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#35

LU AN SAN TA NA

FEVEREIRO 2018

Responsável por fusões e parcerias que transformaram o sertanejo num fenômeno nacional, ele agora quer ganhar o mundo

Hip = Hop A plural e poderosa cena rap brasileira


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IZA canta durante a homenagem a Gil no Prêmio UBC

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A plural e poderosa cena rap brasileira


#35

FEVEREIRO 2018

RE VIS TA

A Revista UBC é uma publicação da União Brasileira de Compositores, uma sociedade sem fins lucrativos que tem como objetivos a defesa e a distribuição dos rendimentos de direitos autorais e o desenvolvimento cultural.

Conselho Fiscal Geraldo Vianna Edmundo Souto Manno Góes Fred Falcão Sueli Costa Elias Muniz Diretor executivo Marcelo Castello Branco Coordenação editorial Elisa Eisenlohr Assistente de coordenação editorial José Alsanne Projeto gráfico e diagramação Crama design estratégico Editor Alessandro Soler (MTB 26293) Textos Alessandro Soler (São Paulo e Madri), Andrea Menezes (Brasília), Kamille Viola (Rio de Janeiro), Lúcia Mota (Nova York), Ricardo Silva (São Paulo) e Roberto de Oliveira (Rio de Janeiro) Foto de capa Will Aleixo Correção Diferentemente do que publicamos na última edição, no rateio da distribuição de Rock in Rio o percentual relativo ao Palco Sunset foi de 20%. Tiragem 8.500 exemplares/Distribuicão gratuita Rua do Rosário, 1/13º andar, Centro Rio de Janeiro - RJ, CEP: 20041-003 Tel.: (21) 2223-3233 atendimento@ubc.org.br

por_ Paulo Sérgio Valle

Quando cheguei pela primeira vez à Rosário 1, nova sede da UBC, e olhei pela janela, vi o mar e os aviões pousando no Santos Dumont. Aos 77 anos, lembrei-me de tantas coisas que já fiz nesta vida. Em seguida, olhei para a frente e vi a Diretoria da União Brasileira de Compositores chegando. Pensei comigo: como diretor-presidente da UBC, começo uma nova vida.

Editorial

Diretoria Paulo Sérgio Valle (Presidente) Abel Silva Antonio Cicero Aloysio Reis Ronaldo Bastos Sandra de Sá Manoel Nenzinho Pinto

Com meus maiores, aprendi que quem chega, antes de dar opinião, deve ouvir os que já estão. E assim o fiz. Pouco a pouco, em frequentes reuniões com meus companheiros, fui me enfronhando em nossos objetivos e também em nossos problemas. Claro que existem problemas, pois lidar com questões tão complexas como o direito autoral não há de ser coisa fácil. Guardei desde o início as palavras do nosso diretor-executivo, Marcelo Castello Branco: “Este é um mandato de grande responsabilidade em um mundo dinâmico e mutante.” E, como tal responsabilidade se reparte entre todos nós, diretores e demais membros da equipe, eis que resumo o que colhi na oitiva: • Nosso objetivo maior são uma distribuição e uma remuneração cada vez mais importantes para os nossos titulares de direitos. • Que o papel fundamental do autor seja cada vez mais respeitado pelos governos e a sociedade. • Que, no mundo digital, o autor resgate sua visuabilidade, na inclusão de seu nome nos créditos das músicas nas plataformas. • Contribuir para uma distribuição mais justa e igualitária de todos os direitos que envolvem uma obra musical. • Lutar pelo direito autoral, já que o instituto da propriedade intelectual sofre ataques constantes de várias frentes. • O papel fundamental da UBC é o de representação de um coletivo imenso de titulares, autores, artistas, produtores e músicos na conscientização, informação e propagação de seus direitos. Tenho certeza de que nosso inesquecível presidente Fernando Brant há de nos inspirar em nossa missão.


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JOGO RÁPIDO: Iza NOVIDADES NACIONAIS NOTÍCIAS INTERNACIONAIS CaSA UBC: Noite de festa FIQUE DE OLHO CARREIRA: Internacionalização CAPA: Luan Santana Pelo País: Hiphop.br HOMENAGEM: Geraldo Pereira MERCADO: Cue-Sheets DESTAQUE: Abel Silva e Roberto Menescal NOVA CENA: Onda Latina DISTRIBUIÇÃO: Relatório CISAC 2017 DÚVIDA DO ASSOCIADO

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jogo rápido 5

A revelação IZA se prepara para lançar seu álbum de estreia e já coleciona números e conquistas por_ Kamille Viola

do_ Rio

Do na da voz

Prestes a lançar pela Warner seu álbum de estreia, “Dona de Mim”, a carioca IZA já tem muito a comemorar. Com apenas alguns singles na praça, ela faz barulho com sua mistura de pop e R&B e um vozeirão notável. Só o clipe de “Pesadão”, com participação de Marcelo Falcão, já passa de 53 milhões de visualizações. Ela também venceu a primeira edição do Prêmio Women’s Music Event, na categoria revelação, e chamou atenção no Rock in Rio e abrindo para o Coldplay em São Paulo. Como foi participar do Rock in Rio ao lado do CeeLo Green? Foi incrível! Eu não conhecia o CeeLo, só o trabalho dele. Quando o Zé Ricardo (diretor do Palco Sunset) pensou em mim para fazer esse dueto, fiquei muito lisonjeada. Absorvi muita coisa com ele, foi uma experiência sem igual.

O que pode adiantar sobre seu álbum de estreia? E para quando ele está previsto? Sai em breve, e eu estou muito feliz com o andamento dele. O público pode esperar músicas que definem a minha voz e quem eu sou. Há uma mistura de emoções que se complementam. O ano de 2017 foi bastante agitado na sua carreira. Mas, se pudesse destacar um momento mais importante, qual seria? Um de que eu gostei demais foi abrir o show do Coldplay (em São Paulo, em 7 de novembro). Foi como um sonho realizado, e eu não tenho palavras para descrever a sensação de estar lá, mostrando a minha música para toda aquela gente. VEJA MAIS A participação de IZA na homenagem a Gilberto Gil durante o Prêmio UBC ubc.vc/IZAPalco


NOVIDADES nacionais 6

por_ Kamille Viola

do_ Rio

O Rappa,

O Rappa lançou o último projeto antes da pausa anunciada: o CD e DVD “Marco Zero”, registrado ao vivo em Recife, em pleno carnaval, quando o grupo se apresentou para 300 mil pessoas. São 19 faixas, entre elas “Boa Noite Xangô”, que conta com a participação do pernambucano Lula Queiroga, parceiro da banda na composição. Clássicos como “Pescador de Ilusões” e a versão do Rappa para “Vapor Barato” (de Jards Macalé e Waly Salomão), além de sucessos recentes, entre eles “Anjos” e “Auto-Reverse”, também estão no repertório. O DVD mostra Marcelo Falcão, Lauro Farias, Marcelo Lobato e Xandão tocando para a multidão sob a chuva e até depois do nascer do sol. “Esse DVD é o que a gente é, o que fazemos toda noite. Nada diferente disso”, resume o guitarrista Xandão.

