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Brasil indígena Histórias, saBeres e ações Prêmio Culturas indígenas 4 a eDição – raoni MetuKtire


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BRASIL INDÍGENA HISTÓRIAS, SABERES E AÇÕES PRÊMIO CULTURAS INDÍGENAS 4 a EDIÇÃO – RAONI METUKTIRE

— B7364

Brasil indígena: histórias, saberes e ações / Coordenação de Maurício Fonseca e Marina Herrero. – São Paulo: Sesc São Paulo: Ministério da Educação: Ministério da Cultura, 2014. 624 p. il.: Fotografias. Mapas. ISBN 978-85-7995-168-8 1. Brasil. 2. Nações Indígenas. 3. Histórias. 4. Saberes. 5. Ações. 6. Metuktire, Raoni I. Título. II. Prêmio culturas indígenas, 4a. Edição. III. Serviço Social do Comércio de São Paulo. IV. Brasil. Ministério da Educação. V. Brasil. Ministério da Cultura. VI. Fonseca, Maurício. VII. Herrero, Marina. CDD 301.3


— SUMÁRIO

7   O BRASIL DA DIVERSIDADE DE POVOS Juca Ferreira Ministro da Cultura

9  COSMOPOLÍTICA INDÍGENA Ivana Bentes  Secretária da Cidadania e da Diversidade Cultural / Ministério da Cultura

11 D ESTINOS ESTRELAÇADOS

BRASIL INDÍGENA HISTÓRIAS, SABERES E AÇÕES

— 57 TERRAS, TERRITÓRIOS E AMBIENTES 87 PRÁTICAS DE MANEJO AGROFLORESTAL

PRÊMIO CULTURAS INDÍGENAS 4a EDIÇÃO – RAONI METUKTIRE

129  ALIMENTAÇÃO E CULINÁRIA

Francisco Bosco  Presidente da Funarte

1 3   POLÍTICAS PÚBLICAS E VALORIZAÇÃO DAS CULTURAS INDÍGENAS Rita Potyguara  Coordenadora Geral de Educação Escolar Indígena do Ministério da Educação

16 DIFERENÇAS QUE APROXIMAM

24 LOCALIZAÇÃO DAS INICIATIVAS INSCRITAS E PREMIADAS 27 NOVAS PRÁTICAS PARA O FORTALECIMENTO DE TRADIÇÕES INDÍGENAS Dominique Tilkin Gallois

Danilo Santos de Miranda  Diretor Regional do Sesc São Paulo

18 FORTALECENDO O PROTAGONISMO INDÍGENA NA LUTA PELOS NOSSOS DIREITOS

37  " VOU CONTINUAR LUTANDO PELA NOSSA TERRA. LUTANDO PELO NOSSO RIO. LUTANDO PELA NOSSA CULTURA" Texto sobre Raoni Metuktire

169 CUIDADOS E PRÁTICAS DE SAÚDE 217 FESTAS, RITUAIS, CANTOS E DANÇAS 295  LÍNGUAS 341  MODOS DE SABER 419  ARTES E TROCAS 489 MODOS DE CONSTRUÇÃO E ESPAÇOS DE INTERCÂMBIO

Romancil Cretã  Representante Indígena no Conselho Nacional de Política Cultural / ARPINSUL

21 COMPARTILHANDO TRADIÇÕES

41  COMO FORMIGUINHA NA BOCA DA COBRA GRANDE... Entrevista com Davi Kopenawa

Petrobras

563 PRÁTICAS DE REGISTRO E USO DE TECNOLOGIAS DE COMUNICAÇÃO


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O BRASIL DA DIVERSIDADE DE POVOS Juca Ferreira Ministro da Cultura

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Waurá / foto: Renato Soares

onho com a construção de uma sociedade solidária, complexa, democrática e sustentável. Sonho que construiremos um outro sentido para a convivência entre os povos. Sonho com um lugar destacado para o Brasil no século XXI, também na maneira de tratar as diferenças culturais e por sua relação com os povos tradicionais. Temos tudo para isso. Comungo com ideais portadores de uma mensagem planetária de autodeterminação e convivência pacífica entre povos, etnias, gêneros, raças e sexo; e tenho especial prazer quando nos vejo associados à alegria e ao lúdico. E é especialmente o que disso vejo neste catálogo que mais neste momento me estimula e me motiva. Temos no Brasil um ambiente cultural propício para podermos demarcar um território de proporções continentais deste tipo no campo do simbólico e do político. A maior parte dos países reduziu ou exterminou sua diversidade, eliminando tradições, conhecimentos e ancestralidades que eram a base de sua riqueza cultural. O Brasil ainda pertence a um restrito grupo de nações onde sobrevive uma parcela expressiva da diversidade de povos, línguas e costumes. Temos um patrimônio cultural invejável; e somos um dos poucos países que adotou políticas favoráveis à diversidade. Por tudo isso, a garantia dos direitos dos povos indígenas e sua relação com o futuro do Brasil é tema central, sobretudo em um contexto que clama por avanços nas relações do Estado com a sociedade.

É momento de afirmar a centralidade da questão indígena para um crescimento harmonioso do Brasil. Não bastasse isso, nossa diversidade cultural, associada à gigantesca biodiversidade que temos são hoje objeto de cobiça de grandes atores globais: da ciência avançada, à indústria farmacêutica, à indústria cultural. O desafio mais complexo dos países democráticos no mundo contemporâneo é modernizarem-se sem impor um modo de vida, é reduzir a miséria e a pobreza sem, no entanto, reduzir ou padronizar o enorme arcabouço cultural acumulado pela sociedade, pela experiência cultural de todos.


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COSMOPOLÍTICA INDÍGENA Ivana Bentes Secretária da Cidadania e da Diversidade Cultural / Ministério da Cultura

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Xingu / foto: Renato Soares

estituir à cultura indígena a contemporaneidade que lhe foi negada, esse é um dos objetivos deste livro, que apresenta cosmovisões indígenas conectadas com os mais diversos campos: da estética ao meio ambiente, da relação com a terra  à criação de práticas culturais próprias: cultivo, alimentação, rituais, danças, músicas, formação. Estamos falando de criadores de imaginários potentes. As entrevistas com lideranças indígenas, a descrição dos projetos contemplados com o Prêmio Culturas Indígenas, a colaboração da Secretaria de Cidadania e Diversidade do MinC com o Sesc, Funarte e Funai, dão visibilidade a essa complexidade e atualidade do pensamento indígena, como lugar de produção de conhecimento e renovação de saberes e fazeres. Também é um livro de memórias, de experiências, de uma geopolítica e cosmopolítica próprias, mas que sofrem duramente com leis, corporações, grupos que violam essa cultura ao destituírem os indígenas de suas terras e espaços vitais. A relações dos indígenas com animais, plantas, espíritos e com a própria terra, descritos aqui, é uma percepção compartilhada do ponto de vista desses outros seres. Uma “antropologia reversa” e perspectivismo que marcam uma diversidade radical de práticas e de pensamentos a partir do outro. Constituem ainda uma medicina popular, com práticas de curas e xamanismo que trazem alívio físico e espiritual. Experiências de autoformação que são também laboratórios de políticas públicas: Pontos

de Cultura Indígenas, Mídia-Índio, Redes Indígenas articuladas. Em um momento em que se entende a Natureza como valor positivo, se aceita os direitos e autonomia das culturas autóctones, se entende a relação de codependência complexa e dinâmica dos ecossistemas não podemos mais projetar uma imagem romantizada dos povos indígenas como uma humanidade “anterior” ao “pecado original” da Cultura que trouxe com ela desequilíbrios irreversíveis. Os grupos indígenas também trazem a possibilidade de modificar o ambiente sem destruir as dinâmicas ecológicas, determinando para si mesmo, como projeto político, “uma vida que seja boa o bastante” (Viveiros de Castro), diante de um modelo desenvolvimentista, do progresso infinito, que entrou em crise e põe toda a Terra em risco. Mesmo a ideia de “desenvolvimento sustentável” (com seu viés utilitarista) é insuficiente para pensar um novo paradigma ecológico, uma diversidade socioambiental. Os indígenas, no Brasil e na América Latina trazem um pensamento e uma prática de “bom viver” e uma cosmopolítica que não diz respeito simplesmente a sua própria sobrevivência, fabulam humanidades e mundos por vir.


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DESTINOS ENTRELAÇADOS Francisco Bosco Presidente da Funarte

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eralmente o catálogo, enquanto gênero editorial, se propõe, nessa ordem: registrar uma experiência, um acontecimento, a fim de garantir sua sobrevivência para além do meio original em que ela se deu; e difundir esse acontecimento, possibilitando um acesso ampliado a ele, para além de seus limites concretos, temporais e espaciais. O presente livro, entretanto – para me servir de uma expressão da arte contemporânea – apresenta-se como um “catálogo expandido”, na medida em que, extraordinariamente concebido e executado, enriquece o acontecimento registrado com camadas de contexto e interpretação, realizando-se, afinal, como um acontecimento ele mesmo. É assim que a quarta edição do Prêmio Culturas Indígenas encontra-se aqui registrada, mapeada, descrita, ilustrada – mas o sentido amplo e profundo dessa ação vai-se revelando ao longo do livro pelas entrevistas com lideranças indígenas de diferentes gerações (Davi Ianomami Kopenawa, Tonico Benites, Benki Pyianco), pela homenagem a Raoni Metuktire, pelas informações relativas às políticas públicas do Estado brasileiro para os povos indígenas, pelos relatos de luta e resistência, pelos cuidadosos textos introdutórios a cada seção. A Funarte sente orgulho de se juntar aos demais participantes desse livro – instituições e pessoas físicas, indígenas e não indígenas – a fim de contribuir para a formação progressiva de uma consciência sobre os modos de saber e viver dos povos indígenas, e a necessidade de garanti-los.

Felizmente, essa consciência, como observa Davi Ianomami Kopenawa na entrevista adiante, parece estar começando a se estabelecer, para o melhor futuro de brancos e índios, cujos destinos já estavam entrelaçados há cinco séculos, mas só agora o podemos ver. Que as palavras desse livro se juntem a todas as outras que, nesse momento do mundo, procuram evitar a queda do céu.


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POLÍTICAS PÚBLICAS E VALORIZAÇÃO DAS CULTURAS INDÍGENAS Rita Potyguara Coordenadora Geral de Educação Escolar Indígena do Ministério da Educação

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Waurá / foto: Renato Soares

s direitos culturais são importantes instrumentos nas lutas políticas dos povos indígenas. Acompanhando e fundamentando suas reivindicações por direitos coletivos – tais como os direitos aos seus territórios, às políticas diferenciadas de educação e saúde, à proteção de seus conhecimentos tradicionais e dos produtos a eles relacionados –, as culturas indígenas e suas formas de expressão constituem um campo privilegiado para a construção de autodeterminações e protagonismos necessários à promoção do bem viver dos povos indígenas. Neste sentido, a iniciativa do Prêmio Culturas Indígenas representa, desde a sua primeira edição em 2006, um movimento em direção ao reconhecimento deste papel político importante das culturas indígenas e suas formas de expressão por parte do Ministério da Cultura e da Petrobras, sua principal parceira. Criado a partir das demandas trazidas pelas próprias lideranças indígenas e seus apoiadores desde 2004, ganhando corpo, a partir de 2005, no âmbito do GT de Culturas Indígenas que, por sua vez, deu origem ao Colegiado Setorial de Culturas Indígenas dentro do Conselho Nacional de Políticas Culturais, o Prêmio tem ajudado a promover as ações culturais de mais de uma centena de povos nas diferentes regiões do País. É o que demonstra este catálogo da 4ª edição do Prêmio Culturas Indígenas que, na parceria com o Sesc São Paulo e homenageando o grande líder

indígena cacique Raoni Metuktire, internacionalmente reconhecido por sua luta pelos direitos dos povos indígenas, traz diferentes experiências desenvolvidas pelos povos indígenas de um total de mais de 600 iniciativas inscritas. Estes são exemplos de ações locais que merecem ser promovidas e visibilizadas a fim de desconstruir as imagens correntes dos povos indígenas como personagens pretéritos e que impedem o desenvolvimento econômico da sociedade brasileira, com parca ou nenhuma contribuição para a sua história e cultura. A contribuição do Prêmio para o fortalecimento das expressões culturais das comunidades e povos selecionados em suas quatro edições representa, assim, o compromisso do Estado na promoção de políticas que visam à valorização dos povos indígenas e suas culturas. Todavia, sabemos que é necessário avançar mais na construção e efetivação de uma política cultural, de caráter estruturante, dirigida aos povos e comunidades indígenas que garantam os seus direitos. Assim, conforme as metas do Plano Nacional de Cultura e das diretrizes do Plano Setorial de Culturas Indígenas, há a necessidade de se qualificarem melhor os mecanismos de gestão das políticas públicas, por meio de ações articuladas entre os entes federados. Isto significa levar a efeito o pacto federativo nas ações de valorização da diversidade cultural,


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de modo geral, e das expressões culturais dos povos indígenas em particular. Complementarmente, há que se adequarem instrumentos de gestão às especificidades das realidades socioculturais, linguísticas, ambientais e econômicas das 305 etnias indígenas, falantes de 274 línguas, hoje existentes no Brasil. Apesar das limitações e entraves burocráticos do aparato administrativo do Estado, avanços têm sido alcançados desde a maior institucionalização das políticas de valorização da diversidade iniciada nos inícios dos anos 2000. De lá pra cá, houve o crescimento de ações públicas de promoção da diversidade que também foram dirigidas aos povos indígenas, como as do Programa Nacional de Patrimônio Imaterial, as do Inventário Nacional da Diversidade Linguística e as do Programa Cultura Viva – hoje, felizmente, já tornadas Política Nacional de Cultura Viva por força da Lei 13.018 de julho de 2014 –, além de, no campo das políticas e legislação educacionais, a obrigatoriedade da inclusão da História e Cultura afro-brasileira e indígena nos currículos das escolas da Educação Básica como preceituam a Lei nº 11.645 de 2008 e as diretrizes curriculares nacionais emanadas do Conselho Nacional de Educação (CNE), a exemplo das Diretrizes Nacionais para a Educação em Direitos Humanos e as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Escolar Indígena na Educação Básica. No âmbito do Ministério da Educação, estas ações também começam a ganhar maior institucionalidade com a criação, em 2004, de uma secretaria voltada para as questões da diversidade. A então Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (Secad) – hoje chamada de Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão (Secadi) – avançou na promoção das políticas de Educação Escolar Indígena que vem se orientando pelos princípios da diferenciação, interculturalidade, especificidade, bilinguismo/multilinguismo e aspecto comunitário de suas escolas.

O conjunto destas ações aponta para o crescimento de políticas públicas voltadas para a valorização e fortalecimento das expressões culturais, dos processos de ensino e aprendizagem mais adequados às realidades dos povos indígenas e a promoção de um melhor conhecimento, frente à sociedade nacional não indígena, a respeito da diversidade de povos e manifestações culturais. É sobre este último aspecto que a parceria entre o Ministério da Cultura e o Ministério da Educação nesta 4ª edição do Prêmio Culturas Indígenas representa um avanço nas conquistas políticas dos povos indígenas, uma vez que a sua distribuição para escolas indígenas e não indígenas da Educação Básica, buscando atender tanto às demandas das escolas quanto ao que preceitua a legislação educacional brasileira (principalmente a Lei nº 11.645/2008), pode contribuir para positivar a figura do índio no imaginário nacional. Por fim, o catálogo pode ser lido, através dos exemplos das iniciativas descritas, como o resultado das diferentes parcerias necessárias, protagonizadas pelos povos indígenas, para a promoção de ações públicas que visem à construção de uma sociedade nacional socialmente mais justa e respeitadora de suas diferenças.

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Waurá, MT / foto: Renato Soares


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DIFERENÇAS QUE APROXIMAM Danilo Santos de Miranda Diretor Regional do Sesc São Paulo

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s povos indígenas, no Brasil, estão sujeitos a um paradoxo que demonstra uma condição crítica: ao longo do século XX, foram tomadas pelo Estado medidas contundentes de proteção, como a demarcação de terras e a criação do Parque Nacional do Xingu. No entanto, pela continuidade histórica, ainda não conseguimos frear o etnocídio. Frente a esse contexto, a iniciativa do Prêmio Culturas Indígenas, realizado desde 2006 – fruto de parceria entre o Sesc, o Ministério da Cultura e organizações indígenas –, configura uma ferramenta para a compreensão das demandas e para o estímulo a ações propositivas em áreas importantes para as comunidades e associações de índios, dando voz diretamente aos grupos interessados. Tornar públicas as informações relativas ao Prêmio através da publicação dos catálogos, ao lado da discussão proposta por especialistas e de entrevistas com lideranças indígenas de todas as regiões do país, cumpre a função de ampliar o impacto da iniciativa para além do âmbito político-institucional, permitindo a atualização das discussões concernentes aos povos indígenas em outros espaços da sociedade. O presente catálogo, referente ao 4º Prêmio Culturas Indígenas, organiza um panorama atualizado das necessidades e aspirações dos povos indígenas. Diante da profusão de demandas, é necessário um esforço de entendimento de suas linhas principais: se, por um lado, é possível observar a predominância de discursos de recuperação das respectivas culturas, por outro, nota-se a busca por

novas formas de lidar com os problemas, de maneira a se realizar um efetivo diálogo intercultural. Para o Sesc, o propósito maior das ações voltadas à diversidade cultural é a promoção de processos educativos orientados pela possibilidade não apenas de ver o outro, mas sobretudo de procurar ver como o outro vê. Segundo a perspectiva da ação socioeducativa da instituição, estas iniciativas visam à reafirmação das identidades na luta por direitos coletivos, por meio da garantia dos vários modos de existir, numa perspectiva de aproximação dos diversos.

Xavante / foto: Renato Soares


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FORTALECENDO O PROTAGONISMO INDÍGENA NA LUTA PELOS NOSSOS DIREITOS Romancil Cretã Representante Indígena no Conselho Nacional de Política Cultural / ARPINSUL

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ara nós, da Articulação dos Povos Indígenas da Região Sul/ARPINSUL, a realização da 4ª Edição do Prêmio Culturas Indígenas representa a consolidação de um processo que teve início em 2004 no Fórum Cultural Mundial, ocorrido em São Paulo. Lá as lideranças das principais organizações indígenas brasileiras procuraram o Ministério da Cultura e reivindicaram a instituição de uma política de cultura direcionada aos povos indígenas. Este processo foi construído através do Grupo de Trabalho/GT das Culturas Indígenas criado em 2005 pela Secretaria da Cidadania e da Diversidade Cultural/SID, do Ministério da Cultura. O GT elaborou diretrizes de trabalho que incluíam a criação do Prêmio Culturas Indígenas. Defendemos também que o Prêmio fosse implantado em parceria com as organizações indígenas brasileiras. A Articulação dos Povos Indígenas da Região Sul/ARPINSUL foi a organização proponente da 3ª e da 4ª edição do Prêmio. Para nós isto representa uma imensa responsabilidade, pois temos consciência de que dialogamos com o sonho de centenas de organizações e comunidades indígenas que veem no Prêmio uma possibilidade concreta de fortalecer suas expressões culturais e suas lutas pela garantia dos direitos.

Coube à ARPINSUL, em parceria com o MinC, implementar a estratégia para democratizar o acesso ao edital pelas comunidades e organizações indígenas em todo o Brasil. Organizamos mais de 150 oficinas de elaboração participativa de projetos em parceria com uma rede constituída por dezenas de organizações indígenas, ONGs indigenistas e instituições públicas federais e estaduais, além de colaboradores individuais. Estas oficinas contribuíram para a inscrição de seiscentas e trinta e sete iniciativas culturais indígenas, que estamos publicando neste Catálogo. Mas, apesar de entendermos que o Prêmio Culturas Indígenas é uma ação muito importante para nossas comunidades e organizações, temos consciência de que é preciso avançar na implantação do Plano Setorial de Cultura para os Povos Indígenas que integra o Plano Nacional de Cultura. Não basta a realização de ações pontuais; é necessária a existência de programas estruturantes direcionados aos povos indígenas que concretizem as diretrizes do Plano Setorial e garantam o financiamento de ações permanentes de fortalecimento das culturas indígenas. O governo brasileiro tem uma dívida muito grande com os povos indígenas que, durante séculos, foram vítimas do processo de genocídio

e tentativas de integração forçada à sociedade nacional, em detrimento de nossas identidades. Apesar de todos os avanços obtidos pelo movimento indígena, este processo ainda continua em curso. Hoje, os direitos dos povos indígenas estão ameaçados. Enfrentamos a pressão crescente do agronegócio, das mineradoras e de outros setores econômicos que, através de seus representantes políticos no Congresso, no governo federal e nos governos estaduais, tentam desconstruir nossos direitos constitucionais e legais, procuram impedir a demarcação das Terras Indígenas, criminalizam a nossa luta, impõem leis e decretos desfavoráveis aos povos indígenas. A publicação do Catálogo da 4ª Edição do Prêmio Culturas Indígenas ocorre neste contexto difícil que estamos vivendo. Ao abordar, sob o ponto de vista do movimento indígena, temas como Terras Indígenas, sistemas agroflorestais, saúde, educação, línguas, entre outros, este Catálogo contribui para divulgar as nossas lutas e as ações que estamos desenvolvendo em nossas comunidades para fortalecer a nossa cultura. Achamos muito importante a divulgação deste Catálogo em todas as escolas indígenas e nas escolas de ensino médio da rede pública de educação. Esta divulgação tão ampla contribuirá para que as novas gerações de brasileiros conheçam a nossa existência, a nossa realidade e as nossas lutas e não cresçam com uma visão preconceituosa sobre nós. Nesta edição homenageamos Raoni Metuktire. A homenagem a este grande líder indígena, que está vivo e atuante, simboliza a importância que damos às lideranças que abriram os caminhos para garantir o reconhecimento de nosso direito de vivermos em nossos territórios em conformidade com os nossos costumes, línguas e tradições. Muitos de nossos líderes morreram e ainda continuam morrendo em decorrência desta luta. Mas nós, povos indígenas brasileiros, afirmamos

que não abriremos mão de nossos direitos e lutaremos até o fim para garantir as nossas terras, as nossas línguas e a preservação e o fortalecimento de nossos modos de vida.

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COMPARTILHANDO TRADIÇÕES PETROBRAS

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atrocinar um projeto que tem em sua essência apoiar várias outras iniciativas multiplica o nosso desafio e aumenta a nossa responsabilidade. Em paralelo, é mais gratificante ainda para a Petrobras saber que diversas tradições são reunidas e podem ser conhecidas por todos os brasileiros. A parceria com o Ministério da Cultura no Prêmio Culturas Indígenas rende frutos que perdurarão como registro e vão permitir que os costumes sejam divulgados de forma ampla. Permite também que diferentes povos indígenas possam trocar valores e saberes entre si. É assim, integrando costumes, valorizando a multiplicidade das culturas e das expressões, de forma abrangente, que nos empenhamos em seguir nossas diretrizes de patrocínio. Buscamos contemplar a maior diversidade possível de manifestações culturais em toda a diversidade étnica e regional. O valor destes patrimônios culturais poderá ser percebido por quem tiver em mãos o material resultante do projeto. Pesquisadores, estudantes e qualquer interessado na riqueza das culturas indígenas poderão conhecer mais do Brasil e destes povos que formaram e formam nosso país. Através do Petrobras Cultural, nossa intenção é colaborar cada vez mais para que projetos de relevância como o Prêmio Culturas Indígenas continuem disseminando o conhecimento. Entendemos que patrocinando cultura estamos colaborando, em algum grau, para a construção de uma sociedade melhor.

Krahô, TO foto: Renato Soares

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BRASIL INDÍGENA HISTÓRIAS, SABERES E AÇÕES PRÊMIO CULTURAS INDÍGENAS 4 a EDIÇÃO – RAONI METUKTIRE


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INICIATIVAS INSCRITAS

INICIATIVAS PREMIADAS

PRÊMIO CULTURAS INDÍGENAS / 4a EDIÇÃO – RAONI METUKTIRE

PRÊMIO CULTURAS INDÍGENAS / 4a EDIÇÃO – RAONI METUKTIRE

—  638 INICIATIVAS  —

—  100 INICIATIVAS  —

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NOVAS PRÁTICAS PARA O FORTALECIMENTO DE TRADIÇÕES INDÍGENAS Dominique Tilkin Gallois

ENFRENTANDO A DESTRUIÇÃO DOS MODOS DE VIDA INDÍGENAS

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iniciativa nº 530 Ainvorisin Mëti, Marubo, AM

ais de 600 iniciativas foram apresentadas por comunidades indígenas de todo o país para esta edição do Prêmio das Culturas Indígenas. A leitura dessas centenas de pequenos textos, que descrevem os problemas vivenciados por cada grupo e suas expectativas de futuro nos transporta até aldeias e regiões do país muito diferentes entre si, levando-nos também até a periferia de cidades, onde vivem milhares de ameríndios muitas vezes esquecidos. A primeira impressão que fica dessa leitura é um certo estonteamento com a enorme heterogeneidade das propostas e das situações em que as iniciativas emergem. Mas logo, outros sentimentos se impõem, quando se percebe que as estratégias construídas por comunidades indígenas tão diferentes estão sempre voltadas ao enfrentamento da destruição e do desalento. Todos os projetos expressam a busca por novas energias, afirmando assim que cada uma dessas comunidades tem seu lugar próprio no mundo. Como se sabe, o Brasil é um dos países da América Latina que mais rapidamente aderiu às recomendações de organismos internacionais da cultura, no sentido de desenhar e colocar em prática políticas de promoção e difusão das culturas locais ou “populares”, incluindo-se aspectos das culturas

ameríndias. Se os órgãos governamentais se interessaram em recuperar a diversidade indígena para difundir a imagem de um Brasil multicultural, os povos indígenas, por sua vez, se apropriaram desses espaços para iniciativas politicamente direcionadas à luta pela terra e à recuperação de suas formas tradicionais de bem viver. Nos últimos vinte anos, multiplicaram-se as linhas de financiamento para projetos locais, apoiados tanto por instituições governamentais como por entidades não governamentais. Inicialmente concebidas na forma de ações educativas voltadas às novas gerações, geralmente dirigidas às escolas indígenas, esses programas têm recentemente abraçado linhas temáticas muito diversificadas, que vão desde a promoção de formas tradicionais de manejo ambiental, a gestão de sistemas agrícolas, a valorização das práticas fitoterápicas, o resgate do saber-fazer artesanal, o incentivo à performance de rituais, a sistematização de registros e difusão dos acervos musicais, das artes gráficas, das práticas culinárias, etc. Tantas linhas de atuação, embasadas em concepções muito diversas a respeito da chamada “cultura indígena”, suscitaram experimentos de todo tipo, com resultados díspares e contraditórios. De fato, em cada aldeia, em cada bairro indígena nas cidades, os índios continuam submetidos às mais diversas modalidades de preconceito, enfrentando múltiplas formas de exclusão, em particular a exclusão cultural. Em vários setores da população


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iniciativa nº 958 – Cultura de Hoje e o Futuro do Amanhã, Xacriabá, MG

Eleições 2010, Xavante, MT / foto: Renato Soares

iniciativa nº 351 – Retomada midiática - Nós por nós mesmos através das novas

mídias, MS

brasileira, continua vigorando uma caracterização genérica do que seja um “índio de verdade”, morador da selva, onde vive em “ocas”, usando enfeites de plumária e matando caça com arco e flecha. Esse preconceito poderoso, que mescla noções de pureza, de isolamento e de fragilidade, é perceptível no tratamento que os índios considerados “aculturados” continuam recebendo em muitas regiões do país. Vale mencionar a reação poderosa e pioneira dos índios do Nordeste do país, que emergiram se assumindo enquanto “povos misturados” e foram autores de performances inovadoras, evidenciando o quanto suas identidades podem se consolidar em meio a um intenso processo de transformação. No contexto dos projetos de valorização da chamada “cultura indígena”, surge outra contradição: os saberes e objetos indígenas passam a ser formatados – para se constituir como produtos ou bens patrimoniais – a partir de recortes e interesses dos destinatários não indígenas. Até muito recentemente, pouco era feito para fortalecer a indispensável valorização interna dos modos de conhecer, das formas específicas de produzir e de colocar saberes em circulação, no cotidiano e nos momentos festivos, na própria casa, aldeia ou comunidade ou nas redes de intercâmbio entre grupos. As iniciativas reunidas neste livro, de fato, mostram que muitos povos indígenas se veem às voltas com a ideia da “perda da cultura”. Sentimento que aumenta com a perda da terra, da autonomia, com a degradação da qualidade de vida. E é sinalizada como perda de conhecimentos, ainda agravada pelo desaparecimento dos mais velhos, conhecedores das tradições. O contexto atual, em que surgem as iniciativas apresentadas neste livro, evidencia um significativo retorno do olhar, de fora para dentro. Muitas iniciativas testemunham dificuldades que os líderes tradicionais e, de forma geral, a faixa de população mais idosa, encontram para continuar transmitindo – nas formas de enunciação que essa geração ainda perpetua em acordo com parâmetros estéticos tradicionais

– todo o conjunto de conhecimentos e valores que desejam passar às novas gerações. Em todas as regiões do Brasil, é notória a preocupação dos mais velhos com os jovens, que costumam ser criticados pelo seu aparente desinteresse em relação às “tradições”. Situação complexa que precisa ser relativizada: muitos jovens ameríndios acabam seduzidos pelos saberes e práticas dos não indígenas, quando não dispõem, enquanto uma efetiva perspectiva de futuro, da possibilidade de fortalecimento social, político e econômico na vivência de suas próprias formas de pensar e viver. Além disso, é preciso ainda mencionar o amplo esforço dos jovens indígenas em busca de formação. Em praticamente todas as aldeias há professores, agentes de saúde, agentes de saneamento, agentes agroflorestais, agentes ambientais, cinegrafistas, pesquisadores, além dos que partiram para as cidades, onde procuram se formar em diversas carreiras universitárias. Habilitados ou não por essas capacitações, eles são levados a assumir a difícil responsabilidade de colocar em diálogo os conhecimentos tradicionais de suas comunidades com nossos saberes escolares, biomédicos ou ambientais. Nesses contextos de formação, os jovens ameríndios aprendem a olhar para seus conhecimentos e sua cultura a partir de nosso olhar, nossas próprias conceituações e sistematizações do que seja o conhecimento deles. Como resultado desse processo, surgem objetos culturais totalmente novos e por isso, muito interessantes. Cabe ainda assinalar que a intensa participação desses novos “especialistas” na cena política e na defesa de seus direitos – que os leva regularmente a viver nas cidades – dificulta muitas vezes seu engajamento em processos de valorização cultural “em casa”. Mas esse aparente descuido não significa que eles não estejam interessados em construir, a partir dos saberes adquiridos nas diferentes capacitações técnicas ou acadêmicas, modalidades inovadoras para recuperar formas próprias de “bem viver” que aprenderam a valorizar, justamente pela experiência do contraste com outros modos de vida.

Assim, as tradições indígenas de que nos falam essas iniciativas possuem sua própria história e estão diretamente relacionadas às experiências de interação social e cultural vivenciadas por cada comunidade. Tradições que são menos um testemunho do passado dessas comunidades, que o resultado de histórias muito mais complexas, de sucessivas trocas. É o que nos dizem, cada um ao seu modo, todos os líderes entrevistados para a organização deste livro. Tanto as reflexões dessas lideranças, como os projetos submetidos a esta edição do Prêmio das Culturas Indígenas procuram superar a constatação angustiante de que as comunidades indígenas estão “perdendo sua cultura”. Essa é sem dúvida a lição mais importante desse conjunto de iniciativas, que priorizam o fortalecimento de modos de pensar, de agir e de se comportar, valorizando elementos que garantem a eficácia dos saberes e práticas indígenas.

"O NÃO INDÍGENA SEPARA MUITO..." 1

"A

forma como os não indígenas falam de cultura é muito superficial. Os brancos não conseguem entender esse mundo da forma como os indígenas compreendem” afirma Tonico Benites em sua entrevista. Segue explicando que, para os brancos, cultura é apenas diversão, lazer. Já para os índios, “para ser feliz, para se alegrar, para praticar a cultura”, é preciso viver em um “espaço-terra” que não é apenas um espaço físico, mas um espaço adensado pela existência de outras gentes, de seres invisíveis, de espíritos guardiões, com os quais os povos ameríndios, em acordo com tradições específicas, aprendem o que Davi Kopenawa

1  Palavras de Tonico Benites, na entrevista publicada no capítulo “Terras, territórios e ambientes” neste livro.

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iniciativa nº 1.048 – Filme documentário Acessibilidade Cultural aos indígenas Especiais,

Pataxó Hã-hã-hae, BA

iniciativa nº 770 – Yva’a Pyau - Novos Frutos, Guarani Mbya, SP

iniciativa nº 659 – Tko Nhemombaraete rá - Fortalecimento de sua cultura,

Guarani Mbya - RS

chama de “sabedoria da terra”. Sabedoria que, segundo Davi, “os brancos estão começando a escutar, começando a olhar na nossa direção”. Seguir no rumo dos conhecimentos indígenas significa compreender seus protocolos de relacionamento com todos os seres que compartilham este “planeta-terra”, onde vivemos todos juntos. É também por esta razão que definir “cultura” a partir da oposição com “natureza”, apontando para manifestações culturais como objetos isolados (artefatos, adornos, rituais etc.) não nos levará no caminho adequado. Essa separação não faz sentido para os povos indígenas, que não buscam “superar” a natureza. Como indicam os projetos da linha temática 2, comentados por Joana Cabral de Oliveira, “a cultura pode ser um buritizal, uma serra, uma espiga de milho”. Por isso, segundo Benki Piyanko, é preciso se aprofundar no conhecimento espiritual e se perguntar: “o que come o açaí?”. A cultura é pensada e praticada como um modo de ser: modo de ser Kaiowá, modo de ser Tukano, modo de ser buriti, modo de ser açaí, modo de ser onça. O valor está no respeito às diferenças, na multiplicidade dos modos de existir. Para começar a entender, como recomenda Davi Kopenawa, é preciso atentar para os modos como os índios concebem e relacionam elementos que nossas práticas cotidianas, nossas ciências, costumam separar. Nos mundos ameríndios, não só os recortes são outros, mas as conexões são operadas em acordo com mediações que podem nos surpreender. Se nos deixarmos guiar por essas relações inéditas, estaremos atendendo a expectativa dos autores indígenas deste livro. Para “aprender a olhar”, devemos prestar atenção às conexões efetuadas pelos autores indígenas, apreciando as múltiplas conexões possíveis entre as iniciativas dispersas nas várias sessões deste livro. Nas propostas, fala-se de saúde, falando de terra. Falase de alimentação, recorrendo às festas, ou às regras sociais de distribuição de alimentos. Comidas não são apenas sustento de humanos, mas alimento dos espíritos, que por sua vez alimentam os humanos

com sua sabedoria. A construção de uma casa podendo ser abordada como um mapa do universo, ou como o modo adequado de relacionar gerações distintas. Cada iniciativa encerra, portanto, motivações e disposições que atendem demandas locais muito precisas, mas são sempre pautadas pelas formas específicas de pensar e viver.

MOVIMENTOS E RELAÇÕES ENTRE TEMAS E INICIATIVAS

A

primeira sessão, que abrange iniciativas relacionadas às lutas indígenas pela terra, traz logo um ensinamento fundamental: “terra é de onde brota a cultura indígena”. Em terras reduzidas e destruídas, como percebem os Guarani e Kaiowá no Mato Grosso do Sul, e muitos outros povos, não se consegue viver feliz, pois os donos da floresta, das árvores, dos animais, se encontram “em estado de tristeza”, fracos e desrespeitados. Como já comentamos, terra não é um espaço inerte, florestas não configuram uma natureza apartada da vida humana, nem seus ocupantes são elementos apenas disponíveis para o consumo. São territórios ocupados por múltiplas gentes, espaços de desenvolvimento de múltiplos modos de vida. Na segunda sessão, dedicada às práticas de manejo agroflorestal, as contribuições e iniciativas indígenas evidenciam que, quando conseguiram escapar da destruição resultante de nossas práticas de desenvolvimento, as Terras Indígenas constituem ilhas de biodiversidade, contribuindo com a saúde do “planeta-meio ambiente”, como explica Davi Kopenawa. Isso porque a produtividade que interessa aos índios não é medida em quantidades, mas em qualidades. E pautada por boas medidas, como as enunciadas por Benki Pyianco: “primeiro nos alimentar, para depois poder alimentar os outros”. Cabe ainda lembrar que a sustentabilidade resultante dessas práticas agroflorestais decorre de trocas de

saberes, entre humanos e não humanos, entre diferentes grupos, incluindo a apropriação de saberes dos não índios, selecionados em função de sua capacidade de assegurar o bem viver. Reencontramos a mesma preocupação nas iniciativas reunidas na terceira sessão, dedicada à alimentação e culinária. Aqui, aprendemos que saciar a fome não depende tanto da quantidade de alimentos ingeridos, mas sobretudo da qualidade dos elementos escolhidos. O que é valorizado é a capacidade de cada alimento gerar corpos-pessoas distintas. A comida “faz” corpos, corpos bem nutridos fazem pessoas maduras, felizes, completas. Esse é o foco dos projetos voltados à recuperação da “alimentação de antigamente”, sempre caracterizada como “comida boa e saudável”. Em todo lugar, a boa alimentação é potencializada por outros modos de cuidar do corpo: pinturas com urucu e jenipapo, ornamentos, banhos, tratamentos diversos. A fome, portanto, não diz respeito apenas aos alimentos, mas à busca de sabedoria, à capacidade de se relacionar com todos os habitantes da “terra-meio ambiente”. O desequilíbrio nessas relações gera fome, suscitando reflexões profundas dos autores indígenas deste livro a respeito do enfraquecimento dos corpos dos jovens que partem para a cidade, dos efeitos da bolsa família, da introdução de alimentos industrializados nas aldeias. Adensando essas reflexões, os projetos e a entrevista apresentada na quarta sessão, dedicada à saúde, prossegue na mesma direção. Aqui, aprende-se que corpos saudáveis são corpos adequadamente conectados a princípios espirituais. A separação entre corpo e alma não fazendo sentido para os ameríndios, adoece-se de saudade, de tristeza, e inversamente, ter saúde é estar alegre. Já, festas promovem a alegria de estar juntos, quando a potência dos cantos e dos corpos enfeitados cura. As iniciativas deixam claro que mesmo quando comunidades se apropriam de procedimentos de nossa biomedicina, sua utilização, nas práticas cotidianas mantêm essa forte ligação entre todos os elementos da pessoa, vinculada por sua

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Yawalapiti, MT / foto: Renato Soares

vez a outros elementos e seres do universo. Práticas, enfim, que não estão apenas centradas no indivíduo, mas voltadas ao bem viver. Segue-se para a quinta sessão do livro, em que ritos de iniciação, reuniões de lideranças, pajelanças, pescarias, refeições coletivas, são apresentados como diversificados modos de estar “em festa”, apagando diferenças entre o que se costuma separar como profano e sagrado, entre trabalho e lazer. Pois, entre os ameríndios, faz-se uma festa a partir do desejo de fortalecer relações adequadas entre pessoas, entre humanos e não humanos, entre vivos e mortos. André Drago, em seu texto de abertura da sessão mostra como a festa conecta, rememora, relaciona. Aliás, festas, como tantas outras práticas indígenas, são sempre apropriadas de fora: aprendidas com gente-pássaro, com gente-peixe e muitas outras gentes. “Legiões de espíritos, de animais, de insetos, de plantas...” sejam eles os yuxibus convidados pelos Caxinaua, os yakiariti a quem os Enauene-Nawe oferecem peixe, os yãmiyã convidados pelos Maxakali continuam dançando e festejando, como fazem os humanos. Esse interesse aguçado dos índios pela comunicação entre diversas gentes, volta à tona na sexta sessão, que aborda os contextos e estratégias para valorização da diversidade das línguas indígenas no Brasil. As iniciativas e depoimentos deste bloco mostram que, para essas comunidades, língua não é uma entidade separada da cultura, veículo de saberes e práticas. Perder a língua significa perder modos de conhecer, de explicar e de dizer o mundo. Por este motivo, os povos indígenas preocupam-se em garantir contextos favoráveis ao uso de suas línguas, ao lado da língua portuguesa. Na mesma sessão, o depoimento de Andila Kaingang consiste numa aguçada reflexão sobre os efeitos da escola. O modo como é operada a passagem do ensino na língua materna para o ensino em português não só desvaloriza as línguas ameríndias, como aniquila a riqueza dos saberes locais. Como quaisquer línguas, as línguas

indígenas são capazes de dizer tudo, e por isso devem ser usadas em todas as etapas da formação, consolidando modos próprios de organizar conhecimentos. Este é também o mote da sétima sessão, dedicada aos modos de saber. Nesta sessão, evidencia-se que a diversidade dos conhecimentos não reside nos conteúdos – separando por exemplo conteúdos indígenas e não indígenas – mas nos modos de aprender, nos modos de ensinar. Assim, mesmo que as iniciativas ali apresentadas foquem objetos de conhecimento específicos (histórias, mitos, cantos, festas, etc.) a preocupação dos proponentes está sempre relacionada ao contexto em que esses saberes são enunciados, pois é o jeito certo de transmitir e fazer circular conhecimentos que garante a sua continuidade. Ensinar é fazer circular, transformando, e essa transformação constitui um aspecto essencial na continuidade das culturas. Na oitava sessão, reencontramos a importância das trocas, como fundamento das expressões artísticas indígenas. Trocam-se bens, comidas, pessoas, conhecimentos, substâncias. Por isso, o que chamamos de ‘arte’ em nossa sociedade não é um domínio separado na vida indígena, cujas expressões artísticas se desenvolvem em múltiplos contextos, rituais ou cotidianos, não se limitando a produção de objetos específicos, mas a modos de fazer e de usar, criteriosamente avaliados conforme padrões estéticos específicos. As contribuições indígenas apresentadas na nona sessão explicitam a íntima relação entre modos de construir e modos de vida. A construção de casas familiares, de habitações coletivas ou de centros comunitários dizem muito a respeito das relações sociais valorizadas por estes povos. Como indica Valéria Macedo em seu texto de abertura, podemos pensar a cultura como também feita de paredes, portas e aberturas, que materializam construções invisíveis que são histórias, conhecimentos. Os materiais da construção evidenciando por sua vez relações entre pessoas, sejam deste mundo ou de outros

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iniciativa nº 417 – Resgatando e reinserindo os moços jeripankós na

celebração dos rituais, AL

mundos onde vivem espíritos, encantados e muitas outras gentes. As construções, para os povos indígenas, são feitas de relações, que aproximam gerações, possibilitam diálogos entre grupos indígenas, entre índios e não índios. Na última sessão deste livro, dedicada aos usos indígenas das tecnologias de comunicação, verificamos como as práticas de registro amplamente difundidas entre os índios possibilitam o fortalecimento cultural. De fato, os registros não são feitos apenas para “guardar”, mas para produzir, transformar e atualizar saberes, que deixariam de existir se não fossem colocados em circulação. Neste bloco, os autores indígenas explicitam sua consciência de que registrar saberes não significa vivê-los no cotidiano. Motivo pelo qual a maior parte das iniciativas busca aproveitar o processo de registro para acionar e atualizar práticas culturais. Como explica Tatiane Klein em seu texto de abertura: “mídias indígenas têm muito a nos ensinar”. Os índios identificaram nessas tecnologias sua capacidade de produzir relações, revertendo preconceitos.

iniciativa nº 807 – Centro Samakey - Valorização das medicinas e do artesanato

Yawanawá, AC

CAPACIDADE DE TRANSFORMAÇÃO EM ESTILO PRÓPRIO

P iniciativa nº 364 – Yaõkwa, Lerohi e Kateoko, Enawenê-nawê, MT

ara encerrar, é preciso reiterar a relevância das contribuições indígenas à problemática da “tradição”. Tanto as entrevistas como os textos das iniciativas aqui publicadas evidenciam formas corajosas de enfrentamento, em prol da continuidade de modos de conhecer, de pensar, de viver. Ao invés de escamotear os impactos das transformações sociais, ambientais e econômicas a que vêm sendo submetidos, sofrendo invasões em seu território e perdas na sua qualidade de vida, apesar de sua crescente dependência da economia regional e de práticas assistencialistas desconexas, todas essas comunidades estão

fortalecendo seu interesse e sua capacidade de gerenciar atividades de valorização cultural, articulando o novo e o tradicional. Sem dúvida, podemos concluir com eles que “cultura” não é um repositório de coisas do passado, mas um movimento prospectivo rumo a um futuro mais respeitoso das diferenças culturais. As iniciativas mostram que a tradição é uma relação, um elo cuidadosamente construído por cada comunidade com suas práticas culturais. Um jeito de atribuir valor aos saberes considerados próprios, que não representam necessariamente o passado, o antigo, mas podem surgir de novas práticas. São o produto de atualizações constantes nos acervos e nos modos de fazer de cada povo, o resultado de histórias peculiares. É esse jeito de atribuir valor à “tradição” que constitui a maior riqueza das culturas indígenas, que lhes garantiu passar por transformações ao longo de séculos, às vezes abruptas. Procurando manter um modo de ser, de pensar e de viver que é especifico. Multiplicidades indígenas que só serão aniquiladas por políticas de integração, assimilação ou inclusão, cegas à riqueza cultural que não apenas os índios, mas todos nós iremos perder. Como testemunham os autores indígenas deste livro, essa capacidade de transformação em estilo próprio ainda não foi derrotada. Sem dúvida, porque o diálogo entre conhecedores e aprendizes continua sendo a relação privilegiada para o fortalecimento cultural. Velhos e jovens dialogando, tomando consciência da complexidade de seus saberes e avaliando as causas do abandono de muitas práticas tradicionais. O resultado desses diálogos, que ressoam hoje em todas as aldeias indígenas, não é o “resgate cultural” – uma vez que práticas culturais não são passíveis de resgate, transformando-se continuamente – mas um novo elo entre as gerações, do qual depende a continuidade dos modos de vida que esses povos desejam levar para o futuro.

Todos os componentes deste livro – textos de apresentação temáticos, entrevistas, resumo das iniciativas indígenas – foram produzidos por uma pequena equipe de pesquisadores vinculados ao Centro de Estudos Ameríndios da Universidade de São Paulo, em colaboração com Maurício Fonseca. O trabalho em equipe permitiu pautar entrevistas e textos de abertura de modo a consolidar um olhar transversal entre as linhas temáticas que organizam este livro. A edição dos textos de autoria indígena possibilitou a todos uma oportunidade inestimável de aprendizado. Participam da equipe coordenada por Dominique Tilkin Gallois: Ana Yano, André Drago, Joana Cabral de Oliveira, Juliana Rosalen, Leonardo Viana Braga, Lilian Abram dos Santos, Luis Donisete Benzi Grupioni, Spensy Pimentel, Tatiane Klein e Valéria Macedo. Participaram também da equipe de entrevistadores e editores de texto: Alice Haibara, Mara Vanessa F. Dutra, Maurício Fonseca, Naiara Tukano e Tatiana Amaral.

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"VOU CONTINUAR LUTANDO PELA NOSSA TERRA. LUTANDO PELO NOSSO RIO. LUTANDO PELA NOSSA CULTURA" Ouça branco, preste atenção. Quando eu era deste tamanho, eu costumava dormir no braço do meu pai, assim. E ele me contava: “você vai crescer diferente dos seus irmãos. Eles brigam muito, você não. Você se dá bem com as pessoas. Você vai ser amigo de todo mundo, você vai manter o nosso povo unido (...) Um dia, no futuro um outro povo vai chegar aqui, um povo diferente, um povo desconhecido, e eles serão capazes de exterminar com a gente. Você quem vai manter o nosso povo unido”. Então desde pequeno eu já sabia. Então, branco, branco começou a matar, e foi aí que começou a guerra. RAONI METUKTIRE, 2012

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Raoni Metuktire / foto:Renato Soares

líder indígena Raoni Metuktire é conhecido, no cenário nacional e internacional, como um importante defensor dos direitos indígenas e da proteção das florestas. Os Mebengokre (Kayapó), povo do qual este líder faz parte, estão situados em aldeias espalhadas pelos estados do Mato Grosso e do Pará e encontram-se divididos em subgrupos, sendo que Raoni pertence ao subgrupo Metuktire. Raoni teve um papel fundamental em diversos episódios da história indígena e sua luta persiste até os dias atuais, destacando-se a sua mobilização

contrária à construção da usina hidrelétrica de Belo Monte – a qual está afetando negativamente o modo de vida de vários povos indígenas e de ribeirinhos, causando diversos problemas socioambientais, – e pela demarcação da Terra Indígena Kapôt Nhinore (PA), território ancestral que há mais de 30 anos é reivindicado pelo povo de Raoni. Em 1953, os Villas Boas fizeram seus primeiros contatos com os Metuktire. Raoni, que na época tinha 24 anos, foi o primeiro Metuktire a aprender falar português, sendo nomeado “capitão” pelos irmãos Villas Boas na aldeia de Porori, no Parque do Xingu. Raoni foi o principal intermediário com esses administradores no Parque até a aposentadoria deles. Em 1964, encontrou-se com o rei Leopoldo III da Bélgica, que estava em expedição pelas reservas indígenas no Mato Grosso e, em 1978, foi tema de um documentário indicado ao Oscar. O aumento do interesse dos meios de comunicação brasileiros pela questão ambiental fez dele um porta-voz natural da luta pela preservação da Floresta Amazônica. No ano de 1971, Raoni e os Metuktire destacaram-se na mídia em razão da sua resistência à construção da estrada BR-080, que amputou a porção setentrional do Parque Indígena do Xingu, onde moravam. Em 1984, Raoni encabeçou a reivindicação pela demarcação de parte do território Mebengokre à margem direita do rio Xingu. Tal demarcação correspondia a uma promessa não cumprida do governo


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Rio Xingu, 2011 / foto: Renato Soares

Obra para construção da usina de Belo Monte, 2013, Altamira, PA / foto: Alice Haibara

Lideranças indígenas em manifestação na Rio+20, 2012 / foto: Alice Haibara

federal. Os Metuktire exigiam também a demarcação do cerrado (que corresponde a seu território ancestral denominado kapoto). Raoni e os Metuktire bloquearam por mais de um mês a estrada BR-080, no norte do Mato Grosso. Depois de tal episódio, Raoni foi a Brasília e no gabinete do então Ministro do Interior, Mario Andreazza, selou um acordo relativo às suas reivindicações (o governo concordou em expropriar uma parte da área exigida pelos Metuktire, na beira leste do rio, e o kapoto foi decretado área de ocupação indígena, tendo sido homologada, posteriormente, em janeiro de 1991). Nesse momento, Raoni deu um puxão de orelha em Andreazza e lhe presenteou com uma borduna, configurando uma imagem registrada pela imprensa e que se tornou emblemática da luta de Raoni pelas causas de seu povo. Raoni disse ainda a Andreazza: “aceito ser seu amigo, mas você tem que ouvir o índio!”. Cabe enfatizar que a recuperação do kapoto representou uma grande conquista, sendo que o reconhecimento legal da área encerrou anos de conflitos com o governo. Em 1987, Raoni alcançou notoriedade internacional, participando da conferência em São Paulo da Anistia Internacional. Raoni teve uma atuação bastante significativa durante o processo da Assembleia Constituinte entre os anos de 1987 e 1988, participando de várias mobilizações por garantia de direitos na Constituição de 1988. Após muitos debates e ações que contaram com a participação ativa do movimento indígena, foram garantidos, com essa Constituição, os direitos fundamentais dos povos indígenas, em particular com respeito às suas terras. Em fevereiro de 1989, Raoni e outras lideranças indígenas realizaram o Primeiro Encontro dos Povos Indígenas do Xingu, em Altamira (PA). Neste evento, protestou-se contra a construção do Complexo Hidrelétrico do Xingu (que incluía a usina Kararaô, hoje chamada de Belo Monte), contando com a presença de centenas de índios de diversos povos, da mídia nacional e internacional, de ambientalistas, de lideranças como Ailton Krenak e

Marcos Terena, de autoridades como o então diretor da Eletronorte (Antonio Muniz Lopes) e, ainda, do cantor inglês Sting, de quem Raoni obteve apoio contra a obra. O evento teve repercussão mundial e foi encerrado com a exigência de revisão dos projetos de desenvolvimento para a região do Xingu, através da Campanha Nacional em Defesa dos Povos e da Floresta Amazônica e com o lançamento da Declaração Indígena de Altamira. A obra foi então temporariamente paralisada, porém retomada no ano de 2010. Ainda no final da década de 1980, Raoni e Sting empreenderam uma viagem por vários países, em uma campanha em prol da demarcação dos territórios indígenas e em oposição à construção de Belo Monte. Como resultado do auxílio internacional angariado por Raoni, foram criadas organizações não governamentais com vistas a proteger as florestas e os Mebengokre, como a Rainforest Foundation e a Fundação Mata Virgem, sua filial no Brasil. Em 1992, a Fundação Mata Virgem financiou a demarcação, liderada por Raoni, da Terra Indígena Mekragnoti (PA). Em 2001, os Kayapó, sob a liderança do Cacique Raoni, fundaram o Instituto Raoni, cuja prioridade era a demarcação dos territórios Kayapó, que estavam sendo ameaçados por invasões. Recentemente, Raoni obteve também o apoio de outras celebridades contra a construção de Belo Monte, a exemplo do cineasta canadense James Cameron, que visitou Altamira (PA) em 2010 e em 2011, e do ex-presidente da França Jacques Chirac, o qual o líder indígena conheceu em viagem à França, com o objetivo de divulgar sua causa, em 2010. Raoni tem também participado de vários protestos contra a obra, tendo, por exemplo, liderado um grupo de indígenas, durante a Rio+20, a cerca de um quilômetro da conferência da ONU sobre desenvolvimento sustentável. Assim, a trajetória de luta desse líder faz dele um ícone, mundialmente reconhecido, da reivindicação pelos direitos indígenas e da resistência contra a violação de tais direitos.

“Vocês são meus filhos e netos. Hoje estou aqui ouvindo vocês falarem. Isto está me deixando mais forte. Mais forte para continuar lutando. Mesmo velho, vou continuar lutando pela nossa terra. Lutando pelo nosso rio. Lutando pela nossa cultura. E só vou parar quando não estiver mais neste mundo. Eu quero ver, se vocês vão fazer o mesmo depois que eu morrer.” RAONI METUKTIRE, 2012

— FONTES “Raoni Metuktire”, por Roberta Neves, 2012. Site: Prêmio Culturas Indígenas 4ª Edição Raoni Metuktire. www.premioculturasindigenas.org “Mensagem Raoni”. 2014. Instituto Raoni, Colíder, MT. Trechos de falas de Raoni extraídos do filme: “Belo Monte: anúncio de uma guerra”. Brasil, 2012. Direção André D’Elia. Empresa produtora Cinedelia.

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COMO FORMIGUINHA NA BOCA DA COBRA GRANDE... Entrevista com Davi Kopenawa

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s palavras de Davi Kopenawa já ressoam pelo mundo afora, cheias de sabedoria mas sobretudo de refinadas críticas ao modo insensato como os brancos destroem o “planeta-terra”, a “terra-meio ambiente”, “raspando a floresta” com suas máquinas pesadas. Davi teve, ao logo de sua vida, múltiplas experiências de convivência com não indígenas, tanto nas aldeias como na cidade, para alimentar suas ricas análises em torno de efeitos devastadores dos projetos e práticas de “desenvolvimento”. Conviveu com missionários evangélicos da Novas Tribos do Brasil, depois trabalhou na FUNAI, circulando por várias regiões da área yanomami e em várias cidades amazônicas. Na década de 80, foi testemunha da invasão maciça de garimpeiros, da brutal devastação dos rios e florestas, do alastramento de epidemias nas aldeias matando 10% da população yanomami. Davi opta então por se tornar xamã e essa nova experiência amplia sua capacidade de analisar o drama vivenciado não apenas por seu povo, mas por todos os povos indígenas. Junto com os pajés de sua comunidade, Davi elabora uma poderosa explicação a respeito

iniciativa nº 874

Xapiri: Valorização do Xamanismo Yanomami, Povo Yanomami, RR

do cataclismo – a queda do céu* – que as práticas destrutivas dos brancos irão causar, se não mudarem de rumo, se não forem capazes de ouvir, compreender e respeitar as palavras dos pajés que, como faz Davi, reportam os avisos dos xapiri, espíritos e donos das florestas que, como ele nos explica nessa entrevista, são cuidadores desta “terra-meio ambiente”. A entrevista com Davi foi realizada no Sesc Pompeia, em São Paulo, em junho de 2014. Foi conduzida por Dominique Tilkin Gallois, com a colaboração de pesquisadores do CESTA-USP (Joana Cabral de Oliveira, Leonardo Viana Braga e Alice Haibara) e de Maurício Fonseca. Dário Vitório Kopenawa, filho de Davi, estava presente e contribuiu com a conversa. Tínhamos preparado dez perguntas, relacionadas aos eixos temáticos desta edição do Prêmio das Culturas Indígenas, e explicamos que ele poderia responder ao que lhe parecia importante, ou introduzir outras questões. Assim, Davi nos ofereceu reflexões aguçadas a respeito de problemáticas que o preocupam muito atualmente, especialmente as relacionadas aos rumos tomados pelos jovens indígenas.

*  Título do livro recém publicado por Davi Kopenawa e Bruce Albert (La chute du ciel : paroles d’un chaman yanomami. Paris : Terre Humaine, Plon, 2010).


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iniciativa nº 874 – Xapiri: Valorização do Xamanismo Yanomami, Povo Yanomami, RR

DOMINIQUE  Davi, você poderia nos dizer por que, para os índios, a questão da terra, o cuidado com os ambientes, é tão importante? DAVI KOPENAWA  Então, sobre a terra-meio ambiente, para nós todos, povos indígenas do Brasil, é muito importante em primeiro lugar a terra. O mais importante é termos nosso lugar para morar, comidas, águas, a riqueza da terra. Eu tenho o conhecimento de que a terra-meio ambiente é muito importante para todos os povos indígenas do Brasil. Mais importante que dinheiro. Importante, a terrameio ambiente que guarda a nossa sabedoria, a nossa saúde. Quatro pontos que já são muito importantes. A saúde, que vem atrás do meio ambiente. E nós, o meu povo Yanomami, já aprendeu faz tempo, já conheceu como a terra-meio ambiente funciona, e traz benefícios para nós. Não é só comida, é riqueza da chuva, riqueza das frutas que nascem, que chegam a cada ano, a cada mês. E nossa riqueza da terra-meio ambiente, que guarda nosso alimento. Alimentos diferentes. Caça, pesca, os rios, os igarapés, os animais, pássaros, espírito da floresta, espírito da montanha. Que nós, Yanomami e povos indígenas, chama Mãe terra. Então ali tem a nossa alimentação, o nosso alimento que a gente recolhe, a fruta, açaí, buriti, castanha, ingá, e outros que a gente usa, caranguejo, camarão, que a natureza cria.

casas parecem como uma pedra, parecem uma montanha. E aparece cidade que saiu do chão da terra. Então eles pensam diferente, muito diferente de nós, porque os brancos ficaram com o pensamento só para fazer o que não procede, sempre só assim. Como eu falei. Avião, quando tá novo, é bom, voando, quando ele fica velho, ele fica jogado como lixo. E carro também é a mesma coisa, quando o motor é novo, ele funciona bem, quando o motor fica velho, fica jogado, vira lixo. Nós, povos indígenas, somos diferentes. O meu povo não precisou – até hoje não precisa – mudar a ideia, mudar de direção. Nosso pensamento é que um primeiro Yanomami se chama Omama, que ensinou nossos caminhos, os caminhos bons, os caminhos de paz. Nós, povos indígenas, nós escolhemos, tem muitos caminhos, o esquema da política nosso tem muitos caminhos. E os índios querem ir atrás de avião também, carro, emprego, arranjar um machado, terçado, anzol, eles têm esse pensamento. Antigamente, nosso pai, nosso tio, pensavam assim: é melhor preservar a nossa natureza, não destruir, porque não tem outro mundo pra gente mudar. Aqui no Brasil, existe a Floresta Amazônica, então nós não precisamos nos destruir, nós precisamos é plantar. Plantar roçado para ter comida. A nossa paixão é comida: banana, macaxeira, batata, pupunha. O meu povo, Yanomami, é trabalhador, pescador e caçador e faz grande festa. Então, Omama deixou pra nós, para viver nessa terra.

fazer coisa que não serve para nada. Importância que nós damos à terra, a terra que é rica – não é rica de dinheiro, é rica de saúde. Saúde para as plantas. A saúde das plantas que a gente planta na terra. E deixa nascer, porque a terra não precisa molhar, como o branco molha, usando a água, porque a terra já é úmida e abaixo da terra tem água. O meu povo Yanomami não precisa fazer tudo como os brancos usam, nosso uso é diferente, com muito cuidado. Nós sabemos que vamos voltar pros lugares depois, nossos filhos, outra geração. Quem guarda a sabedoria são os pajés, os pajés, xamãs guardam a sabedoria tradicional. Omama ensinou assim: “olha, vocês são Yanomami, tomem muito cuidado, porque árvore morre uma vez, como nós morremos, você não pode derrubar muito, se derrubar, não vai voltar. Essa árvore grande, derruba para fazer isso aqui, ela tem uma vida, Omama é que plantou. Ele é o primeiro indígena, que surgiu junto com a terra para nós, os índios Yanomami, viver. Não é para desmatar, não é para derrubar e raspar como o branco raspa, com trator grande. No trator tem uma lâmina bem pesada para raspar a pele da terra. Não é assim que o nosso criador ensinou, não. Nós estamos preocupados ainda com o brasileiro não índio que não aprendeu ainda não. Eu acho que outros que estão nascendo, começando a estudar, começando a falar bonito, mas não sei se estão realmente preservando a natureza, não!

