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#42

NOVEMBRO 2019

RÁ DIO

Um raio-x de um meio em transformação e ainda vital para os direitos autorais


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TOPO DAS PARADAS 1º 21/8 Nova regra de monetização no YouTube explicada ubc.vc/RegraYoutube

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#42

NOVEMBRO 2019

A REVISTA UBC É UMA PUBLICAÇÃO DA UNIÃO BRASILEIRA DE COMPOSITORES, UMA SOCIEDADE SEM FINS LUCRATIVOS QUE TEM COMO OBJETIVOS A DEFESA E A DISTRIBUIÇÃO DOS RENDIMENTOS DE DIREITOS AUTORAIS E O DESENVOLVIMENTO CULTURAL.

Conselho Fiscal Geraldo Vianna Edmundo Souto Manno Góes Fred Falcão Sueli Costa Elias Muniz Diretor executivo Marcelo Castello Branco Coordenação editorial Elisa Eisenlohr Projeto gráfico e diagramação Crama design estratégico Editor Alessandro Soler (MTB 26293) Textos Alexandre Matias (São Paulo), Andrea Menezes (Brasília), Antonio Carlos Miguel (Rio de Janeiro), Carol Braga (Belo Horizonte), Geraldo Vianna (Belo Horizonte), Kamille Viola (Rio de Janeiro), Luciano Matos (Salvador), Matheus Passos Beck (Porto Alegre) Fotos Imagens cedidas pelos artistas. Créditos nas respectivas páginas, ao longo da edição. Tiragem 8.500 exemplares/Distribuicão gratuita Rua do Rosário, 1/13º andar, Centro Rio de Janeiro - RJ, CEP: 20041-003 Tel.: (21) 2223-3233 atendimento@ubc.org.br

por_ Ronaldo Bastos

Milton chegou pronto, deu o passo à frente e promoveu a mais transcendental fusão de continentes e épocas da música do mundo que eu testemunhei. Nada foi como antes.

EDITORIAL

Diretoria Paulo Sérgio Valle (Presidente) Abel Silva Antonio Cicero Aloysio Reis Ronaldo Bastos Sandra de Sá Manoel Nenzinho Pinto

Sofisticado, Milton mudou a música brasileira praticamente ao mesmo tempo em que se tornou inspiração e um novo parâmetro para o jazz. Imprevisível e marginal, ele caiu na estrada com seu bando e mergulhou no rock. O Clube da Esquina é a imaginação no poder. Sensíveis a ele, multidões passaram a seguilo e a encher estádios. O seu canto latino é a língua comum de novas gerações de artistas em todo mundo, especialmente na América Latina, onde sua arte provocou o renascimento moderno daquela música.

Nesta edição, relembre os encontros surpreendentes ocorridos em 15 de outubro entre artistas de gêneros variadíssimos para celebrar a obra de Bituca, vencedor do Prêmio UBC 2019. A série de shows, contada no texto assinado pelo jornalista e crítico Antonio Carlos Miguel, teve a cara do homenageado: agregadora, vanguardista, nunca comum. A noite emocionante teve também a entrega do Troféu Fernando Brant à superintendente executiva do Ecad, Glória Braga.


24 30 34 38 42

24

30 MERCADO: Formação de Audiência CARREIRA: Transtornos de humor FIQUE DE OLHO

44 DÚVIDA DO ASSOCIADO

Quem dá mais?

ARRECADAÇÃO E DISTRIBUIÇÃO:

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PRÊMIO UBC: Noite para Milton

NOTÍCIAS INTERNACIONAIS

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CAPA

NOVIDADES NACIONAIS

14

PELO PAÍS: Gilberto Monteiro

12

PELO PAÍS: Nova cena de Belo Horizonte

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ENTREVISTA: As Bahias e a Cozinha Mineira

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JOGO RÁPIDO: Karina Buhr

ÍN DI CE 14

18

1 48

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38


JOGO RÁPIDO

REVISTA UBC

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Em seu quarto álbum, ‘Desmanche’, Karina Buhr canta o peso dos tambores e da situação política no Brasil de 2019 por_ Alexandre Matias foto_ Priscilla Buhr

de_ São Paulo

PAN CA DÃO

Karina Buhr é sucinta ao falar das inspirações de “Desmanche”, seu recém-lançado quarto álbum: “Os tambores e o Brasil”. Sua velha paixão pela percussão se soma aos petardos que lança contra os desmandos políticos, sociais, econômicos e do próprio Estado. “Mudei a formação da banda e o modo de gravar, foi uma ruptura”, explica. Desmanche marca a volta da percussão como elemento central em sua composição. Meu instrumento é o ritmo, todas as músicas que faço partem daí. Nos meus outros três discos solo, os tambores foram tirados no momento dos arranjos, alguma coisa no espírito que ia para um lado mais rock fazia isso acontecer. Desta vez, resolvi não só mantê-los como trazê-los ao palco e tirar a bateria. “Desmanche” é um disco político em vários níveis... Sim, na poesia dele tem a violência do Estado racista, o descaso com a moradia e o respeito ao chão embaixo dos pés. Em “A Casa Caiu”, há movimentos por moradia e o crime de Brumadinho, “Sangue Frio” fala da violência do Estado; “Lama”, da realidade de uma cidade, Recife, de festa e violência. Mas também tem um lado manso, o ponto de sobrevivência, banho num rio de uma outra dimensão.

OUÇA MAIS As dez canções de “Desmanche” ubc.vc/Desmanche

Qual o papel da cultura e da música no momento atual do país? A arte tem o poder de tirar da realidade e, ao mesmo tempo, de dar forças para enfrentá-la. No momento em que pessoas estão juntas num show, falam sobre letras e músicas e filmes, uma potência enorme é gerada. É difícil falar sobre isso no Brasil porque vivemos um apartheid. Tem música que é considerada melhor, tem funk criminalizado, Rennan da Penha preso por fazer girar cultura, diversão e dinheiro na favela... É assunto que não cabe em uma entrevista.


NOVIDADES NACIONAIS por_ Kamille Viola

do_ Rio

DÉCADA E MEIA DE

TECNOMACUMBA

SYLVIO FRAGA:

Rocinante, o cavalo de Dom Quixote, batiza a gravadora comandada pelo compositor e poeta Sylvio Fraga, que possui estúdio próprio, em Araras (RJ), e em alguns meses abre uma fábrica de vinil. Ilessi, Thiago Amud e Orquestra Rumpilezz são alguns artistas do cast. O lançamento mais recente é o álbum “Canção da Cabra”, do Sylvio Fraga Quinteto coassinado com Letieres Leite. Produzido por Duda Mello e o próprio Fraga, o álbum tem parcerias de Fraga com Thiago Amud e Pedro Carneiro, além dos colegas de Quinteto. Esse é o terceiro disco de Sylvio. “Foi uma experiência única. Eu mostrava as músicas (ao Letieres), a gente discutia a instrumentação, olhava as harmonias, os ritmos, ouvia referências juntos. Fizemos um mergulho”, define.

ÁLBUM, ESTÚDIO, VINIL

CÉU PERMEADA PELA

ELETRÔNICA Destaque de sua geração, a cantora Céu lança seu quinto disco, “Apká!”. O nome veio de uma palavra repetida pelo filho caçula, Antonino, que grita o termo inventado em momentos de alegria. Produzido por ela, pelo marido (e pai de Antonino), o baterista Pupillo, e pelo francês Hervé Salters, tecladista da banda General Elektriks, o álbum passeia pelos diversos estilos musicais já abraçados pela artista, aqui permeados pela sonoridade eletrônica — ora de sabor vintage, ora mais atual — e traz nove faixas assinadas pela cantora, sozinha ou em parceria. As duas únicas músicas de outros compositores foram feitas especialmente para a artista: “Pardo”, de Caetano Veloso, com letra sobre um relacionamento afetivo entre dois homens e que conta com a participação de Seu Jorge, e “Make Sure Your Head is Above”, de Dinho Almeida, do Boogarins. VEJA MAIS O clipe da faixa “Coreto”, do disco “Apká!” ubc.vc/CeuApka

OUÇA MAIS As 15 canções do álbum ubc.vc/SFQ

foto_ João Atala

foto_ Caroline Bittencourt

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REVISTA UBC

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CLARA VALVERDE,

foto_ Marina Bernardo

SOM E IMAGEM

VEJA MAIS O clipe de “Quero Você” ubc.vc/QueroClara

Enquanto seu álbum de estreia não chega, a paulista Clara Valverde lança uma faixa por mês, sempre com material visual junto. Em agosto, ela soltou single e clipe de “A Gente Faz”, parceria com Josefe. A canção é produzida por Pedro Sarapicos e Josefe, que participa também do vídeo dirigido por Stefano Loscalzo. A pegada é pop dançante. Em setembro, foi a vez de “Incendeia”, produzida por Sarapicos e Josefe, em que a cantora envereda pelo reggae. Em outubro, veio “Quero Você”, mais pop, com vídeo produzido por Beatriz Person. No futuro disco, ela promete dar espaço outras referências musicais. “Acho que ele sai daquela carinha de Nova MPB e vai para um outro caminho com influências importantes para mim”, conta.

