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AGOSTO 2019

LOS

HER MA NOS Sem estratégias de marketing ou grande apuro visual, eles se mantêm no topo — e lotam estádios — amparados só na sua música


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Produtor musical também é psicólogo? Daniel Ganjaman explica e fala sobre os caminhos da produção ubc.vc/DanielGanjaman

VOCÊ VIU? Os bastidores do encontro que reuniu 11 compositoras de diferentes estilos para compartilhar suas experiências, falar de suas carreiras e comemorar os 10 anos da Revista UBC ubc.vc/UBCClipeCapa

TOPO DAS PARADAS 1º 13/05/2019 Por que músicos sofrem tanto de ansiedade e depressão? ubc.vc/AnsiedadeMusicos

2° 18/06/2019 UBC prepara série de workshops e debates com o tema ‘música 360º’ ubc.vc/Musica360Prog

3° 26/04/2019 Qual é o melhor distribuidor digital? ubc.vc/DDigital


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AGOSTO 2019

RE VIS TA

A REVISTA UBC É UMA PUBLICAÇÃO DA UNIÃO BRASILEIRA DE COMPOSITORES, UMA SOCIEDADE SEM FINS LUCRATIVOS QUE TEM COMO OBJETIVOS A DEFESA E A DISTRIBUIÇÃO DOS RENDIMENTOS DE DIREITOS AUTORAIS E O DESENVOLVIMENTO CULTURAL.

Conselho Fiscal Geraldo Vianna Edmundo Souto Manno Góes Fred Falcão Sueli Costa Elias Muniz Diretor executivo Marcelo Castello Branco Coordenação editorial Elisa Eisenlohr Projeto gráfico e diagramação Crama design estratégico Editor Alessandro Soler (MTB 26293) Textos Alessandro Soler (Cannes, França), Alexandre Matias (São Paulo), Andrea Menezes (Brasília), Gilberto Porcidonio (Rio de Janeiro), Gustav Cervinka (Manaus), Gustavo Leitão (Rio de Janeiro), Kamille Viola (Rio de Janeiro) e Ricardo Silva (São Paulo) Capa Montagem com fotos de Leo Aversa, Caroline Bittencourt e Alisson Louback Fotos Imagens cedidas pelos artistas. Créditos nas respectivas páginas, ao longo da edição. Tiragem 8.500 exemplares/Distribuicão gratuita Rua do Rosário, 1/13º andar, Centro Rio de Janeiro - RJ, CEP: 20041-003 Tel.: (21) 2223-3233 atendimento@ubc.org.br

por_ Manno Góes

Quando Anna Júlia invadiu as rádios, TVs e carnavais do Brasil, o país se viu diante de um fenômeno que parecia trazer em sua raiz a sonoridade divertida de bandas de rock dos anos 60: Los Hermanos. Lançada pelo extinto selo Abril Music, a banda, porém, surpreendeu ao mostrar ser muito mais do que a radiofônica Anna Júlia, revelando dois autores originais e geniais: Marcelo Camelo e Rodrigo Amarante. E continua a surpreender, promovendo turnês de sucesso após anos de pausas nas carreiras, sem que haja um trabalho intenso de movimentação e alimentação de conteúdo nas suas redes sociais. Uma exceção quase que única em um mundo cada vez mais sincronizado com a comunicação e produção digital — que mudou costumes e formas de se consumir músicas em todo o planeta. A UBC acompanha de perto essas mudanças de comportamento e de hábitos de consumo. Não à toa, o seu diretorexecutivo, Marcelo Castello Branco, profissional de grande reconhecimento na indústria da música nacional, acaba de se tornar o primeiro latino-americano eleito presidente do Conselho de Administração da Cisac. Cargo que o coloca como representante de 238 sociedades do mundo inteiro, trazendo desafios fundamentais para a defesa e proteção dos autores.

EDITORIAL

Diretoria Paulo Sérgio Valle (Presidente) Abel Silva Antonio Cicero Aloysio Reis Ronaldo Bastos Sandra de Sá Manoel Nenzinho Pinto

A UBC segue com seu protagonismo cada vez mais relevante, de maior tradição e representatividade no país, sendo a única sociedade de gestão coletiva brasileira a fazer parte do conselho da Cisac. O que muito orgulha seus colaboradores e associados.


PELO PAÍS: May Seven

22 32 34 40

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ARRECADAÇÃO E DISTRIBUIÇÃO: Shows

DÚVIDA DO ASSOCIADO

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CARREIRA: Projeto Impulso

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NOTÍCIAS INTERNACIONAIS

18

MERCADO: China

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CAPA: Los Hermanos

NOVIDADES NACIONAIS

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MERCADO: Crítica musical

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FIQUE DE OLHO

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PELO PAÍS: Trap

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JOGO RÁPIDO: Adriana Calcanhotto

ÍN DI CE 12

14

1 44

42

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JOGO RÁPIDO

REVISTA UBC

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“QUALQUER COISA QUE EU REPITA QUATRO VEZES ME FAZ PENSAR NUMA MÚSICA” Adriana Calcanhotto encerra, com o álbum “Margem”, uma trilogia de discos sobre o mar iniciada com “Maritmo” por_ Kamille Viola

do_ Rio

foto_ Murilo Alvesso

Há 21 anos, Adriana Calcanhotto iniciou uma trilogia de discos que giravam em torno do mar. O primeiro foi “Maritmo” (1998), com sucessos como “Vambora” e “Corro Demais”. Dez anos depois, vinha “Maré”, com a regravação de “Mulher Sem Razão”, de Cazuza, Bebel Gilberto e Dé Palmeira. Em 2019, o ciclo se completa com “Margem”, primeiro disco de estúdio da artista desde 2011, quando soltou “O Micróbio do Samba”. Gravado ao lado de Bem Gil, Bruno Di Lullo e Rafael Rocha, o disco traz nove faixas e passeia por diversos gêneros, do samba ao carimbó, do funk 150 BPM a sonoridades lusitanas — influência das temporadas da cantora lecionando na Universidade de Coimbra. Foram mais de dez anos gestando “Margem”. Qual foi sua sensação ao terminar o disco (e a trilogia)? O sentimento é de que a trilogia está acabada, mas que o assunto não está esgotado. Não descarto a possibilidade de fazer mais canções sobre o mar, sobre esse tema. O que a motiva a compor? Como é seu processo? Minha ligação com a composição é natural. O que me motiva não é algo exato, muitas vezes é um processo contínuo. Digo que qualquer coisa que eu repita quatro vezes é uma célula rítmica para mim e me faz pensar numa música.

OUÇA MAIS As nove canções de “Margem” ubc.vc/Margem

“Margem” é uma palavra que pode ter vários sentidos. Sobre o que é o disco, para além da temática marítima? Não gosto de defini-lo em uma coisa só, porque, para cada um, a arte tem um sentido. O ponto de partida são o mar, o oceano, a conscientização do que já estava ruim no começo da trilogia e que, agora, está ainda pior. Por isso também criamos a campanha “Mais Música, Menos Lixo”.


NOVIDADES NACIONAIS por_ Kamille Viola

do_ Rio

colaboração_ Ricardo Silva

de_ São Paulo

DUAS DÉCADAS DE

ANA CAROLINA

VEJA MAIS O videoclipe de “Não Tem no Mapa” ubc.vc/AnaC

AS MEMÓRIAS DE

Arrigo Barnabé mostra seu lado escritor no livro “No Fim da Infância” (ed. Grafatório, 98 pág., R$ 65). A publicação compila nove textos do artista, expoente da Vanguarda Paulistana, parte deles publicada na revista “Piauí”, parte na “Calibán”. Os escritos, em geral autobiográficos, passam por suas memórias em Londrina (PR), onde cresceu, a juventude em São Paulo, o dia em que conheceu Tom Jobim pessoalmente e os bastidores de criação da música “Clara Crocodilo”, que deu origem ao álbum de mesmo nome, considerado sua obra-prima. “É um livro basicamente de memórias. Acho que tem duas crônicas que são ficção”, descreveu Barnabé em entrevista ao “Jornal União”, do Paraná. Ele também está no documentário “Amigo Arrigo”, de Alain Fresnot e Junior Carone, exibido em junho no festival In-Edit, em São Paulo, que está previsto para chegar aos cinemas no fim deste ano.

