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MERCADO Queda na distribuição de direitos autorais durará meses IMPULSO Um balanço do inédito projeto da UBC para acelerar carreiras E MAIS Ana Gabriela, Ira!, Silvia Machete, Di Ferrero, Zeca Baleiro

AGOSTO 2020

TERESA CRISTINA ‘Rainha das lives’, ela ganha nova dimensão na carreira e vira tema de ensaio de fotos dirigido à distância para esta edição


#ubcmusica

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OS CONTEÚDOS MAIS POPULARES

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MAIS CUR TIDO NO INSTAGRAM Artistas se unem em campanha espontânea #SomosTodosEcad, em defesa do sistema de gestão coletiva sob ameaça, e põem hashtag entre os tópicos mais comentados. ubc.vc/SomosTodosEcad

MAIS CO MEN TADO NO FACEBOOK A ajuda de R$ 3 bi para artistas aprovada pelo Congresso e sancionada 25 dias depois por Bolsonaro ainda não chegou a quem precisa. ubc.vc/AldirBlancFB

VOCÊ VIU? Uma lista de editais abertos para ajudar o setor cultural, com iniciativas de estados, municípios e empresas. ubc.vc/AtualizaEditais

MAIS ASSIS TIDO

TOPO DAS PARADAS

NO YOUTUBE

O Juntos Pela Música, iniciativa de matchfunding da UBC e do Spotify, alcançou a meta de R$ 1,7 milhão em doações. Veja o vídeo da campanha em ubc.vc/VideoFundo

24/07/2020 Coronavírus: #Juntospelamúsica, da UBC, compila ações de ajuda a artistas ubc.vc/infojuntos

2° 18/05/2020 Casas de shows pós-pandemia: luz no fim do túnel ubc.vc/CasasShow

3° 29/06/2020 O que leva marcas a patrocinarem ou não uma live musical ubc.vc/MarcasLives


#45

AGOSTO 2020

RE VIS TA

A REVISTA UBC É UMA PUBLICAÇÃO DA UNIÃO BRASILEIRA DE COMPOSITORES, UMA SOCIEDADE SEM FINS LUCRATIVOS QUE TEM COMO OBJETIVOS A DEFESA E A DISTRIBUIÇÃO DOS RENDIMENTOS DE DIREITOS AUTORAIS E O DESENVOLVIMENTO CULTURAL.

Diretor executivo Marcelo Castello Branco Coordenação editorial Elisa Eisenlohr Projeto gráfico e diagramação Crama design estratégico Editor Alessandro Soler (MTB 26293) Textos Andrea Menezes (Brasília), Fabiane Pereira (Rio de Janeiro), Kamille Viola (Rio de Janeiro) e Luciano Matos (Salvador) Foto da capa Concepção e direção de Daniela Dacorso. Clique de Luiz Alberto Macedo. Fotos Imagens cedidas pelos artistas. Créditos nas respectivas páginas, ao longo da edição. Rua do Rosário, 1/13º andar, Centro Rio de Janeiro - RJ, CEP: 20041-003 Tel.: (21) 2223-3233 atendimento@ubc.org.br

por_ Paula Lima

Salve, salve! É com muito prazer que escrevo para a Revista UBC, neste meu primeiro ano como diretora vogal — e nesta primeira edição 100% digital.

EDITORIAL

Diretoria Paulo Sérgio Valle (Presidente) Antonio Cicero Erasmo Carlos Geraldo Vianna Manno Goes Marcelo Falcão Paula Lima

Nossa capa também é simbólica: estampada pela cantora e amiga Teresa Cristina, reflete o poder da música na nova vida vivida em isolamento e recolhimento. Reflete a força da música popular brasileira, defendida por Teresa, que, num feito louvável, cantou e canta noite após noite para milhares de pessoas desde o início da pandemia. Teresa ganhou um novo lugar, mais que merecido, e conquistou corações com a sua presença singular. Nesta edição, falamos ainda da importância das marcas para a sobrevivência dos artistas, através do marketing social. Outro assunto relevante é sobre o Brasil sem réveillon e sem o nosso fantástico carnaval. Por medidas de segurança, há grandes chances de cancelamentos e adiamentos. E a arrecadação de direitos autorais, como fica? Também neste período de confinamento, o projeto Janela UBC foi uma grata surpresa. Alguns de nós, diretores, tivemos o prazer de entrevistar grandes associados. Assistam às lives no Instagram da UBC e emocionem-se com momentos marcantes. Nessas transmissões, pudemos divulgar o importantíssimo Juntos Pela Música, o fundo criado pela UBC em parceria com o Spotify que, nesses meses de paralisia do mercado, reforçou a renda mensal de mais de mil associados. Obrigada a todos que doaram: vocês fazem toda a diferença. Beijos, muita saúde e música para todos. Com sabedoria, amor, transpiração e fé, continuaremos nosso trabalho, somando à vida dos associados, acreditando na nossa grande paixão, a música. Juntos, somos melhores e seguimos fortes!


NOVIDADES NACIONAIS

PELO PAÍS: Projeto IMPULSO

28

22 30

32

40 DÚVIDA DO ASSOCIADO

Lives

32 ARRECADAÇÃO E DISTRIBUIÇÃO:

e réveillon?

MERCADO: Brasil sem carnaval

24 FIQUE DE OLHO

22

NOTÍCIAS INTERNACIONAIS

18

ENTREVISTA: IRA!

12

CAPA: Teresa Cristina

6

PELO PAÍS: Marketing Social

5

JOGO RÁPIDO: Ana Gabriela

ÍN DI CE 18 28

1 44

42

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JOGO RÁPIDO

REVISTA UBC

5

ANA GABRIELA Quem é a paulista que vem sendo comparada a Cássia Eller — pela atitude, não pelo estilo — e que faz barulho com sua MPB de pegada pop e seus milhões de fãs nas redes sociais por_ Andrea Menezes

de_ Brasília

Ela trocou São José dos Campos (SP) por São Paulo, trampolim para um muito próximo estouro nacional. E, apesar da pouca idade (24 anos), sabe bem aonde está indo — e como. Cantora e compositora, Ana Gabriela milita no que chama de “MPB levada para o pop”, investe em composições próprias interpretadas com sua voz grave, exibe uma saudável e libertária atitude sexual e tem nas redes sociais, ambiente que domina e onde coleciona milhões de seguidores, a caixa de ressonância perfeita. Ela acaba de lançar “Ana”, seu álbum de estreia. Como está sendo esse turbilhão de sucesso nas redes? É muito doido. Estou isolada em casa, em confinamento, e não tenho podido sentir de perto. Mas vejo a repercussão. Estou louca para poder voltar a fazer shows. Tento manter o foco compondo mais do que nunca. Algumas músicas eu faço em 30 minutos. Outras levam dias. Mas mantenho o processo constante, pelo menos quatro vezes por semana.

O que acha das comparações com Cássia Eller? São uma honra. Mas não vejo similaridade. Ela era uma rockstar. Eu faço uma MPB sem amarras, levada para o pop, com muito orgulho. E o que sente ao ser uma referência do movimento LGBTQI+? Orgulho. Sempre falei sobre a minha sexualidade. Tenho uma voz importante nesse meio e quero usá-la para dar representatividade aos que não ainda podem falar. No Brasil de hoje, uma música de amor cantada por uma mulher para outra mulher é algo libertador. VEJA MAIS O clipe da faixa “X”, presente no álbum ubc.vc/AnaX


NOVIDADES NACIONAIS 6

por_ Andrea Menezes

de_ Brasília

BOSCO, HOLANDA, MESTRINHO

CONFINAMENTO CRIATIVO

Com duas canções compostas — e inteiramente produzido, arranjado, gravado e mixado — durante o confinamento, “Será Que Você Vai Acreditar?”, novo álbum de Fernanda Takai, chegou em julho às plataformas digitais provocando reflexões e uma unânime aceitação da crítica. O desconcerto marca o repertório, que, além das faixas inéditas (“O Que Ninguém Diz” e “Corações Vazios”), traz composições de Amy Winehouse (“Love is a Losing Game”), Nico Nicolaiewsky (“Não Esqueça”) e Michael Jackson (“One Day in Your Life”), por exemplo. “A maioria das canções entrou no repertório antes mesmo da pandemia e do isolamento, o que confirma que esse não é um sentimento novo. Afinal, nós estamos vendo o país andar de ré”, disse a cantora e compositora, que, mais uma vez, teve a parceria do marido, John Ulhoa, companheiro de Pato Fu, na produção e na pós-produção do trabalho. “Sinceramente, sinto que as pessoas precisam de músicas que falem da nossa fragilidade e impotência”, ponderou. LEIA MAIS Relembre a participação de Takai na capa da Revista #40, sobre mulheres compositoras ubc.vc/Revista40