D  Por que, para os brancos, é tão difícil escutar essa tua fala? DK  Pois é, os brancos estão difíceis! Está difícil eles nos escutarem. Eles são europeus, eles vieram refugiados. Lá na Europa teve muita briga, por causa da terra, por causa de lugares, morreu muita gente. Então eles vieram procurando lugar onde parar. Aqui no Brasil, quem habitava, quem habita até hoje são os índios. Então aqui eles são diferentes, os brancos são diferentes e já estão acostumados a vir derrubando as árvores, destruindo, fabricando carros, aviões. As

D  Falando de roça, parece que os brancos estão começando a reconhecer que os índios têm uma agricultura muito rica, o IPHAN, do Ministério da Cultura reconheceu, registrou o sistema agrícola dos índios do Rio Negro como patrimônio do Brasil. Então, parece que eles estão começando a entender. O que você acha? DK  Eu acho que eles estão começando a escutar, estão começando a olhar na direção da nossa sabedoria da terra. Eles estão entendendo, escutando o que a gente fala pra eles, esse não índio que só quer

D  A Constituição agora tem 26 anos, foi a Constituição que consolidou direitos para os índios. Você acha que tem alguma coisa boa que aconteceu nesses últimos 26 anos? E tem perigo agora de perder esses direitos? DK  Do nosso lado, dos povos indígenas do Brasil, aconteceu uma coisa boa, que a gente precisava: a homologação da Terra Indígena Yanomami, a homologação da Terra Raposa Serra do Sol e outras demarcações da terra Kayapó, Xavante. De outros parentes Guarani, está faltando. Este lado está

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muito triste. Mas o outro lado foi muito bom, nós conseguimos ganhar um pedaço da nossa Terra Yanomami de volta. D  Mas e agora, tem algum perigo? DK  Agora tem mais uma cobra grande. Matamos a cobra grande, mas tem outra cobra grande, está aparecendo de novo. O que que é mais perigoso para nós todos? Para o branco, o negro e os indígenas que moram nesse planeta tudo é mais perigoso. Mais perigoso porque vai ter mineração, hidrelétrica, a bebida e a doença, estão cada vez mais chegando. Vão deixar fazer mineração. Os governos nacional, local e o governo mundial, estão criando outros problemas, para deixar mais brigas entre todos. A mineração vai chegar nas Terras Indígenas. Então, isso é muito perigoso para nós indígenas, é muito perigoso para a natureza, para as caças, os peixes, os rios e as terras. A terra vai ficar destruída: as nossas florestas, a Floresta Amazônica. A floresta é um pulmão do mundo. Eu chamo a floresta de pulmão do mundo. Como nós temos pulmão para respirar. É nessa direção, nesse ponto, que o homem branco não está enxergando. Ele não está enxergando onde a terra respira. A terra está respirando. A terra respira e nós respiramos junto com ela. E tecnologia: vocês têm tecnologia, você está aqui como máquina, computador. O que que tem um motor? Combustível, vela, tudo. Então pra nós, o pulmão do mundo, ele tem um próprio coração que está no centro da Terra Yanomami, na terra do Brasil. Então, assim que eu aprendi junto com o meu grande pajé. D  Você estava falando agora que um dos problemas é a bebida. A outra pergunta que gostaríamos fazer para você, é que a gente sabe que em muitas famílias, casas, aldeias indígenas, não só Yanomami, mas pelo Brasil afora, está entrando muita comida industrializada. O que você acha deste problema e como é que poderia resolver, se é que pode resolver? DK  Então, eu estou começando assim a me sentir muito triste, com muita preocupação. A alimentação

da cidade está entrando realmente. Estes alimentos que estão entrando e os indígenas, nós indígenas, assim, jovens, jovens lideranças estão se aproximando. Porque o governo, esse nosso governo, está dando alimento. Alimento como isca. O governo federal já deu a isca para os índios. Esta isca é um anzol grande, acho que vocês já viram um anzol grande para pegar peixe, peixe grande. Então aí que nós entramos, com esta preocupação, muita preocupação. O governo federal criou, esqueci o nome, a palavra, o benefício social. O benefício social já entrou na porta da comunidade. O governo, FUNAI, Ministério da Saúde, os militares que levam a comida para estas comunidades. Então aí o não índio fica dando comida. Dão farinha, dão arroz em troca de nosso assassinato. Então é isto que se chama isca. A isca assim, manipula. Isto é muito perigoso. D  Por quê? DK  Porque nós não conhecemos. O benefício social é Bolsa Família. Eu chamo de “Bolsa Preguiçoso”. A “Bolsa Preguiçoso” que o governo federal criou é uma armadilha, usa como se pega piaba. D  E aí, o que que acontece depois? DK  Então aí, ele tem essa Bolsa Família, aposentadoria, mas isso aí é sem o transporte. O governo não deu o avião para transportar, levar de volta. Os índios compram e não leva de volta, não tem o transporte. O governo, FUNAI, não deu um barco bom, para ir, para voltar, comprar mercadoria da cidade, não tem. Teria de ter uma canoa boa, para índio vir comprar com o dinheiro da aposentadoria dele. Uma casa para dormir. Um amigo de confiança para dar uma ajuda para ele, aqui na cidade. Quando índio chega aqui na cidade ele não tem um amigo bom para dar apoio para ele, para dar comida, para dar um lugar para ele dormir. E para ele voltar, não tem transporte, não tem. Então eu falo assim: o governo é uma traíra, é um traidor, né. Ele atrai o nosso indígena para o indígena gostar, gostar dele. Para dizer: “o governo é

muito bom, ele dá uma comida, um transporte”, mas no fundo, no fundo, nós não conhecemos o que o governo está fazendo. Ele está achando bom que nós estamos entrando como formiguinha. Nós estamos entrando como formiguinha na boca da cobra grande. Para engolir todo mundo. E para a gente voltar para a aldeia? Quando acostuma aqui, índio morando aqui na cidade, aí não quer mais voltar, não! E como se cria cachorro: se der todo dia comida para ele, ele não vai caçar, não! Ele não vai voltar, vai ficar sempre... Então assim que o governo faz essa manipulação. É com isso que estou muito preocupado. Estou preocupado, porque nossos filhos, nossa [próxima] geração, estão nascendo, estão crescendo. Eles vão entrar nisso, como os pais entraram.

mineração e outras pessoas que pegam. Então sobra muito pouco do nosso dinheiro. Não está funcionando direito nossa saúde do povo indígena. Mas uma parte está bem. Não está totalmente ruim não. Em parte nós estamos lutando: os filhos estão crescendo e nascendo. Mas uma parte está morrendo, por falta de medicamento de qualidade, remédio para verminose, remédio para o coração, remédio para a cabeça e remédio para câncer, este não tem. Hoje nós, povo Yanomami, estamos contaminados com a doença de câncer, não é mais malária não, agora é câncer, tuberculose, a malária e a pneumonia. Então o governo, ele tem que estar mais [presente], dar atenção básica. Mas tem muito dinheiro! Mas não sabe gastar direito, fica desviando, roubando, metendo a mão.

D  Como é que estão os cuidados com a saúde Yanomami? Como é que vocês cuidam da saúde? DK  Falando saúde para nós todos, povos da terra, deste planeta. Não é só para índio, não é só para o branco, é para todos. Então “saúde” é como o não índio botou nome no papel: “saúde”. É uma letra muito bonita, mas para trabalhar, tem muita gente que não quer trabalhar. Só quer trabalhar para ganhar dinheiro. A saúde do indígena, saúde de qualidade, para nós indígenas, nós não temos. Nosso povo não criou esta “saúde”. Nós criamos diferente: os pajés Yanomami. Para a sociedade de não índios a saúde não está bem, é muito pouco. Pra nós não tem, assim, saúde com qualidade. Não tem médico na terra yanomami, nas Terras Indígenas do Brasil. Não é só na Terra Indígena Yanomami não. [Não tem quem] fica andando, olhando, trabalhando e curando o povo indígena. Não tem. Não tem equipamento para examinar, para examinar sangue. Para ver a doença que é, que entrou no nosso corpo. E nós não temos um amigo que gosta de cuidar do nosso povo indígena do Brasil. Não temos, é muito corrupto. Não tem problema de dinheiro, tem muito dinheiro. O governo dá dinheiro. Nosso governo dá dinheiro, mas onde cai o dinheiro da saúde? Tem muitos corruptos que ficam esperando: fazendeiros,

D  No começo da tua fala, você mencionou o que é importante para os Yanomami, e você falou: festa. Por que a festa é importante? DK  A festa, o meu povo Yanomami, inventou a festa no começo do mundo, começo da terra. Então a festa é muito importante para nós todos. Para o índio e para o branco. A festa que nós temos para fazer é para dar muitas comidas. [Vai] caçar para fazer grande festa. E também quando a gente morre de doença da natureza, a gente faz um ritual. Um ritual para lembrar nossos parentes que morreram. Assim nós fazemos festa. Isso é muito importante, lembrar os nossos parentes que morreram. Então, nós Yanomami, fazemos festa para lembrar, como surgiu essa festa para nós todos, povos indígenas. D  E a festa faz bem para a saúde? DK  Sim, a festa faz bem para a saúde, faz alegria, [ficar] contente, pensar mais para trabalhar, pensar mais para plantar a alimentação do roçado e discutir mais para o ano que vem fazer outra festa para a pupunha, outro ano fazer festa de beiju, outro ano vamos fazer festa de carne, ou banana. Isso é muito importante para sempre lembrar, para sempre agradecer a nossa riqueza da terra. A terra que dá comida.

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Porque ela não dá assim na mão, mas ela dá energia boa para nascer, para deixar nascer as nossas plantas. É por isso que nós achamos muito importante a festa.

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D  Então a festa, ela faz alguma coisa, ela transforma alguma coisa. Faz a festa e acontece alguma coisa... DK  Fortalecimento da cultura indígena, para não deixar esquecer. E também ensinamento das nossas crianças, nossas [próximas] gerações, para sempre crescer a nossa raiz. Para não deixar apodrecer a nossa raiz. Isso é muito importante para nosso povo indígena do Brasil.

iniciativa nº 874

Xapiri: Valorização do Xamanismo Yanomami, Povo Yanomami, RR

D  A gente sabe que para vocês foi muito importante fazer o encontro de pajés. Gostaríamos entender por que foi importante, como é que aconteceu. DK  Bem, eu vou explicar, sobre xapiri, sobre esse aprendizado de pajé. Você falou que tem muitos brancos que querem aprender. Eles têm vontade de conhecer, vontade de ser pajé. Então, isso é muito difícil. Aprender nosso xapiri indígena, tem que saber falar primeiro. Conhecer a nossa língua, conhecer a nossa sabedoria, conhecer o nosso pensamento, para daí homem branco aprender nosso xapiri. É muito importante saber, não é fácil. Eu sou yanomami e sofri. Eu sofri porque quando os pajés nos ensinam, no início, tem deixar a comida, não comer carne, não comer peixe, não tomar banho e não ficar perto de mulher. Fica em silêncio. Não bebe água, nada. Essa inciativa de aprender xapiri da floresta é muito difícil para branco aprender. Mas ele pode pensar. Ele pode aprender a pensar, perguntar o que é xapiri, o que os pajés fazem. Xapiri é muito importante para nós todos. E xapiri vem de muito longe, de onde é o tronco do mundo. Como você chama, Sul. O tronco da Terra, é de lá que o pajé vem. Xapiri vem de lá. Até tem outro lugar, outro lado tem a cabeça, onde põe o Sol, xapiri vem de lá. Ali tem outro ponto. Então, esse é o caminho de xapiri que vem andando, vem viajando até onde os índios estão fazendo estudo de xamanismo. Xamã é muito difícil,

é perigoso. É perigoso quando chega perto da gente, quando a luz é bem forte. Ele tem uma espada muito grande, quatro metros de comprimento. Então, tem que tomar muito yãkoana para poder aprender. Você cheira no nariz. Tira toda a comida que está na barriga, limpa bem. Porque os xapiri, os pajés da floresta, das montanhas, do sol, da lua, do céu e da terra, não gostam de cheiro ruim, não. Eles não gostam de cheiro ruim. Então tem que se limpar primeiro, [durante] quinze dias. Quinze dias para começar a escutar a fala do xapiri, cantando, dançando. Então assim, nosso povo yanomami, aprendemos e conhecemos para usar. É muito importante. D  E o encontro dos pajés? DK  Então, o encontro dos pajés, nós fizemos, há quatro anos. Eu e meu filho pensamos, para fazer levantamentos, [para saber] por que pajé caiu. Os pajés lá estão caindo. Então, pensamos para fortalecer, lá no Demini. Aí foi assim, procuramos um pessoal da Alemanha. Os alemães conseguiram dinheiro para fazer o encontro dos pajés yanomami. Para trazer todas as pessoas. De Surucucu, Awari, Demini, Totootobi, Palaualu. De todos os lugares para fazer juntos lá, na nossa casa. Então isso é muito bom para a gente ficar assim, não deixar acabar. Porque tem um perigo também. Os perigos: as igrejas. A igreja está querendo acabar com nossos pajés. Evangelização, os padres também. Tem os católicos, tem a Missão Novas Tribos do Brasil e a MEVA1. Esses evangélicos não gostam de pajé, não! Eles falam que é pecado, eles falam que é espírito mau, que não presta. D  Mas eles conseguiram alguma coisa? DK  Não, eles não conseguiram, não. Por isso que eu defendi o xamanismo dos Yanomami, é muito importante.

1  Missão Evangélica da Amazônia.

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Dario Kopenawa Yanomami / foto: Leonardo Viana Braga

iniciativa nº 874 – Xapiri: Valorização do Xamanismo Yanomami, Povo Yanomami, RR

DÁRIO KOPENAWA YANOMAMI  Dentro da Terra Yanomami, foi uma ameaça muito grande. Aí aproximadamente dez, vinte, trinta pessoas pajés ficaram do outro lado, do lado da palavra de Deus. E aí nós percebemos, outras pessoas nos avisaram, que quem faz evangelização é MEVA e Missão Novas Tribos. Essas duas empresas entraram na Terra Yanomami. Principalmente na região do Novo Demini, lá acabaram totalmente os pajés. Ficou só uma pessoa. No Palimiu e em outras comunidades aconteceu muito isso. Até já saiu na mídia. Não sei se vocês já viram, Jornal Nacional, Facebook e outros indígenas falando sobre a evangelização nas Terras Indígenas. Essa política é muito muito difícil. D  Então, resolveram fazer o encontro de pajés? DKY  Vamos fazer, vamos buscar o dinheiro, vamos arrecadar o dinheiro, vamos pedir para nossos amigos financiarem o encontro desses pajés. Aí, foi muito bom, foi muito importante, nós chamamos outros pajés, mais fortes, mais conhecidos. Foi muito importante para nós. Aí também, a gente divulgou muito. Nas mídias, internet, Facebook, para chamar a atenção da sociedade não indígena. Se a gente não faz isso, nem faz esse encontro, aí continuam as evangelizações, a ameaça à natureza, matando a nossa religião da floresta. Isso é ameaça muito grande na terra yanomami. Mas outros indígenas também, por exemplo: Wapixana, Waiwai e todo o Brasil inteiro, nós, povos indígenas, fomos envolvidos com a palavra da evangelização, eu vejo isso. Na terra yanomami, muitos yanomami continuam sendo pajés, trabalhando e ensinando os jovens. E outros jovens estão interessados, se tornando pajés, e outros jovens querendo ser pajé. Está continuando até agora. Porque a gente divulgou muita imagem, foi muito bom, a gente yanomami e os não indígenas também ficam interessados, querendo conhecer qual é o nosso grande pajé. Algumas pessoas estão interessadas também, os estudantes também, querendo ser pajé. Querem conhecer. Conhecer em

profundidade o que significa xamanismo. As pessoas ficam muito interessadas. Também os jovens ficam muito interessados para ser pastor evangélico. É assim que nossos jovens, yanomami, entraram nisso também. Mas depois a gente faz campanha muito grande, muita produção de CD, divulgando, mandando para as comunidades. D  Teu pai explicou que é muito difícil virar pajé, não é? Em outros lugares, sabemos que os jovens não têm muita coragem para ser pajé. Então, lá na terra yanomami, os jovens estão interessados? DKY  Sim. Você tem que ser muito corajoso. Tem que ter muita energia forte. Você tem que ser muito preparado para entrar nesse mundo imaterial do planeta dos espíritos. Você tem que entrar mesmo. Mas você tem que ser muito interessado para conhecer: o que é xapiri, o que é ser pajé. Outros, na terra yanomami, não querem ser pajé, porque é muito difícil. Meu pai acabou de falar, você tem que deixar todos os alimentos, você não vai banhar, não vai namorar, não vai andar, não vai em outras comunidades. Você não fica perto da mulher. Aproximadamente quinze dias sem comer, depois mais quinze dias, você vai receber o espírito da floresta. É isso, o jovem tem que ser muito corajoso. É muito, muito, muito difícil mesmo. Porque os espíritos são imateriais. Comida dos espíritos, que chama yãkoana, é a árvore, é da flor que a gente pega o leite, seca e a gente toma. Não é ayahuasca, é diferente. É outro! Para o alimento dos espíritos, você tem que ser muito forte. Aí você conseguiu ser pajé. Outros jovens não têm [força], dizendo: “Ah! é difícil, não quero isso, porque eu quero namorar, quero viajar...” É assim, é o pensamento dos que não querem ser pajé. Por isso é muito difícil. Muito difícil. DK  Tem que ser yanomami mesmo, yanomami de verdade, com chave da aldeia. Ele consegue. Quem sai da aldeia para a cidade, não consegue. A chave da aldeia está lá, ele consegue. Ele consegue

conhecer o próprio mundo dele. É como universidade. Tem a escola, tem a universidade. Então é assim que o pajé yanomami aprende. No início, no começo, ele passa mal. MAURÍCIO FONSECA  Quanto tempo ele demora para aprender? DK  Então, eu fiquei dez dias. Dez dias sem comer. Dez ou quinze dias para começar a sonhar. Começar a sonhar, começar a olhar, começar querendo voar. Conhecer, começar a olhar o planeta. O planeta terra chama Urihi, universo. Aí eu comecei a enxergar. É assim que nós Yanomami aprendemos a ser pajé. Mas é muito bom, no começo é duro, mas depois, se passou, a gente gosta muito. Muito, muito bonito, você vai conhecer a alma da montanha, conhecer a alma do rio, conhecer a alma da terra, conhecer tudo o que existe no universo. O mundo parece pequeno, mas é grande. O mundo é grande, cheio de flores. Arara cantando, arara voando e os peixes andando. Dentro do universo tem muitas coisas boas, tem muita coisa perigosa também. Tem espírito que faz maldade, que mata. Tem espírito muito perigoso. É por isso que outros parentes, outros jovens, eles não têm coragem para enfrentar. No começo é assim, depois que passaram os quinze dias, é bom. LEONARDO BRAGA  Mesmo Yanomami tem dificuldade para aprender, você diz que para o branco é mais difícil. O Dário disse que é uma religião da floresta, agora você falou que tem que ser aprendido na aldeia. Então queria saber se se você vê algum problema em alguns indígenas virem ensinar o xamanismo na cidade? D  Penso que isso ainda não acontece com os Yanomami, mas acontece em outros grupos indígenas, você acha que isso é um problema? Vocês acham isso bom? DKY  Bom, a minha opinião, eu acho que a nossa cultura é uma cultura sagrada para nós. Acho que vai ter

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um problema para nós, para mim. O meu pai acabou de falar, Omama nos proibiu. Porque essa religião da floresta é só específica para os povos indígenas. Por exemplo, vocês têm essa específica religião. Religião de vocês tem isso. É um pouco difícil para nós. Isso não fortalece, talvez vá enfraquecer muito a nossa imagem do pajé das comunidades. Vai acontecer isso. Outros lugares querendo acabar isso. Porque a evangelização é muito grande. Tá chamando os pajés depois para se tornarem como pastores. É isso que vocês têm que ver lá: o outro lado. Para nós, na minha cultura, não pode. Não pode. Porque é nosso sagrado. É nossa cultura. A gente não pode ensinar para os não indígenas. Os nossos conhecimentos a gente pode ensinar, que é bom para vocês. Aquilo que é nosso segredo, a gente não pode ensinar. Não pode mesmo, porque é sagrado. Isso não pode. Os brancos querem pegar nossos conhecimentos, querem saber a realidade dos povos indígenas, tudo. Por quê? Principalmente os antropólogos. Os antropólogos estão escrevendo os conhecimentos dos Yanomami, dos povos indígenas. Eu vejo isso. Isso é um pouco perigoso para nós. A gente não pode dar o conhecimento para a sociedade não indígena. Porque é nosso conhecimento. D  Sim, mas se os não indígenas não conhecem, não é perigoso? Por exemplo a gente está fazendo esta entrevista para vocês ensinarem coisas para os brancos, a entrevista será publicada num livro para divulgação. Se os brancos não conhecem a vida, os conhecimentos dos Yanomami, não seria um problema também? Tem os dois lados, você não acha? Se não conhecem, aí eles nunca vão respeitar. DK  Nós somos Yanomami, falamos yanomami, chamamos xapiri, espírito da floresta. Mas o outro, o outro parente, Wajãpi falam diferente, mas eles são meus amigos, são meu povo. Mas eles falam diferente. Eles não falam yanomami. Se eu ensinar para eles, vai ter que falar minha língua. Língua dos xapiri. Se você quer, é difícil. É como o inglês. Se você é francês, falam inglês, você não entende. Então tem

que aprender para ser pajé. Se eu ensinar um jovem kayapó, levar na minha casa, ele vai aprender primeiro a nossa língua yanomami. Se eu levar um jovem xinguano na minha casa, para ser pajé, ensinar ele, vai ter que ser na nossa língua yanomami... Yãkoana, a gente tem que tomar yãkoana. Você já viu né, tem que tomar yãkoana, o alimento dos xamãs. Yãkoana soprando no nariz do aprendedor [aprendiz], ele não aguenta. Assim cinquenta vezes, cada semana tem que tomar muito. Tem que aprender a tomar yãkoana de manhã. De manhã começa até dez horas, depois para. Assim mais ou menos três horas começa, aí outro sofre... até seis horas. Até de madrugada. Então como nós somos Yanomami, sofre muito. Fica chorando, querendo voar, pensando que vai morrer. Xapiri, a energia do xapiri é muito forte. Muito forte para poder receber. Xapiri é muito importante para vocês não índio acreditarem o que eu estou contando. Para vocês que nunca viram xapiri nos sonhos, mas eu estou contando como é que é xapiri. Sem xapiri, nós não existimos. Tendo xapiri, na comunidade, xapiri é que protege. Não é só eu que estou protegendo, mas ele também protege. A nossa Floresta Amazônica está destruída. Então nós, cada povo indígena do Brasil, estamos tentando explicar como funcionam os pajés. Da onde é que ele vem, como é que ele vai morar. Não é só para estudar, não é só para tomar yãkoana. Tem que ter uma casa enorme, muito grande, muito pesada para ficar trazendo, de muitos lugares longe. Ele não vai morar aqui no meu peito não, ele vai morar em outro espaço. Mais alta [que essa] casa aqui, muito alta. Xapiri tem que ter uma casa dele. Eu moro aqui, eles moram aqui em cima da gente. É assim que nós aprendemos a trazer a casa dos xapiri espiritual da floresta. Sem casa ele não vem morar não, ele vai embora. Tem que ter uma casa para ele chegar, sempre chegando, ele vem longe, aí chega. Estamos estudando aqui yãkoana, tomando yãkoana, tem o professor. É assim que o movimento de xapiri funciona. Aqui em São Paulo temos amigos guarani. Mas eles nunca deixaram de falar [sua língua], reconhece

esse parente guarani, segurando a raiz. A cidade é grande. Fico pensando, poxa, esses Guarani, eles têm realmente uma raiz bem grande. Mas outros caíram. Se mora na aldeia, continua falando, continua fazendo xapiri dele. Então eu entro em contato com ele. Então tem que ter um amigo. O Guarani, o Yanomami e outros pajés. Para estar juntos contra a religião. Porque a religião está querendo acabar com a gente. Por isso que nós estamos, que eu estou lutando, não só lutar pela terra não, eu estou lutando pelos nossos pajés. Para os pajés cuidarem de nossos filhos. Sem os pajés, como é que nossos filhos vão ficar bons? O que que eu vou dar? Tendo o pajé, eu não vou precisar dar remédio. É assim que nós aprendemos a ser pajé. Os antigos que aprenderam a ter hoje, também têm a responsabilidade para não deixar esquecer. ALICE HAIBARA  Queria saber, se seria possível alguém que não é yanomami, aprender. Porque são várias coisas que acontecem no corpo, não é? Eu queria saber se tem alguma diferença, no corpo das pessoas. Se viesse outra pessoa que não é indígena, ou algum índio de outro povo. Se tem alguma diferença, se ele poderia ou não aprender, por ele não ser yanomami. DK  Como eu falei, o problema é [a] língua. Eles podem aprender xamanismo, pode, mas o problema é língua, nós somos língua Yanomami. Língua Xavante, língua Waiwai, ele não vai conseguir. E pajé, fala igual nós. Pra ele falar assim, quando ele canta, canto de arara, canto de macaco, Wajãpi não vai conseguir esse canto de arara, mas eu consigo. Se eu ensinar pra ele, um parente [outro indígena] meu, um não indígena, ele não vai conseguir. Não é problema de aprender, pode aprender sim, o problema é língua. O canto da montanha, fica aqui, então tem que escutar e cantar. Parente nosso, Kayapó, Xavante, não vai conseguir. Ele pode conseguir [fazer sons], mas é diferente, é canto deles. No Xingu também a mesma coisa, é diferente. Mas ele é meu amigo, ele é meu irmão. Todos indígenas é tudo parente meu, mas o problema

é a língua. Pra ele cantar, ele não vai conseguir, não. Isso é que eu estou falando, isso é que eu estou explicando. Tem outro canal! Canal de conhecimento do Yanomami é diferente. Outros povos indígenas do Brasil, ele conhece. Um pajé Xavante, Kayapó, Guarani, ele conhece o mesmo caminho, mas é um caminho diferente. Pra não índio aprender, tem que falar Yanomami, para olhar xapiri, pra escutar, pra cantar, acompanhar, é difícil. Se ele é Yanomami, mas ele fica 15 dias para cantar, pra amolecer, pra perder a vergonha, a timidez, fazer a prova, fazer treinamento, como treinamento de estudante. Vai fazendo prova até chegar no ponto. É assim que xapiri de Yanomami funciona. E tem que tomar yãkoãna também. Tomando yãkoana, para enxergar ele. DVK  E outra coisa, se você quer aprender, [como] meu pai acabou de dizer, você tem que entender o que a gente tá falando. E você assim fica muito forte, você tem que ter uma resistência, ficar cheirando todo dia, à noite, 24 horas sem dormir e sem comer. E você ficar passando mal, mal mesmo, sem comer. Você fica sujo, não quer banhar, tudo. Aí você realmente vai se enfraquecer mesmo, vai ficar magrinho, vai perder não sei quantos quilos. Aí você continua cheirando yãkoãna direto, aí se você conseguir entender o som dos xapiri... eu acho que pode aprender, mas a dificuldade é você entender a nossa língua Yanomami, esse é o problema. Mas o não indígena pode entender a imaginação, pode sonhar, mas não é real, é assim um sinal. Você pode sonhar com o espírito, mas é um sinal. Você não vai conseguir chegar a ele como o pajé, a essa conexão, não consegue compreender. Outros indígenas, se desde criança fica na minha comunidade – cinco anos, dez anos – aí pode aprender, ele pode se tornar como o pajé, porque ele morou na minha terra, aprendeu a falar nossa língua, aí ele consegue aprender. Se adulto, não, porque não fala nossa língua. Durante mais ou menos um, dois, três ou quatro anos ele pode aprender, a gente ensina ele a aprender, na nossa língua. Aí ele consegue compreender,

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junto com o som dos pajés, o xamanismo. Pode, mas é muito difícil. Extremamente difícil.

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JOANA CABRAL  Fiquei com uma curiosidade. Além desse deus dos brancos, tem outro deus? DK  Ele é Omama. Cada língua diferente chama de um nome diferente. Ele é Omama, criador da nossa sociedade Yanomami. O criador de vocês, da sociedade não indígena, se chama Yoasi. D  No teu livro, você explica que ele brigou com Omama, não é? DK  Ele brigou com Omama. Nasceu junto, cresceu junto, trabalhou junto nosso planeta, plantou a floresta, plantou os igarapés, plantou as montanhas. Depois ele ficou homem, começaram a discutir. Crescendo, ficando homem, aí ele disse “olha, você é meu irmão, eu sou homem, você é homem, então nós dois somos. Então, do jeito que você tá querendo fazer, eu não gosto, fica destruindo, destruindo a natureza”. Omama, ele fez bom, ele fez bem, para viver em paz. Não é para derrubar, não é pra destruir. Então, aí ficou brigando entre irmãos e mandaram embora. Então nós ficamos, Yanomami ficou, Omama ensinou. Até hoje, o meu povo Yanomami tá lá em Roraima, Amazonas. E outros parentes espalhados. Omama colocou pra cá, outro ali, para ocupar o espaço, nosso sítio do Brasil. Assim que o povo indígena do Brasil ocupou o espaço, antes de chegar europeu, os portugueses. O primeiro homem branco que chegou na beira do mar, [lugar] se chama Coroa Vermelha. Ali que Pedro Álvares Cabral pisou [n]as nossas terras. Já tinha Yanomami. Não, não tinha Yanomami não, já tinha parente meu, Guarani. Nesse tempo não tinha assim nome de cada lugar, nós tudo era Yanomami, chama o povo que habitou primeiro a nossa terra somos nós. E você perguntou...

iniciativa nº 874

Xapiri: Valorização do Xamanismo Yanomami, Povo Yanomami, RR

L  Se você viu outros deuses além do deus do branco. DK  Então, eu já vi. Muito longe. Não é só aqui que tem terra, tem outra terra. Nem eu, nem você nunca chegou até lá. Ali é lugar protegido. É Omama que

fugiu daqui dessa terra, ele tá morando em outro universo, outra terra. Eu já fui, mas eu nunca fui de avião não, eu fui atrás do xapiri. Eu já conheço, conheço o lugar. Nem ele [seu filho Dário] não conhece, porque ele não estudou ainda com yãkoãna. É lugar sagrado, lugar protegido, que Omama deixou separado para não ficar assim todo destruído. É Omama que ensinou na origem o nome, Yano-omama-i [...] Omama, ya-no-Omama, Yanomami. Então nós escolhemos essas letras, atrás de Omama, Yanomami. “Yano” é uma casa, a morada do nosso povo, a morada do povo “omama”, a floresta. A floresta é nossa casa, onde nós moramos, onde mora espírito xapiri. D  Os jovens como o teu filho estão estudando nas universidades e já tem escola nas aldeias indígenas. Então, parece que tem dois caminhos: ou tem escola comum do branco, ou tem escola diferenciada. Qual você acha melhor? A escola nas aldeias, será que consegue fortalecer o conhecimento dos índios? Será que a escola é o lugar para fortalecer os conhecimentos indígenas? DK  A escola, é não índio que inventou no próprio planeta terra. Eu já tentei experimentar [pensando] que vai dar certo. A escola não deu certo. A escola não deu certo! Tem dois caminhos que a gente fala. Tem o caminho bom e tem o caminho que não presta. E trazer muitas coisas na cabeça dos índios, quando estão jovens. Dentro desse caminho que eu falei, um caminho bom que eu pensava que trazia pensamento bom, foi buscar a escola especial yanomami, foi conseguir esse apoio com os noruegueses, pensando que a escola é bom. Mas uma parte foi bom, muito pouco. Aprender a escrever a própria língua yanomami, para não perdermos a nossa língua, o nosso pensamento. Eu escrevo própria língua yanomami, ele [Dário] também escreve. Então meus filhos aprenderam. E também aprenderam matemática. Os números, para o branco não nos enganar. Os brancos vão trazer dez terçados, quando o índio não sabe contar, o branco

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vai falar que tem dez terçados. Yanomami que não sabe contar, ele não vai contar né. É assim que branco vem nos enganando...

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iniciativa nº 874 – Xapiri: Valorização do Xamanismo Yanomami, Povo Yanomami, RR

D  E por que que a escola não deu certo? DK  [É] outro lado que não deu certo, porque a escola trouxe muito pensamento negativo: a escola trouxe pensamento de dinheiro. Aí, Yanomami não conhecia ainda o dinheiro, nenhum centavo nem dois reais, não sabia de nada. Então nesse lado que chegou o dinheiro na frente. Quem não conhecia dez reais, aí ficou com curiosidade de conhecer mais. Outra vez que vem, é cem reais. Essa é uma doença que entrou na cabeça dos nossos filhos. Os jovens estão preocupados. Todo mundo quer ganhar dinheiro. Eu ganho dinheiro e ele ganha dinheiro. Nossos filhos, nossos amigos todos, eles querem ganhar também como nós estamos ganhando. Então eu sei que a escola é a nossa dor de cabeça. DKY  Acho que o que acontece hoje em dia, os nossos aliados, os jovens não indígenas, eles têm que respeitar. O branco sempre fala: “respeitar”. Mas principalmente os jovens, os moleques, não querem saber de respeitar. É isso... nas universidades e colégios tem que se forçar muito para chamar a atenção dos jovens, para respeitarem. A gente, nós indígenas, respeita vocês. É bom hoje em dia, porque tem muitos jovens estudando na universidade, em São Paulo, em Brasília, Rio de Janeiro, Roraima e Amazonas, todos os jovens, estão estudando. Mas tem muito preconceito, acontece muita discriminação. Eu particularmente estudo na Universidade de Roraima.

Ilustração de Sérgio Macedo para o livro “Povos Indígenas em Quadrinhos”, Zarabatana Books, 2012

D  Você sente isso? DVK  Eu sinto muito. Lá, meu estado é anti-indígena. Não quer saber a cultura, não quer saber a fala dele [dos índios], não quer saber a realidade, como eles moram, o que eles acham. Sociedade não indígena só pensa que os indígenas são selvagens. É isso. É muito importante o futuro do povo Yanomami, o futuro da sociedade yanomami tem que ser conhecido. Ser

amigo, companheiro, conhecer melhor. Ser amigo e cuidar cada um de suas culturas. É muito bom isso. Vou dar um exemplo. Aqui você perguntou para meu pai a respeito da Constituição Federal que completou 25 anos, se continuou. Foi muito bom, maravilhoso, foram terras demarcadas, foi a educação e a saúde, foi muito bom. Mas por outro lado, não mudou, não. Desrespeitam muito as Terras Indígenas. Foram tomadas. Hoje, neste momento outros jovens foram capacitados, viraram mestrados, doutorados e viraram senadores, querendo acabar os direitos que estão garantidos na Constituição federal. É isso o futuro dos pensamentos dos não indígenas, estão querendo acabar isso. E isso, nós temos medo disso. Os nossos pais colocaram na constituição os direitos dos povos, tá aí. Mas estão querendo acabar os nossos direitos. Eles querem colocar outros problemas. Vão surgir muitos problemas dentro de nossas terras que foram demarcadas. Esse é o maior problema para nós. Mas nós, assim, hoje em dia, nossos antigos lutadores, antigas lideranças, não são respeitados. Não sei se você já viu, mês passado, semana passada, jogaram bombas, naquelas manifestações dos povos indígenas, isso é desrespeito muito grande. Até agora continua o preconceito. Continua a discriminação. É isso, hoje em dia. Tem de se conhecer melhor. Tem que mobilizar muito para poder mostrar nossa amizade para os não indígenas e acabar com o preconceito. D  Você sempre diz, em seu livro e também falou em palestras, que os brancos precisam reescrever tudo porque o pensamento deles é cheio de buracos. No site da Hutukara2 tem um desenho com um rapaz Yanomami que segura um arco e flechas, de um lado, e, do outro, segura um computador. Entendo que para vocês é importante registrar palavras, escrever, fazer filmes e livros. É isso? DK  Usar o computador para se comunicar com outro mundo. Essa arma é para defender o povo. Eu

sempre falo, que serve para o pensamento da cidade. Homem da casa daqui. Eu achei bom isso que meu amigo desenhou. Ele desenhou para ajudar a minha fala, para você entender. Para você entender melhor por que ele é não índio, então ele foi falar comigo, pediu permissão para fazer isso, eu autorizei. Porque ele viu o que não presta e o que é bom. Então ele desenhou um Yanomami, desenhou o cabelo cortado redondo, está certo. E a flecha na mão. E à esquerda, um computador. E homem branco trabalha aqui, destruindo a natureza, roubando nossa terra. Então índio que já aprendeu como ir para cidade, já sabe escrever, já sabe falar. Então este computador está na mão dele, ele pode comunicar para qualquer lugar. É assim que nós pensamos. Se nós, Yanomami, se nossos filhos não estão preparados, não vão se comunicar, não. Isso é importante, escolheu o caminho bom para nós nos defendermos e nos comunicarmos. Se defender e se comunicar como lá Nova York, lá na ONU. Lá na ONU é uma casa grande, muita gente que chega lá, que sai, sai notícia, sai o que acontece no mundo. Então assim nós pensamos, eu pensei e outros pensaram, pra mostrar pros não índios, pra branco não dizer que índio não sabe de nada, que índio não sabe se mexer, que índio não sabe se comunicar pro outro mundo. É para não falarem mais isso que nós queremos mostrar nossa inteligência. Índio não é besta, índio não é burro. Índio sabe escutar, sabe olhar, sabe ver o problema da nossa terra. Então esse computador vai transmitir para qualquer lugar, pedir socorro com a ONU. Porque a ONU é [que tem] responsabilidade, [em] qualquer lugar. A ONU não é para olhar só aqui [em] São Paulo, ela pode olhar as comunidades pequenas, até onde os fazendeiros estão destruindo, onde a mineração está destruindo as nossas casas. Então esse homem que está na imagem, ele vai se comunicar. É assim que nós fizemos pra vocês perceberem...

— 2  Organização representativa do povo Yanomami – www.hutukara.org

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— TERRAS, TERRITÓRIOS E AMBIENTES —

Manifestação organizada pela Comissão Guarani Yvyrupa / CGY, a favor dos direitos indígenas, Avenida Paulista, São Paulo, 2013 / foto: Alice Haibara


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TERRAS, TERRITÓRIOS E AMBIENTES —  25 INICIATIVAS INSCRITAS  —

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CULTURA, BROTO DA TERRA por Spensy Pimentel

N

uma das várias cenas memoráveis do filme “Terra Vermelha”1, o líder kaiowá Nádio ouve o discurso exaltado de um fazendeiro branco, falando sobre a importância de sua fazenda, reivindicada por um grupo de indígenas que monta um acampamento à porta da propriedade. Com olhar firme e sério, ele nada responde. Somente se abaixa, pega com as mãos um punhado de terra e o come, sem deixar de encarar o karaí – nome pelo qual os Kaiowa chamam os não indígenas. A passagem nos serve para lembrar um elemento fundamental na delicada equação que proporciona às comunidades indígenas a reprodução de suas culturas. Algo tão vital como nosso coração, a que não prestamos atenção cotidianamente, a não ser se algo vai mal com ele. Enquanto nossa sociedade transforma até as pessoas em coisas, os ameríndios percebem todo tipo de coisa como pessoas. Nos Andes, como se sabe, a terra é venerada como uma deusa, Pachamama. Mas, também por aqui pode ser compreendida como uma figura que enseja relações tão fortes como a que temos com a família. “A terra, como os seres humanos, como seus parentes e companheiros, você ama”, diz-nos o antropólogo Tonico

1  Originalmente, “Birdwatchers” (2008, 104 min), dirigido pelo ítalo-chileno Marco Becchis, é uma ficção protagonizada pelos próprios Kaiowa. Nádio era interpretado pelo líder Ambrosio Vilhalva, do acampamento Guyraroka, morto em 2013 sem realizar o sonho de reocupar totalmente a terra que reivindicava.

Benites, o primeiro kaiowá a tornar-se doutor (veja a seguir a entrevista). Muito mais que um mero suporte para plantações ou capim, a terra, ela mesma, é de onde brota a cultura indígena. Privados da ligação com yvy, como a chamam os Guarani, muito dos seus conhecimentos e práticas murcham, como flores cortadas. É por isso que os antropólogos preferem falar em territórios indígenas. Ou mais precisamente como em um curto e esclarecedor artigo Dominique Tilkin Gallois (2004) abordou, seria ainda melhor se pensássemos em territorialidades, ou seja, relações que os indígenas estabelecem com um território, que variam conforme uma série de fatores – e por sinal, no atual contexto, estão condicionadas à situação colonial que o país impõe a esses povos. Além de ser um tema fundamental para a compreensão das culturas indígenas, a terra é o tema do momento no debate político do país. A ideia de que existiria, hoje, no Brasil, “muita terra para pouco índio” tem sido exaustivamente divulgada por grupos que se opõem à aplicação dos direitos indígenas por aqui. O citado mote é nada menos que uma falácia, e para compreender isso é preciso ter em mente o real panorama da distribuição das Terras Indígenas pelo Brasil. As 693 Terras Indígenas oficialmente demarcadas ou em processo de identificação somam 113,2 milhões de hectares (13,3% do território nacional, aproximadamente). Nada menos que 98,5% dessas terras estão na Amazônia Legal. Somente algo em torno de 1,5% estão no restante do país, ou seja, nas


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Manifestação dos povos indígenas durante a Rio+20 / foto: Alice Haibarav

Juventude Guarani Mbya na retomada do Tekoa Eucalipto, Terra Indígena Tenonde Porã, São Paulo / foto: Daniel Pierre

Vista aérea – região de plantações de soja no Centro-Oeste / foto: Renato Soares

regiões Nordeste, Sul, Sudeste e a parte não amazônica do Centro-Oeste. Pois, justamente, nessas terras que estão fora da região amazônica vivem 52% dos 896 mil indígenas brasileiros, segundo os dados do IBGE no Censo de 2010. Ou seja, temos, hoje, uma realidade em que mais da metade da população indígena se espreme em meros 1,7 milhão de hectares. Para que se compreenda um pouco mais esse contraste, tomemos a lista das seis Terras Indígenas mais populosas, segundo o IBGE. Em primeiro lugar, está a TI Yanomami, que fica entre Amazonas e Roraima e tem 25,7 mil pessoas vivendo em 9 milhões de hectares de extensão. Já em sexto lugar está a TI Dourados, onde 11,1 mil indígenas dispõem de 3,5 mil hectares. Quanto à Amazônia, é bom lembrar que, ali, as grandes Terras Indígenas existentes cumprem diversas funções, que vão muito além da garantia dos direitos das populações indígenas. A definição fundiária de sua situação evita a especulação imobiliária e garante a conservação da floresta e todos os recursos naturais a ela associados. Basta conferir os mapas do desmatamento na região para perceber que, ainda que sob constante assédio de madeireiros, garimpeiros e outras ameaças, as Terras Indígenas estão entre as áreas mais preservadas atualmente no Norte do país. As dimensões das Terras Indígenas na região, além disso, têm de ser pensadas a partir de um processo histórico específico. Para começar, lembremos que a definição do que é uma grande propriedade de terra no Brasil pode variar em até 22 vezes, de acordo com o conceito legal de “módulo fiscal”. Por exemplo, uma fazenda de 400 hectares pode ser considerada uma grande propriedade em algumas regiões do país, mais densamente ocupadas, no Sul ou no Sudeste. Na região Norte, contudo, é apenas uma pequena propriedade, segundo as normas vigentes. Além disso, grande parte das Terras Indígenas na Amazônia foi demarcada em áreas devolutas, ou seja, pertencentes ao próprio Estado. Nesse sentido,

foi um processo que pôde ser desenvolvido com mais rapidez. O fato de 98,5% das Terras Indígenas estarem situadas ali é reflexo disso, certamente. Na prática, demarcar Terras Indígenas em lugares como Bahia ou Mato Grosso do Sul tem sido um processo muito mais lento e árduo. Em primeiro lugar, nessas áreas, boa parte dos proprietários de terra recebeu das próprias mãos do Estado – em tempos passados e, sobretudo, nos períodos mais autoritários porque passou o país – os documentos que legitimam sua posse, os famosos “títulos de propriedade”. Nos tribunais, mesmo as disputas que envolvem pequenas áreas podem demorar décadas. A já conhecida lentidão crônica da Justiça brasileira ganha contornos trágicos: algumas comunidades indígenas podem permanecer, literalmente, décadas esperando pela decisão de um juiz. Uma única liminar de um magistrado em primeira instância – que, muitas vezes, nunca pisou numa aldeia – pode paralisar ou reverter um processo de identificação e demarcação de uma área que custou anos de esforços das comunidades e dos especialistas envolvidos. Mesmo áreas na Amazônia como a TI Raposa/Serra do Sol, em Roraima, ou a TI Maraiwatsede, em Mato Grosso, já experimentaram esse problema. Há, ainda, a pressão política. Nos últimos anos, os grupos que se opõem aos direitos indígenas têm se organizado cada vez mais. O agronegócio dispensa a contratação de lobistas – dezenas de deputados e senadores são eles mesmos endinheirados fazendeiros. É o setor mais interessado em retardar ou impedir a demarcação de terras na região Sul, Centro-Oeste e Nordeste. Já na Amazônia, há as mineradoras – brasileiras ou estrangeiras –, em busca dos metais que têm rendido recordes de lucros nos últimos anos. Além disso, o próprio governo federal estabeleceu uma linha desenvolvimentista nos últimos anos, considerando as Terras Indígenas como empecilho para a rápida instalação de grandes projetos de geração de energia e outras obras de infraestrutura.

Em resumo, poderiam dizer que os grupos indígenas amazônicos vivem, muitas vezes, um estado de sítio, enquanto os do Centro-Sul e Nordeste permanecem em confinamento. Entre os interesses dos diversos setores econômicos e do governo, estabelece-se, agora, uma peculiar sinergia, explicitada em diversas tentativas recentes de alteração da legislação relativa às Terras Indígenas. O texto emblemático é o da Portaria 303, publicada pela Advocacia Geral da União em 2012. Em seus 19 itens, nota-se a convergência em torno de dois objetivos principais: frear a demarcação de terras no Centro-Sul e Nordeste do país, ao mesmo tempo em que se firma a possibilidade de justificar qualquer interferência em uma Terra Indígena com a justificativa de um suposto “interesse público”. Fica evidente, por tudo isso, que o panorama real das Terras Indígenas no Brasil é muito diferente daquilo que os setores conservadores têm tentado pintar para a população brasileira, na ampla campanha que têm realizado junto à opinião pública nos últimos anos. A repetição ad nauseam do mote sobre a suposta abundância geral de terras declaradas indígenas não nos ajuda a entender por que há dezenas de acampamentos indígenas na região Sul e em Mato Grosso do Sul, nem por que persistem conflitos tão acirrados como os que ocorrem atualmente na Bahia e, outra vez, no mesmo estado de MS. Para entender os projetos apresentados nesta seção, é imprescindível ter esse panorama em mente. Comunidades cuja situação está descrita nos textos a seguir vivem esse duro drama da espera pela demarcação. A descrição da vida que levam pouco lembra as imagens que os brasileiros em geral têm de uma aldeia indígena. Às vezes, por vários anos, as famílias permanecem morando em barracas de lona, sem acesso a seus direitos mais básicos. É o caso de vários projetos dos Kaingang, que estão resumidos a seguir (SC 780, RS 790, RS 795), bem como das comunidades Terena de

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Tapirauauta discursando, Parque Indígena do Xingu, MT / foto: Renato Soares

iniciativa nº 795 – Kandoia Cultura Viva, Kaingang, RS

iniciativa nº 828 – Projeto de Ecoturismo Paiter Suruí, RO

iniciativa nº 236 – Encontro regional dos jovens de Amajarí, povos Ingarikó, Makuxi,

Sapará, Taurepang, Wapichana, RR

MS ou Guarani de vários estados (PR 890, SC 782, SP 768). Aqui, a cultura é vista como algo que pode “unir a comunidade na luta pelos nossos direitos”, na expressão das mulheres kaingang da TI Cacique Doble (RS 799). No Centro-Sul, mesmo as comunidades que já têm suas terras demarcadas, como os Xacriabá de Minas Gerais, autores de um dos projetos (MG 184), sofrem com as consequências de sua extensão diminuta. Entre os textos provindos da região amazônica também há mostras de que, mesmo ocupando espaços mais amplos, os grupos igualmente têm problemas com a pressão sobre os recursos naturais que é exercida por caçadores, pescadores e madeireiros quando há cidades próximas às TIs (TO 521, RR 236, RR 863). A necessidade de zelar pela manutenção do precário equilíbrio em terras de pequena extensão – de lugares como Bahia, Paraíba, ou mesmo de Roraima, onde terras mais antigas seguiram o contestado modelo de “demarcação em ilhas” – se expressa em projetos que buscam promover atividades de educação ambiental nas comunidades indígenas, e, particularmente, entre os jovens (BA 515, PB 512, RR 219, RR 869). Os Paiter Suruí de Rondônia, povo que tem se destacado pelos avanços em seu processo organizativo, chegam a propor um projeto de ecoturismo. “Determinados a manter nossa cultura e ambiente vivos, deixamos de lado a luta com arcos e flechas, e resolvemos incorporar nossa sabedoria antiga a novas tecnologias”, explica o texto enviado pelo grupo (RO 828). Para enfrentar o desafio de manter viva a memória de tantos elementos ameaçados pela escassez de terras, vários grupos apelam para as novas mídias. Os registros em vídeo, fotografia e áudio passam a representar uma forma de atingir os jovens e garantir que os conhecimentos cheguem até eles. “Queremos memorizar o estado atual de conservação ambiental, para as futuras gerações”, dizem os Xacriabá em seu projeto (MG 184).

O registro não serve apenas para dar suporte à memória da terra, mas também à da luta por ela. Significativamente, os Guarani do Espírito Santo, que conquistaram há alguns anos a posse de sua terra, querem construir uma Casa da Memória. “É um pedaço triste da história, mas queremos contar como conquistamos o nosso espaço”, dizem eles em seu projeto (ES 850). Em outros casos, há quem apresente projetos para ajudar a realizar o sonho de ocupar as terras cujo processo de demarcação se encontra emperrado, como é o caso dos Guarani da TI Tenondé Porã, de São Paulo (SP 768). Faz sentido para um grupo cujos cantos e danças praticados pelos xamãs – como mostra nosso entrevistado Tonico – são considerados fundamentais para obter sucesso na luta pela terra, tendo em vista seu poder de intervenção junto às divindades. “Com a construção do Opy’i [a “casa de reza”] e esse plantio poderemos dar à aldeia um começo positivo, deixando as pessoas muito felizes”, escreve o grupo da Tenondé. A ligação fundamental entre a terra e a “garantia da reprodução física e cultural”, segundo “usos, costumes e tradições” dos povos indígenas é claramente enunciada no artigo 231 da Constituição de 1988. O que o duro debate travado hoje sobre o futuro das demarcações talvez não capte é o sentido mais profundo dessa relação das comunidades com seus territórios. O documento enviado pelos Juma, povo do rio Purus, talvez seja um dos que deixam tudo isso mais evidente (RO 311). Estima-se que o grupo tenha contado até 15 mil pessoas há dois séculos. Exterminados por sucessivas guerras até meados do século passado – sendo o último episódio um massacre ocorrido em 1964, em circunstâncias até hoje não esclarecidas (Freire, 2014) –, eles hoje estão reduzidos a uma única família, que, nos últimos anos, tem buscado parcerias para retornar a sua terra de ocupação tradicional no sul do Amazonas, já homologada – antes, vinham vivendo com os Uruweu Wau Wau, em Rondônia. Seu projeto aqui apresentado

busca auxílio para que possam reconstruir sua vida na terra de onde foram expulsos há décadas, com o seguinte objetivo: “Poder desfrutar de nossa cultura, criar os filhos onde nascemos: eis o grande resultado desse projeto. O próximo passo é ser felizes”.

— REFERÊNCIAS FREIRE, José R. B. Quem matou Karé, o último dos Juma? Crônica publicada em 13/4/2014. Disponível em <http://www.taquiprati.com.br/ cronica.php?ident=1082> GALLOIS, D. T. Terras ocupadas? Territórios? Territorialidades?, in RICARDO, F. (org.). Terras Indígenas & Unidades de Conservação da Natureza. São Paulo: Instituto Socioambiental, 2004. Disponível em <http://pib.socioambiental.org/ files/file/PIB_institucional/dgallois-1.pdf>

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"A TERRA, COMO SEUS PARENTES, VOCÊ AMA" Entrevista com Tonico Benites

T

rinta anos atrás, Tonico Benites era só um menino kaiowá vivendo na região de Tacuru (MS), quando presenciou os momentos iniciais do que seria a formação de um dos mais importantes movimentos indígenas do país, a Aty Guasu – Grande Assembleia Kaiowá e Guarani. Naquele momento em que o país via o final da ditadura militar, a comunidade da família de Tonico, o Jaguapiré, teve de enfrentar uma luta ferrenha contra os despejos impostos pelos fazendeiros que, com auxílio do governo, colonizavam aquela região de fronteira entre o Brasil e o Paraguai. No início de 1985, pouco mais de um ano depois do assassinato do líder guarani Marçal de Souza – morto por denunciar os despejos praticados por fazendeiros contra o grupo kaiowá do lugar conhecido como Pirakuá –, a família de Tonico enfrentou um ataque armado que contou com a participação de policiais militares a mando do prefeito local. Cerca de 30 homens destruíram a aldeia do Jaguapiré, queimando casas e destroçando as roças com auxílio de tratores. Depois de muita luta, incluindo várias retomadas da área que foram realizadas pelo grupo, o Jaguapiré obteve, nos anos 90, o reconhecimento oficial como Terra Indígena de 2.342 hectares.

Hoje, Tonico é membro do Conselho da Aty Guasu, grupo executivo encarregado de organizar as assembleias e encaminhar as deliberações do coletivo das centenas de lideranças de seu povo – dividido em mais de 60 comunidades –, que se reúnem cerca de três a quatro vezes por ano. Em paralelo, seguiu carreira acadêmica e se tornou doutor em Antropologia pelo Museu Nacional do Rio de Janeiro, com tese sobre o movimento Aty Guasu, intitulada “Rojeroky hina ha roike jevy tekohape – Rezando e lutando: o movimento histórico dos Aty Guasu dos Ava Kaiowa e dos Ava Guarani pela recuperação de seus tekoha”. Para escrever a tese, Tonico manteve contato estreito com muitos dos rezadores que são os pilares do movimento de luta pela terra. É o discurso de xamãs como Atanásio Teixeira, ou os já falecidos Delosanto Centurião e Odúlia Mendes, entre tantos outros, que, desde os anos 80, fundamenta o movimento Aty Guasu. Desse pensamento é que Tonico se faz tradutor, na entrevista realizada por Spensy Pimentel. O diálogo com Tonico foi mantido em São Paulo, em escala na viagem dele em que integrou a delegação brasileira na Conferência Mundial dos Povos Indígenas, na ONU, em Nova York.

Tonico Benites e sua filha / foto: Spensy Pimentel

— SPENSY  Como você definiria a relação entre a

terra e o que os não indígenas, os karai, chamam de “cultura”? TONICO  Se pensarmos na forma como os não indígenas definem a “cultura”, como práticas mais profanas, para se alegrar, ser feliz num espaço, a terra é um espaço em que se precisa praticar o modo de ser, as boas relações, as belas palavras, para se estabelecer uma convivência feliz. Sempre se precisa de um espaço, que é a terra, para que aconteçam essas práticas culturais, para ser feliz, construir uma alegria, um sorriso frequente. Esse espaço da terra é composto, na visão dos indígenas, não só pelos elementos visíveis, mas também por seres invisíveis com os quais eles devem manter contato, uma boa relação – equilibrada, sem desrespeito. Para praticar a cultura, então, o indígena precisa desse espaço-terra, entendido como mais que um

espaço físico, um espaço de seres invisíveis, onde estão os guardiões, os antigos espíritos, onde há vários seres, muitas vezes temidos... Esse espaço é onde acontecem as práticas culturais indígenas. Cultura, então, significa algo mais, como ser feliz, se alegrar, pode ser entendido também como uma diversão – o que seria na visão do não indígena o lazer, uma forma de se expressar. Mas, para isso, se precisa, sobretudo, desse espaço, que é a terra. S  Quais as consequências que advêm quando uma

comunidade não tem espaço? O que isso acarreta para a comunidade indígena? T  O indígena entra num estado de estresse se não consegue desenvolver suas práticas culturais por falta de espaço. Na ausência dos recursos para fazer os rituais, as práticas culturais, a comunidade entra em desespero, não consegue se expressar, se distrair, ser feliz. Normalmente, quando a terra é muito pequena, esses dois em contato – tanto os indígenas praticando sua cultura, sua vida, como a terra e os seres que vivem aí – não descansam. Cria-se, então, o que os Guarani chamam de “estado quente”, teko aku, e isso gera brigas, desentendimentos. O próprio espaço de terra envolve esses outros seres, como eu dizia, então eles também precisam descansar, ficar em paz por alguns períodos. Todos esses seres que fazem parte da terra, depois de serem úteis para os indígenas, depois de fazer esse intercâmbio de saberes, comunicação, precisam descansar.


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Tonico Benites, sua filha e o xamã Atanásio Teixeira (sr. Ataná) / foto: Spensy Pimentel

Assembleia Aty Guasu, batismo de crianças junto com o de documentos / foto: Spensy Pimentel

Ataná batizando um documento de assembleia, com o chiru em cima / foto: Spensy Pimentel

No momento em que eles não têm descanso, literalmente ficam nervosos, num estado quente. O descanso seria como deixar o espaço de terra entrar num estado de esfriamento, para se recuperar. O pessoal entra em estresse, tristeza, quando não consegue descansar. Tanto quem pratica a cultura como quem fornece essa força, essa energia, não entra em recomposição, não consegue se recompor. Então, para a terra, também se criam problemas, podem-se gerar desentendimentos, conflitos, porque não há descanso. Antes, se costumava deixar por um período longo uma terra descansar bem, por anos, depois é que se voltava a ocupar, a usar de novo, quando aquele espaço já tinha passado por uma recuperação.

soluções, orientações desses seres. Hoje, num contexto como o Mato Grosso do Sul, segundo todos os que entraram em contato com esses seres, a resposta sempre foi que eles se encontram num estado de constrangimento, se encontram desrespeitados e irritados, então a reação deles é geralmente negativa em relação ao ser humano, por conta dessa destruição. Essa é uma explicação que ajuda a entender por que muitas vezes acontece muita doença, as pessoas passam misérias: é um tipo de punição em decorrência desse desrespeito aos guardiões. Portanto, por meio desse contato, os rezadores percebem que a destruição desses espaços é uma ação nociva, tanto para os indígenas como para os não indígenas.

muito, mas, no resto, muitas vezes são práticas, explicações religiosas, fundamentadas na religião indígena mesmo. O que acontece é que muitas vezes é quase tudo junto, a prática cultural e a prática religiosa. O não indígena não, ele separa muito, entende que, para a prática cultural, ele precisa gastar, tem que pagar – e religião, para ele, é outro setor distante demais da cultura. A cultura está distante da prática religiosa, tem divisões, tem uma fronteira bem definida entre eles. Já para o indígena, a terra é como se fosse um palco, um espaço sagrado, onde acontecem quase ao mesmo tempo práticas culturais para se alegrar, se divertir, e ao mesmo tempo há práticas religiosas.

S  Justamente, os Kaiowá e Guarani vivem em uma

S  Considerando tudo isso que você fala sobre as

S  Como seria melhor traduzir, então, nhande reko

região em que, mesmo quando há espaço para as comunidades, esse espaço já está muito degradado: rios, mata, solo... Como isso se relaciona com a questão da cultura? T  Nesse espaço degradado, os guardiões se sentem desrespeitados ao sofrer com essa devastação. Então, os guardiões desse espaço, das espécies de animais, das árvores, de todos os seres, se encontram – como o ser humano também – em estado de tristeza, e muitas vezes doentes mesmo, porque sofreram esse desrespeito. Através de práticas culturais, diálogos, rituais, conversações, principalmente por meio dos rezadores, xamãs, se busca um equilíbrio, um diálogo com esses seres. Porque esses seres estão lá nesse espaço, na cabeceira dos rios, de modo invisível, mas, através dos rituais, dos rezadores, de várias formas, essa linguagem dos seres invisíveis é compreendida pelos rezadores, então esses seres são acionados para buscar a recuperação do espaço, para que se tenha uma orientação sobre o que se deve fazer diante da devastação. Tem uma forma, sim, os indígenas, principalmente os que conseguem fazer uma leitura da língua desses guardiões, conseguem entender e buscar

práticas culturais indígenas e sua relação com a terra, você acha que as políticas culturais impostas pelos não indígenas hoje no Brasil têm sensibilidade para compreender isso? T  A forma como os não indígenas falam de cultura é muito superficial. Os brancos não conseguem entender esse mundo da forma como os indígenas compreendem. O branco muitas vezes chama de cultura o que nós indígenas chamamos de religião, de crença. O que o branco chama de cultura muitas vezes é o lazer, a festa, e dessa forma dificilmente ele compreenderá essa explicação do indígena. Porque o não indígena chama de cultura o lazer, a festa, só que o indígena, quando fala em “cultura indígena”, além das práticas festivas, também está pensando nas explicações religiosas, nas manifestações da natureza, na chuva, no clima, que são explicados de forma religiosa. O branco, muitas vezes, acha que isso é “cultura”, chama isso de lenda, mas para o indígena não é, é uma explicação religiosa. Então, há um conflito no momento em que se fala em “cultura indígena” no sentido do branco. Porque o indígena tem, sim, uma “cultura”, no sentido do branco, que pratica para se alegrar, para festejar, para se distrair, rir

(“nosso modo de ser” – expressão muito usada pelos povos Guarani)? T  Nhande reko é nossa vida, nossa cultura, nossa religião, tudo ao mesmo tempo. É nosso jeito de ser, de viver. É difícil definir. Quem vive os três não tem como separar muito não. Nhande reko inclui as práticas culturais – para se alegrar, se divertir, rir. São valores, para nós: é preciso se alegrar, rir muito, conversar, envolver crianças, mulheres, todo o mundo rindo junto, cantando, rezando... Esse é o nhande reko. Mas ao mesmo também é quando há uma explicação religiosa indígena. O nhande reko inclui a forma de se relacionar, de comer, de lutar... Tudo isso é incluído quando se fala em guarani “nhande reko”. S  Outro conceito guarani muito difundido é o de

tekoha (“o lugar onde se pratica o modo de ser”, na tradução mais comum). Como você explicaria essa ideia? T  O tekoha é o espaço onde os indígenas vivem de modo autônomo. É onde conseguem, ainda, estar nesse espaço onde vivem os antigos espíritos, os guardiões, para conviver com eles, estabelecer relação, diálogo. É onde os indígenas ainda conseguem essa

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comunicação com os guardiões que compõem esse lugar e conviver, manter a relação com esses seres.

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S  Por que tantos Guarani chegam ao ponto de

dar até a própria vida na luta para conquistar seu tekoha? T  A terra, como os seres humanos, como seus parentes e companheiros, você ama. Como eles te amam, reciprocamente. Fazendo uma analogia, quando alguém ama muito outra pessoa, está apaixonado, enfrenta qualquer tipo de barreira para fazer contato com aquela pessoa. De modo muito igual, quando o indígena precisa manter contato com aquele espaço, aquele local, aquela terra, ele enfrenta tudo o que há pela frente. É nesse contexto que acontece muitas vezes o confronto, e o indígena acaba morrendo. Ele precisa desse contato com a terra, ele sente muita saudade, então oferece a própria vida por isso. Porque ele precisa lutar para superar esse desligamento de seus companheiros, interlocutores, essas pessoas queridas, amadas. Se você tem uma pessoa querida que nutriu sua vida, te fez feliz, e em algum momento alguém quer bloquear esse seu contato com ela, isso é muito pesado, você fica em estado de desespero e quer fazer isso de qualquer forma. Há esse sentimento de pertencimento: eu pertenço àquela pessoa, e ela me pertence, e por isso a gente precisa manter diálogo, se apoiar. S  Nessa busca, vocês acabam entrando em conflito

Nhanderu e nhandersy (xamãs, ou rezadores), na Assembleia da Aty Guasu / foto: Spensy Pimentel

com setores que têm uma visão muito diferente sobre a terra: o agronegócio, a mineração. Como é para vocês ver o tratamento que esses brancos dão a essa pessoa querida para vocês que é a terra? T  É como um desrespeito, um massacre. O indígena vê como se sua família estivesse sendo detonada, atacada. Essa ação do agronegócio, desses destruidores, é como se fosse uma agressão de um inimigo a seus parentes, seus companheiros. Porque, como o

indígena entende a língua desse espaço, dos seres que vivem ali, entende que o espaço está gritando, pedindo socorro quando é colocado um trator, que destrói a cabeceira do rio, o restante do mato... É como se sua família estivesse sendo morta.