A REVOLUÇÃO AMOROSA DE

OUÇA MAIS O álbum na íntegra ubc.vc/ChicoAmor

“O Amor é um Ato Revolucionário” é o mais recente álbum de Chico César. São 13 canções assinadas pelo artista sozinho, com produção de André Kbelo Sangiacomo e do próprio Chico César, responsável ainda pela direção musical ao lado de Helinho Medeiros, pianista de seu grupo. As exceções são “History” (produzida e arranjada por Márcio Arantes), “Pedrada” (produzida e arranjada por Eduardo Bid) e a versão bônus de “Eu Quero Quebrar” produzida por André Abujamra. O artista conta que, embora haja um tom politizado em algumas faixas, ele buscou falar sobre diversos assuntos. “Se abrimos mão da poesia para fazermos panfleto, aquilo que combatemos já venceu”, argumentou ele em entrevista ao diário ‘O Estado de S. Paulo.’

foto_ José de Holanda

CHICO CÉSAR


NOVIDADES NACIONAIS

MARLON SETTE,

TROMBONE E MUITO GROOVE A base é o trombone. A partir dele, o instrumentista, compositor e arranjador Marlon Sette empreende uma moderna e sofisticada viagem por um repertório próprio — ou em parcerias com Claudio Zoli, Rogê, Kassin, Domênico

Lancellotti, Alberto Continentino e Hyldon — no seu primeiro disco solo, “Fogo na Caldeira”, que encontra na execução em dose dupla um resultado intrigante. “O mais especial desse disco é esta concepção de ter dois grupos com grandes músicos em um sistema que chamo de ‘double band’: as duas bandas tocam a mesma música, cada uma com desenhos, linha e estilo diferentes da outra. O resultado é muito interessante, com uma polirritmia bem groovada”, explica o artista, que já tocou com grandes nomes da nossa música, como Gilberto Gil, João Donato, Jorge Ben Jor e Hyldon.

foto_ Flavio Pereira

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OUÇA MAIS O álbum na íntegra ubc.vc/MarlonFogo

SÁ,

Depois de quase 50 anos, Luiz Carlos Sá realiza seu primeiro álbum sem Guarabyra, com quem formou o trio Sá, Rodrix & Guarabyra e, depois, a dupla Sá & Guarabyra — da qual ainda faz parte. “Solo e Bem Acompanhado” tem 12 canções, sendo nove inéditas. O disco conta com as participações de Frejat (em “A Ilha”, de Sá e Guarabyra, primeiro single do trabalho), Lucy Alves (ela canta e toca acordeão em “Eu Te Via Clareando”, música inédita feita em 1970 por Sá com Torquato Neto, morto em 1972), Armandinho (em “Serra Mineira”, que Sá assina sozinho), Golden Boys (em “Os 10 Mandamentos do Amor”, de Sá e Pedrão Boldanza, lançada há dez anos por Sá & Guarabyra) e Roupa Nova (“Caçador deMmim”, de Sá e Sergio Magrão, escrita em OUÇA MAIS A faixa “A Ilha” 1981). As canções seguem o estilo que acompanhou o artista em toda sua carreira, ubc.vc/AIlha o rock rural.

BEM ACOMPANHADO

FIDUMA & JECA,

AMOR E HUMOR

A dupla Fiduma & Jeca se prepara para lançar seu mais novo projeto, o DVD “Alcooústico 2”. O trabalho foi gravado no antigo graneleiro Swift, patrimônio histórico de São José do Rio Preto (SP), e traz 15 faixas inéditas, entre elas “Paz Interior”, de Gustavo Mioto, e “Igrejinha Azul”, de Matogrosso & Mathias. A primeira música apresentada foi “Alcoonteceu”, que conta com a participação de Pedro Paulo & Alex e e tem a pegada romântica com toques de humor que é a marca de Fiduma & Jeca. O trabalho vem no rastro VEJA MAIS O vídeo de “Alcoonteceu” do sucesso do DVD “Alcooústico”, ubc.vc/FJAlcoo lançado pela dupla em 2018.


REVISTA UBC

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POTÊNCIA FEMININA EM

DOSE TRIPLA

CORES E TEXTURAS DE

O cantor e compositor carioca Victor Mus lança o EP “Meus Nós”, seu segundo trabalho solo. O disco é a etapa final da Mostra Novos Talentos da Música, da FIRJAN/ SESI, que ele venceu na categoria Voto Popular. “Que Sorte a Minha”, um pop com influências do ijexá e do sambareggae, conta com a participação da cantora baiana Illy. As outras faixas são “Vapor”, “Coragem” e “Porto Seguro”. “É um projeto bastante plural. Em quatro faixas, aproxima referências regionais de uma linguagem pop característica do meu trabalho”, diz o artista.

VICTOR MUS

FAPPO:

foto_ Zéca Vieira e Miguel Moura

OUÇA MAIS As 16 faixas do disco ubc.vc/IaraIra

Iara Ira é um projeto que une a gaúcha Duda Brack, a potiguar Juliana Linhares (do Pietá) e a carioca Julia Vargas. O repertório do álbum homônimo, de 16 faixas, passa por nomes como Gilberto Gil (“Mãe da Manhã”), Caetano Veloso (“Da Maior Importância”), Luli e Lucina (“Gira das Ervas”/“Coração Aprisionado”) e Ian Ramil (“Coquetel Molotov”), entre outros. O lançamento é o primeiro do projeto Joia ao Vivo, que comemora os dez anos do selo Joia Moderna.“Iara Ira é roda de fogueira, é ritual de acender as corpas para fortalecer as lutas femininas. Essa união de nós, mulheres, é um ato político importantíssimo, somente nesse cardume de vozes as viradas de poder serão possíveis”, diz Juliana. “É muito bonito poder registrar isso em um disco. Pelo momento sociopolítico que estamos atravessando, muitas coisas acabam se ressignificando, ganhando mais peso e mais intensidade”, comenta Duda Brack.

VEJA MAIS O clipe de “Vapor” ubc.vc/VMVapor

Enquanto produz seu segundo álbum, Fappo lança a primeira faixa, “Errante”, com clipe interativo. Com direção de Gabriel Motta, o vídeo pode ser visto sob os opostos pontos de vista das suas duas protagonistas. “Recebi de uma amiga a missão de musicar uma carta para seu ex-marido. Percebi que o momento mais forte em um término é quando você se dá conta que não há mais esperança”, escreveu Fappo. O álbum é produzido com Diogo Brochmann (Dingo Bells) e tem participações de Rodrigo Fischmann (Dingo VEJA MAIS O clipe de “Errante” Bells), Leonard Brawl (Fruet e os Cozinheiros), Andressa Ferreira (Três Marias) e ubc.vc/Errante André Mendonça (Marmota Jazz).

DUPLA PERSPECTIVA


NOVIDADES NACIONAIS 10

FRANGO ELÉTRICO E

COM SABORES

COCO E REFLEXÕES

“Coruja Muda” é o terceiro disco da elogiada carreira solo do pernambucano Siba. As 11 faixas passeiam pelos ritmos pernambucanos que o norteiam, como o maracatu de baque solto e o coco — boa parte das canções tem a voz de Mestre Nico como contraponto à de Siba, como é tradição no gênero. Também fica evidente a influência da música africana, sobretudo do guitarrista congolês Franco (morto em 1989), do grupo OK Jazz, com direito a uma versão de uma canção do artista, “Azda (Vem Batendo Asa)”. Produzido por João Noronha, o álbum traz algumas participações, como Chico César, Arto Lindsay, Alessandra Leão. O conceito que norteou tudo foi a ideia de que há um espaço indeterminado associado à nossa parte humana e à nossa parte animal. “É um assunto que tem ressonâncias políticas muito profundas, como o racismo, por exemplo. Muito fácil considerar um outro homem como não tão humano assim”, Siba disse à revista ‘Continente’.

foto_ José de Holanda

Ana Frango Elétrico — nome artístico antropofágico da carioca Ana Fainguelernt — tem só 21 anos, mas uma experiência pregressa em artes plásticas e visuais, poesia e um montão de composições que produz sem parar desde os 16, bebendo e misturando de fontes como Rita Lee, Jorge Ben Jor, Gal Costa (fase tropicalista), Björk, David Bowie e muito mais. “Minhas letras de as coisas de surrealismo antropofágico. Mas não de uma antropofagia de Oswald de Andrade, de absorver todas as culturas. É mais das coisas se engolirem mesmo, um armário engolir um cachorro, essas coisas”, ela definiu ao jornal “O Globo”. Depois do elogiado “Mormaço Queima”, de 2018, ela lança seu segundo álbum, “Little Electric Chicken Heart”, mais um passeio pop e ultraestiloso por gêneros e referências dos anos 50 aos nossos dias.

SIBA, MARACATU,

OUÇA MAIS As canções do disco ubc.vc/Frango

OUÇA MAIS As 11 faixas do disco ubc.vc/SCoruja


REVISTA UBC

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FRED FALCÃO:

IMPULSO

50 ANOS DE UBC

Os participantes do projeto de mentoria, capacitação e networking promovido pela UBC também têm lançamentos recentes.