OUÇA MAIS As 10 canções de “Será Que Você Vai Acreditar?” ubc.vc/TakaiSera

Um álbum gravado em estúdio com cheiro de trabalho ao vivo. Assim é “Canto da Praya — Hamilton de Holanda e João Bosco — Ao Vivo”, que reúne os dois mestres da música brasileira num dueto com instrumentistas de alto calibre e repertório oriundo da série de shows “Eu Vou Pro Samba”, que eles fizeram juntos. “Sinhá” (João Bosco/ Chico Buarque), “Chega de Saudade” (Tom Jobim/ Vinicius de Moraes) e “Gagabirô” (João Bosco), para violão e bandolim, estão entre as faixas incluídas no trabalho. “A nossa ideia era que o repertório contemplasse o samba. Sempre achamos esse estilo nosso ponto de encontro de ideias musicais e rítmicas”, descreveu Hamilton, que também gravou outro álbum do projeto, paralelo, com o craque Mestrinho. “O fantástico de estar com o Hamilton é essa liberdade que a gente tem de tocar o que gostamos, queremos e admiramos. Trata-se de um músico extraordinário porque qualquer coisa que você possa colocar uma possibilidade, logo ele chega com seu bandolim e cria coisas muito prazerosas”, completou João ao portal Terra. OUÇA MAIS “Canto da Praya” na íntegra ubc.vc/HamiltonBosco

foto_ Marcos Portinari

FERNANDA TAKAI

foto_ Dudi Polonis

E O SAMBA


REVISTA UBC

foto_ Luana de Aquino

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FESTA DE GERALDO

OUÇA MAIS As 11 faixas de “Rhonda” ubc.vc/Rhonda

ANDANÇAS DE

SILVIA Foi um intervalo de seis anos, uma mudança de cidade, muitas parcerias e uma pandemia. Num título que poderia bem aludir às suas próprias andanças físicas e estéticas, Silvia Machete lança “Rhonda”, primeiro álbum de inéditas desde “Souvenir” (2014) e quase todo composto por ela — em parceria com Alberto Continentino —, em inglês. A notável exceção é a faixa “With No One Else Around”, single do raro e genial disco em inglês de Tim Maia lançado por sua gravadora independente, a Seroma, em 1976. Agora vivendo em São Paulo, a carioca Silvia apresenta parcerias com o músico paulista Emerson Villani e com o estadunidense Nick Jones, que, além de músico, também é roteirista e produtor audiovisual e está por trás, entre outros sucessos, da série “Orange is The New Black”. O groove sofisticado impresso por Silvia e pelos produtores Continentino e Lalo Brusco marca este quarto álbum de estúdio, que tem ainda a participação do tecladista Jason Lindner, um dos responsáveis pela estética particular do último álbum de David Bowie, “Black Star”, lançado só dois dias antes da morte do cantor, compositor e produtor em 2016.

Não teve são-joão, mas teve são Geraldo. Uma mescla de composições próprias e clássicos de Luiz Gonzaga, Zé Dantas e Antônio de Barros, gravados ano passado no Circo Voador, no Rio de Janeiro, dá o tom do explosivo “Arraiá de Geraldo Azevedo”, lançado no início de junho para driblar o baixoastral do confinamento com tempero de forró, baixão, xote e outros gêneros tão nordestinos e brasileiros. Além do próprio disco, o cantor e compositor — cujas “Moça Bonita” (parceria com Capinan), “Sétimo Céu” (com Fausto Nilo) e “É Só Brincadeira” (com Zema) se unem ao medley “Olha Pro Céu” (Luiz Gonzaga e Nando do Cordel)/ “São João na Roça” (Luiz Gonzaga e Zé Dantas), entre tantas outras — vem lançando, semanalmente, vídeos para as canções, também extraídos do show carioca.

VEJA MAIS Os vídeos de “Arraiá de Geraldo Azevedo” ubc.vc/ArraiaGeraldo


NOVIDADES NACIONAIS 8

BELLA SCHNEIDER:

“POPZEIRA” Em processo de lançamento do seu primeiro álbum, “ELA”, a pernambucana Bella Schneider entregou no final de julho seu novo single, “Déjà Vu”, uma curiosa mistura de gêneros que ela chama de popzeira, tudo permeado por uma potente base eletrônica dançante. Nome revelado no “The Voice Brasil”, e que ganha peso e repercussão na cena dance brasileira, ela contou que a faixa, produzida durante a quarentena, “é mais do que (sobre) ver (algo) novamente, é sobre ressignificar a vida. É acreditar que, com amor e um novo entendimento, podemos vencer os conflitos.” A produção é de Diego Marx, e o clipe também já está disponível. OUÇA MAIS O single “Déjà Vu” ubc.vc/DejaVu

DOM E DONA A cantora e compositora carioca Luciane Dom se une ao multiartista gaúcho Dona Conceição numa bela exaltação à negritude, ao encontro e ao cuidado com o outro no single “Azul”, uma batucada pop. “Essa canção me faz lembrar toda a preocupação de quem ama, em construir uma história juntos. Lembra meus pais, minha avó, lembra os poemas de Conceição Evaristo, traz todo o clima de aconchego”, explicou Luciane, expoente da música preta brasileira contemporânea, ao misturar ancestralidade e sons e reflexões de hoje, e cujo primeiro projeto, “Liberte Esse Banzo” (2018), a levou por turnês pelos Estados Unidos e pelo Chile. VEJA MAIS O clipe de “Azul” ubc.vc/Azul


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BALEIRO:

foto_Silvia Zamboni

PONTE AFETIVA

LEIA MAIS Reveja uma entrevista de Baleiro à UBC no lançamento de seu projeto anterior, “Arquivo_ Raridades” ubc.vc/Baleiro

DI FERRERO

Se não há — ou não deveria haver — muitos encontros físicos estes tempos, os espirituais estão liberados. Zeca Baleiro viajou a Portugal para homenagear compositores da talha de Sérgio Godinho, Pedro Abrunhosa, Fausto, Zeca Afonso, Rui Veloso e António Variações, entre outros, no seu mais recente lançamento, “Canções d’AlémMar”. “Este disco é uma declaração de amor à música feita em Portugal, com ênfase na produção das últimas décadas. É parcial, como todo tributo”, descreveu Baleiro, que anunciou o nascimento dessa viagem sentimental antes do confinamento, ainda em janeiro, quando soltou o single e o clipe de “Às vezes o Amor”, de Sérgio Godinho. Abrunhosa não é, ele mesmo, nenhum estranho na voz — e nos palcos — de Zeca Baleiro. Em 1999, o portuense foi um dos presentes no projeto “Navegar é Preciso”, no qual o maranhense promoveu um encontro entre criadores contemporâneos dos dois países em São Paulo.

Di Ferrero começou a entregar os singles que concluirão o seu primeiro álbum solo, “Sinais”, cuja “Parte 1” foi lançada há um ano. “Onde A Gente Chegou”, com participação de IZA (ao lado dele na foto), é uma das faixas que comporão a “Parte 2”. Ao mesmo tempo, o também vocalista do NX Zero estreia um projeto com participações de outros craques do pop nacional. Em “Di Boa Sessions – Parte 1”, quem faz dueto com ele é Thiaguinho nas faixas “Ligação” (de Di e Gee Rocha) e “No Mesmo Lugar” (Di, Mateus Asato e Dan Valbusa), ambas sucessos do NX Zero revisitados. E, como se fossem poucos os lançamentos, o cantor e compositor ainda entregou “Vai Passar”, canção autoral que compôs após enfrentar e se curar da Covid-19, uma espécie de expurgo da má fase que viveu. “Eu não conseguia nem cantar. Não conseguia subir escada, fiquei rouco, cansado...”, relembrou Di Ferrero em entrevista à rádio Jovem Pan.

foto_Sid Dore

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VEJA MAIS No canal oficial do cantor no YouTube, os vídeos de “Onde A Gente Chegou” e “Vai Passar” ubc.vc/DiClipes


NOVIDADES NACIONAIS 10

LAURA CANABRAVA

E OS BONS

MISTURAS

O saxofonista carioca Angelo Torres também caprichou nos encontros no seu décimo álbum de estúdio. Além do americano Kirk Whalum — o sax solo do hit de Whitney Houston “I Will Always Love You”, músico 12 vezes indicado ao Grammy e vencedor em 2012 —, que divide com Angelo a faixa-título do disco, “Início de Tudo”, participam Milton Guedes e Marcos Nimrichter, entre outros. O trabalho instrumental foi todo composto por Angelo — um dos instrumentistas mais conhecidos do universo do gospel brasileiro — e passeia por samba-soul, samba-funk, funk americano, groove e pop. O cantor gospel João Alexandre é outros dos convidados, na faixa “Portas Abertas”, sucesso do gênero gravado pelo grupo Logos.

Reggae cumbiado, samba-soul, afrobeat pop, salsa congolesa, jazz latino. Nunca tem um nome só a variada mistura de gêneros com a qual flerta a cantora e compositora Laura Canabrava, que lançou seu EP “Vontade” de forma independente em junho. Com quatro faixas compostas por ela, fala sobre a busca por uma verdade própria, um estilo (ou muitos), após o sucesso de “Aiye”, seu primeiro disco, de 2018. “Compor é um momento muito íntimo. Muitas coisas são reveladas para mim mesma depois que nasce uma composição. Por isso, componho sozinha. Mas tenho gostado de me arriscar em algumas parcerias, pois o processo é diferente nessa troca com cada um, e eu aprendo bastante”, afirmou a multiartista carioca, famosa por suas performances e atuações como atriz e bailarina. Para um próximo trabalho, ela pretende apresentar composições feitas com Tuany Zanini e Fernanda Lemos, além do namorado, o músico João Bittencourt.

