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+ PALAVRA CANTADA: DUAS DÉCADAS DE MÚSICA E EDUCAÇÃO + MATO GROSSO DO SUL, ESQUINA DE ENCONTROS SONOROS + FAGNER & ZÉ RAMALHO, MORENO VELOSO, CLAUS E VANESSA, ATAULPHO ALVES JÚNIOR REVISTA DA UNIÃO BRASILEIRA DE COMPOSITORES #24 / MAIO 2015

QUANDO UMA

VALE MAIS QUE MIL IMAGENS

UM PAPO COM ILUSTRES LETRISTAS, QUE, SEM PALCO, FAZEM DE SUAS CRIAÇÕES A FORÇA DO SEU TRABALHO


Em junho de 1942, nascia a maior sociedade de autores do país. Longe de apenas comemorar os bons frutos destes 73 anos de defesa dos direitos autorais, a UBC renova sua energia para continuar nessa luta.

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THALLES ROBERTO

REVISTA DA UNIÃO BRASILEIRA DE COMPOSITORES #24 : MAIO 2015

CANTADO

M

EDITORIAL O au o é o p nc p o de udo o que se e e e à cu u a Sem e e não have a a be eza da mús ca da poes a da a e Ox gên o da v da humana mpu s ona ao mesmo empo as eng enagens de um me cado n n o De ende os d e os dos au o es é uma a e a que pa ece não e m Os adve sá os do espe o aos c ado es nven am a odo momen o a mad has e es a ég as pa a des espe a nos

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A UBC e odos os compos o es mús cos e n é p e es que a sus en am es ão a en os pa a que nossos d e os p eva eçam sob e os n e esses come c a s escusos

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NOTÍCIAS : UBC/5

4/UBC : NOTÍCIAS

NOTÍCIAS : UBC/7

6/UBC : NOTÍCIAS

8/UBC : HOMENAGEM

NOVIDADES NACIONAIS

Já está produzindo algo novo seu? Ainda estou considerando que meu disco novo, “Coisa Boa”, está em fase de trabalho e não comecei a pensar em nenhum outro projeto pessoal. Mas, como sempre, o chamado vem dos amigos. São eles que me dizem quando chegou a hora de fazer algo novo. Filho de Caetano, afilhado de Gal… É mais dor ou delícia ser quem é? Quase que apenas delícia! Muita felicidade para mim! Adoro minha gente, minha família e a música brasileira! O quase fica por conta de algum assédio por parte de repórteres que sofro desde criança e com o qual convivia muito mal até me tornar adulto. O resto é maravilha!

ATAULPHO ALVES JÚNIOR, DE FILHO PARA PAI

Um dos mais talentosos grupos vocais brasileiros está de novo em cena, depois de um hiato de anos, e quer voltar a surpreender. Os Cantores de Ébano, sucesso na década de 1960 com seu estilo baseado no spiritual, o canto afro-religioso norte-americano tido como sustentáculo do jazz, do blues, do r&b e do gospel, lança o álbum “Um Sonho a Mais”, que traz versões a capella de clássicos como “Romaria”, “Ave Maria no Morro”, “Ita no Norte” e “Asa Branca”. Com produção de Cleber de Matos e direção de Jair Medalha, o trabalho é o primeiro a registrar a participação de Iaci Pinto, baixo profundo que sucedeu ao falecido Noriel Vilela, um dos membros originais do grupo fundado pelo saudoso Nilo Amaro e que conta com três sopranos, dois contraltos, quatro baixos e dois tenores, todos negros, e se orgulha de beber nas nobres fontes de The Platters, Nat King Cole e Ray Charles. “Uirapuru” e “Leva Eu Sodade”, os dois sucessos maiores do grupo, que frequentaram as rádios em décadas passadas e ajudaram a inscrever o nome dos Cantores de Ébano na história da nossa música, também aparecem no CD.

A VIOLA MODERNA DE YASSÍR CHEDIAK

Música popular urbana – e fora do eixo. Com temas como o dia a dia na sua paradisíaca Olinda (PE), a violência das ruas das cidades brasileiras, a dureza de viver num país desigual de um continente idem, as venturas e desventuras amorosas, a banda Eddie imprime um sotaque e um jeito muito próprios de se inserir na cena contemporânea. Mesclando pop, rock e sons tradicionais como samba, frevo, xote, reggae, eles mantêm os pés no lugar de onde vieram mas projetam a cabeça no mundo. Este mês, lançam “Morte e Vida”, sexto disco do grupo - depois de uma pausa do líder Fabio Trummer para se embrenhar num projeto paralelo, o Trummer SSA. O álbum tem 11 canções, dez de Trummer e a outra de Kiko e Rob Meira, que recebeu letra de Fábio e do parceiro Erasto Vasconcellos. Combustível e munição para bombar no próximo carnaval de Olinda, cidade onde eles nasceram e que, diferentemente do que ocorre com um sem-número de criadores contemporâneos, não trocaram – pelo menos não de todo – pela convergência em São Paulo. Uau! Uma banda de música contemporânea, alternativa e “fora do eixo” que não veio embora (pelo menos não de mala e cuia) para São Paulo! Como se sentem? Fabio Trummer: Eu moro em São Paulo (risos), mas sou o único da banda. Temos as duas cidades (Olinda e Sampa) como base trabalhadora. Trabalhamos independentemente quase toda a vida e somos da geração que pôs a música de Pernambuco novamente na pista, com mangue beat etc. Dentro do estado (nordestino) conquistamos um espaço, e isso facilita nossa vida em Pernambuco. Temos um público fiel e numeroso na região. O nome do segundo álbum parecia ter marcado uma espécie de batismo do som de vocês: Olinda Original Style. Dá para definir assim o que vocês criam? O que faz parte desse estilo?

Compositor de trilhas sonoras para filmes e novelas e apresentador de programas no Canal Rural e na Rádio Roquette-Pinto, o violeiro Yassír Chediak lança o seu quarto CD de carreira, “Mundo Afora”, e já está em turnê com o show “Arrasta-Pé Violado”. Clássicos como “Pinha do Pinheiro”, “Mineirinha”, “Panelha Velha” e “Tchau Amor” ganham releituras. Além da viola, o acordeão e o violino, entre diversos outros instrumentos, se unem em experimentações que cruzam estilos para além da música instrumental de raiz. Entre os destaques do álbum, “Seresteiro da Chuva”, parceria de Yassír com o poeta paranaense Carlos Borges, “Amuleto” e “Viramundo”, de ritmo dançante, e “Mundo Afora”, que remete aos trabalhos de Almir Sater, Renato Teixeira e Zé Ramalho.

Original Olinda Style não é necessariamente nosso estilo musical, e sim uma observação do modo de vida levado em Olinda. Nossa música é uma música popular urbana, é assim que gosto de classificá-la. Vocês já fundiram virtualmente todos os sons regionais, tradicionais, tudo o que nos é mais caro e próprio, ao rock e ao pop. Que falta ainda? À medida que o tempo passa, conhecemos outros gêneros e ritmos e também movimentos socioculturais, e esses ingredientes vão entrando no nosso trabalho. Não fazemos este encontro de culturas racionalmente, é o resultado de tudo

04-05

ENCONTRO DE

NOTÍCIAS : UBC/11

10/UBC : NOTÍCIAS

FIQUE DE OLHO

NOVIDADES INTERNACIONAIS ARMÊNIA É PAÍS HOMENAGEADO DO MIDEM 2015

que ouvimos e de que gostamos... Acabamos nos expressando com esses elementos. É também uma maneira de renovar nossa música e não ficar nos repetindo, uma forma de buscar sempre novas soluções.

VENDA DE MÚSICA DIGITAL SUPERA A FÍSICA PELA PRIMEIRA VEZ

Todos os álbuns estão disponíveis para descarga gratuita na página de vocês. Mesmo assim, conseguem vender seu trabalho? Qual é a principal fonte de grana da Eddie? Vendemos bem nosso trabalho em CD e vinil, apesar de estar no nosso site o download gratuito. Costumo fazer um cálculo de que, para cada dois CDs baixados, vendemos um fisico. Quem baixa e gosta acaba comprando o CD ou o vinil. Na Eddie, nossa principal fonte de entrada de capital são os shows, mas vendas e o direito autoral também são parte significativa da nossa arrecadação.

em algum momento, mas sem pressa”, conta, por telefone, de Brasília, onde fazia shows em março passado. Por fim, decidiram não incluir nenhuma música inédita no repertório.

Entra bastante por direitos autorais, então? Entra sim, acho que 35% da minha arrecadação são direito autoral. A obra acaba se espalhando em filmes, regravações, apresentação de outros artistas e execução de TVs e rádios. A obra trabalha por você. Vocês são uma banda da era digital. Têm uma boa página no Facebook, põem tudo de graça na web… Qual o papel da rede na rotina de vocês?

FAGNER E ZÉ RAMALHO CELEBRAM SUCESSO DE SEU PRIMEIRO PROJETO CONJUNTO E JÁ PLANEJAM UMA TURNÊ PELO PAÍS: 'ESTAMOS EM FORMA!'

A rede é parte do contato com nosso público. Nessa configuração do mundo que temos hoje, é fundamental ter uma boa relação com a internet, já que boa parte dos negócios é tratada virtualmente. Uma passada d’olhos nas músicas de vocês penduradas no YouTube revela um montão de comentários de usuários gringos. As músicas são cantadas em português. O que será que os atrai?

Por Guilherme Scarpa, do Rio Fagner e Zé Ramalho permaneceram cada um na sua, mas com alguma coisa em comum, por quase quatro décadas de paralelas e mais do que produtivas carreiras artísticas. Embora tenham diversas afinidades - os dois nasceram em outubro de 1949 e, surpreendente e coincidentemente, moram até no mesmo prédio, no Leblon, Zona Sul do Rio -, só em 2014 conseguiram realizar um antigo desejo: “comungar no mesmo palco”, como define Fagner.

Sempre achei, desde o início da minha carreira musical, que a única maneira de conseguir um espaço verdadeiro fora do país seria fazendo música brasileira, em português principalmente. Música, para mim, é expressão, e não saberíamos nos expressar de outra maneira. Quando é sincero o trabalho, as pessoas sentem e curtem, mesmo não entendendo a letra. Foi assim comigo a vida inteira ouvindo música americana e inglesa e, depois, francesa e de outras línguas que não domino. Temos alguns trabalhos lançados fora do país, músicas em filmes com carreira internacional, tocamos em rádios na Europa e no Japão e temos um público de estrangeiros grande no Brasil, por fazer uma música brasileira e com características próprias. É isso que um gringo espera de um grupo brasileiro.

Desde que apareceram no cenário musical, na década de 1970, o cearense Fagner e o paraibano Zé Ramalho traçaram caminhos paralelos, sempre de ouvidos bem atentos um ao outro. “Zé é um cara que se entrega, tem um trabalho

Vestidos de azul, monocromaticamente, Zé Ramalho e Fagner permanecem durante todo o show no palco, como prova o registro em DVD. Nenhum deles arrisca um momento exatamente solo. Mas em “Chão de Giz”, de Zé, Fagner fica apenas ao violão. Depois, na música “Canteiros”, de autoria de Fagner, eles invertem essas posições, sempre em equilíbrio.

diferenciado, gosto muito das músicas dele, de seu jeito de cantar”, confirma Fagner. A recíproca é verdadeiríssima. “Sempre tive admiração por ele”, entrega o outro. O resultado dessa “cerimônia” movida “pela musicalidade e a poesia mútuas”, nas palavras de Zé, também idealizador do projeto, está registrado no CD e DVD “Fagner & Zé Ramalho Ao Vivo”, em que os dois cantam e tocam juntos 17 sucessos de suas carreiras. “A ideia nasceu há uns três anos”, explica à Revista UBC o paraibano, numa de suas bissextas entrevistas.

A experiência deu tão certo que a dupla já pensa em fazer uma turnê por cidades brasileiras. “Vi que estamos em forma! E temos recebido muitos convites. Sinto que as pessoas estão gostando dessa ideia”, diz Fagner, feliz com a experiência. “Temos uma representatividade nordestina. Hoje, vejo que, artisticamente e politicamente, foi muito importante esse nosso encontro”, define.

“Num dos nossos encontros, falei para ele que já tínhamos cinco fonogramas em comum espalhados em nossos discos”, prossegue. Fagner já tinha gravado músicas de Zé, como “Pelo Vinho e Pelo Pão” (1978) e “Eternas Ondas” (1980), por exemplo, que, naturalmente, marcam presença no setlist do show. “Disse assim: 'se a gente fizer mais cinco ou seis canções, teremos um disco nosso'”, lembra Zé. Fagner curtiu o convite, mas achou melhor amadurecer a ideia. “Sabia que ia pintar

“Sempre tive admiração por ele”

“Zé é um cara que se entrega”

Zé Ramalho

Fagner

06-07 CAPA : UBC/15

14/UBC : CAPA

HOMENAGEM : UBC/9

BANDA EDDIE LANÇA SEXTO DISCO, MAIS UMA DELICIOSA MISTURA DE POP, ROCK E SONS REGIONAIS COM LETRAS EM PORTUGUÊS SOBRE VENTURAS E DESVENTURAS DA VIDA FORA DO EIXO Por Alessandro Soler, de São Paulo

Sem “modernizações” nem concessões à “moda”. Assim Ataulpho Alves Júnior define o disco que acaba de lançar pelo selo Choro Music (disponível em choromusic.com), uma deliciosa compilação de pérolas como “Quem é Que Não Sente” (Afonso Teixeira/Ataulfo Alves), “Você Não Quer, Nem Eu” (Ataulfo Alves), “Não Sei Dar Adeus” (Ataulfo Alves/Wilson Batista), “Pela Luz Divina” (Ataulfo Alves/Mario Travassos) e “Talento Não Tem Idade” (Ataulfo Alves). “São músicas que minha mãe cantarolava lavando roupa lá no Meier, bairro (carioca) onde eu nasci. Depois, com o tempo, já rapaz, pedi para minha mãe que gravasse essas músicas no meu gravador”, revela o cantor, que dividiu os palcos com o pai em 1963 e 1969. Os arranjos originais marcam a obra, e carecem de concessões “contemporâneas” por uma razão: carregam o frescor no DNA. Prova disso é a faixa “Preto, Mulato e Branco”, um samba-rap que Ataulpho diz ter antecipado o estilo: “O velho fez antes de ‘Deixa Isso Pra Lá’ (1964). Não apareceu na época porque no LP a música de trabalho foi outra”, afirma, referindo-se ao sucesso de Edson Menezes e Alberto Paz.

O NOVO SONHO DOS CANTORES DE ÉBANO

“É ISSO QUE UM GRINGO ESPERA DE UM BRASILEIRO”

Fotos: Marcos Hermes

Quase uma década depois de gravado, o novo disco de Tito Madi foi lançado em março passado pelo selo Fina Flor. Minuciosamente editado, “Quero Dizer Que Te Amo” apresenta o mestre emprestando novamente sua voz suave e profunda a sambas-canções, sobretudo, em 14 composições – oito dele mesmo, cinco do parceiro na empreitada, o maestro Gilson Peranzzetta (coassinadas por Paulo César Pinheiro e Nelson Wellington, entre outros), e, fechando a seleção, “Amanhecer”, de Chiquito Braga e Ana Maria. As participações dos músicos não são menos ilustres: Mauro Senise, Paulo Russo, João Cortez, Peranzzetta e Braga, que ajudam a rechear o primeiro álbum em 15 anos do precursor da bossa nova com pérolas como “Quero Dizer Que Te Amo”, “Flor de Mim” (parceria de Madi com Sergio Natureza) e “Indiferença” (com Lysias Ênio). Recuperando-se desde 2007 de um acidente vascular cerebral (AVC), Madi se adapta ao novo registro vocal, mais grave, enquanto espera continuar a escrever e compor. “Não posso tocar violão por causa do braço (esquerdo) que não tem movimento”, disse em entrevista ao diário “Folha de S. Paulo”. “Quero ver se minha voz fica normal, porque quero continuar gravando e compondo”, planeja, aos 85 anos.