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— 6o SEMINÁRIO SOCIOAMBIENTAL DOS ÍNDIOS TUPINAMBÁ DE OLIVENÇA

INICIATIVAS TERRAS, TERRITÓRIOS E AMBIENTES iniciativa nº 219 – Jovens indígenas: promovendo

a educação ambiental

— povo 

Tupinambá de Olivença

terra indígena 

Tupinambá de Olivença

habitantes 3.000 local  proponente 

Ilhéus - BA

Associação Cultural

e Ambientalista dos Índios iniciativa nº 1.045 – Tuxá das margens do rio São

Francisco

Tupinambá de Olivença contato 

(73) 8846 - 3197

Agora, tem-se a necessidade de dar continuidade a essa conscientização da população acerca do meio ambiente, sem perder os valores culturais, o respeito com a Mãe Terra, e, ao mesmo tempo, discutir as perspectivas de desenvolvimento sustentável. Acreditamos que o projeto irá informar, capacitar e fortalecer o público alvo envolvido. Pretendem-se construir propostas políticas de conscientização socioambiental, buscar novos modelos de desenvolvimento sustentável e cultural, e formar agentes multiplicadores para atuação em toda a comunidade indígena.

(Antonio José de Souza do Amaral) /

acao.bahia@hotmail.com iniciativa no 515

— Os mais de 3 mil Tupinambá de Olivença vivem em uma área de aproximadamente 50.000 hectares, em plena Mata Atlântica. Hoje, buscam fazer conhecer sua identidade cultural e reconhecer seus direitos enquanto sociedade. Igualmente, lutam pela defesa do meio ambiente em que vivem, considerando que sua sobrevivência e reprodução enquanto grupo depende dos recursos naturais. Atualmente, esperam pela conclusão do processo de demarcação de suas terras. Em nossos seminários anteriores, foram discutidos temas relacionados à problemática indígena no Brasil e na região sul da Bahia.

TUXÁ DAS MARGENS DO RIO SÃO FRANCISCO: TERRA IRRIGADA PARA PLANTAR

— povo 

Tuxá

terra indígena 

Tuxá Rodelas

comunidade indígena 

Tuxá das Margens

do Rio São Francisco habitantes  local 

80

Rodelas - BA

proponente 

Francisco Carlos

Santos de Assis contato 

(75) 8815 - 0715 / 8848 - 3340 /

dipeta51@hotmail.com iniciativa no 

1.045

71


72

iniciativa nº 512 – Toré da Cidadania

iniciativa nº 977 – Jovens unidos fortalecendo a luta do

seu povo através da arte 

iniciativa nº 990 – MIITXHIA – Plano de Recuperação

de Terreiros Fulni-ô

A comunidade vive atualmente na zona urbana de Rodelas e adquiriu com recursos próprios uma terra de 11 hectares que é uma antiga fazenda. Trata-se de uma área de caatinga, com acesso ao Raso da Catarina e às margens do rio São Francisco. Entendemos que precisávamos ter uma terra para continuar mantendo nossas tradições, costumes, ciência e espiritualidade. Nos anos 80, fomos bruscamente realocados, em função da construção da Usina Hidrelétrica de Itaparica. Antes, quando vivíamos na Ilha da Viúva, mantínhamos uma grande produção agrícola e pecuária. Depois, ficamos sem nossa terra, sem pátria, sem chão. Fomos filhos das primeiras barragens projetadas no Brasil. Até hoje a Companhia Hidrelétrica do São Francisco (Chesf ) não cumpriu a promessa de implantar projetos de agricultura irrigada nas áreas que ganharíamos como compensação. O objetivo do nosso projeto é conseguir explorar coletivamente a terra que adquirimos. Precisamos da instalação de energia elétrica para as bombas d’água que farão a irrigação. Com isso, vamos mostrar que, mesmo num pequeno pedaço de terra, poderemos cultivar diversos produtos da agricultura orgânica e familiar e conquistar trabalho digno e independência.

— TORÉ DA CIDADANIA

— povo Potiguara terra indígena Potiguara aldeias São Francisco, Santa Rita,

Laranjeira, Tracoeira, Cumaru, Lagoa do Mato, Galego, Forte, São Miguel habitantes  local  proponente 

3.750 nas 9 comunidades Baía da Traição - PB

Maria Nilda Faustino Batista

contato 

(83) 3296 - 7714

seminário, realizado na escola local, que envolveu ainda a produção de material e a conscientização ambiental. A iniciativa que prevemos agora tem quatro etapas, envolvendo desde a cultura até a educação ambiental. A ideia é que uma equipe volante leve nosso projeto ao maior número de aldeias possível.

(Escola Pedro Poti) /

marianildapotiguara@bol.com.br iniciativa no 512

— Em nossa terra, hoje mantemos diversos cultivos e ainda é possível buscar produtos na mata. De rios a cacimbas, temos diversas fontes de água boa, mas o problema é que muitos córregos estão se acabando devido às queimadas e o desmatamento relacionados ao plantio de cana-de-açúcar. Várias cacimbas já secaram. Isso acontece porque há muitas áreas degradadas e sujeitas a desmatamento, além de pouquíssima mata preservada. Esses problemas nos alertaram para a necessidade de desenvolver ações com o meio ambiente, sustentabilidade e proteção. Outro problema hoje é manter a cultura viva por meio dos jovens, devido ao convívio que eles têm, hoje, fora da aldeia, e as influências culturais adquiridas através de vários meios de informação. Precisamos divulgar, informar e incentivar nossas práticas culturais. Juntando essas preocupações, este projeto começou com um

JOVENS UNIDOS FORTALECENDO A LUTA DO SEU POVO ATRAVÉS DA ARTE

— povo Truká terra indígena  aldeias 

Truká (Ilha de Assunção)

Caatinga Grande, Caatinguinha,

Riacho Fundo, Camaleão, Lama, Redenção, Cajueiro, Lagoa Branca, Umbuzeiro, Sabonete, Jatobazeiro e Portões habitantes 4.000 local  proponente 

Cabrobó - PE

Maria Elenilda Delfino

dos Santos contato 

(87) 9643 - 3266 / 9155 - 6045 /

claudiatruka@hotmail.com iniciativa no 

977

— Vivemos em nossas terras no arquipélago da Ilha de Assunção, no rio São Francisco, na zona rural de Cabrobó. A demora para completar a regularização fundiária nos traz diversos problemas.

Depois de séculos de massacres, colonização e devastação, retomamos nosso território entre 1981 e 2007. Encontramos uma área completamente devastada pelos colonos: muitas terras estão salinizadas, demandando investimento para sua recuperação. Além disso, devido ao represamento, o rio já não é tão piscoso e suas águas estão poluídas. Também temos sido diretamente impactados pelas obras de transposição das águas do rio e pela construção da barragem de Pedra Branca. Enfrentamos, ainda, o êxodo dos jovens rumo às cidades, e a violência – já tivemos lideranças assassinadas e criminalizadas. Nosso grupo de teatro surgiu em 2007 para contribuir com a luta indígena e fortalecer a identidade dos jovens Truká, divulgando a história da resistência de nosso povo. Hoje somos 32 jovens, já participamos de diversos eventos dentro e fora da Terra Indígena. Sofremos com a falta de recursos e estrutura. Nossa ideia com o projeto é realizar diversas oficinas e também adquirir novos figurinos e cenários, além de equipamentos.

— MIITXHIA – PLANO DE RECUPERAÇÃO DE TERREIROS FULNI-Ô

— povo Fulni-ô terra indígena Fulni-ô

comunidades 

Fulni-ô da Aldeia Central

(urbana) e Fulni-ô de Xixiakhlá (rural) habitantes 5.000 local 

Águas Belas - PE

proponente  contato  iniciativa n

Jailson Correa Daca (87) 9638 - 5910 o

  990 

premiada

— As comunidades estão localizadas na área urbana e rural do município de Águas Belas. A área é reconhecida como sendo de domínio indígena mas ainda não foi feita a demarcação e homologação do território. Esta situação levou à alta concentração de parentes vivendo no entorno urbano do município, à disputa de recursos (saúde, educação e projetos assistencialistas). Atualmente, cerca de 90% da cidade de Águas Belas encontrase em território indígena; e a convivência tão próxima ao modo de vida urbano tem como consequência uma constante tensão social levando a problemáticas como desestruturação social, violência comunitária, baixa estima, racismo, alcoolismo e pressão latifundiária devido a expansão do município que ocorre cada vez mais próxima à área indígena. Nosso objetivo é nossa manutenção cultural, dando continuidade aos trabalhos já iniciados junto ao Museu do Índio. Identificamos no formato das plantas das casas, que é praticamente padrão, uma chance de começarmos a reverter o quadro de desmatamento. A construção de nossas casas basicamente constitui-se de uma casa de

73


74

iniciativa nº 531 – Aurora de esperança do lago Jiboia

iniciativa nº 311 – Retomando o território tradicional

iniciativa nº 828 – Projeto de ecoturismo dos Paiter Suruí

alvenaria na frente e um terreiro atrás. Hoje esses terrenos funcionam como depósito de lixo, espaço para cisterna de água, esgoto da casa e em alguns casos até como banheiro. Raras são as casas que encontramos com espécies vegetais significativas, sendo poucas as alimentícias e medicinais. Pensamos então em fazer uma listagem de espécies utilizadas por nós tradicionalmente na alimentação, medicina tradicional e artesanato. Boa parte do levantamento já foi feito, agora vamos refletir com a comunidade sobre a produção das mudas e manutenção das espécies, o cadastramento das famílias guardiãs e a execução do trabalho. Também vamos reunir conteúdos históricos, técnicos e tradicionais sobre as espécies, para produzirmos a cartilha de orientação que será entregue junto com as mudas. Além de áreas particulares da comunidade, contemplaremos a importante reserva do Ouricuri escolhendo local estratégico para iniciarmos o reflorestamento da área de caatinga e a limpeza do local. Este passo inicial é fundamental para nossa cultura, já que a reserva representa nossa base e sem sua preservação não conseguiremos ir a lugar algum.

— AURORA DE ESPERANÇA DO LAGO JIBOIA

— povo 

Huni Kuin

terra indígena 

Kaxinawá do

ferramentas para roçado e plantio, além de remunerar as pessoas envolvidas no trabalho.

Alto Rio Jordão aldeia 

habitantes 67 local  proponente 

Jordão - AC

Manoel Damião Sales

Kaxinawa contato 

Lago Jiboia

(68) 8426 - 4893 /

adautobarbosahunikui@hotmail.com iniciativa no 531

RETOMANDO O TERRITÓRIO TRADICIONAL

— Vivemos numa terra cujos recursos são suficientes para nós: existem animais para caça e pesca, além de terra boa para plantação e água boa para beber em igarapés e olhos d’água. Por outro lado, não há escola ou posto de saúde, nem qualquer outro tipo de apoio público. Parte de nossa comunidade foi recentemente devastada pela ação de fortes chuvas em conjunto com a cheia do Rio Jordão, em dois principais episódios, em outubro de 2012 e janeiro de 2013. Foram destruídas três casas, além de uma área com 15 mil pés de mandioca e roças de amendoim e milho. Nosso projeto tem como objetivo restabelecer as plantações e moradias das áreas perdidas nos episódios de desastre, contribuindo para a recuperação socioambiental da comunidade. Queremos utilizar os recursos para adquirir materiais de construção,

povo Juma terra indígena  aldeia 

Juma

habitantes  local 

17

Canutama - AM

proponente  contato 

Juma

Mandeí Juma

(69) 3229 - 2826 / 9984 - 8918 /

rodovia Transamazônica. Também há boatos de que madeireiros estão invadindo nossa terra. Até o momento nossa aldeia conta com uma casa de quatro cômodos e uma pequena roça. Reabrimos os caminhos que levam até os locais sagrados, cemitérios e antigas malocas. Ainda não temos atendimento de educação e saúde. Os parceiros nos ajudaram em parte até aqui. Agora queremos construir uma maloca no estilo juma. Nosso pai Aruká vai ensinar a todos como se constrói, inclusive às crianças. Poder desfrutar de nossa cultura, criar os filhos onde nascemos: eis o grande resultado desse projeto. O próximo passo é ser felizes.

jumaronia@hotmail.com /

israel@kaninde.org.br iniciativa no 311 

premiada

— Em 1998, a Funai levou a última família juma existente para morar na Terra Indígena Uru-Eu-Wau-Wau. Sempre tivemos vontade de retornar para nossa terra, o que começamos a fazer em 2007. Desde 2012 estamos definitivamente instalados em nossa Terra Indígena, na margem direita do rio Açuã. É demarcada e homologada pelo governo. Nosso território encontra-se preservado e com muitos recursos naturais: caça, pesca, boa terra para plantio. Toda essa riqueza está constantemente ameaçada por pescadores e caçadores, que entram na nossa terra sem nossa permissão, usando a

PROJETO DE ECOTURISMO DOS PAITER SURUÍ

— povo 

Paiter (Suruí de Rondônia)

terra indígena 

Paiterei Karah

(Sete de Setembro) comunidades 

Sertanista Apoena Meirelles,

PIN Paiter, Tikã, Lapetanha, Joaquim, Nanbekodabalakiba, e mais as outras 21 aldeias da Terra Indígena (clãs Gameb, Gabgir, Makor e Kaban) habitantes 

1.350 na Terra Indígena

local  proponente 

Cacoal - RO

Associação Metareilá

do Povo Indígena Suruí contato 

Gasodá Suruí – (69) 3443 - 2714 /

9327 - 2966 / metareila@metareila.org / gasoda@metareila.org iniciativa no 

828

— Nossa Terra Indígena (TI) tem quase 250 mil hectares e se situa entre Rondônia e Mato Grosso. Hoje, nossas 27 aldeias estão estrategicamente distribuídas de modo a propiciar a defesa do território. A partir de 1968, quando iniciamos o contato com os não indígenas, sofremos o impacto dos conflitos com madeireiros, garimpeiros e fazendeiros. As guerras e epidemias chegaram a reduzir o grupo de 5 mil pessoas a 250. Ainda hoje lutamos contra as invasões, principalmente de madeireiros. Desde 1989, nos organizamos por meio de nossa Associação Metareilá. Com o auxílio das novas tecnologias, hoje mantemos o etnozoneamento do território, que inclui ações de reflorestamento e conservação. Nesse processo, surgiu a ideia de realizar o ecoturismo na TI, entendido como parte de nosso processo de valorização cultural, gestão participativa e preservação. Desde 2010, em colaboração com diversas entidades parceiras, estamos construindo o plano de negócios que permitirá o início dessas atividades. O objetivo do presente projeto é angariar recursos para qualificar os indígenas que pretendem atuar na atividade e construir as estruturas necessárias para atender aos turistas.

75


JOVENS INDÍGENAS: PROMOVENDO A EDUCAÇÃO AMBIENTAL

76

iniciativa nº 219 – Jovens indígenas: promovendo a

educação ambiental

— povos 

Macuxi, Wapichana e Taurepang terra indígena Araçá

comunidade indígena Guariba habitantes 

317 na comunidade,

1.490 em toda a Terra Indígena local  proponente 

Amajari - RR

Monaliza Nayara Ribeiro Silva

contato 

(95) 8124 - 9097 /

Além disso, o crescimento das comunidades indígenas traz desafios com relação ao saneamento. Em 2012, iniciamos esse projeto, envolvendo cerca de 300 pessoas de quatro escolas. Para nós, a Educação Ambiental está associada com a tradição dos povos indígenas, que ao proteger o meio ambiente em seus territórios, garantem os recursos naturais necessários para a reprodução de sua cultura e modo de vida. A Educação Ambiental, antes de qualquer coisa, deve ser um instrumento de transformação social.

3593 - 2158 / 3593 - 1052/ iniciativa nº 236 – II Encontro Regional dos Jovens

Indígenas de Amajari

rmonalizanayara@yahoo.com.br / Monaliza Nayara Ribeiro (Facebook) iniciativa n

o

 219

— A Terra Indígena (TI) Araçá foi demarcada em 1982, com 50.018 hectares e fica a cerca de 110 km da capital, Boa Vista. Trata-se de uma região de savanas, de rica biodiversidade, onde ainda conseguimos praticar a agricultura, a criação de pequenos animais, bem como caça e pesca. Porém, na região, onde há oito TIs, a demarcação foi feita em ilhas, de forma que as comunidades encontram-se rodeadas por fazendas de gado, arroz e soja. Em função dessa peculiaridade, temos diversos problemas: rios e igarapés importantes para nós estão fora da área demarcada; são constantes o roubo de madeiras, despejo de lixo, caça e pesca não permitidas, invasão de animais que destroem plantações.

II ENCONTRO REGIONAL DOS JOVENS INDÍGENAS DE AMAJARI: "PRESERVAÇÃO DA CULTURA, MEIO AMBIENTE E FORTALECIMENTO DA NOSSA AUTONOMIA"

— povos 

Ingarikó, Macuxi, Sapará,

Taurepang e Wapichana terras indígenas 

Araçá, Anaro,

Ananás, Aningal, Cajueiro, Ouro, Ponta da Serra, Santa Inês comunidades 

Araçá, Ananás, Anaro,

Aningal, Cajuíro, Garagem, Guariba, Juracy, Leão de Ouro, Mutamba, Mangueira, Ouro, Ponta da Serra, Santa Inês, São Francisco, Três Corações, Urucury, Vida Nova.

habitantes 

3.022 nas 18 comunidades

local  proponente  contato 

Amajari - RR

Monaliza Nayara Ribeiro Silva

(95) 8124 - 9097 / 3593 - 2158 /

3593 - 1052 / rmonalizanayara@yahoo.com. br /

jovens, com idade de 15 a 29 anos, vindos das 18 comunidades da região. Temos a certeza de que esse evento reforçará ainda mais nossa responsabilidade e apontará novos e decisivos caminhos.

@rmonalizanayara (Twitter) /

Monaliza Nayara Ribeiro (Facebook) iniciativa no 

236 

premiada

— As oito Terras Indígenas do município são demarcadas em “ilhas”, ou seja, as comunidades estão isoladas umas das outras por fazendas de gado, soja e arroz. Isso acarreta dificuldades na preservação ambiental. Fontes de água importantes para nós estão fora das áreas reconhecidas como TIs, sofrendo com a contaminação trazida pelas fazendas; também há constantes invasões de caçadores, pescadores e madeireiros ilegais, bem como de animais das fazendas que destroem nossas roças. Nas grandes assembleias dos tuxauas, sempre se ouve que “o futuro dos povos indígenas está nos jovens”. Assim, os jovens indígenas de Amajari vêm se organizando para criar novas formas de atuação e articulação entre as comunidades da região. Nosso primeiro encontro regional de jovens ocorreu em 2012, com amplo apoio das organizações indígenas de nosso estado. Agora, queremos promover esse segundo encontro, que será realizado em nosso Centro Regional de Lideranças, na Comunidade Indígena Araçá. Pretendemos mobilizar 300

PEDRA DO SAPO: LOCAL SAGRADO DO POVO WAPICHANA DA CACHOEIRINHA DO SAPO

— povo Wapichana terra indígena Manoá/Pium comunidade 

Cachoeirinha do Sapo

habitantes 62 local  proponente 

Bonfim - RR Conselho Indígena

de Roraima (CIR) contato 

(95) 3224 - 5761 / 9168 - 1351 –

CIR em Boa Vista / cir_2012@yahoo.com.br

Dentro da TI, um lugar muito importante é a Pedra do Sapo, sítio sagrado para nós que constitui nosso patrimônio histórico. O dito animal, que é o dono do local, foi transformado em pedra e ali permanece zelando pelos Wapichana: ele chama a chuva que chega para molhar nossas roças e manter nossas fontes de água. O local também tem relação com o calendário wapichana. Nosso objetivo, agora, é angariar recursos para produzir materiais sobre a Pedra do Sapo. Queremos levar essas informações para a escola, para que os jovens ajudem a preservar o local no futuro e reconheçam seu significado. A iniciativa já teve início em 2012, quando realizamos um levantamento ambiental e social na comunidade. Agora queremos ampliar a pesquisa e sistematizá-la, produzindo materiais didáticos para a escola, inclusive um etnomapa do local, e realizando um evento para divulgar os resultados.

iniciativa no 863

A comunidade fica numa região em que a Terra Indígena (TI) faz limite com uma fazenda e vilas, por isso já sofreu no passado com a invasão de não indígenas para retirada de madeira, além de caça e pesca. Hoje, a área está preservada graças à vigilância dos indígenas da comunidade. A demarcação em ilha nos prejudica pelo fato de que alguns recursos naturais importantes para nós ficam fora da TI.

NOSSA TERRA, NOSSA MÃE: PRESERVAÇÃO E SUSTENTABILIDADE DO MEIO AMBIENTE E DA CULTURA WAPICHANA

— povos 

Wapichana e Macuxi

terra indígena Manoá/Pium

77


78

comunidade Pium habitantes 250 local  proponente 

Bonfim - RR Conselho Indígena

de Roraima (CIR) contato 

(95) 3224 - 5761/ 9168 - 1351 –

ambiental e florestal, incluindo ações como a construção de um viveiro, realização de feira de sementes e plantas tradicionais, além do mapeamento de áreas críticas e materiais de divulgação.

CIR em Boa Vista / cir_2012@yahoo.com.br iniciativa nº 521 – Manejo Sustentável e criação da

Tartaruga-da-Amazônia na Terra Indígena Karajá-Xambioá

iniciativa nº 1.002 – Reciclagem com garrafas PET

iniciativa no 869

— Localizada em área de fronteira e rota de garimpeiros, a comunidade fica numa região onde a demarcação de terras foi realizada em ilhas. Os habitantes da Terra Indígena Manoá/Pium (43 mil hectares) contam com terra fértil e alguma reserva de mata, apesar de a área ter sido anteriormente degradada por fazendas de gado. A preocupação é que a população local está aumentando e recursos como caça e pesca já não são suficientes. O crescimento populacional também oferece desafios como o aumento das roças próximas às fontes de água e o problema do lixo, pelo maior consumo de produtos industrializados. Desde 2008 discutimos questões relativas ao resgate e valorização das práticas tradicionais de manejo ambiental, em constante diálogo com os mais velhos da comunidade. A partir de 2012, lançamos uma iniciativa que inclui o treinamento de agentes ambientais indígenas e oficinas voltadas a toda a comunidade, sobre temas como os cuidados com mananciais de água e o lixo. Agora, nosso projeto é criar um plano comunitário de manejo

MANEJO SUSTENTÁVEL E CRIAÇÃO DA TARTARUGA-DA-AMAZÔNIA NA TERRA INDÍGENA KARAJÁ-XAMBIOÁ

— povo 

Karajá do Norte

terra indígena Karajá-Xambioá aldeias 

Xambioá, Kurehê, Wary Lyty e Hawa Tymyra habitantes 600

local 

Santa Fé do Araguaia - TO

proponente 

Avanilson Ijoraru Dias

Aires Karajá contato 

(63) 8412-7164 /

fazendas de gado, a área tem sofrido pressão de caçadores, pescadores e madeireiros ilegais. Os recursos estão ficando cada vez mais escassos. A tartaruga hoje está ameaçada de extinção. A espécie tem enorme importância para nossa cultura e segurança alimentar – da tartaruga, fazemos quatro pratos típicos. Em 2005, iniciamos nosso projeto de Manejo Sustentável e Criação da Tartaruga-da-Amazônia. Desde 2010, estamos com dificuldade de conseguir recursos para mantê-lo. O projeto tem por objetivo garantir a sustentabilidade no uso tradicional do animal, assim como o seu aumento populacional e diversidade genética. As atividades – criação, manejo, fiscalização e educação ambiental – ocorrem durante todo o ano, de acordo com a sazonalidade e ecologia da tartaruga, sendo que grande parte dos esforços se concentra no período da seca, quando a espécie deposita seus ovos nas praias do rio Araguaia.

vanilson_indio@hotmail.com /

avanilson.kara (Facebook) / Aldeia Xambioá – (63) 3470 - 1226 iniciativa no 521 

premiada

— A Terra Indígena Karajá Xambioá é rica em recursos hídricos, fauna e flora, e tem 85% de sua área de 3.326 hectares preservados. Estamos confinados em uma das menores Terras Indígenas da Amazônia. Localizada à margem do rio Araguaia e cercada por

RECICLAGEM COM GARRAFAS PET

— povo Terena terra indígena Taunay/Ipegue aldeia 

Aldeia Bananal

habitantes 2.000 local  proponente 

Aquidauana - MS

Terezinha Francerine Luis

contato 

(67) 9601 - 7179

iniciativa n

o

 1.002

— Nossa Terra Indígena está em processo de demarcação, em última instância. Já foi comprovado por estudos que se trata de terra de ocupação tradicional, mas as ações judiciais movidas por fazendeiros impedem o avanço do processo. A aldeia está localizada numa área rural, cercada de fazendas. O meio ambiente em torno da comunidade encontra-se devastado. As antigas plantações se tornaram pastagem de animais. Não é mais possível plantar, caçar ou pescar: foi tirado o que é de nosso direito. A água é de um poço artesiano. A produção de alimentos na aldeia é pequena. O espaço que tínhamos não existe mais. Por enquanto, estamos tentando manter a cultura, os costumes, a língua, as danças, o ritual. Apesar da interferência, os Terena têm demonstrado resistência. A comunidade teve essa iniciativa devido à preocupação com o consumo do material PET. Procuraremos aproveitar as garrafas e conscientizar as pessoas do proveito desse material. A ideia é que o projeto ajudará no orçamento das famílias indígenas, porque há uma carência de oportunidade e emprego na aldeia. Precisaremos de máquinas de costura e overlock, tesouras, máquinas de grafismo, tinta, tecido, entre outros equipamentos.

CASA DA MEMÓRIA GUARANI

— povo Guarani terra indígena  aldeia 

Tupiniquim e Guarani

Ywuporã (Olho d’água) habitantes 23

local  proponente  contato 

Aracruz - ES

Roberto Carlos Silveira

(27) 9989 - 7967 / 9704 - 6602 /

bcurtisweber@msn.com iniciativa no 850

— A comunidade está localizada em área rural muito próxima da cidade de Aracruz, em Terra Indígena homologada em 2010. A área só está um pouco preservada nas beiras das grotas, rios e nascentes. No geral, foi muito devastada devido ao plantio de eucalipto que ocorria no local até antes de recuperarmos a terra. Depois da retirada dos eucaliptos, cresceu muito colonião. Atualmente, sofremos com a terra seca, o vento e os incêndios, que se alastram no capim alto e são uma grande ameaça à comunidade. Neste projeto, nós queremos contar a história de ocupação da aldeia Olho D’Água. Precisamos de um espaço para reunir as pessoas e todas as coisas que lembram a história da nossa luta pela terra. Vamos fazer uma casa para mostrar as fotografias, os vídeos, os jornais que contam essas histórias, além de gravar entrevistas com as lideranças que participaram da luta.

79


80

iniciativa nº 621 – Acauã Wassu

Esse local vai poder receber índios e não índios, escolas e professores. É um pedaço triste da história, mas queremos contar como conquistamos o nosso espaço. Queremos contar o que aconteceu de verdade. Teremos apoio de parceiros para fazer ampliações das fotos e para gravar as entrevistas em vídeo.

— CULTURA VIVA PAISAGEM DA NATUREZA

Para enfrentar essa situação, queremos utilizar o recurso do Prêmio para comprar equipamentos de audiovisual, a fim de produzir e editar vídeos e fotos e melhor registrar a paisagem da aldeia e os rituais que realizamos. Queremos memorizar o estado atual de conservação ambiental, para as futuras gerações. Serão compradas duas filmadoras, um computador e duas máquinas fotográficas, além de acessórios para os equipamentos. As gravações serão importantes para registrar as danças, roupas e pinturas corporais. A contrapartida da comunidade será a realização das reuniões festivas que serão gravadas.

povo Xakriabá terra indígena 

Xakriabá/Pedra Redonda aldeia Pedra Redonda habitantes 86 local 

São João das Missões - MG

proponente  contatos 

Reserva Indígena

PROJETO NARUÊ

Emilio Lopes de Oliveira

(38) 9867 - 2049 / 9834 - 8895 /

povo Kariboka aldeia 

eeindigenabukimuju@yahoo.com.br iniciativa no 184

— A comunidade da aldeia Pedra Redonda está numa terra reconhecida pelo governo, que ainda é bem preservada. Temos alguns animais de caça, a terra é boa para o plantio e nós mantemos nossos cultivos, embora faça falta um rio para a prática da pesca e de nossos rituais. Estamos preocupados com o aumento da população e as mudanças ambientais que estão ocorrendo.

Lobo Velho

povos. Atuamos também em escolas próximas para a divulgação da cultura indígena. Agora, por meio deste projeto, buscamos recursos para continuar a realizar nosso ideal, que é divulgar a cultura indígena. Nosso maior sonho é tornar nossa aldeia um espaço de vivência indígena e ensinar a pratica da caça, pesca e cultivo de plantas medicinais, fazendo remédios com essas plantas e comercializando-as. Também queremos produzir artesanatos com materiais oferecidos pela mata que cerca nossa aldeia e praticar rituais de nossos antepassados.

— ACAUÃ WASSU

— povo  comunidade 

proponente 

contato 

habitantes 

Suzano - SP

Ary Luis Tucunduva de Faria (11) 7871 - 0425 /

vive na cidade, no Bairro dos

Pimentas – Wassu Cocal de Guarulhos

habitantes 20 local 

Wassu Cocal

local  proponente  contato 

72

Guarulhos - SP Diva Máximo da Silva

(11) 96887-6771 – Diva Máximo

aldeialobovelho@hotmail.com

da Silva / (11) 96688 - 6366 – Nazaré

iniciativa no 553

Honório / divawassucocal@gmail.com

— A área não é reconhecida como Terra Indígena pelo governo federal – encontra-se registrada em nome do cacique. Lutamos pelo reconhecimento como ponto cultural indígena. Desde 2010 realizamos festivais culturais e rituais, reunindo vários

iniciativa no 

emprego e serviços básicos como saúde, educação e outros. Hoje, as famílias da comunidade vivem próximas, a maioria em uma mesma rua de um bairro de Guarulhos. Moramos em uma área de risco, devastada, onde passa um córrego e tubulação de petróleo. Existe uma mata próxima, que é a propriedade de uma pessoa que nos conheceu em um evento há oito anos e quis apoiar nosso trabalho e cultura. Nessa mata fazemos danças, rituais e damos palestras. Também extraímos o material necessário para o artesanato. Sempre estamos envolvidos com encontros indígenas, apresentações em escolas e eventos, produção de artesanato, reuniões e palestras. Por causa dessas atividades, necessitamos nos locomover por grandes distâncias. Por isso, queremos adquirir um meio de transporte próprio (perua) para facilitar nosso trabalho com o artesanato e divulgação da cultura indígena. Todos colaborariam para a manutenção do veículo com o dinheiro da venda de artesanatos e das palestras.

621

— A comunidade vive em área urbana, não reconhecida como Terra Indígena. O que motivou a vinda de Alagoas para São Paulo, há cerca de duas décadas, foi a falta de oportunidades em nossa aldeia como

TEKOA PYAU (ALDEIA NOVA)

— povo 

Guarani Mbya

terra indígena  habitantes 

Tenonde Porã

34 (na aldeia nova)

local  proponente  contato 

São Paulo - SP

Marcos dos Santos Tupã

(11) 99553 - 2401 / 5977 - 4325 /

5978 - 3351 / marcostupa@yahoo.com.br iniciativa no 768

— Nossa aldeia nova está dentro do limite da Terra lndígena Tenonde Porã, atualmente já identificada e aguardando providências para demarcação. Fica a cerca de 30 quilômetros da aldeia antiga, Krukutu. O acesso é difícil. Temos de atravessar uma represa para chegar ao local, porém, atualmente, não contamos com barcos. O trajeto tem sido feito a pé ou com caronas, contornando o lago. A área nova conta com recursos naturais, fauna e flora, terra fértil, muita mata para o artesanato e construção de casas, além de plantas medicinais. Por outro lado, não há infraestrutura como escola, posto de saúde etc. Mas o principal é que ainda não há o Opy’i, que é nossa prioridade e objetivo deste projeto. Todas as aldeias têm que ter esse espaço “sagrado”, para proteger o local e as pessoas no seu estado físico e espiritual. Precisamos dos recursos para transportar e alimentar pessoas das aldeias Krukutu e Tenonde Porã que nos ajudem a construir o Opy’i. Além disso, pretendemos fazer trabalhos como plantação de árvores frutíferas. Traremos amigos que vão registrar tudo em vídeo e fotografias. Com a construção do Opy’i e

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esse plantio poderemos dar à aldeia um começo positivo, deixando as pessoas muito felizes.

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— iniciativa nº 890 – Teko nhemoingo: Fortalecimento da

cultura e luta Ava Guarani

TEKO NHEMOINGO: FORTALECIMENTO DA CULTURA E LUTA AVA GUARANI

— povo 

Ava Guarani

terra indígena  habitantes 

em identificação

Tekoa Marangatu: 432 / Tekoa

Porã: 260 / Tekoa Karumbey: 62 local  proponente 

Guaíra - PR

Associação Tekone Mboguatá

dificuldade financeira tem impedido que isso aconteça com maior frequência. É nesses espaços que as lideranças compartilham e direcionam os problemas e questões relacionadas ao cotidiano guarani. Nesses momentos, também, as pessoas buscam orientações e fortalecimento espiritual. Tem aumentado o movimento contrário aos indígenas da região por parte de ruralistas e outras pessoas da região. Isso reforça a necessidade de melhorar a articulação das lideranças e a promoção da cultura. Pretendemos atingir a opinião pública para que apoie nossa causa. Para isso, precisamos sair da invisibilidade cultural e social.

Presidente: lnácio Martins

iniciativa no 890

— iniciativa nº 790 – Semana Cultural Resistência

Indígena Kaingang

iniciativa nº 795 – Kandoia Cultura Viva

As comunidades se localizam no município de Guaíra, fronteira com Paraguai e divisa com o Mato Grosso do Sul. As três aldeias estão dentro do perímetro urbano. O fluxo e interferência de pessoas em todas elas são intensos, e a escassez de recursos para a sobrevivência é geral. Nosso projeto pretende ajudar as comunidades a se reunir periodicamente, trazendo mais envolvimento das pessoas com a realização de reuniões político-culturais ava guarani. Sempre que possível fazemos essas reuniões para realização de atividades culturais, mas a

SEMANA CULTURAL RESISTÊNCIA INDÍGENA KAINGANG

A comunidade vive atualmente em uma retomada. No acampamento, aguarda o desfecho do processo de demarcação de sua Terra Indígena. A terra, antes usada pela monocultura, está muito afetada: não há mais quase mata nativa nos 1,9 mil hectares identificados como nossa terra de ocupação tradicional. Há muita falta de recursos para realização de atividades e dificuldade para encontrar materiais utilizados em nossa cultura, devido ao pequeno espaço onde moramos. A situação nos exige vigilância redobrada para manter a cultura e identidade da comunidade que está lutando pela terra. Nosso projeto da Semana Cultural tem o objetivo de fortalecer em nossa comunidade o histórico social e cultural kaingang, cantos, danças, artesanatos, alimentação, etc. Nosso espaço é limitado e pequeno, mas, com esse apoio, continuaremos revitalizando e fortalecendo nossas práticas culturais.

— povo Kaingang terra indígena 

Passo Grande do

Rio Forquilha habitantes 275 local  proponente 

Cacique Doble - RS Associação Comunitária

Indígena Kaingang Passo Grande – TIKPG contato 

Irini Franco – (54) 9908 - 6962 /

ereniedimofranco7@hotmail.com / Ereni Édimo Franco (Facebook) iniciativa no 

790

KANDOIA CULTURA VIVA

— povo Kaingang terra indígena Kandoia habitantes 200 local 

Faxinalzinho - RS

proponente 

Deoclides de Paula

contato  iniciativa no 

(54) 9558-9902 795 

premiada

A comunidade atualmente mora em barracas de lona, em um acampamento, sem energia elétrica ou saneamento, num espaço do Governo do Estado, com apenas 1,5 hectare. Nossa terra de ocupação tradicional está em procedimento de demarcação, aguardando portaria do Ministério da Justiça. Sem contar com a área que reivindicamos, temos que procurar as cidades próximas para trabalhar e obter nosso sustento, expondo-nos à discriminação constante. A comunidade sempre faz reuniões em que discute a importância das pessoas mais velhas transmitirem para os mais novos a língua kaingang, artesanato, medicina tradicional, danças e cantos. Como exemplo do resultado desse trabalho, hoje, todos no acampamento falam nossa língua – as origens e raízes de nosso povo estão praticamente intactas. Por meio dessas reuniões, nosso projeto vai buscar conscientizar a comunidade sobre a importância da cultura na recuperação da terra tradicional, além de identificar possíveis interferências em nossas práticas culturais. O objetivo é que o fortalecimento da comunidade nos ajude a agilizar o processo de demarcação de nossa Terra Indígena.

— MULHERES INDÍGENAS DE CACIQUE DOBLE

— povo Kaingang

terra indígena 

Cacique Doble

habitantes 930 local  proponente 

Cacique Doble - RS Lorena Manoel Antonio e

Valdir de Matos contato 

(54) 9919 - 7353 / 9985 - 5951 iniciativa no 

799

— A comunidade vive no interior de uma antiga reserva e atualmente aguarda a conclusão do processo de identificação de nossa terra. Hoje, onde vivemos existe pouca mata nativa. Também existe pouquíssima caça e pesca devido à poluição dos rios, pelo uso de agrotóxicos. Por nossa terra também passam uma linha de transmissão de energia e uma rodovia. Há muito trânsito de carros e pessoas estranhas, devido à proximidade da cidade. Por tudo isso, temos muita dificuldade para manter nossas práticas culturais – medicina, culinária, artesanato, grafismos etc. O objetivo de nosso projeto é unir as mulheres mais velhas e as mais jovens para o repasse de conhecimentos tradicionais e o fortalecimento da cultura da mulher. Há cinco anos, um grupo de mulheres decidiu que poderiam trabalhar para diminuir a desigualdade existente entre elas e os homens. Agora, nossa ideia é fortalecer o grupo. O apoio financeiro nos servirá para cobrir despesas das atividades e adquirir equipamentos e materiais.

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Nós já realizamos seminários, palestras, até a criação da organização das mulheres da Terra Indígena Cacique Doble. O objetivo, agora, é fortalecer a cultura para unir a comunidade na luta pelos nossos direitos.

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— HISTÓRIA DA TERRA INDÍGENA TOLDO IMBU iniciativa nº 799 – Mulheres Indígenas de Cacique Doble

— povo Kaingang terra indígena 

governo e encontram dificuldade para arrumar trabalho na cidade. Temos que nos deslocar grandes distâncias para encontrar materiais para manter nossas práticas culturais. Buscamos recuperar o território tradicional que pertenceu ao povo Kaingang, que aí residiu até 1950 e depois foi expulso. Em 1975, as pessoas expulsas retornaram para visitar sua antiga terra e ali começar a luta, que continua até hoje. A comunidade decidiu criar esta iniciativa para resgatar a história de seus antepassados e produzir um futuro melhor para seus filhos.

Toldo Imbu

habitantes 200 local 

Abelardo Luz - SC

proponente  contato 

Sandra de Paula

(49) 9173 - 2092 / 9956 - 5041 iniciativa no 780

iniciativa nº 780 – História da Terra Indígena Toldo Imbu

A comunidade está localizada próximo à cidade, em terreno pedregoso, enfrentando sérios problemas habitacionais e de saneamento básico. Há somente um rio próximo, tendo em suas margens um corredor de mata nativa. É nossa única fonte para retirar alguns materiais utilizados na aldeia. Mesmo assim, há estudos para construir ali pequenas hidrelétricas e uma unidade de tratamento de esgoto – obras que afetariam a comunidade. A terra está demarcada, mas falta a homologação para que possamos ocupá-la. Para sobreviver, as pessoas dependem de programas sociais do

TEKOA TUPÃ MBA'E – ALDEIA TEMÁTICA EM SAMBAQUI

— povo 

Guarani Mbya

terra indígena Pindoty aldeia 

Jataity (Conquista)

habitantes 50 local 

Balneário Barra do Sul - SC

proponente  contato 

Fernando da Silva

(47) 9139 - 7614 / 9150 - 3795 /

9131 - 5223 – Regina da Silva / 9704 - 4195 – Fernando da Silva / adilson.acosta82@hotmail.com / carlosda.silva152@gmaii.com iniciativa no 782

— Nossa comunidade está estabelecida em área rural, a 8 quilômetros da

cidade. Estamos nesse local há mais de 11 anos, vindos da aldeia de Morro dos Cavalos, visto que a BR 101 passou em nossas terras, fazendo com que o nosso povo se espalhasse. A nossa terra ainda está em processo de demarcação, por isso enfrentamos dificuldades de relacionamento com os moradores da região. Somos invadidos e desrespeitados em nossos direitos. Hoje, moramos todos concentrados em um só local, apesar do desejo das famílias de se espalharem. Sofremos ameaças e temos medo de ataques – nossa casa de reza já chegou a ser queimada. Nosso projeto é construir a réplica de uma das nossas aldeias, que funcione como um espaço temático, para trazer os juruá (não indígenas) para dentro da aldeia e proporcionar-lhes uma experiência de contato com o universo indígena através de sua cultura material, as narrativas, os usos e costumes e a língua falada, além de outros aspectos interessantes de nossa cultura espiritual. Será um espaço separado do restante da comunidade e terá várias construções típicas, onde se desenvolverão atividades acompanhadas por monitores indígenas. O projeto nos auxiliará em nossa manutenção financeira e na preservação de nossa identidade.

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— PRÁTICAS DE MANEJO AGROFLORESTAL —

Guarani Mbya / foto: Renato Soares


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PRÁTICAS DE MANEJO AGROFLORESTAL —  40 INICIATIVAS INSCRITAS  —

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O CULTIVO DE MUNDOS POSSÍVEIS por Joana Cabral de Oliveira

O QUE A CULTURA PODE SER?

A

o pensarmos nas culturas indígenas, a imagem imediata que nos toma é a de festas, artefatos, músicas, rituais e tantas outras manifestações próprias à inventividade humana e evidenciando sua capacidade de ultrapassar a natureza. Mas os povos indígenas têm a propriedade de desconcertar nossas certezas, de nos fazer pensar o impensável. O que alguns dos projetos submetidos ao Prêmio nesta sessão de Práticas de manejo agroflorestal nos trazem é que cultura pode ser um buritizal, o milho fofo, o fumo, uma serra... Nos apresentam, por exemplo, possibilidades como a de um pequeno rio lembrar as histórias de um povo: O igarapé Traíra, no rio Madeira, tem águas encantadas onde estão submersos segredos e histórias narradas pelos nossos velhos. O igarapé testemunhou toda a saga de nosso povo. (Projeto “Apicultura – Tradição Parintintin vida doce a Raoni” – AM 658).

O VALOR DO DIVERSO

A

forma como Benki Pyianko Ashaninka, em sua entrevista, se refere ao buriti também nos conduz nessa direção: “Se for olhar no histórico

desse Ser Buriti, você vai pegar desde o fruto dele, que você utiliza como vinho, a semente que se usa pra brotar é a mesma semente que você pode comer; as folhas que você utiliza para fazer linhas, cordas, [...] Com o talo do Buriti se produz a esteira [...] Ao derrubar o pé do Buriti, você vai ter desde o uso da raiz como remédio, até as larvas que comem a palmeira [...] se vê uma diversidade [...]”. A diversidade está na capacidade de um buriti agir e ser. Ele é mais do que mero suporte para as ações humanas, ele é um “Ser Buriti” que pode fazer um povo lembrar sua trajetória e mesmo identificar uma comunidade. As iniciativas que buscam resgatar variedades de cultivares próprios evidenciam como essas plantas permitem a confecção de alimentos aglutinadores de afeto e de pertença a um mundo. Assim é a farinha para os Tapuia, a araruta para os Paresi e o inhame para os Terena: [Os] anciões da nossa comunidade [...] contaram, com lágrimas em seus olhos, que têm saudades de inhame, milho fofo e de araruta. (Projeto: “Culinária Indígena Inamáti - Terena MT” – MT 704). Em muitos níveis, a diversidade aparece como um valor em si. Não por acaso, a agrobiodiversidade é um tema recorrente nos projetos. Vários deles buscam por meio de intercâmbios e feiras de sementes recuperar a diversidade de suas roças, as quais foram solapadas pela concepção de eficiência e alta produtividade intrínsecos ao modo capitalista


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Colheita de milho. Terra Indígena Kaxinawá do Alto Rio Jordão, AC / foto: Alice Haibara

iniciativa nº 1.056 – Roça Comunitária, povo Kiriri, BA

Waurá, MT / foto: Renato Soares

de produção de alimentos. Contudo, os vínculos com as variedades agrícolas ultrapassam o mero valor alimentar: os mais velhos sentem afeto e são saudosos do inhame, dos milhos coloridos, das variedades de mandioca e tantos outros cultivares que tem sabores de infância e permitem lembrar. Por isso, algumas das iniciativas associam a recuperação das plantas com a rememoração de histórias de tempos antigos e com as narrativas de origem dessas espécies. Além disso, a diversidade agrícola está atrelada a malhas sociais, constituindo-se por meio de relações de troca. Como em uma coleção, os cultivares adquirem valor por serem diversos, tanto por suas características morfológicas como os milhos vermelhos, brancos, amarelos e rajados dos guarani, como por suas origens sociológicas – por virem de uma visita feita a esta ou aquela aldeia, por terem sido dadas por um parente ou roubadas de um inimigo. Por esse motivo, os projetos que buscam retomar a biodiversidade agrícola preveem viagens a aldeias distantes, troca com outros povos e com parentes próximos, ações que hoje já não podem ser feitas sem auxílio financeiro. Frente aos contextos que se delineiam, esses povos vêm buscando novas alternativas, e é nesse cenário que tais iniciativas ganham relevo.

A MONOTONIA DO ESTADO VERSUS A MULTIPLICIDADE INDÍGENA

N iniciativa nº 899 – Pensando no amanhã, valorizando a cultura dos nossos antepassados e

prevenindo a alimentação do nosso futuro, povo Xacriabá, MG

a recuperação da agrobiodiversidade e dos saberes a ela associados, o que está em pauta não é a mera produtividade, mas a qualidade de vida segundo parâmetros que cada povo estabelece. Muitos dos problemas vividos pelas comunidades indígenas são efeitos de uma política de confinamento

e sedentarização promovida pelo Estado brasileiro há décadas, algo ainda mais crítico em regiões como o Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste, onde as poucas terras demarcadas foram feitas em porções diminutas e, muitas vezes, em áreas já degradadas. Por muito tempo a única solução vislumbrada e executada pelo próprio Estado foi exportar o modelo agrícola e alimentar hegemônico. Frente a uma política governamental acachapante e monótona de plantio de arroz, feijão e milho amarelo (agora transgênico e patenteado), que vêm com a promessa de resolver os problemas de nutrição e subsistência, esses povos começam a sentir saudades das cores e texturas que um milho pode ter, dos sabores que os tubérculos como a araruta, a batata-doce, a mandioca e a macaxeira possuem em sua diversidade de existência. É preciso notar ainda que a política de plantio de grãos não vem apenas com suas sementes homogeneizadas, vêm também com técnicas necessárias para implementar esse tipo de agricultura: desde a mecanização, passando por uma fixação espacial das roças, até a determinação de um conjunto restrito de espécies e variedades, e pelo uso necessário de insumos (fertilizantes e agrotóxicos). Daí a demanda indígena recorrente de retomada de uma agricultura singular – a roça de toco ou coivara, presente em muitos projetos. Tais iniciativas começam a criar resistências as formas agrícolas hegemônicas (ao sistema de monocultura, plantio intensivo e mecanização) que se mostraram inadequadas aos anseios de vida que esses povos têm. A roça de toco ou coivara se constitui pela derrubada de uma pequena porção de mata que é, então, queimada, processo que fertiliza a terra. Essa forma agrícola se baseia em pequenos roçados, normalmente familiares, que deslizam sobre o território: após colheita, o roçado é abandonado para que as plantas que sucedem uma área desmatada regenerem a cobertura vegetal e devolvam a fertilidade aos solos, o que a longo prazo resulta em uma nova porção de mata. Esse processo contrasta

radicalmente com a ideia de uma grande produção coletiva, praticada de maneira intensiva. Ainda que muitos dos projetos mencionem que recorrerão a mutirões para realizar roças e tantas outras atividades propostas, vale notar que isso não significa a produção de um espaço único e comum de plantio ou criação de animais. A palavra mutirão, de origem tupi diga-se de passagem, refere-se a um sistema de reciprocidade onde se trabalha coletivamente, mas não necessariamente para a constituição de um bem coletivo, o que se troca é trabalho, é relação social, e não um produto. Essa forma de trabalho está presente em várias propostas, evidenciando como essas populações impõem os seus modos de ação dentro da política dos projetos. Mas muitos dos problemas que motivam as iniciativas apresentadas não vêm apenas de políticas de Estado, pautadas na concepção da alta produtividade de alguns poucos cereais e da criação de animais exóticos. Diversos projetos apontam para os impactos no entorno das Terras Indígenas, os quais foram gerados pela agricultura e pecuária intensivos e extensivos que fazem uso de insumos tóxicos e poluentes. As Terras Indígenas estão se transformando em ilhas de biodiversidade, envoltas pela monotonia da soja, do milho e do pasto. Boa parte das propostas relata como o desmatamento do entorno de suas áreas está causando efeitos internos: a falta de caça, um resultado da interrupção do fluxo cinegético (circulação da caça) pelo desmatamento; a poluição das fontes de água; assoreamento; alteração e derrubada das matas ciliares etc. Visando a mitigar tais impactos, as iniciativas apresentadas buscam saídas distintas: de um lado a criação de animais exóticos como o frango, ou as plantações inspiradas na monocultura de espécies rentáveis como a laranja, entre outros que visam geração de renda para comprar bens, incluindo alimentação; de outro lado uma saída voltada ao manejo e valorização de espécies nativas como o

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Kamayurá, MT / foto: Renato Soares

Waurá, MT / foto: Renato Soares

iniciativa nº 747 – Nhande Djedjy - Nosso Palmito, povo Tupi Guarani, SP

tracajá, as abelhas sem ferrão, o manejo de fibras locais (ubuçu, croá e buriti), o plantio de mate, fumo e tantas outras variedades. Esse segundo grupo de soluções afina-se com as ideias apresentadas por Benki, de valorar os conhecimentos próprios a cada povo. Trata-se de iniciativas que percorrem um circuito e percepção internos a uma comunidade, arregimentando tanto os saberes desenvolvidos por esses povos como as condições ecológicas particulares a cada localidade. Já o primeiro bloco aposta nas soluções dos brancos para resolver os problemas por eles criados. A geração de renda foi fomentada por políticas públicas através de projetos completamente exógenos a essas populações, tais como: a criação de peixes exóticos com ração, granjas, criação de búfalos, plantio de arroz, laranja etc. Afinal, essa é a única solução que uma sociedade monetarizada como a nossa consegue vislumbrar, uma vez que não imagina nada além de sua imagem espelhada, ou seja, nada que esteja fora do seu horizonte de alta produtividade e comercialização. Argumentos correntes de que as Terras Indígenas seriam improdutivas apoiam-se justamente nessa falta de imaginação, na incapacidade de reconhecer que sociedades que não se organizem de forma idêntica à nossa possam existir de modo pleno: se as terras não comportam grandes pastos ou monoculturas para comercialização elas são necessariamente improdutivas. Mas, se não basta o simples argumento de que esses povos têm o direito de existir e de usar seus territórios como bem entendem, podemos lembrar o problema global de erosão genética que vivenciamos atualmente. A ideia de eficiência e produtividade conduziu a uma seleção de espécies e variedades cultivadas, ação que fez com que uma enorme gama varietal de batatas, milhos, feijões etc. desaparecesse. Foram as agriculturas familiar e de povos autóctones que mantiveram parte da agrobiodiversidade viva em alguns recônditos. Grupos de pesquisa como a EMBRAPA correm para amostrar e guardar em bancos

de germoplasma essa diversidade, mas as políticas públicas esquecem que esse é um conhecimento vivo, as variedades estão em constante evolução e vão sendo selecionadas e constituídas dentro desses sistemas agrícolas, guardá-las simplesmente não vai resolver o problema de perda de diversidade e riqueza genética.

SOLUÇÕES ÍNDIAS

O

protagonismo indígena nos tem levado a perceber outras saídas. Algumas delas estavam no campo do que nos era impensável, como apropriar-se de técnicas científicas de manejo para transformá-las em algo que lhes é familiarmente novo, o que nos conduz a repensar concepções como as de tradição e originalidade. A criação de peixes proposta pelos Tukano e Desano do médio rio Tiquié (AM 1022) envolve mais do que técnicas de piscicultura, apresenta a necessidade de que os peixes sejam benzidos conforme o complexo saber dos xamãs benzedores (baya), que dominam fórmulas enunciativas capazes de agir sobre o mundo, assim como propõe o respeito de regras e cuidados locais na captura de peixes e uso de timbó. Para aqueles que buscam separar o que é de origem indígena e o que são empréstimos, muitos dos projetos apresentam um emaranhado de criações e inovações onde tal tarefa é impossível: o manejo da palmeira licuri, espécie usada para dar sabor ao beiju; reflorestar a palmeira ubuçu, devido à relevância de sua fibra para construção de artefatos rituais; o plantio do “Ser Buriti” nas cabeceiras como um modo de cuidar das fontes de água... Em suma essas sociedades dão continuidade à produção de seus saberes, inovando e criando, processos que incluem a apropriação e a transformação dos saberes dos outros (sendo muitas vezes esses outros nós, os brancos).

A diversidade que parece ser tão importante para esses povos, não se encontra apenas na biodiversidade, mas também nos modos diversos de conhecer, em um processo contínuo de produção de saberes necessários para o bem viver. Assim, dentro das brechas que o Estado abre, alguns grupos vão impondo delicadamente, como forma de resistência, os seus modos de operar e conceber uma boa vida.

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"BUSCAR SUSTENTABILIDADE É BUSCAR NOSSO CONHECIMENTO" Entrevista com Benki Pyianco

A

entrevista com Benki Pyianco Ashaninka, realizada por Naiara Tukano, aconteceu no Centro Yorenka Ãtame, no município de Marechal Taumathurgo, Acre, em outubro de 2013. Benki é reconhecido em sua trajetória pelos trabalhos que tem realizado através do manejo de sistemas agroflorestais, apicultura, piscicultura, avicultura, trabalhos de cura espiritual, entre outras atividades. Desde criança foi considerado em sua comunidade como um menino que possuía um dom especial. Como dizia seu avô, Samuel Pyianco, um menino Ãntawiyari que veio ao mundo para resgatar e fortalecer os conhecimentos tradicionais do povo Ashaninka. Foi assim que desde dez anos assumiu a condução da aldeia no projeto de reflorestamento. Para tanto, fez larga pesquisa com os velhos e sábios de seu povo sobre as variedades de espécies que foi buscar no Peru. Foi então que a comunidade fez um novo planejamento, durante cinco anos, sobre como gostariam de viver após quinze anos de trabalho. Assim criaram o plano de desenvolvimento que trouxe uma grande transformação de seu povo com a eliminação de hábitos considerados por eles prejudiciais, como o uso do álcool, o consumo de energia elétrica, a criação de gado, entre outros. Voltaram a praticar de modo mais integral seus conhecimentos tradicionais como o uso

da ayahuasca, dos tambores, além de desenvolverem novas atividades como o reflorestamento, o manejo da fauna silvestre, dos quelônios (tracajás) e a apicultura. Em 1992 Benki saiu da aldeia pela primeira vez para falar na Eco 92 sobre sua visão de mundo. Foi uma viagem que impactou sua vida. Ao descer de ônibus do Acre até o Rio de Janeiro e ver um grande desmatamento decidiu que trabalharia incansavelmente com plantio e reflorestamento, mostrando como o sistema de agrofloresta pode servir enquanto modelo de desenvolvimento e pode ajudar o mundo e o equilíbrio do planeta. Em 2007, Benki criou o Centro Yorenka Ãtame, um centro de difusão dos saberes da floresta, em Marechal Taumathurgo, AC, com intuito de criar um “município da floresta”. Atualmente inicia uma nova política ambiental desenvolvida com jovens, indígenas e não indígenas da região, realizando trabalhos de sistemas agroflorestais, apicultura, piscicultura e criação de quelônios, que tem como pilar fundamental a busca de conhecimentos espirituais com a ayahuasca, como ensina a cultura do povo Ashaninka. Nesta conversa Benki conta sobre sua experiência de construção do Centro Yorenka, falando sobre o conceito de sustentabilidade relacionado aos conhecimentos do povo Ashaninka.

Benki Pyianco Ashaninka

— NAIARA  Eu queria saber, Benki: qual é a sua visão

de sustentabilidade? BENKI  Eu acredito que quando se visa a sustentabilidade, entramos em um eixo mais central. Quando se busca a sustentabilidade buscamos um resgate de conhecimento. Eu vejo que hoje, para assegurar a nossa sustentabilidade, a gente tem que resgatar o nosso conhecimento, puxar de volta as nossas raízes, é isso que vai dar a identidade daquilo que nós vemos como sustentabilidade. Se nós fossemos confiar no que viesse de fora para dentro do nosso território, nós estaríamos deixando de usar a nossa sustentabilidade para usar a do outro. Essa foi uma das coisas principais da nossa visão de trabalho. Quando nós víamos, por exemplo, hoje, olhando a roça do nosso povo, tinha pessoas que estavam plantando apenas um roçado de mandioca, só a mandioca, mas tinha outro que tinha a banana, milho, arroz, batata, inhames, tinha todas as espécies de frutas consorciadas em uma maior diversidade. Ali a gente via riqueza, quando olhava para essa sustentabilidade você via riqueza. Em nossas perguntas, em nossas análises, para haver uma sustentabilidade de alta qualidade, tem que entrar dentro deste eixo principal, que é o resgate destes conhecimentos, dos valores que existem dentro da tradição, e os valores que existem para o nosso próprio sistema.

