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+ HUMBERTO TEIXEIRA: 100 ANOS DO “DOUTOR DO BAIÃO" + GAL: A VOZ CONTINUA A MESMA. O SOM, QUANTA DIFERENÇA… + NOCA DA PORTELA, ENGENHEIROS DO HAWAII, AVA ROCHA, ANGELO TORRES, DUDA BRACK

REVISTA DA UNIÃO BRASILEIRA DE COMPOSITORES #25 / AGOSTO 2015

LONGE AINDA DA PROMESSA DE ENORMES LUCROS PARA OS CRIADORES, A ERA DOS STREAMINGS ENFRENTA DESAFIOS PARA TORNAR A DISTRIBUIÇÃO MAIS JUSTA. AUTORES, ESPECIALISTAS E EMPRESÁRIOS DISCUTEM A QUESTÃO


2014

UM ANO DE BONS RESULTADOS Mesmo com o panorama econômico incerto, a arrecadação de direitos autorais de execução pública no Brasil voltou a subir no ano passado, atingindo R$ 1,22 bilhão. E a UBC também continuou a se expandir, com um incremento de 11% no seu quadro. Agora somos 17.909 associados mais protegidos e preparados para enfrentar os crescentes desafios. Confira estes e outros números de 2014 no Relatório Anual publicado em http://www.ubc.org.br/Anexos/Relatorio_Anual/2014.pdf


THALLES ROBERTO

REVISTA DA UNIÃO BRASILEIRA DE COMPOSITORES #25 : AGOSTO 2015

CANTADO

M

No ú mo d a 12 de unho enquan o p oduz amos es a ed ção da Rev s a UBC nosso p es den e Fe nando B an nos de xou Sua con unden e de esa dos d e os au o a s dos d e os de odos nós no en an o con nua á a nos nsp a Nes e núme o que a ém de d scu o pano ama d c pa a os c ado es na e a d g a az um espec a com a guns dos g andes ex os e d scu sos c ados po Fe nando sob e o ema vo amos a pub ca o ed o a da ú ma ed ção de ma o de 2015 uma ve dade a dec a ação de n enções que segu á semp e o en ando nossa a uação

EDITORIAL O au o é o p nc p o de udo o que se e e e à cu u a Sem e e não have a a be eza da mús ca da poes a da a e Ox gên o da v da humana mpu s ona ao mesmo empo as eng enagens de um me cado n n o De ende os d e os dos au o es é uma a e a que pa ece não e m Os adve sá os do espe o aos c ado es nven am a odo momen o a mad has e es a ég as pa a des espe a nos A UBC e odos os compos o es mús cos e n é p e es que a sus en am es ão a en os pa a que nossos d e os p eva eçam sob e os n e esses come c a s escusos

NOTÍCIAS : UBC/5

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8/UBC : ENTREVISTA

Por Cristina Fuscaldo, do Rio

A sua voz é muito marcante, você tem um jeito de se impor, de atuar em cena, muito próprio, e essa personalidade fortíssima já transbordava em “Diurno”, que, no entanto, não era um projeto só seu. Tem mais de Ava neste novo disco?

Foto: Débora 70

“Diurno” era um projeto que tinha uma força coletiva intensa, mas não deixava de ser extremamente pessoal e autoral, à medida que surgiu do meu desejo de cantar e pensar canção, música, som, cinema, enfim, essa transversalidade. Então juntei o pessoal que estava sintonizado com a pesquisa que eu queria, primeiramente em torno das minhas músicas, do que eu queria cantar naquele momento, tudo ancorado a uma reflexão sobre música brasileira, canção estendida, enfim, reflexões ligadas às minhas primeiras experiências musicais. Cantar, para mim, pode ser desde expressar um sentimento até armar uma cena. Meu segundo disco, agora, também tem forte presença do coletivo, desde os compositores, músicos, engenheiros e da produção do Jonas Sá. Mesmo que sejam coletivos, são singulares e universais e refletem anseios e devires que são meus. Para mim, não há uma contradição, mas uma potencialização nesse encontro entre o indivíduo e o coletivo. Eu os vejo assim, e, por serem também diferentes, são discos irmãos. Um é água, é Oxum, é calmo. O segundo é fogo, é Yansã, é politico. Eu sou isso: Oxum Opará. Se tem mais Ava eu não sei, mas, que tem mais, muito mais, isso tem. Como foi a escolha dos parceiros? Cada um teve um papel bem definido no processo criativo?

Não tenho a pretensão do novo, embora o meu devir seja o da invenção. Também não acredito no novo como algo romântico, sou mais antropofágica e alquimista. A Yndia é sua pátria? A minha pátria é o mundo. E o mundo é yndio. O AVA (antigo projeto da artista) acabou de vez? Ou ainda pode rolar uma reunião? Pode ser. Mas não o vejo como algo que acabou, e sim finalizou. Um projeto que se materializou e se eternizou. Como fazer um filme.

Por Alessandro Soler, do Rio

A sua marca é o flerte com múltiplas artes. Encontrou o porto-seguro definitivo na música? Ou tem espaço para mais Ava por aí?

Cantora, compositora, atriz, performer, cineasta, filha de Glauber. Todas as etiquetas – mas, sobretudo, nenhuma delas isoladamente – cabem na multiartista Ava Rocha, que lança novo álbum e impõe ainda mais sua presença na rica cena musical carioca contemporânea. A onda antropofágica, no melhor estilo modernista, fica clara já pela escolha do nome do projeto, “Ava Patrya Yndia Yracema”, que canibaliza e pare estilos e sons variados com a participação de gente como Negro Leo, Jonas Sá e Martin Scian. Ela troca dois dedos de prosa com a Revista UBC e fala sobre o processo criativo.

Quanto mais dentro da música, mais eu me sinto permeando tudo. O cinema, o teatro, a perfomance, a poesia, a filosofia. Mas não são flertes. Tenho uma carreira no cinema, e minha aproximação com as coisas tem a ver com o meu devir e a consistência. Eu me vejo como uma poeta e pensadora. Não só a música é um terreno vasto para explorar tudo isso, mas também essas outras áreas. Dirigi três filmes, escrevo roteiros, dirigi diversos videoclipes, faço projeções, animações, desenho, desenho a luz, penso a cena, crio figurinos, faço cartazes. Tudo está sempre ligado.

A MEMÓRIA SEGUNDO CHARLES GAVIN A contribuição de Charles Gavin (RPM, Ira!, Titãs) à história do pop-rock nacional não carece de explicações. Agora, ele também quer ajudar a escrever a memória da música riquíssima que se faz por aqui. Desde 2007 à frente do programa “O Som do Vinil”, que resgata grandes álbuns históricos e apresenta entrevistas de peso no Canal Brasil, Gavin lança uma coleção de livros que vai compilar os melhores momentos e os trechos não aproveitados na TV. Batizados com o nome dos discos de que tratam – e recheados de depoimentos, curiosidades e passagens às vezes pouco conhecidas –, os quatro primeiros volumes são “Nervos de Aço” (de Paulinho da Viola), “Quem é Quem” (João Donato), “Academia de Danças” (Egberto Gismonti) e “Clube da Esquina” (Milton Nascimento e Lô Borges, com composições também de Ronaldo Bastos, Fernando Brant, Monsueto, Ayrton Amorim e Márcio Borges). A eles devem se seguir diversos outros, num total planejado de 16 livros. “(O formato é bom) porque acredito nas mídias físicas, elas me dão prazer”, disse em entrevista ao jornal “O Globo”. Um dos próximos é “Acabou Chorare”, dos Novos Baianos.

CURADORIA: DUDA BRACK Duda Brack é século XXI: seu álbum de estreia, “É”, pode ser baixado livremente, na íntegra, em dudabrack.com. Duda Brack é atemporal: como uma curadora precisa, a gaúcha radicada no Rio se apossou das vozes de grandes artistas para fazer de todos eles a sua voz. Com composições de gente como o mineiro César Lacerda, os paulistanos Dani Black e Paulo Monarco e o sueco-recifense-carioca Carlos Posada, a cantora de só 21 anos mostra por que é tida como uma bem-vinda novidade da música contemporânea nacional. A produção de Bruno Giorgi, a guitarra de Gabriel Ventura, o baixo de Yuri Pimentel e a bateria de Gabriel Barbosa se unem, em só oito faixas, com duração total de meia horinha, à voz grande, visceral, de Duda para compor uma boa peça de MPB “rockeada”, sofisticada, que remete ao som feito por Tulipa Ruiz e Lucas Santtana. Bom para ouvir e querer mais.

EDINHO QUEIRÓS, FILHO DE IJEXÁ... E DE ROCK, REGGAE, CIRANDA, SALSA, BOSSA NOVA...

ANGELO TORRES, HISTÓRIA DE FÉ E AMIZADE

Em quase 40 anos de andanças pelo mundo da música, nada mais óbvio que um artista acumule vivências e experiências bastante diversas. Ainda mais se o artista for o potiguar Edinho Queirós. No seu mais novo trabalho autoral, o álbum “Se Você Acreditasse em Mim”, ele transita com naturalidade por rock, pop, reggae, funk, ijexá, maracatu, ciranda, baião, forró, xote, coco, frevo, salsa, merengue, bossa nova e samba. Como são apenas dez canções, a conta é óbvia: Queirós funde tudo – e se dá bem. “Vovó Africana” é uma curiosa releitura de ritmos caribenhos; “Pixote” faz crítica social ao som de funk carioca; e “Algo Infinito” celebra a matriz afro da nossa cultura, num olhar voltado para o gueto, a resistência de sons e povos marginalizados. Zé Américo Bastos assina com ele a produção, e Moreno Veloso participa da faixa-título.

Destaque na cena instrumental gospel, o saxofonista Angelo Torres lança seu nono trabalho autoral, o DVD “Minha História”, que reúne os melhores momentos da sua carreira e amigos e parceiros do mundo da música cristã. Gravado em Niterói (RJ), o trabalho duplo é recheado de canções gospel interpretadas por Kleber Lucas, Marquinhos Gomes, Álvaro Tito e Marcus Salles. O encontro entre Torres e o saxofonista e flautista cristão americano Kirk Whalum também ganha destaque na caixa. Evangelizador, Angelo Torres, além de músico, também cursou um seminário e uma faculdade de Teologia e dá seu testemunho em cenas extras do DVD, que pode ser comprado em angelotorres.com.br.

MAMUTTE EM CENA

TODOS OS AGRESTES DE JANU LEITE

Figura constante na cena cultural de Belo Horizonte, o multiartista Mamutte lança seu primeiro trabalho discográfico, o EP “Quase Disco”, com sabor de performance, de sons que remetem a imagens, de histórias contadas em palcos... Artista plástico, performer e compositor, ele transita por diversos universos e reúne sua experiência num trabalho calcado em ritmos afro-brasileiros como a curimba, o maracatu, o coco e o funk carioca. Com coprodução musical de Adner Sena e participações de diversos músicos da cena belo-horizontina, o trabalho independente foi lançado em show performático, em maio, em BH, e pode ser ouvido em streaming em mamutte.com.br.

Rock sessentista, música eletrônica, jazz e samba-rock com um sotaque originalíssimo do Agreste alagoano. Assim é o álbum “Lindeza”, de Janu Leite, que, em sua segunda investida autoral – depois do EP de estreia “Matuto”, de 2012 – apresenta um improvável e explosivo encontro de sonoridades internacionais com os triângulos e as percussões dos ritmos típicos da sua Arapiraca natal. Amigos como Paulo Franco, do grupo Gato Negro, Diego Duarte, Alex Marques, Guilherme Trompete, Cicah Jusce, Gleyson Matheus e Sandro Cardoso dividem com ele a tarefa de embalar um trabalho experimental que não deixa o ouvinte indiferente. Músicos da banda Alfabeto Numérico também participam do trabalho, cujos destaques, segundo o próprio Janu, são “Canção de Vingança”, “Que Coisa Linda”, “Bluetooth”, “Lá Vem Ela”, “Lindezas” e “Finjo Esquecer”. Parte do disco está disponível para audição na página de Janu Leite (Lindeza Produções) no YouTube.

ZABELÊ, TUDO EM UMA O intervalo é de seis anos, mas a maturação é muito mais antiga. Depois do fim definitivo, em 2009, da girl band pop SNZ, que dividia com as irmãs Sarah Sheeva e Nãna Shara, Zabelê Gomes volta em carreira solo e faz transbordar a mistura que traz nas veias. Filha de Baby do Brasil e Pepeu Gomes, a cantora de 40 anos apresenta seu primeiro álbum, “Zabelê”, um gostoso passeio por rock e pop regado a baianidade, carioquismo e outros temperos sutis e bem combinados. Com produção de Domenico Lancelotti, músicas de Pedro Sá, Rubinho Jacobina, Kassin, Moreno Veloso e Alberto Continentino e a voz rouca, aveludada de Zabelê, o disco tem todos os climas, perfeito para ouvir a dois, para dançar ou ouvir na estrada. “Lançar músicas individualmente para ouvir em streaming é muito a cara do nosso tempo. Mas o caráter artístico de um álbum planejado como um todo é diferente. Tem os arranjos, tem uma unidade, transmite uma coisa única”, ela diz. O primeiro clipe, “Nossas Noites”, está para sair, e o disco pode ser ouvido em zabeleoficial.com.br.

A VISÃO POSITIVA DE SARA BENTES Ela já participou de diferentes projetos musicais, gravou disco infantil, foi premiada em festivais, cantou com Gilberto Gil, engajou-se em ações em benefício de pessoas com reduzida capacidade visual... Faltava um disco solo. E é o que Sara Bentes entrega agora, em composições próprias e parcerias com o músico Marcelo Camelo, o maestro italiano Giovanni Allevi, o rapper paulistano Billy Saga e o guitarrista Júlio Ribeiro. Em “Invisível”, a cantora de Volta Redonda (RJ) radicada em São Paulo traz uma bem azeitada mistura de ritmos como samba, baião, música instrumental (em passagens como um “diálogo” entre um piano acústico e um quarteto de cordas)... Tudo com base claramente MPB e pop. Sara, que perdeu a visão devido a um glaucoma congênito, canta letras positivas, marcadas por suas observações sobre o amor e o cotidiano. “Quis que esse trabalho nos remetesse a algo muito bom, já que o melhor que há no mundo e nas pessoas é invisível”, define. O álbum está disponível para compra em sarabentes.com.br.

Mesmo concordando que a remuneração ainda é baixa para os artistas, Ritchie acredita no modelo, desde que “com adaptações”. “Acredito no formato, à medida que esse universo está se expandindo em cada smartphone, e o US$ 0,0001 há de crescer exponencialmente. Há ajustes a fazer, mas acredito muito no mercado exponencial e no consumo de música mundial. O cara que está no seu quartinho fazendo música vai poder jogar o seu produto feito em casa na mesma plataforma que a Madonna. O mundo é feito de preferências, e alguém vai ter que caçar esse cara. É o sonho de todo músico de quarto de dormir.”

O cantor e compositor anglo-brasileiro Ritchie vê na concorrência entre os serviços de streaming a possibilidade de se avançar rumo a uma melhor distribuição. Ele conta que usava o serviço gratuito do Spotify, mas se mostrava reticente quanto à assinatura. A dúvida acabou quando foi lançado, recentemente, o Apple Music, que já nasceu em meio à polêmica quando a popular cantora americana Taylor Swift veio a público criticar o modelo de remuneração do serviço de streamig da gigante digital – que ofereceria acesso gratuito de três meses ao usuário e, também, imporia “moratória” no pagamento aos artistas pelo mesmo período. Diante da forte repercussão, a Apple voltou atrás.