Karine Carvalho:

assume sua persona cantora “Galega Hits” é o primeiro álbum de Karine Carvalho, com canções compostas pela cantora ao longo de oito anos e produção de Estevão Casé, Eduardo Manso, e Gabriel Bubu. A ideia surgiu durante as gravações do disco “Na Confraria das Sedutoras” (2008), do projeto 3 Na Massa, de Pupillo e Dengue (Nação Zumbi) e Rica Amabis (Instituto), em que cantoras e atrizes interpretaram as canções. Karine gravou “Tatuí”, de Rodrigo Amarante, seu então marido. “Quis inventar minha vida e resolvi me embrenhar na dor e na delícia de fazer o próprio disco autoral, o ‘Galega Hits’”, comenta Karine. “Galega é o apelido que me foi dado quando fui para o Ceará, terra dos meu pais e minha terra de coração. Desde que me entendo por gente, sempre estive envolvida com atividades artísticas. Mesmo quando criança, quando me perguntavam o que eu queria ser quando crescer, eu já respondia: vou ser a Madonna”, ela ri.

foto_ Jorge Bispo

na rua, na chuva e sob sol do Recife


REVISTA UBC

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A poesia cotidiana de

A cantora e compositora paulistana Anelis Assumpção lança seu terceiro álbum solo, “Taurina”. As canções passeiam por temas como amor, morte, saudade e brincadeiras com detalhes do cotidiano, bem à moda do pai de Anelis, Itamar Assumpção (1943-2003). O primeiro single a ser lançado, “Receita Rápida”, por sinal, foi uma canção dele em parceria com Vera Lúcia Motta que não chegou a ser gravada por ele, apenas por Alzira Espíndola, no disco “Peçam-me” (1996). A faixa conta com a participação de Céu e Thalma

de Freitas (parceiras de Anelis no projeto Negresko Sis), e seu clipe saiu em outubro passado. “Ela conversa poeticamente com todo o resto do álbum”, disse a cantora ao jornal “Folha de S. Paulo”. É a única que não foi composta por Anelis, sozinha ou com parceiros como a irmã Serena Assumpção (1977-2016), com quem fez “Chá de Jasmim”; Ava Rocha (“Mortal à toa”); Russo Passapusso (“Caroço” e “Amor de vidro”, dele e de Anelis e Saulo Duarte); Rodrigo Campos (“Água”) e João Donato (“Escalafobética”).

CD e DVD antes de parar

foto_ César Ovalle

NX Zero:

foto_ Caroline Bittencourt

Anelis Assumpção

O grupo NX Zero comemorou em 2017 seus 16 anos de carreira e anunciou que entrará em recesso em 2018. O último lançamento antes dessas “férias”, em que cada um vai se dedicar a projetos pessoais, foi o CD duplo e DVD “Norte Ao Vivo”. Di Ferrero (vocal), Gee Rocha (guitarra), Fi Ricardo (guitarra), Caco Grandino (baixo) e Daniel Weksler (bateria) apresentam 24 músicas em quase duas horas de show. A maior parte do repertório vem do disco de estúdio mais recente, “Norte”— lançado em 2015 e que marca uma mudança na sonoridade do grupo, menos marcada pelo emocore —, com faixas como as roqueiras “Modo Avião” e “Por Amor” e a balada “Maré”.“Razões e Emoções”, sucesso de 2007, é das poucas antigas, assim como “Só Rezo” (2009), outro hit.


NOVIDADES nacionais 8

Larissa Manoela

ao vivo para multidão

O tesouro escondido de

Antonio Carlos Tatau Integrante do grupo Êxodus, criado no início dos anos 70 em Juazeiro (BA), terra de João Gilberto, Antonio Carlos Tatau resolveu encerrar precocemente sua carreira musical em 1976. Formado em administração de empresas, seguiu trabalhando em projetos culturais, mas sem tocar ou cantar. Seu lado artístico, no entanto, jamais adormeceu. Agora, aos 61 anos, ele lança o disco “A Lida dos Anos”, seu primeiro trabalho inédito e autoral, recebido com entusiasmo pela crítica. “O bom é que continuei compondo, tocando e procurando melhorar, para,

Fenômeno entre adolescentes e pré-adolescentes, a cantora e atriz Larissa Manoela, de 16 anos, coleciona números impressionantes nas redes sociais: tem mais de 12,4 milhões de seguidores no Instagram, quase 3 milhões de seguidores no Facebook e mais de 1,2 milhão de inscritos em seu canal no YouTube. “O apoio dos meus fãs é um dos melhores possíveis, porque sei que, mesmo de longe e não tendo contato pessoalmente, eles estão sempre ao meu lado e me dando toda a força de que preciso”, derrete-se. A cantora teen acaba de lançar seu primeiro DVD, “Up Tour”, gravado no Arraiá do Galinho, em Salvador, quando ela se apresentou para mais de 20 mil pessoas. Entre as 21 faixas, estão “Meu Pacto” e “No Olhar”, da trilha de “Meus 15 Anos — O Filme”, que Larissa estrelou, além de “Boy Chiclete”, “Admirador Secreto” e “Ela Quer Ser Alguém”, que contou com a participação do cantor Daniel.

no momento certo, fazer o trabalho bem feito”, afirma. Hoje dividindo-se entre Juazeiro e Salvador, ele conta que pretende levar o show para outros cantos do país e seguir com a carreira musical. “Na verdade, já há algum tempo eu ensaiava essa retomada. De certa forma, o senso crítico estava falando mais alto. O certo é que a hora era essa.” As músicas, como ele diz, “dão uma geral” na sua vida musical. A mais antiga, “Nas Águas de Outro Amor” (parceria com Théa Lúcia), é de 1972. “Canção Para João”   (com Euvaldo Macedo Filho e Marcos Roriz) é de 1975. Então vem um salto para os anos 2000, com parcerias com Expedito Almeida (são seis, como “A Lida dos Anos” e “Minha Vida”). A mais recente é “Um Bolero a Mais”, com Ronaldo Bastos.


REVISTA UBC

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As andanças de

Renato Godá

Onze canções inéditas e uma linha firme que as costura: as vivências de Renato Godá. O cantor e compositor paulistano lança o álbum “Nômade” depois de um período de reflexão que se seguiu ao diagnóstico de autismo do filho menor. “Foi uma época estranha e nova. O disco começou a ser escrito quando eu fiz 45 anos, gravei aos 47. Diria que, na metade da minha vida, vivo uma fase de muitos questionamentos. Inevitável ser autobiográfico”, define. As citações folk, a influência da chanson francesa, o tempero algo jazzístico e as raízes brasileiras permeiam sua obra, dando fé de suas andanças físicas e estéticas. “Hoje tenho endereço, família, mas a maior parte da minha vida não foi assim. Para um compositor no começo de carreira sobreviver, precisa ser nômade. Minhas referências vêm de muitas partes, mas a maior é o que eu sinto e vejo, o que acontece por perto. Esta é, faz tempo, minha maior matéria-prima.”

Maria Rita celebra

15 anos de carreira com álbum novo

No ano em que comemora 15 anos da sua estreia em disco, Maria Rita lança o álbum “Amor e Música”. O samba dá a tônica do álbum, que traz 12 faixas, sendo duas de Arlindo Cruz (“Saudade Louca”, com Acyr Marques e Franco, e “Cara e Coragem”, com o marido Davi Moraes). O sogro Moraes Moreira marca presença como autor da faixa-título, ao lado de Luiz Paiva, e de “Nos Passos da Emoção”, dele com Davi Moraes, Marcelinho Moreira e Fred Camacho. Marcelo Camelo comparece com “Pra Maria”, escrita para a artista. A produção é da própria Maria Rita, com coprodução de Pretinho da Serrinha em cinco faixas. Em julho do ano passado, a cantora chegou a gravar um DVD com parte do novo repertório, mas acabou cancelando o projeto devido a problemas técnicos.


notícias internacionais 10

de_ Madri

Spotify x artistas:

novo round O músico americano Blake Morgan publicou um artigo no portal Huffington Post em janeiro descrevendo uma ácida discussão sua com executivos do Spotify. Em seguida, o texto foi “despublicado”, o que contribuiu para viralizá-lo. Morgan disse ter sido convidado a visitar a companhia. O debate se deu, segundo conta, quando os executivos demonstraram não entender que o produto que comercializam é música. “Eles insistiam que o produto é o Spotify”, afirma Morgan. “É como se o Starbucks dissesse que não vende café, mas sim o próprio Starbucks.” No texto, ele sugere: “Parem de chamar seus assinantes de usuários. Eles são os nossos ouvintes. Os usuários são vocês (Spotify), que usam nossa música para aumentar seus lucros.” Segundo o HuffPost, o artigo foi tirado do ar por “impossibilidade de checagem” dos fatos. O Spotify não se pronunciou.

Um gigante

Nova e polêmica

O Spotify registrou em segredo, em janeiro, sua oferta pública inicial de ações na comissão de valores mobiliários dos EUA. O valor a ser captado não foi divulgado. Até o ano passado, o gigante sueco valia US$ 19 bilhões. Também em janeiro, a editora Wixen Music Publishing anunciou que processa a plataforma em US$ 1,6 bilhão por uso de músicas de Tom Petty, Neil Young e The Doors sem licença.

