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+ JOÃO BOSCO E TOQUINHO, DOIS MESTRES NO CLUBE DOS 70 + UBC SE DESTACA NA PRIMEIRA DISTRIBUIÇÃO DE STREAMING + MARCO ANTÔNIO GUIMARÃES E A VIDA DEPOIS DO UAKTI

REVISTA DA UNIÃO BRASILEIRA DE COMPOSITORES #29 / AGOSTO 2016

+ AUTORAMAS, CANDEIA, JACKSON DO PANDEIRO, GUTO GOFFI, ELVIS TAVARES

ME DÁ UM DINHEIRO AÍ COMO FINANCIAMENTO COLETIVO, EDITAIS PÚBLICOS E PRIVADOS, MERCHANDISING E OUTRAS INICIATIVAS AJUDAM ARTISTAS A BANCAREM NOVOS PROJETOS


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AGORA É A HORA

THALLES ROBERTO

M

CANTADO

REVISTA DA UNIÃO BRASILEIRA DE COMPOSITORES #29 : AGOSTO 2016

AGORA É QUE SÃO

ELAS

EDITORIAL

Por Manno Góes

Nes a ed ção ce eb amos ma s uma g ande conqu s a da UBC ee e a como ún ca soc edade b as e a a aze pa e do Conse ho de Adm n s ação da C SAC Con ede ação n e nac ona de Soc edades de au o es e c ado es São apenas 20 soc edades e e as en e 220 do mundo n e o A UBC a nda é a ún ca da Amé ca La na a pa c pa do Conse ho de gove nança es a ég ca ep esen ado po apenas 10 soc edades en e e as PRS ASCAP SACEM e GEMA Mo vo de sob a pa a numa o ha qua que de pape machê desenha mos um so ama e o e comemo a mos com nossos assoc ados e am gos como Toqu nho e João Bosco que b ndam nossas pág nas com ma é as exc us vas sob e suas v o osas e ep esen a vas ca e as

ME DÁ UM DINHEIRO AÍ

Um b nde ao a en o e v va a UBC O Au o Ex s e

Antes do batismo veio o nascimento. João Bosco teve uma infância forjada a música – em casa, na rua, em qualquer lugar, os acordes, quaisquer que fossem, sempre o atraíram. “Em todos os momentos em que a minha memória está na infância, tem música por perto. A música sempre esteve em torno... Sem tipo específico. Simplesmente, música”, define. Aos 18 anos, saiu de Ponte Nova para cursar engenharia civil em Ouro Preto. E foi na república estudantil que começou a tocar violão “intensamente” e a compor “sem perceber que estava compondo”. “Acho que sempre tive um pressentimento (de que faria carreira na área). Porque sempre estive perto das pessoas que andavam com a música. Desde cedo eu me lembro de estar com algum amigo e da música que existia nele. Conheci o Vinícius (de Moraes) em 1967, e eu já fazia arranjos para um quarteto vocal em Ouro Preto. Penso que tudo isso era uma espécie de ensaio para o futuro. Quando cursava o último ano de engenharia civil, eu já não tinha dúvidas quanto à minha carreira profissional.”

UM PAPO COM O MESTRE JOÃO BOSCO, QUE CELEBRA 70 ANOS DE VIDA E MANTÉM INTACTO SEU ÍMPETO CRIATIVO

No disco “Zona de Fronteira”, com Waly Salomão e Antonio Cícero, fizemos uma música que se chama “Misteriosamente”. Ela diz: “É noite alta e quente, e não vou mais dormir / pois uma canção / insiste em surgir / misteriosamente / proveniente de um caos que não tem fim / e da inquietação / sei que ela faz de mim / seu olho de nascente / gota por gota, cada nota vai brotar / algo gratuito assim que vem só porque quer / sem ninguém chamar / e não quer se esconder / e quando, enfim, se desdobrar / talvez seja por você.”

O BATERISTA DO BARÃO VERMELHO LANÇA SEU SEGUNDO DISCO SOLO, COM COMPOSIÇÕES PRÓPRIAS EXECUTADAS POR UM TIME DE MÚSICOS QUE REUNIU, ENQUANTO ANALISA O MERCADO FONOGRÁFICO E O PANORAMA DOS DIREITOS AUTORAIS Um dos bateristas mais populares do país, Guto Goffi, integrante do Barão Vermelho, lança seu segundo disco solo, parceria com o Bando do Bem, que ele reuniu. Com participação ainda de Mário Brodder (ex-Farofa Carioca), Geraldo Junior e Beto Lemos nos vocais, “Guto Goffi e o Bando do Bem” é bastante autoral, com nove das dez canções compostas por ele. Nesta entrevista, Guto, há 25 anos filiados à UBC, fala sobre a concepção do disco, o mercado fonográfico e o panorama dos direitos autorais no país.

De onde veio a paixão pelo futebol, que você canta em algumas canções? Meu pai foi goleiro, e dizem que foi um bom goleiro. Eu e o Aldir, junto com o João Donato, fizemos uma música onde falamos dele: “Nossas Últimas Viagens”, gravada lindamente pelo Dominguinhos em meu songbook. Ele era apaixonado pelo futebol. Era tricolor apaixonado. O rádio ficava rouco lá em casa nos dias de jogos no Maracanã. Por isso o meu time do coração é carioca e se chama Flamengo. Freud, com certeza, explica. Numa das primeiras visitas ao Rio de Janeiro, que eu só conheci em 1968, fui assistir a um show de vários artistas, e tinha o Chico Buarque. Quando ele entrou no palco, cantou um samba seu, “Bom Tempo”, que fala de um dia de domingo e de futebol e do seu Fluminense. Eu pensei comigo que um dia ainda cantaria aquele samba, pois seria uma maneira de estar com o meu pai ouvindo um Fla x Flu no rádio. No DVD “JB 40 anos depois” (de 2012), tive o prazer de cantar com o Chico Buarque esse samba e ouvir aquele rádio em Ponte Nova, mais uma vez.

Qual o conceito por trás do Bando do Bem? O Bando do Bem foi formado a partir da minha intenção de gravar meu segundo CD solo, de uma forma diferente do primeiro álbum, “Alimentar” (2012). Tive a vontade de dividir os vocais do novo CD com participações mais efetivas. Por isso convidei dois cantores, uma moça e um rapaz, para dividirem comigo as 10 faixas. Fora isso, conto com a participação de alguns convidados que cantam no CD também, o Mário Broder, o Geraldo Junior e o Beto Lemos, estes últimos, músicos cearenses do Cariri. O fato de gravar as bases com o mesmo time deu muita liga aos arranjos das canções. Como sou o autor de nove das dez composições do CD, palpitando ainda nos arranjos e até na arte, não me incomodei em reduzir meu espaço como cantor. Posso tocar bateria e cantar ao vivo, além de ver cantores melhores que eu defendendo as minhas músicas.

Um compositor/letrista é, muitas vezes, um grande contador de histórias. E histórias que não precisam, necessariamente, ter sido vividas por você mas sim, de certa maneira, passado por você. Há alguma música que traduza uma grande história que lhe diga respeito?

João procurou Vinícius na pousada em que ele sempre se hospedava em Ouro Preto. E o fez porque tinha certeza de que o Poetinha o receberia de braços abertos. “Vinícius era um cara que escrevia poesias muito parecidas com a pessoa dele. Toda a poética de Vinícius, toda a generosidade que você encontra na poesia de Vinícius, toda a vontade de fazer amigos, de encontrar o amor, estavam nele! Ele era aquilo. Então, eu bati na porta procurando um cara que eu tinha certeza de que me receberia bem”, conta. “Vinicius era o cara! Como o Chico Buarque disse, era o cara que ria com a barriga. Ele ria de verdade, com o corpo todo. Você olhava para ele e sentia que aquele cara sabia de tudo. Tenho muita gratidão por ele. Ele se transformou numa espécie de sonho de consumo daqueles que precisam de amigos. Ele sabia ser um grande amigo”, elogia, saudoso.

Eu estava em meu camarim no Teatro Municipal do Rio, no Prêmio da Música Brasileira que, naquele ano, fazia uma homenagem a mim. Estava um pouco tenso, tentando, junto do meu violão, passar por tudo aquilo sem fazer feio, quando adentrou o meu camarim o Zeca Pagodinho. Ele sentiu, com toda sua intuição, o meu clima. E viu que eu não iria poder acompanhá-lo naquela cerveja. Então, começou a cantar: “O dia se renova todo dia / eu envelheço cada dia e cada mês / o mundo passa por mim todos os dias / enquanto eu passo pelo mundo uma vez / a natureza é perfeita / não há quem possa duvidar / a noite é o dia que dorme / o dia é a noite ao despertar...” É um samba do Alvaiade lá dos anos 40. Não é só a música em si, mas o momento especial em que ela surge para você, como se quisesse dizer algo, como quem aconselha. É isso. Já me aconteceu algumas vezes na vida, mas eu me lembrei dessa, agora.

Acumulando experiências pessoais, compondo, tocando, testando empiricamente, como se aplicasse à música o método da engenharia, João foi formulando sua técnica ao violão, forjando um estilo próprio e, ainda que sem formação musical acadêmica, tornando-se reconhecido como virtuoso. Aqueles que dedicam tempo à audição de sua obra não só admiram suas canções, mas percebem as sutilezas da execução, os detalhes harmônicos, rítmicos e melódicos, muitas vezes associados à letra e ao arranjo. Aos 70 anos, desfruta a arte com alegria e viaja com notável frequência pelo país, equipado

O que devo comemorar, de fato, é o desejo de continuar fazendo música. Ir ao encontro dela. Desejá-la para poder continuar existindo.

Esteticamente, o que esse trabalho tem de diferente do que já apresentou antes? Nesse CD, desde o começo, me planejei para fazer letras com astral alto, nada de sofrimento exagerado, dor de cotovelo ou dor de corno. Tive que deixar algumas boas composições de fora porque tinham letras com conteúdo mais pesado. O resultado das canções com temáticas mais positivas deu no nome do grupo, Bem, sugerido pelo meu filho André.

RUMO AOS PRÓXIMOS 20 ANOS COM SÓLIDA PRESENÇA NACIONAL E INTERNACIONAL E SEMPRE INDEPENDENTE, A BANDA SE APROXIMA DAS DUAS DÉCADAS DE EXISTÊNCIA COM NOVA FORMAÇÃO E O ÁLBUM “O FUTURO DOS AUTORAMAS”, DE PEGADA DANÇANTE Por Michele Miranda, de São Paulo Com quase 20 anos existência, o Autoramas coleciona feitos antes inimagináveis para uma banda que trilhou independentemente seu caminho desde o começo. De shows fora do eixo das capitais brasileiras a turnês internacionais, passando pela lista de mais tocadas em países como a Noruega, o grupo liderado por Gabriel Thomaz lança novo disco. “O Futuro dos Autoramas” é o primeiro álbum com a nova formação, que, além de Thomaz, agora inclui a cantora e multi-instrumentista Érika Martins, o baixista Melvin Ribeiro e o baterista Fred Castro.

Oficialmente você ainda integra o Barão, certo? Em que pé anda a banda atualmente? O Barão está se organizando para uma turnê em 2017, quando comemoraremos 35 anos de carreira. Quero muito estar na estrada com o grupo. Ainda tenho muita vontade de tocar em todas as cidades do Brasil em que não estive com o Barão. Quero morrer tocando e deixando correr. Você está cumprindo 25 anos de UBC. Como avalia o trabalho da associação? Acho que a UBC sempre fez um bom trabalho. Me representa bem. Tenho bons amigos nela. Estou contente com a arrecadação e confesso que, volta e meia, o direito autoral me salva. Sou de uma época em que se ganhava dinheiro com música, fosse compondo, arranjando, tocando ou como intérprete. Hoje vejo a internet fazendo uso indevido das obras musicais, ninguém respeita os autores. Sobre o digital, streaming etc., acho os pagamentos muito baixos, e, quando recebo cinco folhas de papel me explicando que ganhei R$ 0,01 por participar de determinada música, fico com uma pena danada da árvore derrubada e da minha “derrubada” também. Não se pode dar esmola à cultura. Até quando vão tentar nos convencer de que eles é que estão corretos?

Guto (à frente de óculos), entre novos companheiros e parceiros.

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“A contribuição de todos é maravilhosa. A Érika é uma cantora de verdade, isso representa um salto gigantesco, por exemplo, para quem gosta de vozes femininas. A banda está mais completa, com mais músicos, mais instrumentos no palco. Este é o disco que mais ouvi. Já tive discos que lancei e que não gostei do resultado. O que me salva são os fãs falando que gostaram. Esse eu adorei”, analisa o cantor e compositor, comentando as novidades sempre tão esperadas quando um disco do Autoramas fica pronto. “É a primeira vez que temos várias músicas em inglês no mesmo álbum; talvez por causa das turnês internacionais, que se tornaram constantes. E a primeira vez que lançamos em cassete; é um formato tão bonitinho!” LANÇAMENTO E TURNÊ NA EUROPA Depois de ser lançado no Brasil nos meios digitais e nos formatos físicos em CD, vinil e cassete, no fim de junho o disco chegou a Portugal e foi executado também nas rádios - em apenas uma semana, já estava no top 30 da Antena 3, a maior emissora musical dedicada a pop e rock no país. E isso não é por acaso. A banda fechou uma série de shows por lá, com passagem também por Alemanha, Suíça, Inglaterra e Finlândia. O primeiro single, “Quando a Polícia Chegar”, chegou a ocupar o 61º lugar entre as mais tocadas no mundo todo segundo ranking divulgado pela plataforma de streaming Deezer. “Gabriel foi um desbravador, criou um mercado. ‘Não tem esquema? Vou criar um’, ele dizia. Há alguns anos, ninguém ia fazer show no Acre, no Amapá, só um cara muito bombado ou banda underground local. Nenhum artista de médio porte fazia”, comenta Érika, que, além de assinar voz, guitarra, teclados e percussão no disco, também é casada com Thomaz: “Estou presente no Autoramas há 13 anos, desde que comecei a namorar o Gabriel. A gente já compunha junto. Tem música minha que o Autoramas já tinha gravado. Sempre perguntavam por que não tocávamos juntos. Mas ainda não era o momento. A gente se admira muito, isso é importante

Além da noite no palco de Montreux, tem outros planos para celebrar seus 70 anos?

para qualquer casal. Ele é um hitmaker e está se firmando como um dos melhores compositores do Brasil.” Com uma pegada new wave e batidas dançantes, além de um flerte com os anos 60, “O Futuro dos Autoramas” é bem fiel à essência da banda, mas é possível notar algumas diferenças. “Venho do Carbona, e o Fred vem do Raimundos. Temos uma influência grande do punk, do Ramones, e a mão mais pesada do que a Flavinha (ex-baixista) e o Bacalhau (ex-baterista). Não temos como fugir do nosso estilo”, explica o baixista Melvin, que já era fã do grupo. “Fui a milhares de shows do Autoramas. É uma banda com a qual me identifico muito, especialmente por essa pegada da pista de dança. Quando falo que toco numa banda de rock, as pessoas acham que é um bando de gente batendo cabeça, mas a gente trabalha essa vertente do rock dançante”, define.

HOMENAGEM : UBC/13

12/UBC : HOMENAGEM

porém, na apresentação inicial. Já no 3° Festival Internacional da Canção Popular, teve “Boca da Noite”, parceria com Paulo Vanzolini, classificada para a finalíssima da fase nacional, ficando em 8° lugar. Na noite histórica, o júri deu a vitória a “Sabiá”, de Tom Jobim e Chico Buarque, sob protesto de um Maracanãzinho lotado, que exigia o 1° lugar para “Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores”, a célebre canção de protesto de Geraldo Vandré.

TOQUINHO

Em 1966, graças a uma indicação do radialista Walter Silva, foi chamado a gravar e produziu o disco “O violão de Toquinho”, composto de solos de violão, com apoio de Ely Arcoverde, no órgão, Thommas Lee na flauta e José Roberto Marco Antonio na bateria. Outro marco dessa época foi sua viagem à Itália, para onde fora em exílio o amigo Chico Buarque. De apresentações mambembes e calotes de empresários, os dois conseguiram

PELO PAÍS : UBC/7

6/UBC : PELO PAÍS

MARCO ANTÔNIO GUIMARÃES:

emplacar uma temporada de 35 shows, fazendo a primeira parte das apresentações de Josephine Backer, estrela que brilhava no velho continente e era conhecida simplesmente como “La Backer”. Da temporada na Europa, Toquinho deixou marcada em vinil a qualidade de seu violão no disco “La Vita, Amico, È L'arte Dell'incontro”, produzido por Sergio Bardotti em homenagem a Vinicius de Moraes, com participação do poeta Giuseppe Ungaretti e de Sergio Endrigo. Mais um laço na teia que marcaria a amizade de sua vida.

um novo estímulo compor canções”, compara o multiartista, que mostrou ao mundo sua habilidade de elaborar trilhas de filmes ao produzir a de “Ensaio…” a partir de um convite do diretor brasileiro Fernando Meirelles. A repercussão foi tamanha que a imprensa americana o descreveu como um “Steve Reich (pioneiro nova-iorquino do minimalismo) exilado na Amazônia”. NO INÍCIO, MILTON A voragem de convites para parcerias começou com Milton Nascimento, primeiro grande nome associado ao trabalho do Uakti, ainda nos anos 1980. Foram “várias participações” em discos do Bituca, como descreve Marco Antônio. “Por causa dessas parcerias, Paul Simon nos conheceu. Recebemos dele o convite para gravar em seu disco ‘Rhythm of the Saints’. Ficamos uma semana em estúdio com ele, no Rio de Janeiro, e um dia ele convidou seu amigo Philip Glass, que estava no Brasil, para conhecer o Uakti. Foi um encontro muito legal, tocamos algumas músicas do repertório do grupo, e, quando Philip ficou sabendo que tocaríamos em BH alguns dias depois, veio assistir. Ficamos amigos. Ele lançou discos do Uakti nos EUA pelo seu selo, e, mais tarde, criamos em parceria o balé ‘Sete ou Oito Peças…’, para o Grupo Corpo.”

A REINVENÇÃO DA

E foi a qualidade das gravações desse disco que levaram o poetinha Vinicius de Moraes a chamar Toquinho para acompanhá-lo, inicialmente em uma temporada na Argentina, ao lado da cantora Maria Creuza. Passo fundamental para a parceria, que durou quase onze anos (e encerrou-se com a morte de Vinicius), 120 canções, 25 discos e mais de mil espetáculos.

ALMA DO UAKTI

MEIO SÉCULO DE MÚSICA, 70 ANOS DE AMOR À VIDA TOQUINHO

'A IDEIA É PROMOVER UMA GRANDE FESTA' Apesar de algumas canções em inglês, a maioria do repertório é em português, e foi assim que o Autoramas, aos poucos, conquistou o território internacional. O grupo chega à sua 14ª turnê no exterior, com direito a presença em festivais importantes como o South by Southwest (EUA), atribuindo o sucesso ao gênero dançante. “Toquei durante muito tempo um rock pesado no Raimundos, mas gosto de música para dançar. E 99% do set do Autoramas são dançantes. A ideia é sempre promover uma grande festa. A gente faz turnê em países que não falam português, e as pessoas entendem perfeitamente a proposta de cada música”, conta Fred. Mesmo com a carreira a todo vapor, com vários projetos como Lafayatte e os Tremendões e o Chuveiro in Concert, Érika acha que alguns setores da indústria da música podem melhorar. O maior problema, segundo ela, acontece no campo da arrecadação dos artistas nas ferramentas on-line. “A remuneração do streaming é ridícula. Para quem tem milhares de hits gravados ainda dá para lucrar um pouco. O streaming até melhorou a situação. Porque antes era nada: download gratuito, pirataria, a gente não recebia nada. É preciso reinventar essa indústria. Foi uma mudança natural que aconteceu na música com a chegada da internet, e as gravadoras bateram de frente. O dinheiro garantido para o artista é o do show. Pelo menos tenho a UBC como aliada, que é a melhor associação que existe. O Gabriel era de outra associação. Ele tem vários sucessos gravados, mas vivia num processo confuso. Mostrei para ele como eu era bem tratada na UBC, e ele migrou”, ela conclui.

