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AGOSTO 2021

CRIAÇÃO As 1001 vidas da bossa nova E MAIS João Carlos Martins, Luísa Sonza, Timbalada, Dirceu Cheib, Ney Matogrosso

ANAS TÁCIA Rainha do Forró é a ganhadora do primeiro troféu Tradições UBC


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Arraiá do #TradiçõesUBC homenageia Anastácia, a Rainha do Forró

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VOCÊ VIU? O post “Você conhece a história da Rainha do Forró?”, no FB, alcançou quase 100 mil pessoas. ubc.vc/Rainha

TOPO DAS PARADAS 1º 11/05/2021 Ecad pede contribuição de agregadoras e distribuidoras digitais para emissão correta de ISRCs. ubc.vc/EcadISRC

2° 15/07/2021 Parlamento britânico recomenda ‘reset’ completo do streaming. ubc.vc/ParlamentoBrit

3° 07/07/2021 STJ delimita pedido de pesquisador que queria dados de obras e fonogramas. ubc.vc/STJ


#49

AGOSTO 2021

RE VIS TA

A REVISTA UBC É UMA PUBLICAÇÃO DA UNIÃO BRASILEIRA DE COMPOSITORES, UMA SOCIEDADE SEM FINS LUCRATIVOS QUE TEM COMO OBJETIVOS A DEFESA E A DISTRIBUIÇÃO DOS RENDIMENTOS DE DIREITOS AUTORAIS E O DESENVOLVIMENTO CULTURAL.

Diretor executivo Marcelo Castello Branco Coordenação editorial Mila Ventura Assistente de coordenação editorial Pedro Henrique Guzzo Akemy Morimoto Projeto gráfico e diagramação Crama design estratégico Editor Alessandro Soler (MTB 26293) Textos Chris Fuscaldo (Rio de Janeiro), Eduardo Lemos (Londres), Isaque Criscuolo (São Paulo), Luciano Matos (Salvador), Ricardo Silva (São Paulo) Fotos Capa: Man Produções Imagens cedidas pelos artistas. Créditos nas respectivas páginas, ao longo da edição. Rua do Rosário, 1/13º andar, Centro Rio de Janeiro - RJ, CEP: 20041-003 Tel.: (21) 2223-3233 atendimento@ubc.org.br

por_ Paula Lima

O primeiro Troféu Tradições, criado pela UBC, foi mais que especial e homenageou Anastácia, uma artista grande e à frente do seu tempo. Celebrar a rainha do forró com toda a sua energia, o precioso talento e sua vasta obra — em um momento tão delicado e complexo — trouxe luz e calor aos nossos corações!

EDITORIAL

Diretoria Paulo Sérgio Valle (Presidente) Antonio Cicero Erasmo Carlos Geraldo Vianna Manno Goes Marcelo Falcão Paula Lima

Com uma mente brilhante, sagaz, e a voz cheia de personalidade, a artista fez com que o show do Arraiá UBC fosse único. Ao lado dela, as participações mais que especiais de Zeca Baleiro, Mariana Aydar e Mestrinho. Tive a honra de apresentar a festa representando a diretoria UBC — e também o prazer de cantar com a rainha! Foi uma noite cheia de significados, bem junina, com comidas típicas, boa música e as melhores histórias contadas por ela. Um início perfeito para esse novo troféu, que será anual e tem como intuito reconhecer artistas e movimentos que contribuíram para a formação da cultura brasileira. É a UBC sempre acreditando na música, na sua diversidade e em espaços a serem ocupados de forma mais igualitária. Não à toa, nossa associação publicou em maio deste ano a pesquisa Por Elas Que Fazem a Música. Entre outros números, o levantamento mostrou que 79% das mulheres que atuam no nosso setor já sofreram discriminação de gênero, e 53% jamais receberam valores de direitos autorais. Tudo isso torna a homenagem a Anastácia, com 60 anos de uma bela — e ainda ativa — carreira, ainda mais significativa.


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NOVIDADES NACIONAIS

CRIAÇÃO MUSICAL: Bossa nova

PELO PAÍS: Dirceu Cheib

CAPA: Anastácia

PELO PAÍS: Timbalada

32 34 DÚVIDA DO ASSOCIADO

30

ARRECADAÇÃO E DISTRIBUIÇÃO: Shows

12

FIQUE DE OLHO

6

NOTÍCIAS INTERNACIONAIS

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JOGO RÁPIDO: João Carlos Martins

ÍN DI CE 12 18

1 38

36

34


JOGO RÁPIDO

REVISTA UBC

5

JOÃO CARLOS MARTINS Aos 81 anos, maestro celebra 70 de envolvimento com a música e ganha exposição em São Paulo por_ Isaque Criscuolo

de_ São Paulo

OUÇA MAIS Grandes interpretações tocadas ou regidas por ele ubc.vc/3iZkLdI

Um dos grandes pianistas do século 20 e dos mais renomados maestros brasileiros, o paulistano João Carlos Martins chega aos 81 anos de vida em 2021 com muito o que celebrar. Além de ter ganhado enorme exposição que transpõe para a Galeria da Fiesp seu rico universo sonoro e imagético, ele não para de criar. E vê a música clássica renovando-se no mundo digital.

Entre os grandes momentos das suas sete décadas de envolvimento com a música, há algum particularmente especial? A minha volta ao Carnegie Hall, em 1978, e minha estreia como maestro, no mesmo palco, em 2007. Além disso, em 19 de novembro de 2022 comemorarei os 60 anos da minha estreia nesse templo da música.

O Brasil tem uma produção clássica atual condizente com seu tamanho e importância na música? Algumas regiões do Brasil valorizam mais a música clássica; outras, talvez por falta de oportunidade, menos. O importante é que todos os artistas clássicos saiam de suas torres de marfim para ir ao encontro da sociedade.

Que oportunidades oferece a música clássica? Vale a pena embrenhar-se nela? O mercado da música clássica sempre ocupou seu espaço nestes últimos séculos. Hoje ela está unida à tecnologia, mas Bach, Beethoven e Mozart são artistas para a eternidade. O mundo não pode viver sem as grandes composições clássicas do barroco até hoje.