Ele tem mais de 300 composições, gravadas por Wilson Simonal, Maysa, Clara Nunes, Beth Carvalho, Nelson Gonçalves, Luiz Gonzaga, Golden Boys, Boca Livre, Leny Andrade, Pery Ribeiro... Aos 82 anos, Fred Falcão comemora em dezembro 50 anos de filiação à UBC; em março de 2020, uma década como conselheiro; e, neste tempo todo, um montão de boas histórias.

fotos_Fábio Ribeiro

PROJETO

Canto Cego Dias antes de fazer sua estreia no Rock in Rio, no Espaço Favela com curadoria de Zé Ricardo, a banda da comunidade da Maré, no Rio, lançou o álbum “Karma”. O trabalho é um potente comentário em 14 faixas autorais sobre a crise da sociedade, a sensação de deslocamento, a solidão e outros temas que aparecem na forma de rock, ritmos afros, funk, samba e poesia recitada.

Romero Ferro O pernambucano também lançou disco, “Ferro”, com dez faixas autorais que passeiam pelo brega, o pop e o new wave. Com produção quase toda de Leo D, do Mundo Livre S/A, à exceção de uma faixa produzida por Benke Ferraz, do Boogarins, esse é o segundo álbum de Ferro. “Consegui pôr meu coração nele, traduzir quem eu sou”, ele disse.

Mulamba As meninas também fizeram lançamento, do clipe da canção “Vila Vintém”, reconstituição de um violento e criminoso incêndio ocorrido na comunidade homônima em Curitiba. “É a música menos ouvida do álbum, mas quisemos investir nela, mesmo não sendo um single ou um hit, porque nos tocou demais a história por trás”, explicou Fer Koppe, violoncelista da banda.

“Só o Paulo Sergio Valle (presidente da UBC) letrou cinco (músicas minhas). Também assino com Elias Muniz, Manno Góes, nosso imortal Antonio Cicero e o Aloysio Reis, nosso diretor financeiro”, enumera o pernambucano, que começou tocando piano em boates de Copacabana (Rio), nos 1950. Em 1966, teve a primeira composição gravada: “Vem Cá, Menina”, pelo grupo Os Cariocas. Depois de passar décadas vendo creditarem sua música “Namorada” (parceria com Arnoldo Medeiros) a Antonio Marcos e Vanusa, o casal que a gravou em 1970, resolveu lançar seu primeiro álbum. “Aquele que não se apresenta cantando não se atrela à obra que fez”, diz. Vieram, então, “Ímparceria”, de 2007, e a trilogia “Voando na Canção” (2011), “Nas Asas dos Bordões” (2014) e “Premonições” (2015). “Fazendo meus discos, descobri que, além de compositor, letrista e multiinstrumentista, sou produtor. Bato o córner e vou para a área cabecear”, brinca o artista, que, em dezembro, ganha a biografia “Invadindo o Ensaio”, escrita por Denilson Monteiro, e já prepara o próximo disco: “Estou em plena efusão musical. A fonte é inesgotável.”


NOTÍCIAS INTERNACIONAIS 12

do_ Rio

YOUTUBE SOB PRESSÃO EM

EUA E EUROPA

LEIA MAIS Na página 42 (Fique de Olho), YouTube muda regra de denúncia de violação de direitos autorais e, no site da UBC, mais detalhes sobre as pressões na Europa e nos EUA ubc.vc/PressaoYtb

O YouTube está sob pressão em ambos os lados do Atlântico. Nos EUA, congressistas querem que a plataforma estenda a pequenos titulares a ferramenta ContentID, que varre a web em busca de usos irregulares de materiais protegidos por copyright. “Nos preocupa que os titulares de direitos autorais com catálogos pequenos não possam usar o software, tornando impossível proteger suas obras”, escreveram os políticos. E, na Europa, duas sentenças próximas na Alemanha e na Áustria devem antecipar os efeitos da Diretiva Europeia de Direitos Autorais digitais, obrigando o YouTube a assumir já mais responsabilidades por conteúdos sem licença publicados por seus usuários.

MANIFESTO GLOBAL CONTRA A URUGUAI DISCUTE ESTENDER PROTEÇÃO DE

DIREITOS AUTORAIS

Um dos poucos países onde a proteção dos direitos autorais termina 50 anos após a morte do autor, o Uruguai debate uma possível extensão do prazo. Por pressão de músicos e criadores, o Partido Independente criou um projeto de lei que eleva a proteção para 70 anos, como ocorre no Brasil, na maior parte do continente americano e na Europa. Em países como Colômbia (80 anos) e México (100), a proteção é ainda maior. Nos debates, deputados conservadores e até mesmo membros da classe artística se mostram contrários à extensão, alegando “a necessidade de difusão da arte”.

MANIPULAÇÃO NO STREAMING

Lançado em julho, um documento global que pede providências contra a manipulação de audições no streaming ganha mais adeptos. Em anúncios na internet, “empresas” — brasileiras inclusive, mas principalmente chinesas e russas — vendem até centenas de milhares de audições e visualizações de vídeo turbinadas por robôs ou usuários falsos. Como a distribuição dos royalties em plataformas de streaming responde à proporcionalidade das audições em relação ao conjunto escutado em determinado período numa certa região, a inflação artificial de streams provoca uma injusta distorção nos pagamentos. Globalmente, segundo a revista “Rolling Stone”, o prejuízo é da ordem de US$ 300 milhões. LEIA MAIS Na página 43 (Fique de Olho), uma iniciativa da Deezer que pode combater a manipulação e, no site da UBC, mais detalhes sobre esse problema crescente ubc.vc/Manip


REVISTA UBC

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ubc no mundo REUNIÃO DA ALCAM SERÁ

ESTE MÊS NO RIO por_ Geraldo Vianna

eles a iniciativa dos seminários internacionais de formação para jovens autores. Também serão abordados temas como criação, produção executiva e conceitos jurídicos.

de_ Belo Horizonte

A UBC sedia este mês a reunião da Aliança Latino-Americana de Compositores e Autores de Música (Alcam). Nos dias 28 e 29 de novembro, representantes de vários países da América Latina debatem a realidade dos autores e discutem, na Casa UBC, Centro do Rio, a atuação da aliança em vários segmentos, entre

REPRESENTANTES DA ASSOCIAÇÃO EM

DIFERENTES EVENTOS

Para nós, será um enorme prazer recebê-los e contribuir para a promoção de um intercâmbio de informações, troca de experiências e planejamento de novas estratégias. O objetivo é buscar o amadurecimento e a consciência de organização entre as novas gerações de autores e compositores. Peter Strauss, gerente do departamento Internacional e de Licenciamento, e Ney Tude, consultor da UBC, estiveram em setembro em Berlim para participar das sessões periódicas dos grupos de trabalho técnicos e legais da Scapr, o conselho das sociedades de gestão de direitos conexos. “A presença da UBC faz parte de nossa estratégia de aproximação com sociedades com as quais negociamos contratos de representação e visa também a ampliar nossa participação nos bancos de dados de intérpretes e fonogramas, que vão facilitar e agilizar a gestão de direitos conexos estrangeiros para nossos titulares”, explica Strauss. No mesmo mês, o assessor jurídico da nossa associação, Sydney Sanches,

viajou a Praga para representar a UBC no Congresso da Alai, a Associação Literária e Artística Internacional. No programa, debates sobre as mais recentes práticas globais para a gestão coletiva de direitos autorais na era digital e à luz de novos modelos de negócios. E o nosso gerente de operações, Fábio Geovane, foi em agosto ao Fórum de Sociedades e Editoras (SPF, em inglês), da Cisac, este ano sediado pela polonesa Zaiks em Varsóvia. Na extensa agenda, um dos focos principais foram os vitais intercâmbios de dados entre sociedades que garantem pagamentos para além das fronteiras dos titulares.


ENTREVISTA 14

Raquel Virgínia, uma das três bases d’As Bahias: “somos uma banda que sonha alto”


REVISTA UBC

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Reivindicativa, poética, a banda As Bahias e a Cozinha Mineira lança seu álbum mais profundo e conquista espaços, público, crítica, indicação ao Grammy Latino e show no Rock in Rio de_ São Paulo

Com dez canções autorais — e uma única parceria, de Raquel e Projota em “Tóxico Romance” —, o disco fala de afetos, abismo social, feminilidade, filosofia, futebol, sexo, arte de elite x arte popular e outros temas. Traduz, assim, as inquietudes essencialmente variadas do trio, cuja própria história pessoal dá fé disso. Assucena é judia, baiana de Vitória da Conquista. Raquel é uma paulistana negra que chegou a cogitar uma carreira no axé. E Rafael é um homem branco de Poços de Caldas (MG) que teve seu primeiro contato com a música numa igreja cristã.

Quatro anos depois de “Mulher”, dois anos depois de “Bixa”, As Bahias e a Cozinha Mineira lançam “Tarântula”, outro disco cujo próprio título evoca feminilidade e politização. Ao batizar seu novo trabalho autoral com o nome de uma operação da PM paulista para “limpar as ruas” e “combater a Aids” que, em 1987, derivou numa série de assassinatos de travestis, a banda aprofunda seu caminho de reivindicação. Sem jamais perder a poesia. Formado pelas mulheres transexuais Assucena Assucena e Raquel Virgínia e pelo homem cissexual (que está conforme com seu gênero biológico) Rafael Acerbi, todos egressos do curso de História na USP, o grupo milita sobretudo na MPB, mas empapando-se de outros gêneros da nossa nobre tradição popular. O resultado é a indicação ao Grammy Latino de Melhor Álbum Pop Contemporâneo em Língua Portuguesa — “somos as primeiras mulheres trans (ao lado de Liniker, indicada a Melhor Álbum de Rock em Língua Portuguesa) a conseguir isso”, Assucena e Raquel celebraram. A entrega será no próximo dia 14 de novembro. Em setembro, eles fizeram sua estreia no Rock in Rio. Uma das suas “vitórias mais lindas”, como descrevem nesta entrevista.