OUÇA MAIS Angelo Torres executa “Início de Tudo” ubc.vc/IniciodeTudo

foto_Ana Alexandrino

ANGELO TORRES

OUÇA MAIS O EP na íntegra ubc.vc/Canabrava


REVISTA UBC

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ESSIN

RIO // LISBOA BAHIA // PARAÍBA

Lives, momentos de reflexão, novas composições. Assim o cantor e compositor Rogério Essin passou o confinamento no Rio de Janeiro, enquanto prepara novos singles para suceder a “Contigo o Mundo Não Tem Ilusões”, que lançou pela Biscoito Fino ano passado e que volta a trabalhar agora, descrevendo-o como “uma canção de amor nos tempos da cólera”.

Baiana criada em João Pessoa e, há alguns meses, afincada no Rio. Com múltiplas influências, estéticas e sonoridades, a juveníssima Agnes Nunes, de 17 anos, é também um fenômeno nas redes sociais desde que surgiu fazendo covers de canções de MPB contemporâneas — ou nem tanto. Com mais de 3 milhões de seguidores e fãs no Instagram e no YouTube, ela se prepara para soltar um novo EP, que reúne canções que homenageiam cidades. Depois de “Rio”, no início de julho, ela lançou o single “Lisboa”, algumas semanas depois, ambos envoltos em elogios de crítica e público pela voz potente da cantora e compositora, que já gravou com Chico César, Tiago Iorc e Elba Ramalho. Sobre o processo de começar a construir esse EP, num momento tão determinante da sua curta vida, ela é taxativa: “Acho que foi realmente ‘parir’ um EP, já que tem tanto sentimento envolvido, e é isso que faz a coisa ter tanto sentido. Coloquei tudo o que eu sentia para fora. Algumas coisas são verídicas, outras são fruto da imaginação”, contou.

CONTRA A CÓLERA

Composto por ele, produzido por Fernando Caneca e com a participação de Federico Puppi, Marcelo Costa e Rodrigo Tavares, o trabalho teve a presença de Arthur Maia, numa das últimas aparições do músico antes da sua morte, em dezembro de 2018. Filho de Antônio Ceará, cantor e compositor cearense que fez fama no Rio dos anos 1960, Essin tem a “nordestinidade” no sangue e nas sonoridades que explora mescladas à MPB e ao pop-rock.

OUÇA MAIS “Contigo o Mundo Não Tem Ilusões” ubc.vc/REssin

VEJA MAIS O clipede “Lisboa” ubc.vc/AgnesLisboa


PELO PAÍS 12

PROJETO IMPULSO

UM ANO DE VERDADEIRA ACELERAÇÃO Apesar da pandemia, os três projetos participantes tiveram resultados notáveis neste período de mentorias, capacitação e networking promovido pela UBC: 430% de crescimento, em média, em suas receitas com execução pública, lançamentos, participações em festivais e uma nova dimensão em suas carreiras do_ Rio


REVISTA UBC

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Foi uma maratona de um ano de aceleração que efetivamente atingiu aquilo a que se propôs: levar os três projetos participantes a outro nível em sua carreira. Entre quase 400 inscritos, o cantor e compositor pernambucano Romero Ferro e as bandas Canto Cego, do Rio, e Mulamba, de Curitiba, escolhidos para participar do Projeto Impulso (primeira iniciativa de mentoria, capacitação e networking realizada pela UBC), puderam desfrutar de preciosos encontros com grandes nomes do mercado, que os ajudaram a moldar aspectos variados da sua carreira e dar passos para crescer. O resultado, eles avaliam unanimemente, foi mais do que positivo. “Fomos acolhidas, recebemos atenção, carinho e cuidado. Nos sentimos extremamente bem para executar nosso trabalho da forma mais transparente e sincera. Assinamos contratos importantes com a editora Universal, a distribuidora Alta Fonte, com a Zeferina Produções... Amadurecemos alguns caminhos”, resume a musicista e compositora Naira Debértolis, falando em nome de suas companheira da Mulamba.

FOMOS ACOLHIDAS, RECEBEMOS ATENÇÃO, CARINHO E CUIDADO.” NAÍRA DEBÉRTOLIS, MULAMBA

Os craques do mercado que atuaram como mentores no projeto foram: • Constança Scofield, gestora do estúdio Toca do Bandido, diretora artística do Selo Toca Discos e musicista. • Fabiane Costa, coordenadora artística do Espaço Favela, palco lançado na edição 2019 do Rock in Rio, coordenadora da equipe de curadoria musical do Rio2C. • Fátima Pissarra, fundadora e responsável pela operação da Music2, que desenvolve projetos com artistas, marcas e agências. • Lucas Silveira, cantor, compositor, produtor musical, multiinstrumentista e líder da banda Fresno. • Marcel Klemm, atual diretor-geral da editora Warner-Chappell e ex-gerente de produção musical na TV Globo, cargo que ocupava durante o perí­odo de mentorias.

• Marcus Preto, jornalista e produtor musical que dirigiu e produziu dezenas de álbuns de artistas renomados, como Gal Costa, Nando Reis e Tom Zé. • Marina Mattoso, diretoraexecutiva da Jangada Comunicação, especialista em comunicação em redes sociais. • Marisa Gandelman, advogada especialista em direitos da indústria do entretenimento, exdiretora-executiva da UBC e educadora. • Paulo Monte, A&R na Som Livre, responsável pelo slap, selo musical da gravadora dedicado à música independente. • Pedro Dash, produtor musical e cofundador do selo Head Media. Produziu Anitta, Projota e Charlie Brown Jr., entre muitos outros.

• Pedro Seiler, sócio fundador do Queremos!, grupo de crowdsourcing que realiza grandes shows pelo país. • Rafael Rossato, empresário de artistas como IZA, Mallu Magalhães, Marcelo Camelo e Di Ferrero. • O orientador, Iuri Freiberger, é fundador e diretor da Gramo Design Estratégico, empresa de inteligência para mercados criativos. Tem 25 anos de experiência no setor cultural e musical atuando como músico multi-instrumentista, produtor musical, pesquisador, professor universitário, gestor público, empreendedor criativo e articulador do setor cultural.


PELO PAÍS 14

Para Roberta Dittz, vocalista e compositora da Canto Cego, a dinâmica desse programa de aceleração, com acompanhamento constante da UBC e uma imersão de alguns mentores na busca de soluções para a banda, lhe trouxe uma “mudança de postura e autoconfiança”. “Sentimos que ter a UBC ao nosso lado deu bastante visibilidade à banda, trouxe realmente um outro patamar de relações. Alguns caminhos se abriram com mais facilidade, estamos dialogando melhor com nossa rede e abrimos as frentes de ação para o que queremos melhorar na nossa carreira. Agora, temos uma visão bem mais clara de como atuar e onde estão nossas maiores dificuldades.”

EU SENTIA FALTA DE PROJETOS QUE FALASSEM DE GESTÃO E CONCEITO CRIATIVO.” ROMERO FERRO

Já Romero Ferro é claro: teria demorado muito mais para conseguir determinados resultados se estivesse “sozinho”. “Esse projeto esteve muito dentro do pensamento de impulsionar, mas também de mergulhar na parte de criação artística e gestão de carreira, que é fundamental! Eu sentia muita falta de projetos que falassem também de gestão e conceito criativo, pois uma carreira é um processo 360, onde todos os lados são importantes e precisam ser desenvolvidos.” As cifras deles dão uma boa ideia dos resultados positivos aos quais se referem. Com a exposição sem precedentes que ganharam, vieram mais apresentações, participações em festivais, lançamentos de clipes e novos trabalhos, tudo com uma repercussão e uma dimensão inéditas para eles. Por isso, o rendimento médio dos três com execução pública teve um incrível salto de 430,43% neste ano de Impulso. A Canto Cego, por exemplo, lucrou 711,7% mais. A Mulamba, 257,23%, e Romero Ferro, 322,35%.


REVISTA UBC

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A UBC AO NOSSO LADO TROUXE OUTRO PATAMAR DE RELAÇÕES.” ROBERTA DITTZ, CANTO CEGO

EM UM ANO, UM SALTO NAS RECEITAS COM EXECUÇÃO PÚBLICA

711,7 257 ,23 CANTO CEGO

MULAMBA

322,35 ROMERO FERRO

Outros números bem palpáveis são os relacionados à visibilidade dos três projetos nas redes sociais e nas plataformas de streaming. As meninas de Curitiba tiveram um crescimento de 30,27% no seu número de seguidores no Spotify, por exemplo. O grupo carioca disparou 88,53% em seu número de seguidores no Instagram. E o artista pernambucano expandiu em 123,54% o total de inscritos no seu canal no YouTube. Não só: a Canto Cego tocou no palco favela do Rock in Rio em 2019, participou do festival Porão do Rock e lançou vários clipes, além do álbum “Karma”. A Mulamba, além dos contratos mencionados por Naira, lançou clipes, participou de festivais como o Festival do Sol, Morrostock e GRLS e integrou o songwriting camp da gravadora Universal, no estúdio de Dudu Borges. Já Romero Ferro lançou seu álbum, “Ferro”, foi indicado como artista revelação na SIM São Paulo, estreou vários clipes e teve uma enorme exposição em programas de TV. Com a intensa agenda de encontros e tantos planos para um só ano — além de uma pandemia interrompendo o projeto no seu auge —, nem tudo pôde ser realizado. “O pior foi com certeza a pandemia! Tinha muita coisa para rolar ainda, mentorias e projetos, que foram interrompidos pela Covid-19. Foi algo que não estava no controle de ninguém”, disse Romero.