NOVIDADES NACIONAIS por_ Chris Fuscaldo

do_ Rio

MARISA MONTE:

O MUNDO SEM SAIR DO RIO Primeiro álbum solo de músicas inéditas de Marisa Monte em dez anos, “Portas” marca também a estreia da parceria do selo dela, Phonomotor Records, com a Sony Music. A artista dedicou a renda da primeira audição do trabalho a profissionais da cultura afetados pela falta de shows decorrente da pandemia. O conteúdo do disco também precisou se adaptar ao “novo normal”. “Acabamos experimentando sessões remotas, e deu muito certo. Foi um disco que eu gravei com pessoas nos mais diferentes lugares do mundo, Nova York, Lisboa, Madri e Barcelona, além da mixagem em Nova York e Los Angeles, tudo isso sem eu sair do Rio de Janeiro. É o meu disco mais internacional”, conta. LEIA MAIS Outros detalhes sobre a audição solidária ubc.vc/3j9aGwj

UM RAPPA SOLO,

MAS COLADO NO IRMÃO Um dos fundadores da banda O Rappa, Marcelo Lobato estava prestes a terminar o terceiro disco do seu projeto paralelo, o Afrika Gumbe, quando a pandemia começou. Isolado, transformou a sala do próprio apartamento em estúdio, onde espalhou bateria, piano, guitarras, baixo, vibrafone, steeldrums... Marcelo, então, começou a fazer melodias para as letras escritas por seu irmão Marcos Lobato, que esteve por trás de várias do repertório d’O Rappa. “As letras são muito contemporâneas, falam de introspecção. Zé Nóbrega está produzindo e mixando comigo e, em ‘Orixá e Caboclo’, gravou as guitarras. Eu estou investindo bastante na percussão, coisa de que gosto muito”, conta Marcelo Lobato.

VEJA MAIS O lyric video de ‘Orixá e Caboclo’ ubc.vc/3idelsr

foto_ Alfredo Alves

6


REVISTA UBC

7

MARCELO DUANI:

TODOS OS AMORES

OUÇA MAIS O single ‘Canto Pra Oxum’ ubc.vc/3BWZBp8

Em seu aniversário de 80 anos, neste mês de agosto, Ney Matogrosso ganha de presente uma biografia escrita pelo jornalista Julio Maria. “Ney Matogrosso – A biografia” é resultado de um trabalho de pesquisa de cinco anos, nos quais o autor realizou quase 200 entrevistas e viagens ao Mato Grosso do Sul. A difícil relação com o pai, o comportamento libertário e o sucesso no mercado musical estão no projeto, encampado pela Companhia das Letras.

NEY,

ANO 81

“Eu acho que, mais do que a biografia de um cantor, a gente tem a biografia da vitória de uma dignidade, de uma integridade indestrutível. É impressionante a quantidade de vezes em que tentaram destruir essa integridade. E quando eu falo ‘tentaram’, não se trata só de pessoas, mas a vida no geral, o dinheiro, as propostas, as tentações... Imagine sair do Secos & Molhados no auge? A própria saída dele de casa, deixando uma família de classe média e indo atrás nem ele sabia de quê. A todo momento, Ney deixa tudo, se arrisca e começa de novo”, adianta Julio Maria.

Depois de apresentar o álbum “Filho de Xangô – Samba Exportação” em uma turnê bem-sucedida por Paris e Londres em 2014, o gaúcho Marcelo Duani lança “Quem Vai?”. Com 11 faixas, o álbum é uma singela homenagem ao eterno Luís Vagner, o “guitarreiro” que faleceu em maio, para a tristeza de amigos, familiares e entusiastas da música brasileira e da obra desse ícone. A amizade entre Marcelo e Vágner era antiga. “Quem Vai?” é o nome de uma das canções, e elas flertam com o erudito, a bossa nova, o jazz, o ijexá e com os estilos que são a marca do artista: o balanço e o samba. “O álbum é um divisor de águas na minha carreira. Fiz um álbum onde consegui falar de todos os tipos de amores, dores, anseios e questionamentos internos. Também foi a oportunidade de ter grandes amigos que admiro”, afirma Duani, que convidou, para participações, Marcos Suzano, Paulo Calasans, Simoninha, Xuxa Levy, Marlon Sette e Maestro Tiquinho.


NOVIDADES NACIONAIS 8

MALLU MAGALHÃES,

DE SURPRESA

OUÇA MAIS As 12 faixas de “Esperança” ubc.vc/37eAQXi

MADU

ESTUDA TOM ZÉ Um cantor e compositor catarinense radicado há décadas no Rio revisita a obra de um grande baiano estabelecido em São Paulo. Assim, sem amarras, é o novo EP de Madu, “Estudando Tom Zé”, nas plataformas desde o dia 5 de agosto. Com participações de Elisa Gudin e Daíra, o trabalho mergulha em cinco “lados B” do baiano e tem produção de Guilherme Gê. Tom Zé, inclusive, já conheceu o resultado e comentou: “Eu vi que até canções abandonadas, porque não tinham condição comercial, até estas o Gê metamorfoseou em verdadeiras belezas. Eu fiquei fã, sou fã, ouço todos os dias. E espero que vocês também ouçam o EP do Madu.” OUÇA MAIS O EP na íntegra ubc.vc/3yhJBvV

Mallu Magalhães não publicou nada em suas redes sociais, não fez pré-save, não enviou release para a imprensa, mas lançou em junho um álbum que já chegou às plataformas digitais chamando a atenção por sua diversificação. A cantora e compositora assina sozinha as 12 faixas do repertório poliglota de “Esperança”, disco produzido por Mario Caldato Jr. e por ela. A música de trabalho, “Quero-Quero”, era conhecida pelos fãs, já que Mallu a apresentou em live, em 2020. Estão no disco o sambalanço em inglês “Barcelona”, que tem participação de Nelson Motta recitando trecho da letra, e “Regreso”, uma bossa supernova interpretada em castelhano. Outra participação que se destaca é a de Preta Gil na faixa “Me Deixa”, que conta com a voz fofa de Luísa, filha de Mallu e Marcelo Camelo. O disco tem ainda ares de surf music (“I’m Ok”) e reggae (“Você Vai Ver”).


REVISTA UBC

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ROGÊ,

BANDA DA HORA:

Tem tempero multirreferenciado, superbrasileiro, o novo single “Curumim”, parceria de Rogê com a americana Alice Smith e Zé Paulo Becker. Nos vocais, além de Alice, participa João Donato, numa produção caprichada gravada em Los Angeles, onde o cantor e compositor carioca está vivendo há alguns anos. A letra, aliás, em versos como “eu fui embora, mas vou voltar. Depois não diga que eu não falei que esse aí é o meu lugar”, fala da saudade da terra natal. O trabalho é o embrião do que poderia ser o terceiro disco dele desde que passou a se dividir entre EUA e Brasil, depois de “Nômade” (2018) e da parceria com Seu Jorge “Night Dreamer Direct-To-Disc Sessions”.

Quem nunca quis mudar de cidade, estado, país ou até de planeta? O violonista e compositor Daniel da Hora foi além e pensou em mudar de galáxia quando sofreu uma grande decepção amorosa. Exagero ou não, o sentimento foi tão legítimo que inspirou a composição de uma canção. Gravada por sua Banda da Hora, “Mudar de Galáxia” é o primeiro single de uma nova fase da banda – que foi fundada em 2016 passeando pelo rock, pela MPB e até pelo reggae. Com a nova formação, Daniel vislumbra conectar seu som aos amantes do pop. Interpretada pelo cantor e ator Ciro Acioli, vocalista convidado da Banda da Hora, a faixa conta ainda com Fabrício Matos e André Vasconcelos nas programações de teclados, Fabrício no violão e guitarra, André no baixo e Felipe Alves na bateria.