ARRIGO BARNABÉ

foto_ Pedro Dimitrow

No ano em que comemora duas décadas de carreira, Ana Carolina lança o álbum “Fogueira em Alto Mar”, depois de um hiato de seis anos. O trabalho está sendo liberado aos poucos, em três EPs — o primeiro saiu no fim de maio, o segundo, no fim de junho, e o terceiro, no fim de julho. “Esse disco conversa mais com o início da minha carreira. Volto a fazer canções de amor, as famosas baladas”, disse a cantora ao site G1. Atualmente em turnê, com show que tem roteiro de Marcus Preto e direção de Guilherme Leme, ela canta músicas do trabalho novo, como “Não Tem no Mapa”, “Da Vila Vintém ao Fim do Mundo”, “Canção Antiga” e “1296 Mulheres” (regravação da canção de Moreira da Silva e Zé Trindade, de 1953); sucessos de sua lavra, como “Sinais de Fogo” (que ficou famosa na gravação de Preta Gil), “Quem de Nós Dois” e “É Isso Aí” (gravada ao lado de Seu Jorge), além de versões de artistas como Roberto Carlos (“Namoradinha de um Amigo Meu”), Rita Lee (“Agora Só Falta Você”), Lulu Santos (“Toda Forma de Amor”) e Amy Winehouse (“Back to Black”, que virou “Eu no Breu”).

foto_ Gal Oppido

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REVISTA UBC

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GERALDO AZEVEDO:

O REGISTRO QUE FALTAVA Embora o formato voz e violão não seja novidade na carreira de Geraldo Azevedo, pela primeira vez um show inteiro nesse esquema minimalista ganhou registro audiovisual. Com produção musical e gravação de Robertinho do Recife e direção geral e de fotografia de Bernardo Mendonça, o CD/DVD “Solo Contigo” traz o cantor e compositor em um passeio por seus 52 anos de carreira, com sucessos como “Dia Branco”, “Bicho de 7 Cabeças II” e “Táxi Lunar”, além de versões de “Estácio, Eu e Você”, de Luiz Melodia; “Pensar em Você”, de Chico César; e “Veja (Margarida)”, de Vital Farias, entre outras canções. “Esse era um registro que faltava em minha discografia. O show voz e violão é o mais frequente em minha carreira. Tenho dois CDs gravados neste formato, ‘A Luz do Solo’ (1985) e ‘Ao Vivo Comigo’ (1994). ‘Solo Contigo’ é a continuação da ideia, uma retrospectiva da minha carreira como compositor”, define o artista.

OUÇA MAIS As dez canções do álbum ubc.vc/Pieta

PIETÁ. VEJA MAIS A faixa “A Saudade Me Traz”, parte do registro ao vivo ubc.vc/GASaudade

CONTUNDENTE Formado por Juliana Linhares (voz) e pelos músicos Frederico Demarca (violões) e Rafael Lorga (bateria e percussões), o trio Pietá lança seu segundo disco, “Santo Sossego”. A sonoridade acústica do primeiro álbum dá lugar a arranjos mais contundentes e letras politizadas. Produzido por JR Tostói, o álbum conta com as participações de Ivo Senra (sintetizadores) e Elísio Freitas (guitarras), além dos cantores Josyara, Ilessi, Livia Nestrovski e Khrystal e Caio Prado. “‘Santo Sossego’ é um respiro poético, um recorte de tempo em meio aos atravessamentos caóticos da vida urbana e da política do país. Não seria possível para nós dissociar vida e obra neste momento”, resume Rafael Lorga. “Nosso canto se pretende resistência e esperança andando de mão dadas, tateando no escuro um novo caminho”, completa Demarca.


NOVIDADES NACIONAIS 8

O FORRÓ DE

MISTURA POP DE

VANESSA DA MATA Cinco anos depois de seu último álbum de estúdio, Vanessa da Mata lança “Quando Deixamos Nossos Beijos na Esquina”, o primeiro disco produzido pela própria artista. O trabalho traz músicas de autoria própria como “Só Você e Eu”, o primeiro single, “Nossa Geração”, “Vá Com Deus”, “Dance Um Reggae Comigo” e “Tenha Dó de Mim”, que conta com a participação do rapper Baco Exu do Blues. “A história de todos nós, todos lutando pela sobrevivência de seus próprios sentimentos no dia a dia. Meu disco trata disso, com músicas leves e curtas letras. O pop romântico, a brasilidade, a canção, o reggae californiano, os ritmos dançantes. Fiz questão de juntá-los sem distinção. Intelectuais e populares”, explica Vanessa. Nos shows da turnê, ela também canta sucessos como “Ai, Ai, Ai”, “Amado”, “Boa Sorte/Good Luck”, “Não Me Deixe Só” e “Ainda Bem”, entre outros. LEIA MAIS Uma entrevista completa com Vanessa sobre carreira e criação ubc.vc/DiscoVanessa

Até outubro, a cantora Mariana Aydar lança quatros EPs, de três músicas cada, que, juntos, vão formar o álbum “Veia Nordestina”. Dedicado ao forró, tem produção musical de Marcio Arantes. O primeiro saiu em abril, o segundo, em junho, e o terceiro, no mês seguinte. Além disso, o projeto conta com um minidocumentário de quatro episódios, dirigido por Dellani Lima e Joaquim Castro, que sai no canal da cantora no YouTube. O primeiro episódio foi disponibilizado em maio. “Esse projeto é meu agradecimento, minha reverência a essa cultura, a esse povo, a essa música que tanto me ensinou, a nordestina, que sempre esteve muito presente na minha vida e me deu muitas coisas: muitos amigos, minha filha, muitos ensinamentos”, enumera Mariana. VEJA MAIS Os episódios já disponíveis do minidocumentário ubc.vc/MariDoc

foto_ Autumn

foto_ Rodolfo Magalhães

MARIANA AYDAR


REVISTA UBC

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NEREU GARGALO,

50 ANOS E ALÉM Os 50 anos de criação do mítico Trio Mocotó, de Nereu Gargalo, são celebrados no documentário “No Gargalo do Samba”, dirigido por Águeda Amaral e José Augusto De Blasiis. Compositor, músico e arranjador, Gargalo — carioca radicado há décadas em São Paulo — é um dos principais nomes do samba-rock que marcou os anos 1970 e deixou frutos musicais por gerações. Grandes músicos e especialistas, além do próprio artista, comentam o importante trabalho de Gargalo e o contexto cultural e social daqueles anos no documentário de uma hora e meia de duração. A produção musical é de Mauricio Tagliari, da YB Music. VEJA MAIS Um trailer de “No Gargalo do Samba” ubc.vc/TrailerGargalo

MAURICIO NADER,

TRILHA DO NOSSO TEMPO

Paulistano radicado em Porto Alegre, Mauricio Nader é requisitado para produzir diversas trilhas sonoras. Há cerca de oito anos, tem trabalhado com Jorge Furtado em produções como “Homens de Bem”, “Doce de Mãe” e “Rasga Coração”. Por esse último trabalho, foi indicado ao Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, a ser entregue no próximo dia 14 de agosto. Com sensibilidade, Nader captou o espírito da obra, que fala de relações pessoais com OUÇA MAIS Uma playlist um panorama político conturbado de fundo. “Tive com canções da trilha bastante liberdade para criar e muita troca com o ubc.vc/trilhaRasga Jorge”, ele diz.

Depois de realizar trabalhos dedicados a Chico Buarque, Milton Nascimento e Jacob do Bandolim, o bandolinista Hamilton de Holanda lança um álbum autoral. “Harmonize”, que traz dez faixas, foi gravado ao lado de Daniel Santiago (violão), Thiago do Espirito Santo (baixo) e Edu Ribeiro (bateria), que formam o Hamilton de Holanda Quarteto, e conta com a participação do acordeonista Mestrinho em “Samba Blues”. Todo o processo foi registrado em audiovisual e está disponível no canal do artista no YouTube. “Fazer esse disco para mim foi realmente um momento único, porque eu sou compositor por natureza, todo dia eu me dedico à criação, de alguma maneira, seja fazendo um trechinho de música, seja fazendo uma inteira. Ou mesmo à improvisação, que é uma parte importante da minha arte”, comenta Holanda.