ENTREVISTA 16

Acima, Assucena Assucena; na outra página, Rafael Acerbi: grupo se conheceu na USP

O que a indicação ao Grammy Latino - a primeira a mulheres trans, como orgulhosamente afirmaram representa para vocês? Assucena: É sintomático de um apagamento, silenciamento histórico e, também, da supressão social de nossos talentos. Mas acho também que essas indicações d’As Bahias e também da Liniker apontam para um novo tempo construído por nós. O Brasil é um dos países que mais matam LGBTs, mas é também um dos únicos onde trans e pessoas de outras minorias sexuais alcançam o estrelato na música, têm milhões de seguidores nas redes e atraem multidões aos shows. O que explica esse paradoxo? Raquel: O Brasil é celeiro de resistência por via artística. Somos criativos por excelência e inventamos realidades. Sempre tivemos artistas que chamaram a atenção do mundo pelo ineditismo e por contrariar as estatísticas genocidas do Brasil, por contrariar os interesses retrógrados e conservadores. Só seguimos uma tradição ancestral de persistir e inventar.


REVISTA UBC

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E vocês chegaram ao Rock in Rio. Como foi essa experiência? Raquel: O Rock in Rio é um grande sonho para muitas bandas. Somos uma banda que sonha alto, nos permitimos sonhar e trabalhamos duro para chegar aonde almejamos. O Rock in Rio faz parte das nossas vitórias mais lindas. Cantar com Elza (Soares) estará marcado para sempre na minha memória. Já estão compondo para um novo álbum? Quais os projetos/planos de curto/médio prazo? Rafael: Raquel, Assucena e eu compomos o tempo todo. Nestes anos, acumulamos canções que deixamos guardadas. Temos várias músicas não gravadas e outras a se fazer. Ainda não começamos a discutir o novo álbum, mas algumas canções já têm se mostrado interessantes para inaugurar uma nova fase.

LEIA MAIS A entrevista completa no site da UBC ubc.vc/Bahias

VEJA MAIS O clipe de “Volta”, do álbum “Tarântula” ubc.vc/ClipeBahias


PELO PAÍS 18

A banda Rosa Neon, expoente da nova e plural criação belo-horizontina


REVISTA UBC

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Do samba ao sertanejo, do pop ao funk, do rock ao hip hop, capital de Minas Gerais renova sua cena musical e vive um dos momentos mais efervescentes em décadas por_ Carol Braga

UMA CIDADE SEM ESTILO...

de_ Belo Horizonte

Não é um movimento; são muitos. Tantos, que fizeram a mistura ferver. Basta olhar a agenda cultural local: em pequenos shows na rua, nos lendários bares desta grande metrópole, em festivais e na rede, a música produzida em Belo Horizonte chama a atenção nacionalmente. Tem muita gente criando em estilos diferentes que, curiosamente, conseguem tecer diálogos. Tanto do ponto de vista artístico como da produção.

foto_ Sarah Leal

“Quando se fala em ‘cena mineira’ é até difícil porque são muitas cenas”, afirma a cantora e compositora Julia Branco. “Tenho convicção disso porque eu participo dessa cena e vejo acontecer”, diz a também cantora e instrumentista Nath Rodrigues. “Acho que é um dos melhores momentos para ser artista nesta cidade”, completa Marcelo Tofani, integrante da banda Rosa Neon. Para o cantor, compositor e ator Luiz Rocha, a atual cena de BH não nega sua nobre tradição nas letras e melodias, mas permite se


PELO PAÍS 20

pensar em outras plataformas. Isso vale tanto para a produção autoral mais conectada à MPB como para rap, samba, pagode, indie rock ou eletrônica.

POP INDIE O Rosa Neon ilustra bem isso. Formada por Tofani e por Luiz Gabriel Lopes, Marina Sena e Mariana Cavanellas, completa um ano neste mês de novembro. Desde o início, a aposta foi no meio de maior visibilidade na era digital: em vez de disco ou single, eles vêm apresentando as canções, uma por mês, diretamente em clipes no YouTube. O tom irreverente e a estética moderna os puseram diretamente no topo dos radares do hype nacional. O primeiro disco sai agora, junto com a turnê nacional. Tudo impulsionado pela rede.

QUANDO SE FALA EM ‘CENA MINEIRA’ É ATÉ DIFÍCIL PORQUE SÃO MUITAS CENAS.” Julia Branco, cantora e compositora

Nath Rodrigues é testemunha da intensa colaboração que marca as cenas da cidade. Em 2019, ela lançou “Fractal”, seu primeiro álbum. Totalmente autoral, foi gravado a partir de uma campanha de financiamento coletivo. A banda de Nath Rodrigues só tem mulheres instrumentistas. “As mulheres eram reprimidas, mas, quando entendemos que também poderíamos fazer música, a coisa cresceu e aconteceu”, conta Nath. “As mulheres e os artistas negros são os que têm produzido mais fortemente e de forma mais contundente”, faz coro Luiz Rocha.

foto_ Florence Zyad

AS MULHERES


REVISTA UBC

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UM SÓ MOVIMENTO?

Barral Lima, diretor musical do grupo UN Music, selo, produtora e editora de BH, crê que esse é precisamente o segredo desse momento tão único: “Nunca se viu tanta música sendo produzida e lançada como hoje em BH. Nós inauguramos o selo Under Discos há menos de um ano e estamos no sexto lançamento, com alguns títulos já aguardando data na prateleira.” A música de nicho, sobretudo o hip hop, ele diz, saiu dos guetos e das periferias e agita a renovação, atraindo gente de várias partes, o que torna a cidade um curioso melting pot fora do eixo Rio-São Paulo. “Essa vazão se dá, principalmente, através de dois lugares: internet e rua. São os pilares. As pequenas casas de shows estão cada vez mais raras nas cidades. Então é preciso ter sempre um bom material para buscar os festivais, em fase de crescimento, apesar do momento que vivemos.”

“Parte desse núcleo criativo de BH chega de várias cidades, principalmente do interior de Minas”, analisa Barral Lima. “Andando pelo interior, você percebe a riqueza musical deste estado e também a dificuldade que os artistas têm em cidades menores para promover a sua música e suas carreiras. BH ainda tem uma certa tranquilidade que as grandes metrópoles, como São Paulo e Rio, já não têm. Aqui você tem bons estúdios, ótimos profissionais, alta gastronomia, belos teatros, festivais diversos e uma tranquilidade de um cidade do interior. Bandas como Jota Quest, Skank e Pato Fu nunca precisaram sair da cidade para fazer sucesso ou se manter nele.”

OUÇA MAIS No Spotify da UBC, uma playlist com canções de alguns dos principais nomes da nova produção belo-horizontina ubc.vc/BHList

Acima, Thiago Delegado; abaixo, Luiz Rocha: todos os gêneros

foto_ Davi Mello

Delegado faz a análise a partir da experiência gerada depois de três anos à frente do programa “A Hora do Improviso”, anteriormente veiculado pela Rádio Inconfidência. “Hoje, somos muito heterogêneos. Já tivemos uma unidade com o Clube da Esquina, com o rock do Skank, Jota Quest e Pato Fu, mas atualmente é muito diversificado.”

foto_ Anna Clara Carvalho

Para o compositor e violonista Thiago Delegado, apesar de toda a intensidade criativa e colaborativa, a música feita em Belo Horizonte ainda é consumida por um gueto. O caso mineiro se diferencia de exemplos do Pará ou de Pernambuco onde, de fato, há verdadeiramente movimentos que vão na mesma direção.


PELO PAÍS 22

MISSÃO: TRADUZIR A

A ALMA GAÚCHA


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Andança

Aos 50 anos de carreira, Gilberto Monteiro se consolida como mestre da gaita-ponto e ultrapassa gerações com simplicidade Texto e fotos_ Matheus Passos Beck

ANDANÇAS Duas de suas composições mais recentes — o zamba “Saudade de Colônia” e a chacarera “La Fronteiriça de São Borja” — são homenagens a amigos dos lugares por onde passou. Aos 66 anos, Gilberto não é diferente daquele piá que serviu à Aeronáutica porque queria voar. É um compositor simples que procura na complexidade de um acorde aplicar sua identidade tão ligada à gaita-ponto: “Esse acordeão é um Hohner alemão. Só que qualquer instrumento, fabricado onde for, quando se estabiliza em uma região, vai pegar a cor dela através de quem a executa. Cada um tem uma forma de expressar a música”, reflete. “Tu podes dar o sentimento em uma nota musical.”

de_ Porto Alegre

A trilha incidental do imaginário coletivo sobre o Rio Grande do Sul é uma milonga forte e, ao mesmo tempo, harmoniosa. A mítica “Milonga para as Missões” marca o ritmo tanto do trote dos animais do pampa quanto dos pés calçados de botas que dançam nos salões. Porém, quem procura pela canção nas plataformas digitais corre o risco de encontrar dezenas de versões, de Victor & Léo a Mastruz com Leite, mas não a original, a do seu autor — que, diferentemente do que muitos pensam, não é Renato Borghetti. Acordeonista, Gilberto Monteiro começou a dedilhar a famosa canção em sua gaita de oito baixos aos 15 anos. Lançou-a nove anos mais tarde, em 1977, e cedeu-a ao programa “Fogo de Chão”, na Band. “Onde tocava, era um balaço”, conta. “Fico feliz. Não sou metido, fico na minha. Esse é um tema bem simples, mas tem muita força.” Os 50 anos de carreira de Gilberto oscilam entre álbuns essenciais ao cancioneiro gaúcho, como