Autênticos representantes da canção gaúcha, Claus e Vanessa, parceiros no palco e na vida, lançam seu novo DVD, “Luz”, repleto de canções romântica compostas por eles mesmos ou em parceria com Mauricio Bressan, Eduardo Follmann, Maurício Hansel, Rafael Ponde, Alexandre Maia e Juliano Cortuah. Gravado no NY 72, em Porto Alegre, o trabalho começa com “O Som do Mar”, típica mistura praiana de reggae e pop que marca o estilo da dupla. Além de tocar violão, Claus ataca como vocalista em “Me Leva Embora” e divide a cena com Vanessa em “Você Aqui”. “O Nosso Amor é Luz”, “Teu Cheiro” e “Longe de Você” são outros momentos marcantes do DVD, que, nos extras, mostra bastidores da produção e também do nascimento de Olivia, filha do casal, que ganha declaração de amor na praia.

Foto: Raul Moreira

Gosto de produzir e aprendi fazendo meus próprios discos! Desde 1999 estamos fazendo nossos discos, eu, Kassin e Domenico no projeto +2. Depois vieram discos de amigos da nossa geração, como Jonas Sá e Rubinho Jacobina. Nesse meio tempo fizemos uma trilha para o Grupo Corpo e ainda lancei um disco solo no Japão. Agora volto ao meu estilo mais pessoal, que remete bastante ao primeiro disco nosso no +2. Claro que, do meu ponto de vista, estou sempre trabalhando, mas agora fico feliz de poder estar no palco com meus amigos mais uma vez. Sem contar com a experiência transcendental da Orquestra Imperial, que corre paralela a tudo isso e é sempre uma alegria.

MATURADA HÁ ANOS, A VOLTA DE TITO MATI

Um dos nomes mais fortes da atual cena paulistana, Tulipa Ruiz lança este mês seu aguardado terceiro disco, "Dancê", mais uma vez marcado pela parceria com o irmão, o produtor Gustavo Ruiz, e por composições que ela divide com convidados especiais. Uma delas, “Virou”, foi escrita por ela e pelo paraense Felipe Cordeiro. As gravações do álbum de pop rock foram finalizadas antes do carnaval e ganharam mixagem e edição cuidadosas. Tulipa e Gustavo já haviam trabalho juntos nos discos “Efêmera” e “Tudo Tanto”. Os músicos que participaram das gravações do novo trabalho foram Luiz Chagas (guitarra), Márcio Arantes (baixo) e Caio Lopes (bateria), entre outros convidados.

CLAUS E VANESSA, CASAL SIMPATIA

Foto: RogerSpock

Você já produziu muito bamba, já fez dupla, orquestra, mas só recentemente lançou o primeiro disco solo no Brasil. Por que esperou tanto?

No caldeirão São Paulo, um grupo formado por músicos de diversas partes do país honra a melhor tradição multiétnica e multicultural brasileira e faz um som único, de tempero forte. Há quase uma década na pista, Vavá Rodrigues e o Pessoal da Banda têm dois álbuns independentes, “Misturêra”, de 2010, e “For All”, do ano passado, que entregam de cara a marca registrada deles: baião, xote, xaxado, galope, forró, rock e pop bem azeitados e cozidos em fogo alto. Entre as influências do time, Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiros, AC/DC e Herbie Hancock – vale tudo, desde que seja bom. Figuras frequentes em projetos como Encontros e Seis na Sé, no metrô de São Paulo, Arte no Parque (Villa-Lobos) e Feiras Culturais da Vila Pompeia e da Vila Madalena, além da Virada Cultural, eles fazem o que chamam de música paulistana com sotaque nordestino, que toma forma pelas mãos de Vavá Rodrigues (violão e voz principal), André Rodrigues (guitarra e vocal), Ivan Teixeira (teclado e vocal), Marcelo Narita (baixo e vocal), Chuvisco do Acordeon (sanfona e vocal), Bidu Novais (bateria) e Raphael Coelho (percussão). Uma amostra das principais criações audiovisuais do grupo está no canal deles no YouTube (youtube.com/vavaeopessoal).

Foto: Rodrigo Schmidt

Foi muito diferente produzir o disco anterior da Gal com seu pai e este novo com Kassin? Muito. Meu pai estava com o projeto do “Recanto” todo pronto na cabeça, com todas as composições feitas especialmente para isso, precisava de mim (e do Kassin também, que fez quase todas as bases sozinho) mais para realizar o que já estava nos seus pensamentos. Neste agora, eu e Kassin partimos da organização do repertório que Gal começou com Marcus Preto e fomos construindo as bases conforme cada canção necessitava. O resultado, entretanto, guarda alguma semelhança com a sonoridade de “Recanto”, já que temos o Kassin nas bases de ambos.

Foto: Cole Evelev

MENOS DE UM ANO DEPOIS DE LANÇAR SEU PRIMEIRO ÁLBUM SOLO NO BRASIL, MORENO VELOSO COASSINA A PRODUÇÃO DO 36º DISCO DA MADRINHA GAL COSTA, NO QUAL IMPRIME AINDA MAIS SUA MARCA

Moreno Veloso cursou Física por anos na Universidade Federal do Rio de Janeiro e acredita na fascinante teoria dos universos paralelos. Ele sempre os habitou. Excelente com números e abstrações, é dono de incrível sensibilidade musical, fruto (ou não) do meio em que nasceu, há 42 anos. Primogênito de Caetano Veloso, afilhado de Gal Costa, Moreno produz – canções, álbuns, shows, bandas – há décadas, atua no projeto +2 (que nasceu Kassin +2, mas perdeu “o” cabeça e, hoje, vai alternando líderes entre Kassin, Domenico Lancelotti e Moreno), ajudou a fundar uma das principais big bands contemporâneas, a carioca Orquestra Imperial, e presenteou a música com “Recanto”, o álbum-reinvenção de Gal que todo mundo aguardava. Produzido com o pai, o disco de 2011 foi, como ele descreve, inteiramente bolado por Caetano. Agora vai ser diferente. Produtor do novo (o 36º) da madrinha, sem nome até o fechamento desta edição, ele trabalhou ao lado de Kassin e do jornalista Marcus Preto, imprimindo sua marca nas bases, nas sonoridades. E imprimir algo seu é desejo latente nesse artista completo, que, depois de décadas de carreira, lançou, no ano passado, o primeiro álbum solo no país, “Coisa Boa”.

TULIPA E GUSTAVO RUIZ, DUPLA DE TRÊS

VAVÁ RODRIGUES E O PESSOAL DA BANDA, MÚSICA NORDESTINA FEITA EM SP

Por Alessandro Soler, do Rio

“SÃO OS AMIGOS QUE ME DIZEM QUANDO CHEGOU A HORA DE FAZER ALGO NOVO”

Se a parceira só tomou forma agora, foi no distante ano de 1978 que os dois se cruzaram pela primeira vez. “O dia exato não posso precisar, mas foi em um show dele (Fagner) no Parque Lage (no Rio). Eu já tinha meu primeiro LP, o 'Zé Ramalho', e ele estava lançando o disco 'Eu canto - Quem Viver Chorará'”, recorda o paraibano. “Minha casa era um QG de músicos. Lembro-me de que ele frequentava muito. A gente passava horas tocando nossos violões”, diverte-se Fagner. A química da dupla, segundo os dois, já era perceptível naqueles tempos. “Nossa interação como músicos aparece em momentos do show em que, mesmo estando ambos com seus violões, só o do Fagner soa, e vice-versa”, analisa Zé Ramalho. Mas não só isso: eles também têm técnicas diferentes na hora de pegar um violão pelo braço. “Toco com palheta, e Fagner, com os dedos. Essa alternância se complementa. “Mas, principalmente, somos dois malucos”, brinca Fagner.

As vendas de música digital no mundo todo superaram pela primeira vez na história as físicas, segundo a Federação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI). O segmento digital representou € 6,48 bilhões, contra € 6,452 dos meios físicos. E os streamings ganharam ainda mais força, alcançando 23% do faturamento total da indústria. No Brasil, as receitas com música digital são 48% do total, segundo a Associação Brasileira dos Produtores de Discos (ABPD).

UBC REALIZA SUA ASSEMBLEIA GERAL Cumprindo o compromisso de seu estatuto, a UBC realizou, em 18 de março, sua Assembleia Geral anual, em que apresentou o balanço contábil e financeiro de 2014 e discutiu o planejamento orçamentário da entidade, os valores arrecadados no Brasil e no exterior e os investimentos em tecnologia previstos. “O balanço do exercício de 2014 foi auditado pela Audilink, e a apresentação contou com a presença de cerca de 40 associados no auditório da sede, no Rio”, disse Fábio Geovane, gerente de Operações da UBC. Representantes da associação explicaram a arrecadação recorde de R$ 1,2 bilhão pelo Ecad e a distribuição de mais de R$ 900 milhões em 2014 (leia mais na nota ao lado) e anunciaram a liberação de R$ 36 milhões de créditos retidos, que careciam de identificação ou apresentavam outros motivos para a retenção.

FESTIVAL NACIONAL DA CANÇÃO CHEGA À 45ª EDIÇÃO Terminam no próximo dia 4 de junho as inscrições para a 45ª edição do Festival Nacional da Canção, evento que, nos anos 1960 e 1970, revelou grandes nomes da nossa música. Todas as etapas serão em Minas Gerais e terão início em 24 e 25 de julho, culminando em 4, 5 e 6 de setembro. Autores de composições inéditas e originais podem participar e concorrer aos prêmios totais de R$ 250 mil. A inscrição custa R$ 15. Veja em festivalnacionaldacancao.com.br como participar.

COM AUMENTO DE 12%, ECAD DISTRIBUI R$ 902,9 MILHÕES EM 2014 Com forte participação (de 61%) dos segmentos de TV aberta e por assinatura, o Ecad distribuiu, em 2014, R$ 902,9 milhões a 140.438 titulares de música (compositores, intérpretes, músicos, editores e produtores fonográficos) e associações, aumento de 12% no valor distribuído e 14% na quantidade de artistas beneficiados em relação a 2013. Do total distribuído, 67% foram repassados para o repertório nacional. Os números constam do relatório divulgado pelo escritório central em março. Somente o segmento de TV por Assinatura obteve crescimento de 72% nos repasses aos titulares de música, especialmente devido ao fechamento dos acordos com as operadoras Net, Sky e Claro TV. O segmento de Casas de Festas cresceu 15%, seguido pelo de Cinema, com 13%, e pelo de Casas de Diversão: 12% a mais. Outro segmento que teve grande destaque, no ano passado, foi o de Eventos Esportivos, devido à realização da Copa do Mundo no Brasil em junho e julho. Foram distribuídos R$ 4.245.261,84 para 4.795 titulares de música (compositores, intérpretes, músicos, editores e produtores fonográficos) e associações como retribuição autoral pelas obras executadas durante os eventos oficiais. Apesar disso, algumas das chamadas Fifa Fan Fests, “esquentas” dos jogos realizados nas capitais que os abrigaram, continuam inadimplentes até hoje.

MUDANÇA NO PESO DE DISTRIBUIÇÃO DE TV ABERTA Uma nova mudança na distribuição dos rendimentos arrecadados dos canais TV aberta começou a valer a partir da distribuição de abril de 2015. As músicas executadas na programação das redes de emissoras Globo, Record, Bandeirantes e SBT obedecerão a diferentes pesos de acordo com a quantidade total de emissoras da rede que fizeram a transmissão do conteúdo audiovisual no qual a música foi inserida e executada. Usando como exemplo a Rede Globo, que possui 122 emissoras relacionadas em seu contrato com o Ecad, a música executada na abertura de uma novela terá peso 122, de acordo com a nova regra, pois a mesma será executada por todas as emissoras da rede. Se uma música for executada na abertura um programa local transmitido por apenas uma dessas 122 emissoras relacionadas, terá peso 1.

08-09 NOTÍCIAS : UBC/17

16/UBC : NOTÍCIAS

Portal entre as culturas da Europa Ocidental e do Cáucaso (de influências persas, árabes, orientais), a Armênia será o país homenageado na edição 2015 do Midem (Mercado Internacional do Disco e da Edição Musical), de 5 a 8 de junho, na cidade francesa de Cannes. Maior encontro mundial do mercado de música, o Midem não é um festival, mas um polo vibrante de licenciamento, celebração de contratos, distribuição e divulgação, além de discussões sobre o mercado, que atrai milhares de participantes e empresas a cada ano, desde a primeira edição, em 1967. Apesar de o foco não ser nos shows, muitos artistas fazem apresentações em Cannes durante os dias do evento, e este ano não será diferente. Somente da Armênia, a Orquestra Nacional e a Orquestra Nacional de Jazz são duas das atrações mais aguardadas. No ano passado, o país convidado de honra foi o Brasil, e artistas como Criolo e Alceu Valença fizeram shows memoráveis. Este ano, a diretora-executiva da UBC e vice-presidente da Cisac Marisa Gandelman será uma das palestrantes do fórum “Como as indústrias criativas podem maximizar os ganhos nos países dos Brics?”, em 6 de junho, que terá ainda a participação de representantes da indústria de Índia, África do Sul e China. Confira a programação completa em midem.com.

ARRECADAÇÃO GLOBAL DE DIREITOS AUTORAIS SE MANTÉM EM € 7,8 BILHÕES, REVELA CISAC A arrecadação global de direitos autorais referentes às obras de cerca de três milhões de compositores do mundo todo se manteve um pouco abaixo dos € 8 bilhões em 2013. O número consta do mais novo relatório da Confederação Internacional das Sociedades de Autores e Compositores (Cisac), divulgado em fevereiro passado e que compila dados de dois anos anteriores. Ao todo, segundo a Cisac, foram arrecadados e distribuídos € 7,8 bilhões no mundo, volume que se manteve estável em meio a uma crise econômica que afetou diversas outras atividades. Diretor-geral da Cisac, Gadi Oron comemorou a arrecadação: “Em 2013, as sociedades integrantes da Cisac provaram de novo a importância da gestão coletiva. Apesar das condições econômicas desafiadoras em muitos mercados, o total arrecadado ficou estável. Excluindo o impacto do câmbio, o crescimento em euros da ordem de 4,6% (sobre 2012) é encorajador para o futuro da indústria criativa globalmente.” O segmento sobre a América Latina e o Caribe foi ainda mais animador. De acordo com o relatório, houve crescimento de 17% na região naquele ano. “Os mercados dos Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) continuaram a se mostrar muito promissores, saltando 30% sobre o ano anterior”, afirmou Oron: “Estes países ainda têm enorme potencial, com meros doze centavos de euro de arrecadação per capita, comparados ao € 1,30 do mundo como um todo. O crescimento de arrecadação dos serviços digitais (como streamings) também continuou a apontar para o caminho que a música indubitavelmente seguirá. Embora ainda represente só 5% da arrecadação total, o segmento teve salto de 25% em um ano.

12/UBC : CAPA

esteja lendo, uma notícia de jornal... Qualquer coisa pode ser o estopim (do processo criativo).” Como muitos outros letristas, ele prefere que a melodia, e não a letra, surja primeiro. “Ao fazer a minha parte, a poesia, penso no parceiro, no cantor, deixome inspirar pela melodia, pelo ritmo”, discorre. “O tempo de criação varia muitíssimo, pode ser rápido ou demorar muito… Mas uma coisa é certa: é sempre indolor.”