De outro lado, artistas como Prince anunciaram que retirarão toda a sua obra do Spotify e da Apple Music. Outros, como Beyoncé, decidiram não oferecer seus singles em serviços como Rdio e Deezer. Já um terceiro grupo, puxado pelo líder do Radiohead, Thom Yorke, e pelas bandas The Black Keys e AC/DC, simplesmente se recusa a oferecer seus álbuns para streaming por acreditar que a remuneração é muito baixa. No Midem 2015, o maior evento mundial do mercado de música, ocorrido em junho em Cannes, o cantor e compositor Paul Williams fez um forte apelo por uma reforma justa de direitos autorais que seja viável para todos. Em sua fala, disse

“Vejo como um futuro absolutamente impossível de evitar. Chutar contra os pinos não vai adiantar. Agora que há duas plataformas concorrendo para um serviço funcional, basicamente é uma questão de escolha dos usuários. O valor vai ser dado por eles mais uma vez: não é o que a música custa, mas o que o consumidor dá a ela. O download já era, o CD, também. Por incrível que pareça, o vinil sobrevive como objeto de culto, de forma emblemática e irônica. Estamos

O senhor não nasceu no Rio, mas parece mais carioca do que muitos nativos. Como se descobriu um amante da Cidade Maravilhosa?

APPLE VOLTA ATRÁS E PAGARÁ A ARTISTAS POR PERÍODO TESTE NO APPLE MUSIC O álbum “1989”, da americana Taylor Swift, estará na Apple Music. Depois de a estrela pop dizer que tiraria toda a sua obra do serviço de streaming da gigante californiana, um acordo com a Apple resultou numa mudança de posição. A Apple havia anunciado em abril que não faria pagamentos aos artistas durante o período de três meses de teste do serviço. “Nós não pedimos iPhones gratuitos. Por favor, não nos peçam para fornecermos nossa música sem pagamento”, Taylor Swift reagiu na época. Como a companhia voltou atrás, o novo trabalho estará disponível no Apple Music, lançado no fim de junho no Brasil. A mudança foi celebrada por outros artistas, como a banda inglesa Florence & The Machine, que também vinham criticando a postura da maior companhia de tecnologia do mundo.

NOCA DA PORTELA PROJETOS E SONHOS PARA DAR E VENDER

Ex-presidente da EMI, da Universal Music e da Associação Brasileira de Produtores de Disco, e um executivos mais respeitados da música no Brasil, Marcelo Castello Branco diz que o streaming foi adotado pelo consumidor global como a melhor modalidade de consumo no momento. “Torço muito para que alcance escala e, a partir desse crescimento, a remuneração seja cada vez mais justa e responsável. O negócio está cada vez mais dinâmico, mais plural, mais inclusivo. O que está claro é que a questão dos direitos e conteúdos está no centro de tudo e, cada vez mais, será decisiva para uma política de diferenciação dos canais de distribuição. Mais que fazer profecias, acho vital seguir investindo e estar atento. Iniciativas aparentemente loucas podem ser relevantes de uma dia para o outro. Neste mercado, já perdemos muito terreno por excesso de ceticismo ou resistência”, opina Castello Branco.

ANOS NA INFINITA HIGHWAY

EMPRESÁRIO: CONSUMIDOR JÁ NÃO QUER POSSE; QUER ACESSO Segundo ele, existe em vários mercados mundiais uma relação direta entre a diminuição da pirataria virtual e o oferecimento de alternativas legais válidas. “E o streaming é a maior delas. O download ainda significa posse, ainda que de um mero arquivo digital. O que o consumidor quer e exige agora é acesso. Uma vez que a experiência seja gratificante e relativamente barata, num contexto de oferta de repertório descomunal, a insistência da pirataria deixa de ser 'sexy', passa a ser marginalmente sexy. O legal agora é criar e compartir playlists em plataformas musicais legais, que são verdadeiras redes sociais. O streaming vem crescendo no mundo inteiro, e o download, onde não estacionou, caiu. O mercado sueco, graças ao Spotify, voltou a ter o mesmo tamanho de receita de 10 anos atrás. No Brasil, estamos ainda no inicio, mas, com a presença de todas as plataformas e a entrada da Apple Music, a realidade tende a mudar drasticamente. Acredito que 2015 vai ser o ano crucial da virada do digital no Brasil, e números recentes apontam para esta direção. Vai ser o primeiro ano onde o consumo digital vai superar o físico.”

MENTOR DE UMA DAS BANDAS MAIS EMBLEMÁTICAS DO ROCK NACIONAL, HUMBERTO GESSINGER FALA DOS ENGENHEIROS DO HAWAII E DA CARREIRA SOLO: “NUNCA GOSTEI TANTO DE FAZER MÚSICA”

Eu cheguei ao Rio com 5 anos. Aos 14, quando fui morar no Catete, fiz meu primeiro samba sobre o Grito do Ipiranga e ganhei a disputa do enredo da escola da samba Irmãos Unidos do Catete. Meu pai perguntou se era meu mesmo, e as pessoas me deram apelidos como Assombração e Sobrenatural. O (jornalista) Mário Filho me chamava de Sobrenatural de Almeida. Fui um moleque atrevido, disputei com grandes compositores da época. Esse foi o primeiro passo para eu me tornar o Noca da Portela, mas ainda passei pela escola Foliões de Botafogo e pela Paraíso de Tuiuti de São Cristóvão, da qual sou o único dos fundadores ainda vivo. O senhor começou também, né?

a compor cedo e se casou cedo

Saí do Catete com 20 anos e morei no Morro do Tuiuti, em São Cristóvão, onde conheci minha esposa, com quem vivi por 58 anos até ela falecer, há dois. Está aí outra coisa sobrenatural: um sambista ficar casado tanto tempo com a mesma mulher. O nome dela? Eu a chamava de Dona Heroína Conceição. Todo mundo perguntava como ela conseguia segurar esse crioulinho, e Conceição dizia que eu tinha um bom coração, que era ótimo pai e marido. Agora apareceu uma mulher querendo se casar, e eu já disse que namorar, tudo bem, mas casar de novo, não. Quero fazer que nem Monarco: só quero vadiar. Por que o samba “Virada”, gravado por Beth Carvalho, é seu, mas está registrado no nome de Conceição Vilela Pereira, sua esposa? Houve uma época em que estava brigado com a editora, e aí acabei registrando 80 músicas minhas no nome dela em uma outra editora. Fizemos uma procuração em que ela me dava o direito de responder por essas composições. Depois que ela morreu, comecei o inventário para passá-las novamente para meu nome, e meu objetivo é levá-las para a UBC.

PRESTES A COMPLETAR 83 ANOS, SAMBISTA FAZ SHOW SOLO, GRAVA COM A VELHA GUARDA E QUER VER SUA VIDA CONTADA EM LIVRO

CAPA : UBC/13

12/UBC : CAPA

Dona de inconfundível timbre, Gal não cogita pendurar as cordas vocais tão cedo. Depois de confiar a um Caetano Veloso igualmente em permanente evolução a concepção de “Recanto” (2011), e este dividir a produção com o filho Moreno, agora ficou a cargo deste último e do carioca Alexandre Kassin a orquestração do trabalho. Para o novo repertório de inéditas, pinçou - junto do jornalista Marcus Preto - canções fresquinhas de uma turma que inclui Marcelo Camelo, Céu, Jonas Sá, Criolo, Rogê, Lira (ex-Cordel do Fogo Encantado), Thalma de Freitas, Alberto Continentino e Mallu Magalhães - esta, autora de “Quando Você Olha Pra Ela”, peça frequente nas rádios país afora.

Com tanta e tão rica história, o senhor deveria escrever ou deixar que escrevam sua biografia. Já tenho uma pessoa para escrever. E estou muito ansioso. Acho importante para qualquer ser humano ter a sua vida escrita em um livro. Seja essa biografia autorizada ou não. Acho uma besteira quererem proibir. Se eu fosse do júri (do Supremo Tribunal Federal que, em junho, por unanimidade liberou a publicação de tais obras mesmo sem a autorização prévia do retratado), também teria dado meu voto a favor da liberação. Por que não? Os autores têm de poder contar histórias, fazer novelas, filmes… É importante para a cultura do país!

Gal sustenta que a nova fase veio com as texturas eletrônicas, experimentais, de “Recanto”. Agora, o momento é mais pop, e foi essa a linguagem escolhida por Moreno e Kassin.

NO REPERTÓRIO, CAETANO, TOM ZÉ, MARISA MONTE... Velhos parceiros também contribuíram com músicas para o novo lançamento. O próprio Caetano, por exemplo, reaparece, com “Você Me Deu”, composição dele em parceria com outro filho, Zeca, de apenas 23 anos. “Caetano, não tem jeito, sempre terá espaço nos meus discos”, constata a amiga.

Seu Noca, muito obrigada pela ótima conversa. Foi um prazer. Se você sentir saudade, liga pro meu celular, liga pro meu celular, não deixa a saudade imperar…

De Tom Zé, Gal gravou “Por Baixo” (retomando um contato que remete ao primeiro disco solo dela, em 1969, quando “Namorinho de Portão” ganhou destaque na bolacha). Milton Nascimento fez com Criolo “Dez Anjos”, lindamente cantada por ela. E o recém-falecido produtor Lincoln Olivetti (19542015), que já trabalhara com a cantora nos anos 1980, é coautor de “Muita Sorte” (com Rogê). A faixa-título do disco traz também seu último arranjo para metais.

O quarteto que tocou naquele de 11 de janeiro de 1985, no palco da faculdade de Arquitetura, durou apenas dois shows. Stein decidiu abandonar o grupo. O trio restante seguiu na estrada musical, e, entre idas e vindas e várias mudanças na formação original, incluindo o guitarrista Augusto Licks, que sucedeu a Pitz, foram 18 discos lançados e mais de 3 milhões de álbuns vendidos. “Fico muito contente por sobreviver na memória afetiva de tanta gente bacana e generosa! Muita felicidade por ter tocado com músicos incríveis em seis formações”, afirma Humberto Gessinger, o líder dos Engenheiros na época e atualmente em carreira solo. Apesar das boas lembranças, Gessinger não tem planos de um revival. “Neste momento não penso a respeito. Estou focado nos shows do disco 'inSULar ao vivo'.” A ideia já anunciada do músico gaúcho de regravar o primeiro álbum da banda, “Longe Demais das Capitais”, lançado em 1986, também deve ser adiada para depois da turnê atual.

NO CARINHO DE ARTISTAS DE TODO O PAÍS, UM TRIBUTO À DATA Em 2008, 23 anos depois daquela apresentação histórica, foi anunciada uma pausa por tempo indeterminando nos Engenheiros do Hawaii. Humberto Gessinger foi para a estrada com o projeto Pouca Vogal, um duo em parceria com Duca Leindecker. “Nunca gostei tanto quanto agora de fazer música. Gostaria muito de ter tido as ferramentas que a web oferece quando eu comecei. Hoje, a gente pode ser mais ágil. A informação viaja mais rápida e livre.”

“Aquela canção me lembrou o trabalho que o Lincoln fez em ‘Festa do Interior', do meu disco 'Fantasia', de 1981”, ela compara. “E ainda teve um presente da Marisa Monte, que me mandou uma música sem eu sequer ter solicitado, 'Amor Se Acalme', que adorei e acabei gravando”, acrescenta.

A pesquisa sustenta que, nos Estados Unidos, serviços como Spotify pagam entre US$ 0,001 e US$ 0,005 por taxa de transmissão a intérpretes, com cifras ainda menores para os compositores, assim como na Europa. Ainda que não haja números consolidados do Brasil, Vianna afirma que o panorama é similar.

Disco nas lojas, o momento é de preparar o show para cair na estrada. A turnê de lançamento, prevista para começar agora em agosto, coincide com a comemoração pelas cinco décadas de carreira - contadas a partir do primeiro compacto, de 1965, que trazia “Eu Vim da Bahia”, de Gilberto Gil, e “Sim, Foi Você”, de Caetano. Portanto, entre novos sons, estarão no roteiro sucessos e surpresas. “A ideia é misturar o 'Estratosférica' com músicas que gravei ao longo da vida e outras que eu nunca cantei antes”, planeja.

“Em termos de valores, salvo algumas pequenas variantes, a situação brasileira é parecida com a realidade dos Estados Unidos e da Europa. Se considerarmos que a grande maioria dos autores e compositores brasileiros ainda é pouco ouvida via streaming, e que o pagamento é pelo número de execuções, perceberemos que, além dos baixos valores, aquém do ideal, temos ainda que avançar muito nas formas de repasse, já que, por serem muito baixos, inviabilizam e oneram as transações comerciais e as formas de pagamento. Temos também que estabelecer um diálogo com a indústria buscando formas de negociação com todos os serviços digitais nessa área, que, por estarem ainda no embrião da forma adequada de negociação, abrem-se para os intermediários técnicos que, com sua participação, diminuem ainda mais os valores pagos”, propõe Vianna.

São tantas músicas, tantos discos... “Tudo o que gostaria de cantar não cabe em apenas um show”, suspira Gal.

UM OLHO NO PASSADO E DOIS NO FUTURO Antes de “Estratosférica”, Gal apresentou o show intimista “Espelho D'água” (título também de uma faixa do novo álbum, parceria de Marcelo Camelo com o irmão Thiago) e rodou o país com o espetáculo “Ela Disse-me Assim”, no qual resgatou a obra do cantor e compositor Lupicínio Rodrigues (1914-1974) e que promete ganhar registro em disco. “As canções dele sempre foram uma fonte de inspiração. Trago o Lupicínio para os meus discos e shows desde os anos 60”, rememora, enaltecendo o compositor de clássicos como “Vingança” (1951) e “Volta” (1957). “A música de Lupicínio desafia a linha do tempo.” Mesmo revisitando o passado, Gal Costa segue de olho em um futuro estratosférico, conforme a letra da faixa de abertura do novo CD, o rock “Sem Medo Nem Esperança” (de Antônio Cícero), perfeitamente traduz: “Nada do que fiz/Por mais feliz/ Está à altura/Do que há por fazer”. “Essa música diz tudo sobre a fase que estou vivendo”, resume a quase setentona, que, ano que vem, ganhará um documentário sobre sua fase tropicalista, a da virada da década de 1960 para a de 1970. “A juventude atual é influenciada pelo Tropicalismo, e vão comparar esse disco novo com o que fiz naquele período, mais orientada para o rock. Eu me sinto lisonjeada de que aquele momento histórico ainda seja uma referência forte”, orgulha-se.