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saiu de cena o “Toninho” para entrar o “Toquinho de gente”, como lhe chamava sua mãe, dona Diva.

Muito metódico e estudioso, dedicou o mesmo afinco para tornar-se o campeão de botão do bairro, ser o melhor aluno da escola e, mais tarde, dominar o violão como poucos. A música lhe chegou por todos os lados, desde um violino quebrado que a mãe guardava no armário aos discos de Ângela Maria, Luiz Gonzaga e Ray Coniff na vitrola. Sem contar os vozeirões de Anysio Silva, Nelson Gonçalves e Vicente Celestino, que faziam a cabeça do jovem por serem "dramáticas" e "tristíssimas". Por fim, o violão foi escolhido por Toquinho como uma possível saída para as crises emocionais que vivia, por se cobrar demais, principalmente nas épocas de prova na escola. No instrumento, teve uma primeira professora, que abandonou o aluno "por não saber ensinar tudo o que ele pedia" e passou em seguida a ter aulas com o mestre Paulinho Nogueira. Na segunda aula já surpreendeu o professor, ao fazer a lição de casa, que era ensaiar a música "Esse Seu Olhar", de Tom Jobim. Toquinho não só trouxe a música ensaiada como a tocou também em dois outros tons, levando o professor a pensar: "Este não é um aluno comum". Teve ainda como mestres Edgar Gianullo, da orquestra Simonetti, Oscar Castro Neves e Isaias Sávio. Com toda essa formação e os amigos apresentados por Paulinho Nogueira, em menos de dois anos Toquinho passou da participação em shows amadores para atuações profissionais. A primeira aparição na televisão foi na TV Record, no programa “Hully-Bossa”, uma competição musical entre os partidários da bossa nova e os adeptos do nascente rock ’n' roll. Em dezembro de 1964, participou com seu violão da peça “Balanço de Orfeu”, acompanhando Taiguara, e foi responsável pela direção musical da apresentação em São Paulo da peça “Liberdade, Liberdade”, que tinha em seu elenco estrelas como Paulo Autran, Tereza Rachel e Oduvaldo Viana Filho. Toquinho também fez grande figura nos clás

POR ELE MESMO

Paulistano na gema Sempre morei em São Paulo, cidade que amo, pela qual transito com prazer. Tenho hábitos mais noturnos, se bem que ultimamente tenho acordado mais cedo. Música do dia a dia Fico à mercê da variedade das FMs. Há sempre alguma coisa boa de se ouvir.

BRINCADEIRA

É COISA SÉRIA Difícil achar um brasileiro que não conhece ou não gosta de músicas como “Aquarela” e “O Caderno”, ambas de 1983, ou “O Pato”, de 1981. Canções como essas, gravadas por Toquinho e compostas com diversos parceiros, consagraram o paulistano como um dos principais artistas a unirem o lirismo da MPB e o universo infantil. Mas essa trajetória começou bem antes, em 1972. Naquele ano, o espetáculo “L’Arca” estreou na Itália, com versões de Sergio Bardotti para alguns dos poemas musicados do livro “A Arca de Noé”, de autoria de Vinicius de Moraes. Nas melodias, Paulo Soledade e Toquinho. “Depois, no Brasil, em 1980, trabalhamos nas canções que foram gravadas nos discos ‘Arca de Noé’ e ‘Arca de Noé 2’, lançados no ano seguinte, após a morte do Poeta”, conta. Depois disso, em 1983, Toquinho fez, com Mutinho, o disco infantil “Casa de brinquedos” e, em 1986, compôs com Elifas Andreato a “Canção dos Direitos da Criança”, disco baseado nos dez princípios da Declaração Universal dos Direitos da Criança, aprovada pela ONU em 1959. Nada mais justo para um compositor que ama o universo da criança e acredita que elas têm muito para nos ensinar, “principalmente naturalidade e transparência”.

Pessoas que marcaram sua vida A família, sem dúvidas. Desde pai, mãe e irmão que sempre me apoiaram. Mônica, com quem fui casado durante 20 anos, mãe de meus filhos Pedro e Jade. Amigos, sem os quais a vida não teria sentido. Aqueles que se tornaram professores na música e na vida: Paulinho Nogueira, Edgard Gianullo, Oscar Castro Neves. Baden Powell; Vinicius de Moraes, em especial, com quem trabalhei durante 10 anos e pude desfrutar de sua sabedoria como homem, poeta e músico. E todos aqueles que trabalham comigo, fortalecendo uma retaguarda indispensável a todo artista. Três músicas de que mais gosta Fica difícil destacar três. Talvez “Imagine”, de John Lennon; “Carinhoso”, de Pixinguinha e João de Barro; “As Rosas Não Falam”, de Cartola. Lembrança da amizade com Vinicius A fase em que morei na casa dele em Salvador, no início de nossa parceria. Trabalhávamos como se brincássemos, criávamos às vezes três músicas por dia. Vivemos um período de muita fertilidade, e tudo contribuía para isso: a atmosfera vivida naquela casa, sempre cercada de amigos e mulheres lindas. A Bahia inteira parecia flutuar por lá. Direitos autorais É um assunto sempre em discussão, as partes exigem direitos mais proveitosos. Há que respeitar o que se recebe e valorizar o que se oferece. Os ajustes se formam e se confirmam no decorrer das negociações. Inevitável! Conselho para novos compositores Trabalhar muito e estudar. Estudar muito e trabalhar!

FUNDADOR DO ACLAMADO GRUPO MINEIRO, EXTINTO NO FIM DO ANO PASSADO, O MULTIARTISTA PLANEJA SE DEDICAR A CANÇÕES E TRILHAS SONORAS E PÕE À VENDA OS CURIOSOS INSTRUMENTOS MUSICAIS QUE CRIOU AO LONGO DE 45 ANOS De Belo Horizonte e do Rio* Músico, compositor e um dos mais aclamados movimentadores da cena musical mineira, Marco Antônio Guimarães, fundador do Uakti, se reinventa após o fim do lendário grupo que fundou, em 1978. Anunciada por meio de sua conta numa rede social em outubro do ano passado, a dissolução do quarteto cujo sofisticado minimalismo rendeu comparações - e parcerias - com Philip Glass, bem como rasgados elogios da crítica internacional ao longo de décadas de apresentações por aqui e lá fora, gerou apreensão. Tudo porque, além do grande valor artístico das composições, que emprestaram beleza e poesia a cinco espetáculos de balé do Grupo Corpo e à trilha sonora do longa-metragem internacional “Ensaio Sobre a Cegueira”, entre gravações com nomes como Milton Nascimento e Ney Matogrosso, o Uakti tem outro patrimônio inestimável: os curiosíssimos instrumentos feitos de sucata por Marco Antônio desde 1971, e que foram postos à venda. Com 36 anos de existência e a mesma formação há muitas décadas, o Uakti vinha passando por desgastes, como admite Marco Antônio. “Problemas internos e pessoais tornaram impossível a continuidade do grupo”, descreveu o seu fundador num brevíssimo e discreto relato na internet, o mesmo em que anunciou a venda das peças, feitas de copos plásticos a madeira de demolição, de pedras e vidro a tubos de PVC. Tais instrumentos estão ligados à gênese do Uakti, já que seu nome remete a uma lenda indígena sobre um ser mitológico (Uakti) cujo corpo, atravessado pelo vento, produzia lindas músicas que encantavam as mulheres. Enciumados, os homens o mataram, e, no lugar onde o enterraram, nasceram palmeiras cuja madeira foi usada para fazer flautas de sons celestiais.

DESTINO PREFERIDO: ESCOLA DE MÚSICA DA UFMG

Uma caminhada que se firmava, nos anos 1980/1990, na direção da merecida projeção internacional. Mas que, para Marco Antônio, começou bem antes. “Minha mãe, Heloisa Fonseca Guimarães, era artesã e tinha em casa uma pequena oficina com ferramentas variadas porque trabalhava com diversos materiais. Aprendi com ela o manejo de ferramentas e construía meus brinquedos quando criança. Quando fui estudar música na Universidade da Bahia, em Salvador, conheci Walter Smetak, suíço naturalizado brasileiro que construía maravilhosos e inusitados instrumentos musicais. Foi um encontro muito marcante e, por influência direta do trabalho de Smetak, quando voltei a Belo Horizonte comecei a criar meus próprios instrumentos”, precisamente em 1971.

Apesar do interesse de instituições culturais e de ensino, o acervo ainda está disponível para quem quiser arrematar. “Quando anunciei pelo Facebook que estava vendendo tudo o que criei nos últimos 45 anos, um grupo de fãs iniciou uma campanha para que o (instituto cultural) Inhotim, de Minas, adquirisse todo o acervo para exibição em exposição permanente. Isso partiu dessas pessoas que admiram meu trabalho, não foi um contato direto de Inhotim”, explica Marco Antônio à Revista UBC. Também a Escola de Música da Universidade Federal de Minas Gerais manifestou interesse pelo acervo, embora a reitoria tenha vetado a aquisição alegando necessidade de cortar despesas. “Fui procurado pela diretora de lá, a Mônica Pedrosa. Eu gostaria muito que alguma empresa, algum ‘mecenas’, comprasse o acervo completo e doasse à escola.”

Já formado, o multiartista atuou como violoncelista em orquestras sinfônicas de São Paulo e Minas Gerais. Enquanto isso, aventurava-se mais e mais na produção dos instrumentos. As jam sessions que organizava com amigos para testá-los foram a ponte que faltava para a formação de um grupo próprio. “Vez ou outra, convidava músicos amigos para seções de improvisação com o pequeno grupo de instrumentos que eu criava. Aos poucos, alguns músicos passaram a se dedicar ao estudo de instrumentos novos que iam surgindo, e começamos a ensaiar mais regularmente”, descreve o embrião do Uakti. A primeira formação, e mais longeva, incluiu, além de Marco Antônio, Paulo Sérgio Santos, Décio Souza Ramos, Artur Andrés e Claudio Luz. O violonista Bento Menezes participou do grupo até 1984 e toca nos dois primeiros discos do coletivo.

A indefinição sobre os instrumentos não chega a estimulálo a voltar atrás na decisão de pôr fim ao Uakti. “Não tenho a intenção de voltar a formar nenhum grupo musical”, afirma, categórico. Agora, segundo diz, ele planeja escrever canções e também continuar a se embrenhar no universo das trilhas sonoras. Só do Grupo Corpo foram cinco: “Dança Sinfônica”, deste ano; “Uakti”, de 1988; “21”, de 1992; “Sete Ou Oito Peças Para Um Ballet”, de 1994; e “Bach”, baseada na obra do compositor alemão, de 1996. “Gosto de todas elas mas, segundo Rodrigo Pederneiras, coreógrafo do Corpo, o balé ‘21’ foi um divisor de águas na sua maneira de coreografar, motivado por essa trilha em especial”, orgulha-se Marco Antônio.

Alguns anos depois, já reconhecido no exterior, o inventor foi convidado pelo museu Exploratorium, de São Francisco (EUA), a elaborar aparelhos sonoros exclusivos para seu acervo permanente. A sonoridade peculiar, inventiva, do Uakti encantou não só Paul Simon, Philip Glass e Milton Nascimento. Maria Bethânia, Ney Matogrosso e Zélia Duncan também tiveram a luxuosa colaboração do grupo. Que, mesmo tão requisitado, ainda encontrou tempo de sobra para lançar dez discos próprios ao longo dos mais de 36 anos de existência, além de participar de muitas dezenas de concertos (em todos os continentes), festivais e master classes em diversos países. Um legado já mais que garantido na história da música brasileira.

O mergulho em canções com letras é um grande desafio. “Escrevi muita música instrumental esses anos todos, e seria

Alguns dos instrumentos criados por Marco Antônio: todos à venda.

*Por Fabiane Pereira

CAPA : UBC/15

14/UBC : CAPA

RECEITA DE ARTISTA COM PEGADA EMPREENDEDORA, E SEM A TUTELA DAS GRANDES GRAVADORAS, CANTORES E COMPOSITORES AMPLIAM GANHOS POR MEIO DE FINANCIAMENTO COLETIVO, EDITAIS PÚBLICOS, PATROCÍNIOS DE EMPRESAS, PLATAFORMAS ON-LINE E MERCHANDISING Por Luciano Matos, de Salvador Colaboração de Andrea Menezes, de Brasília Ilustração de Gustavo Barbosa Todo compositor sonha com viver do fruto direto da sua arte – a arrecadação de direitos autorais. Mas a realidade e as dinâmicas do mercado nem sempre o propiciam, de maneira que proliferam soluções alternativas adotadas por artistas empreendedores, que arregaçam as mangas e atuam diretamente na gestão das próprias carreiras. Se um dos possíveis manás de tempos passados – os polpudos contratos com grandes gravadoras – se tornou tão raro que já quase nem se configura como uma opção viável, criadores de todo o país encontram novas maneiras de se bancar. Que passam por financiamento coletivo, editais públicos, patrocínios de empresas, plataformas on-line de autodivulgação e shows ao vivo, merchandising de produtos, a velha venda de discos (devidamente adaptada à era digital) e, por que não?, até um contrato eventual com gravadora. Artistas, especialistas em gestão e empresários coincidem num ponto: dificilmente um artista sobrevive de apenas uma dessas iniciativas e precisa entender de uma vez que é parte ativa no processo de elaboração de estratégias. Para o Consultor do Sebrae especializado no mercado de música Leonardo Salazar, todo criador de arte deve enxergar sua atividade como um negócio, e isso não desqualifica a criação artística; pelo contrário, esse comportamento aumenta as chances de sucesso no desenvolvimento da carreira. “O que vai mudar de um artista para o outro, obviamente, é o peso de cada categoria de receita em relação ao faturamento total”, afirma. Fazer shows e vender discos, por exemplo, continuam sendo as formas mais comuns e, agora, viabilizam-se por meio de formatos inovadores como o financiamento coletivo, ou crowdfunding. Nele, o artista propõe um projeto (portanto, o primeiro passo, naturalmente, é ter o que dizer e saber como vender a ideia); então, estabelece uma meta (um show, um álbum, um filme, o que for), calcula o custo e publica tudo numa das inúmeras plataformas dedicadas ao modelo. O público, por sua vez, o apoia, se quiser e com quanto puder. Em troca, esses fãs patrocinadores ganham recompensas (estreias exclusivas, brindes, discos e outras peças autografados), dependendo do valor desembolsado. O maior prêmio, no entanto, é ver o projeto no qual investiu sendo realizado.

VANDER LEE, LUCAS SANTTANA E COMPANHIA QUASE ILIMITADA Nomes como Vander Lee e Lucas Santtana são alguns dos que apostam no formato. Lucas já havia produzido um disco anterior, “Sobre Noites e Dias” (2014), com contribuição dos fãs. Agora prepara “Modo Avião”, sua oitava realização, juntando música, cinema, literatura e quadrinhos. Neste novo projeto, o músico baiano pediu R$ 43 mil na plataforma Catarse.me para produzir o CD, um texto literário e uma HQ. Como contrapartida, oferece os próprios produtos, além de shows, discotecagens, uma tarde com o artista, participação das gravações, entre outras coisas. “Estou apostando novamente porque já tenho as músicas prontas e todo o desenho do disco novo. É um formato inédito no mundo ainda, e preciso realizá-lo logo, não quero esperar por algum dinheiro que possa vir de outra fonte no momento”, explica. Já Vander Lee testou pela primeira vez o financiamento coletivo, na plataforma Kickante.com.br. O cantor e compositor mineiro queria viabilizar um DVD comemorativo de seus 20 anos de carreira, gravado em um show realizado em julho passado, no Rio de Janeiro. Para ele, nos momentos de crise, o primeiro setor afetado é a cultura, e, segundo opina, depender de editais e leis de incentivo não é algo viável nos dias de hoje. “Tínhamos a opção de inscrever em leis federais, estaduais ou municipais. Se fosse inscrever quando tivemos a ideia, teria que esperar ser aprovado, depois viria o trâmite burocrático. Estaria agora atrás de patrocinador com o projeto debaixo do braço. Teria um ano para conquistar e, talvez, só realizasse em 2017.” Era tentar isso ou chamar os próprios fãs para colaborar desde o início do processo. Vander escolheu a segunda opção. O valor total da gravação gira em torno de R$ 140 mil, que teria uma parte tirada da bilheteria do show, outra pela compra antecipada do DVD e outra pela “vaquinha” junto aos fãs. Vander pediu R$ 90 mil pelo financiamento coletivo, mas vai utilizar o recurso que for obtido na campanha, mesmo não alcançando a meta final: “Achamos que patrocínio direto seria mais curto. Dessa forma, coloco meu potencial criativo em tempo real, em poucos meses você sabe se vai dar ou não, se é viável ou não.” Ele não pensa assim sozinho. Só no ano passado, na maior plataforma de crowdfunding do país e parceira da UBC, a Kickante, a categoria música ficou em segundo lugar no ranking das que mais arrecadaram. Foram nada menos que R$ 2,59 milhões levantados por 1.510 campanhas lançadas literalmente nos quatro cantos do Brasil. A empolgação do público em ajudar e o fato de, segundo a cofundadora e presidente da plataforma, Candice Pascoal, ainda estarmos num estágio anterior a Europa e Estados Unidos no que toca ao envolvimento com essa modalidade fazem prever uma expansão ainda maior: “É uma tendência que se manterá nos próximos anos. E tal sucesso é comprovado com dados. De acordo com a revista 'Forbes', o mercado global de financiamento coletivo levantou ano passado US$ 34,4 bilhões e deve superar o montante investido em capitais de risco este ano.” Para o sucesso do modelo, requer-se um nível de envolvimento por parte dos artistas a que muitos não estão habituados. “A garra e a dedicação do empreendedor são determinantes”, afirma Candice, cuja Kickante oferece 10% de desconto para associados da UBC (confira no quadro na página xx). “É necessário muito esforço de divulgação e de relacionamento”, ela afirma. No caso de um álbum feito por meio desse modelo, como se dá a distribuição? Se a opção for por venda digital ou streaming,

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mantêm as apresentações – presenciais ou virtuais – como fundamentais para manutenção de suas carreiras. A banda pernambucana Eddie diz ter nas performances ao vivo sua maior fonte de dinheiro e seu principal modo de sobrevivência. Com uma carreira de quase 30 anos, passando por um momento de evidência no período do mangue beat, o grupo segue se adaptando às mudanças do mercado de música. Já tiveram contrato com major, já lançaram discos independentes, já circularam por quase todo o país e criaram lojinha virtual. Mas o foco principal são as apresentações. Para viabilizar esse modelo, o vocalista e líder da banda, Fábio Trummer, diz que o único caminho é trabalhar muito e aproveitar as oportunidades que surgirem. “No início, investimos em tocar no Rio, em São Paulo, Salvador, Brasília, Natal, João Pessoa, Maceió e Fortaleza... Passamos muitos perrengues, dormimos de favor, em pleno palco, no chão de apartamento de amigos... Comemos pouco, dormimos pouco, carregamos equipamentos em ônibus urbanos, de linha. Foi assim cruzando o país. Trabalhávamos na bilheteria, no bar, no palco, montávamos e desmontávamos o som e o palco, fazíamos os cartazes e panfletos, saíamos para colar pela cidade, para distribuir panfletos, batíamos nas portas das gravadoras, das casas de show, produzíamos nossos próprios shows. Costumo dizer que se requerem pelo menos 15 anos de muito trabalho para começar a ganhar algum dinheiro com o trabalho de música autoral”, descreve Trummer. Se os shows são um dos modelos mais tradicionais e duradouros, há novos formatos que ajudam um bocado. Entre eles estão as transmissões pagas feitas pela internet propostas por sites como o Netshow.me. O formato é parecido com o crowdfunding, mas focado em apresentações ao vivo, sejam transmissões de shows com público presencial, sejam performances exclusivas para a web. Funciona assim: os artistas criam suas transmissões, e os fãs pagam para assistir, podendo ganhar prêmios, que podem ser aos que mais doarem antes e/ou durante sua transmissão ou CDs autografados, camisetas, ingressos de shows... Alguns artistas aproveitam as transmissões para valorizar a relação com os fãs. Em 2014, a banda Fresno, quando estava participando do festival SXSW, no Texas, decidiu realizar sua primeira transmissão ao vivo pelo Netshow.me e fazer uma promoção inusitada. Antes de subir ao palco, haviam pedido uma pizza que só chegou quando estavam no meio da apresentação, e até o entregador entrou no show. O vocalista da banda, Lucas Silveira, aproveitou e anunciou no meio da performance que transformaria a caixa autografada da pizza em recompensa ao principal apoiador.