“Pra Ti Guria” e “De Lua e Sol”, e composições solo ou em parceria com amigos, como Joviniano Pires e Lúcio Yanel. “Respeito todo tipo de música. Mas me criei fazendo vaneira, milonga, xote e chamamé.” A ligação com as culturas argentina e uruguaia é motivo de inspiração. É comum no título de uma canção ou em uma conversa escapar algum termo em espanhol. Efeito da criação por uma família que deixou Tacuarembó, no Uruguai, e se fixou em Santiago, perto da fronteira Brasil-Argentina. De certa forma, Gilberto nunca deixou sua cidade. Parece não se afetar pelo barulho dos carros na zona norte de Porto Alegre, onde vive em um terreno modesto com o cachorro Duque. “Sempre penso que estou em Santiago. Lá, tu espichas o beiço e já estás chegando. Aqui, eu saio, pego esse trânsito bárbaro e me atraso. Vira um despelote”, ri, deslizando a expressão do Cone Sul que caracteriza uma bagunça.


CAPA 24

APA HORA DE ‘DESLIGAR OS RE LHOS’?


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Esqueça as previsões catastróficas: o rádio não está à beira da morte e mantém relevância no país; descompasso entre programação e novidades, no entanto, é preocupante, como mostra análise exclusiva da UBC por_ Luciano Matos

de_ Salvador e Andrea Menezes

de_ Brasília


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Os sinais que vêm dos aparelhos sugerem um quadro grave para o paciente. Na Noruega, a FM e a AM estão extintas, substituídas por emissões digitais; o Reino Unido anunciou o mesmo para 2022. Os podcasts avançam, como alternativa de difusão sob demanda. No Brasil, a AM vive um lento processo de transferência das emissões para a FM — e a FM em si vai deixando de apostar em novidades de gêneros de vanguarda para tocar coisas mais antigas. Ainda por aqui, emissoras tradicionais encerram suas operações ou demitem, enxugando suas equipes para fazer frente à crise publicitária no setor. Iniciado em 2016, o processo de transição da AM para a FM caminha lentamente, sobretudo pela demora da Anatel em outorgar licenças da faixa estendida, necessária para evitar interferências com o sinal da TV digital. Até o momento, dos cerca de 1.650 pedidos de migração do AM para o FM, foram liberados mais de 1,2 mil canais sem a necessidade da faixa estendida. Os demais devem esperar a conclusão do processo de digitalização da TV. Não há prazo final para a transição.

Afinal, o rádio está mesmo à beira da morte? Melhor não se apressar nas exéquias. Não são poucos os sinais de que esse meio, terceira maior fonte de pagamento de execução pública aos titulares da UBC em 2018 — 14,1% do total distribuído, ou R$ 73,92 milhões, atrás só de TV aberta e TV por assinatura — goza de relativa saúde e mantém relevância.

Podcasts são oferecidos em serviços como Spotify ou Deezer, o que abre campo promissor para a arrecadação de direitos autorais. No caso da execução pública, o Ecad não dispõe de números sobre esse meio, cujos valores são somados ao streaming. “Qualquer execução musical do streaming está coberta pela licença dele, inclusive a dos podcasts”, diz o Ecad em nota. Para que os valores cheguem aos titulares, porém, é preciso que as músicas apareçam nas listas da plataforma, o que nem sempre ocorre, já que a programação do podcast é feita por terceiros. Esperase que novos sistemas de varredura contornem isso.

Segundo pesquisa da Kantar IbopeMedia, de 2019, 83% da população brasileira ouvem rádio, três em cada cinco entrevistados afirmaram ser ouvintes diários, e coisa de 93% ouviram música através de rádios nos meses anteriores. Dados que fazem eco com o estudo “Cultura nas Capitais”, divulgado pela JLeiva Cultura & Esporte em 2018. O rádio aparece como o meio mais usado para escutar música: 74% dos entrevistados o fazem por ali, contra 71% no YouTube, principal serviço de streaming.

UMA DAS COISAS MAIS DIFÍCEIS É TOCAR UMA MÚSICA NOVA QUE A AUDIÊNCIA NÃO CONHECE.”

Daniela Souza, coordenadora da Educadora FM, de Salvador


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Mas é fato que a programação já não é a mesma, principalmente nas emissoras adultas da categoria qualificada, aquelas que contemplam as classes A/B. Se, historicamente, o rádio foi a ponta de lança, hoje corre atrás para corroborar o que faz sucesso em meios como streaming e TV. A UBC fez uma análise da programação de 13 emissoras desse perfil, com programação dedicada prioritariamente a MPB, rock e pop, e o resultado é inequívoco: 64% do que se toca nelas tem mais de 20 anos de lançamento, e só 18% são dos anos 2010. Chama ainda mais atenção que, destas recentes, não mais que 5% dos conteúdos são criações de novos compositores.

Em 1969, 65% das mais tocadas eram daquele ano, e outros 27%, do ano anterior. Também há 50 anos, as rádios tinham 44% de conteúdo musical nacional. Dez anos depois, o dial foi dominado pela onda disco mundial. Mas o que chama atenção é que 99% das mais executadas eram daquele ano ou do anterior. Em 1989, 55% das mais tocadas eram internacionais, e, no total geral, 87% eram daquele ano ou de 1988. Em 1999, as brasileiras foram 73% das 100 mais, já com destaque para pagode e sertanejo, e 84% do total eram do ano ou de 1998. Há 10 anos, das 100 mais, 91% haviam sido lançadas no próprio ano ou em 2008.

A METODOLOGIA Para chegar aos números apresentados, foram analisadas as programações fornecidas pela empresa de monitoramento Crowley Broadcast em cinco datas diferentes (10/4/2018, 15/1/2019, 10/4/2019, 11/4/2019 e 07/6/19), das 7h às 19h, de 13 rádios FM de seis capitais brasileiras: Alpha, Antena 1 e Nova Brasil (SP), JB, Paradiso e Nova Brasil (RJ), A Tarde, GFM – ex-Globo –, Educadora e Nova Brasil (Salvador), Alvorada (BH), Tribuna (Recife) e Ouro Verde (Curitiba). No total, foram 10.019 músicas analisadas. Usamos como critério de “novidade” o ano de composição. A Educadora FM, de Salvador, aparece com mais músicas analisadas pois forneceu diretamente à reportagem a programação completa dos dias analisados.


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Enquanto as rádios com perfil popular — sertanejo, pagode, funk, sobretudo — se retroalimentam, lançando novidades ininterruptamente, as qualificadas parecem estar parando no tempo. Exemplo bem acabado é o rap. Levantamento da ProMúsica Brasil, a associação da indústria fonográfica, mostra que 13 das 200 canções mais executadas no streaming em 2018 eram raps. Nas rádios, contudo, o gênero grita por seu quase completo silêncio. E não faltam nomes (novos e antigos) com relevância artística e público para justificar a inclusão.

pela UBC — dedicados a Alice Caymmi, Luedji Luna, Silva, Aiace, Marcela Bellas, Barro, Johnny Hooker e companhia.

Não é só no universo hip hop. Artistas como Céu, BaianaSystem, Liniker, Tuyo, Far From Alaska, Felipe Cordeiro, Filipe Catto, Rosa Neon ou Duda Beat colecionam elogios da crítica, têm público relevante, shows disputados, participação em festivais (inclusive grandes) mas não se veem refletidos nas rádios. A notável exceção é a Educadora FM de Salvador, única pública na nossa amostragem, com algo como 32% da programação — em cinco datas analisadas

A NovaBrasil FM é uma das principais redes de emissoras no país. São dez, em São Paulo, Campinas (SP), Brasília, Recife, Rio, Salvador, Goiânia, Fortaleza, Aracaju e Birigui (SP). Com 19 anos, se define como uma rádio “exclusivamente dedicada ao melhor da Moderna MPB, mesclando clássicos e lançamentos”.

Coordenadora da estação, Daniela Souza explica que o engessamento visto na maior parte das estações se deve à natureza do público. “Uma das coisas mais difíceis é tocar uma música nova que a audiência não conhece, pois é aí que você pode perder o ouvinte. Nossa estratégia é usar as conhecidas para introduzir as novas. Toco Bethânia e, em seguida, a Josyara”, conta.

