao ano para se apresentarem aos fãs brasileiros, artistas como Carminho, Ana Moura e António Zambujo aguardam a liberação dos bloqueios aéreos e sanitários para o esperado reencontro. Enquanto isso, mantêm o intercâmbio cultural com a ajuda das plataformas de streaming. E os trabalhos de antes, durante e depois da pandemia não só deles, mas de todos os portugueses ouvidos no Brasil, passam a ser representados exclusivamente pela UBC, que acaba de firmar um novo acordo com a Sociedade Portuguesa de Autores (SPA).

foto_ Mariana Maltoni

O acordo estabelece a reciprocidade na representação mútua entre os associados de ambas as sociedades. Anteriormente, apenas os associados da UBC eram representados em Portugal pela SPA. Agora, o oposto também vale. Com isso, a UBC será a responsável por recolher e enviar à SPA os valores referentes à execução pública no Brasil de canções de artistas portugueses.

Carminho, uma das principais fadistas da nova geração: ‘o acordo é um grande passo’


MERCADO 42

Carminho, que já gravou com Chico Buarque, Milton Nascimento e Marisa Monte, entre outras estrelas da música brasileira, acredita que a parceria é consequência da crescente troca entre os dois países. “Comigo, as parcerias aconteceram sempre muito naturalmente. Só nos deparamos com as questões burocráticas mais tarde. Mas o acordo de representação é muito facilitador e um grande passo para essa ligação”, opina a fadista, que está voltando aos palcos portugueses, seguindo os protocolos de distanciamento social e ainda disponibilizando ingressos para os fãs assistirem on-line de qualquer lugar do planeta.

Durante a parada obrigatória imposta pela pandemia, Carminho fez uma live com Moreno Veloso e esteve na plateia virtual de outras apresentações do gênero. “Tem sido diferente e renovadora essa forma de as pessoas se apresentarem. Os artistas tiveram que se reinventar, e é bonito ver as pessoas tentarem, nunca desistirem”, diz ela, destacando as lives de Caetano Veloso entre as preferidas: “Foram inesquecíveis. Fabulosas.”

A pausa nas viagens também não abalou a forte relação de António Zambujo com o Brasil. É dele o sotaque português entre os cantores que Gal Costa escolheu para o projeto de comemoração dos seus 75 anos. No disco de duetos “Nenhuma Dor”, a dupla divide “Pois É”, de Chico Buarque e Tom Jobim. “Foi uma surpresa muito boa. Fiquei muito feliz pelo convite, pela sugestão da música, de dois dos maiores autores brasileiros, e também por estar ali ao lado de outros cantores fantásticos, que admiro: o Tim Bernardes, o Rodrigo Amarante, o Silva, o Criolo... tanta gente boa”, afirma.

foto_ Kenton Thatcher

Em abril, o artista lançou “António Zambujo Voz e Violão”, que tem outras conexões com o Brasil. No disco de temas originais e releituras de músicas que foram importantes Zambujo: colaboração constante e plural com o Brasil


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para a sua história, está “Como 2 e 2”, de Caetano. Além disso, o nome é uma reverência a “João Voz e Violão”, último álbum de estúdio de João Gilberto. “Foi um disco que mudou a minha vida e me influenciou muito. Então, decidi homenageá-lo dando esse título”, explica.

foto_ Sharon Pannen

Outra artista portuguesa muito conhecida no Brasil, Ana Moura também aproveitou a quarentena para preparar um novo disco. Com previsão de lançamento para setembro, a cantora liberou nas plataformas o single “Andorinhas”, no fim de abril, e considera o público brasileiro um “porto seguro” para esse trabalho. “O Brasil sempre abraçou a vanguarda na música, e é aí que eu me vejo com este novo projeto. Pus na minha música a mistura que pulsava em mim e que vai ecoar no Brasil. Sinto que me vão entender”, aposta Ana Moura, que tem grandes expectativas em relação ao acordo entre a UBC e a SPA: “A vontade que sempre tive de colaborar mais estreitamente com artistas brasileiros tem mais um canal para ajudar a promover e viabilizar essas colaborações.”