A proposta de uma nova Lei de Gestão Coletiva a partir de preceitos recomendados por Bruxelas desatou a polêmica em Portugal, onde a SPA (Sociedade Portuguesa de Autores) denuncia alguns pontos que significam ingerência na sua administração. “Pela proposta, membros ou não da SPA podem, através de procuração, delegar o poder de voto e intervenção em nossas assembleias a até cinco membros. Igualmente, não membros passariam a poder se candidatar aos apoios culturais. Não podemos permitir que pessoas externas à cooperativa, com interesses menos dignos ou legítimos, tenham direitos sobre ela”, afirma seu presidente, José Jorge Letria, que tem mantido contatos com o governo do primeiro-ministro António Costa para tentar barrar de vez a norma.

em busca de dinheiro

lei em Portugal


REVISTA UBC

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ubc no mundo Diretores da UBC em

encontros internacionais Marcelo Castello Branco, nosso diretor-executivo, participou da reunião do conselho de administração da Cisac (Confederação Internacional de Sociedades de Autores e Compositores), no início de dezembro, na Cidade do Cabo, na África do Sul. Na ocasião, foram debatidos os resultados da confederação no ano e estabelecidas as estratégias para 2018.

Caráter estratégico, com foco na Ásia, teve também o congresso do Conselho Internacional de Autores de Música (Ciam), realizado em novembro, em Tóquio. O encontro entre representantes de entidades de criadores do mundo todo, com a presença do nosso conselheiro fiscal Geraldo Vianna, marcou a entrada no Ciam da China, um país historicamente associado a uma forte pirataria e a violações sistemáticas de licenças e copyrights, mas que vem empreendendo, nos últimos anos, esforços notáveis por mais controle e pelo cumprimento das leis internacionais. Uma nova legislação sobre direitos autorais, inclusive, está sendo discutida por lá e vem sendo debatida por diferentes setores da sociedade.

Vianna participou de um painel sobre a iniciativa Fair Trade Music, que ele integra no âmbito da Aliança LatinoAmericana de Autores e Compositores de Música (Alcam) e que oferece uma certificação de comércio justo musical por boas práticas nessa área. “Falei sobre a realidade do digital nesta nova era e sobre a necessidade de novos acordos visando a uma melhor transferência de valores para os autores”, conta nosso conselheiro, que, ainda em novembro, esteve também no Comitê Latino-Americano da Ciam, em Bogotá, que ele integra, evento no qual se debateram temas administrativos e estratégicos da aliança.


CAsa ubc 12

Relembre alguns dos melhores momentos da noite de entrega do Prêmio UBC a Gil, na inauguração da Casa UBC

LEIA MAIS No site da UBC, uma reportagem sobre a noite de entrega do Prêmio ubc.vc/PrêmioUBC2017

foto_ Carol Lancelloti

do_ Rio


REVISTA UBC

foto_ Miguel Sá

Notas bem musicais

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A volta do Prêmio UBC, tradição dos anos 1980 que teve sua primeira edição do século XXI no final de novembro passado, encheu de estrelas a Casa UBC, nosso espaço de exposições, shows e eventos para celebrar a música e os seus criadores. Os artistas presentes entenderam logo a proposta do lugar e se sentiram mais do que à vontade, espalhados por todos os cantos da nossa sede, no Rio, na noite em homenagem a Gilberto Gil pelo conjunto da sua obra.

foto_ Miguel Sá

“Toda a equipe da UBC virou anfitriã. As pessoas que cuidavam do camarim eram funcionários. Os ascensoristas, o pessoal de apoio e produção… Isso, certamente, fez com que os artistas se sentissem em casa. Era realmente o que esperávamos, tanto por ser a inauguração de um espaço que é voltado para o artista, tanto pela homenagem emotiva que fizemos ao Gil”, diz Ricardo Moreira, diretor artístico da festa. Paulo Sérgio Valle, presidente da UBC, exaltou o novo espaço, que, para ele, deverá virar referência “para todos os compositores e quem ama a música.”

No alto, Gil solta a voz nos momentos finais da apresentação, tendo ao fundo Mariana Volker, IZA, Celso Fonseca, Maria Rita, Mariana Aydar, Marcelo Jeneci e Ana Vilela, cantores do tributo a ele; abaixo, outro momento do show

“A nossa ideia é tentar espelhar um novo mercado, muito mais coletivo e menos centralizado do que no século passado. As próximas edições vão refletir isso. O Prêmio UBC quer destacar e homenagear quem faz a música acontecer”, antecipou Marcelo Castello Branco, diretor-executivo da nossa associação. Neste ano de 2018, o Prêmio vai crescer e se multiplicar, com novas categorias e uma cerimônia ainda maior. Enquanto isso não acontece, relembre alguns momentos marcantes da festa de novembro.

foto_ Carol Lancelloti

Além de grandes nomes da criação, produtores lendários como André Midani e executivos de gravadoras, editoras e serviços de streaming estiveram entre os cem convidados que encheram de vida o centro cultural da UBC.


CAsa ubc 14

Eu conheço essa música... foto_ Carol Lancelloti

Gil, sempre bem-humorado, brincava com a homenagem que receberia, fingindo ignorar que a noite era inteirinha para ele. No elevador, ao se dar conta de que soava no rádio de um funcionário “O melhor lugar do mundo é aqui e agora”, verso inicial da canção “Aqui e Agora”, comentou baixinho, para os risos dos presentes: “Olha, estão tocando Gilberto Gil!”

Sala das notas

foto_ Daniel Ferro

foto_ Carol Lancelloti

foto_ Carol Lancelloti

Gilberto Gil em três tempos: acima, com a mulher, Flora, e a filha, Nara; abaixo, na plateia durante os shows; embaixo, autografando uma fotografia sua

foto_ Daniel Ferro

Na sala de contabilidade da UBC, as cifras e notas eram outras: Marcelo Jeneci tirava um som tranquilamente da sua sanfona, deitado no chão do lugar, convertido em camarim, enquanto esperava para subir ao palco para tocar, com Mariana Aydar, a canção “De Onde Vem o Baião”.


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Poucos privilegiados já puderam ouvir o aguardado álbum de estreia de IZA (de que ela fala, sem revelar muito, na página 5). Funcionários de setores administrativos da UBC estão entre eles. Ao chegar à nossa sede, ela pôs o disco para tocar e até cantou um pouquinho junto. Antes mesmo de apresentar a canção “Palco” durante a sessão de homenagem a Gil, os aplausos para ela já eram fortes.

foto_ Daniel Ferro

A gente ouviu!

Amigas e colegas

Deixa a vida me levar

Zeca Pagodinho (1,67) era só sorrisos enquanto posava para fotos abraçado às lindas IZA e Mariana Volker, ambas com mais de 1,80 e saltos altíssimos. “Daqui eu não saio, daqui ninguém me tira”, brincava, olhinhos fechados de alegria, enquanto apoiava a cabeça alternadamente entre os bustos delas.

foto_ Daniel Ferro

foto_ Daniel Ferro

As duas cantoras, aliás, não se desgrudavam. De estilos diferentes, e ambas com muita personalidade em cena, elas foram companheiras na Pontifícia Universidade Católica do Rio (PUC-Rio).


CAsa ubc

REVISTA UBC

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Moska na mosca

A obra do grande cartunista Lan (92 anos), cujas 80 caricaturas de figuras históricas da nossa música estão expostas na Casa UBC, é tão vasta que até ele se perde. Enquanto revisitava a coleção, recém-restaurada, ele se apoiava na colinha da mulher, Olívia, que o acompanhava no passeio. “E esse aqui era quem, mesmo?”

foto_ Daniel Ferro

Estrelas mudam de lugar

Zeca Pagodinho deveria ter cantado na homenagem. Mas, generoso, não quis roubar do protagonista sequer um pouquinho do brilho. Ao lhe entregar o troféu, quebrou o protocolo e pediu a Gil para assumir o microfone. Este não titubeou. “Aquele Abraço” e “Palco”, mandadas assim, em sequência, encerraram a noite. “Que festa bonita, UBC!”, emocionou-se Gil.

foto_ Daniel Ferro

foto_ Paulinho Moska

E o passeio de Lan pela Casa UBC foi registrado por ninguém menos que Paulinho Moska, autor desta foto ao lado. Aficionado também por fotografias, o cantor e compositor captou um momento terno do mestre dos desenhos.

