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Em meadosde2020,j áem pl enapandemi a,aTRI BUNADONORTEcomeçouadi scut i r apossi bi l i dadedeapr ovei t armel horast ecnol ogi asqueset or nar am usuai spar aampl i ar oseual canceeseucont eúdo.Foidessadi scussãoquesur gi uai dei adecomeçara ent r evi st arasgr andesper sonal i dadesdapol í t i caedaeconomi anoBr asi l at ual ,sempr e quepossí vel ,porví deo. Noi ní ci o,odesaf i oer ai mensopor quenuncaant esum j or nalnoRi oGr andedoNor t e havi af ei t oal godot i po:pr ocur armi ni st r osdeEst ado,porexempl o,esol i ci t arent r evi st as excl usi vas.Em ger al ,essecont eúdochegavapar aosj or nai spormei odeagênci asde not í ci asesempr evi nhasem queasper gunt aspudessem sert ambém vol t adaspar aa r eal i dadedoRi oGr andedoNor t e. Em j ul ho,a TRI BUNA consegui u a pr i mei r a da sér i e.O deput ado Rodr i go Mai a ( DEMRJ) ,ent ão pr esi dent e da Câmar a dos Deput ados,concedeu ent r evi st a por t el ef one.Aqual i dadedaconver saf oiassegur adagr açasaosest údi osdaJovem Pan News( 93, 5Khz) ,emi ssor aquei nt egr aoSi st emaTr i bunaeest ácompl et andoum ano deexi st ênci a.Ar eper cussãodobat epapof oii mensa. A par t i rdaía sér i e segui u e al cançou out r os1 1 ent r evi st ados,com di r ei t o a doi s expr esi dent es,Mi chelTemer e Fer nando Henr i que Car doso;doi s exmi ni st r os, Henr i queMandet t a( Saúde)eDel f i m Net o( Fazenda) ;doi sgover nador es,Fl ávi oDi no ( Mar anhão)eJoãoDór i a( SãoPaul o) ;edoi smi ni st r osdoSupr emoTr i bunalFeder al, Luí sRober t oBar r oso( ent ãopr esi dent edoTSE)eGi l marMendes. ecent ement e,aTNt ambém consegui uent r evi st araempr esár i aLuí zaTr aj ano,da Mai sr Magal u,umadaspr i nci pai sl i der ançasdaat ual i dadenoBr asi l .Todasessasent r evi st as cont êm anál i sesquenãoseper dem com ot empo.E ai ndaser vem àor i ent açãode qual querum quequei r aent endermai ssobr eoat ualcenár i opol í t i coeeconômi codo Paí s. Pr ovadi ssosãoasent r evi st asdoexmi ni st r oHenr i queMandet t aque,ai ndaem 2020, al er t oupar aanecessi dadedevaci naçãoem massaoquant oant es;eadeGi l mar Mendes,j áconcedi daem 2021,f al andosobr eoqueaLavaJat oset or nou.Out r a t ambém mui t ovál i daéadeDel f i m Net t o,apont andoosr umosdaeconomi abr asi l ei r a. Porumaquest ãoder egi st r ohi st ór i co,aopçãodest eebookf oiapubl i caçãodascapas epági nasexat ament ecomoel asf or am aopúbl i co. Assi m,ol ei t orr ecuper aum poucodo cont ext onoqualasconver sasf or am publ i cadas.Al gumasdessasent r evi st ast r azem consi goum QRCodequet or napossí velacessaroví deodasconver sas. Par aospr óxi mosmesesaTRI BUNApr et endesegui rnessaempr ei t ada,t r azendonovas ent r evi st asexcl usi vascom out r asper sonal i dades.O obj et i voépr oj et aroj or naleo Si st ema Tr i buna cada vez mai s,of er ecendo à sua audi ênci a( l ei t or es,ouvi nt es e i nt er naut as)um cont eúdopr emi um nomesmoní veldosgr andesveí cul osdei mpr ensa noBr asi l . Aocompl et ar71anos,aTNser enovamai sumavez.Eagr adecei mensament eat odas aspessoasquel eem,coment am,compar t i l ham,cur t em ecr i t i cam ( t ambém)ocont eúdo quet odosdi as,noi mpr esso,nar ádi oenodi gi t al ,aj udaoRi oGr andedoNor t ea ent enderar eal i dadeat ual ,com cr edi bi l i dade,pr of i ssi onal i smo,r espei t oecompr omi sso. Tr i bunadoNor t e:vocêconf i a;vocêsei nf or ma.


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EM SEIS MESES, PORTAL DA TN BATE TODOS OS RECORDES DE ACESSOS • PÁGINA 8

Ano 70 • Número 098 • Domingo • 19 de julho de 2020

FUNDADOR: ALUÍZIO ALVES - 1921 - 2006

AGÊNCIA CÂMERA

EX CL U SI V O

ENTREVISTA /// RODRIGO MAIA “Nós não precisamos criar impostos. Nós já temos muitos impostos. Eu acho que a gente precisa é melhorar o gasto público” Presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM), critica possibilidade da recriação da CPMF ou criação de novo tributo. Na opinião dele, “política de criar impostos para resolver problemas do Brasil” jamais gerou resultado. “O dinheiro não chega à ponta”. E é com essa visão que ele receberá terça-feira (21) a proposta da reforma tributária do governo.

« POLÍTICA 5 »

Abertura de empresas no RN tem queda de 25% No primeiro semestre de 2020, volume de abertura de novas empresas na Junta Comercial do Estado registra queda de 25% em relação ao mesmo período do ano passado. As solicitações de baixa de empresas (fechamentos) tiveram aumento de 0,5% no mesmo intervalo de tempo ante os seis primeiros meses de 2019. Estimativa é que os efeitos da pandemia do novo coronavírus sejam sentidos ao longo do segundo semestre, com ampliação nas baixas. « ECONOMIA 1 E 2 »

30 ANOS DO ECA

POLÍTICA ALEX RÉGIS

Eleição em 2020 será a mais diferente dos últimos 36 anos Há muita incerteza sobre o processo eleitoral, mas em um ponto todos concordam: o pleito 2020 no Brasil será o mais diferente desde a redemocratização. E nesse cenário o palanque virtual deve ganhar ainda mais força. « PÁGINAS 3 E 4 »

NATAL

Taxas cobradas por aplicativos encarecem os produtos

« PROTEÇÃO » Mesmo com diretrizes ainda consideradas avançadas, Estatuto da Criança e do Adolescente chega à sua terceira década de existência com muitos pontos que não foram implementados até hoje. Especialistas apontam que o texto precisa avançar. « NATAL 1 »

ALEX REGIS

RODA VIVA

MAGNUS NASCIMENTO

SANTOSFC

RECORDISTA

ALEX MEDEIROS

JORNAL DE WM

Se viva, Noilde Ramalho faria 100 anos neste domingo. « PÁGINA 2 »

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AMÉRICA

Zagueiro Edimar relata a luta da profissão de jogador. « ESPORTES 1 »

Empresa compra terreno para instalar refinaria em Macau. « NATAL 4 » Melhor parte do FLAFLU foi a disputa entre SBT e Globo. « NATAL 3 »

Sem os apps de entrega, durante a pandemia, o comércio teria dificuldades. Mas há também o ônus nessa situação. Segundo os empresários, taxas tornam produtos mais caros. Adivinha quem paga a conta? « PÁGINAS 2 E 3 »

SHOPPING “No segundo semestre haverá boa melhora”

COM CUIDADOS “É o momento: liberase ou flexibiliza-se”

FUTEBOL “Streaming ainda é complemento da TV”

Felipe Furtado, do Natal Shopping, fala sobre o “novo normal” do comércio. « ECONOMIA 3 »

Infectologista Luiz ALberto Marinho acredita que o pior da pandemia já passou. « FAMÍLIA 1 »

ABC e América têm 1 milhão de seguidores. José Colagrossi (Ibope) avalia streaming. « ESPORTES 2 »

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Ex-ABC e América, Júnior Negão é o artilheiro do novo normal. « ESPORTES 3 » RUBENS LEMOS FILHO

Faltam craques como Moura e Sérgio Alves para nosso futebol. « ESPORTES 3 »

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Natal - Rio Grande do Norte Domingo, 19 de julho de 2020

política

5

»ENTREVISTA » RODRIGO MAIA “Não precisamos criar impostos, mas sim melhorar o gasto público” PRESIDENTE DA CÂMARA DOS DEPUTADOS

O

presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, deve receber das mãos do ministro da Economia, Paulo Guedes, na próxima terçafeira (21), a proposta de reforma tributária do governo federal. Nesta entrevista à TRIBUNA DO NORTE, Rodrigo Maia afirma que está otimista com a possibilidade da discussão avançar na Câmara. Mas destaca que a mudança deve ser na direção de simplificar o sistema tributário. O presidente da Câmara rejeita a recriação de um tributo como a CPMF, mesmo se for, como defende setores da equipe econômica, com a justificativa de desonerar a folha de pessoal das empresas. Para ele, há outros caminhos que podem viabilizar a desoneração. “Nós não precisamos criar impostos. Nós já temos muitos impostos. Tiram da sociedade todo ano 36% das riquezas dos brasileiros. Eu acho que a gente precisa melhorar o gasto público.”, destaca Rodrigo Maia. Ele afirma também que não vai haver tramitação dos pedidos de impeachment contra o presidente Jair Bolsonaro durante a pandemia.

« LEGISLATIVO » Presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia

rejeita a possibilidade de recriação de um tributo semelhante à CMPF FOTOS:AGÊNCIA CÂMERA

de garantir as despesas mínimas pra essas famílias. Há alguns dias o presidente Jair Bolsonaro não dá declarações que criem situações de conflito graves com a Câmara e o Senado. A expectativa é de que isso possa ser permanente?

Minha expectativa é possa continuar em um ambiente de bom diálogo. É claro que o presidente foi eleito com um perfil de mais contestação, então vai garantir suas críticas e posições que “falam” com seu eleitor. Mas com diálogo, vamos organizando as relações e garantindo as condições para, com a harmonia dos três poderes, o país passar melhor por essa crise. O senhor não é candidato este ano, mas é um dos líderes do DEM, que um partido que tem com presença nacional. Como o DEM vai se posicionar nesta eleição, particularmente em Natal?

Como está o debate da reforma tributária? O ministro da Economia, Paulo Guedes, deve apresentar a proposta dele na terçafeira? Como está a discussão na Câmara e qual o rumo que terá a partir de agora?

A Câmara e o Senado vêm fazendo esse debate desde o ano passado sabendo da importância que a simplificação de impostos tem para a melhoria das condições de investimento das empresas estrangeiras e brasileiras. A gente acredita que essa é uma reforma muito importante porque vai gerar condições de o Brasil voltar a crescer de forma sustentável e gerar emprego. Agora, o governo vai encaminhar na terça-feira (21) parte daquilo que pensa sobre impostos mas na linha daquilo que a Câmara vem debatendo. Tratar dos impostos sobre consumo, PIS e Cofins. Isso também é tratado nas duas emendas constitucionais. Então, nós vamos receber a proposta, avaliar qual o melhor cronograma de votações: se é melhor votar a proposta que o governo encaminhar primeiro e depois a emenda; ou se votamos tudo dentro da emenda. Esse é um debate que a gente vai fazer em conjunto com o Governo, com os partidos, sem preocupação por protagonismos, mas sabendo da importância que é a mudança do sistema de impostos sobre consumo, que hoje gera muitas distorções e muitos conflitos no Supremo Tribunal Federal (STF). E mais do que isso: trava o crescimento da economia. Travando o crescimento da economia, trava a geração de empregos no nosso país, que sempre foi o problema e que agora, na pandemia e no pós-pandemia, vai ser ainda maior. O senhor vê possibilidade da reforma tributária ser aprovada ainda este ano?

Acredito que sim. Na hora em que o governo apresenta uma proposta e que a Câmara e o Senado estão empenhados nessa discussão... Eu sou muito otimista que a matéria avance. E que pelo menos em uma das duas casas - principalmente na Câmara, onde será votada primeiro - a gente deve avançar com a reforma tributária. O senhor acha que há possibilidade da recriação da CPMF?

Eu pessoalmente sou contra. Se o governo encaminhar a proposta eu vou votar contra, mas o governo - a equipe econômica - insiste que é um tributo bom para o Brasil. Eu discordo. Eu acho que é um tributo que onera demais a sociedade, principalmente para os brasi-

O nosso debate - no meu ponto de vista não deve ser nunca criar novos impostos. Pelo contrário, é simplificar: reduzir o tamanho do Estado.”

leiros mais simples; aumenta a carga tributária, um volume alto de arrecadação; e atrapalha a produtividade do setor privado brasileiro. Trava o crescimento da economia, no meu ponto de vista. O governo pensa diferente. Eu espero que o Brasil não recrie esse imposto e nenhum outro imposto. O que está sendo cogitado é um imposto sobre transações digitais para desonerar a folha. Nesses termos, o senhor concordaria?

Olha, eu acho que, para desonerar a folha, nós não precisamos criar impostos. Nós já temos muitos impostos. Tiram da sociedade todo ano 36% das riquezas dos brasileiros. Eu acho que a gente precisa melhorar o gasto público. Essa política de criar imposto para resolver problema vem sendo feita nos últimos 20 anos. Aumentamos a carga tributária do Brasil em 9%, 10% e resolveu o problema? A economia cresceu? Geramos emprego? Não. O dinheiro acabou indo para onde? Para a máquina pública. Para as atividades meio, para as despesas obrigatórias. Esse dinheiro nunca chegou na ponta. Temos outros instrumentos para desonerar a folha. Da forma como estão colocando - eu não vi a redação ainda, porque o governo não apresentou - isso aí nada mais é do que uma alíquota extra do novo imposto sobre consumo que deve ser criado. Na verdade, quando você faz uma compra no ambiente digital, depois vai gerar uma fatura que terá uma alíquota. Então, eu acho que aumenta o custo nas transações no mundo digital. O governo federal custa R$ 1,5 trilhão e a sociedade sempre reclama do que paga de impostos, da falta de eficiência nas políticas públicas, na

O DEM vai trabalhar para fortalecer o partido e eleger um número grande de prefeitos e vereadores. Agora, cada diretório municipal e estadual tem sua liderança, com liberdade e independência para cuidar do partido. No Rio Grande do Norte, o presidente José Agripino, que foi presidente nacional do partido, vai construir a melhor alternativa para ter ou não candidato. Essa é uma decisão de cada diretório municipal, com a liderança do ex-senador José Agripino.

Apenas deixar claro que se um dia essa matéria for votada na Câmara, enquanto for deputado, eu vou trabalhar e vou votar contra a proposta [de recriação da CPMF].”

qualidade da educação, da saúde e da segurança. O nosso debate no meu ponto de vista - não deve ser nunca criar novos impostos. Pelo contrário, é simplificar: reduzir o tamanho do Estado, reduzir ao longo dos próximos anos o custo que a sociedade paga para sustentar o Estado; para que a gente possa até pensar - em médio prazo - numa redução da carga tributária. Eu acho que isso é um sonho de muitos brasileiros que hoje se sentem prejudicados por tantos impostos pagos para o Estado brasileiro. Se o governo insistir em recriar a CMPF o senhor manterá a disposição de lançar a campanha "xô CPMF"?

Eu falei isso meio que lembrando que houve uma grande campanha que muitos participaram, inclusive alguns que hoje estão na base do governo. Eu acho que a sociedade é que vai acabar criando uma campanha como essa. Que não é só contra a CPMF. Ninguém aguenta mais criar novos impostos. Isso é muito ruim. Você vai dizer que é para desoneração da folha? E o que tem acontecido nos últimos anos? O serviço público tem melhorado? Não. Então eu acho que se o governo mandar a proposta, vai ter uma campanha que não será pequena. Fiz uma sugestão de forma simbólica. Até porque como presidente da Câmara não me cabe liderar uma campanha dessas. Apenas deixar claro que se um dia essa matéria for votada na Câmara, enquanto for deputado, eu vou trabalhar e vou votar contra a proposta. A pandemia interrompeu uma série de discussões no Congresso. A reforma administrativa e outros assuntos. Isso vai ser retomado?

Essa é hoje a minha preocupa-

ção. Se a gente voltar a discutir criação de impostos - como foi feito nos últimos 20, 30 anos - para resolver problemas que o Brasil tem, nós vamos esquecer esse grande debate. Nós precisamos ter esse grande debate, que é o PEC Emergencial que está no Senado, e desindexa despesas. As despesas públicas hoje crescem, independente de decisão governo aumentar ou não... Precisamos discutir uma administração pública com redução de burocracia, melhorando a qualidade dos serviços públicos. Esse debate a sociedade tem cobrado da gente para melhorar a qualidade dos gastos públicos e reduzir o tamanho do estado para atuar naquilo que é fundamental, que é cuidar dos mais vulneráveis, da qualidade da educação, da saúde, da segurança. Esse debate é o debate que a sociedade está exigindo. Acho que esse debate sobre a reforma administrativa o governo devia encaminhar. Vai encaminhar a parte tributária, deveria tentar encaminhar a discussão da reforma administrativa e discutir com o Senado a retomada da discussão da PEC Emergencial, que trata da desindexação do orçamento. Nesse período agora de retomada depois da pandemia, qual vai ser o papel da Câmara na condução desses assuntos?

No segundo semestre, a gente pretende fazer esse debate da reforma tribuária, da reforma administrativa, se o governo mandar, porque o encaminhamento do projeto de lei [sobre o tema] é exclusivo do governo federal. E, claro, pensar em projetos que venham melhorar o ambiente para investimentos para o Brasil. Uma preocupação grande nesse debate, exatamente, é como vamos tratar os brasileiros

que vão ficar sem empregos. Muitas empresas vão fechar, principalmente as micros e pequenas empresas. Muitos serviços também vão estar limitados. Por isso a redução de despesas é tão importante para que a gente possa aplicar o dinheiro público nas garantias mínimas pra todos os brasileiros e junto com isso a reforma administrativa que melhore o gasto público. O brasileiro ou qualquer cidadão de qualquer país hoje residente na América Latina rechaça a criação de impostos, porque nunca vê os recursos desses novos impostos chegando na melhoria da qualidade dos serviços públicos nas suas vidas. O calendário final do auxilio emergencial até o fim do ano já foi divulgado, a Câmara pretende trabalhar para estender um pouco mais esse auxilio para a população que mais precisa?

Temos que entrar no debate sobre qual é o programa permanente que o Brasil quer para depois da pandemia. Temos o bolsa família, que já tem aí 17 anos, e precisamos discutir o que deu certo, o que deu errado, quais são todas as vulnerabilidades dos brasileiros mais pobres, discutir a pobreza no campo multidimensional, não apenas na questão da transferência de renda. Temos questões também que impactam a vida dos brasileiros como saúde, educação e saneamento, que impacta inclusive o resultado do Enem. Nós temos uma pesquisa no estado de Minas sobre isso. Então vamos discutir o que deve ser uma política permanente de renda mínima e qual deve ser o seu foco pra que a gente possa entender de forma correta se isso de fato tem mais vulnerabilidades e se tem menos condições

Com relação a 2022, tem aparecido no DEM nomes que se destaca no partido, como o ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, o senhor... O DEM poderá um destes nomes como candidato a presidente da República? O senhor avalia ser uma opção para candidatura?

Está muito longe para pensar em nomes. Caiado e Mandetta são ótimos nomes, com prestígio e respeito na sociedade. Mas não é hora de discutir nomes. Este é o momento de fortalecer o partido para ter chance de viabilizar uma candidatura. Para isso, o resultado da eleição 2020 é muito importante. Não adianta ter um bom candidato que não tenha apoio nos Estados e na maioria dos municípios do país. Acabaria sendo uma candidatura frágil. Então, o importante é passar bem pelas eleições deste ano. E, a parti daí, com esse resultado, construir as condições para ter um nome para a Presidência da República. Há dezenas de pedidos de impeachment apresentados contra o presidente da República. Como analisa e quais desdobramentos vai dar a esses pedidos?

Todos têm direito de fazer o pedido [de impeachment]. Mas no momento da pandemia a nossa pauta é esse problema que a população enfrenta. No momento da pandemia, impeachment não está na pauta da Câmara dos Deputados. A reforma administrativa ainda tem chance de ser aprovada este ano?

Tem chance de avançar bem. O problema é que o segundo semestre de 2021 é [praticamente] início de eleição de 2022. Tudo que tenhamos de fazer tem que começar já para terminar no final do primeiro semestre do próximo ano.


» PARA ESPECIALISTAS, GESTÃO FINANCEIRA NO FUTEBOL É ESSENCIAL • ESPORTES 4

TELEVISÃO

Decisão poderia beneficiar 2 mil pessoas no RN

E agora? Quem poderá nos defender?

Cultivo para uso medicinal da planta beneficiaria milhares de pessoas no RN. « NATAL 1 E 2 »

Após 33 anos, SBT não poderá mais exibir os seriados do Chaves e do Chapolin. « FAMÍLIA 4 »

DIVULGAÇÃO

CANNABIS

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Ano 70 • Número 110 • Domingo • 02 de agosto de 2020

FUNDADOR: ALUÍZIO ALVES - 1921 - 2006

NO BRASIL

Covid também mexeu com a alimentação De cada 10 brasileiros, 4 mudaram hábitos alimentares durante a pandemia. « FAMÍLIA 1 »

A um mês das convenções, 15 querem ser prefeito de Natal

LUIZ HENRIQUE MANDETTA

EX CL U SI V O

FERNANDO HENRIQUE CARDOSO

Médico e ex-ministro da Saude do Brasil

Sociólogo e ex-presidente do Brasil

“A única coisa que eu sei é que eu não gosto de polarização”

“O País precisa recuperar a economia e a crença em si mesmo”

Ex-ministro da Saúde e possível candidato em 2022 avalia o atual estado da pandemia e comenta os efeitos que a doença ainda terá sobre os brasileiros. Ele evita falar sobre 2022, diz que ainda é muito cedo, mas solta uma pista sobre o futuro. « PAGINA 8 »

Ex-presidente analisa atual situação do País, sua conjuntura econômica e política. Para ele, a desigualdade precisa ser combatida e seu apoio em futura eleição pode ir para qualquer um que tenha essa visão acerca do Brasil. « PAGINAS 3 E 4 »

LIVE

Tribuna estreia TN Business, com Flávio Oliveira, quarta-feira (5) Tribuna apresenta a partir desta semana live voltada ao mundo dos negócios que contará com a força da integração de todos os canais de conteúdo do Sistema. « PÁGINA 7 »

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Vendas do Dia dos Pais devem movimentar R$ 17,9 bilhões Isso representa 9 pontos a menos nas intenções de compra em comparação a 2019. Em Natal, 57,7% dos consumidores não pretendem gastar com presentes. « ECONOMIA 1 E 2 »

O legado de seu Manelito de Taperoá, exemplo para o Brasil

Assinaturas: 4006-6100 Venda avulsa: 4006-6113 Comercial:

O Nordeste perdeu dia 28 de julho Manoel Dantas Vilar Filho, seu Manelito, pecuarista paraibano reconhecido como exemplo sem igual de resistência no semiárido. Conheça sua história. « NATAL 3 »

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RODA VIVA

JORNAL DE WM

RN testa camarão da Ásia que pode chegar a meio quilo. « NATAL 4 »

Manelito deixa muitas lições. E saudades também. « PÁGINA 2 »

ALEX MEDEIROS

RUBENS LEMOS FILHO

ARTIGO

EMERGÊNCIA

Tuitada de Carlos Eduardo está gerando apostas. « NATAL 3 » A importância de saber pedir ajuda em tempos de covid. « PAGINA 2 » NO FACEBOOK

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FUNDÇÃO FHC

AGÊNCIA CÂMERA

Dos 33 partidos que atuam no Rio Grande do Norte, 45% deles pretendem ter candidato à Prefeitura de Natal. Isso equivale a 15 nomes, dos quais alguns já assumiram publicamente a candidatura e outros aparecem em pesquisas, mas ainda não anunciaram oficialmente. « PÁGINA 6 »

O ponta-direita foi eliminado, aos poucos, do futebol. « ESPORTES 3 »

Maternidade Januário Cicco entra em colapso e fecha as portas. « PÁGINA 7 » NO TWITTER

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Natal • Rio Grande do Norte Domingo, 02 de agosto de 2020

política

Cena Urbana VICENTE SEREJO SEREJO@TERRA.COM.BR

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»ENTREVISTA » FERNANDO HENRIQUE CARDOSO EX-PRESIDENTE DA REPÚBLICA

FUNDÇÃO FHC

ALDEMAR FREIRE E VALDIR JULIÃO

O Diário da Quarentena - LXLVII Todo mundo, em algum momento, cedo ou tarde dos dias, teve ou tem a mesma vidinha do poema ‘Noturno Resumido’, de Murilo Mendes, vivendo aqueles versos melancólicos, do sono atravessado na cama que comprou a prestação. Ou, uma tristeza qualquer, mesmo calma, como ainda no poema, uma ‘vizinha sestrosa da janela em frente’ que ‘tem na vida um camarada / que se atirou do quinto andar’. Ora, ora, tristeza é tristeza, de um jeito ou de outro. Tanto faz. Minhas vidinhas foram várias, vividas de casa em casa, todas alugadas, e emprestando uma riqueza que só descobri muitos anos depois. Não teria colecionado ruas e vizinhos se não fosse a pobreza mansa que fazia a família andar com seus poucos móveis num caminhão de mudança. A vida exposta, é verdade, mas em compensação sem segredos a negar e vergonhas a esconder. A vida como era para ser - com seus quintais, onde minha mãe plantava esperança. Com o tempo, as tristezas, como eram poucas e fracas, foram murchando e renascendo a vida nas casinhas que íamos morando. E, à sombra daquelas mangueiras generosas como tias velhas, os frutos maduros da memória mais distante. Casa própria, como se dizia, só hoje vejo, tem essa coisa de não se sair mais nunca do lugar. E cada casa, se não é difícil compreender, tem seu jeito de ser, os pequenos segredos, sem os quais a vida seria muito triste e sem graça. Na Pinto Martins, bem lá embaixo da ladeira, olhando do alto um pedaço de mar, vivi os primeiros anos em Natal. O Alto do Juruá era como um enclave, quase aldeia, de casinhas que se acocoravam nas suas ladeiras humildes, e assim ligavam, como cobras, suas pequenas ruas num traçado de caminhos rendados. Como até hoje. A capela, agora Igreja do Padre João Maria, nascia, mas ainda sem torre para o céu e sem sino tocando as trindades do anoitecer.

Meu vizinho do lado era um ex-ferroviário que ouvia ‘Jerônimo, o herói do sertão’. Vinham de lá e caíam nos meus ouvidos os acordes iniciais da trilha sonora. Depois, chegavam os versos lendários das suas aventuras dos que um dia passaram pelo sertão e ouviram sua história. Sempre. E a propaganda até hoje zunindo na memória afetiva: ‘Melhoral, Melhoral, é melhor e não faz mal!’. E a voz cavernosa que dizia, solene: ‘Original de Moisés Weltman’. Nossa casa ficava mais alta e era possível ver seu terraço pela nesga aberta entre o muro e o beiral das telhas. Aos domingos, talvez para acalmar a solidão da sua dor, guardada, quem sabe, a sete chaves, olhava longamente o mar e tomava sua cerveja. Uma hora, de tanto olhar, saía e logo voltava lá de dentro com seu saxofone de um dourado já azinhavrado. E derramava no silêncio da tarde que apenas nascia canções muito tristes, como se fossem mágoas de amor.

eee PALCO eee NOVO - O silêncio do senador

Jean-Paul Prates, apontado opção para disputar a Prefeitura de Natal, é de quem cala e consente. Seria o símbolo ‘novo’ na concepção do receituário petista.

CPMF - Como ninguém sabe o que é ‘neoliberalismo’, é natural que faça aquilo que os liberais autênticos jamais fariam que é criar e aumentar imposto, numa economia saturada de tributos.

TESE - Na visão de alguns setores do PT, há um vazio no eleitorado natalense e uma marca nova pode despertar esse voto silencioso. Resta saber o que o PT entende como sendo o novo.

ZERO - O RN ficou de fora da relação de projetos culturais a serem financiados pela Petrobrás e tem dois ministros de estado no Governo Bolsonaro. Nosso desprezo pela cultura é histórico.

TROCO - A retirada da PEC das

emendas, assegura a esta coluna um deputado de oposição, foi vingança do governo. Se foi, não pode voltar sem correr o risco de parecer uma chantagem.

VÉU - De um deputado estadual com anos de passos nos corredores lustrosos da Assembleia ao ouvir que o presidente da casa só tem hoje o apoio de metade dos 24 deputados: “Só pantim”.

SERÁ? - Fonte ligada ao staff

LUTA - De Nino, o filósofo me-

íntimo do governo advertiu, numa linha de e-mail, com um aviso curto assim: ‘Não aposte que é impossível pagar pelo menos uma das duas folhas em atraso’.

lancólico do Beco da Lama, ouvindo um ex-petista encher o PT de defeitos: “O ex-petista é como o ex-comunista: passa a vida tentando apagar o passado”.

eee CAMARIM eee BRILHO – A série de treze episódios da Amazon com base na ‘História da Alimentação no Brasil’, de Câmara Cascudo, ganhou uma página da revista ‘Veja-saúde’, nas bancas. Revela Cascudo como ‘o desbravador dos pratos’. Com destaque para a mandioca, o milho e a banana. BANDIDO - Quem desejar conhecer, sem sair da poltrona, a

vida de João de Deus, o médium com alma de bandido que usou a boa-fé do espiritismo, a livraria do Campus, na UFRN, já tem à venda ‘A Casa’, de Chico Felitti. É a história dessa seita agora já desmascarada e condenada.

ALIÁS - Por falar em bandido: quando é que a Assembleia Legislativa vai cassar o título de Cidadão Norte-Rio-Grandense concedido ao médico Roger Abdelmassih, o monstro que feriu nas mulheres o sublime desejo da maternidade? Alguém, neste RN, quer ser seu conterrâneo?

ex-presidente Fernando Henrique Cardoso faz, nesta entrevista exclusiva à TribunadoNorte,umaanálisedaconjuntura econômica e política do país, da atuação do governo Bolsonaro na pandemia e das implicações, no Brasil, da eleição nesta ano para presidente dos EUA. Para FHC, a desigualdade precisa ser combatida com a mesma prioridade com que a inflação foi nos anos 90, quando ele exercia o cargo de ministro da Fazenda e liderou a implantação do Plano Real. O apoio de Fenando Henrique a um candidato na disputa pela sucessão do atual presidente depende de quem vai consolidar uma liderança após as eleições municipais, com uma visão de “país integrado a um mundo globalizado, sem deixar de defender os interesses nacionais”.

Se considerarmos o momento da eleição de Tancredo Neves, são 35 anos de redemocratização. Ao longo deste período, o senhor participou dos acontecimentos país. Foi presidente por dois mandatos seguidos, liderou a mudança e estabilização da moeda quando esteve no Ministério da Fazenda. Ao observar este momento atual, considera que avançamos tanto quanto o imaginava quando participava das articulações da redemocratização, da constituinte e de outros episódios nestas três décadas?

As instituições democráticas estão funcionando. Isso é importante. Não há democracia sem liberdade de imprensa. A nossa mídia tem liberdade e sabe usála. Critica, fala e não há quem tente segurá-la. Isso é muito positivo. Depois, a sociedade mudou para melhor, apesar de todas as crises. E nós vivemos em uma crise tremenda neste momento. Se olharmos o que era e o que é hoje, o Brasil se urbanizou mais, mas, ao mesmo tempo, tem uma agricultura pujante, um setor financeiro forte. Mas o importante é o bem-estar das pessoas. E tem muita gente na pobreza. Agora, com essa crise, vai aumentar. Mas, ainda assim, acho que conseguimos reduzir algo daquela tragédia que nós vivíamos [nos índices de pobreza do país]. Portanto, o saldo da democracia é positivo e o povo parece que tomou gosto por escolher. Não que eu não possa criticar escolhas feitas, mas são escolhas do povo. Isso é muito bom [ter a livre escolha popular]. Quando esteve no ministério da Fazenda e depois na Presidência, o senhor conduziu o Plano Real, que superou a inflação, algo que o brasileiro estava até habituado, embora sofresse com suas implicações econômicas e sociais. Qual é o problema hoje que deve ser enfrentado, com a prioridade que a sociedade, lideranças políticas, empresariais, instituições foram convencidas a dar na época que se enfrentou a inflação com o Plano Real?

Acho que hoje o prioritário é diminuir a desigualdade. Estamos vendoagora,nessapandemia.Embora no começo o vírus tenha penetrado nas classes altas, hoje está atingindo os mais pobres. A desigualdade não pode ser considerada por nós como algo natural. Temos que reagir contra a desigualdade. Não estou propondo que haja igualdade absoluta, porque isso depende de fatores que transcendem a possibilidade humana, mas dizendo que há níveis de desigualdade que são inaceitáveis, porque levam à pobreza muito elevada. Essa é a preocupação central: Garantir políticas públicas capazes de compensar a situação que existe hoje de muita desigualdade. E esse problema tem se agravado?

No meu governo e no de Lula, houve uma relativa diminuição da desigualdade.Agoranãosóporcau-

‘É preciso despertar confiança na economia’ « CONJUNTURA » Ex-presidente afirma

que o Brasil precisa “acredita em si mesmo” para voltar a atrair investimentos

Aqui o bom senso levaria a um equilíbrio entre a presença governamental e a do mercado. O mercado resolve os seus problemas, que não são, necessariamente, da maioria.”

O que for possível passar para o setor privado, sendo legítimo, que se passe. Mas o governo precisa ter alguns instrumentos.”

sadogoverno,mastambémporcausa da pandemia, temo que haja um processo de aumento da desigualdade. O Congresso Nacional começou a discutir a reforma tributária. Avalia que as propostas em discussão estão indo na direção adequada para melhorar o sistema tributário do país?

O sistema tributário no Brasil é muito complexo, burocratizado, custa caro mantê-lo. Isso requer burocracias públicas e das empresas. Esse é um problema difícil, porque não se trata simplesmente de propor uma boa reforma, trata-se de vencer as resistências daqueles que vão ter de pagar. Os governos sabem quanto necessitam e sempre precisam [arrecadar] mais. E as pessoas não gostam de pagar. Por que se chama imposto? Não é voluntário. Na hora da “onça beber água”, quando se toma uma decisão, os que me-

nos forças têm, acabam sendo os que mais pagam. A reforma é necessária, vamos fazê-la, dar um passo adiante, mas isso vai progressivamente. Não é que se vá de uma vez do ruim para o bom. Vai melhorando no que for capaz. O atual ministro da Fazenda tem vertente mais liberal. O senhor sempre foi social-democrata. Considera que Paulo Guedes está no caminho certo? É possível implementar esse liberalismo econômico no Brasil?

Acho muito difícil. Na situação atual, quase impossível, porque o ministro bate de frente com a crise. A dívida pública vai crescer muito.Asboasintenções[dePauloGuedes] vão se diluir na realidade brasileira, que obriga governo a tomar responsabilidades que em outros países não são tão necessárias. Acho que aqui o bom senso levaria a um equilíbrio entre a presença governamental e a do mercado. O mercadoresolveosseusproblemas, que não são, necessariamente, de igualdade, da maioria. Então, o governo tem que cuidar desses outros problemas também. É pouco provável que, com uma agenda abertamente liberal, nas circunstâncias brasileiras, especialmente agora com a pandemia, encontre êxito daqui para frente. Talvez a discussão conduzida nesses termos – liberal versus estatizante - esteja superada?

Acho que não existe mais. A oposição não é entre mercado e governo. Nós precisamos de mercado e de governo. Obviamente, o que for possível o mercado, através da competição real tomar conta, é melhor. Mas há setores que não se resolvem via mercado. Então é necessário ter políticas públicas. Também não se pode imaginar que o governo vai ocupar todos os espaços de uma sociedade complexa como a nossa. O ministro Paulo Guedes chegou a afirmar naquela reunião ministerial, que teve o teor divulgado por decisão do STF, que defende a privatização do Banco do Brasil. O governo tem planos também de privatizar os Correios e a Eletrobras. O governo do senhor foi marcado por um programa de privatização muito forte em alguns setores. Considera que se deve privatizar mais no Brasil?

Não acho que seja a prioridade maior. Claro que o que for possível passar para o setor privado, sendo legítimo, que se passe. Mas ogovernoprecisateralgunsinstrumentos.OBancodoBrasiléuminstrumento de crédito e de regularização,porexemplo,dataxadecâmbio. O Brasil precisa disso. Precisa ter instrumentos efetivos na mão do governo para que se possa atuar a favor dos objetivos nacionais. Imaginar que resolve tudo privatizando,vaificarnaimaginação,porque na realidade não vai ser efetivado assim. Eu mesmo quebrei o monopóliodeumsetorqueerasímbolo, o do petróleo. Não sou contrário à privatização, mas acho que não se pode ter uma bandeira apenasdaprivatização.Achavedoêxitoéacompetição.Masondehámonopólio é mais difícil. Agora o país está discutindo algo muito importante, que é a questão sanitária, esgoto e água. Aí, havendo competição, é bom, porque são mais capitais que vêm, mas vai precisar de regulamentação do governo. Isso não quer dizer que resolve privatizandotudooqueestánamãodoestado, resolve criando oportunidades para o setor privado competir também. Como o senhor vê a atuação do governo Bolsonaro com relação à pandemia de coronavírus?

Eu achei muito irresponsável, porque mudar ministro de Saúde em plena pandemia já é um sinal de dificuldade, de não ter uma estratégia clara no assunto. O próprio presidente dá exemplos que não são condizentes com a situação, ao andar em aglomerações, não usar máscaras, enfim, não usar nenhuma proteção. Tem sido uma condução pouco acertada diante da realidade brasileira e mundial. A atuação do Supremo Tribunal Federal e mesmo outras instâncias do Judiciário tem provocado algumas discussões e polêmicas. Há quem aponte um certo ativismo, no caso dos inquéritos das "fake news" e dos atos que foram apontados como antidemocráticos. Iniciativas como essas extrapolam as atribuições do Poder Judiciário?

Não acho que chega a esse ponto, não [de extrapolar a atribuição do Poder Judiciário]. Acho que estávamos acostumados a um Judiciário pouco eficaz para resolver questões do mundo contemporâneo. O Judiciário agora é desafiado por muitas questões nas quais vai ter que entrar. Neste assunto fico com Montesquieu: “O equilíbrio dos Poderes é fundamental”. E há um certo equilíbrio entre os Poderes. Na medida em que o Executivo às vezes tenta ultrapassar o limite, o Judiciário não deixa. Também se o Judiciário começar a ultrapassar os limites, cabe ao Senado controlar. Mas não acho que tenha havido realmente essa ultrapassagem ilegítima de limites.

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Continuação da entrevista.


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Natal • Rio Grande do Norte Domingo, 02 de agosto de 2020

política

»ENTREVISTA » FERNANDO HENRIQUE CARDOSO EX-PRESIDENTE DA REPÚBLICA

FUNDÇÃO FHC

O senhor declarou em algumas oportunidades que o impeachment não é uma alternativa a ser considerada. Continua com essa impressão?

Quando tem impeachment? Quando o presidente incorre em alguma coisa contra a lei e a Constituição, reiteradamente, e ele perde a maioria no Congresso Nacional. E quando o povo exige uma mudança, começa a se manifestar. Com a pandemia, o povo está em casa, com medo da doença. Eu posso não concordar com o governo, mas não acho que seja o caso de impeachment. Espero que não venha a ser de impeachment, porque deixaria marcas. Veja os impeachments que fizemos. Eu participei, porque era senador, do impeachment no tempo do presidente Collor. Depois, no impeachment da presidenta Dilma, já não era mais senador, mas sempre participava da política. Lembro que no impeachment do Collor, Ulysses Guimarães, eu e outros mais, resistimos muito à ideia, não porque quiséssemos ou não tirar o governo, mas porque tínhamos medo das consequências. Mas chega o momento que não tem solução, o presidente incorre em tantos erros que acaba não tendo solução. Esse é o risco do presidente não se dar conta, hoje, de perder a maioria do Congresso. É grave, mesmo quandosepensaqueospartidosnãotêm poder. Os partidos não têm força no Brasil. Na verdade no Congresso eles têm poder. Quando os governos se chocam de frente com o Congresso, quem perde são os governos. Isso pode acabar criando uma situação insustentável?

Não é bom. Mas às vezes é inevitável, quando incorre em situações que não tem mais saída e quando o povo exige. Não acho que chegamos a esse ponto e não é o desejável. Eu não votei no presidente Bolsonaro e voltarei contra na próxima ocasião. Mas o ideal é que seja no voto. Não votou nem no 2º turno?

Não votei. Anulei o voto no segundo pela primeira vez na vida.

Para 2022, já tem uma posição?

Não. É cedo. Vamos ter agora eleições municipais. Eleição municipal é muito importante, sobretudo, porque os eleitos apoiam, no futuro, o candidato a deputado. Essa é a posição política mais geral, não tem vinculação direta com a votação para presidente da República e, realmente, para o povo, eleição presidencial só começa depois de eleição municipal. Os políticos se afligem desde já e os jornalistas também, começando por fazer algumas especulações. Mas acho que é cedo. É preciso esperar um pouco a passagem do tempo das eleições municipais e aí então se coloca a questão presidencial. Eleição não é só a questão de ter uma razão em abstrato, é ser sempre capaz de tocar o sentimento das pessoas, além de ter razão, vamos ver quem vai ser capaz [de falar ao sentimento das pessoas] nas próximas eleições. O senhor foi muito marcado por uma gestão direcionada para ajuste fiscal. A Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) foi daquele período. Agora estamos vendo o déficit público pode superar R$ 500 bilhões, em função da pandemia. Isso vai ter implicações preocupantes?