PELO PAÍS 16

UM SALTO NA VISIBILIDADE EM REDES SOCIAIS E PLATAFORMAS

30,27 88,53 MULAMBA

CANTO CEGO

123,54 ROMERO FERRO

A Mulamba sentiu falta de mais atenção pontual de alguns mentores em determinados momentos. Já a Canto Cego lamentou não ter podido atingir um grande objetivo autoestabelecido no início: chegar ao fim do projeto com um empresário. “Além disso, queríamos ter feito a turnê do ‘Karma’, mas não foi possível por causa da pandemia. Abrimos muito os olhos para a necessidade de um empresário e queremos muito, mas infelizmente isso continua em aberto.” Os aprendizados ficarão para a próxima edição, cuja realização está nos planos de Marcelo Castello Branco, diretor-executivo da UBC: “O Projeto Impulso se transformou rapidamente numa das senhas da identidade e da cultura da UBC. Uma incubadora de formação e capacitação de novos talentos, em um mercado

APRENDEMOS MUITO. DAREMOS CONTINUIDADE E SEQUÊNCIA À EXPERIÊNCIA.” MARCELO CASTELLO BRANCO, UBC


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dominado pela autogestão de carreiras. Sem ambições proprietárias. Aprendemos muito com os projetos escolhidos e no processo de curadoria, com mentores representativos do mercado. Uma experiência à qual daremos continuidade e sequência.”

O workshop de cinco dias que o Iuri deu no início, detectando as necessidades de cada projeto participante, foi fundamental para desenhar as ações que realizamos com os mentores de todas as áreas nos meses seguintes.”

Para Elisa Eisenlohr, gerente de Comunicação da UBC e coordenadora do Impulso, o método desenvolvido, com a ajuda de Iuri Freiberger, orientador do projeto, vai perdurar. “Temos uma linha educativa na UBC, a filosofia de capacitar nossos associados para o mercado através de informação e formação. Para nós, foi muito importante ir a campo e fazer um laboratório de aceleração. Criamos um método baseado em três pilares, mentoria, capacitação e networking, que pode e deve ser replicado para outros projetos, para outros associados.

Aliás, Elisa destaca o especial envolvimento dos mentores, craques oriundos de várias áreas do mercado: produção, gravadoras, jurídico, criação artística... “Sem eles, não teríamos conseguido esse resultado sensacional. Se não fosse pela pandemia, teria sido ainda melhor. Provamos que fazer algo com essa pegada funciona e queremos demais realizar mais um.” LEIA MAIS No site do Impulso, uma seleção de dicas de todas as mentorias: impulso.ubc.org.br E, em breve, na newsletter da UBC, fique ligado no lançamento de um e-book com todas as lições deste ano de projeto, que você também pode replicar na sua carreira.

TRÊS PÍLULAS DE APRENDIZADO A necessidade de somar forças com artistas da sua geração, da sua “safra”, para crescer junto foi uma importante lição deixada na mentoria de Marcel Klemm com a Mulamba. “Muitas vezes, vemos esses artistas como concorrência, como rivais, mas o Marcel nos mostrou que devemos vê-los como força concomitante para nos impulsionarmos juntos. Ele apresentou cases de artistas e bandas como Pitty, Luan Santana, Anitta e Skank, que se associaram a outros nomes também começando e se beneficiaram disso”, contou Amanda Pacífico, vocalista do grupo. Em tempos de confinamento, criar canais virtuais que permitam monetizar é uma forma de contornar as perdas de receita. “Pedro Seiler nos recomendou criar um canal na Twitch TV. Os seguidores pagam para te seguirem, o que pode ser outra boa alternativa

para fazer algum dinheiro. Também nos sugeriu apostar em lives com influenciadores de rádios de rock e de podcasts”, descreveu Roberta Dittz, da Canto Cego. Pensar muito bem na estratégia de divulgação antes de um lançamento marca a diferença entre sucesso e fracasso. “Se for lançar uma música, tem que pensar em n formas de engajar e juntar o público para que o lançamento seja interessante. Fazer um presave, por exemplo, que é quando você estimula o fã a aderir a um próximo lançamento antes mesmo de ele se dar. Marina Mattoso também reforçou muito que é preciso fazer live, chamar os convidados do disco. Sempre procurar somar, para que o conteúdo esteja na ordem do dia e na cabeça das pessoas, no Facebook, no Instagram, no Twitter, no YouTube, no Spotify…”, disse Romero Ferro.


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MARKET SOCIAL POSSÍVEL SAÍDA PARA A CRISE Enquanto governo não oferece soluções para as indústrias culturais, empresas são instadas a patrocinar artistas e ajudar setor do qual sempre se beneficiaram por_ Fabiane Pereira

do_ Rio


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TING Aprovada em junho por iniciativa do Congresso e sancionada 25 dias depois por Jair Bolsonaro, a Lei Aldir Blanc ainda não ganhou o alcance esperado. A maioria dos estados e municípios continua a debater como investir os R$ 3 bilhões em ajudas diretas a artistas, além de editais e chamadas públicas, e o mercado segue sem receber essa necessária injeção de capital.

Com um governo pouquíssimo envolvido na reconstrução do mercado cultural, o papel de empresas privadas nesse processo ocupa o centro das discussões sobre o Brasil pós-pandemia. Organizações que sempre se beneficiaram da arte e se associaram a ela vêm sendo cobradas a contribuir ativamente com patrocínios para a cadeia produtiva artística se reerguer. Para além do marketing tradicional, com ânimo de lucro, está sob o foco o marketing social, um conjunto de iniciativas destinadas à promoção da empresa por meio de ideias e atitudes que beneficiem a sociedade. Segundo o Painel de Dados do Observatório Itaú Cultural, o mercado cultural no Brasil emprega 4,9 milhões de pessoas — ou coisa de 5,3% da mão de obra total nacional, formal e informal, segundo o IBGE. Um contingente, portanto, essencial para a retomada do crescimento. Paralelamente, uma pesquisa divulgada pela Fundação Getúlio Vargas mostra que, para cada R$ 1 investido em cultura pela Lei Federal de Incentivo à Cultura, o retorno para a economia gira em torno de R$ 1,59, o que não só põe em evidência o quanto o Estado deveria investir; também sugere que qualquer aporte, público ou privado, sempre se refletirá num ciclo virtuoso de produção e consumo que beneficiará o país como um todo.


PELO PAÍS 20

Na esfera privada, programas de inclusão, crowdfunding, matchfunding e fundos — como o Juntos Pela Música, parceria entre a UBC e o Spotify — têm tido uma importante atuação emergencial, direcionando dinheiro para a arte e impedindo que o mercado baqueado afunde de vez. Essas ações se somam aos editais de patrocínio cultural que, ainda que em número insuficiente, vêm se multiplicando nestes últimos meses. O Instituto Itaú Cultural, mantido pelo maior banco privado nacional, foi um dos que apostaram nessa fórmula e lançou múltiplos editais de emergência para acolher projetos artísticos e culturais. “Em meio a uma pandemia que afeta a todos, cada setor precisa estar ainda mais junto para buscar soluções ou formas de diminuirmos o impacto negativo”, observa Eduardo Saron, diretor da instituição. “Este é um movimento que busca provocar a evolução e capacidade criativa do setor.” Outra plataforma longeva, a Natura Musical, projeto da gigante brasileira dos cosméticos Natura para fomentar novas expressões musicais, reforçou o edital 2020, que será lançado no segundo semestre e poderá aportar até R$ 22,2 milhões ao mercado musical nacional. “A cultura tem papel fundamental na construção de um mundo plural, inclusivo e sustentável. De imediato, mantivemos todos nossos contratos com projetos em andamento e abrimos a possibilidade de flexibilização das entregas e cronogramas. E confirmamos a realização do Edital Natura Musical em 2020”, diz Fernanda Paiva, diretora global de marca da Natura Musical.

Com atualização constante, o site da UBC reúne editais, chamadas e projetos de patrocínio anunciados pelos estados e por empresas. Veja mais em ubc.vc/AtualizaEditais

É TRISTE SABER QUE MUITAS MARCAS, EM VEZ DE SE ASSOCIAREM AO SETOR CULTURAL, PREFEREM SE APROVEITAR DELE.” ANA CAÑAS, CANTORA E COMPOSITORA


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Para além de “iniciativas-estrela” de grandes patrocinadores, que incluem ainda a Oi, através da sua aceleradora LabSônica, entre algumas outras, artistas se queixam de que, nos momentos de dificuldades, uma parte significativa das empresas retira receitas do mercado ou as redireciona apenas aos que têm grande poder de engajamento em suas redes sociais. A cantora e compositora Ana Cañas é uma dessas vozes críticas.