O holofote é para ele

VEJA MAIS A cobertura completa da festa, com muitas fotos nas redes sociais, buscando a hashtag #PremioUBC. Em breve, no canal da UBC no YouTube, você poderá reviver os melhores momentos em vídeo. Siga o canal e acompanhe a playlist #PremioUBC.


FIQUE DE OLHO

REVISTA UBC

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por_ Andrea Menezes

de_ Brasília

UBC distribui

STF: streaming é

valor recorde

execução pública

a titulares em 2017 R$ 600 milhões. Esse foi o valor recorde distribuído pela UBC a centenas de milhares de titulares de direitos autorais no Brasil e no exterior no ano passado. O montante da UBC representa quase 60% de tudo o que o Ecad distribuiu no período através de todas as sociedades que o compõem, consolidando-nos como a maior sociedade de gestão coletiva de direitos autorais do país.

Videoclipes

barrados no Recine Uma medida provisória do governo Temer vetou a inclusão de videoclipes no Regime Especial de Tributação para Desenvolvimento da Atividade de Exibição Cinematográfica (Recine), mecanismo que existe desde 1993 para promover a produção audiovisual nacional por meio de incentivos fiscais. Os trechos que falavam sobre os clipes foram barrados pelo Ministério da Cultura aparentemente por questões técnicas e de redação, sem que houvesse uma tentativa de consertar o texto.

Uma decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), encerrou, em outubro passado, a questão sobre a definição do streaming como execução pública. Ele julgou improcedente o recurso da Oi FM, que havia perdido no Superior Tribunal de Justiça (STJ) uma ação contra o Ecad. A Oi FM oferece on-line dois sistemas paralelos de transmissão de sua programação, o simulcasting (com programação idêntica à da rádio) e o webcasting, com execução dos conteúdos segundo o desejo do usuário. A emissora alegava que já fazia o pagamento ao Ecad por sua programação normal e se recusava a entender que, ao disponibilizar mais de um canal on-line, deveria também pagar aos titulares por isso. O Tribunal de Justiça do Rio havia dado ganho de causa à Oi. O Ecad recorreu e obteve as vitórias consecutivas no STJ e no STF. Já não cabe recurso.

Netflix paga, e Ecad distribui

R$ 39,7 milhões em dezembro Um resultado prático dessa decisão foi o acordo alcançado entre o Ecad e o Netflix, que possibilitou a distribuição, em dezembro, de R$ 39,7 milhões relativos aos direitos de execução pública de filmes, séries e outros conteúdos hospedados pelo maior portal de streaming de vídeos do mundo. O primeiro pagamento foi referente ao período de utilização entre outubro de 2011 a março de 2017. A partir de fevereiro, o Netflix passa a integrar a distribuição regular de streaming, feita quatro vezes ao ano (fevereiro, maio, agosto e novembro).


carreira 18

As experiências de artistas e empresários que vivem uma nova onda de internacionalização da música brasileira por_ Ricardo Silva

de_ São Paulo


REVISTA UBC

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Trilha para o

foto_ Murilo Amancio

mun do Far From Alaska: banda paulistana canta em inglês e vai fazendo seu nome no mundo

São óbvios os encantos de um mercado musical como o nosso, oitavo do mundo e com um público consumidor que se conta às dezenas de milhões. Mas a grama do(s) vizinho(s) também pode ser bem verde... de uma tonalidade, assim, verde dólar. E um número crescente de artistas brasileiros tem se dado conta disso. A superestrela Anitta é só o símbolo mais visível de um novo salto da música nacional em direção à internacionalização. E os esforços disciplinados e profissionais dela deixam claro: não basta querer, é preciso dar os passos certos para trilhar a estrada de um mercado planetário que, só no ano passado, movimentou nada menos que US$ 15,7 bilhões.

Claro que a primeira coisa é ter algo relevante para mostrar.” Thiago Endrigo, empresário “É o caminho natural. A música boa é universal, e as coisas feitas aqui têm garantido seu espaço mundo afora há bastante tempo porque nossos artistas têm qualidade”, diz Anitta. Ela é consciente de que esse fluxo não é algo que ocorre sem esforço. Assim como Thiago Endrigo, advogado especialista em direito autoral e direito de entretenimento e sócio da Elemess, empresa que atua no gerenciamento de carreira de artistas e projetos de música e marca. Ele cuida das carreiras — e da projeção internacional — de bandas como Far From Alaska e Ego Kill Talent.


carreira 20 Três nomes, três pegadas lá fora: a partir do alto, Anitta, DJ Alok e Céu

“Não é automático. Depende de esforço e bastante trabalho. Houve um momento em que a música brasileira se vendia como algo exótico, etiquetada como 'world music'. Hoje, as bandas que eu represento e nomes como a Anitta e o DJ Alok, só para citar alguns que estão fazendo seu caminho lá fora, têm apostado em outra tática: uma música tipo exportação, por acaso feita aqui, mas com cara e sonoridade globais”, Endrigo afirma. Também se inserem nessa nova lógica bandas que, já há alguns anos, têm rompido barreiras e feito barulho em diferentes países: Cansei de Ser Sexy, Boogarins, Bonde do Rolê são alguns dos exemplos. “Claro que a primeira coisa é ter algo relevante e bom para mostrar”, Endrigo esclarece. André Bourgeois, empresário da cantora Céu, do cantor Chico César e da banda Bixiga 70, faz coro: “A música tem que ser boa e André Bourgeois, autêntica. Tem gente que se comunica para além da língua, só com a voz, como se fosse um instrumento. A Céu é assim. O Cansei de Ser Sexy e o Sepultura também foram lá brigar lá fora mas com brasilidade, com um sotaque daqui, o que é ótimo. Fazer trabalho ‘para gringo’ não é boa tática. Tem que fazer sentido aqui também.”

Fazer trabalho para gringo não é boa tática.”

foto_ Luiz Garrido

A divulgação de Céu lá fora contou, no disco de estreia, em 2005, até com promoção da cadeia de cafeterias Starbucks nos EUA. Vale qualquer expediente, qualquer rede, para pescar o exigente público estrangeiro. “O grande desafio é construir parcerias internacionais. A grande ilusão do mundo hoje é pensar que um russo vai acessar o

empresário


REVISTA UBC

21 Autoramas: aposta em parceria com banda japonesa que lhes abriu as portas do país

meu Facebook e eu vou estourar. É possível. Coisas podem acontecer. Mas não é o caminho normal”, diz Bourgeois. Endrigo elenca alguns passos práticos na hora de se jogar no mundo: estudar os mercados onde se quer investir, saber que tipo de música pega mais por lá, quais as principais casas de shows, os selos e até os blogs de divulgação. Depois, é hora de frequentar feiras de música e se aproximar das delegações dos países onde se quer atuar, vender-se a agentes locais que possam mediar a entrada por lá. O contato artista a artista, que funcionou, e muito, para o Autoramas fazer sua primeira turnê internacional, é um dos pontos altos. “O Far From Alaska fez parceria com o Dot Legacy, uma banda indie de Paris, que abriu as portas para a gente por lá. Como resultado, acabei trazendo-os para cá também, num

No caso do Autoramas, tudo fluiu positivamente. Eles conheceram num festival a banda japonesa Guitar Wolf, que bancou integralmente a turnê dos cariocas em terras nipônicas. “Foi muita sorte. Os caras abriram o mercado para a gente, ajudaram a agendar shows, shows de abertura”, explicou Gabriel Thomaz, um dos líderes da banda. Paula Abreu, gerente de programação do SummerStage, festival que acontece nos EUA e que já deu chance a bandas nacionais, chancela a tática deles: “Participe de encontros para fazer contatos, tenha relação com pessoas da área, faça parceria com alguma banda local mais conhecida”, pontua.

caminho inverso. Os festivais e as feiras são ótimas oportunidades de fazer esse tipo de contato”, ensina Endrigo. É um caminho difícil, acidentado e cheio de incertezas. Portanto, é fundamental saber se é isso mesmo que se quer. “O mercado brasileiro é enorme, autossuficiente, o segundo mais fechado do mundo, se formos pensar na quantidade de coisas locais consumidas, só atrás do americano. É sedutor ficar por aqui mesmo”, pondera Endrigo. “Mas, se a ideia é partir para fora, as delícias são maiores que as dores. É um mercado enorme, global, não tão sujeito às chuvas e trovoadas que temos com frequência por aqui. Vai valer a pena.”