HAMILTON DE HOLANDA,

DE VOLTA À COMPOSIÇÃO

LEIA MAIS Hamilton de Holanda é indicado ao Grammy Latino ubc.vc/GrammyL


NOVIDADES NACIONAIS 10

Quatro anos depois do disco de sambas “Antes do Mundo Acabar”, seu mais recente trabalho autoral, Zélia Duncan volta a lançar um álbum com repertório próprio. “Tudo É Um” tem 11 faixas, das quais nove foram compostas pela cantora com parceiros. Uma delas é uma criação solo, e a única que não leva sua assinatura é “O Que Mereço”, de Juliano Holanda. Produzido por Christiaan Oyens (coautor de “Olhos Perfeitos”), o disco está calcado no pop folk e conta com as participações de Dani Black (em “Só Pra Lembrar”, parceria dela e de Zélia), Paulinho Moska (em “Feliz Caminhar”, dele com a cantora) e Zeca Baleiro (em “Medusa” e “Me Faz Uma Surpresa”, ambas dele com a artista). “Este álbum foi idealizado num momento muito agressivo das nossas vidas, que desembocou no ano de 2019. Por conta disso, agora que está pronto e que o estou aqui ouvindo, é no mínimo de se admirar que o resultado seja tão suave e, eu diria, até gentil”, comenta a artista.

foto_ Roberto Setton

ZÉLIA DUNCAN

SUAVE

foto_Julia Rodrigues

OUÇA MAIS As onze canções do disco ubc.vc/DiscoZelia

NOVA FACETA DE

Lázaro Ramos mostra mais uma faceta: ele acaba de lançar o álbum “Viagens da Caixa Mágica”, voltado para o público infantil. Realizado ao lado do músico Jarbas Bittencourt, diretor musical do Bando de Teatro Olodum, e da angolana Heloísa Jorge, o disco conta com nove faixas inéditas e uma (“Caixa Mágica”) criada para o espetáculo “A Menina Edith e a Velha Sentada”, escrito e dirigido por Lázaro. “O disco é todo inspirado na minha relação com meus filhos. Os temas vêm da relação com eles”, ele disse ao portal UOL. As canções passeiam por temas como autoestima, identidade e afetividade, e o álbum foi lançado em vinil, no Spotify e no YouTube, com clipe para todas as faixas, contando ainda com as participações de Lellê (ex-Dream Team do Passinho) e Jéssica Ellen.

LÁZARO RAMOS

OUÇA MAIS As dez faixas do álbum ubc.vc/Lazaro


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HOMENAGEM A

RENEGADO,

Depois de participarem juntos da turnê “Refavela 40”, que comemorou os 40 anos do disco de Gilberto Gil, Maíra Freitas e Mestrinho voltam a homenagear o cantor e compositor no show “N’ Gandaya”. Agora, eles recriam canções do álbum “Kaya N’Gandaya” (2002), em que Gil se debruçou sobre a obra de Bob Marley. Além do repertório do disco, a pianista e o acordeonista interpretam outros sucessos de reggae, forró e samba. “Gostamos tanto de trabalhar juntos que resolvemos fazer essa releitura do show ‘Kaya N’Gandaya’. Está sendo muito divertido. Para mim, também é uma nova aventura me embrenhar no mundo do reggae”, afirma Maíra.

Rap e música clássica se encontram em “Suíte Masai”, álbum que Flávio Renegado lançou no fim de maio. Com participação da Orquestra Ouro Preto, o rapper mineiro fundiu referências brasileiras, europeias, africanas e caribenhas, num disco cujo nome é um tributo à civilização Masai, do Quênia. “A troca das batidas eletrônicas por uma orquestra foi um caminho natural. Do rap ao rock, passando pelo eletrônico, já toco há muito tempo com banda. Vejo a conexão com a música erudita como o ponto alto de uma trajetória”, ele define. São 15 faixas, inéditas e regravações, entre elas as clássicas “Do Oiapoque a Nova York”, “Coisa é Séria” e “Vera”, do seu álbum de estreia, de 2008.

RAP ERUDITO

foto_ Íris Zanetti

GIL E AO REGGAE

OUÇA MAIS O álbum “Suíte Masai” na íntegra ubc.vc/SuiteMasai

Oitavo álbum de esúdio da banda Fresno, “Sua Alegria Foi Cancelada” chegou às plataformas digitais no último dia 5 de julho. Com temática que versa sobre estados de ânimo melancólicos, o trabalho da banda gaúcha capitaneada por Lucas Silveira visita a música eletrônica e faz até leitura (bem particular) do arrocha, com raízes mui fincadas no rock. “Ao me dar conta de que um punhado de canções soltas que eu vinha escrevendo tinham todas um clima melancólico, decidi apostar forte nesse tema e discutir o que é a melancolia em 2019, sob a ótica das redes sociais e a OUÇA MAIS As canções do álbum cultura dos likes, com suas emoções exageradas e superficiais ao mesmo tempo”, ubc.vc/Fresno define Lucas, autor de todas as músicas.

FRESNO, PARA A

NOSSA ALEGRIA


PELO PAÍS 12

FORÇA

AN CES TRAL


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Principal nome da produção de música eletrônica do Norte brasileiro, a amazonense May Seven batalha para vencer preconceitos e evoca herança indígena e sustentabilidade em seu trabalho por_ Gustav Cervinka

de_ Manaus

foto_ Gabriel Gardinni

Um som diferente ecoa na floresta. E tem na DJ e produtora amazonense May Seven seu principal nome. Criadora da maior festa de música eletrônica do Em sua última edição, Norte brasileiro, a em julho de 2018, a festa atraiu milhares de Made in Amazonia, pessoas, espalhadas entre May leva as batidas a estrutura principal (para 500 pagantes) e mais da house, do techno e de 400 embarcações, de de vertentes variadas diferentes tamanhos, que da EDM (electronic a circundavam. A próxima dance music) às águas Made in Amazonia será este ano, ainda sem data. do Rio Negro, em Para fomentar a cena musical contemporânea sua passagem por local, May Seven já préManaus. Tornado produz a feira Amazonia pista de dança Music Conference, para o ano que vem, em Manaus. flutuante, o rio dá “Queremos apresentar vazão ao trabalho caminhos aos artistas que buscam excelência no peculiar desta seu trabalho. Reuniremos jovem que evoca profissionais renomados do ancestralidade mercado, especialistas em direitos autorais e outras indígena e áreas”, ela detalha. sustentabilidade em seu som de pegada pop contemporânea. Uma mistura que lhe rendeu fama e reconhecimento internacionais.

com coleta e triagem de materiais recicláveis na própria estrutura flutuante principal, entre outras ações”, explica May, que há mais de 15 anos marca território na cena eletrônica nacional. Atualmente, ela ocupa as posições 19 e 49, respectivamente, nos rankings de melhores DJs do Brasil e da América Latina, segundo a revista inglesa DJaneMag.

A necessidade de preservar a Amazônia — cujos índices de desmatamento dispararam nos seis primeiros meses do ano — guia as ações da produtora. “Desde o início sempre tive como um dos objetivos principais transmitir a ideia de preservação. Este ano, vamos ter na festa o conceito de lixo zero, VEJA MAIS O clipe de “Say Goodbye” ubc.vc/MaySeven

A pesquisa de sons e estéticas indígenas — que se refletem também na forma como se veste e nas pinturas da etnia Dessana que usa para tocar —, além de sua qualidade técnica, fizeram dela a primeira mulher residente num Depois de lançar um clube de Manaus. videoclipe da faixa “Say Goodbye” em plataformas Não sem a digitais no início de 2019, resistência, velada May Seven, conhecida ou não, de seus também como Jungle Girl (menina da selva), finaliza competidores. seu próximo lançamento. “Os homens Em “Não Tenha Medo”, que coassina com Vinicius Poeta DJs, à época, e Benício Neto, ela fala de me assistiam superação e aborda o tema esperando que da depressão. “Já passei por esse problema três vezes. eu errasse uma A música sempre foi uma virada. Também fonte de força”, diz. ouvi coisas como ‘você toca como homem’. Isso só me instigava a fazer mais. Há uma mudança abrangente na sociedade (por mais inclusão feminina), é só uma questão de tempo.”