CURUMIM SAUDOSO

RECONSTRUÇÃO

VEJA MAIS O vídeo do single “Curumim” ubc.vc/3xeXvxv

OUÇA MAIS O single “Mudar de Galáxia” ubc.vc/3lja74t


NOVIDADES NACIONAIS 10

SONZA:

SALTO INTERNACIONAL? A estrela pop Luísa Sonza lançou em julho seu segundo álbum de estúdio. “Doce 22” – referência à idade que ela tinha quando o gravou – é recheado de indiretas ao mundo dos haters das redes sociais, e com letras sobre empoderamento feminino e sexual, como em “Intere$$eira” e “Anaconda”, respectivamente. “Talvez vocês nem entendam nada desse álbum, ou entendam ele todo errado. Ou talvez vocês finalmente possam me entender. E, se vocês entenderem, podem explicar pra mim? Porque eu acho que ainda não entendi nada”, brincou ao anunciar o álbum aos fãs através de uma rede social. A americana de ascendência porto-riquenha Mariah Angeliq é parceira em “Anaconda”, numa declaração de intenções de Luísa: feats à la Anitta devem marcar um eventual salto internacional.

VEJA MAIS O lyric video de “Intere$$eira” ubc.vc/3j3EkBI

CHARLES THEONE,

Depois de uma longa temporada no Rio, o pernambucano de Inajá Charles Theone voltou a casa para dar atenção aos familiares durante a pandemia. Lá, redescobriu sua admiração pelo lado colorido do sertão e idealizou uma trilogia de clipes documentários. Um deles, “Forró Colorido” acaba de chegar ao YouTube. “A proposta foi trazer sertão fértil, molhado... um sertão tropical com seus sumos, com frutas como o caju, a melancia e o cajá, e com seus festejos. Nosso povo, apesar da luta, tem muita alegria. Os três clipes vão se transformar em um documentário”, conta Charles.

foto_ Max Lavay

SERTÃO MOLHADO

VEJA MAIS Assista a “Forró Colorido” ubc.vc/3zSKXxr


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SEMPRE

BIQUINI CAVADÃO

Quatro anos depois de “As Voltas Que o Mundo Dá”, o Biquini Cavadão lança novo álbum de estúdio, “Através dos Tempos”, com singles divulgados pouco a pouco ao longo deste ano. O primeiro saiu em 9 de julho: “Nada é Para Sempre”, parceria do Biquini com o letrista Marcelo Hayena, cantor da banda Uns e Outros. “Quando sugeri um novo álbum à banda, queria algo para cima. O álbum é um aviso de que seguiremos em frente e superaremos tudo o que estamos vivendo”, afirma Bruno Golveia, vocalista do Biquini. A produção é de Paul Ralphes, e a gravação foi totalmente remota: os músicos não se encontraram nem para as fotos de divulgação.

VEJA MAIS O clipe de “Nada é Para Sempre” ubc.vc/3j4gRjL

FERR:

O pianista e compositor Jonathan Ferr vem lançando os singles que comporão “Cura”, seu primeiro álbum pelo selo slap, da Som Livre. Libelo em favor da humanidade e da recuperação após o período sombrio que estamos vivendo, é composto de 12 faixas com títulos como “Choro”, “Sensível”, “Chuva”, “Amor”, “Felicidade”, “Caminho” e “Esperança”. A polissêmica “Nascimento” evoca criação e renovação, ao mesmo tempo em que é uma bonita homenagem a Milton Nascimento. Ferr conta tê-la composto após participar da festa, em 2019, em que Bituca recebeu o Prêmio UBC pelo conjunto da sua obra artística.

VEJA MAIS O clipe de “Nascimento” ubc.vc/3zTBsOs

foto_ Renan Oliveira

FÉ NA VIDA


CRIAÇÃO MUSICAL 12

B

Anitta


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Do Marrocos ao Japão, jovens artistas continuam descobrindo e recriando o gênero inventado por João Gilberto por_ Eduardo Lemos

BOSSA SEMPRE NOVA

de_ Londres

Quando se lançou definitivamente para o mercado norte-americano com “Girl From Rio”, em abril, Anitta recorreu a uma jovem senhora prestes a completar 60 anos de vida: a Garota de Ipanema. A presença da canção de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, lançada em 1962, em uma música pop de 2021 prova que a bossa nova ainda é o gênero musical brasileiro com maior abertura no mercado internacional. Foi nos Estados Unidos, aliás, que a viagem da bossa pelo mundo ganhou impulso fundamental. Em 1962, João Gilberto, Antônio Carlos Jobim, Miltinho Banana, Luiz Bonfá, Carlos Lyra, Sérgio Mendes, Roberto Menescal e outros artistas brasileiros se apresentaram no lendário Carnegie Hall, em Nova York. O show foi registrado no disco “Bossa Nova At Carnegie Hall”. Dali em diante, o gênero se espalhou, ganhou novas roupagens e, mais de meio século depois, continua inspirando artistas e produtores contemporâneos de diferentes partes do mundo – do beatmaker marroquino Saib (25 anos) à cantora e trombonista espanhola Rita Payés (21); da estrela mexicana Natalia Lafourcade (37) ao DJ francês Guts (50), passando pelo grupo de K-pop Twice.


CRIAÇÃO MUSICAL 14 Lamp

No Japão, conhecido por ser o maior mercado de bossa nova fora do Brasil, a nova geração se inspira fortemente na estética do banquinho e violão. É o caso da rapper Mamiko Suzuki, de 25 anos. No mês passado, ela lançou “Jam”, canção que mistura bossa nova com batidas de hip hop e lo-fi. O Lamp, uma importante banda indie local, tem até uma música nomeada “Bossa Nova”, cuja batida caberia em qualquer pista de dança. Outro representante desta cena é o projeto City Bossa, criado em 2020 pelo produtor brasileiro Renato Iwai e pela cantora nipo-brasileira Alice Cavalcante, ambos moradores de Tóquio. O disco “City Bossa - Live in Tokyo” saiu este ano pela Virgin Music local e traz composições próprias e versões de clássicos como “Desafinado” e “Garota de Ipanema” rearranjados com batidas eletrônicas. “A Alice cantava jazz e bossa nos maiores hotéis de Tóquio quando começamos a compor juntos. A busca por uma sonoridade mais moderna foi surgindo com muita naturalidade, porque trabalho há quase 10 anos produzindo pop, J-pop e K-pop”, conta Renato. Ele considera que “as melodias lindas, os campos harmônicos ricos e a forma percussiva de se tocar” são os principais fatores que mantêm a bossa nova interessante para as novas gerações.