VEJA MAIS Thiago Endrigo, David McLoughlin e Genildo Fonseca debatem estratégias de internacionalização durante a SIM São Paulo ubc.vc/LiveSIM


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“Quero que meu canto ecoe” 22


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Aos 27 anos, Luan Santana se mantém há dez no topo do sertanejo e, para além das misturas com virtualmente qualquer estilo nacional, ensaia também seu salto para o mercado global por_ Alessandro Soler

de_São Paulo

Luan Santana ainda nem completou 27 anos e já celebra uma década de uma carreira bemsucedida. Talvez o maior nome do sertanejo hoje, ele se mantém há anos no topo graças a uma capacidade notável de se comunicar com seu público e de captar o zeitgeist, o espírito do tempo, no universo sertanejo, e que hoje se manifesta nas misturas e fusões com ritmos variados, de axé e funk a rock e hip hop. Luan inova ao se associar a nomes como Anitta ou Tiê, Péricles ou Nego do Borel, Zezé Di Camargo & Luciano ou (possivelmente) o fenômeno latino CNCO...

foto_ Will Aleixo

“Ele é um artista que as pessoas já enxergam para além de um segmento. Faz música para o Brasil, com sua identidade e personalidade. Então, sempre terá de tudo nas músicas, pois ele gosta de tudo”, descreve Dudu Borges, o principal produtor de sertanejo do país e um dos responsáveis por alavancar a carreira de um jovem Luan, surgido como tantos outros de sua geração: após o estouro espontâneo no YouTube e nas redes sociais. “Luan é um dos poucos no mundo que conseguiram fazer a transição perfeita de fenômeno adolescente a artista adulto consagrado. Desde que o conhecemos, dez anos atrás, demonstrou uma grande clareza

do que queria e uma visão artística muito consistente. Nunca teve medo de ousar”, resume Marcelo Soares, presidente da Som Livre, a gravadora do artista. Num papo com a Revista, Luan fala sobre os rumos do sertanejo, suas próprias decisões na carreira e o inevitável passo rumo à internacionalização. O sertanejo vive uma nova onda, talvez a maior depois do surgimento da vertente universitária. Com a incorporação maciça das mulheres e as misturas de estilos, virou um fenômeno de Norte a Sul do país. Essa expansão é positiva para os artistas, mas poderia ser vista como um afastamento das origens? Não existe fórmula para o sucesso. O que existe é a vontade de fazer o que você mais ama e atingir o coração das pessoas. A música é a minha essência. Rótulos limitam. O sertanejo era visto como brega. Falar de amor antes era brega. O Brasil aderiu ao amor. Falar de amor, em todos os tempos, é o que nos move. Qual a sensação de ter uma música sua (“Acordando o Prédio”) como a mais ouvida nas rádios brasileiras no ano passado? Recebi a notícia através do meu divulgador, Kezinho, que enviou o relatório. Fiquei

O sertanejo era visto como brega. Falar de amor antes era brega. O Brasil aderiu ao amor.”


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imensamente feliz. Além de todos os prêmios que “Acordando o Prédio” me trouxe, como o Prêmio Multishow, o troféu Melhores do Ano do Faustão, o Caldeirão de Ouro, o prêmio Nick, comecei o ano com o pé direito tendo essa notícia maravilhosa. “Acordando o Prédio” tem uma letra ousada, mas primamos por fazer um clipe que misturasse humor, para não explorar o apelo sexual. Gostei do resultado. Sem falar que gravar em Cuba, pedindo emprestada aquela alegria do povo e o colorido da ilha, foi inesquecível. Quero continuar acordando muitos prédios em 2018 com o sucesso desta música e outras tantas até ultrapassar 2050 ou a eternidade. Talvez já tenha tido a curiosidade de colocar seu nome em mecanismos de busca na web. Os resultados são variadíssimos, de “notícias” sobre seu eventual casamento à compra de carrões e jatinhos, passando por um desentendimento num bar dos Estados Unidos. Essa insistência de uma certa

imprensa em destrinchar cada passo da sua vida o incomoda? Sabe aquela história de 'preço da fama'? A fama não tem preço. Tem valor. O valor da conquista tem os seus prós e contras, como todo trabalho. E isso é bom, é o resultado de uma carreira reconhecida. Uma óbvia expansão da sua carreira seria o exterior. Pensa nisso? Sabe o que penso de verdade? Eu penso que é se limitar demais excluir todo esse ecletismo musical nosso, toda essa nossa brasilidade de sons e tons, de ritmos, de danças e de cores, do chamado mercado latino, do mercado internacional. A música latino-americana inclui desde os mariachis do México à salsa de Cuba, dos sons indígenas do Peru, da Bolívia e do Equador à flauta andina... E por que não as sinfonias de Villa-Lobos, a bossa nova de Tom Jobim, a Tropicália de Caetano, o axé de Daniela (Mercury), Ivete (Sangalo) e tantos, o pagode do Zeca (Pagodinho) ao Thiaguinho, o sertanejo nosso de cada dia? Também somos latinos,


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nossa música pede passagem. Como diz naquele samba: “chegou a hora de essa gente bronzeada mostrar o seu valor.”

LEIA MAIS Um texto de Luan em primeira pessoa sobre os desafios, dores e delícias de fazer música na era digital ubc.vc/LuanFuturo

Isso inclui gravar em outras línguas? Não quero me sentir na obrigação de cantar em inglês ou espanhol para mostrar o meu trabalho ao mundo. Mas também posso cantar para que nos ouçam. Eu quero que o mundo nos veja pelo que de tão lindo temos: a nossa música, a nossa democracia musical. Acredito que Tom Jobim fez a bossa nova ganhar o mundo com o nosso sotaque e a sua talentosa arte. Roberto Carlos é mundo, é internacional, com o seu romantismo em português. Emoções não têm fronteiras e, sem parecer pretensioso, eu quero que o meu canto ecoe com a mesma força com que este Brasil abraça tantos povos e línguas.


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Cultura nascida nos subúrbios de Nova York conquistou o planeta e, pela primeira vez, desbanca o rock nos Estados Unidos No Brasil, empreendedorismo e mistura de rap e outros sons — inclusive o sertanejo — catapultam artistas ao estrelato e criam uma cena que se esparrama pela moda e o estilo de vida O rapper brasiliense Hungria, um dos mais destacados da nova cena: flerte com sertanejo

por_ Roberto de Oliveira do_ Rio e Alessandro Soler de_ São Paulo colaboração_ Lúcia Motta de_ Nova York


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Hip mun do = Hop Era uma vez um garoto que nasceu pobre na periferia de Nova York e queria mudar o mundo. Ele cresceu, apareceu e, de fato, mudou o mundo — pelo menos o da música. Depois de quatro décadas de existência e resistência, os gêneros que conformam a cultura hip hop se consagram como a primeira opção musical dos Estados Unidos, destronando o rock ’n’ roll e o pop. E isso não é pouca coisa. Um estudo da Nielsen divulgado agora em janeiro mostrou que 24,5% de toda a música que se compra por lá são rap e outras variações do hip hop, além do R&B. O rock caiu para 20,8%, ficando em segundo lugar

pela primeira vez em mais de seis décadas. No streaming, 29% são rap/hip hop/R&B, mesmo percentual de rock e pop somados. “Foi o efeito (do megalançamento “More Life”, mais recente álbum do rapper e fenômeno musical canadense) Drake. Mas é também uma tendência que vem se consolidando nos últimos anos”, diz Maxwell Strachan, analista musical do HuffPost americano. O rap e os outros gêneros que compõem o hip hop parecem estar mesmo se tornando a sonoridade que melhor traduz o espírito jovem neste imenso país do Norte... e também no resto do globo terrestre.