PELO PAÍS 14

SUJOU! Vertente do rap com batida desalinhada e glamourização do submundo, trap vira mainstream lá fora e, por aqui, divide opiniões na cena hip hop por_ Gilberto Porcidonio

do_ Rio

Batidas propositalmente desalinhadas que beiram o experimental, marcação firme de chimbal, inserções metálicas minimalistas e destaques aos médios e agudos, em oposição aos tradicionais graves do “gênero-mãe”. Praticamente onipresente nas produções atuais do rap nacional, o trap, outrora subversivo, é o queridinho da vez entre os criadores do universo hip hop. A influência, assim como ocorreu com o próprio rap, veio de fora, a partir de uma batida nascida na década passada, no Sul dos Estados Unidos. Grosso modo, é uma forma mais suja de se cantar e tocar o rap, marcada por gírias e sotaques locais, bem como uma associação glamourosa com o mundo das drogas e do crime — nas letras e na estética. O próprio termo que batiza o subgênero vem das trap houses, como são chamadas as bocas de fumo estadunidenses. Hoje, a cilada virou pote de ouro. A despeito da origem no submundo, desde que o DJ americano Baauer (branco de origem latina) estourou com o Harlem Shake em 2012, virando meme na internet global, o estilo cresceu exponencialmente. Diplo, Kendrick


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A CENA ESTÁ BONITA E TEM TALENTO. O QUE SE DESTACA É CADA UM CANTAR SUA REALIDADE PRÓPRIA.”

Choice


PELO PAÍS

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foto_ Tuiki Borges

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Lamar — que abraçou o trap no álbum “DAMN”, de 2017 —, e a espanhola Rosalía (numa particular mistura com o flamenco) já pegaram a viagem de trap para chamar de sua. Rappers da antiga e da nova escola, como MV Bill, Baco Exu do Blues, BK e Froid, também são íntimos do estilo. O rapper Akira Presidente se lembra de que, quando escutou pela primeira vez o curioso som trapeiro do americano Gucci Mane, não tinha ideia do que se tratava. “É que a minha escola sempre foi a nova-iorquina. Toda geração é muito agarrada a uma sonoridade, mas agora se criou uma espécie de mutação. É até mais permitido usar um flow criado por outro, o que, na minha geração, era um crime”, diz Akira.

OUÇA MAIS Uma playlist com canções brasileiras de trap ubc.vc/Trap

Para Black Alien, continua a ser. Ao jornal “O Globo”, o medalhão do rap disse que, com algumas exceções, não gosta do trap: “A minha escola considera o flow, a levada, como uma arte dentro da arte. São infinitas linhas para explorar. A batida do trap só

TODA GERAÇÃO É MUITO AGARRADA A UMA SONORIDADE, MAS AGORA SE CRIOU UMA ESPÉCIE DE MUTAÇÃO.”

Akira Presidente

permite dois jeitos de rimar. Isso, para mim, é antiarte, é estreitar um canal aberto para um monte de mané sair como bom no que faz.” O rapper Choice, que foi introduzido ao trap através de “Red Bandana”, do americano The Game, acredita que os adeptos deste subgênero do rap no Brasil vão aprender a se estruturar mais com os anos. “A cena está bonita e tem talento. Tem uma galera de São Paulo que já viraliza umas gírias próprias e veste roupas que expressem nossa ‘agressividade’ de discurso, já que o trap também é a atitude. Os flows tendem a ser parecidos, e tem quem tente imitar as joias e as roupas do exterior porque as pessoas entendem que tem uma fórmula por trás. Mas o que se destaca é cada um cantar sua realidade própria.”


FIQUE DE OLHO

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de_ Brasília

ISENÇÃO A QUARTOS DE HOTÉIS,

MÚSICA EM REDES SOCIAIS,

NOVA REGRA NO SEGMENTO

UM NOVO ROUND

RENDA EXTRA AOS AUTORES

TV POR ASSINATURA

Mais uma tentativa de ressuscitar a isenção de pagamentos ao Ecad pelo uso de músicas em quartos de hotéis vem mobilizando criadores. Originário da Câmara, o PL 1.829/2019 tramita na Comissão de Constituição e Justiça do Senado e agrega uma série de medidas de estímulo ao turismo no país, mas, em seus artigos 3º e 4º, prevê tal penalização aos autores de músicas, sob o pretexto de “ajudar” os hotéis. Como no caso do PLS 206/2012, que também propunha essa isenção e acabou arquivado no Senado, o PL 1.829 já gerou campanha nas redes sociais, com a hashtag #RespeitoaoCompositor.

Facebook e Instagram (que pertence ao primeiro) lançaram em junho novas funcionalidades que permitem agregar canções a publicações de posts e Stories. As canções disponíveis para uso integram um banco de dados criado por essas redes sociais e, por ora, não podem ser subidas pelos próprios titulares. Como tal banco surgiu após a celebração de contratos de licenciamento entre Facebook/ Instagram e selos e editoras, é esperado que seu uso proporcione maior arrecadação aos titulares das músicas usadas. Vale lembrar que, desde o ano passado, ambas redes sociais fecharam acordo com o Ecad e já fazem pagamentos de direitos autorais de execução pública.

O segmento TV por Assinatura ganhou nova regra de cálculo e distribuição dos direitos autorais das músicas exibidas na programação dos canais. Com medição trimestral feita pelo Ibope, os canais abertos retransmitidos nas operadoras pagas agora são classificados em baixa, média ou alta audiência, e cada grupo fica com, respectivamente, 60%, 30% e 10% do bolo a ser distribuído. A regra já é válida desde a distribuição de maio.

LEIA MAIS Confira mais informação sobre esse importante debate ubc.vc/PL1829

LEIA MAIS Todos os detalhes das novas funcionalidades ubc.vc/MusicaFBeIG

LEIA MAIS Veja o comunicado do Ecad e todos os detalhes da nova regra ubc.vc/ComEcad


MERCADO 18

A CRÍ TI CA

DE MÚSICA NUNCA ESTEVE TÃO VIVA


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O estado de confusão e a sensação de fim de ciclo são sintomas de uma nova fase da produção jornalística musical brasileira, que está prestes a renascer em outra escala por_ Alexandre Matias

de_ São Paulo

É comum ouvirmos dizer que a crítica musical desapareceu e que essa atividade, antes resumida diariamente aos cadernos de cultura dos jornais, perdeu espaço para a agora onipresente agenda cultural. Isso é uma generalização. Há uma profusão gigantesca de textos jornalísticos ou de opinião sobre a igualmente extensa produção musical brasileira. Mas se, antes, só precisávamos acompanhar determinados veículos para saber o que estava acontecendo, agora precisamos fazer um verdadeiro trabalho de mineração.


MERCADO 20

No princípio, eram as revistas independentes e fanzines, que, aos poucos, migraram para a internet. No final do século XX, veio o blog — inicialmente um diário online de cunho pessoal —, que permitia aos neófitos da rede publicar conteúdos sem entender de tecnologia. Blogs e sites começaram a conviver numa espécie de realidade paralela, que se expandiu em razão exponencial com a chegada das redes sociais. Logo, essa discussão já não era nem mesmo mais escrita — e, quando era, tornava-se fragmentada.

ANTES, O ‘ALGORITMO’ ERA HUMANO E RESTRINGIA O ACESSO DO PÚBLICO AO GOSTO DE UM CRÍTICO. ISSO ACABOU.” Estou falando de listas de discussão por email, fóruns online, comunidades digitais, grupos de interesses específicos no Facebook e discussões encadeadas no Twitter, canais no YouTube, perfis no LinkedIn, podcasts... Jornalistas também viraram biógrafos ou autores de livros sobre música e transformaram críticas em teses acadêmicas. A vasta produção de jornalismo e crítica expande-se para atividades que não eram consideradas jornalísticas, como

discotecagens, cobertura em mídias sociais, curadorias e direção artística. O jornalismo passa hoje por uma situação semelhante à da música no início dos anos 2000. Quando o MP3 e o compartilhamento P2P permitiram que as pessoas tivessem acesso gratuito a todo o tipo de música, a música digital saiu de sua infância e entrou em uma puberdade que, como tal, tinha tons dramáticos. Era o apocalipse: o fim do mercado fonográfico, o fim das grandes gravadoras, o fim do CD. Falou-se até no fim da música. A mesma coisa acontece com as notícias, só que, em vez de um software, a ameaça são as redes sociais. Ali, o público não paga por notícias e as consome regurgitadas por amigos, parentes e desconhecidos, que copiam e colam textos sem dar a origem da informação, publicam informações falsas como se fossem verdadeiras e criam novos vínculos de confiança, abandonando os velhos títulos que balizavam o mercado. Nesse panorama, rádio e TV sobreviveram a duras penas, enquanto a mídia impressa parece fatalmente ferida. Mas isso é uma fase. O que vem acontecendo é uma reestruturação de parâmetros que nos fazem perceber que o jornalismo de outrora agia como as redes sociais de hoje: reduzindo as informações a um único bloco de agentes,