PATROCÍNIOS E EDITAIS Há ainda um formato que ganhou bastante evidência em anos passados, num momento de fortalecimento do Ministério da Cultura. São as leis de incentivo e, em consequência, os editais, que, de certa forma, acabaram inibindo os patrocínios diretos. Há editais públicos de prefeituras, estados e União, como um recém-lançado da prefeitura do Rio para a produção de espetáculos inéditos, apoios a grupos e companhias para continuidade de repertório, eventos ou festivais. Serão selecionados no mínimo oito de projtos de até R$ 200 mil e quatro projetos de até R$ 100 mil. Consultas às páginas das secretarias de Cultura de estados e municípios ajudam a conhecer as iniciativas. Além disso, empresas como Natura, Itaú e Petrobras passaram a promover editais próprios de apoio a artistas e projetos musicais, utilizando-se das leis de incentivo federais e estaduais e obtendo isenção fiscal. Esse formato tem

garantido a realização de projetos muitas vezes inviáveis sem apoios financeiros mais consistentes. Também são um bom colchão para a realização de lançamentos menos comerciais e trabalhos de artistas iniciantes ou menos populares. A cantora e compositora baiana Manuela Rodrigues, que já venceu diversos editais, tanto públicos quanto privados, crê que essa alternativa de financiamento ajudou a profissionalizar ou a dar “mais dignidade” ao mercado. Também com eles, ela afirma, conseguiram-se viabilizar produtos que teriam mais dificuldade no mercado mais comercial: “Ajudou a gente a respirar num momento que o mercado estava muito difícil.” Manuela lembra como os editais serviram para embalar sua carreira. “Quando começou esse movimento de edital, poucas pessoas tinham know-how. Não tinha muita gente que escrevia, e eu logo de cara me arrisquei a entender o formato e me inscrever. Fui aprovada em muitos, para videoclipe, turnê, circulação, residência artística, finalização de disco. Me inscrevia em 40 para poder ser aprovada em cinco, e hoje continuo me inscrevendo em tudo para poder ganhar em algum. Em certo momento isso deu um gás à minha carreira.” Ela destaca, no entanto, que os editais e a isenção fiscal inibiram a iniciativa privada, que era mais aberta e apoiava diretamente, mesmo que fosse para pequenos investimentos. “Isso não acontece mais, infelizmente.” Hoje, dificilmente um artista vai conseguir trilhar um caminho próspero se achar que basta fazer sua música e esperar ser descoberto. Se o artista precisa ser um pouco de tudo, produtor, assessor de imprensa e vendedor, com tantas possibilidades, ele pode escolher melhor como pretende levar adiante sua carreira. As alternativas cada vez são mais diversas e mais disponíveis. Como diz Lucas Santtana, “existem muitos caminhos, e cada pessoa precisa decidir qual o melhor para si.”

CROWDFUNDING VANTAGENS • Produzir com a ajuda de um coletivo de pessoas sem precisar passar por mais nada nem ninguém • Publicação e divulgação online da ideia de forma quase imediata, sem custo e sem burocracia • A plataforma funciona também como uma ferramenta de marketing, dando uma visibilidade à campanha • Permite disponibilizar a pré-venda de um produto • Permite que investidores com pouco capital e pessoas comuns possam contribuir com pequenos montantes • Até as pessoas que não podem contribuir, mas que se interessam pelo projeto, podem ajudar na divulgação pelas redes sociais

CROWDFUNDING É UMA CIÊNCIA, COMO OUTRA QUALQUER. VOCÊ PRECISA ESTUDAR PORQUE AS VARIÁVEIS SÃO ENORMES. TEM QUE SABER FAZER A CAMPANHA E, ALÉM DISSO, ESTUDAR O ANDAMENTO DELA, PORQUE O QUE FUNCIONOU EM UMA PODE NÃO FUNCIONAR NA OUTRA. DEPENDE DE MUITOS FATORES EXTERNOS. Lucas Santtana

DESVANTAGENS • Não funciona para quem não tem uma boa base de fãs ou seguidores • É necessário ter logo de início um público já interessado, caso contrário, será conveniente conquistar uma grande audiência num curto espaço de tempo • Não funciona para projetos que necessitem de grandes montantes de dinheiro • Caso a campanha não atinja os objetivos, poderá acarretar uma repercussão negativa do artista • As campanhas podem contribuir para viabilizar de projetos específicos e de curto prazo, mas dificilmente irão sustentar uma carreira ou um projeto a longo prazo

ACHO QUE A PRIMEIRA COISA É FAZER O PROJETO MAIS VIÁVEL POSSÍVEL. A COLABORAÇÃO NÃO É SÓ FINANCEIRA, TEM QUE VIR DESDE A EQUIPE QUE ESTÁ TRABALHANDO ATÉ OS PRESTADORES DE SERVIÇO. A GENTE FECHA APOIO EM DINHEIRO E ESQUECE QUE PODE CONSEGUIR APOIO CULTURAL. TEM QUE SER O MAIS PRÓXIMO DA REALIDADE POSSÍVEL E FAZER UMA CAMPANHA BEM CONSISTENTE NA INTERNET, JÁ QUE A GENTE NÃO CONSEGUE ACESSAR TODAS AS PESSOAS AO MESMO TEMPO. OUTRA COISA IMPORTANTE É OFERECER BOAS CONTRAPARTIDAS PARA ESSES SÓCIOS.

GRAVADORAS AINDA SÃO UMA POSSIBILIDADE Com mais de 35 anos de experiência no mercado fonográfico brasileiro e passagem por grandes majors como Continental e Warner, Wilson Souto Júnior, sócio-proprietário da gravadora Atração, de São Paulo, celebra a luz no fim do túnel depois de a “bomba de Hiroshima” da pirataria, como descreve, ter chegado a ameaçar seriamente a sobrevivência do mundo musical na década passada. Para ele, a era digital abriu novas e auspiciosas possibilidades de ganhos para todos, “e 40% do caminho de volta à normalização já foram percorridos”. Wilson crê que muitos artistas ainda focam principalmente o desenvolvimento artístico, e não de carreira, o que representa uma grande oportunidade de negócio para pequenas e médias gravadoras, com atenção personalizada e especializada. “Nós temos expertise e condições de gerir as carreiras, oferecendo soluções integrais para gravação, distribuição, divulgação... Não acho de jeito nenhum que as gravadoras estão acabadas”, pondera. Ele afirma ter presenciado uma imagem icônica, em plena fase de fundo do poço, que o fez duvidar da recuperação. “Houve uma estratégia por parte de bandas comerciais do Norte e do Nordeste, de brega, forró etc., de imprimir milhares de discos e distribuir nos shows. O que importava era fazer shows, e não a venda da música. Vi discos jogados no chão, o auge da desvalorização da arte”, lembra. “Muitas vezes o artista não é um bom gestor da própria carreira, faz escolhas atrapalhadas. Acho que a nossa experiência é um diferencial. Não se pode pensar só em show. E o compositor que escreveu para aquele disco? E o direito conexo do músico que tocou lá? Não contam?”, indaga o empresário que diz que, como a Atração, outros selos mantêm departamentos de caça de novos talentos, contribuindo para tornar as gravadoras peças importantes nesse jogo.

Vander Lee

MERCHANDISING VANTAGENS • Possibilidade de lucrar muito mais com seu trabalho • Ter controle sobre sua venda • Conhecimento de seu público • Possibilidade de planejar e fazer estratégias

EU VEJO BANDAS MUITO GRANDES QUE NÃO CONSEGUEM VENDER NADA E BANDAS PEQUENAS QUE CONSEGUEM VENDER MUITO. TEM QUE PESQUISAR O FUNCIONAMENTO DE UMA LOJA DE E-COMMERCE NORMAL. TEM QUE COMPRAR E PESQUISAR NAS LOJAS DAS PESSOAS, VER COMO FUNCIONA, COMO É A VENDA EM QUEM TEM LOJAS LEGAIS. E MAIS, PARA VOCÊ SER UM BOM VENDEDOR, VOCÊ TEM QUE SER UM BOM CONSUMIDOR.

DESVANTAGENS • Só funciona se a banda tiver marca forte e, portanto, despertar interesse do público pelos produtos • É preciso ter tempo livre para aprender e, depois, executar • Dá bastante trabalho (desde o registro da marca da banda até a elaboração de produtos condizentes com a proposta estética e artística), e há um risco, já que não há certeza de resultado para todos • Exige capacidade de organização • Relação com fornecedores gera desgaste

Gustavo Anitelli, do Teatro Mágico

ÍNDICE

A Rev d

AUTORAMAS:

E a escolha dos músicos, como se deu? Procurei profissionais com os quais me identificava. Queria um grupo multiétnico também. A Yumi Park (vocais, ao lado de Bruno Mendes) é coreana. O guitarrista Lula Washington é pernambucano. Markus Britto, baixista, é do subúrbio carioca... eu queria uma mistura nova para defender um compositor que ninguém conhece ainda: eu. Digo isso porque, com todas as músicas que o Barão já gravou minhas, não sou um compositor reconhecido. Tenho quase cem composçiões e estou partirurando minha obra para disponibilizar esses registros.

Foto: Marcos Hermes

MÚ SI CA'

GUTO GOFFI: DO BEM E ENGAJADO

de violão e de um repertório ímpar. Mesmo assim, encontrou um tempo para um papo com a Revista UBC. Como costuma ser seu processo de composição? Começa a dedilhar o violão, e a melodia vem? Fica com um verso na cabeça por dias seguidos?

Foto: Miguel Aun

Mineiro, nascido em Ponte Nova, sexto filho – o primeiro homem após cinco irmãs –, flamenguista e parceiro musical de Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Chico Buarque, Waly Salomão, Aldir Blanc e tantos outros, João viu seu primeiro compacto chegar ao público em 1972, como disco de bolso do jornal “Pasquim”. De um lado, “Agnus Sei” (cocriação sua com Aldir). Do outro, “Águas de Março” (Tom). “Antônio Carlos Jobim era meu padrinho, e as 'Águas de Março' foram minhas águas de batismo”, relembra João, que, desde então, gravou 26 álbuns e enfileirou incontáveis sucessos.

Foto:Felipe Diniz

Por Fabiane Pereira, do Rio João Bosco passou o último 13 de julho na Suíça, onde, pela oitava vez, foi uma das estrelas da noite brasileira do Festival de Montreux. Mas, no dia em que celebrava seus 70 anos de vida, o mestre mantinha cabeça e coração bem aqui, no Brasil, de onde tira sua inesgotável inspiração e a cuja cultura contribui com suas criações de qualidade superior. Com mais de quatro décadas de uma carreira mais que bem-sucedida, ele revisita sua obra plural enquanto conserva intacto seu ímpeto pelo labor musical.

PELO PAÍS : UBC/11

10/UBC : NOTÍCIAS

ENTREVISTA : UBC/5

4/UBC : ENTREVISTA

'O QUE DEVO COMEMORAR, DE FATO, É O DESEJO DE CONTINUAR FAZENDO

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uma saída é apelar aos agregadores (ou distribuidores). Como a Revista UBC mostrou numa reportagem já no final de 2013, esses serviços atendem a produtores independentes que querem emplacar obras em grandes lojas virtuais (iTunes, Google Play) ou em serviços de streaming como Spotify e Deezer. Um pequeno realizador dificilmente consegue chegar até esses grandes players do mercado digital, razão pela qual os agregadores são úteis na ponte. Mediante a cobrança de uma taxa, eles organizam as vendas em relatórios, controlam os pagamentos e fazem a intermediação entre as lojas e o produtor. “É fundamental, para atingir um público fragmentado como o da internet, estar também em lojas menores e até mesmo em sites e aplicativos que não vendem música, como Shazam, Gracenote e, claro, YouTube”, disse Maurício Bussab, diretor da Tratore, um desses serviços.

VENDA DE PRODUTOS Há quem não dependa de intermediários e bole estratégias multidirecionais e quase todas bem executadas. Um desses casos extremos de sucesso – com boas vendas de discos online e física, frequentes shows “sob medida”, financiamento coletivo e variadas iniciativas de marketing – é o da banda paulista O Teatro Mágico. Eles realizaram uma das campanhas de financiamento coletivo mais emblemáticas do Brasil, arrecadando cerca de R$ 400 mil através de apoio de quase 3.600 pessoas. Com isso, conseguiram viabilizar a compra de todo o equipamento de som e iluminação utilizado em suas viagens. O grupo é um símbolo do chamado mercado 2.0, termo adotado por um de seus mentores, Gustavo Anitelli, responsável pela gestão e cocompositor da trupe. Um modelo de negócio baseado na fidelização transparente a partir das redes. “Esse modelo envolve um meio, a internet, e um modo, uma postura transparente, clara e participativa do público na carreira da banda. Acho que é um modelo mais capaz de colocar o público como um participante ativo da carreira. Ele não é só uma audiência, como no passado. Não está lá só para receber. É um público ativo. Essa cultura da participação é o que a gente tem de mais precioso”, celebra. Um dos trunfos do grupo é ir além da música e oferecer uma “experiência”, apostando sempre na relação próxima com os fãs. Shows a pedido dos seguidores da banda, por exemplo, são comuns. No começo do ano, O Teatro Mágico atendeu a uma demanda de um grupo e tocou um de seus álbuns na íntegra. Uma das marcas deles, porém, é o trabalho de sua lojinha e dos produtos de merchandising, que, além dos CDs e DVDs, vende camisetas de vários tipos, canecas, adesivos, bótons, capas para celular e até abridor, chaveiros, mouse pad, fronha, mochila, moletons e pijama. A renda com as vendas dos produtos costuma superar em alguns momentos até o faturamento com as próprias apresentações. “Já teve ano em que metade dos lucros do Teatro Mágico foi só do merchandising. Isso varia muito, de acordo com o momento da economia e de como você trabalha os produtos. O merchandising é um ponto estratégico. Tem momentos em que não dá para rentabilizar tanto, mas se engatar os produtos certos a possibilidade de lucrar é muito violenta”, explica Gustavo.

SHOWS E TRANSMISSÕES ON-LINE Se o modelo 2.0, mais atual e direto com o público, é ao mesmo tempo o presente e o futuro, a sustentabilidade por meio dos shows dialoga diretamente com o passado. Mesmo utilizando financiamento coletivos ou vendendo produtos, os próprios Lucas Santtana, Vande Lee e O Teatro Mágico ainda


4/UBC : ENTREVISTA

'O QUE DEVO COMEMORAR, DE FATO, É O DESEJO DE CONTINUAR FAZENDO

MÚ SI CA' UM PAPO COM O MESTRE JOÃO BOSCO, QUE CELEBRA 70 ANOS DE VIDA E MANTÉM INTACTO SEU ÍMPETO CRIATIVO


ENTREVISTA : UBC/5

Por Fabiane Pereira, do Rio João Bosco passou o último 13 de julho na Suíça, onde, pela oitava vez, foi uma das estrelas da noite brasileira do Festival de Montreux. Mas, no dia em que celebrava seus 70 anos de vida, o mestre mantinha cabeça e coração bem aqui, no Brasil, de onde tira sua inesgotável inspiração e a cuja cultura contribui com suas criações de qualidade superior. Com mais de quatro décadas de uma carreira mais que bem-sucedida, ele revisita sua obra plural enquanto conserva intacto seu ímpeto pelo labor musical. Mineiro, nascido em Ponte Nova, sexto filho – o primeiro homem após cinco irmãs –, flamenguista e parceiro musical de Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Chico Buarque, Waly Salomão, Aldir Blanc e tantos outros, João viu seu primeiro compacto chegar ao público em 1972, como disco de bolso do jornal “Pasquim”. De um lado, “Agnus Sei” (cocriação sua com Aldir). Do outro, “Águas de Março” (Tom). “Antônio Carlos Jobim era meu padrinho, e as 'Águas de Março' foram minhas águas de batismo”, relembra João, que, desde então, gravou 26 álbuns e enfileirou incontáveis sucessos. Antes do batismo veio o nascimento. João Bosco teve uma infância forjada a música – em casa, na rua, em qualquer lugar, os acordes, quaisquer que fossem, sempre o atraíram. “Em todos os momentos em que a minha memória está na infância, tem música por perto. A música sempre esteve em torno... Sem tipo específico. Simplesmente, música”, define. Aos 18 anos, saiu de Ponte Nova para cursar engenharia civil em Ouro Preto. E foi na república estudantil que começou a tocar violão “intensamente” e a compor “sem perceber que estava compondo”. “Acho que sempre tive um pressentimento (de que faria carreira na área). Porque sempre estive perto das pessoas que andavam com a música. Desde cedo eu me lembro de estar com algum amigo e da música que existia nele. Conheci o Vinícius (de Moraes) em 1967, e eu já fazia arranjos para um quarteto vocal em Ouro Preto. Penso que tudo isso era uma espécie de ensaio para o futuro. Quando cursava o último ano de engenharia civil, eu já não tinha dúvidas quanto à minha carreira profissional.” João procurou Vinícius na pousada em que ele sempre se hospedava em Ouro Preto. E o fez porque tinha certeza de que o Poetinha o receberia de braços abertos. “Vinícius era um cara que escrevia poesias muito parecidas com a pessoa dele. Toda a poética de Vinícius, toda a generosidade que você encontra na poesia de Vinícius, toda a vontade de fazer amigos, de encontrar o amor, estavam nele! Ele era aquilo. Então, eu bati na porta procurando um cara que eu tinha certeza de que me receberia bem”, conta. “Vinicius era o cara! Como o Chico Buarque disse, era o cara que ria com a barriga. Ele ria de verdade, com o corpo todo. Você olhava para ele e sentia que aquele cara sabia de tudo. Tenho muita gratidão por ele. Ele se transformou numa espécie de sonho de consumo daqueles que precisam de amigos. Ele sabia ser um grande amigo”, elogia, saudoso. Acumulando experiências pessoais, compondo, tocando, testando empiricamente, como se aplicasse à música o método da engenharia, João foi formulando sua técnica ao violão, forjando um estilo próprio e, ainda que sem formação musical acadêmica, tornando-se reconhecido como virtuoso. Aqueles que dedicam tempo à audição de sua obra não só admiram suas canções, mas percebem as sutilezas da execução, os detalhes harmônicos, rítmicos e melódicos, muitas vezes associados à letra e ao arranjo. Aos 70 anos, desfruta a arte com alegria e viaja com notável frequência pelo país, equipado

