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Pelo País A turnê de Bethânia e Zeca Pagodinho Mercado Uma retrospectiva da conferência Rio2C E mais BaianaSystem, Marina Lima, Projeto Rivera

MAIO 2018

RE VIS TA

Ou ro NEGRO

Uma celebração a grandes criadores afrodescendentes, desde as origens da moderna música popular brasileira às novíssimas gerações


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2° 08/02/2018 Seis prefeituras devem ao menos R$ 60 milhões ao Ecad ubc.vc/inadimp

3° 26/03/2018 Seis dicas para você fazer sua música circular ubc.vc/6dicas


#36

MAIO 2018

RE VIS TA

A Revista UBC é uma publicação da União Brasileira de Compositores, uma sociedade sem fins lucrativos que tem como objetivos a defesa e a distribuição dos rendimentos de direitos autorais e o desenvolvimento cultural.

Conselho Fiscal Geraldo Vianna Edmundo Souto Manno Góes Fred Falcão Sueli Costa Elias Muniz Diretor executivo Marcelo Castello Branco Coordenação editorial Elisa Eisenlohr Assistente de coordenação editorial José Alsanne Projeto gráfico e diagramação Crama design estratégico Editor Alessandro Soler (MTB 26293) Textos Alessandro Soler (Madri), Elisa Eisenlohr (Rio de Janeiro), Gilberto Porcidônio (Rio de Janeiro), Kamille Viola (Rio de Janeiro), Ricardo Silva (São Paulo) e Roberto de Oliveira (Rio de Janeiro) Fotos Créditos dos fotógrafos nas respectivas imagens, ao longo da edição Correções Na última edição, o nome de Celso Fonseca saiu erroneamente grafado. Apesar de estar radicada em São Paulo, a banda Far From Alaska é originariamente de Natal. Tiragem 10.000 exemplares/Distribuicão gratuita Rua do Rosário, 1/13º andar, Centro Rio de Janeiro - RJ, CEP: 20041-003 Tel.: (21) 2223-3233 atendimento@ubc.org.br

por_ Sandra de Sá

Rock ’n’ soul, samba, funk ’n’ roll. E também tango, fado, chanson, música eletrônica... No Brasil, tudo acaba em batucada. Porque nasceu com a rica herança sonora africana, que absorveu o tempero indígena e os sons europeus e de outros cantos para formar algo original, nosso, suingueiro. Temos suinge na alma, na pele, e o resultado é uma música forte e linda que encanta e influencia tantos mundo afora.

Editorial

Diretoria Paulo Sérgio Valle (Presidente) Abel Silva Antonio Cicero Aloysio Reis Ronaldo Bastos Sandra de Sá Manoel Nenzinho Pinto

Isso sempre se soube — ou deveria. Mas agora tem algo novo no ar. É o som das nossas vozes reivindicando mais respeito e o justo reconhecimento da decisiva importância do negro para a formação não só da nossa música, mas de tudo o que é brasileiro. Tenho visitado quilombos em diversos estados, de Norte a Sul, e constatado que esses espaços de resistência, de culto à ancestralidade africana e de valorização do que é nosso, se renovam, liderados por jovens engajadas(os) e politizadas(os) que mantêm vivos o debate e a ação. Me dá muita esperança de novos e melhores tempos para a imensa população afrodescendente que ainda carece do espaço equivalente à sua importância no mercado, nos círculos de poder. Resistimos, mantemos viva e presente nossa linda cultura e pedimos passagem, mas sem partir para a confrontação. Nós fazemos música, fazemos arte. Nós nos conscientizamos na diversão e nos divertimos na conscientização. E estamos percebendo cada vez mais quem somos. O nosso espaço vamos ganhando na raça, na arte, na vontade de cantar, na necessidade de ser. O DNA africano são as nossas asas.


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ENTREVISTA: Marina Lima

CARREIRA: Porto Dragão Sessions

Arrecadação: Streaming

Comunicado UBC

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CAPA: Música negra

Pelo País: Bethânia e Zeca

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FIQUE DE OLHO

NOVIDADES NACIONAIS

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NOTÍCIAS INTERNACIONAIS

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MERCADO: Rio2C

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DESTAQUE: Baiana System

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JOGO RÁPIDO: Kassin

ín dI ce 10

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jogo rápido 5

“Hoje me divirto cantando, mas no início sofria” Dono de produções e interesses variadíssimos, Kassin lança “Relax”, disco solo e autoral com temas igualmente plurais: dos casais de 40 à crise política de_ São Paulo

foto_ Fabio Audi

Alexandre Kassin produziu Gal Costa, Buchecha, Caetano Veloso, Emicida, Adriana Calcanhotto, Los Hermanos, Vanessa da Mata, Erasmo Carlos, Arnaldo Antunes e uma porção de outros artistas de sons, sotaques, estilos, planos geográficos e astrais diferentes, o que dá fé da sua notável versatilidade. Fã de videogames e big bands, de Japão e Jalapão, ele tem uma presença mais discreta quando o tema são discos autorais solo. Por isso, todos os ouvidos se voltam a “Relax”, que tem participações de Clarice Falcão, Hyldon e da banda portuguesa Orelha Negra. Você é dono de uma produção vertiginosa, mas discos solo não foram tantos. Por quê? Se contarmos meu projeto Artificial Free U.S.A., os dois com o projeto +2 e “Sonhando Devagar”, este seria o quarto. Como compositor principal e com projetos artísticos, fiz muitos. Me considero mais compositor do que cantor, minha única necessidade é ter alguém para cantar minhas músicas. Também não sofro mais. Hoje me divirto cantando, mas no início sofria. O que diz em “Relax” que não havia dito ainda nas suas últimas parcerias e produções? O disco tem muitas ideias que não necessariamente se comunicam. Fiz músicas que tratam de problemas de casais em torno dos 40 anos, de manter uma relação cansada ou de relações medicadas em torno de comprimidos, e a música “Relax” fiz para meu amigo Lincoln Olivetti. “Anestesista” fala deste triste momento do golpe político.

Ouça MAIS Uma playlist com canções que atestam a pluralidade da produção de Kassin ubc.vc/Kassin

Muitos aspiram a ser produzidos por você. Quem você aspira a produzir? Nossa, são tantos. Sou muito feliz com meu ofício. E o Brasil é gigante musicalmente, sempre aparece algo animador.


NOVIDADES nacionais 6

por_ Ricardo Silva

de_ São Paulo

A voz engajada de

Lara Klaus

foto_ Isabela Borges

A percussionista recifense Lara Klaus, famosa no país e no exterior, dá um novo passo na carreira e se lança como cantora. Seu disco de estreia, “Força do Gesto”, que saiu em março, vem colhendo boas críticas graças à variedade musical com forte base percussiva (mas não só) e às letras reflexivas sobre mudança, atitude — “A verdade não mora na palavra, mas na intenção de quem a propaga”, prega, no single “Força do Gesto”, com participação de Zé Manoel. Também tem participação na obra a banda Maraca Arte, com pessoas com síndrome de Down. “Quando comecei a produzir, não tinha uma ideia exata do que se tornaria o disco, mas, ao mesmo tempo, na medida em que eu fui produzindo, vi que as músicas conversavam entre si. Por isso acabou se chamando ‘Força do Gesto’, porque me preocupo muito de a gente colaborar com outros, valorizar a experiência”, contou à “Folha de Pernambuco”.

Depois de anunciar seu fim em 2010, com a saída do vocalista Lirinha, a banda pernambucana Cordel do Fogo Encantado regressa, em sua formação original. O marco foi o lançamento do novo álbum, “Viagem ao Coração do Sol”, no início de abril, e o início de uma turnê que passará por Salvador, Recife, Fortaleza, Ribeirão Preto (SP) e Rio de Janeiro. “Fomos procurados pelas plataformas de streaming para lançar nossa obra, e, para isso acontecer, foi necessário juntar nossa história musical. Pensamos em não só lançar as músicas do passado mas também compor um novo trabalho”, conta Lirinha. “Gravamos o disco entre maio e junho do ano passado, em São Paulo, mantendo o sigilo. As gravações foram emocionantes. O fogo encantado está aceso.”

O retorno do

Cordel do Fogo Encantado

foto_ Tiago Calazans

O retorno do

VEJA MAIS O ‘lyric video’ de “Liberdade, a Filha do Vento” ubc.vc/CFE


REVISTA UBC

Drenna grava

Geraldo Vandré:

bela versão de “Roda Viva”

o fim de um silêncio de 50 anos

Em tempos de surreal polarização política, o resgate de um hino lançado na ditadura militar por Chico Buarque vem fazendo barulho e provocando discussão. Produzida pela banda carioca Drenna, que tem à frente a vocalista de mesmo nome, “Roda Viva” ganhou videoclipe caprichado, dirigido por Gabriel Gomes e publicado no canal do grupo. “É uma música atual e dialoga com nossa contemporaneidade, pois vivemos num país e num mundo cheio de preconceitos e rodas-vivas, sejam na política, nas questões de gênero, raça etc.”, descreve Milton Carlos, baterista da banda.