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desprezando todos os outros que não dançavam conforme sua música. Antes, o “algoritmo” do jornalismo era humano e restringia o acesso do público às novidades a partir do gosto e dos interesses de um crítico ou um editor, criando a falsa ilusão de que aquelas escolhas eram a realidade musical existente. Isso acabou. Jornalistas encastelados em suas torres de marfim, recebendo discos e informações privilegiadas da indústria e decidindo o que o público deve ler ou ouvir, são um passado quase caricato. O jornalista corre

atrás das notícias, estabelece novos vínculos com artistas e produtores e expande os horizontes de seu público. Pensar em caçar e distribuir essa produção jornalística, em vez de simplesmente considerá-la inexistente por não vir à superfície em escala industrial, é a chave para voltarmos a ter um jornalismo de música consistente. E, diferente de antes, mais plural, acessível, profundo e divertido. VEJA MAIS Confira um debate sobre o tema durante o último UBC Sem Dúvida ubc.vc/Critica


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Há mais de duas décadas num lugar de inegável destaque na cena musical brasileira, a banda Los Hermanos desafia convenções da indústria por_ Gustavo Leitão

do_ Rio

montagem sobre fotos de_ Caroline Bittencourt e Leo Aversa


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FE NÔ ME NO

UM RARO

Como num raro fenômeno astrológico, Marcelo Camelo, Rodrigo Amarante, Bruno Medina e Rodrigo Barba colidiram órbitas em 2017. Estavam todos no Rio de Janeiro, ao mesmo tempo, quando Simon Fuller, responsável pela carreira do Los Hermanos há 20 anos, percebeu a coincidência e sugeriu um encontro. O quarteto, que tinha se dispersado pelo mundo e não dividia o palco havia dois anos, vivia outro de seus períodos de hibernação. Mas, naquela noite, os hermanos saíram do terraço do empresário no bairro do Leblon com uma ideia ambiciosa: uma turnê por grandes estádios brasileiros, incluindo o emblemático Maracanã. Era a hora de testar de novo o poder de fogo da banda que desafia convenções da indústria e insiste em renascer.

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“Em 2015, na volta anterior deles, percebemos o crescimento de escala dos shows. E mais ou menos 50% daquele público nunca tinham visto o Los Hermanos ao vivo”, observa Simon, que encerrou em maio a nova rodada de apresentações por 11 cidades. Os ingressos do setor premium do estádio carioca se esgotaram poucas horas depois da abertura das bilheterias, em dezembro. Na arena do Allianz Park, em São Paulo, tocaram com casa cheia. Sem lançar um álbum de inéditas há 14 anos, com presença acanhada nas redes sociais e poucas concessões ao marketing, a banda, que oficialmente teve sua carreira interrompida em 2007, continua a intrigar especialistas do mercado fonográfico a cada retorno. Qual seria o segredo dessa antiestratégia de sucesso? Formado na PUC do Rio de Janeiro, em 1997, o quarteto cimentou sua fama em quatro discos de estúdio: “Los Hermanos” (1999), “Bloco do Eu Sozinho” (2001), “Ventura” (2003) e “4” (2005). Do início mais roqueiro até a depuração com influências da MPB e do samba, a banda foi formando um público fiel, que canta todas as letras a plenos pulmões nos shows. “É um som atemporal, com

identidade muito jovem, transmitida de geração a geração”, diagnostica Marcelo Falcão, diretor-executivo da Universal Publishing, que viu esse fenômeno em casa, quando a adoração passou do filho de 32 anos para a filha de 27.

Desde que anunciaram um hiato, há 12 anos, os hermanos seguiram rumos distintos. Marcelo Camelo foi morar em Lisboa com a mulher, a cantora Mallu Magalhães, e lançou três discos solo. Seu parceiro cantor-compositor, Rodrigo Amarante, radicou-se em Los Angeles, onde gravou o elogiado “Cavalo” (2013). O baterista Barba segue músico no Rio, enquanto o tecladista Medina, que é publicitário, trabalha na cidade como diretor de criação.


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Com a dissolução do grupo, o Los Hermanos infla e desinfla, como um pop-up, a cada retomada. Foi assim em 2009, quando dividiram a noite com Kraftwerk e Radiohead, e nas turnês de 2012, 2015 e 2019. Ao tentar contato com um deles para este texto, o repórter ouviu tanto do empresário quanto da assessoria que o prazo para entrevistas tinha expirado. Era hora de voltarem para a toca. “Eles sempre deixaram a música falar por si. Não gostam muito de entrevista, de trabalhar imagem”, descreve Simon. “São uma banda de show, de ir para a estrada, de contato

ELES SEMPRE DEIXARAM A MÚSICA FALAR POR SI. NÃO GOSTAM DE ENTREVISTA, DE TRABALHAR IMAGEM.” Simon Fuller, empresário da banda


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com o público. Eles não lançam disco há anos, não têm relevância digital nenhuma, mas mantêm um público muito fiel. Assim (com shows) é que tornam palpável o que querem dizer”, completa Maria Fortes, produtora executiva da turnê. Antes dessa rodada recente de shows, a banda voltou ao estúdio e gravou “Corre Corre”, primeira inédita em mais de uma década. Medina homenageou os fãs com um texto na página oficial do Facebook, como parte do conceito da turnê, “Nós somos porque vocês são”. A fórmula para a longevidade da banda tem vários ingredientes. Por terem uma sonoridade singular, alheia aos modismos, os hermanos não ficaram datados. “Eles me lembram os Beatles na forma de compor e combinar os talentos do Camelo e Amarante”, opina Falcão. As letras, que falam de amor, viraram relíquia afetiva de muitos casais. Outras composições prenunciaram a nova visão da masculinidade, mais frágil e desconstruída, que agora é discurso corrente. Mas nem só o conteúdo chama a atenção. Também a forma esnoba fórmulas que vêm sendo repetidas como mantras no atual mercado. “A música deles ultrapassa todos os esquemas, não tem refrão — ou, quando tem, não entra obrigatoriamente antes do primeiro minuto”, ressalta o pesquisador musical Gabriel Gutierrez Mendes.

A turnê deste ano do Los Hermanos homenageou os fãs que acompanham a banda e mantêm seu prestígio em alta. Inspirada na filosofia africana ubuntu, teve como lema a frase: “Nós somos porque vocês são”. A ideia foi sintetizada em um texto que o tecladista Bruno Medina divulgou nas redes sociais. “A nós, integrantes da banda, cabe o papel de coadjuvantes do espetáculo, os responsáveis pela trilha de fundo capaz de evocar o que bem poderia ser qualificado como uma catarse coletiva”, escreveu. Para celebrar a conexão dos admiradores com os ídolos, a equipe do grupo lançou uma série de minidocumentários chamada “Los Fãs”, com histórias de vida ligadas às canções do quarteto.


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ELES NÃO LANÇAM DISCO HÁ ANOS, NÃO TÊM RELEVÂNCIA DIGITAL, MAS MANTÊM UM PÚBLICO FIEL.” Maria Fortes, produtora executiva

“Outra coisa é o show. Eles têm um certo desleixo, proposital, certamente, com o espetáculo. Enquanto a indústria diz que tem que ter uma luz impecável, oferecer dança, efeitos visuais, eles não falam. Sobem lá, afinam os instrumentos na frente de uma multidão e tocam.” A chegada do streaming de música ajudou a perpetuar essa aura especial, dando acesso à obra da banda para um público que não tinha os álbuns em casa. “Eles nunca tiveram grande mídia ou tocaram na rádio. Fizeram uma carreira no boca a boca, e até hoje é assim”, define Simon, que mantém um grupo de Whatsapp para falar com os quatro.

REDES NÃO DE TODO SOCIAIS Fundado antes das redes sociais, o Los Hermanos nunca mergulhou fundo na exposição digital. Dos quatro integrantes, só Bruno Medina e Rodrigo Amarante têm perfil no Instagram, sendo que o do tecladista Medina é privado. No canal oficial do YouTube (227 mil inscritos), há pouca movimentação, com ocasionais atualizações de material antigo. Nos canais oficiais, os posts foram intensos durante a turnê, mas voltaram à inatividade com o fim dos shows.