Preocupa muito, porque se perder o olho fiscal, tudo vai para trás. Não digo que vai voltar a inflação, mas sempre pode haver esse perigo. E o governo também fica inativo. Isso não pode. Então é mais importante ainda saber qua-

Certamente que dificulta e enfraquece o partido. Não há dúvida. Isso aconteceu com PSDB, MDB, PT e com outros partidos. E, o mais grave, com partidos que se proclamavam mais isentos de corrupção. Esses foram alcançados também. Enfraquece, o que não quer dizer que não seja possível que líderes apareçam nesses partidos e que tentem, enfim, recolocar as coisas. Quando respondeu sobre potenciais lideranças nacionais, não citou nomes de esquerda. Há dificuldades que inviabilizam que sejam alternativas políticas nacionais nomes como o ex-presidente Lula, o governador do Maranhão Flávio Dino, o ex-ministro Ciro Gomes?

‘Governo deve ter clareza no projeto de privatização’ « CONJUNTURA » Ex-presidente Fernando Henrique

afirma que não votou em Bolsonaro, critica o atual governo, mas discorda dos pedidos de impeachment

Posso não concordar com o governo, mas não acho que seja o caso de impeachment. Espero que não venha a ser de impeachment, porque deixaria marcas.”

Mas em 2022 não vai ficar em cima do muro...

Não foi ficar em cima do muro. É dizer que não estou de acordo nem com um lado, nem com o outro. Como tem segundo turno, há necessidade de escolher ou dizer quenãoestácomnenhumdosdois.

dos], enfraquece o partido?

lificar o que tem e o que não tem nos gastos. O gasto público pode continuar a existir mesmo que haja menos recursos, mas é preciso concentrar no que é essencial. O essencial não é pagar a burocracia, que é obrigado pela lei, mas saber onde é que coloca os recursos. Por isso, vai ser importante que o governo defina com mais clareza o projeto de privatização, porque haverá menos recursos para o estado fazer. Vai precisar trazer mais confiança na economia. O governo tem a ver com estabilidade, não ser só bom gestor do dinheiro público, mas também despertar confiança na economia. Com relação a assunto relacionado à inflação, com viu o anúncio que haverá cédula de R$ 200,00?

Era melhor que não houvesse. Por mais que queira disfarçar, é um sinal muito preocupante. É sinal de que a inflação pode voltar?

Achoqueaindanão.Nãovejosinais de inflação, porque é algo que só volta quando o consumo começaacrescerenessemomentoaspessoas não estão consumindo. Estamos talvez caminhando para a maior recessão da história do país, por causa da pandemia. No governo Dilma, houve uma das maiores do período republicano. Embora não seja economista, mas sociólogo, se bem que foi ministro da Fazenda, o que aponta como alternativas para estimular o país a sair dessa crise tão grave?

Eu fui professor em faculdades de Economia aqui e no Chile. Não soueconomistaprofissional,mastenhoalgumanoçãodaeconomia.Independente disso, mais importante não é ter essa noção de econo-

mia, mas sim de país, do que a nação vai precisar. Essa é a maior crisepelaqualpassamos.Nãomelembrodeoutrasemelhante.Opaísprecisa recuperar a economia, a crençaemsimesmoparaterinvestimentos e emprego. Claro que agora estamos todos concentrados na saúde. Espero que termine [essa pandemia]. Precisa recobrar a confiança no investidor para que possa repor dinheiro na economia. Não vejo,nestemomentoriscodeinflação. O importante é o governo ter uma política clara e saber quais são seus objetivos para atrair de novo o sentimento de crescimento. Precisa ter cuidado com os gastos, porque se exagerar, como frequentemente exagera,desencorajaquempodecolocar dinheiro para o crescimento da economia. O principal mesmo é a capacidade de ver mais claro no horizonteoqueépossívelparaaeconomia crescer. O que temos de vantagem? Agricultura brasileira eficiente. Temos um sistema financeiroquenãodependedecapitalexterno. Agora a dívida é interna. Os bancos públicos e privados brasileiros têm recursos. Então, nós temos uma boa economia agrícola e financeira. Quais são os problemas? O setor de produção industrial que depende de ciência e tecnologia e de encadeamento das redes produtivas mundiais. O governo tem de ter política clara a esse respeito. Temos recursos por causa da agricultura e das finanças para sairmos de uma maneira correta dessa crise, olhando com atenção para o encadeamento da produção industrial. O senhor disse há algum tempo que faltam lideranças ao país. Desde então surgiram algumas que possam ajudar a sair dessa crise?

Liderança política é bem diferente da liderança acadêmica ou setorial na economia. Na academia, se você sabe alguma coisa, sai correndo e põe seu nome. Quando se está na vida política, faz o contrário. É preciso que sua ideia seja sentida como do outro, como se fosse dele e de outro. É preciso que as pessoas acreditem. É importante que haja liderançacomessacapacidade.Não seinventamlideranças,masemcertos momentos, elas aparecem. Existem aí [algumas] disponíveis? Existem. Se pegar os governadores, geralmente os candidatos são dos grandes estados, São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro. Mas não é necessário que seja assim. Certamente, o governador de São Paulo [João Doria] tem um certo conhecimento da vida política nacional. Temos, no Rio Grande do Sul, um

governador [Eduardo Leite] que é jovem e muito bom. Estou falando deles, porque são do PSDB, o que não quer dizer que não possa haver de outros partidos. Não sou sectário. Acho que, no momento no Brasil, nós queremos ideias que tenham capacidade de influenciar. Tem jovens que estão se propondo, como Luciano Huck. Não é experimentado. Ele conhece o povo, não conhece a máquina pública. E não podemos deixar de lado que Bolsonaro vai ter poder e, queira ou não queira, capacidade de influenciar. Por enquanto, parece ser os líderes que estão surgindo. Quem vai sobreviver às eleições municipais? Aqueles que forem capazes de expressar sentimento que bata no coração e na cabeça das pessoas depois das eleições municipais. Pessoalmente, estou disposto a apoiar, independentedopartido,desdeque seja uma pessoa que veja que o Brasil tem que se inserir neste mundo, mas com seus interesses próprios, e aqui precisamos olhar para o povo, para a população, muito mais do que para as instituições, que parecem estar melhor. O senhor não citou os ex-ministros Mandetta e Sérgio Moro...

Podem ser. O Mandetta conheço pouco. O Moro, também. Mas podem. É preciso que se pronunciem agora. É muito fácil ter visibilidade quando está no poder. Quando está fora, é o problema. Alguns apontam que o lavajatismo precisa ser corrigido. Vê isso também?

Não. Agora está na moda criticar o lavajatismo. Tudo bem, os excessos podem ter existido, mas acho que a Lava Jato cumpriu um papel muito importante. Não gosto de ver gente na cadeia, muito menos quando conheço alguns. Mas colocar na cadeia gente rica e poderosa não é fácil. A Lava Jato fez isso. Deu o sentido de que a moralidade pública é muito importante, que havia o excesso de roubalheira para falar no português claro. Mesmo que neste momento esteja em baixa, com uma espécie de visão negativa do lavajatismo, espero que o sentimento que levou a Lava Jato a existir, continue vigente para evitar que voltemos a uma situação de corrupção generalizada. Esse processos judiciais e investigações recentes que citou lideranças do PSDB em denúncias na Justiça [o senador José Serra e Geraldo Alckmin foram denuncia-

Flávio Dino é um nome de respeito. É uma pessoa que pode vir a ter um papel e espero que tenha. O Ciro Gomes não sei se é de esquerda ou direita. Salta muito, ziguezagueia muito de posições. Mas ele tem presença, é inteligente, sabe falar. No Brasil, quem fala, tem vantagem. No caso do PT... O Lula, que é o grande símbolo do PT, está proibido de ser candidato. O candidato virtual, o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad é das minhas relações pessoais, prezo, uma pessoa correta, mas não creio que tenha capacidade de liderar o Brasil. Podeserquetenhacapacidade,mas não tem conhecimento do Brasil para isso. E o PT ficou muito marcado pelos malfeitos, o que não quer dizer que não tenha uma máquina, que não possa manter alguma representação. Mas acho difícil que alguém do PT volte a exercer o poder a partir da próxima eleição. Há possibilidade de superar essa polarização que tivemos nesses últimos anos para o país ter uma discussão pública mais madura sobre os caminhos a tomar?

Eu espero. Não sei se vai acontecer, mas se depender de mim, faço um esforço máximo para manter uma atitude razoável. Nesse momento a razoabilidade é esmagada pela polarização. Então é difícil dizer se vai prevalecer ou não. Mas quem sabe se será possível? Política depende de pessoas, não são só ideias. Precisa ter alguém que simbolize isso. Se algum desses mencionados conseguir simbolizar um caminho que seja democrático e progressista, acho que é melhor. Entendemos como democrático o respeito à Constituição, às leis e às eleições que regem a democracia em geral. Entendemos como progressismo perceber que a economia é de mercado, mas o povo existe. Então, temos que prestar atenção na situação de vida das pessoas. Fala-se muito na presença de militares no governo Bolsonaro mais do que no regime militar. Como vê essa questão?

Eu vejo com preocupação por causa das Forças Armadas. Não creio que existam nelas o sentimento, como já houve no passado, de exercer o poder. Com esse sentimento ou sem, a presença de muitos militares no governo vai fazer com que a população pense que são os militares que estão mandando. Com isso, se houver desmandos, vão ser atribuídos aos militares. É uma preocupação para quem acredita que as Forças Armadas têm um papel de estado, institucional, e não político de governos. Não vejo com bons olhos a multiplicação [de militares no governo]. Eu não acho que seja por pressão dos militares, mas sim por incapacidade do governo de atrair civis. O instituto da reeleição, que começou com o senhor, deu certo no país? Ou deve ser revisto?

Há muita gente que critica a reeleição. Eu sempre fui favorável. Na verdade, mais influenciado com o que acontece em outros países, como os Estados Unidos, ou nos países parlamentaristas, pois dá possibilidade ao povo dizer: “Fique, eu quero”. Não é o governante, mas o povo que decide. Quatro anos passam muito depressa, é claro. Quem quer ser o próximo presidente é melhor quatro anos, tem mais chance. Os partidos que estão fora

do governo preferem também. Mas pensando no país, eu acho mais razoável. Se alguém funcionar bem, que fique mais tempo. Ou então, teria o mandato de seis anos, mas se o eleito não der certo, é muito tempo para aguentar seis anos. E a relação do presidente com o Congresso? Parace que já esteve pior. Agora está mais amena, mas há quem aposte que não dura muito tempo assim. Essa relação precisa se consolidar?

Achoquesim.Émuitodifícilgovernar um país diverso. O Brasil é um país grande e muito desigual. Isso nos leva à necessidade de entender melhor o Congresso, o atual presidente veio do Congresso. Mas parece que ele não tem muita vinculação com o Congresso. Vou fazer uma comparação grosseira, é como se fosse cavalo e cavaleiro. Quando o cavalo percebe que quem está montado nele é mau cavaleiro, derruba o cavaleiro. O Congresso é assim. O tempo todo fica vendo se o presidente é ou não capaz de dar orientação. Não orientação ao Congresso, mas ao país. Se o presidente é capaz de expressar o sentimento nacional, o Congresso queira ou não,acabaseguindo.Quandoopresidente não tem essa capacidade, o Congresso procura aumentar o seu poder, aí as coisas se complicam. Votei pelo parlamentarismo lá atrás. Essa é a questão do “ovo e da galinha”. Não tem partidos, porque tem um governo muito forte. Ou para ter um governo forte, teria que ter partidos. Isso, no passado. Hoje, com internet por intermédio da qual as pessoas ficam opinando diretamente, pautando os partidos, não creio que seja possível pensar parlamentarismo no Brasil. Mesmo assim, é preciso que o Executivo entenda que tem limites. Deve respeitar as decisões do Congresso, saber lidar com o Parlamento. Isso é saber lidar com o país.Sesouber,opovovendoepressionando os deputados, acaba votando no caminho que ele desejar. A reforma política está ficando um pouco para trás. Ainda deve ser prioridade?

Ela é prioridade. Mas o que se entende por reforma política?Penso que o mais importante é aproximar mais o eleitor do eleito. Portanto, é o voto distrital, mais do que qualquer outra coisa, porque o voto distrital pode permitir maior proximidade entre o eleitor e o eleito. Portanto, que o eleito respeite mais a vontade do eleitor. Mas nunca discutimos o voto distrital. Quando nós discutíamos no passado, a ideia era que o voto distrital seria elitista, uma maneira da elite controlar. Pode ter sido no passado, mas hoje, com as grandes cidades e massas urbanas, acho que é difícil. Os distritos são divididos geograficamente. Talvez tentar uma reforma no voto, na maneira de “distrilizar”, é mais importante do que o resto. Qual a perspectiva do senhor para as eleições dos Estados Unidos e a implicação para o Brasil?

O presidente Trump tem um estilo que não gosto, muito personalista e transforma tudo quase em casos como se fossem pessoais. Faz gestos inadequados. Prefiro que ganhe o Biden. Qual vai ser a diferença de política dos EUA? Não sei, porque a política internacional americana é a emergência da China e os dois país vão continuar a competir. Com relação ao Brasil, tem efeitos, porque na medida em que o presidente Trump parece ser a imagem que guia o nosso presidente, se perder lá, atrapalha essa visão do presidente daqui. E Biden parece ser uma pessoa mais plural e de aceitar mais a diversidade. Agora, se falar francamente, não é uma relação automática. Algo acontece lá, necessariamente, não acontece aqui. É claro que há uma tendência no mundo com uma espécie de volta ao nacionalismo isolacionista, que se contradiz com as estruturas econômicas que estão cada vez mais integradas. O Biden talvez represente uma volta à visão mais integracionista do que isolacionista, que o Trump representa. Isso tem efeito sobre nós também. Pessoalmente, prefiro o


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geral

Natal - Rio Grande do Norte Domingo, 02 de agosto de 2020

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ENTREVISTA

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qui para frente.

LUIZ HENRIQUE MANDETTA

Com relação à vacina, qual sua expectativa?

MÉDICO E EX-MINISTRO DA SAÚDE AGÊNCIA CÂMERA

EVERTON DANTAS Diretor de Redação

O

médico Luiz Henrique Mandetta (DEM-MS) marcou sua passagem pelo governo Bolsonaro como ministro da Saúde que manteve a defesa da ciência e do SUS no enfrentamento da covid-19. E por este motivo acabou deixando o cargo. O posicionamento lhe rendeu elogios e uma posição privilegiada como analista de como o País vem tratando a doença. Nessa entrevista exclusiva à Tribuna do Norte, o exdeputado entrega exatamente essa análise de quem é médico e passou por um ministério quando o Brasil foi atingido pela pandemia. E avalia ainda os reflexos futuros dessa doença. Com relação a 2022, uma possibilidade de candidatura, ele evita ainda qualquer comentário, mas não sem deixar uma declaração que sinaliza sua rota futura na política: " A única coisa que eu sei é que eu não gosto de polarização." Como o senhor avalia o desempenho dos governadores no combate à pandemia?

Eu acho que os governadores acabaram tendo de ser a própria face do SUS. O governo federal, que no início procurava ter uma ação União - governos estaduais - governos municipais, tripartite, respeitando o SUS, a partir da minha saída, foi retirado o governo federal, que se limitou a fazer repasses financeiros pontuais, mas parou de dar apoio técnico inclusive para medidas duras. E nesse momento os governadores e prefeitos tiveram de assumir essa responsabilidade. Como os prefeitos têm uma agenda política iminente, que são as eleições municipais e sofrem muito a pressão do comércio local, dos empresários locais, coube aos governadores serem o poder moderador para tentar levar com o menor dano possível à sociedade brasileira. O grande ausente é o governo federal. E que avaliação o senhor faz do desempenho do governo federal?

São três tempos distintos. O início, quando você tinha o Ministério da Saúde enfrentando, com muita transparência, com muita disponibilidade de dados, colocando tudo às 17h30, para que os jornais se apropriassem, as rádios se apropriassem, todos os números, todas as perguntas que eram feitas eram respondidas prontamente; uma transparência total porque naquele momento era a coisa mais importante era que as famílias soubessem de uma fonte fidedigna qual era a gravidade da doença para que elas montassem suas linhas de cuidado dentro das casas. As famílias se apropriaram dessas informações e se organizaram para proteger a mãe, o avô, a tia; e organizaram redes de solidariedade aos menos favorecidos. As famílias foram o primeiro elo de ligação. Depois nós viemos para um segundo momento quando começamos a ver o desmanche do Ministério da Saúde, no seu segundo escalão, com a retirada dos técnicos; com um ministro que comunicava menos, mas que tentava de alguma maneira ter alguma base científica e depois esse período militar. Os três períodos caracterizados por uma posição do presidente, isoladamente. No primeiro, desqualificando completamente a política de preservação da vida, com um discurso que iria optar pela economia, como se essa opção fosse um dilema real e obviamente isso não se sustenta. Países que optaram por este caminho levaram muito mais tempo para recompor suas economias, perderam muito mais vidas. Depois nós vimos um presidente desqualificando a ciência, dizendo que não havia necessidade de pesquisa, que não havia necessidade de universidades e dizendo que uma caixa de cloroquina resolveria todo o problema, numa posição totalmente contra qualquer estudo sério. E o terceiro momento federal é o da ocu-

"Eu não gosto de polarização" « SAÚDE PÚBLICA » Ex-ministro mantém defesa da ciência e do SUS no

enfrentamento da covid-19 e alerta para as implicações futuras do coronavírus

pação militar do Ministério da Saúde. A ocupação militar se dá sem técnicos de saúde e aí a gente passa a ser conduzido pelo vírus. A gente vai a reboque. O Ministério da Saúde silencia, para de prestar as informações, tentam não mais mostrar os números, a ponto do STF ter de dar uma ordem para que seja feito pelo menos o balanço de casos e o que a gente tem hoje é um governo federal sem nenhum cuidado, sem nenhuma preocupação com saúde, deixando lá um general desconfortável no cargo, porque não está preparado para aquilo. É como colocar médicos para tocar uma guerra. Médicos não tem condição de tocar uma guerra. Militares não têm condição de tocar o Ministério da Saúde. O que a gente vê é o país, parece que, aguardando a doença fazer todo o estrago que ela vai fazer, livre; um Ministério emudecido; e a sociedade civil tentando através de meios de comunicação, de governos estaduais, de pesquisadores, tentando achar o caminho por conta própria mas sem contar com o governo federal. O senhor acha que o futuro reserva ao governo federal a responsabilização histórica por todas essas mortes?

Eu acho que a história vai observar muito como que os países, os chefes de estado trataram essa doença. Lá nos Estados Unidos nós temos um comportamento muito parecido do presidente de lá com o do Brasil. E as pessoas dos EUA me parece que estão muito insatisfeitas. Me parece que a história será escrita, o século XXI começando dessa epidemia do coronavírus porque ela colocou em discussão os valores que regem determinadas sociedade. A preservação da vida deveria ser, em tese, o maior patrimônio de um país. A gente não pode dizer 'ah, morreu porque era idosa'. 'Morreu porque era pobre'. Como eu escutei: 'essas pessoas moram no esgoto então elas têm resistência porque não tem saneamento, tem que ser estudados porque elas sobrevivem". Esse tipo de olhar não cuidados em relação á vida vai cobrar um preço que a história vai colocar no seu devido lugar. Agora, me interessa mais a análise das pessoas, do dia a dia, das famílias. E eu tenho percebido que as famílias não acham graça disso. Tanto que você faz a abertura de bares e restaurantes e continua as pessoas tendo cautela. Porque sabem que ainda precisamos encontrar um teste de melhor qualidade, um remédio de melhor qualidade e uma vacina de melhor qualidade. Aí sim, não mais sob a pressão da doença, aí nós vamos atravessar uma década refletindo sobre esse momento. O que é que nós fizemos de errado historicamente? Nós permitimos às favelas,

no federal?

O que a gente vê é o país, parece que, aguardando a doença fazer todo o estrago que ela vai fazer, livre; um Ministério emudecido; e a sociedade civil tentando através de meios de comunicação, de governos estaduais, de pesquisadores, tentando achar o caminho"

Ciência não torce por ninguém, não tem lado. Quer evidência. A ciência não tem partido político. Não tem país, não tem lado, ela quer verdade científica" nós permitimos às áreas sem saneamento, nós permitimos que as pessoas pudessem ser manipuladas facilmente. Porque mesmo aquelas que têm instrução não tiveram a cultura de prestigiar a ciência e a pesquisa. De prestigiar o caminho duro, o caminho difícil, que diferencia as sociedades mundiais. Eu acho que na hora que a gente fizer essa análise o Brasil vai se olhar muito no espelho e vai encontrar muita coisa que precisa mudar. Porque se nós tivermos um dia - e isso pode acontecer - um vírus que tenha o mesmo grau de transmissão desse mas com letalidade, com potencial de levar as pessoas a óbito, maior do que esse, que é de 3%... E se fosse de 30%? E se fosse 50%? Será que seria dessa maneira que nós íamos enfrentar? Essa discussão passa a ser feita e o SUS passa a ser o grande caminho de diminuição das desigualdades sociais para a gente encontrar uma sociedade mais justa. A forma como a pandemia agiu no Brasil também cobra o preço pelos anos e anos de descuido com a saúde pública nos estados e no gover-

Não só com a saúde. Mas com a educação, com o tipo de trabalho que a gente faz. Os trabalhadores informais no Brasil, que são milhões de pessoas, que vivem dos restos da cidade; que são flanelinhas, guardadores de carro, vendedores ambulantes, pessoas que tem um tipo de atividade que quando confrontada com uma situação como está não lhes resta outra alternativa. A proteção social que o Congresso aprovou veio para atenuar os problemas graves dessa pandemia, mas não resolve os problemas graves da falta de oportunidades reais para que as pessoas construam suas próprias redes de proteção social. Ficou muito claro nesse momento as diferentes chances de vida entre negros, favelados e pessoas da periferia e as pessoas da classe média alta, dos ricos. Isso ficou evidente. Ficou muito estampado nós números de pessoas, no acesso aos testes, nos número de acesso aos leitos, em como tratar essa doença. Eu acho que ela veio para que toda a sociedade, não só a classe política, faça a sua reflexão. Como é que foram os empresários que sofreram tanto, como passaram por isso? Como se comportaram os líderes religiosos: entenderam que não podia aglomerar seus fiéis? Preservaram a vida? Usaram a palavra de Cristo a favor da promoção da saúde nas suas grandes lideranças? Como foi o comportamento das redes de comunicação? Como foi o papel da internet na primeira pandemia narrada em tempo real em todos os continentes? Como foram as milhares de fake news que só vinham para prejudicar? Como foi o comportamento dos médicos, alguns mais ligados a evidências e outros assumindo riscos, com medicamento não testados, colocando em risco pessoas de mais idade; com mulheres gestantes, sem nenhuma pesquisa; prescrevendo drogas experimentais. Como foi o comportamento de cada um? Como foi o comportamento do Ministério da Saúde? Do próprio ministro? O que acertou e o que errou? Como foi o nosso comportamento como tentativa de se construir uma nação que tenha liga? Se importou São Paulo ou Rio de Janeiro com a situação do Rio Grande do Norte? Houve solidariedade? Quando diminuiu os casos em um estado, houve transferência para outro? Não tivemos nenhum mecanismo internacional que pudesse moderar essa corrida desenfreada, sem nenhuma liderança mundial, sem nenhum organismo que pudesse fazer uma defesa da humanidade, uma defesa das nossas desigualdades continentais. Vejo que essa pandemia chega ao fim com a vacina e aí começa um grande debate sobre regulamento sanitária e sobretudo como vamos nos comportar da-

Estamos na etapa 3, testando. Ali por dezembro devemos ter conclusões. Depois disso temos um grande desafio: que é como produzir. A fase industrial da vacina. Como colocar no frasco e distribuir essas vacinas. Será que vamos repetir a mesma lógica anterior? Será que os países ricos vão comprar toda a produção e se vacinar, deixando países como o Brasil à margem? Será que o Brasil está preparando um parque industrial para produzir essa vacinas para o Brasil e para outros países? Como está a preparação do Brasil para a fase industrial da vacina? Se conseguirmos produzir aqui sem depender de laboratórios internacionais, acredito que no primeiro trimestre já poderemos pensar em distribuição e calendário. Se nós formos aguardar que os países ricos adquiram e vacinem suas populações, ficaremos para o final do semestre que vem talvez ou talvez para o segundo semestre do ano que vem. Como médico, o senhor receitaria ivermectina ou cloroquina para combater covid?

Para combater covid, não. Para combater verminose a ivermectina é um bom medicamento. Ela retira sarna, piolho, mata verme... Ela vem do uso veterinário, ela começa pelo nome "ivomec": o gado fica com o pelo liso, caem os carrapatos, ela funciona muito bem. A cloroquina é um bom medicamento utilizado há muitos anos como antimalárico e funciona razoavelmente bem. E é usado num segundo uso para as doenças reumáticas. Não tenho nenhum problema com remédio nenhum. A medicina manipula drogas muito mais complicadas que essas duas. Eu não tenho problema nenhum de assumir riscos com medicamentos desde que eu saiba o benefício. E até agora ninguém me demonstrou o benefício. Ciência não torce por ninguém, não tem lado. Quer evidência. A ciência não tem partido político. Não tem país, não tem lado, ela quer verdade científica. E por enquanto nenhum desses medicamentos demonstrou verdade científica. Aos médicos que prescrevem, eu fico olhando e lamento muito que eles não estejam atentos aos estudos. Como médico e ex-ministro, que conselho o senhor dá aos potiguares que agora estão vivendo a fase de reabertura da economia?

Eu acho que continuar com as medidas de prevenção: lave as mãos a cada uma hora, com água ou álcool em gel. Use máscaras. Guarda distância de dois metros de cada pessoa. Não aglomere em hipótese nenhuma. Essa doença é uma roleta-russa. Tem gente de 100 anos que pega e sai bem do outro lado. E tem jovens de 30 anos que enrosca, vai parar em CTI e morre. Não dá para fazer previsão. Esperto será aquele que não pegar e tomar a vacina e sair do outro lado sem ter que passar por essa doença tão imprevisível. Ainda tem muita coisa que a gente não sabe. O maior perigo é as pessoas relaxarem. E que os governantes meçam de manhã e de noite para caso haja uma volta não tenham medo de reduzir novamente a transmissão. É preferível ser mais duro do que querer conviver com a doença. Qual o caminho do DEM em 2022 e se o senhor é candidato?

Agora a gente tem de estar atento com essa doença. 2022 está tão distante que devemos deixar ele lá. Vamos viver o presente. Temos um inimigo muito maior que qualquer governo. A gente tem uma ameaça à vida das pessoas. Depois vem eleições municipais. Tem uma boa discussão agora no final do ano. A população vai poder dizer o que achou. 2021 vai ser um ano de muita reflexão para todo mundo. A única coisa que eu sei é que eu não gosto de polarização. Eu acho que se a gente conseguir construir um bom conjunto de ideias e que o povo de bem venha junto, o Brasil sai ganhando. Nomes são secundários.


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Ano 70 • Número 122 • Domingo • 16 de agosto de 2020

FUNDADOR: ALUÍZIO ALVES - 1921 - 2006

DELFIM NETTO

REPRODUÇÃO

EX CL U SI V O

»

» VASCO E SÃO PAULO SE ENFRENTAM HOJE PELA SÉRIE A DO BRASILEIRÃO • ESPORTES 4

PROFESSOR E EX-MINISTRO DA ECONOMIA

“Se violar o teto de gastos, destrói esse país” « LUCIDEZ » Aos 92 anos, Antônio Delfim Netto é categórico em afirmar que furar o “teto de gastos”

será um erro gravíssimo. Leia e assista - na TV Tribuna - essa entrevista exclusiva na qual ele explica a afirmação e fala também sobre política, economia, história e o futuro do País. « PÁGINAS 3, 4 E 5 »

A Ponta do futuro...

SAÚDE PÚBLICA

REPRODUÇÃO

Brasil está na corrida para testar, produzir e distribuir a vacina Preparativos para a testagem, produção e distribuição de uma vacina eficaz colocam o Brasil em uma situação relativamente segura na corrida para imunização. « PÁGINA 7 »

PLANO PARA VOLTA ÀS AULAS SAI ATÉ DIA 31 DE AGOSTO Secretaria Estadual de Educação quer oficializar plano de retomada das aulas até 31 de agosto, com novas grades curriculares, datas e diretrizes. A ideia é aplicar os chamados ciclos e fazer vinte meses de aulas, equivalente a dois anos letivos, em treze meses. No RN, ao todo, um milhão de estudantes estão fora das salas de aula desde o dia 18 de março. Na rede estadual, que possui 216 mil estudantes, 20% não teve nenhum tipo de aula remota durante o período. « NATAL 2 E 3 »

PREVIDÊNCIA

Número de idosos inativos economicamente subirá no Brasil Estudo compara o sistema previdenciário brasileiro com o de outros países, destaca o quão desigual é o modelo nacional e acende alerta para o futuro. « ECONOMIA 1 »

E o futuro do Juvenal ALEX REGIS

CAMPEONATO ESTADUAL

Clubes testam atletas e não surgem casos de covid-19 no RN Ao contrário dos inúmeros casos de covid-19 registrados no resto do país, entre jogadores, testes no RN ainda não apontaram atletas contaminados. Jogos seguem. « ESPORTES 2 »

« ORLA » Entenda como vai ficar Ponta Negra após as obras

previstas para a praia. A engorda deixará a faixa de areia com 30 metros na maré alta; e até 100 metros na baixa. « NATAL 1 »

do estádio Juvenal Lamartine para transformá-lo em escola de iniciação ao futebol, museu e centro comercial. « ESPORTES 1 »

ALEX REGIS

DIVULGAÇÃO

NEGÓCIOS E FINANÇAS

« JUVENTUDE » Federação de Futebol revela projeto de reforma

ALEX REGIS

RODA VIVA

Nova CPMF pode ser grande fonte de receita para o governo. « ECONOMIA 2 »

Bolsonaro vai dizer que PT no RN não aplica dinheiro que ele mandou. « NATAL 4 »

ALEX MEDEIROS

CENA URBANA

Pesquisa feita por telefone pode ter de tudo. « NATAL 3 »

RUBENS LEMOS FILHO

Johan Cruiff provou que não existe futebol sem alegria. « ESPORTES 3 »

30

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ARTIGO

MEDITAÇÃO NA PANDEMIA

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“Democracia e Livre Mercado: um não existe sem o outro.”

Mais do que nunca em busca da mente quieta, da espinha ereta e do coração tranquilo.

TRIBUNA bate mais um recorde de audiência. E estreia blog novo.

« PÁGINA 2 »

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Presidente aprende que distribuição de renda é um bálsamo. « PÁGINA 3 » JORNAL DE WM

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Natal • Rio Grande do Norte Domingo, 16 de agosto de 2020

política

3

»ENTREVISTA » DELFIM NETTO

Cena Urbana VICENTE SEREJO SEREJO@TERRA.COM.BR

EX-MINISTRO DA FAZENDA, DO PLANEJAMENTO E DA AGRICULTURA

REPRODUÇÃO

Adoremus Fui menino vendo na mesa de cabeceira da minha mãe um pequeno livro de capa preta e fímbrias douradas, e nele escrito: Adoremus. Era o livro de orações que no silêncio da sua fé seus olhos iam buscar de vez quando. O tempo devorou o livrinho e um dia desapareceu não sei como. Toda boa casa de família cristã tinha um Adoremus, muito mais a nossa, com um pai mariano que acompanhava a procissão da padroeira dos macauenses, a Senhora da Conceição. O livrinho desapareceu dos olhos do menino, mas ficou guardado entre os guardados da alma, numa afeição antiga. Anos depois, caiu nos olhos o livro de Oswaldo Lamartine e padre João Medeiros Filho, ‘Seridó, século XIX, fazendas & Livros’. Uma leitura das leituras, como os franceses ensinaram ao mundo, dividido em dois universos: livros de oratório e de prateleira, leituras sagradas e profanas nas velhas fazendas, textos formadores do imaginário da tradição. Oswaldo Lamartine não poderia ter escolhido alguém melhor preparado do que o padre João Medeiros Filho para tomar conta dos livros sagrados, e ele, Oswaldo, dos livros profanos. É, certamente, sobre a leitura sertaneja produzida no Rio Grande do Norte, a contribuição mais erudita e singular. Um olhar moderno a perscrutar o imaginário do sertão, nascido das leituras utilitárias e do sentimento de contrição de um povo que tinha na fé a sua força mais profunda. Para os fetichistas, levados pelo amor ao objeto, os livros vão e nunca voltam. Mas ainda assim, resta sempre um jeito imaginado de recuperá-los, têlos de volta, talvez como se fossem os mesmos. Foi assim com o Adoremus. Um dia, numa livraria antiquária, num edifício no centro antigo de São Paulo, os olhos cataram uma fileira de livrinhos escuros. Curioso, puxei um deles. Era um Adoremus. E parecido com aquele que vivia no criado-mudo da minha mãe.

Alisei com os olhos, puxei mais um, outro mais, e fui imaginando que poderia existir ali a edição de 1951, ano do meu nascimento. Estava. É a 23ª edição do Adoremus, ou, como está na folha de rosto, resguardada em papel de seda - ‘Manual de Orações e Exercícios Piedosos’, de D. Frei Eduardo, da Ordem dos Frades Menores - O.F.M. - impresso na editora Mensageiro da Fé, em Salvador, Bahia. No centro da página, amarelada e perfeita - “XXIII Edição, 1951”. Não é o mesmo que ficou nos olhos do menino. Não é raridade, nem tem valor material. É só para lembrar a infância e os anos não a trazem mais, como no verso cantante de Casimiro de Abreu na canção dos oito anos. Não tenho certeza e a dúvida só acabaria se consultasse seu livro ‘O Bibliófilo Aprendiz’, longe dos olhos. Mas acho que foi Rubem Borba de Morais quem avisou: os livros esperam pelas mãos que o procuram. Aquele Adoremus esperava por mim..

eee PALCO eee OVO - Um parlamentar federal local foi ferino quando, em alusão velada ao ministro Rogério Marinho, sussurrou virtual, via e-mail: “O ministro Paulo Guedes chocou o ovo da serpente”.

BOM - O presidente Jair Bolso-

DELFIM - Neste domingo, nas páginas e no portal da TN - e na TV Assembleia - o leitor pode acessar a entrevista exclusiva com o ex-ministro Delfim Neto. A partir das oito horas da manhã.

MAS - Tem um preço: represen-

naro descobriu que a distribuição de renda num país de grande desigualdade social é o bálsamo para ser bem avaliado. E é, sim. Desde o bolsa-família do PT. ta a volta do estado-mãe, generoso e cúmplice, tudo quanto fere o ideário do famigerado neoliberalismo do ministro Paulo Guedes, já com água no cavername.

ALIÁS - O próximo entrevista- BORGES - Vai ser sábado pró-

do da TN deverá ser o ministro Paulo Guedes que já recebeu o convite e depende de sua agenda. Mas já determinou aos assessores que encontrassem uma data.

ximo, 22, a partir das 10h, no Sebo Vermelho, o lançamento do novo ensaio de Chico Ivan – “Borges, do autor ao leitor sob o signo do barroco”. Chico sabe.

MEDO - O livro faz medo. Medo é típico do autoritarismo. Pois não é que tem gente no governo querendo acabar com a isenção do livro? Bobagem. Ninguém esconde o autoritarismo. Ele foge.

AVISO - Numa obra de uma das

ruas do Recife antigo, um tapume muito bem produzido, e bem pintado, avisa a quem passa: “Ficar sem ver o sol talvez deixe o coração pálido”. Já nas redes.

eee CAMARIM eee PLANO - O vereador Paulinho Freire não terá limites no

esforço para aprovar a proposta de reforma do Plano Diretor. Seu discurso de manter a Câmara independente é cortina de fumaça. É aliado do prefeito Álvaro Dias e não parece disposto a mudar até que sejam abertas as urnas.

MOSSORÓ - Três partidos deverão erguer, cada um distante do outro, as bandeiras da oposição em Mossoró: Democratas, com Cláudia Regina; Solidariedade, com Alysson Bezerra e PT com Isolda Dantas. É uma fragmentação que tira a chance da oposição e fortalece Rosalba Ciarlini.

FORÇA - A formação da força de oposição mais provável seria uma aliança Cláudia Regina e Alysson Bezerra, mas esta é considerada impossível. Cláudia não aceita, nem o ex-senador José Agripino como apoiador decisivo da candidata. Na prática, talvez seja, até, a missão do Dem.

A

os 92 anos, com uma lucidez que impressiona, o professor e ex-ministro da Fazenda, do Planejamento e da Agricultura, Antônio Delfim Netto, não tem dúvida: o governo não pode violar a emenda constitucional do teto de gastos. Se isso acontecer, o país será destruído. A afirmação foi feita em entrevista exclusiva à TRIBUNA DO NORTE concedida remotamente. E que só se tornou possível graças a uma parceria com a TV Assembleia. Segundo o economista, é essencial que se faça a fusão entre duas propostas que estão no Senado, as PECs 186 e 188, para que se tenha um gatilho que dispare sempre que a despesa pública se aproxime do limite. Assim, o governo ficaria autorizado a adotar medidas excepcionais de ajuste de contas. As duas propostas tratam do mesmo assunto e, para evitar dificuldades, ele defende a unificação. “O teto de gastos é a âncora que sustenta a expectativa de equilíbrio fiscal. Se violar o teto de gasto, e sei que existe algum controle, vai produzir desequilíbrio completo, destrói esse país”, alerta. Nesta entrevista - que faz parte da série em celebração aos 70 anos da TRIBUNA DO NORTE, ele afirma ainda que desde a redemocratização o episódio mais trágico da história do país foi a morte do Tancredo Neves, que “estava preparado para assumir a Presidência”. Delfim Netto também aponta que o presidente Jair Bolsonaro “só pensa na reeleição”, mas afirma que há um aprendizado do atual ocupante do Palácio do Planalto sobre a necessidade de governar com o Congresso. Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista que foi concedida pelo o ex-ministro, aos jornalistas Everton Dantas, diretor de redação da TRIBUNA DO NORTE, Vicente Serejo, colunista da TN; e Gerson de Castro, da TV Assembleia. E assista a íntegra da conversa na TV Tribuna. Para isso,’ basta apontar a câmera para o qrcode disponível nesta página. Everton Dantas - Para Delfim Netto, que pais é este que nós vivemos, hoje, economicamente e politicamente?

Nós estamos vivendo no país que construímos. Ele não foi construído à toa e nem por acaso. É produto dos nossos erros e dos nossos acertos. Ele é bem melhor do que parece. Tem condições de retornar o crescimento. O problema do Brasil é que há 40 anos, nós perdemos as energias do crescimento. Há 40 anos, praticamente, nós estamos crescendo menos que o mundo. De 1945 a 1980, o Brasil crescia a 7,5% ao ano. O dobro do crescimento do mundo. Nós chegamos a ser o que somos, a sexta economia do mundo, com um crescimento muito substancial interno, mas também com capacidade de importar, porque, no processo de desenvolvimento, deu-se ênfase às exportações. Desenvolvia o mercado interno, mas ainda mais rapidamente as exportações para que o desenvolvimento não terminasse numa crise de balança de pagamentos. E não terminou. Só terminou em

‘Se violar o teto de gastos, destrói o País’ « CRISE E RETOMADA » O ex-ministro da Fazenda não tem

dúvida: Se o governo violar a emenda constitucional do teto de gastos, vai produzir um desequilíbrio completo

O Brasil tem condições de retornar o crescimento. O problema é que há 40 anos, nós perdemos as energias do crescimento. Estamos crescendo menos que o mundo. ” 1981/82, quando ,na verdade, teve a crise do petróleo. Nós não tínhamos petróleo, produzíamos 20% do nosso consumo. Cheguei a comprar petróleo a um dólar o barril. Na verdade, um barril de petróleo custava menos que uma água “Perrier”. Os árabes tiveram certa razão, quando fizeram o seu cartel. Depois, tivemos muitos problemas. e ainda acho que talvez a maior tragédia... primeiro, na minha opinião, a história não tem leis, a história é um conjunto de acidentes aleatórios. Nós viramos império porque o Napoleão invadiu Portugal. Nós só temos uma República, porque o marechal [Deodoro] não “tinha o que fazer”, puxou a espada e declarou a República. Recentemente, para mim, a coisa mais trágica que aconteceu ao Brasil, foi a morte de Tancredo Neves. Ele estava preparado para assumir a Presidência. Não faria uma mudança constitucional. Tiraria da Constituição o que ele chamava de entulhos autoritários. E teria como ministro da Fazenda Francisco Dornelles, extremamente competente e talvez um dos melhores diretores da Receita que já tivemos. Eles teriam, seguramente, controlado a inflação e retornado ao crescimento. A morte do Tancredo iniciou um processo de desintegração, que veio caminhando. Mesmo as coisas muito boas que fizemos, como foi o caso do Plano Real - que é uma pequena jóia construída e que vai honrar o resto do tempo os economistas brasileiros... Mas o Fernando Henrique Cardoso não fez o superávit primário que deveria fazer e, portanto, todo o peso da estabilização monetária foi colocado em cima do câmbio. Ele teve de valorizar o câmbio durante quatro anos, de uma maneira absurda, a custa de uma taxa de juros real também absurda. Nesse instante, desorganizou a indústria. É só fazer o gráfico do Produto Interno Bru-

to, separando o PIB agrícola, o PIB da indústria e o PIB dos serviços, vai ver que a redução do crescimento, começa na verdade, quando começou a controlar a taxa de câmbio para controlar a inflação. O Plano Real, por melhor que tenha sido, foi a morte da indústria. Vicente Serejo - O senhor sempre advertiu sobre a desigualdade social, uma vez aprofundada, podia comprometer o projeto econômico do ministro Paulo Guedes. Mas independente do coronavírus, a tarefa de tentar o neoliberalismo, que o Brasil não entendeu ainda, o senhor não acha que há um “caldo de cultura” muito mais grave do que o coronavírus?