A partir disso nós pensamos o que queremos de fora, se vamos precisar do arroz, do macarrão, da bolacha. É esse o valor cultural que traz a visão da nossa autonomia, porque se a gente fosse pensar na autonomia de dinheiro, nós estaríamos pensando numa outra fonte e esquecendo de nossa própria fonte. N  Esse pensamento de sustentabilidade seria para

vocês adquirirem conhecimento? Saber o que precisam para consumo interno? Ou seria algo que considera tudo, o mercado e essas relações com o mundo externo? B  Quando você vê os valores que existem de ambos os lados, você liga um universo. Por exemplo, quando nós estávamos plantando arroz, milho e feijão para vender, nós estávamos vendendo três coisas, mas quando nós pensamos que estávamos desmatando a nossa floresta, impactando a nossa vida, criando gado para vender achando que era uma fonte de renda, nós tivemos que inverter tudo. Então trabalhamos para assegurar o nosso alimento, o restante colocamos no mercado. Quando você cria um consórcio de espécies, de diversidade, dentro da cultura, das artes, do artesanato, da língua, da pintura, dos cantos, dos mitos, centraliza uma coisa maior, já não vive só. Por exemplo, com o artesanato eu penso: Como estou manejando cada espécie desta? Estou manejando a semente que eu estou usando? Estou manejando as penas que estou vendendo? Estou manejando os animais na floresta? Como é que eu vou poder falar do que eu estou vendendo? Então eu tenho que criar uma coisa


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maior, aí você cria uma autonomia, daí você vai criar uma coisa muito mais ampla e muito mais segura, e até mesmo muito mais sustentável do que tirar apenas para vender, você cria todo um mecanismo de sustento. Você vê o tamanho da diversidade que existe quando começa a ligar cada coisa com o projeto de sustentabilidade, aí você maneja desde as plantas, os animais, o seu consumo, o produto da sua venda, como ele está sendo vendido, o que você precisa de fora, como você consome o de fora dentro. Criando esse plano você consegue saber exatamente o que o seu território tem, o que você precisa e do que exatamente você vai depender de fora. N  Você passou a entender todas as espécies que fazem parte deste ciclo, e a importância do alimento, das plantações, dos rios, não só para si. Seria interessante falar sobre isso. B  Por exemplo, o buriti. O que o buriti dá exatamente? Quando planto um buriti para ter um sustento e criar um produto. O que é que eu penso dele? O que é que eu vou usar dele? Deste ser, o buriti, você vai pegar o fruto, utiliza do vinho, a semente, você bota para brotar e pode comer, as folhas para fazer as linhas, as cordas, as saias, todos os adornos que nós utilizamos para fazer os nossos enfeites, o talo produz a esteira, as camas, tudo. Você derruba um pé de buriti, você vai ter o uso da raiz, como remédio, as larvas que comem a palmeira, você come a larva como um produto também. Você vê uma diversidade de coisas que tem uma árvore dessa se você observar o que ela é. Você vê que existe uma diversidade em uma palmeira, outra diversidade em outra palmeira, e isso tudo interliga todo um universo de sustento. Quando vai para a parte econômica, que você pega todo o ciclo de espécies, você vai ver que essa diversidade tem uma riqueza tão grande que se o mundo olhasse para isso, jamais derrubaria, jamais retiraria de qualquer jeito e jamais ameaçaria ou exterminaria as diversas espécies. Eu vejo desse jeito olhando para a cultura indígena, agora, quando eu olho para o

mundo econômico, o negócio é diferente. Aí olhamos para uma coisa que para nós não existe, para mim é uma coisa que já não existe. Mas ao mesmo tempo, se eu quiser, também faço do mesmo jeito. Se eu quisesse derrubar a palmeira só para tirar o coco dela, plantar só para eu vender, eu ia pegar um ecossistema e desmanchá-lo para poder colocar uma monocultura. O meu trabalho não é esse, o primeiro trabalho meu foi pegar as pessoas mais velhas para eu entender o tamanho desta riqueza, que vem de cada espécie para a vida humana. Daí é quando você descobre a ciência, quando você descobre os valores, descobre a capacidade de um ser humano entender e compreender a dimensão dessa diversidade. Enquanto você não tem isso, para você não vale nada, é como se você pudesse derrubar para plantar um capim para criar gado, mas quando um cidadão começa a ter isso, ele vai ver que dentro de um espaço desse tem uma riqueza tão grande, que ele pode se achar pobre de bens materiais, mas bem de vivência, ele vai ser rico, vive a vida inteira dele milionário, com tudo perto sem precisar de nada de fora. N  Sobre o trabalho hoje que você desenvolve no

Centro Yorenka Ãtame. Quais seriam as principais ações que visam a sustentabilidade e como isso tem impactado na vida das pessoas e no território, dentro dessa consciência de vida? B  Pois é, essa é uma das coisas interessantes também, porque quando nós falamos de território indígena, nós estamos impactando com uma política que vem para destruir ou vem para tirar os bens apenas, não asseguram o equilíbrio. Vem só para tirar, derruba a floresta toda para o gado, impacta o rio, a floresta, o rio para fazer barragem. Você vê as pessoas navegando no rio, mas todo o lixo que pegam jogam dentro da água, você vê na cidade que quase 99% do esgoto vai todo para dentro do rio. Qual é o pensamento, a mentalidade, de cada coisa dessas? Quando olha para uma Terra Indígena, existe uma diferença muito grande, porque quando olham

os valores, os valores materiais e os valores que tem, aí entra o que é da gente, o espírito da coisa. Porque são duas coisas, o material e o espiritual, que andam juntos, você identifica exatamente aquilo que é importante. Esse trabalho que nós estamos fazendo aqui no Centro Yorenka Ãtame é exatamente o de mostrar essa qualidade, quando você liga o espírito, homem e terra, floresta e animais, consorciados em uma só diversidade, com um ciclo de vida, um sustentando o outro. Quando nós criamos esse sustento, de um ajudar o outro, é porque nós sonhamos com coisas melhores no futuro. Agora, quando nós pensamos numa coisa que vai servir apenas para mim, e não pensamos nessa diversidade que existe e nem visamos o futuro, destruímos tudo. É assim que várias pessoas constroem os seus prédios, apenas pensando no valor que aquele prédio vai dar quando estiver pronto para ser um hotel cinco estrelas, para ser uma grande indústria, para ser uma hidroelétrica ou para tirar o petróleo. As pessoas pensam num produto, não pensam nas consequências. O Centro Yorenka Ãtame existe exatamente para que a gente mostre essa diferença, reflorestar, recuperar, mostrar esse valor para a população. N  Quais são as dificuldades do presente e o seu

pensamento para o futuro? B  Bom, a gente vê que hoje tudo nesse mundo gira em torno do dinheiro, mas nós estamos aqui fazendo para mostrar que não é só o dinheiro que move. Isso se move também através de nossa coragem, da nossa garra. A gente vê que existe muita dificuldade, preconceito, racismo. A gente vê que ainda tem pessoas que não entendem o que é um projeto desse, nem buscam entender e criticam o que estamos fazendo. Vemos muitas dificuldades que acontecem nesse nível. Mas quando olhamos para o conceito de defesa do que nós queremos eu não tenho medo de nada, para mim todas essas palavras que as pessoas jogam largamente passam por mim e eu não vejo. Eu só vejo o que eu estou exatamente querendo, o que uma política fala, o

que o movimento diz e tudo o que eu pretendo fazer. Então, se eu tenho esse sonho de mostrar essa qualidade eu vou fazer, para poder dizer lá na frente o que é que nós estamos consumindo, aquilo que foi sonhado e que está realmente sendo vivido. Hoje, o meu sonho de ter criado isso aqui é o de daqui a dez anos eu ter tudo aqui dentro, para este município sentir, viver, ter e a gente mostrar um alto nível de consciência, esse valor, todo mundo alegre e feliz de dizer que hoje existe um espaço que dá, que tem visibilidade, que tem sustento, que tem equilíbrio e que pode ser levado pra qualquer lugar do mundo, esse conhecimento pode ser exportado para qualquer lugar do mundo, independentemente de dinheiro. Esse é o valor que a gente tem e é esse o valor que eu pretendo mostrar para o mundo. Porque se eu fosse mostrar o meu valor por dinheiro, iriam pagar muito caro para mim. N  Nesse sentido, como você vê a importância das

escolas indígenas para o futuro e essas formas de aliar os conhecimentos da vida tradicional com novas técnicas agrícolas para poder transformar? B  A gente sabe que existe uma diversidade muito grande de povos indígenas no Brasil, que tem uma diversidade de projetos que interligam centenas de coisas diferentes, ações diferentes, e que nós temos também diversos movimentos, de diversos estados. Uma das coisas que eu tenho pensado muito quando eu olho para as Terras Indígenas e todos os massacres que aconteceram lá para trás, o que ainda no presente vem acontecendo e o que pode acontecer no nosso futuro, nós temos que fazer, temos que pensar nesse preparo que precisa ser levado para a juventude. Cabe a você, a mim, a nós, orientar o que é bom e o que é ruim para a nossa juventude, porque se nós não levarmos esse contexto como uma realidade do que aconteceu no passado, nós vamos sempre estar à mercê de uma política que vai trazer para nós só destruição. Então nós temos que pensar no eixo principal, a nossa sustentabilidade é o quê? A nossa política deve ser o quê? Nós temos que conhecer o quê? Quais são

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Aldeia Apiwtxa durante o intercâmbio cultural com os povos indígenas da Terra Indígena Caititu / foto: Juliana Machieto

Centro Yorenka Ãtame / foto: Rayne Wenki

os valores políticos que o movimento indígena tem que defender? Nós vemos muita dificuldade, de muitos líderes que estão envolvidos, assinando para fazer hidroelétrica, outro assinando para ter dinheiro, outro assinando para desmatar a floresta, outro assinando projeto para fazer estrada, outro assinando para tirar petróleo, uma diversidade de projetos que estão aí, de empreendimentos que estão vindo, e que muitas vezes, sem orientação, a comunidade se envolve e acaba tendo impacto na sua sobrevivência. A droga é um problema muito sério, não falando só da droga de cocaína, mas falando de drogas em termos gerais, em termos da cachaça, da bebida alcoólica, como ela chega, espécies de veneno que vem de diversas maneiras, Coca-Cola, Guaraná, cerveja, maconha, chega dentro através de quem? De algumas lideranças que estão envolvidas nas coisas. E quando elas se envolvem nessas coisas, elas deixam de viver o delas, para mostrar para o outro, elas não vão ter a capacidade de mostrar para o outro, de falar um dia: pai, isso aqui não serve pra nós. Elas ficam com medo porque elas estão também dentro da coisa. Agora, quando elas não usam isso, quando elas não vivem com isso, elas têm coragem de enfrentar até bala, até morte, elas têm coragem de dizer, depende do momento e aonde, e como elas têm que dizer. O que é o nosso povo, realmente? Por isso que hoje muitas comunidades indígenas estão sofrendo, algumas enfraquecendo espiritualmente, outras enfraquecendo politicamente, outras envolvidas com corrupções, outras desequilibradas. Então é assim, nós defendemos o nosso povo, mas no entorno existe todo o desequilíbrio que vem mentalmente, espiritualmente, que não deixa nós botarmos os pés no chão com a segurança de falar para qualquer pessoa o que nós somos. Eu acredito que no movimento indígena, diante dessa política de hoje, não é com agressão que nós vamos conquistar o espaço, mas sim com nosso caráter e compromisso com aquilo que nós assumimos

e com aquilo que nós temos que mostrar ao nosso povo, um alto nível de consciência e de resgate daquilo que nós conhecemos como origem, da vida com a natureza. Se nós conseguirmos colocar isso no coração da juventude, no coração de quem hoje leva esse espírito da política indígena, vai fazer uma diferença onde for. Essas são as minhas palavras, que eu digo aqui, lá na aldeia, em qualquer lugar do mundo eu falo a mesma coisa porque eu acredito naquilo que eu estou fazendo. Eu não estou fazendo algo inventado pelos outros, estou fazendo a partir do que eu vivi, algo que me carrega e me sustenta, dando para mim esse equilíbrio de sustento das minhas palavras. Eu não posso falar do mundo, da política, porque eu não estou muito dentro dela, mas o pouco que eu vivo, o pouco que eu vejo, eu acho que precisa mudar muita coisa e para isso nós temos que falar dentro do Congresso, dentro da política, nos movimentos, nessas integrações e intercâmbios, sempre colocar essa posição do líder, do que precisa fazer dentro do seu território, não só em palavras, mas naquilo que está fazendo. N  Quando você fala da sustentabilidade, você co-

loca algumas abdicações que tiveram que ser feitas no início para que vocês conseguissem vetar todo esse movimento de pressão externa, da urbanização que cada vez mais vem avançando para dentro das terras indígenas. Gostaria que você falasse da importância desse processo. Como saber o que é importante para trazer para dentro? Por que a sustentabilidade também implica nessas formas de planejamento e de pensamento? B  Logo no início de toda a nossa luta pela demarcação da terra, nós passamos cinco anos nessa luta de defesa daquilo que nós estávamos propondo como nosso futuro. A gente estava recebendo muitos gringos, missionários, visitas, muitos turistas que vinham conhecer a nossa terra. Foi muito importante, nós começamos a ver quem era quem, e como era que cada um se achava dentro de uma comunidade. Tem

espírito que queria ser índio, mas em vivência, era diferente, todo mundo querendo virar índio, querendo receber esta energia, querendo viver essa coisa. Teve uma hora que nós pensamos muito. Nós dissemos: se nós formos viver esse mundo, nós vamos estar recebendo milhões de presentes, milhões de recursos e nós vamos deixar o nosso dever de nos proteger cada vez mais dessa visão que o mundo tem sobre o nosso território. Foi ali que nós paramos de receber pessoas, passamos cinco anos nesse projeto de olhar, observar, criar aquilo que nós queríamos. A comunicação, essa visão do resgate do nosso conhecimento, o que é que nós queríamos fazer com essa política externa e o que é que nós pretendíamos fazer quando olhávamos para o que nós queríamos consumir aqui dentro do território. A cooperativa, a nossa associação limitou centenas de coisas. Nós tínhamos a cushma1 nossa, para nos vestir, tínhamos nossos tecidos, nosso chapéu, nossos adornos, nossos colares, nossos enfeites, nossas pinturas, tudo, nós temos tudo. O que é que nós precisamos de fora então, para sobreviver? Vamos ter que comprar o arroz, feijão, milho? Ou nós sabemos fazer? Não precisava comprar isso. Nós estávamos precisando de tecido, calção, óleo, gasolina, machado, sabão, combustível. O que é que nós vamos precisar? Então a gente limitou várias coisas, saíram da nossa mão o açúcar, o sal, o sabão, muito pouco açúcar, ferramentas, o terçado e o machado para nós fazermos as nossas coisas, e outra coisa que a gente também aceitou foi o motor e o combustível para andar e facilitar o nosso trabalho. Todas essas coisas foram sendo limitadas, não para dizer que ninguém pode usar, podemos sim usar, temos o mesmo direito que qualquer pessoa, mas será que isso é importante pra nós? Ou nós podemos limitar certas coisas para não ficarmos endividados? Vamos comprar um gerador para botar luz, vamos comprar uma televisão para ter aqui uma televisão, vamos comprar um freezer ter

1  Vestimenta tradicional Ashaninka.

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aqui uma geladeira, vamos comprar um carro, vamos comprar uma moto? Não, vamos ter que criar o nosso sustento de uma outra maneira, essas coisas limitadas para a nossa vida facilitaram a criação do movimento que a nossa comunidade segurou junto com nós, lideranças, porque não é fácil.

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N  Eu acho bem interessante essa questão das

10.000 mudas, esse reflorestamento que vocês fazem desde o início e continuam fazendo, e essa interligação com a cidade. B  Eu quero resumir assim, como começou a nossa aldeia, como trouxemos para a reserva e como estamos aqui hoje. Nossa aldeia começou em 89, quando o Moisés saiu da aldeia, quando ele saiu da terra para defender o nosso território, ele foi andando no Brasil inteiro, foi ali onde ele viu tudo o que acontecia de desmatamento, perdas de animais e rios poluídos, tanta gente sofrendo e dizendo que o desmatamento era a única opção. Ele chegou para mim e disse assim: “O mundo está acabando porque as pessoas estão tirando tudo o que nós temos de vida, e aí as pessoas vão morrer e nós vamos morrer também. Se nós não recuperarmos tudo o que nós temos aqui nós vamos nos acabar. E eu quero colocar você para assumir isso junto comigo”. Eu disse: “você está colocando isso para mim?” Ele disse: “é, então junta todas as crianças». Eu disse: “está bom, deixa comigo então”. Foi ali que eu juntei as 60 crianças da aldeia para começar um processo. Nesse processo de ajuntar as crianças eu passei a pegar de cada pessoa mais velha da aldeia o que elas pudessem dizer pra mim sobre o uso de cada objeto desse, cada planta, cada erva. Foi quando eu me aprofundei no conhecimento espiritual. Por exemplo, a planta do açaí, o que come o açaí? É o tucano, o porco, o veado, é a anta, o macaco, tudo come a semente de açaí. Na época, eles ficam gordos. Usamos na caiçuma, no piyarentsi2, para tomar vinho,

Centro Yorenka Ãtame, viveiro de mudas / foto: Juliana Machieto

2  Festa tradicional de caiçuma, bebida feita à base de mandioca.

comemos a semente dele quando está nascendo e comemos o palmito também, que já tem outra proteína. Se nós olharmos o que uma árvore dessa tem, ela dá o fruto, o pássaro vem e come, o outro vem e come no chão, quando ela está nascendo outros vêm e comem, e nós também viemos e comemos, nós usamos o completo dela, além das folhas, da própria árvore que dá a madeira para fazer as casas, tudo isso. E eu falando todas essas coisas, mostrando o uso de cada espécie dessa, eu passei a criar uma coisa dentro de mim que muita gente pode perguntar: qual foi o cientista que te ensinou? A ciência é do nosso próprio conhecimento. Eu acho que se nós buscarmos, muito desses conhecimentos tradicionais têm muito mais ciência, muito mais do que uma academia às vezes pode ensinar. Essa é uma das coisas que eu adquiri sobre essa visão, e carreguei essas crianças para reflorestar nossa terra. Nós fizemos o reflorestamento sobre os pastos que existiam, a gente queimava, jogava a semente, juntava 100 quilos, 200 quilos, ia juntando, vendia para a universidade e plantávamos também. A gente fez esse trabalho e recuperamos a nossa terra. Foi ali que nós criamos os primeiros sistemas agroflorestais. Chegou um ponto em que nossa comunidade pensou na venda dos produtos, mas a gente esperou para que plantasse mais, produzisse mais. Se nós fossemos vender, estaríamos deixando de usar aquilo para nós mesmos e estaríamos vendendo para os outros. Primeiro nós iríamos nos alimentar para depois poder alimentar os outros. E a vinda para Marechal Taumaturgo vem com esse sonho de mostrar para a sociedade que desmata a floresta só para criar a monocultura do gado, ou do milho, do arroz, do feijão, a gente quer colocar essa diversidade. Depois que nós fizemos 80.000 mudas para nós plantarmos aqui, quando nós terminamos de plantar o rio alagou e cobriu tudo, a gente perdeu todas as mudas. Eu estava lá no Suruí com um projeto, para ajudar os Suruí em um projeto deles. Foi muito chocante para mim, eu fiz várias perguntas: “Por que isso aconteceu?” E todo mundo falava aqui na cidade de Marechal Taumaturgo: vocês estão

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Centro Yorenka Ãtame / foto: Rayne Wenki

Aldeia Puyanawa. Benki e sua família / foto: Rayne Wenki

comprando a terra? agora os Ashaninka vão tomar tudo. Vocês vão plantar? Vocês não têm dinheiro para fazer nada. Vocês vão deixar isso aqui acabar em merda. Eu disse: nós vamos fazer acabar em merda mesmo, porque nós vamos plantar, todo mundo vai comer e depois vão cagar. Mas nós vamos dizer uma coisa, isso aqui não vai acabar com cupim comendo não. Eu vou trabalhar, vou botar o meu espírito dentro disso para mostrar que nós somos capazes. Eu não dependo de nada, só dependo da minha energia estar pronta pra eu poder fazer tudo de novo. Eu chorava, passei uns três dias, na época eu tomava uma cerveja, fiquei tomando cerveja ali, na beira do rio chorando, olhando pra tudo o que eu estava fazendo. Então para mim, depois dessa situação, eu vinha para cá com os meninos, desenterrando as mudas quando o rio foi vazando, lavava as casas, e quando terminou eu falei assim: vamos tirar as sementes. Aí fomos para o mato, todo mundo de novo, passamos 15 dias no mato, tiramos todo tipo de semente e colocamos dentro de todos os saquinhos de novo, começou a nascer tudo de novo, vieram os kuntanawa, os ashaninka, os kaxinawá, sem ninguém pagar nada para ninguém, nem chamei ninguém. Eles mesmos disseram: vou praí txai, para ajudar. Eu disse: Vem para cá txai, vamos fazer junto, é nosso, um dia vai dar para vocês também. Eles vieram e em uma semana nós deixamos tudo plantado de novo, começou a nascer tudo de novo. A gente fez esse trabalho em dois anos. Recuperando tudo isso a gente começou a trabalhar com a reserva extrativista, nós levamos o reflorestamento, colocamos em 17 comunidades. Hoje as pessoas vêm aqui dentro e acham que é um paraíso, tudo o que nós temos aqui, desde as plantas, as casas, tudo o que a gente tem. Nós colocamos internet para as comunidades aqui da região, todas as comunidades indígenas, 10 pontos de internet aqui para a reserva extrativista, colocamos no parque nacional, no assentamento, aqui na Yorenka, montamos os pontos de cultura para resgatar todos esses conhecimentos das práticas tradicionais das pessoas

que vivem aqui e hoje temos um auditório para que a gente puxe todos esses conhecimentos para dentro, para que a gente possa fazer esses intercâmbios. Nós passamos a receber aqui 500 jovens das escolas, foi uma das parcerias que eu fiz, para a gente poder trazer alunos das escolas do rio Tejo, do Alto Juruá, daqui do assentamento, de Cruzeiro do Sul, das Terras Indígenas, além dos intercâmbios com outros povos que vieram de outros lugares do Brasil. Hoje nós temos aqui o reflorestamento, nossas mudas, a gente trabalha para isso. Ultimamente, como não tem nenhum projeto que nos ajude a fazer isso acontecer, esse é um dos trabalhos que nós fazemos para mostrar que a gente é capaz de fazer, e quem quiser ajudar, fazer parte desse projeto, que conheça ele, que traga ele para dentro de si e que passe também a fazer parte dele onde for, para qualquer lugar do mundo, levando essa experiência, porque eu acredito que é através disso que nós vamos mudar e fazer um novo momento da história do nosso planeta terra. Eu acredito que a juventude é um dos passos mais importantes para essa mudança global. Se nós não fizermos isso nós vamos deixar nossas crianças num futuro com nada, com vários empreendimentos como os que estão sendo feitos, inundando as florestas, aterrando rios, criando hidroelétricas, tirando petróleo, tirando florestas para colocar o gado onde nós podemos fazer o manejo dos lagos, dos rios, da floresta, dos animais, de tudo, e ter tudo junto, morando tudo junto e comendo todo mundo junto, exportando isso pro mundo inteiro comer, a gente poder fazer isso. Falta um plano político do governo, e eu tenho esse sonho de poder provar que isso é possível de ser feito, como eu estou fazendo aqui no Centro Yorenka Ãtame. Esse é o sonho do Centro Yorenka Ãtame, de recuperar essa diversidade. Nós temos aqui nossas mudas, tudo a gente faz aqui, é por isso que agora tendo esse pequeno projeto e com o apoio de uma fundação da França, a gente poder fazer um plantio por ano, 10.000 mudas de frutas na aldeia, 10.000 mudas aqui na Yorenka e 10.000 mudas no

Raio do Sol, além de madeiras que devem ser colocadas dentro do sistema, madeiras que possam servir futuramente de uso para a construção de nossas casas. N  Você gostaria de deixar uma mensagem para o

mundo? O que seria a riqueza e a importância da natureza, do alimento saudável? O que é o valor desse trabalho, o pensamento do modo de vida que você tem? B  Eu vejo que a minha mensagem nessa integração dos povos indígenas com a civilização do mundo ocidental, olhando o eixo central da política do nosso país, cada setor deveria procurar não somente limitar as coisas, mas facilitar as comunidades a desenvolverem suas ações, para que essas criatividades desenvolvam no país algo que o ajude a se equilibrar. E a comunicação também, essa interação precisa ser feita. O que eu tenho a dizer mesmo ao nossos parentes indígenas e movimentos é que mantenham essa vontade e esse desejo de querer fazer o melhor, que seja realizado o sonho de cada um, e que a gente possa intercambiar juntos esses conhecimentos em diversos lugares do nosso país, aproveitando os conhecimentos que já existem, as práticas já desenvolvidas, que podem ser levadas como exemplo, como segurança e até mesmo como realização daquilo que se pretende fazer. E aproveitar essa juventude que está na cidade, estudando, buscando um novo caminho, buscando uma nova direção, buscando ingressar em novas maneiras de vivência, que voltem para dentro para poder ajudar o seu povo, com sua capacidade, por ter uma visão na parte da escrita, de estudo, de toda a ciência do mundo, além do que o nosso povo tradicional tem, que possa voltar para ajudar na defesa dos povos que vivem nas suas comunidades. Eu tenho isso, faço aqui o meu, mas tenho levado essa mensagem para todos os parentes indígenas que passam por perto de mim e a cada comunidade que eu ando, e quem passar por perto de mim, eu vou sempre falar a mesma coisa.

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— RESGATE CULTURAL NA PLANTAÇÃO E SUSTENTABILIDADE COLETIVA

INICIATIVAS PRÁTICAS DE MANEJO AGROFLORESTAL iniciativa nº 524 – Resgate Cultural na Plantação e

Sustentabilidade Coletiva

— povo Karapotó terra indígena  comunidade 

Karapotó Terra Nova

Aldeia Karapotó Terra Nova

habitantes 1.500 local 

São Sebastião - AL

proponente 

Antônio José Filho

contato rosivanizidorio@hotmail.com iniciativa no 

iniciativa nº 1.043 – Protegendo e preservando nossas

fontes

524 

premiada

— A comunidade vive em uma área rural, reconhecida como Terra Indígena. Os recursos naturais não são suficientes, pois a área foi devastada pelos não índios. Devido à ausência de matas não é possível coletar, caçar, nem há rios para pescar. Apesar disso, a terra é propícia para o cultivo. A Terra Indígena é atravessada por estradas e linhas de transmissão de alta tensão. Com a proximidade a cultura acaba sofrendo muitas influências: a língua deixou de ser falada. O projeto objetiva aumentar a igualdade e a sustentabilidade. Proposto pelos mais velhos, sua base é a tradição de “troca de dias”, ou seja, uma troca de trabalhos onde uns ajudam aos outros. A ideia surgiu ao notar-se a importância das

ações coletivas, que fortalecem a comunidade e aumentam a produtividade agrícola. A iniciativa é composta pelas seguintes etapas: escolha da área para plantio; preparo do solo; plantio; tratos culturais e colheita. Através de reuniões com a comunidade discutiu-se a proposta e construiu-se o engajamento de todos visando à sustentabilidade. Participam da realização do projeto cerca de 60% das famílias, em especial os mais velhos que se preocupam com a tradição cultural. O resultado pretendido é aumentar a participação da comunidade, mostrando que o coletivo vence as barreiras e que ninguém é forte sozinho.

— PROTEGENDO E PRESERVANDO NOSSAS FONTES

— povo Pankararé terra indígena 

Pankararé Brejo do Burgo

comunidade 

Aldeia Ponta D’água

habitantes 2.850 local  proponente 

Glória - BA

Associação Indígena

Pankararé Aldeia Ponta D’água contato solluapankarare@yahoo.com iniciativa no 1.043

— Nós vivemos em uma área de caatinga, assolada pela seca. Apesar de

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106

iniciativa nº 1.051 – Pankararé Rodelas Baixa do Penedo,

Meio de Sobrevivência

iniciativa nº 1.056 – Roça Comunitária

reconhecida como Terra Indígena, sofremos com invasões. Nossa terra é cortada por estradas e linhas de alta tensão. É uma área preservada, mas o desmatamento é um problema preocupante. A caça é escassa, mas a terra é ótima para plantação, dependendo muito das chuvas. Nós temos fontes e poços artesianos, mas a estrutura do sistema deixa a desejar. Além disso, algumas das fontes estão em posse de posseiros. Como a água é um recurso escasso, surgiu a necessidade de zelar melhor pelas fontes, por isso nossa proposta de proteção e conservação das fontes. Os principais problemas enfrentados são as questões de poder político e a falta de atividades econômicas. Sem as chuvas nossas vidas ficam em torno dos animais, até o Croá fica difícil, pois não atinge a boa qualidade da fibra usada na confecção de artefatos. A ideia é nos prevenirmos da falta de água, protegendo e limpando nossas fontes, ações que devem ser feitas em mutirão. A maneira mais objetiva de resolver o problema é nos tornarmos autossuficientes e, para isso, precisamos fortalecer a associação e a escola para realizar ações coletivas. Esperamos com isso mostrar que vale a pena lutar pelo coletivo e proporcionar as crianças um engajamento nas questões indígenas e ambientais.

PANKARARÉ RODELAS BAIXA DO PENEDO, MEIO DE SOBREVIVÊNCIA

— povo Pankararé terra indígena 

Aldeia Pankararé

fundar a aldeia Pankararé Rodelas, com o intuito de manter nossos costumes, tradições e conhecimentos. O projeto é comprar o material necessário para conseguirmos transportar água do rio São Francisco e energia elétrica para a comunidade, para conseguirmos plantar nossas roças e garantir nossa sustentabilidade.

Rodelas Baixa do Penedo comunidade 

habitantes 120 local  proponente 

Aldeia Pankararé

Rodelas Baixa do Penedo Rodelas - BA

Rosineide Maria da Conceição

contato joao.camos1992.almeida@hotmail.com iniciativa n

o

  1.051

— Vivemos em uma área que ainda aguarda ser regularizada pela FUNAI. O espaço ocupado é pequeno e os recursos naturais não são suficientes para nossa sobrevivência. As principais dificuldades que enfrentamos são: acesso à água; regularização fundiária; e acesso à energia elétrica. A situação ambiental é de preservação das matas ciliares e da caatinga. Mas há problemas de desmatamento e assoreamento do rio São Francisco devido às ações de fazendeiros. Além disso, os fazendeiros limitam o acesso ao rio e usam agrotóxicos e adubação química. O objetivo da iniciativa é implementar um projeto de sobrevivência, subsistência e sustentabilidade da comunidade. Nós estávamos desaldeados e em 2006 nos organizamos para

ROÇA COMUNITÁRIA

— povo Kiriri

Nossa iniciativa constitui-se em fazer “roça comunitária”, para estimular a união e valorizar a roça como patrimônio histórico e cultural da comunidade. A ideia surgiu da situação climática da região (seca ou chuva intensas) e objetiva produzir e armazenar alimentos em quantidades suficientes. As atividades, a serem realizadas coletivamente, são: manejo do solo; plantio de feijão, milho e maniva; cuidar da lavoura; colheita e armazenamento. Esperamos com essa iniciativa assegurar nossa autonomia comunitária e fortalecer nossa identidade cultural.

terra indígena Kiriri comunidade 

local  proponente 

Pau Ferro

habitantes 198

Banzaê - BA

Onalvo de Jesus Santos

contato onalvo.santos@hotmail.com iniciativa no 1.056 

premiada

— A comunidade vive em área reconhecida no semiárido baiano. Está preservada, há caça e produtos que são coletados na mata. Há duas estradas que atravessam a terra kariri, além de linhas de transmissão. Os recursos existentes são suficientes, há sementes, barro, palha e madeira para manutenção de nossas práticas culturais. A comunidade recebe assistência do governo por meio do Bolsa Família e outros projetos. A língua kariri é usada apenas em rituais e o português é falado no dia-a-dia.

TRADIÇÃO, CULTURA E SUSTENTABILIDADE

— povo  terra indígena 

Fulni-ô Fulni-ô Xixiaklá

comunidade Xixiaklá habitantes 1.500 local  proponente  contato 

Águas Belas - PE

Simone Alves dos Santos

projetogeral@bol.com.br

iniciativa no 994

— Nossa comunidade vive em um aldeamento reconhecido pelo governo. Apesar de preservarmos a área, não existe caça devido aos longos períodos de estiagem. Também não há peixes, devido à ausência de rios e açudes nas proximidades. A terra

para agricultura é boa, em especial para plantio de milho. A área é cortada por um riacho temporário, mas sua água não é boa, pois passa por dentro de um esgoto. A água para consumo é encanada. Os recursos naturais não são suficientes, sofremos com a falta de reservatórios de água, com a estiagem, com a falta de sementes de milho e de recursos para adquirir animais de criação. Apesar de termos uma escola e um posto de saúde, não somos atendidos por nenhum programa do governo ou projetos. No dia-a-dia falamos o idioma indígena, que não corre o risco de deixar de ser falado, pois a escola é bilíngue. A iniciativa apresentada tem como objetivo resgatar os trabalhos coletivos na prática agrícola de plantio de milho e criação de cabras de leite. As famílias envolvidas escolherão duas áreas: uma para o milho, outra para os animais. Com os trabalhos coletivos pretendemos fortalecer a comunidade e valorizar a cultura. Os principais resultados esperados são: reduzir a desnutrição infantil, e manter a cultura nos modos de cuidar dos animais e plantar.

— FORTALECENDO O MANEJO DO CAROÁ, PARA A CONFECÇÃO DAS ROUPAS DOS PRAIÁS

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E REALIZAÇÃO DA FESTA TRADICIONAL DO POVO PANKAIWKÁ

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— iniciativa nº 658 – Apicultura - Tradição Parintintin Vida

Doce a Raoni

povo Pankaiwká terra indígena Pankaiwká comunidade 

Pankaiwká/Cristo Rei

habitantes  local  proponente 

184

Jatobá - PE

Associação indígena

dos produtores rurais da Comunidade Indígena Pankaiwká iniciativa nº 1.017 – Tururi Onecü

da caroá é a essência de nossa cultura, pois com ele confeccionamos nossos Praiás, nossa entidade máxima. Sem os Praiás não podemos realizar as festas. Hoje enfrentamos a escassez de caroá e o desinteresse dos jovens. Os resultados que pretendemos alcançar são: unir a comunidade para fortalecer nossa cultura e realizar as nossas festas.

contato franciscapankaiwka@hotmail.com iniciativa no 

997

— Nossa comunidade vive em uma área reconhecida pela FUNAI, mas ainda não foi demarcada, por isso sofremos ameaças constantes de desapropriação. Nossa área sofre com o desmatamento, o rio está impróprio para o consumo e pesca, uma atividade importante para a nossa segurança alimentar. Hoje a comunidade é atendida por programas do governo que auxiliam na subsistência. Já perdemos a nossa língua, só algumas palavras são pronunciadas durante os rituais. O objetivo de nossa iniciativa é fortalecer o manejo do caroá, usado na confecção das roupas de festas tradicionais. Essa é uma prática milenar do nosso povo. Nós decidimos realizar essa iniciativa por perceber que os jovens estão se afastando das manifestações culturais. O manejo

SUSTENTABILIDADE ALIMENTAR DA CULTURA E TRADIÇÃO PANKARARU

— povo Pankararu

terra indígena Pankararu comunidade  habitantes  local  proponente 

do Morcego 30 famílias

Jatobá - PE

Rita de Cássia dos Santos

contato kathikuik@gmail.com iniciativa no 1.036

— A nossa comunidade fica no pé das serras, em uma área reconhecida como Terra Pankararu. Nós sofremos com a perda de biodiversidade. As invasões e exploração causam grande prejuízo à nossa forma de vida, nos levando a recorrer a outras áreas em busca de recursos. Mesmo a terra sendo boa para plantar, a chuva não vem. Em tempo

de seca, cultivamos a mandioca, que fornece a massa e a goma para o beiju e aproveitamos o caldo para fazer a quixiba, alimento tradicional hoje raramente praticado. O objetivo dessa iniciativa é reafirmar os valores das práticas coletivas relacionadas à alimentação. Através da memória dos mais velhos, pretendemos praticar e registrar nossa história, além de fazer o reflorestamento do licurizeiro, já extinto na nossa área, que é usado para dar sabor ao biju. Recorremos ao Prêmio com o objetivo de reafirmar algumas práticas através do reconhecimento, do manejo, do plantio e da coleta de recursos naturais usados em pratos tradicionais. Esse projeto é composto pelas seguintes etapas: pesquisa sobre a localização das espécies; preparo de mudas de licuri, maniva e banana; coleta de alimentos; preparação de pratos; armazenamento de frutos; uso na merenda escolar; e elaboração de vídeo. Assim, pretendemos valorizar as práticas tradicionais de preparo e colheita dos alimentos.

— APICULTURA – TRADIÇÃO PARINTINTIN VIDA DOCE A RAONI

— povo 

Parintintin

terra indígena 

9 de Janeiro

comunidades 

Aldeia Traíra e

Aldeia Pupunha habitantes 400 local 

— povo Ticuna

Humaitá - AM

proponente  contato 

TURURI ONECÜ

Ivaldo Parintintin

parintintin.rondonia@gmail.com iniciativa n

o

 658

— Nossa terra, reconhecida pelo Governo, está preservada, mas temos algumas porções devastadas. Há poucos animais para caçar e os peixes já diminuíram. Da mata coletamos açaí, castanha, mel, palmito e babaçu que estão ficando escassos. Nossas terras são boas para o plantio. O igarapé Traíra, no rio Madeira, tem águas encantadas onde estão submersos segredos e histórias narradas pelos nossos velhos. O igarapé testemunhou toda a saga de nosso povo. O alcoolismo e a evasão dos jovens têm sido os principais problemas da nossa comunidade. Nossa língua, kawahíwa, é usada cotidianamente. O objetivo desta iniciativa é criar abelhas para produzir mel para consumo e comercialização. Decidimos pela apicultura, pois é uma tradição nossa ter mel e a procura na cidade é grande. Esse projeto prevê a compra das caixas e demais equipamentos, treinamento técnico, plantio de espécies vegetais boas para produção de mel, e coleta de abelhas nativas. Esperamos com isso voltar a ter fartura de mel e diminuir a evasão da comunidade por meio de uma nova fonte de renda.

terra indígena  comunidades 

Éware I

Vila Nova Esperança, Cigana

Branca, Piranha, Laguinho, São Domingos habitantes 760 local  proponente 

Tabatinga - AM

Nazareno Belém Marcos

contato 

(97) 3411 - 1338

iniciativa no 1.017

— As comunidades ticuna vivem em uma terra homologada, em área preservada: há um pouco de caça, peixe suficiente para consumo e venda, e produtos coletados na mata. Nem toda a terra é apropriada para plantação. As áreas de várzea são as melhores, mas sofrem com enchentes. Na terra firme é possível cultivar, mas é menos produtivo. Entre os problemas vivenciados há: presença de madeireiros, pesca ilegal, alcoolismo, e escassez de matérias primas como a palmeira Ubuçu de onde se extrai o tururi. O objetivo do projeto é justamente resgatar a fibra vegetal tururi com o reflorestamento. O tururi tem seu valor associado à produção artístico-cultural ticuna, sendo usado em muitos eventos, em especial na Festa da Moça Nova, cerimônia de grande importância. Essa fibra é apreciada por artesões não indígenas, o que gera uma exploração predatória da palmeira. Além de proteger da extinção e da

109


110

iniciativa nº 1.021 – Torü naranhã tchitau -

Plantio de laranja

relevância do resgate cultural do tururi, o manejo de Ubuçu contribuiria para geração de renda por meio da comercialização. A maior dificuldade de realizar o projeto é a falta de conhecimentos técnicos sobre o cultivo de Ubuçu. Por isso projeto visa realização de cursos técnicos. Os resultados pretendidos são: reflorestar a Ubuçu; resgatar o tururi; gerar renda para as famílias; capacitar os moradores como multiplicadores; criar condições de estudo e pesquisa sobre a palmeira Ubuçu.

— TORÜ NARANHÃ TCHITAU – PLANTIO DE LARANJA

— povo 

Ticuna

terra indígena  comunidade 

Vila Betânia

Santo Antônio do Íça - AM

proponente 

Agosto Paulo Rosindo

contato 

(97) 9149 - 3490

iniciativa n

Vila Betânia

habitantes 3.439 local 

A comunidade é atendida por alguns programas do governo e possui três escolas. A principal língua utilizada é a ticuna. O projeto tem os seguintes objetivos: preservar o plantio de laranja na cultura ticuna; comercializar; e diminuir o consumo de produtos industrializados. A iniciativa já está em andamento e a plantação de laranjas já foi realizada por meio de projetos com a FUNAI, mas ainda faltam recursos para executar algumas atividades. O projeto prevê reuniões com a comunidade e com os agricultores, organização e divisão de tarefas, e elaboração de relatório sobre as atividades. Com esta iniciativa pretendemos recuperar o plantio de laranja, incentivar os produtores e moradores, e melhorar a produção do plantio de laranja.

o

 1.021

— A comunidade fica situada na zona rural, em terra reconhecida pelo governo. A área é bem preservada e com terra boa para plantação, onde cultivamos mandioca, melancia, banana, cará, laranja etc. Os rios e igarapés estão contaminados com lixo, o que gera problemas de saúde.

SERIBHI-TORAMU – IÑANURU DARASE: MANEJO SUSTENTÁVEL NAS COMUNIDADES YAIKAHIRO, BAYAPE, UHTATITHA E WARUSERAKO – MÉDIO TIQUIÉ

— povos 

Tukano (Dahsea) e Desana (Wirã)

terra indígena 

Alto Rio Negro

comunidades 

Santo Antônio, Maracajá,

São Francisco e São João Batista habitantes 154 local 

São Gabriel da Cachoeira - AM

proponente 

Orlando Massa Moura

contato nildo@foirn.org.br iniciativa no 

pretendemos uma estruturação dos trabalhos das comunidades e da associação, um aprofundamento da política e prática de manejo, e que os locais sagrados sejam melhor conhecidos e registrados.

1.022

A nossa terra é bem preservada, existe caça e peixe. Plantamos principalmente mandioca, da qual cultivamos várias espécies. Desde 2008 estamos integrados à discussão sobre o manejo no rio Tiquié, em articulação com associações indígenas e a ONG Instituto Socioambiental. A partir do Prêmio queremos nos organizar e fortalecer nossa associação. O objetivo dessa iniciativa é aprofundar discussões e práticas sobre manejo dos recursos da região, cuidar do nosso território, onde vivemos com nossos filhos. Nosso foco principal é o mapeamento da área de manejo. O trabalho começou em 2005 e foi desenvolvido no âmbito do movimento de manejo ambiental do médio Tiquié. Cada agente indígena de manejo ambiental pesquisou nas comunidades, conversando com grandes conhecedores tukano e desana. Eles registraram os conhecimentos sobre: onde existem malocas, áreas de piracema, argila, bacabal, etc., para fazer nosso mapa. Esse projeto é composto pelas seguintes etapas: registro de locais sagrados e manejo tradicional dos peixes (benzimentos, regras de confecção de armadilhas, entre outras atividades). Com isso

FEIRA MEBENGÔKRE DE SEMENTES TRADICIONAIS

— povo 

Mebengôkre

terras indígenas 

Kayapó, Menkragnoti,

Las Casas, Bau e Capoto/Jarina comunidades 

20

habitantes 3.593 local 

São Félix do Xingu - PA

proponente 

Associação Floresta

Protegida - AFP contato 

floresta@florestaprotegida.org.br /

feiradesementes@florestaprotegida.org.br / (94) 3433 - 9611 iniciativa no 738

— A Feira Mebengôkre de sementes tradicionais é uma iniciativa feita na comunidade Moxkarakô na Terra Indígena Kayapó, com participação de todas as aldeias Mebengokrê do Pará e Mato Grosso, além de comunidades de outros povos indígenas. Nossa área está preservada, com muita mata, caça e peixes. A terra é boa para plantar e tem muitos rios, igarapés e lagoas. A maior parte é água limpa e só o que preocupa são

os rios que nascem fora da Terra, como Rio Fresco que tem garimpo, ou os rios que fazem divisa com a área dos kuben (não indígenas), como o Rio Branco, que só tem fazendas do outro lado. Ali o rio não é tão limpo e tem muita areia por conta dos pastos. Também nos preocupa uma estrada que vai rodeando o limite de nossa Terra, porque sempre tem invasões, garimpeiros e madeireiros querendo entrar para tirar ouro e madeira. Um problema que nós estamos percebendo é que com o tempo as sementes da nossa tradição, que nós plantamos na roça e sempre cuidamos para não perder, estavam diminuindo. Por isso nosso objetivo com a Feira Mebengôkre de Sementes Tradicionais é fazer um grande encontro entre parentes, para trocarmos as plantas e as sementes da nossa tradição. Com as plantas e as sementes nós trocamos também os jeitos de fazer, de curar, as histórias, as comidas, os cantos, as danças e tudo o que é da nossa cultura. O maior objetivo é fortalecer e valorizar a cultura indígena e toda sua diversidade, fazendo uma grande festa.

— KAMOIMAÝRY

— povo 

Mebengokre Xikrin

terra indígena 

Trincheira Bacajá

aldeia 

Bacajá

habitantes 179

111


112

local  proponente  contato 

Anapu - PA Katendjo Kayapo

(93) 3515 - 4026

iniciativa no 754

— iniciativa nº 266 – Projeto colheita de castanha

iniciativa nº 555 – Extração do Óleo da Copaíba

iniciativa nº 566 – Granja de frangos

A área indígena, já demarcada, é preservada. Tem caça e terra boa para plantar. O rio Bakajá tem muitos afluentes, mas a água não é boa pois na cabeceira tem muitos garimpos que usam mercúrio. O garimpo é uma das ameaças que sofremos, mas também há invasões de madeireiros e fazendeiros. Há ainda a ameaça da usina Belo Monte que vai secar o rio. Na aldeia tem escola, posto de saúde e começamos a receber salário maternidade. De 2010 a 2011 recebemos o plano emergencial da Norte Energia como compensação por Belo Monte, mas ainda esperamos o Plano Básico Ambiental. Na comunidade todos falam a língua xikrin, mas na escola as aulas são em português. Nosso projeto é fazer um roça coletiva. Antigamente tinha muitas batatas diferentes, milhos, bananas, eram muitos tipos. Agora só plantamos de um tipo. Através da roça coletiva queremos plantar todas as variedades que comíamos antigamente e compartilhar os conhecimentos sobre elas. As dificuldades enfrentadas são a falta de apoio (ferramentas e alimentação) para quem está trabalhando. Esperamos conseguir produzir alimentos para toda a

comunidade sem precisar comprar comida na cidade. Resgatar os alimentos tradicionais também irá diminuir as doenças na aldeia.

— PROJETO COLHEITA DE CASTANHA

— povo 

Arara

terra indígena 

Arara do Rio

As etapas que compõem o projeto são: retirada da castanha e depósito para então fazer o transporte da mesma, através de barco. A castanha é levada até a Aldeia Serra Azul e de lá para a cidade, onde será comercializada para comprarmos mantimentos. A maior dificuldade enfrentada é a falta de recurso financeiro e apoio. O projeto deverá suprir essa demanda com a compra de um barco e materiais necessários para coleta e armazenamento da castanha.

Guariba Colniza

comunidade Aldeia Serra Azul habitantes 17 local  proponente 

Cacoal - RO

Associação Indígena Arara

contato assoc.indigena.arara@hotmail.com iniciativa no 266

— Vivemos em área reconhecida pelo governo. A terra é boa para cultivo, com muitos animais selvagens e rios para pesca. Mas os recursos naturais não são suficientes e faltam recursos do governo. Sofremos ameaças de fazendeiros, madeireiros e grileiros. A língua mais usada no dia a dia é o português. Eu, o Cacique geral da comunidade, reuni os demais moradores e discutimos a dificuldade da retirada da castanha, recurso importante para angariarmos recursos financeiros para nosso povo. A castanha fica distante da Aldeia Serra Azul, e temos dificuldade de transporte. Por isso tivemos esta iniciativa de “colheita da castanha”.

EXTRAÇÃO DO ÓLEO DA COPAÍBA

— povo 

Arara

terra indígena 

Arara do Rio

Guariba Colniza comunidade 

Aldeia Serra Azul

clandestinas que acabam destruindo parte de nossa mata. Eu, o cacique, e os moradores da aldeia Serra Azul, tivemos esta iniciativa para fortalecer a comunidade. Nosso objetivo é angariar recursos para melhoria da comunidade por meio do comércio do óleo da copaíba. O projeto é para comprar os materiais necessários para extração e comercialização do óleo. Esperamos com essa iniciativa alcançar uma boa renda financeira, para ajudar o nosso povo Arara com alimentação, medicação, transportes e outros, pois não temos auxilio do governo.

— GRANJA DE FRANGOS

proponente  contato 

Cacoal - RO

Associação Indígena Arara

assoc.indigena.arara@hotmail.com iniciativa no 555

— Existe uma grande área preservada com árvores nativas, plantas medicinais e animais para caça e pesca. É possível adquirir na mata cipós para vassoura, castanha, óleo de copaíba etc. Também cultivamos mandioca, banana, batata e legumes. Temos rios, córregos, e minas de água natural. Mas existe desmatamento realizado por madeireiras

A língua mais falada na Aldeia é o português. A língua indígena corre o risco de se perder por causa do contato. Apesar de o espaço ser suficiente, enfrentamos dificuldades com a produção de alimentos. Por isso decidimos fazer esta iniciativa, para construir uma granja para produzir frangos para consumo e comercialização. A iniciativa surgiu da necessidade de renda para poder comprar mantimentos e outros bens. Faremos a construção de galpões com telas, em seguida compraremos os materiais necessários e as aves. Então daremos início a produção. Com essa iniciativa pretendemos fortalecer a comunidade e incentivar o desenvolvimento cultural.

povo Arara

habitantes 24 local 

corta a área indígena), e com a invasão de madeireiros e grileiros, sendo que uma pequena porção da terra já foi desmatada.

terra indígena 

Arara do Rio

Guariba Colniza comunidades 

Aldeia Alegria

habitantes 22 local  proponente 

Cacoal - RO

Associação Indígena Arara

contato assoc.indigena.arara@hotmail.com iniciativa no 

566

— A comunidade vive em área demarcada. A terra é boa e cultivamos batatas, mandioca etc. Na mata há castanha e plantas medicinais que coletamos. Enfrentamos problemas com fazendeiros (a estrada deles

PATRIMÔNIO CULTURAL WAI-WAI: A ARTE COM WEWE EPERÎRÎ (SEMENTES) NA COMUNIDADE LARANJINHA - RR

— povos 

Macuxi, Wai-Wai, Wapichana, Xirixana, Katuena

terra indígena Trombetas/Mapuera comunidades  habitantes 

Laranjinha e Makara 20 em Laranjinha e

50 em Makara

113


114

local  proponente 

Boa Vista - RR

Cléia Alice Morais da Silva

contato cleiamorais4@gmail.com iniciativa no 423

— Com muita luta nossa terra foi homologada. Nossa área está bem preservada e possui, em quase toda sua extensão, floresta de terra firme, com rios, igarapés e lagoas. A comunidade vive da agricultura de coivara, da caça, da pesca e da coleta de produtos silvestres. Também temos uma pequena plantação de banana para comercialização. No dia a dia as crianças, velhos e adultos falam entre si na língua wai-wai. Nós do povo Wai-Wai valorizamos a nossa língua, pois é ela que contribui para a continuidade de nossas tradições. O objetivo dessa iniciativa é divulgar o estudo das sementes wewe eperîrî usadas na confecção de artefatos. Por meio de um catálogo pretendemos apresentar informações ecológicas, bem como os procedimentos e técnicas que são adotadas para o tratamento e uso das sementes. A motivação para elaborar o catálogo é seu uso nas escolas indígenas e em pesquisas acadêmicas, para divulgar a riqueza da floresta local. O trabalho já começou e foi realizada uma pesquisa de identificação e catalogação de 27 sementes. Foi através da pesquisa de uma professora indígena que percebemos a desvalorização desse patrimônio cultural. As artesãs

estavam deixando de produzir ornamentos corporais devido ao uso de produtos industrializados. O nosso maior objetivo é repassar esses conhecimentos às crianças e aos jovens que devem lembrar e valorizar a cultura à qual pertencem.

— FORTALECIMENTO E GARANTIA DE SUSTENTABILIDADE ALIMENTÍCIA

— povos 

Macuxi e Wapichana

terra indígena 

Raposa Serra do Sol

comunidade 

Imbaúba

habitantes 52 local  proponente  contato 

Boa Vista - RR

Os únicos projetos existentes são de iniciativas criadas e financiadas pela própria comunidade, como a criação de animais. O objetivo desse projeto é ampliar a criação de peixes. Preocupados com a diminuição dos peixes nas fontes naturais, iniciamos em 2011, com recursos próprios, a piscicultura para propiciar a subsistência e gerar renda. A criação foi feita em uma lagoa que não possuía sangradouro e por isso não havia peixes. Nós conseguimos bons resultados, mas para dar continuidade necessitamos de verba para compra de ração e materiais. Com essa iniciativa esperamos ampliar e melhorar a viabilidade do projeto, e contribuir com o conhecimento de comunidades vizinhas, ajudando a fortalecer outras iniciativas.

Clodomir Malheiro

cir_2012@yahoo.com.br

iniciativa no 866

— Nossa área está bem preservada. É uma região de lavrado com ilhas de mata ciliar, por isso há pouca caça e a terra não é boa. Realizamos agricultura caiçara (onde o gado fornece adubo para a roça), pois temos problemas de fertilidade e irrigação. Os recursos naturais estão cada vez mais escassos, não sendo suficientes para a manutenção da comunidade. Ainda não temos posto de saúde e escola, sendo necessário o deslocamento para comunidades vizinhas.

VALORIZAÇÃO E FORTALECIMENTO DA TERRA PARA SUSTENTABILIDADE

— povo Macuxi terra indígena  comunidades 

Raposa Serra do Sol Beija Flor (Tukui)

habitantes 25 local 

Boa Vista - RR

proponente  contato 

Amilton de Souza

cir_2012@yahoo.com.br

iniciativa no 872

A comunidade está localizada em região de lavrado, à margem do rio Maú. Apesar de não ser desmatada, a vegetação é majoritariamente rasteira e de porte médio, com ilhas de mata ciliar, por isso há pouca caça. O pescado não é suficiente devido ao aumento populacional. A terra não é boa para o plantio, fazemos agricultura caiçara, onde o gado oferece o adubo necessário, mas temos problemas com a falta de irrigação. Os recursos naturais disponíveis estão escasseando e não são suficientes, por isso buscamos alternativas como essa iniciativa, que objetiva fortalecer a agricultura familiar. Somos contemplados com alguns programas do governo, mas ainda não temos posto de saúde e escola, sendo necessário nos deslocarmos. Todos falam a língua macuxi, que está presente também na escola. Hoje nos preocupamos com a dificuldade na produção alimentar ocasionada pela falta de solos férteis e de água. A plantação de mandioca é uma pratica tradicional das populações indígenas e a farinha é a base nossa alimentação. Nossa maior dificuldade é a ausência de equipamentos de irrigação e o projeto deve auxiliar em sua aquisição. Com isso, esperamos implementar a produção de farinha e garantir nossa sustentabilidade.

VALORIZAR OS CONHECIMENTOS TRADICIONAIS E A MANUTENÇÃO DA NATUREZA PARA SUSTENTAÇÃO DA VIDA

— povos 

Macuxi, Wapichana e Sapará

terra indígena  comunidades 

Raposa Serra do Sol

Beija Flor, Teso Vermelho,

Lameiro, Macaco, Julia, Santa Cruz, Jacarezinho, Imbaúba, Serra Grande, Jiboia e Lau-Rau habitantes 4.569 local 

Boa Vista - RR

proponente 

Conselho Indígena

de Roraima - CIR contato cir_2012@yahoo.com.br iniciativa no 873

— Hoje enfrentamos problemas de invasões de garimpeiros e madeireiras ilegais, e a interferência de estradas que cortam nossa terra. Todas as famílias são beneficiadas por projetos do Governo Federal e Estadual, mas ainda faltam escolas e posto de saúde em algumas comunidades. As comunidades falam suas respectivas línguas maternas, que estão sendo ensinadas nas escolas. As comunidades situam-se em áreas de campos abertos (lavrado), com ilhas de matas (buritizal, mata ciliar etc.). O principal rio é o Maú e temos várias lagoas. Plantamos as diversas espécies. Em áreas pouco

acessadas, como a serra Temerém, existem caça e espécies frutíferas que precisam ser levantadas para uso e manejo, pois os recursos não são suficientes. O objetivo de nossa iniciativa é realizar o levantamento preliminar dos recursos na serra Temerém – uma área destinada a procriação de animais silvestres. Gostaríamos de realizar um estudo para o uso sustentável dos recursos e uma possível intervenção para multiplicação das espécies. Com o aumento populacional escasseou a caça, e agora Temerém está ameaçada, necessitando de um plano de manejo. A expectativa da comunidade é que esta iniciativa fortaleça o uso sustentável dos recursos, através de um planejamento para a segurança alimentar das gerações futuras e, assim, garanta a continuidade dos povos indígenas da Raposa Serra do Sol.

— CASA DE FARINHA MARLY TAPUIA

— povo 

Tapuia do Carretão

terras indígenas Carretão comunidade 

Tapuia

habitantes 217 local  proponente 

Rubiataba - GO

Marina de Jesus Chaves Tapuia

contato welingtontapuia@hotmail.com iniciativa no 857 

premiada

115


116

iniciativa nº 702 – Heranekisu (Hera fruta do buriti;

Nekisu pé do buriti)

Nossa terra, reconhecida pelo Governo Federal, está localizada em área preservada de cerrados com pequenas manchas de mata ciliar. A terra é boa para o plantio e cultivamos milho e mandioca. A área é cortada por uma estrada e fica próxima a fazendas. Somos atendidos por programas do Governo e temos escola e posto de saúde. O povo tapuia fala o português, mas temos o nosso dialeto: o português tapuia. Esse projeto começou em 2009 com o plantio de mandioca e produção de farinha. Nosso objetivo era fortalecer a comunidade na área social e na subsistência. Com ele pretendemos valorizar a cultura e a identidade tapuia. A iniciativa foi proposta pelo CIMI e a comunidade resolveu se envolver. A maior dificuldade é a falta de infraestrutura para o trabalho. Por isso essa iniciativa prevê a ampliação e manutenção da casa de farinha, além de compra de utensílios. O trabalho será realizado em mutirão, como sempre fazemos.

— RAIZ, PLANTA E CULTURA: INTERCÂMBIO DE RAÍZES E SEMENTES DAS ROÇAS TRADICIONAIS

— povo Paresí terra indígena Paresí aldeia Paraíso habitantes 29 local 

Tangará da Serra - MT

proponente 

Benedito Garcia Onizoka

contato marciamacielmt@hotmail.com iniciativa no 336 

premiada

— Vivemos em terra reconhecida pelo Governo Federal, em uma área de cerrado bem preservado. Ainda temos um pouco de caça, frutas que coletamos e um braço do rio Juruena, onde pescamos. Mas, temos dificuldade em encontrar o buriti, usado na alimentação, como remédio e na construção de casas tradicionais. A aldeia fica perto da antiga BR 364, por onde passa o tráfico de droga e, as vezes, temos problemas com isso, além das brigas com fazendeiros. Todas as pessoas da comunidade falam a língua paresí, do tronco Aruak. Atualmente estamos retomando as roças e voltando a plantar o milhofofo. Nós tivemos alguns projetos que ajudaram a recuperar o nosso milho, que havia desaparecido da terra paresí. Agora temos algum apoio para nossas roças de toco e passamos a plantar três tipos de batata doce, abóboras e outras plantas. No ano de 2008 até 2010, foi feito um levantamento sobre as roças e vimos que havia pouca variedade de plantas. Fomos, então, visitar os parentes Krahô em 2010,

e ao voltarmos fizemos também uma feira de sementes. O nosso objetivo maior era ter o milho-fofo de volta. Fomos também aos Nambikwara e buscamos sementes de milho, que foram divididas com outras aldeias paresí. O objetivo dessa iniciativa é possibilitar uma continuidade desses intercâmbios de raízes e sementes e, assim, aumentar a diversidade das roças. Com os intercâmbios esperamos incentivar em outras aldeias o desenvolvimento da roça de toco.

— PRODUÇÃO DE CARÁ DA ALDEIA NOVA ESPERANÇA

— povo

Xavante

terra indígena  aldeia 

São Marcos

Nova Esperança

acesso à cidade. Outro problema são as queimadas frequentes. Temos escola, poço artesiano, rede de água nas casas, Bolsa Família e aposentadoria rural. O objetivo desta iniciativa é envolver a comunidade para aumentar a produção de cará e, assim, melhorar a qualidade da alimentação. A dificuldade encontrada para realizar esse projeto é a falta de recursos para compra de equipamentos e subsídio das atividades. O projeto é composto pelas seguintes etapas: mutirões para limpar a roça, construir cercas e preparar o solo; uma viagem e acampamento de 10 dias com 10 pessoas para aldeia Dzépa, aldeia xavante no Município de Campinápolis (MT), para caçar os cará nativos; realizar um mutirão para plantar; e, por fim, realizar uma reunião para avaliar a execução das ações e encerrar o projeto. Assim esperamos envolver a comunidade na produção do cará e melhorar nossa alimentação.

habitantes 230 local 

Barra do Garças - MT

proponente 

João Tobias Wahone

Tserenhimi’rami contato 

wahone09@gmail.com

iniciativa no 446

— A Comunidade da Aldeia Nova Esperança é uma das 45 existentes na Terra Indígena São Marcos, que fica em região de cerrado. Todos da comunidade são falantes da língua xavante. Nossa maior dificuldade é que não temos carro para facilitar o

HERANEKISU (HERA FRUTA DO BURITI; NEKISU PÉ DO BURITI)

— povo 

Nambikwara

terra indígena Tirecatinga aldeias 

Novo Horizonte e Três Jacu

aldeias 

25 em Novo Horizonte

e 85 em Três Jacu local 

Sapezal - MT

proponente 

Cleide Adriana da Silva

contato cleideadriana595@gmail.com iniciativa no 702

— Nossa terra, reconhecida pelo Governo Federal, está preservada, permitindo a coleta de frutos do cerrado e da mata. Mas, estamos cercados por fazendas de soja e gado, o que leva à escassez de caça e peixes, e à poluição dos rios. Outro problema é a construção da Pequena Central Hidrelétrica, que impacta os recursos ambientais. As fazendas também impactaram áreas de várzea, que secaram e resultaram na perda de vegetação nativa, umas delas, de grande importância para nós, o buriti. Atualmente o buriti não é suficiente, sua escassez afeta a construção de casas, o artesanato e a produção de vestimenta usada em rituais. O objetivo dessa iniciativa é realizar o plantio de buriti e recuperar a roça de toco, já que temos sofrido também com a perda de biodiversidade agrícola. Na roça de toco faremos o plantio de milho fofo, araruta e outras variedades importantes para a culinária tradicional. Já o plantio do buriti é fundamental para a manutenção de muitas práticas culturais, além de resolver o problema da escassez de caça, pois atrai animais. O buriti e a roça de toco têm, ainda, importantes elaborações cosmológicas e são um veículo para o fortalecimento cultural. As principais etapas do projeto são: coletar mudas de buriti e plantá-las; fazer a roça de toco; buscar

117


118

tubérculos e sementes em outras áreas indígenas; plantar e colher para realizar uma festa às entidades espirituais; e adquirir equipamentos para registrar o trabalho.

— CULINÁRIA INDÍGENA INAMÁTI

— povo 

Terena

terras indígenas 

Terena Gleba Iriri

Novo, Buriti e Limão Verde comunidades 

Inamati Pokeé,

Limão Verde e Buriti habitantes 

40 em Inamati Pokeé, 820

em Limão Verde e 1.600 em Buriti local 

Matupá - MT e Aquidauana - MS

proponente 

Joilso Leite Torres

contato joilsonlt@gmail.com iniciativa no 704

— Nossa comunidade Inamati Pokeé vive em uma terra demarcada. Como foi ocupada por fazendeiros, parte da mata nativa foi devastada para pastagem, outra parte está preservada, possibilitando a caça, a pesca e a coleta. A terra é boa para o plantio. Os problemas que enfrentamos são: falta de água para consumo; a distância de centros urbanos; o desmatamento nas proximidades, devido à monocultura e madeireiros, o que gera assoreamento; e uso de veneno nas plantações de soja do entorno. Os recursos existentes em

nossa comunidade são suficientes, o problema que enfrentamos é a perda de diversidade agrícola, por isso buscamos esta iniciativa para revitalizar e valorizar nossa culinária. O objetivo é resgatar as variedades, que quando viemos para Mato Grosso, deixamos para trás, passando a plantar o milho amarelo dos brancos. A proposta é buscar as variedades em Buriti e Limão Verde, e desenvolver e praticar o cultivo em roças de toco. A ideia partiu dos professores e anciões da nossa comunidade que contaram, com lágrimas em seus olhos, que têm saudades de inhame, milho fofo e de araruta. A maior dificuldade é a falta de verba para buscar sementes no Mato Grosso do Sul e para fazer a roça. As atividades que vamos desenvolver são: intercâmbio para buscar variedades e conhecimentos; reunir nossa comunidade para repassar a experiência; abertura da roça de toco; plantio; construção de um barracão para armazenar sementes e tubérculos; e realizar três oficinas sobre o preparo de nossos alimentos.

— ABELHAS NATIVAS MAHÔA

— povo 

Paresi (Haliti)

terra indígena Utiarití aldeias 

Mahoa, Quatro Cachoeira e Seringal habitantes 90

local 

Campo Novo dos Parecis - MT

proponente 

Osvaldo Batista Xexokamae

contato miriamvokairo@hotmail.com iniciativa n

o

 892

— Nossa Terra Indígena é uma área preservada de porções de cerrado e mata, rica em biodiversidade. Nós praticamos caça, pesca, coleta e roça de toco. Os recursos em geral são suficientes, mas temos escassez de palha e madeira usadas nas casas tradicionais, nas quais recebemos entidades espirituais e realizamos festas. A aldeia Mahoa, recém criada, ainda não possui nenhuma infraestrutura. Conseguimos dinheiro para as demandas comunitárias por meio de um pedágio na estrada que corta nossa terra e que ocasiona acidentes fatais. O objetivo dessa iniciativa é fortalecer nossas práticas por meio de uma ação voltada às mulheres para a criação de abelhas sem ferrão em cabaças ou caixas. Outras aldeias já criam abelhas exóticas, mas nós queremos valorizar o conhecimento e a cultura haliti sobre abelhas indígenas. Além do consumo, o mel é usado como remédio e em rituais. Também usamos a cera em muitos artefatos. Para realizar esse trabalho vamos precisar construir uma casa tradicional para nos reunir e para contar as histórias das abelhas que conhecemos, revitalizando nosso conhecimento. As etapas do projeto são: fazer um calendário comum; construir a casa tradicional em Mahoa; receber treinamento técnico em um meliponário; construir galpão para

meliponário; realizar oficina sobre abelhas indígenas; e registrar os trabalhos. Assim vamos valorizar os conhecimentos haliti sobre abelhas, valorizar as mulheres da comunidade e nos fortalecer.