SOLUÇÃO PASSA POR MELHORES CONTRATOS

CRIADORES, EMPRESÁRIOS E ESPECIALISTAS EM DIREITOS AUTORAIS DEBATEM O DESAFIO DE MANTER UMA REMUNERAÇÃO JUSTA AOS ARTISTAS NA ERA DOS STREAMINGS

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Ele ressalta que o estudo de Lalonde calcula a taxa ideal de mercado para o uso da música nos serviços de streaming: 80% da arrecadação bruta, pagos a todos os detentores de direitos, com um repasse da metade desse percentual para os selos discográficos e intérpretes e a outra metade, para os editores e autores (letra e música). Apesar de achar que os valores atuais têm que ser revistos e, “embora haja certa subjetividade no que seria uma remuneração justa”, o compositor acredita que, somente por meio da discussão, da conscientização e da melhoria dos contratos com editores e prestadoras de serviços, chegaremos a melhores resultados. “Com o quase final do modelo tradicional do mercado da música e o advento da música digital na internet, na telefonia e em outros meios, estivemos, por um período, desnorteados. Assim iniciamos, naturalmente, uma busca de alternativas que, me parece, já estão surgindo como um possível modelo de negócios”, pondera Vianna. “Em minha opinião, o streaming é uma das grandes possibilidades. Mas existem muitas

coisas para serem aprimoradas. No Brasil, ainda temos um problema muito sério com relação à qualidade da banda larga que impossibilita o acesso à compra. Temos ainda reflexos da cultura do não pagamento e do download gratuito. Somente o tempo nos dirá qual será o resultado do que estamos fazendo hoje. Mas sou otimista.” Em 2013, os downloads permanentes e CDs ainda respondiam por 67% das receitas da indústria fonográfica, abaixo dos 78% em 2008. Enquanto isso, o streaming aumentou seu percentual de 4% para 11%. Em 2013, a receita de streaming cresceu 51% em relação a 2012, de US$ 734 mil para US$ 1,111 milhão. O número de assinantes pagantes cresceu 40% no mesmo período. No documento apresentado em Nashville, Lalonde fez a comparação entre os mercados escandinavos maduros e os crescentes mercados europeu e americano.

MODELO ATUAL AINDA É DA ERA DO VINIL, DIZ ECONOMISTA “O que estamos experimentando, na América, no Norte e no Sul, são realmente os estágios iniciais do desenvolvimento do mercado de streaming. Os EUA são o principal candidato até agora em termos de maturidade, mas o jogo ainda está começando. Em termos de modelos, vender menos mídias físicas e downloads vai significar uma maior confiança no valor dos direitos intrínsecos. Em minha opinião, esses direitos têm de crescer em grande parte a favor dos autores, compositores e intérpretes ou executantes. O modelo atual de partilha de receitas ainda se baseia na era do vinil, com grandes rótulos e distribuidores sendo compensados por retornos e ruptura. Eu me pergunto como alguém poderia retornar ou quebrar um arquivo digital! Portanto, eu acho que não é o modelo de negócio que tem de mudar, é o modelo de remuneração de direitos. Isso só pode acontecer com todos os detentores de direitos negociando honestamente e tornando todas as informações disponíveis para todas as partes”, diz Lalonde. Para o economista, o problema está na definição das tarifas para esses direitos. O processo é diferente em cada país e, segundo ele, normalmente muito complexo e dispendioso. Por exemplo, nos EUA as tarifa pagas pelo popular serviço de streamings Pandora se baseiam em leis da década de 1940. “Não estou certo de que as tarifas atuais refletem uma forte compreensão da realidade do streaming. Uma questão que tem chamado recentemente a minha atenção é a seguinte. Eu assino o Spotify. Existe uma funcionalidade que me permite ouvir música offline. Então, enquanto eu não estou conectado à internet ainda posso ouvir as músicas que pus na minha 'biblioteca'. Se eu ouvir essas músicas offline, o Spotify não sabe (a menos que as informações sejam tabuladas e transferidas para Spotify quando eu estiver reconectado à internet). Levantei a questão de se o artista é pago quando eu escuto desconectado, e ninguém parece saber a resposta. Se o Spotify não sabe o que eu ouço offline, o artista não é pago de forma adequada”, raciocina Lalonde. A plataforma oferece um serviço gratuito aos internautas, em que é possível ouvir músicas em ordem aleatória enquanto se está conectado, alternadas com propagandas. Na versão premium, o usuário pode escutá-las offline e em alta definição. Atualmente, o Spotify oferece uma degustação da “assinatura” de R$ 1,99 por três meses. Roberta Pate, responsável pelo relacionamento com gravadoras do Spotify Brasil, admite que a empresa não consegue compartilhar o valor exato do que é transferido aos artistas, pois são muitas variáveis que impactam o valor “por stream”: volume de

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18/UBC : NOTÍCIAS

Atualmente, o músico gaúcho está em turnê do álbum solo “inSULar ao Vivo”, primeiro trabalho de músicas inéditas em dez anos. No set list, além das faixas do novo disco, sucessos de todas as fases da carreira. “Meu último disco só com inéditas, ‘Dançando no Campo Minado’, tinha sido lançado em 2003. Desde então lancei várias músicas novas, mas sempre em projetos ‘ao vivo’, ao lado de clássicos. Tive bastante tempo e fui rigoroso na escolha do material para o ‘inSULar’. Esperei que as músicas se impusessem, que pedissem para ser gravadas. Além de boas canções, elas tinham que se encaixar na vibe do disco e chegar ao arranjo certo.” Enquanto compunha as canções do disco, Humberto não pensava sob que formato as gravaria, mas, com o tempo, percebeu que elas pediam ambientes diferentes, várias formações, muitos convidados. “Por isso lancei como disco solo: porque não há uma banda fixa me acompanhando. Na real, o formato para mim é só um detalhe. A música é o que importa.” Esse comprometimento com a essência musical muitas vezes trilhou um caminho na contramão do mercado. "Quando a onda era rock, me achavam muito MPB. Quando a onda virou pop eletrônico, passaram a me achar muito rock. Quando era pra ser nacional, eu era muito gaúcho, e, quando inventaram o rótulo rock gaúcho, eu não estava mais no estado. Agora que a onda é revival, dei um tempo nos Engenheiros do Hawaii e saí solo, com músicas novas", brinca Humberto, descrevendo como vem trilhando sua própria highway.

GVT E SKY QUITAM MAIS DE R$ 42 MILHÕES QUE ESTAVAM EM ATRASO A operadora de TV por assinatura GVT quitou, através de um acordo, o pagamento de valores retroativos, incluídos na distribuição de junho. Com isso, passa a ser adimplente no que toca aos valores de direitos autorais de execução pública. O total pago atingiu R$ 14 milhões e se refere ao período de 1º de janeiro de 2012 a 31 de dezembro do ano passado. A Sky vem realizando o pagamento regular das mensalidades desde o ano passado. Em dezembro de 2013 e em maio de 2014, já foram realizadas distribuições do acordo firmado com a operadora e relativas ao período de 2004 a 2013. Em junho foram distribuídos R$ 28,5 milhões que estavam em atraso e correspondem ao período de 1º de janeiro a 30 de junho de 2014.

RELATÓRIO ANUAL TRAZ NÚMEROS POSITIVOS A UBC publicou seu relatório anual, que mostra que em 2014, apesar das incertezas na economia do país, a arrecadação total de direitos de execução pública de obras e fonogramas cresceu cerca de 2,5%, para R$ 1,22 bilhão. O resultado, como em 2013, ainda traz em si reflexos do acordo que pôs fim à inadimplência da TV Globo, abrindo as portas para outros firmados com distribuidoras de TV por assinatura. No que toca à UBC, o total foi de R$ 384,02 milhões distribuídos

GOVERNO REGULAMENTA NOVA LEI DE DIREITOS AUTORAIS

"DOUTOR DO B ÃO"

A presidente Dilma Rousseff regulamentou, no último dia 23 de junho, a Lei 12.853/2013. Em até 90 dias entram em vigor regras como, por exemplo, a que torna o Ministério da Cultura responsável por habilitar associações de gestão coletiva. A UBC já está totalmente apta a cumprir todas as novas exigências.

Sem medo de nadar contra a corrente, ele evoca o espírito libertário do início da banda. “Na minha carreira, músicas em que ninguém levava fé (ou por serem muito longas ou por não terem bateria ou por não rolar refrão...) viraram hits”, afirma o artista, que ainda se surpreende com o poder que uma boa criação tem de encantar tantas pessoas, às vezes décadas (e mais) depois de lançadas. “Definitivamente, continua a ser mistério para mim o que acontece com uma canção depois que a gente a lança”, finaliza.

Sem nostalgia, mas com carinho quando se refere ao passado, Gessinger comenta o disco-tributo que o grupo recebeu pelos 30 anos. “Espelho Retrovisor” tem 21 canções de todas as fases, entre sucessos e lados B. “Fiquei bastante emocionado. Mais do que algum arranjo especial, meu destaque vai para a diversidade geográfica e estilística das releituras." Ele se refere ao fato de a homenagem ter reunido músicos e bandas das cinco regiões do Brasil, entre nomes da nova geração do rock/pop nacional e artistas independentes, como A Banda Mais Bonita da Cidade (SP), Lula Queiroga (PE) e Forfun (RJ), entre muitos outros.

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NOV DADES NACIONAIS NOV DADES NTERNAC ONA S NOCA DA PORTELA GAL COSTA CAPA QUANTO VALE A MÚSICA?

D e o a exe u va Ma

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ENGENHEIROS DO HAWAII 30 ANOS F QUE DE OLHO D STR BU ÇÃO FESTAS REGIONAIS HUMBERTO TEIXEIRA DÚV DA DO ASSOC ADO

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Por Leandro Souto Maior, do Rio “Vão comparar esse meu disco novo com os que fiz no período do Tropicalismo, na virada dos anos 60 para os 70, mais orientada para o rock”, começa Gal Gosta ao falar sobre “Estratosférica”, seu segundo trabalho em quatro anos com pegada claramente contemporânea. “Mas se trata mesmo é de uma renovação artística. É um momento importantíssimo, instigador, animador”. Beirando os 70 anos (a ser cumpridos no próximo dia 26 de setembro), 50 deles dedicados a uma carreira produtiva e relevante, a baiana, de fato, há muito não parecia tão empolgada com o próprio trabalho.

Diretor da nossa associação e integrante da Aliança Latino Americana de Compositores e Autores de Música (ALCAM), Geraldo Vianna ressalta que o momento é de transição e que levará algum tempo até se estabelecerem melhores negociação e remuneração para a utilização do repertório musical em streaming. O “Estudo sobre compensação justa para criadores de música na era digital”, apresentado em outubro de 2014 pelo economista e catedrático Pierre-É. Lalonde, em Nashville (EUA), mostra que, atualmente, falta equilíbrio entre os valores destinados aos compositores no fluxo das receitas de streaming para os titulares de direito autoral.

Repertório, aliás, nunca foi um problema para os Engenheiros. Com uma talentosa veia de compositor, ao longo da carreira Gessinger produziu sucessos inscritos na memória dos fãs. “Longe Demais das Capitais”, “O Papa é Pop”, “Toda Forma de Poder”, “Terra de Gigantes”, “Infinita Highway” e “Somos Quem Podemos Ser” são exemplos de hits cantados em coro nos shows. “Meu ofício de músico, com sua rotina sem rotina, me coloca numa posição privilegiada para ver as coisas de um modo diferente da maioria das pessoas. Basta um pouco de atenção ao que acontece em minha volta”, avalia.

Ge a do V anna Manoe Nen nho P n o e Rona do Ba o

D

O senhor faz parte da história da UBC! Sim! Foram, inicialmente, 25 anos de parceria, aí passei uma temporada fora e voltei faz três anos. O bom filho à casa torna, né? Acho muito importante termos uma instituição responsável pelos nossos direitos. Todo músico deveria se interessar por esse tema, assim como acho importante interagir com a política. Fui respeitado por todos, de Brizola a Roberto Freire. Fui empossado secretário de Cultura do Estado do Rio de Janeiro em 2006 e, um ano depois, recebi do (então) presidente Luiz Inácio Lula da Silva uma comenda da Ordem de Rio Branco por serviços prestados à Nação. Eu fiz a faculdade da vida e, nela, me tornei professor. Aprendi a me expressar, fazer discurso, ter o jogo de cintura necessário para conseguir sobreviver. E, graças a Deus, todo esse respeito eu devo ao samba. É por isso que digo que ele não é só meu, mas do povo.

PRESTES A COMPLETAR 70 ANOS (50 DE CARREIRA) E EM CONSTANTE EVOLUÇÃO, A CANTORA DÁ, COM “ESTRATOSFÉRICA”, CONTINUIDADE A UM PROJETO DE TRANSFORMAÇÃO INICIADO EM “RECANTO”

SOLO E NA CONTRAMÃO DO SENSO COMUM

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Por falar na escola, o que podemos esperar desse DVD da Velha Guarda da Portela? É o nosso primeiro e será lançado no segundo semestre de 2015. Temos participações especiais da Marisa Monte, da Maria Rita, do Zeca Pagodinho, do Paulinho da Viola e da Cristina Buarque. Eu estou gravando o primeiro samba que fiz para a escola, em 1969, junto a Picolino e Colombo, intitulado “Portela Querida”. Lembro que levamos esse samba a um festival da UBC e ganhamos o primeiro lugar.

Por Lauro Teixeira, de São Paulo Não é só por 20 centavos. O debate mundial que se trava atualmente em torno dos valores das músicas - e dos músicos, seus compositores e intérpretes - está muito além do preço que se paga para ouvi-los. Trata-se do futuro de artistas, consumidores e gravadoras que já se apresenta como presente. Os novos modelos de negócio navegam pelas águas incertas do streaming digital. Mas navegar é preciso, e a UBC zarpa em busca do cerne da discussão.

O NOVO DA GAL

E quando o senhor começou a gravar suas composições?

bu ão do end men o de d e o au o a e o de en o men o u u a

T agem

E os sambas que fez para a Portela? Na Portela, disputei 15 vezes em 48 anos e cheguei à final 13 vezes, sendo que ganhei 7. Tenho dois estandartes de ouro, o prêmio do jornal “O Globo”. Tenho um sonho que coloco sempre nas minhas preces: o de ver a escola ser campeã com um samba que tenha a minha assinatura também.

Na década de 50, um cantor do casting da Rádio Nacional chamado Swing gravou “Marlene, Meu Bem”, uma homenagem que fiz à grande cantora Marlene. Fui gravado como autor por muitos nomes, como Elizeth Cardoso, Nelson Gonçalves, Nara Leão, MPB 4, Roberto Ribeiro, Maria Bethânia, Maria

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04 07 08 10 12

Rita… Beth Carvalho foi quem mais gravou músicas minhas: 12 sambas. Tenho mais de 400 composições, mais de 300 gravadas. Também tive muitos sambas vencedores em blocos de rua do Rio, no Cacique de Ramos, no Simpatia é Quase Amor, no Bloco do Barbas… E gravei discos com o Trio ABC da Portela, além dos meus individuais. O “Cor da Minha Raça” foi produzido pelo Rildo Hora e é independente. Ele me deu muita alegria, pois viajei o Brasil todo fazendo shows de divulgação.

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Eles eram garotos que (realmente) amavam os Beatles e os Rolling Stones e, para espantar o tédio, decidiram montar uma banda que deveria durar apenas uma noite - mas acabou se tornando uma das mais importantes do rock brasileiro. Desde a escolha do nome, os Engenheiros do Hawaii, 30 anos nas ondas sonoras de diferentes gerações, já transbordavam humor e senso crítico. A alusão era aos alunos de Engenharia que azaravam as gurias no bar da faculdade de Arquitetura da Universidade Federal do Rio Grande do Sul fazendo pose de surfistas. Era lá onde Humberto Gessinger (guitarra), Carlos Maltz (bateria), Marcelo Pitz (baixo) e Carlos Stein (futuro Nenhum de Nós, guitarra) estudavam.