Nós interrompemos o processo civilizatório. Foi isso que nos aconteceu. O ponto mais importante de uma sociedade é criar igualdade de oportunidades. Não é simplesmente a igualdade de renda. É, na verdade, tornar cada cidadão, não importa a história ou a geografia do seu nascimento, com o mesmo aparato de apreender o mundo, não importa se nasceu em um lugar rico, depois de uma festa com caviar e champanhe e é o filho foi desejado, ou se foi produzido por acaso em baixo do muro, em um sábado de noite, sem que o pai e nem a mãe quisessem. Uma vez produzido, esse ser tem direitos que são fundamentais. Os dois têm o mesmo direito, o que nasceu no lugar rico, a família vai cuidar, a gestante vai ser bem alimentada, vai ser tratada, tudo com carinho, todo mundo da família esperando, ele vai ser uma grande alegria no dia que nascer, há uma mobilização da família de alegria, depois ele vai ter boa alimentação, vai para as melhores escolas, quando chegar as 14 anos, que vai começar a vida, tem um aparato de apreensão do mundo, uma capacidade cognitiva de um certo nível. Aquele outro, que nas-

ceu sem querer, que foi rejeitado desde o início, que mãe teve dificuldade de explicar em casa, como é que ele apareceu? Se esse sujeito não tiver o suporte do Estado, se ela não tiver o seguro saúde, como nós temos o SUS, mas que é pouco ainda, dá para ela alimento, dá para ela cuidados, dá assistência médica, cuidar do nascituro alimentando, indo para escola. É por isso que a Constituição diz que saúde e educação são universais e gratuitos, pagos por todos, não importa o filho do rico, que não precisa, mas o filho do pobre, que precisa. O pai rico tem que pagar a sua parte. Precisa que a pessoa que nasceu dessa forma construa sua capacidade de apreender o mundo, as suas condições de entendimento do mundo, parecidas com a do outro. A justiça se faz na partida, os dois têm que partir mais ou menos do mesmo ponto. Se não houver essa igualdade, a meritocracia é uma farsa. Não adianta dizer que tem meritocracia em um país que tem desigualdade como nós temos. O mérito não foi do sujeito. Foi do pai dele, do avô dele, que acumularam educação, riquezas. Então, a sociedade, para corrigir a civilização, tem que ter como objetivo fundamental, realmente, dar igualdade de oportunidades. Uma vez iniciada a vida, o resultado é aleatório, depende da sorte, depende de uma porção de coisas. Acho que nos faltou, na verdade, persistir nessa direção.

Ì VEJA MAIS Aponte a câmera aqui e assista. A partir das 8h do domingo, com a entrevista completa.

PAGINA 4

Continuação da entrevista.


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Natal • Rio Grande do Norte Domingo, 16 de agosto de 2020

política

»ENTREVISTA » DELFIM NETTO EX-MINISTRO DA FAZENDA, DO PLANEJAMENTO E DA AGRICULTURA

REPRODUÇÃO

Gerson de Castro - Depois da estabilização do Plano Real, onde o Brasil “saiu dos trilhos”? Tem relação com o que o senhor diz sobre a casta burocrática que, depois de eleita, toma conta do poder?

Seguramente tem. Mas essa é uma questão que exige uma tese de doutoramento. Ela está muito bem posta pelo seguinte: não houve milagre. Lembre o crescimento de 45. Não foi só em 1967. O crescimento começa em 45 e vai se acelerando. Termina em 80. Foi um dos maiores do mundo no Brasil, inclusive quando se estuda períodos de rápido crescimento. Foi um grande esforço nacional. Tinha um projeto nacional. O Brasil acreditava para onde tinha que ir e teve uma mobilização. O inconveniente é de que isso foi acompanhado de um regime autoritário e talvez não tivesse outra forma. Claro que teria uma alternativa, se a gente não quisesse ter pressa. Uma coisa importante é compreender que o crescimento exige uma contenção. Só pode fazer o consumo crescer, quando o PIB cresce. Para PIB crescer, precisa o investimento crescer. O segredo do rápido crescimento, é uma harmonia entre o crescimento do consumo e o crescimento do investimento, que é o instrumento que dá aumento à produtividade. Nada que aconteceu antes foi externo, o que aconteceu aqui dentro foi por conta das nossas ações. Não adianta por culpa externa. Teve, sim, uma crise de pagamentos do mundo. Não foi do Brasil, em 1984, mas o Brasil foi o país que se ajustou mais depressa. Nós fizemos uma profunda recessão em 1982/83, em 84 já tínhamos o equilíbrio de novo em contas correntes. Então, fico muito triste quando vejo pessoas dizendo, não, foi uma infelicidade, aconteceu isso conosco. Não. O que aconteceu conosco foi feito por nós mesmos. Everton Dantas - Qual a opinião do senhor sobre o teto de gastos, que envolve essa questão de investimentos, que pode gerar distribuição de renda?

O teto de gastos é a âncora que sustenta a expectativa de equilíbrio fiscal. Se violar o teto de gasto e sei que existe algum controle, vai produzir desequilíbrio completo, destrói esse país. O que tem faltado é o Executivo, que desleixou. Ele apresentou, no dia 3 de março de 2019, dezesseis projetos ao Congresso Nacional e a esses projetos se juntaram a PEC 186 e a PEC 188, que era uma PEC que fixava o teto, mas que dava a flexibilidade seguinte - quando o teto fosse atingido, disparava gatilhos para cortar salários, arrumar. Ou seja, o teto, na minha opinião, sustentou isso. Foi por conta do teto que a nossa taxa de juros chegou a 1%, como está hoje. Aparentemente ontem (dia 12), teve uma epifania, o presidente se reúne fora do Palácio com todos os ministros e aí o Alcolumbre (presidente do Senado Federal), diz uma coisa só, na minha opinião significa o seguinte - "Eu vou retomar a PEC 186, a PEC 188, espero que entregue por Pedro e por Paulo, para fazer a síntese e aprovar essa reforma do estado". Ou seja, não vamos reformar o estado, por enquanto, que é muito mais complicado, mas nós vamos manter o teto e, se houver isso, o Executivo terá condições, independentemente de autorização do legislativo, porque a autorização é preliminar, é feita na PEC, eu vou aplicar os gatilhos sobre as castas privilegiadas, não eleitas, que entram por concurso, mas que só são promovidas politicamente e que se apropriaram do Brasil. Ou se rompe isso, mas isso só pode ser rompido por esse caminho, bateu no teto, corta o salário mesmo, não importa se é do Supremo Tribunal Federal (STF) ou se é do trabalhador, mas com inteligência,

não existem. Dizem: “Está havendo inflação”. Mas se fosse para corrigir o valor da cédula de R$ 100,00, precisava emitir a de R$ 500,00. Portanto, não é para isso. Acontece que com essa pandemia aumentou a propensão das pessoas a reterem moeda. Cresceu o número de transações feitas em moedas, o que sempre acontece. O sujeito quer ter o dinheiro dele na mão ou embaixo do colchão, porque ele não sabe se o banco estará aberto, se terá possibilidade de ir, como estará a transmissão do coronavírus. Então, cria um desejo psicológico ou uma necessidade de ter o dinheiro na mão. Gerson de Castro – O senhor defendeu em recente artigo na Folha de SP um programa mínimo de renda que seja realista, focado fiscalmente sustentável. Essa programa está vindo?

‘Otimismo diminuiu porque o projeto de Bolsonaro é a releição’ « BRASIL EM CRISE » Delfim afirma que o presidente tem como prioridade a recondução e, por isso, não enviou para votação a reforma do estado

O trabalhador do setor privado, para ele não tem isso, tem que reduzir o salário mesmo, e compreende. No Brasil, só um grupo altamente privilegiado é que conseguiu, graças a direitos mal adquiridos, se proteger desse tipo de ajuste.”

Não tem forma de crescer e reduzir o desemprego, a não ser investindo, dando a cada brasileiro uma quantidade maior de capital e tecnologia para que ele tenha o aumento de sua produtividade. Isso tudo depende do investimento.”

com proporcionalidade, para ajustar. Não é possível que a gente continue a viver, porque desde 2014 estamos numa crise em que o PIB per capita caiu quase 14%, como é que pode ter no Brasil uma casta, que durante esses seis anos não teve a menor restrição, teve garantia de emprego, teve garantia de salário, aumentou o salário 4% ao ano, quando o Brasil inteiro estava caindo 14% do PIB, se isso não for uma casta privilegiada, eu não sei o que é, e que é inatingível, porque quando se vai ao Supremo, a resposta está ali na Constituição. Está correto, os salários são irredutíveis. O trabalhador do setor privado, para ele não tem isso, tem que reduzir o salário mesmo, e ele compreende. No Brasil, só um grupo altamente privilegiado é que conseguiu, graças a direitos mal adquiridos, se proteger desse tipo de ajuste.

minuiu, porque o governo abandonou o seu projeto. O projeto do Bolsonaro hoje é a reeleição e mais nada, não vamos ter ilusão. A prova é que ele não enviou a reforma do estado, que estava pronta na mesa dele em 2019. Por que ele adiou para 2020? Quando ele adiou para 2021 o pessoal foi embora, já viu que não é para valer. Sem essa reforma, não vai acontecer nada. A única forma dessa reforma acontecer hoje, é pela aprovação de uma PEC que una a 186 e a 188, num programa em que sustente o teto, de modo que quando chegar no teto, todos sem exceção... Claro que tem de proteger os mais necessitados, os pequenos salários, até dois ou três salários mínimos, mas o resto tudo tem que estar sujeito a cortes proporcionais, porque assim não tem como ter disponível para investir 4% do Orçamento da União.

Vicente Serejo - Câmara Cascudo que foi o nosso maior intelectual, dizia que o melhor do Brasil, era o brasileiro. E o que é o pior do Brasil?

Gerson de Castro -O senhor também fala que nos últimos 20 anos teve uma carga tributária que foi subindo e taxa de investimentos do setor público, despencando, como contornar isto?

Acho que não tem pior. Na verdade, nós começamos a bater cabeça, não tem uma liderança, o que nos falta é realmente alguém capaz de dizer, olha, a direção é esta, nós vamos chegar lá, o caminho é áspero, o caminho é complicado. Vicente Serejo - Nós não temos líderes, só temos chefes?

Não é só isso não. Os chefes que também existiam eram muitos ruins. Certamente não nos iam levar a lugar nenhum. Gerson de Castro - Ano passado o senhor estava mais otimista em relação ao governo, como é que anda termômetro do seu otimismo?

Realmente, meu otimismo di-

De novo voltamos sempre ao mesmo problema, quando se refere ao crescimento. A carga tributária era 25%, o investimento público era 5%. No fundo era até um pouquinho mais. Então, 20% era consumido dentro do próprio governo e se 5% era investimento em infraestrutura, que é o que aumenta a produtividade. Hoje, a carga tributária é 34% e não se chega a investir 1% em infraestrutura. Nós estamos consumindo a infraestrutura, todo ano, a depreciação da infraestrutura é superior ao investimento que tem sido feito, de forma que o acontece é o seguinte, estamos em pleno subdesenvolvimento por conta disso. O que acontece

hoje no estado, temos 34% de carga tributária, mais 5% ou 6% déficit, se apropria de 40% da renda real do país, investe 1%. Antes, consumia 20%, hoje consome 39%. Ou seja, é um estado como eu, obeso e vesgo. Everton Dantas - O que pode acontecer com o Brasil, caso não venha acontecer, isto que o senhor está apontando, vez que temos um presidente mais preocupado com a reeleição?

Nós vamos continuar declinando com relação ao mundo. Nós crescíamos duas vezes mais que o mundo, hoje crescemos metade do mundo. Reativamente, estamos muito mais pobres do que éramos nos anos 80, muito mais pobres. Se comparar, digamos, a renda per capita, o PIB per capita, a paridade do poder de compra preliminar, o efeito da taxa de câmbio, peguese os Estados Unidos como representante do mundo, que representa mal, porque cresce menos que o mundo, e nós compararmos o nosso PIB per capita com paridade de poder de compra, vai ver entre 45 e 80, nós crescíamos e viemos de 20% do PIB americano para 40%. Ou seja, nós dobramos a nossa produtividade, nos últimos 30 anos, praticamente voltamos aos 20%, ou seja, os Estados Unidos cresceram pouco, nós ainda crescemos menos do que eles. O Brasil hoje é realmente o país de menor crescimento per capita do mundo nesse período. Gerson de Castro - Que cenário pode representar para o Brasil, uma eventual mudança de poder nos Estados Unidos depois das eleições de novembro?

Eu realmente espero que Trump perca a reeleição. Realmente, se há justiça no mundo, eu espero que perca mesmo. O

que vai acontecer, é que se eleger o Biden, a senadora que é vice dele (Kamala Harris), é filha de um velho professor de economia, que tinha muitas ligações com o Brasil, de forma que se eles ganharem, provavelmente, vão fazer restrições muito importantes a essa política voluntarista do Bolsonaro. A pressão externa para que a gente cuide da nossa natureza, vai crescer. Vicente Serejo - Mesmo considerando essencial salvar vida, com o orçamento de guerra, por trás disto não há uma tentativa ou esperança da classe política da volta do “Estado mãe”, que já está na exaustão?

Se isto acontecer, vamos aprofundar o subdesenvolvimento. Estamos com ele acelerado. Iríamos acelerar ainda mais. Na verdade, o Estado não cria recursos. As pessoas ficam imaginando que emitir moeda é criar recurso. Não. Emitir moeda é simplesmente a capacidade de comprar o que já existe. Não aumenta em nada a produtividade. Para crescer, tem que aumentar a produtividade do indivíduo. Cada um de nós tem que produzir um pouco mais, para consumir um pouco mais e poupar um pouco mais. Não existe desenvolvimento econômico com emissão de moeda. A emissão de moeda pode, eventualmente, quando há crise de demanda, recupera a demanda. Mesmo assim, com condições especiais. É preciso que o multiplicador do gasto público seja muito eficaz. Mas o importante é compreender o seguinte: não tem forma de crescer e reduzir o desemprego, a não ser investindo, dando a cada brasileiro uma quantidade maior de capital e tecnologia para que ele tenha o aumento de sua produtividade. Isso tudo depende do investimento. Quando a gente fica imaginando que o governo cria recursos, estamos entrando em um equívoco enorme. O governo transfere os recursos. E o que é pior: o governo toma 100 de um e transfere 10 para os outros. Noventa consume. Dissipa.

Espero que venha. A solidariedade da sociedade com relação àqueles que não têm condições de se sustentar é fundamental. Não pode ser considerada uma esmola. É, no fundo, um empréstimo para que se considera superar a situação e passe a ocupar a cidadania e viver do próprio trabalho. O brasileiro, em geral, é trabalhador. Eu sempre vou muito cedo para o escritório. Chegou entre 5h30 e 6h. Quando passo pela avenida Rebouças (em São Paulo), em cada esquina tem um senhor ou uma senhora que fez três bolos, aqueceu um pouco de café e está vendendo para o trabalho que vai caminhando e quando passa se alimenta. As pessoas adquirem mecanismos de sobrevivência que não dependem do governo. A única vantagem do Brasil é que saúde e educação são universais. Essa talvez seja a grande diferença civilizatória do Brasil. Procure outro país onde se tenha um seguro saúde tão universal quanto o SUS. Procure outro país onde a educação, primária e secundária, seja tão universal. Em São Paulo, está havendo 70% de aumento de transferência do setor privado para o público em educação primária. Ou seja, tão logo o pai perdeu a condição, mandou para o serviço público, que não anda tão ruim, não. A escola pública é muito boa, se tiver uma direção boa. Gerson de Castro – O senhor concorda que o Sistema Único de Saúde deu um show na pandemia?

Não tenho dúvida. E digo mais: se falhamos no combate ao covid-19, fio não por conta do SUS, que cumpriu seu papel. [O problema]. Foi que municípios, estados e União, cada um ficou com recomendação de um tipo. Estamos há três meses sem ministro da Saúde. Everton Dantas – Qual a opinião do senhor sobre privatizações e o plano do governo que chamaram de Plano Marshall brasileiro?

Isso tudo é um sonho. Dilma (Rousseff, ex-presidente) fez PAC 1, 2, 3 até explodir. Primeiro que nem se tem projetos. Há 14 mil projetos iniciais parados. Não há projetos executivos. Acontece que não têm recursos dentro do orçamento. Na quarta-feira aconteceu algo importante. Foi epifania. O presidente sai do Palácio dos presidentes da Câmara e do Senado para dizer: “Vamos fundir a PEC 186 e 188, que estavam esquecidas no Senado desde março de 2019 para fixar o teto e as formas de corrigir quando o teto for atingido. Fixar os gatilhos. Se fizer isto, será muito importante para o equilíbrio fiscal.

Gerson de Castro - O que significa o lançamento de uma cédula de R$ 200?

O momento talvez tenha sido inapropriado, porque as pessoas estão estabelecendo relações que

PAGINA 5

Continuação da entrevista.


Natal - Rio Grande do Norte Domingo, 16 de agosto de 2020

geral

»ENTREVISTA » DELFIM NETTO EX-MINISTRO DA FAZENDA, DO PLANEJAMENTO E DA AGRICULTURA

REPRODUÇÃO

Everton Dantas – E a proposta de novo imposto, que estão chamando de “nova CPMF”?

Primeiro, o estudo da reforma tributária está sendo muito inadequado. As reformas tributárias que o país já fez, como as de 47 e 67, foram feitas por tributaristas. O Brasil tem escolas de tributaristas da mais alta qualidade. Basta dizer que foi o terceiro país do mundo a adotar valor adicionado. Por que digo isso? Economista não sabe onde por a vírgula. Quando economista faz uma lei, é o paraíso do advogado. O economista coloca a lei de uma forma que sai contra ele. Vicente Serejo – O senhor, na entrevista a Pedro Bial, disse uma frase bem humorada. Reconheceu que o presidente tem boa vontade, mas se comporta mal. O que ele deve fazer para se comportar bem?

Tem que aprender. Ele está aprendendo. Se ele não tivesse entrado tão mal. Se tivesse compreendido, desde o início, que teve uma vitória surpreendente, absolutamente legítima, que foi como uma manifestação de repulsa. Ele foi eleito como uma expressão de repulsa a tudo que existia. Ele vendeu a ideia que iria “mudar tudo que está aí”. E mudar tudo que está aí como uma nova política. Mas mudar tudo que está aí, sem o Congresso, seria negar a política. Então, ele iniciou uma briga com o Congresso. Jogou fora 35% do [período de] governo em uma briga com o Congresso. Imaginou que poderia administrar sem o Congresso. Aprendeu apanhando. O país apanhou com ele. Ainda veio a pandemia. Que não precisava, mas veio. Agora ele

beral. Mas do ponto de vista da economia, sei que sem o Estado é impossível fazer qualquer coisa. Por que o homem faz o Estado? Por que entrega uma parte da liberdade a um ente abstrato, que fica com o monopólio do poder para o atender nos momentos que precisa? Sem o Estado, não há mercado. O mercado exige propriedade privada, que não é um direito natural. A propriedade privada foi algo que o mundo encontrou para ter o mercado, que é um mecanismo de distribuição, no qual se pode usar o fator mais importante de aumento da produção, que é a divisão do trabalho. Gerson de Castro – Estamos a 24 meses da eleição de 2022. As reformas do Estado e política, que o senhor defende, não saíram do papel. Qual cenário imagina para o Brasil pós-pandemia, de 2021 em diante até a eleição?

‘Economistas não têm capacidade para destruir o Brasil’ « PERSPECTIVA » Ex-ministro da Fazenda

afirma que, apesar das dificuldades, há uma disposição entre os brasileiros para inovar está indo ao Congresso para fazer o que deveria ser feito em novembro de 2018. Quando ele ganhou e foi eleito o Congresso, deveria ter ido, antes de tomar posse, discutir um programa comum, como em qualquer repú-

blica multipartidária, dividindo com os partidos republicanamente o poder. Ele só aprendeu isso apanhando, dissipando recursos nacionais. Everton Dantas - Qual a avaliação,

como toda experiência do senhor, do período ditatorial e do AI-5?

É sempre muito difícil fazer uma avaliação. Teve algumas coisas importantes. E coisas desagradáveis e condenáveis. O problema é que quando você decide algo é com o conhecimento e as circunstâncias daquele instante. Quando suspendeu o habeas corpus, não se estava dando ao governo a garantia para punir fisicamente o cidadão. Mas o contrário, a obrigação de proteger a integridade moral e material de quem estava preso. Que houve desvios, claro. Ninguém vai discutir isso. Vicente Serejo - O senhor pode dar uma definição do que é neoliberalismo?

Conheço o liberalismo político. O liberalismo econômico é muito pouco conhecido. Neoliberalismo é ainda mais incompreensível. Sou um liberal político. Politicamente, sou um li-

Se não voltarmos para o Congresso, particularmente para o Senado, e fizermos uma fusão da PEC 186 e 188, de tal jeito que o teto de gastos seja garantido, e quando for atingido tenha um disparo das despesas, não vamos sair do lugar. Sem isso, não vamos sair do lugar. Pode esperar o que quiser para a eleição. Durante algum tempo, pode enganar algumas pessoas. Mas como dizia Lincoln, não tem jeito de enganar todo mundo o tempo todo. Everton Dantas - O Brasil tem jeito?

Eu não tenho dúvida. Fique tranquilo. Os economistas não têm capacidade para destruir o Brasil. Vicente Serejo - Se não são os economistas, quem tem capacidade de destruir o Brasil?

Ninguém. Podem nos atrasar, dificultar, impor alguma restrição, mas seguramente, não há como. Eu vejo hoje uma disposi-

5

ção, uma capacidade de inovar. Eu sempre uso como exemplo Paraisópolis, que é uma comunidade aqui [em São Paulo], enorme, mais de 100 mil pessoas. A capacidade de se organizar... Com todas as dificuldades. Não tem água encanada. Não tem esgoto tratado. São as pessoas que receberam menos do Estado, mas que têm uma capacidade de se auto-organizar. Essa gente, no momento que tiver uma liderança sólida, crível, vai por esse país para rodar de novo. Gerson de Castro - A disputa entre China e Estados Unidos pode render algo positivo para o Brasil?

Não acredito que seja bom para o mundo. Primeiro que eu acho o seguinte: é óbvio que os Estados Unidos é uma potência decadente e a China é a potência emergente. A luta do Trump com a China mostrou a imbecilidade do Trump. Ele tinha toda a razão. A China só é o que é porque é uma economia de mercado. E nós demos a ela todas as condições de expandir suas exportações. O que foi muito bom para o mundo, porque elevou o nível de renda do mundo. Mas Trump deveria ter chegado à OMC e dito: ‘pois bem, demos para China todas as vantagens. Foi muito bom. A China hoje é uma grande consumidora e uma grande fornecedora. Só que vamos decidir aqui: ou ela obedece às regras do comércio internacional ou ela obedece à OMC ou todos nós vamos suspender nossas importações da China’. A China teria sido conduzida para ser uma economia de mercado sem guerra sem briga. O Trump é realmente muito burro. Ele é realmente uma toupeira. Ele é incapaz de se opor à inteligência, à sutileza da política chinesa. Ele fez tudo errado. Eu só vou dizer mais uma coisa: da China eu só tenho inveja.


» DETRAN REABRE ATENDIMENTO PRESENCIAL PARA REGISTRO DE VEÍCULOS • NATAL 3

PREMIADA

Conheça a história da VOA, vodka que une a Rússia ao Seridó Amamentar é preciso. E exige suporte da família e muita informação. « TN FAMÍLIA 1 »

Neymar Jr.

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ELISA ELSIE

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Ano 70 • Número 128 • Domingo • 23 de agosto de 2020

FUNDADOR: ALUÍZIO ALVES - 1921 - 2006

Conquistar a Europa para ganhar o mundo

Produzida e engarrafada pela destilaria Samanaú, em Caicó, VOA levou o 2º lugar em concurso na Inglaterra. « NATAL 2 »

A final da Liga, hoje às 16h, em Lisboa, entre PSG e Bayern vale o título europeu e pode valer o de melhor do mundo para Neymar. O rival é Lewandowisk. « ESPORTES 4 »

Recursos para obras em 2020 estão garantidos, diz ministro « OBRAS » Ministro do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho, diz que a discussão sobre teto de gastos está superada e que próxima semana será enviado Projeto de Lei ao Congresso Nacional (PLN) que modifica “dotações orçamentárias” para garantir as verbas das obras do ministério até o fim de dezembro. “Para fins de investimento e infraestrutura, a solução obtida consensualmente pelo governo foi o PLN para mudança de rubricas orçamentárias”, disse ele. « PÁGINAS 3 E 4 » ALEX RÉGIS

ESPERA SEM FIM

« FUTURO » Terminais Pesqueiro de Natal e Marítimo de Passageiros (foto), construídos há anos a um custo de R$ 100 milhões, até hoje não se consolidaram como

equipamentos para os fins que foram projetados: o turismo e a pesca. O de Passageiros (TMP) deve abrigar a Codern. O Pesqueiro vai ser alvo de concessão. « NATAL 1 »

FLÁVIO DINO

JORNAL DE WM

Bruno Vilaça reaparece com um novo livro, “A Escolhida”. « PÁGINA 2 »

GOVERNADOR DO MARANHÃO

Entrevista exclusiva à Tribuna do Norte.

RODA VIVA

« PÁGINA 7 »

Mesmo na pandemia, setor eólico cria 49 mil empregos. « NATAL 4 »

“O teto deve ser mantido, mas deve ser adequado a uma tragédia que aconteceu”

ARTIGO

Ignorar a governadora em agenda no RN foi pirraça. « PÁGINA 2 »

REABERTURA

CONTAS PÚBLICAS

EXPECTATIVA

Natal amplia funcionamento de shoppings, bares e restaurantes

Furar ou não furar o teto de gastos, eis a questão?

Eficácia da vacina contra a covid deve ser provada ainda este ano

A Prefeitura publicou decreto que amplia o horário dos shoppings e o limite de pessoas por mesma mesa em bares e restaurantes. « PÁGINA 6 »

Discussão sobre furar o teto de gastos tem gerado um grande debate sobre o futuro do Brasil. Entenda o que pode ser feito. « ECONOMIA 1 E 2 »

Infectologista brasileira que chefia testes clínicos da vacina de Oxford se diz otimista e agradece voluntários. « PÁGINA 8 »

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CENA URBANA

Petistas acreditam contar com duas balas de prata na agulha. « PÁGINA 3 » ALEX MEDEIROS

RUBENS LEMOS FILHO

Apostas no futebol do RN, se houver, deve ser coincidência. « ESPORTES 3 »

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Ao dizer que PT pode não ter candidato, Lula teme 2020. « NATAL 3 »

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ADEUS AO “MOTORZINHO”

CRÉDITO NA PANDEMIA

Cecília Mayara,13 anos, potiguar, está na seleção brasileira de Maratona Aquática

UFRN desenvolve técnica para tratar cárie sem dor e sem perfurações

Banco do Nordeste negociou no RN R$ 451 milhões de março a maio

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Natal - Rio Grande do Norte Domingo, 23 de agosto de 2020

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ENTREVISTA

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FLÁVIO DINO

GOVERNADOR DO MARANHÃO GILSON TEIXEIRA/ DIVULGAÇÃO

EVERTON DANTAS Diretor de Redação

ALDEMAR FREIRE Editor de Política

O

governador do Maranhão, FlávioDino(PCdoB)éumcrítico enfático do comportamento político do presidente Jair Bolsonaro. Mas afirma que não teriaconstrangimentodeintegrarum pacto nacional, se o presidente aceitasse a sugestão de fazer uma ampla convocação para unir país pela geração de emprego. “Tenho feito essa pregação cívica de pacto nacional pelo emprego”, diz Flávio Dino, nesta entrevista à TRIBUNA DO NORTE. Ele admite que a candidatura à Presidência em 2022 é uma possibilidade, mas afirma que não setratadeumobjetivo,sonhoouprojeto.OgovernadordoMaranhãolançouumprogramaquetemcomometa, até o fim do ano, investir — entre obras e contratações de serviços – R$ 558 milhões no seu Estado. Leia os principais trechos da entrevista. Qual é o estágio em que se encontra o controle da pandemia de coronavírus no Maranhão?

O Maranhão acompanha muito asdinâmicasdassíndromesrespiratórias graves da região amazônica. Nós estamos aqui na ponta do Nordeste e na ponta da Amazônica, exatamentenomeiodamargemocidental do Nordeste e na margem oriental da Amazônia. Isso faz com que fatoresclimáticosesazonaislevemaque tenhamosumciclodesíndromesrespiratórias agudas graves um pouco antecipado em relação à média brasileira, de modo que começamos em março e chegamos ao auge nos mesesdeabrilemaio. Nodia25demaio já comecei um processo muito lento, que ainda está em curso, de abertura de atividades privadas e isso se mostrou acertado. Conseguimos manter taxasdeclinantes.Estamoshá63dias com taxa de contaminação abaixo de um, ou seja, tendência de queda, segundo rankings publicados pela PUCdoRiodeJaneiroepelaFundação Getúlio Vargas (FGV). Também há dados jornalísticos de âmbito nacional que corroboram isso, com a queda de taxas de letalidade e mortalidadeemfacedocoronavírus.Mais recentemente, o Centro de Liderança Pública (CLP) publicou dados, no “Estado de São Paulo”, mostrando o Maranhãotambémmuitobemposicionado.Aminhacompreensãoéque opiorjápassou,masabatalhanãoencerrou.Hojetemosaproximadamente oito mil casos ativos e testes sorológicos em curso para mostrar o tamanhodasubnotificação.Muitoprovavelmente a esta altura milhões de maranhensestiveramcoronavírus,o que pode, inclusive, nos conduzir no momentoàchamadaimunidadecoletiva,fazendocomquetenhamosesse cenário de progressiva retomada econômica.Temoshoje90%denossasatividadesfuncionandoe10%ainda aguardando. Por exemplo, grandes eventos, que não liberamos ainda.Agoracompreendemosqueocoronavírus é como se fosse uma maratonaenãoumacorridade100metros, ouseja,temosumaestradaapercorreratéqueaciênciamundialconsiga uma vacina e aí finalmente possamos falar que vencemos a batalha. E como estão as escolas?

As escolas privadas estão parcialmente funcionando. Autorizamos que, de acordo com o entendimento das famílias, com as escolas, houvesseessaabertura.Nocasodas redesmunicipais,oassuntoestádelegado aos prefeitos. No caso da rede estadual , fizemos uma pesquisa com as famílias e com os estudantes e, a maioria, optou pelo ensino não presencial. Então, nós estamos respeitando isso, com aulas na internet, videoaulas, aulas pelo rádio. Monteiumaredederádioquealcança todo o nosso território. Temos maisde500aulasdevídeo.Estamos distribuindo90milchipscompacotes de dados para os estudantes em respeito a essa vontade. Vamos repetir a consulta agora no final de agosto e começo de setembro para ver a compreensão da sociedade, porque temos que respeitar a insegurançadasfamílias.Temospadrões sanitários hoje, que, na nossa ótica,

'É preciso atitude de liderança e puxar o Brasil para frente' « RETOMADA » Governador do Maranhão

defende a formação de um pacto nacional para o país ter unidade pela geração de emprego

permitem, sim, aulas presenciais. Evidentemente com cuidados sanitários, revesamento de estudantes, lotaçãoparcialdassalasdeaulas,não comtodososalunosaomesmotempo. Enfim, todas as regras sanitárias que constam de decretos. Agora, se asfamíliaseosestudantesaindacontinuam se sentindo inseguros, estamosconversandoeoptandopeloensino não presencial na rede estadual neste momento. O caso da compra dos respiradores que não foram entregues abalou a unidade do Consórcio Nordeste?

Realmente, foi um episódio que não gostaríamos que tivesse ocorrido e lamentamos profundamente. Lamentavelmente, isso derivou daqueles desacertos que houve entre super demanda e baixa oferta de produtos. Vários estados tiveram esse problema, mesmo o estado de São Paulo, por exemplo. O próprio governo federal fez compra que não conseguiu receber. Havia uma corrida e um mesmo tipo de montagem de operação, de um avião saindo da China, passando pela Etiópia para conseguir chegar em São Paulo, em um momento dramático, no mês de abril, em que não conseguimos comprar respiradores em canto nenhum, nem no Brasil e nem fora do Brasil. Então, o Consórcio Nordeste, sob a liderança do governo da Bahia, fez essa tentativa, que infelizmente se frustrou. E hoje há uma demanda com uma ação na Justiça da Bahia para que haja devolução desse dinheiro. E o que nos cabe é lamentar, deplorar que empresas privadas não cumpram os contratos. É como um de nós irmos ao comércio, chegarmos lá e olharmos uma televisão, gostarmos dela, fazermos o pagamento, passarmos o cartão de crédito e o vendedor dizer que vai lhe entregar amanhã. E aí confiarmos que, no dia seguinte, o caminhão vai lá na casa e entregar a TV. Chega o dia seguinte e se descobre que não entregaram a TV. Precisa ir ao Procon, entrar na Justiça, brigar e, lamentavelmente, isso está acontecendo nesse instante. É um fato que realmente merece essa ação da Justiça e espero que seja resolvido o quanto antes. Como é que o senhor se situa em

relação ao desempenho do governo federal frente à pandemia?

O Bolsonaro é um desastre em quase tudo o que ele faz. É o governo mais desastrado da História do Brasil. Ele atrapalhou muito o Ministério da Saúde. Quem acompanha a política brasileira sabe que o ex-ministro Mandetta não conseguiu trabalhar. Depois veio outro, não conseguiu também e está o interino, general Pazuello. Nós sempre buscamos o diálogo e diria que o Ministério da Saúde conseguiu mandarmaisalgumacoisarecentemente para os Estados. Naquele período, em abril, não chegava nada, e depois começou a chegar. Nós recebemos,então, respiradores, testes.EudiriaqueoMinistériodaSaúde, depois que o Pazuello entrou, emboraelesejainterino,oqueéuma coisa absurda, acabou dando uma estabilidade que permitiu um certo diálogo com os Estados. Se o Bolsonaro atrapalhasse menos, ou seja, não estimulasse as pessoas a descumprir normas sanitárias, como ele faz o tempo inteiro... Ele vai nos estados e não respeita as regras sanitárias. Dá um mau exemplo e isso fez com que a pandemia perdesse o controle.Nóstemosquelembrarque o sistema é presidencialista, ou seja, avalia-se o governo pela atitude dochefedogoverno.Mesmoqueum jogador,nocasooMinistériodaSaúde, tenha ajudado, ao meu ver as omissões, as sabotagens do presidentedaRepúblicafizeramcomque nãohouvesseumacoordenaçãonacional. E isto fez muita falta. Na retomadadasaulas,nuncahouveuma discussão nacional. E o calendário tem que ser nacionalizado por causa do Enem, que é o mecanismo pelo qual os estudantes do ensino médio entram nas universidades. Não há prova maior dessa descoordenação e isto aprofunda as desigualdadeseducacionais,porqueosfilhos dosmaispobressofremmaisdoque os filhos da classe média para cima, que têm acesso, por exemplo, à bandalargadainternet,apostilas,livros, aulas online. E os filhos do povo? Realmente sintetizaria aí essa ausênciadecoordenaçãonacional,um vexame,umavergonhaemcontraste com o que existe em outros paísesdomundo.OcoronavírusnaAlemanha é assunto da Ângela Merkel; nos Estados Unidos, do Trump. Na Nova Zelândia, no Canadá, na Chi-

na, é assunto do chefe de Estado. Aqui é assunto dos governadores. O Consórcio Nordeste negocia a aquisição de doses da vacina russa contra o coronavírus?

Não estamos ainda nessa fase de debate sobre comercialização e sim, em uma espécie de troca de informações. O que nós temos procurando — os Estados, o Consórcio, e espero que o governo federal —, é um diálogo com China, Rússia, Estados Unidos, Inglaterra, Cuba, com qualquerpaísdomundoquecheguecom a vacina, porque temos interesse de comprar. Nesse instante o que fazemos são trocas de informações, um procolo de entendimentos. É como sefosseumacordopreliminar,dizendoassim:“Temosinteresseemcomprar”.Evamosveraconsolidaçãodos testes, até porque só podemos comprarseaAnvisaautorizar.Osestados nãopodemdescumpriraautoridade do órgão central da vigilância sanitária no Brasil, do governo federal. Então, só vamos passar para essa etapa de compra, quando a Anvisa disser e der autorização para qualquer vacina. É como diz o provérbio chinês: “Não interessa a cor do gato, interessa que ele mate o rato”. Ou seja, não me interessa de onde vem a vacina, interessa que ela funcione. Como é que o país poderia sair do atoleiro econômico?

A pandemia agravou o que já vinha ruim. Nós praticamente tivemos um crescimento zero no ano passado, antes da pandemia. Estamoscomdificuldadeháváriosanos, a bem da verdade. O primeiro passo é abandonar a tristeza. Olha-se a cara do Paulo Guedes. É uma cara triste, deprimida. É uma cara de angústia, de pessimismo, ninguém se inspiracomaquilo.Ninguémvaiinvestir no país, no que nem o ministro da Economia passa confiança. O presidente da República é um homem atormentado. Tem de tomar uma atitude de liderança e puxar o Brasil para frente, empurrar, atrair investimento.Enãoficarfalandode corte e corte o dia inteiro, porque o empresário só investe, se tiver para quemvender.Senãotemdemanda, não investe. Ninguém investe apenas por diletantismo, porque acha bonito. Obviamente, o investidor precisa do retorno do capital investido. Quando se está nessa conjun-

turadeinstabilidadeeconômicaconhecida, sempre há uma alusão ao New Deal, liderado pelo Roosevelt pós-crise de 1929, nos Estados Unidos. Mas podia citar como o Japão enfrentouacrisede2008.Citaragora o que a Alemanha e a União Européia estão fazendo, além de EstadosUnidos,Argentina...Todomundo está tentando reunir o dinheiro existente e colocar na economia. E o nosso plano aqui [no Maranhão] mostra que R$ 558 milhões podem gerar negócios. O governo federal tem muitos instrumentos. Então, a primeiracoisaémudaraatitudepsicológica,largaressatristeza,essadepressão,essaconfusão,esseódio,essa brigalhada. A segunda questão é ter inteligência gerencial, de reunir os recursos existentes. Dou um exemplo:oFundoConstitucionaldo Nordeste,temmaisdeR$10bilhões. Então, pegue e transforme isso em obra rodoviária. Tenho certeza de que o Rio Grande do Norte precisa. Infraestrutura gira a economia. O dinheiroestálá.AEletrobrástemdinheiro em conta, o Banco Central tem,oTesouroNacional,oBNDES, o FAT-FGTS, o Fundo Constitucional do Centro-Oeste e do Norte. Então, precisa reunir algo na casa decentenasdebilhões.Nãopodeser uma coisa pequenininha. Lembre que o PAC 1 tinha investimentos de R$ 500 bilhões, com uma estrutura econômica melhor. Agora reúne R$ 300 ou R$ 400 bilhões e vamos fazer “Minha casa, minha vida”, habitaçãoparaopovo,geraremprego, sustentar as pequenas e micros empresas. Então, a minha concepção é mudar atitude para gerar confiança. E mobilizar os recursos existentes. Em terceiro lugar, saber onde botar o dinheiro. Também apoiar pequenosemicrosempresários.Natal é uma cidade turística. Mas o turismo está no chão. Se o hotel vai para o chão, o taxista vai junto. Quem vendeoalimentodohotel,também. Então, precisa sustentar, não apenas com crédito. Se for necessário, pagandoafolhadaempresa.Outros paísesestãofazendo.Nãoparasempre,claro,masparaevitarquefeche, porqueumaempresaquefecha,depois não abre. É preciso fazer uma política industrial, escolher alguns setoreseconômicosquepossamimpulsionaropaís,comopetróleoegás, complexo industrial da saúde. Nós fomoscomprarrespiradoresnaChina. Será que no Brasil não se faz respiradores?Nãosefazmáscaras?Não se faz luvas? Então, pegue esse dinheiroeinvistaouvamosficarfinanciando empregos em outros países. É possível fazer isso, sem quebrar o país. Mas fica com essa mistificação de teto, é porque não sabem governar. Essa é a realidade. Essa discussão em torno do teto de gastos públicos está equivocada?

Se olhar a experiência constitucional do mundo, e sou professor de Direito Constitucional, não há nenhum país do planeta que tenha teto de gastos na Constituição, só o Brasil. Então, toda vez que muda o ciclo econômico, tem de mudar a Constituição. Está errado. Em segundo lugar, o teto tem que ser inteligente. Tem que fixar por alguns anos e não ano a ano, por exemplo, fixa um teto de dois, três anos, para poder um ano compensar o outro. Eu questiono a indexação à inflação. Para o próximo ano, o orçamento do Dnit é o menor da história brasileira. Como vai recuperar estrada,senãotemdinheiroalgum? Então, tem que fazer o misto inflação e PIB. O teto pode ser equacionado com uma mudança, sem precisar revogar o teto. Eu sou contra revogar o teto. Acho que o teto deve ser mantido, mas adequado a uma tragédia que aconteceu. Nós temosanossavida,umplanejamento, uma forma de viver. Acontece um imprevisto na nossa vida, muda-se as regras de casa, não vai continuar a viver do mesmo modo. Aconteceu uma tragédia, chamada coronavírus. Então, não pode achar que vai continuar a sua vida do modo com antes. Circunstâncias excepcionais, remédios excepcionais. Enfatizo isso. Esse pessoal está perdendo tempo, já estamos chegando em setembro e vamos produzir o desemprego que é o maior da história desse país. Tenho feito essa pregação cívica para um pacto nacional pelo emprego. Propus ao Bolsonaro, mas até agora ele não acolheu. Espero que acolha e chame os governadores, os empresários.