E uma das vozes mais emblemáticas da música brasileira durante o regime militar rompeu 50 anos de silêncio para uma emotiva apresentação, no último mês de março, em João Pessoa, sua cidade natal. Geraldo Vandré, 82 anos, foi ovacionado pelo público de mais de 500 pessoas que se espremeu no Espaço Cultural José Lins do Rego para vê-lo, com ingressos esgotados rapidamente. O último show de Vandré havia sido em Anápolis (GO), em 13 de dezembro de 1968, mesmo dia em que se publicou o AI-5. Agora, na apresentação da Paraíba, ele homenageou o exército, portou uma bandeira do Brasil e entoou, com o público, seu maior sucesso, “Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores”.

VEJA MAIS Assista ao clipe de “Roda Viva”, na versão da Drenna ubc.vc/Drenna

foto_ Jorge Bispo

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Pitty,

de volta do aconchego Afastada dos palcos e estúdios para cuidar da filha Magdalena, Pitty anuncia seu retorno. Ela voltou a compor e está em fase de pré-produção do seu próximo disco, que sai em agosto. “Foram quase dois anos dedicada a entender e descobrir o que é ser mãe e às necessidades da minha filha. Chegou uma hora que deu. Eu precisava tocar, voltar a pisar num palco. Não aguento de saudade”, diz a baiana, que falou sobre os desafios de ser mãe, mulher e artista da música durante o Women’s Music Event, encontro dedicado às mulheres e realizado em março, em São Paulo. Ela também lançou um documentário sobre sua retomada da composição e dos shows, “Do Ventre à Volta”, dirigido por ela e por Otavio Sousa. VEJA MAIS Assista ao documentário de Pitty ubc.vc/DocPitty


NOVIDADES nacionais 8

Sergio Lopes,

foto_ Freitas Fotos

Gessinger,

foto_ Felipe Garchet

mais de 30 anos de sucessos

Um dos maiores nomes do rock brasileiro, o gaúcho Humberto Gessinger lançou em abril seu novo DVD, “Ao Vivo Pra Caramba”, com canções que vem executando em shows e que já estão disponíveis nas plataformas de streaming. Quatro das 17 faixas são inéditas e compostas por ele, tendo sido apresentadas ao público num megashow que reuniu milhares de pessoas em Porto Alegre. Outras, como “Infinita Highway”, “Até o Fim”, “Vozes” e “Terra de Gigantes”, sucessos do tempo dos Engenheiros do Hawaii, ganharam novos e surpreendentes arranjos, com violão, viola caipira ou bumbo leguero. Agora acompanhado dos músicos Felipe Rotta e Rafa Bisogno, Gessinger formou um power trio.

foto_ Stefano Loscalzo

ao vivo e sempre criando

Gabriel Elias

em quatro tempos

Há mais de trinta anos envolvido profissionalmente com a música evangélica, o paraibano Sergio Lopes festeja o sucesso do seu novo álbum, “Somos”. Com 15 canções, o disco é o 22º da sua carreira, somados seus lançamentos solo e os do grupo Altos Louvores, do qual participou. Com uma agenda extensa que não lhe impede estar sempre compondo para novos trabalhos, Lopes é o autor de sucessos gospel como “Agora Posso Crer”, “Anseios“, “Serenata para Deus“, “Para Onde Vão as Aves”, “Brilhante” e “Entre Nós Outra Vez”.

Dividido em quatro entregas, o segundo álbum do cantor e compositor Gabriel Elias vai ser uma celebração à passagem do tempo. “Quatro Estações” tem clima praiano e músicas que falam sobre rompimentos, relacionamentos felizes, a natureza e outros temas presentes na obra do mineiro que, em sua curta carreira, já conquistou o país, com mais de 38 milhões de visualizações de seus vídeos e audições das suas músicas no YouTube. A primeira parte a ser lançada, mês passado, foi o EP “Outono”, com clima mais intimista, às vezes melancólico, marcando a passagem para a estação que antecede o inverno. “Inverno”, “Primavera” e “Verão” serão os próximos. A produção do disco é de Rafael Ramos. Ouça MAIS O EP “Outono”, de Gabriel, na íntegra ubc.vc/OutonoEP


REVISTA UBC

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Reginaldo Bessa:

Nos 60 anos da bossa nova, celebrados este ano, um dos pioneiros do estilo comemora uma efeméride particular. É o carioca Reginaldo Bessa, que faz 80 anos de vida e repassa uma rica carreira que começou de um jeito bem particular: na Argentina. “Me mudei para lá em 1962, por razões familiares. Ao aparecer num programa de TV, despertei a atenção da CBS e gravei um disco quase todo com canções de minha autoria e só com músicos argentinos”, lembra. O álbum foi “Amor en Bossa Nova”, um marco no estilo e que ele viria a lançar no Brasil, já de volta, em 1964. De lá para cá, Bessa teve canções gravadas por Maysa, Agnaldo Rayol, Elza Soares, Alcione, Peri Ribeiro, Guinga e muitos outros. Hoje, faz shows solo no estilo que conhece melhor: com banquinho, violão e muita bossa.

uma festa dupla

Rubel

Baco Exu do Blues,

Depois do sucesso de “Pearl”, de 2015, Rubel lançou “Casas”, seu mais recente álbum, no início de março. Com o single “Colégio”, sucesso nas plataformas de streaming, e as participações de Rincon Sapiência (em “Chiste”) e Emicida (em “Mantra”), o disco tem 14 faixas ao todo. Para marcar o lançamento, o artista publicou em seu perfil numa rede social uma terna homenagem ao pai, morto durante o processo de produção, e elogiou o apoio dos seus fãs: “Obrigado por acreditarem nesse sonho.”

Uma das grandes novidades recentes da música brasileira bebe nas fontes nobres de Chico Science, Racionais MCs ou Tim Maia, recheando suas letras de poesia e referências ao abismo social brasileiro, ao racismo e a outras mazelas da nossa democracia imperfeita. É o rapper baiano Diogo Montolvo, cujo nome artístico é Baco Exu do Blues, e que vem colhendo os frutos do seu primeiro álbum, lançando no terceiro trimestre do ano passado. Em “Esú” — nome que dá o tom da provocação religiosa, ao fazer um jogo de palavras com o nome Jesus, além de deixar espaço para canções como “Abre Caminho” e “Senhor do Bonfim” —, ele fala ainda de relações amorosas disfuncionais, como na forte “Te Amo Disgraça”, cita Almodóvar (“A Pele Que Habito”) e Jorge Amado (“Capitães de Areia”).

lança segundo disco

ou como meter o dedo em muitas feridas

Ouça MAIS O novo álbum de Rubel ubc.vc/RubelCasas

foto_ Amanda Perobelli

foto_ Carolina Vianna

VEJA MAIS O vídeo de “Facção Carinhosa” ubc.vc/Faccao


PELO PAís 10


REVISTA UBC

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Zeca e Be thâ nia

Em turnê pela primeira vez juntos, eles falam sobre o que os aproxima: samba, teatro e as similaridades de suas terras natais por_ Kamille Viola

do_ Rio

fotos_ Daryan Dornelles

Viver isolado do mundo, para Zeca Pagodinho, é coisa do passado. Numa estrada dessa vida, o malandro, quem diria?, encontrou a dama que agora é sua companhia constante: Maria Bethânia, ao lado de quem está em turnê com o show “De Santo Amaro a Xerém”, que passou por Recife, Salvador e Rio de Janeiro e ainda segue por Belo Horizonte (5/5), São Paulo (19/5) e Brasília (30/5). O nome escolhido para o espetáculo faz referência à cidade baiana onde a cantora nasceu e ao distrito no Estado do Rio (em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense) que abriga o sítio do sambista, seu refúgio. “Eu acho muito alegres, muito vivos, tanto Xerém quanto Santo Amaro, com suas dificuldades e muita pobreza, mas também com uma alegria sem fim. Pelo menos na minha terra tem isso, e acho que na dele também. É uma festa, todo dia em festa”, compara Bethânia. Os dois já tinham cantado juntos na gravação do CD/DVD “O Quintal do Pagodinho”, em 2016, quando a cantora foi ao sítio de Zeca, em Xerém. Para Bethânia, ela e o sambista têm muito em comum. “Tem a relação de samba, que é a roda de Santo Amaro com o samba do Rio de Janeiro, com a ligação das senhoras, as Ciatas todas, tem a Portela dele, a minha Mangueira, que é outro elo muito bonito: Santo Amaro, Xerém, Portela, Mangueira.