ESTUDO QUER MEDIR TAMANHO DA INDÚSTRIA CRIATIVA GLOBAL Depois de medir o tamanho e a importância da indústria criativa para a economia Europeia – em estudo divulgado na última edição da Revista UBC –, agora a consultoria EY (antiga Ernst & Young) quer dar um passo ainda mais ousado e mensurar o valor do setor audiovisual para o mundo todo. O trabalho “Gerar crescimento – Mensurando os mercados cultural e criativo da União Europeia” estimou que, anualmente, produzem-se pelo menos € 536 bilhões (o equivalente a quase R$ 1,9 trilhão) e empregam-se sete milhões de europeus em áreas ligadas à produção cultural, sobretudo a música e as artes visuais. Ainda segundo o trabalho, o setor só fica atrás da construção civil e da indústria de alimentos e bebidas, mas à frente, por exemplo, da indústria automobilística. Uma das conclusões do relatório é que a desoneração das atividades criativas e um melhor sistema de distribuição de royalties poderiam contribuir para o crescimento do PIB da Europa e para a saída da crise econômica – proposições que a EY espera poder defender agora em nível global.

Para Thiago Amud é diferente. Aos 35 anos, e com parcerias acumuladas com bambas como Guinga, Francis Hime, Edu Kneip, Zé Paulo Becker, Thiago de Mello, Fernando Vilela, Thomas Saboga, Pedro Sá Moraes, Marcelo Fedrá e Sylvio Fraga Neto, a entrega não é sempre desprovida de tormento. “Às vezes, isso (o processo criativo) dura muito tempo. Dias, meses. Às vezes fico até febril”, comenta o autor, que também toca. “Já no palco só entram delícias. No palco, o pior já passou, é a hora da plenitude. E, mesmo quando as dores superam as delícias, algo me diz que isso é outro modo de alegria.”

UM BOM LETRISTA É... O dono de uma vasta obra, o criador de “histórias” apreciadas e gravadas por intérpretes exigentes, o colecionador de parceiros de talento, o construtor que desafia o lugar-comum... Difícil conceituar um bom letrista com poucas palavras. Thiago Amud aventa outras: “qualidade intrínseca”. “A saber, (o bom letrista tem) originalidade do mote, capacidade de deslocamento do lugar-comum, capacidade de diálogo com a tradição, entoabilidade, caráter desafiante, poder encantatório etc. Se, no entanto, eu tiver que escolher uma entre as opções, escolherei vasta obra”, define.

MEXICANA SACM CELEBRA SEU 70º ANIVERSÁRIO Mais antiga associação de autores do México, a Sociedad de Autores y Compositores de México (SACM) celebrou em março seu 70º aniversário num evento que incluiu o prestigiado maestro Armando Manzanero, além de autoridades do país e representantes de entidades congêneres de todo o planeta. “A SACM é uma das mais antigas sociedades do mundo. Sob a visão de maestros do gabarito de Roberto Cantoral e, hoje, do incomparável Armando Manzanero, a SACM se tornou uma das maiores e mais influentes sociedades de autores, com um time excepcional liderado por Roberto Cantoral (filho)”, disse Gadi Oron, diretor-geral da Cisac, confederação à qual a entidade mexicana é filiada. O país norte-americano é dono de uma das legislações mais protetoras dos direitos autorais. Lá, a família de um criador mantém os direitos sobre uma obra até cem anos após a morte dele, período sem igual no mundo.

YOUTUBE: 90% DOS CONTEÚDOS MAIS VISTOS SÃO VÍDEOS MUSICAIS Nove em cada dez dos conteúdos mais vistos no YouTube são vídeos musicais. A revelação foi feita em março, durante uma conferência em Oslo, por Jeroen Bouwman, gerente de parcerias do gigante dos vídeos na região dos países nórdicos e de Bélgica, Holanda e Luxemburgo. O executivo recomendou que, para ter muitos acessos e, portanto, ganhar mais com direitos autorais, criadores devem produzir “constantemente”. “Se um artista lança um álbum de 12 canções, no formato tradicional, vai ser muito bem-sucedido se tiver, digamos, uns três singles fazendo sucesso ao longo de cinco ou seis meses. Depois, vai se recolher e produzir outro álbum nos próximos 12 a 18 meses. Para prosperar no YouTube, recolher-se por 12 a 18 meses não dá certo. É preciso postar conteúdo constantemente”, defendeu.

ELES SÃO OS CRIADORES DE UMA PARTE FUNDAMENTAL, INDISSOCIÁVEL, DA NOSSA MÚSICA. UM PAPO COM GRANDES LETRISTAS, QUE FALAM SOBRE SEU PROCESSO CRIATIVO E A IMPORTÂNCIA VITAL DOS DIREITOS AUTORAIS

Por Bruno Calixto, do Rio *Ilustrações de Reinaldo Lee O ato criador de Carlos Rennó sempre começa literalmente no escuro - cenário perfeito para a buscada “iluminação”. Paulo Sérgio Valle vive um (ou muitos) personagens e coloca a melodia do parceiro na cabeça, remoendo-a até a letra tomar forma. Para Fausto Nilo, é imprescindível observar o que o criador dos acordes quer antes de “ajudar de modo sonoramente harmonizado” com palavras e frases. Uma imagem, uma cena, uma pessoa bonita disparam a torrente criativa de Antonio Cicero. Thiago Amud mistura um pouco de cada jeito anterior e forja, “da maneira mais conturbada possível”, seu método de compor. O hábito de se sentar quase que diariamente em frente a uma folha de papel em branco – ou, vá lá, a um computador – levou esses artistas a comporem palavras para serem cantadas. Eles são alguns entre os incontáveis letristas que fazem da nossa canção uma das mais ricas do planeta. E conhecem, como ninguém, a importância dos direitos autorais, principalmente porque, em sua maioria, não sobem ao palco e, portanto, só contam com a própria obra como ganha-pão. “Hoje em dia, como a vendagem de discos caiu muito, compor é a principal fonte de renda dos letristas que não cantam”, resume Cicero, mais de cem composições no currículo, a maior

parte gravada pela irmã, Marina Lima. “É principalmente o letrista quem vive dos direitos autorais, sem dúvida a defesa deles nos é muito cara.” Carlos Rennó crê que a consciência dessa dependência levou os letristas a um patamar diferente de envolvimento com a questão ao longo dos anos. Se, antes, muitos criadores deliberadamente evitavam pensar em “questões mundanas”, como a arrecadação, hoje eles participam ativamente do fortalecimento do sistema. “O empenho dos letristas tem sido importante na defesa dos direitos autorais”, analisa. “Dada a natureza do nosso trabalho, e a dependência de tais direitos, somos possivelmente os artistas em melhor condição de avaliar a qualidade da arrecadação e da distribuição. E posso atestar que ela evoluiu demais, graças também ao trabalho de associações como a UBC.” Fausto Nilo descreve o nível de entrega necessário para que um autor que não atua também como intérprete viva da própria arte: “É, de fato, muito árduo o trabalho de construir um repertório que venha a produzir uma renda tal que possibilite um nível de vida compatível com as exigências de controle e tranquilidade para trabalhar com essa especialidade”. Nada que os assuste ou demova. Dotados de talento natural e beneficiados pela variedade quase ilimitada da música brasileira, esses autores se atiram no abismo de diferentes formas.

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NO PRINCÍPIO É A DÚVIDA “Antes de compor a letra, acontece uma dessas duas coisas: ou eu duvido da minha capacidade de criá-la ou, então, eu não tenho dúvida nenhuma; tenho certeza de que não serei capaz”, brinca o compositor, jornalista e escritor Carlos Rennó, 40 anos cultivando um solo fértil de criações e autor de “Escrito nas Estrelas” (com Arnaldo Black), clássico popular na voz de Tetê Espíndola. Paulo Sérgio Valle adotou um método que lhe assegura força diante de cada novo desafio: ele “provoca” emoções, percorre um turbilhão delas. “Não digo que eu tenha vivido todas as histórias que contam minhas letras. Mas, no momento em que estou escrevendo, vivo tudo intensamente, como se estivesse acontecendo de fato.” Terminada a letra, Valle volta a se encontrar com o parceiro dos acordes para os ajustes finais, uma espécie de acertos de contas que deixa letra e melodia tinindo. Depois de décadas de trabalho profissional na confecção de letras musicais, Fausto Nilo afirma estar certo de que suas fontes ainda são a rua e o imaginário das pessoas anônimas. “Nunca sou o personagem principal de minhas letras”, observa. “Tive chance de crescer e viver na rua, oportunidades de convivência com pessoas de classes sociais diferentes. Escrevo a partir da influência das próprias melodias de meus parceiros. Elas me provocam, me levam a pensar e a criar frases nas quais as palavras me ajudam a expressar coisas corriqueiramente indizíveis nas linguagens convencionais e que percorrem regiões em que meus ouvintes e eu nos encontramos.” Antonio Cicero está sempre ligado. “Uma palavra que eu ouça por acaso, uma pessoa bonita, uma ideia, um livro que eu

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PELO PAÍS : UBC/19

18/UBC : PELO PAÍS

2010

NA MÚSICA SERTANEJA DE MATO GROSSO DO SUL, NINGUÉM 'PASSA RÉGUA'

CARLOS RENNÓ Compositor, jornalista e escritor. Em 1982, participou do festival MPB Shell (Rede Globo) com a composição “Outros sons” (com Arrigo Barnabé), interpretada por Eliete Negreiros. Em 1985, venceu o Festival dos Festivais (Rede Globo) com a música “Escrito nas estrelas” (com Arnaldo Black), defendida por Tetê Espíndola. Influências Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque, John Lennon, Bob Dylan, Cole Porter, Fernando Brant, Ronaldo Bastos, Luiz Galvão e Waly Salomão.

Quem mais o gravou Tetê Espíndola. Tem mais de 180 letras. As mais marcantes “Pássaros na Garganta”, “A Europa Curvou-se Ante o Brasil”, “Escrito nas Estrelas”, “Façamos” (versão do clássico “Let's Do It”, de Cole Porter), “Todas Elas Juntas Num Só Ser” e “Tá?”.

Influências Villa-Lobos, Debussy, Bartók, Dorival Caymmi, Noel Rosa, Tom Jobim, Luiz Gonzaga, Elomar, Guinga, Milton Nascimento, Chico Buarque, Caetano Veloso, Björk, The Beatles, Jorge de Lima, Guimarães Rosa, João Cabral de Melo Neto, Murilo Mendes, Tarkovsky e Fellini.

PALAVRA CANTADA CELEBRA DUAS DÉCADAS DE DIVERSÃO E EDUCAÇÃO, ABRAÇANDO OS CONTEÚDOS DIGITAIS E COSTURANDO UMA TURNÊ SEM FIM PELO PAÍS PARA CATIVAR SEMPRE AS CRIANÇAS PEQUENAS

Parcerias Guinga, Francis Hime, Edu Kneip, Zé Paulo Becker, Thiago de Mello, Fernando Vilela, Thomas Saboga, Pedro Sá Moraes, Marcelo Fedrá e Sylvio Fraga Neto. Quem mais o gravou Guinga. Tem mais de 120 letras. As mais marcantes “Contenda”.

Influências Noel Rosa e Cole Porter. Parcerias Marina Lima, Adriana Calcanhotto, Arthur Nogueira, Lulu Santos, Orlando Moraes.

“Sacradança”, “Madrêmana” e

FAUSTO NILO

Quem mais o gravou Marina Lima. Tem mais de 100 letras. A mais marcante “Fullgás”, com Marina Lima.

ANOS

THIAGO AMUD Arranjador, violonista, compositor e cantor. O pai era músico. Começou a estudar violão aos 13 anos. Cursou um ano de Letras na Universidade do Estado do Rio e, a partir de 1999, bacharelado em Música Popular Brasileira na Universidade Federal do Estado do Rio, habilitando-se em Arranjo Musical. Em 1994, começara a compor. Venceu por cinco anos consecutivos (1995 a 1999) o Festival Estudantil de Música da Faculdade Hélio Alonso, no Rio. Parte do júri era formada por artistas como Paulinho da Viola, Elza Soares, Paulo César Pinheiro, entre outros.

Parcerias Arnaldo Black.

ANTONIO CICERO Compositor. Poeta. Filósofo. Escritor. Por conta da atividade de seu pai, um dos fundadores do Instituto de Estudos Brasileiros e diretor do BID (Banco Internacional de Desenvolvimento), morou em Washington na adolescência. Formou-se em Filosofia. Sua primeira composição foi “Alma Caiada”, um poema musicado pela irmã Marina Lima quando ambos estudavam em Nova York, gravada em 1977 por Maria Bethânia. No ano de 1979, no disco “Simples Como Fogo”, que marcou a estreia de Marina, foram incluídas várias parcerias da dupla, tais como “Transas de Amor” e “Tão Fácil”.

PAULO SÉRGIO VALLE Compositor e letrista. Formado em Direito pela antiga Universidade Estadual da Guanabara. Irmão do instrumentista, compositor e cantor Marcos Valle. Em 1961, começou a escrever letras para as músicas de Marcos, que, nessa época, integrava um trio composto ainda por Dori Caymmi e Edu Lobo. Dois anos depois, teve registrado seu primeiro trabalho como compositor, com a gravação de sua canção “Sonho de Maria” (com Marcos Valle) pelo Tamba Trio.

Letrista. Arquiteto e urbanista com escritório em Fortaleza (CE), onde se fixou a partir da década de 1970. Iniciou a carreira como letrista profissional também naquela década, quando conheceu o Pessoal do Ceará, tendo escrito letras para Fagner, Belchior, Petrúcio Maia e Manassés. Em 1972, teve registrado pela primeira vez seu trabalho como compositor, com a gravação de “Fim do Mundo”, parceria com Fagner, por Marília Medalha.

“A crise da indústria fonográfica já tem mais de 15 anos, pelo menos 15 anos. E, na Palavra Cantada, como (ocorre com) todo artista que tem vontade de continuar a desenvolver seus próprios projetos e trabalhos, a gente vai procurando outras fontes. Hoje em dia tem DVD, uma coleção de livrinhos vendidos a prefeituras para o ensino de música... Depende um pouco da agilidade, da criatividade do músico, do empreendedor (que é o que a gente acaba sendo). Vamos vendo qual o caminho que se faz para ter um público que continue prestigiando. O suporte de mídias digitais (por meio de dezenas de vídeos publicados na rede e das vendas on-line), hoje, representa um faturamento considerável”, explica a ex-música erudita Sandra, de São Paulo, QG da dupla que percorreu, literalmente, todos os cantos do Brasil nestas duas décadas.

Influências Ataulfo Alves, David Nasser, Jacques Brel, Bob Dylan e Tom Waits.

Influências Ronaldo Bôscoli.

Parcerias Fagner, Moraes Moreira, Dominguinhos, Geraldo Azevedo, Robertinho de Recife, Ritchie, Roberto de Carvalho, Lulu Santos, Zé Ramalho, Severino Araújo e Chico Buarque.

Parcerias Marcos Valle, Herbert Vianna, Eumir Deodato, Eduardo Lages, João Donato, José Augusto, Roberto Carlos, Chico Roque, Ed Wilson, Hildon, Fabio, Egberto Gismonti, Roberto Menescal, Mauro Motta, Vanda Sá, Augusto Cesar, Reinaldo Arias, Edmundo Souto, Galdino Penna, Vinicius Cantuária e Hugo Belardi.