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O ex-presidnete Lula afirmou que o PT pode não ter candidato a presidente. Neste caso, as chances do senhor ser o candidato aumentam?

Acho positivo, independente do nomesetenha,esteanúnciodopresidenteLula.Tenhoconversadobastantecomele.Recentemente,fizumartigonojornalOGlobo,comotítulo“Caminhando com Mandela”. Trato de como Mandela derrotou o apartheid. Quaseumasimetria,oapartheidbrasileiro seria o Bolsonaro. Mandela fez um movimento de ampla união. Este artigoquepubliqueiháummêsvainestadireção.Essaentrevistadopresidente Lula achei muito positiva e um sinal importante. O PT é grande partidobrasileiro.Massozinhonãoconseguefazertudo.Ninguémsozinhoconsegue.Nemnanossacasa,navidapessoal. Sempre contamos com a ajuda dealguém.Quantomaisgenteajudando melhor. Então, achei muito boa estadeclaraçãodopresidenteLula.Vamosesperarotempocerto.Háotempo de Deus e o da política. A eleição [presidencial] é só em 2022. Cada dia com sua agonia. Mas a candidatura do senhor é uma possibilidade? Tem vontade de ser presidente da República?

SeperguntaraojogadordoABC, ele vai dizer que quer jogar na seleção. Eu era juiz federal. Deixei de ser voluntariamente.Fuijuizdos25aos 38 anos. Queria ajudar na política, ao Maranhão. Estou governando o meu Estado. Graças a Deus, com o sucessopossívelnestaconjunturadifícil. Existe a possibilidade [de ser candidatoapresidente]?Existe.Existe o plano? Não. Um planejamento?Não.Umacampanha?Também não. Um sonho? Também não. É uma possibilidade. Por que digo assim? Não depende de mim. Tenho noção de que não posso construir uma candidatura presidencial sozinho.Tenhopénochão,sensoderealidade, humildade. Vamos esperar. Se houver uma conjuntura que leve a isso, tudo muito bem. Disponhome. Seria uma honra, uma alegria. Também se não tiver, ótimo. TentareivoltarparaoCongressoNacional. Se o povo do Maranhão quiser, disputo o Senado ou a Câmara. Com maiorprazer.AdorooCongressoNacional. Trabalhei nos três Poderes: No Judiciário, no Legislativo e no Executivo. Governar meu estado é uma honra imensa, mas aprendi muito, fui muito feliz e fiz excelentes amigos no Congresso Nacional. Então, estou pronto para estas opções. Tenho muita tranquilidade. Há dez anos meu grande objetivo político era governar o Maranhão. Consegui duas vezes e estou feliz. É possível que em breve ou nas eleições de 2022 o senhor esteja caminhando com Mandetta?

É um quadro político que mostrou muitas virtudes. Eu não o conheço pessoalmente. Mas considero que a esquerda deve estar aberta paraconversarcomtodomundoque queiranosajudar.Mencioneiaaliança de Lula com José Alencar. Tenho muitosamigosnocentro.ODEMintegra nosso governo aqui no Maranhão. O secretário de Educação é do DEM. ACM Neto, prefeito de Salvador, do DEM, é meu amigo. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, é meuamigodesdeosanospretéritos. Essesdiálogossãopositivos.EMandetta, como militante do DEM, tem condições de participar destas conversasmaisamplas.Senãofornoprimeiro turno, pelo menos no segundo. Não pode é fechar. Vimos, em 2018, quando Haddad perdeu para Bolsonaro.Perdeu,porqueBolsonaro tinha mais apoio. Ou faz a frente ampla, ou o adversário faz e ganha. Foi o que aconteceu em 2018.

 VEJA MAIS Aponte a câmera aqui e assista a entrevista completa.


» HARLEY-DAVIDSON LANÇA MUSEU EM PARCERIA COM O GOOGLE ARTS • FAMÍLIA 5

EX CL U SI V O

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Ano 70 • Número 140 • Domingo • 06 de setembro de 2020

FUNDADOR: ALUÍZIO ALVES - 1921 - 2006

ROSINEI COUTINHO/SCO/STF

LUÍS ROBERTO BARROSO Presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e ministro do Supremo Tribunal Federal (STF)

“O papel do Supremo é limitar o poder” « ENTREVISTA » Ministro Luís Roberto Barroso explica logística e o protocolo da eleição em

2020; e a parceria com a iniciativa privada para realização do pleito. E fala também sobre fake news, atuação do Supremo, Lava Jato, racismo e custo do Estado. “O custo do Estado brasileiro é muito elevado. Precisamos enfrentar isso”, defende. « PAGINAS 3 E 4 »

ALEX RÉGIS

Bancada federal terá R$ 416 milhões de emendas em 2021 « RECURSOS » Senadores e deputados federais potiguares poderão incluir no Orçamento Geral da União do próximo ano R$ 179 milhões de emendas individuais e mais R$ 247,1, milhões pela bancada. Cada um deles poderá propor emendas no limite de até R$ 16,2 milhões. Conforme o coordenador da bancada, deputado federal Benes Leocádio, metade do valor das emendas individuais deve ser destinado para a área de saúde. « PÁGINA 5 »

SAÚDE

ASSASSINATO

PECUÁRIA

Entenda o que é câncer de cólon, que matou o “Pantera Negra”

Flordelis rejeita acusações de participação em morte do marido

Produção de leite no RN cresceu 14,7% de 2017 para 2018

No Norte-Nordeste, RN tem uma das maiores taxas de morte por câncer de cólon, que vitimou o ator Chadwick Boseman (Pantera Negra). Entenda o que é esse mal e quais seus sinais. « NATAL 3 »

Em nota enviada à Câmara dos Deputados, Flordelis diz que investigações foram feitas com erros e pediu para não ser julgada e condenada antes de apresentar verdade sobre os fatos . « PÁGINA 7 »

Produção de leite no Estado cresceu 14,78% de 2017 para 2018. O salto foi de 239 milhões de litros para 279 milhões de litros. Em 2018, produção gerou R$ 3,2 bilhões. « ECONOMIA 1 E 2»

« SAUDÁVEL » Culinarista e apresentadora Bela Gil defende que cozinhar para si mesmo é o caminho para conscientização sobre a importância de uma alimentação saudável. « FAMÍLIA 1 »

ALEX RÉGIS

ÓLEO NAS PRAIAS, NADA DE RESPOSTAS

NAS ASAS DA ILUSTRAÇÃO

Alexandre Guedes, o ilustrador potiguar que faz sucesso nos EUA e na Europa

DIVULGAÇÃO

ADRIANO ABREU

O QUE NÃO É ESPELHO

Documentário sobre prisão de Caetano Veloso estreia amanhã (7) na Globoplay

« AMBIENTE » Um ano após o derramamento de óleo que atingiu praias brasileiras, incluindo Genipabu, em Extremoz, os responsáveis pelo crime ambiental não foram descobertos. « NATAL 1 E 2 »

« FAMÍLIA 3 »

Aos leitores

FUTEBOL DO RN

JORNAL DE WM

RODA VIVA

CENA URBANA

ALEX MEDEIROS

Em razão do feriado de amanhã, Dia da Independência do Brasil, não teremos, terçafeira (8), a edição impressa. Mantenha-se atualizado no portal www.tribunadonorte.com.br A direção

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Clássico pode valer uma ou duas taças, amanhã A taça da Copa RN (2º turno) do Estadual pode ser erguida junto com outra, se o ABC segurar o empate com o América, amanhã, 16h, no Frasqueirão. Vitória rubra tem taça única e mais dois jogos. « ESPORTES 1 »

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Academia Norte-RioGrandense de Letras tem eleição dia 11. « PÁGINA 2 » Poderão ser benéficos os efeitos da união do grupo Alves. « PÁGINA 3 » NO FACEBOOK

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Independentes querem produzir 500 mil barris de petróleo no RN. « NATAL 4 » Bolsonaro ignorou por completo reportagem da Veja . « NATAL 3 » NO TWITTER

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Natal • Rio Grande do Norte Domingo, 06 de setembro de 2020

política

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»ENTREVISTA » LUÍS ROBERTO BARROSO

Cena Urbana VICENTE SEREJO SEREJO@TERRA.COM.BR

PRESIDENTE DO TSE E MINISTRO DO STF

NELSON JR./SCO/STF

EVERTON DANTAS Diretor de Redação

ALDEMAR FREIRE Editor de Política

P

Para isto fomos feitos Desconfio, Senhor Redator, que o homem foi feito por Deus para ser exatamente assim como ele é: menor do que seu orgulho sem fim; mais fraco do que sua imensa vaidade; e pequeno apesar de toda prepotência. Do contrário, não teria a menor chance de obter a transcendência que sequer imagina merecer. É pouco em tudo. E só se agiganta nos grandes gestos de renúncia e comiseração. No mais, e apesar de toda riqueza que possa ter, é um fraco que tem medo da morte. Tenho impressão que ninguém percebeu melhor a pequenez do homem do que o grande Miguel de Unamuno. Um belo cristão, reitor da Universidade de Salamanca, tão perseguido pelo furor do generalíssimo Francisco Franco, aquele que mandou arcabuzar o poeta Federico Garcia Lorca, perseguido na sua querida Espanha. Foi ele, Unamuno, quem viu por sobre a inteligência sem limites do homem o peso de arrastar, nos seus ombros frágeis, o sentimento trágico do fim. Não significa que não ouse. Não basta ser capaz de romper limites, até porque, se não fosse capaz de rompê-los, não teria feito tantas e tão grandes descobertas e invenções a dominar os céus e os mares, de pisar na lua, de construir colossos. Mas, nada que tenha feito, ou venha a fazer, será maior do que ele mesmo. E por mais que seja capaz de tudo fazer, não lhe será dado, nunca, a compreensão do sopro que o fez à imagem e semelhança de Deus, fruto da misericórdia. Nada lhe é mais íntimo e mais estranho, ao mesmo tempo, do que sua própria existência. É mais forte do que a sua capacidade cerebral. A ciência que ele criou é capaz de compreender e explicar, isoladamente, as funções biológicas de cada órgão, sem que lhe seja dado, até hoje, a compreensão absoluta da vida. Basta uma cura impossível para fazê-lo menor do que a ciência de todos os saberes que acumulou em séculos e séculos de observações sistemáticas e científicas.

O homem é pleno como concepção perfeita, na medida em que nada lhe falta, biológica e fisiologicamente. E, no entanto, a cada dia, se multiplica numa velocidade sem fim e se expande o universo que imagina conhecer e dominar. Desde quando olhou esse universo, no primeiro vôo espacial, e constatou a insignificância da terra como um pequeno ponto a navegar no espaço e a fazê-lo voltar convencido de que conhece muito pouco e, muito pouco, e sempre, vai conhecer. A beleza da existência humana está na sua finitude diante da grande dúvida que jamais vai compreender em plenitude. Mesmo quando tenta provar a inexistência de Deus, faz da própria dúvida a sua existência. Não se nega aquilo que não existe. Sua ciência será sempre menor do que o mistério da vida. E esse mistério, Senhor Redator, esse mistério, é a própria vida. Vida que começa no grão quando morre sobre a terra para que possa renascer. Pois para isto fomos feitos...

e e e PALCO e e e EFEITOS - Poderão ser benéfi-

FREYRE - Só agora chega aos ol-

LUTA - Nos municípios, onde a luta é de confronto direto, o PSDB e o MDB vão administrar os conflitos quando houver disputa pela prefeitura. São estopins. É preciso evitar que peguem fogo.

DOSSIÊ - A edição tem ensaios

DIREITO - Dia 8, terça, às 9h da

TACAPE - Da atriz e poetisa Bru-

LÍDER - Pesquisa junto ao eleitorado de Acari revela que o advogado Fernando Bezerra, filho da terra e de velhas raízes seridoenses, lidera as pesquisas para prefeito. Um símbolo da tradição.

SONHO - De Nino, o filósofo me-

cos no futuro próximo - 2022 - os efeitos da união do grupo Alves nascida aqui, em 2020. E com dois partidos nas mãos: MDB e PDT. A política exige paciência.

manhã, pais e gestores de escolas fazem um ato de protesto, na Praça 7 de Setembro, em favor da volta às aulas. Todas preparadas para as normas de segurança.

hos do mundo a edição do jornal cultural ‘Pernambuco’, com a edição especial sobre os 120 anos de Gilberto Freyre, lançado ainda em março, antes do Covid. de Maria Lúcia Pallares-Burke, Simone Meucci, Evaldo Cabral de Melo, Schneider Carpeggiani e Igor Gomes. Gilberto de corpo inteiro com suas contradições.

na Lombardi, 68 anos, na sua entrevista exclusiva à revista ‘Isto É”, olhando o Brasil como ele é: “A elite brasileira é criminosa e se vale da impunidade”. lancólico do Beco da Lama, sonhando: ‘Um dia a Assembleia vai cansar de inventar tantos encômios, títulos honoríficos, homenagens, medalhas e berloques”.

e e e CAMARIM e e e CULATELLO - Depois de curtir quatorze meses em câmara frigorífica entre zero e cinco graus positivos, amarrado em barbante natural, Mano Targino partiu o primeiro presunto Culatello, de velhíssima tradição italiana. E viu que finalmente conseguiu chegar ao ponto de gosto e maciez. TÉCNICA - O Culatello é a parte mais nobre do pernil

desossado, temperado com as mais suaves ervas finas, enrolado e amarrado. Depois da fase do sal grosso, sob medida para evitar excessos, dorme ao longo de quatorze meses para ser cortado e ser consumido com um leve toque de azeite.

VAIDOSO - Mano Targino, menino criado nas terras da

Fazenda Cangaíra, em Messias Targino, do seu avô, anda todo vaidoso com a ousadia de conseguir fazer aquele que é considerado, pelos próprios italianos, como o príncipe dos presuntos. Da província de Parma, direto para Macaíba.

residente do Tribunal Superior Eleitoral e ministro do Supremo Tribunal Federal, Luís Roberto Barroso não considera que o Judiciário tem extrapolado atribuições ou ultrapassado limites. Isso porque, as decisões, mesmo quando provocaram intensa repercussão, foram, afirma, para fazer cumprir a Constituição. “É preciso entender uma coisa: em todas as democracias, a Constituição existe para limitar o poder. O Supremo é o intérprete da Constituição. Portanto, o papel do Supremo é limitar o poder”, destaca, nesta entrevista à TRIBUNA DO NORTE. Ele também defende que o estado brasileiro precisa ser reduzido na atuação econômica e administrativa, mas fortalecido nos programas sociais e melhorar na prestação dos serviços públicos. O presidente do TSE também detalha a logística que está sendo preparada para o dia das eleições pela Justiça Eleitoral, com as mudanças provocadas pela pandemia da covid-19. Qual o maior desafio do TSE nas eleições deste ano?

São tantos que é até difícil sistematizar. Mas eu diria que o grande desafio é conciliar a necessidade de participação democrática do maior número de eleitores com o máximo de segurança relativamente à saúde das pessoas. Essa tem sido a nossa preocupação e por essa razão adiamos as eleições algumas semanas e estamos coletando uma grande quantidade de equipamentos de segurança para proteção de mesários e eleitores. É uma operação logística que envolve gente, locais, equipamentos para as eleições e uma grande quantidade de materiais de segurança. Como o TSE fez para obter esses materiais junto à iniciativa privada?

Uma vez adiadas as eleições, eu tinha que cuidar da segurança dos eleitores e mesários que prestam colaboração à Justiça Eleitoral. São cerca de 2 milhões de mesários. Os equipamentos de segurança, se eu tivesse que licitar, não conseguiria adquirir tudo a tempo para as eleições. Fizemos uma chamada pública para obter doações da iniciativa privada. Até porque o País vive uma crise fiscal e eu preferia não tirar recursos do Tesouro além do que já é alocado ao TSE. Para minha surpresa, tivemos mais de duas dezenas de entidades e empresas que atenderam a nossa chamada e estão diligenciando para nós fornecermos um mínimo de 7 milhões e meio de máscaras aos mesários. Para que cada mesário tenha três máscaras e possa trocar ao longo do dia, a cada quatro horas. Estamos diligenciando para obter 2 milhões de face shields (protetor facial) e cada mesário terá seu próprio frasco de álcool. Também estamos obtendo junto à iniciativa privada 1 milhão de litros de álcool em gel para o eleitor higienizar as mãos ao entrar e ao sair das seções eleitorais. Todos os eleitores deverão comparecer de máscaras. E todos os que puderem, devem levar sua própria caneta. Para evitar qualquer tipo de contato entre mesário e eleitor. Estamos obtendo os adesivos para marcar no chão os espaço para distanciamento social. Estamos fazendo tudo que é razoavelmente possível para prover segurança. Vamos divulgar semana que vem os protocolos e procedimentos de segurança e os cartazes para simplificar a compreensão do que precisa fazer. Quando tudo isso estará pronto?

A gente espera que em outu-

‘Papel do Supremo é limitar o poder’ « ELEIÇÕES » Roberto Barroso detalha a logística

que vai garantir a segurança da votação, diante das precauções necessárias por causa da pandemia

Quando você tem organizações criminosas articuladas, hierarquizadas, que cumprem ordens, são mercenários que cumprem ordens e remunerados. Esses a gente tem de enfrentar.”

bro tudo isso esteja resolvido. A ideia é ter todos esses materiais até o final de setembro. Aí começa uma logística que não é singela, que é distribuir por todo o Brasil, por todos os 27 estados, essa grande quantidade de materiais. Temos parceria com entidade de classe das empresas aéreas e com a entidade de classe das empresas de transporte. Elas estão contribuindo com a doação deste serviço, deste transporte. O álcool é mais complexo. Não deverá ir por avião. Deverá ir por terra. E aí tivemos outro problema, que acabamos de resolver esta semana, que foi conseguir a isenção de ICMS para que estes produtos pudessem circular. Para ter isenção tem que obter autorização do Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz). Conseguimos em tempo recorde aprovar essa isenção no Confaz. Os materiais estando todos entregues até o final de setembro, a distribuição será feita em outubro. Os equipamentos estão ficando num depósito do Mercado Livre. Muita gente patrioticamente nos ajudando, o que é um precedente pioneiro de parceria público e privada para a realização do bem comum e para a realização das eleições.

de covid-19, inclusive com recomendações de ingerir água sanitária. Aconteceram coisas bárbaras e que precisam ser enfrentadas. Há uma passagem célebre de uma decisão nos EUA que diz: ‘liberdade de expressão não inclui você poder gritar fogo dentro de um cinema lotado para causar pânico às pessoas’. Há um limite para tudo nessa vida. Como é que nós estamos enfrentando? Primeiro eu trabalhei para desfazerailusãodequesepudessecombater fake news com decisão judicial. Em primeiro lugar, pela dificuldade que é qualificar o que é fake news; e a Justiça Eleitoral não quer ser censora do debate público. Segundo lugar, não dá para fazer pelo Judiciário, porque os ritos do Poder Judiciário são incompatíveis com a velocidade que as notícias circulam online. Além do quê, muitas vezes, esses computadores que disseminam fake news estão fora do Brasil. Então você não tem nem jurisdição para chegar a eles. Desde o começo estabeleci com as plataformas de mídias sociais uma parceria, que estão inclusive desenvolvendo ferramentas específicas para o combate às fake news, em que o controle não é de conteúdo, mas decomportamentos.Oqueeleschamam de comportamentos inautênticos na rede. É um combate contra impulsionamentos ilegais contraaatuaçãoderobôs,contraosperfis falsos que frequentemente são difundidos por organizações criminosas. Elas são hierarquizadas, pessoas que atuam de maneira orquestrada e financiada. São milícias digitais, terroristas verbais que têm uma atuação destrutiva da honra das pessoas e da democracia. São bandidos. Outros são psicopatas. E alguns acumulam. Esses a gente precisa enfrentar. Não é a manifestação individual de quem quer que seja, aí pode criticar o quanto quiser, o Supremo, a democracia, o Congresso. Mas quando você tem organizações criminosas articuladas, hierarquizadas, que cumprem ordens, são mercenários que cumprem ordens e muitas vezes remunerados. Esses a gente tem de enfrentar.

Em 2008 o uso de fake news gerou preocupação. isso só se intensificou. Como o TSE pretende atuar com relação a esse problema sem que isso prejudique a liberdade de expressão?

O que a democracia brasileira ganha com a decisão de tempo e recursos iguais para candidatos negros e brancos?

Essa questão das notícias fraudulentas é um problema mundial hoje em dia em relação à política, em relação a eleições e em relação inclusive à saúde pública. A quantidade de barbaridades que circulou no mundo, depois da pandemia

O Brasil é um país que tem pelo menos 50% da sua população, negra. Entre pretos e pardos, para usar a terminologia que se tem usado mais adequadamente. E uma participação muito baixa percentualmente de pessoas negras

tanto em cargos públicos quanto na iniciativa privada em posições de destaque. De modo que, já de alguns anos, o País vem fazendo um esforço muito importante de ação afirmativa para combater um racismo estrutural e institucionalizado que é uma consequência da colonização, da escravidão e da maneira como foi feita a abolição sem nenhuma preocupação de inclusão social e integração dessas pessoas. Nos demos conta nos últimos tempos que temos uma dívida a saldar com metade da população brasileira. E, portanto, há incentivos para a ascensão e inclusão social dessas pessoas nas universidades, com as cotas raciais; nos cargos públicos, os concursos têm de reservar 20% das vagas para as pessoas negras que consigam ser aprovadas. E agora estamos fazendo o mesmo na política. Na verdade, o pedido era para estabelecer uma cota. Eu mesmo fui o relator e entendi que a cota precisa ser estabelecida por lei, depende do Congresso. Que fez uma cota há muitos anos para mulheres. E acho até que deveria fazer o mesmo com candidaturas negras, embora menos necessário. Porque nós já temos a média nacional com cerca de 40% de candidaturas negras. O problema é que não são candidaturas viáveis. As pessoas não conseguem bancar suas candidaturas. O que o TSE fez foi dizer: se houver 20% de candidaturas negras, 20% das verbas do Fundo Eleitoral e do Fundo Partidário tem de ir para as candidaturas negras. É a reparação de uma dívida histórica, em primeiro lugar. É o combate ao racismo estrutural, que ainda existe no Brasil, em segundo lugar. E é um esforço para que tenhamos pessoas negras em cargos de destaque na vida brasileira, porque isso é importante para crianças e jovens que se identificam com eles, para que tenham símbolos de sucesso e realização. E eles são modelos. As pessoas na vida se movem por exemplos. Precisamos de pessoas negras com visibilidade e sucesso para servirem de inspiração para os jovens. Eu fui até vencido. Eu já aplicava para a eleição de agora, porque as candidaturas ainda não foram registradas. Mas a maioria do Tribunal entendeu que se deveria dar um tempo para os partidos se organizarem e portanto isso valerá para 2022. PAGINA 4

Continuação da entrevista.


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Natal • Rio Grande do Norte Domingo,06 de setembro de 2020

política

»ENTREVISTA » LUÍS ROBERTO BARROSO PRESIDENTE DO TSE E MINISTRO DO STF

ROSINEI COUTINHO/SCO/STF

Tem muita discussão sobre o controle dos atos do Poder Executivo por parte do Judiciário. O senhor acha que o Judiciário extrapola?

Eudiriaque,nogeral,não.Houve dois casos polêmicos. Um deles foiocasodaindicaçãododiretorda PolíciaFederal.OministroAlexandredeMoraes,quefoiquemtomou a decisão. Ponderou… A Justiça é representadapordoispratosemuma balança, porque muitas vezes você precisa pesar valores diferentes. Primeiro prato: o respeito à separação de poderes e não interferência em atos políticos do outro Poder. E o segundo prato é que as democracias precisam ter árbitros neutros e instituições que não sejam capturadas pela política, porquenãoestãoaserviçodogoverno; e sim do estado e da população. Os presidentes da República, poderosos como sejam, não podem colocar nem a Polícia Federal nem a Receita para perseguir seus adversários, por exemplo. Elas têm que ser neutras. E, portanto, a captura políticadessasinstituiçõespodeser problemática para a democracia. Essesforamosdoispratosqueoministro Alexandre de Moraes consideroueproduziuadecisãoqueaele pareceubemesobrecujoméritoeu nãovouaquicomentar.Aoutradecisão foi tola do ponto de vista do impacto prático, mas deram muita ênfase. Uma, minha, que impediu a retirada de diplomatas venezuelanos durante a pandemia. O que foi que eu decidi? Quem mantémrelaçõesinternacionaiséopresidente da República, portanto, ele cuida disso. O presidente pode desacreditar diplomatas e dizer que eles não representam mais o seu país. E o presidente pode considerar qualquer pessoa estrangeira personanongrataemandarsairdo Brasil.Aúnicacoisaqueeudissefoi: no momento em que a pandemia está em curva ascendente, você obrigar34famíliascomidosos,mulheres e crianças a sair do Brasil a pé?. Não tem avião para Caracas, não tem ônibus para Caracas. Portanto,eraumacrueldadedesnecessária. Então, eles já não representam mais a Venezuela, vão ter de sair do Brasil, só não teriam de sair a pé durante a pandemia. Essa decisão só era relevante para essas 34 pessoas. Fora isso não produzia impacto nenhum. As outras decisões foram relativamente simples e óbvias que estavam na Constituição. Primeira: em matéria de saúdepública,tantoaUnião,quanto Estados e municípios têm competência. Está na Constituição. O Supremo decidiu o óbvio. Portanto, a primeira decisão do Supremo que causou choro e ranger de dentes foi dizer que União, Estados e municípios tinham competências. Isso é o óbvio. Outra decisão, que também foi minha: impedir uma campanha chamada “O Brasil não pode parar” que convocava as pessoasavoltaremaotrabalhoeàsruas no auge da curva da doença e aindasobrecomendaçãodeisolamento social. Chamar as pessoas para a rua significava aumentar o nível de contágio e o risco de aumentar onúmerodemortes.Eumesmodecidi: não pode ter essa campanha. Era tão ruim que eles disseram “não, não a gente não ia lançar a campanha”.Umaoutradecisãoimportante foi derrubar uma determinaçãogovernamentaldenãodivulgar os dados da pandemia. Ora, para enfrentar a pandemia de forma adequada você precisa saber quantas pessoas estão contaminadas, quantas estão morrendo e onde.Portanto,decisõesóbviasdoSupremo que não deveriam causar… Enfim.Éprecisoentenderumacoisa: em todas as democracias, a Constituição existe para limitar o poder.OSupremoéointérpreteda Constituição. Portanto, o papel do Supremoélimitaropoder.Sempre haverá, em qualquer democracia, algum grau de tensão entre Executivo e Judiciário. Sempre existe algum grau de tensão entre quem exerce o poder e quem tem que oferecer limites a este poder. Assim é nas democracias. Não aconteceu nada de anormal.

Qual sua opinião sobre a Lava Jato, levando em consideração os acontecimentos recentes, como a saída do coordenador em Curitiba, pedidos de afastamento em São Paulo, os posicionamentos recentes do procurador-geral da República...

'Precisamos enfrentar o custo do Estado Brasileiro' « RUMOS DO PAÍS » Luís Roberto Barroso defende redução da presença do Estado na economia, mas com fortalecimento dos programas sociais

Mas senhor considera que deveriam ter limites para decisões monocráticas [de apenas um ministro de tribunal superior], como no caso do afastamento do governador do Rio de Janeiro?

tro do quadro da democracia, quem está infeliz, na próxima eleição votará no candidato da sua preferência. Mas, em uma democracia, governa de acordo com sua agenda.

Acho que deveriam ter limites para decisões monocráticas sobre a todos os assuntos. Eu mesmo tenho uma proposta que ficou com cinco votos e [houve] pedidos de vista. Minha proposta é que qualquer decisão de qualquer ministro tem que ser colocada no plenário virtual. Portanto, qualquer decisão, para produzir feitos, tem que imediatamente que ir para o plenário virtual para que todos possam se manifestar.

Há uma discussão sobre os gastos com o setor público e o tamanho excessivo do Estado no país. Com vê esse questionamento?

Qual a sua avaliação com relação ao governo Bolsonaro?

Não sou comentarista político. Isso não faz parte do elenco das minhas atribuições. O meu papel é zelar pelo cumprimento da Constituição e, eventualmente, pelo aprimoramento das instituições. Posso dizerqueoCongressoNacionalderrubou medidas provisórias do presidente da República. As medidas foram revogadas e, portanto, a Constituição foi cumprida. O Supremo derruboumedidasdopresidenteda Repúblicas.Asmedidasefetivamenteforamdesfeitas.AConstituiçãofoi cumprida. Apesar de muito burburinho, as instituições democráticas funcionam adequadamente. Às vezesaspessoasnãocompreendemisso,masamaiorpartedosatosdopresidente são mantidos. Foram considerados válidos. Quando se declara algo inconstitucional, ou quando o Congressoderrubaalgumamedida, chama muito mais atenção. Mas há uma rotina do governo, sem ser minimamentemolestado,sejapeloLegislativo ou o Judiciário. Não me cabe uma avaliação política, mas do ponto de vista institucional, o governofuncionadentrodoquadroinstitucionaldademocracia.Nestamatéria, superamos todos os ciclos do atraso. Acho muito difícil ter retrocesso.Podehavermanifestaçõesretóricas aqui e ali. Mas no mundo realdofuncionamentodasinstituições e da democracia não há nada de errado acontecendo, felizmente. Claro que se pode discordar da política ambiental,dapolíticadearmarapopulação,dotratamentonaeducação ou na saúde, porque assim é a vida. Agora, o presidente foi eleito com 58 milhões de votos. Portanto, den-

Na situação extraordinária de pandemia,osgastosseimpuseram, para equipar a área da saúde; para preservar, na medida do possível, o emprego das pessoas; abrir crédito para as empresas não quebrarem e dar o auxílio emergencial, sobretudo aos informais que, caso contrário, morreriam de fome. Esses gastos foram muito onerosos, porque o Brasil já estava beirando os 80% de dívida pública em relação ao PIB e agora vai se aproximar dos 100%, o que é preocupante. Porém, foi necessário salvar a vida das pessoas. Essa é minha opinião sobre a atuação durante a pandemia. Agora, ordinariamente. O custo do Estado brasileiro é muito elevado. Precisamos enfrentar isso. O professor Armínio Fraga tem escrito sobre isto, demonstrando que a soma da Previdência Social com o [salário do] funcionalismo já atinge 80% do orçamento. É muito dinheiro. A média dos países que estão no mesmo estágiodedesenvolvimentoquenós é em torno de 65%. Portanto, precisamos fazer uma redução do Estado brasileiro. Qual Estado brasileiro que precisamos reduzir? O Estado econômico e o Estado administrativo. Não o Estado social. O Estadoeconômicoérepletodeempresas estatais atuando no domínio da economia, com loteamento político. Acho que precisamos nos desfazer de boa parte destas empresas [estatais] pelo menos das que não são estratégicas para a vida brasileira.Eoestadoadministrativobrasileiro também é muito grande. O país tem mais de 25 mil cargos em comissão só no governo federal. Isso custa dinheiro. Além de vantagensimprópriasparaservidores,inclusive na magistratura para deixar registrado que não sou corporativista. Essa Estado econômico e esseEstadoadministrativoprecisamosreduzir,porqueasociedadenão consegue mais sustentá-los. O Estado social deve ser de um sistema tributária mais justo. O nosso, além de ser um dos mais complexos do mundo, é extremamente regressi-

vo, porque arrecada certa de 50% dos impostos sobre o consumo – com IPI, ISS, ICMS -, mas é relativamente dócil com renda acima de determinadas faixas, com o capital e com a propriedade. O problema é queastransformaçõesqueprecisam ser feitas na área tributária afetam os donos do poder. Portanto, uma reforma tributária justa vai ter que cortar na carne. Não é nem aumentar a carga, mas sim mudar a distribuição. A carga já beira os 33% e está mais ou menos no teto para um país no estágio de desenvolvimento no qual estamos. Nós até superamos todos os países na mesma situação. Não adianta aumentar a tributação, porque mata as empresas ou desestimula o trabalho. O senhor defende, então, um ponto de vista econômico semelhante ao modelo liberal na economia, com a presença maior do setor privado, mas com fortes programas sociais. E recentemente defendeu também que o Judiciário garanta os direitos fundamentais...

Soudefensordaautocontenção judicial. O Judiciário deve se meter omínimopossívelemeconomiaem decisões administrativas e políticas em geral. Mas acho que o Judiciário deve ser pró-ativo na defesa da democracia, da liberdade de expressão e de outros direitos fundamentais. Aliás, esse é um papel que o Judiciário cumpre bem. Tivemos nosúltimos30anosavançosimportantes em relação a mulheres, negros, comunidade LGBTI, demarcaçãodeterraindígenas,transgêneros... Direitos fundamentais foi um capítulodaagendabrasileiraemque o Judiciário prestou um serviço relevante para o progresso social. Demarcação de terra indígena é um preceitoconstitucionalnãoumaescolha política. Tem que fazer. Desdequepresentesospressupostosda Constituição, porque picaretagem ninguémprecisa.Ninguémnestavida deve presumir muito de si mesmo. Mas não deve ficar aquém de seus deveres e de seus papéis. O do Judiciário é proteger a democracia, direitos fundamentais e fazer valer aConstituição.Ficamaiscomplexo, porqueháquestõesnalinhadefronteira,naqualnãoestátotalmentenítida se é um aspecto político ou de interpretação constitucional. Mas no normal da vida tem certa clareza com relação a isso.

A Operação Lava Jato deixou de ser específica e passou a ser uma mudança de paradigma na vida brasileira: não aceitar com naturalidadeodesviodedinheiropúblico. Neste sentido, não há nada que orevisionismoatualpossafazerpara mudar. A sociedade brasileira já mudouedeixoudeaceitaroinaceitável. Está cada dia mais difícil paraumvigaristasairnaruacomtranquilidade. Portanto, a sociedade já mudou.Asempresasprivadasmudaram, até porque pagaram um preço alto. Muitas quebraram, tiverem seus dirigentes presos. Então, desenvolveram um novo business, que tem compliance. A situaçãoeratãoruimdopontodevistadocumprimentodaleiedasnormas que não se tinha nem uma palavra em português para designar o que significava isso. Agora as empresas têm compliance, o departamento de integridade, para verificaralegislaçãoestásendoadequadamente cumprida. Então, mudaramasociedadeeainiciativaprivada. Mas agora há uma enorme reação contra a Lava Jato. Eu não defendo nada de errado que possa ter pontualmente acontecido. No entanto, não acho que tenha sido umaconspiraçãocontraaclassepolítica ou qualquer pessoa. Pode ter umadecisãoerradaquemerece reforma, mas não acredito em conspiração. Não encampo essa teoria. Nem que houve criminalização da política. Se o presidente da República levar dinheiro para editar um decreto, isso não é criminalização da política, mas crime. Se o agente público cobrar propina para definiroganhadordalicitação,issonão é criminalização da política, mas crime. Se o banco público exige pedágioparaliberarocrédito,issonão é criminalização da política, é crime. Portanto, havia um banditismo institucionalizado no país no qual os agentes públicos se consideravamsóciosdoBrasilelevavam vantagem indevida em todos os contratospúblicosrelevantes.Edepoistentaramfazerumadiscussão, que não faz nenhum sentido, que seria distinguir, moralmente se o dinheiro iria para o bolso ou para campanha. Isso não faz diferença. O problema não é para o dinheiro vai.Oproblemaestáemdeondedinheirovem.Eodinheiro,nestescasos, vem de uma cultura de propina, superfaturamento e desonestidade,quecontaminatodaasociedade. Se a Lava Jato significa a desnaturalização das coisas erradas, como acho que significa, claro que sou a favor desse novo paradigma que vigora no Brasil. Agora é preciso entender que a Lava Jato pegou muita gente poderosa, que por um determinado momento se desarticulou. Mas já se rearticulou. E a corrupção luta de volta. Tem um imenso arco de aliança que procura desacreditar as pessoas, atacar, como se não tivesse acontecido o que aconteceu no Brasil. Como se

 VEJA MAIS Aponte aqui o celular para assistir ao vídeo da entrevista na íntegra:

Acho que deveriam ter limites para decisões monocráticas sobre todos os assuntos.”

ninguém tivesse visto o ex-deputadocorrendocomamalinhadepropina na rua, o ex-diretor da estatal devolver R$ 180 milhões. É um revisionismoqueprocuradeumamaneira stalinista mentir sobre a História que aconteceu. O Brasil foi saqueado. Essa é a verdade. E não adianta perseguir A ou B, porque a História não vai ser reescrita pelo menosenquantohouverliberdade deexpressãoepessoasdecentespara contarem o que aconteceu no Brasil.Oproblemaéquenestepaís, na classe dominante brasileira, muitagente,masmuitagentemesmo, ou estava envolvida, ou tinha um parente, um amigo, um ente querido envolvido nas coisas erradas. Então, se forma um arco de aliançasimenso.Masachoquenão acontecerá no Brasil o que houve na Itália. Hoje a imprensa no Brasil é plural e independente. O Judiciário é plural e independente. Apesar de haver pressões e visões que considero equivocadas em muito lugares, há imprensa independente, Judiciário independente e uma sociedade mais consciente e mobilizada. Podem até perseguir pessoas, mas não vão destruir o legado: Uma sociedade que não aceita com naturalidade as coisas erradas e o desvio rotineiro do dinheiro público. Há risco para a democracia?

Não. As pessoas precisam distinguir o discurso do qual não gostam de risco efetivo. E devem distinguir retórica de comportamentosreais.Nomundoreal,vejooCongressofuncionandodeumamaneira altiva e independente. O Supremo e o Judiciário, também. E as decisões judiciais serem cumpridas. Não vejo risco democrático no Brasil. Em um momento que houve uma manifestação na porta do QG do Exército, pedindo a volta do regime militar, me dispus a, publicamente, falar sobre um fato político do dia. Venho de uma geração que resistiu à ditadura. Sei quando custa a ditadura, que implica em intolerância, violência contra os adversários,censura.Aoverjovenspedindo a volta da ditadura, achei que deveria me manifestar neste sentido. Ditaduras vêm com subprodutos extremamente negativos e que diminuem o país. Foi o único momento que avaliei que deveria me manifestar. Fora isso, vejo as instituiçõesfuncionandobem.Teveum episódiorecente,duranteumdebate com um professor alemão, sem a menorideiadequehaveriaimprensa, em uma discussão sobre democracia no mundo... Tenho deveres de honestidade intelectual e acadêmica. Participo do debate públicomundial.FelizmenteecomabênçãodeDeus.Fizum[relatodo]elenco de eventos que puseram pressão sobre as instituições democráticas,quenoentantoreagirammuito bem. Essa passagem foi retirada docontextoeamplamentedivulgada. Sabe como é a imprensa. Às vezes quando sai uma questão na imprensa parece que aquele ponta foi aênfase.Mas,nestecaso,aqueleaspecto foi totalmente acidental.


FUNDADOR: ALUÍZIO ALVES - 1921 - 2006

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» NOVA TEMPORADA DA SÉRIE “A DIVISÃO” TRAZ AINDA MAIS ADRENALINA • FAMÍLIA 4

Ano 70 • Número 145 • Domingo • 13 de setembro de 2020

EX CL U SI V O LEOPOLDO SILVA/AGÊNCIA SENADO

DAVI ALCOLUMBRE Senador (DEM-AP) e presidente do Senado Federal

"O sistema tributário brasileiro é um Frankenstein" « CUIDADOSO » Para o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), a proposta de reforma tributária que deve ser votada ainda este ano na Câmara e em 2021 no Senado precisa ter como pilares a simplificação da carga e segurança jurídica. Nesta entrevista exclusiva à TN, fica claro também que o senador não deseja - no atual momento - qualquer desgaste com o governo ou com o presidente Bolsonaro. « PAGINAS 3 E 4 »

CESAR GRECO

Movimentação no aeroporto de Natal cai 50% em 7 meses « NA PANDEMIA » Movimentação de passageiros no Aeroporto Internacional Governador Aluízio Alves, em São Gonçalo do Amarante, nos sete primeiros meses deste ano caiu 50,2%. Passaram pelo terminal 1.316.102 passageiros domésticos e internacionais de janeiro a julho de 2019 contra 654.621 no mesmo intervalo em 2020. Redução derrubou a arrecadação bruta do terminal em pelo menos R$ 16,1 milhões, nas tarifas. « ECONOMIA 1 E 2 »

Mais difícil

Vale ouro

« GABRIEL VERON » Craque potiguar é apontado, por empresa especializada, como o jogador mais valorizado atuando no Brasil. Passe do atleta supera os R$ 140 milhões. « ESPORTES 1 » RUBENS LEMOS FILHO

RODA VIVA

Nada mais impressiona. Bruno pode até pintar aqui, na “D”. « ESPORTES 3 »

30

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FALE CONOSCO: PABX: Redação:

Respirador do SENAI-RN aguarda liberação há quatro meses. « NATAL 4 »

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4006-6111 Classificados: 4006-6103 Circulação: 4006-6173 Reclamações:

4006-6161 4006-6103 4006-6111

MAGNUS NASCIMENTO

« PROVA » Sem aulas presenciais, os 17,6 mil alunos da rede pública terão mais dificuldade no ENEM. Quem tem aulas remotas - como Stheffany Vitória - relata que aprendizado não é o mesmo. « NATAL 3 » ESTRATÉGIA

SAÚDE

COVID

Série D: Diá tenta remontar o ABC. Kobayashi quer impor “modelo”

Em cinco anos, cobertura vacinal no RN cai em média 36,6%

Oxford anuncia retomada de testes para a vacina

Os técnicos de ABC e América têm desafios diferentes para iniciar a Série D. Francisco Diá vai remontar o time. Kobayashi quer implantar novo modelo de jogo. « ESPORTES 2 E 4 »

Nos últimos cinco anos, o Estado não atingiu as metas de cobertura vacinal. Os índices que deveriam ser de 90%, estão em média nos 53%. Resultado: a volta de doenças. « NATAL 1 E 2 »

Universidade informa, de acordo com as recomendações de um comitê de segurança independente e regulador do Reino Unido, que estudos poderão ser retomados. « PÁGINA 8 »

JORNAL DE WM

Diógenes da Cunha Lima está com novo livro na praça. « PÁGINA 2 »

SITE: www.tribunadonorte.com.br REDAÇÃO (pauta): pauta@tribunadonorte.com.br

CENA URBANA

Não será fácil alavancar a candidatura de JeanPaul Prates. « PÁGINA 3 » NO FACEBOOK

facebook.com/tribunarn

ALEX MEDEIROS

Revistas semanais dão sinais de trégua com o governo federal. « NATAL 3 » NO TWITTER

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R$ 3,00


Natal • Rio Grande do Norte Domingo, 13 de setembro de 2020

política

»ENTREVISTA » DAVI ALCOLUMBRE

Cena Urbana VICENTE SEREJO SEREJO@TERRA.COM.BR

PRESIDENTE DO SENADO

O

Sonâmbulos Anote, Senhor Redator, e não pense que é invenção de cronista sem assunto: só o mundo antigo era dividido entre as noites e os dias. Era assim, mas no tempo que não existia esse tal de universo web, virtual e intangível. Agora, não. O mundo é um só, com o dia e a noite misturados e sem fronteiras. Basta abrir o computador e ficar olhando a tela: as mensagens vão logo chegando, informando e oferecendo tudo seguros, sapatos e viagens. O mundo vive acordado. E é fácil observar que há uma vida robotizada, com suas almas artificiais, animadas por algoritmos incansáveis que perguntam, propõem e sugerem tudo no mundo. Somos seguidos e perseguidos no silêncio das madrugadas mais profundas. É só a tela ser iluminada por um clique e começam a chegar as conversas dos autômatos. Já não somos tão cósmicos como antes, entre o sol e a lua. Agora os dias e as noites são eternos e eternamente acesos nos olhos eletrônicos. É como se vivêssemos no terceiro milênio um sonambulismo coletivo, doença mansa e civilizada, se são tão civilizados assim os novos vícios humanos. Aliás, não é bem acordados que vivemos. Mas parece um sonambulismo que não é mais a velha vigília dos notívagos, mas letargia de insones. Vivemos entre o sono e a consciência, como se nada pudesse ser afastado profundamente, como antes, quando dormir ainda era como uma viagem ao mais longe da vida. Durmo pouco e não culpo o novo mundo. Sempre foi assim, agora com a vantagem de ser um homem aposentado, caído em desuso, imprestável para os ofícios, e dado a amansar as varandas de uma rede no sono que faz a tarde chegar mais tarde aos olhos. A curiosidade virou uma notívaga entregue às longas horas da noite, quando todos dormem, e fico na companhia de uma janela acesa no edifício de frente, como só para avisar que ninguém nunca está sozinho.