de violão e de um repertório ímpar. Mesmo assim, encontrou um tempo para um papo com a Revista UBC. Como costuma ser seu processo de composição? Começa a dedilhar o violão, e a melodia vem? Fica com um verso na cabeça por dias seguidos? No disco “Zona de Fronteira”, com Waly Salomão e Antonio Cícero, fizemos uma música que se chama “Misteriosamente”. Ela diz: “É noite alta e quente, e não vou mais dormir / pois uma canção / insiste em surgir / misteriosamente / proveniente de um caos que não tem fim / e da inquietação / sei que ela faz de mim / seu olho de nascente / gota por gota, cada nota vai brotar / algo gratuito assim que vem só porque quer / sem ninguém chamar / e não quer se esconder / e quando, enfim, se desdobrar / talvez seja por você.” De onde veio a paixão pelo futebol, que você canta em algumas canções? Meu pai foi goleiro, e dizem que foi um bom goleiro. Eu e o Aldir, junto com o João Donato, fizemos uma música onde falamos dele: “Nossas Últimas Viagens”, gravada lindamente pelo Dominguinhos em meu songbook. Ele era apaixonado pelo futebol. Era tricolor apaixonado. O rádio ficava rouco lá em casa nos dias de jogos no Maracanã. Por isso o meu time do coração é carioca e se chama Flamengo. Freud, com certeza, explica. Numa das primeiras visitas ao Rio de Janeiro, que eu só conheci em 1968, fui assistir a um show de vários artistas, e tinha o Chico Buarque. Quando ele entrou no palco, cantou um samba seu, “Bom Tempo”, que fala de um dia de domingo e de futebol e do seu Fluminense. Eu pensei comigo que um dia ainda cantaria aquele samba, pois seria uma maneira de estar com o meu pai ouvindo um Fla x Flu no rádio. No DVD “JB 40 anos depois” (de 2012), tive o prazer de cantar com o Chico Buarque esse samba e ouvir aquele rádio em Ponte Nova, mais uma vez. Um compositor/letrista é, muitas vezes, um grande contador de histórias. E histórias que não precisam, necessariamente, ter sido vividas por você mas sim, de certa maneira, passado por você. Há alguma música que traduza uma grande história que lhe diga respeito? Eu estava em meu camarim no Teatro Municipal do Rio, no Prêmio da Música Brasileira que, naquele ano, fazia uma homenagem a mim. Estava um pouco tenso, tentando, junto do meu violão, passar por tudo aquilo sem fazer feio, quando adentrou o meu camarim o Zeca Pagodinho. Ele sentiu, com toda sua intuição, o meu clima. E viu que eu não iria poder acompanhá-lo naquela cerveja. Então, começou a cantar: “O dia se renova todo dia / eu envelheço cada dia e cada mês / o mundo passa por mim todos os dias / enquanto eu passo pelo mundo uma vez / a natureza é perfeita / não há quem possa duvidar / a noite é o dia que dorme / o dia é a noite ao despertar...” É um samba do Alvaiade lá dos anos 40. Não é só a música em si, mas o momento especial em que ela surge para você, como se quisesse dizer algo, como quem aconselha. É isso. Já me aconteceu algumas vezes na vida, mas eu me lembrei dessa, agora. Além da noite no palco de Montreux, tem outros planos para celebrar seus 70 anos? O que devo comemorar, de fato, é o desejo de continuar fazendo música. Ir ao encontro dela. Desejá-la para poder continuar existindo.


6/UBC : NOTÍCIAS

NOVIDADES NACIONAIS com raízes brasileiras. Creio que a década de 1970 foi o start mutacional da música gospel no Brasil. O pontapé foi dado lá atrás para que hoje a música gospel (ou evangélica) cantada na língua portuguesa chegasse até a premiação com o Grammy. Como avalia o mercado de música religiosa hoje no Brasil? O mercado fonográfico da música religiosa no país deu um salto estupendo, e ouso atribuir isso à inserção de algumas canções evangélicas em trilhas sonoras de novelas, bem como à gravação de gospel evangélico por intérpretes de linha católica, uns até com mais de três milhões de discos vendidos.

'O MERCADO EVANGÉLICO DEU UM SALTO ESTUPENDO' UM DOS GRANDES NOMES DA MÚSICA GOSPEL NO PAÍS, AUTOR DE CANÇÕES DE SUCESSO, ELVIS TAVARES COMEMORA OS 30 ANOS DO LANÇAMENTO DA SUA PRIMEIRA OBRA E OS 15 DA CRIAÇÃO DA SUA EDITORA, A EFRATA MUSIC Há exatos 30 anos, o cantor, compositor e empresário Elvis Tavares lançou uma música cujo título, com pegada metalinguística, resume bem sua própria trajetória. Com “Não Há Barreiras”, gravada por Álvaro Tito, ele se lançou artisticamente e iniciou uma carreira de sucessos, alguns gravados por estrelas do gospel como Aline Barros e Cristina Mel. Quinze anos atrás, lançou o selo Efrata Music, que se tornou um dos mais respeitados do mercado evangélico. Histórico associado da UBC, o carioca Tavares, que apresenta o programa de flashbacks “Onde os Fracos Têm Vez”, com bastante repercussão na rádio Sara Brasil FM de Florianópolis, onde vive, esteve alguns anos fora da associação, mas acaba de se refiliar. Por que decidiu voltar para a UBC? Sempre tive a UBC como uma sociedade muito bem estruturada. Estive fora por contingências várias, mas, como diz aquela canção do Erasmo (que é da UBC), “eu voltei porque aqui é o meu lugar!” (risos). A criação da Efrata, há 15 anos, sedimentou uma relação bem mais antiga com o gospel, certo? Criamos a Efrata Music em 2001, motivados pela ideia fixa de levar ao autor de gospel a certeza de que os direitos deles são os mesmos direitos conferidos por lei ao autor de MPB (isonomia constitucional). Quanto a mim, que sou autor de gospel music, tenho minha história com gênese nos anos oitenta, quando tive a primeira obra gravada em disco. O que o atraiu para o mundo gospel? A primeira atração, de fato, foi fazer parte de uma igreja muito antes mesmo de a música fluir nos poros. Depois veio a clara percepção de que o gospel, quando aportou por aqui - no limiar da chegada de missionários protestantes -, tinha deixado uma herança de canções estrangeiras, ou seja, cantava-se um punhado de versões sem nenhuma identificação rítmica

O seu programa de rádio é local? Pode ser ouvido por pessoas de outras partes do país? Primeiro quero confessar que sempre quis fazer rádio, mas no Rio a coisa não vingou. Estou morando há dois anos em Floripa, e fui presenteado com a possibilidade de apresentar o programa “Onde os Fracos Têm Vez”, aos sábados, às 8h, na Sara Brasil FM. A proposta é trazer aos ouvintes aquelas músicas que acalentaram gerações e hoje, infelizmente, pouco são executadas no 'dial'. Os ouvintes em outros rincões podem ouvir graças à internet. O programa tem transmissão simultânea pelo site da rádio (http://www.radios.com.br/ aovivo/Radio-Sara-Brasil-89.1-FM/14538). Para se ter uma ideia, até mensagens do Qatar eu já recebi.

RAPPER JAPÃO LANÇA DVD PARA CELEBRAR SEUS 26 ANOS DE CARREIRA O rapper Japão, líder do Viela 17, celebra seus 26 anos de carreira com o lançamento de um DVD comemorativo, “Japão (Viela 17) – 26 anos de rap nacional”, em que repassa uma trajetória marcada pela denúncia coerente das desigualdades do país e da dura rotina das comunidades mais pobres. No dia 3 de setembro, a comemoração será num show no maior festival de arte e música urbana da América Latina, o Yo! Music, na área externa do estádio Mané Garrincha, na capital federal, onde ele vive e trabalha. “Fazer música em Brasília ainda é muito complicado! Nos anos 1980, o rock explodiu no grande centro e nas garagens da classe média alta brasiliense. Com contatos e parcerias, eles se destacaram, e Brasília foi eleita capital do rock. Já no final da década de 1980 e no início dos anos 1990, o rap veio com tudo, mas sem as condições financeiras favoráveis, pois o sistema analógico era caríssimo para nós. Tocamos de forma guerreira e conseguimos espaços, mas com pouca atenção da cultura local”, descreve o artista, que prepara uma turnê para 2017 e se orgulha de continuar na ativa apesar das adversidades: “Vendemos realidade e pagamos um preço caro por isso.”


NOTÍCIAS : UBC/7

NEUMA MORAIS: 40 ANOS DE MÚSICA

235 MANEIRAS DE AMAR JACKSON DO PANDEIRO Jackson do Pandeiro tem a maior parte de sua vasta obra recuperada e relançada. Num trabalho minucioso de pesquisa, levantamento de autorizações junto a inúmeros compositores e seus descendentes e digitalização, o pesquisador musical Rodrigo Fauor e as produtoras Alice Soares e Maysa Chebabi, da Universal, levaram dez anos até reunir os 235 fonogramas que compõem a caixa de nove álbuns “Jackson do Pandeiro – O Rei do Ritmo”. Cocos, sambas, rojões (designação criada por Jackson), xaxados e xotes compõem um passeio sem igual pelo legado do excelente compositor e ainda melhor intérprete – performático, irreverente, inventor, que atrasava ou adiantava andamentos e tocava seu instrumento como quem cantava. Todas as canções da caixa têm suas letras impressas em encartes, e o acabamento e o cuidado com o material são notáveis.

GRUPO CRIA LANÇA RAP SOBRE TRAGÉDIA EM MARIANA O desastre ambiental de Mariana (MG) virou um contundente rap lançado pelo grupo CRIA (Cultura Rimática Informação e Arte), de Belo Horizonte. “Quanto vale a vida?/Só marcas deixadas pela ausência de valor moral/ Só marcou o sofrimento no vale-tudo infernal/ Me diga quem vai carregar esse fardo?”, diz um trecho da música. “A ideia é difundir mais responsabilidade e seriedade nas questões socioambientais. A falta de um planejamento adequado é sempre sublimada pelo poder econômico financeiro”, explica Márcio Morandi, cocompositor da música com o parceiro Marcos Castanheira. Fundado em 2011, o grupo tem diversos singles lançados, com letras sobre os problemas cotidianos do país, sempre com poesia e muito ritmo. O novo single pode ser ouvido em soundcloud.com/marciomorandi/vale-vale-nada.

NA TOADA DE NÉLIO TORRES Músico, intérprete e mestre toadeiro, Nélio Torres lança o projeto “História Cantada e Contada - Boi Graúna e Cavalo Marinho”, um terno passeio pelas tradições folclóricas nordestinas e capixabas, que promete agradar a adultos e crianças. O espetáculo mistura música, dança e representação teatral, à moda dos autos de raízes medievais trazidos pelos portugueses, e já tem viajado pelo país. Premiado diversas vezes por seu trabalho de pesquisa e manutenção da cultura popular nordestina, Nélio Torres, que também se prepara para lançar seu sétimo álbum autoral, é um dos herdeiros da tradição do Cavalo Marinho da Paraíba, um folguedo executado anualmente na cidade de Bayeux, e propõe em “História Cantada e Contada” um diálogo com o Boi Graúna, um bumba meu boi sudestino do município de Serra, no Espírito Santo, estado onde está radicado. No site neliotorres.com.br você pode conferir a agenda de apresentações.

Compositora de mais de 500 canções – dezenas delas gravadas em três CDs autorais –, Neuma Morais completa 40 anos de carreira. Foi em 1976 que a cantora Diana, então esposa de Odair José, registrou pela primeira vez num disco uma criação de Neuma, a canção “Tesouro Escondido”. “Eu tinha só 16 anos, meu pai foi quem assinou o contrato com a Philips/Phonogram”, ela lembra. “Meu parceiro nessa música foi o querido amigo Sobreira Batelli, com quem até hoje trabalho.” De lá para cá, Tim Maia, Bebeto, Maria Creuza, Roberto Carlos, Chitãozinho & Xororó, Fabio Jr. e até Xuxa gravaram canções de Neuma, que se lançou como cantora no final dos anos 1980, na trilha da novela “Ana Raio e Zé Trovão”, da extinta TV Manchete. Ali, emplacou duas músicas sertanejas, uma delas o hit “Vaqueiro”, parceria com seu pai, Neon Morais. “Meu pai foi um dos meus grandes parceiros, um inspirador. Aos 7 anos compus minha primeira canção, e, no ano seguinte, ele me deu um violão. Isso foi determinante”, lembra Neuma.

A OBRA DE CANDEIA AGORA ESTÁ NA UBC Os herdeiros do grande Candeia, fundador e um dos sambistas mais ilustres da Portela, filiaram seu legado à UBC. Com cerca de 130 canções editadas e gravadas, Candeia compôs ainda diversas outras que permanecem inéditas, segundo um de seus filhos, Jairo Teixeira, conta à Revista UBC. “Temos interesse em encontrar parceiros para ver essas obras finalmente lançadas. Mas com calma e cuidado, não podemos entregar para alguém que macule a obra do meu pai ou não faça de acordo com o que ele fazia”, diz. Candeia morreu precocemente, aos 43 anos, mas teve uma produção rica e variada. “Mesmo assim, não vínhamos recebendo retorno em direitos autorais condizente com esse legado. Temos certeza de que na UBC, que tem uma gestão profissional, vai ser diferente. A experiência que temos tido na associação nesses três ou quatro meses é excelente. E o cast de compositores fala por si. A relação da UBC com os autores é muito boa.”


8/UBC : NOTÍCIAS

GUTO GOFFI: DO BEM E ENGAJADO O BATERISTA DO BARÃO VERMELHO LANÇA SEU SEGUNDO DISCO SOLO, COM COMPOSIÇÕES PRÓPRIAS EXECUTADAS POR UM TIME DE MÚSICOS QUE REUNIU, ENQUANTO ANALISA O MERCADO FONOGRÁFICO E O PANORAMA DOS DIREITOS AUTORAIS Um dos bateristas mais populares do país, Guto Goffi, integrante do Barão Vermelho, lança seu segundo disco solo, parceria com o Bando do Bem, que ele reuniu. Com participação ainda de Mário Broder (ex-Farofa Carioca), Geraldo Junior e Beto Lemos nos vocais, “Guto Goffi e o Bando do Bem” é bastante autoral, com nove das dez canções compostas por ele. Nesta entrevista, Guto, há 25 anos filiado à UBC, fala sobre a concepção do disco, o mercado fonográfico e o panorama dos direitos autorais no país. Qual o conceito por trás do Bando do Bem? O Bando do Bem foi formado a partir da minha intenção de gravar meu segundo CD solo, de uma forma diferente do primeiro álbum, “Alimentar” (2012). Tive a vontade de dividir os vocais do novo CD com participações mais efetivas. Por isso convidei dois cantores, uma moça e um rapaz, para dividirem comigo as 10 faixas. Fora isso, conto com a participação de alguns convidados que cantam no CD também, o Mário Broder, o Geraldo Junior e o Beto Lemos, estes últimos, músicos cearenses do Cariri. O fato de gravar as bases com o mesmo time deu muita liga aos arranjos das canções. Como sou o autor de nove das dez composições do CD, palpitando ainda nos arranjos e até na arte, não me incomodei em reduzir meu espaço como cantor. Posso tocar bateria e cantar ao vivo, além de ver cantores melhores que eu defendendo as minhas músicas. Esteticamente, o que esse trabalho tem de diferente do que já apresentou antes? Nesse CD, desde o começo, me planejei para fazer letras com astral alto, nada de sofrimento exagerado, dor de cotovelo ou dor de corno. Tive que deixar algumas boas composições de fora porque tinham letras com conteúdo mais pesado. O resultado das canções com temáticas mais positivas deu no nome do grupo, Bem, sugerido pelo meu filho André.

Guto (à frente de óculos), entre novos companheiros e parceiros.

E a escolha dos músicos, como se deu? Procurei profissionais com os quais me identificava. Queria um grupo multiétnico também. A Yumi Park (vocais, ao lado de Bruno Mendes) é coreana. O guitarrista Lula Washington é pernambucano. Markus Britto, baixista, é do subúrbio carioca... eu queria uma mistura nova para defender um compositor que ninguém conhece ainda: eu. Digo isso porque, com todas as músicas que o Barão já gravou minhas, não sou um compositor reconhecido. Tenho quase cem composçiões e estou partirurando minha obra para disponibilizar esses registros. Oficialmente você ainda integra o Barão, certo? Em que pé anda a banda atualmente? O Barão está se organizando para uma turnê em 2017, quando comemoraremos 35 anos de carreira. Quero muito estar na estrada com o grupo. Ainda tenho muita vontade de tocar em todas as cidades do Brasil em que não estive com o Barão. Quero morrer tocando e deixando correr. Você está cumprindo 25 anos de UBC. Como avalia o trabalho da associação? Acho que a UBC sempre fez um bom trabalho. Me representa bem. Tenho bons amigos nela. Estou contente com a arrecadação e confesso que, volta e meia, o direito autoral me salva. Sou de uma época em que se ganhava dinheiro com música, fosse compondo, arranjando, tocando ou como intérprete. Hoje vejo a internet fazendo uso indevido das obras musicais, ninguém respeita os autores. Sobre o digital, streaming etc., acho os pagamentos muito baixos, e, quando recebo cinco folhas de papel me explicando que ganhei R$ 0,01 por participar de determinada música, fico com uma pena danada da árvore derrubada e da minha “derrubada” também. Não se pode dar esmola à cultura. Até quando vão tentar nos convencer de que eles é que estão corretos?