PELO PAís 12

O samba que une, a admiração mútua, cada um na sua linha. Acho que isso é motivo para se encontrar”, acredita. “Um outro grande elo que tem entre Zeca e eu, pelo menos para mim, além da admiração pelo cantor, pelo compositor, pelo estilo e pela maneira de ser, por tudo, tem uma coisa em que ele prestou atenção nos anos 70, ao movimento meu de levar música para a sala de teatro. Ele conhece ‘Drama’, conhece ‘Rosa dos Ventos’, eu e Chico, ele conhece tudo, sabe textos... Isso é um elo difícil de encontrar entre pessoas que tenham tão diferentes escolhas na carreira. Então, isso é muito bonito, muito rico”, explica Bethânia.

O sambista de Xerém também tem versão teatral, imortalizada no espetáculo “Zeca Pagodinho – Uma História de Amor ao Samba”, que vem rodando o país com muito sucesso e narra, em dois atos, a saga do herói suburbano que venceu no mundo da música sem nunca perder seu jeito simples de homem do povo. Agora, a vida de Zeca vai virar longametragem, previsto para o ano que vem, e baseado no livro “Zeca Pagodinho: Deixa o Samba Me Levar”, dos jornalistas Jane Barboza e Leonardo Bruno.

Tudo ela interpreta bem, eu não sei, ela é coisa divina que a gente fica olhando e se perde…” Zeca Pagodinho O sambista derrete-se pela agora companheira de palco. “Tudo ela interpreta bem, eu não sei, ela é coisa divina que a gente fica olhando e se perde... Ouço desde que era novinho, lá em casa todo mundo sempre ouviu, todo mundo é fã dela. Eu jamais imaginei que iria conhecê-la, que dirá cantar com ela”, revela. Zeca conta que, quando surgiu a ideia de fazerem a turnê juntos, ele logo topou, mas em seguida sentiu o peso da responsabilidade. “Eu disse: ‘Vamos, ótimo!’. Depois, caí na real,


REVISTA UBC

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Ele conhece ‘Drama’, ‘Rosa dos Ventos’ conhece tudo, sabe textos… Difícil de encontrar.” Maria Bethânia disse ‘meu Deus, e agora?’, porque é a diva, né? Caramba, o que vai acontecer? Mas ela é tão tranquila, está me botando tão tranquilo, porque eu estava com medo, e agora estou gostando da coisa, está tudo muito fácil”, ele garante. “Não éramos muito próximos, mas, com os ensaios, passamos a ter contato todo dia. Estou tendo o prazer de conhecê-la melhor”, diz.

O show tem músicas que ficaram famosas na voz de um e de outro, além de algumas compostas especialmente para a turnê, como “Amaro Xerém” (Caetano Veloso), “Pertinho de Salvador” (Leandro Fregonesi) e “A Surdo 1” (Adriana Calcanhotto). Zeca e Bethânia cantam juntos em pelo menos duas músicas: “Sonho Meu” (Dona Ivone Lara e Delcio Carvalho, sucesso na voz de Bethânia) e “Deixa a Vida Me Levar” (Serginho Meriti e Eri do Cais, sucesso na voz de Zeca). “Você Não Entende Nada” (Caetano Veloso), “Cotidiano” (Chico Buarque) e “A Voz do Morro” (Zé Keti) são outras no repertório do espetáculo.

Eles são acompanhados por uma banda formada por Paulão Sete Cordas (violão), Jaime Alem (que foi diretor musical da cantora por 22 anos e, agora, voltou a trabalhar com ela, no violão), Romulo Gomes (baixo), Marcelo Costa (percussão), Jaguara (percussão), Esguleba (percussão), Paulo Galeto (cavaquinho) e Vitor Motta (sax e flauta).

Além da alegria de estar em turnê com Bethânia, Zeca tem motivos de sobra para comemorar: em 2019, o sambista completa 60 anos idade. “Minha festa de 50 anos durou tanto que quase chegou aos 60. O aniversário de 60, então, se Deus quiser, vai pelo mesmo caminho”, brinca ele.


destaque 14

Trabalho sólido de pesquisa de sons e manifestações culturais ancestrais ajuda a explicar o sucesso da banda soteropolitana que conquistou fãs no Brasil inteiro e já prepara seu terceiro álbum

Baiana System do_ Rio

foto_ Cartaxo

por_ Alessandro Soler


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Multiplicar exponencialmente os usos da guitarra baiana. Ajudar a reciclar o carnaval de Salvador, banindo os caríssimos abadás e celebrando a democrática pipoca em seus desfiles. Emplacar música em videogame bombado (“Fifa 2016”) e dar a volta ao mundo por isso. E, não menos importante, fazer jus à musicalidade sem limites da Bahia, promovendo um resgate de sons, sentimentos e manifestações ancestrais no afã de renová-los. Em pouco menos de dez anos, o BaianaSystem fez tudo isso, e é coisa à beça. Sem concessões ao mainstream, mas com uma base firme de fãs que se espalha pelo país, eles não param de crescer. “A gente tem tentado proteger a música, proteger a conexão dela com a comunidade, que foi o que se perdeu (durante a fase de ultraexploração do axé)”, diz o vocalista Russo Passapusso. “(Com o axé), o mercado mergulhou no samba-reggae, uma música tradicional que nasceu no seio da comunidade, e o foi sintetizando, simplificando-o de tal forma que a coisa perdeu a cara, perdeu assunto. O público percebeu que ficou vazio.” O que o Baiana propõe, portanto, é o oposto disso. “É não usar ganchos fáceis que falem de sexo, de violência, de temas de apelo midiático. É não projetar imagem fantasiosa sobre nós, procurando, em vez disso, refletir o meio em que vivemos, nossas dúvidas, nossa realidade”, segue Passapusso. Tal preocupação se traduz em letras e imagens que falam de abismo social, da dificuldade de conviver nas cidades, da exaltação da negritude e da ancestralidade africana. E em sons que, calcados na guitarra baiana, vão de reggae a ijexá, de kuduro a cumbia, de pagode baiano a frevo e arrocha, tudo com tempero eletrônico.

foto_ Jardel Souza

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Como explica o guitarrista Beto Barreto, o próprio nome do grupo reflete as misturas. “Baiana é a guitarra baiana, system é uma homenagem aos sound systems. Temos tido uma pegada progressivamente rock, dando riffs mais pesados à guitarra baiana, incorporando a guitarra elétrica”, descreve um dos artífices da renovação democrática do carnaval de Salvador. “Temos pesquisado as cordas da Bahia, o canto, a percussão. Vamos ver no que vai dar”, conta, referindo-se ao terceiro disco da banda, em gravação em Salvador.

“O Baiana nasceu de imagens”, define Russo Passapusso. “Tudo o que produzimos tem uma conceituação visual e sensorial, uma cara, um diálogo com todos os sentidos.” A máscara presente no clipe de “Playsom” (do disco “Duas Cidades”), por exemplo, é usada pelos fãs nos shows. Todo o material relacionado com a banda tem enorme cuidado visual. “Pensamos tudo junto, acho que como qualquer artista do nosso tempo. A arte vai tomando esse caminho de conceituação, que faz do público não um mero apreciador, mas um participante.”

A distribuição de caranaval se dará agora no mês de maio. Os números ainda não estão finalizados, mas, com a inadimplência de várias prefeituras, certamente estarão abaixo do que deveriam. Como a UBC revelou em fevereiro, somente seis prefeituras - Salvador, Porto Alegre, Belo Horizonte, Recife, Belém e Brasília - devem mais de R$ 60 milhões em direitos autorais de execução pública em eventos de rua, incluindo o carnaval.

VEJA MAIS O clipe do novo single do BaianaSystem, “Alfazema”, com participação da Nação Zumbi ubc.vc/ClipeBS


Rio 2C mercado

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por_ Roberto de Oliveira

do_ Rio

Entre eles, empresários da música, produtores de audiovisual, desenvolvedores de videogames e projetos inovadores em tecnologia, além de criadores, jornalistas e especialistas em geral colocaram os assuntos desses setores em dia. Amy Gravitt, vice-presidente da HBO e responsável pelas comédias da empresa; Chance Glasco, cofundador do estúdio que criou a franquia de games “Call of Duty”; e o lendário engenheiro de som inglês Geoff Emerick, só para ficar em três exemplos, deram palestras.

foto_ Carol Lancelloti

Um resumo da maior conferência sobre música, audiovisual e inovação da América Latina, que reuniu 8 mil pessoas e já tem segunda edição confirmada

A Cidade das Artes, na Zona Oeste do Rio, nunca tinha vivido um momento tão grandioso. A construção imponente abriu os portões, de 3 a 8 de abril, para três setores da economia criativa que, juntos, somam muitas cifras — algo como US$ 1 trilhão no mundo todo, mais especificamente, segundo o Fórum Econômico Mundial. Um número impressionante que gerou outro: foram oito mil os profissionais dessas áreas que passaram pela superconferência Rio2C, herdeira direta do RioContentMarket.