— HALITI NA CULINÁRIA INDÍGENA

— povo 

Paresi (Haliti)

terra indígena Utiarití comunidade 

Aldeia Mahoa,

Quatro Cachoeira e Seringal habitantes 90 local 

Campo Novo dos Parecis - MT

proponente  contato 

Angela Maria Zunizakae

miriamvokairo@hotmail.com iniciativa no 906

— Nossa terra, reconhecida pelo Governo Federal, está preservada e é rica em biodiversidade. O solo predominante é a areia, mas temos uma faixa de terra roxa, onde fazemos roça de toco para plantar mandioca, cará, abacaxi etc. Há duas estradas cortando a área, nós cobramos pedágio e arrecadamos recursos para as nossas associações. Assim mantemos a estrutura (carro, gerador, etc.) das aldeias, auxiliamos os estudantes indígenas que cursam universidades e compramos medicamentos. A lavoura mecanizada, aprendida com os brancos, é uma atividade praticada em nosso território, mas sabemos

que ela não é saudável, por isso fizemos a aldeia nova Mahoa afastada, para realizar a roça de toco. Essa iniciativa é voltada para a valorização dos alimentos que plantamos, pois muitas sementes e tubérculos tradicionais foram deixados para trás. Os anciões reclamam da ausência de araruta, milho fofo, banana rocha, batata roxa, etc. Nessa iniciativa pretendemos nos deslocar para outras comunidades para resgatar variedades tradicionais. O objetivo é fazer uma roça comunitária e um barracão para guardar as sementes, tubérculos e mudas. Os mais velhos estão dispostos a ajudar e contar as histórias de origem do amendoim, da mandioca kazalo, entre outras. Com isso, buscamos a troca de conhecimentos entre gerações. Todo esse processo deve ser registrado, servindo de base para realizar oficinas sobre alimentação tradicional envolvendo as mulheres e as escolas indígenas. Com essa iniciativa pretendemos valorizar e fortalecer a alimentação tradicional, os nossos conhecimentos e as mulheres haliti.

— IDU ETÂDO PARU XUAHURU – PROTEÇÃO DO OLHO D'ÁGUA

— povo 

Bakairi (Kurã-Bakairi)

terra indígena Bakairi

aldeia 

Paikum

habitantes  local 

78

Paranatinga - MT

proponente  contato 

Odil Apacano

(66) 9668 - 3637

iniciativa no 907

— Apesar de preservada, nossa terra tem pouca caça e pescado, situação agravada pelo desmatamento e poluição provocados por fazendas de gado e soja que nos cercam. As cabeceiras que ficam nas fazendas estão poluídas devido aos insumos agrícolas e à derrubada das matas ciliares. Em nossa comunidade temos um olho d’água e ficamos felizes de saber que tomamos água limpa. Nós cuidamos muito da cabeceira e tivemos a ideia de reflorestar seu entorno com buriti e outras espécies nativas. O buriti é muito importante na nossa cosmologia, ele é usado para confeccionar utensílios, artesanatos e aparatos rituais. Essa palmeira é uma aliada na manutenção da nossa cultura. Hoje enfrentamos a escassez do buriti, provocada pela falta de um plano de manejo, algo necessário às condições de vida em uma área delimitada. O objetivo dessa iniciativa é fortalecer nossa cultura através da proteção e cuidados ambientais, com o reflorestamento do buriti e proteção do olho d’água. Um buritizal pode, ainda, auxiliar na escassez de caça, pois a palmeira atrai muitos animais. O primeiro passo é ir atrás de mudas, atividade que será auxiliada

119


pela FUNAI. Depois faremos o plantio ao redor do olho d’água e começaremos um viveiro. Também pretendemos registrar o processo e para isso adquiriremos os equipamentos necessários.

120

— TRACAJÁS PARA TODOS OS ÍNDIOS DO XINGU

— iniciativa nº 926 – Tracajás para todos os índios do Xingu

povo 

Kamayurá

terra indígena 

Parque Indígena

do Xingu (PIX) aldeia Myrená habitantes 70 local  proponente 

Canarana - MT Kanawayuri Leandro

Marcello Kamaiura iniciativa nº 1.008 – Meio ambiente e sustentabilidade: açude

contato marcellokamaiura_9@hotmail.com iniciativa no 926 

premiada

iniciativa nº 337 – Resgate alimentação e tradição Caxixó

A área do PIX está preservada, mas já há diminuição de recursos, como o tracajá. A maior parte da terra é alagada e não é boa para plantar, mesmo assim cultivam suas variedades de plantas. Atualmente há problemas ambientais por conta da implantação de pequenas centrais hidroelétricas e dos agrotóxicos e esgotos das grandes fazendas do entorno. Os indígenas do PIX têm uma alimentação baseada nos produtos da agricultura e da pesca, com

destaque ao tracajá. Além da qualidade nutricional, o tracajá também tem importância cultural, faz parte de ritos, narrativas e representações artísticas. O crescimento populacional e o desmatamento do entorno vêm acarretando a diminuição do tracajá. Preocupados, os Kamaiurá iniciaram com auxílio da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária/EMBRAPA e FUNAI o manejo desta espécie, propondo que 9 praias do rio Xingu sejam livres de predação. Foram escolhidas as praias onde há desova para serem monitoradas e protegidas. O projeto já obteve os seguintes resultados: proteção de 9 praias; evolução na proteção de filhotes, iniciado com a soltura de 1.000 e atualmente de 10.000; realização de cursos de educação ambiental; confecção de materiais para divulgação e capacitação; geração de informações sobre os tracajás no PIX; e construção de uma maternidade na aldeia. O objetivo geral do projeto é continuar a conservação e manejo de tracajá. Nossa maior dificuldade hoje é financeira, pois necessitamos de combustível e pessoas que se dediquem integralmente ao trabalho, por isso recorremos ao Prêmio.

— PLANTIO DE LAVOURA DE MANDIOCA

— povo 

Terena

terra indígena Lalima aldeia Lalima habitantes 2.300 local  proponente 

Miranda - MS

APLAAL – Associação de

Produção Leiteira e Agrícola da Aldeia Lalima contato 

o.gabilon@gmail.com

iniciativa n

o

 680

— Apesar de vivermos em uma terra reconhecida, há anos lutamos pela revisão de seus limites, que foram invadidos por fazendeiros. Com o tempo e o crescimento da população, escassearam a caça, os peixes e as terras agriculturáveis. Por isso há a necessidade de aquisição e investimentos em práticas de produções agrícolas modernas. Lalima é uma área preservada, coberta por matas e cortada por córregos. No entanto, os grandes criadores de gado da região têm desmatado o entorno e, hoje, o território é insuficiente para suprir as nossas necessidades. Devido à influência não indígena quase perdemos a língua terena, falada somente pelos antigos e que, por isso, foi inserida no currículo escolar. Nossa iniciativa objetiva: fomentar a agricultura, atendendo as necessidades de alimentação e comercialização; elevar quantidade e qualidade dos produtos; gerar trabalho e renda; promover segurança alimentar; e valorizar o trabalhador e o produto local. A ideia é investir

na produção de mandioca, um cultivo que faz parte da cultura terena e que produz bem em nosso solo. Nossa maior dificuldade é a falta de apoio para o preparo do solo, manutenção das máquinas e transporte do produto final. As principais etapas do projeto são: reunião para pensar o preparo do solo, a manutenção do trator, a aquisição de materiais e as formas de trabalho; discutir a produção e produtividade das áreas; buscar parcerias; levantar o destino final dos produtos; preparar o solo; plantar; colher e comercializar.

— Terena

Poço Indígena Taunai

aldeia Imbirusu habitantes 200 local 

Aquidauana - MS

proponente  contato 

Gilson Francisco

(67) 3258 - 1041

iniciativa no 

RESGATE ALIMENTAÇÃO E TRADIÇÃO CAXIXÓ

— povo Caxixó

Capão do Zezinho

comunidade 

MEIO AMBIENTE E SUSTENTABILIDADE: AÇUDE

terra indígena 

terra indígena 

povo 

operador para construir o açude. Nós plantamos mandioca, milho, etc. Também criamos animais e, por isso, precisamos de água no período da seca. Com o açude resolveremos esse problema.

1.008

— Nossa terra está em processo de demarcação. A situação da pesca e caça é precária, faltam recursos ambientais. Sofremos com a seca e precisamos de um açude. Essa iniciativa prevê aluguel de máquina e

Espindaiba

habitantes 100 local 

Martinho Campos - MG

proponente  contato 

Associação Indígena Arara

escola.322865@educacao.mg.gov.br

iniciativa no 337 

premiada

— A comunidade vive em área rural, ainda não reconhecida como Terra Indígena. São 5 hectares de território familiar. A área está devastada, mas ainda encontramos animais para caça e temos um rio que proporciona a pesca e córregos com água de boa qualidade. A comunidade cultiva mandioca, milho, frutas, etc. Entre as interferências que ameaçam a situação socioambiental estão: a estrada que passa dentro da aldeia e a presença de posseiros que plantam eucalipto. Infelizmente os recursos naturais não são suficientes para

121


manter nossas práticas culturais: deixamos de fazer artesanatos e outras práticas por falta de matéria prima e espaço.

122

iniciativa nº 339 – Resgate alimentação e tradição Caxixó

iniciativa nº 899 – Pensando no amanhã: valorizando a

cultura de nossos antepassados e prevenindo a alimentação do nosso futuro

A comunidade é atendida por uma escola estadual e um posto de saúde. Nós perdemos nossa língua materna, pois nossos ancestrais foram proibidos de falar sua própria língua. Este projeto é para resgatar nossos alimentos tradicionais. Queremos construir um tanque para criar peixes, pois no rio não há mais peixes devido à poluição. As etapas que comporão o projeto são: preparo do terreno, preservação das nascentes e compra dos alevinos. Com uma melhora da alimentação e fortalecimento da cultura pretendemos reduzir a evasão dos jovens, possibilitando a permanência deles na aldeia e melhorando a preservação da cultura.

— CRIAÇÃO DE GALINHAS CAIPIRAS NA ALIMENTAÇÃO TRADICIONAL DA CULINÁRIA CAXIXÓ

— povo Caxixó

terra indígena Caxixó aldeia 

Fundinho

habitantes  local 

198

Martinho de Campos - MG

proponente 

Conselho Comunidade

Indígena Kaxixó (CCIK) contato glaysoncaxixo@yahoo.com.br iniciativa n

o

vamos fortalecer nossa comunidade e nossa cultura.

 339

Vivemos em uma área rural, que está em processo de reconhecimento. A luta histórica pela demarcação de nosso território e a falta de assistência nos levaram a um estado de pobreza que foi agravado pela seca. Nossa área é muito pequena, preservamos a mata que resta e nos faltam áreas para plantar, não temos recursos ambientais e hídricos suficientes. Os fazendeiros, além de tomarem nossas terras, as desmataram. Atualmente sofremos preconceitos e ameaças dos fazendeiros vizinhos. Outra dificuldade é a falta de renda e a ameaça de nossa segurança alimentar, por isso decidimos apresentar esse projeto de criação de galinha caipira. Parte da comunidade trabalha nas fazendas de eucalipto e com o projeto vamos poder ampliar nossa renda e implementar nossa alimentação, pois o crescimento populacional vem causando problemas de fome e desnutrição que poderão ser sanados com a criação de galinha. O projeto, além de ajudar na compra de material necessário, deve auxiliar na capacitação técnica. Pretendemos fazer uma oficina sobre avicultura e nela transmitir também os conhecimentos dos mais velhos das aldeias: as histórias e práticas relacionadas a alimentação tradicional. Assim

PENSANDO NO AMANHÃ VALORIZANDO A CULTURA DE NOSSOS ANTEPASSADOS E PREVENINDO A ALIMENTAÇÃO DO NOSSO FUTURO

— povo 

Xacriabá

terras indígenas Xacriabá comunidade 

Vargem, Barreiro Preto,

Sumaré (1,2 e3), Custódio e Catinguinha habitantes 350 local 

São João das Missões - MG

proponente 

Alípio Ferreira da Cruz

Nós falamos português, mas ainda tem pessoas que falam xacriabá. O objetivo de nossa iniciativa é a construção de uma casa para armazenamento de sementes crioulas e nativas. Essa iniciativa começou em 2008 com mais de 18 variedades de milho e feijão. A partir dos encontros com outras comunidades, surgiu a ideia de resgatar as sementes crioulas, pois percebemos que elas estavam se perdendo e sendo afetadas pelas variedades transgênicas. Precisamos agora de uma casa para armazenamento adequado das sementes. A comunidade vai fazendo o que pode através de mutirões, mas faltam recursos para apoiar os trabalhos agrícolas e realização da casa de armazenamento. Esperamos com essa iniciativa ter uma alimentação de qualidade, evitando o consumo de alimentos transgênicos e com agrotóxico.

contato alipioferreiradacruz@ymail.com iniciativa no 899 

premiada

— Nós moramos em área reconhecida pelo Governo, bem preservada com a presença de caça e espaço para plantio. O espaço e os recursos naturais são suficientes para nossas atividades culturais. Sofremos com incêndios, seca e com a interferência de sementes transgênicas. Temos escola indígena, posto de saúde, auxílio de programas do Governo, além de projetos com ONGs e com a Universidade Federal de Minas Gerais.

HORTA IRRIGADA NA CULTURA DA ALIMENTAÇÃO TRADICIONAL CAXIXÓ

— povo Caxixó terra indígena Caxixó aldeias 

Fundinho e Capão do Zezinho habitantes 198

local 

Martinho Campos - MG

proponente 

Glayson Humberto Ferreira

contato glaysoncaxixo@yahoo.com.br iniciativa n

o

 942

— Vivemos em uma área que está em processo de reconhecimento. A luta histórica pela recuperação de nosso território, a falta de assistência e a seca nos levaram a um processo acelerado de pobreza. Os fazendeiros, além de ocuparem nosso território, desmataramno. Agora lutamos para preservar a mata nativa em torno das aldeias. Nossa terra é pequena e a área de plantio é escassa, por isso parte da comunidade trabalha nos latifúndios vizinhos. Sofremos com a carência de recursos ambientais e hídricos, situação que ameaça nossa segurança alimentar. Devido aos conflitos com invasores, nosso povo perdeu a terra, logo a possibilidade de se comunicar com parentes por meio da língua caxixó (macro-jê). Hoje falamos o português. As dificuldades vividas nos levaram a apresentar esse projeto, que visa promover segurança alimentar e gerar renda. Suas principais atividades são: aquisição de bomba de irrigação; criação de uma cooperativa na comunidade; e buscar o conhecimento dos antigos sobre o cultivo, fortalecendo as práticas tradicionais. Esse projeto começou em 2005 no âmbito do projeto VIGISUS. Fizemos roças irrigadas de milho, feijão e mandioca. Sentimos, então, a necessidade de retomar os saberes

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tradicionais. Com essa iniciativa esperamos fortalecer nossa cultura, diminuir a migração dos jovens e garantir nossa segurança alimentar.

124

— iniciativa nº 138 – Projeto Aldeia Aguapeu - Terra

Indígena Aguapeu

PROJETO ALDEIA AGUAPEU – TERRA INDÍGENA AGUAPEU

— povo 

Guarani Mbya

terras indígenas Aguapeu comunidade Aguapeu

elas são de uso sagrado e desde o início da nossa história nossos ancestrais usam fumo e mate durante as cerimônias de batismo das crianças e no tratamento espiritual. A maior dificuldade que temos é a falta de dinheiro e meios para conseguir essas mudas, pois só as encontramos no estado do Paraná e em Santa Catarina. Nessa iniciativa a comunidade vai escolher duas pessoas para ir procurar as mudas, enquanto o restante vai preparar e limpar o terreno para plantar. Trabalhando em mutirão todos vão participar.

habitantes 90 local  proponente  iniciativa nº 739 – Kekue Porã - Plantação de milho

tradicional

Mongaguá - SP Roberto Martin Silva

contato karairoberto5@gmail.com iniciativa no 138

— Nossa terra de 4.372.10 hectares foi homologada e possui remanescente de mata atlântica preservada. Encontramos quase todos os recursos naturais necessários, exceto erva-mate e fumo. A área é atravessada por rede elétrica e temos problemas com a invasão de caçadores. A comunidade possui uma escola e um postinho de saúde. A língua usada no nosso dia a dia é o guarani. Objetivo desta iniciativa é conseguir mudas de erva mate e sementes de fumo, porque não temos essas plantas. Por meio delas pretendemos fortalecer e valorizar nossa cultura. A comunidade decidiu realizar esta iniciativa pois é muito importante plantar fumo e erva mate na aldeia,

NHANDE TAPE: NOSSO CAMINHO – AGROFLORESTA NA ALDEIA

— povo Tupi-Guarani terra indígena 

em análise antropológica

aldeia 

Tekoa Porã

habitantes 31 local 

Itaporanga - SP Pacuery Cruaia Lulu

proponente  contatos 

(15) 9740 - 6058 /

premioculturasindigenas@gmail.com iniciativa n

o

 600 

premiada

— A comunidade vive em uma área não reconhecida pelo governo. Está em estudo antropológico, mas a dificuldade é o tempo que leva para fazer todo o levantamento da documentação

que comprove se a terra é da União. Plantamos aqui mandioca, milho, melancia, feijão, batata, algumas árvores frutíferas e nativas; animais para caça e pesca são poucos. Esse projeto começou em 2006, com a criação da aldeia Tekoa Porã, e o objetivo dele é reflorestar e preservar é a área que atualmente ocupamos, desenvolvendo um trabalho todo voltado à nossa cultura. Por conta do desmatamento da floresta, houve um desequilíbrio no meio ambiente e uma grande preocupação da comunidade em resgatar isso. Pretendemos com o projeto melhorar a qualidade de vida da comunidade, extrair matérias-primas para artesanato, tornar o reflorestamento socioeducativo, ensinar as crianças a preservar o meio em que vivem.

— NHANHOTY AVAXI HETEI – VAMOS PLANTAR MILHO GUARANI

— povo 

Guarani Mbya

terra indígena  comunidade 

Ribeirão Silveira Guarani Mbya

do Ribeirão Silveira habitantes 498 local  proponente  contato 

São Sebastião - SP

Fabiana Fernandes Timotio

adolfotimotio@gmail.com

iniciativa no 640

Vivemos em uma terra demarcada, em região de mata atlântica preservada de acordo com o conhecimento guarani. Existem animais silvestres que caçamos fora da época de procriação e rios onde pescamos. Estamos fazendo uma área para plantar milho, batata, mandioca, e outras espécies. Temos duas escolas onde ensinamos a língua guarani e o português. Recebemos auxílio do Bolsa Família e temos uma associação, Xeru Ba e Kuaa i, para realizar projetos. Nosso objetivo é fortalecer e recuperar sementes para o plantio do milho guarani, awaxi hetei. Com isso, pretendemos voltar a fazer cerimônias como o batismo das sementes e das crianças. Essas cerimônias são fundamentais para a renovação da alma guarani. O milho guarani é uma plantação tradicional, mas esta prática se enfraqueceu devido à falta de terras. A proposta é realizar visitas às aldeias onde há produção de milho, para que os jovens aprendam a fazer o roçado e buscar sementes. Enquanto os jovens estiverem aprendendo, eles irão registrar os conhecimentos para transmiti-los à comunidade. As etapas da iniciativa são: preparação da roça; realização do batismo das sementes; plantio; batismo da colheita, para que o pajé possa distribuir o milho; e seleção de espigas para a próxima plantação. Assim, pretendemos trazer o milho guarani de volta às nossas vidas.

KEKUE PORÃ – PLANTAÇÃO DE MILHO TRADICIONAL

— povo 

Guarani Mbya

terra indígena 

em processo de

identificação e delimitação comunidade 

Araçá Mirim

habitantes 57 local 

Registro - SP

Proponente  Paulo Cavanha Chaparro contato ritamello.indigenista@gmail.com iniciativa no 739

— A comunidade vive em uma área que está em estudo para identificação. Em decorrência dessa situação, sofremos com invasões e grilagens. Palmiteiros e caçadores ainda ameaçam a nossa situação socioambiental. Além do milho guarani, da mandioca e do aipim, pouco há plantado por conta da recente ocupação dessa localidade. Os cultivos tradicionais são essenciais para os ciclos rituais, que são fundamentais para o povo Guarani. O objetivo principal desta iniciativa é preservar o cultivo de variedades guarani, para garantir a sustentabilidade e preservação da agricultura tradicional por meio da transmissão de conhecimentos às novas gerações. A juventude valoriza esse conhecimento, mas não o realiza, por isso pretendemos fomentar a execução prática dos saberes agrícolas. A comunidade quer formar um banco de sementes para

125


126

iniciativa nº 747 – Nhande djedjy - Nosso palmito

compartilhar com outras aldeias. Nossa maior dificuldade é a falta de sementes e mudas, sendo necessário viajar para aldeias distantes. As etapas que compõem o projeto são: levantamento de informação sobre as variedades guarani; busca de mudas e sementes; plantio; e registro audiovisual das atividades. Com a iniciativa esperamos valorizar a agricultura tradicional, aumentar a oferta de sementes, fortalecer a comunidade, transmitir conhecimentos e garantir a sustentabilidade.

— NHANDE DJEDJY – NOSSO PALMITO

— Tupi Guarani

povo  terra indígena 

em processo de demarcação

comunidade 

Djaiko Aty

habitantes 50 local  proponente 

Miracatu - SP

Aparecida da Silva Rosário

contato sararosario@bol.com.br iniciativa no 747

— Nossa terra está em processo de demarcação, por isso temos dificuldade em circular para coletar produtos na mata, pois há posseiros que usam a violência para nos afastar. A mata foi devastada por fazendeiros e nós aproveitamos os locais desmatados para fazer roça. Há um pouco de caça, mas evitamos caçar para preservar esse

recurso. A gente busca na mata o palmito e outras frutas. Nós recebemos apoio da Secretaria Especial de Saúde Indígena/SESAI e da FUNAI. Quanto à situação da língua, só quem fala são os mais velhos, mas estamos fortalecendo-a através da escola bilíngue. O objetivo desta iniciativa é implementar uma plantação de palmito Jussara, que faz parte da cultura Tupi Guarani. Antigamente nós consumíamos e comercializávamos o palmito, mas hoje em dia vimos que ele está acabando, especialmente devido ao uso predatório dos palmiteiros. A ideia é plantar o Jussara e deixar que ele dê sementes para aproveitar o suco e replantar, para só depois consumir o palmito. Pretendemos envolver as crianças nessa atividade para elas aprenderem sobre as histórias de origem do palmito e outros seres, e conhecerem as formas de manejo do Jussara que é regido pelas fases da lua. A maior dificuldade encontrada é o recurso necessário para conseguir as mudas em grande quantidade e as ferramentas. Quando tivermos tudo vamos fazer mutirões para o plantio.

— FEIRA DE SEMENTES CRIOULAS INDÍGENAS YMÃU

— povo 

Guarani Nhandewa

terra indígena Pinhalzinho comunidade Pinhalzinho habitantes 156 local  proponente 

Tomazinha - PR

Associação de Moradores

do Posto Indígena Pinhalzinho contato reginaldoguarani@gmail.com iniciativa no 880 

premiada

— A comunidade vive em terra demarcada, mas o último posseiro foi retirado recentemente e usufruímos de uma área totalmente degradada. Apesar do desmatamento, ainda existem porções de mata, que preservamos para atividade de coleta. A caça é escassa e a terra é fraca para o plantio, precisando de adubo. A situação dos recursos hídricos é preocupante, pois existem grandes lavouras no entorno que usam venenos e contaminam os rios. Enfrentamos conflitos com os fazendeiros e problemas com o alcoolismo e dependência de droga de alguns jovens da comunidade. Devido ao avanço da colonização quase perdemos nossa língua, mas temos um trabalho na escola para recuperá-la. O objetivo dessa iniciativa é realizar uma feira de sementes crioulas indígenas, que vai contar com a participação de mais oito comunidades indígenas do Paraná. Já foram realizadas duas feiras e conseguimos recuperar mais de 50 variedades. Essas plantas são de

grande importância para fortalecer nossa identidade e união, por isso queremos realizar a feira de sementes, baseada na troca, anualmente. Recuperar a diversidade agrícola é fundamental para garantir nossa segurança alimentar e fortalecer nossa cultura por meio da culinária tradicional e da relação espiritual com os cultivos.

127


128

129

— ALIMENTAÇÃO E CULINÁRIA —

Krahô, TO / foto: Renato Soares


130

ALIMENTAÇÃO E CULINÁRIA —  38 INICIATIVAS INSCRITAS  —

131

"DO NOSSO JEITO, NOSSOS CORPOS": PRÁTICAS CULINÁRIAS E ALIMENTAÇÃO INDÍGENA por Ana Yano

"N

ossa comunidade teve várias idéias para apresentar ao Prêmio. Decidimos fazer sobre a alimentação, pois nossa culinária tradicional é muito rica e é um forte aliado da nossa cultura”, escrevem os Kayabi, orgulhosos do requinte de seus pratos: beiju de mandioca, chicha de cará e batata, farinha de peixe, chicha de mel com buriti, farinha de milho fofo socado em pilão (MT 685). A exemplo desta iniciativa, muitas outras aqui reunidas pautam-se na valorização de suas práticas culinárias como estratégia de resistência ao consumo desenfreado de produtos adquiridos em supermercado, que, pela facilidade de acesso, segundo os Kayabi, nos fazem esquecer de sua rica alimentação tradicional. “A decisão de realizar essa iniciativa se deu pela grande entrada de produtos industrializados nas aldeias e o crescimento de doenças. O desafio é disseminar para todas as famílias indígenas a importância dos alimentos tradicionais em seus hábitos, visto que as cestas básicas para o combate à subnutrição oferecidas pela Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI) não contêm nenhum produto dos hábitos alimentares da comunidade”, afirmam os Zoró (RO 233). Sitiados por fazendeiros, madeireiros e mineradoras, confinados em terras de pequena extensão, cuja espera pela demarcação é longa, desesperançosa e envolta de violência (cf. Spensy Pimentel neste volume), muitos povos indígenas dependem progressivamente de políticas públicas que, por meio do fornecimento de cestas básicas e programas como Bolsa Família,

creem amenizar o problema da fome que assola essas populações, sobretudo aquelas localizadas nas proximidades das cidades. Mas não o fazem: “com o tempo os Kayabi foram se acostumando a viver no Xingu e depois a comer a comida dos brancos, primeiro indo para a cidade e agora trazendo de lá essas comidas. A gente vê que essas mudanças de costume estão fazendo mal para a saúde, já tem muita criança desnutrida e com cárie” (MT 623). Entre os Apyãwa Tapirape, enfermidades que lhes eram há pouco tempo desconhecidas, como diabetes e pressão alta, acometem cada vez mais seus corpos; “as pessoas engordam mais rápido e ficam mais frágeis nas doenças. Os idosos falam que os antigos não eram assim” (MT 923). Macarrão, feijão, arroz, sal, açúcar, óleo etc. – da perspectiva do governo, itens básicos na alimentação “do brasileiro” – são a “comida de branco”, uma comida de outros; para os Zoró, mencionados acima, esses alimentos não nutrem suas famílias, pois não são nada daquilo que apreciam ou que estão habituados a comer. Sua ingestão a longo prazo e em detrimento dos alimentos tradicionais é apontada pelos proponentes indígenas do Prêmio Culturas Indígenas como uma das causas primeiras dos malefícios que os afligem nos dias de hoje: comendo dessa comida que não é sua, “à espera de benefícios sociais”, os Shawãdawa alegam que muitas famílias passaram a ter preguiça de abrir roçado, de trabalhar na terra, de aprender a cozinhar (AC 792); também os Kayabi reclamam que seus jovens estão mais


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iniciativa nº 331 – Retomando o território tradicional, povo Juma, RO

Porquinho assado e peixe moqueado na folha de bananeira, Aldeia Novo Natal, Terra Indígena Alto Rio Jordão, Kaxinawá, AC / foto: Alice Haibara

preguiçosos, não têm a disposição dos mais velhos (MT 623). Aliado a isto, todos lamentam, a terra boa para plantar está cada vez mais distante das aldeias, não há mais peixes nos córregos, o espaço para o roçado é escasso e o solo, improdutivo, os animais de caça são afugentados pelas constantes queimadas e derrubadas aleatórias de árvores. Nesse cenário, algumas festas deixaram de ser realizadas; no dizer dos Terena da aldeia Turi Puku, “falta a comida típica por não terem os ingredientes lembrados pelos anciões” (MT 924). As crianças, desde cedo, acostumam-se com aquilo que é servido na merenda da escola, e os jovens, desinteressados, sequer sabem como era boa a comida dos antigos. “A pesca tradicional praticada por nós não acontece mais, ficando somente na memória dos mais velhos”, escrevem os Terena da aldeia Bananal (MT 345). Foi justamente ouvindo as histórias dos mais velhos sobre a captura de tracajá que os Apiaká decidiram levar adiante a iniciativa aqui apresentada. “Contam os nossos velhos que quando ainda estavam na mata, na terra tradicional do nosso povo, saíam à noite nas praias do rio Juruena e Teles Pires para capturar tracajás. O tracajá é um alimento tradicional do nosso povo, vem desde nossos antepassados e não existe no rio em que hoje vivemos. Contam nossos anciões que antigamente todos os anos era realizada uma festa onde a comida servida era o tracajá assado, um alimento que na nossa região está difícil de encontrar (MT 912). É na “saudade” dos mais velhos da aldeia que o propósito de “revitalizar o passado”, “voltar a respeitar os costumes da cultura” e “valorizar o que é nossa comida” encontra estímulo para “mostrar que a culinária indígena ainda está viva” (SP 582). Reputados conhecedores, eles assistem com tristeza e preocupação à fragilidade de suas crianças, à preguiça e ao adoecimento precoce dos jovens, ao esquecimento dos adultos – enfim, à alteração de seus corpos em algo cada vez mais distante daquilo que eram os antepassados. “Queremos retomar a alimentação de antigamente,

temi’o kato, ou seja, comida boa e saudável”, planejam os Apyãwa Tapirape. Para isso, contam eles, “[...] estão sendo promovidos eventos como xepanogãwa, ritual de refeição em grupo em que os casais levam apenas alimentos típicos do nosso povo e preparados de forma tradicional. Os peixes, por exemplo, são preparados assado, cozido, matãwa, mimakeka, tudo tradicionalmente. Com isso os mais idosos se sentem completos e felizes” (MT 923). A despeito das consequências perigosas que a ausência prolongada de carne ou de vegetal traz a seus corpos, para os ameríndios, em geral, a saciedade plena somente vem sob a condição de determinados tipos de carne e vegetais serem consumidos juntos, atendendo, sobretudo, a uma elaboração adequada desses alimentos. Grosso modo, é preciso submeter estes últimos à ação do fogo, pois repudiam tanto o alimento cru quanto o podre: associados ao mau-cheiro – do primeiro dizem que é “sangrento”, do segundo, que é “fedido” –, tais estados, ainda que concebidos de modo particular a cada grupo, designam a comida “de outros”; no caso, dos “bichos”. No pensamento ameríndio, a culinária não se presta apenas a responder às exigências que costumamos conceber como fisiológicas: ela constitui um campo de mediação entre as pessoas, aproximando-as ou instituindo um afastamento, conforme nos ensinam os Apiaká em sua iniciativa cultural “Macaco cozido no leite da castanha do Pará” (MT 619). “Não será apenas o conhecimento de uma receita culinária”, avisam. Iguaria bastante apreciada, o macaco cozido no leite da castanha não faz parte do cardápio de seus vizinhos Kayabi e Munduruku, o que em muito orgulha os proponentes do projeto. Caso voltem a encontrar seus parentes que, fugindo de massacres e perseguições, se dispersaram pela floresta, planejam um dia preparar-lhes o prato: assim um reconhecerá no outro a cultura apiaká compartilhada. Para eles, como para todos os ameríndios, ofertar comida às pessoas que chegam à sua casa é dos mais expressivos atos de generosidade e hospitalidade, atributos

bastante valorizados pelos povos indígenas e que se contrapõem à avareza daqueles que fazem refeições solitárias e às escondidas. Muito além da mera satisfação da fome, o que se come, como se come e na companhia de quem se come permitem-nos identificar, estabelecer e mesmo romper relações de parentesco, concebidas aqui como elos permanentemente sujeitos à afirmação e à ruptura, segundo o princípio de que parente é aquele que assiste, alimenta e se serve do mesmo prato, compartilhando também uma mesma corporalidade. Há de se ressaltar que a ingestão de alimentos veicula qualidades em seus corpos, a ponto de ser prudente não só misturá-los, mas também moderar-se na quantidade. Tal cautela, todavia, não se pauta em valores nutricionais, mas sim nos efeitos que os alimentos, em sua carência ou abundância, são capazes de promover nas pessoas: ainda que para muitos grupos indígenas a carne de caça e de peixe seja saborosa e bastante apreciada, se consumida sozinha pode comprometer sua vitalidade; por outro lado, abster-se dela é se arriscar a enfraquecer, adoentando-se. O cuidado na elaboração – o requisito de passar pelo fogo – é para tornar a carne inicialmente crua do animal em algo comestível, eliminando deste corpo qualquer vestígio de sangue, substância tida como mal-cheirosa e potencialmente agressiva aos corpos ameríndios, pois carrega a vitalidade do animal abatido. No caso dos vegetais – milho, banana, macaxeira, pupunha etc. –, ainda que nem sempre e nem todos passem rigorosamente pela cocção, ingeri-los sozinhos, verdes ou maduros em excesso também tem consequências: os cuidados observados, seja durante seu cozimento, seja por ocasião de sua colheita e maturação, voltam-se não apenas para a aquisição do sabor e textura apropriados ao consumo, mas, sobretudo, atendem a uma postura de decoro dos ameríndios em relação aos “donos” desses vegetais. E a mistura dos componentes constitui, assim, um padrão de medida dos atributos gustativos e olfativos de cada

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iniciativa nº 917 – Revitalização das práticas culturais do Kadoety, Kurâdomodo,

Kurâ Bakairi, MT

Preparação do paparuto, Kraho, TO / foto: Renato Soares

iniciativa nº 623 – Temi Uaré Janejemujap - Aprendendo a fazer a comida,

Kaiabi e Kawaiwete, MT

alimento, modulando sua ação quando ingerido pelas pessoas. Mais que fornecer nutrientes ou levar o indivíduo à inanição pela falta, concebe-se a comida como algo que faz corpos – não um corpo qualquer, genérico, mas sim aquele exemplar a um grupo, pois a culinária é igualmente exemplar. Se os proponentes indígenas alertam em suas iniciativas para o consumo exacerbado da comida “dos brancos”, é porque alimentar-se continuamente dela envolve riscos: significa, do ponto de vista ameríndio, deixar de comer o que é próprio e adequado ao seu corpo e ao de seus parentes para, em contrapartida, comer dos brancos, com os brancos, arriscando-se a partilhar com estes uma corporalidade. Não é isto que eles almejam, conforme enunciam nos projetos aqui resumidos. Dos efeitos que essa alimentação promove em seus corpos, queixam-se correntemente da desnutrição, senão do fato de estarem engordando ou sucumbindo facilmente a doenças. “No ano de 2010 profissionais da saúde identificaram diversos casos de desnutrição entre as crianças apiaká na aldeia Mayrob. A comunidade chegou à conclusão de que o problema estava no fato de as pessoas estarem deixando a alimentação tradicional e comendo a ‘comida de branco’”, escrevem os Apiaká (MT 911). Para muitos povos ameríndios, apreciadores de pessoas corpulentas, robustas e gordas – índice para eles de sapiência, beleza e saúde –, a promoção daquilo que concebem como “gordura” nos corpos dos meninos e meninas não deve ser aleatória ou desmedida, mas em consonância ao curso de seu amadurecimento: em doses moderadas, as crianças deixam de se alimentar da comida insossa e começam a se aventurar por sabores mais marcados, como o doce, o picante, o amargo e o travoso; tais experiências gustativas, por sua vez, acompanham a passagem gradativa do leite materno às carnes de caça e de peixe mais gordurosas, percorrendo os vegetais e, em alguns grupos, a caiçuma fermentada. É no processo de se acostumar à comida de seus parentes mais velhos e com eles comer junto

Kaxinawá, AC / foto: Alice Haibara

135


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Preparo de amendoim, Aldeia Novo Natal, Terra Indígena Alto Rio Jordão, Kaxinawá, AC / foto: Alice Haibara

iniciativa nº 392 – Nhemongarai: Karai opita va´e kuéry omboaty haguã, Guarani

Mbya, RJ

que, em geral, crianças e jovens se fazem mais duros e mais fortes, aprimorando, paralelamente, capacidades como ouvir/entender, pensar e falar. Para que não sejam dispersivos nem preguiçosos, somam-se à alimentação pinturas com urucum e jenipapo, ornamentos com penas e dentes de animais, picadas de vespas, banhos com ervas. Ao longo da existência os cuidados com o corpo serão permanentes, sobretudo em situações que envolvem aprendizado e aquelas que demandam redobrada atenção, como menstruar pela primeira vez, padecer da inabilidade na caça, estar grávida ou de luto pela morte de um parente. Na concepção ameríndia de conhecimento e aprendizado, o acesso a determinados saberes – cantos, danças, tecelagem, curas, pinturas etc. – viabiliza-se somente através da constituição de corporalidades que atendam às exigências dos “espíritos”, como a anaconda, que exercem um rigoroso controle sobre seus conhecimentos. Para tanto, requer-se do(a) aprendiz que abdique de suas refeições ordinárias, dos alimentos temperados, das frutas maduras e adocicadas, e mesmo dos intercursos sexuais, em favor dos alimentos ditos amargos ou apimentados, bastante apreciados pelos “espíritos” conhecedores, que devem ser ingeridos à exaustão no recolhimento em sua casa ou sozinho(a) na mata. Nota-se, aqui, um engajamento da pessoa no intento de alterar substancialmente seu corpo e, com isso, alcançar a corporalidade dos “espíritos”; tal situação é diversa daqueles que se encontram adoentados ou mais vulneráveis à evasão de suas vitalidades, como as crianças, cujo corpo prossegue em formação. No caso das doenças, os cuidados dispensados visam reconstituir uma corporalidade que se alterou: qualquer que seja o motivo – banhar-se no rio menstruada, empanturrar-se de carne de caça, desrespeitar o resguardo –, é preciso trazer de volta suas vitalidades e, sobretudo, impedir que a pessoa sucumba de vez aos chamados dos “espíritos” malfazejos. No pensamento ameríndio, adoentar-se é virar outro, comer do outro; para muitos, na morte definitiva de uma

pessoa diz-se que ela já não quer mais a comida que lhe oferecem seus parentes vivos: prefere, ao contrário, aquilo que comem os mortos e, em verdade, há muito já está partilhando refeição com eles. Em face da oferta abundante de alimentos da cidade e do hábito de consumi-los, privar-se rigorosamente da comida “de branco” constitui, na atualidade, um sério desafio aos povos indígenas, sobretudo em situações nas quais se exige certo controle sobre as substâncias que adentram e saem de seus corpos. “Na cultura kayabi tem regras para mulheres e para os homens, tem resguardo, tem alimentos que não podem comer quando o casal está esperando filho. Por isso as crianças estão adoecendo mais fácil”, lamentam os Kayabi (MT 623). Em situação semelhante encontram-se os Apyãwa Tapirape: “na cultura apyãwa existe uma série de regras que permite ou proíbe certos alimentos para cada fase. As crianças não podem comer frango e aves, que são comestíveis para os adultos. Atualmente existem famílias tapirape que não cumprem a regra da alimentação. Muitas pessoas criticam a atitude das famílias que não cumprem a regra e sabemos que isso está acontecendo pelo fato de não ter alimentação tradicional suficiente para as crianças” (MT 923). Um projeto intitulado “Medicina Tradicional”, tal como nos apresentam os Kaingang (RS 797), não se encontra alheio, portanto, ao tema que nos ocupa nesta sessão. É preciso retomar a comida boa dos antigos e, assim, promover a saúde, pois a comida “de branco”, com todos os seus excessos – de sal, açúcar, óleo, e mesmo do valor que se paga por ela –, é potencialmente danosa aos corpos indígenas: deixam-nos lentos e preguiçosos, sinônimos, para eles, de uma pessoa doente. Não se faz um corpo robusto, gordo e forte – e também sábio, maduro e belo – com refrigerante e açúcar refinado. “As pessoas não sabem que os alimentos doces podem causar problemas sérios para a nossa saúde”, reclamam os Shawãdawa, “não adianta dar remédios se não se fala em boa alimentação e formas de garanti-la na aldeia. [...] O maior problema

é a falta de conscientização das pessoas responsáveis pela saúde do povo Arara, a falta de capacidade de trabalhar o conceito de saúde e doenças com o nosso povo” (AC 792). Não é por acaso que os Terena, em diferentes iniciativas, defendem a necessidade de “manter a tradicionalidade do plantio da mandioca” (MT 710) e “produzir rapaduras de cana-de-açúcar e melado nos moldes tradicionais” (MT 487): é preciso fazer do jeito ameríndio, como os antigos ensinaram, para comer comida ameríndia e, assim, produzir pessoas propriamente terena, kayabi, arara, pankararé, kaingang, zoró, apiaká, karajá, mura. Em verdade, muitos povos sequer cogitam deixar de comer a comida de brancos: basta-lhes apenas evitar seu consumo excessivo, como dizem os Kurâ Bakairi (MT 918), ponderando, como tudo, os efeitos que ela instila em seus corpos.

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ALIMENTANDO SABERES Entrevista com Francisca Arara

O

encontro com Francisca Arara para a realização desta entrevista, realizada por Alice Haibara, aconteceu no sítio da Comissão Pró-Índio do Acre / CPI-AC, em Rio Branco AC, no dia 04 de abril de 2014, na ocasião em que ocorria um Curso de Formação dos Agentes Agroflorestais Indígenas do Acre. Francisca, cujo nome indígena é Yaka, pertence ao povo Arara Shawãdawa e atua como professora desde 1999. Com participação ativa nos processos de construção das políticas de educação indígena diferenciada no Acre, em 2005 entrou na Organização dos Professores Indígenas do Acre/OPIAC, em que atualmente é coordenadora, fazendo a gestão dos projetos da organização, ministrando oficinas de formação nas Terras Indígenas e mobilizando as lideranças para acompanhamento das políticas públicas para os povos indígenas. Em 2013 graduou-se no curso de Licenciatura Indígena pela Universidade Federal do Acre/UFAC

em que realizou uma pesquisa para seu Trabalho de Conclusão de Curso sobre a “Culinária Shawãdawa”, que é o principal tema desta entrevista. Aqui, Francisca fala da importância do fortalecimento da alimentação e culinária próprias de seu povo e também sobre diversos saberes relacionados a estas práticas, como as dietas específicas a cada fase da vida de uma pessoa e as histórias e festas relacionadas aos alimentos cultivados e aos animais, mostrando a importância da preservação da diversidade de espécies e dos conhecimentos culinários Shawãdawa associados aos processos de construção da gestão territorial, uso e manejo das terras, sustentabilidade, segurança alimentar e saúde das famílias. Francisca também faz uma análise crítica sobre as políticas públicas e suas consequências para as comunidades indígenas, apontando para a necessidade de diálogo entre o desenvolvimento destas políticas e os saberes indígenas.

Francisca Arara

— ALICE  Em primeiro lugar gostaria que você nos

contasse sobre o seu trabalho de pesquisa com a culinária Shawãdawa. FRANCISCA  Meu nome é Francisca na língua portuguesa. Na minha língua sou Yaka Shawãdawa, do povo Arara. Sou professora e atualmente estou trabalhando na Organização dos Povos Indígenas do Acre. Vou falar um pouco da minha pesquisa sobre culinária Shawãdawa e o que me levou a fazer esta pesquisa. Quando começamos a trabalhar com a parte de fortalecimento cultural, desde quando fomos contemplados com o Prêmio Culturas Indígenas nacional em 2007, veio esse trabalho que venho realizando. Começamos a trabalhar o artesanato, a culinária e a tecelagem. Fizemos um pouco de cada coisa, porque como meu povo estava perdendo um pouco da sua própria cultura, nós pensamos em trabalhar naquele momento o seu fortalecimento em várias partes: na cestaria, tecelagem, na costura, resgatar o vestuário de antigamente. Então eu entrei na parte

do alimento para fazer o meu estudo, sempre fazendo estágio na minha aldeia. Com a formação para professora, veio o trabalho de pesquisa. Cada um tinha que escolher o tema que achava mais importante e eu escolhi o tema de culinária Shawãdawa associado aos recursos e manejo da floresta e do rio, porque como vocês sabem temos um território limitado hoje e as crianças estão nascendo e crescendo. Por isso precisamos nos preocupar com essa questão da alimentação. Também tem um dado nacional da antiga Funasa1 que hoje é SESAI2, que diz que as crianças do Brasil, as crianças indígenas, têm um índice muito grande de desnutrição. Isso me despertou para conversar com meu povo sobre a importância da segurança alimentar. Primeiro fazer um diagnóstico da situação da terra, ver como estávamos de riquezas naturais, porque não dá para falar de alimentação se não tiver uma base na mão. Os legumes, as frutas nativas, as frutas exóticas que estão chegando hoje. Então eu fiz esse diagnóstico. Vi com as velhas como era a nossa alimentação de antigamente, porque isso já envolve a saúde, a segurança alimentar, a questão da merenda regionalizada hoje, das dietas, do pré-natal. Quando eu fui perceber, meu trabalho era além do que eu imaginava e foi bom assim porque eu fui despertando com elas.

1  Fundação Nacional de Saúde 2  Secretaria Especial da Saúde Indígena


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iniciativa nº 792 – Publicação do livro “A culinária Shawãdawa associada ao uso e

ao manejo dos sistemas produtivos, da floresta e do rio.”

Então eu fiz o diagnóstico e tenho todo um mapeamento dos recursos naturais que temos hoje, como está a floresta, o rio, a caça, as criações, que hoje são obrigatórias pois vivemos num território limitado. Como as frutas da mata casam com as frutas que não são indígenas e que estão chegando hoje. Primeiro fiz meu estudo em cima disso, depois fui mapear as mestras, as velhas que ainda sabem os cardápios e têm esses conhecimentos. Vi que elas estavam esquecendo, porque a merenda escolar é do município, é industrializada. Aí vêm os programas sociais, o Bolsa Família, etc, isso influencia muito na perda da alimentação tradicional do povo. Por que as mulheres hoje estão fazendo as cirurgias? Por que que têm muitos problemas de miomas, de trompas? Porque não fazem mais dieta, como era antes, aquela alimentação que elas podiam comer e aquelas que não podiam comer, quando estavam grávidas e menstruadas ou com algum problema que as mulheres sentem. Então meu trabalho envolveu tudo isso. Encontramos 50 pratos que elas faziam e que hoje encontram uma resistência muito grande por parte das jovens, por esta influência de não querer mais. Porque é assim, é consociado, hoje não vão mais deixar de comer o arroz e o feijão. Mas como isso se consolida com a alimentação tradicional? Com o peixe enrolado na folha, cozido na taboca, com o mingau e peixe com a banana, com a macaxeira pisada junto com a banana. Também têm vários tipos de comidas que são muito mais saudáveis porque não têm óleo e não têm sal. Além dos pratos, encontramos também 30 tipos de dietas. O que a mulher come, o que não come, porque não come, o que causa, a doença. Tudo isso eu encontrei com elas nesse trabalho. Foi legal porque falei para elas, isso é um projeto de pesquisa para meu aprendizado para eu saber a raiz do meu povo. Saber como era antes e como é hoje, e o desafio que vamos enfrentar e deixar isso para elas, porque é um projeto que elas têm que continuar. Não podem parar por ali, têm que manter a alimentação. Estão comendo

muita coisa industrializada, a questão do lixo que estava entrando, muitas doenças também por causa da alimentação, diabetes, outras doenças que estão chegando na aldeia. Muitas são por contatos com os nawa3 e outras são pelos hábitos alimentares. Foram encontrados os palmitos, a própria macaxeira. Se você vir o tanto de espécies, as variedades de que são feitas a alimentação, com a banana, com o tatu, com a paca. É a variedade de espécies de alimentação que nós comemos. Porque nós não comemos só um tipo de carne, só carne de boi ou frango. A gente come tatu e o tatu comeu outra fruta e aquela fruta vai dar substancia para nós. Então foi um trabalho que foi casando o valor da floresta com a pessoa, com os seres vivos que se alimentam dali. E aí como vamos pensar uma alimentação para melhorar hoje? Diminuir essas compras de coisas industrializadas, levar o essencial e trabalhar o fortalecimento das hortas, dos quintais. Porque hoje é cultural nosso não comer, mas hoje é necessário a gente ter. Então perguntei para elas, “o que vocês comem de verdura?” – Ah! A gente come cheiro verde, couve. – Então porque não tem? – Porque a gente não plantou. Eu disse: “Então vamos fazer.” E então fizemos os canteiros. O homem faz o canteiro, porque ele vai fazer o mais pesado. As mulheres jogam água, vão cuidando dos adubos. Elas cultivam a criação de galinhas, ovos. Falei para eles que não precisa trazer coisas de fora, trazer sementes que vão acabar com as nossas. “Resguardem as sementes tradicionais!” São 22 espécies de bananas, 15 espécies de mandiocas encontradas. Muitas já estão se perdendo por causa das outras sementes da Embrapa4 que chegam e crescem mais rápido. Com isso vão eliminando nossas sementes tradicionais

que fazem parte da caiçuma5 do milho, aquelas que levam anos para se decompor, que ficam lá guardadinhas, têm as técnicas para os bichos não comerem logo. Então meu trabalho foi em cima disso e hoje é um projeto que eu tenho com elas e tenho que estar conversando e incentivando. Porque você sabe, esse mundo atrativo é muito forte. Como pensar uma segurança alimentar se a merenda que vai é toda industrializada? É charque, é comida que muitas vezes nem as crianças comem. Então fizemos uma oficina de comidas. Se sabemos fazer vamos à prática. Cada um vai fazer o que ainda sabe praticar. Foi engraçado porque os homens foram caçar no centro, as mulheres foram mariscar, o outro foi tirar a banana, o outro a mandioca. As mais velhas ensinaram a técnica de cozinhar a mandioca do jeito que elas fazem e teve o almoço coletivo. Fizemos também um debate sobre isso, porque através da alimentação você faz um planejamento do trabalho, o que amanhã cada um vai fazer. Foi um trabalho muito bom pois ele está consociado com todo esse sistema florestal e hoje temos esse cuidado com o território, com a saúde, com a soberania alimentar, com a merenda regionalizada. Então meu trabalho foi pensando nisso, na saúde da mulher, a política da mulher interna, e isso envolve o papel da mulher. Porque pensamos que não temos espaço na aldeia e se formos ver nós temos. Tem coisas que só a mulher pratica e coisas que é o homem que faz, mas na hora de dividir está todo mundo junto e isso foi legal. A  Qual o papel dos alimentos em relação aos mitos

e rituais Shawãdawa? F  Eu pesquisei com eles e isso é mais da parte do homem, da prática de brocagem6 do roçado. Primeiro o homem vai, passa o todo o dia olhando, fura o

5  Tipo de bebida feita à base de milho ou mandioca. 3  Não indígenas 4  Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária - Embrapa

6  Cortar ou derrubar árvores e mato limpando o terreno para o cultivo.

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barro, aquele arenoso para ver se ali é bom mesmo de plantar a roça, aí planta e mede a área. Tem todo o processo da brocagem, da derrubada, da coivara7. Nessa parte a mulher entra também e ela vai começar no plantio. Ela vai com as crianças para plantar o milho e a mandioca. Estávamos falando isso, que temos que ter perna grossa para plantar mandioca, que é para ela nascer boa, com a batata grande. E aí vem a parte da colheita. São plantadas variedades no roçado, milho, banana, até algodão, macaxeira, batata, jerimum. Fazemos as casas de farinha e lá no entorno são plantadas diversas coisas, como as verdurinhas. Porque fazemos farinha e nessa hora é uma festa. Está todo mundo lavando mandioca e cozinhamos lá mesmo. Aí vem o tempo da colheita, chegou o milho, chegou a festa da caiçuma. Essa festa é de todos os legumes, quando reunimos todo mundo para comer banana e caiçuma de milho. É o tempo de colher e plantar, está tudo ligado. Acontece em janeiro e fevereiro, no tempo do milho verde. No verão tem muito açaí, muito embu. É tempo de matar embiara8 na restinga. Esse é tempo de tomar muito açaí, é fartura, tempo de matar muita caça porque elas rastejam e vemos o rastro. Aí tem as pinturas, os namoros, as músicas, os rituais, os casamentos. É através dos legumes que vem tudo isso. É o bem estar, o bem viver do povo de se sentir bem e que hoje está sumindo. É por conta do atrativo, das coisas de fora que estamos esquecendo, muitas vezes achamos que o mundo de fora é melhor que o nosso. Nosso mundo é sem preocupação. Na minha pesquisa escrevi sobre esses dois temas: tempo bom que não volta nunca mais e tempo de muita preocupação.

7  Conjunto de galhos remanescentes da queimada na roça e que se queima para limpar o terreno ao mesmo tempo em que é adubado com as cinzas. 8  Aquilo que se apanhou na caça.

Aquele tempo de fartura quando se comia peixe. Tinha as festas, os encontros, as brincadeiras de corrida, brincadeira do mamão, da cana, de jogar peteca e hoje em dia isso não acontece mais como era antes e isso foi se perdendo, mas quando começamos a falr disso, o povo se anima a dizer “a gente tá aqui e queremos trazer isso de volta!”. Papai contou que quando eles vão brocar o roçado, derrubam, aí quando vão tocar fogo, vão duas pessoas. A pessoa chega lá e tem que falar com o fogo para queimar bem o roçado, é um ritual. Ele assovia que é para espalhar, para queimar e o fogo não poder passar dali, tem que queimar só ali mesmo. Quando vai derrubar a madeira para o roçado, não sei se nos outros povos é assim, mas nos Arara eles gritam “iiii” até a árvore cair. O assovio é devagar, o vento vai acompanhando e vai levando o assovio, que é para queimar direito e não ir para outro canto. Aí ele fica lá e o vento leva para ali e leva para lá. Ali queima bem, depois vamos cuidar da coivara e do plantio. Tudo isso, era muita coisa que eu não sabia, quando comecei a fazer a pesquisa eu comecei a ver o valor que tem a ciência do nosso povo. A  Tem algumas histórias dos antigos que falam

sobre os alimentos? Sobre como aprenderam a plantar? F  Tem muitas histórias. Eu escrevi no meu livro. Tem a do Yauxi, que era o homem miserável. Acho que essa história todo povo pano9 tem. Os Katukina têm. Os pano têm histórias muito parecidas. Ela fala que antigamente os povos só comiam barro porque tinha esse homem que era muito miserável. O milho ele torrava e dava o milho assim para o pessoal plantar e nunca nascia, a roça ele tirava todo aquele carocinho da maniva e nunca nascia, a banana ele enrolava e dava só a parte de cima que não brota e a parte de baixo ficava pra ele.

Quem roubou o legume do Yauxi para nós foi o jacaré. Ele era o dono dos legumes, quem roubou foi ele e o rouxinol que carregou o milho. Pegou o pênis dele e escondeu o caroço dentro e carregou. Deu caroço de milho para nós. E o jacaré tem as costas cheias de nó porque diz que quando foi quebrar a roça, a caba10, porque esse homem tinha as criações dele que eram as cabas e formigas tucandeiras, e quando o jacaré foi quebrar a maniva para roubar, as cabas avançaram para cima dele, que caiu na água e ficou cheio de nós. Mesmo assim o jacaré conseguiu levar as manivas. É muito grande essa historia. Então quem deu os legumes foi o jacaré. Aí os bichos se juntaram, o bico de brasa11, tudo para matar o yauxi e roubar os legumes que ele não queria dar. O quatipuru... aí já é outra história, porque para cada espécie de legume tem um bicho que carregou para nós. A  Quais são os principais alimentos tradicionais

que vocês plantam, coletam e caçam? F  Tem muitas variedades de caça e de pesca. Para nós mistura é a mandioca, para todos os povos você sabe que a macaxeira está presente. Tem a maria faz ruma, a rasgadinha, a mulatinha. Tem vários tipos de mandioca, a maria faz ruma cozinha muito bem e é boa para fazer caiçuma, mascar, mastigar. A mulateiro é aquela que é dura, cozinha e pode deixar. Aí o peixe, macaxeira, banana grande, tatu, paca, paquinha nova moqueada na folha, carne de veado. É variedade de carne de caça e como eu falei não comemos só uma caça, comemos o nambu que ele comeu o algodoeiro que já vai servir de remédio. O veado que comeu outra planta, outra fruta, não é só uma carne de veado, como a de boi que é a mesma carne. Você vai no supermercado tem carne de todo jeito,

10  Marimbondo 9  Tronco linguístico Pano.

bisteca, etc, mas é a mesma carne, o mesmo boi. Nós não. Comemos a cotia hoje, amanhã comemos a paca, depois comemos o nambu, é assim. Come um peixe, bebe um caldo de bodó, não é só uma comida, por isso os índios são resistentes. Agora hoje com esses programas sociais é um atraso, do meu ponto de vista por um lado é bom, porque vem para complementar o que nós já temos, mas não podemos ficar à mercê desses programas ou ser dependentes deles. E isso está acontecendo muito: “Ah! O índio está pobre! O menino está desnutrido!” “Então vamos dar esse leite, essa farinha”. Não é isso que vai resolver. O que vai resolver é a alimentação do dia a dia que nós tínhamos e está se acabando. O mingau da banana, o mingau da mandioca, da macaxeira, a goma, o milho. A caiçuma do milho, a massa do milho. É isso que é forte, não é esse leite, essa farinha, esse arroz que vem não sei de onde e diz que vai resolver o problema dos povos, não vai resolver, só vai criar mais problemas.

11  Termo usado para fazer referência ao pássaro conhecido como curica.

A  Tem algum alimento que corre o risco de desa-

parecer? F  Se a gente não cuidar, é disso mesmo que estamos tratando na nossa gestão territorial, da segurança alimentar. Antigamente o nosso povo não tinha limites na terra, você comia e mariscava num lago desse e amanhã já estava em outro. Hoje não pode mais ser assim. Tem que estar ali, viver ali, porque se for para um lado está no município, se for para o outro lado está no assentamento, tem os não indígenas, o outro vizinho, é assim, estamos cercados. Então se todo dia temos que matar um bicho para comer, vai se escasseando, vai acabando o peixe, a anta está entrando em extinção, o mutum não existe mais, o macaco preto não existe mais naquele lugar. Tem muitos animais que estão entrando em extinção, se não cuidarmos da gestão do território, mapa de uso, área de refúgio, matas degradadas, cuidar das nascentes do rio. Nós não podemos matar o jacaré que mora naquele remanso, porque ele cuida dali. Ali só vai ter peixe se tiver um poço grande, porque se for raso

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ele vai embora. Hoje está ficando escasso por causa da população, por conta da invasão, tem terras que já foram pegas por nós degradadas, já eram dos nawa que tinham devastado tudo. E estamos fazendo reflorestamento. Então as espécies de animais são essas: anta, arara, mutum, cujubim, macaco preto, é difícil ver hoje em dia.