A


PELO PAÍS : UBC/9

AUTORAMAS: RUMO AOS PRÓXIMOS 20 ANOS COM SÓLIDA PRESENÇA NACIONAL E INTERNACIONAL E SEMPRE INDEPENDENTE, A BANDA SE APROXIMA DAS DUAS DÉCADAS DE EXISTÊNCIA COM NOVA FORMAÇÃO E O ÁLBUM “O FUTURO DOS AUTORAMAS”, DE PEGADA DANÇANTE Por Michele Miranda, de São Paulo

Foto:Felipe Diniz

Com quase 20 anos existência, o Autoramas coleciona feitos antes inimagináveis para uma banda que trilhou independentemente seu caminho desde o começo. De shows fora do eixo das capitais brasileiras a turnês internacionais, passando pela lista de mais tocadas em países como a Noruega, o grupo liderado por Gabriel Thomaz lança novo disco. “O Futuro dos Autoramas” é o primeiro álbum com a nova formação, que, além de Thomaz, agora inclui a cantora e multi-instrumentista Érika Martins, o baixista Melvin Ribeiro e o baterista Fred Castro. “A contribuição de todos é maravilhosa. A Érika é uma cantora de verdade, isso representa um salto gigantesco, por exemplo, para quem gosta de vozes femininas. A banda está mais completa, com mais músicos, mais instrumentos no palco. Este é o disco que mais ouvi. Já tive discos que lancei e que não gostei do resultado. O que me salva são os fãs falando que gostaram. Esse eu adorei”, analisa o cantor e compositor, comentando as novidades sempre tão esperadas quando um disco do Autoramas fica pronto. “É a primeira vez que temos várias músicas em inglês no mesmo álbum; talvez por causa das turnês internacionais, que se tornaram constantes. E a primeira vez que lançamos em cassete; é um formato tão bonitinho!” LANÇAMENTO E TURNÊ NA EUROPA Depois de ser lançado no Brasil nos meios digitais e nos formatos físicos em CD, vinil e cassete, no fim de junho o disco chegou a Portugal e foi executado também nas rádios - em apenas uma semana, já estava no top 30 da Antena 3, a maior emissora musical dedicada a pop e rock no país. E isso não é por acaso. A banda fechou uma série de shows por lá, com passagem também por Alemanha, Suíça, Inglaterra e Finlândia. O primeiro single, “Quando a Polícia Chegar”, chegou a ocupar o 61º lugar entre as mais tocadas no mundo todo segundo ranking divulgado pela plataforma de streaming Deezer. “Gabriel foi um desbravador, criou um mercado. ‘Não tem esquema? Vou criar um’, ele dizia. Há alguns anos, ninguém ia fazer show no Acre, no Amapá, só um cara muito bombado ou banda underground local. Nenhum artista de médio porte fazia”, comenta Érika, que, além de assinar voz, guitarra, teclados e percussão no disco, também é casada com Thomaz: “Estou presente no Autoramas há 13 anos, desde que comecei a namorar o Gabriel. A gente já compunha junto. Tem música minha que o Autoramas já tinha gravado. Sempre perguntavam por que não tocávamos juntos. Mas ainda não era o momento. A gente se admira muito, isso é importante

para qualquer casal. Ele é um hitmaker e está se firmando como um dos melhores compositores do Brasil.” Com uma pegada new wave e batidas dançantes, além de um flerte com os anos 60, “O Futuro dos Autoramas” é bem fiel à essência da banda, mas é possível notar algumas diferenças. “Venho do Carbona, e o Fred vem do Raimundos. Temos uma influência grande do punk, do Ramones, e a mão mais pesada do que a Flavinha (ex-baixista) e o Bacalhau (ex-baterista). Não temos como fugir do nosso estilo”, explica o baixista Melvin, que já era fã do grupo. “Fui a milhares de shows do Autoramas. É uma banda com a qual me identifico muito, especialmente por essa pegada da pista de dança. Quando falo que toco numa banda de rock, as pessoas acham que é um bando de gente batendo cabeça, mas a gente trabalha essa vertente do rock dançante”, define. 'A IDEIA É PROMOVER UMA GRANDE FESTA' Apesar de algumas canções em inglês, a maioria do repertório é em português, e foi assim que o Autoramas, aos poucos, conquistou o território internacional. O grupo chega à sua 14ª turnê no exterior, com direito a presença em festivais importantes como o South by Southwest (EUA), atribuindo o sucesso ao gênero dançante. “Toquei durante muito tempo um rock pesado no Raimundos, mas gosto de música para dançar. E 99% do set do Autoramas são dançantes. A ideia é sempre promover uma grande festa. A gente faz turnê em países que não falam português, e as pessoas entendem perfeitamente a proposta de cada música”, conta Fred. Mesmo com a carreira a todo vapor, com vários projetos como Lafayatte e os Tremendões e o Chuveiro in Concert, Érika acha que alguns setores da indústria da música podem melhorar. O maior problema, segundo ela, acontece no campo da arrecadação dos artistas nas ferramentas on-line. “A remuneração do streaming é ridícula. Para quem tem milhares de hits gravados ainda dá para lucrar um pouco. O streaming até melhorou a situação. Porque antes era nada: download gratuito, pirataria, a gente não recebia nada. É preciso reinventar essa indústria. Foi uma mudança natural que aconteceu na música com a chegada da internet, e as gravadoras bateram de frente. O dinheiro garantido para o artista é o do show. Pelo menos tenho a UBC como aliada, que é a melhor associação que existe. O Gabriel era de outra associação. Ele tem vários sucessos gravados, mas vivia num processo confuso. Mostrei para ele como eu era bem tratada na UBC, e ele migrou”, ela conclui.


10/UBC : HOMENAGEM

TOQUINHO MEIO SÉCULO DE MÚSICA,

Por Almir Teixeira, de São Paulo

O público poderá ainda contar com uma série de convidados especiais no lançamento, dentre eles os que participaram da gravação, como Paulo Ricardo, Mutinho, Anna Setton, Verônica Ferriani e Tiê. Para Toquinho, motivo de festa não falta: “Creio mesmo que são 50 anos especiais! A vida me deu oportunidades para desenvolver meu talento como instrumentista, compositor e intérprete colocando em meu caminho pessoas que ajudaram a me aperfeiçoar a cada estágio do percurso. Amo fazer o que faço, o palco é a extensão de minha casa. Nele, sou simples e íntimo da plateia.” Segundo o artista, há apenas uma diferença entre ele e o jovem do Teatro Paramount que, em 1966, despontava para ser um dos maiores músicos da sua geração: meio século de experiência. “Meu maior trunfo é o reconhecimento popular, sempre renovado”, reflete. “Se perceber que deixei de fazer alguma coisa, tentarei fazer daqui para frente. Sempre é tempo de realizar ou refazer. E de comemorar!”, diverte-se. Já o cálculo dos 50 anos se confunde com a consciência da profissão adquirida desde os primeiros shows na década de 1960, alinhavados pelas primeiras composições e a posterior gravação do primeiro disco, ainda só instrumental, “O violão de Toquinho”, em 1966.

A JORNADA DE UM

TOQUINHO DE GENTE Antonio Pecci Filho - nome de batismo de Toquinho - nasceu em 1946, em São Paulo, no bairro do Bom Retiro, filho de pais com ascendência italiana. Ganhou o apelido quando, durante uma procissão de seu padroeiro, representou o Santo Antônio mais baixinho de que se teve notícia no bairro. Daí em diante,

Muito metódico e estudioso, dedicou o mesmo afinco para tornar-se o campeão de botão do bairro, ser o melhor aluno da escola e, mais tarde, dominar o violão como poucos. A música lhe chegou por todos os lados, desde um violino quebrado que a mãe guardava no armário aos discos de Ângela Maria, Luiz Gonzaga e Ray Coniff na vitrola. Sem contar os vozeirões de Anysio Silva, Nelson Gonçalves e Vicente Celestino, que faziam a cabeça do jovem por serem "dramáticas" e "tristíssimas". Por fim, o violão foi escolhido por Toquinho como uma possível saída para as crises emocionais que vivia, por se cobrar demais, principalmente nas épocas de prova na escola. No instrumento, teve uma primeira professora, que abandonou o aluno "por não saber ensinar tudo o que ele pedia" e passou em seguida a ter aulas com o mestre Paulinho Nogueira. Na segunda aula já surpreendeu o professor, ao fazer a lição de casa, que era ensaiar a música "Esse Seu Olhar", de Tom Jobim. Toquinho não só trouxe a música ensaiada como a tocou também em dois outros tons, levando o professor a pensar: "Este não é um aluno comum". Teve ainda como mestres Edgar Gianullo, da orquestra Simonetti, Oscar Castro Neves e Isaias Sávio. Com toda essa formação e os amigos apresentados por Paulinho Nogueira, em menos de dois anos Toquinho passou da participação em shows amadores para atuações profissionais. A primeira aparição na televisão foi na TV Record, no programa “Hully-Bossa”, uma competição musical entre os partidários da bossa nova e os adeptos do nascente rock ’n' roll. Em dezembro de 1964, participou com seu violão da peça “Balanço de Orfeu”, acompanhando Taiguara, e foi responsável pela direção musical da apresentação em São Paulo da peça “Liberdade, Liberdade”, que tinha em seu elenco estrelas como Paulo Autran, Tereza Rachel e Oduvaldo Viana Filho. Toquinho também fez grande figura nos clássicos festivais da época. No 3° Festival da Canção Popular da TV Record, concorreu, em parceria com Vitor Martins, com a música “Belinha”, cantada por Wilson Simonal, desclassificada,

Foto: Marcos Hermes

O próximo 18 de novembro será de festa para a música brasileira. Nesse dia, sobe ao palco do Teatro WTC, em São Paulo, o grande Toquinho, para lançar o DVD de comemoração de seus 50 anos de carreira e 70 de vida. O trabalho é uma condensação da sua obra por meio de canções representativas de cada fase, como “Aquarela”, “Que Maravilha”, “Regra Três” e “O Caderno”, entre tantos clássicos inesquecíveis.

saiu de cena o “Toninho” para entrar o “Toquinho de gente”, como lhe chamava sua mãe, dona Diva.


O

HOMENAGEM : UBC/11

porém, na apresentação inicial. Já no 3° Festival Internacional da Canção Popular, teve “Boca da Noite”, parceria com Paulo Vanzolini, classificada para a finalíssima da fase nacional, ficando em 8° lugar. Na noite histórica, o júri deu a vitória a “Sabiá”, de Tom Jobim e Chico Buarque, sob protesto de um Maracanãzinho lotado, que exigia o 1° lugar para “Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores”, a célebre canção de protesto de Geraldo Vandré. Em 1966, graças a uma indicação do radialista Walter Silva, foi chamado a gravar e produziu o disco “O violão de Toquinho”, composto de solos de violão, com apoio de Ely Arcoverde, no órgão, Thommas Lee na flauta e José Roberto Marco Antonio na bateria. Outro marco dessa época foi sua viagem à Itália, para onde fora em exílio o amigo Chico Buarque. De apresentações mambembes e calotes de empresários, os dois conseguiram

emplacar uma temporada de 35 shows, fazendo a primeira parte das apresentações de Josephine Backer, estrela que brilhava no velho continente e era conhecida simplesmente como “La Backer”. Da temporada na Europa, Toquinho deixou marcada em vinil a qualidade de seu violão no disco “La Vita, Amico, È L'arte Dell'incontro”, produzido por Sergio Bardotti em homenagem a Vinicius de Moraes, com participação do poeta Giuseppe Ungaretti e de Sergio Endrigo. Mais um laço na teia que marcaria a amizade de sua vida. E foi a qualidade das gravações desse disco que levaram o poetinha Vinicius de Moraes a chamar Toquinho para acompanhá-lo, inicialmente em uma temporada na Argentina, ao lado da cantora Maria Creuza. Passo fundamental para a parceria, que durou quase onze anos (e encerrou-se com a morte de Vinicius), 120 canções, 25 discos e mais de mil espetáculos.

70 ANOS DE AMOR À VIDA TOQUINHO

POR ELE MESMO Paulistano na gema Sempre morei em São Paulo, cidade que amo, pela qual transito com prazer. Tenho hábitos mais noturnos, se bem que ultimamente tenho acordado mais cedo. Música do dia a dia Fico à mercê da variedade das FMs. Há sempre alguma coisa boa de se ouvir.

BRINCADEIRA

É COISA SÉRIA Difícil achar um brasileiro que não conhece ou não gosta de músicas como “Aquarela” e “O Caderno”, ambas de 1983, ou “O Pato”, de 1981. Canções como essas, gravadas por Toquinho e compostas com diversos parceiros, consagraram o paulistano como um dos principais artistas a unirem o lirismo da MPB e o universo infantil. Mas essa trajetória começou bem antes, em 1972. Naquele ano, o espetáculo “L’Arca” estreou na Itália, com versões de Sergio Bardotti para alguns dos poemas musicados do livro “A Arca de Noé”, de autoria de Vinicius de Moraes. Nas melodias, Paulo Soledade e Toquinho. “Depois, no Brasil, em 1980, trabalhamos nas canções que foram gravadas nos discos ‘Arca de Noé’ e ‘Arca de Noé 2’, lançados no ano seguinte, após a morte do Poeta”, conta. Depois disso, em 1983, Toquinho fez, com Mutinho, o disco infantil “Casa de brinquedos” e, em 1986, compôs com Elifas Andreato a “Canção dos Direitos da Criança”, disco baseado nos dez princípios da Declaração Universal dos Direitos da Criança, aprovada pela ONU em 1959. Nada mais justo para um compositor que ama o universo da criança e acredita que elas têm muito para nos ensinar, “principalmente naturalidade e transparência”.

Pessoas que marcaram sua vida A família, sem dúvidas. Desde pai, mãe e irmão que sempre me apoiaram. Mônica, com quem fui casado durante 20 anos, mãe de meus filhos Pedro e Jade. Amigos, sem os quais a vida não teria sentido. Aqueles que se tornaram professores na música e na vida: Paulinho Nogueira, Edgard Gianullo, Oscar Castro Neves. Baden Powell; Vinicius de Moraes, em especial, com quem trabalhei durante 10 anos e pude desfrutar de sua sabedoria como homem, poeta e músico. E todos aqueles que trabalham comigo, fortalecendo uma retaguarda indispensável a todo artista. Três músicas de que mais gosta Fica difícil destacar três. Talvez “Imagine”, de John Lennon; “Carinhoso”, de Pixinguinha e João de Barro; “As Rosas Não Falam”, de Cartola. Lembrança da amizade com Vinicius A fase em que morei na casa dele em Salvador, no início de nossa parceria. Trabalhávamos como se brincássemos, criávamos às vezes três músicas por dia. Vivemos um período de muita fertilidade, e tudo contribuía para isso: a atmosfera vivida naquela casa, sempre cercada de amigos e mulheres lindas. A Bahia inteira parecia flutuar por lá. Direitos autorais É um assunto sempre em discussão, as partes exigem direitos mais proveitosos. Há que respeitar o que se recebe e valorizar o que se oferece. Os ajustes se formam e se confirmam no decorrer das negociações. Inevitável! Conselho para novos compositores Trabalhar muito e estudar. Estudar muito e trabalhar!


12/UBC : PELO PAÍS

MARCO ANTÔNIO GUIMARÃES: A REINVENÇÃO DA

Foto: Miguel Aun

ALMA DO UAKTI

FUNDADOR DO ACLAMADO GRUPO MINEIRO, EXTINTO NO FIM DO ANO PASSADO, O MULTIARTISTA PLANEJA SE DEDICAR A CANÇÕES E TRILHAS SONORAS E PÕE À VENDA OS CURIOSOS INSTRUMENTOS MUSICAIS QUE CRIOU AO LONGO DE 45 ANOS De Belo Horizonte e do Rio* Músico, compositor e um dos mais aclamados movimentadores da cena musical mineira, Marco Antônio Guimarães, fundador do Uakti, se reinventa após o fim do lendário grupo que fundou, em 1978. Anunciada por meio de sua conta numa rede social em outubro do ano passado, a dissolução do quarteto cujo sofisticado minimalismo rendeu comparações - e parcerias - com Philip Glass, bem como rasgados elogios da crítica internacional ao longo de décadas de apresentações por aqui e lá fora, gerou apreensão. Tudo porque, além do grande valor artístico das composições, que emprestaram beleza e poesia a cinco espetáculos de balé do Grupo Corpo e à trilha sonora do longa-metragem internacional “Ensaio Sobre a Cegueira”, entre gravações com nomes como Milton Nascimento e Ney Matogrosso, o Uakti tem outro patrimônio inestimável: os curiosíssimos instrumentos feitos de sucata por Marco Antônio desde 1971, e que foram postos à venda. Com 36 anos de existência e a mesma formação há muitas décadas, o Uakti vinha passando por desgastes, como admite Marco Antônio. “Problemas internos e pessoais tornaram impossível a continuidade do grupo”, descreveu o seu fundador num brevíssimo e discreto relato na internet, o mesmo em que anunciou a venda das peças, feitas de copos plásticos a madeira de demolição, de pedras e vidro a tubos de PVC. Tais instrumentos estão ligados à gênese do Uakti, já que seu nome remete a uma lenda indígena sobre um ser mitológico (Uakti) cujo corpo, atravessado pelo vento, produzia lindas músicas que encantavam as mulheres. Enciumados, os homens o mataram, e, no lugar onde o enterraram, nasceram palmeiras cuja madeira foi usada para fazer flautas de sons celestiais.

DESTINO PREFERIDO: ESCOLA DE MÚSICA DA UFMG Apesar do interesse de instituições culturais e de ensino, o acervo ainda está disponível para quem quiser arrematar. “Quando anunciei pelo Facebook que estava vendendo tudo o que criei nos últimos 45 anos, um grupo de fãs iniciou uma campanha para que o (instituto cultural) Inhotim, de Minas, adquirisse todo o acervo para exibição em exposição permanente. Isso partiu dessas pessoas que admiram meu trabalho, não foi um contato direto de Inhotim”, explica Marco Antônio à Revista UBC. Também a Escola de Música da Universidade Federal de Minas Gerais manifestou interesse pelo acervo, embora a reitoria tenha vetado a aquisição alegando necessidade de cortar despesas. “Fui procurado pela diretora de lá, a Mônica Pedrosa. Eu gostaria muito que alguma empresa, algum ‘mecenas’, comprasse o acervo completo e doasse à escola.” A indefinição sobre os instrumentos não chega a estimulálo a voltar atrás na decisão de pôr fim ao Uakti. “Não tenho a intenção de voltar a formar nenhum grupo musical”, afirma, categórico. Agora, segundo diz, ele planeja escrever canções e também continuar a se embrenhar no universo das trilhas sonoras. Só do Grupo Corpo foram cinco: “Dança Sinfônica”, deste ano; “Uakti”, de 1988; “21”, de 1992; “Sete Ou Oito Peças Para Um Ballet”, de 1994; e “Bach”, baseada na obra do compositor alemão, de 1996. “Gosto de todas elas mas, segundo Rodrigo Pederneiras, coreógrafo do Corpo, o balé ‘21’ foi um divisor de águas na sua maneira de coreografar, motivado por essa trilha em especial”, orgulha-se Marco Antônio. O mergulho em canções com letras é um grande desafio. “Escrevi muita música instrumental esses anos todos, e seria


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um novo estímulo compor canções”, compara o multiartista, que mostrou ao mundo sua habilidade de elaborar trilhas de filmes ao produzir a de “Ensaio…” a partir de um convite do diretor brasileiro Fernando Meirelles. A repercussão foi tamanha que a imprensa americana o descreveu como um “Steve Reich (pioneiro nova-iorquino do minimalismo) exilado na Amazônia”. NO INÍCIO, MILTON A voragem de convites para parcerias começou com Milton Nascimento, primeiro grande nome associado ao trabalho do Uakti, ainda nos anos 1980. Foram “várias participações” em discos do Bituca, como descreve Marco Antônio. “Por causa dessas parcerias, Paul Simon nos conheceu. Recebemos dele o convite para gravar em seu disco ‘Rhythm of the Saints’. Ficamos uma semana em estúdio com ele, no Rio de Janeiro, e um dia ele convidou seu amigo Philip Glass, que estava no Brasil, para conhecer o Uakti. Foi um encontro muito legal, tocamos algumas músicas do repertório do grupo, e, quando Philip ficou sabendo que tocaríamos em BH alguns dias depois, veio assistir. Ficamos amigos. Ele lançou discos do Uakti nos EUA pelo seu selo, e, mais tarde, criamos em parceria o balé ‘Sete ou Oito Peças…’, para o Grupo Corpo.” Uma caminhada que se firmava, nos anos 1980/1990, na direção da merecida projeção internacional. Mas que, para Marco Antônio, começou bem antes. “Minha mãe, Heloisa Fonseca Guimarães, era artesã e tinha em casa uma pequena oficina com ferramentas variadas porque trabalhava com diversos materiais. Aprendi com ela o manejo de ferramentas e construía meus brinquedos quando criança. Quando fui estudar música na Universidade da Bahia, em Salvador, conheci Walter Smetak, suíço naturalizado brasileiro que construía maravilhosos e inusitados instrumentos musicais. Foi um encontro muito marcante e, por influência direta do trabalho de Smetak, quando voltei a Belo Horizonte comecei a criar meus próprios instrumentos”, precisamente em 1971. Já formado, o multiartista atuou como violoncelista em orquestras sinfônicas de São Paulo e Minas Gerais. Enquanto isso, aventurava-se mais e mais na produção dos instrumentos. As jam sessions que organizava com amigos para testá-los foram a ponte que faltava para a formação de um grupo próprio. “Vez ou outra, convidava músicos amigos para seções de improvisação com o pequeno grupo de instrumentos que eu criava. Aos poucos, alguns músicos passaram a se dedicar ao estudo de instrumentos novos que iam surgindo, e começamos a ensaiar mais regularmente”, descreve o embrião do Uakti. A primeira formação, e mais longeva, incluiu, além de Marco Antônio, Paulo Sérgio Santos, Décio Souza Ramos, Artur Andrés e Claudio Luz. O violonista Bento Menezes participou do grupo até 1984 e toca nos dois primeiros discos do coletivo. Alguns anos depois, já reconhecido no exterior, o inventor foi convidado pelo museu Exploratorium, de São Francisco (EUA), a elaborar aparelhos sonoros exclusivos para seu acervo permanente. A sonoridade peculiar, inventiva, do Uakti encantou não só Paul Simon, Philip Glass e Milton Nascimento. Maria Bethânia, Ney Matogrosso e Zélia Duncan também tiveram a luxuosa colaboração do grupo. Que, mesmo tão requisitado, ainda encontrou tempo de sobra para lançar dez discos próprios ao longo dos mais de 36 anos de existência, além de participar de muitas dezenas de concertos (em todos os continentes), festivais e master classes em diversos países. Um legado já mais que garantido na história da música brasileira. Alguns dos instrumentos criados por Marco Antônio: todos à venda.