A noite morreu ou pelo menos não existe mais. Há sempre um facho de luz ou apenas um raio a iluminar os mais recônditos lugares do mundo e da vida humana. Nem mais o cérebro se mantém inviolável na sua noite, invadido pela lente das máquinas e seus raios que fotografam o que havia de mais íntimo e nobre que era o cérebro. Tudo está iluminado: as ruas, as casas, edifícios e até os morros com as torres que sinalizam para os aviões com suas luzes vermelhas. Aliás, e para que não pareça invenção, é bom avisar: o mundo conhece o grande ensaio ‘Noite’, do inglês Alfred Alvarez, lançado em Londres em 1995 e traduzido no Brasil em 1996, edição Companhia das Letras. Para ele, nos últimos cem anos, o homem perdeu por completo o contato com a noite. Desde o útero materno, quando a luz fotografou a solidão do feto. Há 350 mil anos, o homem acendeu a primeira chama. De lá pra cá, a noite começou a ir embora...

e e e PALCO e e e LUTA - Os estrategistas petistas já sabem: não será fácil alavancar a candidatura de prefeito de JeanPaul Prates, mesmo sendo senador e com chance de buscar boas ajudas do Fundo Partidário.

FOLHA - O governo, apesar do silêncio manhoso, também sabe que fechará seu segundo ano pagando as treze folhas, o que acaba sendo um forte atestado da má gestão do governo passado.

MAS - Tem petista convencido de que o ‘amontoado de caciques’, se bem explorado, pode ser um ponto vulnerável. Como nas duas derrotas recentes, de Henrique Alves e Carlos Eduardo.

DÍVIDA - A meta é quitar as duas

QUEM - Eles estão convencidos

MAS - Nem por isso o risco do

de que o palanque de Álvaro Dias reunirá as famílias Alves e Maia, além da elite tucana do PSDB. É por ai que o marketing tentará erguer o nome de Prates.

2021 - A área econômica do governo Fátima Bezerra já sabe: não há a menor chance de pagar este ano uma das duas folhas de pessoal atrasadas. A arrecadação não suporta mais despesas.

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folhas ao longo de 2021, se possível, no primeiro semestre, a menos que haja uma frustração elevada de arrecadação. A luta é chegar à sucessão sem dever. governo será menor se insistir em fixar isenção da contribuição da previdência só até 3,5 salários mínimos, como defende na sua reforma previdenciária oficial.

LENTE - De Nino, filósofo me-

lancólico do Beco da Lama, maroto: ‘Na política é o contrário. As dúvidas orgânicas os anticorpos matam. E as inorgânicas eles nutrem’. E soltou um muxoxo.

e e e CAMARIM e e e MODELO -As sandálias de couro cru, trançadas com nós,

vendidas nas feiras nordestinas, é o novo apelo estético da glamorosa marca Prada para as sandálias femininas. O modelo já foi tema de uma matéria da revista Exame e já chegou ao mercado internacional da moda verão.

CARUARU - A nova estética para o verão inspirou-se nas

sandálias rasteiras vendidas na feira de Caruaru e chega às lojas chiques por $ 850 Euros, ou qualquer em torno de cinco mil reais, a mesma que no Agreste pernambucano custa hoje em média R$ 60 reais cada par. Grife é grife.

REAÇÃO - Os estudiosos do design estão certos de que é um caso de ‘apropriação cultural’ e a Associação Brasileira das Indústrias de Calçados reagiu. Na prática, é o Brasil que não sabe valorizar seu artesanato. A desculpa é que a sandália tem influência marroquina e até egípcia.

presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEMAP), afirma que o debate e a busca por uma conciliação para reforma tributária têm avançado no Congresso Nacional. Por isso, ele faz o prognóstico de que uma proposta deve ser aprovada este ano na Câmara dos Deputados e, em 2021, no Senado. Segundo Davi Alcolumbre, para reformar o atual sistema tributária do país, que ele classifica como um “Frankenstein”, a mudança deve ter como focos a simplificação e a garantia de segurança jurídica aos empreendedores. “[O sistema tributário] é muito caro para as empresas, travando a possibilidade da geração de empregos, de ampliação do mercado de trabalho. Então, nós vamos ter na reforma a simplificação e a segurança jurídica, que são muito importante”, afirma. Davi Alcolumbre diz que a prorrogação da ajuda emergencial até o fim do ano deve ser aprovada no Congresso no valor de R$ 300, como está na medida provisória editada pelo governo. Nesta entrevista, ele também faz uma avaliação do atual momento da relação do presidente Bolsonaro com a Câmara dos Deputados e o Senado, da perspectiva de retomada da Economia e da proposta de emenda constituicional que, se aprovada e confirmada pelo Supremo Tribunal Federal, poderá permitir que ele seja reeleito presidente do Congresso.

AGÊNCIA SENADO

‘Focos da reforma serão segurança jurídica e simplificação’ « IMPOSTOS » Davi Alcolumbre afirma que

mudança no sistema tributário deve ser votada este ano na Câmara e em 2021 no Senado

Quais serão as prioridades do Senado até o fim da atual Legislatura em fevereiro?

Estamos em um momento excepcional. Precisamos de uma conciliação no Congresso Nacional e de iniciavas que possam dar celeridade nas matérias prioritárias na agenda de enfrentamento aos impactos do coronavírus. Mas temos conseguido avançar muito nessa conciliação e na busca de uma agenda mínima que seja importante para o Brasil. É um momento atípico, um ano completamente diferente. Mesmo assim, a gente conseguiu superar muitas dificuldades, inclusive questões partidárias e ideológicas. É importante registrar a atuação na Câmara dos Deputados do presidente Rodrigo Maia (DEM-RJ) na busca de consenso nas medidas emergenciais urgentes para esse enfrentamento da pandemia. Não tem uma pauta específica. Tem uma agenda prioritária. Nós estamos votando matérias que protegem o cidadão, como ajuda na questão do auxilio emergencial. Estamos votando matérias importantes que protegem e simplificam a atuação das empresas. Toda semana tem votação de todo tipo de matéria na Câmara e no Senado. Já votamos mais de 60 matérias nesse período. Então, não sabemos quando vamos voltar às atividades normais do parlamento, mas a votação remota tem sido um caminho e um instrumento para se votar essas matérias emergenciais para Brasil e para os brasileiros no enfrentamento do coronavírus, na proteção das empresas, na garantia da estabilidade econômica. É uma agenda muito densa e com muitos projetos. Qual a perspectiva da votação da prorrogação do auxilio emergencial. A medida provisória prevê o aumento para R$ 300,00, mas muitos parlamentes defendem que a prorrogação fique em R$ 600...

A gente tem de fazer uma avaliação ampla nessa questão do auxilio emergencial. A proposta inicial do governo era de R$ 200,00, o Congresso Nacional alterou para R$ 500,00 e o governo resolveu, na reta final da votação, ampliar para R$

Precisamos de uma conciliação no Congresso Nacional e de iniciavas que possam dar celeridade nas matérias prioritárias na agenda de enfrentamento aos impactos do coronavírus.”

600,00. Hoje há famílias que recebe R$ 600,00; outras R$ 1.200,00 e até R$ 1.800,00, dependendo da situação. Há uma injeção de R$ 250 bilhões a R$ 300 bilhões na economia para a proteção dessas famílias que são mais suscetíveis a esse momento de gravidade econômica e de saúde. Estamos ajudando os mais vulneráveis com esse auxílio. Então, tivemos uma medida provisória para ampliar o valor de R$ 600,00, com a ajuda do Congresso Nacional, por três meses. Depois, teve uma prorrogação para mais dois meses e agora vamos fechar esse ciclo, até porque o decreto de calamidade pública, que foi votado no Congresso... Isso é um fato histórico no país. Essa é a primeira vez que isso acontece. Encerra-se em 31 de dezembro deste ano. Acho que foi esse espírito da importância desses recursos na vida dos brasileiros mais vulneráveis, o que realmente é um custo significativo, porque a gente precisa reconhecer que é um grande esforço, inclusive só

foi possível porque o parlamento votou a emenda constitucional abrindo o teto de gastos para o ano da pandemia, com investimentos e proteção à vida dos brasileiros. Nessa discussão, tem que ver o conjunto da obra. São três meses de R$ 600,00, mais uma prorrogação de dois meses de R$ 600,00 e outra medida provisória estendendo até o final da pandemia de R$ 300.00. Quando soma o todo, são muitos recursos e acho que o parlamento não tem ainda, neste momento, de ter que se preocupar em ampliar esse valor, porque é o possível. Então, se soma nove meses, tem cinco meses de R$ 600,00 e quatro meses de R$ 300,00. Faz-se uma média que é muito razoável. Imagine só que os próprios R$ 300,00 são... Praticamente, 50% das pessoas mais humildes recebem [o auxílio], quando antes tinha em média R$ 190,00 do bolsa família. Então, ampliam em 50% a 60% o que já recebiam como brasileiro que vive em situação de vulnerabilidade social. E estamos atendendo aí 50 milhões de brasileiros, um contingente gigantesco da população, que teve por parte do Congresso e do governo a consciência de proporcionar um auxílio para esse enfrentamento direto. Eu acho que devemos tratar essa medida provisória como ela está e minha posição é avaliar o todo. Se observarmos o todo, vamos constatar que está sendo uma grande ajuda para esses brasileiros que perderam seus empregos, as condições de sustento e isso vai garantindo, inclusive, o crescimento econômico, que é apresentado em alguns índices, principalmente na questão do varejo, na ponta. Entre os projetos da reforma tributária em discussão, qual proposta o senhor acha que está mais ajustada e tem mais chance de ser aprovada?

Primeiro, fazer o registro de que, na busca dessa conciliação, a gente não tem mais dois projetos tramitando no Congresso. Tínhamos a PEC 45, na Câmara; e a PEC 110, no Senado. Quando a gente editou o ato constituindo uma comissão de acompanhamento, definiu um instrumento de conciliação e convergência. A comissão serviu para isso, colocar deputados e sena-

dores numa mesma sala, no mesmo ambiente de diálogo, buscando interlocução com o setor produtivo, com a sociedade e o governo, porque tem de se entender que não temos como fazer uma reforma tributária, esperada há três décadas, se não tivermos a participação de todos os atores. E os focos da reforma tributária são também a simplificação e a segurança jurídica. A posição que temos é para promovermos o desenvolvimento econômico, a geração de empregos e a capacidade de investimentos. Só vamos conseguir sair da crise com crescimento econômico. Isso é o que a gente está buscando com esse diálogo da reforma tributária. Fizemos isso na reforma previdenciária e agora estamos fazendo na tributária. Só que é uma reforma aguardada há 30 anos e não dá para fazer uma reforma, nem na Câmara e nem no Senado, sem tirar o governo. Então, a Comissão está conciliando as propostas do governo, do Senado e da Câmara para a gente fazer de fato uma reforma que simplifique e concilie tudo isso. Naturalmente, não existe reforma "A", "B" ou "C". Há uma reforma tributária que está sendo discutida. Foi ampliado agora o prazo na Comissão Mista por mais 45 dias e de fato os debates estão sendo muitos importantes para essa construção. Tem sido uma constante, apesar da pandemia. Tem acontecido diuturnamente para conciliar essa questão e o texto está sendo construído a quatro mãos. A perspectiva é ter a votação dessa reforma na Câmara ainda este ano e organizar para que no ano que vem o texto seja votado no Senado, porque se a gente conseguir avançar na Câmara dos Deputados já é uma grande conquista para uma reforma que é esperada há três décadas. Mas, como senador, qual o ponto acha que deve ser atacado na reforma tributária?

Simplificação. Imagine um país que tem dezenas de portarias e de instruções normativas, de regras que burocratizam a vida dos empreendedores. Isso significa um custo altíssimo. Tem que fazer conciliação de tudo, escritórios de contabilidade, de advocacias e 5.560 municípios, cada um com sua norma e sua legislação. O sistema tributário brasileiro é um 'Frankenstein'. Por isso, é preciso fazer a reforma. Esses são os primeiros passos da reforma: simplificação, a segurança jurídico, amenizar esse sistema tributário que é tão complexo. Por isso, é muito caro para as empresas, travando a possibilidade da geração de empregos, de ampliação do mercado de trabalho. Então, nós vamos, ter na reforma tributária, a simplificação a e segurança jurídica, que são muito importante.

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Continuação da entrevista.


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Natal • Rio Grande do Norte Domingo,13 de setembro de 2020

política

»ENTREVISTA » DAVI ALCOLUMBRE PRESIDENTE DO SENADO

põe como parlamentar.

Com a reforma administrativa que foi enviada pelo governo, vai haver finalmente uma reestruturação estado brasileiro? O senhor vê a possibilidade de prosperar a tramitação dessa proposta no Congresso Nacional?

Acho que o governo demorou muito para encaminhar a reforma administrativa. A cada dia a gente tem de matar um leão e deixar dois amarrados para no outro dia nesta luta diária. Então, tivemos a reforma previdenciária no ano passado, que era importante. Estamos fazendo a reforma tributária, que no meu entender é a mais urgente das reformas. Poderia ter sido construída antes da previdenciária, mas para a previdenciária já tinha sido feita uma construção. Estava com um ambiente favorável. Por dever de justiça, esse debate veio à tona e a sociedade brasileira entendeu o que representaria para o Brasil no governo do presidente Michel Temer. Isso temos de reconhecer. Ele trouxe esse assunto para o debate. Pautou essa agenda no parlamento. A discussão adiantou muito e, no governo do presidente Bolsonaro, se assumiu essa bandeira também que estava bem discutida e a gente conseguiu, em 2019, resolver esse problema que também era histórico diante da situação fiscal do estado brasileiro. Do ponto de vista dos empreendedores e da iniciativa privada para aquecer e destravar a economia, o setor produtivo e o Brasil precisam dessa reforma tributária. A previdenciária já está solucionada. Agora é a tributária. Como o governo demorou muito para mandar a administrativa, acho que não dá para conciliar e acelerar as duas ao mesmo tempo. Como a da tributação está mais adiantada, a gente pretende avançar no debate da reforma administrativa, porque também é fundamental, colocando logicamente os pontos principais, que não sejam [com validade] para trás, para quem passou no concurso público com outra regra. Não pode voltar para prejudicar, porque há os direitos adquiridos. Não dá para fazer isso. Então, vamos votar uma reforma administrativa para frente, para os próximos 20 ou 30 anos. Mas como chegou muito atrasada, agora tenho certeza de que todos os olhos estão voltados para a reforma tributária. Acho que a pandemia, as dificuldades de montar comissão, chamar parlamentares... Ainda estamos enfrentando esta situação, no meio da pandemia, embora, Graças a Deus, os números estão baixando. Mas não sabemos quando vai sair a vacina. Estamos todos esperando como isso vai se dar. A vida não voltou ao normal, a gente está vivendo a pandemia. Então devagar com o andor, porque o santo é de barro. Vamos devagarzinho e avançar na tributária, porque o debate está mais adiantado. A avaliação da reforma administrativa é que não mexe com uma série de privilégios. Como avalia? O Estado precisa ser reduzido?

Eu tenho certeza de que o Estado é muito grande. Todos os brasileiros têm essa certeza. Imagine que do orçamento de R$ 1 trilhão e 500 bilhões, o Estado brasileiro tem capacidade de investimentos de R$ 60 a 80 bilhões. Ou seja, grande parte do orçamento do país, que era para ir para construção de estradas, hospitais, escolas, vai para custeio dessa máquina, que é gigante. Então, tem que enxugar, fazer para frente, mas com calma. Nós precisamos também compreender o papel dos servidores, que são fundamentais no Estado brasileiro, mas para frente, como fizemos na previdenciária e queremos fazer na reforma tributária. Só acho que, no meio da pandemia e com a administrativa chegando atra-

LEOPOLDO SILVA/AGÊNCIA SENADO

E quanto à perspectiva de retomada do pais? Há certa impaciência com relação ao ministro da Economia?

A gente está aguardando a agenda [econômica] do governo para agora. Nós vamos fazer uma reunião na semana que vem e ver o que é possível tramitar ainda nesse período, apesar da pandemia. Se não houver conciliação de uma agenda mínima coletiva, e a gente tem tido essa serenidade no Parlamento, a gente não consegue com todas as dificuldades e limitações avançar. Acho que a gente já conseguiu fazer muita coisa. Tenho certeza de que a avaliação será muito positiva ao final de tudo isso e poder prestar contas do que a gente fez e com certeza essa prestação de contas o parlamento está com uma avaliação muito positiva e, a partir do ano que vem, mitigar o impacto do coronavírus em todos os setores da economia brasileira.

Cabe ao presidente do Senado, e como presidente do Congresso, dizer que estaremos atentos, firmes e ladeados com o governo quando as propostas forem a favor do Brasil.”

‘Governo demorou muito na reforma administrativa’ « REFORMAS » Davi Alcolumbre afirma que

como o governo demorou no envio da proposta para mudança na estrutura do serviço publico sada, a prioridade, naturalmente, vai ser a tributária. Como analisa o momento atual das relações do presidente Jair Bolsonaro com o Congresso Nacional? Ano passado o senhor chegou a admitir que houve uma crise acentuada, ali entre março e abril. a situação hoje é outra, mas acha que há uma tranquilidade aparente e pode chegar um momento conturbado novamente?

O presidente Jair Bolsonaro teve 57 milhões de votos. Ele estava há 28 anos no parlamento brasileiro. Os brasileiros conheciam o deputado Bolsonaro e votaram nele para presidente da República em 2018. Cada um tem um estilo. Se consultar o estilo do senador Davi Alcolumbre (DEM-AP), que está ocupando a Presidência do Senado, verá que a conduta da minha vida parlamentar é a da pacificação, do diálogo, da conciliação, de baixar a poeira para avançar, porque o Brasil espera isso do parlamento, de um presidente e dos Poderes constituídos. Isso está lá escrito na Constituição: harmonia e independência. Eu tenho uma conduta, o presidente Bolsonaro assumiu o governo, implantou um novo modelo de governar. Cada um tem a sua legitimidade e apresenta a sua livre atuação. Lógico e evidente que 2019 foi um ano de aprendizado para todo mundo, inclusive para ele, que era parlamentar e virou presidente. Só para dar um exemplo, para fazer uma referência, dizer como são difíceis as coisas, quando a pessoa está de um lado do balcão e do outro... Em 2010, quando o presidente Bolsonaro era deputado federal, votou contra todas as reformas do presidente Lula que foram encaminhadas ao parlamento. Ele, como deputado, tinha uma posição contrária. Quando ele assumiu a Presidência da República e se deparou com os números, encaminhou pedindo voto para a reforma previdenciária. Então, o mundo real é muito diferente

do mundo que a gente acha que é ou sonha. No mundo real, a gente precisa fazer essas reformas e acho que está tudo superado. O presidente Bolsonaro buscou a aproximação com o Parlamento. Eu sempre tentei isso desde o primeiro dia. Não podemos criminalizar a política. A política é o único instrumento que a gente tem de melhorar a vida dos brasileiros. Há 210 milhões de brasileiros do outro lado esperando as nossas respostas. É a nossa construção que vai dar as respostas para essas pessoas. Acho que 2019 já é passado, em 2020, a pandemia também forçou todos nós a buscarmos diálogo. O presidente Bolsonaro aproximou-se da politica, construiu e consolidou uma base no parlamento brasileiro e agora vamos tocando e votando as matérias que são importantes para o Brasil e buscando daqui para frente que seja assim, que a gente possa conciliar pelas pessoa que estão aguardando as nossas respostas e nossos votos. Como é que está também a questão dos vetos presidenciais no Senado?

Nós tivemos uma agenda conjunta com os líderes. Ninguém pode imaginar e colocar essa conta e culpa nos presidentes da Câmara e do Senado, porque isso é dividido com todo mundo. São 20 líderes na Câmara, 17 no Senado, governo, a gente constrói uma pauta conjunta também dos vetos. Então, fizemos um calendário de quatro sessões no Congresso, realizamos duas e temos duas por realizar para gente votar e limpar a pauta de todos os vetos que estão trancando a pauta de votação no Congresso Nacional. Como avalia o desempenho do governo Bolsonaro, levando em conta, inclusive, a atuação com relação à pandemia de covid-19?

A avaliação nesses termos não cabe ao presidente do Senado. O presidente do Senado faz uma avaliação política de que to-

das as agendas que o governo solicitou o apoio para enfrentamento ao coronavírus, o Congresso nunca se furtou a debater e a ajudar. Fazemos isso todo dia. O Parlamento brasileiro, neste ano de 2020, sairá como o Parlamento do mundo que mais trabalhou, que mais votou leis, que mais enfrentou e acho que vamos nos sair melhor do que o resto do mundo nessa pandemia. Não cabe ao presidente do Senado matéria de avaliação do governo. Cabe ao presidente do Senado, e como presidente do Congresso, dizer que estaremos atentos, firmes e ladeados com o governo quando as propostas forem a favor do Brasil. E o cidadão Davi Alcolumbre como avalia a situação do Brasil durante essa pandemia?

Acho que a gente conseguiu dar uma resposta muito rápida a todas as questões. Só para ter uma ideia, o Senado votou mais de 70 matérias nesse começo de pandemia. É muita coisa. É a maior produtividade dos últimos dez anos e em um momento de dificuldades, com votações remotas. Votamos proposta de emenda constitucional de forma acordada, inclusive até o adiamento das datas das eleições municipais por conta do coronavírus. A gente conseguiu colocar na Constituição votação remota com o apoio de todos os líderes de partidos. Resumindo, como cidadão brasileiro, tenho certeza de que a gente enfrentou muito bem e vai se sair muito melhor do que muitos países, porque tivemos essa condição de consenso, da participação e do entendimento que foram necessários para fazermos por todos os brasileiros nesse momento de dificuldade, já que estamos sofrendo muito, perdendo nossos familiares... Estamos aí com 130 mil brasileiros que perderam suas vidas. Então, é todo tempo ajudando para manter empregos, manter a solvência das empresas, proteger aqueles mais vulneráveis, que é o que a gente se pro-

O senhor acha que o ritmo das privatizações deva ser acelerado ou é preciso cautela?

Acho essa não é a agenda para agora. Tem coisas para ser agora e tem outras que podem aguardar. A PEC da reeleição dos presidentes do Senado e da Câmara tem condições de ser aprovada ou vai ser considerada inconstitucional pelo STF?

Tem um imbróglio jurídico e uma ação que foi proposta por um partido político. Essa questão está sub judice no Supremo Tribunal Federal. Não tenho nenhuma manifestação para fazer, porque naturalmente não seria razoável e nem até bom para mim fazer manifestação sobre um tema que pode atingir diretamente o meu mandato de presidente do Senado Federal. Eu fui eleito para dois anos. E vou cuidar do Senado e do meu mandato de dois anos. Esse imbróglio jurídico se resolverá no âmbito da Justiça e a partir de 30 de janeiro do ano que vem nós saberemos quem serão os candidatos a presidente do Senado. Mas se for permitido, o senhor será candidato à reeleição?

Depende do partido, vamos decidir partidariamente se vai ter candidatura ou se não vai ter. É uma decisão que não está no meu radar. Não tenho preocupação com isso, tanto é que estão falando há seis meses e eu nunca falei sobre isso, porque não é minha prioridade. A minha prioridade é conduzir o meu mandato é fortificar o Brasil e ajudar os brasileiros. Como analisa sua atuação na presidência. Teve na eleição num momento acirrado, que culminou com Renan Calheiros retirando a candidatura... Após um ano e meio que balanço faz da atuação na Presidência?

Não tenho como falar como vejo minha atuação, porque é uma injustiça me avaliar. Os parlamentares podem avaliar

 VEJA MAIS Aponte aqui o celular para ouvir a entrevista na íntegra:

a minha postura e minha conduta. O que eu posso dizer é que todos os dias levanto com entusiasmo para defender o Parlamento para defender a política, as instituições e trabalhar a favor dos brasileiros. Então, a minha avaliação é a avaliação de um brasileiro que sabe o tamanho de sua responsabilidade. Tenho lutado muito para dar tranquilidade ao Brasil, estabilidade democrática, ajudar a proteger as instituições e honrar os votos que tive na Casa que represento e que tem mais de 190 anos de existência. Isso devo fazer todo dia, cumprindo o meu mandato e essa avaliação só se dará ao término do período, quando puder fazer uma prestação de contas daquilo que a gente fez, do que a gente pretendia fazer e do que deixou de fazer. A discussão na questão ambiental já vem há alguns meses de investidores e agora esse problema do pantanal. Qual a sua análise a respeito?

Criamos recentemente uma comissão externa para acompanha essa situação das queimadas no Pantanal e vão ser indicados deputados e senadores. Eles vão conduzir isso aí. Quais as perspectivas para as formações de blocos políticos para 2022? Embora tenhamos essa eleição de 2020 pelo caminho, há essa discussão nacional nos partidos. Qual a perspectiva do Democratas? Terá candidatura própria? Fará alianças? O que cogita?

Eu confesso que isso não está no meu radar. Acho que o presidente do DEM, o prefeito ACM Neto (de Salvador), deve estar construindo e conversando com outros partidos com legitimidade, sobre a eleição de 2022. Mas está muito longe. Nós temos dois anos e meio até lá. É uma coisa sobre a qual nunca tratei. Qual a avaliação que o senhor faz da atuação do ministro da Economia?

O ministro Paulo Guedes é uma pessoa com muito capacidade, confiança. O presidente Bolsonaro escolheu para conduzir a política econômica do Brasil. Tem o reconhecimento de muitos parlamentares, do presidente, porque o assessora diretamente na política econômica. E reconheço, pessoalmente, que a minha relação com o ministro Paulo Guedes é muito boa ,muito produtiva e promissora. A gente consolida e constrói essa relação todos os dias, reconhecendo que temos... Então minha relação é de carinho e de respeito e no sentido de ajudar. É isso que faço no Senado.


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» COVID-19: PARA ESPECIALISTA, ATIVIDADE FÍSICA NÃO DEVE PARAR • ESPORTES 4

Ano 70 • Número 228 • Domingo • 20 de dezembro de 2020

FUNDADOR: ALUÍZIO ALVES - 1921 - 2006 DIVULGAÇÃO

FILME

AMÉRICA

GLOBO

GAL GADOT MARAVILHA

Rondinelly é a referência técnica do time que enfrenta o Galvez, no Acre

Novo filme da Mulher Maravilha, com Gal Gadot , é um conto de fadas sobre um amor impossível. Ela própria explica. « TNFAMÍLIA 4 »

« ESPORTES 1 »

Herói do acesso em 2017, Dasaev troca a bola pelo estudo e torce hoje pela Águia « ESPORTES 2 »

No RN, 66,28% da população não têm acesso a coleta de esgoto « LEVANTAMENTO » Mais de dois milhões de habitantes do Rio Grande do Norte – 66,28% da população – moram em lugares sem coleta de esgoto. É o que mostra o diagnóstico anual do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), que coloca o Estado em 4º lugar do Nordeste, no índice. O percentual indica a dificuldade em cumprir as metas do novo marco do setor, que estipula para 2033 a universalização do saneamento básico em todo o País. « NATAL 1 E 2 » ALEX RÉGIS

AGÊNCIA BRASIL

ENTREVISTA

JOSE MÚCIO MINISTRO DO TRIBUNAL DE CONTAS DA UNIÃO

“É preciso pensar menos na próxima eleição e mais no País”

DE ONDE VIEMOS?

Ministro do Tribunal de Contas da União critica a politização da pandemia e da vacina e defende que é necessário um entendimento das principais lideranças nacionais para que se possa enfrentar os problemas mais graves do País, como desemprego e covid . « PÁGINAS 3 E 4 »

« ORIGENS » Novo teste disponível no mercado recupera e explica cerca de 400 anos de ancestralidade. O jornalista Paulo Nascimento fez e ficou surpreso com o resultado. « TNFAMLIA 1 » CONJUNTO

Municípios têm de se adequar a plano de vacinação

Caderno especial mostra as ações de combate à covid no RN « PÁGINAS 1 A 12 »

ESPECIALA COVID-19 RN CONTRA NATAL /// RIO GRANDE DO NORTE

Prefeituras do RN precisam adequar estrutura e qualificar profissionais para garantir a eficácia do plano estadual de vacinação anunciado esta semana. « PÁGINA 8 »

RETOMADA

Agentes de crédito precisam contribuir para amenizar a crise

DE 2020 /// DOMINGO /// 20 DE DEZEMBRO

Comissão do Congresso que apresentou propostas para enfrentar a crise provocada pela pandemia alerta para risco da diminuição do crédito. « PÁGINA 5 »

Estado se prepara para a vacinação PÁGINAS 6 e 7

[Estudo] Pesquisa traçará perfil da covid-19 no RN e subsidiará novas medidas PÁGINAS2 e 3

[Estrutura] Total de leitos viabilizados supera seis hospitais de

Intenção de compras no Natal cai 11,9 pontos no Rio Grande do Norte Desemprego, falta de dinheiro e dívidas acumuladas são os principais fatores apontados pelos potiguares para explicar a queda na intenção de compras em comparação ao ano passado. Apesar dessa redução, o valor médio estimado para presentes teve crescimento. « ECONOMIA 1 E 2 » CENA URBANA

Vicente Serejo volta! E conta como foram os dias com covid-19. « PÁGINA 3 »

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RODA VIVA

ALEX MEDEIROS

É cada vez mais claro que parte do STF age como célula ideológica. « NATAL 3 »

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Alta do aço atrasa o abertura do teleférico de Santa Cruz. « NATAL 4 »

SITE: www.tribunadonorte.com.br REDAÇÃO (pauta): pauta@tribunadonorte.com.br

JORNAL DE WM

Até a frasqueira celebra a nomeação de Eduardo Rocha para o TRT . « PÁGINA 2 » NO FACEBOOK

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RUBENS LEMOS

O Galvez (AC) não é adversário para o América. « ESPORTES 3 » NO TWITTER

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Natal • Rio Grande do Norte Domingo, 20 de dezembro de 2020

política

»ENTREVISTA » JOSÉ MÚCIO MONTEIRO

Cena Urbana VICENTE SEREJO SEREJO@TERRA.COM.BR

MINISTRO DO TRIBUNAL DE CONTAS DA UNIÃO

O

Foi assim (I) O dia 28 de novembro foi um sábado e saímos ainda cedo da noite para a festinha dos seis anos de Anita, nossa neta. Parabéns cuidadoso: pais, avós e a irmã. Só. Na quinta anterior, 26, seis da manhã, estive nos estúdios da 94FM numa entrevista com Jener Tinoco e Roberto Medeiros, dois velhos amigos, na série ‘Natal que eu Amo’. Lembramos a cidade com a Pantera na parede do Dia-e-Noite, rosnando feito uma fera nas madrugadas de uma Natal calma e boa. Ainda no sábado, senti as unhas finas de uma bruxa arranhando a garganta. Dormi cedo e acordei cedíssimo. As unhas iam e vinham. Nas horas que faltavam para o dia amanhecer, ainda devorei a poesia completa de Cacaso e cumpri o velho ritual - das abluções matinais, como diria Machado de Assis - remédios, pão de grãos sem açúcar, uma fatia de queijo e o café quente e forte que sei fazer. O que temer, se tudo estava bem? Dormi e acordei depois das nove. O dia caminhou luminoso e findou sob a trilha sonora angustiante do Fantástico quando morrem os domingos. E as unhas da bruxa arranhando a garganta. O encontro já estava marcado e era pra valer: na boca da noite daquele dia, senti calafrios. Veio a febre, tomei dipirona, e dormi. Segunda de manhã, lia os jornais e as revistas do final de semana, quando liga Sylvinha, minha filha. E exige: tem que fazer o teste. Ainda hoje, perguntei? Mas ele não abriu mão. Mais tarde, tudo acentuou. Garganta seca, tosse, dores musculares, febre e prostração. Início da noite de segunda o teste positivo estava nas minhas mãos. Rejane parecia livre, sem sintoma aparente. Não era verdade. Contaminei Rejane e, transtornado, confessei o remorso no jornal. Guardou-se dez meses e pediu que não fosse à entrevista. Começou a luta. Uma avalanche de exames - sangue, tomografias, eletrocardiogramas, ecocardiogramas, raio-x, tudo.

Na terça, em casa, já estava sob o bombardeio de poderosos corticoides e ferozes antibióticos de última geração. Pelas taxas, meu pequeno exército estava bem plantado, nos bons limites saudáveis e com sinais vitais preservados. Mas, brandiam as espadas dois generais inconfiáveis, infiltrados e traidores: o diabetes e a hipertensão. O corticoide explodia a glicemia e a insulina baixava. Tudo calculado. O betabloqueador que tomo todo dia enganava a pressão. Mas, até ai, a luta era doméstica. Bastava ir ao hospital para injetáveis. Não tinha febre, não perdera paladar e olfato, e estava sem dor. Tinha direito a um sono manso, aquela modorra da tarde, como o sono leve que embala os sonhos dos velhos marinheiros na solidão do mar. Não imaginei que uma tomografia de rotina, no final da tarde do dia 7, e sem nenhum sintoma aparente de gravidade, revelaria um monstro. No entanto, sorrateiro, ele conseguira invadir...

e e e PALCO e e e ZERADO - Não deve ir além da

MESA - A professora Maria da

ALIÁS - Além de ter sido a gran-

CEI - O lançamento será monta-

indicação da vice - Aila Cortez todo o crédito político do exprefeito Carlos Eduardo Alves. Álvaro Dias honrou o acordo e indica seu próprio secretariado.

de ausência da campanha, como se fosse decisivo, Alves não demonstrou capacidade de luta. Em política quem deixa de combater acaba pagando muito caro.

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Graça Viveiros lança amanhã, 21, em sistema de drive-thru - sem contato pessoal por segurança Mesas de Maria. Da Graça faz do bom gosto um raro sabor.

do no pátio de estacionamento do Colégio Cei, do lado da Prudente de Morais. O leitor adquire o exemplar que em seguida será encaminhado ao autógrafo.

RISCO - Não é tão tranquila a MISSÃO - O retorno de Fernan-

permanência da empresa CMA como única transportadora de frutas via porto de Natal. É ter cuidado. Se o governo relaxar na diligência, o Ceará abocanha.

do Fernandes à Secretaria de Turismo pode levar a área a um novo patamar de relação com a esfera privada. Fernando conhece o campo com ótimas relações.

EFEITO - A empresa busca melhores condições junto ao Porto e ao Governo. A sua retirada significa o monopólio do Porto de Pecém, no Ceará, na exportação de frutas. Seria uma derrota.

GRATIDÃO - Faço de Ricardo

Alves, nosso decano nesta velha e brava TN, o porta-voz da gratidão. Foram vários, foram tantos, foram muitos aqueles que mandaram a força que socorre.

e e e CAMARIM e e e TRISTE - A morte da professora Elizabeth Mafra Cabral de

Souza Nasser é a perda de um dos nomes mais representativos e pioneiros da antropologia cultural no Rio Grande do Norte, com pós-graduação no Brasil (Federal da Bahia) e na Universidade da Flórida, nos Estados Unidos.

HISTÓRIA - Betinha era casada com Nássaro Antônio de Souza Nasser, mestre e doutor na área de antropologia cultural, orientando e discípulo do grande professor Charles Weglay, da Universidade da Flórida, onde o casal estudou e pesquisou ao longo de cinco anos de residência.

VIDA - Pioneira na luta pelos direitos da mulher, ação que

iniciou nos EUA, Betinha fundou instituições e liderou movimentos, e criou o mestrado de antropologia na UFRN, e traduziu do inglês o livro de Charles Weglay, edição da Itatiaia. A mulher amada do meu querido Nássaro.

ministro do Tribunal de Contas da União José Múcio Monteiro Filho defende que o país precisa de um entendimento entre suas lideranças políticas. Para ele, é preciso deixar de lado as disputas que sempre têm como objetivo as eleições seguintes para que se possa enfrentar os problemas mais graves e que são de interesse coletivo. “São muitas questões profundas que só se pode discutir havendo diálogo, entendimento e tirando essa perspectiva da próxima eleição que norteia de forma permanente a cabeça dos políticos brasileiros”, afirma José Múcio, nesta entrevista à TRIBUNA DO NORTE. José Múcio passou o cargo de presidente do TCU recentemente para Ana Arraes e deve deixar o Tribunal no dia 31 de dezembro, quando inicia aposentadoria. O ministro do Tribunal de Contas da União tem uma ampla experiência na vida pública. Ele foi deputado federal por cinco mandatos e ministro das Relações Institucional (2007 a 2009). Com essa vivência, considera que o presidente Jair Bolsonaro deveria se aproximar mais do Congresso Nacional e evitar conflitos. “É preciso olhar menos para trás. Vencedores e vencidos estão sob a mesma responsabilidade. Deixar essas sombras do passado e a preocupação com as eleições. E pensar na gestão do país”, sugere ao presidente. Com relação ao TCU, afirma que se trata de um órgão de Estado que tem cumprido seu papel institucional. “O Tribunal é um órgão do Estado brasileiro. É uma agência reguladora do dinheiro público, a instituição que não permite que, de um governo para outro, mude o programa de uma obra, se deixe uma obra pela metade. Sem nenhum viés ideológico ou comprometimento partidário, zela pelo dinheiro público”, diz.

O Tribunal de Contas da União tem cumprido seu papel institucional?

O Tribunal sempre cumpriu e cada vez mais tem aprimorado seu trabalho e sua eficiência. O TCU sempre se divulgou pouco e a sociedade teve um entendimento [reduzido] do que representa o Tribunal de Contas. O TCU não é um órgão de governo. Não pertence a este governo, nem pertenceu ao anterior ou pertencerá aos futuros. O Tribunal é um órgão do Estado brasileiro. É uma agência reguladora do dinheiro público, uma instituição que não permite que, de um governo para outro, mude o programa de uma obra, que se deixe uma obra pela metade. Sem nenhum viés ideológico ou comprometimento partidário, zela pelo dinheiro público. Um momento de muita notoriedade foi quando julgou as contas do governo Dilma Rousseff...

Todo ano a principal função do Tribunal de Contas é julgar as contas do governo. Foram muitos os presidentes que tiveram as contas julgadas. O Tribunal não mandou cassar Dilma. Houve irregularidades na prestação de contas. Coube ao Senado decidir. O Senado já ficou com oito, dez contas sem julgar. Houve ali um componente político [no Senado]. Faltou interlocução do governo com o Congresso Nacional. Não naquele momento, mas durante a gestão. Nenhum governante pode se incompatibilizar com o Congresso. É preciso ter o respeito mútuo, com entendimento. Mas fazia a pergunta no sentido de que se episódio levou os governantes a ter mais atenção no cumprimento da Lei de Responsabilidade Fiscal e as leis orçamentárias, uma vez que a irreg-

CEDIDA

‘É preciso pensar menos na próxima eleição e mais no país’ « CONJUNTURA » Ministro do Tribunal de Contas

da União defende que é um necessário um entendimento das principais lideranças nacionais

O governador vai gerir o Estado para vencedores e vencidos. O presidente da República também não pode ficar atrás de quem votou contra, quem era isso ou aquilo. Tem que ser soberano e defender o interesse do país.”

ularidade foi a justificativa legal para o impeachment?