Das 780 músicas tocadas nas cinco datas que foram analisadas, só 17% são de 2010

Diferentes aparelhos de rádio e ‘smart speakers’: a evolução desse meio é um processo contínuo, e não há sinais de que terminará pronto


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a 2019. Cerca de 60% têm mais de 20 anos, a maioria da década de 1980. Das 132 músicas mais novas, 60% eram de veteranos/estrelas como Djavan, Ana Carolina, Marisa Monte ou Jorge Vercillo, e só 5% eram criações de intérpretes/compositores com menos de 10 anos de carreira ou, no máximo, dois discos. Para o diretor artístico da rede, Alexandre Hovoruski, é questão de tempo até a presença de artistas novos crescer. “Eles vão entendendo melhor o formato rádio e passam a produzir mais músicas tendo isto em mente. A rádio vive de audiência, sem ela não vendemos comerciais e não damos vida ao negócio.” Outro caso é o da carioca JB FM, a mais ouvida entre março e abril deste ano na cidade, segundo o Ibope. Sua programação mescla hits internacionais (principalmente) e nacionais. Dentre 666 músicas analisadas, apenas 195 (cerca de 30%) eram brasileiras. As composições lançadas entre 2010 e 2019 foram 83, ou pouco mais de 12%. Destas,

Seja em aparelhos tradicionais em casa, seja no carro, seja como canais de áudio disponíveis em algumas operadoras de TV por assinatura, seja em dispositivos tipo smart speakers que funcionam com assistentes virtuais (caso de Alexa/Amazon, recém-chegado ao Brasil “falando” português; Google Home Mini, também com versão nacional; ou Cortana/Microsoft), o rádio tem tudo para continuar a lançar suas ondas — e render ganhos aos titulares das músicas tocadas — por um bom tempo mais. Outra coisa é que as emissoras responsáveis pelo pagamento dos direitos autorais de execução pública estejam em dia com o Ecad. No site da UBC, confira uma lista atualizada dos inadimplentes, número que se aproxima dos 60% das rádios brasileiras.

brasileiras eram 46 (quase 7%), sendo só 17 de artistas “novos”. Entre estes, Anitta, AnaVitória, Melim, Marcelo Jeneci e Nina Fernandes. “A JB tem ouvintes muito tradicionais, mas lançamos pelo menos uma música brasileira por semana”, geralmente de alguém da “nova cena”, afirma Angélica Cabral, produtora da emissora carioca. Nomes como IZA, Bruno Galvão e Illy, por exemplo. Parece pouco. Mas basta para que muitos ainda mantenham o rádio no seu radar. “O artista só aumenta seu cachê quando toca no rádio. O mundo do sertanejo tem times inteiros para o meio. Anitta nunca deixou de tocar no rádio, trabalha todas lá”, diz Tina Valente, divulgadora com atuação nacional. “Decretar o fim do rádio é não entender que o mercado virou 360, que o segmento digital tem peso mas não está sozinho. Enquanto alguns desistem do rádio, os inteligentes que ficarem vão nadar de braçada.” LEIA MAIS A lista com dados oficiais de inadimplência ubc.vc/InadEcad


PRÊMIO UBC 30

UMA NOITE QUE REFORÇA A

FÉ NA VIDA

Cerimônia de entrega a Milton Nascimento do Prêmio do Compositor Brasileiro, principal troféu do Prêmio UBC 2019, reúne constelação de estrelas em releituras de obras do Bituca. A emoção flui solta na Casa UBC por_ Antonio Carlos Miguel

do_ Rio

fotos_ Miguel Sá, Brunno Ryfer e Sandro Mendonça


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PRÊMIO UBC 32

Recente pesquisa realizada em plataformas de streaming revelou que nenhum outro país ouve tanto suas canções nacionais quanto o Brasil. As razões para esse fenômeno são muitas, mas, entre elas, está a riqueza de uma música que tem representantes como Milton Nascimento, o ganhador do Prêmio do Compositor Brasileiro, principal distinção do Prêmio UBC 2019. Ele recebeu seu troféu na Casa UBC, no Centro histórico do Rio, na noite de 15 de outubro.

Treze composições de Milton foram recriadas no show, que teve direção artística de Zé Ricardo e reuniu 14 intérpretes. Consagrados e jovens revelações, de diferentes estilos, espelhando a diversidade da música brasileira.

Em seguida, no papel de MC, o ator Thiago Lacerda alternou a leitura de mensagens enviadas por colegas de Milton (entre outros, Caetano Veloso, Nelson Motta e Hamilton de Holanda) com a chamada ao palco dos intérpretes.

Após uma versão instrumental de “Vera Cruz” (Milton e Márcio Borges), Elba Ramalho entrou em cena para uma “Fé Cega, Faca Amolada” que injetou sotaque nordestino no clássico de Milton e Ronaldo Bastos.

Para “Certas Canções” (letra de Milton, música de Tunai), a escolhida foi uma das novas vozes afrobrasileiras, a baiana Xênia França. Duas outras revelações, Almério e Anna Lu se juntaram em “Cais” (Milton e R. Bastos). Antes de recriar “Tarde” (Milton e M. Borges), sem a banda, “apenas” com seu violão, um emocionado João Bosco lembrou o quanto foi impactado pelo homenageado.

Decorada como um vilarejo do interior de Minas, ainda na rua, como uma via de trem (tema de diversas canções de Milton) no elevador e, no salão principal, como um clube de jazz, a Casa UBC viveu um dos seus momentos mais mágicos. O pianista Jonathan Ferr tocava versões instrumentais de clássicos de Milton enquanto os convidados desfrutavam do ambiente relaxado, e que respirava música. Antes da entrega do prêmio principal, a superintendente do Ecad, Glória Braga, recebeu o Troféu Fernando Brant por seus 35 anos de trabalho para o desenvolvimento da gestão coletiva de direitos autorais no país.

Acima, Kell Smith durante sua emocionante interpretação para “Clube da Esquina 2”; ao lado, Chico César voa alto com “Paula e Bebeto”

“Milton Nascimento é um milagre. É aquilo com que a gente se depara, é apresentado e não sabe direito o que é, de onde vem. Milton é um milagre porque a gente não consegue explicar”, ele afirmou.


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A partir da esquerda, e em sentido horário, Almério e Anna Lu; Xênia França; Glória Braga recebendo o Troféu Fernando Brant; e Toni Garrido

Emoção que prosseguiu tanto na voz da já veterana (desde o útero de Elis) Maria Rita (em “Morro Velho”, letra e música de Milton) quanto na de uma das novatas (e surpresas) da noite, a paulistana Kell Smith (em “Clube da Esquina 2”, de Milton e Lô Borges). Fora de seu habitual terreno pop, Toni Garrido transitou seguro por “Encontros e Despedidas” (Milton e Fernando Brant). Enquanto, em outro momento solo, o paraibano Chico César voou alto com “Paula e Bebeto” (Milton e Caetano). Mais uma dupla de novos, com o fluminense Rubel e a baiana Luedji Luna, foi formada para “Nada será como antes”(Milton e R. Bastos). Só com seu violão, José Ibarra (vocalista do Dônica) encarou “San Vicente” (Milton e F. Brant) e convenceu,

passando o bastão para Rogério Flausino. Com a banda montada para a festa, o vocalista do Jota Quest mostrou um pop “Coração de Estudante” (Wagner Tiso e Milton). Para fechar a noite, ainda tinha o bis. Após receber o troféu das mãos de seus colegas Antonio Cícero, Aloysio Reis e Ronaldo Bastos, Milton era só emoção, tanto que, com gestos, expressou não ter condições de falar. Mas, logo em seguida, com todo o elenco, soltou a voz em “Maria, Maria” (Milton e F. Brant). Outra prova de que o Brasil “possui a estranha mania/ de ter fé na vida”. Com Milton, e seus tantos parceiros, dá para acreditar. VEJA MAIS Na página da UBC no YouTube, um resumo dos shows e da emoção da noite ubc.vc/YTUBC


MERCADO 34

ENSINAR A

OUVIR

Iniciativas de formação de público, já tradicionais no âmbito da música de concerto, se difundem por gêneros como a MPB de_ São Paulo


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“A música é a arte mais direta: entra pelo ouvido e vai ao coração”. A frase célebre, atribuída ora à flautista espanhola Magdalena Martínez, ora ao compositor argentino Astor Piazzolla, traduz o espírito livre da arte mais difundida, a que toca quase qualquer um sem que se precise ensinar a apreciá-la. Exceto quando se trata de gêneros que não estão entre os mais populares. Desde a primeira metade do século XX, a música de concerto vive décadas de plateias minguantes que obrigam seus diligentes artistas a se envolverem em intentos de renovação/formação de público. A novidade é que a outrora dominante MPB, ante o avanço de estilos como sertanejo, pop e funk, também tem ganhado iniciativas de proteção e difusão. Uma delas é de um dos mais bem-sucedidos projetos de música para crianças, o Mundo Bita, um pacote multimídia que envolve vídeos de animação com mais de 3,5 bilhões de visualizações na internet, teatro, música e licenciamentos de objetos. Ao se associar a nomes como Milton Nascimento, Alceu Valença, Vanessa da Mata, Toquinho e Ivete Sangalo, entre outros, a turma criada por Chaps Melo e seus parceiros da produtora recifense Mr. Plot faz releituras de canções deles ou de outros mestres para apresentá-las ao seu jovem público. Tudo estrelado pelos popularíssimos personagens da série. “(Os convidados) são artistas que, com sua arte, tocaram muito a nossa criação, influenciando-nos com suas letras e melodias. Considero um trabalho importante de formação de público infantil, de famílias, visto que o cenário não tem sido tão propício a essas obras que admiramos tanto”, Chaps descreve.