Renato Iwai

Mamiko Suzuki


REVISTA UBC

15 Lianne La Havas

Na Europa, diferentes lançamentos sugerem que a renovação do estilo também está em curso no velho continente. Em um documentário lançado em junho, o duo norueguês Kings of Convenience cita a bossa nova como principal inspiração para os arranjos de violão de seu novo disco. Já a estrela britânica Lianne La Havas afirmou que seu último álbum, lançado em 2020, foi “imensamente influenciado pela bossa nova”. Foi em Londres, por sinal, que nasceu o duo Muca & La Marquise, formado pelo músico e produtor brasileiro Muca e pela cantora britânica Alice SK. A dupla vem lançando faixas de levada bossanovista e colhendo elogios da crítica local. A faixa “Until We Meet Again”, que saiu em junho, entrou para a seleta programação da rádio BBC. “Na Inglaterra, a bossa é muito forte nos espaços voltados ao jazz. Os músicos daqui ficam fascinados com os acordes e as progressões”, explica Muca.

Breno Viricimo

Do outro lado do canal da Mancha, em Amsterdã, você pode encontrar uma cantora da Lituânia interpretando “Você e Eu” (de João Gilberto) ou uma artista italiana cantando “Eu Sei Que Vou Te Amar” (de Tom e Vinicius). Ao lado delas, com o violão na mão, certamente estará o músico e produtor brasileiro Breno Virícimo, conhecido por reunir artistas de diferentes partes do mundo para recriar os clássicos do gênero. “Na Europa, percebo que as pessoas se conectam mais à sonoridade da bossa nova do que às canções em si. Por isso, ela tem essa capacidade de se adaptar a novos estilos e roupagens”, explica Breno, que prepara um disco autoral com o cantor e compositor João Sabiá misturando bossa nova com ritmos contemporâneos.


CRIAÇÃO MUSICAL

foto_ Weber Santos

16

FERNANDA TAKAI A cantora e compositora mineira celebra a bossa nova em diversos discos, como “O Tom da Takai” e “Fundamental”, em parceria com o britânico Andy Summers. O que explica o fato de a bossa seguir atual? A bossa nova tem dois ingredientes mágicos e atemporais: elegância e muita personalidade. Ela se mistura bem com estilos diversos, mas seu DNA sempre salta aos ouvidos. Viajando pelo mundo, sinto muito orgulho em ouvir as canções de artistas com os quais tenho a felicidade de compartilhar estúdios e palcos hoje. Boa parte da turma da bossa nova continua com muita energia, gravando e produzindo álbuns, fazendo turnês... Todos eles são inspiração para qualquer artista.

Se, lá atrás, a bossa nova se tornou produto de exportação depois que passou pelos Estados Unidos, é neste mesmo país que o gênero encontra os seus números mais suntuosos. “Saudade Vem Correndo”, de Luiz Bonfá, aparece remixada no hit “Make Believe”, do cantor de hip hop Juice WRLD. A faixa tem mais de 150 milhões de plays somente no Spotify. O cantor de indie pop Cuco fez sucesso sampleando músicas do gênero em “Bossa No Sé”, que já chegou a 120 milhões de plays. “A bossa nova tem uma raiz muito internacional porque a gente ouvia muito jazz”, explica Roberto Menescal, que estava no show do Carnegie Hall em 1962 e hoje, aos 83 anos, continua se apresentando ao redor do mundo em shows que celebram a bossa nova. “É muito bom você saber que fez algo 60 anos atrás e que isso dá frutos até hoje, né?”

OUÇA MAIS Uma playlist com clássicos e novos hits de bossa nova no Spotify da UBC

OS MÚSICOS DAQUI (DE LONDRES) FICAM FASCINADOS COM OS ACORDES E AS PROGRESSÕES.” Muca, do duo Muca & La Marquise


REVISTA UBC

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Twice

MESTRES E ATIVOS Além da porção de jovens talentosos ao redor do mundo que mantêm viva a chama da bossa nova, nomes fundamentais da velha guarda – e que ajudaram a construir e estruturar o estilo mais internacional do Brasil – continuam na ativa. A compor, gravar discos e, até antes da pandemia, sair em turnês mundo afora, estão alguns desses artistas, como: • Carlos Lyra • Edu Lobo • Eliane Elias • Frances Hime • João Donato • Joyce • Leny Andrade • Lisa Ono • Marcos Valle • Roberto Menescal • Rosa Passos • Sergio Mendes • Toquinho • Wanda Sá e muitos outros…

Rita Payes


PELO PAÍS 18

DIRCEU CHEIB, UM HOMEM DE TALENTOS Produtor musical e dono do estúdio Bemol, morto aos 84 anos, deixa legado de estímulo e generosidade a artistas de Minas e do Brasil por_ Ricardo Silva

de_ São Paulo


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“No início, meu pai e o Célio usavam a tática da Avon de vender de porta em porta. Levavam os álbuns às lojas. A coisa foi crescendo, o estúdio se expandiu, virou selo, e eles chegaram a planejar construir uma fábrica própria de discos em Betim (MG). O selo Bemol, nos anos 80, teve importância e peso na cena mineira. O estúdio era tão bem visto que o Pleble Rude e outros de Brasília vinham gravar aqui”, lembra Ricardo Cheib, filho dele. “Sem conhecimento de engenharia, mas com muita vontade de aprender e fazer melhor, ele montou um dos melhores estúdios do Brasil, que já recebeu elogios do André Abujamra e do Caetano Veloso para nossas gravações”, orgulha-se.

Ele foi um dos principais fomentadores da rica cena musical belo-horizontina nas últimas cinco décadas e meia. Mas muitos dos vizinhos e conhecidos do “seu” Dirceu, um senhor afável e bem-humorado, que fazia questão de falar com todo mundo e distribuir simpatia, nem tinham ideia disso. Morto em maio, de infarto, aos 84 anos, o produtor musical Dirceu Cheib era assim: humilde, generoso e empático. Foi dessa maneira que ajudou gerações de criadores de música e participou do seu sucesso, através do seu estúdio Bemol e dos selos e outros projetos que manteve, como MGL e Palladium. “A história da música de Minas é antes da Bemol e pós-Bemol. As virtudes de Dirceu são muitas. Era uma pessoa honesta, simples e que abriu as portas para todos, tanto para quem estava começando a sua carreira quanto para os mais experientes”, descreveu o músico e compositor Célio Balona. Paulinho Pedra Azul, cantor, compositor e instrumentista do Jequitinhonha, resumiu: “Foi um pai para mim. Ele passava aperto, mas não deixava os artistas passarem.”