UM NOVO CANAL PARA PROMOVER E VIABILIZAR COLABORAÇÕES.” Ana Moura


MERCADO 44

T


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TIK TOK: DIRETO DO TÚNEL DO TEMPO

LEIA MAIS TikTok: 15 segundos que podem bombar sua música ubc.vc/15seg Artistas viralizam no TikTok e, depois, descobrem que têm grandes contas de direitos autorais a pagar ubc.vc/tiktokviral

Rede social mais popular entre adolescentes vive onda de revivals de música de catálogo, e você também pode tentar tirar uma casquinha por_ Ricardo Silva

de_ São Paulo

A rede social mais popular entre adolescentes e adultos de até 24 anos é, individualmente, a maior esperança para a música de catálogo. Qualquer coisa produzida antes do ano 2000, mostram os números das grandes plataformas, tem pouquíssimas audições. O mesmo não ocorre no TikTok. Essa rede baseada na publicação de vídeos virais de estética deliberadamente tosca, com dancinhas, desafios e situações cômicas — quase sempre com música de fundo — tem como marca o efeito manada. Literalmente, um vídeo de sucesso ali pode ganhar 200 mil imitações em algumas horas. O irônico é que várias das publicações dos juveníssimos membros do TikTok têm hits das décadas de 70, 80, 90 e 2000 como trilha sonora. Há alguns meses, um vídeo viralizou com a faixa “Dreams”, lançada em 1977 pelo Fleetwood Mac, e que voltou ao top 10 da Billboard. Não parou por aí: músicas antigas de David Bowie, Lilly Allen, Gilberto Gil e Shakira saíram do fundo do baú para ocupar posições de destaque no streaming. Prova desse poder de mobilização do TikTok é que o Spotify lançou recentemente a playlist Viral Hits, com mais de 2 milhões de seguidores, para reverberar as canções que

bombam na rede social de origem chinesa. No Brasil, uma playlist local com a mesma pegada foi batizada de Hits da Internet e já tem mais de 300 mil seguidores. “O sucesso no TikTok pertence aos usuários e, especialmente, aos criadores de conteúdo. São eles que criam, adotam e ampliam tendências”, resume Roberta Guimarães, diretora de Conteúdo Musical do TikTok Brasil. Uma estratégia que a plataforma sugere para tentar tirar uma casquinha dos revivals de catálogo é que os artistas — ou suas equipes de marketing — publiquem vídeos engraçados e de apelo popular com músicas que queiram voltar a trabalhar. Depois, é preciso promover o link ali mesmo e em outras redes, na esperança de cair no gosto dos adolescentes. Não que isso seja garantia de grandes lucros financeiros dentro do próprio TikTok. Apesar de já ter acordo com as majors para pagamento de direitos fonomecânicos, a companhia ainda está em negociação com o Ecad e não paga execução pública, por exemplo. O grande pulo do gato seria ir parar nas já mencionadas playlists do Spotify e de outras plataformas. E aí, sim, conseguir transformar aquele velho hit “esquecido” outra vez numa fonte de receitas.


ARRECADAÇÃO E DISTRIBUIÇÃO

TV 46

ABERTA

23,5% DE TUDO O QUE ECAD ARRECADOU EM 2020 Confira as regras desse segmento que se mantém como um dos mais importantes para os titulares de direitos do_ Rio

Com 23,5% de tudo o que o Ecad arrecadou em 2020, o segmento TV aberta continua a ser uma das principais fontes de rendimentos com execução pública para milhares de titulares no Brasil. Ao incluir emissoras como Globo, Record, SBT e tantas outras, essa categoria tem regras específicas que visam a garantir a melhor arrecadação possível. Na terceira entrega da série sobre as principais rubricas do Ecad, veja como funciona a TV aberta. Para começar, a aferição das músicas tocadas na programação dos canais é por roteiro, isto é, cada emissora envia a relação das obras. Além disso, o Ecad também usa sistemas de verificação para checar o uso de músicas em diferentes canais. Os acordos contemplam os pagamentos tanto de direitos autorais como conexos (intérpretes, músicos acompanhantes e produtores fonográficos), e a distribuição dos valores é feita trimestralmente.