REVISTA UBC

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mercado 18

MAIS HIP HOP

foto_ Murilu Dantas

Bob relativizou o papel das grandes premiações no impulso da criatividade na música. “As melhores músicas não ganham os maiores prêmios. Quem ganha é que não precisa, porque já está rico”, afirmou.

Bob Lefsetz num momento da sua intervenção, ao lado de Marcelo Castello Branco, diretor-executivo da UBC

foto_ Rogério Resende

Bob Lefsetz, um dos mais influentes críticos de música dos Estados Unidos, fez uma análise do mercado fonográfico e, por diversas vezes, usou a indústria do hip hop como exemplo do que vem dando certo por lá. “Eles criaram uma comunidade, e, com a facilidade em distribuir música por causa da internet, as músicas mais ouvidas em streaming são rap”, lembrou. Para o crítico, a grande virada do mercado começou quando a MTV passou a exibir os clipes de Michael Jackson nos anos 1980, o que prejudicou as bandas de rock na sua opinião.

Foram quatro dias específicos para elas, além de oficinas, rodadas de negócios, pitchings (sessões de venda de projetos) e encontros de negócios. As duas últimas jornadas foram abertas ao público e tiveram shows de artistas como Emicida e Francisco El Hombre. Sérgio Sá Leitão, ministro da cultura, participou do painel “Cultura Gera Futuro” e declarou que a sua pasta deve aumentar o investimento no mercado de games, que, segundo ele, já arrecada bem mais do que o audiovisual e a música. “O Brasil é o quarto maior consumidor de games do mundo. Precisamos criar políticas públicas efetivas para esse setor”, afirmou Sá Leitão, que pretende investir R$ 100 milhões na área,

visando também à empregabilidade de jovens de 18 a 25 anos.

CRÉDITOS RETIDOS Houve muitos painéis sobre o mundo da música, e a possibilidade de emplacar uma obra num produto audiovisual, tema quente neste momento, foi debatida, entre outros, por Glória Braga, superintendente executiva do Ecad. Ela falou sobre o crescimento do setor no mundo inteiro, mas destacou o Brasil como grande expoente. No ano passado, o Escritório Central de Arrecadação e Distribuição bateu recorde de distribuição, e metade disso foi para as músicas que fazem parte de filmes, séries ou novelas. A Netflix, por exemplo, é uma das fontes que mais pagam pelos direitos de uso da música.


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A próxima Rio2C já tem data marcada: de 23 a 28 de abril de 2019.

DESTAQUE PARA O DIREITO AUTORAL Marcelo Castello Branco, diretor executivo da UBC, participou de painéis mediando os debates ou colocando sua experiência de anos de atuação na indústria do entretenimento à disposição dos ouvintes. Ele destacou o novo papel do artista musical, que precisa buscar informação para ser beneficiado com as arrecadações de direitos autorais: “Estamos vivendo um momento de autogestão, o músico precisa entender que o trabalho dele tem um impacto econômico que pode beneficiá-lo por toda a vida, inclusive aos seus herdeiros.”

foto_ José Alsanne

Glória também falou do persistente problema dos créditos retidos no Ecad, devidos à falta de documentação. Ela deu dados úteis para tentar evitar o problema. O tom de utilidade para músicos e compositores também marcou a oficina da UBC, em que se ofereceram dicas para compositores que querem aproveitar a expansão dos setores que usam música e tentar emplacar suas canções.

VEJA MAIS Os melhores momentos da Rio2C pelos ‘olhos’ da UBC em vídeos e entrevistas exclusivos ubc.vc/Rio2C

foto_ Murilu Dantas

foto_ Rogério Resende

Acima, a bicicleta da UBC, usada na ação promocional da associação durante o Rio2C; abaixo, um dos muitos espaços ocupados por palestras, colóquios e debates


notícias internacionais 20

por_ Alessandro Soler

de_ Madri

Autores pedem fim da

transferência de valor

O tema da transferência de valor — a concentração dos principais pagamentos nas mãos dos administradores dos serviços digitais em vez da distribuição justa entre os criadores das músicas — continua quente. Uma delegação composta pelo presidente da Cisac, o francês Jean-Michel Jarre, e outros criadores esteve na sede do Parlamento Europeu, em Bruxelas, para defender uma postura mais dura da União Europeia contra as distorções da era digital. A UE debate há anos uma nova lei de direitos autorais que, se bem formulada, poderia dar mais voz aos compositores. “Celebrar e promover a criatividade sempre foram parte do DNA da Europa. Mas, hoje, o continente e o mundo estão vendo o valor do seu trabalho ser injustamente extraído pelas plataformas digitais”, disse Jarre.

China

A bilionária

Se a violação sistemática de direitos autorais e a pirataria dão sinais tímidos de arrefecer na China, o mesmo não se pode dizer da liberdade de expressão, que vive uma ameaça grave. O governo central de partido único deve banir a cultura hip hop da televisão e da rádio no país asiático, alegando que ela representa “valores decadentes” e uma “excessiva ingerência” ocidental na cultura local. De acordo com a revista americana “Time”, o órgão regulador de mídia daquele país publicou uma portaria em que veta tatuagens, música hip hop ou outras “subculturas do gênero”.

A oferta pública de ações (OPA) inicial do Spotify, no último dia 3 de abril, na Bolsa de Nova York, foi uma prova do grande potencial do mundo do streaming aos olhos do mercado. O gigante fechou o primeiro pregão com valor de quase US$ 30 bilhões, o equivalente à soma das três maiores gravadoras do mundo. Enquanto isso, uma decisão recente do colegiado que determina os pagamentos mínimos de direitos autorais nos Estados Unidos, o Copyright Royalty Board (CRB), aumenta em 43,81% ao longo de cinco anos os valores transferidos a compositores e editoras por serviços de streaming e download de músicas. A sentença afeta diretamente Spotify, Apple Music, Pandora e Amazon.

bane hip hop

saída à bolsa do Spotify


FIQUE DE OLHO

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do_ Rio

YouTube fecha

Solução para os

Por Elas

acordo com Ecad e Ubem

cue-sheets avança

Que Fazem a Música

Depois de anos de uma queda de braço que parecia não ter solução, o YouTube admitiu melhorar as remunerações aos compositores brasileiros pela publicação e execução de suas obras na plataforma. O acordo, fechado com o Ecad e a Ubem (União Brasileira de Editoras de Música), estabelece regras claras de pagamento de direitos autorais aos compositores.

As discussões sobre a obrigatoriedade do preenchimento dos cue-sheets pelos produtores audiovisuais como requisito para a obtenção de certificado de produção brasileira avançam, o que deve beneficiar os autores nacionais. Como temos noticiado há meses, existe uma verdadeira força-tarefa na Ancine e no Ministério da Cultura para viabilizar essa obrigatoriedade, pondo fim a falhas na entrega ou no preenchimento das folhas, fundamentais para a distribuição de direitos autorais. Fique ligado no nosso site e nas nossas redes sociais, daremos desdobramentos sobre o tema assim que uma decisão for tomada.

Para comemorar o Dia Internacional da Mulher, em 8 de março, a UBC elaborou o inédito relatório “Por Elas Que Fazem a Música”, no qual analisou dados dos nossos milhares de associados e destrinchou diferenças de gênero, propondo soluções para vencê-las. Segundo o documento, as mulheres recebem, em média, 28% menos do que os homens nas distribuições de direitos autorais e são apenas 10% entre os maiores beneficiados pelos pagamentos. A fim de fomentar o debate, nossa associação foi, ainda em março, até o Women’s Music Event, maior evento sobre o papel da mulher da música, em São Paulo, para apresentar os resultados da pesquisa.