“O MAIOR CANAL DE COBRANÇA DEVERIA SER O GOVERNO FEDERAL” Pedro Seiler, diretor da plataforma Queremos, responsável pela renovação do setor de apresentações ao vivo no Rio de Janeiro e outras localidades nos últimos anos, reforça que a cobrança deveria ser direcionada também ao setor público. “Especialmente estando num país onde o governo tem uma postura tão arbitrária, todo o mercado está muito necessitado de apoios. O maior canal de cobrança deveria ser o governo federal, e não as marcas. Não temos nem Ministério da Cultura e sabemos que cada real investido volta com muita força, impactando outros setores como o de turismo e de serviços. O atual governo prejudicou muito a cultura. Então precisamos esperar essa crise sanitária passar para que os editais via leis de incentivo voltem a circular. Mas é fundamental que a parte inspiradora do Estado se manifeste.”

“É triste saber que, num momento em que centenas ou milhares de artistas de todo país estão vulneráveis, sem poder se apresentar e gerar a própria receita, muitas marcas, em vez de se associarem ao setor cultural, preferem se aproveitar dele para alavancar as vendas de seus produtos investindo apenas em artistas com um número grande de seguidores. Para mim, a grande surpresa é que, quando setores que não eram vulneráveis, como o da música, passam a sê-lo, os abismos existentes se amplificam e expõem uma realidade duríssima e injusta”, analisa. Para Fernanda, da Natura Musical, os departamentos de marketing das empresas estão mais sensíveis e atentos às causas sociais. Porém, ela reconhece que as mudanças em estruturas corporativas são demoradas. “É um trabalho árduo e de longo prazo realizar mudanças em estruturas corporativas e demonstrar o valor (do investimento em cultura) em um contexto que também exige resultados muitas vezes de curto prazo”, avalia. LEIA MAIS Ana Cañas, Fafá de Belém e especialistas debatem sobre dificuldades para empresas patrocinarem artistas ubc.vc/Patrocinios

LEIA MAIS Veja o quanto cada estado deverá investir segundo a Lei Aldir Blanc ubc.vc/LeiAldirB


CAPA 22

foto_ Luiz Alberto Macedo

NADA NA MINHA VIDA VEIO RÁPIDO. TUDO É DIFÍCIL.”


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A cantora e compositora carioca ganha nova – e merecida – dimensão durante o confinamento, com lives diárias disputadas por medalhões da nossa música que fazem explodir sua base de fãs e admiradores por_ Kamille Viola do_ Rio fotos_ concepção e direção: Daniela Dacorso clique_Luiz Alberto Macedo

DE TERESA

“Tudo era apenas uma brincadeira e foi crescendo, crescendo, me absorvendo…” Os versos de “Sonhos”, de Peninha (famosa na versão de Caetano Veloso), falam sobre o fim de uma relação amorosa, mas que bem que poderiam ser sobre uma das sensações musicais da quarentena: a live diária da cantora e compositora carioca Teresa Cristina. Aos 52 anos, com uma elogiada trajetória no samba, ela comemora a audiência na casa dos milhares e capas de importantes revistas país afora, sinal da projeção nacional que ganhou com o sucesso no formato.


CAPA 24

Quando fez a primeira transmissão ao vivo, em 26 de março, ela não tinha grandes pretensões: só queria distrair a mãe, Dona Hilda, de 80 anos, que andava tristonha coam as notícias. Primeiro vieram as ‘Jovens Lives de Domingo’, que ainda acontecem semanalmente no YouTube da cantora. Depois, Teresa passou a entrar diariamente, primeiro após o ‘BBB’, e, com o fim do reality, às 22h. Com o boca a boca, a coisa foi crescendo, e a live da cantora foi se tornando um espaço concorrido, com gente querendo ‘ver e ser vista’ nos comentários — até paquera rola. Enquanto isso, ela bebe cerveja, come salgadinhos (muitas vezes enviados pelos ‘cristiners’, como os frequentadores são chamados) e chama artistas que aparecem por ali para participar, tudo de forma espontânea, no clima mais próximo possível, em tempos de isolamento social, de uma roda de samba. “Sinceramente, não esperava esse alcance. Até porque, quando eu comecei a fazer, já tinha muita gente reclamando: ‘Não aguento mais live!’. Acho que as pessoas também ficaram um pouquinho reclamonas na quarentena”, diverte-se Teresa, que acaba de lançar o DVD “Teresa Cristina Canta Noel: Batuque é Um Privilégio”, gravado ao vivo no Theatro Net Rio ano passado.

Ao mesmo tempo em que as lives muitas vezes causam frio na barriga de quem vai participar, pela quantidade de pessoas assistindo, por outro o clima é tão descontraído e despretensioso — com a artista indo às lágrimas com a presença de algum ídolo seu, como Gil ou João Bosco — que todos acabam relaxando também, eles juram. “As lives da Teresa Cristina são extensões da mesa do bar, do divã do analista, do recreio do colégio, da canga na areia num domingo de praia. Você se sente à vontade, você canta junto, você aprende com ela, com quem aparece lá, você chora quando Teresa chora, você lê os comentários e ri e entra numas e comenta de volta... E, daqui a pouco, Teresa conta um causo, saca uma pérola esquecida, apresenta uma cantora para a gente, é um passeio completo”, descreve Letícia Novaes, a Letrux.


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Teresa realizou até hoje cerca de 160 lives, entre Instagram e YouTube. Foram mais de 400 horas ao vivo. Quando tudo começou, a cantora tinha 98 mil seguidores no Instagram. Hoje, são 326 mil. “Ela começou a quarentena como uma grande cantora e sai como cantora e comunicadora das massas”, elogia Duda Beat. “E mais, ouso dizer que Teresa Cristina entrou para a história. Daqui a dez, vinte anos,ela será referência do que foi feito de mais criativo e revolucionário durante a pandemia de 2020. Tenho muito orgulho de ter participado por duas vezes, uma delas apresentando em primeira mão uma nova composição minha”, derrete-se.

Ela não se lembra exatamente de quando se deu conta de que a coisa tinha tomado uma proporção grande, mas arrisca. “Não sei se foi no dia em que a Simone entrou. Eu estava fazendo uma live cantando Simone e Angela Ro Ro. De repente, as pessoas começaram a falar: ‘A Simone está aqui!’. Não acreditei que era ela. Ela falou: ‘Sou eu, sim. Eu vou tomar um banho e já volto.’ Fiquei com aquilo na cabeça: ‘Será que era ela mesmo?’. E era. Eu fiquei emocionada, porque é uma artista que eu acompanho desde muito nova. Não tinha ideia de que ela pudesse estar ali me assistindo.” O fato é que cada vez mais estrelas foram dando o ar de sua graça nas transmissões ao vivo. De nomes como Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Alcione e Baby do Brasil a talentos de gerações mais novas, como Duda Beat e Letrux, passando por Diogo Nogueira e Chico César. Os temas são bem diversos, como homenagem a Gil, Chico, Rita Lee, Lincoln Olivetti e temas de novelas, entre outros. Com o sucesso, Teresa recebeu seu primeiro patrocínio: fez duas lives no YouTube para uma marca de cerveja. “Nada na minha vida veio rápido. Pela minha condição, de mulher negra, tudo é difícil. Você ouve muito: ‘No momento, não, mas depois a gente te chama.’ Já cheguei a pensar: ‘Será que eu estou fazendo a coisa certa? O que tem de errado comigo?’”, desabafa. Agora, ela agradece e curte o momento. Diz que tem aprendido muito. E espera que o reconhecimento venha também em termos financeiros “As pessoas acham que elogio paga conta. Elogio não paga conta de luz, aluguel, plano de saúde. A gente teve muitos sambistas que morreram precisando de atendimento hospitalar. Ninguém precisa ser mercenário, mas tem um plano de dignidade, de qualidade de vida, que deveria existir.