Não poderia ser de outra maneira; afinal, o envolvimento de Cheib com a música, desde o início, foi forte, visceral. Recém-formado em Direito, em 1967, largou a perspectiva de uma carreira bemsucedida na área para embarcar na ideia do sócio, Célio Gonzaga, e montar o primeiro selo, o MGL. Depois de começar a gravar artistas de São Paulo e do Rio, eles deram a guinada que tornaria Dirceu uma bússola para os novos talentos mineiros. “Claudio Venturini e o 14-Bis, Fernanda Takai e o Patu Fu, Clube da Esquina, Clara Nunes, Grupo Uakti: foi uma porção de grandes nomes que começou gravando no Bemol ou teve ali passagens importantes da sua carreira”, lembra o filho Ricardo, músico e compositor, que administrará o estúdio com o irmão, Lincoln Cheib – este, baterista, há 25 anos tocando com Milton Nascimento. O legado que Dirceu deixa, afirma o filho, é “o de muita honestidade e muito trabalho. Ele não parava, estava sempre à frente, pensando em como inovar, fazer diferente. A última coisa que ele fez, aos 84 anos, foi aprender a instalar uma nova mesa. A saída era diferente da nossa. Ele quebrou a cabeça para entender. Conseguiu. Era um cara que amava profundamente a música e vai fazer muita falta.”


CAPA 20

A HORA DA

ESTRELA Parceira de Dominguinhos e compositora de centenas de canções, Anastácia tem o merecido reconhecimento e recebe o primeiro troféu Tradições UBC por_ Chris Fuscaldo

do_ Rio


REVISTA UBC

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No dia em que subiu ao palco do Canto da Ema, em São Paulo, para receber o troféu na primeira edição do Tradições UBC – em uma live transmitida pelo YouTube –, fazia um mês que Anastácia tinha completado 81 primaveras. Sua atividade intensa na composição e nos palcos do Brasil há quase seis décadas lhe rendeu anos atrás o título de Rainha do Forró. Anastácia apresentou alguns de seus maiores sucessos no Arraiá UBC no dia 30 de junho, estreando o evento que tem como objetivo reconhecer artistas e movimentos artísticos que contribuíram com a música popular brasileira. “Nada mais revolucionário do que uma tradição que se renova”, ela disse, citando o presidente da UBC, Paulo Sérgio Valle. “Que esse troféu tenha vida longa, porque tem muito tempo ainda pra gente aplaudir os grandes talentos musicais do Brasil”, ela disse, durante a apresentação de “Sorriso Cativante”, parceria com Dominguinhos.


CAPA 22

Se fosse por sua certidão de nascimento, Anastácia teria entrado na festa junina que sediou o Tradições UBC com 80 anos recémcompletos. Mas a cantora e compositora pernambucana, radicada em São Paulo, já começou sua vida tendo história para contar: seus pais a registraram no ano seguinte ao seu nascimento. Esse e outros “causos” inspiram tanto a artista que, desde os 15 anos, ela os coloca, à sua maneira, nas músicas que compõe. “A música é uma terapia para o espírito. E estou firme e forte, aos 81 anos, sempre vivendo dela e levando-a por todo esse Brasil afora”, exclamou Anastácia logo após a primeira canção, “Paguei Pra Você Tocar”, também parceria com Dominguinhos. Essas são só duas das mais de 250 colaborações que Anastácia tem com o acordeonista, com quem viveu um romance por 12 anos. Sem dúvida, ele foi seu parceiro mais constante entre os anos 1960 e 1970. No entanto, a dor da separação não só fez a artista não parar, como a inspirou a seguir compondo cada vez mais forrós, boleros, baladas e até sambas. Foi esse rico histórico que a levou a ser escolhida como primeira homenageada do Tradições UBC. O diretorexecutivo da UBC, Marcelo Castelo Branco, explica: “O Brasil é um país continental, e a cultura regional precisa ser valorizada por sua natureza e potencialidade que, muitas vezes, extrapolam os limites geográficos.”


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A produção da Rainha é tão vasta que, hoje, segundo dados do Ecad, Anastácia está entre as dez compositoras com maior número de obras registradas: entre as autoras de canções da música popular brasileira, ela é a segunda (as outras oito produzem muito porque trabalham com trilha sonora). Com 635 composições registradas – e outras dezenas sem registro –, Anastácia perde inclusive para poucos homens da MPB. Gilberto Gil é um dos que têm poucas obras mais do que ela. Responsável pelo grande sucesso de uma canção da dupla Anastácia e Dominguinhos – ele gravou “Eu Só Quero Um Xodó” em 1973 e alçou o nome da dupla para fora do circuito do forró –, Gil celebrou Anastácia, em vídeo, durante o Arraiá: “Compositora extraordinária, de uma sensibilidade incrível para as coisas singelas da vida, com uma capacidade de descrever os meandros das tramas amorosas, entre as pessoas (de maneira) simples... Nordestina daquelas, maravilhosa Anastácia!”, disse o baiano, deixando escapar que fará uma participação no próximo álbum da cantora.

VIVO O PRESENTE PENSANDO NO FUTURO. O QUE SERIA DA VIDA SE NÃO FOSSE O SORRISO, A ALEGRIA?” Anastácia

Gil conviveu com Dominguinhos nos últimos anos que o acordeonista passou com Anastácia, e outros anos mais. Hoje, faz parte de sua banda um pupilo do sanfoneiro, Mestrinho, que também subiu ao palco para tocar com Anastácia. “É um prazer imenso estar aqui, ao lado de um patrimônio da música brasileira. A admiração é muito grande”, disse Mestrinho, antes de tocar e cantar o sucesso “Contrato de Separação”, também composição da dupla. Narrador do evento, que contou com Paula Lima na apresentação, Alceu Valença foi outro a se derramar em elogios à Rainha do Forró: “Compositora maravilhosa, Anastácia merece ser homenageada”, disse.


CAPA 24

Da diretora da UBC Paula Lima, que também soltou a voz com a homenageada, saiu a lembrança de que Anastácia “sempre esteve à frente do seu tempo”: “Mais do que nenhuma outra mulher, ela representa todas as compositoras e artistas do Brasil.” Hoje ela recebe homenagens que coroam sua bela carreira e a representatividade que traz às mulheres criadoras. Mas, na década de 1960, viu como seu próprio nome de batismo – Lucinete Ferreira – foi trocado por seu produtor para Anastácia sem sequer avisá-la. Só soube ao vêlo impresso na capa do disco. Lucinete nasceu em Pernambuco, em 1940, e escreveu sua primeira música quando já era cantora de rádio. Com a mudança para São Paulo, as portas se abriram para seu canto. Só não demorou mais para que ela pudesse se impor como compositora porque “a baianinha” – como era chamada pelos sudestinos que não entendiam a diferença – já era arretada e não deixou seu companheiro calar seu dom.

foto_ Man Produções

“Um dia fiz um samba e mostrei para Venâncio, meu companheiro e meu produtor. Ele rasgou, jogou na lixeira e disse: ‘Presta não, minha fia!’ Catei o papel, colei e, um dia, mostrei ao sambista Noite Ilustrada, que gravou ‘Conselho de Amigo’ em um disco dele. Foi a primeira vez que ganhei algum dinheiro com uma composição. Venâncio só foi saber depois que pegou o disco na mão e viu meu nome nos créditos”, conta Anastácia, que não para de criar. “Vou fazer mais discos. Um, depois outro, depois outro. O que eu puder fazer para tirar as minhas músicas da gaveta eu farei. A gente nunca sabe o que está para acontecer, mas eu vivo o presente pensando no futuro, sem deixar de curtir também a saudade, que muito aparece em minhas canções”, diz a artista, entregando um pouco de sua fórmula: “O que seria da vida se não fosse o sorriso, a alegria?”