As mais marcantes “Pedras que Cantam”, “Pequenino Cão”, “Amor nas Estrelas”, “Bloco do Prazer”, “Pão e Poesia”, “Lua do Leblon”, “Retrovisor”, “Cartaz” e “Zanzibar”.

Quem mais o gravou Fagner.

A celebração do aniversário, iniciada no ano passado, ainda não acabou. Sandra e Paulo – expoente da Vanguarda Paulista nos anos 1970/80 com o Grupo Rumo – entregam nos próximos meses um DVD com animações e conteúdos exclusivos, uma caixa com quatro vídeos históricos, um apanhado dos melhores momentos da Palavra e novos livros de brincadeiras musicais para crianças de 2 ou 3 anos. Reciclar-se, pensar histórias e sonoridades e bolar conteúdos para a geração digital são atividades que, para além das turnês, os mantêm em constante linha de produção. “O grande desafio é pensar uma comunicação, um recheio cada vez mais consistentes. Não há dúvida de que a concorrência que a gente tem, hoje,

Tem mais de 500 letras.

Quem mais o gravou José Augusto. Em seguida, Marcos Valle e Roberto Carlos. Tem mais de 800 letras. As mais marcantes “Viola Enluarada”, “Preciso Aprender a Ser |Só”, “Se Eu Não Te Amasse Tanto Assim”, “Evidências”, “Essa Tal Liberdade” e “Samba de Verão”.

14-15

ÍNDICE

A Rev d

NOVOS

Por Alessandro Soler, de São Paulo

O número de álbuns, DVDs, livros, shows, programas web, licenciamentos só fez aumentar. A idade do público-alvo, não. E é exatamente isso que Paulo Tatit e Sandra Peres querem. Aos 20 anos de bons serviços educativo-diversionais prestados aos pequenos, à primeira infância, a dupla de músicos e criadores à frente do projeto Palavra Cantada se renova para continuar formando plateias, sem “envelhecer” com elas. Tem dado certo. Ao incorporar ou aprofundar temas ligados à sustentabilidade, ao respeito às diferenças, à cidadania – e outros menos palpáveis, como o lúdico, a afetividade –, o projeto ganhou o apreço sólido de pais, educadores, pesquisadores, virou conteúdo complementar em sala de aula e costurou uma turnê sem fim pelo país, sempre com casa cheia. Se a indústria fonográfica – e musical, em geral – vive crise, a criatividade dos dois amigos os ajuda a driblá-la.

M

COM RAÍZES PARAGUAIAS, ARGENTINAS, GAÚCHAS, PAULISTAS, MINEIRAS (E DE TANTOS OUTROS CANTOS), A PRODUÇÃO DO ESTADO É DIFÍCIL DE LIMITAR – ASSIM COMO O PANTANAL DO GRANDE POETA DA TERRA, MANOEL DE BARROS

1950-60

1990-2000

Délio e Delinha, Amambai e Amambay, Zé Corrêa e Beth e Betinha

Grupos Tradição, Mensageiros D'Oeste, Alma Serrana, Canto da Terra, Zingaro e Dona Helena Meirelles

com conteúdo que vem de fora é enorme. Mas não creio que isso represente um grande problema. Tem sinceridade no que fazemos, o que acabou nos trazendo uma legião de professores que tocam as nossas músicas em sala de aula. Pais e famílias têm fidelidade absoluta ao nosso trabalho pela nossa estética, nossa linguagem, nossa forma de comunicar. Os filhos dessas famílias assistem a outras coisas. Mas, felizmente, não vão deixar de nos prestigiar”, ela comemora.

Ao final dos anos 1970, a música sertaneja cedeu algum espaço para os novos artistas urbanos, que se consolidaram com o movimento divisionista. Desde o início da década, surgiram talentosos criadores nas cidades, como a família Espíndola – Geraldo, Tetê, Alzira, Celito, Jerry -, cujos trabalhos tiveram projeção pelo país. Na mesma época, começam a surgir artistas em áreas insuspeitas, como o samba o choro. A ideia de um estado novo e moderno, abraçada pelo recémemancipado Mato Grosso do Sul, fazia se retrair o movimento da música sertaneja, associado ao antigo. Felizmente, essa visão não durou muito tempo.

A ausência de um espaço para a programação infantil na TV aberta não é desprezível, na avaliação de Sandra. Apesar de não depender dos canais tradicionais para alcançar seu público, a Palavra Cantada prega a necessidade de uma faixa para a educação televisiva de qualidade. “Se a TV tem muita bobagem, também deveria oferecer o contraponto. Faz muita falta, sim, um momento para as crianças por lá.” A internet acabou se tornando o principal espaço de divulgação do projeto, que, mais do que profícuo, encontrou nos direitos autorais uma das principais fontes de renda.

O RENASCIMENTO NOS BAILÕES JOVENS Nos anos 1990 e 2000, os chamados “bailões” voltaram com tudo, ditando a moda da jovem música regional e com um sem-número de criadores bebendo nas boas fontes antigas. Ali surgiram os grupos Tradição, Mensageiros D'Oeste, Alma Serrana, Canto da Ter

ARRECADAÇÃO COMO PILAR DO SUCESSO “O direito autoral é essencial para qualquer artista, principalmente para aquele que é letrista, que escreve e não performa. O direito é especialmente atraente para pessoas que não recebem cachê como cantores e instrumentistas. Muitas das nossas músicas não são feitas por nós. A questão de recolhimento de direito autoral é parte vital do showbiz, é um dos itens de produção, de planilha. É importante que as sociedades arrecadadoras nos representem, e a UBC tem feito um belo trabalho nessa área. É uma sociedade que, claramente, tem respeito pelo trabalho do artista”, Sandra afirma.

NOV DADES NACIONAIS FAGNER & ZÉ RAMALHO FIQUE DE OLHO NOV DADES NTERNAC ONA S CAPA LETRISTAS

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O sucesso dos sertanejos sul-mato-grossenses provocou um fenômeno interessante. Artistas de outros estados vêm se mudando para Campo Grande. “É como se a cidade fosse uma grife. Dizer que toca o sertanejo universitário sendo de Mato Grosso do Sul abre portas em alguns casos”, comenta o músico e compositor Marcos Roker, representante da UBC em MS e MT. “João Carreiro e Capataz vieram morar aqui, no auge da dupla, e isso ajudou muito a carreira deles.”

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20-21

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Outro artista tipo exportação é Loubet, para quem as raízes sul-mato-grossenses são o maior tesouro dos artistas locais. “Desde muito pequeno conheci o chamamé, o rasqueado e a música dos mestres do passado. Até hoje as pessoas pedem isso nos shows. Essa riqueza poucos lugares têm, precisa ser preservada”, prega.

18-19

Coo dena ão ed o a E a E en oh u

Caminho similar trilhou Luan Santana. O “gurizinho de Jaraguari” começou em pequenos palcos na cidade de menos de 10 mil habitantes próxima a Campo Grande. Seu sucesso foi meteórico, baseado em composições marcantes e numa gestão de carreira altamente profissional e acertada. Assim como a de Conrado e Aleksandro, que fixaram moradia no Paraná e se aproveitaram do contato com o público consumidor e de uma logística de deslocamentos bem azeitada.

Num momento em que parte do seu público cresce em meio à cultura do consumo “gratuito” de conteúdos web – são os jovens, sabidamente, os maiores compartilhadores de música pirata –, ela faz uma defesa veemente do direito de autor. “É superimportante para quem faz música receber os devidos frutos da produção, da execução pública. Eu sempre falei isso: direito autoral é sagrado. Você criou aquilo, tem que ser compensado. Se as pessoas vão a um local público dançar, se divertir, isso só é possível porque inventamos um negócio. O nosso trabalho é entrega, é suor. Mas só pode continuar se encontrarmos uma forma de nos sustentar por meio dele. Esse é um grande desafio dos nossos tempos.”

16-17

04 08 10 11 12

Marcelo Loureiro, Gabriel Sater, Conrado e Aleksandro, Jorge e Matheus, Maria Cecilia e Rodolfo, João Haroldo e Betinho, Marco Aurélio e Paulo Sérgio, Loubet e Luan Santana

Uma das facetas divinas do trabalho, lembra Fausto Nilo, é poder trabalhar com tantos estilos do rico repertório existente no Brasil. “Tenho que admitir que encontrei uma profissão – embora eu tenha outra que é o urbanismo – e que permaneço nela há 43 anos”, ele diz. Nilo tem cerca de 400 canções, muitas inesquecíveis, como “Amor Nas Estrelas” (com Roberto de Carvalho), “Astro Vagabundo” (com Fagner) e “Bloco do Prazer” (com Moraes Moreira). “Isso tudo é mais do que eu imaginava realizar. Ainda faço letras e gravo todos os anos.” Na feliz percepção de Paulo Sérgio Valle, o que caracteriza um bom letrista é a capacidade de tocar o outro. “Nada é melhor do que ver as pessoas cantarem minhas letras como se fossem sua própria historia de vida. Vasta obra ou pequena obra dependem da capacidade de trabalho do autor. Isso não atesta o valor do letrista”, opina o artista, influenciado “pela sonoridade das palavras” de Ronaldo Bôscoli, para ele um dos compositores mais ilustres do Brasil. Carlos Rennó, autor de aproximadamente 180 letras – incluindo versões para canções americanas –, insiste na entrega intensa, no escuro: “Um escuro no qual, ou do qual, não sei como, eu acabo arrancando – depois de procurar conscientemente – uma luz; ou a luz.” O que, para ele, caracteriza um bom letrista não é, absolutamente, a vastidão de sua obra, seu dado quantitativo, mas o seu “quilate poético”. “Naturalmente esse fator tende a contribuir para que o criador seja gravado desejavelmente não por medalhões, mas por intérpretes bons, não raro seus próprios parceiros compositores-músicos”, crê. “Se eu continuo escrevendo, é sem dúvida pelo prazer final da realização, da luminosidade desse momento que não se dá senão como resultado do trabalho intenso a que me entreguei com sangue e neurônios, cabeça e coração. O meu prazer como criador é o prazer do difícil, tal como definido por Paul Valéry; prazer do artista mais esforçado que talentoso, como se definia o grande João Cabral de Melo Neto.”


4/UBC : NOTÍCIAS

NOVIDADES NACIONAIS Por Alessandro Soler, do Rio

“SÃO OS AMIGOS QUE ME DIZEM QUANDO CHEGOU A HORA DE FAZER ALGO NOVO”

Foi muito diferente produzir o disco anterior da Gal com seu pai e este novo com Kassin? Muito. Meu pai estava com o projeto do “Recanto” todo pronto na cabeça, com todas as composições feitas especialmente para isso, precisava de mim (e do Kassin também, que fez quase todas as bases sozinho) mais para realizar o que já estava nos seus pensamentos. Neste agora, eu e Kassin partimos da organização do repertório que Gal começou com Marcus Preto e fomos construindo as bases conforme cada canção necessitava. O resultado, entretanto, guarda alguma semelhança com a sonoridade de “Recanto”, já que temos o Kassin nas bases de ambos. Você já produziu muito bamba, já fez dupla, orquestra, mas só recentemente lançou o primeiro disco solo no Brasil. Por que esperou tanto? Gosto de produzir e aprendi fazendo meus próprios discos! Desde 1999 estamos fazendo nossos discos, eu, Kassin e Domenico no projeto +2. Depois vieram discos de amigos da nossa geração, como Jonas Sá e Rubinho Jacobina. Nesse meio tempo fizemos uma trilha para o Grupo Corpo e ainda lancei um disco solo no Japão. Agora volto ao meu estilo mais pessoal, que remete bastante ao primeiro disco nosso no +2. Claro que, do meu ponto de vista, estou sempre trabalhando, mas agora fico feliz de poder estar no palco com meus amigos mais uma vez. Sem contar com a experiência transcendental da Orquestra Imperial, que corre paralela a tudo isso e é sempre uma alegria. Já está produzindo algo novo seu? Ainda estou considerando que meu disco novo, “Coisa Boa”, está em fase de trabalho e não comecei a pensar em nenhum outro projeto pessoal. Mas, como sempre, o chamado vem dos amigos. São eles que me dizem quando chegou a hora de fazer algo novo. Filho de Caetano, afilhado de Gal… É mais dor ou delícia ser quem é? Quase que apenas delícia! Muita felicidade para mim! Adoro minha gente, minha família e a música brasileira! O quase fica por conta de algum assédio por parte de repórteres que sofro desde criança e com o qual convivia muito mal até me tornar adulto. O resto é maravilha!

Foto: Cole Evelev

MENOS DE UM ANO DEPOIS DE LANÇAR SEU PRIMEIRO ÁLBUM SOLO NO BRASIL, MORENO VELOSO COASSINA A PRODUÇÃO DO 36º DISCO DA MADRINHA GAL COSTA, NO QUAL IMPRIME AINDA MAIS SUA MARCA

Moreno Veloso cursou Física por anos na Universidade Federal do Rio de Janeiro e acredita na fascinante teoria dos universos paralelos. Ele sempre os habitou. Excelente com números e abstrações, é dono de incrível sensibilidade musical, fruto (ou não) do meio em que nasceu, há 42 anos. Primogênito de Caetano Veloso, afilhado de Gal Costa, Moreno produz – canções, álbuns, shows, bandas – há décadas, atua no projeto +2 (que nasceu Kassin +2, mas perdeu “o” cabeça e, hoje, vai alternando líderes entre Kassin, Domenico Lancelotti e Moreno), ajudou a fundar uma das principais big bands contemporâneas, a carioca Orquestra Imperial, e presenteou a música com “Recanto”, o álbum-reinvenção de Gal que todo mundo aguardava. Produzido com o pai, o disco de 2011 foi, como ele descreve, inteiramente bolado por Caetano. Agora vai ser diferente. Produtor do novo (o 36º) da madrinha, sem nome até o fechamento desta edição, ele trabalhou ao lado de Kassin e do jornalista Marcus Preto, imprimindo sua marca nas bases, nas sonoridades. E imprimir algo seu é desejo latente nesse artista completo, que, depois de décadas de carreira, lançou, no ano passado, o primeiro álbum solo no país, “Coisa Boa”.


NOTÍCIAS : UBC/5

VAVÁ RODRIGUES E O PESSOAL DA BANDA, MÚSICA NORDESTINA FEITA EM SP No caldeirão São Paulo, um grupo formado por músicos de diversas partes do país honra a melhor tradição multiétnica e multicultural brasileira e faz um som único, de tempero forte. Há quase uma década na pista, Vavá Rodrigues e o Pessoal da Banda têm dois álbuns independentes, “Misturêra”, de 2010, e “For All”, do ano passado, que entregam de cara a marca registrada deles: baião, xote, xaxado, galope, forró, rock e pop bem azeitados e cozidos em fogo alto. Entre as influências do time, Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiros, AC/DC e Herbie Hancock – vale tudo, desde que seja bom. Figuras frequentes em projetos como Encontros e Seis na Sé, no metrô de São Paulo, Arte no Parque (Villa-Lobos) e Feiras Culturais da Vila Pompeia e da Vila Madalena, além da Virada Cultural, eles fazem o que chamam de música paulistana com sotaque nordestino, que toma forma pelas mãos de Vavá Rodrigues (violão e voz principal), André Rodrigues (guitarra e vocal), Ivan Teixeira (teclado e vocal), Marcelo Narita (baixo e vocal), Chuvisco do Acordeon (sanfona e vocal), Bidu Novais (bateria) e Raphael Coelho (percussão). Uma amostra das principais criações audiovisuais do grupo está no canal deles no YouTube (youtube.com/vavaeopessoal).