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d

Palestrante da última edição do Midem, o maior encontro mundial do mercado musical, celebrado em junho no balneário francês de Cannes, a diretora executiva da UBC, Marisa Gandelman, foi chamada de “uma das mulheres mais influentes do mundo da música e da tecnologia” pela organização. Ao lado de representantes da Índia e da África do Sul, ela debateu, no salão principal de conferências do Midem, o potencial da arrecadação de direitos autorais para maximizar a indústria criativa nos Brics (acrônimo que reúne Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, algumas das nações mais importantes do mundo em desenvolvimento). A possibilidade de expansão das atividades econômicas ligadas à cultura foi destacada na intervenção. Segundo estudos, menos de 6% do PIB de tais países provêm da indústria criativa. Além da palestra de que Marisa participou, outras dezenas de eventos reuniram mais de 6 mil representantes da indústria musical de 75 países, incluindo muitos artistas, ao longo de quatro dias. A proposta do Midem é propiciar o encontro de quem trabalha com esse mercado, compartilhar experiências positivas e, claro, celebrar negócios. A próxima edição já tem data: 28 de junho a 1º de julho de 2016, sempre em Cannes.

HOMENAGEM : UBC/17

Por Claudia Kovaski, de Porto Alegre

Lorenzo Ferrero, presidente do conselho da CIAM, não vê um futuro assim tão colorido. Para ele, o principal problema é que o modelo de negócio dos serviços de streaming está longe de ser transparente. O segundo maior obstáculo é que o (pouco) valor distribuído é dividido de forma injusta entre rótulos, artistas, compositores e seus parceiros de publicação. Ferrero explica que esse é o desafio que motivou a iniciativa Fair Trade Music, que se propõe a debater caminhos para a encruzilhada. “Os rótulos tendem a ter a mesma proporção que tinham no mundo analógico. Mas sem impressão, distribuição, estocagem, partes de loja, e assim por diante. Já os outros (os artistas) estão muito insatisfeitos com as cotas que recebem. Isso é o que Fair Trade Music tenta abordar em nível mundial: conversando com todos na cadeia de valor e tentando encontrar um modelo mais sustentável e justo. A resposta de muitos atores nesse panorama tem sido promissora (Universal Publishing, Spotify, algumas sociedades de gestão colectiva e associações de artistas). Mas é claro que há muito trabalho pela frente.”

A Rev

O Forum D'Avignon, organização francesa dedicada a pensar os rumos da indústria e da produção culturais, realizou na primeira semana de junho, em Paris, uma conferência para discutir o crescente poder da internet sobre a cultura mundial. Dentro do megaevento Future en Seine, que trouxe do mundo todo cientistas, economistas, sociólogos, antropólogos e diversos outros especialistas para abordar os desafios do nosso tempo, 11 palestrantes convidados pelo Forum abordaram a intensa dualidade que caracteriza a era digital no que toca à indústria criativa: expansão maciça da divulgação, inovação tecnológica, acesso potencialmente sem fim a bens culturais, por um lado; pirataria, reforço de uma lógica cruel de mercado, quantificação em cliques do valor das obras de arte por outro. A fragilidade dos autores, cada vez mais “sozinhos” no oceano do mercado global, também mereceu destaque. A remuneração dos criadores, sujeitos a uma lógica de criação industrial quase canibal num mundo cada vez mais competitivo, mereceu uma conferência toda. Com a presença de analistas como o filósofo francês Yves Michaud e Marc Mossé, diretor da Microsoft na França, o antagonismo entre os autores e as plataformas de distribuição de música, por exemplo – cujas receitas crescem aceleradamente baseadas, segundo detratores, na má remuneração dos artistas – ficou logo estabelecida. O próximo evento internacional do Forum D'Avignon será no próximo mês de setembro, na cidade alemã de Essen, quando a simbiose entre mundo digital e cultura voltará a ser debatida.

16/UBC : HOMENAGEM

que compositores não são antitecnologia, mas contra aqueles que os exploram, precipitando, assim, a desvalorização econômica em curso de música. "Agora é preciso uma média de um milhão de streams em Pandora para um compositor e editor ganhar apenas US$ 90 em royalties. Mesmo uma grande canção de sucesso raramente rende a seu compositor mais do que alguns milhares de dólares em royalties digitais”, criticou.

ÍNDICE

FORUM D'AVIGNON DEBATE A CULTURA NA ERA DIGITAL

Duas coisas mantêm Noca da Portela vivo e ativo: o trabalho intenso em prol do samba e a esperança de ver sua escola do coração sair vencedora de um carnaval com enredo seu. Este ano ele chegou perto. “ImagináRio - 450 Janeiros de uma Cidade Surreal”, parceria com Celso Lopes, Charlles André, Vinicius Ferreira e Xandy Azevedo, o sétimo enredo que Noca emplacou na escola de samba, ajudou a levar o G.R.E.S Portela ao quinto lugar. Nascido em Leopoldina (MG), em 1932, Osvaldo Alves Pereira completará 83 anos em 12 de dezembro com muitos sonhos ainda a realizar, mas sem poder parar muito para pensar neles: afinal, a agenda está cheia. Além de seguir fazendo shows, divulgando algumas de suas mais de 400 composições – entre elas, as canções do último de seus sete álbuns solo, “Cor da Minha Raça” –, Noca participará do lançamento do primeiro DVD da Velha Guarda da Portela ainda este ano. Fora isso, terá de dar conta dos encontros e reuniões na quadra da escola, das palestras e conversas sobre política – tema que adora e pelo qual já muito trabalhou – e da abertura de seu baú de memórias para uma biografia que deseja lançar. Tudo isso movido a muita energia e bom humor.

REPRESENTANTE DA UBC DISCUTE OS BRICS NO MIDEM

06-07 CAPA : UBC/15

ingressando numa era digital. O suporte físico migrou para o éter. Tem que ser encarado como um serviço como água, gás etc.”, compara Ritchie.

“A relação acontece principalmente por meio das gravadoras e editoras no que diz respeito a contratos. Mas, para ações especiais com envolvimento artístico, estamos à disposição para encontros e para discutir oportunidades promocionais. Os novos modelos caminham para um mercado cada vez mais legalizado e que garanta remuneração aos criadores das obras e também aos intérpretes. Em relação ao direito autoral, a cada stream realizado, nós pagamos um percentual mensal para que editoras repassem aos compositores”, diz Roberta.

A BPI, entidade mais importante da indústria fonográfica britânica, lançou em julho um portal para permitir a seus associados rastrear onde suas criações estão sendo postadas ilegalmente e verificar se os direitos estão sendo pagos. A ferramenta estará disponível gratuitamente para associados e membros da Associação de Música Independente (AIM, na sigla em inglês). A “atividade pirata” poderá ser acompanhada em tempo real, promete a BPI, que gerará relatórios de links ilegais removidos do Google e revelará que sites têm o material ilegal publicado além de que medidas a associação tomou. “É importante que nossos associados vejam como estamos atuando para proteger sua obra”, comentou Geoff Taylor, diretor executivo da BPI.

AFFONSINHO X 10 Ele é bossa nova, é folk, é blues, é rock, é MPB... Em dez álbuns autorais, Affonsinho já mostrou interesses de sobra e um mesmo processo criativo: quietinho, no melhor estilo mineiro. Até hoje ele usa um gravador cassete para registrar melodias, trechos de letras, cacos de ideias. Depois, vai fundindo tudo devagar, dando seu tempero. No recém-lançado “Lá De Um Lugar”, o sabor predominante é o do folk, mas também há surpresas para agradar a outros paladares. “Queria trabalhar mais a guitarra do blues, e o folk abre essa porta”, ele contou em entrevista ao diário mineiro “Hoje em Dia”. “Mas gosto mesmo é de misturar minhas influências: bossa nova, Caetano (Veloso), (Gilberto) Gil, BB King, Beatles...” As letras falam de amizade, amor, paz, relações positivas, para cima. Além das composições próprias, a parceria com Paulinho Pedra Azul “Um Novo Tom” abre o álbum, que tem trechos na página do SoundCloud do artista.

04-05 14/UBC : CAPA

músicas ouvidas, publicidade vendida, assinantes pagos e também cada contrato com provedores de conteúdo, que, por sua vez, possuem contratos específicos com artistas e compositores.

ENTIDADE BRITÂNICA LANÇA PORTAL QUE PROMETE RASTREAR CONTEÚDO ILEGAL

JOZI LUCKA, VOZ, VIOLÃO E PARCEIROS Tem cello, baixo, guitarra, wurlitzer, trompete, vibrafone. Tem sintetizador, tem voz e tem o violão de Jozi Lucka, base de um trabalho muito particular e com a inconfundível assinatura do produtor Moreno Veloso, parceiro da cantora da Serra fluminense no terceiro álbum autoral dela. Em “Brinquei de Inventar o Mundo”, Jozi tem ainda um timaço de colaboradores como Pedro Sá, Berna Ceppas, Nenung, que, em sambas, blues, bossas, a ajudam a construir uma elegante peça de música contemporânea carioca. Daniel Carvalho, parceiro de Ceppas no selo Disco Maravilha (pelo qual o álbum é lançado), assina a remasterização.

Foto: Pedro Gigante

“TUDO ESTÁ SEMPRE LIGADO”

Parece ter uma aura do Romantismo na escolha do nome. Assim como José de Alencar esperava forjar um herói nacional mítico com Iracema, você também quer inventar algo? Uma nova Ava, talvez?

Foto: Ana Alexandrino

Conceitualmente e artisticamente, o disco tem a presença de duas pessoas fundamentais: Negro Leo e Jonas Sá. Também cada músico contribuiu com sua arte, sua criatividade, seu olhar. Martin Scian, que gravou e mixou, também é uma camada importantíssima na conceituação e na estética do disco. Os compositores são os poetas. E, enfim, é tudo definido e entrelaçado.

AVA ROCHA LANÇA O ÁLBUM “AVA PATRYA YNDIA YRACEMA”, NO QUAL, MAIS UMA VEZ, OFERECE SEU OLHAR MÚLTIPLO E MUTANTE SOBRE O MUNDO

PELO PAÍS : UBC/11

10/UBC : PELO PAÍS

NOVIDADES INTERNACIONAIS

NOVIDADES NACIONAIS

na Fu a do Lau o Te e a e Leand o Sou o Ma o


4/UBC : NOTÍCIAS

NOVIDADES NACIONAIS A sua voz é muito marcante, você tem um jeito de se impor, de atuar em cena, muito próprio, e essa personalidade fortíssima já transbordava em “Diurno”, que, no entanto, não era um projeto só seu. Tem mais de Ava neste novo disco? “Diurno” era um projeto que tinha uma força coletiva intensa, mas não deixava de ser extremamente pessoal e autoral, à medida que surgiu do meu desejo de cantar e pensar canção, música, som, cinema, enfim, essa transversalidade. Então juntei o pessoal que estava sintonizado com a pesquisa que eu queria, primeiramente em torno das minhas músicas, do que eu queria cantar naquele momento, tudo ancorado a uma reflexão sobre música brasileira, canção estendida, enfim, reflexões ligadas às minhas primeiras experiências musicais. Cantar, para mim, pode ser desde expressar um sentimento até armar uma cena. Meu segundo disco, agora, também tem forte presença do coletivo, desde os compositores, músicos, engenheiros e da produção do Jonas Sá. Mesmo que sejam coletivos, são singulares e universais e refletem anseios e devires que são meus. Para mim, não há uma contradição, mas uma potencialização nesse encontro entre o indivíduo e o coletivo. Eu os vejo assim, e, por serem também diferentes, são discos irmãos. Um é água, é Oxum, é calmo. O segundo é fogo, é Yansã, é politico. Eu sou isso: Oxum Opará. Se tem mais Ava eu não sei, mas, que tem mais, muito mais, isso tem. Como foi a escolha dos parceiros? Cada um teve um papel bem definido no processo criativo?

“TUDO ESTÁ SEMPRE LIGADO” AVA ROCHA LANÇA O ÁLBUM “AVA PATRYA YNDIA YRACEMA”, NO QUAL, MAIS UMA VEZ, OFERECE SEU OLHAR MÚLTIPLO E MUTANTE SOBRE O MUNDO

Parece ter uma aura do Romantismo na escolha do nome. Assim como José de Alencar esperava forjar um herói nacional mítico com Iracema, você também quer inventar algo? Uma nova Ava, talvez? Não tenho a pretensão do novo, embora o meu devir seja o da invenção. Também não acredito no novo como algo romântico, sou mais antropofágica e alquimista. A Yndia é sua pátria? A minha pátria é o mundo. E o mundo é yndio. O AVA (antigo projeto da artista) acabou de vez? Ou ainda pode rolar uma reunião? Pode ser. Mas não o vejo como algo que acabou, e sim finalizou. Um projeto que se materializou e se eternizou. Como fazer um filme.

Por Alessandro Soler, do Rio

A sua marca é o flerte com múltiplas artes. Encontrou o porto-seguro definitivo na música? Ou tem espaço para mais Ava por aí?

Cantora, compositora, atriz, performer, cineasta, filha de Glauber. Todas as etiquetas – mas, sobretudo, nenhuma delas isoladamente – cabem na multiartista Ava Rocha, que lança novo álbum e impõe ainda mais sua presença na rica cena musical carioca contemporânea. A onda antropofágica, no melhor estilo modernista, fica clara já pela escolha do nome do projeto, “Ava Patrya Yndia Yracema”, que canibaliza e pare estilos e sons variados com a participação de gente como Negro Leo, Jonas Sá e Martin Scian. Ela troca dois dedos de prosa com a Revista UBC e fala sobre o processo criativo.

Quanto mais dentro da música, mais eu me sinto permeando tudo. O cinema, o teatro, a perfomance, a poesia, a filosofia. Mas não são flertes. Tenho uma carreira no cinema, e minha aproximação com as coisas tem a ver com o meu devir e a consistência. Eu me vejo como uma poeta e pensadora. Não só a música é um terreno vasto para explorar tudo isso, mas também essas outras áreas. Dirigi três filmes, escrevo roteiros, dirigi diversos videoclipes, faço projeções, animações, desenho, desenho a luz, penso a cena, crio figurinos, faço cartazes. Tudo está sempre ligado.

Foto: Ana Alexandrino

Conceitualmente e artisticamente, o disco tem a presença de duas pessoas fundamentais: Negro Leo e Jonas Sá. Também cada músico contribuiu com sua arte, sua criatividade, seu olhar. Martin Scian, que gravou e mixou, também é uma camada importantíssima na conceituação e na estética do disco. Os compositores são os poetas. E, enfim, é tudo definido e entrelaçado.