LEIA MAIS Jornalista e pesquisador analisa a trajetória bem-sucedida da banda ubc.vc/Hermanos

VEJA MAIS Um resumo em vídeo da turnê ubc.vc/TurneHermanos

“Além de mal estarem nas redes sociais e não terem quase marketing digital, as informações sobre os discos igualmente mal estão disponíveis na internet. Você não consegue falar com eles”, descreve Gutierrez Mendes. “O canal do YouTube é deixado. Mas os fãs estão lá, contando histórias de amor, ajudando a criar uma mítica.”


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Ludmilla


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ACELERAÇÃOUMA REVOLUÇÃO

MUSICAL MOVIDA A SMARTPHONES

foto_ Rodolpho Magalhães

por_ Alessandro Soler

de_ Cannes (França)


MERCADO 30

Festejada há décadas pelo mercado global por seu apetite inesgotável por tecnologia — celulares, software —, carros e commodities, a China sempre foi um ponto fora da curva no setor musical. Pirataria generalizada, desregulação que resulta em pífias cifras de arrecadação e distribuição de direitos autorais, um quase monopólio no setor de distribuição digital e outras anomalias dessa economia tão peculiar vinham adiando sua inserção no clube dos grandes da música. Mas algo acontece aceleradamente ali. A alta penetração da internet e do uso de smartphones numa população vertiginosa provoca, quase sozinha, uma revolução mercadológica — movida a pop e hip hop, como destacaram em junho diferentes especialistas durante o Midem, a maior feira de música do mundo, no balneário de Cannes. Há mais de 800 milhões de internautas e cerca de 720 milhões de smartphones no país. E são eles o combustível dos robustos crescimentos do digital, que em 2017 puseram a China, pela primeira vez na história, no top 10 do maiores mercados globais de música gravada, segundo a IFPI, a federação internacional da indústria fonográfica. Em só um ano, o gigante asiático já saltou para a sétima posição. E ainda há muito por fazer. Com uma população de 1,386 bilhão de pessoas, não há mais do que 33 milhões de assinantes de streaming musical. A cultura de não

Pop e hip hop chinês começam a atravessar as fronteiras do país e ter algum sucesso na Ásia Central e em nações como Japão, Coreia do Sul e Austrália (onde há uma importante diáspora chinesa). “Como se viu com o K-pop, há uma grande oportunidade de inserção do C-pop (pop chinês) em outros países”, afirma Andrew Chan, da Sony Music China, ressaltando que muitos artistas locais cantam em inglês, mas também em mandarim, o que denota busca por autenticidade. Durante o Midem, BaPe Reggie, diretor da agência de marketing 88rising China, de Xangai, e Ed Peto, fundador da agência de serviços à indústria musical Oudustry, de Pequim, falaram sobre a fervilhante cena hip hop local. “Globalmente, o hip hop, de certa forma, substituiu o rock. Na China, antes marginalizado, ele agora vive uma fase de popularização sem precedentes, uma busca por uma linguagem única que canalize as emoções e os sentimentos da juventude. Será uma grande chance de a música do país dar seu salto para o mundo”, prevê Reggie.

pagamento por música persiste. E se reflete também nas baixas taxas de arrecadação de direitos autorais musicais. Apesar dos esforços da sociedade local MCSC, TVs e rádios públicas estão inadimplentes, assim como a esmagadora maioria dos produtores de shows, entre eles o Ministério da Cultura e Turismo, responsável por um sem-número de festivais e atividades de promoção da cultura chinesa. É o que sustenta à Revista um executivo com ampla experiência no mercado local e que pediu para não ter seu nome publicado. “Contribui para manter isso o modo como se consome música na China: através de redes sociais ou em plataformas de streaming que incorporam, elas mesmas, inúmeras funcionalidades das redes sociais. A cabeça do chinês ainda funciona segunda a lógica de que ‘se é fácil compartilhar, enviar e receber canções, por que vou pagar’?”, ele define, lembrando que a chegada dos CDs piratas, nos anos 1990, abriu esse país pela primeira vez à música contemporânea global. Até então, e ainda sob influência da Revolução Cultural (1966-1976), de Mao Tse-tung, unicamente canções tradicionais nativas eram bem aceitas no espaço público, fechando ouvidos e olhos a tudo o que vinha de fora e pautando a pouca inserção chinesa no palco musical internacional. Agora, eles correm como podem para recuperar o tempo perdido. No último relatório da Cisac (a Confederação

Com a censura a gigantes do mundo digital ocidental, Spotify, Amazon Music ou Google Play Music não operam na China. A Apple Music é uma notável exceção — e às custas de atender às draconianas exigências do regime comunista de partido único, como remover todas as músicas do catálogo que evoquem “democracia” e “liberdade”. Dois gigantes locais dominam o mercado, Tencent e NetEase. À chinesa, ambos funcionam como híbridos de streaming e redes sociais. “Temos um sistema de comentários, compartilhamentos e avaliações dos usuários que chegam às dezenas de milhares. São como um disco de ouro para um artista”, empolgase Mathew Daniel, vice-presidente da NetEase, segunda do mercado. Durante o Midem, ele se queixou da situação de quase monopólio da líder, a Tencent — que, segundo a Reuters, está em plena ofensiva para tentar comprar o Universal Music Group por coisa de € 20 bilhões. Na China, muitos selos licenciam exclusivamente para a Tencent seus catálogos, e esta decide se os compartilha ou não com as rivais. “É disfuncional”, criticou Daniel.


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Internacional das Sociedades de Autores e Compositores), a China aparece em 29º lugar entre os países que mais arrecadam direitos autorais musicais, com uma cifra de € 27 milhões em 2017, só um milhão de euros a mais do que uma única parte do seu território cujos números são calculados à parte, a cidade autônoma de Hong Kong. No Brasil, sétimo no ranking global, foram € 252 milhões. Há mais de seis anos, o Parlamento chinês debate uma reforma total da sua velha lei de proteção à propriedade intelectual, que poderia

criar novas categorias de direitos autorais musicais e audiovisuais, punições para as infrações e um marco legal que permita a chegada de novos players. Diretor-geral da Sony Music na China, que atualmente opera em Hong Kong, onde se beneficia de um ambiente de negócios mais amigável, Andrew Chan é otimista sobre o mercado que se desenha, com a aparente boa disposição do governo por reformas. “Não há dúvida de que é um momento muito empolgante este que estamos vivendo, a expectativa é grande”, ele resume.

CHINA, UM RAIO-X POPULAÇÃO:

1,386 bilhão de pessoas. PIB:

US$ 25 trilhões em poder de compra, 1º do mundo (2º em valor nominal). ARRECADAÇÃO DE DIREITOS AUTORAIS:

€ 27 milhões 29º no mundo e quarto na zona Ásia-Pacífico da Cisac, atrás de Japão (€ 799 milhões), Austrália (€ 226 milhões) e Coreia do Sul (€ 132 milhões). PAGANTES DE STREAMING:

33 milhões (nos EUA, só Apple Music e Spotify somam 54 milhões). ADOÇÃO DA CONVENÇÃO DE BERNA:

o 1º tratado global de reconhecimento de direitos autorais é de 1886. O Reino Unido o ratificou em 1887; o Brasil, em 1922; a China, só em 1992.


NOTÍCIAS INTERNACIONAIS 32

de_ Madri

ubc no mundo MARCELO CASTELLO BRANCO,

À FRENTE DO CONSELHO DE ADMINISTRAÇÃO DA CISAC Eleito na última assembleia geral da Cisac, em Tóquio, presidente do Conselho de Administração da entidade, o diretor-executivo da UBC, Marcelo Castello Branco, já tem diversos desafios à frente. E talvez o principal deles seja debater soluções para diminuir o chamado value gap, ou abismo de valor, que é a concentração distorcida da maior parte dos ganhos não entre os que criam músicas e outros conteúdos artísticos, mas entre os que os oferecem ao público (plataformas de streaming). Essa é uma das

bandeiras do presidente da Cisac, Jean-Michel Jarre, que deverá ser encampada por Castello Branco. “O time global da Cisac está comprometido em ajudar as 238 sociedades do mundo inteiro a elevar suas arrecadações e distribuições e modernizar o panorama legal para milhares de criadores. Além disso, trabalha incansavelmente no lobby dos interesses da economia criativa, (abordando) questões como a mais justa transferência de valores no

mundo digital e uma remuneração justa para o setor audiovisual”, define o novo presidente, primeiro latinoamericano a ocupar o cargo desde a criação da Cisac, em 1942. Além de Marcelo Castello Branco, foram eleitos outros 19 membros de diferentes sociedades, representando diretamente nações tão variadas como México e Argélia, Coreia do Sul e Estados Unidos, África do Sul e Suécia. Os dois novos vice-presidentes são Asaishi Michio, da japonesa Jasrac, e Patrick Raude, da francesa SACD.