MATURADA HÁ ANOS, A VOLTA DE TITO MADI Quase uma década depois de gravado, o novo disco de Tito Madi foi lançado em março passado pelo selo Fina Flor. Minuciosamente editado, “Quero Dizer Que Te Amo” apresenta o mestre emprestando novamente sua voz suave e profunda a sambas-canções, sobretudo, em 14 composições – oito dele mesmo, cinco do parceiro na empreitada, o maestro Gilson Peranzzetta (coassinadas por Paulo César Pinheiro e Nelson Wellington, entre outros), e, fechando a seleção, “Amanhecer”, de Chiquito Braga e Ana Maria. As participações dos músicos não são menos ilustres: Mauro Senise, Paulo Russo, João Cortez, Peranzzetta e Braga, que ajudam a rechear o primeiro álbum em 15 anos do precursor da bossa nova com pérolas como “Quero Dizer Que Te Amo”, “Flor de Mim” (parceria de Madi com Sergio Natureza) e “Indiferença” (com Lysias Ênio). Recuperando-se desde 2007 de um acidente vascular cerebral (AVC), Madi se adapta ao novo registro vocal, mais grave, enquanto espera continuar a escrever e compor. “Não posso tocar violão por causa do braço (esquerdo) que não tem movimento”, disse em entrevista ao diário “Folha de S. Paulo”. “Quero ver se minha voz fica normal, porque quero continuar gravando e compondo”, planeja, aos 85 anos.

CLAUS E VANESSA, CASAL SIMPATIA Autênticos representantes da canção gaúcha, Claus e Vanessa, parceiros no palco e na vida, lançam seu novo DVD, “Luz”, repleto de canções romântica compostas por eles mesmos ou em parceria com Mauricio Bressan, Eduardo Follmann, Maurício Hansel, Rafael Ponde, Alexandre Maia e Juliano Cortuah. Gravado no NY 72, em Porto Alegre, o trabalho começa com “O Som do Mar”, típica mistura praiana de reggae e pop que marca o estilo da dupla. Além de tocar violão, Claus ataca como vocalista em “Me Leva Embora” e divide a cena com Vanessa em “Você Aqui”. “O Nosso Amor é Luz”, “Teu Cheiro” e “Longe de Você” são outros momentos marcantes do DVD, que, nos extras, mostra bastidores da produção e também do nascimento de Olivia, filha do casal, que ganha declaração de amor na praia.

O NOVO SONHO DOS CANTORES DE ÉBANO Um dos mais talentosos grupos vocais brasileiros está de novo em cena, depois de um hiato de anos, e quer voltar a surpreender. Os Cantores de Ébano, sucesso na década de 1960 com seu estilo baseado no spiritual, o canto afro-religioso norte-americano tido como sustentáculo do jazz, do blues, do r&b e do gospel, lança o álbum “Um Sonho a Mais”, que traz versões a capella de clássicos como “Romaria”, “Ave Maria no Morro”, “Ita no Norte” e “Asa Branca”. Com produção de Cleber de Matos e direção de Jair Medalha, o trabalho é o primeiro a registrar a participação de Iaci Pinto, baixo profundo que sucedeu ao falecido Noriel Vilela, um dos membros originais do grupo fundado pelo saudoso Nilo Amaro e que conta com três sopranos, dois contraltos, quatro baixos e dois tenores, todos negros, e se orgulha de beber nas nobres fontes de The Platters, Nat King Cole e Ray Charles. “Uirapuru” e “Leva Eu Sodade”, os dois sucessos maiores do grupo, que frequentaram as rádios em décadas passadas e ajudaram a inscrever o nome dos Cantores de Ébano na história da nossa música, também aparecem no CD.


6/UBC : NOTÍCIAS

TULIPA E GUSTAVO RUIZ, DUPLA DE TRÊS Um dos nomes mais fortes da atual cena paulistana, Tulipa Ruiz lança este mês seu aguardado terceiro disco, "Dancê", mais uma vez marcado pela parceria com o irmão, o produtor Gustavo Ruiz, e por composições que ela divide com convidados especiais. Uma delas, “Virou”, foi escrita por ela e pelo paraense Felipe Cordeiro. As gravações do álbum de pop rock foram finalizadas antes do carnaval e ganharam mixagem e edição cuidadosas. Tulipa e Gustavo já haviam trabalho juntos nos discos “Efêmera” e “Tudo Tanto”. Os músicos que participaram das gravações do novo trabalho foram Luiz Chagas (guitarra), Márcio Arantes (baixo) e Caio Lopes (bateria), entre outros convidados.

Foto: Rodrigo Schmidt

ATAULPHO ALVES JÚNIOR, DE FILHO PARA PAI

Foto: RogerSpock

Sem “modernizações” nem concessões à “moda”. Assim Ataulpho Alves Júnior define o disco que acaba de lançar pelo selo Choro Music (disponível em choromusic.com), uma deliciosa compilação de pérolas como “Quem é Que Não Sente” (Afonso Teixeira/Ataulfo Alves), “Você Não Quer, Nem Eu” (Ataulfo Alves), “Não Sei Dar Adeus” (Ataulfo Alves/Wilson Batista), “Pela Luz Divina” (Ataulfo Alves/Mario Travassos) e “Talento Não Tem Idade” (Ataulfo Alves). “São músicas que minha mãe cantarolava lavando roupa lá no Meier, bairro (carioca) onde eu nasci. Depois, com o tempo, já rapaz, pedi para minha mãe que gravasse essas músicas no meu gravador”, revela o cantor, que dividiu os palcos com o pai em 1963 e 1969. Os arranjos originais marcam a obra, e carecem de concessões “contemporâneas” por uma razão: carregam o frescor no DNA. Prova disso é a faixa “Preto, Mulato e Branco”, um samba-rap que Ataulpho diz ter antecipado o estilo: “O velho fez antes de ‘Deixa Isso Pra Lá’ (1964). Não apareceu na época porque no LP a música de trabalho foi outra”, afirma, referindo-se ao sucesso de Edson Menezes e Alberto Paz.

Foto: Raul Moreira

A VIOLA MODERNA DE YASSÍR CHEDIAK Compositor de trilhas sonoras para filmes e novelas e apresentador de programas no Canal Rural e na Rádio Roquette-Pinto, o violeiro Yassír Chediak lança o seu quarto CD de carreira, “Mundo Afora”, e já está em turnê com o show “Arrasta-Pé Violado”. Clássicos como “Pinha do Pinheiro”, “Mineirinha”, “Panelha Velha” e “Tchau Amor” ganham releituras. Além da viola, o acordeão e o violino, entre diversos outros instrumentos, se unem em experimentações que cruzam estilos para além da música instrumental de raiz. Entre os destaques do álbum, “Seresteiro da Chuva”, parceria de Yassír com o poeta paranaense Carlos Borges, “Amuleto” e “Viramundo”, de ritmo dançante, e “Mundo Afora”, que remete aos trabalhos de Almir Sater, Renato Teixeira e Zé Ramalho.


NOTÍCIAS : UBC/7

“É ISSO QUE UM GRINGO ESPERA DE UM BRASILEIRO” BANDA EDDIE LANÇA SEXTO DISCO, MAIS UMA DELICIOSA MISTURA DE POP, ROCK E SONS REGIONAIS COM LETRAS EM PORTUGUÊS SOBRE VENTURAS E DESVENTURAS DA VIDA FORA DO EIXO Por Alessandro Soler, de São Paulo Música popular urbana – e fora do eixo. Com temas como o dia a dia na sua paradisíaca Olinda (PE), a violência das ruas das cidades brasileiras, a dureza de viver num país desigual de um continente idem, as venturas e desventuras amorosas, a banda Eddie imprime um sotaque e um jeito muito próprios de se inserir na cena contemporânea. Mesclando pop, rock e sons tradicionais como samba, frevo, xote, reggae, eles mantêm os pés no lugar de onde vieram mas projetam a cabeça no mundo. Este mês, lançam “Morte e Vida”, sexto disco do grupo - depois de uma pausa do líder Fabio Trummer para se embrenhar num projeto paralelo, o Trummer SSA. O álbum tem 11 canções, dez de Trummer e a outra de Kiko e Rob Meira, que recebeu letra de Fábio e do parceiro Erasto Vasconcellos. Combustível e munição para bombar no próximo carnaval de Olinda, cidade onde eles nasceram e que, diferentemente do que ocorre com um sem-número de criadores contemporâneos, não trocaram – pelo menos não de todo – pela convergência em São Paulo. Uau! Uma banda de música contemporânea, alternativa e “fora do eixo” que não veio embora (pelo menos não de mala e cuia) para São Paulo! Como se sentem? Fabio Trummer: Eu moro em São Paulo (risos), mas sou o único da banda. Temos as duas cidades (Olinda e Sampa) como base trabalhadora. Trabalhamos independentemente quase toda a vida e somos da geração que pôs a música de Pernambuco novamente na pista, com mangue beat etc. Dentro do estado (nordestino) conquistamos um espaço, e isso facilita nossa vida em Pernambuco. Temos um público fiel e numeroso na região. O nome do segundo álbum parecia ter marcado uma espécie de batismo do som de vocês: Olinda Original Style. Dá para definir assim o que vocês criam? O que faz parte desse estilo? Original Olinda Style não é necessariamente nosso estilo musical, e sim uma observação do modo de vida levado em Olinda. Nossa música é uma música popular urbana, é assim que gosto de classificá-la. Vocês já fundiram virtualmente todos os sons regionais, tradicionais, tudo o que nos é mais caro e próprio, ao rock e ao pop. Que falta ainda? À medida que o tempo passa, conhecemos outros gêneros e ritmos e também movimentos socioculturais, e esses ingredientes vão entrando no nosso trabalho. Não fazemos este encontro de culturas racionalmente, é o resultado de tudo

que ouvimos e de que gostamos... Acabamos nos expressando com esses elementos. É também uma maneira de renovar nossa música e não ficar nos repetindo, uma forma de buscar sempre novas soluções. Todos os álbuns estão disponíveis para descarga gratuita na página de vocês. Mesmo assim, conseguem vender seu trabalho? Qual é a principal fonte de grana da Eddie? Vendemos bem nosso trabalho em CD e vinil, apesar de estar no nosso site o download gratuito. Costumo fazer um cálculo de que, para cada dois CDs baixados, vendemos um fisico. Quem baixa e gosta acaba comprando o CD ou o vinil. Na Eddie, nossa principal fonte de entrada de capital são os shows, mas vendas e o direito autoral também são parte significativa da nossa arrecadação. Entra bastante por direitos autorais, então? Entra sim, acho que 35% da minha arrecadação são direito autoral. A obra acaba se espalhando em filmes, regravações, apresentação de outros artistas e execução de TVs e rádios. A obra trabalha por você. Vocês são uma banda da era digital. Têm uma boa página no Facebook, põem tudo de graça na web… Qual o papel da rede na rotina de vocês? A rede é parte do contato com nosso público. Nessa configuração do mundo que temos hoje, é fundamental ter uma boa relação com a internet, já que boa parte dos negócios é tratada virtualmente. Uma passada d’olhos nas músicas de vocês penduradas no YouTube revela um montão de comentários de usuários gringos. As músicas são cantadas em português. O que será que os atrai? Sempre achei, desde o início da minha carreira musical, que a única maneira de conseguir um espaço verdadeiro fora do país seria fazendo música brasileira, em português principalmente. Música, para mim, é expressão, e não saberíamos nos expressar de outra maneira. Quando é sincero o trabalho, as pessoas sentem e curtem, mesmo não entendendo a letra. Foi assim comigo a vida inteira ouvindo música americana e inglesa e, depois, francesa e de outras línguas que não domino. Temos alguns trabalhos lançados fora do país, músicas em filmes com carreira internacional, tocamos em rádios na Europa e no Japão e temos um público de estrangeiros grande no Brasil, por fazer uma música brasileira e com características próprias. É isso que um gringo espera de um grupo brasileiro.


Fotos: Marcos Hermes

8/UBC : HOMENAGEM

ENCONTRO DE

FAGNER E ZÉ RAMALHO CELEBRAM SUCESSO DE SEU PRIMEIRO PROJETO CONJUNTO E JÁ PLANEJAM UMA TURNÊ PELO PAÍS: 'ESTAMOS EM FORMA!' Por Guilherme Scarpa, do Rio Fagner e Zé Ramalho permaneceram cada um na sua, mas com alguma coisa em comum, por quase quatro décadas de paralelas e mais do que produtivas carreiras artísticas. Embora tenham diversas afinidades - os dois nasceram em outubro de 1949 e, surpreendente e coincidentemente, moram até no mesmo prédio, no Leblon, Zona Sul do Rio -, só em 2014 conseguiram realizar um antigo desejo: “comungar no mesmo palco”, como define Fagner. Desde que apareceram no cenário musical, na década de 1970, o cearense Fagner e o paraibano Zé Ramalho traçaram caminhos paralelos, sempre de ouvidos bem atentos um ao outro. “Zé é um cara que se entrega, tem um trabalho

diferenciado, gosto muito das músicas dele, de seu jeito de cantar”, confirma Fagner. A recíproca é verdadeiríssima. “Sempre tive admiração por ele”, entrega o outro. O resultado dessa “cerimônia” movida “pela musicalidade e a poesia mútuas”, nas palavras de Zé, também idealizador do projeto, está registrado no CD e DVD “Fagner & Zé Ramalho Ao Vivo”, em que os dois cantam e tocam juntos 17 sucessos de suas carreiras. “A ideia nasceu há uns três anos”, explica à Revista UBC o paraibano, numa de suas bissextas entrevistas. “Num dos nossos encontros, falei para ele que já tínhamos cinco fonogramas em comum espalhados em nossos discos”, prossegue. Fagner já tinha gravado músicas de Zé, como “Pelo Vinho e Pelo Pão” (1978) e “Eternas Ondas” (1980), por exemplo, que, naturalmente, marcam presença no setlist do show. “Disse assim: 'se a gente fizer mais cinco ou seis canções, teremos um disco nosso'”, lembra Zé. Fagner curtiu o convite, mas achou melhor amadurecer a ideia. “Sabia que ia pintar

“Zé é um cara que se entrega” Fagner


HOMENAGEM : UBC/9

em algum momento, mas sem pressa”, conta, por telefone, de Brasília, onde fazia shows em março passado. Por fim, decidiram não incluir nenhuma música inédita no repertório. Vestidos de azul, monocromaticamente, Zé Ramalho e Fagner permanecem durante todo o show no palco, como prova o registro em DVD. Nenhum deles arrisca um momento exatamente solo. Mas em “Chão de Giz”, de Zé, Fagner fica apenas ao violão. Depois, na música “Canteiros”, de autoria de Fagner e Cecília Meirelles, eles invertem essas posições, sempre em equilíbrio. A experiência deu tão certo que a dupla já pensa em fazer uma turnê por cidades brasileiras. “Vi que estamos em forma! E temos recebido muitos convites. Sinto que as pessoas estão gostando dessa ideia”, diz Fagner, feliz com a experiência. “Temos uma representatividade nordestina. Hoje, vejo que, artisticamente e politicamente, foi muito importante esse nosso encontro”, define.

“Sempre tive admiração por ele” Zé Ramalho

Se a parceira só tomou forma agora, foi no distante ano de 1978 que os dois se cruzaram pela primeira vez. “O dia exato não posso precisar, mas foi em um show dele (Fagner) no Parque Lage (no Rio). Eu já tinha meu primeiro LP, o 'Zé Ramalho', e ele estava lançando o disco 'Eu canto - Quem Viver Chorará'”, recorda o paraibano. “Minha casa era um QG de músicos. Lembro-me de que ele frequentava muito. A gente passava horas tocando nossos violões”, diverte-se Fagner. A química da dupla, segundo os dois, já era perceptível naqueles tempos. “Nossa interação como músicos aparece em momentos do show em que, mesmo estando ambos com seus violões, só o do Fagner soa, e vice-versa”, analisa Zé Ramalho. Mas não só isso: eles também têm técnicas diferentes na hora de pegar um violão pelo braço. “Toco com palheta, e Fagner, com os dedos. Essa alternância se complementa. “Mas, principalmente, somos dois malucos”, brinca Fagner.