CAPA 26

GOSTO MUSICAL SUPERECLÉTICO O conhecimento musical amplo e o gosto eclético de Teresa chamam atenção. Ela conta que, quando começou a cantar samba, trazia sucessos que conhecia do rádio, de nomes como Alcione, Beth Carvalho, Clara Nunes, Zeca Pagodinho, Almir Guineto e Jorge Aragão. Pedro Miranda, que era pandeirista do grupo que a acompanhava dos tempos de Semente, bar onde se projetou na Lapa, no Rio, tinha uma pesquisa de ritmos nordestinos, além de compositores como Geraldo Pereira. Gustavo Pacheco, que era colega de Miranda no Cordão do Boitatá, trazia raridades do samba. Cristina Buarque gravava fitas cassete para ela com outros tesouros escondidos do gênero. Com a mãe, aprendeu a gostar de artistas como Tim Maia, Secos & Molhados (que Dona Hilda adora), Hyldon, Paulinho da Viola, Chico Buarque, Rita Lee, Gal Costa, Maria Bethânia e Roberto Carlos. Já o metal surgiu de um episódio triste na vida da cantora: fã da disco music, ela, que cresceu no subúrbio carioca da Vila da Penha (e, quando sua filha, Lorena, nasceu, há 11 anos, voltou para lá), frequentava as matinês do clube Olaria. Na hora da música lenta, nunca era chamada para dançar. “Isso por anos. Não foi um baile nem três. Eu me arrumava cada vez mais, achava que era alguma coisa que eu não tinha feito. E nada. Fui ficando triste”, diz. Era o que hoje se chama de solidão da mulher negra. Parou de ir. Até que um dia foi a um show de metal e gostou do ambiente. “Não existia o momento romântico de algum cara chamar uma mulher para dançar, e as mulheres eram todas independentes e marrentonas. Falei: ‘Gostei.’ Comecei a ouvir e me apaixonei de cara pelo Van Halen e pelo Iron Maiden.” Mais que uma anedota, a inesperada paixão de Teresa pelo metal é um símbolo da sua pluralidade. “Tereza é multimídia. Multitudo e todos. Seu conhecimento de música é visceral e orgânico, passa pelos gêneros com a simplicidade leve de quem não é pretensiosa. Do metal ao pandeiro, nos sacode de emoção, de aprendizado”, elogia Marcelo Castello Branco, diretor-executivo da UBC. “Tudo isso com seu talento de intérprete intrépida capaz e sagaz. E um sorriso no olhar que faz a diferença.”


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COMECEI A OUVIR (METAL) E ME APAIXONEI DE CARA PELO VAN HALEN E PELO IRON MAIDEN.” OUÇA MAIS Teresa canta Noel ao vivo ubc.vc/TeresaNoel

A sessão de fotos para a capa e a reportagem teve o clima dos tempos que correm: foi dirigida à distância pela fotógrafa Daniela Dacorso, através do FaceTime (foto ao lado). “Foi uma experiência muito interessante para mim, nunca tinha trabalhado desta forma”, descreve a fotógrafa, que deu as instruções precisas de luz e enquadramento para o assistente de Teresa, Luiz Alberto Macedo, clicá-la com um celular. “Fotógrafo é muito controlador, precisei abrir mão um pouco. Entramos no fluxo e nos comunicamos muito bem, funcionou como numa sessão normal. Isso reforça muito a ideia de que uma boa imagem, uma boa foto, não é só um clique.”

foto_ Daniela Dacorso

LABOR NOS TEMPOS DA COVID


ENTREVISTA

foto_Carina Zaratin

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Nasi fala sobre o primeiro álbum de inéditas do Ira! desde 2007, lançado às vésperas de a banda paulistana completar quatro décadas por_ Kamille Viola

do_ Rio


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“UMA COISA QUE DUROU MAIS DE 30 ANOS NÃO PODE SE SEPARAR” Treze anos depois, o Ira! volta a lançar um trabalho de inéditas. “Ira” (sem a exclamação) foi produzido por Apollo 9 e traz dez faixas. Atualmente formada por Nasi (vocal), Edgard Scandurra (guitarra e vocal), Johnny Boy (baixo) e Evaristo Pádua (bateria), a banda chegou a adiar um pouco o lançamento, por conta da pandemia de Covid-19, mas soltou o trabalho nas plataformas digitais em junho. “Está sendo diferente, mas também nós não tínhamos outra escolha, na medida em que você não tem perspectiva de quando haverá normalização”, comenta Nasi. Desses 13 anos de hiato entre o trabalho anterior, “Invisível DJ” (2007) e o álbum atual, a banda ficou separada por sete, entre 2007 e 2014, quando Nasi e Scandurra se reuniram e voltaram com o Ira! em nova formação. Em 2021, comemoram-se oficialmente 40 anos desde que os dois criaram a banda. “Meu babalorixá, que é nigeriano, sempre me falou: uma coisa que durou mais de 30 anos não pode se separar. E eu entendo. Apesar

Eles até chegaram a pensar em lançar singles, mas resistiram à tentação e insistiram no álbum, formato que preferem. Inclusive, o disco vai ganhar edição em vinil. “Gosto de músicas que conversam entre si, que as letras falem sobre um tempo, um momento da gente, do mundo em que vivemos, que elas tenham um estilo que fique harmônico, que tenha a primeira do lado A, a última do lado A, a primeira do lado B, a última do lado B... Esse é o conceito de álbum. Não é um monte de música solta que, depois, entra no show”, explica Nasi. “A gente já fez essa coleção de músicas pensando no tempo do vinil.”

de ele não saber muito como é uma vida da estrada, os desgastes que tem, ciumeira que pinta, rebordosa... É um monte de coisa, o que faz as bandas sempre ficarem pisando em ovos no relacionamento. O Ira! teve uma das separações talvez mais explosivas e escandalosas da história da música brasileira. Jamais pensei que a gente um dia ia voltar”, admite. Para Nasi, o destino conspirou por um retorno e uma reinvenção: “Foi um verdadeiro ‘Efeito Dominó’, como diz a música (do álbum novo): um contato novamente, participação em um show beneficente que ele estava produzindo, subir ao palco, ver o amor do público, olhar que a gente ao lado um do outro ainda tinha sentido, que ainda tinha aquele brilho nos olhos. O meu babá tinha razão (risos).”

OUÇA MAIS As dez canções de “Ira” ubc.vc/IraOAlbum


NOTÍCIAS INTERNACIONAIS 30

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do_ Rio

EUA:

REFORMAS NAS REGRAS DA EXECUÇÃO PÚBLICA O Departamento de Justiça dos EUA promoveu, nos últimos dias 28 e 29 de julho, rodadas de debates destinados a reformar os decretos que regulam a execução pública naquele país, em vigor desde 1941. As duas principais entidades de arrecadação e distribuição de direitos autorais nos EUA, Ascap e BMI, se uniram para pedir uma flexibilização gradual nas regras que regem sua atuação. Com a entrada de novos atores no mercado, como agregadores e outras entidades que atuam só no âmbito digital, a Ascap e a BMI se viram imersas numa competição que consideram desleal, já que estão mais atadas que suas rivais às regras surgidas há 80 anos. Uma série de iniciativas para oferecer soluções e criar um novo marco legal na área está prevista para os próximos meses.

CISAC E WIPO

MÉXICO

FECHAM ACORDO GLOBAL

NOVA LEI DE DIREITOS AUTORAIS

A Confederação Internacional das Sociedades de Autores e Compositores (Cisac) e a Organização Mundial da Propriedade Intelectual (Wipo) fecharam um acordo que permitirá a sociedades de gestão coletiva do mundo todo, em especial as de países em desenvolvimento, usar o amplo e eficiente banco de dados internacional CIS-Net, da Cisac, para compartilhar dados sobre autoria de canções, dentro do marco das regras da Wipo. Isso permitirá uma notável melhora no sistema de gestão coletiva, tornando mais acuradas as informações compartilhadas entre as sociedades.

Para se adequar ao tratado de livre comércio com Estados Unidos e Canadá que entrou em vigor no último dia 1º de julho, o México precisou aprovar expressamente uma nova e severa Lei Federal de Direitos Autorais, que começa a valer em novembro e vem provocando bastante controvérsia por lá. Uma das medidas mais duras prevê penas de prisão a quem quebrar os códigos de proteção a obras audiovisuais e musicais em plataformas. O México é um dos campeões mundiais de pirataria e um dos que mais consomem filmes, séries e músicas sem pagamento aos criadores. Organizações da sociedade civil criticam a nova lei, que chamam de “censura”, mas artistas, compositores e produtores de conteúdos artísticos celebraram a possível inclusão, no mercado formal, dos cerca de R$ 10 bilhões que a pirataria gera a cada ano no país.


FIQUE DE OLHO

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do_ Rio

LOBBY DOS HOTÉIS VOLTA A ATACAR

NOVELA SEM FIM

O lobby da indústria hoteleira voltou à carga durante a votação no plenário da Câmara da MP 948/2020, editada pelo governo Bolsonaro para regulamentar as normas relacionadas a cancelamentos de eventos, reservas de hotéis e transporte por conta da pandemia. Um grupo de deputados tentou incluir novamente as isenções de pagamento de direitos autorais a quartos de hotéis e camarotes de navios. Como não conseguiram, prometeram propor um projeto de lei para tramitar em regime de urgência pedindo mais isenções, para órgãos públicos, entidades beneficentes e outros usuários. A classe artística se mobiliza, e milhares de criadores de música já pressionam o ministério do Turismo (sob o qual está o setor cultural) e parlamentares para tentar impedir retrocessos na gestão coletiva. LEIA MAIS No site da UBC, fique por dentro das últimas novidades desta polêmica ubc.vc/Noticias

DESCONTO NAS

MEDIDAS PARA

COBRANÇAS DE SHOWS

MITIGAR A CRISE

Para estimular o retorno do mercado de shows, o Ecad e suas associações concederam um desconto de 50% aos promotores desses eventos, até o fim de 2021, para os licenciamentos de uso de música por execução pública. Só terão direito a essa redução os clientes que estiverem em dia com o pagamento de direitos autorais. Para obter mais detalhes e esclarecer dúvidas, os promotores de shows e eventos devem entrar em contato com as unidades do Ecad em todo o país.