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A  E as espécies de alimentos plantados, legumes,

você acha que tem algumas correndo o risco? F  Quase tudo já foi, não está tendo muita coisa. Lembro que tinha milho massa, tinha uma mandioquinha que comíamos crua. 10 tipos de batata que eu via lá no meu avô e hoje só temos 3, o resto tudo sumiu. 22 espécies de mandioca. Tem um tipo de batata que comemos como maçã, ela é descascada como maçã, bem alvinha e já sumiu por conta das sementes que vêm de fora. “Essa espiga de milho é maior, vamos plantar essa!”, “essa melancia é melhor”. E vai acabando com a nossa, porque não vai voltar mais mesmo. Assim estamos vivendo hoje e por isso temos que ter essa preocupação de valorizar o que temos. Cuidar das nossas coisas, que nós sobrevivemos com elas até hoje. Quem foi que nos deu essas coisas? Foram os animais, como contam nossas histórias, então temos que cuidar porque estão se acabando. Nossos filhos e de outros futuramente não vão conhecer nem o quatipuru, vão ver os desenhos da paca, tatu porque não vai existir mais se não cuidarmos da nossa terra. A  Como vocês estão trabalhando com as sementes? F  De sementes pegamos 5 espécies dos Kaxinawá

iniciativa nº 792 – Publicação do livro “A culinária Shawãdawa associada ao uso e

ao manejo dos sistemas produtivos, da floresta e do rio.”

da Terra Indígena do Carapanã. O milho massa tem muito na minha aldeia, tem uma família que nunca deixou de cultivar. Você o come na caiçuma e assado. Meu povo nunca foi de cultivar amendoim. Diferente dos Kaxinawá do Jordão que tem 22 espécies de amendoim. Estamos resgatando o inhame, a fava, vários tipos de fava. Tem a fava pintadinha, tem a fava preta, a branca, tinha muitos tipos de

fava. Foi interessante nessa pesquisa que as crianças me deram uma lição. Eu pensei: “Meu Deus, estou esquecendo as coisas!” e elas dizendo “ó para tu plantar o inhame tem que deixar uma folhinha ter soltado e tu planta. Milho tu coloca na panela e coloca um pouco d’água”. No outro dia ele já está nascendo. A passada da mandioca, quantas enxadadas, tudo eles sabiam. Crianças de 5, 7 anos sabiam e eu nem me lembrava mais dessas coisas. Foi muito bom eu ter tido essa experiência. A  Como as crianças aprendem estes conhecimentos? F  Com os pais, com as mães, quando estão lavando,

estão plantando, estão caçando. O jovem quando cresce tem que ser dono dele mesmo, saber fazer casa, cuidar da família dele. As meninas têm que saber cuidar, um já cuida do outro. O primeiro roçado que a criança faz é junto com a mãe. Ela vai com o filho no roçado. Antigamente nós, Arara, carregávamos na tipóia, outras no paneiro12. Mãe de verdade não deixa os filhos sozinhos e não bate nos filhos. Para lavar roupa leva o filho. Para onde vai, plantando macaxeira, leva o filho lá. A criança desde pequena vai crescendo com aquele jeitinho que ela vê a mãe dela. E os meninos do mesmo jeito vão mariscar com o pai, trazem uma embiarazinha. Com 12 anos começa a matar caça. A preparação se dá através de pai para filho, mãe para filho, avô para neto e tio para sobrinho. Na aldeia todo mundo cuida. “Vai tomar banho menino, vai para casa”. Menino não é jogado. Hoje é jogado porque tem um individualismo muito grande no nosso meio. Antigamente as coisas eram coletivas. Hoje como aumentou já pinta o individualismo, a gente quer ter, mas o outro não tem. Na vida do indígena, eu sempre tenho dito que a política do indígena não é como a política do branco. No branco, na cidade a gente vê muita coisa

12  Tipo de cesto posicionado nas costas com alça que é apoiada na cabeça.

errada, exploração das crianças, as mães usam os filhos para vender drogas. Na aldeia não é assim, os filhos fazem as coisas de acordo com o pai. Vai caçar sai com o cuitelinho nas costas do jeito que ele pode carregar. As filhas com aquela panelinha, cuidando dos irmãozinhos. E não é massacrado, ninguém está batendo, judiando. É diferente dessas leis de mulher que o homem bate em mulher. Acontece também porque somos seres humanos e falhamos também, aqui e acolá acontece alguma coisa. Mas é muito difícil acontecer. As políticas de segurança alimentar têm que vir de acordo com a vida do povo, a lei do branco não pode ser comparada com a do índio. Porque nós somos uma família, na minha terra se mata um todos ficam tristes, se um vai preso todo mundo vai sentir, se bate na mulher tudo é família, então não pode ter essas coisas no nosso meio. Tem, mas a gente mesmo tenta consertar, então tudo isso está ligado em uma coisa que é um tema transversal. Tem que ser conversado junto com o povo. A  Você estava falando das crianças. Você pode falar

alguma coisa sobre algum alimento em algumas fases da vida, alguns tipos de dieta? F  Eu falei coisas que a mulher grávida não podia. Não pode comer jabuti porque tem o casco duro, tem a carne muito pregada e vai ser difícil para a criança nascer. Não pode comer bodó. Não pode pisar em cima da escama de peixe do cará. Não pode comer gato, porque a placenta enrola. Tudo tem um processo. Tem um tipo de embiara que as crianças podem comer quando está começando a nascer o dentinho. É a primeira comida deles que a mãe faz. Nós chamamos de quatipuru, para vocês é esquilo, para ajudar no crescimento do dentinho. Ele rói e tem o dente forte. Eles começam a comer com 6 meses, só comem o caldinho dele. Tem várias coisas que a mulher pode e não pode. Tem nambu preto, por exemplo e a gente não come. Diz que ele tem um espírito que está nele e entra nas crianças. Mulher não come papagaio quando está grávida porque a criança vai ficar com o que nós

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chamamos de ataque de epilepsia. Fica aquele menino dando ataque e vomitando. E outras coisas que não pode comer porque sonha de noite, anda de noite, conversa de noite, dorme e vai embora conversando porque são outros espíritos que guiam. Eu peguei tudinho no meu TCC. Mas tem coisas que as velhas não contam também. A  Quando está passando, por exemplo, de criança

para adulto, tem alguma comida que eles têm que comer. Algum ritual? F  Eu lembro de quando tem que matar a primeira caça. Nos Katukina também é assim. A primeira caça grande que o menino caçar, ele tem que pegar um pedaço do fígado que tem uma pontinha soltinha, aí a mãe dele enrola e tem que assar e comer sem sal e sem nada. Isso é para ele ficar feliz, não ser panema13, ficar feliz para matar caça. Porque na sociedade branca para casar tem que ter carro, dinheiro e faculdade. Na sociedade indígena, tem que ser matador de caça, brocar roçado, tem que ser aquela pessoa que ajuda o pai da filha e ter as qualidades dele também para casar. Não é esse menino preguiçoso que mexe nas coisas dos outros. Esse não tem vez. Agora o que é matador de caça, que tem o roçado dele, que ajuda o pai, todo mundo quer dar a filha para casar com ele. Assim como é na sociedade de vocês. Mas o conceito é diferente. Porque às vezes as pessoas não sabem distinguir o conceito, a pobreza e a riqueza, o que é ser pobre? O que é ser rico? Ser rico é ter um prédio? Ou é ter uma terra boa, ar bom para respirar, é ter caça, dormir na casa de palha, comer a comida que quer e essas coisas que a política pública às vezes não reconhece. A  Você quer falar um pouco sobre alguns pratos

que você encontrou? Quais pratos que te chamaram mais a atenção, quais pratos dessa culinária

13  Termo usado para caracterizar alguém azarado, infeliz, que vai caçar e não consegue pegar nenhum animal.

Shawãdawa que você considera mais importantes para o seu povo? F  São vários. Jacaré moqueado. Rabo de jacaré moqueado com macaxeira. Tatu com leite de coco. A gente faz o leite de coco, tira o coco e tira o leite. Cotia preparamos do mesmo jeito. A buchada do veado. São tantos pratos que fazemos, a pamonha do aricuri, um tipo de coquinho que ralamos. Daquele coco que tu bate, raspa e corta o biquinho dele. Não pode descascar ao contrário se não fica amargando. Eu não sabia de pamonha de aricuri e comi. Então tem muitas comidas ricas, saborosas. Não tem mais hoje. O cogumelo como vocês chamam, nós chamamos orelha de pau, tem uns tipos que comemos com mandioca também, tem umas que eu acho que não comeria mais, mas tem outras que eu como ainda. Mas tem outras muito gostosas, bem feitas, higiênicas. Temos outros problemas sérios pelo fato de a merenda não ser regionalizada. As nutricionistas falam: “Mas os índios não sabem cozinhar, eles são sujos, a comida é mal feita”. Não é verdade, a comida é muito bem feita, bem lavada e higiênica. Bem lavadinho do jeito delas e bem organizada. Bem cozida e bem assada. Então são as qualidades das mulheres, o lugar delas. A medicina, os banhos que elas fazem os conselhos com as filhas. Quem resguarda a semente tradicional é a mulher, quem guarda a língua indígena é a mulher, quem faz o casamento é a mulher, quem divide a alimentação é a mulher. Por que não temos espaço? Nós temos sim. Agora isso está perdendo porque a gente quer entrar na política das brancas. O projeto tem que vir fortalecer isso que nós temos e que estamos perdendo porque queremos as coisas dos outros e isso não pode acontecer. As coisas têm que vir de acordo com o que nós temos. A beleza da mulher indígena, ela é linda por natureza, não precisa inventar moda para ficar bonita. Coloca seus brincos, sua saia, faz sua pintura é a beleza dela e isso também está sendo perdido.

A  Vocês têm trabalhado com as produções alimen-

tares em relação à geração de renda? F  Sim, esse é o foco hoje. Porque uma coisa é cuidar do sistema florestal e cuidar pra não desmatar tudo para vender. Agora não podemos pensar que “vai ter dinheiro e a gente vai ter que derrubar tudo para fazer farinha para vender”. Aqui no Acre a saca de farinha chegou até 300, 400 reais. Então imagina uma saca chegar a 400 reais e duas sacas dá mais do que um salário. Tem um programa cuja ideia é produzir alimentos para a merenda e o sistema comprar. Naquela aldeia, por exemplo, tem mamão, banana, ingá, laranja, cupuaçu. É obrigação do Estado comprar porque tem uma lei que obriga a 50% da merenda ser regionalizada. Na minha terra tem programa para comprar a produção da pessoa e gerar um recurso lá. Aí ela vai comprar o necessário com esse dinheiro: sal, combustol, sabão, aquela coisa necessária de casa. Então gera renda, vende a banana no município, vende o abacaxi, a laranja, a tangerina. Tudo é dinheiro. O artesanato. Está acontecendo. Os principais produtos que estamos trabalhando na produção de renda são a farinha e o artesanato. Porque farinha está 80 reais a saca e com isso você já faz a compra do básico. A questão da alimentação faz parte da nossa batalha hoje aqui no Acre. Estamos debatendo essa questão também sobre o pagamento do serviço ambiental, nós queremos o pagamento do serviço ambiental para isso, queremos pagar as coisas que já fazemos, não é pagar não, é compensar. Compensar o que o índio já cuida da floresta, do ar bom para o planeta, alimentação, preserva as espécies, as medicinas tradicionais, as sementes tradicionais. Então porque os programas não chegar e valorizar isso? Sem perder o foco, porque o dinheiro é complicado, se não estamos preparados para lidar com ele, pode gerar dependência, se esquecermos do que temos que fazer. Aí vai para o município, vive cuidando de burocracia e deixa de fazer seu roçado. Isso está

acontecendo, as famílias deixam de fazer seu roçado, cuidar dos legumes porque têm dinheiro fácil do salário e das coisas. Não quer dizer que não queremos, quero meu salário, mas quero ter minha casa, minha fruteira, minha banana, minha cana, quando eu estiver na Terra Indígena tem coisas que tu não vai comprar, porque já temos o que é nosso.

147


148

INICIATIVAS ALIMENTAÇÃO E CULINÁRIA iniciativa nº 513 – Sabores e saberes da tradição

Tremembé

MULHERES INDÍGENAS EM ATIVIDADE DE BENEFICIAMENTO DA PRODUÇÃO FAMILIAR NA ALDEIA VIRAÇÃO

— povo Potyguara terra indígena 

Viração/Mundo Novo

aldeia Viração habitantes  local  proponente 

110

Tamboril - CE

Maria Cleonice Pereira

matérias-primas por nós cultivadas, como gergelim, cenoura e beterraba, além do leite e seus derivados, e o objetivo, agora, é aperfeiçoar o convívio familiar no trabalho comunitário, incentivar uma alimentação de qualidade e, assim, melhorar a saúde do povo Potyguara.

— SABORES E SABERES DA TRADIÇÃO TREMEMBÉ

dos Santos contato 

povo 

mcleoniceps2010@yahoo.com /

(88) 9200 - 3473 / 9201 - 6687 iniciativa no 

56 

terra indígena  comunidade 

A Aldeia Viração está localizada no distrito de Curatis, no município de Tamboril, Ceará. Os primeiros moradores chegaram na aldeia por volta de 1915, vindos de regiões da serra como Baturité e Serra das Matas para fugir dos fazendeiros. Hoje nossa terra está em processo de delimitação e foi nomeada Terra Indígena Viração/Mundo Novo. Em 2007 nossa aldeia foi contemplada com o Projeto Dom Hélder Câmara, cujo objetivo é apoiar e proporcionar à comunidade melhor qualidade de vida. Entre 2007 e 2012 nosso povo passou por vários processos de formação para potencializar a produção de

Córrego João Pereira Córrego de Telhas

habitantes 134

premiada

Tremembé

local  proponente 

Acaraú - CE

Conselho dos Índios Tremembé

do Córrego de Telhas - CITCT contato 

cit.telhas@gmail.com /

(88) 9608 - 0800 iniciativa no 

513

— A Terra Indígena (TI) Córrego João Pereira é a única TI do Ceará homologada. Uma das dificuldades que existe é o entendimento e o consenso em algumas tomadas de decisões, pois a TI faz parte de dois municípios: as aldeias Cajazeiras, São José e Capim Açu fazem parte do município de Itarema, e a aldeia Telhas do município de Acaraú. Pretende-se com esse projeto resgatar o conhecimento sobre a

149


150

iniciativa nº 762 – Feira de comidas tradicional

Hunikui natalina

iniciativa nº 792 – Publicação do livro "A culinária Shawãdawa associada ao uso e ao manejo dos sistemas produtivos, da floresta e do rio"

culinária indígena tremembé através da colheita, preparo e produção de pratos tradicionais que antes nutriam e curavam doenças em períodos de escassez de alimentos, principalmente em anos de forte estiagem. Em reunião com a comunidade foram listados alguns pratos que a comunidade afirma ser o sabor daquela comunidade. O processo de produção e colheita será feito pelos mais experientes, além de eles realizarem oficinas de troca de experiências nas escolas com o intuito de repassar a história dos alimentos e a forma como são preparados. Os jovens terão formação em audiovisual e irão registrar todo o processo por meio de fotografias, filmagem, entrevistas, edição e produção de documentos. Com esses materiais os educadores poderão ter um rico acervo sobre os costumes e tradições a serem ensinados para as crianças.

— FEIRA DE COMIDAS TRADICIONAL HUNIKUI NATALINA

— povos 

Hunikui (Kaxinawá) e Shanenawa

terras indígenas Katuquina/Kaxinawá,

Kaxinawá de Nova Olinda, Estirão do Igarapé do Caucho, Kaxinawá de Curralinho aldeias 

Mae Maxia Perairaki, Novo Paraíso,

Beira Rio, Central, Boa União, Novo Lugar, Nova Aliança, Belo Monte, Pupunha,

Paredão, Nova Vida, Morada Nova, Boca Grota, Nova Olinda, Formoso, Aldeia do Purus e Tarauacá habitantes 

100 na aldeia Mae Maxia

Perairaki, aproximadamente 150

TXANA MANA

— povo Hunikuĩ (Kaxinawá) terra indígena 

nas demais aldeias local  proponente 

contato 

Rio Purus

Feijó - AC

aldeia 

José Ivanildo da Silva

Fernandes jivanildofernandes@bol.com.br /

iniciativa no 

762

— A comunidade vive em terra reconhecida e demarcada pelo governo. A língua não está forte, os mais velhos entendem e falam, os mais novos não entendem e não falam, mas não corremos risco de deixar a própria identidade tradicional. A comunidade faz todos os anos uma solenidade de aniversário da fundação do grupo com a preparação de comidas típicas tradicionais durante três dias. O nosso objetivo é fortalecer as comidas típicas tradicionais indígenas e um dia poder realizar um festival com vários participantes de outras Terras Indígenas, fazendo intercâmbio com eles. O projeto também tem a finalidade de garantir a cada família o incentivo para seus roçados, para que possa ser vista a grande feira de comida tradicional hunikuin e o estado possa compreender que a cultura dos alimentos indígenas ainda é viva.

Porto Rico

habitantes  local 

183

Santa Rosa do Purus - AC

proponente 

(68) 9952 - 0830 / 9909 - 0667 / 9956 - 1137 / 3463-2407

Terra Indígena do Alto

Jovelino Nonato Lopes Kaxinawá

contato 

jovelino_belo21@hotmail.com /

(68) 9992 - 7491 / 9927 - 1829 iniciativa no 

para preparar a carne moqueada e cozida. No outro dia, bem de manhã, começa a festa ritual. Ela se inicia com uma brincadeira em que a metade dua bake convida a outra metade inu bake para trocar comida. À tarde as duas metades começam a dança katxanawá: as pessoas todas se abraçam e cantam músicas tradicionais para o espírito yuxin, para que a produção dos alimentos seja muita. A dança é pela noite toda, até a manhã seguinte.

766

— Na Aldeia de Porto Rico é preciso fortalecer e valorizar duas práticas culturais: a alimentação e a religião kaxinawá. Na aldeia já tem muita comida de branco: arroz, chocolate, bolacha, macarrão, sal, açúcar, etc. Há muito tempo os velhos da aldeia vêm alertando contra a influência de fora. A comunidade quer valorizar e fortalecer os costumes tradicionais através da revitalização da dança katxanawá. A dança katxanawá envolve música, cantoria, pintura, troca de alimentos tradicionais e é uma parte importante da religião kaxinawá. A troca de alimentos é parte importante da festa. A preparação começa com a organização dos homens para a caçada. Durante a caça na floresta as mulheres ficam na aldeia preparando a caiquera, mingau de banana. Quando os homens chegam com a caça, as mulheres se organizam

— PUBLICAÇÃO DO LIVRO "A CULINÁRIA SHAWÃDAWA ASSOCIADA AO USO E AO MANEJO DOS SISTEMAS PRODUTIVOS, DA FLORESTA E DO RIO"

— povo Shawãdawa terra indígena 

Arara do Igarapé do Humaitá

aldeia 

Foz do Nilo

habitantes 350 local  proponente 

Porto Walter - AC

Francisca Oliveira de Lima Costa

contato 

yakashawadawa@yahoo.com.br / (68) 9982 - 6468 iniciativa n

o

  792

O grande objetivo desse projeto é contribuir para o fortalecimento cultural dos hábitos alimentares tradicionais através da publicação de material didático sobre a culinária. Esse trabalho iniciou quando percebi que as famílias estavam deixando de fazer seus roçados por conta de alguns benefícios sociais. Não adianta dar remédios se não se fala em uma boa alimentação e formas de garanti-la na aldeia. As parteiras indígenas não são respeitadas por conta de um sistema de saúde indígena. O governo, para combater a fome, tem como solução mandar para as comunidades programas como Bolsa Família e em outras regiões fornecimento de cestas básicas. Houve uma necessidade de publicar esse material para divulgar para os não índios as coisas boas que temos de conhecimentos, mostrar também para o governo que índio não é somente problemas, temos muitas coisas bonitas que sabemos fazer. O maior problema é a falta de conscientização das pessoas responsáveis pela saúde do povo Arara, a falta de capacidade de trabalhar o conceito de saúde e doenças com o nosso povo. As pessoas não sabem que os alimentos doces podem causar problemas sérios para a nossa saúde.

— SYHO BONY YBAINY – CRIAÇÃO DE FOGAREIRO

151


152

— povos 

Paumari, Apurinã, Katukina, Deni e Kokama

terras indígenas 

Apurinã do Igarapé

São João, Itixi-Mitari, Tawamirim Sabazinho, São João, Taquarizinho, Santo Antonio habitantes 150 local  proponente  contato 

Tapauá - AM

Joabe Aidem Pereira

joabeaidem@gmail.com /

forma de gerar renda e ainda valorizar sua produção. A produção das mulheres é sempre desvalorizada, não tem oportunidade para mostrar esse artesanato, na cidade ele não é valorizado. Há falta de apoio, de renda para elas, falta espaço para mostrar que as mulheres indígenas têm conhecimentos.

(97) 9146 - 9145 iniciativa no 

829 

premiada

— A nossa região é conhecida como médio Rio Purus. O tempo dos seringais foi uma época de muita violência na região, muita gente morreu. As famílias mais tradicionais do município só se tornaram tradicionais depois que derramaram muito sangue indígena. Os fogareiros são muito importantes na região, é onde são feitas as comidas tanto dentro das casas como quando estamos em viagem pelo rio. Como é muito difícil fabricar os fogareiros, decidimos apresentar essa iniciativa, pois eles mostram o quanto de conhecimento é preciso ter para poder fazer e que isto depende de muitas coisas. As mulheres sabem muito bem fazer seus fogareiros, é uma tradição muito antiga e ainda não se perdeu. Mas já tem muita gente que não tem interesse em aprender, muita gente já não sabe mais fazer seus fogareiros, de modo que as comunidades resolveram pensar em valorizar esse artesanato como uma

PRIMEIRA FEIRA REGIONAL DA CULINÁRIA E ARTESANATO INDÍGENA DO ALTO SOLIMÕES – 1a FEPACAM

— povos 

Tikuna, Marubo, Matis,

Mayoruna, Kanamari, Kulina, Kaixana, Kokama e Kambeba terras indígenas 

Mesorregião do Alto

Solimões - Tikuna do Umariaçú 2, Marubo, Matis, Mayoruna, Kanamari, Kulina, Kokama e Kambeba habitantes 120.000 local  proponente  contato 

Tabatinga - AM

Alzira Nazário de Souza

evary.am@gmail.com /

(97) 3412 - 2882 / 9153 - 0667 iniciativa no 

953

— A Primeira Feira Regional de Culinária e Artesanato Indígena do Alto Solimões é um projeto

que visa integrar as comunidades indígenas dos povos Tikuna, Marubo, Matis, Mayoruna, Kanamari, Kulina, Kaixana, Kokama e Kambeba, resgatar e oferecer ao público uma mostra da culinária indígena e, assim, enriquecer o patrimônio imaterial da região. Ambiciona, ainda, criar uma associação ou cooperativa para produção, compra e comercialização de artesanato, tornando-se a primeira iniciativa para geração de emprego e renda indígena em todo o Alto Solimões. O projeto começou com a dona Alzira, parteira indígena que, após criar seus filhos, resolveu estudar e propôs realizar uma feira em que pudesse ser mostrada toda a tradição culinária de sua comunidade, bem como de outras comunidades indígenas vizinhas à nossa. Para isso, a maior dificuldade mesmo é vencer as grandes “distâncias amazônicas”, pois o único modo de convidar grande parte das comunidades é ir pessoalmente de canoa ou barco, sem falar dos convidados a quem tem que dar alimentos e hospedagem.

— VALORIZAÇÃO DE ALIMENTOS E REMÉDIOS TRADICIONAIS DO POVO APURINÃ

— povos Apurinã terra indígena  comunidade 

Catitu

Novo Paraíso

habitantes 56 local  proponente 

Lábrea - AM

Associação dos Produtores

e da mandioca, como o beiju. Todos os moradores serão envolvidos, e serão chamadas para a festa tradicional lideranças apurinã tradicionais que possam desenvolver atividades de intercâmbio com os jovens da comunidade.

Agroextrativistas da Comunidade Novo

Paraíso (APACINP) contato 

apacinp@hotmail.com /

(97) 9151 - 6236 / 9147 - 8012 iniciativa no 

967

— A aldeia Novo Paraíso fica nos fundos de uma fazenda e nosso caminho é por dentro dela. Quando o fazendeiro chegou, há mais de dez anos, implicou muito conosco e a FUNAI não toma providências. A comunidade já vem desenvolvendo atividades voltadas à produção de alimentos e medicamentos tradicionais, porém sem nenhum incentivo. Produzimos farinha de mandioca, farinha de macaxeira, massa de macaxeira, massa de babaçu e colorau, mas não temos apoio e enfrentamos muitas dificuldades. Com o Prêmio Culturas Indígenas pretendemos potencializar as atividades voltadas à alimentação tradicional do nosso povo, com foco na produção de farinha e caiçuma, e de plantas de medicina tradicional. Vamos adquirir equipamentos para nossa casa de farinha, construir uma horta comunitária, realizar uma Festa Cultural com preparação de alimentos tradicionais provenientes da macaxeira

WAWAÇU — VIDA E CULTURA

— povos  terra indígena 

Mura de Autazes em processo de identificação

aldeia

Mutirão

habitantes 2.600 local  proponente 

Autazes - AM

com os jovens e mostrando os conhecimentos do uso tradicional do babaçu. Buscamos também propor novas formas de uso de babaçu e de sua farinha, criando, assim, novas receitas que poderão ser fonte de renda para a aldeia, além de mostrar à sociedade envolvente a riqueza da nossa cultura.

— TUWIT PARAT, TUNGUE PARARA TIGIA – ALIMENTOS E VIDA SAUDÁVEL

Roberto Damasceno de Araújo

contato 

roberto.jcr@gmail.com /

(92) 9294 - 9307 iniciativa n

o

  1.031

— Vivemos em pequenos espaços que são disputados com os não indígenas, com poucas alternativas de geração de renda, e sofremos com a invasão de fazendeiros que exploram nossas terras, nossa gente. Então vimos no babaçu uma fonte de alimento e renda para a nossa comunidade. Dessa palmeira abundante em nossa área podemos tirar farinha, que serve de alimento, medicina e cosmético, e com suas sementes fazemos artesanato. O objetivo do projeto é fortalecer nossa cultura através da culinária indígena, revitalizando as práticas

povo Zoró terra indígena  comunidades 

Zoró

Anguj Tapua, Pawanewa,

Imbeapuxurej, Ipe Wirej, Tamali Syn, Duanjurei, Webajkarej, Guwa Puxurej, Bubyrej, Zawa Karej Pangyjej, Ipsyrej, Zawà Kej, Pandarawej habitantes 568 local  proponente 

Ji-Paraná - RO

Associação do Povo Indígena Zoró

contato 

apiz.zoro@gmail.com /

(69) 3424 - 7213 iniciativa no 

233

— O objetivo desta iniciativa é valorizar e divulgar dentro das comunidades zoró a gastronomia tupi mondé; promover a revitalização dessa gastronomia entre os alunos zoró e suruí da aldeia Francisco Meirelles por meio da

153


154

iniciativa nº 233 – Tuwit parat, tungue parara tigia -

Alimentos e vida saudável

iniciativa nº 556 – Valorização do caxiri de mandioca:

Sa’puru

oferta de alimentos tradicionais nas escolas indígenas; resgatar sementes e outros cultivos para a diversificação da produção e alimentação; e impedir a entrada de alimentos externos causadores de doenças como diabetes, colesterol, subnutrição e outras advindas de alimentos industrializados. A decisão de realizar essa iniciativa se deu pela grande entrada desses produtos nas aldeias e o crescimento de doenças. A comunidade se conscientizou que um dos causadores desse problema era a alimentação inadequada. O desafio é disseminar para todas as famílias indígenas a importância desses alimentos em seus hábitos, visto que as cestas básicas para o combate à subnutrição oferecidas pela Secretaria Especial de Saúde Indígena/SESAI são à base de arroz, feijão, macarrão, açúcar, óleo, não contendo nenhum produto dos hábitos alimentares da comunidade.

— PROJETO DE UMA FARINHEIRA

— povo Arara terra indígena 

Rio Guariba Colniza - MT

comunidade indígena 

Aldeia Serra Azul

habitantes 17 local  proponente  contato 

Cacoal - RO

Associação Indígena Arara

assoc.indigena.arara@hotmail.com / (69) 9931 - 7547 iniciativa no 

275

A comunidade vive em uma área rural reconhecida pelo governo. Grande parte dessa terra é preservada, boa para plantio de mandioca, batatas, bananas, etc., e na mata é possível buscar castanhas, óleo de copaíba, plantas medicinais e frutos. Uma pequena parte da terra é devastada pela ação de fazendeiros, madeireiros e grileiros, pois a terra faz divisa com fazendas e há várias delas dentro da área indígena. Os fazendeiros dizem ser donos das terras. Em uma reunião feita na comunidade, vimos a necessidade de fazer uma farinheira, que irá ajudar muito no sustento das famílias que ali residem. Temos um plantio de mandioca e precisamos de recursos financeiros e de transporte. Para realizar essa iniciativa, em primeiro lugar vamos construir uma casa de farinha de mandioca, em seguida construiremos o forno. Logo após daremos início à fabricação de farinha para comercialização e consumo da comunidade Serra Azul. Com isso pretendemos alcançar uma melhoria nos recursos financeiros, pois poderemos vender uma parte da farinha e comprar outros alimentos necessários para o sustento da comunidade.

— VALORIZAÇÃO DO CAXIRI DE MANDIOCA: SA'PURU

— povos 

Macuxi, Wapichana e Patamona

terra indígena 

Raposa Serra do Sol

comunidade 

Normandia - RR

proponente  contato 

Leia da Silva Ramos

lesilvaramos@gmail.com /

(95) 9169 - 5755 / 8123 - 5075 / 8112 - 1551 iniciativa n

o

Araca da Serra

habitantes 380 local 

julgada pelos anciãos da comunidade Araca da Serra.

  556  

FORTALECIMENTO DA CULINÁRIA MACUXI

— povo Macuxi

premiada

— A área se encontra devastada por ter sido uma área de fazendas de não indígenas, mas depois de tantas lutas passou a ser Terra Indígena. Fica próxima a igarapés, mas devido à seca e ao desmatamento na beira do igarapé a água que abastece a comunidade vem de uma instalação do pé da serra. A comunidade é multilíngue, as línguas faladas são português, macuxi, wapichana, patamona e inglês. A escola trabalha no fortalecimento da língua macuxi e wapichana. O objetivo do projeto é proporcionar às mulheres indígenas a prática do caxiri de mandioca. A iniciativa começou em 2011, na festa comemorativa do aniversário da comunidade, e desde então a cada ano fazemos seminário para fortalecer essas práticas, que vem sendo substituídas pelo grande consumo de refrigerantes. Como fazer caxiri? Qual é o melhor? Para isso vamos preparar uma roça comunitária, fazer reunião com as mulheres, colheita da mandioca e produção de diversos tipos de caxiri. A etapa final será a classificação da melhor bebida, que será

terra indígena 

Raposa Serra do Sol

comunidade indígena 

Beija Flor Tukui

habitantes 25 local 

Boa Vista - RR

proponente  contato 

Amilton de Souza

cir_2012@yahoo.com.br /

(95) 916 8 - 1351 iniciativa no 

O cultivo da pimenta é tradicional, é comum encontrar plantação de pimenta nas roças. Com este conhecimento a comunidade iniciou uma plantação em 2010, onde foi possível complementar algum recurso para ajudar nas despesas das famílias. Todos os trabalhos da aldeia vêm em resposta às suas necessidades, podendo ser elas garantia territorial, aquisição de bens e produtos de uso não tradicional, etc. A falta de recurso financeiro tem sido o principal problema para o melhoramento da produção de pimenta, razão pela qual essa iniciativa foi proposta.

861

A comunidade foi fundada em 2000, na ação de garantia da Terra Indígena Raposo Serra do Sol. Os principais produtos da roça são pimenta, mandioca, milho, abóbora, banana e abacaxi. A pimenta Malagueta, conhecida como Maraki’ta na língua macuxi, é de uso tradicional desse povo para tratamento de dores de cabeça e preguiça entre outros usos, que possivelmente caíram em esquecimento. Por causa de sua importância, a pimenta malagueta é cultivada pelas comunidades, mas a falta de meios que viabilizem sua qualidade fez com que se reduzisse a produção. Com o projeto queremos melhorar a produção de pimenta malagueta implementando novas metodologias de processamento e embalagem do produto final.

MANUTENÇÃO DA CULTURA MACUXI

— povos 

Macuxi e Wapichana

terra indígena 

Raposa Serra do Sol

comunidade indígena 

Imbaúba

habitantes 52 local  proponente  contato 

Boa Vista - RR

Gercimar Morais Malheiro

gercimarr@yahoo.com.br / (95) 8126 - 1446

iniciativa no 

862

— A comunidade vive em Terra Indígena (TI), longe de vilas ou cidades, sendo acessível pela BR401, que corta a TI para dar acesso à capital Boa Vista e ao município de Normandia. Localizada em região de lavrado,

155


com vegetação em maioria rasteira e de médio porte, a comunidade foi fundada no ano 2000, oriunda da comunidade Napoleão, na ação de garantia territorial da Terra Indígena Raposa Serra do Sol.

156

iniciativa nº 619 – Culinária Apiaká: Macaco cozido no

leite da castanha-do-Pará

iniciativa nº 623 – Temi Uaré Janejemujap:

Aprendendo a fazer comida

Os principais produtos das roças da comunidade Imbaúba são pimenta, mandioca, milho, batata, abóbora, banana e abacaxi. A pimenta malagueta, conhecida como Maraki’Ta na língua macuxi, é de uso tradicional desse povo, mas por falta de meios que viabilizem a qualidade de sua produção não tem sido cultivada como poderia. Os recursos naturais também estão cada vez mais difíceis, não são suficientes para a manutenção das práticas culturais. Diante dessa situação a comunidade busca novas alternativas para garantir seu sustento. Assim, o objetivo desse projeto é melhorar a produção da pimenta Maraki’Ta e para isso o recurso financeiro é um elemento de viabilidade dessa produção.

— OFICINA DE CRIAÇÃO DE ROÇA

— povo 

Iny (Karajá)

terra indígena  comunidade 

Ilha do Bananal

Hawaló, “Santa Isabel

do Morro” habitantes 700 local 

Lagoa da Confusão - TO

proponente 

Rabuwenona Karajá

contato 

makijahari@hotmail.com / (66) 3522 - 1595

iniciativa no 

407

— Habitantes seculares das margens do rio Araguaia, o nome dos nossos povos na própria língua é Iny, “nós”. O nome Karajá não é a autodenominação original, é um nome tupi que se aproxima do significado “macaco grande”. O mito de origem dos nosso povos Iny conta que morávamos em uma aldeia no fundo do rio, onde viviam os Berahatxi Mahadu. Satisfeitos e gordos, habitavam um espaço restrito e frio. Um jovem interessado em conhecer a superfície encontrou uma passagem, lugar da mãe da gente, na Ilha do Bananal. Fascinado pelas praias e riquezas do Araguaia, reuniu outros Iny e subiram. Assim começou a criação da roça. O mito mostra uma grande mobilidade dos nossos povos Iny. Antigamente nossos povos acampavam com suas famílias para fazer roça, pescar peixe e tartaruga. Faziam aldeias temporárias e na época de estiagem do Araguaia realizavam festas. Quando entrou o alcoolismo e drogas na nossa aldeia acabou tudo. Depois surgiram alimentos industrializados como arroz, feijão, macarrão, refrigerante. Com essa iniciativa de fortalecimento e valorização cultural queremos garantir a defesa do território e a abertura de roças. As mulheres são responsáveis

pelo preparo dos alimentos das principais festas e pela memória afetiva da aldeia.

— CULINÁRIA APIAKÁ: MACACO COZIDO NO LEITE DA CASTANHA-DO-PARÁ

— povo Apiaká terra indígena 

em processo de

reconhecimento. Vivemos no Parque Nacional do Juruena, sobreposto a uma terra

castanha do Pará é um diferencial da nossa culinária que nenhum outro indígena que vive na região (Kayabi, Munduruku, etc.) possui em seu cardápio. Esse diferencial é um motivo de orgulho para nós. Ficou decidido que é fundamental passar esse conhecimento aos jovens. Não será apenas o conhecimento de uma receita culinária, os mais experientes também vão ensinar a arte da caça do macaco, como se deslocar e sobreviver na mata. Vamos realizar festas para fortalecer nossa cultura e estreitar nossa amizade com outros povos que vivem próximos às nossas aldeias.

historicamente ocupada pelos Apiaká

Aldeias: Mayrowi e Pontal dos Apiaká habitantes 

200 em Mayrowi e 50 em Apiaká

local  proponente 

Colíder - MT

Darleson Kamassuri Apiaká

contato 

jcfunai@gmail.com /

joao.godoy@funai.gov.br / funai.cr.cld@gmail.com / (66) 3541 - 1171 / 3541 - 2285 /

TEMI UARÉ JANEJEMUJAP: APRENDENDO A FAZER COMIDA

3541 - 4561 / 9981 - 4715 iniciativa n

o

  619

— Temos a obrigação de manter a nossa cultura tradicional para que no futuro, caso haja um contato com parentes nossos que fugiram para a floresta quando ocorreram os massacres do povo Apiaká, eles também nos identifiquem como Apiaká. Por isso essa iniciativa foi acordada por nossas comunidades: o Macaco cozido no leite da

povo Kaiabi parque indígena  aldeia 

do Xingu

Kwaruja

habitantes 120 proponente  contato 

Visio Kaiabi

maricorrea@institutocatitu.org / (66) 3478 - 1948 iniciativa no 

623

— Nosso povo foi trazido do rio Teles Pires e Tatuy pelos irmãos Villas-Boas. Nosso território foi invadido por seringalistas e garimpeiros, as

plantações de soja usam agrotóxicos, na época de seca tem muita queimada, matando os bichos e sujando o ar. A iniciativa de valorizar nossa culinária começou quando nosso povo veio morar no Xingu. Pessoas como o pajé Prepori pensaram em trazer as sementes das plantas que cultivávamos para não perder o conhecimento que o povo Kaiabi aprendeu com Kupeirup. Kupeirup, preocupada com a alimentação de seus filhos, se transformou em plantas e ensinou os Kaiabi a preparar as comidas que conhecemos. Com o tempo os Kaiabi foram se acostumando a viver no Xingu e a comer a comida dos brancos. Essas mudanças de costume estão fazendo mal para a saúde, tem muita criança desnutrida e com cárie. Um dia Tuait sonhou que Kupeirup estava brava porque os Kaiabi estavam perdendo tudo o que ela ensinou para eles. Na cultura kaiabi tem regras para as mulheres e os homens, tem resguardo, tem alimentos que não podem ser comidos quando estão esperando filho. As crianças estão adoecendo mais fácil. A terra boa para plantar está cada vez mais longe da aldeia e isso dá preguiça nos jovens. Se não cuidarmos, vamos perder tudo, avisou Kupeirup no sonho de Tuait.

— CULINÁRIA INDÍGENA TATUÍ

157


158

povo Kayabi terra indígena 

Apyaka e Kayabi

aldeia Tatuí habitantes 350 local  proponente  contato 

Juara - MT

Matias Francisco Jurucatu

dilma-mani@hotmail.com / (66) 3556 - 5253 iniciativa n

o

  685

— iniciativa nº 685 – Culinária indígena Tatuí

iniciativa nº 918 – Revitalização de alimentos tradicionais

na cultura Bakairi

Nossa terra, rica em diversidade de peixes e animais, é reconhecida e demarcada como Terra Indígena Apyaka e Kayabi. O solo é vermelho e com esse solo fértil praticamos a roça de toco para cultivo de espécies como milho, arroz, cará, inhame, batata doce, banana, amendoim. Entre os não comestíveis se destacam as sementes, que são utilizadas para a confecção de artesanato. Nossa comunidade teve várias ideias para apresentar ao Prêmio. Decidimos fazer sobre a alimentação, pois nossa culinária tradicional é muito rica e é um forte aliado da nossa cultura. Sabemos preparar farinha de peixe, folha de margarita com farinha de peixe, farinha de puba, farinha de milho fofo socado em pilão, canapé, beiju de mandioca, mingau de banana com castanha, chicha de mel com buriti. Também coletamos saúva e comemos assada com farinha. É um trabalho que tem a participação coletiva da comunidade: no caso dos homens, eles caçam os animais,

pescam, abrem roça de toco; as mulheres preparam a caça, buscam os alimentos na roça, descascam a mandioca, ralam, peneiram, torram. Queremos fortalecer e valorizar nossa alimentação tradicional, pois hoje temos facilidade de comprar alimentos em supermercados e com isso esquecemos nossa rica alimentação kayabi.

— PLANTANDO FUTURO: CULTIVO DA CASTANHA DO BRASIL COMO BASE DA ALIMENTAÇÃO APIAKÁ

— povo Apiaká terra indígena 

Apiaká/Kayabi

aldeia Mayrob habitantes 260 local  proponente  contato 

Juara - MT

Agnes Fernandes França

josecrixi@hotmail.com /

alanpolenis.funai@hotmail.com / (66) 3556 - 5253 – FUNAI / 9243 - 4321 iniciativa no 

911

— A povo Apiaká é nativo de regiões onde existem muitos pés de castanhas. A castanha faz parte da vida dos Apiaká. Hoje vivemos em uma terra de tradição do povo Kayabi, viemos para esta terra devido ao contato com os seringueiros.

O objetivo do projeto é fortalecer os hábitos alimentares do povo Apiaká. A castanha é ingrediente fundamental na culinária apiaká. Em 2010 profissionais da saúde identificaram diversos casos de desnutrição entre as crianças na aldeia Mayrob. A comunidade chegou à conclusão de que o problema estava no fato de as pessoas deixarem a alimentação tradicional e comerem “comida de branco”. A partir de então nos preocupamos em resgatar nossa alimentação tradicional. A castanha é tão importante para nosso povo que antigamente utilizávamos como instrumento de guerra, para conservar madeira, na produção de chocalhos. Ela tem se tornado uma importante fonte de renda para as famílias, de modo que em alguns casos as pessoas preferem coletar castanha para vender, consumindo menos no dia a dia. Com essa iniciativa pretendemos estimular o consumo da castanha, fortalecer seu uso na culinária e também extrair o óleo da castanha para fritar peixes e carne de caça.

— POVO APIAKÁ – CULINÁRIA INDÍGENA TRACAJÁ

— povo Apiaká terra indígena 

Apiaká - Kayabi

aldeia Mayrob habitantes 260

local  proponente  contato 

Juara - MT

Agnes Fernandes França

josecrixi@hotmail.com /

alanpolenis.funai@hotmail.com / (66) 3556 - 5253 – FUNAI / 9243 - 4321 iniciativa no 

Primeira Festa do Tracajá. Com essa atividade queremos valorizar e fortalecer essa prática cultural para que nosso povo não esqueça nossa tradição.

912

Todo o entorno da Terra Indígena Apiaká-Kayabi é constituído de fazendas, bastante degradado por causa da pecuária, cultivo de soja e da indústria madeireira. Pessoas não autorizadas entram em território indígena para caçar e pescar, já ocorreram casos de exploração ilegal de madeira. Está muito difícil encontrar pirarara, tucunaré, tartaruga e tracajá, que são comidas típicas apiaká. Esse projeto começou no ano de 2011, ouvindo as histórias dos nossos velhos que contavam para nossos jovens o quanto o tracajá é importante na nossa alimentação. O tracajá é um alimento tradicional do nosso povo, vem desde nossos antepassados. Contam nossos anciões que antigamente todos os anos era realizada uma festa onde a comida servida era o tracajá assado, um alimento que na nossa região está difícil de encontrar. Quando ainda estavam na mata, na terra tradicional do nosso povo, saíam à noite nas praias do rio Juruena e Teles Pires para capturar os tracajás e seus ovos para a realização da festa. Em 2011 fizemos um projeto na nossa aldeia para realizar a

REVITALIZAÇÃO DE ALIMENTOS TRADICIONAIS NA CULTURA BAKAIRI

— povo 

Kurâ Bakairi

terra indígena 

Bakairi

  aldeia Iahodu habitantes 20 local  proponente  contato 

Paranatinga - MT

Reginaldo Ikaura Xerente

reginaldobakairi@gmail.com / (66) 4400 - 7938 iniciativa no 

918

— Somos conhecidos como povo Bakairi, pertencente ao tronco linguístico Karib. Kurâ Bakairi é o nome dado para definir toda a comunidade. Na comunidade indígena bakairi da aldeia Iahodu todos são falantes fluentes da língua kurâ. A comunidade se autodenomina como subgrupo Bakairi/Tapaguia da família Karib. Tapaguia quer dizer guerreiro, hábeis caçadores, e seu alimento preferido é o peixe. Pela primeira vez a ideia desse projeto se concretizou pela informação desta 4a edição em homenagem

159


160

iniciativa nº 923 – Temi’O Kato - comida boa e saudável

iniciativa nº 93 – Óvoku Râmoko - Casa de farinha

ao Raoni, sendo que a ideia vem sendo trabalhada desde a história da fundação da aldeia, com o esforço e a luta do senhor cacique desta aldeia. O objetivo desta iniciativa é valorizar e fortalecer a produção de alimentos tradicionais, desde o preparo do espaço da roça de toco até o final, com o preparo da comida. Também teremos com esta iniciativa a valorização de práticas e saberes tradicionais sobre o tempo e a situação de cada etapa da produção alimentar, seguindo de forma correta o calendário de atividades da comunidade de acordo com o tempo da chuva e da seca. A comunidade vem trabalhando de forma que possa ter sua produção para auto sustento, com uma alimentação boa e saudável, substituindo o consumo excessivo da alimentação industrial.

— iniciativa nº 345 – Koexókexoti Hôe

TEMI'O KATO – COMIDA BOA E SAUDÁVEL

— povo 

Apyãwa Tapirape

terra indígena 

Urubu Branco

Myryxitãwa e Tapi’itãwa

aldeias 

habitantes 500 local  proponente 

Confresa - MT

Associação do Povo Indígena

Tapirapé da Aldeia Myryxitawa – APITAM contato apitam.tapirape@gmail.com iniciativa no 

923

A alimentação da nossa comunidade Tapirape é baseada na caça e pesca. Além da caça e pesca, a atividade principal do povo Tapirape é a agricultura. O nosso povo gosta de trabalhar na roça. Na cultura apyãwa existe uma série de regras que permite ou proíbe certos alimentos para cada fase da vida. Na cultura apyãwa as crianças não podem comer frango e aves, que são comestíveis para os adultos. Atualmente existem famílias tapirape que não cumprem a regra da alimentação e sabemos que isso está acontecendo pelo fato de não ter alimentação tradicional suficiente para as crianças. Queremos retomar a alimentação de antigamente, TEMI’O KATO, ou seja, comida boa e saudável. Com isso os mais idosos se sentem completos e felizes. A comunidade percebeu que a alimentação industrializada interfere na saúde das famílias porque estão surgindo várias doenças que não eram comuns antigamente, como diabete, pressão alta, reumatismo e outras doenças que o povo não conhece. As pessoas engordam mais rápido e ficam mais frágeis nas doenças. Os idosos falam que os antigos não eram assim.

— TERENA – CULINÁRIA INDÍGENA TURI PUKU DE MATO GROSSO

— povo Terena terras indígenas 

ancião da nossa comunidade, que tem saudade dos alimentos tradicionais.

Terena Gleba Iriri Novo,

Buriti e Limão Verde aldeias 

Turi Puku - MT, Buriti - MS e Limão Verde - MS

habitantes 

Turi Puku - MT: 60 /

Buriti - MS: 820 / Limão Verde - MS: 1.600 local  proponente  contato 

Matupá - MT

ÓVOKU RÂMOKO – CASA DE FARINHA

— povo Terena

Mateus Alcântara Rondon

micaelrondon@hotmail.com /

triboturipuku@gmail.com / (66) 3575 - 1950 / 9631 - 7760 / 9999 - 7892 iniciativa no 

924

— Nossa comunidade Turi Puku fica na Terra Indígena Terena Gleba Iriri Novo. Era uma área ocupada por posseiros. A questão que enfrentamos está relacionada ao cultivo de nossas sementes e tubérculos. Quando viemos para Mato Grosso isso ficou para trás. Os Terena de Mato Grosso buscam há quatro anos a reafirmação de nossa identidade, fazem festas tradicionais com danças, competições e outras atividades culturais, mas falta a comida típica na festividade por não terem os ingredientes lembrados pelos anciões. O objetivo é resgatar nossas sementes e alimentos como o milho fofo, coroá, cará, araruta, mandioca rosa e batata amarelinha. São alimentos que os Terena do Mato Grosso do Sul cultivam e que nosso povo do Mato Grosso não cultiva mais. Para isso vamos realizar com eles um intercâmbio de sementes, batatas e da nossa culinária. A ideia partiu de um

terra indígena  aldeias 

tem alcançado um resultado positivo na preservação da cultura terena. Todo o processo de fabricação da farinha serve como fortalecimento cultural e é um aprendizado, pois as crianças participam de tudo. Elas são envolvidas diretamente e assim é a educação indígena: a criança aprende olhando e participando de todo o processo.

Taunay / Ipegue

Bananal, Colônia Nova, Ipegue,

Lagoinha, Água Branca, Morrinho, Imbirussú habitantes 

Bananal: 1.067 / Colônia Nova:

174 / Ipegue: 907 / Lagoinha: 547 / Água Branca: 649 / Morrinho: 287 / Imbirussú: 200 local 

Aquidauana - MS

proponente  contato 

KOEXÓKEXOTI HÔE

Gilson França Dias

celmaterena@hotmail.com /

apoterena@hotmail.com / (67) 9659 - 3996 / 9913 - 2607 / celma_terena@hotmail.com (Facebook) iniciativa n

o

  93

— A comunidade vive em uma área rural próxima à cidade de Aquidauana, no pantanal sul-matogrossense, e atualmente vem acontecendo um deslocamento das famílias para a cidade em busca de emprego e melhores condições financeiras. Esse projeto começou há muito tempo e partiu das lideranças ao perceberem a grande procura de farinha pelos indígenas da Aldeia Bananal, aldeias vizinhas e outras pessoas. Desde pequena a criança terena aprende a fazer farinha; o trabalho é realizado em família e passa de pai para filho. A produção é em pequena escala, mas

povo Terena terra indígena  aldeias 

Taunay/Ipegue

Bananal, Colônia Nova, Ipegue,

Lagoinha, Água Branca, Morrinho, Imbirussú habitantes 

Bananal: 1.067 / Colônia Nova: 174

/ Ipegue: 907 / Lagoinha: 547 / Água Branca: 649 / Morrinho: 287 / Imbirussú: 200 local 

Aquidauana - MS

proponente  contato 

Pedro Venancio

apoterena@hotmail.com / (67) 9913 - 2607

iniciativa no 

345

— A comunidade vive em Terra Indígena reconhecida pelo governo, no pantanal sul-matogrossense. O nosso território possui apenas córregos e vazantes, que se tornaram intermitentes por conta da interferência externa de fazendas vizinhas. A pesca tradicional praticada pelos indígenas não acontece mais, ficando somente na memória dos mais velhos.

161


162

iniciativa nº 487 – Fábrica de rapadura e melado

iniciativa nº 153 – Nhande Kuery Rembi’u - o nosso

alimento

A comunidade da Aldeia Bananal usa a língua indígena no dia a dia. Ela é forte e não corre o risco de deixar de ser falada. Na comunidade da Aldeia Ipegue, ao contrário, a escola não está sendo suficiente para assegurar a língua terena como primeira língua. O Prêmio Culturas Indígenas é a oportunidade de concretizar os desejos das lideranças de incluir a carne de peixe no cardápio, já que faz parte da dieta alimentar tradicional. A iniciativa sempre esteve no pensamento das lideranças, porém faltava financiamento para a construção de um açude para criar alevinos em cativeiro. Uma vez que os córregos não possuem mais peixes, a dieta alimentar dos indígenas terena se tornou difícil.

— FÁBRICA DE RAPADURA E MELADO

— povo Terena terra indígena  aldeias 

Taunay/Ipegue

Bananal, Colônia Nova, Ipegue,

Lagoinha, Água Branca, Morrinho, Imbirussú habitantes 

Bananal: 1.067 / Colônia Nova:

174 / Ipegue: 907 / Lagoinha: 547 / Água Branca: 649 / Morrinho: 287 / Imbirussú: 200 local 

Aquidauana - MS

proponente  contato 

Gildo França Dias

celmaterna@hotmail.com / (67) 9913 - 2607

iniciativa no 

487

Esse projeto tem como objetivo produzir rapaduras de cana-de-açúcar e melado nos moldes tradicionais indígenas. A iniciativa começou com meus pais, com quem aprendi quando era criança. Desde menor eu ajudava na produção da rapadura do início até o final da fabricação, acompanhava a venda e a troca com os indígenas moradores de diversas aldeias. Até hoje continuo produzindo rapadura e melado, toda a vida foi o meio de sustento da minha família. Nesse tipo de atividade existe o tempo apropriado para o preparo, quando a cana-de-açúcar está no ponto de corte para fazer a rapadura e o melado. Com o equipamento movido a energia não levará tanto tempo para limpar a cana, moer e cozinhar o caldo até ficar pastoso e chegar a seu ponto ideal. Pretendemos com o projeto alcançar grande quantidade de produção para atender a população indígena das sete aldeias.

— VALORIZAÇÃO DAS PRÁTICAS SUSTENTÁVEIS DE ALIMENTAÇÃO UTILIZADAS NA CULTURA TERENA

— povo Terena terra indígena  aldeia 

Taunay / Ipegue Bananal

habitantes  local 

Aquidauana - MS

proponente  contato 

1.435

Miguel Jordão

terenamigel@hotmail.com /

(67) 9951 - 4292 / 9903 - 5451 iniciativa no 

710

— A Terra Indígena Taunay/Ipegue foi homologada em outubro de 1991. No entorno da Terra Indígena existem fazendas as quais desenvolvem atividade de criação de gado, bastante comum em nossa região devido ao Estado estar ligado ao agronegócio. O objetivo desse projeto é manter a tradicionalidade do plantio de mandioca e cana-de-açúcar. A mandioca pode ser consumida de forma cozida ou assada e é a matéria-prima para a confecção de comidas típicas da comunidade terena como lapápe, hihi, poreo, beiju, farinha e polvilho doce. Sabemos que a cana-de-açúcar não faz parte da dieta alimentar indígena, mas foi introduzida nas aldeias pelo SPI na década de 40 e seu subproduto é muito apreciado pelos indígenas. Com a cana são confeccionados a rapadura, que os índios consomem com farinha de mandioca, e o melado com mandioca. Ressaltamos ainda que além da alimentação isso pode ser um gerador de renda para as famílias envolvidas neste projeto.

COZINHA TRADICIONAL XAKRIABÁ

— povo Xakriabá terra indígena 

Reserva Indígena Xakriabá

aldeia 

Sumaré I

habitantes  local 

700

São João das Missões - MG

proponente 

Luzineide Freire da Cruz Silva

contato  iniciativa n

Essas comidas tradicionais estão ficando esquecidas. Com esse projeto queremos fazer o resgate dessas comidas para que as futuras gerações conheçam e pratiquem esses costumes, além de envolver os alunos e a comunidade. Os alunos vão fotografar e registrar os festejos tradicionais e o preparo dos pratos, e com esse material produzir um livro que será trabalhado dentro das salas de aula.

(31) 9985 - 3124 o

  837 

premiada

— A Terra Indígena é demarcada e já desmatada, com poucos animais para caçar. A terra é razoável para o plantio de milho, mandioca, batata doce, abóbora, angu. Hoje nosso espaço está bem reduzido, mas nunca vamos deixar de lutar para fortalecer nossa cultura. Os maiores problemas que enfrentamos são o desmatamento, a falta de água e a entrada de produtos agrotóxicos. O objetivo dessa iniciativa é construir uma cozinha tradicional xakriabá para atender à necessidade da comunidade, pois não tem espaço para preparar as comidas tradicionais nos encontros culturais como comemoração do Dia dos Índios, reuniões comunitárias, festejos culturais. As comidas servidas nesses encontros são fava com angu, canjiquinha, bolo de fubá, beiju de milho, farofa de cariru, taioba, canjica de pilão e outros.

NHANDE KUERY REMBI'U - O NOSSO ALIMENTO

— povo 

Guarani Mbya

terras indígenas 

Aguapeu e Comunidade

Guarani da Aldeia Tekoa Mirim aldeias habitantes 

Aguapeu e Tekoa Mirim

Aguapeu: 90 / Tekoa Mirim: 45

local  proponente  contato 

Mongaguá - SP Roberto Martin Silva

karairoberto5@gmail.com / (13) 9622 - 6427 iniciativa no 

153

— A Terra Indígena Aguapeu é demarcada e homologada pelo governo federal desde 08 de setembro de 1998; já a Aldeia Tekoa Mirim está em processo de reconhecimento pelos órgãos federais e a FUNAI. Se a comunidade Aguapeu possui áreas remanescentes de Mata Atlântica, a situação é mais

163


164

iniciativa nº 439 – Kakané ko hâ, Kaiken Mahâ -

Comer fruta é bom demais, Deus é bom

iniciativa nº 582 – A culinária dos povos indígenas

Pankararé

complicada na comunidade guarani da Aldeia Tekoa Mirim, que já foi invadida por posseiros e não tem muita opção de caça e pesca. A terra é improdutiva e a comunidade vive da venda de artesanato e palmito. O objetivo desse projeto é mostrar para os mais novos como preparar os alimentos tradicionais guarani, incentivando assim a continuar a praticar os rituais e a culinária guarani. As duas comunidades decidiram apresentar essa iniciativa porque os jovens estão se esquecendo dos alimentos tradicionais e perdendo o interesse. A intenção é fazer um pequeno documentário sobre a culinária tradicional guarani, produzir DVDs e distribuir para todas as aldeias do Estado de São Paulo.

— iniciativa nº 594 – Nhande tape: nosso caminho

KAKANÉ KO HÂ, KAIKEN MAHÂ COMER FRUTA É BOM DEMAIS, DEUS É BOM

— povos 

Terena e Kaingang

terra indígena  aldeia  habitantes 

Icatu

156 entre Terena e Kaingang

local  iniciativa nº 518 – Vejen há - Alimentação saudável

Icatu

Brauna - SP

proponente  contato 

Edilene Pedro

edilene@gmail.com /

(18) 3692 - 0210 / 9611 - 8539 iniciativa no 

439

Moramos na zona rural, em terra reconhecida e homologada, mas estamos cercados por usina e canaviais, não há rio dentro da aldeia e temos pouca caça. O cheiro da usina, quando chega, é insuportável. O objetivo da iniciativa é poder fortalecer a participação de todos (crianças, jovens e os mais velhos) na busca de nossas origens étnicas, na questão de nossos costumes alimentares, canto, dança, artesanatos, jogos, brincadeiras, nas nossas pinturas. A comunidade sentiu necessidade de mostrar nossas culturas. Somos cidadãos, mas com cultura diferente e saberes diferentes. Muitos não sabem e generalizam as etnias como um todo.

— A CULINÁRIA DOS POVOS INDÍGENAS PANKARARÉ

— povo Pankararé

comunidade  habitantes 

Aproximadamente 400

local  proponente 

Pankararé

São Paulo - SP

Adelice Pereira Feitosa Hilário

contato 

e valores culturais, sua importância cultural vem sendo esquecida. O objetivo do projeto é publicar um livro de receitas culinárias pankararé para mostrar para as comunidades e para a população em geral que a culinária indígena ainda está viva, e que depende integralmente das novas gerações da comunidade para se manter. A iniciativa começou pelo fato de a comunidade desconhecer as receitas; com os livros, as comidas típicas não vão cair no esquecimento. A comunidade quer resgatar e valorizar nosso povo, o saber plantar, a prática de colher, o cuidado ao conservar, o modo de preparo, como servir; quer conhecer e sentir um pouco mais o povo Pankararé envolvendo-se por aromas, sabores, texturas e maneiras de elaborar os pratos que estarão presentes no livro. A arte de preparar os alimentos e o ritual de servir revelam muito acerca da identidade de um povo. A comunidade quer valorizar nossa ancestralidade.

adelicepfh@pop.com.br /

(11) 3695 - 4279 / 7875 - 5835 iniciativa no 

582

— Vivemos em áreas urbanizadas, onde nossos direitos à terra não são reconhecidos ou não são eficazmente aplicados. Por falta de opção as pessoas vêm deixando de lado suas tradições

NHANDE TAPE: NOSSO CAMINHO

— povo Tupi-Guarani terra indígena  comunidade 

em análise

Tekoa Porã

habitantes  local  proponente 

31

Itaporanga - SP

Pacuery Garcia Cruaia Lulu

contato 

premioculturasindigenas@gmail.com

(13) 9740 - 6058; (13) 9627 - 8707 iniciativa no 

594

— A comunidade vive em área rural ainda não reconhecida pelo governo. Está em estudo antropológico, mas a dificuldade é o tempo que leva para fazer todo o levantamento da documentação. A área onde atualmente vive a comunidade Tekoa Porã é devastada e ameaçada pelo uso de agrotóxicos pelos fazendeiros vizinhos. Essa iniciativa começou em 2006, quando foi criada a comunidade Tekoa Porã, e seu objetivo é manter, resgatar e aumentar os conhecimentos culturais para que a geração futura não sofra discriminação, como às vezes sofremos de não índios e até mesmo de parentes. O trabalho é realizado através de atividades na escola e em reuniões com toda a comunidade, quando é feita confecção de artesanato, vestimentas, preparo de comidas típicas, elaboração e tradução de cantos indígenas, danças, rezas etc. Ao longo do tempo os indígenas, em geral, vêm perdendo aos poucos suas práticas culturais e a maior dificuldade é financeira, pois tudo o que se realiza hoje em dia exige recursos: se queremos cultivar nosso alimento típico, se queremos uma casa de reza ou um centro cultural, se queremos confeccionar artesanato. Com o projeto, esperamos que nossa comunidade se fortaleça cada dia mais.

VEJEN HÁ ALIMENTAÇÃO SAUDÁVEL

— povo Kaingang

aldeia 

Alto Pinhal

habitantes  local  proponente 

90

Clevelândia - PR

Associação de Pais, Mestres

e Funcionários (APMF) da Escola Estadual Indígena Nitótu (EIEF) contato 

(46) 32521759

iniciativa no 

518

— A comunidade da Aldeia Alto Pinhal é formada por indígenas Kaingang. Anteriormente eles viviam às margens da BR-280, nas proximidades do município de Clevelândia, e aos poucos outros indígenas, vindos de aldeias como Mangueirinha, Palma e Abelardo Luz, passaram a integrar o grupo. Muitas famílias são evangélicas e abandonaram as práticas culturais relativas à religiosidade ancestral dos Kaingang. Esse projeto começou em 2007, quando a comunidade decidiu fortalecer sua cultura para dar uma identidade ao grupo. A comida tradicional foi identificada como prioridade porque a comunidade é uma aldeia urbana que tem muita influência da alimentação dos não índios. Falta espaço apropriado para a produção dos alimentos que fazem parte da culinária tradicional da aldeia. Outra dificuldade é fazer as crianças a se acostumarem com

165


166

iniciativa nº 483 – Resgate da cultura alimentar indígena

Mbya Guarani

a alimentação tradicional no cardápio escolar. O uso de medicamentos industrializados também é muito alto, sendo poucos os que utilizam ervas medicinais no tratamento de doenças. O objetivo é incentivar o cultivo de ervas medicinais e de hortaliças, garantindo o resgate cultural de costumes que se perderam, e introduzir uma alimentação mais saudável na comunidade.

— RESGATE DA CULTURA ALIMENTAR INDÍGENA MBYA GUARANI

— povo  iniciativa nº 797 – Medicina tradicional

Guarani Mbya

terra indígena  comunidade 

Ka’aguy Poty

Ka’aguy Poty

habitantes  local 

proponente  contato 

28

Estrela Velha - RS João Paulo Acosta

emestvel@emater.tche.br /

e recebe dela merenda escolar e material didático; na aldeia também foi construído um posto de saúde, mas ainda não está em funcionamento. A língua falada é o Guarani, do tronco linguístico Tupi-Guarani, e o português é usado somente no contato com o branco. A partir da integração com escolas, universidades e a comunidade branca foi possível observar a carência de informações que a comunidade da aldeia Ka’aguy Poty possui sobre sua culinária típica e o preparo de seus alimentos. Assim surgiu a iniciativa de buscar em pessoas mais velhas, incluindo de outras aldeias, o conhecimento a ser repassado principalmente aos jovens que serão futuros líderes. Mediado pelo chefe, foi discutido com o grupo a ideia dessa iniciativa. É importante resgatar o passado referente à alimentação, é necessário saber os nomes dos pratos, o modo de preparar os alimentos, os utensílios. Espera-se com isso que a comunidade volte a respeitar os costumes da cultura, buscando uma boa alimentação dentro de seu alcance.

(51) 9741 - 1895 iniciativa no 

— iniciativa nº 776 – Alimentação tradicional da Terra

Indígena Toldo Imbu

483

A aldeia Ka’aguy Poty se localiza em uma Terra Indígena reconhecida pelo governo. Foi aprovada pelo governo a construção de uma nova escola na aldeia para os Guarani. A escola está vinculada à rede estadual de ensino

MEDICINA TRADICIONAL

— povo Kaingang terras indígenas 

Cacique Doble,

Acampamento Passo Grande do Forquilha aldeias 

Campo Verde, e Prata

habitantes 

Terra Indígena Cacique Doble:

930 / Acampamento Passo Grande do Forquilha: 275 local  proponente 

alimentos tradicionais kaingang e promover eventos onde todos levarão pratos da comida tradicional.