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MV Bill: o carioca é um dos nomes mais consolidados da cena rap nacional

DAS RUAS PARA O TOPO DO MERCADO A cena hip hop (uma casa cujos “cômodos” são o rap, o grafite, a dança break, a discotecagem dos MCs e a moda) surgiu na década de 1970 nos bairros mais temidos de Nova York. Com fama de violentos, jovens negros e latinos sem perspectivas se enfrentavam e matavam ali, enquanto o poder público os abandonava à própria sorte. Percebendo o potencial criativo daquelas pessoas, um DJ iniciante — o hoje mundialmente famoso Afrika Bambaataa — reuniu os principais líderes de gangues e os pôs para chacoalhar (e criar e refletir e questionar o sistema) juntos. Hoje, não só minorias discriminadas são fãs do hip hop, mas pessoas de todas as classes. O estilo se espalhou por festas, roupas, vocabulário,

artes visuais, cinema, TV, teatro. É como se o mundo tivesse cumprido o vaticínio de um famoso rap brasileiro: “seu filho quer ser preto, ah, que ironia”. O empreendedorismo de alguns astros pode estar por trás do fenômeno de vendas no qual se transformaram o rap e os outros elementos do hip hop. O filme “Straight Outta Compton”, a história do extinto grupo californiano N.W.A. (Niggaz With Attitudes, ou Pretos com Marra, em tradução livre), dá uma pista de como o bom desempenho dos rappers nos negócios pode ter feito toda a diferença no salto que os levou do gueto para o topo do mercado do entretenimento. Eles se apropriaram do próprio trabalho e esnobaram


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O RAP E A ERA DIGITAL O rap, como estilo jovem que é, se retroalimenta do sucesso na rede. O coletivo carioca 1Kilo, frequentemente no alto das paradas dos serviços de streaming e vídeo, é um exemplo perfeito disso. Assim como o rapper Filipe Ret. “Ter visualizações na internet é uma parte pequena da esfera de trabalho, mas, sem dúvida, a quantidade delas reflete o desejo do público pelo artista. E os contratantes precisam de artistas lucrativos”, raciocina Ret, com milhões de seguidores e uma audiência poderosíssima em quase todos os clipes que lança na rede. Ele é dono da Tudubom Records, um selo que nasceu da necessidade de unir forças e habilidades. “ O trabalho na Tudubom é reflexo da nossa vivência. Facilita desde a troca de ideia até a grana gerada pelo canal. A loja é uma extensão do canal. É para os fãs terem a possibilidade de fazerem parte dessa história”, finaliza Ret, para quem o rap nacional nunca movimentou tanto dinheiro: “E isso é só o começo da brincadeira.”

— pelo menos a princípio — os contratos com gravadoras ou as equipes engravatadas de marketing. Investiram na relação com os fãs, no contato direto com suas comunidades. Por aqui, essa atitude foi replicada desde as origens do estilo, ainda na década de 1980, primeiramente na periferia de São Paulo e, depois, nas quebradas de Rio, Baixada Fluminense, Brasília, Belo Horizonte ou Porto Alegre. Nomes como Sabotage, Racionais MCs, MV Bill, Emicida, Flora Matos, Thaide, DJ Hum, Negra Li, Afro-X, BNegão e muitos, muitos outros, trilharam seu caminho à base de shows nas periferias, misturas de estilos, mais recentemente o uso esperto da internet e das redes sociais e, claro, mensagens poderosas. LEIA MAIS Releia a entrevista com o DJ Hum publicada na edição 27 da Revista ubc.vc/EntrevistaDJHum

Emicida (acima) e DJ Hum: shows nas periferias, mistura de estilos, uso esperto das redes sociais


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Aí vieram a popularização para além das “fronteiras” dos subúrbios, a sincronização de raps em filmes e novelas, o licenciamento de nomes, o lançamento de marcas de roupas e acessórios, canecas, chaveiros, objetos em geral... Em outubro passado, só para citar um em muitos exemplos, o astro paulistano Rappin’ Hood se tornou um dos mais recentes a emprestar seu nome a uma coleção de moda urbana.

QUESTÃO DE SOBREVIVÊNCIA Um dos mais destacados rappers da atualidade no país, o brasiliense Hungria — 4,1 milhões de inscritos e mais de 800 milhões de visualizações de seus clipes no canal oficial do YouTube — é um símbolo deste novo momento. Com uma sonoridade eclética e flertes até com o sertanejo, ele chuta para lá os purismos e diz que atingir a elite não é demérito ou traição às origens; é questão de sobrevivência. “Nas baladas de baixo padrão ou alto padrão, todo mundo dança. As pessoas ficam presas mentalmente às questões originais. Claro que a voz da periferia é protesto, mas a gente tem coisa boa para ser falada também”, ele prega. “Eu canto rap por amor. Mas o reconhecimento e o retorno financeiro são importantes. Não temos que ser quebrados de grana para fazer o que fazemos.”

RESPEITA AS ‘MINA’ Não precisa nem de pesquisa. Basta olhar os lançamentos, as reportagens, os canais do YouTube para saber que o rap brasileiro tem mais manos do que minas na linha de frente. Apesar de ter no DNA a luta por direitos iguais em todas as instâncias, é comum ouvir raps que falam apenas com os manos ou assistir a clipes em que o papel das mulheres é corroborar o poder dos MCs machões, pegadores e milionários. Algumas iniciativas, como o projeto “Homens do Hip Hop pela Não Violência Contra as Mulheres”, chamam os rappers para conversar sobre machismo e tentam conscientizá-los em questões que vão além da música. Enquanto isso, minas como Karol Conka, Flora Matos, Kmila CDD e Bebel Du Guetto não esperam cortesia masculina e metem o pé na porta para dizer que a visão feminina é necessária para que a cultura hip hop continue em crescimento. Elas não estão sozinhas. Mulheres como Mikaelli Pinna, a Mika, de 26 anos, também querem parte desse bolo bilionário. Há nove anos no hip hop, Mika abriu uma microempresa e um estúdio de criação para estampar canecas, blusas, calças e outros produtos customizados com as cores do grafite. “Vi que alguns caras faziam roupas e vendiam camisas. Eram legais, mas enormes e direcionadas aos homens. Decidi criar a minha marca com roupas para o público feminino”, diz a grafiteira.

Quero transformar vidas, denunciar injustiças e, por que não?, ganhar dinheiro e curtir.” Coruja BC1


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Coruja BC1, paulista de Osasco e outro fenômeno do rap nas redes, faz coro: “Cada artista deve lutar e buscar o que quer. Uns querem transformar vidas e denunciar injustiças, outros querem ganhar dinheiro e curtir. Eu quero transformar vidas, denunciar injustiças e, por que não?, ganhar dinheiro e curtir.” Para ele, a marcha do estilo ao topo da música e da cultura não tem volta. “A música rap é o exército mais poderoso que já existiu, e o rap nacional é mais alma e coração, mais sensibilidade do que o que vem de fora.”

do grupo, é uma extensão do estilo de vida deles. LK, outro vocalista do 3030, diz que a tática dá resultado: “Foi o jeito que a gente achou para a nossa música chegar às pessoas.” Ouça MAIS Uma playlist com hits de alguns dos principais nomes da cena rap nacional e associados da UBC ubc.vc/PlaylistRAP

Com clareza, talento e perseverança, ele já caiu no radar de Emicida — “Coruja BC1 é um cara do qual sou fã. Ô, menino talentoso, viu...”, escreveu numa rede social o veterano, um dos nomes mais importantes da cena no país e que sempre se cerca de rappers que têm o que dizer, como Drik Barbosa, Rico Dalasam e Muzzike, entre muitos outros que participam de suas músicas e clipes. No Rio, as misturas e a atuação transversal também marcam o grupo 3030, 200 milhões de visualizações no YouTube e uma fusão interessante de rap e MPB. Eles gravam e produzem as próprias músicas, vendem os shows, editam os videoclipes e têm uma grife, que, segundo Rod, um dos vocalistas

Coruja BC1, de Osasco (SP): elogio do ‘mestre’ Emicida


Homenagem 32

Um grande cronista. Um analista fino dos costumes, das contradições, do racismo intrínseco da nossa sociedade, do machismo. Um pioneiro do samba sincopado. Um influenciador de grandes criadores e intérpretes do nosso país, de João Gilberto a Nelson Sargento. Geraldo Pereira foi tudo isso e, no entanto, talvez você nunca tenha ouvido falar nele. Nascido há um século — em 23 de abril de 1918, em Juiz de Fora (MG) — e morto apenas 37 anos depois, no Rio, onde se estabeleceu e fez uma carreira prolífica, com 77 (ou 78) canções registradas, ele é autor de canções famosíssimas e muitas vezes regravadas. Mas, por um desses mistérios da vida, muitas delas não são associadas a ele. “Escurinho” (que fala sutilmente de racismo), “Acabou a Sopa”, “Ela Não Teve Paciência”, “Falsa Baiana” e tantos outros clássicos saíram da pena e da mente do mestre, “um craque do samba sincopado, da Lapa de Francisco Alves, Mario Reis, Orlando Silva, aquela rapaziada que, entre as décadas de 1940 e 1960, frequentava aquele bairro boêmio do Rio”, como define Rildo Hora, gaitista, maestro, violonista, arranjador, compositor e produtor e grande conhecedor da obra de Pereira. João Gilberto usou sambas de Pereira — “Bolinha de Papel” entre eles — para criar a batida típica da bossa nova que revolucionou a MPB. Daí dizer-se que Pereira foi um sambista “bossa-novista”.

