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10 anos, 11 craques

No aniversário de uma década da Revista UBC, um time de grandes compositoras de diferentes estilos se encontra para falar sobre criação, sucesso, parcerias e, claro, mulheres na música

por_ Gustavo Leitão ∎ do_ Rio ∎ colaboração_ Fabiane Pereira ∎ do_ Rio ∎ fotos_ Cristina Granato

“Abaixa quem for mais novinha. É hora de ostentar joelho bom”, zoou MC Carol, para gargalhada geral. A formação era uma das tentativas de fazer caberem onze mulheres, todas de branco e maquiagem caprichada, no quadro da fotógrafa Cristina Granato. O salão congestionado mais parecia um camarim de festival importante. Mas ali se dava outra espécie de celebração: do talento, do poder criativo e da representatividade de um grupo heterogêneo de cantoras-compositoras. Com risadas e reflexões aos montes para compartilhar.

Para qualquer produtor(a) de eventos, seria um elenco dos sonhos. Além da funkeira Carol, estavam lá Ana Cañas, Clarice Falcão, Fernanda Takai, Isabella Taviani, Liniker, Lucy Alves, Luedji Luna, Mahmundi, Tulipa Ruiz e Zélia Duncan.

A convite da Revista UBC, que celebra seus 10 anos de existência nesta edição #40, o time se juntou na sede da associação, um prédio art déco debruçado sobre a Baía de Guanabara, no Centro do Rio, para discutir os caminhos tortuosos da composição. Uma arte capaz de abarcar poesia, política, crônica do cotidiano e diário pessoal, tudo sem deixar de falar com as multidões.

Fernanda Takai

“Fazer canções que vêm de uma experiência nossa, às vezes muito íntima, e torná-la grande, aberta e popular, é uma coisa muito mágica”, resume Fernanda, revelada nos anos 1990 graças às músicas que compôs com o marido, John Ulhoa, para a banda Pato Fu.

Mc Carol

Ao lado de suas colegas cantautoras (neologismo para intérpretes que assinam o próprio repertório), ela dividiu as dores e delícias da criação em um dinâmico bate-papo gravado em vídeo e publicado no site da UBC.

Confira os pontos altos da conversa:

Despertar da compositora

“Eu era muito tímida, muito silenciosa. A escrita era meu jeito de estar no mundo, de existir”, conta Luedji, nascida em Salvador, que faz das canções criadas desde a adolescência uma espécie de crônica do cotidiano. Suas inspirações estão mais na poesia de gente como Elisa Lucinda que na música. “É quase uma conversa”, define a artista, que lançou em 2017 o incensado álbum “Um Corpo no Mundo”.

Luedji Luna
Toda vez que aparece alguém querendo muito que algo faça sucesso, fica na cara.”
Clarice Falcão

Isabella Taviani, conhecida pela voz dramática e as composições sobre amores, rascunhava em um quartinho de serviço na casa dos pais, diante do espelho. “No início, eu era apenas intérprete. Quando comecei a escrever música como um diário, fui entendendo o que queria dizer para as pessoas. Aí descobri minha personalidade musical”, lembra.

Já MC Carol começou a escrever música ainda criança. Também fazia desenhos e, embaixo de cada um, colocava frases, pensamentos. “Fui criada pela minha bisavó, e lá se ouvia Roberto Carlos, Elis Regina, Rihanna, forró romântico”, descreve suas influências. “Faço funk erótico, mas, no meio do show, canto coisas como ‘Ne Me Quitte Pas’ pra deixar todo mundo chocado”, diverte-se.

Sem hora certa

Para Clarice Falcão, um dos macetes para segurar a inspiração é anotar tudo, principalmente quando está em trânsito. Pode ser apenas uma palavra bonita, salva no bloco de notas do telefone. “O pessoal do teatro diz que existe o dia bom e o dia ruim. Eu tenho dois dias bons por ano. Aí sento com um instrumento e fico quebrando a cabeça: ‘burra, burra, não vai sair nada’”, brinca.

Clarice Falcão
No início, eu era apenas cantora. Aí, descobri minha identidade musical.”
Isabella Taviani
Isabella Taviani

Liniker é outra que prefere as horas mortas da estrada e das salas de embarque: “Escrevo muito no fluxo de viagem.”

Sem disciplina para a composição, Luedji acredita no imponderável: “A inspiração pode chegar nos momentos mais inesperados. Já aconteceu quando estava em uma viagem e vi um mapa... Ou escovando o dente... A música, para mim, é uma entidade que paira e chega quando estou aberta para recebê-la”, diz.

Liniker e Mahmundi

Para Mahmundi, também. E de formas bem variadas. “Como sou produtora musical, às vezes estou no violão, às vezes na escrita, às vezes no computador durante o processo de composição. Na maioria das vezes eu gosto de começar com uma melodia, depois desembocar isso em palavras, em letra. Esse processo não tem um jeito só.”

Sucesso, um enigma

Para as compositoras, prever uma canção de sucesso é tarefa quase impossível. “Você grava dez, 12 músicas para um disco, mas tem o acaso de uma delas chegar mais ao coração das pessoas. Isso é um mistério para mim até hoje”, afirma Ana Cañas.