LEIA MAIS No site da UBC, a relação completa das 27 unidades federativas ubc.vc/EcadDesconto

O Ecad e as associações decidiram antecipar pagamentos extras previstos para os próximos meses no intuito de contornar as perdas dos titulares derivadas da pandemia. Normalmente, como prática comum, já ocorrem antecipações de valores para tentar equilibrar um pouco os valores que os titulares recebem ao longo do ano. É que, nas distribuições trimestrais, que contemplam valores de TV, por exemplo, os valores costumam ser mais elevados. Para evitar que caiam muito nas distribuições seguintes, antecipam-se valores. Por conta da Covid, realizamos em março uma antecipação do pagamento trimestral. Já a distribuição extra de cinema prevista para março de 2021 será antecipada para o próximo mês de dezembro.

LEIA MAIS Outras medidas da UBC para auxiliar os associados neste momento ubc.vc/CompiladoUBC


MERCADO 32

PANDEMIA AMEAÇA RÉVEILLON E CARNAVAL

O governador da Bahia, Rui Costa, vinculou a realização do carnaval no estado à descoberta de uma vacina para a Covid-19. O prefeito de Salvador, ACM Neto, também se mostrou reticente sobre a realização da festa e propôs o adiamento, além do uso de “outro formato”. A prefeitura de São Paulo sinalizou no mesmo sentido e já anunciou o cancelamento da festa de réveillon presencial na Avenida Paulista. Outras capitais, como Rio de Janeiro e Recife, ainda não oficializaram mudanças, mas as estudam e cogitam o uso de transmissões só pela TV para evitar multidões nas ruas.

Cancelamento tiraria dos titulares das músicas usadas nessas festas mais de R$ 20 milhões só de arrecadação de direitos de execução pública; prejuízo global estaria na casa dos bilhões por_ Luciano Matos

de_ Salvador

O caso das festas juninas deste ano é exemplar. Se a paralisia continuar, a arrecadação deverá ser quase totalmente zerada. Em 2019, o Ecad arrecadou R$ 5,885 milhões no segmento; em 2020, R$ 360 mil, um tombo de quase 94%. Como carnaval e réveillon somados, em 2019, passaram de R$ 21 milhões em arrecadação, dá para se ter uma boa ideia do tamanho do buraco caso uma queda semelhante se confirme nos dois segmentos.

Cálculos da prefeitura do Rio mostram que o cancelamento do carnaval poderia tirar da economia mais de R$ 4 bilhões. Em São Paulo, o prejuízo seria de R$ 2,97 bilhões. Só a arrecadação de direitos autorais de execução pública sofreria um baque de mais de R$ 20 milhões, no caso de réveillon e carnaval serem suspensos. Neste ano, mesmo, apesar de o primeiro caso de coronavírus no Brasil ter sido confirmado em plena Quarta-Feira de Cinzas, já houve suspensões de eventos que acarretaram em queda de R$ 1,3 milhão na arrecadação, ou 8% menos do que em 2019.


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“Tanto a prefeitura quanto o governo (estadual) entendem como muito temerário organizarmos um evento para um milhão de pessoas em dezembro deste ano”, resumiu o prefeito de São Paulo, Bruno Covas, ao anunciar o cancelamento do réveillon da maior metrópole brasileira. O carnaval da cidade, que, nos últimos anos, ganhou tanto público que já disputa o título de maior do Brasil, está igualmente ameaçado. As escolas de samba já pediram o adiamento dos desfiles, alegando não terem condições de se preparar para fevereiro. “Sou do samba, frequento as quadras, conheço quem organiza. Sei que as escolas, aqui de São Paulo e do Rio, não estão fazendo nada: não escolheram samba, não têm feito ensaios, não têm pensado em enredos. Está tudo paralisado. Não é possível que, neste cenário, haja carnaval em 2021”, disse à UBC Nereu Gargalo, membro do mítico Trio Mocotó e conhecedor da cena carnavalesca das duas principais cidades do país.

ESCOLAS NÃO TÊM FEITO NADA: NÃO ESCOLHERAM SAMBA, NÃO TÊM FEITO ENSAIOS, NÃO TÊM PENSADO EM ENREDOS. TUDO PARALISADO”. NEREU GARGALO, SAMBISTA


MERCADO 34

(SERIA) MUITO TEMERÁRIO ORGANIZARMOS UM EVENTO PARA UM MILHÃO DE PESSOAS (NO RÉVEILLON DA PAULISTA).” BRUNO COVAS, PREFEITO DE SÃO PAULO

Na Bahia, o governador Costa tem sido taxativo: “Não haverá show enquanto não tiver a vacina, por que nós podemos ter uma segunda ou terceira onda de contaminação e matar milhões de pessoas. Não haverá aglomeração de pessoas.” O que ele não disse é que, mesmo que a vacina fosse anunciada hoje, tardaria meses em chegar à maior parte da população e gerar um efeito imunizante suficiente para permitir o retorno da “normalidade”. Eventos de grande porte, como carnaval ou réveillon, levam meses para serem organizados, requerem antecipação.

Em Salvador, tampouco teve início a organização da festa. ACM Neto, prefeito da capital baiana, dá “até o fim do ano” para o surgimento ou não de uma vacina. “Nosso limite para tomar uma decisão é o mês de novembro”, afirmou. Ele admitiu que se juntou a Covas, de São Paulo, para tentar convencer outros prefeitos a adiarem as festividades carnavalescas do ano que vem. “Eu penso que as principais cidades do Brasil podem se juntar: São Paulo, Salvador, Rio de Janeiro, Recife e outras capitais que têm tradição no carnaval, para tomar uma decisão conjunta”, disse ACM Neto. Apesar de não haver uma data fechada, ganha força a tese de transferir a celebração para maio ou junho.


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NÃO HAVERÁ SHOW ENQUANTO NÃO TIVER A VACINA.” RUI COSTA, GOVERNADOR DA BAHIA Em uma plenária realizada no dia 14 de julho, os representantes das escolas do Grupo Especial carioca disseram que aguardarão até setembro para avaliar a viabilidade dos desfiles de 2021. Até lá, nada de ensaios ou concentrações nas quadras. Mesmo caminho seguido pelo carnaval de rua. Segundo Rita Fernandes, presidente da Sebastiana, associação que representa os principais blocos cariocas, “sem vacina, não tem como fazer carnaval, seria uma irresponsabilidade, mesmo sabendo que a não realização do carnaval terá impacto econômico negativo enorme.” Ela disse que o carnaval de rua adiou para outubro uma decisão: “É prematuro decidir agora.”

O Rio, por ora, tem se mostrado ausente da discussão. A Riotur, órgão de promoção do turismo, nega rotundamente o cancelamento do réveillon. Mas, num confuso comunicado emitido no final de julho, disse que estuda alternativas para fazê-lo pela TV e sem multidões, o que abre a porta para a suspensão da festa que leva milhões a Copacabana. O carnaval é ainda mais incerto.

LEIA MAIS Na página 36, Ecad faz estimativas de perdas nos próximos meses em diferentes segmentos de arrecadação.

LEIA MAIS ‘Solução’ parcial para setor de shows, drive-ins se espalham pelo país ubc.vc/MapaDriveIn


MERCADO 36

QUEDA NA DISTRIBUIÇÃO, UM CENÁRIO DE MÉDIO E LONGO PRAZOS Entenda por que a redução dramática na arrecadação com shows, sonorização de estabelecimentos comerciais e até TV aberta terá um impacto sobre os valores entregues aos associados que se estenderá por vários meses do_Rio


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A natureza do sistema de gestão coletiva de direitos autorais musicais, dividido em segmentos de arrecadação — TV, rádio, festas, shows, usuários gerais (como lojas e academias) e vários outros — faz com que a distribuição não seja imediata, ficando condicionada ao recebimento e ao processamento, pelo Ecad, dos pagamentos feitos pelos usuários das músicas tocadas. Portanto, o impacto de um determinado cenário pode se estender por muitos meses. É exatamente isso que deve se dar neste momento de paralisia do mercado musical decorrente da epidemia de Covid-19. Estimativas do Ecad e das associações são de quedas significativas no montante que chegará aos titulares daqui, pelo menos, até o fim do ano — e, muito provavelmente, além. No segmento shows, diretamente influenciado pela suspensão de eventos que envolvam concentração de pessoas, o tombo é acentuado. Desde o início do ano, esse segmento, que tem distribuição mensal, vem caindo mês a mês (-34,39% em janeiro; -24,32% em fevereiro; -2,87% em março, e assim sucessivamente). A partir da distribuição de julho, as reduções são dramáticas: -90,71% naquele mês

(só R$ 763,8 mil entregues aos titulares, contra os R$ 8,225 milhões orçados); -96,15% em agosto; previsão de -96,78% em outubro. Em números absolutos, o mês mais fraco para a distribuição de shows deverá ser setembro, com não mais do que R$ 223,77 mil entregues, contra uma previsão de R$ 7,06 milhões. Além dos shows paralisados, outros segmentos, como sonorização de lojas e estabelecimentos comerciais em geral e casas de festas e diversão, por exemplo, também refletiram o confinamento e o fechamento do comércio. Sonorização ambiental em outubro, por exemplo, terá uma redução de 65,61% nos valores distribuídos: cerca de R$ 1,7 milhão entregues, em vez dos cerca de R$ 5 milhões orçados. Mas outros segmentos menos óbvios também contribuem para um cenário quase inteiramente negativo. É o caso da TV aberta. Alegadamente impactadas pela queda de faturamento, com a escassez de anunciantes, quatro redes nacionais de televisão — SBT, Record, Band e CNT — pararam de pagar os valores previstos em contrato pela utilização de canções em sua programação.