MERCADO 36

“Para a nossa agradável surpresa, os vídeos desse novo projeto, que chamamos de Rádio Bita e que ganhou também uma identidade estética nova para os personagens, têm tido um desempenho tão bom quanto os clássicos do Bita. Lançamos um novo a cada mês, e a média de visualizações tem se mantido em dois milhões mensais. Os artistas vibram muito, veem que estão conversando com um novo público”, completa João Henrique, sócio da Mr. Plot. A renovação vem pela rede, mas também em projetos presenciais que difundem, sobretudo, a música clássica país afora.

Alceu Valença e Ivete Sangalo, em desenhos e fotografias com Chaps Melo: participantes do projeto Rádio Bita

É o caso, entre muitíssimas outras iniciativas, do projeto Guri, em São Paulo; do Neojibá, na Bahia; e dos Concertos Banrisul para a Juventude, das sessões para crianças e adolescentes do IPDAE (Instituto Popular de Arte-Educação) e também do Instituto de Artes da UFRGS, os três últimos no Rio Grande do Sul. Professor na federal gaúcha, o maestro, pianista e compositor Dimitri Cervo crê que a apreciação de “vários tipos de música de excelência, não só a de concerto, é uma decorrência natural” do “desenvolvimento do conhecimento musical e da sensibilidade estética”. Daí, para ele, a importância dos projetos de difusão de gêneros que não ocupam o radar do mainstream atual.

O CENÁRIO NÃO TEM SIDO PROPÍCIO A ESSAS MÚSICAS.”

Chaps Melo, Mundo Bita


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CLÁSSICO NO STREAMING

Como ele analisa, é natural que, inclusive nos serviços de streaming, note-se um crescente interesse de um renovado público, muitas vezes nativo digital, pela música de concerto. O caminho é óbvio: posto em contato com gêneros eruditos em iniciativas de formação de plateia, esses novos ouvintes vão se aprofundar na internet. “Estamos passando por uma revolução tecnológica e uma mudança de paradigma. Tivemos há algumas décadas a substituição do vinil pelo CD e, agora, do CD pelo streaming. É natural que esse fenômeno atinja também os ouvintes de música clássica.”

O recém-lançado disco “Música Sinfônica”, de Dimitri Cervo, é um notável exemplo de popularidade no contexto da música de concerto. Logo nas primeiras semanas após chegar ao mercado, alcançou a marca de 25 mil ouvintes, o que demonstra um interesse nada desprezível pelo gênero. Autoral, o CD é o registro de Cervo à frente da Orquestra Sinfônica da Venezuela, que, como ele lembra, foi conduzida por nomes como Stravinsky, Villa-Lobos e Carlos Chávez. “Sinto-me honrado”, resume o regente, que executou com os músicos venezuelanos algumas de suas composições mais conhecidas, como “Abertura Brasil 2012 Bis” e “Brasil Amazônico”. Ele acaba de concluir outro concerto, para violino e orquestra, “As Quatro Estações Brasileiras”, que planeja reger outra vez em Caracas.

Com iniciativas como essas, as ondas sonoras que tanto nos tocam ganham uma parada a mais no caminho proposto pela frase de Martínez (ou será de Piazzolla?): entram pelos ouvidos, passam pelo cérebro e vão ao coração.

LEIA MAIS O legado de Villa-Lobos, 60 anos após a sua morte ubc.vc/VillaLobos60

LEIA MAIS Cinco perguntas para o criador do Mundo Bita ubc.vc/MBita

Chaps e João Henrique (sócio na Mr. Plot) com Milton Nascimento; à direita, o compositor, maestro e professor Dimitri Cervo


CARREIRA 38

Natureza da criação e do mercado musical gera estresse e desencadeia transtornos de humor, mostram pesquisas; Brasil carece de dados e políticas públicas de_ São Paulo


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DEPRESSÃO, ANSIEDADE, ‘BURNOUT’:

PROBLEMAS SUBMERSOS Aplausos, curtidas, seguidores, flashes, elogios. Frustração, rechaço, solidão, burnout, depressão. A vida de um compositor ou intérprete, e quem vive disso sabe, pode ser uma gangorra emocional, mas os problemas psicológicos ou psiquiátricos derivados da instabilidade financeira, da grande exposição e da necessidade de atender às expectativas alheias e alcançar o “sucesso” são subdimensionados. O Brasil, para se ter uma ideia, não dispõe de um só grande estudo sobre o tema — menos ainda, de políticas públicas para acolher criadores musicais e artistas afetados por transtornos de humor. Dados gerais ajudam a dar uma dimensão à situação: segundo a OMS, 5,8% da população brasileira já sofreram algum episódio de depressão clínica; 9,3% lidam com crises de ansiedade; e um levantamento da Associação Internacional de Controle de Estresse (Isma, em inglês) revela que 72% dos trabalhadores nacionais já tiveram picos de estresse. Destes, 32% chegaram ao esgotamento nervoso (ou burnout, uma síndrome recentemente incluída no catálogo oficial de doenças da OMS).


CARREIRA 40

“É mais comum esse tipo de manifestação entre artistas que passam mais tempo sós, isolados, como compositores e escritores, do que entre aqueles que sobem ao palco e socializam. Mas não podemos ignorar o poder de fatores como abuso de álcool e drogas, a exposição permanente ao julgamento alheio, a busca pelo sucesso e outros fatores como favorecedores da ansiedade e da depressão”, enumera o psicoterapeuta Carlos D’Oliveira. Sem apoio, com equipes reduzidas, muitas vezes sem dinheiro até para buscar ajuda, os pequenos independentes podem ser os mais afetados. É o que revela um estudo feito esse ano com 1.500 deles na Europa pela distribuidora sueca Record Union. Nada menos que 73% dos independentes que responderam ao questionário revelaram lidar constantemente com transtornos de humor relacionados à sua criação artística, sendo os mais comuns ansiedade, estresse e depressão. Jovens de até 25 anos são os mais afetados, com uma prevalência de 80%. A cantora, compositora e produtora Clarice Falcão conhece de perto este último dado. Seu primeiro episódio de depressão foi por volta dos 16 anos. Hoje, aos 30, ela descreve com humor os momentos em que se vê às voltas com depressão e ansiedade. “Em 2013, quando eu apareci, junto com o Porta dos Fundos, foi um crescimento muito rápido. Fiz turnê que deu muito certo do ponto de vista do mercado, mas foi muito intenso. Tinha muito fanatismo, gente vindo balançar a van.... e gente falando muito mal, com ódio. Não aguentei, tive que cancelar a turnê. Fui burra, porque estava ganhando dinheiro”, ela disse, aos risos, ao podcast Fast Forward, especializado em música e que, num episódio de outubro, abordou os transtornos de humor entre profissionais da música.

Entre os gatilhos para os transtornos de humor, o estudo europeu encontrou medo do fracasso (67%), insegurança financeira (59%), pressão pelo sucesso (58%), solidão (51%) e julgamento alheio (44%). Um número alto (51%) busca sentir-se melhor usando álcool, drogas recreativas e outras substâncias químicas — algo altamente não recomendável por especialistas, ao alimentar a ciranda da ansiedade. Em outro estudo, publicado pelo site da UBC em maio passado, a Universidade de Westminster e a entidade Help Musicians UK, do Reino Unido, descobriram que episódios depressivos ou de forte estresse afetam a categoria musical até três vezes mais que a população geral.

Para Clarice, o processo de expurgo passa por organizar-se emocionalmente e direcionar a ansiedade para a criação: “É pôr em palavras, mesmo, pôr em música.” Ela estabelece uma relação direta entre a exposição ao julgamento alheio e a ansiedade. “Hoje eu procuro ter uma relação mais saudável, de menos autocobrança, com os fãs, com o que leio sobre mim. Todo mundo quer ser o maior e o mais famoso. Isso não é real, não é possível.” A psicanalista Aline Pires concorda com ela e, entre diversas recomendações para que músicos/criadores lidem com transtornos de humor, ressalta: “Não aceite como natural um estado de constante depressão ou ansiedade. Estar triste ou frustrado é normal, todos temos o direito de sentir plenamente isso, mas a criação artística em si não é inerentemente ligada à frustração, à ansiedade e à depressão constantes. Tenha coragem de romper o ciclo e buscar ajuda.”

TODO MUNDO QUER SER O MAIOR E O MAIS FAMOSO. ISSO NÃO É REAL, NÃO É POSSÍVEL.”

Clarice Falcão, cantora e compositora


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PARA MANTER A CABEÇA NO LUGAR Tenha uma rotina Pessoas que trabalham no meio musical muitas vezes não dormem ou se alimentam bem, o que impacta mais a saúde psíquica do que você imagina. Exercite-se Ajuda a liberar o estresse. Tenha contato social O isolamento é um grande gatilho para os problemas. Cobre-se menos O prazer de criar e dedicar-se a uma atividade artística deve ser maior do que a pressão por um sucesso cuja medida é essencialmente subjetiva. Drogas e álcool São frequentemente associados a transtornos psíquicos. Faça arte sem cair em clichês.

LEIA MAIS Veja mais dados sobre essas pesquisas e relembre o caso do associado Padre Fábio de Mello, que teve síndrome do pânico ubc.vc/Depressao


FIQUE DE OLHO 42

de_ Brasília, Rio e São Paulo

STREAMING: PROJETO QUER COTAS PARA

EXECUÇÃO PÚBLICA:

O Senado debate estes dias o PLS 57/2018, projeto de lei de autoria de Humberto Costa (PT-PE) que pretende estipular cotas para a produção nacional em serviços de streaming audiovisual, como Netflix ou Amazon Prime Video. Na visão do seu autor, uma participação mínima de criações brasileiras na grade das plataformas estimularia a indústria cinematográfica e outras que a orbitam — como a produção de trilha sonora original. A proposta prevê ainda taxação de até 4% sobre o streaming para fomentar produções brasileiras.