Com uma carreira musical fermentada espontaneamente no YouTube, Clarice diz não acreditar em fórmulas. “Toda vez que aparece alguém querendo muito que algo faça sucesso, fica na cara. Para mim, tira totalmente o tesão”, sustenta a cantora, que já lançou dois álbuns e prepara o terceiro.

Ana Cañas

Aos 54 anos, Zélia Duncan prefere nem arriscar os caminhos óbvios. “Eu me especializei em decepcionar o meu fã. Quem está comigo até hoje é um forte”, brinca. “Temos que fazer o que nos dá prazer”, defende.

Parcerias high-tech

Redes sociais, smartphones, afinidades digitais: é certo que a tecnologia serviu para mudar as relações. E isso se reflete também na música. “É muito fácil trocar hoje pelo Instagram, por exemplo. Você conhece alguém ali, propõe uma colaboração, compartilha uns áudios…”, descreve Lucy Alves.

O WhatsApp concretizou trocas quase impensáveis entre Zélia e o compositor Xande de Pilares, com quem cunhou dez músicas para o próximo disco. “Ele mandava a melodia com a voz podre da madrugada. Eu durmo cedo, via só no dia seguinte para fazer a letra”, conta.

Caldeirão político

A polarização política recente tem resvalado, claro, na produção musical. Desde o single “Respeita”, de 2017, que denuncia a violência contra a mulher, Ana Cañas se debruça sobre temas como o feminismo e as lutas sociais. “Sobre o que mais eu falaria, com tudo o que está acontecendo no país, com o fascismo batendo à nossa porta, retrocessos de direitos?”, protesta.

Para Zélia, não cabe mais ficar em cima do muro no momento. “Estou hoje muito mais à vontade para ser gay, para falar das minhas coisas. Eu costumava dizer que não ia dar minha vida para os urubus. Acho que agora devemos enfrentar nossos urubus, sim”, declara.

Zélia Duncan
Estou hoje muito mais à vontade para ser gay, para falar das minhas coisas.”
Zélia Duncan

Mulheres na música

“A mulher na música brasileira sempre ocupou o lugar da intérprete, da diva. É massa, mas também é a reprodução de um lugar criado pelos homens. A história, a poesia, é sempre masculina”, diz Luedji, que faz questão de ser a letrista de suas parcerias com compositores.

Para Tulipa Ruiz, a equidade de gênero virou questão de ordem. “Se vou a um festival hoje em dia, e só tem uma equipe de homem, aquilo já me irrita na hora. Isso era algo que passava batido”, diz.

JUNTAS, MISTURADAS E BEM-HUMORADAS
O encontro de tantas criadoras talentosas foi, ele próprio, uma atração. Com humor, elas interagiram na hora das fotos e, craques também da promoção do seu trabalho, ajudaram a experiente Cristina Granato a clicá-las rápido e bem.
• Zélia era a mais solta, gesticulava muito e descontraiu o ambiente algumas vezes. Num dado momento, Granato deu uma instrução longa e complicada sobre como queria que elas ficassem distribuídas. Silêncio geral. Zélia o quebrou: ‘Tá, mas agora o que a gente faz?’.
• Clarice não levou roupa branca. Improvisou uma cueca samba-canção enorme de um amigo e uma camisa de linho. Ficou ótima.
• Em outra instrução de foto, Granato pediu “agora, todo mundo rindo!” MC Carol completou: “E agora, chorando”, no que Clarice respondeu: “Graças a Deus!”
• Depois das fotos oficiais, começou a sessão de selfies delas. Todo mundo queria fotos para suas redes. MC Carol publicou a sua no Twitter com a legenda “Família Kardashian”. Luedji publicou uma agarrada com Carol no Instagram, dizendo: ‘O mundo não está preparado, mores”. Ana legendou assim no Instagram: “Cris Granato registra há 40 anos a cena musical, artística e cultural do país, fez retratos emblemáticos das minhas heroínas e heróis da música, além de ser uma das manas mais gente phyna que conheço. Uma honra ser clicada por essa lenteolho que é só alma, sensibilidade, coração e emoção”.
Tulipa Ruiz

“É um momento em que temos que usar nosso lugar de fala, nossa exposição”, defende Lucy.

Produtora, cantora e letrista das próprias músicas, Mahmundi se inspira no chamado feminejo. “Elas têm força popular. Fico muito feliz de estar nesse mercado agora. A mulher está preparada para tudo, nossa força se estende para o que quisermos fazer, milita.

VEJA MAIS! O vídeo do encontro. ubc.vc/GrandeEncontro
Lucy Alves
SÓ 9 ENTRE OS 100 MAIORES ARRECADADORES
Neste ensaio elas são muitas — todas. Mas, infelizmente, no conjunto da indústria musical, as mulheres ainda estão sub-representadas, como mostrou a segunda edição do relatório Por Elas Que Fazem a Música, publicado pela UBC em março. Entre todos os mais de 30 mil associados da UBC, elas são só 14% — embora tenham crescido um pouquinho mais (15%) do que o total geral (13%). Entre os cem maiores arrecadadores, só nove são mulheres. “Levantar esses números, manter esse debate na ordem do dia, são maneiras de incentivar uma redução na diferença de gênero que existe não só no mundo da música mas em praticamente todas as áreas da economia”, afirma Elisa Eisenlohr, gerente de Comunicação da UBC e coordenadora do projeto.
LEIA MAIS! O relatório completo. ubc.vc/PorElas19