Aquilo foi emblemático. Mas já havia [julgamento de contas]. Evidentemente, o Tribunal ampliou sua gestão. A vantagem de punir quem errou é o estímulo ao bom gestor. Agora mesmo na pandemia, alguns deputados e senadores estavam querendo que o Tribunal trabalhasse diferente. Mas precisamos proteger o bom gestor, para que ele possa afirmar que vale a pena continuar zelando pelo recurso público. Então, não tenha dúvida de que aquilo foi emblemático para os governadores, os prefeitos, os presidentes verem que o Tribunal percebe todas as coisas e manda ao Congresso. Hoje a sociedade também tem um conhecimento disto que não tinha no passado. O gestor público, o governante, às vezes reclama que o órgão de controle ou de fiscalização do Tribunal de Contas impede o andamento da obra com um rigor excessivo na fiscalização. Realmente há esse obstáculo e paralisação de projetos por esse motivo?

Fizemos um levantamento, no ano passado e, das 14 mil paralisadas, apenas 3%,

um pouco menos, era por conta dos órgãos de controle. A Constituição de 88 deu muito poder a a muita gente. Ministério Público, Ibama, Iphan... Tem áreas quilombolas, reservas indígenas... Funai, Justiça em todas as suas instâncias... Muitos instituições com poder para parar obras públicas. Pedimos ao ministro Dias Toffoli, que era presidente do Supremo Tribunal Federal, para presidir um grupo de trabalho e mostrarmos ao Brasil onde estavam as travas. Muitas vezes um prefeito não queria continuar uma obra e afirmava que o motivo seria o TCU. Ou não gostava da obra e atribuía a paralisação ao Tribunal de Contas. Mas o TCU cumpre o seu papel. Trata-se de um órgão que a cada dia se fortalece e defende o cidadão, o imposto que você paga. Às vezes culpam o Tribunal. Mas se o preço está excessivo, não vai atrás para ver e baixar. O TCU zela pela sociedade. O senhor foi deputado e ministro das Relações Institucionais. Como vê o atual momento político e institucional do país?

Não existe política sem diálogo. E a democracia tem três pilares: o Executivo, o Legislativo e o Judiciário. Os Poderes são independentes, mas é necessário que se tenha uma comunicação [entre os representantes destas instituições]. Poderia se conversar mais. Não seria para tirar nem colocar poder. Mas para que cada um entenda os passos do outro, as responsabilidades e possa se orientar. Afinal de contas, não pode haver conflito entre esses Poderes. Principalmente, se esses conflitos se alastrarem. Então, esse governo precisaria ter uma interlocução maior com os demais Poderes. Isso facilitaria mais a gestão. Falta essa iniciativa ao Poder Executivo?

Precisava conversar mais. Nos governos que observei havia uma interlocução maior, um colégio de líderes, posições bem definidas, com a responsabilidade de cada um. Dava-se mais satisfação. Havia mais discussão. Não tinha a história de perseguir culpado, ir atrás de quem errou. Eu sou da tese de que depois que

alguém ganha a eleição, tem que torcer para o vencedor acertar. O prefeito que ganha a eleição vai administrar a cidade para vencedores e vencidos. O governador vai gerir o Estado para vencedores e vencidos. O presidente da República também não pode ficar atrás de quem votou contra, quem era isso ou aquilo. Tem que ser soberano e defender o interesse do país. Estamos praticamente na metade do mandato presidencial. O senhor considera que ainda existe possibilidade de um reposicionamento e o presidente conseguir superar essas dificuldades para tocar alguns projetos e as reformas apontadas como necessárias?

E o pior é que agora temos um inimigo comum que é esse vírus. Esse vírus não é filiado a partido, não tem viés ideológico, nem projeto político. Perdemos uma grande chance de termos uma interlocução com os estados, os governadores. Algo em nível de país. Mas já está se falando de sucessão. Algo que se aprende é que no primeiro ano há um produção grande dos governos, no segundo vem a eleição municipal, no terceiro produz muito e no quarto, a eleição novamente. Mas com reeleição já fica todo mundo pensando em recondução. E temos as reformas que precisam ser feitas. É fundamental um grande entendimento nacional. Logo não teremos mais motivos para brigar. Um país com 14 milhões de desempregados é algo fora do comum. Além disso, 53 milhões de brasileiros estão na linha de pobreza, 13 milhões de brasileiros estão abaixo da linha de pobreza. Falta, para enfrentar esses problemas, um grande entendimento nacional, uma grande conversa política. É preciso se preocupar mais com o país e menos com a próxima eleição. Se fosse dar uma sugestão ao presidente, qual daria?

Uma aproximação com o Congresso Nacional, ouvir os líderes partidários e uma pacificação política. É preciso olhar menos para trás. Vencedores e vencidos estão sob a mesma responsabilidade. Deixar essas sombras do passado e a preocupação com as eleições. E pensar na gestão do país. PAGINA 4

Continuação da entrevista.


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Natal • Rio Grande do Norte Domingo, 20 de dezembro de 2020

política

»ENTREVISTA » JOSÉ MÚCIO MONTEIRO ‘Politizaram a pandemia e agora a vacina’ MINISTRO DO TRIBUNAL DE CONTAS DA UNIÃO

CEDIDA

« CONJUNTURA » José Múcio lamenta que disputas

políticas prevaleçam e não o interesse coletivo no enfrentamento de problemas como desemprego e covid O projeto da Lei de Diretrizes Orçamentárias foi aprovado com um déficit do governo federal em mais de R$ 200 bilhões, mas pode ser ainda maior se forem necessárias medidas emergenciais no próximo ano por causa da pandemia. A situação pode se agravar do ponto de vista das contas públicas? Preocupa, ao senhor que acompanha as finanças públicas, essa situação?

Não tenha dúvida nenhuma [que preocupa]. Qual vai ser o crescimento este ano? Entramos em 2020 sonhando com um crescimento de 3% do PIB. Este ano nosso sonho foi lá para trás. Agora esperamos que voltemos aos patamares do ano passado, porque os números são muito piores. A nossa perspectiva é muito ruim, porque não temos crescimento econômico e, sem isso, não há geração de emprego. Ficamos discutindo quem será o candidato, mas precisamos ir atrás dos empregos. Com geração de emprego, há comida nas mesas, filhos nas escolas, melhorias na saúde. A geração de empregos deve ser perseguida por todos. Precisamos colocar esses 14 milhões de brasileiros que estão à margem das oportunidades de volta ao mercado de trabalho. Para isso, é necessário uma diretriz. Onde queremos chegar? Qual o nosso projeto [de país]? Estamos investindo em quê? São aspectos fundamentais para a retomada. Hoje assistimos às oportunidades diminuído, as pessoas desacreditando do país. E, apesar disso, só se fala sobre eleição. O Ministério da Economia alerta que as perspectivas estão difíceis. Mas o que está se fazendo para combater? O ministro da Economia, Paulo Guedes, inclusive quando assumiu criou uma expectativa positiva em alguns

A vitória tem que ser de todos. Precisa ter uma socialização dos resultados. Poderiam ter sentado governantes de situação, oposição e mostrado que os interesses políticos estão abaixo da busca de uma solução.”

setores de que conduziria reformas liberalizantes, faria privatizações, o que poderia, avaliavam, destravar o crescimento. Há uma frustração com a demora com relação a execução destes projetos?

Sonhar não custa nada, já dizia o poeta. Mas, na hora da gestão, é preciso estar a par da realidade. O Brasil não é fácil. Somos “alguns países” aqui. Não se pode dizer, por exemplo, que o pobre do Rio Grande do Norte é igual e enfrenta os mesmos problemas e dificuldades do pobre de São Paulo. Se muda, como pobre, para São Paulo, continua na mesma classe social. Só que o PIB per capita do Nordeste é R$ 15 mil e, o do Sudeste, R$ 35 mil. Isso é o mesmo país? Está sob a mesma égide constitucional, mas não é o mesmo país. O PIB per capita do Norte é de R$ 19 mil e do Centro-Oeste, de R$ 42 mil. O que temos de comum no Brasil? A Lín-

gua, a Bandeira, a Constituição e o Hino. No resto, somos absolutamente desiguais. Mantemos a injustiça desde a nossa origem. Nosso país foi fundado, desde a Corte, com pagadores de impostos e aqueles que gastavam. O Brasil tem funcionado assim. E veja, a Constituição diz que tem que corrigir as diferenças regionais, mas não diz como, nem cria parâmetros, nem regras. E vamos mantendo as nossas pobrezas e diferenças regionais. Quando começa a demitir, por exemplo, inicia o fluxo de nordestinos. Quando faltam os empregos, o fluxo inverte. Os nordestinos são os primeiros a voltarem para casa. Quando começa a crescer, são os último que voltam para os seus empregos. Então, este país é injusto. Precisávamos de um grande pacto nacional das lideranças políticas para consertamos o nosso país nas raízes. Nos temos a questão da reforma administrativa. A máquina pública brasileira custa uma fábula em todos os Poderes. Precisávamos fazer a reforma tributária. Não é justo que pobres financiem os mais ricos. Então, são muitas questões profundas que só se pode discutir havendo diálogo, entendimento e tirando essa permanente perspectiva da próxima eleição que norteia de forma permanente a cabeça dos políticos brasileiros. A proposta de reforma administra enviada pelo governo para discussão e votação no Congresso pode ser interessante nesta direção? Ou precisaria ser mais rigorosa, uma vez que não tem validade para os atuais servidores, apenas para os que entrarem no serviço público após a aprovação?

Falta dizer mais que será a partir da promulgação. Você pergunta se é uma proposta interessante. Desinteressante é ficar co-

mo está. Não pode ficar como está. Temos algumas reformas que já passaram do tempo de serem feitas. Algumas coisas precisam ser enfrentadas. Não estamos nem nos aproximando do fundo do poço. O fundo desce. Estamos no subsolo. Precisamos enfrentar essas questões. E no caso das mudanças para os servidores públicos, no enfrentamento de alguns privilégios para algumas carreiras, como a proposta que foi enviada ou com mudanças para ter validade já para quem está no serviço público?

Dizem que o inimigo do bom é o ótimo. Ruim é como está. Esta pandemia está mostrando que a forma de se viver, se relacionar, mudou. Temos que aproveitar isto. O Tribunal de Contas está produzindo mais com 90% de sua força de trabalho em casa. Como vai ficar esse país diante das mudanças? Precisamos enfrentar isto.

E como o senhor vê a atuação do governo federal na pandemia?

Acho que perdemos uma oportunidade gigantesca de sentar todo mundo e dialogar com a preocupação de quem tinha vacina, quem não tinha, quem iria ser o ator principal, o coadjuvante. A vitória tem que ser de todos. Precisa ter uma socialização dos resultados. Poderiam ter sentado governantes de situação, de oposição e mostrado à sociedade que os interesses políticos estão abaixo da busca de uma solução que atenda a toda a sociedade. Houve uma politização da pandemia, como está havendo uma politização das vacinas. Evidentemente, com o problema da “segunda onda”, se nota nichos de preocupação aumentando. O governo fala da vacina, algo sobre o qual não estava falando. É acabar com essa história que a vacina é de Fulano ou de Beltrano, é de inimigo. Como se na próxima eleição alguém pudesse di-

zer que é inventor da vacina, que tratou da vacinação. Isso é uma vitória ou derrota do país. Não fomos felizes nessa questão da pandemia. O senhor responsabiliza um governante, algum nível de governo, um setor?

Não quero responsabilizar alguém. Mas sim a falta de diálogo. Os atores que fulanizem, como dizia Marco Maciel. O senhor deixa o TCU em dezembro?

Minha aposentadoria está requerida para o dia 31 de dezembro de 2020. O presidente já lhe fez elogios, convidou para ir para ministério. Cogita aceitar agora?

Ele convidou. Mas vou seguir meu caminho, ver se compenso o tempo que tirei dos filhos, com os netos. Procurar os amigos. Tentar viver uma vida diferente.

Alianças serão orgânicas, afirma Guedes « ARTICULAÇÃO » Ministro da Economia afirma não acreditar que o mesmo "toma lá dá cá" que, segundo ele, dominou governos do PSDB e do PT vai ocorrer no governo Jair Bolsonaro na relação com o Centrão

O

ministro da Economia, Paulo Guedes, afirma não acreditar que o mesmo "toma lá dá cá" que, segundo ele, dominou governos do PSDB e do PT vai ocorrer no governo Jair Bolsonaro com a aliança com os partidos do Centrão "Um olhar perverso diz que voltou o toma lá dá cá. Faço a pergunta: é o mesmo toma lá dá cá do governo FHC, dos governos do PT?", questionou. "Alguém irônico responde que ficará igual antes, eu acho que não. Acho que as alianças serão orgânicas, em torno de temas", disse Guedes em coletiva virtual para fazer um balanço do ano. Para o ministro, a eleição do presidente foi "disruptiva" e os partidos do Centrão são, na verdade, de "centro-direita". Ele lembrou que, além da vitória de Bolsonaro em 2018, os partidos de centro-direita tiveram vitória na eleição municipal de 2020. "Mesmo partidos de leve coloração de esquerda, como MDB,

Não quero saber se governador é do PT, PSDB, dinheiro e auxílio foram para todos." PAULO GUEDES Ministro da Economia

perderam prefeituras", afirmou. Apesar do diagnóstico, Guedes criticou o que chamou de "disfuncionalidade". "Quem ganha é a centro-direita e quem dá a pauta é a centro-esquerda", afirmou o ministro, em referência à definição da pauta de votações na Câmara dos Deputados, presidida por Rodrigo Maia (DEM-RJ), hoje desafeto de Guedes e acusado pelo ministro de ter travado as privatizações. "Até o DEM deveria ser a fa-

vor das privatizações", afirmou. Ele citou o pai do presidente da Câmara, o ex-prefeito do Rio César Maia. Ele contou que recomendou César Maia ao PFG depois que o pai do presidente da Câmara "percebeu que a agenda de esquerda não era construtiva". Para o ministro, uma aliança "orgânica" de centro-direta terá capacidade de implementar a pauta de desestatizações. Segundo ele, o governo vai "achar seu eixo político e, com isso, aprovar as reformas". "Não interessa à centro-direita continuar com aparelhagem e corrupção, se não perdem eleição", afirmou. Ele disse que a política vai "corrigir a disfuncionalidade" que hoje impede que as matérias sejam pautadas. Apesar disso, ele ressaltou que a definição na Câmara não é "preocupação direta" dele. "Quero acreditar que estamos indo em direção a uma democracia melhor", afirmou Guedes. Embora tenha citado diferentes partidos, o ministro res-

ARQUIVO/TN

saltou que as ajudas aprovadas durante a pandemia não tiveram nenhuma coloração. "Não quero saber se governador é do PT, PSDB, dinheiro e auxílio foram para todos."

Desoneração

Paulo Guedes diz que a política vai "corrigir a disfuncionalidade"

O ministro da Economia disse que sua obsessão com a desoneração da folha de salários não é "pela folha ou pelo imposto feioso", em referência ao imposto sobre transações, nos moldes da antiga CPMF. Segundo o ministro, sua obsessão se deve à convicção de que a medida pode gerar mais empregos. Após chamar a Federação Brasileira dos Bancos (Febraban) de "casa do lobby", Guedes disse hoje que os "bancos fizeram um trabalho extraordinário" durante a pandemia. "Não estou em guerra, não", afirmou. O ministro disse ainda que as medidas de liberação de compulsório adotadas pelo Banco Central evitaram uma "crise bancária".


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» “ALMA” DO ÍDOLO ALBERI SOB A ÓTICA DE UM GRANDE FÃ DO EX-JOGADOR • ESPORTES 2

Ano 70 • Número 261 • Domingo • 31 de janeiro de 2021

FUNDADOR: ALUÍZIO ALVES - 1921 - 2006

ANTONIO CRUZ/AGÊNCIA BRASIL

MICHEL TEMER

EX CL U SI V O

Ex-Presidente da República

“Neste momento, não há clima para impeachment” « POSIÇÃO » Na opinião do ex-presidente Michel Temer (MDB) não há clima para impeachment

contra o presidente Jair Bolsonaro. Nesta entrevista, ele detalha esse entendimento e fala também sobre o impedimento de Dilma Rousseff, sua atuação na questão da vacina, Lava Jato e eleições 2022. Michel Temer dá ainda uma sugestão a Bolsonaro: “Tente fazer o possível para preservar a vida dos brasileiros e cuide de trazer investimentos para o país”. « PAGINAS 3 E 4 »

CO PO LO STE RI R DO

CONMEBOL

Plano Diretor é promessa de emprego e renda em Natal « PERSPECTIVA » Ainda no primeiro semestre, Natal

poderá ver aprovado seu novo Plano Diretor. Para a indústria da construção civil e o setor imobiliário, novas regras devem pôr fim à insegurança jurídica; gerando investimento e valorização de áreas como a zona Norte. “Isso vai gerar a criação de milhares de empregos e de renda para a população", afirma Silvio Bezerra, presidente do Sinduscon. « NATAL 1 E 2 »

O continente volta a ser verde O Palmeiras é bicampeão da Copa Libertadores da América. O Alviverde venceu o Santos neste sábado (30), por 1 a 0, no estádio Maracanã, no Rio de Janeiro. O gol do título foi marcado por Breno Lopes, aos 53 do segundo tempo. Time paulista irá disputar o Mundial de Clubes. « PÁGINAS 7 E 8 »

REGISTRO

SAÚDE

Pandemia de covid fez de 2020 o ano mais letal da história do RN

Voltar a dormir bem nos dias atuais não é um sonho impossível

Em 2020, morreram 19.333 pessoas no Rio Grande do Norte; um crescimento de 10,15% com relação a 2019. Total de óbitos fez do ano passado o mais letal da história do Estado. « NATAL 3 »

Cada vez mais, ter uma boa noite de sono tem se tornado muito difícil. E esse quadro prejudica a saúde. Mas há cuidados que podem ajudar a reconquistar o reino do sono. Conheça. « TNFAMÍLIA 1 »

ALEX REGIS

ADRIANO ABREU

INFORME

INFORME

ESTREIA

Após início da vacinação, Natal se prepara para ampliar campanha

Governo do RN distribui 128 mil doses de vacina para todo Estado

Bancada da Jovem Pan News ganha o reforço de Virgínia Coelli

« ESPECIAL 1 A 12 »

« ESPECIAL 1 A 16 »

« PAGINA 6 »

Preta, Felipe Bezerra consegue se consolidar em São Paulo. “Eu sou fruto de uma fusão entre a arte e a tecnologia”. « NATAL 4 »

CENA URBANA

JORNAL DE WM

ALEX MEDEIROS

RUBENS LEMOS FILHO

Sem legislação moderna, a pobre Ribeira pode desaparecer. « PÁGINA 3 »

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Já na Cooperativa do Campus, o novo livro de Marize Castro. « PÁGINA 2 »

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Jair Bolsonaro sabe que não deve festejar pesquisa. « NATAL 3 » SITE: www.tribunadonorte.com.br REDAÇÃO (pauta): pauta@tribunadonorte.com.br

« SUCESSO » Após oito anos desde a fundação do estúdio Mula

Nos tempos atuais, o fake é o fantasma obcecado e doentio.« ESPORTES 3 » NO FACEBOOK

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ARTIGO

Marcelo Queiroz: “Em 2021, os desafios são imensos”. « PÁGINA 2 » NO TWITTER

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Natal • Rio Grande do Norte Domingo, 31 de janeiro de 2021

política

»ENTREVISTA » MICHEL TEMER

Cena Urbana VICENTE SEREJO SEREJO@TERRA.COM.BR

EX-PRESIDENTE DA REPÚBLICA

O

Congresso dos Ventos - VI Não posso acreditar, Senhor Redator, que um nordestino não sinta a alma alvoroçada, quando não a própria carne, lendo os versos cantantes do poema “Congresso dos Ventos”. Só os eivados do provincianismo, fera a devorar os jejunos, não carregam o olhar do poeta Joaquim Cardozo quando estira os olhos sobre a várzea extensa do Capibaribe, no mês de agosto. E vai reunindo no rosto as sensações de todos os ventos naquela sua planície de amplidões cingidas. O poeta olha o céu que se “encurva entres verdes e verdes e sobre lentos telhados” e vai vendo chegar “os mais famosos e ilustres ventos da terra”. E o poeta Joaquim Cardozo, como em solene respeito, começa chamando Mistral - “com seus cabelos de agulha e os seus frios dedos finos”. Depois, chama Simum, com suas “arrepiadas, severas e longas barbas de areia quente”. E grita por Harmatã - “em fúrias gloriosas e torvelinhos trazidos da Costa da Guiné”. O poeta então chama Cansin, que vive nas margens do Nilo; depois o Garbino, lá das praias catalãs; e os Monções, quem diria, das águas profundas do Índico. Chama “os ventos da Tundra siberiana, os Alísios do Equador e todos os ventos da América: Barinez, “respirando doçuras de rios azuis, afluentes do Orenoco”; o Pampeiro, o eremita que vive na solidão dos horizontes sub-andinos; e o velho e frio Minuano, sempre assobiando “a tristeza das coxilhas”. “Também os ventos nordestinos se acharam presentes: / o Nordeste e o Sudeste; / os ventos banzeiros, / o Aracati das praias cearenses. O vento Terral, velho boêmio das madrugadas. / Ventos, muitos e todos / ventos de todos os desertos, / das tempestades selvagens, de escuros outonos”. E foram tantas as palavras que o poeta chega a ouvir célebres citações de Esopo e de La Fontaine, como se fosse possível, no futuro, o mundo ter “fornos magnéticos”.

E os grandes ventos vão assim, com suas forças, tomando todo o poema. Segundo o poeta, “uma onda de revolta se ergueu contra os motores, / contra os ventiladores e os túneis de vento. Mas, por entre aquelas vozes meteóricas, “podia-se ouvir muito bem a voz tormentosa” do vento Nordeste, como se levasse “nas dobras do seu manto, o pólen” e “suspirando entre ramagens”. Assim, passadas as festas, todos os ventos partiram, cada um de volta à sua terra. Mas, o poeta resiste no seu encantamento. No poema, todos os ventos vão embora, mas ele olha a beleza das nuvens erguendo seus vôos sobre a paisagem varzeana. E antes que partisse o último vento nordestino, o Vento Aracati, olha a várzea, e canta com a alegria de sabê-lo seu, de tão íntimo: “O último que se pôs a caminho foi o Vento Aracati. / Cortou uns talos de chuva / com eles fez uma flauta / e se foi, tocando e dançando, / e se foi pela estrada de Goiana...”.

e e e PALCO e e e DÍVIDA - O que falta para o go-

verno, por dever de transparência, publicar a dívida do Estado e mostrar, credor a credor, quanto deve e a quem? E quanto já recebeu só de repasses federais?

ALIÁS - Sem uma legislação mo-

derna a garantir a convivência do velho com o novo, a pobre Ribeira pode desaparecer com a tal casa verde e amarela. Desafio que exige coragem e talento.

LUTA - A governadora Fátima

Bezerra acerta quando concentra a luta no pagamento de salário que equivale a garantir a alimentação. Mas precisa dizer como vão nossas combalidas finanças.

VALOR - A lei foi aprovada no parlamento e na França, a partir de agora, são protegidos como um patrimônio sonoro e imaterial: o canto dos galos, o toque dos sinos e o cheiro dos estábulos.

AVANÇO - Depois do sucesso presencial em Natal, Brasília, São Paulo, João Pessoa e agora Recife, o Grupo Mangai investe no E-commerce para seus cardápios, produtos e ingredientes.

VISÃO - A lei vai evitar litígios judiciais entre vizinhos por ruídos e odores. O Senado aprovou e o secretário de Estado para o mundo rural, Joël Giraud, elogiou. Civilização tem coisas assim.

RUÍNAS - Sem incentivos e um

FELIZ - De Nino, o filósofo me-

imposto para gravar a especulação imobiliária, Natal começa a mostrar sinais de decadência em áreas urbanas antes até exuberantes como Tirol e Petrópolis.

3

lancólico do Beco da Lama, afiando o seu ceticismo diante das lendas do desejo: “Se amor e sexo fossem coisas separadas a carne humana viveria mais feliz”.

e e e CAMARIM e e e VIDAS - Duas biografias marcam a temporada de leitura no

verão: ‘Ninguém pode com Nara Leão’, de Tom Cardoso, da Planeta, R$ 42 reais, 298 páginas; e ‘Viver é melhor que Sonhar’, sobre o exílio de Belchior, de Chris Fuscaldo e Marcelo Bortoloti, edição Sonora, R$ 59 reais.

EXÍLIO - O livro sobre Belchior, a rigor, é a reportagem que revela detalhes dos últimos dias de sua vida ao assumir o exílio voluntário e obscuro. Abandonando tudo, passando calote em hotéis, dormindo debaixo de viadutos e fugindo de quem reconhecia o rosto do grande artista. MUSA - A biografia de Nara Leão revela uma moça de classe

média que não usava drogas e a cantora que só gravava o que queria. A beleza dos seus joelhos, conta uma lenda, quem viu de perto, em Natal, foi um jovem repórter na tenra juventude, chamado Cassiano Arruda Câmara.

ex-presidenteMichelTemer (MDB) diz não ter a pretensão de dar conselhos ao atual ocupante do Palácio do Planalto, mas instigado a apresentar sugestões a Jair Bolsonaro, afirma que tem o seguinte “palpite”: “Tente fazer o possível para preservar as vidas dos brasileiros e cuide de trazer investimentos para o país. Convenhamos que, depois que passar a pandemia, não vão bastar investimentos público”. Michel Temer não vê condições para que se possa deflagrar o processo de impeachment contra Bolsonaro. Nesta entrevista, ele nega que tenha articulado para a derrubada da ex-presidente Dilma Rousseff, de quem era vice e, com a saída dela, assumiu o mandato presidencial. Michel Temer narra a mediação que fez no diálogo para o presidente da China, Xi Jinping, liberar a exportação dos insumos necessários à produção no Brasil da vacina contra a covid-19. Como o senhor vê o Brasil atual? Em qual momento considera que nos encontramos, principalmente no aspecto político?

Para fazer uma análise do Brasilatual,temosqueobservaraquestão da pandemia. O coronavírus chegou há dez meses e, evidentemente,tumultuouopaís.Provocou umaangústiaemtodososcidadãos brasileiros.Depois,houveumacerta disputa em torno deste problema da vacina. Embora deva registrar, com tranquilidade, que cada um fez seu papel. O governo federal — quando destinou bilhões de reais para os vulneráveis, para as micro e pequenas empresas, para manter empregos — cumpriu seu papel.Aliás,opapeldaUniãoéexatamente, em face da Constituição Federal, a edição das Normas Gerais.EosEstadoseMunicípiostambém cumpriram seus papéis. Aos Estados, incumbe as Regras Especiais.EosMunicípiosnãotêmcompetência legislativa, mas sim executiva.AexpressãoqueaConstituição usa é “compete aos Municípios cuidar da saúde”. Para a União e os Estados, diz que compete legislar concorrentemente. À União, normas gerais. Aos Estados, normas especiais. Digo isso, porque o governo Bolsonaro, vinha dando sequência ao nosso governo. Verifica-se que a inflação e os juros continuaramacair,houveumaampliação até do projeto de privatização, ao qual tínhamos dados uma ênfase muito acentuada. O atual ministro Tarcísio de Freitas (Infraestrutura) foi secretário executivo do Programa de Parcerias e Investimentos,trabalhavalánoPalácioconosco.Issovinhaemumritmomuito adequado. Quando veio a pandemia, zerou todas essas questões que estavam sendo levadas à frente. Isso fez com que a economia levasse um baque. O senhor considera que o presidente deveria mudar o relacionamento com os governadores? E os governadores também, principalmente o governador João Doria também a forma como se relaciona com o presidente?

Estou de acordo, porque o que está em pauta agora não é a eleição de 2022, mas sim a preservação davida.Parapreservarvidas,éprecisobuscaraunidadequeopaístantocarece.Semprepregueiaharmonia entre as instituições. Seria útil que os governadores e o Governo Federalseentendessem.Houveum momentonoqualteveumareunião produtiva entre o presidente e os governadores.Isso[secontinuasse] daria até tranquilidade ao povo. Maslogodepoisteveoproblemado vídeo que tumultuou tudo novamente.Sempreétempoderecuperar a unidade em nome da nação, do povo brasileiro. Deveriam ser feitos gestos de harmonia. Como foi a participação do senhor na tentativa recente de resolver a dificuldade do país com a importação de insumos para as vacinas?

Acho que dei uma mãozinha neste assunto. Modesta, mas dei.

ARQUIVO

‘Não há clima para o impeachment’ « CONJUNTURA » Ex-presidente afirma que não há condições

para deflagrar um processo de impedimento contra Jair Bolsonaro

Para preservar vidas, é preciso buscar a unidade que o país tanto carece. Sempre preguei a harmonia entre as instituições. Seria útil que os governadores e o Governo Federal se entendessem.”

AntonioImbassahy[ex-governador da Bahia], que hoje está no GovernodeSãoPauloefoiministrononossogoverno,metelefonoudepoisque fiz uma visita com ele ao Instituto Butantan. Imbassahy ligou pedindo, se eu poderia trabalhar junto à China,sabendoeledasminhasboas relações com o Estado e as autoridades chinesas. Quando solicitou, háduassemanas,ligueiparaumexembaixador da China que hoje está no governo chinês e pedi para que transmitisse ao presidente Xi Jinping, com quem ele sabe que eu tive uma relação institucional muito produtiva e quase pessoal. Então, pedi que ele transmitisse um apelo pessoal meu, como ex-presidente e em nome dos brasileiros. Ele disse que transmitiria ao presidente Xi Jinping. Logo em seguida, o embaixador informou que havia chegado meu pedido à China e que os insumos estavam, praticamente, sendoacondicionados.Haviaalgum detalhe técnico, mas em pouquíssimos dias viriam ao Brasil, para o ButantaneparaaFiocruz.Atéquando respondi a uma pergunta de um jornalista,dissequeláestiveramvárias outras autoridades, a ministra TerezaCristina(Agricultura),osministros Ernesto Araújo (Relações Exteriores), Pazuello (Saúde), Fábio Faria (Comunicações), o presidentedaCâmara,RodrigoMaia.Foi o trabalho de muitos que ajudou a liberar os insumos para a fabricação. Mas essa foi minha participação, modesta, mas que deu uma mãozinha. A discussão sobre impeachment tem se intensificado nas últimas semanas. Como o senhor vê essa possibilidade?

Quero falar muito teoricamente. O impeachment é sempre traumáticoparaopaís.Euchegueiaogoverno em razão de um impeachment.Masreconheçootrauma.Não foi sem razão que pratiquei uma espécie de Semiparlamentarismo, na medida em que trouxe o Congresso para governar comigo. E tenho pregado a necessidade de mudar-

mos o sistema de governo, porque noParlamentarismo,oumesmono Semiparlamentarismo, é possível mudarmos o governo com facilidade, sem os traumas institucionais que muitas vezes um impedimento acarreta. Quando um presidente daCâmararecebeumpedidodeimpeachment tem que analisar detidamente e friamente se há sólidas razões jurídicas e fáticas que permitam a simples deflagração do processo de impedimento. O presidente da Câmara só pode deflagrar o processo,seexistiremessesmotivos. Depois vai para uma comissão especial que leva meses discutindo o assunto para verificar se acolhe ou não o pedido. Se acolher, vai para o plenáriodaCâmaradosDeputados, em mais uma longa discussão para verificar se considera ou não procedente a acusação. Se considera procedente, vai para o Senado. Então, é um longo debate que pode desestabilizar o país. Alguns dos pedidos atuais estão se baseando na atuação do presidente na pandemia. Com relação a esse aspecto, haveria fundamento para o impeachment?

Eu sou da área jurídica, então tomo muito cuidado e teria que analisar os pedidos para ver se têm fundamentos legais e fáticos que autorizassem a deflagração de um processo de impeachment. Quando fui três vezes presidente da Câmara dos Deputados, recebi inúmeros pedidos de impedimento e nunca levei adiante. Indeferia. Só aceitaria se, em dado momento, chegasse um pedido que inafastavelmente haveria de processá-lo. Mas, sempre que pude, evitei o impedimento. Precisamente, neste momento, acho que não há clima para isso. Não estou tratando do mérito. Verifico que não há clima. Veja que boa parte da população considera que o presidente Bolsonaro agiu corretamente no tocante à questão da vacina. Então, se não tem um núcleo muito grande da população pleiteando o impedimento, é difícil o Congresso sensibilizar-se para isso. E se não for para, ao final decretar o impedimento, mas só para fazer agitação, não vale a pena, porque durante o processamento há uma grande instabilidade institucional. Então independente do aspecto jurídico, considera que há certa popularidade do presidente que inviabilizaria um impeachment?

E eu tenho ouvido dos congressistas que eles próprios não veem, lá no Congresso, essa disposição. Há quem aponte que, na política econômica, o atual governo é uma continuidade do que o senhor executou. Concorda? E no aspecto político e administrativo, como avalia o atual governo?

Em primeiro lugar, concordo que o governo dele [Jair Bolsonaro] foi uma continuidade do nosso. Veja que foram feitas grandes reformas no país [no governo Temer), a trabalhista, a do ensino médio. Teve a queda da inflação, dos juros, a recuperação das estatais, muitas privatizações. O presidente Bolsonaro continuou na mesma linha. Devo até registrar que ele tem sido correto com meu governo. Não tem um momento sequer que tenha falado mal do nosso governo. Ao contrário, muitas vezes se refere às reformas. A reforma da Previdência foi paralisada em um dado momento. Saiu da pauta legislativa, mas não saiu da pauta política e convencemos a sociedade brasileira da indispensabilidadedareformaprevidenciária. Logo no primeiro semestre do seu governo, ele levou adiante. Então, acho que deu sequência ao que vínhamos fazendo. Agora tudo ficou mais ou menos paralisado em função da pandemia. Está sendo publicado o livro do exdeputado Eduardo Cunha e ele afirma que o senhor participou ativamente das articulações para o impeachment da ex-presidente Dilma...

Confesso que não li o livro de Eduardo Cunha. Não sei as razões que o levam a isso. É interessante que, no Regime Presidencialista, toda vez que se deflagra o processo de impedimento, o primeiro suspeito é o vice. E eu, ciente e consciente deste fato, logo que se deflagrou aquele processo de impeachment, vim para São Paulo. Fiquei pouquíssimo em Brasília. Confesso que só voltei na última semana, porque quanto seria votada a eventual admissibilidade, pela Câmara, do processo de impedimento, as pessoas começaram a dizer: “Mas você desapareceu, precisaria estar aqui em Brasília”. Voltei, na verdade, na última semana. Confesso que não li o livro dele, não sei o que ele disse. Soube apenas por uma coluna social, que disse algo a meu respeito, que eu teria sido um militante, falou também sobre Rodrigo Maia. Mas não conheço os pormenores nem o que o levou a isso. Na verdade, acho que não foi nem Eduardo Cunha, embora fosse ele o presidente da Câmara, nem eu, nem ninguém especificamente que derrubou o governo. Quem derruba governo é o povo nas ruas, sensibilizando o Congresso. Vocês lembram do MBL caminhando de São Paulo a Brasília pedindo o impedimento. Esse clima não existe hoje. Nem eu, nem o presidente da Câmara na época teríamos condições de, individualmente, levar adiante o impedimento. PAGINA 4

Continuação da entrevista.


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Natal • Rio Grande do Norte Domingo, 31 de janeiro de 2021

geral

»ENTREVISTA » MICHEL TEMER EX-PRESIDENTE DA REPÚBLICA

ARQUIVO

Qual a avaliação que o senhor faz das eleições para presidente da Câmara dos Deputados e do Senado, que serão nesta segundafeira, considerando que o MDB tem candidato a presidente nas duas Casas?

Estouacompanhandoumpoucodelonge,naturalmente.Vejoque estão sendo bastante disputadas, tanto na Câmara como no Senado. É difícil prever. Fui três vezes presidente da Câmara, então participei dessas campanhas. É interessante porque todas as vezes que fazemos os cálculos temos 12% de traição. Mas é traição de ambos os lados. O voto é secreto e na hora de votar as pessoas decidem por conta própria. Acho muito difícil, neste momento, fazer uma previsão. Com relação ao Baleia Rossi (candidato a presidente da Câmara do MDB)aspessoasdizem,éverdade, que está vinculado a mim por muito tempo. Ele foi presidente do MDB em São Paulo, deputado federal, depois líder do partido, enquanto eu era presidente da República. Agora ele é presidente nacional do MDB. Realmente, tem ligação comigo. Mas não estou entrando nessa história, porque o outro candidato,ArthurLira,aolongodo meu governo, também ajudou em todas as matérias que propúnhamos. Na realidade, seja quem for eleito presidente da Câmara, não tem que ser situação ou oposição. Tem que ser presidente da Câmara. Qual a função do presidente da CâmarapelaConstituição?Conduzir os projetos de relevância para o país. Naturalmente, não é para se opor ao presidente da República e nem para estar ao seu lado. É verificar o que é importante para o país e levar adiante. Nas vezes em que fui presidente da Câmara, duas vezes no governo do Fernando Hen-

verifiquei isso. Ou seja, houve um certodesprezoeleitoralpelaradicalização, não foi a radicalização que elegeu prefeitos, foi exatamente a temperança, o cuidado, a moderação, a serenidade, pelo menos na grandemaioriadosmunicípios.Vejoqueissoocorreueachoquefoiútil para o país. Confesso que essa radicalização de lado a lado não é útil. Claro que as pessoas podem ter as suas opiniões, mas colocar brasileiro contra brasileiro não é bom. Portanto, a ideia da harmonia, da paz entre os brasileiros é algo importante. Por isso digo que a eleiçãomunicipalajudouarevelaranecessidade de uma certa pacificação nacional,nadaimpedindoquesetenha programas administrativos, sustente-os com rigor, com muita força, mas sem agressividade, que não produz bom resultado. Mas nesse contexto, como o MDB pode se posicionar com relação às eleições de 2022?

‘Preservar a vida dos brasileiros e atrair investimentos privados’ « RETOMADA » Ex-presidente sugere a Bolsonaro prioridade

para preservação das vidas e medidas para atrair capital estrangeiro

rique Cardoso e uma vez no governo Lula, em todas as ocasiões quando havia dificuldade para tramitação de certas propostas do Executivo,euiaaopresidente,afinalaConstituição diz que os Poderes devem ser harmônicos entre si, e dizia: “Isso aqui não vai dar certo, não tem climaparalevaradiante”.E,pessoalmente até, muitas vezes dizia: “Não acho que seja útil”. E os presidentes compreendiam. Acho que seja quem for eleito, isso vai acontecer. Apessoatemqueexercerasfunções do seu cargo. O que significa para um presidente da República ter um presidente

da Câmara alinhado ou adversário?

Qualquerumdelesquesejaeleito,nãoéumaquestãodealinhamento ao governo, mas sim de cumprir o seu papel. Não adianta alguem dizer: “Eu fui eleito e sou oposição ao presidente da República”. Isso não existe. Ou afirmar: “Fui eleito e sou alinhado ao presidente da República”. Isso também não existe. Há Poderes independentes e harmônicosentresi.Qualquerdelesdeveráexerceressepapelcomessasignificaçãoconstitucional.Éclaroque se tiver um presidente da Câmara ou do Senado contra o presidente, trabalhando contra, é muito ruim. Mas,aotrabalharcontraele,estáde-

Confesso que essa radicalização de lado a lado não é útil. Claro que as pessoas podem ter as suas opiniões, mas colocar brasileiro contra brasileiro não é bom.” sarmonizando a relação dos Poderes, praticando uma inconstitucionalidade. O presidente da Câmara, doSenadonãosãoautoridadespor conta própria, são autoridades constituídas. Quem tem autoridade, é quem tem poder. E quem tem poder, diz a Constituição, é o povo. Então, as autoridades que acabei de mencionar, são constituídas e quando foram constituídas, quando o Estado e a Constituição foram recriados em 05 de outubro de 1988, a soberania popular disse: “Comportem-se nos termos da Constituição”.Poisbem,seaConstituição determina a harmonia entreosórgãosdoPoder,nãopodeter umqueestejaemdesarmonia,tem que ser alguém em harmonia com os interesses do país e trabalhandojuntocomExecutivoecomoJudiciário. Qual a avaliação que o senhor faz da eleição do presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, e como o governo brasileiro deve se posicionar?

AchoqueopresidenteBidenestáfazendoumbemparaosEstados Unidoseparaomundoemface,naturalmente,dopoderiopolíticodos Estados Unidos. Logo após o momento em que foi eleito, ele já fez um discurso pela paz interna e pela paz mundial. Eu conheço, razoavelmente, [o atual presidente dos EUA], porque ele era vice-presidente lá e eu, aqui. Nós tivemos no mínimocincoencontros,osdoisúltimoeujácomopresidente,emNova Iorque. Ele é muito moderado, temperadoeequilibrado.Farámuito bem para os Estados Unidos e, consequentemente, acredito que terá uma relação institucional, não digo pessoal, muito sólida, muito fértil com o nosso país. Eu duvido queopresidenteBiden,peloquesei dele, vai desprezar o Brasil. Não fará isso. Pelo contrário, acho que anoçãoinstitucionalquetem,eposso atestar isso, é muito forte. Como avalia o resultado das eleições municipais, o que é que as urnas disseram ao Brasil?