Em abril, por exemplo, são pagos os valores captados em outubro, novembro e dezembro do ano anterior; em julho, entram os valores de janeiro, fevereiro e março; em outubro é a vez das cifras de abril, maio e junho; e janeiro marca a distribuição de tudo o que foi captado em julho, agosto e setembro. Para as emissoras que informam o tempo de duração da execução musical em toda a sua programação, a captação das músicas informadas leva em conta o tempo de execução musical em segundos. No caso das emissoras que não prestam essa informação integralmente, é considerada a frequência (quantidade de execuções) para a captação da execução musical em programas de auditório, entrevistas, jornalismo e variedade. Em situações de programações audiovisuais (filmes, novelas, seriados e minisséries), é considerado o tempo de duração musical em segundos.


REVISTA UBC

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LEIA MAIS No site da UBC, confira mais detalhes sobre a distribuição de TV Aberta e veja o calendário completo de distribuição do Ecad ubc.vc/calendario


DÚVIDA DO ASSOCIADO 48

R$

“Onde localizo meus extratos de rendimentos?” REVISTA UBC No Portal do Associado (portal.ubc.org.br), a seção verde (“seus rendimentos”) tem vários extratos diferentes. Saiba quais são:

exterior e demonstrativo de direitos mecânicos. O recibo é um documento que detalha o lançamento total naquele mês para o titular, individualizando lançamentos de fontes diversas.

• EXTRATO DE CONTA CORRENTE

Aqui também é listado o demonstrativo de valores consolidados recebidos do exterior e processados pela equipe internacional para pagamento naquele mês. Note que, mesmo que o demonstrativo consolide valores de vários países, há um desmembramento por território no relatório, refletido no recibo com o nome das sociedades pagantes. É frequente que titulares busquem esses valores equivocadamente no demonstrativo do Ecad, que não recebe valores do exterior.

• INFORME DE RENDIMENTOS

Ali, o titular pode visualizar, salvar e imprimir seu extrato de conta corrente por ano. Permite acompanhar saldos e pagamentos resultantes em mais detalhes.

• ECAD Este bloco é separado exclusivamente para demonstrativos relacionados a rendimentos do Ecad, ou seja, de execução pública de direitos autorais e conexos em território nacional. A busca permite selecionar um ano e o mês do pagamento para baixar os respectivos demonstrativos, mas só aqueles onde o associado de fato teve rendimentos são visíveis.

• RECIBO UBC Nesse bloco, o titular pode baixar os documentos que são gerados pela UBC: recibos, demonstrativo

Anualmente a UBC publica para seus associados o comprovante de rendimentos financeiros do exercício do ano anterior para que os titulares possam usá-lo na declaração de Imposto de Renda.

E VOCÊ, TEM DÚVIDA? Entre em contato pela seção Fale Conosco, do nosso site (ubc.org.br/contato/faleconosco), pelo telefone (21) 2223-3233 ou pela filial mais próxima.


ORGULHO DE SER UBC A nossa associação foi finalista em duas categorias do Prêmio SIM, promovido por uma das maiores feiras de música da América Latina: empresa do ano e music aid (pela iniciativa Juntos Pela Música). Além disso, o Juntos, que distribuiu R$ 1,7 milhão a profissionais da música em dificuldades, também nos pôs na final do Prêmio Benfeitoria, na categoria Combate à COVID. O resultado sai em 19 de maio. Mas o melhor reconhecimento mesmo é ver você, associado(a), fazer parte disso com a gente.

WWW.UBC.ORG.BR


ELAS SÃO CADA VEZ MAIS. E AINDA SÃO POUCAS

Desde 2018, quando a UBC publicou o relatório Por Elas Que Fazem a Música pela primeira vez, a alta acumulada no número de novas associadas foi de 68%. Porém, as mulheres ainda são só 15% dos associados, um número distante do objetivo da UBC: a igualdade total de gênero.

Confira o relatório 2021 na íntegra: ubc.vc/porelas2021

Profile for UBC - União Brasileira de Compositores

Revista UBC #48  

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