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UMA FESTA EM FAMÍLIA Foi uma festa em família – pela união dos artistas presentes em torno do universo nordestino e junino e também pela participação de familiares de Anastácia. A Zeca Baleiro, Mariana Aydar, Mestrinho e Paula Lima, que cantaram com a Rainha, se somaram a filha dela, Liane Ferreira, e a neta, Carol Albuquerque. Ambas trabalham na produção de Anastácia, e Carol é ainda a empresária da cantora e compositora, além de ter sido a responsável pelo conceito da noite. Muito ligada à avó, Carol foi a responsável por inventariar toda a obra dela e filiá-la à UBC, antes de começar a administrar o incrível patrimônio cultural criado pela artista.

A partir do alto, Anastácia e os convidados – Mestrinho, Paula Lima, Mariana Aydar e Zeca Baleiro – em diferentes momentos da noite; à direita, ao lado de sua neta e empresária, Carol Albuquerque, e do sobrinho e stylist, Lucas Ferreira

“Anastácia é luz, ela brilha. Tem uma sabedoria que eu nunca vi em ninguém. Ela não fez o colegial, mas coloca a palavra paulatinamente numa música, e fica incrível. Quem faz isso?”, ri Carol. Primo dela e sobrinho de Anastácia, Lucas Ferreira foi outro a participar do Arraiá da UBC. Stylist, ele é o responsável pelo visual da cantora e compositora nos dois últimos discos e nos shows – um conjunto estético marcado pela profusão de flores, elementos nordestinos, cores e uma evidente energia solar. Exatamente como a energia da própria Anastácia.

VEJA MAIS A festa completa, no canal da UBC no YouTube ubc.vc/3w8y9kb

fotos_ Man Produções

OUÇA MAIS Uma playlist com sucessos de Anastácia ubc.vc/3iaHlkq


PELO PAÍS 26

30 ANOS DEPOIS,

A POEIRA NÃO BAIXA


REVISTA UBC

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Timbalada celebra três décadas de um movimento que mudou tudo e que, apesar da pausa pandêmica, ainda tem muito o que dizer por_ Luciano Matos

de_ Salvador

A poeira avermelhada que subia do chão podia ser vista de longe. Jovens pretos eufóricos dançavam ao som de uma percussão diferente e cheia de suingue. Incrustadas entre prédios de classe média, as ruas enladeiradas e sem asfalto do Candeal abrigavam todo domingo o impacto vindo de 400 percussionistas. Era verão de 1991, e a Timbalada imprimia suas primeiras batidas naquele bairro no miolo de Salvador. Há 30 anos, os moradores e visitantes daquelas ruas de barro assistiam ao início de uma banda que revolucionou o lugar e a própria música baiana. Capitaneado por Carlinhos Brown, o grupo seguia a linguagem afro-percussiva que dava as rédeas no cenário musical de Salvador. Com vários sucessos, dezenas de discos e centenas de integrantes em sua história, três décadas depois, o grupo se mantém na ativa, com Brown à frente e cheio de planos. Para seu criador e mentor, a Timbalada não é nem nunca foi apenas uma banda, é um “movimento permanente”. “O que a faz durar é esse contínuo olhar para frente, que é uma forma de reverenciar seu passado, pois seguir em frente faz parte de nossa força ancestral. O futuro é essa ancestralidade em continuidade”, diz. Afrofuturista muito antes de se falar disso, o grupo trazia uma percussão tribal misturada com eletrônica, elementos novos e pós-modernos.


PELO PAÍS 28

Temáticas que iam da história negra ao cotidiano do indivíduo diaspórico em sua diversidade, o visual com pinturas brancas nos corpos negros como opção estética e econômica, a sonoridade com elementos percussivos à frente, com os instrumentos harmônicos servindo como ornamentos: tudo remetia à crueza dos blocos afro, mas num diálogo mais amplo e com outras referências. Integrante da fase inicial da Timbalada (entre 1995 e 2001), o músico Roberto Barreto, guitarrista e criador do BaianaSystem, destaca o caráter inventivo do grupo. Para ele, a Timbalada chamou atenção desde o início justamente por ser uma banda essencialmente percussiva, quase como

QUEREMOS LANÇAR NOVAS MÚSICAS, FAZER SHOWS, CORRER O MUNDO. SEGUIMOS CRIANDO E ESTUDANDO.” Carlinhos Brown uma orquestra, mas pensada de uma maneira pop. “Era pop em todos os sentidos: na informação visual com as pinturas, na forma como se posicionava no palco, no repertório, no flerte com a MPB e até com o rock nacional”, lembra.

Não à toa, nomes como Marisa Monte, Nando Reis e Jorge Ben Jor colaboraram. “Dialogávamos também com o que aconteceu com o mangue beat, com Chico Science & Nação Zumbi, com a presença dos tambores e mais as guitarras, os sopros”, ele continua.


REVISTA UBC

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PERCUSSÃO INOVADORA A Timbalada incorporava as tradicionais percussões afro-baianas e latinas, misturando tudo com um tempero especial. O exemplo maior da sua inventividade foi o uso do timbau. O instrumento costumava ser tocado na horizontal com apenas uma mão. Por criação de Brown, passou à vertical e incorporou o toque com as duas mãos. A Timbalada também inseriu instrumentos como bacurinha, torpedo, pernoso e três surdos. “Foi Brown quem criou a bacurinha. Quando eu vi esse instrumento pela primeira vez, fiquei louco. Acabei trazendo para o pagode”, conta Márcio Victor, criador e mentor do Psirico, que começou na Timbalada, da qual, diz, o atual pagode baiano extrai sua grande influência.

NOVOS HORIZONTES Parada devido à pandemia, a Timbalada não realizou comemorações para marcar os 30 anos. “Mas queremos lançar novas músicas, fazer shows, correr o mundo e dar a volta no Guetho. Seguimos criando e estudando”, afirma Carlinhos Brown. “Também temos toda a espiritualidade do tocar dos tambores a ser respeitada em seus tempos. Temos licenças a pedir. Temos de aceitar os momentos em que é preciso silenciar também. Apurar as escutas, tentar mostrar as potências e levar essas potências ao nosso público de novas maneiras.”