MAIS BRASILEIRO NA CISAC Em julho, durante reunião em Buenos Aires, foi eleito o novo Comitê Jurídico da Cisac. A presidente eleita é Caroline Bonin, da sociedade francesa Sacem. E o vice-presidente é o assessor jurídico da UBC, Sydney Sanches. O mandato do novo comitê já teve início e vai até 2022.

LEIA MAIS Uma entrevista completa com Marcelo Castello Branco sobre os desafios da Cisac e da música global ubc.vc/MCBCisac


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4 MAIORES DO STREAMING TÊM

220 MILHÕES DE PAGANTES

A Amazon Music, terceira do ranking do streaming musical, divulgou em julho um crescimento anual de 70% na sua base de assinantes pagos, totalizando 32 milhões. A líder Spotify (+32% em um ano) soma 100 milhões, e a Apple Music (+50% em 14 meses), 60 milhões. A quarta, a chinesa Tencent, conta com 28,4 milhões. Com isso, as quatro juntas passam de 220 milhões.

LEIA MAIS A partir da página 28, um raio-x sobre o mercado chinês

SPOTIFY DESISTE DE ATUAR COMO

EUA JÁ TÊM ENTIDADE DE

DISTRIBUIDOR

LICENÇA MECÂNICA

Menos de um ano. Foi essa a duração de um projetopiloto do Spotify que deu a algumas centenas de músicos alternativos americanos pré-selecionados a chance de subir suas músicas de forma direta, sem precisar de distribuidores digitais. Sem explicar exatamente por quê, a empresa sueca, que em 2018 comprou uma participação acionária na distribuidora DistroKid, cancelou o projeto.

Após a aprovação do Music Modernization Act (MMA), no ano passado, os EUA criaram, em julho, duas novas entidades: o Mechanical License Collective (gestão coletiva de licenças mecânicas, em tradução livre) e o Digital License Coordinator (coordenador de licenças digitais). Sob supervisão da segunda, a primeira, que tem participação da indústria fonográfica, cuidará do licenciamento de direitos mecânicos, incluindo as licenças-cobertor (em larga escala) para o streaming.


CARREIRA 34

Participantes já desenvolvem suas ideias, e primeiro encontro com mentores foi marcado por perguntas que guiarão essa trajetória do_ Rio

fotos_ Fábio Ribeiro

Romero Ferro durante sua apresentação: início explosivo


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UM ANO DE MENTORIA PELA FRENTE

Um encontro entre os artistas participantes e seus mentores, no início de julho, no Rio, pôs em marcha oficialmente o Projeto Impulso. Esta iniciativa da UBC oferecerá mentoria, capacitação e networking através de um acompanhamento personalizado dos participantes por parte de grandes especialistas do mercado musical. Entre os 391 inscritos, os escolhidos pelos curadores foram o cantor Romero Ferro, a banda Mulamba e a banda Canto Cego. Todos eles desenvolverão ideias de projetos que, levados a cabo ao longo de um ano, os ajudarão a atingir o próximo nível das suas carreiras.

O encontro aconteceu durante o evento UBC Sem Dúvida: Música 360º, que reuniu profissionais de diversas áreas da cadeia musical na Casa UBC, no Centro do Rio, para três dias de oficinas, debates, palestras, shows e muito networking. Questões atuais e ideias sobre o futuro do mercado povoaram os bate-papos. “O mercado precisa dialogar mais, para cada um entender o lado do outro, negociar melhor. É isso que nós estamos propondo como esse evento. E foi muito importante cruzar o UBC Sem Dúvida com o Projeto Impulso”, disse Marcelo Castello Branco. “A proposta que a gente tem é de ajudar o mercado a crescer, de ajudar o mercado a conversar.”

LEIA MAIS Confira detalhes dos painéis e debates ubc.vc/UBCSemDuvida360


CARREIRA 36

“Nosso método de desenho de estratégia partiu de uma série de perguntas que os artistas foram lançando. Entre elas, ‘como mostrar ao público, de forma clara, o valor do seu projeto’, ‘como ter disciplina para percorrer o caminho entre a produção de uma música e o sucesso’, ‘como driblar a falta inicial de verba’, ‘como dar às mulheres seu merecido espaço’”, conta Iuri Freiberger, coordenador do grupo de mentoria, formado por reconhecidos profissionais oriundos de selos, editoras, grandes festivais, marketing e universo legal musical, entre outras áreas. Saiba um pouco mais sobre Romero, Mulamba e Canto Cego:

ROMERO FERRO (PE) Dono de uma voz e de um discurso — contra os preconceitos de origem, gênero, sexualidade — superafinados, esse cantor e compositor de Garanhuns (PE) se apropriou de um estilo musical desprezado por certa intelectualidade, o brega, para ressignificálo unido ao indie pop e ao new wave. As referências estéticas dele são variadas, de Reginaldo Rossi a Kraftwerk, de Marina Lima aos Beatles e ao Queen. A androginia dos vocais, a dor, os amores e desamores do bolero, como ele descreve, povoam as letras e canções. “O início das atividades do Impulso foi mais do que positivo, muito melhor do que eu esperava. Não tinha dúvidas de que seria algo muito legal, tratando-se da UBC, mas foi surpreendente. Os mentores já me trouxeram feedbacks imediatos”, ele disse.

O time de mentores inclui Constança Scofield (gestora do estúdio Toca do Bandido e diretora artística do selo Toca Discos); Fabiane Costa (empresária musical e coordenadora do Espaço Favela do Rock in Rio); Fátima Pissarra (empresária musical e fundadora do projeto Music2); Lucas Silveira (cantor, compositor, multi-instrumentista e membro da banda Fresno); Marcel Klemm (gerente de produção musical da TV Globo); Marina Mattoso (diretora-executiva da agência Jangada Comunicação, especializada em música); Marcus Preto (jornalista e produtor musical); Marisa Gandelman (advogada especialista em direitos autorais, educadora e ex-diretora-executiva da UBC); Paulo Monte (A&R da Som Livre, responsável pelo selo Slap); Pedro Dash (produtor musical); Pedro Seiler (sócio do projeto Queremos!, produtora de shows musicais); e Rafael Rossatto (empresário musical).

MULAMBA (PR) Juntas desde dezembro de 2015, as meninas que formam o sexteto têm uma meta clara: buscar um maior protagonismo feminino na música brasileira. Amanda Pacífico (voz), Cacau de Sá (voz), Caro Pisco (bateria), Érica Silva (baixo, guitarra e violão), Fer Koppe (violoncelo) e Naíra Debértolis (guitarra, baixo e violão) chegaram fazendo barulho e, com potências sonora e técnica muito evidentes, tiveram grande repercussão no YouTube com seu clipe/manifesto “P.U.T.A.”, uma denúncia contra a violência de gênero. “Os mentores nos abraçaram e insistiram no discurso da união e das conexões. Além disso, foi importante ouvir pessoas experientes na música tanto de um lado sentimental quanto mercadológico. Já estamos dando sequência às ideias e com vontade de voltar logo ao Rio para dar um abraço na turma que fez dessa uma semana de boas energias bem fluidas”, afirmou Fer Koppe.

Mulamba: talento criador e técnico evidentes


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CANTO CEGO (RJ) Na melhor tradição do BRock, esse quarteto da comunidade da Maré, no Rio, dá grande valor à palavra. Contribui para isso a formação da vocalista Roberta Dittz como poeta, e as letras cantadas ou recitadas durante o espetáculo, permeadas pelo conjunto roqueiro dos músicos — Ruth Rosa (bateria), Magrão (baixo) e Rodrigo Solidade (guitarra) — dão uma aura especial, onírica, aos espetáculos. Surgidos em 2009, darão um grande passo nacional em setembro, ao integrar o Espaço Favela, do Rock in Rio. “O Impulso vai ser uma grande oportunidade de ampliar as ações na nossa carreira. Ter o apoio de profissionais do mercado que possam nos passar uma visão mais distanciada do que é nosso projeto vai ser crucial nas nossas decisões e desafios futuros”, resumiu Roberta.