Cacique Doble - RS

Mario Pafej Manoel Antonio

contato 

(54) 9986 - 5951 /

9938 - 2589 / 9645 - 4670 iniciativa no 

797

— A comunidade da Terra Indígena Cacique Doble vive em Cacique Doble, no Rio Grande do Sul, sendo boa parte da mata nativa tomada por plantação agrícola. Não há peixes pois o rio que corta a comunidade está poluído, não existe caça e a terra é produtiva para soja e milho. O trânsito de não indígenas dentro da aldeia é bastante frequente. Outra interferência de fora é o uso constante de agrotóxico na produção de soja, milho etc. O projeto “Medicina tradicional” sempre existiu, mas se tornou mais intenso a partir do momento que os kuiã começaram a perceber que as pessoas da comunidade estavam deixando de usar a alimentação tradicional. O objetivo da iniciativa, assim, é revitalizar o fortalecimento de nossa prática alimentar kaingang para preservar a cultura da comunidade e o conhecimento culinário. A maior dificuldade é a oferta abundante de alimento não indígena, mas a comunidade está sendo conscientizada sobre a importância da alimentação tradicional. Para isso vamos buscar junto às pessoas mais velhas os principais

ALIMENTAÇÃO TRADICIONAL DA TERRA INDÍGENA TOLDO IMBU

— povo Kaingang terra indígena  comunidade 

Toldo Imbu

Toldo Imbu

habitantes  local  proponente  contato 

200

Abelardo Luz - SC Valdecir Oliveira Santos

valdecirkaingang@hotmail.com /

(49) 9173 - 2092 – Valdecir / 9956 - 5041 – Cacique iniciativa no 

776

— A comunidade está localizada próxima à cidade, em um terreno doado pela prefeitura com muitas pedras, enfrentando sérios problemas habitacionais e de saneamento básico. A terra está demarcada, falta apenas a homologação para concluir o processo. O objetivo dessa iniciativa é fortalecer a identidade da comunidade através do resgate da comida tradicional. A iniciativa começou em 2002, com a implantação da escola na aldeia, quando foi tirado como prioridade do plano pedagógico o fortalecimento da cultura.

Uma das maiores dificuldades é a falta de matéria para produção dos alimentos que fazem parte da culinária tradicional, além de fazer as crianças se acostumarem com a alimentação tradicional no cardápio escolar. Para isso vamos identificar quais alimentos estão em estado de desaparecimento na aldeia, dividir as atividades e organizar eventos para mostrar a culinária indígena e, assim, difundir a cultura. Queremos com isso fortalecer a identidade da aldeia, incentivar e conscientizar os mais novos sobre a importância da cultura e introduzir uma alimentação mais saudável na comunidade.

167


168

169

— CUIDADOS E PRÁTICAS DE SAÚDE —

Parque Indígena do Xingu, MT / foto: Renato Soares


170

CUIDADOS E PRÁTICAS DE SAÚDE —  35 INICIATIVAS INSCRITAS  —

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CONHECIMENTOS INDÍGENAS E INOVAÇÕES TECNOLÓGICAS: EM BUSCA DO BEM VIVER por Juliana Rosalen

TUDO É UMA COISA SÓ

A

saúde é um tema caro às populações indígenas. Ainda que este conceito tenha vindo emprestado dos não índios, teorias e práticas relativas ao bem viver sempre estiveram presentes nos saberes indígenas. Cada povo define a sua maneira o que considera como bem viver, mas alguns elementos parecem ser comuns a todos, como por exemplo: ter terra para produzir e coletar alimentos, caçar e pescar, ter água limpa para beber e banhar, ter recursos naturais (palhas e madeiras) para a construção de casas, fazer festas, casar seguindo as regras estabelecidas pelo grupo, pintar e enfeitar os corpos, ter pajés, xamãs, rezadores e mulheres com conhecimento e prática de realizar partos, utilizar conhecimentos sobre plantas e animais como parte de processos terapêuticos, manter em equilíbrio as relações com os diversos agentes sociocosmológicos, trocar conhecimentos, etc. Não é por acaso, portanto, que quase todas as vezes que se indaga aos povos indígenas sobre a questão da saúde, a resposta deles aparece conectada, antes de mais nada, à questão territorial. Nas palavras de um Kaingang: “a demarcação de terra é essencial para nossa saúde (...) Não tem como pensar uma educação adequada, sem pensar nos nossos valores e formas culturais,

sem pensar numa alimentação adequada, sem valorizar nossos kujà, nossas parteiras, sem preservar as matas, sem uma vivência espiritual. Tudo é uma coisa só” (RS 791) Por outro lado, é importante destacar que uma terra demarcada, por si só, não garante uma boa situação de saúde, ainda seja a base fundamental nesta direção. Isso fica evidente em três situações territoriais apresentadas pelos projetos submetidos ao Prêmio Culturas Indígenas. Uma primeira situação, e a mais precária, é a dos povos que ainda não têm terra demarcada e que por isso mesmo são invisíveis frente às políticas públicas; uma segunda situação de povos que possuem terras demarcadas, porém insuficientes em tamanho e em recursos ambientais para a reprodução física e cultural dos que nela habitam; e uma terceira situação de povos que têm terra demarcada, condições ambientais favoráveis, mas que vêm sofrendo com inúmeras pressões externas que, direta ou indiretamente, impactam negativamente sua situação de saúde. Dentre estas pressões destacam-se a atuação de madeireiros, garimpeiros, pescadores, extrativistas, a proximidade de empreendimentos como estradas, hidrelétricas, assentamentos, etc. Compreender a situação territorial de cada povo é de extrema relevância para entender tanto


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iniciativa nº 855 – Curando com remédios tradicionais, Baniwa, AM

a escolha dos temas dos projetos apresentados ao Prêmio Culturas Indígenas, quanto o potencial criativo de cada um deles. Os projetos propõem desde a feitura de viveiros e hortas medicinais à construção de casas de produção de remédios; da valorização de pajés e parteiras à transmissão de conhecimentos através de materiais em línguas indígenas; da construção de casas de saúde a intercâmbios com outros povos; de pesquisas e expedições à mata a encontro nacional de pajés; de nomeação de crianças à produção de mel. Os assuntos se enredam e são traduzidos através de múltiplas escolhas temáticas apresentadas no edital: ‘terra e territórios indígenas’, ‘religião’, ‘músicas, cantos e danças’, ‘língua’, ‘educação e processos de transmissão de conhecimentos’, ‘ambiente’, ‘medicina indígena’, ‘alimentação e culinária’, ‘pinturas corporais’, ‘modos de construção’, ‘manejo, plantio e coleta de recursos naturais’.

"TEM DOENÇAS DE TODA QUALIDADE" iniciativa nº 928 – Medicina Tradicional, Xacriabá, MG

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m sua etimologia ocidental ‘medicina’ significa ‘a arte de curar’, e de fato, todos os povos possuem teorias e práticas relacionadas ao ‘curar’. Mas há, com certeza, uma grande diferença entre o que índios e não índios classificam como doenças e processos de prevenção e de cura. Segundo os Guarani Mbya: “Tem doenças de toda qualidade [...] As doenças têm causa espiritual e são diferentes das doenças contraídas pelos juruá (não indígena). As doenças espirituais a gente cura pela tradição.” (SP 387)

iniciativa nº 623 – Temi Uaré Janejemujap - Aprendendo a fazer a comida,

Kaiabi e Kawaiwete, MT

Na tradução realizada pelos Guarani, mas também por muitos outros povos indígenas, ‘doença espiritual’ se contrapõe diretamente a concepção biomédica que imputa às causas biológicas o

aparecimento de doenças. Para muitos povos indígenas, não existe uma distinção entre corpo e espírito/alma; as doenças, em geral, são relacionadas a quebras de regras de comportamento que provocam desequilíbrios nas relações sociais que eles mantêm com os mais diversos seres visíveis e invisíveis que compõem seus mundos. O tratamento para estas ‘doenças espirituais’ pede a intervenção de um pajé ou um xamã que pode ser complementado com remédios locais e dos não índios, de forma a diminuir sintomas das doenças: “achamos que as duas coisas, medicamentos de branco e conhecimento tradicional, podem andar juntas” (MT 922). Enquanto os povos indígenas incorporam e articulam diversos recursos locais e extra-locais (medicamentos, procedimentos, etc) em seu acervo de práticas, os não índios tentam apreender sistemas complexos de conhecimentos e técnicas em um campo que definem como ‘medicina indígena’. Se por um lado, o campo da ‘medicina indígena’ procura legitimar, frente ao conhecimento científico, práticas e saberes indígenas relacionados à saúde e doença - ainda que caracterizados em uma chave essencialmente mágico-religiosa - por outro continua produzindo simplificações e traduções de complexos sistemas de conhecimentos e práticas em seus próprios termos. Estas traduções tratam de colocar o pajé ou o xamã no lugar do médico, enquanto especialista, e as plantas medicinais no espaço dedicado aos remédios, entendidos em seu significado mais amplo como ‘recurso que se usa para combater uma moléstia’. Estas simplificações ganharam força e foram incorporadas ao discurso corrente das equipes de saúde que atuam nas Terras Indígenas. Tanto que dos 35 projetos relacionados à saúde apresentados ao Prêmio Culturas Indígenas, pelo menos 18 dizem respeito à produção de plantas medicinais e 7 à valorização de pajés e parteiras. Porém, os projetos relacionados à produção de plantas medicinais trazem em seu bojo algo mais do que ‘princípios ativos’. Permitem

valorizar um acervo de conhecimentos que estão para além do potencial terapêutico. As plantas estão sempre conectadas com rezas, cantos, trocas de conhecimento, histórias dos antigos, etc. Conexões que são essenciais em todos os projetos: “Temos como objetivo a construção de duas hortas de plantas medicinais para deflagrar uma retomada de valores práticos e espirituais” (SP 387) Em um dos projetos apresentados, as mulheres indígenas do Oiapoque ressaltam especialmente a troca de conhecimentos entre mulheres de diferentes povos no campo da biodiversidade, da produção de materiais didáticos que permitam a circulação desse conhecimento e, principalmente, que esta sequência de ações caminhem no sentido de permitir uma maior autonomia para os povos envolvidos. “Esta iniciativa pretende, através da realização de oficinas, incentivar a troca de conhecimentos entre as mulheres de diferentes etnias sobre plantas e outros recursos medicinais e promover a elaboração de uma cartilha de forma a fortalecer a autonomia dos povos indígenas, reduzindo sua dependência dos fármacos químicos nas aldeias” (AP 721) Já em relação aos projetos relacionados à valorização dos pajés, alguns se referem de maneira bastante genérica ao fortalecimento de saberes e práticas destes conhecedores, enquanto outros ressaltam biografias e trabalhos de especialistas específicos. “O trabalho do pajé Palmiro Pawixian tem o período de 10 anos, portanto começou no ano de 2003.(...) uma família wapichana da comunidade Pium procurou o pajé (...) devido a doença que estava muito brava. E a família notou que o pajé tinha grande dificuldade para ter os materiais para fazer a cura (...)[a família] procurou ajudar o pajé trazendo recursos necessários da comunidade

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iniciativa nº 721 – Bõ Lavi - Transmissão dos conhecimentos das mulheres indígenas de Oiapoque sobre medicina tradicional, povos Galibi Kali'na, Galibi Maworno, Karipuna e Palikur, AP

Pium da grande mata existente (...) todos os moradores acataram a iniciativa com o compromisso de ajudar também nas atividades de buscar os recursos naturais, construir o santuário do pajé e participar do trabalho do pajé no sentido de proteger e garantir a segurança dos pacientes” (RR 871) Porém, é importante ressaltar que saberes e práticas relacionadas à prevenção e cura de malefícios nos povos indígenas não constituem um domínio específico e acessível apenas a especialistas nativos. Diferentes famílias possuem acervos próprios de conhecimentos, especialmente fitoterápicos, conforme aponta um projeto apresentado por uma família Baniwa: “Essa iniciativa foi proposta por toda a família Apolinário e parentes, visto que eles são conhecedores das plantas e já curaram pessoas” (AM 855) Também é possível que muitas pessoas sejam pajés ao longo da vida, mas nem todos permaneçam pajés. O tornar-se pajé (ou xamã) implica em uma série de aprendizagens, cuidados e evitações e deve ser compreendido como um processo reversível. Se é difícil tornar-se pajé, mais difícil ainda é manter-se pajé. Uma ampliação dos limites do que os não índios considerariam como ‘medicina indígena’ aparece nas entrelinhas de alguns projetos como a dos Guarani Mbya, onde as plantas aparecem relacionadas aos nomes das crianças, obtidos através de consulta aos mais antigos e sábios da comunidade; ou então na dos Paumari, que pretende valorizar uma série de regras de comportamento e rituais que são responsáveis por não deixar que a alma de uma criança seja roubada e levada para longe do corpo, o que causaria seu adoecimento; ou então na dos Guarani Nhandeva, cujo objetivo é fortalecer seu próprio sistema de vida.

ENXERGANDO LONGE: SAÚDE E AUTONOMIA

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esta nos perguntarmos sobre os fatores que têm intensificado a elaboração de projetos nesta temática. É possível, através das iniciativas, identificar alguns deles. Vejamos. O primeiro, e que está presente em praticamente todos os projetos, é que estas iniciativas em ‘medicina tradicional’ são uma maneira de reforçar a identidade sociocultural do grupo através da valorização de seus conhecimentos e práticas. Ainda existe muito preconceito e desconhecimento por parte dos não índios, acerca destes saberes. “(...) chegaram os médicos, enfermeiros, em nossa comunidade, e diziam para nós: não vamos nos responsabilizar se vocês tomarem remédios do mato. Isso tudo foi desmotivando a comunidade e deixando para trás o conhecimento dos mais antigos da comunidade” (MT 922) Somadas a essa questão da desvalorização, há as pressões que muitos povos sofrem diante da atuação, cada vez mais intensa, das igrejas junto às comunidades: “igrejas (...) entram trazendo informações de que a prática do pajé não vai curar o indígena e sim levar para o inferno” (RR 871), “há pessoas de fora como missões evangélicas atrapalhando este trabalho, uma vez que, em seus ensinamentos pregam que certos costumes culturais de nosso povo como o canto em nossa língua, inalação do rapé, cura feita pelo pajé e outros costumes tradicionais são pecado (...) Por conta disso queremos trabalhar o resgate destas práticas em nossa aldeia” (AM 1034) Para além da questão das missões religiosas tem-se também a preocupação em envolver os jovens

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Planta medicinal Huni Kuin, Terra Indígena Baixo Rio Jordão, AC / foto: Alice Haibara

indígenas nestes projetos, já que estão bastante vulneráveis aos apelos do mundo dos não índios, mas ao mesmo tempo aparecem como “(...) os principais atores responsáveis pela manutenção do conhecimento milenar, para que as práticas de prevenção e cura não sejam esquecidas” (AM 836) Um segundo fator bastante relevante é que os projetos têm procurado buscar alternativas práticas à prevenção e cura de doenças, uma vez que o sistema de saúde oferecido pelos não índios não tem conseguido melhorar a qualidade de vida dos povos indígenas. A assistência à saúde apresenta inúmeros problemas, limites e fragilidades apontados de maneira bastante enfática nos projetos. “(...) não temos posto de saúde, faltam medicamentos, temos um agente de saúde na comunidade (...) os atendimentos realizados pela equipe de profissionais de SESAI ocorrem no máximo uma vez por mês e são realizados às pressas (...) As pessoas não entendem claramente o português e ficam com muitas dúvidas em relação à utilização dos medicamentos” (AM 1034)

iniciativa nº 170 – Aldeia Indígena Guarani Itaxim, Guarani Mbya, RJ

Existe também uma preocupação clara dos povos indígenas em relação à grande dependência dos medicamentos industrializados, e aos malefícios que eles podem vir a causar no organismo das pessoas: “ (...) hoje ficamos preocupados porque tomamos muita medicação do não índio, acarretando muitas vezes outros tipos de doenças em nosso corpo” (MT 922)

iniciativa nº 789 – Medicina Tradicional Kaingang, RS

Já a percepção dos limites da assistência oferecida pelos não índios é traduzida com clareza na fala de um líder espiritual Guarani Mbya: “Os índios têm mais doenças espirituais, é difícil o branco descobrir. Quem sabe é o pajé” (SP 387). Diante deste quadro, os povos indígenas têm se questionado se suas práticas e conhecimentos não seriam capazes de resolver muitos dos problemas

de saúde que acometem suas comunidades. A busca agora é no sentido de superar a dependência da assistência à saúde dos não índios, fazendo com que “(...) o trabalho de saúde oferecido pelo governo seja apenas uma ação complementar (...)” (AM 836) Um terceiro fator capaz de intensificar a escolha pelo tema ‘medicina indígena’ seria o espaço que este campo propicia para inovações tecnológicas de todo tipo: da construção de viveiros e hortas medicinais à produção de sabonetes, pomadas e remédios fitoterápicos; da edificação de casas de cura e farmácias à organização de um encontro nacional de pajés; da produção de livros e vídeos à criação de abelhas visando à produção de mel para fins terapêuticos e até mesmo à organização de alunos universitários indígenas da área da saúde com vistas à incorporação de conhecimentos indígenas relacionados à saúde e doença em disciplinas específicas de seus respectivos cursos. Estas inovações demonstram uma intensa capacidade destes povos de incorporarem, criativamente, elementos e narrativas trazidas pelo contato com os mais diversos agentes não indígenas, protagonizando, ao mesmo tempo, um revigoramento constante de seus saberes e práticas. Os Sateré-Mawé parecem ter encontrado uma boa palavra para traduzir este processo: kunã. Kunã é uma semente que “enxerga tudo e é preparada para enxergar longe a atrair o que vê”. De certa forma, o que os projetos aqui apresentados revelam em suas entrelinhas é justamente esta estratégia como e de longo prazo que distintos povos indígenas situados no território brasileiro vêm colocando em prática há décadas: enxergando longe, inovando e garantindo que as novas gerações possam ‘viver bem’.

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"TODA DOENÇA É ESPIRITUAL" Entrevista com Sueli Maxakali

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ntre os anos de 2005 e 2009, durante o curso de Formação Intercultural para Educadores Indígenas/FIEI da UFMG, um grupo de professores maxakali produziu, como pesquisa e produto de seu percurso acadêmico, o livro Hitup’Mãax, “Curar”, chamado também de Livro de Saúde*. Esses professores e conhecedores foram Isael, Mamey, Pinheiro, Rafael, Totó e Sueli maxakali. Convidada a falar sobre saúde do ponto de vista maxakali, Sueli tomou como referência esse livro. Sueli fez questão de convidar os coautores do Livro de Saúde para participar da entrevista, além do pajé Mamey. O pajé não pode ficar porque estava fazendo um ritual. Isael e Pinheiro participaram todo o tempo da entrevista e suas contribuições estão presentes no texto. Essa postura em relação à entrevista revela um pouco de como eles perceberam o processo de produção de conhecimento vivenciado na formação

de que participam na UFMG, como um processo coletivo, com grande respeito pela contribuição de cada um. Sueli faz fotografias e Isael faz vídeos, alguns dos quais premiados em festivais em diversas partes do Brasil. Um desses vídeos é “O fim do resguardo”, feito após a publicação do Livro da Saúde. A entrevista foi conduzida por Mara Vanessa Dutra, com participação de Roberto Romero Jr. e realizada no dia 9 de abril de 2014, na Aldeia Verde, município de Ladainha MG. A liderança dessa aldeia é Noêmia Maxakali, mãe de Sueli. É uma aldeia nova, criada em 2007 após uma série de conflitos entre os Maxakali, que originalmente viviam em dois territórios: Água Boa, no município de Santa Helena de Minas, e Pradinho, no município de Bertópolis/MG. É uma aldeia com aproximadamente trinta famílias no núcleo principal, com dois subnúcleos, cada um de um grupo familiar.

*  A primeira parte do livro é chamada de “Espíritos” e uma nota introdutória explica: “Por que abrir este livro com “Espíritos”? Porque os espíritos vão ensinar. Porque aprendemos primeiro com os espíritos, aprendemos as estórias de nossos antepassados. Porque os espíritos acompanham, ajudam os homens. Porque todos os tipos de espírito dão forca para os Maxakali. Porque os espíritos são muito fortes, a gente não esquece. Porque aonde o Maxakali estiver, os espíritos estão junto, dentro do cabelo. O cabelo, para o Maxakali, é muito importante, porque é onde ficam todos os espíritos, yãmĩyxop. Porque na cura é importante ouvir os cantos dos espíritos. Porque o pajé é o «Pai dos Espíritos”. Porque os espíritos não diferem dos micróbios.” A segunda parte é formada por três colunas, ou “três livros” - a primeira, em língua maxakali; a do meio, com a tradução; e a terceira coluna formando uma espécie de índice remissivo de temas médicos, ou verbetes, que podem, facilitar seu uso pelos profissionais da área de saúde. Anamneses de adulto, de gestante/puerpério e pediátrica formam a terceira parte do livro. Ao final, encontra-se um glossário e um guia de pronúncia.

fiz a tradução para o português. O nome do livro, Hitup’Mãax, significa Curar. ISAEL MAXAKALI  Meu nome é Isael Maxakali, eu sou professor da Aldeia Verde, professor de letras e história também.

Sueli Maxakali / foto: Mara Vanessa Dutra

— MARA VANESSA  Para iniciar a entrevista vocês poderiam se apresentar? SUELI MAXACALI  Meu nome é Sueli Maxakali, sou professora da Aldeia Verde e vou falar sobre o Livro da Saúde. Tenho 34 anos, inteiro 35 no dia 30 de junho. Tenho um casal de filhos, mas ao todo tenho quatro, porque tenho dois adotados, peguei pequenininho: um de Topázio, um daqui mesmo, lá na casa do índio, que eu crio, (então) são quatro. Mas a gente tem netinho, que são quatro netinhos. Nasci em Água Boa, Santa Helena de Minas. Minha mãe é Maxakali e meu pai é Guarani Kaiowá, chama Luiz Barbosa. Participei do Livro da Saúde,

M  Gostaria de começar perguntando sobre a concepção de saúde e doença entre os Maxakali. Quando fala que uma pessoa está Hitup, o que significa? O que precisa para a pessoa estar hitup (alegre, curada)1, ba’í (boa)? S  Hitup significa que sarou. Ba’í é estar feliz, bom. Precisa fazer ritual pra estar bom e fazer também, como está no livro da saúde, remédio do mato. M  Se tem algum problema, como a pessoa fica? S  Pessoa fica triste, então tem que fazer ritual pra pessoa ficar ba’í.

1  Hitup ou Ũhitup – Saudável, sem doenças (glossário Maxakali). “Ûhitop é um conceito Maxakali que significa tanto alegria quanto saúde. Saúde no sentido psicológico e orgânico. Mas para a tristeza – ugig’onãg – e a doença – pakut – os Maxakali possuem dois termos diferentes. Embora os dois estados sejam concebidos como a consequência da separação. No caso da tristeza, como a separação causada pela morte ou pela separação dos parentes ou do casal. Assim também, a doença é concebida como uma outra forma de separação, como a separação da pessoa. A separação entre o corpo e a alma, na verdade, uma perda da alma. A morte seria então o abandono definitivo da alma. Mas para a alegria e a saúde há apenas uma única e mesma noção” (ALVARES, 2006).


M  Para vocês, Maxakali, de onde vem a doença? Como que pega? S  A doença vem do ar. Só que quando ela vem do ar, ela é tipo um espírito, espírito mau. Ela vem pra poder você lembrar que tem seu ritual, você não cuida do seu ritual. Aí vem esse espirito mau pra poder colocar você ficar doente pra você lembrar do ritual e fazer o ritual acontecer, pra poder ter esse movimento, coisa bonita, pra poder ritual ficar feliz. É isso.

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Capa do livro Hitupmã’ax - Curar

Da esquerda para a direita, Pinheiro, Sueli e Isael / foto: Mara Vanessa Dutra

M  Ela vem pelo ar e entra como, na pessoa? S  Ele entra dentro da pessoa e aí a pessoa à noite sonha. A pessoa sonha à noite e no outro dia ele fala assim: “eu sonhei com ritual”. Mas ele não espirra, ele esquece de espirrar, aí toma café. Café não é coisa de tihik (índio, parente). Ai ele toma café e esqueceu de espirrar. Fala assim: «atxim atxim”.... Aí ele esquece... Se espirrar, sai de dentro da memória o sonho, porque vem espirito mau, entra, e você comeu, aí você não lembrou, você tomou café de manhã e não espirrou. Depois você (diz): ‘ah, eu sonhei, eu esqueci de espirrar’. Mas já passou... Aí aquilo fica colado dentro da sua cabeça. Você não espirrou, você fica (com) aquilo. Daqui a pouco você adoece. Se a pessoa não adoecer, mas a criança pode adoecer, o esposo pode adoecer, também. Entra pela boca, o espírito ruim que vem pelo ar, e vai para a cabeça. M  E aí a pessoa sonha. Pode ter que tipo de sonho? S  Sonha comendo algum peixe, comendo.... (Por exemplo), eu vejo Pinheiro mais Marli trazendo peixe para mim, aí eu como... Mas não é Pinheiro, é espirito ruim que virou Pinheiro e trouxe pra mim a comida com peixe. Aí eu como e eu adoeço.

M  E se for tipo um acidente? Um corte, cair, machucar, como é? S  Vamos colocar assim, eu vou explicar essa situação bem assim: eu pensei em fazer um ritual, eu estava pensando em fazer mĩxux2, que é esse ritual aqui. Que hoje yãyã (velho, ancião, avô, pajé) Mamey, que é o pajé, falou assim: você esqueceu do ritual que você quer fazer? Eu falei: não, eu não esqueci não, eu precisava... eu estava na correria, eu ia pra faculdade, eu também tinha esperado uma pessoa meu amigo pra poder chegar pra isso acontecer, esse ritual. E eu não ia fazer só comida! Eu vou comprar melancia, vou comprar laranja, pra poder ter uma coisa diferente pro ritual. Nisso eu fui pra BH e acabou não acontecendo, aí meu kutok (criança) teve esse corte no pé, eu recebi a notícia ruim. Mas eu lembrei logo que foi isso que aconteceu. Você fica dentro do seu coração querendo fazer uma coisa, mas não acontece com você, acontece com um da família de você. E também bem lembrado que lá na casa da Kátia eu tinha sonhado. Quando pra eu receber essa notícia, eu sonhei com yãyã Badô (pajé já falecido), que chegou e tinha falado pra mim que ia acontecer o ritual, que estava querendo roupa do ritual pra poder levar pra barrar, aí eu vi o sonho. Quando eu fiquei sabendo, quando eu cheguei, kutok me falou que cortou o pé dele foi onde que era local da casa de yãyã Badô... Aí eu lembrei o sonho, eu falei assim: nossa, mas eu sonhei que tinha acontecido. Aí yãyã Mamaey chegou e me falou, meu corpo arrepiou quando ele falou isso, eu falei assim: não, mas eu não esqueci não, só não aconteceu porque eu ia viajar. Mas eu não esqueci. (Então) ele falou assim: mas foi por isso que aconteceu esse corte no pé de Tié, porque você demorou fazer.

M  A gente pode dizer que para Maxakali toda doença vem assim? S  Vem assim. Toda (doença) vem assim. 2  Folha, erva

M  Para Maxakali, se ele fica doente, primeiro ele sonha, não é? S  Sonha. M  E se não sonhar? S  Nunca aconteceu de não sonhar, não. Porque a pessoa, quando adoece, só faz ritual se ela sonhar. Mesmo que ele não sonhou, mas o ritual tem que acontecer para poder curar. (Pode ser) Um sonho antigo, que você já sonhou, antigo. Às vezes você sonha e fala assim: ah, já sonhei já tem tanto tempo, aquele sonho... Mas aquele sonho pode fazer você adoecer. M  Se for pra fazer tratamento fora, depois que volta torna a fazer ritual? S  É assim: ele faz ritual de cura, depois vai pra hospital, quando volta você está devendo pro ritual. Aí você tem que fazer algum ritual, espírito de morcego, algum ritual você vai escolher pra poder acontecer. Porque você está devendo. De qualquer jeito você vai ter que fazer algum ritual. Depois que a pessoa sarar. M  Você sabe que no mundo da saúde do não índio tem outro sistema. Ele pensa em vírus, que doença vem porque pegou infecção, tem bactéria, micróbio... não pensa da mesma forma que Maxakali. S  Nós já pensamos de outro jeito. É um espírito que vem. Porque gente que morre, nosso povo que morre, já de idade, yãyã que morre, a gente não considera que ele acabou. A gente considera que ele virou espírito, yãmîy3. Ele vai observando, vai observando. Aí aquele tihik que só recebe dinheiro

3  Yãmiy é o nome genérico dado a todo o conjunto de espíritos, incluindo entre eles os espíritos da natureza e a transformação do koxuk (alma, duplo) dos mortos Maxakali e é também o nome dado a esses últimos. (…) Todos os yãmiy que se referem aos humanos são transformações pós-morte do koxuk humano. Os Maxakali possuem também outras espécies de yãmiy relacionados à natureza, em especial aos animais”. (ALVARES, 2006)

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Isael Maxacali

e não pensa de ajudar yãmĩyxop4, não pensa de ajudar comunidade, aquele yãyã que já morreu fala assim: ‘você tem que fazer ritual!’ Você não vê falando, mas ele vai e faz você sonhar. Entra dentro da sua boca e fica dentro de você. Aí você adoece... você vai lembrar de fazer ritual. Que nem o que eu percebi: nós temos um yãyã que eu sabia que ia morrer. Aí ele falou, deixou bem claro na barraca de ritual, ele ficou uns quatro dias dentro da barraca direto, levou o colchão dele e ficou lá, fez a caminha dele e ficou lá. Quando ele estava entrando dentro da ambulância ele já falou assim pra Isael, ele falou bem claro: ‘eu confio muito em você, não deixa, não abandona o ritual. Você tem que ter o ritual, do mesmo jeito que você fez pra mim, o tempo todo que eu estou doente, você fez todo ritual pra mim, tem que acontecer direto, direto, direto, que se acontecer alguma coisa, eu não vou esquecer de vocês’. Ele falou, yãyã. M  Para vocês, Maxakali, existe doença de branco e doença de índio? S  Existe. Antigamente é muito difícil nós adoecer, mas hoje nós usamos açúcar, nós usamos café, nós usamos muita coisa que vem agrotóxico dentro desse tipo de coisa. Aí a gente acabando nosso espírito enfraquece, aí também tem tihik que dá depressão, doença que não é de tihik. Depressão, que antigamente não tinha... Minha avó morreu com cem anos. Ela morreu e ela me contava muita

fotos: Mara Vanessa Dutra

4  Ritual sagrado - xop tem o sentido de “grupo”, “plural” ou “reunião” (Glossário do livro Hitup’Mãax). “Yãmĩyxop é um termo genérico que designa um vasto panteão de espíritos - todo o além Maxakali. Xop significa ‘grupo’. Os yãmiy estão divididos em grandes grupos de yãmĩyxop parentes que, por sua vez, se subdividem em vários subgrupos de yãmiy irmãos. Cada um dos yãmĩyxop possui um nome próprio, assim como os sub-grupos de yãmiy. Estes grupos estão relacionados aos elementos da natureza como o sol, a lua, as estrelas, a cachoeira, o fogo, às espécies vegetais e animais - principalmente aos pássaros. São também constituídos pelas almas dos mortos Maxakali. Yãmĩyxop é também o termo específico que designa as almas de seus próprios mortos”. (ALVARES, 2006)

coisa que só comia... Eles comiam muito tartaruga, muito tartaruga, porque diz que tartaruga é muito ba’í pra você ficar forte, pra você aturar muito pra morrer, eles comiam. M  E qual é a comida tradicional de vocês? S  A nossa comida mesmo é banana da terra cozida sem estar madura, é mandioca, batata... Antigamente nossas mães, nossos pais, criavam nós, combatiam a desnutrição com água de batata. Hoje entrou iogurte, entrou pão, muita coisa pra dentro das aldeias. M  Mas doença de branco, que passou a ter por causa de alimentação e tudo, o ritual de vocês cura também essas doenças? S  Cura. M  Toda doença é espiritual? S  Sim, toda doença é espiritual. M  Não tem nenhuma que não é? S  Não tem nenhuma que não é. M  Pode ser acidente, depressão...? M  Às vezes a pessoa pensa assim: vou fazer um ritual. E depois ele esquece, esquece a cabana... Aí cabana adoece kutok, que nem aconteceu comigo, pode acontecer com qualquer um. Pra nós isso é normal de acontecer. Não só que você fala que vai fazer um ritual e depois esquece, mas pode que algum espírito entra e fica ali, você sonha... Tem tihik que fala assim: ‘ah, mas eu não estou doente, eu só sonhei, só’. E tomou café, esqueceu de espirrar... aí ele não adoece, mas pode passar pro kutok, o kutok pode adoecer. Às vezes ele toma café, porque Maxakali tem costume de tomar café e dar resto pra kutok. Tem costume disso, tomar café e depois dá pra kutok. Aí pode passar pra kutok. M  Pode ser também que a pessoa fique com depressão porque está com problema, por exemplo

problema de demarcação de terra, esse tipo de problema também dá depressão? S  Dá, dá. Não tem moradia boa, não tem aonde que fazer roça... Aí o jovem dá depressão. Já tive dois casos aqui que deu depressão. Mas é isso, não tem baixada, não tem lugar pra nós poder andar, só tem mata, muita mata que a gente está preservando, não pode desmatar, porque se desmatar pode dar erosão. Estamos preservando e não tem espaço pra tihik poder arar a terra, plantar coisa, (também não tem kuxex5) nas três aldeias, porque... Quando adoece uma pessoa, sonhar uma pessoa, vou dar um exemplo: sonhei uma pessoa lá em Pinheiro, aí demora falar com pajé. Porque pajé fala assim: ‘quando você sonhar, pega fogo, tição de fogo, levanta ou meia noite, ou dia amanhecendo, aí pega tição de fogo e vai pra barraca do ritual. Lá yãmiytxop assobia, assobia, aí vai cantar yãmiytxop pra você. Você não vai ficar doente”. Mas só tem um kuxex só, uma só. Aí quando lá em Pinheiro (um subnúcleo da aldeia) - estou dando um exemplo - adoece, demora a falar pro pajé, lá em Dona Delci (outro subnúcleo) demora a falar pro pajé, aí já a pessoa vai adoecer, porque demora a falar. E quando é dentro da aldeia, perto do kuxex, aí já vai logo, sonhou e pega vai logo acender fogueira lá no kuxex. Aí tem ritual, aconteceu ali, não pode demorar. Você só pega tição de fogo e vai, meia noite ou de madrugada, mas vai logo, fazer ritual. M  Aqui tem posto de saúde, pessoal vai pro hospital se precisa, bebe remédio de farmácia e faz cura do branco. Mas mesmo assim, se for pra lá e fizer essa cura, tem que fazer ritual?

5  “Casa de Religião” ou “Casa dos Homens”; moradia dos espíritos (yãmĩys) situada na aldeia no extremo oposto das casas. Local onde os espíritos se encontram para a realização dos rituais ( yãmĩyxop). (Glossário do livro Hitup’Mãax).

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S  Tem. Tem que fazer ritual6. É muito difícil de acontecer de ir primeiro tratar no hospital. Primeiro eles fazem ritual, primeiro. E eles (técnicos de saúde) têm que entender, esperar um pouco. E eles já entenderam. Quando a gente fala assim: ‘não, não é pra ir, é pra fazer ritual primeiro’, eles respeitam. Aí acontece ritual primeiro. Quando fala assim: ‘está ba’í, amanhã já pode levar pro hospital’, aí tem que levar pro hospital.

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Vista aérea da Aldeia Verde, Maxacali / foto: Roberto Romero

M  Para Maxakali, para ficar verdadeiramente curado, curado mesmo, totalmente, precisa do ritual? S  Precisa do ritual. Porque às vezes você está doente e sonha um monte de coisa. A pessoa que está doente só fica dormindo ali, vai pro hospital... sarou. Mas o corpo ainda tem espíritos que estão lá dentro. Enfraqueceu, o espirito está fraco, o que está bom dentro do corpo. Isso porque o espírito que entrou pela boca, no ar, está lá dentro também. A pessoa não sente vontade de comer, não sei se vocês já perceberam, quando a pessoa está doente não fica sem vontade de comer? O corpo todo dolorido... porque tem espírito ruim ali dentro7.

6  Antes porém, da realização destes rituais, os participantes reunidos na casa do doente discutem o diagnóstico da doença. Através de uma exegese dos cantos descritos pelo doente, decide-se qual seria o grupo de yãmĩyxop (ALVARES, 2006).

fotos: Mara Vanessa Dutra

7  A doença é sempre trazida pelo ‘outro’. São os mortos, desejosos do koxuk dos vivos, que vêm roubá-lo, levá-lo consigo para o além. A doença é a saudade daqueles que partem. O parente morto canta em sonho para o doente de frente para ele, portanto, ele saberá ensinar aos seus parentes e vizinhos este canto. Seus aliados deverão cantar o mesmo canto que causou a perda de seu koxuk para trazêlo de volta. Caso contrário, o canto ficará na cabeça do doente e este morrerá. É necessário, então, oferecer comida e cantar para o parente morto a fim de convencê-lo a ir-se embora e deixar o koxuk do doente. Quem levará embora este parente morto serão sempre os espíritos dos mortos. (ALVARES, 2006). A doença é sempre o resultado de uma invasão imprópria dos espíritos sobre o espaço humano, as casas domésticas, ao invés do kuxex ou ‘Casa dos Homens’, e uma conjunção indevida entre os espíritos e o koxuk de uma pessoa, que cantam individualmente para aqueles que dormem, ao invés de cantarem em grupo para os homens reunidos, como ocorre durante os rituais. (ALVARES, 2006).

M  Caso da depressão: quando a pessoa fica com depressão, o que tem que fazer para ajudar a pessoa? S  Tem que fazer muito ritual, trazer comida, cada casa trazer comida diferente. Cada um tem que fazer comida diferente, um traz de outra casa, dá a ela, traz diferente... Se um está fazendo mandioca, coloca na vasilha e leva pra ela. Se um está fazendo banana da terra, leva pouquinho pra ela. Conversar com ela: come, come... Até essa pessoa sarar. E fazer ritual. Nós temos que fazer ritual. “Fica boa, porque vai acontecer isso...” Ali, sempre quando a gente cura uma pessoa, a gente não deixa só para os pajés, as uhex também, quando é uma mulher, estão junto ali, as mulher ajunta, vai rindo, conversando, brincando, as mulher são assim. Quando é um Ũpit (macho, do sexo masculino), os homem junta ali, vai brincando, vai brincando, tihik fica mais animado, ai vai esquecendo daquela tristeza e você percebe que ele já está curado.

O PAJÉ, OS RITUAIS, OS ELEMENTOS DA CURA M  Tem remédio de planta também? S  Tem, tem remédio de planta. M  E quem dá os remédios? S  O pajé. M  Outras pessoas, você, por exemplo, conhece as plantas? S  Não, muito pouco, a gente conhece pouquinho, pouquinho. A gente não conhece, só pajé que conhece. Primeiro, pra ser pajé, você tem que saber o nome das madeiras, cantar as madeiras, todas madeiras! Saber contar as histórias e nessas histórias você saber também cantar, através dessa história. História por história. Você vai cantar pelos detalhes da história, pra você ser pajé.

I  E pajé não esquece pessoa curado. Quando termina o cura pessoa, aí tem que voltar amanhã pra ver pessoa, não esquece não. Igual o médico, né, retorna de novo, faz exame pra ver se tá ba’í, mesmo. M  Para a pessoa se tornar pajé bom, ele demora a aprender? I  Demora. S  Tem que aprender os cantos e as histórias através desses cantos, que todas as histórias têm canto. I  Yãyã Toto cura muita pessoa, já acabou, pessoa está morrendo, mas ele cura, cura mesmo. M  Pra ele ser pajé ele aprende com outro pajé mais velho? I  É. Aprende com outro mais velho. S  Ele fala. Yãyã Toto falou pra mim que ele hoje, todo yãmiy cura, mas dentro do povo dele veio a cura mais da família de yãyã, o pai dele ensinou ele como yãmiytxop abelha cura pessoa, cura mais pessoa, yãyã Toto falou isso pra mim. E cura pessoa com depressão, yãyã. Pessoa que pensa está doente, está fraquinho, não come direito, aí abelha vem, chupa sangue, vomita, aí cura. I  É yãmiytxop, quando pessoa está muito ruim, abelha de cada espécie. Yãmiy chupa sangue de pessoa, aí tem que queimar cera de abelha, vai sair fumaça de cera pra curar aquela pessoa doente. M  Então para a cura tem que ter o remédio de planta, o canto do ritual e pode também ter o tratamento do hospital, do posto, tudo junto? Não atrapalha um ao outro não? S  Atrapalha não. M  O ritual que eu vi ontem, vi que usa aquele cigarro comprido e canto, cantos diferentes. Vi que tinha

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pajé mais velho, tinha o outro pajé Mamey e dois pajés mais novos, que parece que estão aprendendo. Vi também que as mulheres trazem comida, que tem muita comida pra todo mundo e tem comida separada que fica no pratinho, em um lugar separado. S  Não sei qual é seu yãmiy, mas acho que a dificuldade que Maxakali não foi ser evangelizado é através disso. Porque tinha entrado pastor, veio Popovich, ficou dentro da reserva indígena, o que segurou tudo isso foi que não tinha como eles virar, ser evangelizado, por quê? Porque se eles passassem pra evangelizado, eles realmente não iam ter como ter cura mais. Eles iam perder o costume, a tradição... Não ia ter mais cura. Porque antigamente eles plantavam todo tabaco, plantava bastante... Yãmiytxop plantou. Aí morreu uma uhex (mulher) e o marido, eles enterraram lá, e saiu, deixou tabaco. A cobra primeiro mordeu o marido, aí uhex falou: ‘eu vou colocar meu pé porque eu tenho que ficar junto com ele’, foi uhex que falou, aí soltou o pé pra cobra, a cobra picou, morreu os dois. Enterraram dentro da casa deles e saiu, todo mundo foi fazer outra aldeia. Aí o irmão dela sonhou e depois foi lá pegar a folha de tabaco porque estava sem tabaco, a folha do fumo. Ainda tem uns pés ali, a gente está pensando em fazer um canteiro pra plantar só tabaco pra nós ter. Aí ele foi buscar e depois a irmã tinha virado Ĩnmõxã8... Quando ele veio, estava ela sentada lá mais o marido, já saído do chão, virou Ĩnmõxã. Aí correu atrás do irmão, queria matar, falou assim: ‘ô irmão o que você veio fazer?’ Ele falou: ‘vim pegar só tabaco’, contou mentira pra ela e conversou com tabaco assim: ‘Quando eu estou indo, você vai balançando, vai balançando, pra ele poder perceber’. Marcou os pés assim de um e de outro e falou: ‘quando eu estou correndo - eu estou resumindo - você vai balançando, vai balançando, vai balançando, pra Ĩnmõxã perceber

8  Espírito canibal, geralmente metamorfoseado em onça, jaguar. (Glossário livro HitupMãax)

que eu estou lá. E eu tô correndo’. Ele foi correndo e os fumos foi balançando, balançando, pra atrair Ĩnmõxã. Depois o passarinho cantou, cantou, gritou... Ele estava embrulhado em couro de veado, levantou, tirou couro e falou assim: vou esperar, meu kutok está sofrendo, vou esperar. Virou beija-flor, foi lá e esperou. E assim ele flechou Ĩnmõxã, e flechou o outro, depois ele virou formiga, vários bichinhos pequenininhos, foram picando, aí ele voltou. Soprou no ouvido, no último mesmo, levantou. Disso ficou essa história do tabaco, né. Cura. M  Ontem eu vi que tinha o tabaco, tinha os cantos e tinha a comida, você pode explicar um pouco? S  A comida: vem várias comidas de várias casa. Primeiro eu vou contar da panela grande. Na panela vem o arroz – que não é comida de tihik; aí vem a carne e depois a banana da terra, que é comida dos yãyã também. É muito variado de acontecer isso, mas geralmente tem que cozinhar alguma mandioca, alguma coisa. Quando não tem, cozinha só arroz só. Você viu, tinha panela com banana da terra, tinha carne, tinha arroz. Aí eles comem, yamitxop come, e fala assim, junto, que yãyã está comendo ali e yamitxop está no meio, comendo também. A coisa muito importante que vou falar pra todo mundo ouvir, todo yãyã, pajé, ele come muito, muito. Ele come dois pratos de comida cheio. Você fica besta, fala assim: ‘nossa, eu não aguento comer’. Por quê? Porque ele come, mas não é só ele que come. Durante que ele está comendo, os espíritos que estão dentro dele comem mais ele. Todo prato ele divide com yãmiytxop. Ele come dois pratos, mas primeiro, o que serve é pra aquele doente, pra depois yãyã comer, e depois divide pra outras pessoas, mas primeiro é pra aquele doente. Aí yãyã fala assim: ‘nós comeu, agora vamos embora, vamos embora. Isso que vocês queria? Nós comeu, tá tudo OK, vai ficar ba’í, a gente quer que fica bem, nós queremos aumentar. Nós não queremos que vocês atrapalha nós, nós queremos coisa boa, queremos ficar feliz, forte, que nós também somos forte. Yamitxop são

forte e nós queremos tirar coisa ruim de dentro dessa pessoa›. Aí aquelas comida pequena que eu trago, outro tihik traz, é pra yãmiyhex (espírito-mulher), yãmiyhex que é aqueles que cantam, yãmiyhex canta, vai cantando, depois que uhex sai tudo, aí não fica nem uma uhex. Aí canta yãmiyhex, canta yãmiyhex, e aquelas comidas ficam ali, não pode mexer. Só yãmiyhex que pode comer. Depois, quando uhex sai tudo, yãmiyhex come, yãmiyhex chega alguns e come. E o que sobra, vai sobrar muito ainda, alguns vai pegar alguns, mas não pega um pouco não, só um. Ai junta e coloca para aquele doente. Aquele doente vai escolher de novo alguma coisa que o estômago quer aquilo. Aí pega e o resto vai pra kuxex, aquele resto de comida vai pra kuxex, os pratos. Aí encerra e vai acontecer outro ritual, canto lá na kuxex, e termina. Mas dessa vez foi até o dia amanhecer porque estava planejando pra fazer outro ritual, assim que acontecer ritual ia acontecer outro de novo. Foi assim.

A MORTE E SEUS RITUAIS M  Voltando ao sonho: você pode sonhar com parente que morreu. Sonha com yãyã que morreu, com pai, com irmão que morreu... Ele vai te oferecer alguma coisa pra comer e você não pode aceitar, mas se você aceita você vai acordar doente, é isso? S  Também às vezes você espirra, mas não serve. Porque você comeu aquela comida, entrou... Já tá dentro. E não é porque você sonhou, o espirito já tinha entrado dentro de você. De dia, na tarde... aí à noite você sonha, você aceita comida dele. Ele já está pensando de te dar essa doença. ROBERTO  Isso é porque eles também ficam com saudade? S  É, ficam com saudade da pessoa e a pessoa... Vou dar um exemplo: Isael fica só recebendo dinheiro e não faz ritual. Come direto, faz coisa extravagância,

mas não lembra que tem nosso kitok, uhex, yãmiy, aí yãyã que já morreu fica Ũgãy (bravo, raivoso, feroz). Você tem que tratar de seu kutok que tá no kuxex. Ele faz isso pra você poder cuidar. Muitas vezes, quando a gente pede pra yãyã, fala baixinho: yãyã, estou precisando o yãmiyhex. Preciso yãmiyhex que meu kutok está sem yãmiyhex. Aí primeira coisa que yãyã fala é: pode trazer o yamiyhex, mas não é pra você esquecer, não é pra você abandonar. Yãyã deixa bem claro: se você abandonar, não é ba’í. Você vai ficar com vergonha de pedir yãyã de novo. R  E quando você sonha com yãyã, ele está junto com yãmiytxop? É como se você estivesse indo na aldeia deles e participando de yãmiytxop? S  É que nem Isael teve um sonho, que passou em cima da madeira e a madeira balançando. Aí ele chegou noutro lugar. Aí viu yãyã Otávio, viu yãyã meu tio, viu yãyã Badô... viu um monte de pessoa, viu minha avó, viu monte de gente, tudo aldeia, casa tudo verdinho, mas estava perto de morrer yãyã Badô. Por isso que ele sonhou. I  Aldeia nova, limpa, tem riacho, tem cachoeira, ba’í demais. Eu vi. Todo yãmiytxop que morre, aí tem yãmiy cantando... Yãyã trouxe peixe enrolado em folha de bananeira, banana também, aí fez prato pra mim, mas eu não quis comer, falei: não, não vou comer. Tinha duas uhex, ficaram com vergonha, perto de mim, só faz assim no buraco de madeira da casa. Depois vai de novo duas uhex e faz assim. Esconde. Aí eu fiquei muito saudade de aldeia daqui, eu fiquei querendo voltar. O yãyã não quis deixar eu voltar. Mas outro falou pra mim: ‹ô Isael, você vem por aqui, é mais longe, por aqui, mas se você quiser ir embora eu vou levar você até no alto›. Meu tio falou comigo: ‹se você quiser ir embora eu vou levar, corta aqui, é pertinho, aí você chega rápido na aldeia›. Aí eu falei: então vamos. Nós fomos pro mato, pegou o morro, igual esse morro que está aqui assim, eu já cheguei no alto e olhando tinha aldeia, aldeia daqui, aldeia normal, aí eu fiquei

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muito hitup, alegre. “Ô, tô chegando, é pertinho... depois eu volto de novo...” Aí fui andando, fui andando... escorreguei, caí e meu tio: ‹ô, levanta aí›. Levantei. Aí tinha uma água, o rio, eu queria atravessar, pisei água e acordei. Não tem mais aldeia, vi só escuro. Fiquei com medo à noite. Acordei fiquei triste, mas eu fiz assim pra não esquecer amanhã. Aí você conta tudo direitinho, igual, não perde nenhum. M  E você também espirrou? I  Espirrei, fiz assim, eu falei: eu não quero assim, eu não quero ir para a outra aldeia. R  Você falou que yãyã Badô estava lá, mas ele ainda não tinha morrido, ele estava morrendo, então ele já estava lá visitando outra aldeia. Quando a pessoa tá doente quase morrendo ela fica lá e cá, fica muito tempo lá? I  Eu acho que pessoa que queria morrer tá fraquinho, aí já tá lá, vai lá e volta. S  Mas ele não estava doente ainda não. Ele aconteceu espírito. Nesse tempo que Isael sonhou, a gente escolheu de fazer um video. Aí yãmiy veio. Filme que Isael fez, “Quando os yãmiy vêm dançar conosco». Isael sonhou antes disso acontecer, já estava planejando. I  quando uma pessoa de lá dá alguma coisa para você comer, você não pode comer. Se comer, vai adoecer ou fica lá direto. Você fica lá e o seu corpo vai ficar morto. R  Tem aldeia de lá do hãnnoy9 que é ba’í, tem parente, você sente saudade. Mas tem também aldeia que não é ba’í? I  Tem. Eu acho que tem outra aldeia, mas eu nunca vi, só ouvi falar. Essa que eu fui, aldeia ba’í.

9  A outra terra, o além.

S  Quando você vai e vê só um kuxex, yãmiy te viu, acendeu a luz, yãmiyhex acendeu a luz, não é ba’í, você vai adoecer. I  Esse sonho foi muito ba’í, a aldeia. Parece vivo mesmo. Eu estava triste porque eu vi só todo tio que morreu. R  E quando a pessoa morre, quem que vai levar ela pra lá, ela sabe chegar lá sozinha? I  É o ritual, espírito vai levando ele. Aí volta, fica aqui, porque tem espirito bom, acompanha ele. Quando pessoa morre e vai enterrar o corpo, o espirito vai sair. E à noite vai gritando, vai cantando aqui, vai chorando, vai cantando do yãmiy dele, aquele que ele gosta quando toma cachaça, aí vai cantando direto. Aí vai acontecer. Assim que enterrar o corpo, essa música, vai rodando, cantando, chorando, e aí o nosso parente tem que ajuntar, escolher alguma casa para ajuntar e ficar dentro preso, coloca porta forte, criança vai entrar tudo à noite, respeitar o espirito dele. Vai rodar dentro da aldeia, vai passar no kuxex, vai chorar no kuxex, ou vai cantar com ritual, é assim que acontece, nós respeita muito tihik. E antigamente queima barraca, hoje não, só desmancha. Queima tudo o que tiver de trabalho dele, livro, sapato, roupa... R  E não enterra nenhum objeto com ele? I  Não, só queima tudo mesmo. R  Mas não queima mais a casa que ele morava, que antigamente queimava? I  Só desmancha. Faz mudança. Não fica no mesmo lugar. R  Se for homem, a mulher dele e o kitok vai pra onde? I  Vai pra o parente, o pai, ou irmão, aí vai morar junto. Kitok vai ficar quietinho, as mães não deixa gritar... está com muita saudade. Pequeninho, não sei, não ensina criança, mas o coração já sabe, fica

quietinho à noite, não chora, a mãe fica triste... Aí de manhã cedo a mãe vai chorar, cinco hora, vai começar chorar e à tardinha também. Começa a chorar de tardinha. Se tiver a roça dele, se tiver mandioca, vai mandar pessoa arrancar tudo pra distribuir pro povo todo comer. Se tiver animal, gado, ele vai matar um pra todo mundo pegar. Se tiver coisa boa, coisa cara, televisão, geladeira – antigamente não tinha, tem hoje, aí não aconteceu – vai escolher quatro pessoas pra enterrar e depois se quiser vai deixar alguma coisa cara e vai distribuir para pessoa que enterrou ele.

O LIVRO HITUPMÃ'AX - CURAR M  Por que vocês fizeram o livro Curar? S  Quando entramos na faculdade, Israel, Pinheiro, a gente estava enfrentando uma dificuldade maior com nossos técnicos (de saúde), o pessoal que a gente estava enfrentando quando levava nossas mulheres pra ganhar neném, um monte de coisa. Doente também, as pessoas de idade... Eles não sabiam pronunciar direito, não sabiam, não entendiam. Nós pensamos: vamos criar uma coisa pro geral, pra todos Maxakali. Quando a gente faz um livro, a gente pensa no povo todo, todos Maxakali, a gente não pensa só num grupo, a gente pensa no todo. Porque não foi só livro da saúde, a gente fez vários livros também, mas a gente pensou em todos, o que isso vai trazer no futuro para nós. A gente escolheu um livro porque quando a gente levava mulher, levava yãyã, yãyã chegava lá e falava na língua, porque não sabia falar português: ‘eu estou sentindo uma dor aqui, dor de cabeça’. O médico lá, o pessoal de saúde, não sabia pronunciar direito. Quando saiu esse livro, eles vão estar lendo esse livro, o médico que trabalha conosco no município vai ler, pra estar aprendendo as coisas, como que pronuncia, como que é, como que é conversar com uhex, como que é

a menstruação, se está vindo certinho, como que é, tudo, né... Então a gente pediu um médico pra vir ajudar a gente nessa parte, o médico veio e ajudou nós, o médico é de São Paulo. Fizemos esse livro pensando em todos. E ele já criou filhotinho desse tamanhozinho, a cartilha. A gente pegou a mulher que já estava querendo ganhar neném e fizemos várias fotos com a linha de embaúba que amarra o umbigo, pra gente poder dar oficina. E a gente deu prova também pra eles: se a mesma colher que todos os técnicos - os três prefeitos participaram também, de maxakalis, Santa Helena e de Bertópolis - se a mesma colher que servia a comida para as pessoas, a mulher que está lá, que ganhou neném, se a mesma colher serve a comida pra ela. A gente deu essa prova pra eles. A gente deu esse concurso pra eles e foi tudo ok, agora eles já sabe falar um pouquinho... M  Eles aprenderam que a colher não pode ser a mesma. Por que não pode? S  Porque a colher às vezes você soca na carne e vai e soca no arroz, você não percebe que mexeu na carne a vai mexer no arroz. Aí por isso que.... quando nós temos doente, paciente, que ganhou neném, e vai servir comida, primeiro serve pra ela. Também os doentes. A gente pega uma colher limpa, pega o arroz, pega outra coisa, verdura, e a carne não mexe, deixa lá. Aí depois que servir pra eles é que vai servir pra outras pessoas. M  Quando foi pra fazer o livro, o que foi mais difícil? S  A parte mais difícil que a gente achou era assim a dificuldade da gente sair, ir, ficar uns tempos fora da aldeia... foi isso. (Mas) esse livro da saúde não está parado, ele já criou os filhotinhos, que já deu vários trabalhos, ajudou nós bastante na saúde, plantou um monte de filhotinho, que nem a madeira, transformou em vários filhotinhos nascentes também. O livro da saúde não está parado, está tendo movimento ainda. A licenciatura indígena (da UFMG) que deu esse avanço, deu maior apoio pra nós. A gente está gostando muito,

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registra nosso conhecimento, a gente queria que entrasse mais novas turmas, ainda estamos nessa luta, entrar mais novas turmas pra fazer mais pensamento, fazer mais para os povos indígenas. A gente quer que o livro da saúde vá para outros povos, pensar nesse livro e falar assim: vamos fazer do jeito. Ter mais por perto o conhecimento, deixar pra nossos mais jovens. Uma vez vou ficar mais velho, morrer, daqui um tempo, mas a gente sabe que vai deixar coisa bonita no museu, coisa bonita na faculdade, para as crianças do futuro. M  Esse livro ajudou o pessoal da saúde a respeitar o pensamento maxakali, o conhecimento maxakali? S  Ajudou bastante ter pensamento. Já teve um pajé que adoeceu, aí pessoal da Sesai mandou me chamar pra ir porque ele não estava aceitando a sonda, porque a família dele é lá do Pradinho, é muito longe de Teófilo Otoni, nós estamos pertinho. Como eu estava próximo, e também porque era uma pessoa desse livro da saúde, a chefa na época me chamou. Me chamaram pra mim falar, pra traduzir pra ele aceitar a sonda, uma bolsa tipo um leite assim, pra aceitar porque a perna dele estava toda machucada, a carne estava toda preta, estava todo inchado desse tamanho a perna dele. Aí eu fui, conversei com ele, ele não estava aceitando, ele falou: ‘que bom que você veio, que você está explicando pra mim. Tem que ter uma pessoa assim do meu lado, explicar pra mim poder aceitar, eu não posso aceitar uma coisa sem saber! Tenho que entender, a pessoa tem que me falar na língua pra mim poder entender. Acho que foi Deus que colocou você vim aqui explicar pra mim’. Eu falei: ‘pois você vai ficar bom, você vai sempre lembrar de mim, você pensa que você vai morrer? Você não vai morrer. Você vai ainda pra sua aldeia, você vai fazer seu ritual, você sempre há de me lembrar e pensar assim, ela falou coisa certa, eu não morri. Eu quero deixar essa confiança pra você, você pode confiar em mim’. Mas primeiro eu perguntei à chefa assim: ‘eu posso falar isso pra ele? Vocês têm certeza que ele vai ser curado, vai sarar, pra ele poder ir lá fazer o ritual dele também?’

A chefa falou assim: ‘vai ser, ele vai sarar, você pode falar pra ele, ele aceitando a sonda com três semana ele vai ficar bem, vai para a casa do índio, lá ele fica totalmente ba’í e vai poder voltar pra aldeia pra poder fazer o ritual dele’. Aí eu expliquei pra ele, os médicos também me falaram, me mostraram todo o prontuário dele, aí eu expliquei pra ele. Ele aceitou a sonda e com três semanas eu fui de novo visitar ele lá. Quando eu cheguei lá, ele já estava ba’í, não estava mais com sonda. Ele sentou, conversou comigo, pediu pra cantar o ritual... Hoje ele está lá, ele é um grande pajé. M  É que aceitar sonda é muito difícil mesmo, aceitar uma coisa que entra no seu corpo, você não sabe o que é que vai entrar. S  Era para alimentação, parece que ele precisava colocar essa sonda pra ele tomar os antibióticos, era tipo um leite que ele precisava receber, pra beber, pra preparar para tomar antibiótico forte, que era forte, pra poder matar bactéria, como você falou. Isso que Ãyuhukãyuhuk enfermeiro pensa bactéria, nós falamos espirito ruim. M  Pode ser que tenha espírito nessa forma, de bactéria, micróbio, espírito que entra na pessoa, entra no sangue? S  Pode ser. Pode virar uma mosca, espírito ruim vira mosca e vem picar... I  Nesse livro que nós fizemos na faculdade nós fizemos reunião, escolheu para publicar, tem que ter nosso livro pra equipe da saúde aprender como trabalhar com indígena, que é diferente a nossa saúde. E o nosso costume é diferente, está vivo, ainda. Nós estamos continuando, nós temos plantas medicinais, pajé já conhece muito planta também, se pessoa adoecer pajé vai no mato, procura a planta e vai trazendo e vai fazendo cura de pessoa que está doente. E não é fácil também o livro que nós fizemos, muito trabalho, viagem, nós fomos para a Serra do Cipó, para Tiradentes, foi vários lugar fazer oficina.

Assim que saiu o livro, nós fizemos a oficina lá em Maxacalis, tem 80 pessoas que participaram, indígena e não indígena também. Aí nós fizemos muito teatro também, teatro imitando o técnico da enfermagem, carro, médico, kitok, imitando engravidar e medico está acompanhando direto. Nós ensaiamos aqui primeiro na aldeia, com Dr. Roberto Carlos, pajé também, Noêmia (cacique da aldeia) também, imitando a ser ganhando kitok. Ensaiamos vários esse tipo de imitando fim de resguardo. Nós treinamos aqui, depois fomos pra Maxacalis dar oficina lá. Teve muita gente que participou, médico, prefeito, o chefe do pólo também, o chefe do posto da Funai, e aí foi esse livro ajudando bastante, melhorou a nossa saúde e está continuando, não pode parar. Nós estamos querendo fazer a oficina em Ladainha, mas não tem pessoa que vai organizar pra nós, porque o Dr. Roberto Carlos saiu e ele ajudou bastante nossa saúde. Mas hoje nós não tem pessoa pra dar força pra nós. Eu queria fazer a oficina em Ladainha porque aconteceu em Maxacalis, nós conversamos com Dr. Roberto Carlos para acontecer aqui em Ladainha, mas não foi, e isso nós estamos querendo fazer aqui para equipe de saúde e hospitais também. Para aprender como trabalhar com indígena, que nossa saúde é diferente, sobre resguardo, comida, que é diferente. M  E as pessoas na oficina em Maxacalis aprenderam? S  Aprenderam. M  Quando a pessoa está ba’í, está alegre; se fica muito triste, não está ba’í. O jeito de pensar doença e saúde é muito diferente do Maxakali e do não índio. Já houve dificuldade ou conflito com o pessoal da saúde por não entender o jeito maxakali de pensar na saúde e na doença? S  Já. Acontecia. «Ah, nós vamos levar, quando voltar vocês fazem o ritual». Acontece isso também. ‹Só quando trazer vocês podem fazer ritual›. Chega lá, fica internado e fica demorando fazer ritual. As vezes

também o médico não entende que tem que fazer um canto lá dentro, pode fazer barulho lá dentro, é isso que acontece a dificuldade pra nós. Porque os motoristas, enfermeiros, dizem assim: ‹ah, quando trazer vocês pode fazer ritual›. Leva primeiro pro hospital... Aí não é suficiente, pra nós. Acontece, já aconteceu. Mas não acontece aqui na Aldeia Verde porque aqui nós bate o pé e fala: não, vai ser dessa forma. Mas nas outras aldeias, eu não sei. Aqui já aconteceu de isso acontecer, mas a gente disse: aqui vai ser assim, vocês podem esperar e levar depois, vai ter primeiro ritual. E tem respeito. M  Os técnicos de saúde entenderam isso? S  Entenderam. Os daqui e de outros lugares da TI entenderam. Só que o nosso problema, o maior que a gente enfrenta, é a chefia. Porque entra chefia sem estudar o livro da saúde, escolhe as pessoas os politicos, quer escolher as pessoas realmente do jeito que eles pensam. Não é falar assim, pensa só neles, não quer pensar no povo indígena Maxakali, aí fala assim: vamos escolher essa pessoa. Mas não serve pra trabalhar com os povos Maxakali. M  Muda de chefia e o chefe novo não entende... S  Aí prejudica nós.