Elasdisseramquequerempessoas com relativa experiência e que sejam temperadas. Pela análise rápidaquefizdaseleiçõesmunicipais,

O MDB sempre foi um partido damoderação.Primeiro,desdeque o presidente Sarney assumiu o governo, conseguiu levar o país, ao lado de Ulysses Guimarães, para a redemocratização, que se consolidou pela Constituição de 1988. Hoje não é, mas o partido sempre foi maioria no Congresso Nacional e aprovou as boas teses para o país, desde o Plano Real, desde a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF). Convenhamos,desdedasreformas constitucionais e também no tempo dos governos Lula e Dilma, com as ações sociais, quando se tornou visívelaquestãodosprogramasaos vulneráveis e de combate à pobreza. O MDB se tornou um partido congressualmuitoforteemuitoativo, também muito temperado. O MDBnuncafoideposiçõesradicais. NoRioGrandedoNorte,mepermitecitarexemploscomoasfigurasde Aluízio Alves, Henrique Alves, pessoas com extraordinária moderação ao longo de suas vidas públicas.TambémGaribaldiFilho.Osdeputados do Rio Grande do Norte, pelo MDB, todos moderados, semprederamumagrandecolaboração ao país. Então o MDB é um partido,senósquisermosrotular,decentro. Mas confesso que não gosto de rótulos. Hoje essa coisa de esquerda, direita, centro, não existe. O povo quer resultado. Precisamos nos acostumar com essa nova perspectiva no país. No âmbito da Operação Lava Jato o MDB foi um dos partidos mais citados, inclusive o senhor. Qual avaliação faz de toda essa operação?

Em primeiro lugar, o MDB não foi o mais citado. Foi um dos citados. Basta dizer aquele rapaz que disse que colaborou com 350 deputados... O MDB não tem 350 deputados. No meu caso, especialmente, fui vítima de várias tentativas até de me derrubar do governo naquela época, de setores institucionais que tentaram exatamente isso enãoconseguiram.Hojesevêomotivo pelo qual não conseguiram. Ao longo desses últimos tempos, graças a Deus, tem havido o reconhecimentomuitosignificativodonosso governo. E, segundo ponto, no plano judicial, aquela tal gravação, que foi julgada imprestável por decisãodeprimeirograudejurisdição e confirmada em segundo grau peloTribunalRegionaldeBrasília.Então, de outra parte digo, as pessoas que me ofenderam naquela época foramobjetosdeAçãoCivildeindenização por perdas e danos. Foram condenadas agora, praticamente, com decisões transitadas em julgado no Superior Tribunal de Justiça (STJ) e, ao mesmo tempo, como movemos queixa-crime contra aqueles que nos caluniaram e difamaram... A queixa-crime foi autorizada em primeiro grau, e está em segundo grau de jurisdição em Brasília. Essas coisas ao longo do tempo estão sendo solucionadas. Pelo menos falo do meu caso, sobre os outrosnãomeatrevoafazercomentários. O senhor pretende ser candidato a algum mandato eletivo em 2022?

Não, confesso que não. Já percorri muitos caminhos. No Executivo estadual, fui procurador do Estado de São Paulo por duas vezes; secretáriodeSegurançaduasvezes; noLegislativo,deputado,presidente da Câmara três vezes. Foi vice-

presidente da República, presidente da República. Já fiz o que deveria fazer. Considera que o MDB deve ter candidato próprio a presidente da República em 2022. Ou qual nome deve apoiar se não tiver candidatura própria?

Faltam praticamente dois anos para uma nova eleição. Em política, éumséculo.Nestemomentoémuito difícil dizer. É claro que todo partidotemcomoobjetivoterumacandidatura, mas as questões quando vão se afunilando lá na frente... Isso aconteceu ao longo do tempo, os partidos fazem acordos políticos. Mas alguns já estão se colocando, apresentam nomes, prioridades...

O MDB é muito prudente, como costuma ser seu estilo. Está indo devagar nessas coisas e as decisões virão, naturalmente, no ano que vem ainda, no começo de 2022. Como o senhor avalia o apoio do PT a Baleia Rossi como candidato a presidente da Câmara, depois de tantas declarações de petistas radicalmente contra o MDB pós-impeachment?

Veja o que é política. Formouse uma frente [na eleição para presidente da Câmara] que juntou MDB, PT, DEM e outros partidos. Política é isso. Agora, eleição da Câmara é eleição da Câmara. Muitas vezes dizem que isso [sinaliza] para 2022. Acho que não significa nadapara2022,queteráoutradiscussão. Então, não será eleição de Câmara ou do Senado que decidirá o que vai acontecer em 2022. Na medidaemquetemumaaliançaMDB, PT,DEM,PSDB,podeimaginarque estarão juntos lá na frente? Fica difícil dizer. A democracia corre risco no país?

Nenhum risco. Primeiro, evidentemente, com base na Constituição, nós temos uma solidez jurídico-institucional muito forte. Se pensaremriscoparaumademocracia, supõe-se a ideia do golpe. Mas não há golpe no país sem Forças Armadas.EpeloqueseidasForçasArmadas, que conviveram com o meu período,nãosódepresidentedaCâmara, vice-presidente, mas especialmente na Presidência da República, não vejo nenhuma vocação para isso. Pelo contrário, o que eu videlesfoiorespeitoabsolutoaotexto constitucional. No nosso país, queiramos ou não, as nossas instituições estão funcionando, não vejo a menor possibilidade de abalo à nossademocracia.Euvejoelaprosperar cada vez mais. O senhor já disse que não dá conselho, mas poderia apresentar sugestões ao atual presidente, se fossem solicitadas?

Mero palpite, não é conselho. É precisotermuitocuidadocomessas histórias de conselho. Eu digo que devezemquando,sesolicitado,dou palpite. Como vocês estão me perguntando, eu digo o seguinte: Tente fazer o possível para preservar a vida dos brasileiros e cuide de trazer investimentos para o país. Convenhamos que, depois que passar a pandemia, não vão bastar investimentospúblicos,porquetemostambémpoucaverba.Incentiveainiciativa privada, especialmente, a vindadocapitalestrangeiroparaopaís, porque não virá aqui como rentista, tendo em vista que os juros são negativos lá fora e hoje são negativos aqui no Brasil. Então ninguém vem aqui para aplicar dinheiro, quem vem para cá é para investir e investir significa criar empregos.

 VEJA MAIS QR Code traz, em vídeo, a entrevista completa do ex-presidente Michel Temer.


FUNDADOR: ALUÍZIO ALVES - 1921 - 2006

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» NOVA TRAILBRAZER RECEBE ATUALIZAÇÃO VISUAL E NOVOS ITENS, COMO WI-FI • TNFAMÍLIA 5

Ano 70 • Número 273 • Domingo • 14 de fevereiro de 2021

GOVERNO DE SÃO PAULO

JOÃO DORIA

EX CL U SI V O

Governador de São Paulo

“Bolsonaro é um erro. Não tenho compromisso com o erro.” « BICUDO » O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), admite hoje que errou ao votar em Jair Bolsonaro. E afirma que não tem compromisso com o erro. Ele defende o diálogo para 2022; admite uma aliança com o PT e elogia figuras do partido, entre elas, a governadora Fátima Bezerra. Doria comenta ainda sua situação no PSDB e fala sobre a retomada da economia. « PAGINAS 3 E 6 »

PROBLEMÃO

PREVISÃO

Natal possui pelo menos 528 imóveis em situação de abandono

Nova empresa deve assumir aeroporto em fevereiro do ano que vem

« NATAL 2 E 3 »

« NATAL 4 »

ADRIANO ABREU

Pandemia derruba ocupação hoteleira no Estado em 45%

ADRIANO ABREU

« CRISE » Pandemia do novo coronavírus acerta em cheio a engrenagem do turismo no RN e derruba em 45% a ocupação hoteleira no ano de 2020. Números de janeiro a dezembro do ano passado não superaram os 30,5%. No mesmo período, turismo no Brasil perdeu R$ 274 bilhões, segundo levantamento divulgado recentemente pela CNC. « ECONOMIA 1 E 2 » RAYANE MAINARA

“Nem parece fevereiro”

ALIMENTAÇÃO ALEX RÉGIS

Deputados pedem mais explicações sobre gastos nas Forças Armadas Parlamentares enviam à PGR novos dados sobre supostos gastos com alimentação de militares e querem mais esclarecimentos. « PAGINA 7 »

« BIOCIÊNCIA » Pesquisadores realizam investigação

INFORME

para definir o que afinal é a ginga, um dos maiores símbolos da gastronomia natalense. « TNFAMÍLIA 1 »

FLAMENGO

LITERATURA

Gabigol vai completar cem jogos pelo Fla e quer vitória contra o Timão

Craques de Itajá se transformam em versos no livro de cordel de Edimilson Pessoa

« ESPORTES 2 »

« ESPORTES 1 »

MARCELO CORTES

Mecanismos de transparência no RN são ampliados e aprovados Estado tem acentuada melhora nas ferramentas de transparência pública. Pesquisa atesta aprovação da população. « PÁGINAS 4 E 5 »

DIVULGAÇÃO

Aos leitores

« VAZIO » Após 55 anos de carnaval, o carnavalesco Di Carlo vai ficar quieto em 2021. Ele e outros apaixonados pela festa contam como está sendo o carnaval mais diferente da história. « NATAL 1 » CENA URBANA

É uma tolice crer que o problema do Brasil é ideológico. « PÁGINA 3 »

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Dívida com pernas de pau deveria ser paga por quem os contratou. « ESPORTES 3 » 4006-6111 Classificados: 4006-6103 Circulação: 4006-6173 Reclamações:

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João Medeiros Filho, ex-chefe de Polícia, foi boêmio sim. « PÁGINA 2 »

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Natal • Rio Grande do Norte Domingo, 14 de fevereiro de 2021

política

»ENTREVISTA » JOÃO DORIA

Cena Urbana VICENTE SEREJO SEREJO@TERRA.COM.BR

GOVERNADOR DE SÃO PAULO

O

Quando os homens... Naqueles anos velhos, não encharcados pela mania burra do politicamente correto, os homens representavam a humanidade. Reuniam, na expressão, os homens e mulheres. Nos sexos, sexualidades, gêneros e transgêneros, declarados ou não. Nesse tempo, 1888, Oliveira Martins, ao escrever sobre a política como um banquete, afirmou: “a imaginação fecunda dos homens engenhosos cria visões, a dos medrosos cria fantasmas”. Estavam inclusas as mulheres, claro. Somos assim até hoje. O grande escritor português, fundador, ao lado de Eça de Queiroz, Ramalho Ortigão e Carlos Lobo de Ávila, da confraria ‘Os Vencidos da Vida’, reclama no artigo em ‘O Repórter’, de Lisboa, que os partidos se multiplicavam como pães. Imaginem se por acaso vivesse no Brasil de hoje, ostentando mais de três dezenas de partidos, nutridos pelas tetas suculentas de fundos partidários que transformam as siglas em bons e lucrativos negócios. É preciso ser feito de uma tolice alvar para acreditar que o problema do Brasil, ontem, hoje e amanhã, foi, é e será ideológico. Quem examinar os resultados da Lava Jato, e só dos casos julgados por tribunais superiores, vai encontrar esquerdistas e direitistas igualmente feios e inescrupulosos. Ou, se preferir ser claro, políticos e empresários em quantidade e intensidade. Não há, no crime de prevaricação com os recursos públicos, diferença entre passivos e ativos. Tudo isto é para dizer o mínimo. E o mínimo é a consciência de que o nosso velho caldo de cultura, fervido desde a colônia, não ganhou novos ingredientes. O que parece novo é apenas a nova forma de antigos vícios agora refogados. Na carta a El-Rey, depois de manifestar, com raro entusiasmo, a euforia com a riqueza da terra descoberta, Pero Vaz de Caminha pede, já no finalzinho, um emprego para o cunhado que passava dificuldades de sobrevivência lá no Reino.

Esse retrato renasce agora, quinhentos anos depois, na figura do fura-fila das vacinas. O poder move e remove argumentos, normas, regras e regramentos. Um prefeito achou justo vacinar aquela que disse ser a mulher da sua vida. Jovens latagões musculosas e marombados receberam vacinas em nome da ginástica que ensinam, assim como o Poder Judiciário, a partir do Supremo, em nome de Themis, a deusa cega da Justiça, ainda tentou conseguir o privilégio. O Brasil não é uma questão ideológica. Esse jogo falso, de esquerda versus direita, tem sido uma forma eficiente e conveniente de mobilização, de lado a lado, e não o conflito saudável de ideias. Os ricos estão mais ricos e os pobres mais pobres antes e depois da pandemia. Só uma coisa mudou: a doença que nos ameaça agora é orgânica. Nasceu da democracia e com o voto da maioria popular. Num rico país e no qual, em se mentindo e em se plantando, tudo dá...

e e e PALCO e e e CHARME - O sambista Nelson

Sargento é também um pintor primitivo. Ele acaba de pintar um quadro para a coleção da professora Isaura Rosado. Um ícone na sua parede, convenhamos.

VALOR - A entrevista de New-

ton Navarro ao programa ‘Memória Viva’ é o mais importante, mais extenso e o mais detalhado, ocupando vinte e três laudas depois de transcrito para o papel.

LUTA - Dácio Galvão, da cultura municipal, tem uma missão difícil, mas bem nobre: salvar o mural de Newton Navarro na Confeitaria Delícia, do grande Olívio, na Ribeira Velha de Guerra.

EDIÇÃO - Armando Holanda

EUNUCO - Sugeri à nossa coma-

PAIXÃO - Do sedutor, no últi-

SERTÕES - De 4 a 7 de maio acontece o II Seminário Nacional de História Social dos Sertões. Será virtual, promovido pela UFRN, Campus de Caicó, andando os caminhos do velho sertão.

MEDO - De Nino, o filósofo me-

dre Diva Cunha sebo de carneiro capado para as juntas doídas. Renegou. Pelo jeito, a grande poetisa de ‘Resina’ não quer negócio com eunucos. Nem carneiro.

3

pediu que a Fundação José Augusto editasse e pôs à disposição sua coleção de 75 telas de Navarro para ilustrar. Holanda não quer aparecer. Será só Navarro.

mo lance para tentar, desesperadamente, conquistar aquela que lhe negava o amor todas as vezes: “Diga sua altura só para eu saber o tamanho da minha dor”.

lancólico do Beco da Lama, vendo de longe as pantomimas do falso corajoso driblando o próprio medo: “O covarde, às vezes, sabe falsificar bem a coragem”.

e e e CAMARIM e e e CHAMAS - A editora DBA acaba de lançar no Brasil a tradução do livro que, na França, conta a história do incêndio da Notre Dame: ‘A alma da França’. Algum leitor há de lembrar que este cronista estava em Paris no dia 15 de abril de 2019, viu o incêndio, e mandou sua coluna de lá. HISTÓRIA - Não é apenas a história do mais célebre

monumento cristão de Paris e até de toda a Europa Ocidental, tema do romance de Victor Hugo e de lendas do Corcunda misterioso entre gárgulas. Agnés Poirier conta a história do restauro da Notre Dame que também gerou chamas.

MEMÓRIA - Armando Holanda e Joventina Simões incluíram o depoimento de Danilo Bessa entre os dez advogados que formam o elenco do terceiro volume do programa Memória Viva a ser lançado ainda este semestre. É uma homenagem à sua luta anônima em defesa da liberdade.

governador de São Paulo, João Doria, diz não ter compromisso com o erro. Por isso, admite que errou ao ter votado em Jair Bolsonaro. Ele afirma que em um segundo turno no qual a opção estava entre o candidato que então apoiou e o petista Fernando Haddad deveria ter feito a escolha pelo voto nulo. “Errei, não devia ter votado em Bolsonaro. Devia ter anulado o meu voto”, disse o governador de São Paulo, nesta entrevista. Ele defende agora uma ampla aliança em oposição ao presidente Jair Bolsonaro e afirma que até o PT não deve ser excluído do diálogo. João Doria cita a governadora Fátima Bezerra e os governadores Wellington Dias (Piauí) e Flávio Dino (PCdoB), como exemplos de políticos que são de partidos de esquerda, mas têm se “esforçado” nas gestões de seus estados. Com relação à campanha de imunização contra a covid, Doria defende que o Governo Federal deve providenciar, com agilidade, mais vacinas da AstraZeneca, da Pfizer-BioNTech, da Moderna, da Janssen e a Sputnik. Como o senhor avalia o papel dos governadores neste começo da vacinação da população contra a covid-19?

Os governadores vêm cumprindo muito bem o papel que lhes cabe, desde o início da pandemia, e isso tem sido fundamental [no enfrentamento da covid-19]. Primeiro, nós estamos unidos em torno da defesa e da proteção à saúde e à vida dos brasileiros. E solidários também entre nós, integrados nas decisões que temos tomado. São Paulo é responsável pela vacina do Instituto Butantan, que está salvando milhões de vidas no Brasil. De cada dez vacinas que são aplicadas no Brasil, nove são do Butantan. Se nós não tivéssemos feito a vacina aqui no Butantan, o Brasil hoje não estaria vacinando e salvando vidas de profissionais de saúde, de trabalhadores de saúde, pessoas com mais de 75 anos, indígenas, quilombolas e caboclos que vivem principalmente na região Norte do país. Então, estamos muito satisfeitos de podermos ajudar a salvar vidas. Mas todos os governadores têm contribuído neste sentido. Qual a previsão de produção daqui para frente do Instituto Butantan? Qual a proporção que isso vai ter para a imunização do país e qual o balanço que o senhor recebeu dessa vacina com relação à segurança?

Nós temos o compromisso de entrega para o Ministério da Saúde de 100 milhões de doses da vacina do Butantan. Deste total, 46 milhões serão entregues até o próximo mês de abril e 54 milhões entre maio e setembro deste ano. O Estado de São Paulo tem feito um programa de vacinação muito intenso e, assim como o Rio Grande do Norte, começamos a vacinação agora, no dia 17 de janeiro. Comemoraremos um mês de vacinação e, aqui em São Paulo, na quinta-feira (11/02), tínhamos um milhão e 204 mil brasileiros vacinados, principalmente profissionais e trabalhadores de saúde; todos os quilombolas e indígenas que vivem principalmente na região Sul aqui do Estado já vacinados; todos os idosos com mais de 90 anos, igualmente já vacinados; quase todos os idosos acima de 85 anos; e agora começamos (dia 12) idosos com mais de 80 anos. Fala-se muito que a vacina vai proporcionar a retomada da economia, mas uma avaliação geral que se tem no país é que a vacinação, apesar de já ter começado, ainda não está no ritmo adequado. Como o senhor vê essa questão e a possibilidade de retomada econômica a partir da

GOVERNO DE SÃO PAULO

'Precisamos somar para salvar o Brasil do desastre do governo Bolsonaro’ « RUMO A 2022 » Doria defende diálogo que

inclua os diversos partidos e líderes interessados em “um projeto que não seja negacionista”

Nós temos o compromisso de entrega para o Ministério da Saúde de 100 milhões de doses da vacina do Butantan. Deste total, 46 milhões serão entregues até o próximo mês de abril e 54 milhões entre maio e setembro deste ano.”

vacinação?

É fundamental. Sem a vacinação dos brasileiros a economia não vai se recuperar na plenitude. A retomada econômica depende da vacina. Agora, o Ministério da Saúde tem de providenciar mais vacinas. O Brasil hoje tem vacinas, porque o Butantan e o Governo de São Paulo fizeram esforço e investimento para isso. Originalmente, o Ministério da Saúde sequer considerava a hipótese de ter a Coronavac, a vacina do Butantan, entre as suas opções. Mas nós fomos perseverantes e determinados. Todos acompanharam bem isso. E nós fizemos o que tínhamos de fazer. Hoje nós temos, em solo brasileiro, 27 milhões e 100 mil doses da vacina do Butantan. Nós precisamos vacinar mais e, para isso, necessitamos de mais vacinas e que o Ministério da Saúde adquira outras vacinas também. Precisamos que a vacina da AstraZeneca-Oxford chegue na quantidade desejada. Duas milhões de doses chegaram (da AstraZeneca-Oxford, adquiridas pelo Governo Federal). Isso é muito pouco. Não imuniza praticamente nada no Brasil, que tem menos de 3% da população imunizada neste momento. Uma imunização que vai a passos lentos. Então, o Governo Federal, através do Ministério da Saúde, deve providenciar mais vacinas, da AstraZeneca, da Pfizer-BioNTech, da Moderna, da Janssen e a Sputnik. Ou seja, aumentar o portfólio de vacinas para ampliar o número de brasileiros imunizados mais rapi-

damente. É isso que vai trazer a normalidade, recuperar a economia definitivamente e trazer de novo a alegria de viver aos brasileiros. Uma discussão politizada sobre a vacinação prejudicou o andamento da política de imunização no país? Há avaliações de que houve politização não só por parte do presidente, mas também por parte do Governo de São Paulo... Como o senhor avalia a condução dessas discussões?

Quem politizou foi o presidente Bolsonaro. Não fui eu quem disse que era uma "gripezinha", um "resfriadozinho". Não fui eu quem disse que menos de quatro mil pessoas iriam morrer com a covid-19, como se quatro mil vidas não fossem importantes. Nunca ando sem máscaras. Sempre uso máscaras. Eu não promovo aglomerações. O presidente Bolsonaro promove aglomerações. Eu não distribuo cloroquina para a população de São Paulo, nem invisto dinheiro em cloroquina. O presidente Bolsonaro, ao invés de investir em vacinas, investiu em cloroquina, um medicamento que não tem comprovação científica de efeito preventivo para a covid19. Portanto, não foi aqui que politizamos. Foi em Brasília com o presidente Bolsonaro. Mas a sua insistência ideológica contra a China, contra a vacina e pessoalmente contra mim. E foi graças à minha determinação, como governador de São Paulo, que temos hoje uma vacina no Brasil. Se eu fosse aceitar as intimidações do presidente Bolsonaro, as ameaças que fez, a desautorização que fez publicamente ao seu ministro da Saúde (Eduardo Pazuello), quando o ministro corretamente orientou o Ministério para comprar a vacina do Butantan e no dia seguinte o presidente desautorizou e disse que quem mandava era ele e ponto... E mandou cancelar o contrato de compra da vacina do Butantan... Isso foi em 20 de outubro do ano passado. O Brasil podia estar vacinando desde novembro. Não fosse o negacionismo do presidente Bolsonaro, milhares de vidas poderiam ter sido salvas. Nós iniciamos a vacinação agora, em 17 de janeiro, porque tínhamos a vacina do Butantan. caso contrário não teríamos vacinado sequer um brasileiro. Poderíamos ter feito isso em novembro, dezembro, janeiro, três

meses e meio já de vacinação. Estamos agora com poucos dias para comemorar o primeiro mês de vacinação no Brasil. Desculpe, mas quem fez essa politização foi Jair Messias Bolsonaro e a sua ideologia tacanha e o seu posicionamento negacionista. Como o senhor avalia a crise política interna no PSDB, depois que o senhor defendeu a expulsão de Aécio Neves do partido? E agora o governador do Rio Grande do Sul tem se colocado contra o senhor? Como anda o diálogo com Rodrigo Maia e Mandetta para uma composição política?

O diálogo com Rodrigo Maia e Luiz Henrique Mandetta é o melhor possível. Somos amigos e mantemos diálogo constante e muito frutífero. Eu convidei inclusive o Rodrigo Maia, ofereci a ele a possibilidade de se filiar ao PSDB. Se ele assim entender, nos próximos dias deve tomar a sua decisão. Vai se desfiliar do DEM e disse isso publicamente. Ele tem duas opções partidárias e uma delas é o PSDB. Luiz Henrique Mandetta, se desejar vir para o PSDB, será bem-vindo também, um grande quadro da política, um grande quadro da Medicina também. Em relação ao PSDB, o governador Eduardo Leite, do Estado do Rio Grande do Sul, é um jovem de bom valor, um rapaz correto, com boa postura, tem um longo período ainda pela frente para cumprir, e tenho um enorme respeito por ele. Já o Aécio Neves não tenho respeito por ele, frustrou mais de 58 milhões de votos dos brasileiros com aquele espetáculo grotesco de pedido de propina ao Joesley Batista da JBS, que levou inclusive ao processo que ele está respondendo na Justiça para provar se é culpado ou se é inocente. E repetiu um ato nocivo quando liderou uma bancada de 12 deputados para votar no candidato de Jair Bolsonaro a presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), quando das eleições ali promovidas. Ele traiu o PSDB ao se aliar com Jair Bolsonaro. Quem vota em Arthur Lira, candidato do Palácio do Planalto, é bolsonarista, porque defende as posições de Bolsonaro ou atende às conveniências de Bolsonaro. E eu tenho posição distinta. Tenho posição e tenho lado. O meu lado é do PSDB, que é de oposição a um governo negacionista e de incompetência notória, como é o governo Bolsonaro. Minha posição é muito clara, eu não tenho problema de falar as coisas que precisam ser faladas, não me intimido com ameaças, nem com agressões. Fui ameaçado muitas vezes aqui em São Paulo, desde que fizemos a quarentena, por bolsonaristas e extremistas de toda ordem. Então isso não me intimida. Continuarei mantendo minha posição. Então, que Aécio Neves encontre um outro partido, onde ele pode fazer vassalagem a Bolsonaro e não dentro do PSDB.

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Continuação da entrevista com o governador João Doria.


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Natal • Rio Grande do Norte Domingo, 14 de fevereiro de 2021

geral

»ENTREVISTA » JOÃO D0RIA GOVERNADOR DE SÃO PAULO

Governador, como acha que devem ser as alianças do PSDB em 2022? Haveria espaço para o PT? Ou apenas para os partidos de centro ou de direita?

GOVERNO DE SÃO PAULO

Essa é uma aliança pelo Brasil. Nós temos de somar forças para que o Brasil possa ter um projeto e uma proposta que não seja negacionista, que valorize a educação, que valorize a cultura, que proteja o meio ambiente, que respeite a democracia, que respeite os veículos de comunicação, que tenha um sentimento integrador na sua política internacional, que respeite a diversidade em torno de um grande Brasil. E há perfeitamente espaço para o PT. Eu respeito o Partido dos Trabalhadores e há figuras exemplares, que o representam no Legislativo e no Executivo. Não podemos discriminar aqueles que pretendem apoiar um projeto pelo Brasil, mas longe dos extremos.

O senhor apoiou Jair Bolsonaro em 2018 e hoje é um opositor. O que mudou? Considera que por tudo que vem acontecendo no Brasil com a pandemia é motivo para impeachment do presidente?

Quem citaria entre essas figuras exemplares? O senhor já fez críticas enfáticas ao ex-presidente Lula...

Fiz e se justificam inclusive. Mas vou dar exemplos de governadores que são do PT e fazem um trabalho com muita dignidade e com muita decência: a governadora Fátima Bezerra (PT) faz um trabalho que eu reputo dedicado, empenhado; o governador do PT no Estado do Piauí, Wellington Dias, também faz um trabalho com muita dedicação de proteção ao seu povo; outro que foi parlamentar do Nordeste, agora governador do Estado do Maranhão, Flávio Dino, embora não seja do PT, é do PC do B, um partido à esquerda também, mas um homem com dignidade e com princípios, tem postura na defesa do povo do seu Estado. Nós precisamos ter a capacidade de somar com pessoas como essas e tantas outras que têm bom sentimento e capacidade de diálogo. E repito, ficarmos longe dos extremos, tanto da extrema-esquerda como da extrema-direita. Os extremos

não querem diálogo. Os extremos querem impor as suas posições, sejam extremistas de esquerda, sejam extremistas de direita. E a minha posição, que fique clara, é a posição de centro. Eu não sou nem de centro-direita e nem de centro-esquerda. Minha posição é de centro-liberal, que entende e compreende a importância do diálogo, com aqueles que estão mais à esquerda e mais à direita, pelo Brasil. Nós precisamos somar forças para salvar o Brasil e os brasileiros do desastre do governo Bolsonaro, que quase levou o Brasil à bancarrota e já é responsável por uma situação trágica, diante de uma pandemia com muitas vidas que poderiam ter sido salvas e, lamentavelmente, por negacionismo, se foram.

‘Não podemos discriminar quem apoiar um projeto pelo Brasil’ « RUMO A 2022 » Doria afirma que, no diálogo

por uma aliança em busca de uma proposta para o país, só os extremistas não devem ter espaço

Sobre o impeachment, essa decisão e essa avaliação devem ser do Congresso Nacional. Sobre Bolsonaro em 2018, eu não tenho compromisso com erro. Errei, não devia ter votado em Bolsonaro. Devia ter anulado o meu voto. Nunca anulei um voto na vida, mas deveria ter anulado o voto [em 2018]. Não votaria em Fernando Haddad. Venci Fernando Haddad quando da disputa para a prefeitura de São Paulo, em 2016. E Fernando Haddad era prefeito, com apoio do expresidente Lula, aliás no auge do prestígio do ex-presidente. E Fernando Haddad perdeu as eleições para mim e no primeiro turno. Então, não tinha a menor possibilidade de, dois anos depois, endereçar o meu voto a Fernando Haddad. Ele merece respeito, diga-se de passagem. Foi um bom adversário na campanha. Não fez uma campanha suja. Fez uma campanha limpa, mas, evidentemente, as nossas opiniões são distintas. Mas é uma pessoa que respeito. Agora, Jair Bolso-

devem participar desse diálogo e devem participar desse debate, sem exclusões.

A governadora Fátima Bezerra faz um trabalho que eu reputo dedicado, empenhado; o governador do PT no Estado do Piauí, Wellington Dias, também faz um trabalho com muita dedicação de proteção ao seu povo.”

naro é um erro. Não tenho compromisso com erro. Por ter errado uma vez, não vou me perpetuar no erro. Certamente, milhões de outros brasileiros cometeram esse erro. O senhor é candidato em 2022 à Presidência da República?

Não é hora de tratar de candidaturas. Quero continuar sendo um bom governador do Estado de São Paulo. Um governador que trata da vida e da proteção das pessoas, que acredita e investe na vacina, que protege a todos que defendem a democracia, que acredita que nós temos de diminuir as diferenças sociais. É o que nós estamos fazendo aqui em São Paulo. Agora é a hora da saúde. Dos nomes que são cogitados, quem considera que não pode ser candidato a presidente da República. Ou que não merece o apoio de uma aliança de centro para ser candidato a presidente?

Não é o caso de falar sobre exclusões. É caso de falar sobre inclusões. Todos que quiserem ajudar no projeto pelo Brasil,

Quais são os nomes que devem estar na discussão desse projeto?

Todos que defendem a democracia, a liberdade, os princípios do diálogo, que aceitam o contraditório e que lutam pelo Brasil, lutam verdadeiramente pelo Brasil. Patriotas de fato, não patriotas de fachadas. Qual o projeto que o senhor defende para o país e, principalmente, do ponto de vista de uma política econômica, que o senhor acha importante para a retomada do desenvolvimento do país?

Uma política econômica claramente liberal, de desestatização, menos estado e mais da iniciativa privada. Nós precisamos ter um governo aberto ao investimento privado, seja nacional, seja multinacional, e concentrar as ações de governo naquilo onde é essencial para as políticas de saúde, educação, segurança pública e atendimento social, além de gerar empregos, que são fundamentalmente gerados pelo setor privado. Nesse contexto, o senhor acha que foi importante aprovar a autonomia do Banco Central?

Sim, defendo a aprovação da autonomia do Banco Central. Eu não farei oposição por oposição, pelo simples fato de que o governo que aí está, um governo fracassado... Se tiver alguma medida que seja construtiva como essa que o Congresso Nacional votou, eu apoiarei, como manifestei meu apoio à autonomia do Banco Central. Essa é uma visão que considero liberal e importante. Eu defendia isso no passado. Aliás, está trabalhando conosco no governo de São Paulo, o ex-presidente do Banco Central, que já defendeu a autonomia, enquanto lá esteve e depois também o fez quando foi ministro da Fazenda, que é o Henrique Meirelles, que hoje é secretário da Fazenda do Estado de São Paulo.


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Ano 70 • Número 283 • Domingo • 28 de fevereiro de 2021

FUNDADOR: ALUÍZIO ALVES - 1921 - 2006

FILME

EX CL U SI V O ROSINEI COUTINHO/SCO/STF

GILMAR MENDES MINISTRO DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL

“Estamos todos diante de um imenso escândalo” « VAZA JATO » “Conversa de procuradores ou é conversa do PCC?” A pergunta é do ministro Gilmar Mendes, referindo-se a diálogos da Lava Jato, agora revelados. Nesta entrevista, ele analisa o caso, critica o uso político da operação e avalia que sentenças poderão ser anuladas. “Seria mais digno, se dissessem: ‘nós estávamos drogados’”, aponta, sobre a atual postura dos procuradores, a quem chama de "tiranetes". « PÁGINAS 3 A 5 » ALEX RÉGIS

Com 20 anos de cinema, Débora Falabella lança 'Depois a Louca Sou Eu'. « TNFAMÍLIA 4 »

ARQUIVO

COPA DO BR

Grêmio e Palmeiras começam a decisão com jogo às 21h na arena gremista. « ESPORTES 3 »

ESTADUAL

Evaristo Piza quer América com outra atitude diante do Santa Cruz. « ESPORTES 1 » CANINDÉ PEREIRA

NA RUA, PARA TER MAIS SAÚDE « NA ATIVIDADE » Mais do que nunca, fazer exercícios ao ar livre - de dia ou de noite - se tornou o único programa possível. Com uso de máscara e distanciamento, ir pra rua fazer algum esporte, além de saudável para o corpo, é ótimo para a mente. « TNFAMÍLIA 1 »

Sem auxílio, o risco de uma catástrofe social Quase dois meses após o fim do auxílio emergencial, a TN mostra como está a vida de pessoas que dependiam do pagamento. Para o doutor em Administração e analista do IBGE/RN, André Luís Nogueira da Silva, “estamos na iminência de uma catástrofe social”. « NATAL 1 E 2 »

GUIA

SAÚDE

ORÇAMENTO

Tudo o que você precisa saber sobre o Imposto de Renda 2021

UFRN consegue patentear um protetor de quadril inovador

Presidente da Câmara convoca os governadores para discutir OGU

Prazo para apresentação da declaração do IRPF 2021, começa amanhã (1º) e restituições começam a ser pagas em maio. Veja tudo o que mudou. « ECONOMIA 1 E 2 »

Pesquisadores na UFRN conseguem a patente de um protetor de quadril que atua na prevenção de fraturas e na redução da severidade de lesões. « NATAL 3 »

Arthur Lira afirma que vai chamar os governos estaduais para que apresentem sugestões emergenciais ao enfrentamento dos efeitos da pandemia. « PÁGINA 7 »

ALEX MEDEIROS

Na coluna de número 500, tudo sobre o Globo de Ouro 2021. « NATAL 3 »

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Xico Santeiro, “ícone da cultura popular do Estado”. « PÁGINA 2 »

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Confronto Álvaro versus Fátima pode ser inevitável em 2022. « PÁGINA 3 » NO FACEBOOK

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Natal • Rio Grande do Norte Domingo, 28 de fevereiro de 2021

política

»ENTREVISTA » GILMAR MENDES

Cena Urbana VICENTE SEREJO SEREJO@TERRA.COM.BR

MINISTRO DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL

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EVERTON DANTAS Diretor de Redação

ALDEMAR FREIRE Editor de Política

O

O eu da crônica Não faz tanto tempo: tratei aqui do uso do artifício autobiográfico como forma de escrever sobre as grandezas e misérias dos outros. De algum modo, tentei justificar o ‘eu’ que de vez em quando é inevitável na crônica. Mesmo quando, antes, se passa pelo curso de jornalismo e a boa escola da redação, sempre ouvindo que a primeira pessoa pertence a quem declara e não àquele que ouve, anota ou grava as declarações das fontes. É assim, sem dúvida, até se ser cronista. Tanto era verdade o que disse que, agora, a pretexto de escrever sobre a sua presença na Folha de S. Paulo, em três tempos diferentes e intercalados, Ruy Castro acabou contando qual foi a condição de Otávio Frias Filho para fazê-lo colunista: “Escreva sobre o que quiser, mas de um ponto de vista pessoal”. Nascia o cronista que foi repórter, redator, biógrafo, vitorioso em tudo, e sempre garantindo a voz exclusiva do declarante. Mas, nas páginas da Folha, não mais. Os cronistas sempre sofrem a intolerância de um pobre vezo ou de falsa concepção da importância do confessional nas páginas dos jornais. Como se a crônica já não tivesse nascido assim. Daí ser comum o resmungo dos que se deixam condenar pelo eu narrador e esquecem a narrativa. Vale a história, esteja narrada ou não na primeira pessoa. Muitas vezes, é para salvar o gosto amargo, se por acaso parecer agressão. Eles, os leitores, que puxem ou não as carapuças. Bem humorado e dono de um texto primoroso, Ruy Castro confessa que já escreveu para todo tipo de veículo: “jornal, revista, livro, rádio, televisão, teatro, filme, disco infantil, letra de música, encarte de CD, catálogo de artista plástico, agenda, anuário, anúncio, discurso e, pode crer, aviso de falecimento pra ser distribuído na esquina.”. Só faltava bula de remédio, mas um dia seu próprio dentista pediu para ajudá-lo a descrever um novo procedimento a ser lançado.

Não estou, nem delirando, no time de Ruy Castro, mas acredite: percorri toda a relação de Ruy, exceto bula de remédio. Cheguei perto. Quando meu sogro, Dr. Omar Lopes Cardoso, farmacêutico, pensou em lançar um creme de barbear para alérgicos. Nem sempre o leitor quer saber o que é viver do exercício da palavra, para lembrar o título do livro de Zila Mamede. Nem sempre o redator profissional pode escolher o assunto, os elogios ou os desaforos. Nem sempre. Ruy Castro disse que ainda resistiu no primeiro dia. Antes, nunca tinha sido cronista e achou ser fácil o confessional sem cair na primeira pessoa. Conseguiu nos dois primeiros dias. Logo depois, o ‘eu’ venceu e vive até hoje se intrometendo. Da rendição, ficou um belo serviço à crônica. E é ele, Ruy Castro, no estilo simples e genial, quem confessa a lição que aprendeu como cronista: “A Folha me revelou que, por trás da bic ou do teclado, pode bater um coração”.

e e e PALCO e e e AVISO - Os dias silenciosos e dis-

cretos da pandemia vão construindo, pouco a pouco, no olho político das raposas, a suspeita de que o confronto Álvaro versus Fátima será inevitável em 2022.

ALIÁS - É como o deputado Ezequiel Ferreira: nada fascina mais a ele do que presidir o Poder Legislativo por mais quatro anos. Ele sabe que hoje é ‘o melhor e mais rico governo’ do Estado.

MACHO - Nas revistas e nas re-

JOGO - O Centro de Direitos Hu-

COMBATE - Esta coluna avisou

que mesmo com seu diploma na mão não será fácil a luta do quase deputado Fernando Mineiro para assumir o mandato. Na côrte a luta é surta e contundente.

RISCO - Ninguém pode negar ao Centro dos Direitos Humanos o direito nas homenagens, mas não deixa de fazer de Luís uma propriedade da esquerda quando é maior que o campo ideológico.

SENADO - Quem acompanha de

MÁSCARA - De Nino, o filóso-

des, o novo tipo de machão: o Macho Ornamental. O modelo foi fundado por Donald Trump, nos EUA, e já tem no Brasil, com Jair Bolsonaro. Um clone perfeito.

perto a movimentação política do ministro Rogério Marinho, aqui e em Brasília, atesta: deseja ser senador e só disputa o governo com chance total de vencer.

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manos partiu na frente, em silêncio, e garantiu o domínio dos direitos autorais das biografias de Luiz Maranhão ao longo de todo 2021, o ano do seu centenário.

fo melancólico do Beco da Lama, mirando bem calmo a máscara das mulheres que passam: “Afasta a peste e revela a eloquência misteriosa dos olhos que falam’.

e e e CAMARIM e e e VIDA - O historiador Cláudio Galvão partiu para preencher uma das maiores dívidas intelectuais do Estado: a biografia de Antônio Pinto de Medeiros. Como professor, jornalista e o maior e mais mordaz crítico literário do seu tempo. O centenário de Antônio Pinto, 2019, passou em branco. VALOR - Doutor em história e pesquisador meticuloso no

apuro e confronto de dados, Cláudio teve o cuidado de copiar a coluna ‘Santo Ofício’, de Antônio Pinto, uma leitura referencial dos anos cinquenta e a quem coube o pioneirismo de lançar Zila Mamede e seu livro ‘Rosa de Pedra’.

TOQUE - Na entrevista a Alex Gurgel e Lívio Oliveira, publicada originalmente na revista ‘Papangu’, quando este cronista tinha o velho dom da crônica lírica e foi instigado a responder sobre o grande segredo para penetrar a alma feminina: “É bater antes de entrar. Com a palavra”.

ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes afirma que havia uma ideia na força-tarefa da Lava Jato de exercer poder por intermédio da perseguição que tinham oportunidade de fazer com a operação que conduziam. “Havia uma ideia talvez de se fazer política via perseguição criminal”, afirmou o ministro, nesta entrevista exclusiva à TRIBUNA DO NORTE. Ele faz críticas enfáticas aos integrantes da Lava Jato, que foi recentemente desarticulada pelo atual procurador-geral da República, Augusto Aras. Para o ministro, as mensagens que revelaram conversas entre os procuradores e o o ex-juiz Sérgio Moro mostram uma atuaçãoqueprecisaserinvestigada. “O conteúdo das mensagens às vezes dão asco. A ideia, por exemplo, de transferir alguém para um presídio, para que fale ou delate; de alongar a prisão. Veja essa delegada que teria falsificado depoimento. O que isso significa? Conversa de procuradores ou é conversa de gente do PCC? Tudo isso é muito chocante”, destacou. Gilmar Mendes defende a atuação do Supremo e afirma que a imunidade parlamentar não é ilimitada ao ponto de permitir que um deputado defenda o fechamento de um tribunal superior. Apesar das dificuldades e desafios, o ministro confia nas potencialidades nacionais. “O país tem um potencial enorme, tem respondido a inúmeras demandas e espero que nós sejamos dignos do próprio passado que tivemos e que saibamos de fato desenvolver, crescer e integrar as pessoas.” O Supremo Tribunal Federal (STF) completa 130 anos no dia 28 deste mês. Qual é a avaliação que o senhor faz do STF neste momento do país e o papel que a instituição deve exercer na atual conjuntura?