SUCESSO ALÉM DO CANDEAL Ainda no início dos anos 1990, as músicas da Timbalada aos poucos saíram do Candeal e ganharam as ruas da capital baiana – e o mundo todo. O primeiro álbum, homônimo, com a antológica capa com os seios da cantora Patrícia pintados, foi lançado em 1993. Reunia alguns dos hits históricos, como “Beija-Flor”, “Canto pro Mar” e “Toque de Timbaleiro”, além de músicas de Jorge Ben Jor (“Emílio”) e Nando Reis (“Itaim para o Candeal”). Foi indicado pela revista norte-americana “Billboard”, naquele ano, como “o melhor CD produzido na América Latina”. Foi no álbum seguinte, “Cada Cabeça é um Mundo”, que a banda alcançou um sucesso maior. Lançado em 1994, reunia hits como “Namoro a Dois”, “Sambaê”, “Se Você se For”, “Camisinha”, e, especialmente, “Toneladas de Desejo”. A música ficou entre as cem mais tocadas nas rádios do país em 1995 e chegou a ganhar uma versão com Marisa Monte nos vocais. Nestes 30 anos de atividade, foram 11 discos de estúdio, além de outros ao vivo e de remixes. Em todas elas, boa parte das músicas eram de autoria do mentor, Carlinhos Brown, autor de vários dos clássicos da banda, sozinho ou em parceria.


NOTÍCIAS INTERNACIONAIS 30

do_ Rio

‘RESET’ COMPLETO DO

STREAMING Uma comissão do Parlamento britânico que debate temas relacionados à indústria musical está sugerindo um ‘reset’ completo no sistema do streaming. Pressionados por músicos, intérpretes, produtores, compositores e outros titulares de direitos autorais, deputados que integram a Comissão de Assuntos Digitais, Cultura, Mídia e Esportes (DCMS, em inglês) vêm discutindo há dez meses uma forma de tornar o streaming mais sustentável. Num relatório divulgado em julho, os parlamentares pediram o envolvimento dos governos na elaboração de leis que protejam os criadores e instaram plataformas e gravadoras a mudarem a fórmula de distribuição dos lucros do streaming, tornando-a mais igualitária.

LEIA MAIS Outros detalhes sobre essa decisão que pode impactar em outros países, entre eles o Brasil ubc.vc/ParlamentoBrit

FACEBOOOK E IG:

SPOTIFY LIDERA,

US$ 1 BI PARA A MÚSICA

YT DISPARA

A maior rede social do planeta anunciou que duas de suas marcas-estrela, Facebook e Instagram, lançarão nos próximos meses um programa para atrair projetos musicais às plataformas. Até US$ 1 bilhão serão destinados a músicos, intérpretes e outros criadores musicais do mundo todo para que eles criem iniciativas musicais dentro dessas redes sociais. Analistas veem o anúncio como uma tentativa de conter a fuga de usuários de FB e IG para outros competidores como TikTok e Snapchat, que poderiam responder com seus próprios programas para premiar artistas da música pela fidelidade nas publicações.

Um relatório da consultoria Midia Research divulgado em julho mostrou que, sem surpresa, o Spotify continua a ser a maior plataforma de streaming global, com 158 milhões de assinantes premium. A Apple vem em seguida, com 77,9 milhões, seguida pela Amazon, com 63,3 milhões. Mas, segundo a Midia Research, a plataforma que mais cresce, com 60% de expansão em 2020, é o YouTube Music, serviço de streaming musical pago da gigante dos vídeos. Atualmente, a plataforma do conglomerado Google tem 39 milhões de assinantes premium no mundo todo.


REVISTA UBC

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ubc no mundo

PROJETO UNE

ARTISTAS DE PORTUGAL E BRASIL do_ Rio

O canal de entrevistas Papo de Música, comandado no YouTube pela jornalista Fabiane Pereira, vai promover uma websérie com 18 entrevistas patrocinada pela UBC em parceria com a SPA (Sociedade dos Autores Portugueses), durante os meses de agosto e setembro. Batizada de “Ponte Aérea: Portugal - Brasil”, a iniciativa terá em sua estreia, dia 3 de agosto, Carminho, uma das mais celebradas fadistas da nova geração.

“Inicialmente eu faria cinco entrevistas presenciais com nomes emergentes da cena musical portuguesa, que, ao contrário do que muitos pensam, é tão rica e plural quanto a nossa. Mas, a partir do convite da UBC, essas cinco entrevistas se multiplicaram e, agora, são dezoito. Não serão presenciais, como inicialmente pensado, porque ainda há limitações de logística, mas as gravações virtuais têm o mesmo entusiasmo e objetivo: aproximar o público brasileiro de outras expressões da música lusófona, especialmente a que é produzida em solo português”, explica Pereira, que já morou em Lisboa e possui estreita relação com Portugal.

Também já programados estão os bate-papos com Ney Matogrosso, António Zambujo, Pedro Abrunhosa, Miguel Araújo, Salvador Sobral, Dino Santiago e Mayra Andrade, além de Nelson Motta, Letrux, Ronaldo Bastos, Ana Moura, Russo Passapusso e muitos outros nomes. Os encontros irão ao ar toda terça-feira, ao meio-dia, com exclusividade no Papo de Música, e a cada quinta-feira, às 19h, tanto no Papo de Música quanto no canal da UBC no YouTube.

LEIA MAIS No site da UBC, conheça mais detalhes da programação da Ponte Aérea ubc.vc/ConexoesPT


FIQUE DE OLHO 32

do_ Rio

ISRC AGORA DEVE INCLUIR

BAND COMEÇA A PAGAR

INOVAÇÃO CONTRA

MÚSICO EXECUTANTE

PARCELAS DO ACORDO

PIRATARIA DIGITAL

O Ecad fechou um acordo com a TV Bandeirantes para a regularização dos pagamentos de execução pública, no final do ano de 2020. O valor parcelado será liquidado para compor a verba da rubrica TV Band + DG, e as distribuições seguem o valor proporcional da mensalidade e do período original. A primeira parcela da distribuição, com valores em aberto de julho a dezembro de 2015, foi paga em junho. Em fevereiro de 2022 será a vez dos valores referentes a janeiro a junho de 2016. A última parcela, com todo o valor devido pela emissora em 2020, será paga em agosto de 2025.

Uma abordagem inovadora do Ministério Público de São Paulo vem conseguindo bons resultados no combate a sites que oferecem streaming e descargas sem licença, além de outros que fazem ripping de músicas extraídas de vídeos do YouTube e as disponibilizam para baixar. Em dois anos de atuação, os promotores — com a ajuda de juízes e polícia — tiveram 100% de aproveitamento nos bloqueios de conteúdos infratores e uma grande economia de tempo e recursos públicos. Em vez de perseguir criminalmente seus responsáveis, a equipe Cyber Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) do MP-SP vem bloqueando definitivamente as páginas, golpeando-as financeiramente.