*Por Fabiane Pereira


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RECEITA DE ARTISTA COM PEGADA EMPREENDEDORA, E SEM A TUTELA DAS GRANDES GRAVADORAS, CANTORES E COMPOSITORES AMPLIAM GANHOS POR MEIO DE FINANCIAMENTO COLETIVO, EDITAIS PÚBLICOS, PATROCÍNIOS DE EMPRESAS, PLATAFORMAS ON-LINE E MERCHANDISING Por Luciano Matos, de Salvador Colaboração de Andrea Menezes, de Brasília Ilustração de Gustavo Barbosa Todo compositor sonha com viver do fruto direto da sua arte – a arrecadação de direitos autorais. Mas a realidade e as dinâmicas do mercado nem sempre o propiciam, de maneira que proliferam soluções alternativas adotadas por artistas empreendedores, que arregaçam as mangas e atuam diretamente na gestão das próprias carreiras. Se um dos possíveis manás de tempos passados – os polpudos contratos com grandes gravadoras – se tornou tão raro que já quase nem se configura como uma opção viável, criadores de todo o país encontram novas maneiras de se bancar. Que passam por financiamento coletivo, editais públicos, patrocínios de empresas, plataformas on-line de autodivulgação e shows ao vivo, merchandising de produtos, a velha venda de discos (devidamente adaptada à era digital) e, por que não?, até um contrato eventual com gravadora. Artistas, especialistas em gestão e empresários coincidem num ponto: dificilmente um artista sobrevive de apenas uma dessas iniciativas e precisa entender de uma vez que é parte ativa no processo de elaboração de estratégias. Para o Consultor do Sebrae especializado no mercado de música Leonardo Salazar, todo criador de arte deve enxergar sua atividade como um negócio, e isso não desqualifica a criação artística; pelo contrário, esse comportamento aumenta as chances de sucesso no desenvolvimento da carreira. “O que vai mudar de um artista para o outro, obviamente, é o peso de cada categoria de receita em relação ao faturamento total”, afirma. Fazer shows e vender discos, por exemplo, continuam sendo as formas mais comuns e, agora, viabilizam-se por meio de formatos inovadores como o financiamento coletivo, ou crowdfunding. Nele, o artista propõe um projeto (portanto, o primeiro passo, naturalmente, é ter o que dizer e saber como vender a ideia); então, estabelece uma meta (um show, um álbum, um filme, o que for), calcula o custo e publica tudo numa das inúmeras plataformas dedicadas ao modelo. O público, por sua vez, o apoia, se quiser e com quanto puder. Em troca, esses fãs patrocinadores ganham recompensas (estreias exclusivas, brindes, discos e outras peças autografados), dependendo do valor desembolsado. O maior prêmio, no entanto, é ver o projeto no qual investiu sendo realizado.


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VANDER LEE, LUCAS SANTTANA E COMPANHIA QUASE ILIMITADA Nomes como Vander Lee e Lucas Santtana são alguns dos que apostam no formato. Lucas já havia produzido um disco anterior, “Sobre Noites e Dias” (2014), com contribuição dos fãs. Agora prepara “Modo Avião”, sua oitava realização, juntando música, cinema, literatura e quadrinhos. Neste novo projeto, o músico baiano pediu R$ 43 mil na plataforma Catarse.me para produzir o CD, um texto literário e uma HQ. Como contrapartida, oferece os próprios produtos, além de shows, discotecagens, uma tarde com o artista, participação das gravações, entre outras coisas. “Estou apostando novamente porque já tenho as músicas prontas e todo o desenho do disco novo. É um formato inédito no mundo ainda, e preciso realizá-lo logo, não quero esperar por algum dinheiro que possa vir de outra fonte no momento”, explica. Já Vander Lee testou pela primeira vez o financiamento coletivo, na plataforma Kickante.com.br. O cantor e compositor mineiro queria viabilizar um DVD comemorativo de seus 20 anos de carreira, gravado em um show realizado em julho passado, no Rio de Janeiro. Para ele, nos momentos de crise, o primeiro setor afetado é a cultura, e, segundo opina, depender de editais e leis de incentivo não é algo viável nos dias de hoje. “Tínhamos a opção de inscrever em leis federais, estaduais ou municipais. Se fosse inscrever quando tivemos a ideia, teria que esperar ser aprovado, depois viria o trâmite burocrático. Estaria agora atrás de patrocinador com o projeto debaixo do braço. Teria um ano para conquistar e, talvez, só realizasse em 2017.” Era tentar isso ou chamar os próprios fãs para colaborar desde o início do processo. Vander escolheu a segunda opção. O valor total da gravação gira em torno de R$ 140 mil, que teria uma parte tirada da bilheteria do show, outra pela compra antecipada do DVD e outra pela “vaquinha” junto aos fãs. Vander pediu R$ 90 mil pelo financiamento coletivo, mas vai utilizar o recurso que for obtido na campanha, mesmo não alcançando a meta final: “Achamos que patrocínio direto seria mais curto. Dessa forma, coloco meu potencial criativo em tempo real, em poucos meses você sabe se vai dar ou não, se é viável ou não.” Ele não pensa assim sozinho. Só no ano passado, na maior plataforma de crowdfunding do país e parceira da UBC, a Kickante, a categoria música ficou em segundo lugar no ranking das que mais arrecadaram. Foram nada menos que R$ 2,59 milhões levantados por 1.510 campanhas lançadas literalmente nos quatro cantos do Brasil. A empolgação do público em ajudar e o fato de, segundo a cofundadora e presidente da plataforma, Candice Pascoal, ainda estarmos num estágio anterior a Europa e Estados Unidos no que toca ao envolvimento com essa modalidade fazem prever uma expansão ainda maior: “É uma tendência que se manterá nos próximos anos. E tal sucesso é comprovado com dados. De acordo com a revista 'Forbes', o mercado global de financiamento coletivo levantou ano passado US$ 34,4 bilhões e deve superar o montante investido em capitais de risco este ano.” Para o sucesso do modelo, requer-se um nível de envolvimento por parte dos artistas a que muitos não estão habituados. “A garra e a dedicação do empreendedor são determinantes”, afirma Candice, cuja Kickante oferece 10% de desconto para associados da UBC (confira no quadro na página 18). “É necessário muito esforço de divulgação e de relacionamento”, ela afirma.
 No caso de um álbum feito por meio desse modelo, como se dá a distribuição? Se a opção for por venda digital ou streaming,

uma saída é apelar aos agregadores (ou distribuidores). Como a Revista UBC mostrou numa reportagem já no final de 2013, esses serviços atendem a produtores independentes que querem emplacar obras em grandes lojas virtuais (iTunes, Google Play) ou em serviços de streaming como Spotify e Deezer. Um pequeno realizador dificilmente consegue chegar até esses grandes players do mercado digital, razão pela qual os agregadores são úteis na ponte. Mediante a cobrança de uma taxa, eles organizam as vendas em relatórios, controlam os pagamentos e fazem a intermediação entre as lojas e o produtor. “É fundamental, para atingir um público fragmentado como o da internet, estar também em lojas menores e até mesmo em sites e aplicativos que não vendem música, como Shazam, Gracenote e, claro, YouTube”, disse Maurício Bussab, diretor da Tratore, um desses serviços.

VENDA DE PRODUTOS Há quem não dependa de intermediários e bole estratégias multidirecionais e quase todas bem executadas. Um desses casos extremos de sucesso – com boas vendas de discos online e física, frequentes shows “sob medida”, financiamento coletivo e variadas iniciativas de marketing – é o da banda paulista O Teatro Mágico. Eles realizaram uma das campanhas de financiamento coletivo mais emblemáticas do Brasil, arrecadando cerca de R$ 400 mil através de apoio de quase 3.600 pessoas. Com isso, conseguiram viabilizar a compra de todo o equipamento de som e iluminação utilizado em suas viagens. O grupo é um símbolo do chamado mercado 2.0, termo adotado por um de seus mentores, Gustavo Anitelli, responsável pela gestão e cocompositor da trupe. Um modelo de negócio baseado na fidelização transparente a partir das redes. “Esse modelo envolve um meio, a internet, e um modo, uma postura transparente, clara e participativa do público na carreira da banda. Acho que é um modelo mais capaz de colocar o público como um participante ativo da carreira. Ele não é só uma audiência, como no passado. Não está lá só para receber. É um público ativo. Essa cultura da participação é o que a gente tem de mais precioso”, celebra. Um dos trunfos do grupo é ir além da música e oferecer uma “experiência”, apostando sempre na relação próxima com os fãs. Shows a pedido dos seguidores da banda, por exemplo, são comuns. No começo do ano, O Teatro Mágico atendeu a uma demanda de um grupo e tocou um de seus álbuns na íntegra. Uma das marcas deles, porém, é o trabalho de sua lojinha e dos produtos de merchandising, que, além dos CDs e DVDs, vende camisetas de vários tipos, canecas, adesivos, bótons, capas para celular e até abridor, chaveiros, mouse pad, fronha, mochila, moletons e pijama. A renda com as vendas dos produtos costuma superar em alguns momentos até o faturamento com as próprias apresentações. “Já teve ano em que metade dos lucros do Teatro Mágico foi só do merchandising. Isso varia muito, de acordo com o momento da economia e de como você trabalha os produtos. O merchandising é um ponto estratégico. Tem momentos em que não dá para rentabilizar tanto, mas se engatar os produtos certos a possibilidade de lucrar é muito violenta”, explica Gustavo.

SHOWS E TRANSMISSÕES ON-LINE Se o modelo 2.0, mais atual e direto com o público, é ao mesmo tempo o presente e o futuro, a sustentabilidade por meio dos shows dialoga diretamente com o passado. Mesmo utilizando financiamento coletivos ou vendendo produtos, os próprios Lucas Santtana, Vande Lee e O Teatro Mágico ainda


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mantêm as apresentações – presenciais ou virtuais – como fundamentais para manutenção de suas carreiras. A banda pernambucana Eddie diz ter nas performances ao vivo sua maior fonte de dinheiro e seu principal modo de sobrevivência. Com uma carreira de quase 30 anos, passando por um momento de evidência no período do mangue beat, o grupo segue se adaptando às mudanças do mercado de música. Já tiveram contrato com major, já lançaram discos independentes, já circularam por quase todo o país e criaram lojinha virtual. Mas o foco principal são as apresentações. Para viabilizar esse modelo, o vocalista e líder da banda, Fábio Trummer, diz que o único caminho é trabalhar muito e aproveitar as oportunidades que surgirem. “No início, investimos em tocar no Rio, em São Paulo, Salvador, Brasília, Natal, João Pessoa, Maceió e Fortaleza... Passamos muitos perrengues, dormimos de favor, em pleno palco, no chão de apartamento de amigos... Comemos pouco, dormimos pouco, carregamos equipamentos em ônibus urbanos, de linha. Foi assim cruzando o país. Trabalhávamos na bilheteria, no bar, no palco, montávamos e desmontávamos o som e o palco, fazíamos os cartazes e panfletos, saíamos para colar pela cidade, para distribuir panfletos, batíamos nas portas das gravadoras, das casas de show, produzíamos nossos próprios shows. Costumo dizer que se requerem pelo menos 15 anos de muito trabalho para começar a ganhar algum dinheiro com o trabalho de música autoral”, descreve Trummer. Se os shows são um dos modelos mais tradicionais e duradouros, há novos formatos que ajudam um bocado. Entre eles estão as transmissões pagas feitas pela internet propostas por sites como o Netshow.me. O formato é parecido com o crowdfunding, mas focado em apresentações ao vivo, sejam transmissões de shows com público presencial, sejam performances exclusivas para a web. Funciona assim: os artistas criam suas transmissões, e os fãs pagam para assistir, podendo ganhar prêmios, que podem ser aos que mais doarem antes e/ou durante sua transmissão ou CDs autografados, camisetas, ingressos de shows... Alguns artistas aproveitam as transmissões para valorizar a relação com os fãs. Em 2014, a banda Fresno, quando estava participando do festival SXSW, no Texas, decidiu realizar sua primeira transmissão ao vivo pelo Netshow.me e fazer uma promoção inusitada. Antes de subir ao palco, haviam pedido uma pizza que só chegou quando estavam no meio da apresentação, e até o entregador entrou no show. O vocalista da banda, Lucas Silveira, aproveitou e anunciou no meio da performance que transformaria a caixa autografada da pizza em recompensa ao principal apoiador.

PATROCÍNIOS E EDITAIS Há ainda um formato que ganhou bastante evidência em anos passados, num momento de fortalecimento do Ministério da Cultura. São as leis de incentivo e, em consequência, os editais, que, de certa forma, acabaram inibindo os patrocínios diretos. Há editais públicos de prefeituras, estados e União, como um recém-lançado da prefeitura do Rio para a produção de espetáculos inéditos, apoios a grupos e companhias para continuidade de repertório, eventos ou festivais. Serão selecionados no mínimo oito de projtos de até R$ 200 mil e quatro projetos de até R$ 100 mil. Consultas às páginas das secretarias de Cultura de estados e municípios ajudam a conhecer as iniciativas. Além disso, empresas como Natura, Itaú e Petrobras passaram a promover editais próprios de apoio a artistas e projetos musicais, utilizando-se das leis de incentivo federais e estaduais e obtendo isenção fiscal. Esse formato tem

garantido a realização de projetos muitas vezes inviáveis sem apoios financeiros mais consistentes. Também são um bom colchão para a realização de lançamentos menos comerciais e trabalhos de artistas iniciantes ou menos populares. A cantora e compositora baiana Manuela Rodrigues, que já venceu diversos editais, tanto públicos quanto privados, crê que essa alternativa de financiamento ajudou a profissionalizar ou a dar “mais dignidade” ao mercado. Também com eles, ela afirma, conseguiram-se viabilizar produtos que teriam mais dificuldade no mercado mais comercial: “Ajudou a gente a respirar num momento que o mercado estava muito difícil.” Manuela lembra como os editais serviram para embalar sua carreira. “Quando começou esse movimento de edital, poucas pessoas tinham know-how. Não tinha muita gente que escrevia, e eu logo de cara me arrisquei a entender o formato e me inscrever. Fui aprovada em muitos, para videoclipe, turnê, circulação, residência artística, finalização de disco. Me inscrevia em 40 para poder ser aprovada em cinco, e hoje continuo me inscrevendo em tudo para poder ganhar em algum. Em certo momento isso deu um gás à minha carreira.” Ela destaca, no entanto, que os editais e a isenção fiscal inibiram a iniciativa privada, que era mais aberta e apoiava diretamente, mesmo que fosse para pequenos investimentos. “Isso não acontece mais, infelizmente.” Hoje, dificilmente um artista vai conseguir trilhar um caminho próspero se achar que basta fazer sua música e esperar ser descoberto. Se o artista precisa ser um pouco de tudo, produtor, assessor de imprensa e vendedor, com tantas possibilidades, ele pode escolher melhor como pretende levar adiante sua carreira. As alternativas cada vez são mais diversas e mais disponíveis. Como diz Lucas Santtana, “existem muitos caminhos, e cada pessoa precisa decidir qual o melhor para si.”

GRAVADORAS AINDA SÃO UMA POSSIBILIDADE Com mais de 35 anos de experiência no mercado fonográfico brasileiro e passagem por grandes majors como Continental e Warner, Wilson Souto Júnior, sócio-proprietário da gravadora Atração, de São Paulo, celebra a luz no fim do túnel depois de a “bomba de Hiroshima” da pirataria, como descreve, ter chegado a ameaçar seriamente a sobrevivência do mundo musical na década passada. Para ele, a era digital abriu novas e auspiciosas possibilidades de ganhos para todos, “e 40% do caminho de volta à normalização já foram percorridos”. Wilson crê que muitos artistas ainda focam principalmente o desenvolvimento artístico, e não de carreira, o que representa uma grande oportunidade de negócio para pequenas e médias gravadoras, com atenção personalizada e especializada. “Nós temos expertise e condições de gerir as carreiras, oferecendo soluções integrais para gravação, distribuição, divulgação... Não acho de jeito nenhum que as gravadoras estão acabadas”, pondera. Ele afirma ter presenciado uma imagem icônica, em plena fase de fundo do poço, que o fez duvidar da recuperação. “Houve uma estratégia por parte de bandas comerciais do Norte e do Nordeste, de brega, forró etc., de imprimir milhares de discos e distribuir nos shows. O que importava era fazer shows, e não a venda da música. Vi discos jogados no chão, o auge da desvalorização da arte”, lembra. “Muitas vezes o artista não é um bom gestor da própria carreira, faz escolhas atrapalhadas. Acho que a nossa experiência é um diferencial. Não se pode pensar só em show. E o compositor que escreveu para aquele disco? E o direito conexo do músico que tocou lá? Não contam?”, indaga o empresário que diz que, como a Atração, outros selos mantêm departamentos de caça de novos talentos, contribuindo para tornar as gravadoras peças importantes nesse jogo.