Tanto a entidade que congrega as editoras musicais quanto o Ecad afirmam que o acordo não encerra a luta por melhores condições de remuneração. Os valores de pagamento ainda são unanimemente considerados baixos, dado o gigantismo das plataformas que hospedam as músicas. LEIA mais Na página 38, outros dados que fazem deste um bom momento para a arrecadação de streaming

LEIA mais Releia detalhes sobre os cue-sheets em uma reportagem publicada pela Revista em janeiro passado ubc.vc/35_pg34

VEJA MAIS Um vídeo com depoimentos de criadoras sobre ser mulher na indústria musical, colhidos pela UBC durante o WME ubc.vc/VideoWME


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Clara Nunes Donga Pixinguinha

Elizeth Cardoso João do Vale Heitor dos Praz

Sabotage Tim Maia Cartola Os Tincoãs Rappin’ Hoo

Alaíde Costa Rico Dalasam Chico Cesar Dona Dalva C Itamar Assumpção Marcão Baixada Riachão Paulinho

Jovelina Pérola Negra Tony Tornado Zuzuca Criolo Elz

Braga Marcelinho Moreira Gilberto Gil Mr. Catra Mahmund Falcão Negra Li Dandara Alves Jorge Aragão Arlindo Cruz Léo

Paula Teresa Cristina Russo Passapusso MC Carol Jorge Ben Jor Lec

Silva Mussum Preta Gil Paulinho Camafeu Eliane Dias Alcione Renat

Quebra-Barraco Racionais MCs Macau Tribo Massáhi Marcelo D2 Lápis

Ferreira) Karol Conka Alexandre Pires Martinho da Vila MC Soffia Luiz M

Assumpção Emilio Santiago Macau Sandra de Sá Fat Family Chico Science S

Guineto Quinzinho Paula Lima Ludmilla João Chiador Áurea Martins Só Pre

Negra Jair Rodrigues Ivone Lara Xande de Pilares Geraldo Pereira Claudin

Quim Negro Neguinho da Beija-Flor Wilson Simonal Simoninha Luiz Carlos

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Cidade Negra Gerson King Combo D’Origem Rosa Negra Thiaguinho Carlin Zezé Motta Nelson Sargento Mart’nália Noite Ilustrada Mathias Mariza Black

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(Música Preta Brasileira) Nos 130 anos da abolição da escravidão, a Revista UBC homenageia a riquíssima, imensurável, contribuição africana aos ritmos e sons que fazemos hoje, discute o papel do negro na nossa cultura e relembra grandes nomes que fizeram essa história por_ Gilberto Porcidonio

do_ Rio


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Dos tambores herdados da África, essa mãe com tantos filhos distintos, aos atabaques eletrônicos do funk carioca, a música negra brasileira demonstra sua força através dos tempos. Neste mês de maio em que a abolição de um dos piores crimes já cometidos pela humanidade, a escravidão de seres humanos africanos, completa 130 anos, a Revista UBC homenageia os grandes expoentes que levaram a musicalidade negra a romper os grilhões e chegar a outros patamares.

Mas o que é que define essa tal música negra brasileira? Caçulinha desta família, a paulistana MC Soffia, de 14 anos, já nasceu de um lar empoderado e, para ela, é tudo o que se remete a força, resistência, luta e inspiração. Pudera, a sua referência principal é a da black music americana da nova e da novíssima geração, como Rihanna e Beyoncé, além dos brasileiros Karol Conka, Linn da Quebrada e as rappers do Rimas & Melodias. Mas tudo começou antes, bem antes de ela bombar com o hit “Menina Pretinha” e de agora, aos 14 anos, se ver como cantora e influencer. “Escutei muito a Willow Smith, que era uma menina da minha idade quando a conheci, com 10 anos na época, e isso me contagiou. Não existia uma menina negra que cantava, e isso me inspirou bastante a fazer música pop, a ter cabelos legais...” Ídolo de Soffia, Karol Conka, sem falta modéstia, pontua a riqueza e

a ginga da negritude que ecoa das vozes brasileiras, como a sua. “Os temas falam sobre o cotidiano e a ancestralidade. Dentro disso, a minha música é livre e autêntica. Mergulho em melodias diferenciadas, que têm a ver com minha personalidade”, declara a curitibana, autora do hino “Tombei”, símbolo de um geração empoderada. Cria de São João de Meriti, na Baixada Fluminense, o rapper Marcão Baixada lançou o seu EP, “Vermelho Outono”, em março, e nele narra a saga de um jovem negro que enfrenta a pobreza e a violência no dia a dia. O jovem de 24 anos começou a escrever poemas aos 9 e entrou no mundo do hip hop graças ao basquete, que jogava na Vila Olímpica da cidade vizinha de Nova Iguaçu. Costuma comentar muito com os amigos, principalmente os DJs, sobre os rumos distintos que a música negra brasileira tomou, mas sempre preservando algo em comum.

A partir da esquerda, MC Soffia, Marcão Baixada e Karol Conka: três estilos, três artistas orgulhosos da sua negritude


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“Hoje ela aborda muito a questão da militância mas, ao mesmo tempo, também queremos falar de outras coisas, como a Liniker faz ao também cantar sobre amor. É natural para a gente olhar para dentro. Além disso, o hip hop no Rio de Janeiro era muito segmentado e concentrado na Zona Sul (a mais rica) da capital. Vimos que era possível movimentar a cena local. Assim, lugares perigosos, hoje em dia, são ocupados com arte e festivais. Mostrar essa lógica para quem vive na Baixada é muito importante, trabalha a autoestima e a visão de mundo.”

Os temas falam sobre o cotidiano e a ancestralidade.” Karol Conka

foto_ Paul Pex

Essa visão a que ele se refere revela um processo que tem merecido mais destaque na historiografia brasileira: o negro como um elemento civilizador do país. Dentro de nossa hierarquia racial, ficou entendido durante séculos que o branco era aquele que levou as benesses da civilização para negros e índios (duvida? Pesquise pelos trabalhos de Von Martius). Com este “novo” viés de análise, percebe-se que a cultura negra foi uma das principais


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é justamente esse lugar de fala – ou seria de canto? – que torna a música negra tão única em sua intensidade.

O samba foi um brutal divisor da civilização brasileira.” Macau formadoras da nação brasileira como ela é hoje. Para o cantor e compositor Macau, ela segue construindo essa história, que é infinita. “Considero a música negra brasileira como a cultura negra em si. Ela guarda a história da nossa língua, da nossa política, das relações sociais, do nosso idioma, da nossa vida... E, assim como vieram vários povos africanos para cá, cada estilo de música negra é único. Temos maculelê, maracatu, maxixe, afoxé...” De acordo com o autor do hino “Olhos Coloridos”, que explodiu graças à potência vocal de Sandra de Sá,

em um país que era tão iletrado, ela também tinha a função de ser didática. “Para o negro conseguir estudar por aqui e chegar à faculdade é uma complicação… Assim, vemos a música retratar nosso folclore, nossa história e nossa raiz. O samba, antigamente, contava mais essa história e acabou sendo um divisor, um brutal divisor, da civilização brasileira. O samba foi um marco.” Para Áurea Martins, que tem Alaíde Costa como referência e faz, como muitas cantoras, uma música dotada de profunda passionalidade,

“A música negra é forte. Pela voz do negro, ela lembra de um sofrimento e de uma exclusão que só o negro sabe como é. Quando é tocada ou cantada, seja por Tom, Chico ou Vinicius, e, depois, quando é tocada ou cantada por um negro, ela se torna bem diferente. Johnny Alf, Moacyr Santos, Cartola, Nelson Cavaquinho e muitos outros têm a força e a temporalidade dos grandes gênios mundiais. O que é digno nesses gênios brasileiros é que, apesar de todo o preconceito que sabemos existir, eles se registraram, resistiram e estão aí como referência.”

ESSA TAL BRANQUIDADE Toda essa cultura, de ontem e de hoje, também tem a ver com a busca por uma sociabilidade que se propõe a ser mais comunitária e menos individualista. Já as reações negativas que surgem quando negros se mobilizam, seja nas repressões que castigaram o samba, seja nas que hoje marginalizam o funk, têm nome que aparece até na universidade: branquidade. A professora Sonia Maria Giacomini, do departamento de Ciências Sociais da PUC-Rio, que estudou a Cena Black Rio, se debruça sobre o tema. “Em todo lugar em que existe branquidade, que é o que define o privilégio dos brancos, qualquer forma de organização negra vai ser tachada de racista. Se você pegar toda a arte que coloca negros como incapazes,


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subalternos, hipersexualidados, isso também é a branquidade, e é o que aparece na maioria dos produtos culturais. Dar muita justificativa para essa gente (racista) é uma armadilha, porque se justificar dá mais espaço a essas vozes.” Paraibana de João Pessoa, a cantora e compositora Cátia de França, que vai lançar um disco novo no segundo semestre deste ano, vê a música negra como adereço e remédio contra qualquer tipo de discriminação, como a feita pela branquidade. “Falar nisso já me lembra de quando cheguei ao Rio, em 1972, e tinha o Movimento Black, o Gerson King Combo, o Tim Maia... Hoje eu gosto do Emicida, do Russo Passapusso, da Karol Conka, que acho uma sumidade, do Crioulo, que bota a cara fora do útero e se aconchega no samba. Acho isso de uma coragem incrível, porque o samba é uma confraria, quase que uma maçonaria”, ironiza. Para a compositora de 72 anos, que também é fã do jazz cabeça de Thelonious Monk e de Dizzy Gillespie, o conceito também precisa ser encarado de uma forma bem mais ampla e que abarque também aquilo que não se inspirou nem no samba nem na black music americana, as duas referências mais explícitas da música negra brasileira. “Reginaldo Rossi e Waldick Soriano também são música negra, como não? Eles são um tipo de preto meio ‘flambado’, mas eles são pretos, sim. A música negra brasileira é um baobá. São galhos imensos, e tudo bebe da mesma seiva. É de uma riqueza sem fim.”