SEGMENTO SHOWS É O MAIS AFETADO: ATÉ 96,78% DE REDUÇÃO NA DISTRIBUIÇÃO PREVISTA PARA OUTUBRO.


MERCADO 38

81,42

%

é a queda prevista no segmento música ao vivo (bares) em novembro: R$ 1,8 milhão distribuído, em vez dos R$ 9,73 milhões esperados

53,06

%

é a queda no segmento rádio prevista para outubro: R$ 17,1 milhões distribuídos, contra os R$ 36,6 milhões previstos

10,91 é a queda prevista para TV por assinatura em novembro: R$ 25,7 milhões distribuídos, ante R$ 28,8 milhões orçados

%


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A inadimplência dessas redes de TV deve afetar em cheio a distribuição de outubro, por exemplo, mês em que o Ecad está prevendo uma queda de 26,37% nos valores de TV aberta, para R$ 28,7 milhões, contra os R$ 39 milhões antes previstos. Cabe lembrar que em outubro serão distribuídos os valores arrecadados em abril a junho. Portanto, novos tombos no segmento, cuja distribuição é trimestral, estão previstos para janeiro e, caso a inadimplência se mantenha, 2021 adentro.

Tido como um alívio parcial para esse cenário, o streaming não se aproxima minimamente de reverter os efeitos negativos da queda generalizada de arrecadação. Apesar de até estar tendo aumentos ligeiros — em agosto, por exemplo, as três rubricas de distribuição de streaming usadas pelo Ecad, somadas, renderam R$ 16,2 milhões, 2,88% mais que os R$ 15,745 orçados —, o streaming de música e audiovisual é simplesmente incapaz de tapar os rombos dos outros segmentos. Espalhados por estas páginas, confira outros destaques do relatório do Ecad que estimou as perdas até o fim do ano com base nos dados preliminares de arrecadação registrados até o momento.

LEIA MAIS Queda na arrecadação de festas juninas foi de R$ 5,5 milhões ubc.vc/CovidCancelamento

R$ 52,6 é o tamanho do rombo esperado para este ano na distribuição de todos os segmentos

LEIA MAIS O calendário anual completo de distribuição ubc.vc/ubc.org.br/ferramentas/ calendarios

MILHÕES


ARRECADAÇÃO E DISTRIBUIÇÃO 40

LIVES

QUEM GANHA O QUÊ Transmissões que permanecem nas plataformas depois da emissão ao vivo entram em duas categorias diferentes de execução pública; entenda como funciona do_ Rio

A explosão das lives durante o confinamento trouxe muitas dúvidas aos titulares das canções tocadas. Afinal, o que é exatamente que se recebe pelo uso? E quando entra o pagamento? O Ecad explica que, se a live fica disponível para visualização/audição depois da primeira transmissão, configuram-se dois tipos diferentes de uso: como transmissão ao vivo de um show, primeiro, e como vídeo sob demanda, depois. Em ambos há a incidência de direitos de execução pública.

O promotor da live patrocinada é responsável por enviar ao Ecad tanto as informações a respeito da receita/aporte financeiro quanto a relação de todas as músicas tocadas. A informação sobre essa receita ocorre de forma declaratória, devendo ser encaminhada para o e-mail servicosdigitais@ecad.org.br. Já nos casos em que a live não tenha qualquer tipo de receita/aporte financeiro, a distribuição dos direitos autorais é feita com base nos relatórios de todas as músicas que foram tocadas, enviados pelas plataformas ao Ecad. Vale lembrar que para as lives patrocinadas, se houver músicas editadas no repertório, também é importante entrar em contato com a UBEM através do e-mail ubem@ubem.mus.br.

AO VIVO No momento da transmissão ao vivo em si, a regra é similar à de um show ao vivo num ambiente físico: o valor do direito autoral corresponde a 7,5% da receita bruta. No entanto, devido ao cenário de crise decorrente da pandemia, o Ecad está concedendo um desconto até dezembro de 2020, aplicando o percentual de 5% exclusivamente sobre lives patrocinadas. A distribuição dos direitos autorais é feita de forma mensal e direta, de acordo com as informações relacionadas no roteiro musical entregue ao Ecad pelo promotor da live, e são contemplados os titulares de direito de autor (compositores e editores).


REVISTA UBC

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VOD Depois da transmissão original, e caso o show continue disponível, ele passa à categoria de vídeo sob demanda (VOD). O pagamento do direito autoral, então, deverá ser feito pela plataforma digital que está executando publicamente as músicas. O valor é calculado com base nas regras previstas no Regulamento de Arrecadação e entra dentro do montante pago pelas plataformas com os quais o Ecad fechou acordos e que estão adimplentes. Já a distribuição é trimestral e contempla os titulares de direito de autor (compositores e editores). Para saber se a distribuição será direta ou indireta, depende da plataforma onde ela ocorreu. No YouTube, a distribuição

é sempre direta. Ou seja, os valores são distribuídos exatamente para as músicas executadas naquele vídeo, desde que sejam identificadas pela ferramenta de varredura da plataforma, o ContentID. Vale procurar seu agregador digital para que o ContentID das músicas tocadas na sua live seja feito e, assim, elas possam ser mais facilmente reconhecida. O Facebook e o Instagram ainda não têm uma ferramenta de identificação automática das músicas pronta. Então, a distribuição é feita de forma indireta por analogia ao repertório utilizado no YouTube. LEIA MAIS Veja a situação de adimplência e inadimplência das plataformas de vídeo sob demanda que operam no Brasil ubc.vc/Inadimplencia


DÚVIDA DO ASSOCIADO 42

“Sei que, para receber todos os direitos relativos às minhas composições reproduzidas no streaming, além de ser associado a uma sociedade como a UBC, também preciso estar vinculado a uma editora. Eu tenho uma editora, como microempreendedor individual. Se ela se filiar à UBC, vou receber tudo?” [ Yuri Righi

cantor e compositor, Jundiaí - SP ]

REVISTA UBC A parte autoral dos direitos pagos pelo streaming vem de duas fontes: uma é a execução pública, que o titular recebe através do sistema de gestão coletiva (Ecad e suas sociedades, como a UBC); a outra é o direito fonomecânico, comumente pago através de uma editora (mas não só). Porém, não se trata de uma editora apenas no papel. Ela precisa ser atuante e ter contratos firmados com as plataformas de streaming que pagam os direitos, como Spotify,

Deezer, YouTube ou Apple Music, entre outras. Esses provedores de serviços digitais não pagam individualmente aos titulares dos direitos fonomecânicos das canções, mas o fazem através de um catálogo maior estabelecido em acordos com as editoras. Aliás, como dissemos, não só com editoras, mas também com alguns agregadores ou distribuidores digitais que também representam a parte autoral e fazem a ponte entre o titular individual e as plataformas.

Uma editora proforma — sem um contrato efetivo com os provedores — não conseguirá, portanto, receber os valores devidos.

E VOCÊ, TEM DÚVIDA? Entre em contato com a UBC pelo e-mail atendimento@ubc.org.br, pelo telefone (21) 2223-3233 ou pela filial mais próxima.


PESQUISA:

COMO O CONFINAMENTO AFETOU QUEM FAZ MÚSICA? A paralisia do mercado atingiu mais

INSTRUMENTISTAS e CANTORES do que COMPOSITORES Mais de dos PROFISSIONAIS já tinham ou tiveram que conseguir empregos fora da música e tiveram quedas nos seus rendimentos.

É isso que revelam os números preliminares da pesquisa “Percepção dos Impactos da Covid-19 nos Titulares de Direitos Autorais de Música no Brasil”.* Em breve, conheça o resultado final e saiba para onde vai o mercado.

* Pesquisa nacional em curso. Até o momento, foram entrevistados mais de 600 artistas. A margem de erro atual é de 5 pontos percentuais.


R$ 1,7 MILHÕES DE REAIS É O VALOR ARRECADADO NA BEM-SUCEDIDA INICIATIVA DA UBC E DO SPOTIFY.* Mais de 1.027 associados em dificuldades financeiras tiveram ajudas de R$ 1,6 mil aprovadas, com a valorosa contribuição de cerca de 2.380 doadores. ACESSE ubc.vc/doe E SAIBA MAIS

* A participação do Spotify no fundo Juntos Pela Música tem a data limite de 9 de agosto de 2020.

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Revista UBC #45  

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