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CROWDFUNDING VANTAGENS • Produzir com a ajuda de um coletivo de pessoas sem precisar passar por mais nada nem ninguém • Publicação e divulgação online da ideia de forma quase imediata, sem custo e sem burocracia • A plataforma funciona também como uma ferramenta de marketing, dando uma visibilidade à campanha • Permite disponibilizar a pré-venda de um produto • Permite que investidores com pouco capital e pessoas comuns possam contribuir com pequenos montantes • Até as pessoas que não podem contribuir, mas que se interessam pelo projeto, podem ajudar na divulgação pelas redes sociais

DESVANTAGENS • Não funciona para quem não tem uma boa base de fãs ou seguidores • É necessário ter logo de início um público já interessado, caso contrário, será conveniente conquistar uma grande audiência num curto espaço de tempo • Não funciona para projetos que necessitem de grandes montantes de dinheiro • Caso a campanha não atinja os objetivos, poderá acarretar uma repercussão negativa do artista • As campanhas podem contribuir para viabilizar de projetos específicos e de curto prazo, mas dificilmente irão sustentar uma carreira ou um projeto a longo prazo

CROWDFUNDING É UMA CIÊNCIA, COMO OUTRA QUALQUER. VOCÊ PRECISA ESTUDAR PORQUE AS VARIÁVEIS SÃO ENORMES. TEM QUE SABER FAZER A CAMPANHA E, ALÉM DISSO, ESTUDAR O ANDAMENTO DELA, PORQUE O QUE FUNCIONOU EM UMA PODE NÃO FUNCIONAR NA OUTRA. DEPENDE DE MUITOS FATORES EXTERNOS. Lucas Santtana

ACHO QUE A PRIMEIRA COISA É FAZER O PROJETO MAIS VIÁVEL POSSÍVEL. A COLABORAÇÃO NÃO É SÓ FINANCEIRA, TEM QUE VIR DESDE A EQUIPE QUE ESTÁ TRABALHANDO ATÉ OS PRESTADORES DE SERVIÇO. A GENTE FECHA APOIO EM DINHEIRO E ESQUECE QUE PODE CONSEGUIR APOIO CULTURAL. TEM QUE SER O MAIS PRÓXIMO DA REALIDADE POSSÍVEL E FAZER UMA CAMPANHA BEM CONSISTENTE NA INTERNET, JÁ QUE A GENTE NÃO CONSEGUE ACESSAR TODAS AS PESSOAS AO MESMO TEMPO. OUTRA COISA IMPORTANTE É OFERECER BOAS CONTRAPARTIDAS PARA ESSES SÓCIOS. Vander Lee

MERCHANDISING VANTAGENS • Possibilidade de lucrar muito mais com seu trabalho • Ter controle sobre sua venda • Conhecimento de seu público • Possibilidade de planejar e fazer estratégias

DESVANTAGENS • Só funciona se a banda tiver marca forte e, portanto, despertar interesse do público pelos produtos • É preciso ter tempo livre para aprender e, depois, executar • Dá bastante trabalho (desde o registro da marca da banda até a elaboração de produtos condizentes com a proposta estética e artística), e há um risco, já que não há certeza de resultado para todos • Exige capacidade de organização • Relação com fornecedores gera desgaste

EU VEJO BANDAS MUITO GRANDES QUE NÃO CONSEGUEM VENDER NADA E BANDAS PEQUENAS QUE CONSEGUEM VENDER MUITO. TEM QUE PESQUISAR O FUNCIONAMENTO DE UMA LOJA DE E-COMMERCE NORMAL. TEM QUE COMPRAR E PESQUISAR NAS LOJAS DAS PESSOAS, VER COMO FUNCIONA, COMO É A VENDA EM QUEM TEM LOJAS LEGAIS. E MAIS, PARA VOCÊ SER UM BOM VENDEDOR, VOCÊ TEM QUE SER UM BOM CONSUMIDOR. Gustavo Anitelli, do Teatro Mágico


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GRAVADORAS VANTAGENS • Oferecem uma gestão profissional e global da carreira • Dispõem de serviços “à la carte”, adaptados à real necessidade do artista (pré-produção, gravação, distribuição, divulgação em redes sociais), e não mais modelos de contrato fechados como antes • Têm contatos com empresários, distribuidores, lojas, radialistas e podem facilitar muito o processo de consolidação de um artista no mercado

DESVANTAGENS • Podem limitar a liberdade do artista, que passa a ter um novo elemento tomando decisões • São mais um intermediário a participar da repartição dos lucros

EDITAIS PÚBLICOS E PRIVADOS VANTAGENS • Garantem recursos diretos para os trabalhos e projetos • Costumam remunerar adequadamente todos os profissionais envolvidos • Só por ganhar já se tem uma visibilidade midiática • Colocam o artista em um novo patamar

DESVANTAGENS • Trâmites e burocracia costumam dar trabalho e atrasam realização • Poucos projetos aprovados para muitos inscritos • Não há editais para todos tipos de projetos • Podem limitar a liberdade, já que determinam prazos e cronogramas que nem sempre funcionam • Podem engessar a realização, já que precisam seguir as definições dos apoiadores • Possibilidade de perder outras parceiras por achar que o edital garante tudo •Editais podem exigir um padrão muito alto de entrega

QUANDO ENTREI NO MERCADO, TINHA CONTRATOS PRÉ-ESTABELECIDOS, E O ARTISTA ERA CHAMADO PARA COLOCAR A ASSINATURA LÁ. HOJE AS NUANCES SÃO DE TODA SORTE. TEM ARTISTA QUE DIZ 'EU TE DOU O DISCO PARA LANÇAR NO BRASIL, SE VOCÊ E AJUDAR EM EXCURSÃO NA EUROPA'. OU MIL OUTRAS COMBINAÇÕES. ÀS VEZES É COLABORATIVO, ÀS VEZES NÃO É COLABORATIVO, É À MODA ANTIGA… A GRAVADORA, DEPENDENDO DO ARTISTA, PODE FAZER INVESTIMENTOS NECESSÁRIOS PARA BOMBÁ-LO. Wilson Souto Júnior, à frente da Atração ao lado de Ana Maria Tozetti Mendez

LER O REGULAMENTO. SEMPRE. É BEM BÁSICO, MAS CADA EDITAL TEM SEU REGULAMENTO ESPECÍFICO, COM O QUE É DE INTERESSE DA EMPRESA OU DO ESTADO. ÀS VEZES VOCÊ TEM UM PROJETO INTERESSANTE, MAS NÃO SE ENCAIXA NAQUELE FORMATO DE EDITAL. VOCÊ VAI GASTAR ENERGIA, MAS NÃO SÓ DEPOIS VAI PERCEBER QUE NÃO ADIANTAVA. OU ADEQUA O PROJETO AO EDITAL OU NÃO INSCREVE. AGORA, ACREDITO QUE TEM QUE CONTINUAR INSISTINDO, OBSERVANDO NO QUE MELHORAR. Manuela Rodrigues

ASSOCIADO UBC TEM 10% DE DESCONTO NA KICKANTE A UBC também tem um canal (ubc.kickante.com.br) na maior plataforma de financiamento coletivo do país. E uma parceria entre nós e a Kickante vai oferecer 10% de desconto para associados que quiserem lançar seus projetos de crowdfunding por lá. “Entendemos a importância da UBC no fomento e no estímulo aos compositores brasileiros e no mercado como um todo. Para incentivar ainda mais os profissionais da área a contar com o financiamento coletivo para concretizar suas metas, oferecemos 10% de desconto sobre a taxa da Kickante”, afirma Candice Pascoal, presidente da plataforma. Em ubc.kickante.com.br você tem acesso ao desconto e encontra um passo a passo sobre como inscrever seu projeto.


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DOS DJS DAS RÁDIOS ÀS PLAYLISTS DOS SITES DE STREAMING, UM UNIVERSO DE CURADORES ENTENDA COMO MECANISMOS DA ERA DIGITAL SE SOMARAM AOS MÉTODOS TRADICIONAIS NA HORA DE AJUDAR O PÚBLICO A DESCOBRIR NOVAS MÚSICAS

Por Michele Miranda, de São Paulo Da era dos disc-jockeys das rádios, todo-poderosos personagens que por décadas ditaram quase sozinhos o que nós ouvíamos, às listas mais populares de sites de streaming como Spotify e Deezer, passando por canais de música das TVs por assinatura e rádios on-line, muita coisa mudou na maneira como uma música se populariza. Exceto, felizmente, o amor das pessoas pela música. Novos curadores se somaram ao jogo e ajudam a catapultar – ou sepultar – um novo trabalho em questão de semanas, dias, até horas... A cadeia é acelerada, conta com a fundamental participação das redes sociais, mas continua obedecendo à lógica da divulgação certeira. Especialistas e representantes do mercado explicam as chaves para o sucesso nesse mundo em que as velhas rádios podem até ter aprendido a dividir espaço, mas, não se engane: estão longe de um papel secundário. “Hoje não tem mais a ditadura de um só veículo. É uma multiplicidade de influências: blogs, jornais, sites, YouTube, TV”, resume Yasmin Muller, curadora musical do Deezer. “Ninguém, sozinho, é dono do que vai virar hit. Juntos, ajudamos a encontrar.” Se o pop internacional ainda domina a programação das rádios e os sets dos DJs em grande parte das festas no Brasil, as plataformas de streaming por aqui querem mesmo é revelar novos nomes da música nacional. Segundo Bruno Montagner, curador Spotify, a playlist (lugar de divulgação privilegiado hoje em dia) mais popular da ferramenta é justamente uma

homenagem a um gênero muito amado no país e se chama “Esquenta sertanejo”, com mais de 710 mil seguidores. “A música internacional consegue se popularizar sozinha. Quando surgimos no Brasil, somente 14% do conteúdo eram de bandas brasileiras. Um ano depois, mais que dobrou para 30%. Queremos chegar aos 50%, priorizando novos artistas. Muitas bandas nos agradecem por conseguir fechar mais shows depois de entrar em alguma playlist”, conta Montagner, que dá dicas para usuários que querem ter seus minutos de fama. “Tem artista que lança disco e fica esperando o sucesso cair do céu. É preciso fazer um bom trabalho nas redes sociais. Também garimpamos muito, vamos a shows, observamos o line-up de festivais independentes”, enumera. Tanto no Spotify como no Deezer, sertanejo brilha na frente, com a medalha de ouro (representada no momento pela dupla Jorge & Mateus), o pop internacional vem em segundo lugar, e funk e pagode surgem logo atrás disputando o terceiro posto acorde a acorde. “O sertanejo é um mercado atípico, de tão bem-sucedido que é, e com fãs tão fieis e antenados. O funk, quando chega ao noticiário, já está velho, já tem outro hit bombando na comunidade. Esses gêneros têm vida própria, além de qualquer curadoria”, analisa Yasmin. “Com a internet, existe mais espaço para artistas. Tem menos artista gigante no Brasil, como era nos anos 80, mas tem muita gente vivendo de música. E isso tende a melhorar com a profissionalização da indústria.”


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CANAIS DE ÁUDIO NA TV POR ASSINATURA VIRAM ATÉ RUBRICA DO ECAD Segundo a pesquisa da Oh!Panel, 65% usam os canais tradicionais (rádios) ou novos (digitais, streaming) para ouvir música. Pensando nesse nicho, a maioria das operadoras de TV a cabo do país oferece canais de áudio na sua programação. Com direito a playlists temáticas e canais temporários dedicados a grandes nomes da música em diversos gêneros. Você é daqueles que nunca param por lá para escutar uma musiquinha? Pois saiba: elas são sucesso em festinhas de apartamento.

ESTUDO MOSTRA QUE AUDIÇÃO DIGITAL JÁ SUPEROU O RÁDIO. MAS POR POUCO

“Os canais de música nos deram a oportunidade de ampliar os serviços e atender aos amantes de boa música, mesmo quando não se quer ver TV”, explica Alessandro Maluf, gerente de marketing da América Móvil (dona da Claro e da NET) para o mercado residencial. “Queremos ser mais uma opção às rádios para distribuir seus conteúdos em novas plataformas.”

A indústria, todo mundo sabe, está passando por um terremoto de transformações. O Spotify, por exemplo, chegou recentemente à marca dos 100 milhões de usuários ativos no mundo, o dobro de sua principal concorrente, a Apple Music, lançada em 2015. Um estudo realizado pela empresa argentina Oh!Panel em seis países da América Latina, incluindo o Brasil, analisou o consumo de música. A conclusão é os participantes ouvem 10,8 horas de áudio digital por semana, enquanto a rádio tradicional chega a 9,8 horas, e a rádio pela internet, a 4,7 horas. Desses entrevistados, 70% ouvem rádio via web semanalmente, e 90% já têm áudio digital como primeira escolha.

A força desse segmento é tamanha – e corresponde a 10% de tudo o que é arrecadado por execução pública nas TVs por assinatura – que o Ecad e as associações de gestão coletiva, UBC entre elas, decidiram criar uma rubrica de pagamento exclusiva, o grupo Música. A periodicidade será trimestral, e o primeiro repasse dos valores ocorreu em maio de 2016, referente às captações feitas nos trimestres de julho a setembro de 2015 e de outubro a dezembro do mesmo ano.

Apesar desses números apontando positivamente para o digital, os players gigantes não declararam guerra às rádios. E acreditam ter “espaço para todo mundo”. Representantes do velho meio musical concordam: “A popularização da internet e de rádios streaming só tem a ajudar e impulsionar a rádio tradicional. Temos mais uma plataforma para veicular informação e atingir mais público. As rádios estão migrando para serviços de streaming em áudio e vídeo, com produção de conteúdo multiplataforma”, descreve Silvia Carvalho, diretora-executiva da Jovem Pan. “Do público total da Jovem Pan, 60,4% ouvem de forma tradicional, tratando-se de um público mais conservador e fiel, com faixa etária entre 25 e 40 anos. Os outros 39,6% ouvem pelos canais digitais (site e aplicativo), um público mais jovem, mais engajado, que gosta de novidades, entre 18 e 35 anos.”

Apesar do discurso de aliança entre os diferentes meios, uma disputa ganha ares de guerra no mundo digital. E opõe músicos e plataformas de streaming. No mais recente ataque, um grupo de artistas, como Paul McCartney, membros do U2, Elton John e Katy Perry, escreveu uma carta para o Congresso americano pedindo a reforma da legislação que estabelece as regras de distribuição do conteúdo musical na internet. Depois de a Apple ter sido alvo da fúria da cantora Taylor Swift ao lançar sua plataforma de maneira gratuita para os usuários sob condição de aplicar uma “moratória” de três meses no pagamento de direitos autorais aos artistas (a empresa voltou atrás após uma briga com os músicos), agora o alvo é YouTube, que lidera o consumo mundial de música perla internet (40%), mas repassa apenas 4% do total, bem aquém dos outros serviços de streaming (leia mais sobre as reclamações sobre o site na página 24).

NOS EUA, 61% AINDA DESCOBREM NOVAS MÚSICAS PELA RÁDIO O número total de ouvintes que preferem o método tradicional de escuta coincide com o que foi encontrado num estudo da Nielsen feito no final de 2015 nos Estados Unidos. Segundo o Music 360, em sua quarta edição, 61% do público estadounidense descobrem novas músicas por meio do bom e velho rádio. O mais curioso é que esse total cresceu 7% em relação a 2014, numa prova de que o vigor das ondas em AM/ FM e via satélite não arrefece por lá. “Quem acha que o rádio morreu não entende da dinâmica do mercado. No Brasil, 64% das pessoas igualmente usam as rádios para descobrir novas tendências”, afirma David McLoughlin, da Brasil Música & Artes (BM&A), organização dedicada à promoção da nossa arte. A força do dial, para eles, é tamanha que a BM&A criou um projeto para enviar a rádios estrangeiras novidades da nossa música, trabalho que tradicionalmente era feito pelas grandes gravadoras e que, com o ocaso das majors, anda meio capenga.

REMUNERAÇÃO POR STREAM AINDA É MOTIVO DE CONTROVÉRSIA

Agora, quem também quer entrar na dança musical é o Facebook. A rede social de Mark Zuckerberg tem aprimorado e incentivado cada vez mais sua plataforma de vídeos e já declarou interesse em investir na música. A verdade é que o streaming beneficou os artistas, já que ajudou no combate à pirataria. Mas, sem artistas bem remunerados, não há streaming…


MERCADO : UBC/21

'O MERCADO TEM QUE PARAR DE RECLAMAR' Como é o processo de distribuição digital no Brasil e no mundo? Hoje, qualquer artista pode fazer a distribuição de seus álbuns, singles, EPs e vídeos através de empresas de autoatendimento, para mais de 200 lojas em 250 países. Geralmente, elas cobram uma taxa de serviço para cada tipo de produto distribuído e pagam os royalties de vendas de 90% a 100% ao artista. A internet barateou os custos da venda de um disco ao consumidor? Não acho que barateou no download, mas deu acesso ao conteúdo global, fez a inclusão digital. Num país grande, onde 90% dos municípios não têm lojas de CDs, fica difícil consumir, mesmo tendo dinheiro. Existe a demanda, mas não o fornecedor. O cliente tinha, até poucos anos atrás, dois caminhos: comprar o produto pirata na praça da igreja ou baixar ilegalmente. Agora, pode assinar um serviço legalizado de streaming ao custo de um CD por mês e terá acesso a 40 milhões de músicas. Neste momento, a internet barateou e muito para o consumidor.

JAMES LIMA, da Anonimato.co Especialista em distribuição digital, ele crê que a remuneração por stream deve crescer

Como um artista faz para ter sua música numa playlist de Deezer, Spotify, iTunes...? O artista pode fazer as playlists de suas músicas e também das músicas que ele gosta mais, para compartilhar com seus fãs suas influências musicais e as novidades encontradas. Mais importante do que criar playlists é planejar, divulgar e fazer um bom engajamento nas redes sociais para seu público alvo. Os artistas reclamam muito da baixa remuneração do streaming. Você vê uma solução para isso?

Se a maneira como as pessoas ouvem música mudou, é inevitável que a comercialização também ganhe novos rumos. James Lima, especialista em distribuição digital de conteúdo audiovisual na Anonimato.co, explica e faz suas apostas sobre esse novo mercado que atinge artistas, consumidores e empresários. A internet facilita a carreira dos artistas desde a gravação de uma música até deixá-la disponível para milhões de pessoas. Mas como ser notado no meio de tanta opção? A Internet não só facilitou, como revolucionou o mercado audiovisual. Na música, a internet tirou uma grande quantidade de intermediários em todo processo de produção e comercialização; do estúdio ao ponto de venda. Mas produzir a música em casa e colocar em uma loja digital é só o meio, não o fim. O artista, além da criação de suas obras e distribuição, precisa trabalhar com foco e investimento e ter boas estratégias para ser notado.

Estamos num processo novo. O investimento de uma empresa de streaming é altíssimo e tem riscos. O Brasil está dez anos atrasado em relação ao resto do mundo no mercado digital, pela demora dos grandes players em chegar aqui. Quando estávamos acostumando com o download, chegou o streaming com força total, fomos atropelados. É muito difícil explicar para o artista que ele há cinco anos recebia US$ 0,99 por música baixada e que agora ele vai receber US$ 0,002 no streaming. O streaming é o futuro, e não tem volta. Conforme a base de usuários aumentar, e o player conseguir ter uma grande taxa de adesão para o modelo pago, a remuneração pode melhorar para ambos os lados. O mercado tem que parar de reclamar e começar a dialogar com toda cadeia produtiva e toda rede de comercialização para achar soluções.


22/UBC : NOTÍCIAS

FIQUE DE OLHO

ISENÇÕES DE DIREITOS AUTORAIS DEBATIDAS NA CÂMARA PODEM TIRAR R$ 431 MILHÕES DOS AUTORES Agosto marca a retomada dos trabalhos da Comissão Especial da Câmara dos Deputados que analisa, de uma única vez, os 44 projetos sobre isenções de direitos autorais que tramitam atualmente sem uma decisão na casa. Com relatoria da deputada Renata Abreu (PTN-SP), a comissão avalia a concessão de regimes especiais ou simples exonerações de pagamento pelo uso de obras musicais em casos variados, de hotéis a eventos beneficentes, de rádios comunitárias a TVs públicas, que, somados, poderiam alcançar prejuízos anuais de espantosos R$ 431 milhões a mais de cem mil titulares, segundo as contas do Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad). Marcada para o último dia 7 de julho, a penúltima audiência antes da entrega do relatório final da comissão foi adiada por tempo indeterminado a pedido de Abreu. Na ocasião o Ecad exporia pela primeira vez os argumentos pelos quais crê ser inconstitucional a isenção “à la carte” de pagamentos de direitos autorais. “Fomos informados do cancelamento dois dias antes. Já houve uma dezena de audiências desde outubro do ano passado, quando se iniciaram, com muita atenção midiática, os trabalhos da comissão. A primeira teve como uma das pessoas ouvidas um representante do Ministério da Cultura, regulador dos direitos autorais, que defendeu a inconstitucionalidade das isenções”, afirma Márcio Duval, diretor de Relações Institucionais do Ecad. De acordo com levantamento do escritório central, caso já estivesse em vigor o regime de exonerações proposto pelo chamado “pacotão da isenção”, dos 155 mil beneficiários de pagamentos de direitos autorais em 2015, 108 mil, ou quase 70%, teriam sido prejudicados. A conta do prejuízo aos autores, feita pelo Ecad, inclui os R$ 243 milhões arrecadados

em 2015 nos estabelecimentos e eventos que pedem a isenção e mais os R$ 188 milhões que, segundo levantamento do escritório central, deveriam ter sido repassados por usuários inadimplentes. No pacote de projetos que pedem o fim do pagamento de direitos não se inclui o PLS 206, de 2012, que tem origem no Senado e também pede a isenção para as músicas executadas em quartos de hotéis (saiba mais na nota ao lado). Depois da última audiência, agora sem data de realização, e caso o relatório de Renata Abreu seja favorável, o pacote irá a votação diretamente no plenário da Casa, sem passar pelas demais comissões. O mais antigo dos projetos que integram o conjunto discutido na comissão é o PL 3.968/97, que solicita o uso livre de obras musicais em eventos de entidades filantrópicas e órgãos públicos, sem qualquer repasse aos criadores. Ao longo dos anos, esse projeto chegou a receber pareceres por sua rejeição, mas resistiu às mudanças de legislatura e acabou dado, junto com 43 que tratam de isenções a outros usuários, para a relatoria da deputada Renata Abreu, cuja família é dona de rádios – inadimplentes com o Ecad – em São Paulo. Ao longo das audiências realizadas desde outubro foram ouvidos artistas (a imensa maioria dos quais contrária às isenções), representantes da indústria de hotéis e restaurantes, que pediram defenderam o não pagamento, e membros da Associação Brasileira das Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), da Associação das Rádios Públicas (Arpub) e da Associação Brasileira das Rádios Comunitárias (Abraço), que pediram “flexibilização” nas regras para pagamento dos royalties.