Cátia de França (acima) e Liniker (abaixo): duas gerações empoderadas, libertas e com muito o que dizer. Para a veterana paraibana, “a música negra é um baobá. São galhos imensos, e tudo bebe da mesma seiva. É de uma riqueza sem fim.”


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Sons e ritmos atemporais

Esta linha do tempo traz alguns dos nomes marcantes da história da nossa música e a década em que surgiram profissionalmente. Por limitação de espaço, e unicamente por isso, a lista não é ainda maior.

1910

1950 João da Baiana_ Músico, passista e compositor, o carioca balizou o caminho para o samba moderno ao introduzir o pandeiro no ritmo. É autor do megassucesso “Batuque na Cozinha”.

Elza Soares_ Eleita pela rádio BBC a cantora

Pixinguinha_ Maestro, flautista, saxofonista, compositor e arranjador. Graças a ele, o choro encontrou a sua forma atual. “Carinhoso” e “Lamentos” estão entre suas principais composições.

Tim Maia_ O síndico da MPB arrebatou a

brasileira do milênio, surgiu na Rádio Tupi aos 14 anos, deixando o apresentador Ary Barroso sem palavras ao dizer que vinha do “planeta fome”. música brasileira com seu soul carregado de elementos brasileiros, como forró e samba, e com sua postura iconoclasta. É autor de um transatlântico de hits. Johnny Alf_ Um dos pais da bossa nova,

1920 Cartola_ Fundador da Mangueira, cantor, compositor, poeta e violonista. Autor de “As Rosas não Falam” e “O Mundo é um Moinho”, é o retrato da genial junção do lirismo à música popular.

1930 Elizeth Cardoso_ Uma das maiores cantoras da nossa música, imortalizou choros e sambas-canção, como “Mensageiro da Saudade”, de Ataulfo Alves e José Batista, e “Barracão”, de Luís Antônio e Oldemar Magalhães. Luiz Gonzaga_ Colocou o forró, o baião,

o xote e o xaxado nas rádios e TVs do país ao sintetizar a vida do sertanejo em clássicos como “A Vida do Viajante”, “Luar do Sertão”, “Que Nem Jiló” e “Asa Branca”.

1940 Alaíde Costa_ Estrela do mítico Beco das

Garrafas, no Rio, participou, como cantora, do nascimento da bossa nova. Em 2014, lançou seu primeiro disco autoral, “Canções de Alaíde”. Jackson do Pandeiro_ O cantor e compositor

paraibano transitou genialmente entre baião, xaxado e frevo, além do jazz. Baden Powell_ Tido como um dos maiores

violonistas da música mundial, começou a se apresentar cedo, na rádio, aos 10 anos. Com o parceiro Vinicius de Moraes, uniu o samba aos sons do candomblé.

1960

o cantor, compositor e pianista era chamado de “Genialf” por Tom Jobim. Atribui-se a ele a introdução do cool jazz no estilo.

Clara Nunes_ Primeira cantora brasileira a vender mais de 100 mil cópias, evocava a ancestralidade africana e as religiões afrobrasileiras em muitas das suas dezenas de sucessos. Clementina de Jesus_ Neta de escravos,

introduziu cânticos de tempos imemoriais em suas gravações de partido-alto, jongo, curimã, caxambu e lundu. É tida como uma das maiores sambistas de todos os tempos. Gilberto Gil_ Um dos idealizadores da Tropicália, é autor de partituras e letras geniais, conhecido no mundo todo e considerado, com razão, um dos maiores músicos da nossa história. Os Tincoãs_ Virou lenda ao unir cantos das religiões de matriz africana a cânticos católicos e spirituals da tradição negra estadunidense. “Deixa a Gira Girá” é um de seus sucessos, e seus álbuns se tornaram cults. Áurea Martins_ Notável cantora, dividiu os palcos com artistas como Emílio Santiago, Elza Soares, Cauby Peixoto e Milton Nascimento. Jazz e samba-canção povoam seu repertório de grande crooner. Wilson Simonal_ Conquistou os brasileiros ao som de hits como “Mamãe Passou Açúcar em Mim”, “Nem Vem que Não Tem”, “Carango”, “Vesti Azul” e “Sá Marina”.


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Ouça MAIS Na página da UBC no Spotify, uma playlist com canções de grandes artistas negros da nossa música ubc.vc/MusicaPretaBrasileira

1960

1980 brasileira, o paulista ganhou fama na era dos festivais. Dono de uma biografia inimitável, com direito a participação em guerras e aventuras mil pelo mundo, também é ator.

Jovelina Pérola Negra_ Ajudou a levar o samba e o pagode ao salão nobre da MPB. O próprio nome, dado pelo amigo Dejalmir, já insinuava um pré-empoderamento desta baiana do Império Serrano.

Paulinho da Viola_ Ícone da Portela,

Paulinho Camafeu_ Considerado um dos

influenciador de gerações, é autor de um sem-número de hits, como “Foi Um Rio que Passou em Minha Vida”, “Dança da Solidão” e “Coração Leviano”.

pais do axé music, o baiano apresentou o estilo ao mundo ao cocriar hinos como “Fricote” e “Que Bloco é Esse”.

Tony Tornado_ Ícone da black music

Racionais MCs_ Formado pelos MCs Mano Brown, Edi Rock e Ice Blue e o DJ KL Jay, o grupo paulistano levou o rap brasileiro a outros patamares com hits como “Diário de um Detento”, “Homem na Estrada” e “Negro Drama”.

Jorge Ben Jor_ Ás do violão, cantor e

compositor, transita entre soul, samba, samba-rock e ritmos afros. Autor de uma constelação de hits, como “País Tropical”, “Mas Que Nada” e “Taj Mahal”. Milton Nascimento_ Carioca criado em Minas, é um dos formadores do mítico Clube da Esquina, que mistura jazz, rock, música erudita e dos negros mineiros. Um dos maiores cantores brasileiros de todos os tempos.

1990 Chico Science_ Herdeiro da Tropicália por excelência, o pernambucano foi figura seminal do movimento manguebeat ao unir os timbres do metal alternativo, do funk e do hip-hop a maracatu, ciranda e frevo.

Luiz Melodia_ Ator, cantor e compositor,

estourou com a gravação de sua música “Pérola Negra” por Gal Costa e com a gravação de “Estácio, Holly Estácio” por Maria Bethânia. Cravou, ele mesmo, um estilo único de cantar.

1970 Tribo Massáhi_ Outrora obscuro, esse

Claudinho & Buchecha_ Sucesso absoluto na TV e nas rádios, ajudaram a tornar o funk mais palatável à classe média. Tiveram algumas de suas canções, de letras e sons elogiados, gravadas por Lenine e Adriana Calcanhotto.

2000

grupo experimental encabeçado por Embaixador tem, em seu álbum afroprogressivo “Estrelando Embaixador”, um ícone disputadíssimo em leilões. Itamar Assumpção_ Pertencente à geração que transformou São Paulo em um caldeirão de música de vanguarda, misturava poesia, declamação, performances cênicas e jogos de palavras em meio a um sem fim de ritmos. Banda Black Rio_ Fundada pelo saxofonista

Oberdan Magalhães, sobrinho do também genial sambista Silas de Oliveira, marcou para sempre a cena soul brasileira com uma fileira de grandes hits.

Rincon Sapiência_ Um dos pontas de lança

da novíssima geração rapper paulistana. “Elegância”, “Linhas de Soco”, “Ponta de Lança”, “Afro Rep” e “A Coisa Tá Preta” são alguns de seus sucessos.

2010 Karol Conka_ A rapper paranaense é a cara desse saudável momento de empoderamento da mulher — principalmente da mulher negra — que mostra ter vindo para ficar.