Eu tenho a impressão de que o Supremo Tribunal cumpre um papel importante. Se olharmos nos últimos 35 anos, o Tribunal tem sido protagonista desse período de grande instabilidade institucional. Este é o mais longo período de normalidade institucional da vida republicana, que começou em 1889. O Tribunal tem contribuído para arbitragens de conflitos, para pacificação de desinteligências e, certamente, a história vai julgar várias decisões. Mas se olharmos o conjunto da obra, o STF tem sido muito importante na construção desse ambiente de relativa paz institucional. A atual Constituição está entre a mais longeva do período republicano. A Constituição de 1988, se considerarmos as peripécias que marcaram as outras, até elas serem totalmente derrogadas... Acho que esse é um papel importante [preservar a estabilidade institucional]. Se olharmos o papel do Supremo na história, também acho que é um papel relevante. É uma das Cortes Constitucionais mais longevas. Claro que enfrentou momentos de grande turbulência na Primeira República. Na chamada República Velha, como também durante o Regime Militar (1964-1985) em que o Tribunal, inclusive, teve modificação na sua composição, porque houve cassação de ministros. Em suma, são períodos turbulentos da nossa história e o Tribunal não ficaria imune a esses ataques. Agora, mais recentemente (2019 e 2020), viram o papel que o Tribunal desempenhou com relação àqueles ataques que faziam e os momentos que vivemos, os inquéritos das fake news e dos antidemocráticos? Eles fizeram uma inflexão naquele movimento que se desenhava e, ao que me parece, o Tribunal foi

Sobre a Laja Jato: 'Havia ideia de fazer política via perseguição’ « JUDICIÁRIO » Gilmar Mendes faz críticas

enfáticas à Lava Jato e afirma que é preciso aprofundar as investigações sobre a força-tarefa

O conteúdo das mensagens às vezes dão asco. A ideia, por exemplo, de transferir alguém para um presídio, para que fale ou delate. Veja essa delegada que teria falsificado depoimento. O que isso significa? Conversa de procuradores ou de gente do PCC?”

A política continuará a ter virtudes e defeitos. Os defeitos têm de ser combatidos, mas dentro de um quadro de normalidade, afirmando-se que, sem política e sem políticos, nós não temos democracia.”

muito bem sucedido nessa operação. Quem acompanhou a atuação do STF percebeu mudanças significativas nos últimos anos, com o Tribunal de forma mais protagonista. Como o senhor vê o equilíbrio das relações entre os Poderes Executivo, Legislativo e Judi-

ciário nesta circunstância? Houve momentos de tensão recentes. Considera que há um protagonismo excessivo do Judiciário?

Tenho a impressão de que cada momento possui a sua história. Nós tivemos um momento de muito debilitamento e enfraquecimento do poder político como um todo e se cobrava muito do Judiciário um certo protagonismo. Por outro lado, temos momentos nos quais o Tribunal passa a ser cobrado por conta de omissões administrativas ou legislativas. Então, cada momento deve ser devidamente fotografado e focado. Se a gente olhar os tempos mais recentes, vamos perceber que o Tribunal quase que se tornou, de alguma forma, o cogestor da política sanitária, arbitrando conflitos até ajudando governo a resolver algumas pendengas e pendências que havia, liberando de injunções que a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) estabelece. E também arbitrando conflitos federativos que se instalavam, muitas vezes dizendo que a União não pode requisitar respiradores já comprados pelos estados ou dizendo que a União não podia liberar atividades ou serviços, se estados e municípios estavam adotando o isolamento social. Mais recentemente ainda a questão da obrigatoriedade das vacinas, decidida com o ministro Lewandowski, e que depois teve uma série de desdobramentos. Mas nós precisamos ter, de qualquer forma, e eu entendo a pergunta, muito cuidado com esse protagonismo. Devemos ter a noção da divisão de Poderes e a noção de que o sistema constitucional defere, ao Poder Legislativo, o poder de legislar; ao Poder Executivo, as iniciativas de muitas leis e também o poder de administrar; e a nossa atividade deve ser uma atividade, eventualmente, complementar e corretiva. A legitimação democrática densa está com os Poderes Executivo e Legislativo. Nós devemos ter essa percepção. Qual o risco que o país corre,

quando o Judiciário, e mais especificamente o STF, é atacado como foi pelo deputado Daniel Silveira (PSL-RJ)?

O que aconteceu no Brasil, para gente iluminar um pouco esse fenômeno? Houve um tal enfraquecimento e debilitamento do sistema político, e talvez agora fique mais claro, sobretudo se olharmos as revelações que vêm sendo feitas com relação à Lava Jato ou pela Lava Jato 2... Essas novas revelações... Havia uma ideia talvez de se fazer política via perseguição criminal. Isso resultou em quê? No esfacelamento do sistema político tradicional e facilitou a eleição do presidente Bolsonaro, com esse discurso da antipolítica e também de figuras como este deputado, que atacava as instituições. Veja, é até um discurso muito curioso, porque defendem o AI-5, que fechou o Congresso Nacional, que permitia a cassação de deputados, que permitiu censura à imprensa, que permitiu aposentadorias de ministros do Supremo. [Agora] Defendiam o fechamento do Supremo. Qual é a proposta concreta? A rigor, nada. Veja que o próprio presidente da República, depois de eleito, teve imensas dificuldades de se entender com o seu partido. Acabou saindo [da legenda pela qual foi eleito, o PSL]. Quer dizer, ele percebeu que, entre aqueles 55 parlamentares, não teria talvez um time. Foi buscar apoio depois em outras forças. Acabou fazendo agora essa combinação com o Centrão. Então, nós vivemos um momento muito curioso após aquele transe de 2018. Isso se fez de que forma? Com um grupamento de promotores e juízes e aliança com a mídia. É preciso dizer isto e sempre tenho chamado a atenção dos seus colegas responsáveis por isso. A mídia de alguma forma foi aliada desse modelo, que se imaginava estar renovando o Brasil. Hoje estamos aprendendo que no fundo era uns tiranetes, sujeitos que tinham pouca visão da democracia, pouco compromisso com o Direito e, certamente, muito interesse no seu próprio empoderamento. O conteúdo das mensagens às vezes dão asco. A ideia, por exemplo, de transferir alguém para um presídio, para que fale ou delate; de alongar a prisão. Veja, essa delegada que teria falsificado depoimento. O que isso significa? Conversa de procuradores ou é conversa de gente do PCC? Tudo isso é muito chocante. Fazer cooperação internacional com os procuradores americanos ou suíços, porque assim o dinheiro vem? O que isso significa? Mas se deu a ideia de que essa gente poderia estabelecer quais eram as regras, como deveríamos interpretar a Constituição. O massacre — para falar de alguém que vocês conhecem bem — a que submeteram o Marcelo Navarro [ministro do Superior Tribunal de Justiça], que é oriundo do Rio Grande do Norte, tanto que ele deixou de integrar a turma criminal, que era para onde fora designado. Isso tem a ver com algum tipo de padrão civilizatório? Ou indica, na verdade, um nazifascismo? Isso precisa ser olhado com muito cuidado. E essa gente é que estava alimentando a chamada nova política, vazando depoimentos para influenciar no processo eleitoral. Tudo isso que os senhores conhecem e nós estamos fazendo a revisão disto. A política continuará a ter virtudes e defeitos. Os defeitos têm de ser combatidos, mas dentro de um quadro de normalidade, afirmando-se que, sem política e sem políticos, nós não temos democracia.

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Continuação da entrevista com o ministro do Supremo Tribunal Federal.


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Natal • Rio Grande do Norte Domingo, 28 de fevereiro de 2021

geral

»ENTREVISTA » GILMAR MENDES MINISTRO DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERALS

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O senhor considera que a forçatarefa da Lava Jato agiu de forma organizada e deliberada contra a lei? Foi caso de crime organizado?

Eu não sei em que momento isso degenera. Acho que faltou organização. Isso tem de ser olhado. Faltou supervisão. Faltou gerenciamento. A Procuradoria, naquele momento, era dirigida, se é possível dizer isso, pelo procurador-geral Janot. Ele é aquele personagem que, no livro de memórias, disse que teria ido ao Palácio da Alvorada para se encontrar com a presidente Dilma Rousseff e estava tão embriagado que se perdeu entre as árvores. E costumava dizer que, a partir das 15h30 já estava embriagado. Como é que uma pessoa dessa dirige o Ministério Público? O que a gente nota é uma ausência de supervisão nesse quadro. Quais foram os desígnios? Quais foram os propósitos? Até com relação ao senhor ele deu declarações no livro [Afirmou que teve vontade de atirar no ministro Gilmar Mendes]?

É isso. Veja, é esse tipo de personagem. A mídia tem falado muito pouco disto. Mas, certamente, é um dos grandes responsáveis por esse quadro de caos que instalamos no país. Talvez, até graças à sua ausência, também não sei se a sua presença ajudaria. Mas o fato é que nós vivemos um quadro teratológico. Escolhido pela corporação como o mais votado, que critérios a própria corporação desenvolve? Veja que não havia mais o que descer na escala das degradações. Isto é impressionante. Mas o fato é que independentemente do que dissermos aqui, isso vai ficar para os historiadores: Em que momento esta força poderia ser boa e se transmudou em algo extremamente maléfico? Não pode haver, no Estado de Direito, um jogo combinado de promotores e juízes. Isso é meio óbvio. E nós tivemos algo mais: a conformação de procuradores, de juízes, de delegados, de pessoal da Receita Federal, tudo em uma mesma força e, eventualmente, tudo sobre o mesmo comando. Tudo isto é extremamente preocupante. É bom saber disto, para que a gente não deixe reproduzir, porque isto é um perigo para o sistema democrático como um todo. E no caso, criavase uma unanimidade, porque os principais órgãos de imprensa também davam apoio e validavam práticas absolutamente heterodoxas, de modo que me parece hoje que se presta um grande serviço ao se saber e ao se difundir isto. A defesa do Lula tenta trazer isso aos autos. É importante ler com muita atenção esses documentos, porque independentemente da sua prestabilidade como prova judicial, nos ajudam a entender o que se passou no Brasil e eu sempre tenho dito: Temos que nos perguntar: O que nós fizemos de errado para produzir personagens como esses, com pensamentos tão tacanhos, tão mesquinhos em relação ao Direito, pessoas tão egocêntricas, sem nenhum compromisso com aquilo que está no texto constitucional? Precisamos refletir muito sobre isto e fazer as correções devidas. No caso desse depoimento apontado como forjado por uma delegada. Qual prejuízo para a imagem que a Justiça brasileira?

É imenso e até já propus que a Lei de Abuso de Autoridade recebesse o nome “Lei Cancellier”, em referência ex-reitor de Santa Catarina [que foi acusado e cometeu suicídio]. Desde o começo, tenho dito que este é um caso vergonhoso. Agora se comprova de maneira muito mais grave, que forjaram provas. A que ponto chegaram as pessoas

Esse processo do pedido de reconhecimento da suspeição do ex-juiz Sérgio Moro, com relação ao caso do ex-presidente Lula sobre o triplex, tem previsão de quando entra em pauta no Supremo?

Acho que antes do fim deste primeiro semestre a gente julgue esse caso. Está em discussão na Câmara dos Deputados uma emenda constitucional com relação à imunidade parlamentar, que foi provocada exatamente por essa prisão do deputado Daniel Silveira. Como é que o senhor vê esse debate?

“Estamos diante de um imenso escândalo” « JUDICIÁRIO » Gilmar Mendes diz que diante das revelações sobre a Lava Jato

a constatação é de que se está diante de um escândalo de enormes proporções

O que nós fizemos de errado para produzir personagens como esses, com pensamentos tão tacanhos, tão mesquinhos em relação ao Direito, pessoas tão egocêntricas, sem nenhum compromisso com aquilo que está no texto constitucional?”

Essa é a maior crise da Justiça Criminal do Brasil. Tem que haver uma reformulação da Justiça Federal, porque, realmente, está sob péssimas luzes.”

Diziam: “Essa decisão não pode ser tomada, porque contraria a Lava Jato”, que virou um tipo de Santíssima Trindade. E, de santos, eles não tinham nada.”

que agirem assim. E qual a certeza de que vários inquéritos não foram feitos dessa maneira? Como confiar em instituições como a Polícia Federal ou Ministério Público diante disso? A fé pública que deles deveriam decorrer... Como acreditar nisso, se eles são capazes de proceder dessa maneira. E a defesa que fizeram até agora? Seriam mais dignos se dissessem [quem cometeu irregularidade tão grave]: “Nós estávamos todos drogados. A partir de uma determinada hora, nós estávamos anestesiados”. Deviam pedir desculpas às pessoas e irem para casa, porque não são mais dignos de estarem nos locais onde estão. Como é que vão continuar denunciando pessoas? Mas, até agora, há um silêncio sepulcral. Por enquanto, usam uma associação. Mas, até agora, não vieram dizer, não. Isso precisa ser investigado. Nós queremos que isso seja esclarecido. Eu já disse em um julgamento: Ou nós estamos diante de um terreno ficcional, de um texto ficcional fantástico, ou diante de um imenso escândalo. Até talvez tenha exagerado, dizendo que é o maior escândalo judicial da humanidade. Mas, citando um jornalista americano, talvez o maior escândalo judicial da humanidade seja o julgamento de Cristo. Mas, de fato, estamos diante de um imenso escândalo, que enche todos de vergonha. Nós que estudamos no exterior, que encontramos amigos no exterior, que conversamos, escutamos: “Mas isso se passou no Brasil?”. E até agora nenhuma palavra para dizer: “Gente, desculpe, eu estava drogado, ou eu não fiz isto”. Ou para afirmar: “Os diálogos são forjados”. Então, digam onde é que estão forjados. Essa peça, por exemplo, da delegada. Está lá. A indicação dos fatos ligados a este famoso presidente do Coaf, Roberto Leonel, que fazia investigações sub-receptícias, na Receita Federal, é fácil de comprovar, basta ir nos computadores da Receita e verificar se, naquele dia, ele fez algum tipo de investigação e saber se ele fez indevidamente, porque não tinha autorização para fazer. Acho que vários órgãos estão sendo chamados a esclarecer esses fatos. Qual deve ser o encaminhamento possível? Abrir inquérito? Representação no Conselho do Mi-

nistério Público e no CNJ?

Tem alguns encaminhamentos no próprio CNMP. O STJ abriu inquérito tal como o STF tinha feito com base no artigo 43 do Regimento Interno. Então, essa matéria será discutida. Mas acho que precisa fazer mais. Esse assunto precisa ser discutido. Essas pessoas, que gozaram de tanta autonomia, têm de dar explicações. Estavam fazendo algo ilícito. Aparece em um dos diálogos que estavam atribuindo delações de um sujeito que tinha Mal de Alzheimer. Tudo isso é muito grave. Se alguém relatasse isso em um romance do Soljenítsin [autor russo que escreveu sobre o período totalitário soviético]... Mas isso foi próprio da União Soviética. É disso que estamos falando. A imprensa sabia ou não [dos problemas na Laja Jato]? Se sabia, é mais grave. Mas se não sabia, agora tem que divulgar isso. Tem que repudiar claramente, porque, do contrário, terão “roubado galinhas” junto com eles. Mas o Judiciário também não demorou a reagir?

Demorou, mas acho que tiveram reações. Estou tranquilo com relação ao Supremo Tribunal Federal, porque todos viram o meu posicionamento em relação a isto. Eu sempre falei das prisões alongadas de Curitiba (PR) e o Judiciário sofreu um massacre. Veja o que aconteceu com o STJ, que não concedia ordem nenhuma, era só um “locus de passagem”. O próprio Tribunal da 4ª Região peticiona judicialmente. Tem a correição. Precisa dizer algo sobre isto. Essa é a maior crise da Justiça Criminal do Brasil. Tem que haver uma reformulação da Justiça Federal, porque, realmente, está sob péssimas luzes. Há problemas, procuradores estavam designando juízes para substituir o Sérgio Moro. Como se permitiu? Agora, recentemente, falou-se que a juíza (Gabriela Hardt) que substituiu o Moro, copiava as sentenças. Agora, há muitos boatos sobre a tal força-tarefa do Rio de Janeiro, e o juiz titular da 7ª Vara. Tudo isso mostra que temos de tomar muito cuidado e temos que rever isto. Temos que denunciar e tomar providências. Vamos reorganizar o sistema para que isso não se repita, porque de fato nos enche de vergonha,

o que nós fizemos para permitir que esses tiranetes se instalassem e tivessem o poder de governar o país? Diziam: “Essa decisão não pode ser tomada, porque contraria a Lava Jato”, que virou um tipo de Santíssima Trindade. E, de santos, eles não tinham nada. A Lava Jato tem de ser levada ao banco dos réus?

Não sei dizer isso. Parece que só a exposição pública já traz dados, mas acho que temos de fazer uma investigação para que isso não mais se repita e para que a gente entenda como se cria, como se põe um grupo desses de tiranetes, chefiando uma operação dessa. Que tipo de escolha estamos produzindo, como é que estamos selecionando esses tipos, como é que a gente vai buscar essa gente na rua, passando por concursos públicos, dando treinamento, e produz isso. E pagando-se salários altíssimos, bem acima da média salarial do Brasil...

Inclusive com fraude ao contribuinte, porque traziam o sujeito, que morava em Curitiba, mas que estava lotado em São Paulo e nunca saiu de Curitiba e recebia diária, porque estava em Curitiba. Portanto, um festival de gastos. Mas sobretudo a violação do Direito de forma sistêmica, colocando em risco o sistema como um todo. Essa cooperação internacional fraudada... Eles dizem claramente: “Vamos lavar as provas, depois fazemos a sua introdução regular, mas vamos recebê-las antes”. Como fazer isso? O senhor acha que, por conta de tudo isso, algumas sentenças da Lava Jato correm riscos de anulação?

Certamente, haverá casos. Nos casos concretos, muitos serão encorajados a trazer discussão e lograrão talvez provar. Por exemplo, essas questões de cooperação internacional. Isso aparece até em um diálogo com o Vladimir Aras e o Deltan Dellagnol, em que Aras adverte que eles não poderiam usar provas que tinham sido passadas sem a cooperação internacional devida e ele: “Deixe que eu leve, eu sei o que estou fazendo”. Quer dizer, continua fazendo dessa maneira. Tudo isso precisa ser olhado e acho que de fato é uma crise muito séria.

Na verdade, não acredito que o Congresso Nacional, sobretudo a Câmara dos Deputados, esteja deliberando a propósito do Daniel Silveira. Acho que ele não é uma figura para o qual a Câmara fizesse uma missa. Não é o caso. Mas acho que é um contencioso, já que vem se acumulando na interpretação do flagrante da imunidade parlamentar. E o Congresso está usando isso como estopim para discutir esses e outros temas. Por exemplo, nós decidimos aqui, que a prerrogativa de foro não abrange os parlamentares cujos fatos ocorreram antes do mandato parlamentar . Então, já decidimos isso. Nesses casos, os processos voltam para o primeiro grau e, quando vão para o primeiro grau, temos tido um contencioso que a Câmara está tentando resolver. Um juiz de primeiro grau, imaginemos, do Rio Grande do Norte, manda fazer uma busca e apreensão no Congresso Nacional. Aconteceu isso com relação ao senador José Serra (PSDBSP). O processo desceu para o primeiro grau e o Ministério Público, possivelmente, pediu busca e apreensão. O juiz em São Paulo determinou. O presidente Davi Alcolumbre (DEM-AP) não deixou que se fizesse a busca e apreensão. Submetemos a decisão ao Supremo e não do primeiro grau. Portanto, a nossa interpretação sobre isso gerou esse tipo de polêmica e a emenda tenta resolver questões como essa. Mas esse caso do Daniel Silveira gerou uma discussão importante sobre o limite da imunidade parlamentar no aspecto da garantia da livre opinião dos deputados e senadores. Até onde vai esse limite de opinião do parlamentar? Há limite para a garantia da imunidade para votos e opinião?

Claro que há e a própria Constituição estabelece que existem esses limites, sim. Inclusive há abusos de prerrogativas que podem ocorrer e o próprio Congresso deve reprimir esses abusos. No caso específico, ele falava de fechar o Supremo, de espancar ministros e colocando isto na internet, até o momento que antecedeu a própria prisão. Então, o próprio flagrante está caracterizado e não há nenhuma dúvida com relação a isso. Tanto é que não houve voz dissonante no plenário do Supremo. E acho que tem de ter limites, sim, para que esse tipo de prerrogativa, porque é extremamente importante. Mas não podemos banalizar a prisão de deputados. Em 35 anos, tivemos dois casos de prisão em flagrante [de parlamentares], o de Delcídio, em que se falava em obstrução da Justiça continuada e este mais recente. Mas é preciso que haja uma clara delimitação e também que o autocontrole interno da Câmara dos Deputados e do Senado funcione, que a Comissão de Ética também funcione para colocar limites e reparos nos eventuais exageros que ocorram. PAGINA 5

Continuação da entrevista com o ministro do Supremo Tribunal Federal.


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política

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»ENTREVISTA » GILMAR MENDES MINISTRO DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL

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cisa ser olhado, não é normal.

Muitas vezes o STF recebe críticas quando concede habeas corpus e solta em casos de corrupção. Como recebe essas críticas?

Com tranquilidade. Nós devemos receber isso com naturalidade. Agora esse ambiente que se criou, principalmente essa crítica à concessão de habeas corpus, tem a ver com esse ideário do lavajatismo, que passou a permear a imprensa. Um dia ouvia o Jornal Nacional e uma notícia que era repetida citava o meu nome, dizendo que concedeu habeas corpus e assim por diante. Eu até mandei para o editor do Jornal Nacional, mostrando porque aparece lá nas falas [em mensagens que foram divulgadas da Lava Jato], os procuradores comemorando uma edição do Jornal Nacional. Eu disse: Vocês permitiram que eles virassem editores do Jornal Nacional. E isso, obviamente, massacrava as pessoas, aquelas que têm medo e é normal ter medo. Não é anormal ter medo. As pessoas que têm medo acabam cedendo a esse tipo de pressão, a essa mídia opressiva. Felizmente, Deus me poupou do sentimento do medo. Há questionamentos sobre os inquéritos das fake news e dos atos antidemocráticos, abertos pelo STF. Um desses questionamentos aponta que sendo vítima, um ministro não poderia conduzir um inquérito...

Não tem grande relevância o fato de nós, eventualmente, conduzirmos o inquérito, coordenar a investigação, porque depois será remetido para alguém que avalia, como o promotor. Se vai oferecer ou não denúncia ou ter ou não outra consequência... E outro juiz vai julgar o processo, porque não se trata de fazer aqui algum tipo de “Santíssima Trindade” [ministro atuar com juiz, acusador e investigador]. Já me referi a isso antes. O artigo 43 permite que crimes cometidos contra o Tribunal ou no Tribunal possam ser investigados pelo Tribunal. Eu diria que essa foi talvez uma das decisões sábias tomadas pelo nosso ex-presidente, ministro Dias Toffoli, e encontrou o relator certo, que foi o ministro Alexandre de Moraes. Alguns apontam que podia ter havido um sorteio, como geralmente ocorre com a distribuição dos processos...

Houve uma resposta dentro dos marcos institucionais contra movimentos que clamavam, por exemplo, pelo fechamento do Supremo Tribunal Federal.”

‘Precisamos discutir no país uma lei de responsabilidade social’ « CONJUNTURA » Ministro do STF afirma que a

pandemia revelou ou tornou mais explícitas “uma série de fraturas expostas na sociedade brasileira”

Isso não precisa. Poderia ter caído com qualquer um. O próprio presidente poderia ter mantido a sua relatoria. O inquérito é só um inquérito, em que se toma algumas providências. Agora, o interessante é a importância deste inquérito... Desde a sua instauração e a partir das medidas que foram tomadas, vejam que desapareceram aquelas manifestações de ruas agressivas contra o Tribunal. Descobriram-se os financiadores desse movimento. Houve uma resposta dentro dos marcos institucionais contra movimentos que clamavam, por exemplo, pelo fechamento do Supremo Tribunal Federal, que clamavam pelo fechamento do Congresso Nacional. Manifestações claramente antidemocráticas, acho que esse ato foi importante, tanto é que agora o STJ tomou a mesma deliberação, usando do mesmo dispositi-

vo em relação a essa questão, porque é um mecanismo de defesa. No episódio do STJ, pediram investigação ao procurador-geral, Aras. Quem vai fazer a investigação dos procuradores? O STJ estava sendo atacado pelos procuradores. Serão os procuradores que vão fazer essa investigação? Seria correto nessa investigação?

dos os problemas que havia em relação àquelas manifestações e àquela agressão que havia sobretudo contra o Tribunal. Mas não só contra o Tribunal, mas contra outras instituições democráticas. Acho que devemos ao ministro Alexandre uma grande contribuição à preservação da democracia no Brasil.

Por que o senhor acha que Alexandre de Moraes foi uma escolha tão acertada para relatar o processo?

Considera que a democracia está sob ameaça no Brasil?

Ele tem o perfil adequado, é promotor de Justiça de origem, foi secretário de Segurança, de uma unidade representativa para todos nós, São Paulo. Não é uma tarefa fácil. Ele conhece todos esses meandros dos processos investigativos e da Polícia. Lidou com maestria com essa temática. Em pouco tempo, tinha mapeado to-

Não acredito. Hoje nós estamos vivendo outro momento, mas havia gente muito animada com esse processo de desgaste das instituições e que podiam cometer algum tipo de loucura. Fez um ano do primeiro caso de coronavírus no Brasil. Como avalia o tratamento que está sendo dado a toda essa situação?

Esse é um tema super comple-

xo e prefiro que a gente dê tempo ao tempo para que possamos analisar. Não acho que tenhamos tratado com maestria e expertise devida esse tema. A tragédia ainda não é maior graças ao sistema SUS. Mas o SUS ficou de pé quebrado com essas desinteligências políticas, com essa politização, da qual já falamos antes. E o ideal é que tivéssemos tido mais harmonia. O tema não é fácil. O mundo todo está lidando com essa temática com muita dificuldade. Mas a politização do sistema, a disputa sobre quem era competente ou essa ridícula guerra das vacinas, tudo isso é extremamente deplorável e torna o combate à doença, que é o grande problema, muito mais difícil. Eu desejava, como disse na fala anterior, que nós [do STF] tivéssemos menos protagonismo, tivéssemos sido menos acionados e dedicado nosso trabalho a outras questões que estão pendentes aqui no Tribunal. Depois de tudo o que está se sabendo da Lava Jato, como o senhor avalia o caso Lula hoje?

Não vou entrar no caso Lula agora, porque estamos para julgar essa questão e, certamente, vamos ter que fazer análises em torno desse assunto. O conjunto geral das investigações é esse que todos estão vendo. Pegue-se qualquer dessas páginas do Conjur ou dessas publicações especializadas e vejam como se deu a investigação e esse jogo combinado. Acham que é possível um procurador dizer para o juiz, qual será o conteúdo da denúncia, o que ele vai apresentar ou depois ter que submeter a apelação que ele fará ao juiz? É disso que se cuida. Isso pre-

O senhor vê condições do país tomar o rumo de uma discussão política e institucional mais amadurecida?

Espero que haja um amadurecimento. Acho que muitas coisas têm ocorrido. Espero que possamos discutir com racionalidade e fazer esforços no sentido da modernização do país e de continuidade do desenvolvimento. O país tem um potencial enorme, tem respondido a inúmeras demandas e espero que nós sejamos dignos do próprio passado que tivemos e que saibamos de fato desenvolver, crescer e integrar as pessoas. Veja que a pandemia revelou ou pelo menos tornou mais explícitas uma série de fraturas expostas, que nós já tínhamos, essa pobreza chocante, o número de invisíveis, pessoas que de fato não estavam nos cadastros. Mas que eram extremamente pobres ou coisas que nós víamos. Tem a recomendação do isolamento social e se tiver alguma pessoa doente em casa, colocar em um quarto separado. Mas se a pessoa vive num “quarto e sala”, como fazer isso. Então, nós precisamos discutir, em seguida à pandemia, uma lei de responsabilidade social. Nós temos que resolver essa crise grave de saneamento, que causa tanta doenças às pessoas. Temos de dar atenção a todo esse grupo de pessoas marginalizadas. Nós temos de fato ajudar o país a crescer e a superar todas essas mazelas.

 VEJA MAIS QR Code traz a íntegra da entrevista em vídeo.


» CÂMARAS POTIGUARES TÊM A MAIOR PARTICIPAÇÃO FEMININA DO BRASIL • PÁGINA 3

» MAGNUS NASCIMENTO

Ano 70 • Número 289 • Domingo • 07 de março de 2021

FUNDADOR: ALUÍZIO ALVES - 1921 - 2006

Mulher NA PANDEMIA

Empreendedoras comandam 32% dos negócios no RN « MERCADO » No Rio Grande do Norte, o sexo feminino responde por um terço dos negócios em operação. Os dados são de estudo divulgado pelo Sebrae, ‘O Empreendedorismo Feminino no Brasil’. No Estado são 115,7 mil empreendedoras, correspondente a 32% do número total. Em todo o Brasil, conforme o levantamento, são 8,6 milhões de empresárias. Potiguares se destacam porque têm a melhor escolaridade do Nordeste. « ECONOMIA 1 A 2 » PROJETO DE LEI

TIMES DO RN

COPA DO BRASIL

Bolsonaro quer ampliar as atividades essenciais no País

América enfrenta o Assu, na Arena. ABC pega o Santa Cruz, no Arruda

Na final de hoje entre Palmeiras e Grêmio, dois talentos do RN

Em mais uma investida para enfraquecer as medidas de isolamento, presidente mandou preparar projeto de lei para ampliar a lista de atividades essenciais. « PÁGINA 6 »

Pelo Campeonato Potiguar, América tenta conseguir mais três pontos. Já o ABC, pela Copa do Nordeste, vai a Recife, com a missão de superar o Santa Cruz. « ESPORTES 1 »

No Palmeiras, Gabriel Veron, que tenta voltar a ser titular. No Grêmio, o zagueiro Rodrigues, cria do ABC que no RN era chamado de Tonhão. « ESPORTES 4 » ALEX RE´GIS

SEU MANOEL GREGÓRIO VIROU LENDAS Carlos Peixoto lança “Lendas da Revolução”, livro que mistura realidade e ficção; e nasceu das histórias ouvidas por ele quando criança, contadas por um vizinho, Manoel Gregório, que participou do levante comunista em 1935 na capital do RN. « TNFAMÍLIA 4 »

RODA VIVA

BNDES financia no RN o maior complexo eólico do mundo. « PÁGINA 7 »

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A pandemia de covid no Brasil tem afetado mais a vida das mulheres. Com desemprego, violência e outras dificuldades. Pessoas como Tarcília, 30 anos, que espera a crise acabar para poder retomar estudos e ver os filhos na escola novamente. “Me dói ver meus filhos sentindo saudade da escola.” « NATAL 2 »

, Luíza Trajano, da Magaluinina exemplo de liderança fem ento que presária fala sobre o movim E Em entrevista exclusiva, em bro. pulação brasileira até setem 3 pretende vacinar toda a po MIA » NO ECO sejam empreender.. « aconselha mulheres que de ALEX RÉGIS ADRIANO ABREU

As primeiras vacinadas, mulheres Maria, 57 anos, e Ednalva, 54 anos, foram as duas primeiras pessoas a serem vacinadas no RN. A TN conta quem são essas mulheres, muito além da vacina. « NATAL 1 »

Autocuidado, essencial para elas

Mais do que nunca, as mulheres precisam se autocuidar. Entenda mais sobre o assunto conhecendo a história da ginecologista Renata Alexandra. « TNFAMÍLIA 1 »

Em hotsite especial, mais histórias delas... Além desta edição especial em alusão ao Dia Internacional da Mulher, a TRIBUNA DO NORTE disponibiliza um hotsite especial onde compila vídeos com histórias de resistência e conquista de mulheres potiguares. Leia e assista. « NATAL 4 »

JORNAL DE WM

CENA URBANA

Arquiteta e urbanista tem visão apurada do que é o Plano Diretor. « PÁGINA 3 » 4006-6111 Classificados: 4006-6103 Circulação: 4006-6173 Reclamações:

4006-6161 4006-6103 4006-6111

Dorian Jorge Freire, um dos grandes jornalistas brasileiros. « PÁGINA 2 »

SITE: www.tribunadonorte.com.br REDAÇÃO (pauta): pauta@tribunadonorte.com.br

CARLOS EDUARDO

Não há uma coordenação federal nas ações de combate à covid. « PÁGINA 2 » NO FACEBOOK

facebook.com/tribunarn

RUBENS LEMOS

Adilson Heleno foi mestre no ABC, tanto quanto qualquer ídolo. « ESPORTES 3 » NO TWITTER

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Natal - Rio Grande do Norte Domingo, 07 de março de 2021

economia

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»ENTREVISTA » LUIZA HELENA TRAJANO PRESIDENTE DO CONSELHO DE ADMINISTRAÇÃO DO MAGAZINE LUIZA

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“NOSSO FOCO É SALVAR VIDAS” « EXCLUSIVO » Empresária Luiza

Trajano, que comanda o Magazine Luiza, afirma que maior objetivo do movimento “Unidos pela vacina” é salvar vidas e que é isso que ajudará na recuperação da economia EVERTON DANTAS Diretor de Redação

N

os últimos anos, a empresária Luiza Helena Trajano, de 69 anos, que comanda o Magazine Luiza, vem se destacando nacionalmente. Primeiro por ter transformado sua loja “Cristaleira”, aberta em 1967 e posteriormente batizada de Magazine Luiza, na cidade de Franca (SP), em uma das maiores redes de varejo. Depois, por ter conseguindo sucesso na transição digital de seu negócio. Mais recentemente, pelos posicionamentos sociais que vem adotando e se tornando exemplo de como empresas devem atuar para reduzir as injustiças sociais existentes no Brasil. Este ano, diante da necessi-

dade de vacinas para salvar vidas e com isso promover a retomada da economia, ela deu mais um passo nessa trajetória diferenciada: lançou e coordena um movimento de empresas para conseguir mais vacinas. Segundo Luiza Trajano explicou, a ideia não é comprar doses, mas fazer com que os imunizantes cheguem à população. Nessa entrevista concedida por e-mail à TRIBUNA DO NORTE, a empresária explica melhor como está esse movimento. No RN, o empresário Marcelo Alecrim representa o movimento nacional “Unidos pela Vacina”. Ela também fala sobre os desafios que as mulheres enfrentam no Brasil para empreender. E aconselha a todas que pretendem tentar tocar um negócio

com uma mensagem que parece ser bem o maior segredo de sucesso dela: “é preciso gostar muito do que está fazendo”. Recentemente, a senhora liderou um movimento para vacinar todos os brasileiros até setembro. Como está essa iniciativa? E qual o futuro dela?

Estamos mobilizando a sociedade civil por meio do movimento Unidos pela Vacina, que tem como função auxiliar os governos federal, estaduais e municipais a agilizar e conscientizar a população brasileira sobre a importância da vacinação. Estamos em constante aperfeiçoamento. Pensamos o presente e as formas de agilizar e colaborar para, unidos, atingirmos essa audaciosa meta. Acredita em recuperação econômica ainda este ano? O que falta para que o Brasil saia da atual situação?

Qualquer recuperação econômica passa pela vacinação da população. Nosso foco é salvar vidas e, como consequência, a retomada gradativa da economia e dos empregos. O Magazine Luiza lançou, em 2020, programa de trainee voltado apenas para negros. Pretende ampliar essa iniciativa? E incluir outros grupos de pessoas, como trans, por exemplo?

Nosso programa nasceu da necessidade interna ao verificarmos que carecíamos de negros em cargos de alta liderança, e o programa de trainee é um caminho rápido para novos líderes na empresa. Temos, na empresa, como inegociável, qualquer tipo de discriminação, e se sentirmos necessidade de programas específicos, podemos adotar diversas ações para ajustar nossas necessidades. Em 2013, na esteira de uma campanha contra a violência doméstica, a senhora fundou o grupo Mulheres do Brasil, que hoje reú-

Qualquer recuperação econômica passa pela vacinação da população. Nosso foco é salvar vidas e, como consequência, a retomada gradativa da economia e dos empregos”

Todos devem colaborar para reduzir esse vergonhoso índice de uma morte a cada duas horas por violência doméstica” ne mais de 40 mil mulheres. Que resultados essa iniciativa alcançou? E que ensinamentos a senhora ganhou?

O Grupo Mulheres do Brasil nasceu de um grupo que realizou uma reunião em Brasília e sentiu uma grande sinergia de todas para realizar um trabalho para o país por meio da sociedade civil organizada, atuando em dezenas de temas. Hoje, já somos 78 mil mulheres, com núcleos em todos os Estados do Brasil, em diversas cidades, e também no exterior, em todos os continentes. É um aprender constante participar do grupo, além de poder ajudar e trabalhar para o Brasil.

A violência doméstica continua com altos índices no País, e durante a pandemia aumentou em todos os Estados brasileiros. Qual o caminho para vencê-la?

Por meio da mobilização, da quebra do silêncio, oferecendo assistência e segurança à vítima para sair deste ciclo de violência. Todos devem colaborar para reduzir esse vergonhoso índice de uma morte a cada duas horas por violência doméstica. No Grupo Mulheres do Brasil, temos um comitê que trabalha muito esse tema, desde a conscientização da importância da denúncia até formas de apoio às vítimas. A senhora é uma das mulheres CEOs pioneiras e uma das empreendedoras mais importantes do País. Qual seu maior aprendizado como executiva? A senhora teve que provar mais sua capacidade que os homens de sua família?

Os desafios da gestão são os mesmos para homens e mulheres, mas às mulheres foi permitido desenvolver características de uma gestão mais humana, que é o que as empresas hoje estão procurando e necessitam, mas ainda existem inúmeros desafios, barreiras e preconceitos impostos para as mulheres que precisam ser superados. Venho de uma família de mulheres empreendedoras, mas a grande maioria das mulheres precisa provar sua capacidade muito mais do que os homens em cargos similares. Que conselho a senhora daria às mulheres que querem empreender no Brasil?

Primeiro, é preciso gostar muito do que está fazendo, identificar-se e fazer muito bem a atividade. Também é fundamental buscar auxílio e conhecimento com o que não se domina. Por exemplo, é fundamental saber fazer o fluxo de caixa da empresa; mas se não souber, existem vários cursos, como os do Sebrae, por exemplo, que auxiliam o empreendedor.

 NÃO À PRESIDÊNCIA Após ter se consolidado como uma voz do meio empresarial cujos posicionamentos tem repercussão política, a empresária Luiza Trajano, presidente do Conselho de Administração da Magazine Luiza, passou ter o nome citado como possível candidata a algum cargo em 2022. Atualmente, ela é tida como uma forte influência entre dois dos potenciais candidatos ao Palácio do Planalto em 2022: o apresentador de TV Luciano Huck e o governador de São Paulo, João Doria (PSDB). Além disso, por ter um perfil considerado progressista, a empresária é vista por petistas como um novo nome que poderia compor chapa ano que vem para disputar a presidência da República. Seria algo como a chapa Luiz Inácio Lula da Silva e José Alencar. Agora mais recentemente, após o lançamento do movimento “Unidos pela Vacina”, o que gerou ainda mais comentários sobre supostas pretensões políticas, a própria Luiza Trajano fez questão de se posicionar sobre o assunto. “Gostaria de deixar claro que não sou candidata a presidente do Brasil nem sou filiada a nenhum partido político", diz a executiva que lidera a iniciativa.

Quem é Luiza Trajano Luiza Helena Trajano iniciou sua carreira na cidade de Franca, no interior de São Paulo, onde nasceu. Ela começou a trabalhar aos 12 anos, como funcinoária temporária nos meses de dezembro. Segundo ela própria contou em entrevistas, sua família era empreendedora. Em 1957, os tios da empresária compraram uma loja na cidade, a “Cristaleira”. O nome

foi mudado por meio de um concurso no rádio, no qual os clientes puderam sugerir a mudança. No final, ganhou “Magazine Luíza”, homenagem a Luiza Trajano Donato que era casada com Pelegrino José Donato, casal que fundou o negócio. Em 1991, formada em Direito e em Administração, Luiza Trajano recebeu da tia a missão de comandar a rede de lo-

jas. Ela adotou como uma das primeiras medidas, a informatização do negócio e passou a criar modelos de comércio eletrônico no Brasil. Em 1992, é lançado o projeto “Só Amanhã”, dia dedicado à venda de produtos com preços bem abaixo dos praticados no mercado. Em 2003, o Magazine Luiza começou um intenso processo de expansão e nos últimos

anos consolidou sua presença no comércio digital, se tornando referência nacional. Ao todo, a empresa conta com mais de 35.000 colaboradores. Um dado, disponível na página da empresa, de certa forma resume o sucesso do negócio: “Levamos 43 anos para faturar 1 bilhão de reais em nossas lojas físicas, origem da empresa. Precisamos de apenas 10 anos para atingir a

marca de 1 bilhão de reais em faturamento em nosso seu e-commerce. E relâmpagos 2 anos para atingir esse mesmo valor com a operação de marketplace que, em dezembro de 2019, reunia 15.000 sellers, indústrias e varejistas dos mais diversos tamanhos, origens e especialidades.” Nos últimos anos, o Magalu optou estrategicamente “pelo crescimento exponencial,

por atingir um ritmo de expansão que multiplique o tamanho e a abrangência da empresa, fazendo com que ela permaneça relevante na economia digital.” Em2019,dadosmaisrecentes, asvendastotaischegaramaR$27,3 bilhões. Atualmente, o Magazine Luiza conta com 1.113 lojas físicas em 819 cidades, de 21 Estados brasileiros. Toda essa transformação é creditada a Luiza Trajano.


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Tribuna do Norte 71 anos - E-book Entrevistas Exclusivas  

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