Foto: Débora 70

NOTÍCIAS : UBC/5

A MEMÓRIA SEGUNDO CHARLES GAVIN A contribuição de Charles Gavin (RPM, Ira!, Titãs) à história do pop-rock nacional não carece de explicações. Agora, ele também quer ajudar a escrever a memória da música riquíssima que se faz por aqui. Desde 2007 à frente do programa “O Som do Vinil”, que resgata grandes álbuns históricos e apresenta entrevistas de peso no Canal Brasil, Gavin lança uma coleção de livros que vai compilar os melhores momentos e os trechos não aproveitados na TV. Batizados com o nome dos discos de que tratam – e recheados de depoimentos, curiosidades e passagens às vezes pouco conhecidas –, os quatro primeiros volumes são “Nervos de Aço” (de Paulinho da Viola), “Quem é Quem” (João Donato), “Academia de Danças” (Egberto Gismonti) e “Clube da Esquina” (Milton Nascimento e Lô Borges, com composições também de Ronaldo Bastos, Fernando Brant, Monsueto, Ayrton Amorim e Márcio Borges). A eles devem se seguir diversos outros, num total planejado de 16 livros. “(O formato é bom) porque acredito nas mídias físicas, elas me dão prazer”, disse em entrevista ao jornal “O Globo”. Um dos próximos é “Acabou Chorare”, dos Novos Baianos.

CURADORIA: DUDA BRACK Duda Brack é século XXI: seu álbum de estreia, “É”, pode ser baixado livremente, na íntegra, em dudabrack.com. Duda Brack é atemporal: como uma curadora precisa, a gaúcha radicada no Rio se apossou das vozes de grandes artistas para fazer de todos eles a sua voz. Com composições de gente como o mineiro César Lacerda, os paulistanos Dani Black e Paulo Monarco e o sueco-recifense-carioca Carlos Posada, a cantora de só 21 anos mostra por que é tida como uma bem-vinda novidade da música contemporânea nacional. A produção de Bruno Giorgi, a guitarra de Gabriel Ventura, o baixo de Yuri Pimentel e a bateria de Gabriel Barbosa se unem, em só oito faixas, com duração total de meia horinha, à voz grande, visceral, de Duda para compor uma boa peça de MPB “rockeada”, sofisticada, que remete ao som feito por Tulipa Ruiz e Lucas Santtana. Bom para ouvir e querer mais.

ANGELO TORRES, HISTÓRIA DE FÉ E AMIZADE Destaque na cena instrumental gospel, o saxofonista Angelo Torres lança seu nono trabalho autoral, o DVD “Minha História”, que reúne os melhores momentos da sua carreira e amigos e parceiros do mundo da música cristã. Gravado em Niterói (RJ), o trabalho duplo é recheado de canções gospel interpretadas por Kleber Lucas, Marquinhos Gomes, Álvaro Tito e Marcus Salles. O encontro entre Torres e o saxofonista e flautista cristão americano Kirk Whalum também ganha destaque na caixa. Evangelizador, Angelo Torres, além de músico, também cursou um seminário e uma faculdade de Teologia e dá seu testemunho em cenas extras do DVD, que pode ser comprado em angelotorres.com.br.

MAMUTTE EM CENA Figura constante na cena cultural de Belo Horizonte, o multiartista Mamutte lança seu primeiro trabalho discográfico, o EP “Quase Disco”, com sabor de performance, de sons que remetem a imagens, de histórias contadas em palcos... Artista plástico, performer e compositor, ele transita por diversos universos e reúne sua experiência num trabalho calcado em ritmos afro-brasileiros como a curimba, o maracatu, o coco e o funk carioca. Com coprodução musical de Adner Sena e participações de diversos músicos da cena belo-horizontina, o trabalho independente foi lançado em show performático, em maio, em BH, e pode ser ouvido em streaming em mamutte.com.br.

ZABELÊ, TUDO EM UMA O intervalo é de seis anos, mas a maturação é muito mais antiga. Depois do fim definitivo, em 2009, da girl band pop SNZ, que dividia com as irmãs Sarah Sheeva e Nãna Shara, Zabelê Gomes volta em carreira solo e faz transbordar a mistura que traz nas veias. Filha de Baby do Brasil e Pepeu Gomes, a cantora de 40 anos apresenta seu primeiro álbum, “Zabelê”, um gostoso passeio por rock e pop regado a baianidade, carioquismo e outros temperos sutis e bem combinados. Com produção de Domenico Lancelotti, músicas de Pedro Sá, Rubinho Jacobina, Kassin, Moreno Veloso e Alberto Continentino e a voz rouca, aveludada de Zabelê, o disco tem todos os climas, perfeito para ouvir a dois, para dançar ou ouvir na estrada. “Lançar músicas individualmente para ouvir em streaming é muito a cara do nosso tempo. Mas o caráter artístico de um álbum planejado como um todo é diferente. Tem os arranjos, tem uma unidade, transmite uma coisa única”, ela diz. O primeiro clipe, “Nossas Noites”, está para sair, e o disco pode ser ouvido em zabeleoficial.com.br.


6/UBC : NOTÍCIAS

EDINHO QUEIRÓS, FILHO DE IJEXÁ... E DE ROCK, REGGAE, CIRANDA, SALSA, BOSSA NOVA... Em quase 40 anos de andanças pelo mundo da música, nada mais óbvio que um artista acumule vivências e experiências bastante diversas. Ainda mais se o artista for o potiguar Edinho Queirós. No seu mais novo trabalho autoral, o álbum “Se Você Acreditasse em Mim”, ele transita com naturalidade por rock, pop, reggae, funk, ijexá, maracatu, ciranda, baião, forró, xote, coco, frevo, salsa, merengue, bossa nova e samba. Como são apenas dez canções, a conta é óbvia: Queirós funde tudo – e se dá bem. “Vovó Africana” é uma curiosa releitura de ritmos caribenhos; “Pixote” faz crítica social ao som de funk carioca; e “Algo Infinito” celebra a matriz afro da nossa cultura, num olhar voltado para o gueto, a resistência de sons e povos marginalizados. Zé Américo Bastos assina com ele a produção, e Moreno Veloso participa da faixa-título.

TODOS OS AGRESTES DE JANU LEITE Rock sessentista, música eletrônica, jazz e samba-rock com um sotaque originalíssimo do Agreste alagoano. Assim é o álbum “Lindeza”, de Janu Leite, que, em sua segunda investida autoral – depois do EP de estreia “Matuto”, de 2012 – apresenta um improvável e explosivo encontro de sonoridades internacionais com os triângulos e as percussões dos ritmos típicos da sua Arapiraca natal. Amigos como Paulo Franco, do grupo Gato Negro, Diego Duarte, Alex Marques, Guilherme Trompete, Cicah Jusce, Gleyson Matheus e Sandro Cardoso dividem com ele a tarefa de embalar um trabalho experimental que não deixa o ouvinte indiferente. Músicos da banda Alfabeto Numérico também participam do trabalho, cujos destaques, segundo o próprio Janu, são “Canção de Vingança”, “Que Coisa Linda”, “Bluetooth”, “Lá Vem Ela”, “Lindezas” e “Finjo Esquecer”. Parte do disco está disponível para audição na página de Janu Leite (Lindeza Produções) no YouTube.

JOZI LUCKA, VOZ, VIOLÃO E PARCEIROS Tem cello, baixo, guitarra, wurlitzer, trompete, vibrafone. Tem sintetizador, tem voz e tem o violão de Jozi Lucka, base de um trabalho muito particular e com a inconfundível assinatura do produtor Moreno Veloso, parceiro da cantora da Serra fluminense no terceiro álbum autoral dela. Em “Brinquei de Inventar o Mundo”, Jozi tem ainda um timaço de colaboradores como Pedro Sá, Berna Ceppas, Nenung, que, em sambas, blues, bossas, a ajudam a construir uma elegante peça de música contemporânea carioca. Daniel Carvalho, parceiro de Ceppas no selo Disco Maravilha (pelo qual o álbum é lançado), assina a remasterização.

AFFONSINHO X 10 Ele é bossa nova, é folk, é blues, é rock, é MPB... Em dez álbuns autorais, Affonsinho já mostrou interesses de sobra e um mesmo processo criativo: quietinho, no melhor estilo mineiro. Até hoje ele usa um gravador cassete para registrar melodias, trechos de letras, cacos de ideias. Depois, vai fundindo tudo devagar, dando seu tempero. No recém-lançado “Lá De Um Lugar”, o sabor predominante é o do folk, mas também há surpresas para agradar a outros paladares. “Queria trabalhar mais a guitarra do blues, e o folk abre essa porta”, ele contou em entrevista ao diário mineiro “Hoje em Dia”. “Mas gosto mesmo é de misturar minhas influências: bossa nova, Caetano (Veloso), (Gilberto) Gil, BB King, Beatles...” As letras falam de amizade, amor, paz, relações positivas, para cima. Além das composições próprias, a parceria com Paulinho Pedra Azul “Um Novo Tom” abre o álbum, que tem trechos na página do SoundCloud do artista.

A VISÃO POSITIVA DE SARA BENTES Ela já participou de diferentes projetos musicais, gravou disco infantil, foi premiada em festivais, cantou com Gilberto Gil, engajou-se em ações em benefício de pessoas com reduzida capacidade visual... Faltava um disco solo. E é o que Sara Bentes entrega agora, em composições próprias e parcerias com o músico Marcelo Camelo, o maestro italiano Giovanni Allevi, o rapper paulistano Billy Saga e o guitarrista Júlio Ribeiro. Em “Invisível”, a cantora de Volta Redonda (RJ) radicada em São Paulo traz uma bem azeitada mistura de ritmos como samba, baião, música instrumental (em passagens como um “diálogo” entre um piano acústico e um quarteto de cordas)... Tudo com base claramente MPB e pop. Sara, que perdeu a visão devido a um glaucoma congênito, canta letras positivas, marcadas por suas observações sobre o amor e o cotidiano. “Quis que esse trabalho nos remetesse a algo muito bom, já que o melhor que há no mundo e nas pessoas é invisível”, define. O álbum está disponível para compra em sarabentes.com.br.


NOTÍCIAS : UBC/7

NOVIDADES INTERNACIONAIS

ENTIDADE BRITÂNICA LANÇA PORTAL QUE PROMETE RASTREAR CONTEÚDO ILEGAL A BPI, entidade mais importante da indústria fonográfica britânica, lançou em julho um portal para permitir a seus associados rastrear onde suas criações estão sendo postadas ilegalmente e verificar se os direitos estão sendo pagos. A ferramenta estará disponível gratuitamente para associados e membros da Associação de Música Independente (AIM, na sigla em inglês). A “atividade pirata” poderá ser acompanhada em tempo real, promete a BPI, que gerará relatórios de links ilegais removidos do Google e revelará que sites têm o material ilegal publicado além de que medidas a associação tomou. “É importante que nossos associados vejam como estamos atuando para proteger sua obra”, comentou Geoff Taylor, diretor executivo da BPI.

FORUM D'AVIGNON DEBATE A CULTURA NA ERA DIGITAL O Forum D'Avignon, organização francesa dedicada a pensar os rumos da indústria e da produção culturais, realizou na primeira semana de junho, em Paris, uma conferência para discutir o crescente poder da internet sobre a cultura mundial. Dentro do megaevento Future en Seine, que trouxe do mundo todo cientistas, economistas, sociólogos, antropólogos e diversos outros especialistas para abordar os desafios do nosso tempo, 11 palestrantes convidados pelo Forum abordaram a intensa dualidade que caracteriza a era digital no que toca à indústria criativa: expansão maciça da divulgação, inovação tecnológica, acesso potencialmente sem fim a bens culturais, por um lado; pirataria, reforço de uma lógica cruel de mercado, quantificação em cliques do valor das obras de arte por outro. A fragilidade dos autores, cada vez mais “sozinhos” no oceano do mercado global, também mereceu destaque. A remuneração dos criadores, sujeitos a uma lógica de criação industrial quase canibal num mundo cada vez mais competitivo, mereceu uma conferência toda. Com a presença de analistas como o filósofo francês Yves Michaud e Marc Mossé, diretor da Microsoft na França, o antagonismo entre os autores e as plataformas de distribuição de música, por exemplo – cujas receitas crescem aceleradamente baseadas, segundo detratores, na má remuneração dos artistas – ficou logo estabelecida. O próximo evento internacional do Forum D'Avignon será no próximo mês de setembro, na cidade alemã de Essen, quando a simbiose entre mundo digital e cultura voltará a ser debatida.

REPRESENTANTE DA UBC DISCUTE OS BRICS NO MIDEM Palestrante da última edição do Midem, o maior encontro mundial do mercado musical, celebrado em junho no balneário francês de Cannes, a diretora executiva da UBC, Marisa Gandelman, foi chamada de “uma das mulheres mais influentes do mundo da música e da tecnologia” pela organização. Ao lado de representantes da Índia e da África do Sul, ela debateu, no salão principal de conferências do Midem, o potencial da arrecadação de direitos autorais para maximizar a indústria criativa nos Brics (acrônimo que reúne Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, algumas das nações mais importantes do mundo em desenvolvimento). A possibilidade de expansão das atividades econômicas ligadas à cultura foi destacada na intervenção. Segundo estudos, menos de 6% do PIB de tais países provêm da indústria criativa. Além da palestra de que Marisa participou, outras dezenas de eventos reuniram mais de 6 mil representantes da indústria musical de 75 países, incluindo muitos artistas, ao longo de quatro dias. A proposta do Midem é propiciar o encontro de quem trabalha com esse mercado, compartilhar experiências positivas e, claro, celebrar negócios. A próxima edição já tem data: 28 de junho a 1º de julho de 2016, sempre em Cannes.

APPLE VOLTA ATRÁS E PAGARÁ A ARTISTAS POR PERÍODO TESTE NO APPLE MUSIC O álbum “1989”, da americana Taylor Swift, estará na Apple Music. Depois de a estrela pop dizer que tiraria toda a sua obra do serviço de streaming da gigante californiana, um acordo com a Apple resultou numa mudança de posição. A Apple havia anunciado em abril que não faria pagamentos aos artistas durante o período de três meses de teste do serviço. “Nós não pedimos iPhones gratuitos. Por favor, não nos peçam para fornecermos nossa música sem pagamento”, Taylor Swift reagiu na época. Como a companhia voltou atrás, o novo trabalho estará disponível no Apple Music, lançado no fim de junho no Brasil. A mudança foi celebrada por outros artistas, como a banda inglesa Florence & The Machine, que também vinham criticando a postura da maior companhia de tecnologia do mundo.