VEJA MAIS As apresentações das três bandas durante o evento UBC Sem Dúvida: Música 360º ubc.vc/Musica360

OUÇA MAIS Uma playlist com as canções dos 30 primeiros lugares da seleção do Impulso ubc.vc/Top30Impulso

LEIA MAIS Fique por dentro de todas as novidades do Impulso impulso.ubc.org.br

A Canto Cego após seu show: salto nacional

Outras estrelas do Música 360: especialistas do mercado durante painéis sobre shows e turnês e o poder da imagem na música, alguns dos muitos que ocuparam a Casa UBC


ARRECADAÇÃO E DISTRIBUIÇÃO 38

TUDO SOBRE O SEGMENTO

SHOWS

Entenda como são calculados os valores caso a caso e o caminho que o dinheiro faz até chegar aos titulares por_ Andrea Menezes

de_ Brasília


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A TV continua a reinar na distribuição de direitos autorais, com quase 40% do total entregue aos associados da UBC no ano passado, segundo nosso relatório anual. O rádio ainda tem grande peso, com 14,1%. Mas coladinha com ele (14%) vem a modalidade mais emocionante de apreciação de músicas, a que permite a maior interação e um contato direto com o ídolo: o show ao vivo. Nesta categoria entram espetáculos musicais, peças teatrais, festejos populares, micaretas e apresentações circenses.

01

A REGRA BÁSICA PARA SHOWS DE MÚSICA AO VIVO é calcular um preço que corresponda a 10% da receita bruta do evento (ou 15%, no caso de existir música mecânica). Se não houver receita (no caso, por exemplo, de shows beneficentes ou gratuitos), considera-se o custo musical do evento: 10% para música ao vivo; 15% para música mecânica, calculados sobre o valor total composto pelo cachê dos artistas e músicos, os equipamentos de áudio e vídeo, a iluminação e a montagem do palco.

02

NA INVIABILIDADE DE FIXAÇÃO DE UM PREÇO,

o critério passa a ser a área sonorizada — ou a estimativa de público. No caso da área sonorizada, utiliza-se o fator de 1,09 UDAs (unidades de direito autoral) para cada 10 metros quadrados.


ARRECADAÇÃO E DISTRIBUIÇÃO 40

DISTRIBUIÇÃO A repartição dos valores entre as músicas obedece um critério de equidade. Se, por exemplo, um show arrecadou R$ 1 mil reais, e foram tocadas dez músicas, os titulares de cada uma das músicas terão direito ao valor de R$ 100, dos quais deverão ser subtraídas as taxas administrativas do Ecad e da sociedade de gestão coletiva a qual está filiado o titular.

IMPORTANTE Somente a parte autoral recebe valores no segmento Show. Se há música mecânica junto — no caso, por exemplo, do show de um DJ —, a distribuição automaticamente passa a integrar outros segmentos, como, por exemplo, Casas de Festas. Confira no final deste texto como conhecer os detalhes de outros segmentos.

A distribuição de Show é mensal. Mas isso não significa que um evento que aconteça hoje vai ter, necessariamente, sua distribuição no mês que vem. Isso porque o prazo estabelecido pelo Ecad para o pagamento e o envio do roteiro musical é de 60 dias. A grande maioria dos valores arrecadados nos shows tem distribuição direta. Isso quer dizer que se contempla cada uma das canções executadas. A relação das músicas presentes nos roteiros musicais de um determinado show é encaminhada pelo produtor ou é coletada por meio de gravação realizada pelos técnicos do Ecad.


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NO CASO DE SHOWS COM MENOS DE R$ 500 DE ARRECADAÇÃO, e se o produtor não enviar ao Ecad a relação das músicas que serão executadas, é aplicado um critério de distribuição indireta, ou seja, baseada numa amostragem. A distribuição desse segmento, chamado de Extra de Show, é feita em dezembro de cada ano e inclui shows dessa natureza realizados entre julho do ano anterior e junho do ano em questão. A amostragem inclui músicas executadas no mesmo período.

Para requerer a distribuição direta do seu show, o promotor do show de pequeno porte deverá seguir o seguinte procedimento: 1. Fazer o download do modelo de Roteiro Musical no site do ECAD (ecad. org.br), na seção “Eu uso música” > “Serviços ao usuário” > “Envio da programação musical” > “Shows / Eventos”. 2. Preencher corretamente os campos do formulário, informando os dados do evento e o título das músicas executadas com a referência autoral. 3. Clicar em “Envie sua Programação Musical” no mesmo local do passo 1.

FESTIVAIS, UM CÁLCULO DIFERENTE A distribuição dos festivais, assim como nos demais eventos, acompanha o rateio/divisão do valor arrecadado (aplicado pela Arrecadação), observando os seguintes critérios: • Palco único • Show de abertura: 20% • Show principal: 80% • Dois palcos • Palco principal: 80% • Show de abertura: 10% • Show principal: 90% • Palco secundário: 20% • Show de abertura: 10% • Show principal: 90% • Três palcos ou mais • Palco principal: 80% • Show de abertura: 10% • Show principal: 90% • Palco secundário: 15% • Show de abertura: 10% • Show principal: 90% • Outros palcos: 5% • Show de abertura: 10% • Show principal: 90% O único festival com um modelo próprio de rateio é o Rock in Rio, devido à sua estrutura diferenciada. A cada edição, após análise da estrutura e a forma de utilização musical nos espaços, a Assembleia Geral do Ecad define a proporcionalidade. Em 2017, foram estabelecidos 70% para o Palco Mundo; 20% para o Palco Sunset; 4% para a tenda eletrônica; 4% para o Rock District; 1% para a Rock Street; e 1% para o street dance.

LEIA MAIS Todos os detalhes sobre categorias afins à de shows, como música ao vivo (em restaurantes e bares), casas de festas e boates, carnaval e festas de fim de ano ubc.vc/GuiaAssoc

Em todos os casos, a distribuição de festivais entra na categoria Shows.


DÚVIDA DO ASSOCIADO 42

LEIA MAIS Nas páginas 38 a 42, entenda tudo sobre a arrecadação e a distribuição de direitos de execução pública em shows ao vivo

“É comum que casas de shows nas quais eu vá me apresentar me peçam a liberação de pagamento de direitos autorais de execução pública. Isso é legal? ” [ Elisa Fernandes , cantora e compositora

REVISTA UBC Sim, é legal. Mas denota abuso de poder e uma desigualdade intrínseca na negociação entre casas de shows e artistas independentes. Estes se veem fragilizados, incapazes de refutar a imposição da liberação e, sem poder de barganha, acabam cedendo. A questão, portanto, não é legal, mas moral. E vai além: prejudica também o titular ao limitar o repertório que ele poderá apresentar durante o show. É o que explica a advogada, educadora e ex-diretora-geral da UBC Marisa Gandelman, especialista em direitos autorais:

Rio de Janeiro - RJ ]

“A regra é cobrar. Existe uma estrutura enorme montada para que se realize a cobrança. A não cobrança deve ser exceção, já que custa caro. A máquina (que inclui investimento, pelo Ecad e as sociedades de gestão coletiva, em software, sistemas de gestão, pessoal nos escritórios regionais e equipes de fiscalização) trabalha para garantir a remuneração dos autores. Parar a máquina custa mais caro do que deixála funcionar. Além disso, o artista fica restrito a tocar um repertório cujos direitos são de sua titularidade. Ou isso ou teria que pedir a cada um dos autores parceiros para gastar o seu tempo escrevendo uma carta para pedir a não cobrança do seu direito.

“Haveria ainda as editoras, que também precisariam concordar, escrever cartas, disponibilizar pessoas que cuidassem desse processo de isenção de pagamento. Mesma coisa nas sociedades de gestão coletiva. “Pior: o artista não teria nunca a liberdade de tocar uma música de um autor qualquer, movido pelo momento do show, caso tivesse vontade. Ficaria preso a sempre ter que executar unicamente as músicas cuja cobrança foi formalmente excepcionada. “Não tem sentido gastar dinheiro para montar uma estrutura para os autores, e estes não usufruírem dela e receberem, assim, a remuneração a que fazem jus.”

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Revista UBC #41