Entrevista 30

MA RI NA


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Radicada em São Paulo, a carioca lança novo álbum, em que se reencontra com as sonoridades e as instabilidades do Brasil e reconfigura sua parceria histórica com o irmão Antonio Cicero por_ Gilberto Porcidonio do_ Rio fotos_ Rogerio Cavalcanti

Com mais de 35 anos de carreira e 21 discos, Marina Lima retorna ao palcos, à web e às rádios com o álbum “Novas Famílias”. Lançado em março, o trabalho permeia as sonoridades do Brasil em meio a um momento em que o próprio país tenta se mover - dançando ou não - entre turbulências sociais e políticas. À Revista, a cantora e compositora carioca radicada há sete anos em São Paulo conta como foi conceber esse novo trabalho e reconfigurar sua relação com o irmão Antonio Cicero, diretor da UBC e imortal da Academia Brasileira de Letras. Quem são essas “novas famílias”? Nossa, são tantas pessoas diferentes que eu venho conhecendo Brasil afora… Amigos novos, músicos novos, pessoas de longe também... Porque a internet permite fazer amigos virtuais que acabam sendo importantes na musicalidade, nos ritmos novos. E também tem a de sangue, que já foi quase toda, mas que tem meu irmão Antonio Cicero, que ainda resta, além de alguns grandes amigos que são para sempre. Essa sua retomada com o seu irmão imortal, como se deu? Foi bacana. O Cicero agora mora no Rio, e eu em São Paulo, daí tiramos uma semana para a gente se encontrar, conversar e eu mostrar

as canções que tinha interesse em compor com ele, que eu já tinha meio que começado. A gente ficou essa semana no Rio, na casa dele, retomando a parceria, conversando, compondo… Foi ótimo. Eu adoro compor com o meu irmão. E como foi o seu processo de composição para o novo álbum? Foi devagar, fui vendo que eu tinha um disco aos poucos e observando as coisas que me interessavam no Brasil musicalmente. Então, foi uma junção de vários ritmos brasileiros que me interessam, como funk, samba e tecnobrega, tudo misturado com o meu estilo.

Tenho uma alegria enorme de fazer parte do cancioneiro brasileiro.”


Entrevista 32

foto_ Thereza Eugênia

que caiu matando em cima do povo. Menos dinheiro, menos escolas, menos planos de saúde, o país todo meio abandonado, o (presidente Michel) Temer querendo se candidatar... Em que país ele vive? Ele sabe que todo mundo o odeia? Foram esses políticos que endureceram.

Marina ao lado irmão Antonio Cicero durante a posse dele na Academia Brasileira de Letras, no último dia 16 de março. Diretor da UBC, agora imortal, é um dos principais letristas das canções da compositora e cantora, que comemora a retomada da parceria: “Eu adoro compor com meu irmão”

Sente que os coxinhas se irritaram mais por “Só os Coxinhas” (canção do álbum) falar deles ou por ser um funk? Alguns coxinhas se irritaram, mas sabe o que acontece? Essa música nem é uma agressão, é um deboche, uma curtição, e ser coxinha não é um privilégio de direita, não: tem gente chata e careta em qualquer lugar. Agora, a quem vestiu a carapuça eu não posso fazer nada (risos). Sente que as música brasileira endureceu mais o seu discurso estes anos? Não sei se eu sinto isso. Eu acho que quem endureceu mais foi essa minoria (de políticos)

Como tem encarado essa sonoridade típica do pop radiofônico, que você tanto consagrou, retornando aos poucos aos palcos? Muito bem. Muita gente tem história com a minha música, faz parte do inconsciente coletivo. Então tem muita coisa para tocar. Eu escolhi seis das nove canções do disco novo para os palcos. Tenho uma alegria enorme de fazer parte do cancioneiro brasileiro. Existe amor em SP? Existe. São Paulo, a cidade, é muita dura. Ela é de concreto, é fria, seca, úmida, tudo meio de ruim, mas as pessoas daqui, paulistas e adjacentes, são de uma generosidade com quem chega que é o que torna essa cidade bacana. São as pessoas. E no Rio atual? O Rio está muito castigado, né? Mas é também a cidade de todos os brasileiros. É um orgulho do Brasil, a porta de entrada. É a hora de a gente se unir também para ajudar o Rio a sair desse lugar em que ele entrou. O Brasil inteiro tem que ajudar nesse processo porque ele merece. Para você, o pop brasileiro ficou mais pobre ou foi o pobre brasileiro que ficou mais pop? Acho que o Brasil ficou mais pobre. Temos muita ginga, suingue, talento. E merecemos ser um grande pais. Eu estou torcendo e lutando por isso, junto de milhares de pessoas boas da música e de várias áreas. Também conto com vocês, da UBC, para isso.


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O Brasil ficou mais pobre. Merecemos ser um grande país.”

LEIA mais Antonio Cicero, irmão de Marina, toma posse na ABL ubc.vc/CiceroABL


CARREIRA 34

Cearรก foto_ Luiz Alves

acelerado


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Instituto Dragão do Mar lança projeto para revelar novos talentos, gravá-los com qualidade profissional, distribuí-los digitalmente e oferecer acompanhamento em todas as etapas; próxima edição pode abarcar outros estados de_ Fortaleza

Líder jangadeiro, ferrenho abolicionista e herói nacional, Francisco José do Nascimento, conhecido como Dragão do Mar, contribuiu para fazer do Ceará a então província pioneira do Império em abolir a escravidão, em 1884. Duas viradas de século depois, uma das principais instituições culturais cearenses, que leva seu nome, dá seu quinhão para abolir a era da produção concentrada no surrado eixo Rio-São Paulo, ajudando a fomentar a criação local.


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A iniciativa levada a cabo com essa intenção pelo Instituto Dragão do Mar, administrador do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, na mítica Praia de Iracema, é o Porto Dragão Sessions. Trata-se de uma aceleradora de projetos artísticos musicais, cuja primeira turma vai de vento em popa. A ideia é oferecer um pacote completo a novos nomes da música: produção, gravação, distribuição em canais digitais, turnê. Senhor empurrão que todo artista sonha em ganhar. Entre 133 inscritos, os curadores Fabiana Batistela, Arthur Fitzgibbon, Alexandre Matias, Pena Schmidt, Roberta Martinelli e Daniel Ganjaman escolheram 15 vencedores, anunciados no início de fevereiro. Casa de Velho, Daniel Groove, Erivan Produtos do Morro, Ilya, LPO, Oto Gris, Procurando Kalu, Projeto Rivera, Selvagens à Procura de Lei, Soledad, Astronauta Marinho, Danchá, Jonnata Doll e Os

O Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, inaugurado em 1999, é um dos maiores do Brasil. Em seus 30 mil metros quadrados, abriga museus, teatros, cinemas, auditórios, salas de exposições e um parque. O projeto, que une uma estrutura contemporânea a um conjunto de casarões coloniais e, antes, abandonados da Praia de Iracema, foi obra de Fausto Nilo, compositor, arquiteto e associado à UBC, e de Delberg Ponce de Leon. “Creio que o desafio programático original do Dragão, que incluiu a interatividade entre o público e a edificação, são a inclusão social com base diversificada, a inovação e, acima de tudo, manifestar o descomplexo com respeito à nordestinidade redutora e demagógica”, diz Fausto. “Daí ser (o projeto) mais um passo para apoiar oportunidades de inserção contemporânea dos novos talentos do Ceará. Estão de parabéns.”