10/UBC : NOTÍCIAS

FIQUE DE OLHO

VENDA DE MÚSICA DIGITAL SUPERA A FÍSICA PELA PRIMEIRA VEZ As vendas de música digital no mundo todo superaram pela primeira vez na história as físicas, segundo a Federação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI). O segmento digital representou € 6,48 bilhões, contra € 6,452 dos meios físicos. E os streamings ganharam ainda mais força, alcançando 23% do faturamento total da indústria. No Brasil, as receitas com música digital são 48% do total, segundo a Associação Brasileira dos Produtores de Discos (ABPD).

UBC REALIZA SUA ASSEMBLEIA GERAL Cumprindo o compromisso de seu estatuto, a UBC realizou, em 18 de março, sua Assembleia Geral anual, em que apresentou o balanço contábil e financeiro de 2014 e discutiu o planejamento orçamentário da entidade, os valores arrecadados no Brasil e no exterior e os investimentos em tecnologia previstos. “O balanço do exercício de 2014 foi auditado pela Audilink, e a apresentação contou com a presença de cerca de 40 associados no auditório da sede, no Rio”, disse Fábio Geovane, gerente de Operações da UBC. Representantes da associação explicaram a arrecadação recorde de R$ 1,2 bilhão pelo Ecad e a distribuição de mais de R$ 900 milhões em 2014 (leia mais na nota ao lado) e anunciaram a liberação de R$ 36 milhões de créditos retidos, que careciam de identificação ou apresentavam outros motivos para a retenção.

FESTIVAL NACIONAL DA CANÇÃO CHEGA À 45ª EDIÇÃO Terminam no próximo dia 4 de junho as inscrições para a 45ª edição do Festival Nacional da Canção, evento que, nos anos 1960 e 1970, revelou grandes nomes da nossa música. Todas as etapas serão em Minas Gerais e terão início em 24 e 25 de julho, culminando em 4, 5 e 6 de setembro. Autores de composições inéditas e originais podem participar e concorrer aos prêmios totais de R$ 250 mil. A inscrição custa R$ 15. Veja em festivalnacionaldacancao.com.br como participar.

COM AUMENTO DE 12%, ECAD DISTRIBUI R$ 902,9 MILHÕES EM 2014 Com forte participação (de 61%) dos segmentos de TV aberta e por assinatura, o Ecad distribuiu, em 2014, R$ 902,9 milhões a 140.438 titulares de música (compositores, intérpretes, músicos, editores e produtores fonográficos) e associações, aumento de 12% no valor distribuído e 14% na quantidade de artistas beneficiados em relação a 2013. Do total distribuído, 67% foram repassados para o repertório nacional. Os números constam do relatório divulgado pelo escritório central em março. Somente o segmento de TV por Assinatura obteve crescimento de 72% nos repasses aos titulares de música, especialmente devido ao fechamento dos acordos com as operadoras Net, Sky e Claro TV. O segmento de Casas de Festas cresceu 15%, seguido pelo de Cinema, com 13%, e pelo de Casas de Diversão: 12% a mais. Outro segmento que teve grande destaque, no ano passado, foi o de Eventos Esportivos, devido à realização da Copa do Mundo no Brasil em junho e julho. Foram distribuídos R$ 4.245.261,84 para 4.795 titulares de música (compositores, intérpretes, músicos, editores e produtores fonográficos) e associações como retribuição autoral pelas obras executadas durante os eventos oficiais. Apesar disso, algumas das chamadas Fifa Fan Fests, “esquentas” dos jogos realizados nas capitais que os abrigaram, continuam inadimplentes até hoje.

MUDANÇA NO PESO DE DISTRIBUIÇÃO DE TV ABERTA Uma nova mudança na distribuição dos rendimentos arrecadados dos canais TV aberta começou a valer a partir da distribuição de abril de 2015. As músicas executadas na programação das redes de emissoras Globo, Record, Bandeirantes e SBT obedecerão a diferentes pesos de acordo com a quantidade total de emissoras da rede que fizeram a transmissão do conteúdo audiovisual no qual a música foi inserida e executada. Usando como exemplo a Rede Globo, que possui 122 emissoras relacionadas em seu contrato com o Ecad, a música executada na abertura de uma novela terá peso 122, de acordo com a nova regra, pois a mesma será executada por todas as emissoras da rede. Se uma música for executada na abertura um programa local transmitido por apenas uma dessas 122 emissoras relacionadas, terá peso 1.


NOTÍCIAS : UBC/11

NOVIDADES INTERNACIONAIS ARMÊNIA É PAÍS HOMENAGEADO DO MIDEM 2015 Portal entre as culturas da Europa Ocidental e do Cáucaso (de influências persas, árabes, orientais), a Armênia será o país homenageado na edição 2015 do Midem (Mercado Internacional do Disco e da Edição Musical), de 5 a 8 de junho, na cidade francesa de Cannes. Maior encontro mundial do mercado de música, o Midem não é um festival, mas um polo vibrante de licenciamento, celebração de contratos, distribuição e divulgação, além de discussões sobre o mercado, que atrai milhares de participantes e empresas a cada ano, desde a primeira edição, em 1967. Apesar de o foco não ser nos shows, muitos artistas fazem apresentações em Cannes durante os dias do evento, e este ano não será diferente. Somente da Armênia, a Orquestra Nacional e a Orquestra Nacional de Jazz são duas das atrações mais aguardadas. No ano passado, o país convidado de honra foi o Brasil, e artistas como Criolo e Alceu Valença fizeram shows memoráveis. Este ano, a diretora-executiva da UBC Marisa Gandelman será uma das palestrantes do fórum “Como as indústrias criativas podem maximizar os ganhos nos países dos Brics?”, em 6 de junho, que terá ainda a participação de representantes da indústria de Índia, África do Sul e China. Confira a programação completa em midem.com.

ARRECADAÇÃO GLOBAL DE DIREITOS AUTORAIS SE MANTÉM EM € 7,8 BILHÕES, REVELA CISAC A arrecadação global de direitos autorais referentes às obras de cerca de três milhões de compositores do mundo todo se manteve um pouco abaixo dos € 8 bilhões em 2013. O número consta do mais novo relatório da Confederação Internacional das Sociedades de Autores e Compositores (Cisac), divulgado em fevereiro passado e que compila dados de dois anos anteriores. Ao todo, segundo a Cisac, foram arrecadados e distribuídos € 7,8 bilhões no mundo, volume que se manteve estável em meio a uma crise econômica que afetou diversas outras atividades. Diretor-geral da Cisac, Gadi Oron comemorou a arrecadação: “Em 2013, as sociedades integrantes da Cisac provaram de novo a importância da gestão coletiva. Apesar das condições econômicas desafiadoras em muitos mercados, o total arrecadado ficou estável. Excluindo o impacto do câmbio, o crescimento em euros da ordem de 4,6% (sobre 2012) é encorajador para o futuro da indústria criativa globalmente.” O segmento sobre a América Latina e o Caribe foi ainda mais animador. De acordo com o relatório, houve crescimento de 17% na região naquele ano. “Os mercados dos Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) continuaram a se mostrar muito promissores, saltando 30% sobre o ano anterior”, afirmou Oron: “Estes países ainda têm enorme potencial, com meros doze centavos de euro de arrecadação per capita, comparados ao € 1,30 do mundo como um todo. O crescimento de arrecadação dos serviços digitais (como streamings) também continuou a apontar para o caminho que a música indubitavelmente seguirá. Embora ainda represente só 5% da arrecadação total, o segmento teve salto de 25% em um ano.

ESTUDO QUER MEDIR TAMANHO DA INDÚSTRIA CRIATIVA GLOBAL Depois de medir o tamanho e a importância da indústria criativa para a economia Europeia – em estudo divulgado na última edição da Revista UBC –, agora a consultoria EY (antiga Ernst & Young) dará um passo ainda mais ousado. Já está em andamento, com planos de publicação ainda para este ano, um estudo econômico global sobre as indústrias culturais e criativas. O trabalho “Gerar crescimento – Mensurando os mercados cultural e criativo da União Europeia” está disponível na internet para consulta em www.creatingeurope. eu e estimou que, anualmente, produzem-se pelo menos € 536 bilhões (o equivalente a quase R$ 1,9 trilhão) e empregamse sete milhões de europeus em áreas ligadas à produção cultural, sobretudo a música e as artes visuais. Acompanhe na Revista UBC sobre a publicação do novo estudo global e suas conclusões.

ARTISTAS SE UNEM PARA LANÇAR NOVO SERVIÇO DE STREAMING NOS EUA Celebridades do meio musical americano se uniram para lançar uma nova plataforma de streaming no final de março. Parceria de gigantes do pop como Jay-Z, Madonna, Beyoncé, Alicia Keys, Jack White, Kanye West e Chris Martin (do Coldplay), o Tidal quer se tornar um concorrente direto do Spotify. Para o usuário, o grande diferencial é a oferta de lançamentos e conteúdos exclusivos. Para os artistas, contudo, a diferença é bem maior: o serviço promete lhes pagar “o dobro” do que serviços similares oferecem. Desta forma, não haverá pacotes gratuitos com acesso a certos conteúdos - o usuário deve sempre pagar, sejam US$ 9,99 mensais pelo acesso básico ou US$ 19,99 pelo som em alta definição. “A experiência de uso vai ser melhor, tanto para os consumidores quanto para nós, artistas. Queremos promover a sustentabilidade da nossa arte, da nossa indústria”, definiu Alicia Keys no discurso de apresentação da novidade. Singles exclusivos de Colplay, Daft Punk, Arcade Fire e Beyoncé, entre outras estrelas, já estão disponíveis na plataforma - por enquanto, somente nos Estados Unidos -, prova da pressa do Tindal em disputar o mercado com o Spotify, que, sozinho, tem mais de 60 milhões de usuários.

YOUTUBE: 90% DOS CONTEÚDOS MAIS VISTOS SÃO VÍDEOS MUSICAIS Nove em cada dez dos conteúdos mais vistos no YouTube são vídeos musicais. A revelação foi feita em março, durante uma conferência em Oslo, por Jeroen Bouwman, gerente de parcerias do gigante dos vídeos na região dos países nórdicos e de Bélgica, Holanda e Luxemburgo. O executivo recomendou que, para ter muitos acessos e, portanto, ganhar mais, criadores devem produzir “constantemente”. “Se um artista lança um álbum de 12 canções, no formato tradicional, vai ser muito bemsucedido se tiver, digamos, uns três singles fazendo sucesso ao longo de cinco ou seis meses. Depois, vai se recolher e produzir outro álbum nos próximos 12 a 18 meses. Para prosperar no YouTube, recolher-se por 12 a 18 meses não dá certo. É preciso postar conteúdo constantemente”, defendeu.


12/UBC : CAPA

ELES SÃO OS CRIADORES DE UMA PARTE FUNDAMENTAL, INDISSOCIÁVEL, DA NOSSA MÚSICA. UM PAPO COM GRANDES LETRISTAS, QUE FALAM SOBRE SEU PROCESSO CRIATIVO E A IMPORTÂNCIA VITAL DOS DIREITOS AUTORAIS

Por Bruno Calixto, do Rio *Ilustrações de Reinaldo Lee O ato criador de Carlos Rennó sempre começa literalmente no escuro - cenário perfeito para a buscada “iluminação”. Paulo Sérgio Valle vive um (ou muitos) personagens e coloca a melodia do parceiro na cabeça, remoendo-a até a letra tomar forma. Para Fausto Nilo, é imprescindível observar o que o criador dos acordes quer antes de “ajudar de modo sonoramente harmonizado” com palavras e frases. Uma imagem, uma cena, uma pessoa bonita disparam a torrente criativa de Antonio Cicero. Thiago Amud mistura um pouco de cada jeito anterior e forja, “da maneira mais conturbada possível”, seu método de compor. O hábito de se sentar quase que diariamente em frente a uma folha de papel em branco – ou, vá lá, a um computador – levou esses artistas a comporem palavras para serem cantadas. Eles são alguns entre os incontáveis letristas que fazem da nossa canção uma das mais ricas do planeta. E conhecem, como ninguém, a importância dos direitos autorais, principalmente porque, em sua maioria, não sobem ao palco e, portanto, só contam com a própria obra como ganha-pão. “Hoje em dia, como a vendagem de discos caiu muito, compor é a principal fonte de renda dos letristas que não cantam”, resume Cicero, mais de cem composições no currículo, a maior

parte gravada pela irmã, Marina Lima. “É principalmente o letrista quem vive dos direitos autorais, sem dúvida a defesa deles nos é muito cara.” Carlos Rennó crê que a consciência dessa dependência levou os letristas a um patamar diferente de envolvimento com a questão ao longo dos anos. Se, antes, muitos criadores deliberadamente evitavam pensar em “questões mundanas”, como a arrecadação, hoje eles participam ativamente do fortalecimento do sistema. “O empenho dos letristas tem sido importante na defesa dos direitos autorais”, analisa. “Dada a natureza do nosso trabalho, e a dependência de tais direitos, somos possivelmente os artistas em melhor condição de avaliar a qualidade da arrecadação e da distribuição. E posso atestar que ela evoluiu demais, graças também ao trabalho de associações como a UBC.” Fausto Nilo descreve o nível de entrega necessário para que um autor que não atua também como intérprete viva da própria arte: “É, de fato, muito árduo o trabalho de construir um repertório que venha a produzir uma renda tal que possibilite um nível de vida compatível com as exigências de controle e tranquilidade para trabalhar com essa especialidade”. Nada que os assuste ou demova. Dotados de talento natural e beneficiados pela variedade quase ilimitada da música brasileira, esses autores se atiram no abismo de diferentes formas.


esteja lendo, uma notícia de jornal... Qualquer coisa pode ser o estopim (do processo criativo).” Como muitos outros letristas, ele prefere que a melodia, e não a letra, surja primeiro. “Ao fazer a minha parte, a poesia, penso no parceiro, no cantor, deixome inspirar pela melodia, pelo ritmo”, discorre. “O tempo de criação varia muitíssimo, pode ser rápido ou demorar muito… Mas uma coisa é certa: é sempre indolor.” Para Thiago Amud é diferente. Aos 35 anos, e com parcerias acumuladas com bambas como Guinga, Francis Hime, Edu Kneip, Zé Paulo Becker, Thiago de Mello, Fernando Vilela, Thomas Saboga, Pedro Sá Moraes, Marcelo Fedrá e Sylvio Fraga Neto, a entrega não é sempre desprovida de tormento. “Às vezes, isso (o processo criativo) dura muito tempo. Dias, meses. Às vezes fico até febril”, comenta o autor, que também toca. “Já no palco só entram delícias. No palco, o pior já passou, é a hora da plenitude. E, mesmo quando as dores superam as delícias, algo me diz que isso é outro modo de alegria.”

UM BOM LETRISTA É... O dono de uma vasta obra, o criador de “histórias” apreciadas e gravadas por intérpretes exigentes, o colecionador de parceiros de talento, o construtor que desafia o lugar-comum... Difícil conceituar um bom letrista com poucas palavras. Thiago Amud aventa outras: “qualidade intrínseca”. “A saber, (o bom letrista tem) originalidade do mote, capacidade de deslocamento do lugar-comum, capacidade de diálogo com a tradição, entoabilidade, caráter desafiante, poder encantatório etc. Se, no entanto, eu tiver que escolher uma entre as opções, escolherei vasta obra”, define.