8/UBC : ENTREVISTA

Foto: Pedro Gigante

NOCA DA PORTELA PROJETOS E SONHOS PARA DAR E VENDER PRESTES A COMPLETAR 83 ANOS, SAMBISTA FAZ SHOW SOLO, GRAVA COM A VELHA GUARDA E QUER VER SUA VIDA CONTADA EM LIVRO


ENTREVISTA : UBC/9

Por Cristina Fuscaldo, do Rio Duas coisas mantêm Noca da Portela vivo e ativo: o trabalho intenso em prol do samba e a esperança de ver sua escola do coração sair vencedora de um carnaval com enredo seu. Este ano ele chegou perto. “ImagináRio - 450 Janeiros de uma Cidade Surreal”, parceria com Celso Lopes, Charlles André, Vinicius Ferreira e Xandy Azevedo, o sétimo enredo que Noca emplacou na escola de samba, ajudou a levar o G.R.E.S Portela ao quinto lugar. Nascido em Leopoldina (MG), em 1932, Osvaldo Alves Pereira completará 83 anos em 12 de dezembro com muitos sonhos ainda a realizar, mas sem poder parar muito para pensar neles: afinal, a agenda está cheia. Além de seguir fazendo shows, divulgando algumas de suas mais de 400 composições – entre elas, as canções do último de seus sete álbuns solo, “Cor da Minha Raça” –, Noca participará do lançamento do primeiro DVD da Velha Guarda da Portela ainda este ano. Fora isso, terá de dar conta dos encontros e reuniões na quadra da escola, das palestras e conversas sobre política – tema que adora e pelo qual já muito trabalhou – e da abertura de seu baú de memórias para uma biografia que deseja lançar. Tudo isso movido a muita energia e bom humor. O senhor não nasceu no Rio, mas parece mais carioca do que muitos nativos. Como se descobriu um amante da Cidade Maravilhosa? Eu cheguei ao Rio com 5 anos. Aos 14, quando fui morar no Catete, fiz meu primeiro samba sobre o Grito do Ipiranga e ganhei a disputa do enredo da escola da samba Irmãos Unidos do Catete. Meu pai perguntou se era meu mesmo, e as pessoas me deram apelidos como Assombração e Sobrenatural. O (jornalista) Mário Filho me chamava de Sobrenatural de Almeida. Fui um moleque atrevido, disputei com grandes compositores da época. Esse foi o primeiro passo para eu me tornar o Noca da Portela, mas ainda passei pela escola Foliões de Botafogo e pela Paraíso de Tuiuti de São Cristóvão, da qual sou o único dos fundadores ainda vivo. O senhor começou a compor cedo e se casou cedo também, né? Saí do Catete com 20 anos e morei no Morro do Tuiuti, em São Cristóvão, onde conheci minha esposa, com quem vivi por 58 anos até ela falecer, há dois. Está aí outra coisa sobrenatural: um sambista ficar casado tanto tempo com a mesma mulher. O nome dela? Eu a chamava de Dona Heroína Conceição. Todo mundo perguntava como ela conseguia segurar esse crioulinho, e Conceição dizia que eu tinha um bom coração, que era ótimo pai e marido. Agora apareceu uma mulher querendo se casar, e eu já disse que namorar, tudo bem, mas casar de novo, não. Quero fazer que nem Monarco: só quero vadiar. Por que o samba “Virada”, gravado por Beth Carvalho, é seu, mas está registrado no nome de Conceição Vilela Pereira, sua esposa? Houve uma época em que estava brigado com a editora, e aí acabei registrando 80 músicas minhas no nome dela em uma outra editora. Fizemos uma procuração em que ela me dava o direito de responder por essas composições. Depois que ela morreu, comecei o inventário para passá-las novamente para meu nome, e meu objetivo é levá-las para a UBC. E quando o senhor começou a gravar suas composições? Na década de 50, um cantor do casting da Rádio Nacional chamado Swing gravou “Marlene, Meu Bem”, uma homenagem que fiz à grande cantora Marlene. Fui gravado como autor por muitos nomes, como Elizeth Cardoso, Nelson Gonçalves, Nara Leão, MPB 4, Roberto Ribeiro, Maria Bethânia, Maria

Rita… Beth Carvalho foi quem mais gravou músicas minhas: 12 sambas. Tenho mais de 400 composições, mais de 300 gravadas. Também tive muitos sambas vencedores em blocos de rua do Rio, no Cacique de Ramos, no Simpatia é Quase Amor, no Bloco do Barbas… E gravei discos com o Trio ABC da Portela, além dos meus individuais. O “Cor da Minha Raça” foi produzido pelo Rildo Hora e é independente. Ele me deu muita alegria, pois viajei o Brasil todo fazendo shows de divulgação. E os sambas que fez para a Portela? Na Portela, disputei 15 vezes em 48 anos e cheguei à final 13 vezes, sendo que ganhei 7. Tenho dois estandartes de ouro, o prêmio do jornal “O Globo”. Tenho um sonho que coloco sempre nas minhas preces: o de ver a escola ser campeã com um samba que tenha a minha assinatura também. Por falar na escola, o que podemos esperar desse DVD da Velha Guarda da Portela? É o nosso primeiro e será lançado no segundo semestre de 2015. Temos participações especiais da Marisa Monte, da Maria Rita, do Zeca Pagodinho, do Paulinho da Viola e da Cristina Buarque. Eu estou gravando o primeiro samba que fiz para a escola, em 1969, junto a Picolino e Colombo, intitulado “Portela Querida”. Lembro que levamos esse samba a um festival da UBC e ganhamos o primeiro lugar. O senhor faz parte da história da UBC! Sim! Foram, inicialmente, 25 anos de parceria, aí passei uma temporada fora e voltei faz três anos. O bom filho à casa torna, né? Acho muito importante termos uma instituição responsável pelos nossos direitos. Todo músico deveria se interessar por esse tema, assim como acho importante interagir com a política. Fui respeitado por todos, de Brizola a Roberto Freire. Fui empossado secretário de Cultura do Estado do Rio de Janeiro em 2006 e, um ano depois, recebi do (então) presidente Luiz Inácio Lula da Silva uma comenda da Ordem de Rio Branco por serviços prestados à Nação. Eu fiz a faculdade da vida e, nela, me tornei professor. Aprendi a me expressar, fazer discurso, ter o jogo de cintura necessário para conseguir sobreviver. E, graças a Deus, todo esse respeito eu devo ao samba. É por isso que digo que ele não é só meu, mas do povo. Com tanta e tão rica história, o senhor deveria escrever ou deixar que escrevam sua biografia. Já tenho uma pessoa para escrever. E estou muito ansioso. Acho importante para qualquer ser humano ter a sua vida escrita em um livro. Seja essa biografia autorizada ou não. Acho uma besteira quererem proibir. Se eu fosse do júri (do Supremo Tribunal Federal que, em junho, por unanimidade liberou a publicação de tais obras mesmo sem a autorização prévia do retratado), também teria dado meu voto a favor da liberação. Por que não? Os autores têm de poder contar histórias, fazer novelas, filmes… É importante para a cultura do país! Seu Noca, muito obrigada pela ótima conversa. Foi um prazer. Se você sentir saudade, liga pro meu celular, liga pro meu celular, não deixa a saudade imperar…


10/UBC : PELO PAÍS

O NOVO DA GAL

PRESTES A COMPLETAR 70 ANOS (50 DE CARREIRA) E EM CONSTANTE EVOLUÇÃO, A CANTORA DÁ, COM “ESTRATOSFÉRICA”, CONTINUIDADE A UM PROJETO DE TRANSFORMAÇÃO INICIADO EM “RECANTO”


PELO PAÍS : UBC/11

Por Leandro Souto Maior, do Rio “Vão comparar esse meu disco novo com os que fiz no período do Tropicalismo, na virada dos anos 60 para os 70, mais orientada para o rock”, começa Gal Gosta ao falar sobre “Estratosférica”, seu segundo trabalho em quatro anos com pegada claramente contemporânea. “Mas se trata mesmo é de uma renovação artística. É um momento importantíssimo, instigador, animador”. Beirando os 70 anos (a ser cumpridos no próximo dia 26 de setembro), 50 deles dedicados a uma carreira produtiva e relevante, a baiana, de fato, há muito não parecia tão empolgada com o próprio trabalho. Dona de inconfundível timbre, Gal não cogita pendurar as cordas vocais tão cedo. Depois de confiar a um Caetano Veloso igualmente em permanente evolução a concepção de “Recanto” (2011), e este dividir a produção com o filho Moreno, agora ficou a cargo deste último e do carioca Alexandre Kassin a orquestração do trabalho. Para o novo repertório de inéditas, pinçou - junto do jornalista Marcus Preto - canções fresquinhas de uma turma que inclui Marcelo Camelo, Céu, Jonas Sá, Criolo, Rogê, Lira (ex-Cordel do Fogo Encantado), Thalma de Freitas, Alberto Continentino e Mallu Magalhães - esta, autora de “Quando Você Olha Pra Ela”, peça frequente nas rádios país afora. Gal sustenta que a nova fase veio com as texturas eletrônicas, experimentais, de “Recanto”. Agora, o momento é mais pop, e foi essa a linguagem escolhida por Moreno e Kassin.

NO REPERTÓRIO, CAETANO, TOM ZÉ, MARISA MONTE... Velhos parceiros também contribuíram com músicas para o novo lançamento. O próprio Caetano, por exemplo, reaparece, com “Você Me Deu”, composição dele em parceria com outro filho, Zeca, de apenas 23 anos. “Caetano, não tem jeito, sempre terá espaço nos meus discos”, constata a amiga. De Tom Zé, Gal gravou “Por Baixo” (retomando um contato que remete ao primeiro disco solo dela, em 1969, quando “Namorinho de Portão” ganhou destaque na bolacha). Milton Nascimento fez com Criolo “Dez Anjos”, lindamente cantada por ela. E o recém-falecido produtor Lincoln Olivetti (19542015), que já trabalhara com a cantora nos anos 1980, é coautor de “Muita Sorte” (com Rogê). A faixa-título do disco traz também seu último arranjo para metais.

“Aquela canção me lembrou o trabalho que o Lincoln fez em ‘Festa do Interior', do meu disco 'Fantasia', de 1981”, ela compara. “E ainda teve um presente da Marisa Monte, que me mandou uma música sem eu sequer ter solicitado, 'Amor Se Acalme', que adorei e acabei gravando”, acrescenta. Disco nas lojas, o momento é de preparar o show para cair na estrada. A turnê de lançamento, prevista para começar agora em agosto, coincide com a comemoração pelas cinco décadas de carreira - contadas a partir do primeiro compacto, de 1965, que trazia “Eu Vim da Bahia”, de Gilberto Gil, e “Sim, Foi Você”, de Caetano. Portanto, entre novos sons, estarão no roteiro sucessos e surpresas. “A ideia é misturar o 'Estratosférica' com músicas que gravei ao longo da vida e outras que eu nunca cantei antes”, planeja. São tantas músicas, tantos discos... “Tudo o que gostaria de cantar não cabe em apenas um show”, suspira Gal.

UM OLHO NO PASSADO E DOIS NO FUTURO Antes de “Estratosférica”, Gal apresentou o show intimista “Espelho D'água” (título também de uma faixa do novo álbum, parceria de Marcelo Camelo com o irmão Thiago) e rodou o país com o espetáculo “Ela Disse-me Assim”, no qual resgatou a obra do cantor e compositor Lupicínio Rodrigues (1914-1974) e que promete ganhar registro em disco. “As canções dele sempre foram uma fonte de inspiração. Trago o Lupicínio para os meus discos e shows desde os anos 60”, rememora, enaltecendo o compositor de clássicos como “Vingança” (1951) e “Volta” (1957). “A música de Lupicínio desafia a linha do tempo.” Mesmo revisitando o passado, Gal Costa segue de olho em um futuro estratosférico, conforme a letra da faixa de abertura do novo CD, o rock “Sem Medo Nem Esperança” (de Antônio Cícero), perfeitamente traduz: “Nada do que fiz/Por mais feliz/ Está à altura/Do que há por fazer”. “Essa música diz tudo sobre a fase que estou vivendo”, resume a quase setentona, que, ano que vem, ganhará um documentário sobre sua fase tropicalista, a da virada da década de 1960 para a de 1970. “A juventude atual é influenciada pelo Tropicalismo, e vão comparar esse disco novo com o que fiz naquele período, mais orientada para o rock. Eu me sinto lisonjeada de que aquele momento histórico ainda seja uma referência forte”, orgulha-se.


12/UBC : CAPA

CRIADORES, EMPRESÁRIOS E ESPECIALISTAS EM DIREITOS AUTORAIS DEBATEM O DESAFIO DE MANTER UMA REMUNERAÇÃO JUSTA AOS ARTISTAS NA ERA DOS STREAMINGS


CAPA : UBC/13

Por Lauro Teixeira, de São Paulo Não é só por 20 centavos. O debate mundial que se trava atualmente em torno dos valores das músicas - e dos músicos, seus compositores e intérpretes - está muito além do preço que se paga para ouvi-los. Trata-se do futuro de artistas, consumidores e gravadoras que já se apresenta como presente. Os novos modelos de negócio navegam pelas águas incertas do streaming digital. Mas navegar é preciso, e a UBC zarpa em busca do cerne da discussão. Diretor da nossa associação e integrante da Aliança Latino Americana de Compositores e Autores de Música (ALCAM), Geraldo Vianna ressalta que o momento é de transição e que levará algum tempo até se estabelecerem melhores negociação e remuneração para a utilização do repertório musical em streaming. O “Estudo sobre compensação justa para criadores de música na era digital”, apresentado em outubro de 2014 pelo economista e catedrático Pierre-É. Lalonde, em Nashville (EUA), mostra que, atualmente, falta equilíbrio entre os valores destinados aos compositores no fluxo das receitas de streaming para os titulares de direito autoral. A pesquisa sustenta que, nos Estados Unidos, serviços como Spotify pagam entre US$ 0,001 e US$ 0,005 por taxa de transmissão a intérpretes, com cifras ainda menores para os compositores, assim como na Europa. Ainda que não haja números consolidados do Brasil, Vianna afirma que o panorama é similar. “Em termos de valores, salvo algumas pequenas variantes, a situação brasileira é parecida com a realidade dos Estados Unidos e da Europa. Se considerarmos que a grande maioria dos autores e compositores brasileiros ainda é pouco ouvida via streaming, e que o pagamento é pelo número de execuções, perceberemos que, além dos baixos valores, aquém do ideal, temos ainda que avançar muito nas formas de repasse, já que, por serem muito baixos, inviabilizam e oneram as transações comerciais e as formas de pagamento. Temos também que estabelecer um diálogo com a indústria buscando formas de negociação com todos os serviços digitais nessa área, que, por estarem ainda no embrião da forma adequada de negociação, abrem-se para os intermediários técnicos que, com sua participação, diminuem ainda mais os valores pagos”, propõe Vianna.

SOLUÇÃO PASSA POR MELHORES CONTRATOS Ele ressalta que o estudo de Lalonde calcula a taxa ideal de mercado para o uso da música nos serviços de streaming: 80% da arrecadação bruta, pagos a todos os detentores de direitos, com um repasse da metade desse percentual para os selos discográficos e intérpretes e a outra metade, para os editores e autores (letra e música). Apesar de achar que os valores atuais têm que ser revistos e, “embora haja certa subjetividade no que seria uma remuneração justa”, o compositor acredita que, somente por meio da discussão, da conscientização e da melhoria dos contratos com editores e prestadoras de serviços, chegaremos a melhores resultados. “Com o quase final do modelo tradicional do mercado da música e o advento da música digital na internet, na telefonia e em outros meios, estivemos, por um período, desnorteados. Assim iniciamos, naturalmente, uma busca de alternativas que, me parece, já estão surgindo como um possível modelo de negócios”, pondera Vianna. “Em minha opinião, o streaming é uma das grandes possibilidades. Mas existem muitas

coisas para serem aprimoradas. No Brasil, ainda temos um problema muito sério com relação à qualidade da banda larga que impossibilita o acesso à compra. Temos ainda reflexos da cultura do não pagamento e do download gratuito. Somente o tempo nos dirá qual será o resultado do que estamos fazendo hoje. Mas sou otimista.” Em 2013, os downloads permanentes e CDs ainda respondiam por 67% das receitas da indústria fonográfica, abaixo dos 78% em 2008. Enquanto isso, o streaming aumentou seu percentual de 4% para 11%. Em 2013, a receita de streaming cresceu 51% em relação a 2012, de US$ 734 mil para US$ 1,111 milhão. O número de assinantes pagantes cresceu 40% no mesmo período. No documento apresentado em Nashville, Lalonde fez a comparação entre os mercados escandinavos maduros e os crescentes mercados europeu e americano.