Garotos Solventes, Lorena Nunes e Maquinas foram as bandas/artistas/ projetos que ganharam o direito de gravar, com qualidade e produção profissionais, dois singles cada. Também vão aparecer num programa de TV e gravarão videoclipes. “A gente já diagnosticou a transformação na indústria fonográfica por causa das mudanças tecnológicas. O processo de visibilidade se dá através da web, do Spotify, do YouTube... Por isso, além das gravações do disco e dos programas, ainda vamos colocar as músicas dos vencedores nas plataformas digitais”, conta Paulo Linhares, presidente do Instituto Dragão do Mar. “Fizemos também parcerias com o Sesc e o Itaú Cultural para levar a São Paulo a Temporada Dragão do Mar de Música Cearense, que combinará os vencedores do Porto Dragão Sessions com nomes


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consagrados da música daqui, como Catatau (Cidadão Instigado) e o rapper Don L.” Um dos premiados, o rapper Erivan Produtos do Morro celebra a visibilidade que está ganhando. “Para qualquer artista, essa é uma oportunidade massa. Moro na favela, no Morro do Castelo Encantado. Não tenho condições de gravar clipe e música com essa qualidade, produzidos por gente do quilate de Ganjaman (produtor, entre outros, do rapper Criolo) ou do Yuri Kalil (Cidadão Instigado). Além de tudo, tive sorte por ser um rapper, alguém

Estimulado pelo projeto, Erivan está abrindo um selo próprio, o Produtos do Morro Rec, com nobre missão: ajudar companheiros da cena rap local a se profissionalizar. “Queremos levar essa música inventiva, criativa, que se faz aqui às plataformas digitais e cadastrá-la para receber direitos autorais. A UBC tem um papel fundamental nisso. Eu era associado a outra, que só me dava dor de cabeça; dinheiro, não. Mudou completamente ao mudar para a UBC, não só pela atenção e o profissionalismo, mas pela vontade de informar, de orientar. Agora, eu mesmo estou replicando isso aqui”, ele diz.

que faz uma música fora do foco normal aqui no meu estado e que vai ganhar projeção, podendo até abrir caminho para a rapaziada e estimulála a participar de iniciativas assim.” A banda Projeto Rivera, outra que vai fazendo seu nome no Ceará, com shows para até 8 mil pessoas, igualmente comemora a chance de ter acesso a uma estrutura profissional e um acompanhamento completo da produção. “O Dragão do Mar já vem se destacando no cenário nacional com o festival Maloca, que é gigantesco. Agora, essa aceleradora que junta rock, pop, marimba, rap e muitos outros estilos é um passo além. Não conheço outra iniciativa dessa natureza no Brasil. Precisamos de muitas mais”, afirma o guitarrista Flávio Nascimento. Se depender do próprio Dragão do Mar, o desejo de Flávio será atendido. “Sempre trabalhamos com a visão de abrir para outros estados, pretendemos isso. Temos uma missão de liderar um processo de deslocamento de eixo e de mentalidade”, antecipa Paulo Linhares. Márcia Xavier, gerente da filial da UBC em Recife, que atende aos associados cearenses, celebra essa possibilidade: “O projeto é sólido, bem estruturado, promissor. Que ajude a movimentar a cena cearense e nordestina como um todo, espalhando uma nova lógica de produção.”


ARRECADAÇÃO 38

Momento especial para o

di gi tal

Ecad fecha acordo com gigantes do streaming, e STF ratifica decisão que reconhece esses serviços como execução pública; ambas decisões ampliam ganhos dos titulares por_ Elisa Eisenlohr

do_ Rio

Este é um momento especial para quem distribui suas músicas nas plataformas digitais. O Ecad fechou recentemente acordos com os gigantes Netflix, Spotify, Deezer, Apple Music, Napster e YouTube para o pagamento de direitos autorais. E, para não restar mais dúvidas, o Supremo Tribunal Federal (STF) acaba de chancelar decisão anterior do Superior Tribunal de Justiça (STJ) que reconhece o streaming como execução pública. Isso significa que os associados da UBC que têm músicas nessas plataformas digitais passarão a receber pagamentos de direitos de execução pública, agora arrecadados pelo Ecad e distribuídos por nós. Também continuarão a receber normalmente seus direitos de reprodução, estes pagos pela

gravadora, a editora ou o agregador digital que os representa nas empresas de streaming. No ambiente digital, é assim mesmo: os direitos autorais se misturam. No streaming, estão presentes direitos de reprodução, distribuição e execução pública, por exemplo, e estes direitos são arrecadados por diferentes players do mercado, razão pela qual o titular acaba recebendo de fontes variadas.

Somente direitos autorais Para ficar num exemplo que ilustra a complexidade desses pagamentos, os produtores fonográficos afiliados à Pro-Música e à ABMI fizeram uma ressalva em seus contratos com as associações de gestão coletiva na parte que se refere à arrecadação de streaming em serviços como Spotify e YouTube. A gestão dos direitos de execução pública para produtores fonográficos passa a ser feita por eles próprios, e não pelo Ecad. Por este motivo, o Ecad não tem acordo com as plataformas digitais para direitos conexos (o de músicos, intérpretes e produtores), distribuindo os valores devidos unicamente aos autores das obras.

A importância da união A gestão coletiva de direitos autorais é um mecanismo eficaz que gera


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equilíbrio nas relações de negócios entre os múltiplos titulares de direitos autorais e os usuários de música. Para quem usa música, é muito mais fácil licenciar com uma única fonte do que com diversos titulares. Por sua vez, os artistas ganham poder de barganha ao se unir para conquistar uma relação de preço mais saudável. Por este motivo, a pacificação do tema sobre a cobrança de streaming pelo Ecad foi tão celebrada. Em um mundo digital em que o poder de estabelecer o preço está no usuário final — o consumidor, que exige um serviço para ouvir música da forma que quiser e pagando o mínimo

possível —, é fundamental ter uma entidade forte para negociar com os gigantes da indústria musical.

Como é feita a distribuição? Os valores arrecadados das plataformas de streaming são distribuídos com base no número de vezes que o usuário ouviu cada faixa em relação à receita arrecadada naquele mesmo período. Por isso, a cada distribuição, o valor do ponto será diferente. A distribuição é trimestral e ocorre nos meses de fevereiro, maio, agosto e novembro, sempre com relação aos pagamentos recebidos nos 3 meses anteriores.


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Da plataforma ao autor Veja como funciona o fluxo de pagamento dos direitos das plataformas de streaming. Os números, aproximados, se referem, segundo entrevistas com fontes do mercado, à realidade do Spotify, podendo variar nas outras plataformas.

Spotify Netflix Deezer Apple Music YouTube Napster outros

Da receita líquida de impostos, taxas de cartão de crédito etc.,

30%

58%

12%

(

ficam para a própria plataforma

para direitos conexos (pagos a agregadoras digitais e gravadoras)

PARA DIREITOS AUTORAIS (pagos a editoras, agregadores digitais e Ecad) 25% para direitos de execução pública 75% para direitos de reprodução

)


Comunicado UBC 42

Associações que receberam acima R$ 4 milhões: Complemento de R$ 3 milhões (em 12 parcelas). O equivalente a uma distribuição não realizada de R$ 51 milhões.

ASSEMBLEIA GERAL DO ECAD CRIA FUNDO DE AJUDA PARA AS ASSOCIAÇÕES. A UBC É CONTRA A UBC foi o único voto vencido em uma decisão inusitada tomada pela assembleia geral formada pelas associações que compõem o ECAD, que criou uma nova forma de fazer o repasse de suas taxas de administração. Um valor fixo será repassado às associações para custeio operacional, somando-se ao percentual sobre a distribuição de seus titulares ao qual já fazem jus. Esta medida foi aprovada por seis votos entre as sete associações do ECAD (Abramus, Amar, Assim, Sbacem, Sicam e Socinpro). A UBC foi o único voto contrário. Até então, o percentual societário de 5% destinado ao custo operacional das associações era reservado em uma conta contábil, e o repasse desse montante só era feito depois da efetiva distribuição aos titulares

dos valores arrecadados. Porém, com a criação desta nova regra, até 30% do saldo dessa conta serão utilizados como complemento do percentual societário, a título de adiantamento e sem regras definidas de recuperação, seguindo as faixas abaixo, relativas ao percentual societário recebido no ano anterior:

Associações que receberam até R$ 1 milhão: Complemento de R$ 960 mil (em 12 parcelas). O equivalente a uma distribuição não realizada de R$ 16,3 milhões.

Associações que receberam até R$ 4 milhões: Complemento de R$ 1,56 milhão (em 12 parcelas). O equivalente a uma distribuição não realizada de R$ 26,52 milhões.

Na prática, o valor total desse complemento será de quase R$ 12 milhões em 2018, uma vez que a UBC não receberá este dinheiro. Os valores de janeiro, fevereiro e março já foram depositados retroativamente. A distorção desta medida permite que uma associação receba elevadas quantias sem estabelecer regras de recuperação ou contrapartidas nem, tampouco, determinar como isso se refletirá em benefícios para os titulares que representa. A UBC não concorda com essa invasão na proporcionalidade da distribuição que, até hoje, vem traduzindo a legítima representação das associações. Reiteramos neste comunicado nosso repúdio à regra aprovada, informando, mais uma vez, que não aceitaremos receber essa verba. Entendemos ser indevido o seu pagamento e questionamos suas implicações éticas, legais e tributárias, ainda a serem responsavelmente estudadas. Nossa prioridade é o respeito ao mandato que recebemos de nossos autores e titulares de direitos autorais, e nossa remuneração será, como sempre, resultado da representação que alcançamos, produto da qualidade dos serviços que oferecemos.


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Revista UBC #36  

A Revista UBC é uma publicação trimestral direcionada a quem faz música.

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