NOTÍCIAS : UBC/23

JUSTIÇA OBRIGA PARINTINS A DEPOSITAR ROYALTIES, MAS FESTIVAL DESOBEDECE PROJETO DE LEI DO SENADO PROPÕE QUE HOTÉIS NÃO PAGUEM POR USO DE MÚSICAS Paralelamente ao “pacotão da isenção” da Câmara, o projeto de lei do Senado (PLS) 206, de 2012, avança na Comissão de Constituição e Justiça da Casa, com parecer positivo do relator, senador Antonio Anastasia (PSDB-MG). De autoria da senadora Ana Amélia (PP-RS), o PLS prevê a isenção de hotéis do pagamento de direitos autorais pelas músicas executadas em seus quartos. Os hotéis, que, muitas vezes, propagam seus sistemas de entretenimento como um diferencial, alegam que o uso das obras não é execução pública. Caso o argumento prevaleça, cerca de 54 mil titulares perderão R$ 30 milhões em direitos autorais a cada ano. Uma petição lançada na internet já conta com mais de mil assinaturas, inclusive as de centenas de artistas, como Chico Buarque, Caetano Veloso, Erasmo Carlos, Jacques Morelembaum, Fernanda Takai, Paulinho Moska, Marcos Valle, Lenine, Ronaldo Bastos, Sandra de Sá e Rappin Hood, entre muitos outros. “Preciso de um hotel para hospedar os direitos autorais, pois sem isso não temos como pagar a conta do room service”, ironizou Carlinhos Brown. “Quem perde quando um artista não consegue viver da sua própria arte é o mundo, que se torna menos interessante”, ponderou Henrique Portugal, do Skank. O link para assinar a petição está em bit.ly/29sNvt3.

JARRE CONTINUA À FRENTE DA CISAC, E UBC É REELEITA PARA A DIRETORIA A Confederação Internacional de Sociedades de Autores e Compositores (Cisac), que reúne as principais associações de gestão coletiva do planeta, teve sua diretoria reeleita no início de junho. Jean-Michel Jarre continua como presidente, e a UBC foi mantida pela terceira vez na liderança da entidade, sendo a única brasileira no seleto grupo. O encontro, ocorrido em Paris, marcou os 90 anos da Cisac, cuja diretoria é composta por 20 sociedades responsáveis por governar, tomar decisões e autorizar ações que estejam de acordo com os objetivos da organização. Representando autores de todo o mundo e os mais diversos repertórios artísticos, a nova diretoria da Cisac é composta pelas seguintes sociedades: APRA (Austrália), ARTISJUS (Hungria), ASCAP (E.U.A.), Bildupphovsrätt (Suécia), BMI (E.U.A.), GEMA (Alemanha), JASRAC (Japão), LIRA (Holanda), ONDA (Argélia), PRS for Music (Reino Unido), SACD (França), SACEM (França), SACM (México), SADAIC (Argentina), SAMRO (África do Sul), SGAE (Espanha), SIAE (Itália), SOCAN (Canadá), UBC (Brasil) e VEGAP (Espanha). A UBC será representada por seu diretorexecutivo, Marcelo Castello Branco, que também faz parte do ECG (Comitê Executivo de Governança) da Cisac, do qual participam apenas dez sociedades selecionadas de todo o mundo e que tem o principal objetivo de orientar a diretoria em questões estratégicas.

Numa decisão que rompe anos de desrespeito sistemático aos direitos autorais, o juiz Ronnie Frank Torres Stone, da 1ª Vara de Fazenda Pública Estadual, em Manaus, determinou com antecipação que o governo do Amazonas e os produtores do Festival de Parintins, ocorrido no fim de junho, depositassem 10% do total obtido em patrocínios a título de pagamento de direitos autorais. Mesmo assim, segundo o Ecad, não foi feito qualquer pagamento. A multa aplicada ao estado, à Associação Boi Bumbá Caprichoso e ao Instituto Boi Bumbá Garantido, em caso de descumprimento, foi estabelecida em R$ 10 mil por dia. Na mesma decisão, o juiz Stone obrigou os produtores a permitir, sob pena também de multa de R$ 10 mil diários, o acesso de fiscais do escritório central às dependências do bumbódromo, o que jamais foi permitido. Na sua justificação, o magistrado reitera ser “indiscutível” a legitimidade do Ecad no recolhimento de direitos autorais e concorda com a alegação de que os promotores do evento desrespeitam a lei ao se negar a fazer as transferências. Uma ação que cobra o depósito dos royalties referentes às festas de 2009 a 2014 ainda tramita na 2ª Vara da Fazenda Estadual, em Manaus.

'CARAVANA' DA UBC VIAJA PELO PAÍS DEBATENDO MERCADO A UBC vem realizando encontros em todo o país para debater o impacto das transformações da era digital no mercado de música. Na série Novos Meios, Novos Rumos, diretores da nossa associação se reúnem com músicos, produtores, empresários e outros atores do meio para falar sobre as mudanças na gestão coletiva e os desafios dos suportes digitais para a arrecadação e a distribuição de direitos autorais. No final de junho, a presidente Sandra de Sá e os diretores Aloysio Reis e Geraldo Vianna estiveram no encontro, no bar Spirito Jazz, em Vitória. Em maio passado foi a vez de Salvador, com a presença de Sandra, do nosso diretorexecutivo, Marcelo Castello Branco, e dos diretores Ronaldo Bastos e Manno Góes, além do advogado Sydney Sanches. Em julho, a “caravana” dos direitos autorais passou por São Paulo, e, em agosto, Niterói (RJ) hospedará o encontro.

TECNOLOGIA PARA AGILIZAR DIREITOS FONOMECÂNICOS A UBC contratou os serviços da provedora de soluções de metadados argentina BackOffice Music Services, especializada na indústria musical. A partir de agosto, as medições feitas pela empresa incrementarão o processamento dos royalties referentes a direitos de reprodução e download em plataformas como Spotify, Deezer e iTunes, entre diversas outras. Os contemplados pela parceria são principalmente os membros das sociedades de gestão coletiva de países como Itália, França, Alemanha, Reino Unido e Holanda, cuja representação no Brasil é feita por nós. Ao fazer uma “varredura” no uso por essas plataformas, o sistema da BackOffice levará a um ganho de velocidade e detalhamento no processamento.


24/UBC :ARRECADAÇÃO

PRESSÃO GLOBAL SOBRE O YOUTUBE SITE DE VÍDEOS SE TORNA O MAIOR DO MUNDO EM CONTEÚDOS MUSICAIS, MAS REPASSES INSUFICIENTES GERAM PROTESTOS DE ARTISTAS, ASSOCIAÇÕES E GRAVADORAS NA EUROPA, NOS ESTADOS UNIDOS E NO BRASIL

O YouTube está sob o escrutínio do mundo artístico. E no mundo todo. O gigante do grupo Google se tornou o maior portal global de música por número de obras publicadas, uma vez que se vale de seu status “colaborativo” e disponibiliza conteúdos musicais que seus usuários sobem, mas está bem atrás de plataformas como Spotify e Deezer no pagamento aos artistas. Segundo levantamento encomendado pelo executivo Jimmy Iovine, da Apple Music (e ex-Universal), e divulgado pela revista americana “Vanity Fair” no fim do ano passado, o YouTube é responsável, sozinho, por 40% das músicas escutadas na internet globalmente - mas por apenas 4% dos pagamentos de direitos autorais. Na últimas semanas, iniciativas na Europa, nos Estados Unidos e no Brasil foram lançadas para tentar reverter esse quadro. No dia 21 de junho, 58 membros do Parlamento Europeu enviaram uma carta à Comissão Europeia, órgão executivo dos países do bloco, pressionando por uma nova normativa continental que proteja compositores e músicos contra os baixos pagamentos por parte de grandes players do mundo digital. É que, baseando-se num dispositivo chamado de “porto-seguro” (safe harbour) e presente na Diretiva de Comércio Eletrônico 31/2000, da União Europeia, o YouTube e outros intermediários alegam ser meros “hospedeiros passivos e neutros” de conteúdos postados por terceiros (seus usuários), o que os habilitaria a isenções no pagamento de direitos autorais, como descrevem os signatários da carta. Os deputados europeus pedem uma revisão da normativa no sentido de deixar claro que tais isenções só valem para pequenas plataformas, e não para grandes conglomerados que monetizam e lucram com seu imenso repertório “colaborativo”, sem fazer a devida transferência aos autores das músicas postadas. EM MAIO, O YOUTUBE ANUNCIOU TER FECHADO ACORDO COM AGREGADORES DIGITAIS E EDITORAS PARA PAGAR DIREITOS DE REPRODUÇÃO DAS MÚSICAS INCLUÍDAS NOS VÍDEOS. OS VALORES NÃO FORAM DIVULGADOS Ainda segundo os signatários, a baixa remuneração de plataformas como o YouTube é uma ameaça direta à prosperidade da indústria criativa europeia, que eles dizem movimentar € 550 bilhões anuais, ou 4,4% do PIB europeu, além de empregar diretamente 8,3 milhões de pessoas, ou 3,8% da força de trabalho daquele continente. Pouco mais de uma semana depois, outra carta, esta assinada por representantes de Abba e Coldplay, além de cantores como Ed Sheeran e Lady Gaga, reforçou a queixa e também pediu providências a Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão. “A disparidade de valor solapa os direitos e as receitas daqueles que criam, investem e controlam direitos musicais, além de distorcer o mercado”, diz um trecho do documento. “Essas proteções foram colocadas em vigor duas décadas atrás a fim de ajudar a desenvolver as start-ups digitais nascentes, mas hoje estão sendo usadas indevidamente para proteger grandes empresas que distribuem nosso trabalho e o monetizam”, continuam os criadores.

Nos Estados Unidos, também em junho, estrelas globais como Paul McCartney, Taylor Swift, U2 e Pharrell Williams enviaram ao Congresso uma carta, apoiada por majors como Sony e Universal, em que atacam o Digital Millennium Copyright Act, legislação que acusam de beneficiar injustamente o YouTube, minorando as transferências por uso de suas criações no portal. A iniciativa foi concebida pelo empresário musical Irving Azoff. Segundo ele, o YouTube paga apenas um sexto do valor que serviços de streaming como o Spotify repassam anualmente. O site, sempre alegando que o valor pago só não é maior devido à publicação de conteúdos piratas por seus usuários, diz ter implementado “ações para combater essa prática”. Em abril, o blog YouTube Creator, ligado ao gigante dos vídeos, publicou um texto de Christophe Muller, diretor de Parcerias Musicais Internacionais do YouTube, em que ele alega que o gigante repassou até hoje US$ 3 bilhões aos titulares de músicas em todo o mundo. Mais: Muller diz que o YouTube desenvolveu uma ferramenta chamada Content ID, ou identidade de conteúdo, que faz uma varredora automática em “99,5% das reclamações sobre direitos autorais” (o outro 0,5% seria manual) a fim de detectar publicações indevidas na plataforma. OS DIREITOS DE EXECUÇÃO PÚBLICA CONTINUAM SENDO SISTEMATICAMENTE DESRESPEITADOS PELO PORTAL, QUE CONTINUA INADIMPLENTE JUNTO AO ECAD E ÀS ASSOCIAÇÕES DE GESTÃO COLETIVA, COMO A UBC No Brasil, o debate gira em torno da resistência do YouTube em reconhecer o stream como execução pública - e, assim, não fazer repasses ao Ecad. O protesto contra a prática do site já se estende por entidades como a UBC, a Associação Procure Saber (APS), a União Brasileira de Editores de Música (Ubem) e o Sindicato dos Músicos. Em junho, a UBC lançou um comunicado em que sustenta ser inaceitável o posicionamento da gigante em não reconhecer a legítima remuneração integral dos direitos autorais no Brasil. “O YouTube, ao insistir na sua posição oportunista de não reconhecer os direitos de execução pública, na verdade se vale de frágeis artifícios para pagar menos aos autores musicais brasileiros”, diz um trecho da nota pública. Em maio, o YouTube anunciou ter fechado um acordo com distribuidoras digitais para o pagamento de direitos autorais no Brasil referentes aos direitos de reprodução das músicas incluídas nos vídeos. Os contratos para o cálculo, que seria retroativo, estariam sendo estabelecidos, segundo o portal TechTudo, da Globo.com, com os agregadores ABMI – Associação Brasileira da Música Independente, eMotion, MusicPost, ONErpm e Playax. Ou seja, para receber os direitos de reprodução, o criador precisa se ligar a uma dessas empresas. Os valores não foram divulgados. Enquanto isso, segundo o Ecad, os valores devidos pelo portal pela execução pública continuam não sendo pagos, o que põe o YouTube no status de inadimplente e o exclui da primeira distribuição de streaming ocorrida no Brasil, em junho passado. Na ocasião, mais de 116 mil titulares receberam R$ 2,38 milhões - e 55% do total ficaram com o repertório da UBC. Saiba mais sobre essa distribuição e sobre a nova rubrica na página ao lado.


DISTRIBUIIÇÃO : UBC/25

'STREAMING'

NOVA RUBRICA ESTREIA COM DISTRIBUIÇÃO DE R$ 2,38 MILHÕES A 116 MIL TITULARES O REPERTÓRIO DA UBC FICOU COM 55% DO TOTAL DISTRIBUÍDO, E 88 MIL TITULARES REPRESENTADOS PELA NOSSA ASSOCIAÇÃO FORAM CONTEMPLADOS Do Rio Enquanto provedores de serviços digitais, como o YouTube, não realizam o pagamento dos valores devidos por execução de obras musicais, a UBC distribuiu no final de junho, pela primeira vez, valores oriundos da Apple Music, Kboing, Beats 1, Spotify e Vevo. A distribuição da rubrica “Serviços Digitais - Streaming” contemplará os titulares de direitos de autor e será feita trimestralmente nos meses de março, junho, setembro e dezembro. Só no primeiro repasse, a rubrica entregou um total de R$ 2,38 milhões a 116 mil titulares de direito autoral. Para isso, foram analisadas quase 10 bilhões de execuções musicais através de um processo automático de análise e cruzamento de dados desenvolvido pelo Escritório Central de Arrecadação e Distribuição. Mais da metade deste valor (55%), cerca de R$ 1,2 milhões, refere-se ao repertório representado pela UBC, beneficiando 88 mil criadores. “Este é um passo muito importante na direção que buscamos, que é a remuneração justa para todos os titulares de direito autoral pelo uso das suas músicas. Temos muitos desafios pela frente, como a postura e a falta de pagamento da execução pública por gigantes do setor, como o YouTube. Nunca a questão de transferência justa de valor foi tão calorosamente discutida, e isso é positivo. Mas não podemos deixar de celebrar este marco importante quando 116 mil titulares são, ainda que modestamente, beneficiados”, comenta Marcelo Castello Branco, diretor-executivo da UBC.

DISTRIBUIÇÃO DIRETA A distribuição da nova rubrica será feita de forma direta, com base nas listas dos arquivos eletrônicos enviadas pelos usuários. Os valores serão divididos por plataforma e agrupados de acordo com o plano oferecido (premium, free e similares). Além das mensalidades relativas ao pagamento de junho (referente a março a maio de 2016), também foram distribuídos valores retroativos na primeira distribuição. Só poderão ser efetivamente pagos os valores que somarem acima de R$ 0,01 para o titular. Se o titular receber casas decimais menores do que 1 centavo, estes valores ficarão alocados no sistema de conta-corrente da UBC até que somem um valor que possa ser efetivamente pago. Justamente por conta do grande número de informações envolvidas na distribuição, foi emitido um demonstrativo de pagamento específico para essa rubrica, paralelamente ao demonstrativo regular, onde consta um resumo informando apenas a fonte pagadora e o valor. Esses demonstrativos ficam disponíveis no Portal do Associado imediatamente após a realização do pagamento.


26/UBC : SERVIÇO

DÚVIDA DO ASSOCIADO "UM FONOGRAMA DE QUE PARTICIPEI FOI USADO EM UM FILME EXIBIDO EM CANAIS DE TV POR ASSINATURA. SERÁ QUE TENHO ALGUM DIREITO AUTORAL A RECEBER?" Léo Henkin, músico fundador da banda Papas da Língua (Porto Alegre - RS)

REVISTA UBC: Os produtores fonográficos, intérpretes e músicos que participaram das gravações inseridas em audiovisuais também têm direitos autorais a receber, assim como os autores, compositores e editoras, caso os filmes tenham sido exibidos em locais adimplentes com o Ecad. A distribuição de audiovisuais na TV por Assinatura é feita de forma direta, ou seja, todas as obras e todos os fonogramas que fazem parte do filme são contemplados na distribuição. A parte autoral das músicas recebe 2/3 do valor destinado ao filme, e a parte conexa, referente aos produtores fonográficos, intérpretes e músicos, recebe 1/3. Também são levados em consideração o tempo de execução de cada música e como ela é utilizada: se foi fundo musical, se foi tema de um personagem ou outros tipos de utilização conforme a tabela abaixo. Em alguns casos, o produtor do audiovisual também é produtor fonográfico das gravações usadas nos filmes, mas isso depende do contrato firmado entre a produtora e o responsável pela trilha. É importante dizer que, para que você receba esses direitos, o cue-sheet do filme deve estar cadastrado em nossa base de dados com todas as informações referentes às gravações. O cue-sheet é um documento normalmente enviado pelo produtor do audiovisual com informações sobre TODAS as músicas usadas em um determinado filme, documentário, série, animação etc. Se você não sabe se o seu audiovisual já tem um documento como esse, ou se não tem certeza de que o cue-sheet contém as informações sobre a sua gravação, entre em contato conosco. Existem maneiras alternativas de fazer o registro dessas informações, e nossa equipe de atendimento poderá analisar o seu caso específico e ajudar. QUANTO VALE CADA USO DA MÚSICA • 1/12 Fundo Musical (BK) - Obra utilizada como fundo musical. • 2/12 Demais Obras (DM) - Clipes musicais, cenas de shows dentro de um programa e outras utilizações. • 6/12 Performance (PE) - Obra executada ao vivo pelo intérprete. Exemplo: uma banda quando se apresenta num programa de auditório. Neste caso, somente a parte autoral é contemplada, pois não há a utilização de fonograma. • 12/12 Tema de Abertura (TA) - Obra musical executada na vinheta de abertura de um programa. •12/12 Tema de Encerramento (TE) - Obra musical executada na vinheta de encerramento de um programa. • 4/12 Tema de Bloco (TB) - Obra musical executada nas vinhetas de ida e volta de comerciais ou na vinheta de quadros dentro de um programa. • 8/12 Tema de Personagem (TP) - Obra musical que caracteriza o personagem.


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DE JANEIRO A JUNHO, A NOSSA ASSOCIAÇÃO LIBEROU, SOZINHA, R$ 26,5 MILHÕES EM CRÉDITOS RETIDOS, OU 54% DO MONTANTE DE TODAS AS ASSOCIAÇÕES QUE COMPÕEM O ECAD.

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Revista UBC #29  

A Revista UBC é uma publicação trimestral direcionada a quem faz música.

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