NO PRINCÍPIO É A DÚVIDA “Antes de compor a letra, acontece uma dessas duas coisas: ou eu duvido da minha capacidade de criá-la ou, então, eu não tenho dúvida nenhuma; tenho certeza de que não serei capaz”, brinca o compositor, jornalista e escritor Carlos Rennó, 40 anos cultivando um solo fértil de criações e autor de “Escrito nas Estrelas” (com Arnaldo Black), clássico popular na voz de Tetê Espíndola. Paulo Sérgio Valle adotou um método que lhe assegura força diante de cada novo desafio: ele “provoca” emoções, percorre um turbilhão delas. “Não digo que eu tenha vivido todas as histórias que contam minhas letras. Mas, no momento em que estou escrevendo, vivo tudo intensamente, como se estivesse acontecendo de fato.” Terminada a letra, Valle volta a se encontrar com o parceiro dos acordes para os ajustes finais, uma espécie de acertos de contas que deixa letra e melodia tinindo. Depois de décadas de trabalho profissional na confecção de letras musicais, Fausto Nilo afirma estar certo de que suas fontes ainda são a rua e o imaginário das pessoas anônimas. “Nunca sou o personagem principal de minhas letras”, observa. “Tive chance de crescer e viver na rua, oportunidades de convivência com pessoas de classes sociais diferentes. Escrevo a partir da influência das próprias melodias de meus parceiros. Elas me provocam, me levam a pensar e a criar frases nas quais as palavras me ajudam a expressar coisas corriqueiramente indizíveis nas linguagens convencionais e que percorrem regiões em que meus ouvintes e eu nos encontramos.” Antonio Cicero está sempre ligado. “Uma palavra que eu ouça por acaso, uma pessoa bonita, uma ideia, um livro que eu

Uma das facetas divinas do trabalho, lembra Fausto Nilo, é poder trabalhar com tantos estilos do rico repertório existente no Brasil. “Tenho que admitir que encontrei uma profissão – embora eu tenha outra que é o urbanismo – e que permaneço nela há 43 anos”, ele diz. Nilo tem cerca de 400 canções, muitas inesquecíveis, como “Amor Nas Estrelas” (com Roberto de Carvalho), “Astro Vagabundo” (com Fagner) e “Bloco do Prazer” (com Moraes Moreira). “Isso tudo é mais do que eu imaginava realizar. Ainda faço letras e gravo todos os anos.” Na feliz percepção de Paulo Sérgio Valle, o que caracteriza um bom letrista é a capacidade de tocar o outro. “Nada é melhor do que ver as pessoas cantarem minhas letras como se fossem sua própria historia de vida. Vasta obra ou pequena obra dependem da capacidade de trabalho do autor. Isso não atesta o valor do letrista”, opina o artista, influenciado “pela sonoridade das palavras” de Ronaldo Bôscoli, para ele um dos compositores mais ilustres do Brasil. Carlos Rennó, autor de aproximadamente 180 letras – incluindo versões para canções americanas –, insiste na entrega intensa, no escuro: “Um escuro no qual, ou do qual, não sei como, eu acabo arrancando – depois de procurar conscientemente – uma luz; ou a luz.” O que, para ele, caracteriza um bom letrista não é, absolutamente, a vastidão de sua obra, seu dado quantitativo, mas o seu “quilate poético”. “Naturalmente esse fator tende a contribuir para que o criador seja gravado desejavelmente não por medalhões, mas por intérpretes bons, não raro seus próprios parceiros compositores-músicos”, crê. “Se eu continuo escrevendo, é sem dúvida pelo prazer final da realização, da luminosidade desse momento que não se dá senão como resultado do trabalho intenso a que me entreguei com sangue e neurônios, cabeça e coração. O meu prazer como criador é o prazer do difícil, tal como definido por Paul Valéry; prazer do artista mais esforçado que talentoso, como se definia o grande João Cabral de Melo Neto.”


14/UBC : CAPA

CARLOS RENNÓ Compositor, jornalista e escritor. Em 1982, participou do festival MPB Shell (Rede Globo) com a composição “Outros sons” (com Arrigo Barnabé), interpretada por Eliete Negreiros. Em 1985, venceu o Festival dos Festivais (Rede Globo) com a música “Escrito nas estrelas” (com Arnaldo Black), defendida por Tetê Espíndola. Influências Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque, John Lennon, Bob Dylan, Cole Porter, Fernando Brant, Ronaldo Bastos, Luiz Galvão e Waly Salomão. Parcerias Arnaldo Black. Quem mais o gravou Tetê Espíndola. Tem mais de 180 letras. As mais marcantes “Pássaros na Garganta”, “A Europa Curvou-se Ante o Brasil”, “Escrito nas Estrelas”, “Façamos” (versão do clássico “Let's Do It”, de Cole Porter), “Todas Elas Juntas Num Só Ser” e “Tá?”.

ANTONIO CICERO Compositor. Poeta. Filósofo. Escritor. Por conta da atividade de seu pai, um dos fundadores do Instituto de Estudos Brasileiros e diretor do BID (Banco Internacional de Desenvolvimento), morou em Washington na adolescência. Formou-se em Filosofia. Sua primeira composição foi “Alma Caiada”, um poema musicado pela irmã Marina Lima quando ambos estudavam em Nova York, gravada em 1977 por Maria Bethânia. No ano de 1979, no disco “Simples Como Fogo”, que marcou a estreia de Marina, foram incluídas várias parcerias da dupla, tais como “Transas de Amor” e “Tão Fácil”. Influências Noel Rosa e Cole Porter. Parcerias Marina Lima, Adriana Calcanhotto, Arthur Nogueira, Lulu Santos, Orlando Moraes. Quem mais o gravou Marina Lima. Tem mais de 100 letras. A mais marcante “Fullgás”, com Marina Lima.

PAULO SÉRGIO VALLE Compositor e letrista. Formado em Direito pela antiga Universidade Estadual da Guanabara. Irmão do instrumentista, compositor e cantor Marcos Valle. Em 1961, começou a escrever letras para as músicas de Marcos, que, nessa época, integrava um trio composto ainda por Dori Caymmi e Edu Lobo. Dois anos depois, teve registrado seu primeiro trabalho como compositor, com a gravação de sua canção “Sonho de Maria” (com Marcos Valle) pelo Tamba Trio. Influências Ronaldo Bôscoli. Parcerias Marcos Valle, Herbert Vianna, Eumir Deodato, Eduardo Lages, João Donato, José Augusto, Roberto Carlos, Chico Roque, Ed Wilson, Hildon, Fabio, Egberto Gismonti, Roberto Menescal, Mauro Motta, Vanda Sá, Augusto Cesar, Reinaldo Arias, Edmundo Souto, Galdino Penna, Vinicius Cantuária e Hugo Belardi. Quem mais o gravou José Augusto. Em seguida, Marcos Valle e Roberto Carlos. Tem mais de 800 letras. As mais marcantes “Viola Enluarada”, “Preciso Aprender a Ser Só”, “Se Eu Não Te Amasse Tanto Assim”, “Evidências”, “Essa Tal Liberdade” e “Samba de Verão”.


CAPA : UBC/15

THIAGO AMUD Arranjador, violonista, compositor e cantor. O pai era músico. Começou a estudar violão aos 13 anos. Cursou um ano de Letras na Universidade do Estado do Rio e, a partir de 1999, bacharelado em Música Popular Brasileira na Universidade Federal do Estado do Rio, habilitando-se em Arranjo Musical. Em 1994, começara a compor. Venceu por cinco anos consecutivos (1995 a 1999) o Festival Estudantil de Música da Faculdade Hélio Alonso, no Rio. Parte do júri era formada por artistas como Paulinho da Viola, Elza Soares, Paulo César Pinheiro, entre outros. Influências Villa-Lobos, Debussy, Bartók, Dorival Caymmi, Noel Rosa, Tom Jobim, Luiz Gonzaga, Elomar, Guinga, Milton Nascimento, Chico Buarque, Caetano Veloso, Björk, The Beatles, Jorge de Lima, Guimarães Rosa, João Cabral de Melo Neto, Murilo Mendes, Tarkovsky e Fellini. Parcerias Guinga, Francis Hime, Edu Kneip, Zé Paulo Becker, Thiago de Mello, Fernando Vilela, Thomas Saboga, Pedro Sá Moraes, Marcelo Fedrá e Sylvio Fraga Neto. Quem mais o gravou Guinga. Tem mais de 120 letras. As mais marcantes “Contenda”.

FAUSTO NILO Letrista. Arquiteto e urbanista com escritório em Fortaleza (CE), onde se fixou a partir da década de 1970. Iniciou a carreira como letrista profissional também naquela década, quando conheceu o Pessoal do Ceará, tendo escrito letras para Fagner, Belchior, Petrúcio Maia e Manassés. Em 1972, teve registrado pela primeira vez seu trabalho como compositor, com a gravação de “Fim do Mundo”, parceria com Fagner, por Marília Medalha. Influências Ataulfo Alves, David Nasser, Jacques Brel, Bob Dylan e Tom Waits. Parcerias Fagner, Moraes Moreira, Dominguinhos, Geraldo Azevedo, Robertinho de Recife, Ritchie, Roberto de Carvalho, Lulu Santos, Zé Ramalho, Severino Araújo e Chico Buarque. Quem mais o gravou Fagner. Tem mais de 500 letras. As mais marcantes “Pedras que Cantam”, “Pequenino Cão”, “Amor nas Estrelas”, “Bloco do Prazer”, “Pão e Poesia”, “Lua do Leblon”, “Retrovisor”, “Cartaz” e “Zanzibar”.

“Sacradança”, “Madrêmana” e


16/UBC : NOTÍCIAS

ANOS

PALAVRA CANTADA CELEBRA DUAS DÉCADAS DE DIVERSÃO E EDUCAÇÃO, ABRAÇANDO OS CONTEÚDOS DIGITAIS E COSTURANDO UMA TURNÊ SEM FIM PELO PAÍS PARA CATIVAR SEMPRE AS CRIANÇAS PEQUENAS


NOTÍCIAS : UBC/17

NOVOS

Por Alessandro Soler, de São Paulo

O número de álbuns, DVDs, livros, shows, programas web, licenciamentos só fez aumentar. A idade do público-alvo, não. E é exatamente isso que Paulo Tatit e Sandra Peres querem. Aos 20 anos de bons serviços educativo-diversionais prestados aos pequenos, à primeira infância, a dupla de músicos e criadores à frente do projeto Palavra Cantada se renova para continuar formando plateias, sem “envelhecer” com elas. Tem dado certo. Ao incorporar ou aprofundar temas ligados à sustentabilidade, ao respeito às diferenças, à cidadania – e outros menos palpáveis, como o lúdico, a afetividade –, o projeto ganhou o apreço sólido de pais, educadores, pesquisadores, virou conteúdo complementar em sala de aula e costurou uma turnê sem fim pelo país, sempre com casa cheia. Se a indústria fonográfica – e musical, em geral – vive crise, a criatividade dos dois amigos os ajuda a driblá-la. “A crise da indústria fonográfica já tem mais de 15 anos, pelo menos 15 anos. E, na Palavra Cantada, como (ocorre com) todo artista que tem vontade de continuar a desenvolver seus próprios projetos e trabalhos, a gente vai procurando outras fontes. Hoje em dia tem DVD, uma coleção de livrinhos vendidos a prefeituras para o ensino de música... Depende um pouco da agilidade, da criatividade do músico, do empreendedor (que é o que a gente acaba sendo). Vamos vendo qual o caminho que se faz para ter um público que continue prestigiando. O suporte de mídias digitais (por meio de dezenas de vídeos publicados na rede e das vendas on-line), hoje, representa um faturamento considerável”, explica a ex-música erudita Sandra, de São Paulo, QG da dupla que percorreu, literalmente, todos os cantos do Brasil nestas duas décadas. A celebração do aniversário, iniciada no ano passado, ainda não acabou. Sandra e Paulo – expoente da Vanguarda Paulista nos anos 1970/80 com o Grupo Rumo – entregam nos próximos meses um DVD com animações e conteúdos exclusivos, uma caixa com quatro vídeos históricos, um apanhado dos melhores momentos da Palavra e novos livros de brincadeiras musicais para crianças de 2 ou 3 anos. Reciclar-se, pensar histórias e sonoridades e bolar conteúdos para a geração digital são atividades que, para além das turnês, os mantêm em constante linha de produção. “O grande desafio é pensar uma comunicação, um recheio cada vez mais consistentes. Não há dúvida de que a concorrência que a gente tem, hoje,

com conteúdo que vem de fora é enorme. Mas não creio que isso represente um grande problema. Tem sinceridade no que fazemos, o que acabou nos trazendo uma legião de professores que tocam as nossas músicas em sala de aula. Pais e famílias têm fidelidade absoluta ao nosso trabalho pela nossa estética, nossa linguagem, nossa forma de comunicar. Os filhos dessas famílias assistem a outras coisas. Mas, felizmente, não vão deixar de nos prestigiar”, ela comemora. A ausência de um espaço para a programação infantil na TV aberta não é desprezível, na avaliação de Sandra. Apesar de não depender dos canais tradicionais para alcançar seu público, a Palavra Cantada prega a necessidade de uma faixa para a educação televisiva de qualidade. “Se a TV tem muita bobagem, também deveria oferecer o contraponto. Faz muita falta, sim, um momento para as crianças por lá.” A internet acabou se tornando o principal espaço de divulgação do projeto, que, mais do que profícuo, encontrou nos direitos autorais uma das principais fontes de renda.

ARRECADAÇÃO COMO PILAR DO SUCESSO “O direito autoral é essencial para qualquer artista, principalmente para aquele que é letrista, que escreve e não performa. O direito é especialmente atraente para pessoas que não recebem cachê como cantores e instrumentistas. Muitas das nossas músicas não são feitas por nós. A questão de recolhimento de direito autoral é parte vital do showbiz, é um dos itens de produção, de planilha. É importante que as sociedades arrecadadoras nos representem, e a UBC tem feito um belo trabalho nessa área. É uma sociedade que, claramente, tem respeito pelo trabalho do artista”, Sandra afirma. Num momento em que parte do seu público cresce em meio à cultura do consumo “gratuito” de conteúdos web – são os jovens, sabidamente, os maiores compartilhadores de música pirata –, ela faz uma defesa veemente do direito de autor. “É superimportante para quem faz música receber os devidos frutos da produção, da execução pública. Eu sempre falei isso: direito autoral é sagrado. Você criou aquilo, tem que ser compensado. Se as pessoas vão a um local público dançar, se divertir, isso só é possível porque inventamos um negócio. O nosso trabalho é entrega, é suor. Mas só pode continuar se encontrarmos uma forma de nos sustentar por meio dele. Esse é um grande desafio dos nossos tempos.”