MODELO ATUAL AINDA É DA ERA DO VINIL, DIZ ECONOMISTA “O que estamos experimentando, na América, no Norte e no Sul, são realmente os estágios iniciais do desenvolvimento do mercado de streaming. Os EUA são o principal candidato até agora em termos de maturidade, mas o jogo ainda está começando. Em termos de modelos, vender menos mídias físicas e downloads vai significar uma maior confiança no valor dos direitos intrínsecos. Em minha opinião, esses direitos têm de crescer em grande parte a favor dos autores, compositores e intérpretes ou executantes. O modelo atual de partilha de receitas ainda se baseia na era do vinil, com grandes rótulos e distribuidores sendo compensados por retornos e ruptura. Eu me pergunto como alguém poderia retornar ou quebrar um arquivo digital! Portanto, eu acho que não é o modelo de negócio que tem de mudar, é o modelo de remuneração de direitos. Isso só pode acontecer com todos os detentores de direitos negociando honestamente e tornando todas as informações disponíveis para todas as partes”, diz Lalonde. Para o economista, o problema está na definição das tarifas para esses direitos. O processo é diferente em cada país e, segundo ele, normalmente muito complexo e dispendioso. Por exemplo, nos EUA as tarifa pagas pelo popular serviço de streamings Pandora se baseiam em leis da década de 1940. “Não estou certo de que as tarifas atuais refletem uma forte compreensão da realidade do streaming. Uma questão que tem chamado recentemente a minha atenção é a seguinte. Eu assino o Spotify. Existe uma funcionalidade que me permite ouvir música offline. Então, enquanto eu não estou conectado à internet ainda posso ouvir as músicas que pus na minha 'biblioteca'. Se eu ouvir essas músicas offline, o Spotify não sabe (a menos que as informações sejam tabuladas e transferidas para Spotify quando eu estiver reconectado à internet). Levantei a questão de se o artista é pago quando eu escuto desconectado, e ninguém parece saber a resposta. Se o Spotify não sabe o que eu ouço offline, o artista não é pago de forma adequada”, raciocina Lalonde. A plataforma oferece um serviço gratuito aos internautas, em que é possível ouvir músicas em ordem aleatória enquanto se está conectado, alternadas com propagandas. Na versão premium, o usuário pode escutá-las offline e em alta definição. Atualmente, o Spotify oferece uma degustação da “assinatura” de R$ 1,99 por três meses. Roberta Pate, responsável pelo relacionamento com gravadoras do Spotify Brasil, admite que a empresa não consegue compartilhar o valor exato do que é transferido aos artistas, pois são muitas variáveis que impactam o valor “por stream”: volume de


14/UBC : CAPA

músicas ouvidas, publicidade vendida, assinantes pagos e também cada contrato com provedores de conteúdo, que, por sua vez, possuem contratos específicos com artistas e compositores. “A relação acontece principalmente por meio das gravadoras e editoras no que diz respeito a contratos. Mas, para ações especiais com envolvimento artístico, estamos à disposição para encontros e para discutir oportunidades promocionais. Os novos modelos caminham para um mercado cada vez mais legalizado e que garanta remuneração aos criadores das obras e também aos intérpretes. Em relação ao direito autoral, a cada stream realizado, nós pagamos um percentual mensal para que editoras repassem aos compositores”, diz Roberta. O cantor e compositor anglo-brasileiro Ritchie vê na concorrência entre os serviços de streaming a possibilidade de se avançar rumo a uma melhor distribuição. Ele conta que usava o serviço gratuito do Spotify, mas se mostrava reticente quanto à assinatura. A dúvida acabou quando foi lançado, recentemente, o Apple Music, que já nasceu em meio à polêmica quando a popular cantora americana Taylor Swift veio a público criticar o modelo de remuneração do serviço de streamig da gigante digital – que ofereceria acesso gratuito de três meses ao usuário e, também, imporia “moratória” no pagamento aos artistas pelo mesmo período. Diante da forte repercussão, a Apple voltou atrás. “Vejo como um futuro absolutamente impossível de evitar. Chutar contra os pinos não vai adiantar. Agora que há duas plataformas concorrendo para um serviço funcional, basicamente é uma questão de escolha dos usuários. O valor vai ser dado por eles mais uma vez: não é o que a música custa, mas o que o consumidor dá a ela. O download já era, o CD, também. Por incrível que pareça, o vinil sobrevive como objeto de culto, de forma emblemática e irônica. Estamos

ingressando numa era digital. O suporte físico migrou para o éter. Tem que ser encarado como um serviço como água, gás etc.”, compara Ritchie. Mesmo concordando que a remuneração ainda é baixa para os artistas, Ritchie acredita no modelo, desde que “com adaptações”. “Acredito no formato, à medida que esse universo está se expandindo em cada smartphone, e o US$ 0,0001 há de crescer exponencialmente. Há ajustes a fazer, mas acredito muito no mercado exponencial e no consumo de música mundial. O cara que está no seu quartinho fazendo música vai poder jogar o seu produto feito em casa na mesma plataforma que a Madonna. O mundo é feito de preferências, e alguém vai ter que caçar esse cara. É o sonho de todo músico de quarto de dormir.” De outro lado, artistas como Prince anunciaram que retirarão toda a sua obra do Spotify e da Apple Music. Outros, como Beyoncé, decidiram não oferecer seus singles em serviços como Rdio e Deezer. Já um terceiro grupo, puxado pelo líder do Radiohead, Thom Yorke, e pelas bandas The Black Keys e AC/DC, simplesmente se recusa a oferecer seus álbuns para streaming por acreditar que a remuneração é muito baixa. No Midem 2015, o maior evento mundial do mercado de música, ocorrido em junho em Cannes, o cantor e compositor Paul Williams fez um forte apelo por uma reforma justa de direitos autorais que seja viável para todos. Em sua fala, disse


CAPA : UBC/15

que compositores não são antitecnologia, mas contra aqueles que os exploram, precipitando, assim, a desvalorização econômica em curso de música. "Agora é preciso uma média de um milhão de streams em Pandora para um compositor e editor ganhar apenas US$ 90 em royalties. Mesmo uma grande canção de sucesso raramente rende a seu compositor mais do que alguns milhares de dólares em royalties digitais”, criticou. Ex-presidente da EMI, da Universal Music e da Associação Brasileira de Produtores de Disco, e um executivos mais respeitados da música no Brasil, Marcelo Castello Branco diz que o streaming foi adotado pelo consumidor global como a melhor modalidade de consumo no momento. “Torço muito para que alcance escala e, a partir desse crescimento, a remuneração seja cada vez mais justa e responsável. O negócio está cada vez mais dinâmico, mais plural, mais inclusivo. O que está claro é que a questão dos direitos e conteúdos está no centro de tudo e, cada vez mais, será decisiva para uma política de diferenciação dos canais de distribuição. Mais que fazer profecias, acho vital seguir investindo e estar atento. Iniciativas aparentemente loucas podem ser relevantes de uma dia para o outro. Neste mercado, já perdemos muito terreno por excesso de ceticismo ou resistência”, opina Castello Branco.

EMPRESÁRIO: CONSUMIDOR JÁ NÃO QUER POSSE; QUER ACESSO Segundo ele, existe em vários mercados mundiais uma relação direta entre a diminuição da pirataria virtual e o oferecimento de alternativas legais válidas. “E o streaming é a maior delas. O download ainda significa posse, ainda que de um mero arquivo digital. O que o consumidor quer e exige agora é acesso. Uma vez que a experiência seja gratificante e relativamente barata, num contexto de oferta de repertório descomunal, a insistência da pirataria deixa de ser 'sexy', passa a ser marginalmente sexy. O legal agora é criar e compartir playlists em plataformas musicais legais, que são verdadeiras redes sociais. O streaming vem crescendo no mundo inteiro, e o download, onde não estacionou, caiu. O mercado sueco, graças ao Spotify, voltou a ter o mesmo tamanho de receita de 10 anos atrás. No Brasil, estamos ainda no inicio, mas, com a presença de todas as plataformas e a entrada da Apple Music, a realidade tende a mudar drasticamente. Acredito que 2015 vai ser o ano crucial da virada do digital no Brasil, e números recentes apontam para esta direção. Vai ser o primeiro ano onde o consumo digital vai superar o físico.” Lorenzo Ferrero, presidente do conselho da CIAM, não vê um futuro assim tão colorido. Para ele, o principal problema é que o modelo de negócio dos serviços de streaming está longe de ser transparente. O segundo maior obstáculo é que o (pouco) valor distribuído é dividido de forma injusta entre rótulos, artistas, compositores e seus parceiros de publicação. Ferrero explica que esse é o desafio que motivou a iniciativa Fair Trade Music, que se propõe a debater caminhos para a encruzilhada. “Os rótulos tendem a ter a mesma proporção que tinham no mundo analógico. Mas sem impressão, distribuição, estocagem, partes de loja, e assim por diante. Já os outros (os artistas) estão muito insatisfeitos com as cotas que recebem. Isso é o que Fair Trade Music tenta abordar em nível mundial: conversando com todos na cadeia de valor e tentando encontrar um modelo mais sustentável e justo. A resposta de muitos atores nesse panorama tem sido promissora (Universal Publishing, Spotify, algumas sociedades de gestão colectiva e associações de artistas). Mas é claro que há muito trabalho pela frente.”


16/UBC : HOMENAGEM

ANOS NA INFINITA HIGHWAY MENTOR DE UMA DAS BANDAS MAIS EMBLEMÁTICAS DO ROCK NACIONAL, HUMBERTO GESSINGER FALA DOS ENGENHEIROS DO HAWAII E DA CARREIRA SOLO: “NUNCA GOSTEI TANTO DE FAZER MÚSICA”


S A Y

HOMENAGEM : UBC/17

Por Claudia Kovaski, de Porto Alegre Eles eram garotos que (realmente) amavam os Beatles e os Rolling Stones e, para espantar o tédio, decidiram montar uma banda que deveria durar apenas uma noite - mas acabou se tornando uma das mais importantes do rock brasileiro. Desde a escolha do nome, os Engenheiros do Hawaii, 30 anos nas ondas sonoras de diferentes gerações, já transbordavam humor e senso crítico. A alusão era aos alunos de Engenharia que azaravam as gurias no bar da faculdade de Arquitetura da Universidade Federal do Rio Grande do Sul fazendo pose de surfistas. Era lá onde Humberto Gessinger (guitarra), Carlos Maltz (bateria), Marcelo Pitz (baixo) e Carlos Stein (futuro Nenhum de Nós, guitarra) estudavam. O quarteto que tocou naquele de 11 de janeiro de 1985, no palco da faculdade de Arquitetura, durou apenas dois shows. Stein decidiu abandonar o grupo. O trio restante seguiu na estrada musical, e, entre idas e vindas e várias mudanças na formação original, incluindo o guitarrista Augusto Licks, que sucedeu a Pitz, foram 18 discos lançados e mais de 3 milhões de álbuns vendidos. “Fico muito contente por sobreviver na memória afetiva de tanta gente bacana e generosa! Muita felicidade por ter tocado com músicos incríveis em seis formações”, afirma Humberto Gessinger, o líder dos Engenheiros na época e atualmente em carreira solo. Apesar das boas lembranças, Gessinger não tem planos de um revival. “Neste momento não penso a respeito. Estou focado nos shows do disco 'inSULar ao vivo'.” A ideia já anunciada do músico gaúcho de regravar o primeiro álbum da banda, “Longe Demais das Capitais”, lançado em 1986, também deve ser adiada para depois da turnê atual.

NO CARINHO DE ARTISTAS DE TODO O PAÍS, UM TRIBUTO À DATA Em 2008, 23 anos depois daquela apresentação histórica, foi anunciada uma pausa por tempo indeterminando nos Engenheiros do Hawaii. Humberto Gessinger foi para a estrada com o projeto Pouca Vogal, um duo em parceria com Duca Leindecker. “Nunca gostei tanto quanto agora de fazer música. Gostaria muito de ter tido as ferramentas que a web oferece quando eu comecei. Hoje, a gente pode ser mais ágil. A informação viaja mais rápida e livre.” Sem nostalgia, mas com carinho quando se refere ao passado, Gessinger comenta o disco-tributo que o grupo recebeu pelos 30 anos. “Espelho Retrovisor” tem 21 canções de todas as fases, entre sucessos e lados B. “Fiquei bastante emocionado. Mais do que algum arranjo especial, meu destaque vai para a diversidade geográfica e estilística das releituras." Ele se refere ao fato de a homenagem ter reunido músicos e bandas das cinco regiões do Brasil, entre nomes da nova geração do rock/pop nacional e artistas independentes, como A Banda Mais Bonita da Cidade (SP), Lula Queiroga (PE) e Forfun (RJ), entre muitos outros. Repertório, aliás, nunca foi um problema para os Engenheiros. Com uma talentosa veia de compositor, ao longo da carreira Gessinger produziu sucessos inscritos na memória dos fãs. “Longe Demais das Capitais”, “O Papa é Pop”, “Toda Forma de Poder”, “Terra de Gigantes”, “Infinita Highway” e “Somos Quem Podemos Ser” são exemplos de hits cantados em coro nos shows. “Meu ofício de músico, com sua rotina sem rotina, me coloca numa posição privilegiada para ver as coisas de um modo diferente da maioria das pessoas. Basta um pouco de atenção ao que acontece em minha volta”, avalia.

SOLO E NA CONTRAMÃO DO SENSO COMUM Atualmente, o músico gaúcho está em turnê do álbum solo “inSULar ao Vivo”, primeiro trabalho de músicas inéditas em dez anos. No set list, além das faixas do novo disco, sucessos de todas as fases da carreira. “Meu último disco só com inéditas, ‘Dançando no Campo Minado’, tinha sido lançado em 2003. Desde então lancei várias músicas novas, mas sempre em projetos ‘ao vivo’, ao lado de clássicos. Tive bastante tempo e fui rigoroso na escolha do material para o ‘inSULar’. Esperei que as músicas se impusessem, que pedissem para ser gravadas. Além de boas canções, elas tinham que se encaixar na vibe do disco e chegar ao arranjo certo.” Enquanto compunha as canções do disco, Humberto não pensava sob que formato as gravaria, mas, com o tempo, percebeu que elas pediam ambientes diferentes, várias formações, muitos convidados. “Por isso lancei como disco solo: porque não há uma banda fixa me acompanhando. Na real, o formato para mim é só um detalhe. A música é o que importa.” Esse comprometimento com a essência musical muitas vezes trilhou um caminho na contramão do mercado. "Quando a onda era rock, me achavam muito MPB. Quando a onda virou pop eletrônico, passaram a me achar muito rock. Quando era pra ser nacional, eu era muito gaúcho, e, quando inventaram o rótulo rock gaúcho, eu não estava mais no estado. Agora que a onda é revival, dei um tempo nos Engenheiros do Hawaii e saí solo, com músicas novas", brinca Humberto, descrevendo como vem trilhando sua própria highway. Sem medo de nadar contra a corrente, ele evoca o espírito libertário do início da banda. “Na minha carreira, músicas em que ninguém levava fé (ou por serem muito longas ou por não terem bateria ou por não rolar refrão...) viraram hits”, afirma o artista, que ainda se surpreende com o poder que uma boa criação tem de encantar tantas pessoas, às vezes décadas (e mais) depois de lançadas. “Definitivamente, continua a ser mistério para mim o que acontece com uma canção depois que a gente a lança”, finaliza.