Com o objetivo de preservar os direitos dos músicos executantes, o Ecad definiu uma nova regra no sistema de distribuição. Desde o dia 9 de julho, ao cadastrar um fonograma e gerar o ISRC, deverá ser incluído ao menos um músico executante. Fonogramas gerados anteriormente não precisam ser modificados, mas, caso haja a necessidade de atualizar as informações por algum outro motivo, será preciso incluir a categoria. As divisões percentuais ficam da seguinte forma: 41,7% para o intérprete (caso haja mais de um, o percentual será dividido e acordado entre eles); 41,7% para produtor fonográfico (pessoa física ou jurídica; caso haja mais de um, o percentual será dividido e acordado entre eles), e 16,6% para o músico (músicos executantes, coro e voz e/ou músico arranjador). LEIA MAIS Tudo sobre esta mudança, no site da UBC ubc.vc/MusicoISRC

LEIA MAIS Veja detalhes do calendário de pagamento ubc.vc/Band

LEIA MAIS Todos os detalhes sobre a atuação no grupo, no site da UBC ubc.vc/AbordagemMPSP


REVISTA UBC

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CENÁRIO

TIKTOK E ECAD

CONTINUA COMPLICADO

FECHAM ACORDO

O Ecad divulgou números parciais da distribuição de direitos de execução pública este ano que mostram a continuidade do complicado cenário em meio à pandemia. De janeiro a junho, foram distribuídos R$ 399 milhões a 185 mil autores, músicos, intérpretes, editoras e produtores fonográficos, além das associações de música. Esse valor representa uma queda de 19% em comparação com o mesmo período do ano passado. No segmento de Música ao vivo, a verba destinada aos titulares de música este ano foi 78% menor. O segmento de Shows também teve uma queda significativa e chegou a apresentar 76% a menos. Por outro lado, o segmento de streaming de vídeo apresentou um crescimento no valor distribuído neste primeiro semestre, e a classe artística recebeu 47% a mais do que em 2020.

O TikTok Brasil e o Ecad anunciaram no final de julho um contrato para o pagamento de direitos autorais. O primeiro acordo entre o Ecad e a quarta maior rede social do mundo representa um importante passo para a indústria da música. Além de garantir uma nova fonte de receita para compositores, editoras musicais e artistas, a união inclui o pagamento retroativo pelo uso de músicas na plataforma e estabelece uma parceria para o futuro.

LEIA MAIS Todos os detalhes no site da UBC ubc.vc/acordotiktok


ARRECADAÇÃO E DISTRIBUIÇÃO 34

SHOWS: UM SEGMENTO VITAL SE PREPARA PARA A VOLTA


REVISTA UBC

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Entenda como funciona a rubrica que, antes da pandemia, sempre esteve entre as mais importantes para a gestão coletiva do_ Rio

Apresentar ao público, sobre um palco, o resultado do bonito trabalho de criação é o desejo de grande parte dos artistas que atuam na música. Não à toa, o segmento Shows é, tradicionalmente, um dos mais importantes para o sistema de gestão coletiva de direitos autorais. Como todos sabemos, a pandemia trouxe a paralisia completa desse universo, o que se refletiu na queda expressiva do segmento dentro do bolo arrecadado pelo Ecad e suas sociedades somadas: dos 16% da arrecadação total de 2019 para só 5% no ano passado. A expectativa de retomada, como vimos publicando há alguns meses nos nossos canais informativos, é iminente – tão logo a alta cobertura da vacinação ajude a criar um entorno seguro para o público e os artistas. Por isso, os Shows voltarão a ocupar seu merecido lugar entre as principais fontes de renda dos criadores com execução pública. E é esse segmento o tema da nova reportagem sobre as rubricas mais importantes de arrecadação e distribuição.

Dada a sua importância, o segmento Shows tem aferição direta, baseada nas listagens enviadas pelos produtores dos eventos ao Ecad. A execução pública contempla apenas os direitos de autor, pois não há utilização do fonograma. E a distribuição é mensal, obedecendo á ordem cronológica de entrada dos roteiros musicais na área de Distribuição. Como a distribuição é feita com base nas informações contidas nos roteiros musicais encaminhados pelo produtor musical do show e/ou por meio de gravação realizada pelos técnicos de Distribuição e/ou técnicos de Arrecadação do Ecad, é importante ter cuidado com as listas. No site da UBC, existe uma ferramenta chamada Informe Seu Show, na qual os produtores podem comunicar com exatidão o que será tocado, garantindo assim a distribuição correta dos valores. Também pode ser usada para informações sobre shows internacionais.

LEIA MAIS No site da UBC, as mais recentes novidades sobre a retomada dos shows ubc.vc/373g90w

LEIA MAIS A ferramenta Informe Seu Show ubc.vc/3icWuS7


DÚVIDA DO ASSOCIADO 36

“Registrei minha música na Biblioteca Nacional. Ainda assim, preciso cadastrá-la na UBC?” REVISTA UBC O direito autoral – seja moral ou patrimonial – do criador sobre sua obra não depende de registros nem cadastros de nenhum tipo. Ele existe a partir do momento em que a obra nasce. O que o registro da música na Biblioteca Nacional ou em outros órgãos, como a Escola de Música da UFRJ, faz é garantir maior proteção no caso de alguém alegar ser o dono da obra no seu lugar. Mas, se a ideia for dar um uso comercial a essa obra – gravála, inseri-la em plataformas de streaming, usá-la para sincronização em filmes ou séries, receber direitos autorais pelo uso dela em shows ou na TV, por exemplo –, são necessários outros passos. Um deles é o cadastro em sociedades como a UBC, sem o que não é possível que os valores de execução pública cheguem até você.

O associado à UBC, quando se afilia, nos dá um mandato para fazer a cobrança por esse tipo de uso da sua música – que, além dos já mencionados shows e TV, inclui também a execução em locais como academias de ginástica, no rádio ou nos quartos de hotéis, entre muitas outras situações. O cadastro é feito na UBC pelo Portal do Associado. Parece complicado esse mundo de cadastros e registros. Mas, longe de burocratizar, esses processos na verdade contribuem para empoderar o autor, oficializar seu pertencimento à cadeia produtiva da música e seu justo direito a uma remuneração pelo uso de sua criação. Daí a importância de você, criador, entender essa dinâmica e participar ativamente dela.

E VOCÊ, TEM DÚVIDA? Entre em contato pela seção Fale Conosco, do nosso site (ubc.org.br/contato/faleconosco), pelo telefone (21) 2223-3233 ou pela filial mais próxima.


UM SUCESSO ESCRITO A MILHARES DE MÃOS E VOZES.


O TALENTO VOCÊ JÁ TEM. PARA TODO O RESTO, PODE CONTAR COM A GENTE. Em breve, a UBC vai levar a outro nível os conceitos de mentoria, capacitação e networking no mercado musical.

Vem aí

UNIÃO BRASI LEIRA DE COMPO SITORES

Profile for UBC - União Brasileira de Compositores

Revista UBC #49  

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