Geraldo Pereira No centenário de nascimento de um dos maiores sambistas de todos os tempos, morto precocemente aos 37 anos, a importância da sua obra é celebrada do_ Rio

ilustração_ Lan


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“Ele se debruçava muito bem sobre os dois principais códigos da MPB: a melodia, na qual frequentemente fazia uso da síncope, que é propriedade de inverter os tempos fortes para os tempos fracos; e a letra, na qual perpassava com clareza situações inusitadas de sentimentos universais, aliados a observações do cotidiano carioca”, elogia Euclides Amaral, poeta e pesquisador de MPB e autor, entre outros, do livro de ensaios “Alguns Aspectos da MPB”.

Lenda na criação, lenda na morte VEJA MAIS O cartunista Lan, autor das históricas caricaturas de lendas da nossa música expostas na Casa UBC (inclusive desta, de Geraldo Pereira, aí acima), relembra um momento curioso em que se apresentou sobre um palco ao lado do sambista. Confira num vídeo exclusivo da UBC ubc.vc/VideoGeraldo

Geraldo Pereira foi um gigante da nossa música que, para o grande público, quase desapareceu. Mas seu desaparecimento físico, sua morte, numa noite fresca da Lapa, não se esquece nos círculos boêmios da nossa música — seja a história verdadeira ou ficcional. Como conta em detalhes o livro “Almanaque do Samba” (Jorge Zahar), uma briga besta por um copo de chope desencadeou a internação do sambista alto, magro e elegante que frequentava os principais botecos do bairro. Só que a briga teria sido com ninguém menos que o malandro dos malandros Madame Satã, que, numa célebre entrevista ao diário “Pasquim”, nos anos 1970, admitiu ter desferido o golpe que levou Pereira ao chão, e no qual ele bateu a cabeça no meio-fio. O grande sambista morreria em 8 de maio de 1955, virando lenda, assim como Satã.


MERCADO 34

solução para problema dos

cuesheets de obras audiovisuais


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Documentos que trazem informações sobre o uso das músicas em séries, filmes e novelas são fundamentais para pagamento de direitos autorais e são desconhecidos por produtoras de_ São Paulo

As oportunidades de sincronizar sua música em filmes, novelas, séries e publicidade são muitas — cada vez mais —, e, para além dos ganhos com os contratos que autorizam esse uso, também é possível faturar com a execução pública de algumas dessas obras. Mas isso só acontece se for corretamente preenchido o cue-sheet, que é um formulário com detalhes sobre o uso da música na obra, o tempo, o emprego que se deu (se é trilha de fundo, se é tema principal etc.) e os autores e intérpretes envolvidos. Sem esse papel, o Ecad não tem como fazer o repasse corretamente aos autores. Ocorre que muitas produtoras desconhecem esse documento e, apesar de haver uma Instrução Normativa do Ministério da Cultura publicada em maio de 2016 obrigando o próprio ministério a divulgar os cue-sheets das obras produzidas no país, um importante elo na cadeia ainda não existe: ou seja, não há uma regulamentação que obrigue as produtoras a repassarem os dados à Ancine. Um movimento dentro do Ministério quer mudar esse jogo, e há tratativas

entre as autoridades de Brasília e a Ancine para que a agência do cinema publique a regulamentação, estabelecendo um vínculo de obrigatoriedade entre a elaboração do cue-sheet e a expedição do Certificado de Produção Brasileira (CPD). Em outras palavras, a partir da edição dessa norma, só poderá obter esse documento — fundamental, por exemplo, no caso de uso de patrocínio por meio de renúncia fiscal — quem fizer o formulário corretamente.

No último mês de janeiro, a UBC publicou uma reportagem em seu site ensinando o passo a passo da elaboração do cuesheet. Há uma série de nomenclaturas que devem ser conhecidas, além de informações que só o produtor audiovisual tem. Acesse ubc.org.br e saiba mais.

“A instrução normativa do ministério está dependendo dessa regulamentação da Ancine. Há gestões para levá-la a cabo. Atualmente, os problemas relacionados à elaboração falha ou à não elaboração desse documento são mais frequentes justamente nas produções nacionais. As estrangeiras costumam fazer direitinho e nos fornecer”, afirma Silvana Demartini, coordenadorageral de Difusão, Negociação e Acesso à Cultura do MinC. “A fórmula de vincular o cue-sheet ao CPB nos parece a mais correta. Ela surgiu, inclusive, de uma consulta pública.”


MERCADO

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No caso de uma implementação da regra nos próximos meses, o fluxograma ficaria assim:

PRODUTORA audiovisual elabora o cue-sheet

ANCINE

recebe o cue-sheet

MINC

publica o cue-sheet

ANCINE

emite o Certificado de Produção Brasileira (CPB)

ECAD

recebe o cue-sheet, afere o uso da obra em execução pública e faz a distribuição aos titulares

A instrução normativa do ministério depende da regulamentação da Ancine.” Silvana Demartini, MinC Enquanto a regulamentação não chega, alguns atores do mercado já põem em prática suas soluções. Como o site da UBC mostrou em novembro, um grupo de grandes editoras propôs a inclusão da obrigatoriedade de elaboração dos cue sheets por parte das produtoras audiovisuais no próprio contrato de sincronização. As cláusulas preveem multas para as produtoras que não entregarem as folhas preenchidas ou as entregarem preenchidas incorretamente sucessivas vezes.“A gente saiu de uma situação bastante problemática, em que obras vinham com falhas de cue-sheets há uma década, para cerca de 95% das folhas identificadas corretamente desde que a nova norma foi posta em prática”, celebra Mary Barbosa, gerente de sincronização e A&R da Sony/ATV, a editora da Sony Music. LEIA mais Guia de Música em Audiovisual dá dicas importante para quem quer sincronizar suas músicas em obras ubc.vc/GuiaMusicaAudiovisual


DESTAQUE

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Elogio à amizade Bem-sucedida parceria entre Abel Silva e Roberto Menescal resulta no álbum “O Encontro Inédito”, e outro disco com canções compostas por ambos já está a caminho do_ Rio

Trinta canções e um mundo de histórias e emoções. A mais que bem-sucedida parceria de Roberto Menescal e Abel Silva é celebrada no álbum “O Encontro Inédito”, recém-lançado pela Biscoito Fino, um disco que, pela primeira vez, traz unicamente cocriações dos dois, interpretadas por Ana Costa, Georgeana Bonow, Sáloa Farah, Claudia Telles, Wanda Sá,

Cris Delano, Isabella Taviani, Fernanda Takai, Leila Pinheiro e Nara Leão, cuja gravação de “Transparências” deu o pontapé inicial a essa reunião frutífera. “Foi em 1985. Eu estava gravando um disco com a Nara Leão e, de repente, mostrei uma música nova pra ela, que me sugeriu procurar um letrista. O Abel me veio à cabeça”, descreve Menescal. “Me mandei para o (restaurante carioca) Plataforma, onde tínhamos marcado o encontro. No meio do caminho me toquei de que não conhecia o Abel pessoalmente, não sabia como era a cara dele. Lá, cheio de gente, alguém me chamou, eu me aproximei... e era outra pessoa (risos). Finalmente, encontrei o Abel. Almoçamos, combinamos nossa primeira parceria, deu tudo certo, Nara Leão gravou. De lá para diante, fizemos várias outras.” Para Abel, o encontro entre os dois abriu perspectivas e desafioss,

trazendo uma renovação da energia criativa que marcou sua própria carreira. “O cara é um dos três sobreviventes da bossa nova (além de João Donato e Carlos Lyra), estilo musical que influenciou radicalmente a minha geração. Eu já tinha feito coisas bonitas com Donato, e foi por 'Simples Carinho' que ele resolveu me procurar. Depois de 'Transparências', disparamos a compor, ele sempre me enviando melodias, eu mandando as palavras de volta. Menescal é um trabalhador incansável, rigoroso, e me comove a alegria sincera que demonstra a cada nova canção. Um mestre, um artista do mundo, um crítico lúcido, rigoroso e engraçado. E um querido amigo”, elogia Abel. Menescal, que igualmente exalta o amigo, conta que os dois trabalham num novo álbum com o mesmo formato. “Estamos dando continuidade e já em contato com cantoras para gravar outras 12 músicas”, anuncia.