Contrariando entendimentos do Superior Tribunal de Justiça (STJ), que tem pacificada a questão do quarto de hotel como um lugar público — portanto, sujeito à cobrança de execução pública musical —, o desembargador do TJ-RJ Luiz Henrique Oliveira Marques deu ganho de causa a uma pousada de Penedo (RJ) contra o Ecad. A sentença de primeira instância havia sido favorável ao escritório central, que recorrerá ao STJ. “As leis de direitos autorais são claras. Se há execução num ambiente que é público, como um hotel, inclusive o quarto, há pagamento”, diz Sydney Sanches, assessor jurídico da UBC, que crê em vitória do Ecad.

PRODUÇÃO NACIONAL

LEIA MAIS Conheça detalhes da proposta e dos debates em torno dela ubc.vc/SenadoCota

TJ-RJ ISENTA QUARTO DE HOTEL

LEIA MAIS Entenda o alcance da decisão e se ela gera jurisprudência ubc.vc/TjIsenta

YOUTUBE MUDA REGRA PARA DISPUTA DE

DIREITO AUTORAL

O YouTube tem, desde setembro, uma nova regra de monetização para o caso de disputas relacionadas com o uso de músicas em seus vídeos. Antes, o autor de uma música usada sem licença poderia denunciar manualmente e exigir comonetizar, ou seja, receber parte dos ganhos com anúncios. Agora, só será possível fazer isso se a música não for “curta”, um conceito que, no exemplo dado pelo YouTube, contempla trechos de até cinco segundos. A nova regra só vale para denúncias manuais, e nada muda no caso de usos não autorizados descobertos pela ferramenta automatizada ContentID.

LEIA MAIS Especialistas comentam o impacto da regra ubc.vc/YTRegra


REVISTA UBC

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META CONNECT:

CONHEÇA SISTEMA DE RETIDOS DA UBC Implantada há alguns anos, a ferramenta de detecção de créditos retidos da UBC se renova e rebatiza como Meta Connect. O sistema de inteligência de negócios, baseado em algoritmo, varre a base de créditos retidos do Ecad e compara os resultados com as obras, os fonogramas e os titulares cadastrados na UBC. Quando a coincidência é perfeita, a liberação para o titular é automática. A maior parte das retenções tem relação com problemas de identificação. De janeiro ao início de outubro deste ano, mais 85,3 mil registros foram liberados, alta de 17,4% em relação a 2018. LEIA MAIS Mais detalhes sobre as situações que levam a créditos retidos ubc.vc/MetaCon

UBC LANÇA RANKING QUE DÁ

DEEZER PROPÕE NOVA FORMA DE

DESTAQUE PAGAR NO AO STREAMING COMPOSITOR

Uma das atividades da UBC em outubro, Mês do Compositor Brasileiro, foi a criação de um ranking semanal de mais executadas em rádio e streaming que dá destaque não somente ao intérprete, mas principalmente ao criador das músicas. Desenvolvido em parceria com a Crowley, o ranking está disponível no nosso site e é retroativo ao início de 2019, o que permite comparar as oscilações das mais tocadas semana a semana.

LEIA MAIS Visite a página do ranking da UBC/Crowley ubc.vc/RankingUBC

Uma das principais plataformas de streaming que operam no país, a francesa Deezer quer mudar o método de cálculo do pagamento aos titulares das músicas que oferece. Hoje, segundo a regra geral do setor, é feita a soma do total arrecadado num determinado período num território, e a distribuição se dá entre todos, baseada no número de audições. Para privilegiar os pequenos que não têm muitas audições mas, sim, ouvintes fiéis, a ideia é que o cálculo passe a se basear na experiência de cada usuário. Assim, o dinheiro da assinatura de uma pessoa iria só para os artistas que ela ouve. Não há prazo para a mudança, que depende de renegociações dos contratos atuais. LEIA MAIS Todos os detalhes da proposta da Deezer ubc.vc/DeezerDistribuicao


ARRECADAÇÃO E DISTRIBUIÇÃO 44

QUEM DÁ MAIS? Uma comparação entre diferentes usos da sua música mostra de quanta exposição ela precisa para render mil reais em execução pública do_ Rio

Emplacar uma canção na abertura de um programa da TV Globo não é o mesmo que ter um punhado de execuções de uma música no YouTube. Os contratos estabelecidos entre o Ecad e os diferentes usuários de uma obra musical preveem valores muito diferentes. O cálculo exato é complexo, leva em conta uma unidade de valor chamada ponto autoral e, quando o segmento contempla o direito conexo (de intérpretes, músicos acompanhantes, produtores musicais), também o ponto conexo. Essas medidas variam a cada distribuição, em função do total arrecadado pelo Ecad e do número de músicas utilizadas. Para que você entenda o peso de cada uso, apresentamos alguns números bem gráficos que mostram quanta exposição é necessária em diferentes segmentos para se alcançar um valor de R$ 1 mil em execução pública.


REVISTA UBC

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R$ 1 MIL

PARA CHEGAR A EM EXECUÇÃO PÚBLICA SÃO NECESSÁRIOS*:

23,828

MILHÕES

de visualizações no YouTube

3.196

SEGUNDOS

de exibição como tema de abertura na TV Globo

246,2 EXECUÇÕES no grupo música de TV por Assinatura

6 EXECUÇÕES

na Rock Street do Rock in Rio

2,8 MILHÕES

de audições na plataforma Deezer

6,8

CAPTAÇÕES

no segmento Música Ao Vivo (bares e outros estabelecimentos)

1,952

MILHÕES

de audições no Spotify Premium

4,7 CAPTAÇÕES

numa rádio do Sudeste

12.381 SEGUNDOS de exibição como tema de personagem em novela da TV Record

*Períodos de captação entre setembro de 2017 (Rock in Rio daquele ano), dezembro de 2018 (YouTube) e primeiro semestre deste ano (demais segmentos). Lembrando que os valores dos pagamentos variam entre as diferentes captações e distribuições. O valor exato que o titular de direito autoral recebe depende da sua participação na propriedade da obra e do fonograma.

LEIA MAIS Conheça as regras completas de arrecadação e distribuição no Guia do Associado ubc.org.br/guiadoassociado


DÚVIDA DO ASSOCIADO 46

LEIA MAIS Mais detalhes sobre os direitos fonomecânicos e de execução pública que incidem sobre o streaming ubc.vc/DirStream

“Sou compositor. Como recebo os direitos autorais da minha música que está nas plataformas digitais?” [ Pergunta surgida na plateia durante a passagem por Minas Gerais da palestra itinerante Giro Digital, da ABMI. ]

REVISTA UBC Primeiramente, é preciso deixar claro que tratamos aqui dos direitos dos compositores, não dos conexos (intérpretes, produtores musicais ou músicos acompanhantes, por exemplo). Quando falamos de direitos autorais em plataformas de streaming, é importante saber que há dois tipos deles: os direitos fonomecânicos e os de execução pública. Para receber os primeiros, é obrigatório que o compositor esteja vinculado a uma editora musical ou a um agregador ou distribuidor digital (serviços responsáveis por intermediar a relação entre titulares e plataformas). Não só: o contrato com esses distribuidores deve ser específico para o direito do compositor. Importante lembrar

também que esta editora ou distribuidora deve ter contrato com as plataformas de streaming onde a música está sendo usada. Já para a parte de execução pública, é necessário registrar-se numa associação que compõe o Ecad, como a UBC. As suas criações também devem ser registradas e corretamente identificadas junto à associação, para que o Ecad possa captar sua execução pública, seja ela onde for: num show, na rádio, num serviço de streaming ou em diversos outros meios e lugares. Outra questão importante é que o usuário (o produtor do show, a estação de rádio ou a plataforma de streaming) deve estar adimplente, ou seja, realizando corretamente os pagamentos.

Depois de efetuado o pagamento do direito autoral pelas plataformas, estas enviam ao Ecad uma lista de todas as músicas tocadas em determinado período. O Ecad faz, então, uma comparação das informações enviadas pelas empresas com as obras cadastradas em seu banco de dados para poder proceder à distribuição. A distribuição deste segmento é trimestral (em fevereiro, maio, agosto e novembro) e é realizada de forma direta, ou seja, baseia-se na programação musical real enviada por cada empresa, e não numa amostragem. Entre os serviços que já assinaram acordos com o Ecad e estão adimplentes figuram Spotify, Apple Music, Deezer, Amazon Music/Video, YouTube, Vevo, Netflix, Facebook/Instagram, Google Play Music, Superplayer, Globoplay, Napster, PlayNetwork e outros.

E VOCÊ, TEM DÚVIDA? Entre em contato com a UBC pelo e-mail atendimento@ubc.org.br, pelo telefone (21) 2223-3233 ou pela filial mais próxima.


QUERO FALAR DE UMA COISA… Foi bonita a festa, Milton Nascimento, Prêmio do Compositor Brasileiro 2019. Obrigada por nos honrar com a sua arte.

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Revista UBC #42