18/UBC : NOTÍCIAS

FIQUE DE OLHO SANDRA DE SÁ É A NOVA PRESIDENTE DA UBC A inesperada morte do presidente Fernando Brant, além de deixar saudades, provocou uma mudança na diretoria da UBC. Sandra de Sá é a nova diretora presidente da associação. A cantora e compositora foi eleita diretora-vogal da UBC pela primeira vez em 2010 e reeleita ao cargo em 2014. No dia 7 de junho, na última reunião de diretoria, Sandra assumiu seu novo cargo de presidente como determina o estatuto. Desejamos sucesso neste novo momento e temos certeza de que Fernando, de onde estiver, está feliz de ser substituído por essa mulher incrível.

RELATÓRIO ANUAL TRAZ NÚMEROS POSITIVOS A UBC publicou seu relatório anual, que mostra que em 2014, apesar das incertezas na economia do país, a arrecadação total de direitos de execução pública de obras e fonogramas cresceu cerca de 2,5%, para R$ 1,22 bilhão. O resultado, como em 2013, ainda traz em si reflexos do acordo que pôs fim à inadimplência da TV Globo, abrindo as portas para outros firmados com distribuidoras de TV por assinatura. No que toca à UBC, o total foi de R$ 384,02 milhões distribuídos. Isso significa que, com 17.909 associados (11,78% mais que em 2013), a UBC, sozinha, respondeu por pouco mais de 40% do total de execução pública arrecadado em território nacional. O número de contemplados pela distribuição também foi recorde: 90 mil titulares de direitos autorais e conexos. Para dar conta de tanto crescimento, o próprio quadro funcional da UBC cresceu 1%, atingindo o número de 91 funcionários e 8 estagiários.

EM “CRISE FINANCEIRA”, BAND ESTÁ INADIMPLENTE DESDE O ANO PASSADO As músicas executadas na programação da TV Bandeirantes no período de janeiro a março de 2015 não foram contempladas na distribuição de julho, pois a emissora não tem realizado o pagamento de direitos autorais de execução pública desde setembro de 2014 (exceto outubro e novembro do mesmo ano). Um acordo de pagamento entre o Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad) e a emissora foi firmado em abril, mas acabou descumprido. A Band alega estar em crise financeira para justificar a inadimplência. Um novo acordo com o Ecad está em negociação.

GVT E SKY QUITAM MAIS DE R$ 42 MILHÕES QUE ESTAVAM EM ATRASO A operadora de TV por assinatura GVT quitou, através de um acordo, o pagamento de valores retroativos, incluídos na distribuição de junho. Com isso, passa a ser adimplente no que toca aos valores de direitos autorais de execução pública. O total pago atingiu R$ 14 milhões e se refere ao período de 1º de janeiro de 2012 a 31 de dezembro do ano passado. A Sky vem realizando o pagamento regular das mensalidades desde o ano passado. Em dezembro de 2013 e em maio de 2014, já foram realizadas distribuições do acordo firmado com a operadora e relativas ao período de 2004 a 2013. Em junho foram distribuídos R$ 28,5 milhões que estavam em atraso e correspondem ao período de 1º de janeiro a 30 de junho de 2014.

GOVERNO REGULAMENTA NOVA LEI DE DIREITOS AUTORAIS A presidente Dilma Rousseff regulamentou, no último dia 23 de junho, a Lei 12.853/2013. Em até 90 dias entram em vigor regras como, por exemplo, a que torna o Ministério da Cultura responsável por habilitar associações de gestão coletiva. A UBC já está totalmente apta a cumprir todas as novas exigências.


DISTRIBUIÇÃO : UBC/19

FESTAS REGIONAIS:

TRÊS RUBRICAS, TRÊS MANEIRAS DIFERENTES DE APURAR A ARRECADAÇÃO ENTENDA COMO FUNCIONA O REPASSE DOS VALORES CORRESPONDENTES A FESTAS JUNINAS, MOVIMENTO TRADICIONALISTA GAÚCHO E CARNAVAL

Do Rio O segundo semestre de cada ano é marcado pela distribuição dos valores referentes à execução pública de duas rubricas regionais com características próprias. Se, em maio, ocorreu a distribuição de carnaval, em setembro próximo haverá o repasse das festas juninas e, em novembro, do Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG), pontuado por diversas celebrações no Sul do país nos meses de inverno. A segmentação dessas três festividades, públicas, abertas e que exigem uma amostragem específica para a apuração dos valores devidos, visa a reconhecer sua importância e suas características únicas para o mercado musical nacional. No caso da rubrica Festas Juninas, a distribuição é feita com base numa amostragem criada a partir de 13 mil execuções de eventos adimplentes desse tipo ocorridos de maio a agosto – daí o repasse aos detentores dos direitos já em setembro. Espetáculos e shows, mesmo promovidos em comemoração às festas, serão distribuídos diretamente, sem entrar na rubrica. É importante saber que o autor só recebe se o evento em que tocar sua música for adimplente e se sua música entrar no rol da amostragem feita no período de captação. A proporção de direitos do autor da música executada é de dois terços do total; já os direitos conexos, ou seja, aqueles que cabem aos músicos envolvidos na execução, equivalem ao terço restante. As festividades sulistas têm execuções captadas basicamente nos Centros de Tradições Gaúchas. O valor é distribuído para um rol específico de dois mil fonogramas típicos das festividades ligadas ao movimento. Como no caso das Festas Juninas, a proporção é de dois terços para direitos autorais, e um terço, para conexos. A distribuição, lembrando, ocorrerá em novembro.

Já na rubrica Carnaval, com distribuição em maio, os valores são aferidos com base em amostragem específica de 50 mil fonogramas captados por gravação em eventos carnavalescos adimplentes. Os espetáculos e shows, como micaretas, por exemplo, são distribuídos diretamente na rubrica Show, mesmo que ocorram durante os festejos de carnaval. É importante saber que o autor só recebe se o evento que tocar sua música for adimplente e sua música entrar no rol da amostragem feita no período de captação. Novamente, a proporção é de dois terços para direitos de autor, e um terço, para direitos conexos. Confira no calendário abaixo os meses de distribuição de todas as rubricas.

CALENDÁRIO 2015 JANEIRO Distribuição trimestral

JULHO Distribuição trimestral

FEVEREIRO TV por Assinatura

AGOSTO TV por Assinatura

MARÇO Cinema

SETEMBRO Cinema, Festa Junina

ABRIL Distribuição trimestral

OUTUBRO Distribuição trimestral

MAIO TV por Assinatura, Carnaval

NOVEMBRO TV por Assinatura, MTG

JUNHO Mídias Digitais

DEZEMBRO Mídias Digitais, Extra Rádio


20/UBC : MEMÓRIA

Grupo da 1ª Caravana UBC: Humberto Teixeira, Guio de Moraes, Trio Yraquitan (Edinho, João e Gilvam), Sivuca, Abel Ferreira, Pernambuco do Pandeiro, Dimas Sedicias

O SÉCULO DO

"DOUTOR D NOS 100 ANOS DE NASCIMENTO DE HUMBERTO TEIXEIRA, SUA DEFESA DOS DIREITOS AUTORAIS E DA MÚSICA NACIONAL É TÃO LEMBRADA QUANTO OS CLÁSSICOS QUE COMPÔS SOZINHO OU COM LUIZ GONZAGA E OUTROS PARCEIROS

Por Cristina Fuscaldo, do Rio Se a música brasileira se tornou mais rica, os compositores passaram a estar mais protegidos e nossa cultura ficou mais conhecida no exterior foi por causa, entre outros, de Humberto Teixeira. O parceiro de composição mais famoso de Luiz Gonzaga, com quem escreveu clássicos como “Asa Branca”, foi fundador e diretor da União Brasileira de Compositores (UBC). E, além da maior visibilidade para a música nordestina, deixou sua marca também na política ao conseguir, como deputado federal, aprovar na década de 50 a Lei Humberto Teixeira, que permitia a divulgação da música brasileira fora do país através de caravanas financiadas pelo governo federal, em convênio com o então Ministério da Educação e Cultura. Se fosse vivo, esse advogado e compositor cearense de Igatu teria completado 100 anos em janeiro. E, para sua filha, a atriz Denise Dumont, estaria tão “apaixonadamente hiperativo” quanto sempre foi. “Imagino que ele estaria ocupado, como sempre, tentando melhorar o mundo, lutando pelos direitos dos artistas

nas mídias de agora e, é claro, fazendo música, poesia e engarrafando nuvens. Acho também que ele estaria muito triste com a volta da seca. Sempre teve esperança de ver 'Asa Branca' se tornar somente poesia, e não mais um retrato da realidade. Meu pai morreu durante a ditadura militar. Portanto, acredito que estaria certamente satisfeito, apesar de todas as imperfeições, com o fato de vivermos em uma democracia”, diz Denise. Humberto Teixeira nasceu em 5 de janeiro de 1915 e, aos 15 anos, mudou-se para o Rio de Janeiro. Quando se formou em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil (hoje UFRJ), já tinha composto sambas, marchas, xotes, sambas-canções e toadas. Mas foi só em 1945 que formou a aliança mais famosa de sua carreira: a parceria com Luiz Gonzaga começou durante uma conversa em que ambos concordaram com a ideia de valorizar os ritmos nordestinos, começando pelo xote e pelo baião. O primeiro sucesso da dupla foi “Meu Pé de Serra”. Depois, vieram “Assum Preto”, “Juazeiro”, “Qui Nem Jiló”, “Respeita Januário” e tantos outros.


MEMÓRIA : UBC/21

Humberto Teixeira e seu parceiro Luiz Gonzaga

DO B IÃO" “O principal legado que ele deixou para a música brasileira foi o baião, fonte na qual muitos de nossos grandes compositores beberam e de onde muitos gêneros musicais se desenvolveram. E, como advogado e deputado federal, as leis que passaram a proteger os compositores. Ele foi um dos primeiros advogados a se especializar em direitos autorais. A parceria com Luiz só acabou porque papai se afiliou à UBC, onde ele lutou com unhas e dentes pelo direito do autor e pela divulgação de nossa música pelo mundo. Luiz não quis se afiliar e, na época, isso ia contra as regras da associação, de modo que a parceria passou a não ser mais permitida. Décadas depois, eles se uniram novamente e fizeram um disco com novas músicas”, lembra Denise.

FESTAS, EVENTOS E SARAUS CASEIROS Humberto também escreveu muitas canções sozinho, entre elas “Benzim”, “Dono dos Teus Olhos” e “Sinfonia do Café”. A primeira após a ruptura com Gonzaga, “Kalu”, fez o maior sucesso. Com Sivuca, compôs “Adeus, Maria Fulô” e “Baião de Salvador”. Com Lauro Maia, “Catolé” e “Samba da Roça”. E, com Rildo Hora, “Xengo”. Aparecem entre seus parceiros os nomes de Felícia de Godoy, Carlos Barroso e até Ivon Curi. Denise, que tinha apenas 24 anos quando o pai faleceu, aos 64, em 3 de outubro de 1979, lembra-se bem da infância musical que teve traduzida em festas, eventos e saraus caseiros.

“Papai era um homem de bem. Amigo dos amigos. Patriarca da família toda, pois meu avô, seu pai, morreu cedo, levando-o, como irmão mais velho, a cuidar de minha avó e de seus oito irmãos e irmãs. Ele tinha um sorriso lindo e aberto, mas era também bravo e rígido em relação às mulheres da família e a mim especialmente. Ele era brilhante, extremamente inteligente e academicamente educado. Fez duas faculdades, de Medicina e Direito. Lia muito e me deu de presente esse amor aos livros. Acho também que ele tinha depressão e nunca se recuperou da separação de minha mãe. Se tivesse sobrevivido, nós seríamos bastante próximos. Ele se foi muito cedo”, lamenta a herdeira. Humberto Teixeira foi casado com a atriz Margarida Teixeira e só teve uma filha. Para aplacar a dor da saudade, em 2009, Denise Dumont, mãe dos dois únicos netos do compositor, produziu o documentário “O Engarrafador de Nuvens”, cuja direção ficou a cargo de Lírio Ferreira, e a fotografia, de Walter Carvalho. Denise fica feliz toda vez que o nome de Humberto Teixeira é lembrado, mas, no ano do centenário do “doutor do baião”, acha que ele merece mais: “Todas as homenagens são bem-vindas, mas ainda acho que foram feitas poucas. Um homem que deixou essa obra tão importante, tanto artística quanto política, deveria ser muito mais reconhecido e celebrado. Mas eu sou a filha única, portanto, meu ponto de vista não é exatamente objetivo… Acho que, na verdade, ele merece ser muito mais lembrado e reverenciado! Ele deveria ter nome de rua, estátua, praça, feriado…”


22/UBC : SERVIÇO

DÚVIDA DO ASSOCIADO "ENVIEI PARA LIBERAÇÃO, ATRAVÉS DA FERRAMENTA RETIDO WEB, UM CRÉDITO RETIDO DO ARTISTA QUE ADMINISTRO, MAS ELE NÃO FOI LIBERADO. GOSTARIA DE ENTENDER MELHOR O PORQUÊ." Suzy Martins, empresária de Djavan (Rio de Janeiro)

REVISTA UBC: A ferramenta Retido Web dispõe de três abas diferentes para realizar uma pesquisa de créditos retidos: OBRA, FONOGRAMA e TITULAR. Sua pesquisa foi feita na aba FONOGRAMA, buscando o termo “Djavan” na referência autoral. Os retidos mostrados no resultado da busca têm relação com as obras de autoria do Djavan, já que ele é a referência autoral, mas, como a busca foi feita na base de dados de fonogramas retidos, os créditos que estão pendentes são para os titulares que participaram da gravação (intérpretes, músicos acompanhantes ou produtores fonográficos). Ou seja, mesmo que o artista apareça como “referência autoral” na busca, o crédito será sempre referente aos titulares do fonograma, e não aos autores da obra relacionada nesta aba. Neste caso específico, o crédito retido que foi marcado e enviado pelo sistema era de um fonograma de outro intérprete que gravou uma obra de autoria do Djavan. A parte autoral já havia sido distribuída, e a parte conexa que estava retida era dos titulares envolvidos nesta gravação, da qual o Djavan não participou. Para pesquisar créditos retidos de participantes de obras (autores e editores), deve-se utilizar a aba OBRA. Já na aba TITULAR, pode haver tanto retidos conexos quanto autorais, e, para identificá-los, é preciso estar atento à coluna “Cat.” (categoria do titular) no resultado da busca. É essa coluna que informa a qual categoria de titular o crédito retido se refere: autor, editor, intérprete, músico acompanhante ou produtor fonográfico. Para utilizar a ferramenta Retido Web, acesse o Portal do Associado em http://portal.ubc.org.br. Acesse www.ubc.org.br/distribuicao para saber o que são os créditos retidos.


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1946 2015

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A Revista UBC é uma publicação trimestral gratuita direcionada a quem faz música.

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