Nova Cena 38

ONDA

la ti na

Movida a reggaeton, a música produzida em outros países da região e cantada em espanhol volta a tomar o Brasil de assalto por_ Alessandro Soler

de_ Madri

A partir da esquerda, Juanes, Luis Fonsi e J Balvin: fenômenos mundiais


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Despacito (ou devagarzinho), uma nova onda de música latina está chegando e se instalando entre os brasileiros. Não que essa fiebre seja coisa nova. A relação entre os sons produzidos no Brasil e os que criam povos vizinhos remonta a tempos imemorais — muito antes da colonização europeia —, e a musicalidade de outros países da região sempre influenciou a nossa. (Como se esquecer do bolero, que, em maior ou menor grau, marcou a trajetória de Elizeth Cardoso, Altemar Dutra, Dalva de Oliveira, Nelson Gonçalves e Chico Buarque?). Mas veio a segunda metade do século 20, consolidou-se uma óbvia hegemonia rítmica nacional nas rádios — e TVs e web —, e virou coisa rara ouvir, pelo menos em ampla difusão, os sons latinos contemporâneos. Se Julio Iglesias precisou cantar em português para “pegar” no Brasil, Rick Martin, Shakira e alguns outros abriram passo ao castelhano. Aí bastou juntar a explosão da música latina nos Estados Unidos com a cultura de massa globalizada que, ¡zas!, estava pavimentado o caminho de nomes como Luis Fonsi (de Porto Rico, autor do avassalador “Despacito”), Juanes (Colômbia), Maluma (Colômbia), J Balvin (Colômbia) — os dois últimos, parceiros de Anitta em canções com as quais a carioca vai batalhando seu próprio salto internacional. A coisa, em geral, funciona mais ou menos assim: adicione reggae, salsa e algum som local a uma base eletrônica e você terá o reggaeton, a explosiva mistura de sotaque caribenho que move os bailes — ou pachangas — em diversos países da região e até na Europa. Na Espanha, por exemplo, pachangueo, o ato de ir às pachangas, já virou quase sinônimo de festa. Por aqui, a mistura com ritmos locais é a chave que abre as portas. Assim descreve a cena Walter Kolm, dono da WK

Maluma e Anitta: parceria com estrela local para entrar num mercado “difícil”

Entertainment, um dos principais escritórios de representação da música latina nos Estados Unidos e empresário de Maluma e do também colombiano Carlos Vives. “As plataformas de streaming de música e vídeo ajudaram a globalizar a música como nunca antes. E as colaborações entre artistas abriram fronteiras de países difíceis de entrar, como o Brasil. O exemplo perfeito é o Maluma, com Ney: “O Brasil é de costas para a América Latina” suas colaborações com Anitta e, mais Um observador agudo da nossa música, recentemente, Nego e intérprete de inesquecíveis canções em do Borel. O tema espanhol, entre elas uma bela versão de “Vereda ‘Corazón’ domina as Tropical”, do mexicano Gonzalo Curiel, crê que as paradas e se mantém pontes que a internet pode estender têm alcance limitado. É Ney Matogrosso, que resumiu a em primeiro em rádios questão em entrevista ao portal Calle2: “Quando globais”, ele descreve. eu era criança e vim morar no Rio, se ouviam nas “As colaborações estações de rádio músicas do mundo inteiro. garantiram espaço Música francesa, portuguesa, espanhola, ao Maluma e argentina. Aí nós perdemos o contato. O Brasil participação como é de costas para a América Latina e anseia pela América do Norte. Eu acho isso uma chatice.” Ele headliner em festivais não está só. Apesar do alcance ainda limitado da brasileiros como música latina — se comparada aos hits em inglês VillaMix. Mas o que e ao nosso próprio mainstream verde-amarelo realmente importa é —, um número crescente de pessoas que tem se ter boa música para balançado em pachangueos país afora mostra mostrar. Assim fica que esse jogo pode estar mudando. mais fácil entrar.”


Distribuição 40

Relatório da Cisac 2017:

explosão no consumo de música digital

Confira alguns dos dados mais relevantes do setor musical referentes a 2016 de_ Paris*

Divulgado no último dia 15 de novembro, o Relatório Global de Arrecadação 2017 da Cisac, elaborado com base em dados de 2016, mostrou expansão anual de 51% no consumo de música digital, cujo espaço de crescimento é gigante — representa ainda pouco mais de 10% do total arrecadado com música globalmente. Nestas páginas, confira, graficamente, os principais números do setor musical, o mais lucrativo da indústria criativa mundial. *Com informações da Cisac

51%

6,8%

foi o crescimento da setor de música digital em 2016

foi o crescimento somado de todos os setores da música

10,4%

é a fatia da música digital no total da indústria musical


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ESTADOS UNIDOS

REINO UNIDO

ALEMANHA

JAPÃO

MÉXICO

FRANÇA

foram os líderes da expansão do setor digital

€ 557 milhões

€8 bilhões

foi o total arrecadado na América Latina em 2016

é o total arrecadado pela indústria musical global

123 países e territórios tiveram seus dados analisados para o relatório LEIA mais Conheça outros detalhes do relatório e acesse o documento na íntegra: ubc.vc/RelatorioCisac2017


Dúvida do Associado 42

“Eu gostaria de obter informações sobre a distribuição dos direitos arrecadados de rádios corporativas no Brasil. Minhas obras são executadas diariamente em rádios de lojas como Cantão, Farm, Marisa, C&A, Redley, entre outras, e eu gostaria de saber como recebo esses valores.”
 [ Sabrina Malheiros

Rio de Janeiro - RJ ]

Revista UBC Os valores cobrados dos estabelecimentos comerciais que usam música para sonorizar o ambiente são distribuídos em uma rubrica específica chamada sonorização ambiental, que foi criada em 2014 com o objetivo de tornar ainda mais justa a distribuição, em especial para os associados que têm músicas executadas nestes lugares.

Entram nessa rubrica as redes de lojas comerciais, lojas de departamento, supermercados e shopping centers. Para distribuir estes valores arrecadados, todo trimestre, são captadas nestes lugares 25 mil execuções através do equipamento Ecad Tec Som, que permite a gravação digital das músicas tocadas ali. Estas músicas captadas vão

compor uma amostra na qual será baseada a distribuição dos valores arrecadados naquele trimestre. Somente os estabelecimentos comerciais adimplentes entram nessa amostra e a seleção deles é feita de forma aleatória e automática. Esta amostragem é certificada pelo Ibope Inteligência e possui uma margem de erro baixíssima, de apenas 0,6%. No seu caso, todas as redes mencionadas pagam o Ecad, então, no seu demonstrativo, você vai identificar estes recebimentos nos meses de janeiro, abril, julho e outubro sob a rubrica sonorização ambiental.

E você, tem dúvida? Entre em contato com a UBC pelo e-mail atendimento@ubc.org.br, pelo telefone (21) 2223-3233 ou pela filial mais próxima.


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Revista UBC #35  

A Revista UBC é uma publicação trimestral direcionada a quem faz música.

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