18/UBC : PELO PAÍS

NA MÚSICA SERTANEJA DE MATO GROSSO DO SUL, NINGUÉM 'PASSA RÉGUA' COM RAÍZES PARAGUAIAS, ARGENTINAS, GAÚCHAS, PAULISTAS, MINEIRAS (E DE TANTOS OUTROS CANTOS), A PRODUÇÃO DO ESTADO É DIFÍCIL DE LIMITAR – ASSIM COMO O PANTANAL DO GRANDE POETA DA TERRA, MANOEL DE BARROS

1990-2000

Délio e Delinha, Amambai e Amambay, Zé Corrêa e Beth e Betinha

Grupos Tradição, Mensageiros D'Oeste, Alma Serrana, Canto da Terra, Zingaro e Dona Helena Meirelles

Maciel Corrêa e família Espíndola (Geraldo, Tetê, Alzira, Celito, Jerry)

1970-80 Dona Helena Meirelles

Por Rogério Alexandre Zanetti, de Campo Grande

Beth e Betinha

Manoel de Barros, nascido em Cuiabá, criado em Corumbá (MS) e morto nos últimos dias de 2014 em Campo Grande, era um inventor de palavras certeiro e poético. Ao falar sobre a impossibilidade de pôr limites (à beleza, à extensão, à variedade natural) da região de alagadiços onde passou sua vida, definiu: “no Pantanal ninguém pode passar régua”. Da mesma forma, a música produzida num dos mais jovens estados da Federação é tão variada, plural, multirreferenciada, que fronteira alguma pode abarcar. A ocupação do antigo Sul de Mato Grosso começou a acontecer, efetivamente, somente após o término da Guerra do Paraguai, no final do século 19. A emancipação político-administrativa é ainda mais recente, veio em 1979. Hoje, o território enorme de apenas 2 milhões e meio de pessoas faz brotar artistas a cada novo dia, que, independentemente do ritmo e do estilo que escolhem, orgulham-se de suas raízes culturais. A interessante mistura de ritmos e culturas que “contaminou” o sertanejo local teve seu epicentro numa jovem Campo Grande, já na primeira metade do século XX. Paraguaios, libaneses, japoneses, portugueses se misturaram a mineiros, mato-grossenses, paulistas, paranaenses, esquentando um caldeirão efervescente. Nos anos 1950, Campo Grande já era celeiro de música caipira com sotaques variados. Rodrigo Teixeira, músico e pesquisador, diz que “a posição geográfica de Mato Grosso do Sul tornou inevitável que a herança fronteiriça, particularmente do Paraguai e da Argentina, já estivesse delineada nas canções de nossos primeiros compositores. Essa arte interiorana pulsou forte na capital do estado, refletindo-se nas rádios locais e, logo, tomando contato com a produção dos grandes centros, como São Paulo.” Dessa primeira geração se destacam Délio e Delinha, então conhecidos como “casal onça de Mato Grosso”, Amambai

e Amambay, Zé Corrêa e Beth e Betinha. O magistral Zé Corrêa tocava seu acordeão de forma tal que dava ao ouvinte a impressão de que havia mais de um instrumentista na execução. A geração a partir da segunda metade dos anos 1950 moldou a moderna música sertaneja sul-mato-grossense, que, ao longo dos anos – e até hoje -, não parou de incorporar influências. A produção local só crescia quando, nos anos 1970, surgiram no mapa nomes como Maciel Corrêa. Aqui já se pode falar num aumento da influência da música gaúcha, resultado direto do crescimento do fluxo migratório. “Naquela época, tudo que gravávamos vendia. As gravadoras disputavam os artistas de Campo Grande, e tínhamos as portas das rádios sempre abertas. Acredito que isso acontecia porque conseguíamos juntar composições originais, que falavam de amor e da nossa terra. Foi a época de ouro de nossa música”, lembra com nostalgia a cantora Delinha.

Foto: Ru Mendes

1950-60


PELO PAÍS : UBC/19

2010 Marcelo Loureiro, Gabriel Sater, Conrado e Aleksandro, Jorge e Matheus, Maria Cecilia e Rodolfo, João Haroldo e Betinho, Marco Aurélio e Paulo Sérgio, Loubet e Luan Santana

Luan Santana

Gabriel Satter

Conrado e Aleksandro

Ao final dos anos 1970, a música sertaneja cedeu algum espaço para os novos artistas urbanos, que se consolidaram com o movimento divisionista. Desde o início da década, surgiram talentosos criadores nas cidades, como a família Espíndola – Geraldo, Tetê, Alzira, Celito, Jerry -, cujos trabalhos tiveram projeção pelo país. Na mesma época, começam a surgir artistas em áreas insuspeitas, como o samba o choro. A ideia de um estado novo e moderno, abraçada pelo recémemancipado Mato Grosso do Sul, fazia se retrair o movimento da música sertaneja, associado ao antigo. Felizmente, essa visão não durou muito tempo.

O RENASCIMENTO NOS BAILÕES JOVENS Nos anos 1990 e 2000, os chamados “bailões” voltaram com tudo, ditando a moda da jovem música regional e com um sem-número de criadores bebendo nas boas fontes antigas. Ali surgiram os grupos Tradição, Mensageiros D'Oeste, Alma Serrana, Canto da Terra, Zingaro. Foi nessa época também que se apresentou ao grande público a genial e única Helena Meirelles, descoberta aos 70 anos pela revista norteamericana “Guitar Player”, que a elencou entre os 100 melhores instrumentistas do século XX, com elogios rasgados de Eric Clapton. Apesar do “descobrimento” tardio, Dona Helena, antes de morrer, em 1995, gravou quatro álbuns e fez muitos shows, apresentando-se ao público que, entre espanto e encantamento, testemunhou seu talento ímpar para tocar violão. Assim como o chamamé argentino, presente na formação da música do estado, a moda de viola voltou a ser cultuada entre jovens criadores e pesquisadores. Dentre eles, destacase Marcelo Loureiro, considerado um dos melhores violeiros do país. Ele não está sozinho na novíssima geração: um dos nomes em ascensão na música sul-matogrossense é o de Gabriel Sater, que atuou na novela “Meu Pedacinho de Chão”, da Rede Globo, tendo escrito e interpretado ele mesmo o tema de seu personagem. Paralelamente, as rodas de violas contemporâneas dos bares que ladeiam as faculdades em Campo Grande têm exportado para o resto do país nomes como os de João Bosco e Vinicius, Jorge e Matheus, Maria Cecilia e Rodolfo, ancorados por artistas locais talentosíssimos e com boas referências da música de raiz, como João Haroldo e Betinho, Marco Aurélio e Paulo Sérgio.

Caminho similar trilhou Luan Santana. O “gurizinho de Jaraguari” começou em pequenos palcos na cidade de menos de 10 mil habitantes próxima a Campo Grande. Seu sucesso foi meteórico, baseado em composições marcantes e numa gestão de carreira altamente profissional e acertada. Assim como a de Conrado e Aleksandro, que fixaram moradia no Paraná e se aproveitaram do contato com o público consumidor e de uma logística de deslocamentos bem azeitada. Outro artista tipo exportação é Loubet, para quem as raízes sul-mato-grossenses são o maior tesouro dos artistas locais. “Desde muito pequeno conheci o chamamé, o rasqueado e a música dos mestres do passado. Até hoje as pessoas pedem isso nos shows. Essa riqueza poucos lugares têm, precisa ser preservada”, prega. O sucesso dos sertanejos sul-mato-grossenses provocou um fenômeno interessante. Artistas de outros estados vêm se mudando para Campo Grande. “É como se a cidade fosse uma grife. Dizer que toca o sertanejo universitário sendo de Mato Grosso do Sul abre portas em alguns casos”, comenta o músico e compositor Marcos Roker, representante da UBC em MS e MT. “João Carreiro e Capataz vieram morar aqui, no auge da dupla, e isso ajudou muito a carreira deles.”

O SOM DO MATO GROSSO “DO NORTE” A cena do Mato Grosso ainda não viveu estouro comparável à protagonizada pelos colegas do lado de baixo do mapa, mas também tem orgulho de sua rica história. Entre os tradicionais ritmos do estado, destaca-se o rasqueado cuiabano, cujas origens também remontam ao fim da Guerra do Paraguai. A grosso modo, pode-se dizer que se trata de uma polca acelerada. Grandes nomes do gênero são Trio Claudinho, Henrique e Pescuma. Mas é recente a guinada de Mato Grosso na direção de um som ainda mais peculiar. O fenômeno do lambadão cuiabano, um ritmo altamente sensualizado, não para se de espalhar e tem suas origens na fusão do rasqueado com a velha lambada. Como o funk carioca, o estilo luta para se livrar da pecha de vulgar enquanto domina a cena da Baixada Cuiabana, a região metropolitana onde vive quase um milhão de pessoas.


20/UBC : DISTRIBUIÇÃO

DIREITOS CONEXOS, UMA BREVE HISTÓRIA A LEI DE DIREITOS AUTORAIS, QUE ASSEGURA AOS AUTORES GANHOS SOBRE SUA OBRA, TAMBÉM CONTEMPLA – DE MODO DIFERENTE – OS MÚSICOS QUE A EXECUTAM NAS GRAVAÇÕES, HABILITADOS A RECEBER UMA PARTE DA DISTRIBUIÇÃO. SAIBA COMO ISSO COMEÇOU

Por Bruno Calixto, do Rio O início dos registros industriais de obras musicais em meios físicos como discos e fitas - pontapé da indústria fonográfica, ainda na segunda metade do século XIX - e a difusão dessas gravações deram origem a um movimento pelo reconhecimento dos direitos dos intérpretes, para além dos direitos dos criadores, estes consagrados antes, no contexto da Revolução Francesa. Mas não foi sem luta que quem interpreta obras alheias em gravações teve assegurados, nas legislações de diferentes países, os chamados direitos conexos. O tema foi muito discutido e estudado até que, depois da II Guerra Mundial, a questão acabou tratada pela Convenção de Roma de 1961, um instrumento multilateral aberto à adesão de novos estados-membro, e a proteção a intérpretes, produtores fonográficos e empresas de radiodifusão (relativamente ao sinal que transmitem) foi consagrada. A partir daí, os direitos conexos passaram a ser tratados nas legislações de diversos países. No Brasil, a Convenção foi promulgada pelo decreto 57.125/65, e o direito conexo foi incorporado na lei 5.988/73, a primeira específica sobre direitos autorais no país, que também determinava que as organizações que atuavam na gestão coletiva de direitos de execução pública se reunissem em um escritório central para a arrecadação e a distribuição dos

valores. Assim, a lei determinou que a gestão dos direitos de autor (autores e editores) e os direitos conexos (intérpretes, músicos e produtores) se desse conjuntamente. A UBC, que havia sido fundada em 1942 por compositores, passou então a aceitar a filiação de intérpretes, músicos e produtores fonográficos. Ao longo dos anos, o país foi aprimorando os instrumentos de proteção aos diferentes executantes de obras artísticas, garantindo-lhes seu quinhão na distribuição. Hoje, produtores, cantores, músicos, arranjadores, atores, bailarinos ou outras pessoas que representem cantem, recitem, declamem, interpretem ou executem obras artísticas têm seus direitos garantidos e, na gestão coletiva de música, têm também valores a receber. No caso dos direitos conexos musicais, o montante que lhes corresponde geralmente equivale a um terço do valor que foi arrecadado, caso o fonograma tenha sido utilizado, e é distribuído conforme a função (41,7% deles para intérpretes; 41,7% para produtores fonográficos; 16,6% para músicos acompanhantes). Os demais dois terços vão para os autores da obra. A definição mais comumente aceita no país para a expressão direitos autorais contempla, a um só tempo, os direitos de autor e os conexos – tanto é assim que o Escritório Central de Arrecadação de Direitos (Ecad) trabalha com as duas


DISTRIBUIÇÃO : UBC/21

modalidades, o que nem sempre acontece em outros países, onde, algumas vezes, há entidades específicas para cada uma. “Nos países europeus, assim como em outras regiões, atuam separadamente as sociedades para a gestão dos direitos de autor daquelas que lidam com direitos conexos”, explica Marisa Gandelman, diretora-executiva da UBC. “Os autores e editores são membros das sociedades de autores, e os intérpretes e produtores fonográficos são membros das sociedades de direitos conexos. Cada uma tem gestão sobre seu repertório e representa uma categoria de titulares de direito. Enquanto isso, no Brasil, conforme acima mencionado, a gestão dos direitos de autor e conexos é feita de forma unificada. Tal unificação é benéfica em alguns aspectos e problemática em outros. Em todos os casos, podemos dizer que o nosso sistema é bastante complexo.” Uns direitos, obviamente, não excluem os outros e podem se misturar, no caso de músicos que executam suas próprias obras. Quando uma reprodução ou uma redistribuição são feitas sem autorização do autor da obra, o detentor de direitos conexos tem a prerrogativa legal de pedir uma retribuição pelo uso de seu trabalho.

DISTRIBUIÇÃO

OBRA

Diante de um processo em pleno desenvolvimento, a classe dos intérpretes comemora a maior proteção de que goza atualmente. “Não é de hoje que me bato, e muito, pelos músicos. A tal ponto que, tanto no ‘Dicionário Cravo Albin’ quanto em nossa rádio digital, que só executa música gravada por brasileiro, eles têm imenso destaque. Sou completamente a favor de todo direito que abrace nossos sofridos instrumentistas”, exalta o pesquisador musical Ricardo Cravo Albin.

FONOGRAMA

DIREITO AUTORAL AUTORIA

DIREITO CONEXO INTERPRETAÇÃO

RENDIMENTO 2/3 PARA A PARTE AUTORAL

RENDIMENTO 1/3 PARA A PARTE CONEXA

DIVISÃO ACORDADA ENTRE OS TITULARES

DIVISÃO PORCENTAGEM FIXA

• AUTORES / COMPOSITORES • EDITORES • VERSIONISTAS

• 41,7% INTÉRPRETES • 41,7% PRODUTORES FONOGRÁFICOS • 16,6% MÚSICOS ACOMPANHANTES


22/UBC : SERVIÇO

"QUANDO REGISTRO UM FONOGRAMA PELO SISRC, A OBRA RELACIONADA TAMBÉM É CADASTRADA PELO PROGRAMA?" Pedro Breder (Rio de Janeiro)

REVISTA UBC: Não, esses registros são independentes. Ao realizar o cadastro do seu fonograma, você apenas informa a qual obra aquela interpretação de refere. A obra é a criação musical em si, ou seja, a melodia e a letra, se houver. Já o fonograma é a fixação da interpretação de uma obra musical em suporte material ou digital. Desta forma, uma única obra pode ser interpretada por diversos artistas e ter diversos fonogramas relacionados a ela. Veja abaixo como realizar o registro da obra e do fonograma: DECLARAÇÃO DE OBRA A obra precisa ser incluída em nosso banco de dados por qualquer um de seus autores, através de um documento chamado Declaração de Obra, ou pela editora, caso esteja editada. Saiba detalhes de como declarar em http://www.ubc.org.br/ servicos/ser_obras.php. REGISTRO DE FONOGRAMA O fonograma somente poderá ser registrado pelo produtor fonográfico. Este é a pessoa física ou jurídica que toma a iniciativa e tem a responsabilidade econômica da primeira fixação do fonograma. O registro deve ser feito através de um software chamado SISRC, que deve ser solicitado à UBC. Feito o registro corretamente, será emitido para cada fonograma um código de identificação utilizado internacionalmente, chamado ISRC. Assista ao tutorial ISRC em www.ubc.org.br/tutorialISRC.


MAIS RÁPIDO, BONITO, INTERATIVO E FUNCIONAL. ASSIM É O NOSSO NOVO SITE, TOTALMENTE ACESSÍVEL TAMBÉM EM SMARTPHONES E TABLETS. UMA IMERSÃO NO MUNDO DA MÚSICA E DOS DIREITOS AUTORAIS EM MUITOS CLIQUES E TOQUES. www.ubc.org.br


NA DÚVIDA SOBRE QUE OBRAS E FONOGRAMAS SEUS JÁ FORAM CADASTRADOS? NÃO SE PREOCUPE. VOCÊ ESTÁ A UM CLIQUE DE ESCLARECÊ-LA.

PORTAL DO ASSOCIADO

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Revista UBC #24  

A Revista UBC é uma publicação trimestral gratuita direcionada a quem faz música.

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