RESGUARDO E CUIDADOS COM AS CRIANÇAS M  Agora, gostaria de falar um pouco sobre as práticas de resguardo. A pessoa quando está de neném novo está de resguardo? É a mulher e o pai do neném? S  É os dois. M  Quanto tempo fica de resguardo? S  Um mês. M  E não pode o quê? S  Não pode comer carne.

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M  Esse que é o resguardo, não pode comer carne? S  Só pode comer peixe, galinha, ovo... Pinheiro fez desenho (no livro), está mostrando. M  Se comer carne, o que acontece? S  Pode ficar putox kumuk (louco), não pensa direito, não decora as coisas, faz coisa errada, qualquer coisa você altera, quer brigar, quer morrer... A cabeça não fica girando ba’í não. M  É por que não respeitou o resguardo? S  É. Aí fala assim: ‘eu estou doente, eu estou doente...’ Mas é, não respeitou o resguardo. M  Quando acontece isso, pode curar a pessoa? S  Pode. Tem ritual que cura isso: mixui, folha, mas o espírito é lagarta. M  Quando pessoa maxakali, mulher que teve neném, pessoa mais velha que vai pro hospital, qual a dificuldade que a pessoa sente? É comida, tem mais alguma coisa? S  Tem. É … Quando leva nós... Nós não se coça com a mão. Quando a gente ganha criança no hospital, a dificuldade que passa é que não fala o português. Aí as menina que vai elas sofre muito porque elas não tem como falar assim: ‘ah, eu quero um pau pra mim se coçar’. Porque nós não se coça com a mão. O nosso mais velho pajé fala assim: se coçar com a mão, se você pegar assim coçar a cabeça com a mão, seu cabelo pode estragar. E se fizer uma ferida no seu corpo, ele não sara também. Porque sua unha está doente também, a unha está doente, não pode se coçar, não pode beber água fria, nem água quente, cozinhada... aí deixa lá pra esfriar, cozinha, deixa lá pra esfriar pra você ir tomando. Aí você chega lá (na beira do rio), quando termina o resguardo, você deixa o seu vestido cá embaixo e você vai, primeiro você mastiga jaborandi e cavaca a areia pra vazar água. Aí a água vaza, sai aquela minação, aí você pega um bambu, uma taquara assim pequenininha

assim tipo não tem quando você pega um suco, eles não colocam um canudo? Tipo aquele canudo. Aí você puxa a água, você tem que puxar água. A gente tirou várias fotos. Aí você puxa depois sopra pra onde o sol sai. Você fala com o sol. Conversa com o sol: sol, pega toda minha doença e tira essa cabeça fraca da minha cabeça, problema, coisa boa pra mim, pede coisa boa pro sol. Aí você chupa de novo água e sopra para aquele lado e fala assim: lugar que você vai entrar você leva toda minha doença, toda coisa ruim, todo espiritual, todo espirito mau que vai acontecer - no seu futuro, você vai pedindo as coisa pro futuro. Aí você conversa com o sol, que ele vai entrar, vai pôr, lugar que ele vai pôr. M  Isso é o fim do resguardo? S  Depois você vai lá, entra na água e vai mergulhando, mergulhando, sem sair da água, sem sair até local onde tem seu vestido, aí você sai. M  Quando acaba resguardo pode voltar ao normal, coçar o corpo, comer carne, a cabeça fica boa? S  Cabeça tá boa. Aí já comeu jaborandi, a saliva desce muito, desce aquela saliva que está dentro da sua cabeça. Porque quando a gente está com resguardo a gente fala, nosso mais velho fala que tem saliva dentro da cabeça, muita saliva porque não come carne, aí cabeça tá fraca, né. Mastiga jaborandi aí vai caindo a saliva. Aí a cabeça fica muito ba’í pra gravar as coisas. E também com resguardo a gente faz um monte de coisa: aprender os cantos de ritual com resguardo, correr bastante na ladeira sem respirar é muito ba’í, você flechar a folha quando a folha está tendo aqueles negócio de aranha e fica balançando, se você furar ela com flecha de longe, você sempre vai ser... é muito ba’í pra aquela pessoa. É muita coisa no resguardo, faz muita coisa. M  E as mulheres, preferem ter neném no hospital ou na aldeia? S  Alguns, né. Alguns não gosta de ir pro hospital

é por causa disso, porque teve uma vez uma índia que ganhou neném, foi em Governador Valadares ganhar um kitok lá no hospital regional. Essa índia foi chorando, foi chorando, o médico ligou pra Cintia (uma pessoa que estava trabalhando com os Maxakali) e falou: Cíntia, essa índia está chorando demais, a gente não sabe por que essa índia está chorando. Porque a índia está boa, ela já ganhou neném desde ontem e está chorando, a gente não entende por que ela está chorando. Aí a Cintia foi lá, ela conversou na língua – porque ela entende um pouco a língua maxakali – e falou que ela estava precisando de um pau pra ela se coçar e não tinha um pau pra ela se coçar. Aí a Cintia foi e comprou um pente daqueles de cabinho comprido assim e deu a ela. Ficou suficiente, né. Parou de chorar. (Então) quando a gente entrou, já planejou pra fazer esse livro que ia servir pra todas uhex, não só uhex mas upit (menino) também. M  Nasce a criança. O cuidado da criança pequena é com a mãe, não é? E quando criança cresce um pouquinho, começa a andar, ela fica livre? S  É. Quando está desse tamanho a criança, de dois anos e dois meses, a gente deixa eles livres, deixa eles livres. Eles podem pegar... quando aquele netinho meu está assim, ele pega facão, ele pega faca, ele faz o que ele bem pensar. Só que a gente não fica assim: ah, não pode, não pode pegar facão. Porque eles ficam livres, faz o que eles bem pensar. Comem na hora que eles quiser. A gente não obriga eles. Mas a aula... eles não perde a aula também. Eles têm o horário deles, quando eles veem que tem aquele horário, eles já pegam o caminho deles e vão pra escola. Mas chegou lá na aldeia, já faz o que eles pensa, tá livre. A gente vê assim na cidade as mães falam: ah, não pode ficar com faca, não pode pegar facão... Mas nós não, nos não importa de criança machucar, a gente tem que acostumar com isso, isso pra nós é normal. Que nem minha netinha machucou o dedinho, um corte bem pequenininho, a gente já ensina: esse aqui você não pode cortar a

mão, só pode cortar a madeira. Aí a gente ensina eles fazer. M  Eles comem bem, tranquilos, ou dão trabalho pra comer? S  Eles comem tranquilos, não dá trabalho. A gente não coloca na boca. A gente dá o prato, eles sentam lá, eles passam na cara, comem, mas eles são assim, a gente dá o prato, mas eles faz o que eles bem pensar. M  Muito diferente o jeito de cuidar das crianças da cidade. S  Eu vejo assim: o pessoal de cidade, a gente vê kutok que não come, que chora... mas o que eu acho é que eles não têm o espaço. Tem vez que eu fico com dó de kutok da cidade, porque kutok tem que estar livre! Porque senão ele não desgasta aquela comida. Se ele come alguma coisa de manhã, aquilo ali fica dentro da barriga dele, não desgasta, porque não sai, não caça, não corre, não vai fazer alguma atividade... não vai jogar uma bola ali... kutok nosso é direto jogando bola, fazendo alguma coisa, correndo ali, correndo atrás dum cachorro... aí desgasta, né. Fazendo ritual, eles estão junto do ritual, aí desgasta e na mesma hora eles estão com fome. Aí come. Tem alguma uhex que não entende, ela fala assim: por que será que eles comem muito, a gente vê os ãyuhuk (não índio, branco) comem pouco. Mas eu falo: vocês não percebem, porque eles comem, eles fazem, busca uma lenha, busca uma rã, e chega cansado, caça... aí desgasta! Tem ãyuhuk que come e fica ali no computador, quietinho, não anda... aí não sente vontade de comer, não desgasta. M  Criança depois que cresce um pouquinho, a mãe fica carregando? S  Não. Fica não. Que nem minha filha está lá na casa dela e minha netinha está lá na minha casa. Eu que fico observando. Uhex fica ouvindo se está chorando. Se está chorando, aí vai lá correndo pra ver o que que aconteceu. Mas deixa livre, deixa livre.

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M  Bem diferente. Vi ontem à noite criança pequena, pequena mesmo, tomar banho sozinho, banho frio, fazer tudo sozinho. S  A gente tenta explicar pra eles uma coisa que não pode fazer dentro da nossa cultura. Que nem meu netinho lá na barraca que a gente levou panela, ele foi, pegou comida, comeu e falou assim: ‘ó mãe, à noite eu vou comer mais comida do ritual’. Aí à noite ele já não pode comer aquela comida. Porque como ele é primo daquele kitok que está doente, ele não pode comer, porque se ele comer aquela doença pode passar pra ele. Aí Zezão (o pai da criança) não quis levar, ele ficou chorando e eu falei: vamos lá. Pra ele não ficar muito triste, não adoecer, eu fui lá, peguei uma banana e dividi, dei pra ele. Ele comeu. Eu conversei com a banana, conversei com yãmiyhex: ‘nós vamos comer e você tira toda doença que está dentro do kitok’. Conversei, tem que conversar. Então duas yãmiy, quando vai acontecer, quando joga biscoito – geralmente hoje é biscoito, antigamente era um beijuzinho desse tamanhozinho – joga assim, aí tihik pega. Só que não pode comer logo não. Quando você pega, você faz assim (faz um gesto), depois você come.

SAÚDE E TERRITÓRIO M  Tem ritual que ajuda não só a pessoa, mas o lugar? Ritual para melhorar a terra também? S  Deixa eu explicar: tem ritual que faz tihik lembrar, fala com tihik que esse território tihik lembra que foi território - Vale do Mucuri aqui - que foi região dos povos maxakali. Esse Vale do Mucuri aqui, lugar chamado Poté, foi lugar dos Botocudos, aldeia indígena maxakali morava aqui em Ladainha, aquela baixada lá. Dona Delcida fala assim: ali foi atacado entre Botocudo e Maxakali. Aí tihik pegou e seguiu pra Araçuaí, de lá eles voltaram pra Água Boa esconder atrás da pedra, por isso que toda essa região é onde nossos rituais aconteceram. Toda essa região foi o local onde nosso povo fazia seus rituais, era todo mata... hoje é destruído por não índio.

M  Para a saúde de tihik ficar boa, precisa melhorar o território? S  Precisa. Aumentar nossa área, onde que tenha rio para os kitok poder banhar, pescar à noite tranquilo... pegar água do rio, tomar banho no rio... Yãmiytxop, porque tem ritual, que nem ritual do mico, tem a parte que as uhex tomam banho do córrego abaixo, a parte que tomam banho lá em cima, e hoje não está acontecendo por causa do rio que nós não temos. Muita coisa está parada. O batismo também dos kitok, que yãmiy leva, dá banho... Por isso que tem pajé que sonha também com isso acontecer... Adoece as uhex, adoece os jovens, fica triste... Tem muito yãmiytxop parado porque nós estamos sem rio, (é ritual) que usa rio. Que nem esse ritual que veio de verdade, de mudança, que é ritual do milho. Mas quando ele vai caçar, ele traz caça, já está querendo ir embora, o córrego tá aqui, yãmiytxop toma banho aqui, todas uhex toma banho aqui, de grande a pequeno, toma banho aqui embaixo, yamitxop aqui. Aí yamitxop lava... Vou dar um exemplo: antigamente yãmitxop tomava banho e uhex tomava banho embaixo pra poder sair cocô de mico que eles estão trazendo, vem lambuzado de cocô de mico, e dessa água uhex toma banho e tira toda doença de uhex, leva. R  É muito importante o rio para o ritual de fim de resguardo. Se aqui não tem rio, como está terminando o resguardo, aqui? S  Está terminando lá no rio grande, ali, onde não índio fazendeiro cercou, colocou cancela, e não quer que tihik pula mais a cancela, pra tihik não tomar banho lá mais, mas tihik vai lá, mesmo assim tihik vai lá. É público, o rio. Aí tihik fica ignorando. É o rio daqui da saída, a cachoeira que tem lá. R  E batizados dos kutok, não está fazendo nenhum? S  Nenhum, porque nós estamos sem o rio. Desde 2007. Aconteceu uma vez, quando nós chegamos, a gente fez ali naquela represa, quando a represa estava

limpa. Depois a represa sujou aí a gente não fez mais. Como agora, a gente estava pensando assim: a gente concorreu a esse Prêmio (Culturas Indígenas) pensando fazer uma piscina com pedra, recuperar a nossa nascente, lá do kuxex, pra gente poder usar essa piscina para ritual, para acontecer isso com nossas criança. E kutxu vai, toma banho lá em cima, limpa sujeira de bosta de caça, e uhex toma banho cá embaixo, aí sara, tira todo pensamento errado de uhex, vem só coisa boa. Hoje nós não estamos fazendo por causa do rio, não é porque tihik está esquecendo, yãyã está esquecendo, é porque não tem o rio. Lá em cima tem cachoeirinha pequenininha, tihik pensou de fazer aldeia lá. E fazer a represa, duas represas, uma embaixo e outra em cima. Só que tem muita cobra também. Porque lá é fresco, então vai muita cobra pra lá, beber água, e a gente não pode estar matando, a gente fica com dó também, mesmo que é venenosa, mas deixa caça quietinho. Eu acho que tem que recuperar outra terra pra nós, ampliar terra pra nós. I  O livro da saúde saiu em 2007 e tem muita dificuldade de nós também, que nós não temos terra definida ainda, nós estamos sofrendo ainda, porque mora perto de Governador Valadares, que Funai alugou fazenda e nós ficamos lá dois meses. Depois a Funai procurou a terra da união de governo, achou a terra e falou com a gente: olha, tem uma terra que eu vou levar você pra você ficar lá, só provisório. Aí levaram a gente, mandou dois ônibus. Primeiro só os homens, as mulheres ficaram na outra fazenda que alugou por mês. Os homens foram primeiro e fizeram a barraca, terminaram tudo, depois as mulheres foram. Fizemos aldeia, município de Campanário. E ali nós estamos sem preocupação com a terra, querendo voltar ou não, eu penso assim. Depois entramos na faculdade em 2006 e aí escolhemos fazer esse livro, mas estamos lutando, sofrendo, a situação está difícil, mas nós estamos trabalhando, fez o trabalho do livro. Depois a Funai

fez o documento para o governo, pra presidente da Funai, conseguiu o recurso e falou com a gente: você vai rodar, vai ver a terra em todo lugar. Aí (cacique) Noêmia saiu com outra pessoa, outra liderança, aí viu várias terras, mas não tem terra plana, tudo assim morro, não tem rio também. Por último essa aqui. E o dinheiro querendo voltar também, governo querendo pegar dinheiro de volta, e Funai: ‘ô, escolhe aí logo, se demorar o dinheiro vai voltar. E se dinheiro voltar eu acho que vai ser difícil pegar de volta, porque governo quer ajudar outra pessoa, ele vai pegar o dinheiro e enviar pra outra pessoa’. Aí escolhemos essa terra, sem rio, sem parte plana também, mas estamos lutando se nós vamos ampliar a terra onde tem rio, onde tem lugar pra fazer roça, onde tem caça, pesca também. Porque nosso sonho é rio, terra plano e mato.

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— INICIATIVAS CUIDADOS E PRÁTICAS DE SAÚDE

— PROJETO DE RESGATE E VALORIZAÇÃO DOS SABERES TRADICIONAIS DAS PARTEIRAS PITAGUARY

— povo Pitaguary comunidades 

Santo Antônio,

Olho D’água, Horto e Monguba habitantes 3.796 terra indígena  local  proponente 

Pitaguary

Maracanaú - CE

Associação das Mulheres

Indígenas Pitaguary - AMIP contato 

amiceceara@yahoo.com.br / (85) 3384-5902 iniciativa no 506

— Apesar de ter uma Terra Indígena demarcada, nós temos muitos problemas ambientais e sofremos com uma precária assistência à saúde. Durante gerações, o acompanhamento da gestação e o parto das mulheres pitaguary eram feitos na comunidade pelas nossas parteiras que, além de exercerem um papel importante, transmitiam seus conhecimentos de forma oral para as novas gerações. Há algumas décadas as mulheres pitaguary passaram a recorrer ao atendimento hospitalar em substituição ao parto tradicional e, hoje, enfrentam a insegurança na hora de dar à luz, desrespeito à fisiologia do parto

e à mulher por parte dos médicos e plantonistas, que em muitos casos submetem as parturientes a cesáreas e/ou intervenções desnecessárias durante sua permanência no hospital. O presente projeto tem por objetivo a realização de ações que busquem valorizar e rememorar as práticas tradicionais das parteiras pitaguary, e promover a capacitação de agentes de saúde indígenas e outras mulheres da comunidade para que possam realizar uma assistência e acompanhamento humanizados às mulheres indígenas gestantes, no pré-natal e no pós-parto. Também objetivamos desencadear um processo de reconhecimento do ofício das parteiras com o objetivo de manter vivos saberes e tradições, garantindo sua transmissão às futuras gerações.

— MEDICINA TRADICIONAL FULNI-Ô

— povo Fulni-ô comunidade  habitantes 

Indígena Fulni-ô

Aproximadamente 5.000

terra indígena  local 

proponente  contato 

Fulni-ô

Águas Belas - PE José Francisco de Sá

xicefulnio@gmail.com /

Nossa terra é localizada no agreste do sertão. No tempo da plantação, nós, Fulni-ô, temos por tradição plantar milho, feijão e abóbora. Apesar de ter sido um pouco devastada, ainda há uma luta na preservação. O objetivo principal é fortalecer e incentivar a preservação da medicina tradicional fulni-ô, também o meio ambiente de onde se retira a maior parte dos medicamentos à base de plantas. A iniciativa foi criada ao se perceber que o uso de medicamentos químicos estava sendo usado com muita frequência entre os indígenas. Já foram construídos um canteiro de plantas medicinais e uma farmácia de manipulação para produzir medicamentos artesanais feitos pelos próprios índios. Foi também realizada uma pesquisa antropológica e etnobotânica que orientou o trabalho de produção de produtos medicinais e de elaboração de um livro sobre medicina tradicional para usar nas escolas das aldeias. Através desta iniciativa pretendemos contratar três indígenas, que irão trabalhar na construção de um viveiro e na farmácia, com a manipulação de medicamentos artesanais.

— VALORIZANDO AS RAÍZES XOCÓ

(87) 9951 - 0679 / 9913 - 8286

povo Xocó

iniciativa no 1.024

comunidade Xokó

habitantes 

361

197


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terra indígena  local 

Xokó

Porto da Folha -SE

proponente 

extratos das plantas para confecção de sabonetes, xaropes e pomadas.

Nadja Nayra Alves

da Silva Rodrigues contato 

(79) 3351 - 8900 /

(82) 9634 - 4362 iniciativa n

iniciativa nº 772 – Valorizando as raízes Xocó

iniciativa nº 854 – Cura Natural: Catálogo de

medicamentos tradicionais ticuna

o

  772 

premiada

— A aldeia Xokó está localizada na área rural e é reconhecida pelo Governo Federal. A área tem boa preservação e nela podemos encontrar animais para alimentação e comercialização. A área é banhada pelo rio São Francisco, de onde tiramos muito da nossa alimentação e sustento. O objetivo geral desta iniciativa é desenvolver a consciência cultural, ambiental e social; o respeito próprio e pelo próximo, além de garantir fonte de renda e qualidade de ensino à comunidade. Para tanto, desde 2008, visando manter vivas as raízes xokó e buscar também o fortalecimento do uso de ervas medicinais, elaboramos o projeto Valorizando as Raízes Xokó, trabalhando de forma conjunta e participativa também no resgate dos conhecimentos sobre ervas. Tendo em vista que a comunidade Xokó tem uma vasta área de terra e diversidade de ervas, usaremos o espaço e envolveremos os alunos, diretores e professores do colégio indígena para o projeto, buscando dinamizar o ensino proporcionado e assegurando a permanência do aluno na escola. Além de plantar e colher ervas, pretendemos produzir

CONSTRUÇÃO DE VIVEIRO COMO FARMÁCIA VIVA RAU KUI BANA

— povo 

Hunikui (Kaxinawá)

terra indígena 

Kaxinawá do Rio Humaitá

local  proponente 

Tarauacá - AC

Valdecir Sergio da Silva Kaxinawá

contato 

conhecimentos sejam registrados e publicados no futuro em materiais didáticos e paradidáticos. As ações que previmos nesta iniciativa são a construção de um espaço físico para realização do trabalho de cura e para armazenar as ervas medicinais e materiais; o envolvimento de pessoas nos trabalhos; a avaliação pelo pajé das pessoas participantes; e também o registro dos conhecimentos para construir um material didático para a escola indígena.

(68) 9938 - 0912 / 4400 - 7830 iniciativa no 

825

— Nós, Kaxinawá, vivemos em Terra Indígena demarcada, onde buscamos caças, frutas, peixes e medicinas. Esta iniciativa teve início com a criação pelos professores, agentes de saúde e agroflorestais de um espaço para plantio de medicinas, que hoje funciona como uma farmácia viva que atende à comunidade e os vizinhos do entorno. Sabemos que os medicamentos da farmácia controlam as doenças, mas prejudicam nossos órgãos. Por isso o objetivo da iniciativa é valorizar e fortalecer o conhecimento da medicina tradicional através de educação e pesquisa, envolvendo alunos e a comunidade escolar, para transmitir nossos conhecimentos às novas gerações. Queremos que estes

PAPIRI ANÕSHO NIN RAO YOSIA: PESQUISA APLICADA

— povo 

Marubo (Revokiri Nawavo)

terra indígena  comunidades 

Vale do Javari

Maronal e Morada Nova

habitantes  local  proponente  contato 

340

Atalaia do Norte - AM Paulo Dollis Barbosa da Silva

(97) 9157 - 0485 / 9155 - 5669 iniciativa no 

836

— Apesar de o espaço geográfico e os recursos existentes serem suficientes para garantir a manutenção das práticas culturais, em nossa comunidade há muitas influências externas que acontecem por causa do grande trânsito de indígenas para as cidades em busca de benefícios sociais e da educação escolar,

colocando em risco a prática de costumes das culturas tradicionais. A comunidade é atendida por programas sociais e serviços de saúde e educação, mas de forma muito precária. Falta estrutura física nas escolas, formação de professores indígenas, ações preventivas de saúde e controle de doenças epidêmicas. O projeto de saúde, conhecido como Plano Distrital, nunca foi executado conforme aprovado pelos conselheiros. O objetivo desta iniciativa é resgatar e registrar o conhecimento das medicinas tradicionais que estão em vias de esquecimento, incentivando a juventude a preservar as práticas de prevenção e cura, para que nosso povo seja mais independente em seus cuidados relacionados à saúde. A iniciativa dá continuidade ao trabalho que vem sendo realizado há alguns anos por voluntários, que fazem pesquisa e registro de plantas medicinais, e tem como resultado esperado a elaboração de uma cartilha que promova o uso e a valorização de nossos conhecimentos.

— CURA NATURAL: CATÁLOGO DE MEDICAMENTOS TRADICIONAIS TICUNA

— povo Ticuna terra indígena 

Éware I

comunidade indígena 

Belém do Solimões

habitantes  local 

Tabatinga - AM

proponente  contato 

4.252

João Parente Fortes

fortesparente@hotmail.com / (97) 3413 - 1034 iniciativa no 

854

— A Comunidade Indígena Belém de Solimões vive em uma Terra Indígena homologada, com ameaça de madeireiros e consumo intenso de bebidas alcoólicas pelos jovens. Muitos indivíduos da comunidade trabalham com medicamentos tradicionais, mas este conhecimento vem se perdendo da memória do povo Ticuna. A iniciativa tem por objetivo fazer um registro de nossos conhecimentos de forma a preservá-los para gerações futuras. Para isso montaremos um catálogo dos principais medicamentos tradicionais ticuna, reunindo fotos ou ilustrações de cada planta, animal ou mineral usados no preparo dos medicamentos, contemplando também processos de extração e acondicionamento, as instruções de preparo, orientações de dosagem e formas de aplicação. Serão reunidos conhecimentos que estão dispersos em diversas comunidades do Alto Solimões. Previmos que seja feita a análise em laboratórios especializados em botânica, zoologia ou farmácia, para dar respaldo ao nosso catálogo. Este catálogo deverá ser utilizado em futuros estudos e pesquisas

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que terão continuidade e comprometimento com o aprimoramento dos saberes medicinais tradicionais. Esperamos difundir a facilitar o acesso aos medicamentos tradicionais entre outras comunidades ticuna, bem como demais interessados, além de patentear medicamentos de uso tradicional.

200

iniciativa nº 855 – Curando com remédios tradicionais

— CURANDO COM REMÉDIOS TRADICIONAIS

— iniciativa nº 978 – Medicina indígena

povo Baniwa terra indígena 

todos vivem

em bairros distintos na cidade de São Gabriel da Cachoeira habitantes  local 

40

São Gabriel da Cachoeira - AM

proponente  contato 

objetivo desta iniciativa é repassar os conhecimentos da medicina tradicional às pessoas interessadas em conhecer e curar as doenças através de plantas medicinais cultivadas e encontradas na floresta. São vários fatores que influenciam o esquecimento da medicina indígena: a presença da unidade de saúde na cidade e a dificuldade de preparar adequadamente as plantas. Para isso, faremos oficina com teoria e prática, acompanhadas pelos líderes, para capacitar as pessoas no reconhecimento das plantas, preparação e sua utilização no tratamento das doenças. Queremos capacitar o maior número de pessoas, sem distinção de etnias, para que a medicina indígena continue viva e para quebrar a barreira do segredo mantido pelos nossos antepassados, já que a saúde é um bem estar merecido por todos.

Rosineide Brazão Apolinário

(97) 8102 - 2393 / 8108 - 9842 iniciativa no 

855

— A maioria dos membros da nossa comunidade pertence à etnia Baniwa que habitava na comunidade de Tunuí Cachoeira no Médio Rio Içana. Hoje todos moram na cidade, onde foram buscar escola para continuar os estudos, mas sobrevivem da agricultura, que é feita no assentamento Parawari. A área é pequena e devastada para fazer roça. Nossa família é conhecedora de plantas e tem prática de cura. O

MEDICINA INDÍGENA

— povo Tikuna terra indígena 

Wui-va-ta In

comunidade indígena  habitantes  local  proponente  contato 

Nova Itália

1.134

Amaturá - AM

Organização Acini-Tikuna

caciquehosano@hotmail.com /

A comunidade Nova Itália está localizada na Terra Indígena WuiWa-Tain que é demarcada e preservada. A comunidade cuida do ambiente, trabalha na roça somente para auto sustento, caça e coleta na mata, possui igarapé preservado e recebe água encanada. Como a Terra Indígena é pequena há pouca oferta de caça e pesca. Os medicamentos do branco trazem problemas para nós e a comunidade está esquecendo o cultivo de plantas medicinais. Então o objetivo dessa iniciativa é a valorização do conhecimento tradicional, a garantia da prática do ritual sagrado e a produção das medicinas tradicionais. Foram os próprios moradores que tomaram a iniciativa de não deixar a cultura se perder. O projeto vai envolver a comunidade na construção de um viveiro para mudas de plantas medicinais e também na produção de remédios para fortalecer nossa cultura, nosso trabalho e nossa autonomia.

— HOKOO HOTEESEE: PLANTAS MEDICINAIS DA REGIÃO

— povos 

hosano.amt@hotmail.com / (97) 8123 - 1787 iniciativa no 

comunidade  terra indígena 

978

Tukano, Piratapuia e Tuyuca Yauawira

Médio Rio Negro

habitantes  local 

64

São Gabriel da Cachoeira - AM

proponente 

Maisa Islei Dutra Mendes

contato 

(97) 3471 - 1632

iniciativa no 

1.006

— Vivemos na Terra Indígena Médio Rio Negro, reconhecida pelo governo federal e que é uma área bastante preservada, mas sofremos a diminuição da caça e da pesca, por conta de aumento populacional das comunidades. Em 2012 começamos um trabalho de pesquisa com entrevistas sobre medicina tradicional indígena, com apoio dos educadores da escola e da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro/FOIRN. Queremos dar continuidade porque está desaparecendo o uso das plantas de ervas medicinais na região. O objetivo deste projeto é reviver as práticas da medicina tradicional registrando os conhecimentos através de desenhos, fotos e textos sobre o plantio e preservação dos remédios caseiros, sua localização nos quintais e na mata, e também sobre os mitos, transmitidos pelos mais velhos sabedores (os pajés), para que os costumes e a tradição não desapareçam da comunidade. Participará da iniciativa todo povo, principalmente os velhos conhecedores de plantas medicinais, fornecendo informações, para os jovens e alunos.

JAHAKI IDA ARABANI KABADANI, PAHA HIKI PAMOARI KAHOJAI KAIMONI A IMPORTÂNCIA DO TRABALHO DO PAJÉ E A IMPORTÂNCIA A ÁGUA PARA A CULTURA PAUMARI

— povo Paumari terra indígena 

Paumari do Lago Marahã

comunidade 

Morada Nova

habitantes  local 

Cidade Lábrea - AM

proponente  contato 

130

Tiago Paumari

(97) 3331 - 2632 / 9174 - 4549 iniciativa no 

1.034

— Nossa comunidade fica distante de centro urbano, porém próxima a comunidades não indígenas que acabam influenciando nosso modo de vida. Há invasores que pescam dentro da área indígena e retiram madeira. Temos recursos naturais suficientes para a produção de artesanato e para a alimentação tradicional, porém estão escassas as palhas que utilizávamos para cobertura de nossas moradias. Com a interferência da merenda escolar, muitos estão deixando a alimentação tradicional pela industrializada. A comunidade está percebendo que nossa cultura está sendo

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iniciativa nº 1.039 – Kunã: farmácia de medicina

tradicional da aldeia Sahu-Apé

iniciativa nº 721 – Bõ Lavi - transmissão dos conhecimentos

das mulheres indígenas de Oiapoque sobre medicina indígena

substituída por costumes que não são de nossa tradição, especialmente por influência de missões evangélicas que pregam que certos costumes culturais de nosso povo, como o canto em nossa língua, inalação de rapé e a cura feita pelo pajé são pecado. Por conta disso queremos trabalhar o resgate destas práticas tradicionais em nossa aldeia através de reuniões de conscientização dos jovens, de organização de festas tradicionais, de incentivo a plantação de hortas medicinais e também da construção de uma rede de distribuição de água entendida enquanto elemento de purificação e proteção para o nosso povo. A comunidade espera retomar e fortalecer suas práticas tradicionais e melhorar a qualidade de vida do povo Paumari.

— KUNÃ: FARMÁCIA DE MEDICINA TRADICIONAL DA ALDEIA SAHU-APÉ

— povo Sateré-Mawé terra indígena  comunidade 

Sahu-Apé

Sahu- Apé

habitantes  local  proponente  contato 

60

Iranduba - AM

Zelinda da Silva Freitas sahuape@ig.com.br /

(97) 8176 - 0025 iniciativa no 

1.039

Estamos em uma área rural que fica muito próxima da cidade. Chegamos aqui e éramos só nós, depois a cidade foi aparecendo, vindo para perto da gente. Para caçar temos que ir longe, atravessar o rio Paranã do Ariaú. O que nos preocupa hoje são as ameaças e a presença dos madeireiros nos igapós, porque nossa área tem árvores que servem para nossos artesanatos e para fazer remédios, e eles estão cortando. Quando chegamos aqui vivíamos isolados e era difícil sermos atendidos por medicina de branco. Hoje, a SESAI nos atende uma vez por mês, mas nós temos a nossa medicina tradicional que é forte e toda natural com chás, pomadas e unguentos. Não é como os medicamentos dos brancos que às vezes só vêm prejudicar o corpo da gente. Temos uma farmácia na aldeia que atende a muitas comunidades, mas está deteriorada e precisa de uma boa reforma. A iniciativa tem por objetivo reformar, ampliar e equipar a farmácia para que os trabalhos de cura, que já são feitos, possam ser mais bem realizados. Precisamos de uma maca, potes, um armário e uma geladeira para armazenar os remédios. Isso vai permitir divulgar e valorizar a nossa medicina tradicional e dar continuidade às curas através de nossos conhecimentos.

BÕ LAVI – TRANSMISSÃO DOS CONHECIMENTOS DAS MULHERES INDÍGENAS DE OIAPOQUE SOBRE MEDICINA INDÍGENA

— povos 

Galibi Kali’na, Galibi Marworno, Karipuna e Palikur

terras indígenas  comunidades 

Uaçá, Galibi e Juminã

São José dos Galibi,

Kumarumã, Manga, Kumenê, Tukay, Kunanã, Santa Isabel, Estrela, Japim, Paxiubal, Espírito Santo, Jondef, Açaizal, Encruzo, Piquiá, Curipi, Cariá, Ahumã, Ywauká, Mangue, Amomni, Urubu, Puwaytyeket, Tawary, Flecha, Kwikwit, Ariramba, Uahá, Samaúma, Kuahí, Pakapuá, Anawará, Aruatu, Taminã, Txipidõn, Zacariaws, Bastiõn, Kamuyua, Tawarhu. habitantes  local 

6.293

Oiapoque - AM

proponente 

Marcia Maria dos

Santos Oliveira contato 

limites da área. Apesar de conhecerem e manejarem bem os recursos naturais das TIs, os povos indígenas estão preocupados com o crescimento populacional e as pressões externas e por isso construíram um Plano de Vida, visando reduzir os impactos das obras já existentes e garantir a qualidade de vida para as gerações futuras. Há dois anos foi implantado um viveiro de plantas medicinais, com apoio da FUNAI, nas aldeias situadas ao longo da rodovia BR-156, de forma a resgatar os conhecimentos, cada vez menos utilizados frente ao crescente uso de medicamentos industrializados. Esta iniciativa pretende, através da realização de oficinas, incentivar a troca de conhecimentos entre as mulheres de diferentes etnias sobre plantas e outros recursos medicinais e promover a elaboração de uma cartilha, de forma a fortalecer a autonomia dos povos indígenas, reduzindo sua dependência dos fármacos químicos nas aldeias.

marciakaripuna@hotmail.com /

(96) 3521 - 3293 / 9962 - 0689 / 8402 - 9083 iniciativa no 

721

— As Terras Indígenas (TIs) Uaçá, Galibi e Juminã estão bem preservadas. A TI Uaçá é cortada pela BR-165, que liga Oiapoque a Macapá, situando-se entre dois núcleos urbanos e fazendas. Sempre há invasores e por isso foram instaladas 10 aldeias ao longo da rodovia, para fazer o monitoramento e a fiscalização dos

EDUCAÇÃO EM SAÚDE – VÍDEOS EDUCACIONAIS EM LÍNGUA TIRIYÓ

— povos 

Tiriyó, Kaxuyana e Txikuyana

comunidades 

Urunai, Missão Tiriyó

e Pedra da Onça habitantes 

670

terra indígena 

Parque do Tucumaque

(AP e PA) local  proponente 

Amapá

APITIKATXI – Associação dos

povos indígenas Tiriyó, Kaxuyana, Txikuyana contato 

www.apitikatxi.com.br /

apititatxi@gmail.com / dimi.tiriyo@gmail.com / (96) 3217 - 2024 / 9199 - 9607 iniciativa no 

735

— Vivemos em área isolada, de difícil acesso. Nossa área é preservada, com pouca caça, mas boa terra para cultivo. Temos associação Apitikatxi, que desenvolve projetos de fortalecimento político, valorização cultural, formação de professores e gestão territorial e ambiental (em parceria com o Instituto Iepé). A iniciativa tem por objetivo realizar dublagens, do português para o tiriyó, de materiais educativos nas áreas de prevenção e tratamento de doenças a fim de conscientizar a população e diminuir os índices de adoecimento e morte por motivos desnecessários na aldeia. Como os profissionais de saúde que trabalham em nossas comunidades em geral não falam tiriyó, percebemos a necessidade de uma iniciativa desta para auxiliar na melhoria de saúde da população e evitar, por exemplo, o uso incorreto de medicamentos alopáticos que tem sido muito frequente. Esta iniciativa contará com a parceria do Museu da Imagem e do Som do Amapá. Além de alcançar

203


um bom nível de conscientização das comunidades sobre como cuidar da sua saúde, prevenir e enfrentar os problemas mais frequentes, nós teremos um bom registro da língua tiriyó para as futuras gerações.

204

iniciativa nº 648 – Encontro Nacional de Pajés

MEDICINA TRADICIONAL

— povo Wapichana terra indígena 

Manoá-Pium

comunidade 

Pium II

habitantes  local  proponente 

150

Bomfim - RR

Conselho Indígena de Roraima (CIR)

contato 

(95) 3224 - 5761/ 9168 - 1351 iniciativa n

o

de saúde ocorrida em 1996. Na época foi feita uma horta com plantas medicinais e também a fabricação e uso dos remédios de acordo com a receita e dosagem dos mais velhos. Em todas as reuniões as lideranças e familiares buscam sempre debater o tema da saúde, e a comunidade sempre lembra que é a falta de remédios que são distribuídos pela Secretaria Especial de Saúde Indígena/SESAI e a dependência dos moradores destes remédios que os leva a não deixar de lado o uso do remédio caseiro. A estratégia de enfrentamento será com a construção de hortas e de uma casa de remédios tradicionais, a produção de remédios caseiros de acordo com a orientação dos mais velhos e o ensinamento dos remédios caseiros para serem usados pelos moradores.

  858

A comunidade Pium II está localizada na área rural dentro da Terra Indígena Manoá, reconhecida em 2000. A área encontra-se bastante preservada, por isso tem ainda muita caça, pesca e coleta. Porém faltam recursos naturais para a produção de remédios caseiros, devido ao grande índice de desmatamento para fazer roça.

SANTUÁRIO DO PAJÉ PALMIRO: ESPÍRITO E SAÚDE INDÍGENA PROTEGIDOS

O objetivo da iniciativa é garantir por meio da prática tradicional wapichana a preservação das plantas e uso dos remédios caseiros na comunidade. A ideia de trabalhar com remédios tradicionais teve início desde a formação dos agentes indígenas

— povos 

Wapichana e Pawixiana

terra indígena  comunidade 

Manoá-Pium Kalungar

habitantes  local  proponente 

60

Bomfim - RR

Conselho Indígena de Roraima (CIR)

contato 

(95) 3224 - 5761 / 9168 - 1351 iniciativa no 

871

A comunidade Kalungar fica na zona rural dentro da Terra Indígena Manoá-Pium. A área da comunidade se encontra preservada, pois está localizada na área de lavrado com matas nativas da região. O objetivo desta iniciativa é garantir a valorização do trabalho de cura realizado pelo pajé, grande curador e mestre natural da comunidade Kalungar. O trabalho do pajé Palmiro Pawixiana tem o período de 10 anos. No ano de 2010, quando um wapichana da comunidade Pium procurou o pajé, morou 3 meses na comunidade de Kalungar devido à doença, que estava muito brava. A família notou que o pajé tinha grandes dificuldades para achar os materiais para fazer a cura. Estava tudo muito difícil, mas a família wapichana procurou ajudar o pajé trazendo recursos necessários da grande mata existente na comunidade Pium. Em uma reunião recente a comunidade planejou então construir um banco de sementes e plantas do pajé: construir o santuário do pajé Palmiro, fazer cartilhas em língua wapichana e pawixiana de conhecimentos das práticas do pajé e fazer o encontro de pajés das comunidades do entorno. Os resultados esperados são uma comunidade mais consciente sobre o valor do trabalho do pajé, novos pajés formados, o Santuário construído e o encontro de pajés realizado.

ENCONTRO NACIONAL DE PAJÉS

— comunidade 

de estudantes indígenas

extensionistas, participantes da Rede Social do Projeto Vidas Paralelas Indígena (PVPI), vinculado à Universidade de Brasília-DF terras indígenas 

Atikum, Barra Velha

e Coroa Vermelha (Pataxó), São Gabriel da Cachoeira, Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos (Piratapuia), São Miguel (Potiguara), Caieiras Velha (Tupinikim), República (Nukini), São Gabriel da Cachoeira (Baré), Médio Rio Negro (Baré), Sementeira (Kariri-Xocó), Tabalascada (Wapichana/Macuxi) e Boqueirão (Macuxi), Águas Belas (Fulni-ô), Pankararu (Pankararu), Uaça (Karipuna do Amapá) local  proponente  contato 

Brasília - DF

Joanice Gonçalves dos Santos nicinhajg@hotmail.com /

nicinhajg@gmail.com / (61) 8171 - 5292 / 3526 - 5292 / 3107-1888 iniciativa no 

acadêmica, pois percebemos que o conhecimento científico que estamos obtendo na Universidade, por si só, não será suficiente para suprir nossas necessidades e as das nossas comunidades. Para nós, estudantes indígenas da área de saúde, é importante a capacitação a partir do conhecimento dos Pajés para podermos colocar isso em prática tanto em Projetos nas aldeias, quanto no Ambulatório de Saúde Indígena do Hospital Universitário de Brasília, que atende indígenas de inúmeras etnias e das diversas regiões do país. Contribuiremos também para preservar e repassar conhecimentos que serão de suma importância para futuros profissionais indígenas, facilitando o atendimento dos nossos parentes indígenas e incorporando-os na Disciplina de Introdução à Saúde Indígena que será implantada na UnB.

648

O Coletivo de Estudantes Indígenas da Rede Social do Projeto Vidas Paralelas Indígena (PVPI) vive atualmente em Brasília para cursar a universidade. Esta proposta vem para suprir necessidades que surgiram desde nosso ingresso no meio científico na Universidade de Brasília (UnB). Queremos realizar o Encontro Nacional dos Pajés no intuito de fortalecer o conhecimento/saber tradicional indígena, entrecruzando-o com o conhecimento adquirido por nós, estudantes, durante a vida

PLANTAS MEDICINAIS USADA PELOS ÍNDIOS CINTA LARGA

— povo 

Cinta larga

terras indígenas 

Serra Morena e

Parque do Aripuanã comunidades 

Rio Furquim, Rio Seco, Rio

Capivara, Rio Vinte e Um, Pacovinha Rio Verde, Serra Morena e Serra Dourada habitantes  local 

580

Juína - MT

205


206

proponente 

Associação do Povo Indígena

Cinta Larga ETEREPUYA contato 

(66) 9231 - 7416 / 3566 - 6115 iniciativa no 

630

— iniciativa nº 460 – Produção de medicamentos

A comunidade do povo Cinta Larga reside em Terra Indígena (TI) reconhecida pelo governo e denominada TI Serra Morena e Parque do Aripuanã. A reserva demarcada é relativamente preservada em recursos naturais, disponíveis para a manutenção das práticas culturais. Com a intensificação do contato com os não índios, os jovens têm sido influenciados pela cultura de fora, que tem afetado drasticamente as práticas culturais, por mais que alguns membros da comunidade tentem resgatá-la através da culinária, roças tradicionais, artesanato etc. Através desta iniciativa queremos resgatar e ensinar os nossos jovens sobre como nossos antepassados sobreviviam na reserva apenas usando as plantas para as curas de nossas doenças, pois após o contato e o ingresso da medicina dos não índios e com o passar dos tempos as plantas que usávamos anteriormente como medicinais estão sendo esquecidas e muitos jovens nem as conhecem. Com isto pretendemos ir a campo com alunos jovens de ambos os sexos acompanhados por indígenas homens e mulheres acima de 50 anos para coletarem as plantas. Além de resgatarmos parte da nossa história relatada por velhos índios aos nossos jovens, queremos

fazer o reconhecimento da flora e fauna da nossa reserva, fortalecendo os laços fraternais entre jovens e adultos e despertando a curiosidade dos nossos jovens para futuramente realizarem um trabalho baseado nos métodos científicos.

— TCHUARSCH HINA KURAVOTI - PLANTAS QUE CURAM

— povo Chiquitano terra indígena  comunidades 

Portal do Encantado

Açorizal, Maquito e Assunção

habitantes  local  proponente 

900

Porto Esperidião - MT

Organização Indígena Nioysch Haukina

contato 

(65) 9935 - 8187 – Alexandra /

9608 - 4670 – Marinalva iniciativa no 

922 

premiada

— A comunidade vive em área rural, de difícil acesso, demarcada mas não homologada. Nossa terra é muito boa para plantarmos e caçarmos, porém os recursos naturais de vegetação de nossa área não são suficientes para manter nossa cultura. Resolvemos escrever esta iniciativa para revitalizar, fortalecer e valorizar esse conhecimento tradicional milenar das plantas medicinais do nosso povo Chiquitano. Com a mudança no sistema de saúde, hoje

somos assistidos pela Secretaria Especial da Saúde Indígena/SESAI, mudança essa que ocasionou uma diminuição no uso das plantas medicinais; pajés, benzedeiras e os anciões que dominam a arte de nossa cultura, de cuidar de nossa saúde, foram ficando de lado. Para realizar essa iniciativa vamos construir um espaço, uma casa, como ponto de divulgação de nossa cultura, um espaço de convívio para a comunidade trocar ideias, contar histórias e difundir a cultura sobre plantas medicinais e sua relação com a biomedicina. Deixamos muitas vezes de valorizar a nossa própria cultura para valorizar a cultura do branco, achamos que as duas coisas, medicamentos dos brancos e conhecimento tradicional, podem andar juntos. É por isso que outros participantes importantes nesta tomada da revitalização das plantas medicinais são: o agente de saúde indígena e duas estudantes chiquitano que estudam biomedicina em faculdades da região.

— MEDICINA TRADICIONAL

— povo Xavante terra indígena  comunidades 

São Marcos

Dzub´Adze, São Francisco

II, Nossa Senhora Auxiliadora, São Marcos, Coração de Jesus e Dom Romero habitantes 

79

local  proponente  contato 

Barra do Garças - MT

Neia Glessia Pewe’a Tsebabate

(66) 9221 - 6153 / 9282 - 9083 iniciativa no 

934

— A nossa terra é reconhecida legalmente, mas enfrenta muitos problemas de invasão, desmatamento e agrotóxicos. As aldeias ficam próximas de fazendas, a estrada passa dentro do território xavante, os rios e as cabeceiras estão sendo ameaçados pela construção da usina do Toriquezes. A situação ambiental da terra está ainda um pouco preservada, mas mesmo assim não é suficiente para a caça, pesca e sustentabilidade das famílias. Com este projeto pretendemos realizar encontros dos velhos e jovens para transmitir os conhecimentos das medicinas tradicionais (ervas) garantindo os direitos de reconhecimento dos saberes tradicionais e também seu fortalecimento. O uso de medicinas tradicionais já é praticado e realizado, mas somente entre familiares. Por isso é importante tanto a valorização da medicina tradicional, como o resgate da autonomia sobre estes conhecimentos. É por isto que surgiu esta iniciativa de fazer oficinas e produção de materiais sobre medicina tradicional. É uma maneira de evitar problemas de patenteamento dos nossos saberes tradicionais pelos não índios. Medicina indígena é a base de tudo para a nossa comunidade indígena xavante.

PRODUÇÃO DE MEDICAMENTOS

— povo Terena terra indígena  comunidades 

Taunay/Ipegue

Jaraguá, Bananal, Colônia

Nova, Ipegue, Lagoinha, Água Branca, Morrinho e Imbirussú habitantes  local 

Aquidauana - MS

proponente  contato 

3.831

Máximo Alexandre

celmaterena@hotmail.com /

(67) 9913 - 2607 – Paulo iniciativa no 

460

— Vivemos em uma Terra Indígena pequena para uma população que tem crescido muito. Hoje faltam caça, pesca e recursos naturais para fazer artesanato. A terra é boa para plantação, mas os recursos hídricos são intermitentes, em função das fazendas vizinhas que desmatam para fazer pastagens. Atualmente está acontecendo o deslocamento das famílias para a cidade em busca de melhores condições econômicas e emprego. A produção de medicamentos tradicionais aumentou uma vez que os órgãos públicos, que tratam da saúde indígena, não possuem remédios para atender os indígenas. A procura de medicamentos tradicionais pelas pessoas das aldeias do entorno da Aldeia Bananal vem crescendo, já que os pacientes têm alcançado resultados muito positivos na recuperação de diversos tipos de doenças.

207


208

iniciativa nº 468 – Medicina tradicional das ervas guarani

Pretendemos através dessa iniciativa aumentar a quantidade de atendimentos e de produção de medicamentos para que as pessoas não precisem ficar esperando para serem atendidas. Para isso queremos construir um local adequado voltado à produção (com equipamentos para manipulação, preparo, cozimento) e ao armazenamento refrigerado dos medicamentos elaborados.

— iniciativa nº 848 – Tetxai reko ka’agwy -

Nossa saúde vem do mato

MEDICINA TRADICIONAL DAS ERVAS GUARANI

— povo 

Guarani Nhandeva

terra indígena  aldeia  habitantes 

Jaguapiru

10.720 na Terra Indígena

local 

Dourados - MS

proponente  iniciativa nº 627 – Fortalecimento da Okhá-kahab:

Casa de Saúde, Cura e Harmonia

contato 

de Dourados

Edite Martins

editeguarani@hotmail.com /

(67) 9826 - 8329 / 9623 - 2134 iniciativa n

o

  468

— Nossa Terra Indígena tem densidade populacional bastante elevada e está bem próxima da área urbana, não havendo, portanto, matas e recursos hídricos que possibilitem a coleta, a caça e a pesca significativas. As terras são férteis e boa parte da população vive da agricultura. Existem alguns pequenos córregos e nascentes, todos desgastados e

com possibilidade de poluição por agrotóxicos utilizados nas lavouras no entorno. Em alguns pontos não há acesso da população à água de qualidade, o que dificulta mesmo a manutenção de roças e plantações. Na aldeia estão presentes várias organizações religiosas. Muitas famílias são atendidas por programas federais de distribuição de renda. O objetivo da iniciativa é revitalizar um trecho de mata restante na aldeia Jaguapiru, onde importantes plantas medicinais podem ser colhidas; organizar e proteger o espaço onde várias plantas medicinais são cultivadas, identificar as espécies (com o nome popular, científico e guarani), construir canteiros e lançar um livreto bilíngue (guarani e português) com as receitas medicinais manipuladas tradicionalmente pelos guarani. Queremos com esta iniciativa preservar a sabedoria medicinal indígena, ajudar as pessoas que buscam tratamentos tradicionais e também auxiliar jovens com problema de alcoolismo e outras drogas, empregando-os na manutenção do espaço (roças, hortas, estrutura física etc.).

— TETXAI REKO KA'AGWY – NOSSA SAÚDE VEM DO MATO

— povo 

Guarani Nhandewa

terra indígena 

Caieiras Velhas

comunidade 

Boa Esperança

habitantes  local  proponente 

115

Aracruz - ES

Cacique Antonio Carvalho

terapêutica guarani. Toda a comunidade participará do projeto, que será coordenado pelas lideranças, anciãos, curandeiro e parteiras.

Wera Kwary contato 

caciquewera@gmail.com / (27) 9615-3111

iniciativa no 

848 

premiada

— A comunidade vive num espaço litorâneo com pequena área preservada de Mata Atlântica. O espaço e os recursos naturais não são suficientes para manutenção das nossas práticas culturais e por isso não conseguimos desenvolver nosso sistema de saúde, alimentação e educação, aumentando nossa preocupação com diferentes tipos de doenças que afetam crianças e os mais velhos. O objetivo desta iniciativa é manter e fortalecer nosso sistema de vida guarani vinculado ao equilíbrio ambiental, sendo que é desta forma que nós alcançamos o bem estar da comunidade no presente e para as gerações futuras. Serão incentivados rituais como batismo do milho e das crianças, valorizados os saberes e práticas da medicina tradicional, das parteiras, os conhecimentos e cuidados com as espécies da mata atlântica, assim como sua transmissão para gerações futuras. Para isso pretendemos adquirir espécies animais e mudas de plantas nativas para fazer um inventário das espécies. Também queremos construir uma farmácia indígena e elaborar uma cartilha de

MEDICINA TRADICIONAL CAXIXÓ

comunidade a partir do mel de abelhas. A comunidade está bebendo muito remédio da farmácia sendo que todos sabem fazer remédio com plantas e mel. Queremos com isso fortalecer um traço importante da nossa cultura. A parte principal do projeto é a compra de caixotes para produzir o mel. A manutenção do projeto é de toda a comunidade. Além disso, iremos ensinar para as crianças da escola a importância da medicina tradicional.

povo Caxixó terra indígena 

comunidade 

Caxixó do Capão do Zezinho

habitantes  local  proponente 

ainda não identificada e

reconhecida 100

Martinho Campos - MG Altair Teodoro da Silva / (37)

contato 

3524 - 6192

iniciativa no 

400

— A nossa comunidade vive numa área rural. A área ainda não é reconhecida como Terra Indígena, porém temos 5 hectares de território familiar. A condição ambiental da área é devastada, mas mesmo assim encontramos animais para caça. Temos um rio que passa na comunidade e proporciona a pesca. A comunidade cultiva mandioca, milho, cana-de-açúcar, hortaliças, frutas diversas, e também buscamos produtos na mata. Este projeto de medicina tradicional tem como objetivo resgatar os costumes de nossos antepassados para tratar as doenças da

FORTALECIMENTO DA OKHÁ-KAHAB: CASA DE SAÚDE, CURA E HARMONIA

— povos 

Pankararu, Pataxó e Pataxó Hã-hãhãe

terra indígena  comunidade 

em fase de identificação

Cinta Vermelha-Jundiba

habitantes  local  proponente  contato 

73

Araçuaí - MG

Antonio César da Conceição Braz gera.soares2012@gmail.com /

clncsilva19@gmail.com / (33) 3731 - 2116 / 3731 - 3926 / 9953 - 0943 / 9927 - 0062 / 9907 - 5113 iniciativa no 

627

— A Aldeia Cinta Vermelha-Jundiba foi fundada em 2005 por um grupo de famílias pankararu e pataxó. A área sofreu durante muito tempo o

209


210

iniciativa nº 849 – Fortalecimento das práticas de parto

tradicional e conhecimento sobre plantas medicinais

iniciativa nº 928 – Casa de Medicina Tradicional

Xakriabá

processo de desmatamento, exploração de minas, monocultura de eucalipto e barragens. A comunidade cultiva banana, mandioca, milho, feijão, hortaliças e pomar. Com o trabalho da aldeia grande parte da mata está sendo recuperada. Esta iniciativa pretende dar continuidade aos trabalhos realizados pela Okhá-Kahab - Casa de Saúde Cura e Harmonia. A concepção de saúde tradicional vem se fortalecendo com a participação em eventos, encontros e a interação com inúmeros conhecedores indígenas de plantas medicinais, parteiras, benzedores e raizeiros que dominam os conhecimentos da natureza. Foi realizado o primeiro encontro dos pajés durante o qual se evidenciou a importância de fortalecer a Casa de Saúde para evitar o consumo indiscriminado de remédios de farmácia, assim como para retomar práticas ancestrais como a produção de xaropes, chás e tratamentos com plantas, argila e na tenda de suor (sauna medicinal). Também a Casa de Saúde é proposta como centro de espiritualidade e de fortalecimento desta relação com a Natureza, onde o homem é parte da mesma e não superior a ela.

— FORTALECIMENTO DAS PRÁTICAS DE PARTO TRADICIONAL E CONHECIMENTO

SOBRE PLANTAS MEDICINAIS

— povo Xakriabá comunidade 

Sumaré I

terra indígena  habitantes  local 

434

Delzuita Araújo de

Andrade Pereira contato 

(38) 3613 - 0930 / 9846 - 6863 iniciativa n

o

Xakriabá

São João das Missões - MG

proponente 

reuniões quinzenais voltadas aos jovens. Junto com esta ação, iremos trabalhar o fortalecimento do conhecimento sobre plantas medicinais e a preservação do ambiente.

  849

— A comunidade vive em área rural que é reconhecida como Terra Indígena desde 1979. No entanto, nosso povo continua lutando pela demarcação total do nosso território tradicional. Embora na nossa terra ainda existam matas, sofremos com as queimadas nos períodos de seca. Ainda temos uma diversidade de animais, mas a grande maioria desapareceu por causa da caça dos não índios. O objetivo deste projeto é ter um ponto de referência onde as parteiras xakriabá possam passar os conhecimentos sobre partos tradicionais para os jovens da aldeia. Apesar de ainda ter muitos partos tradicionais, os mais velhos estão se acabando e nossa preocupação é de no futuro acabar a tradição. Por isto o projeto é uma maneira de fortalecer esse conhecimento tão importante para nosso povo. As atividades são a construção de um ponto de referência para as parteiras (casa) e a realização de 10

CASA DE MEDICINA TRADICIONAL XAKRIABÁ

— povo Xakriabá terra indígena  comunidade 

Xakriabá

Catinguinha

habitantes  local 

tudo isto está interligado com a mística presente em nosso cerrado. Junto com o beneficiamento e armazenamento de remédios tradicionais, faremos ações que contribuirão para a recuperação de áreas degradadas e a preservação de nascentes.

São João das Missões - MG

proponente  contato 

312

desenvolvidas pela nossa casa de medicina tradicional (reuniões, oficinas, trabalho de campo com os jovens), fortaleceremos a organização interna de nossa comunidade e da nossa espiritualidade, através do ensino e aprendizagem sobre plantas medicinais. A medicina tradicional do nosso povo não resistirá sem a presença de nossos pajés, de nossas parteiras, benzedeiras e rezadeiras;

Vicente Barbosa dos Santos

(38) 9930 - 5265 / 3613 - 1306 iniciativa no 

928

— A nossa aldeia está localizada na área rural de São João das Missões, no estado de Minas Gerais. Nossa área já foi bastante devastada. Hoje vivemos uma dura realidade e lutamos para preservar o pouco que nos restou e o desafio de tentar amenizar os prejuízos ambientais deixados pelos invasores. Esta iniciativa pretende valorizar nossa medicina tradicional através da transmissão dos nossos conhecimentos para os jovens, na conscientização dos nossos direitos, na defesa do nosso cerrado, na luta pela totalidade da demarcação do nosso território. Através das ações

FORTALECIMENTO, VALORIZAÇÃO E RESGATE DA MEDICINA INDÍGENA XAKRIABÁ

cerrado (tabuleiro). Hoje os recursos naturais não são mais suficientes para fazer casas, roças, roupas, artesanatos e remédios tradicionais. Muitos homens adultos ficam fora da aldeia por vários meses quando a colheita não é boa por falta de chuva, o que dificulta muito a sobrevivência da família e da cultura. Queremos que cada jovem no presente e no futuro conheça e saiba utilizar todas as plantas medicinais que se usavam antigamente, porque hoje em dia vemos uma desvalorização dos nossos remédios tradicionais e o uso cada vez maior dos remédios que o médico receita. Por isso, esta iniciativa tem o objetivo de construir uma casa de medicina, um local adequado para produzir remédios, onde os mais velhos poderão ensinar aos mais jovens sobre as plantas medicinais utilizadas pelos raizeiros e benzedeiras para curar várias doenças. Faremos também palestras e encontros entre os conhecedores e a comunidade para esclarecer da importância do uso dos nossos remédios.

povo Xakriabá terra indígena  comunidade 

habitantes  local 

8.540

São João das Missões - MG

proponente 

Daiane Gonçalves Alkmim

contato  iniciativa n

(38) 9815 - 9783 o

  955 

Xakriabá

Sumaré I

premiada

— Vivemos em uma Terra Indígena demarcada, formada por matas e

PROJETO ALDEIA INDÍGENA GUARANI ITAXIM

— povo 

Guarani Mbya

aldeia indígena  comunidade 

Guarani Itaxim

Guarani Itaxim

211


212

habitantes  local  proponente 

124

Paraty - RJ

Ronaldo Mariano Rodrigues

contato 

roguarani@gmail.com /

(24) 3371 - 4047 / 9850 - 2323 iniciativa n

iniciativa nº 170 – Projeto Aldeia Indígena Guarani

Itaxim

iniciativa nº 767 – Teroa Poã Dy Hovy - Plantas que

curam

o

  170

— A Terra Indígena está localizada dentro da Mata Atlântica, numa área ainda preservada, mas existem poucos animais para caça e pesca. A terra não é boa para plantação porque o lugar não é plano, é montanhoso, possui muita pedra e o solo é arenoso. Cultivamos milho, aipim, batata doce e banana. As ervas medicinais e os materiais para produção de artesanato, buscamos fora da aldeia. A comunidade resolveu tomar essa iniciativa porque é muito difícil encontrar aqui perto os remédios tradicionais. Algum tempo atrás nós ainda encontrávamos na beira da estrada e na mata, mas hoje não achamos mais remédios para dor de barriga, diarreia, febre e tosse. Por isso decidimos mandar um projeto de viveiro, para fazermos mudas. Foi realizada uma reunião com a comunidade e então foi decidido que iríamos apresentar um projeto de resgate das mudas e de construção de um viveiro, não só de remédios, também de palmito e árvores nativas. Assim, vamos ter remédios aqui perto e com a plantação de árvores nativas e frutíferas vamos deixar a aldeia mais verde.

POÃ KAAGUY

— povo 

Guarani Mbya

terra indígena  comunidades 

Tekoa Pyau e Tekoa Ytu

habitantes  local  proponente 

Jaraguá

por trocas entre aldeias Guarani. As hortas estarão em constante diálogo com os educadores indígenas para que o espaço promova seu papel de sala de aula viva.

Cristina Verissimo Cordeiro

contato 

(11) 98974 - 1403

iniciativa no 

720

São Paulo - SP

387

— A Terra Indígena Jaraguá, situada no bairro da Vila Clarice, em São Paulo, sofre hoje as contradições sociais de uma desordenada expansão urbana e industrial. Devido ao seu reduzido espaço e ao seu elevado índice populacional, a área foi quase que integralmente devastada, inviabilizando a curto prazo qualquer tentativa de agricultura em média ou grande escala. Sobrevivem apenas algumas árvores frutíferas plantadas de modo individual. Para os Guarani Mbya, as doenças têm causa espiritual e são diferentes das doenças contraídas pelos juruá (não indígenas). Tradicionalmente, além da ingestão dos remédios farmacêuticos, o doente deve ser recebido pelo pajé e trabalhar para que o mal seja curado. Temos como objetivo a construção de duas hortas de plantas medicinais para deflagrar uma retomada de valores práticos e espirituais. Uma parte do espaço será destinada para o cultivo de plantas Guarani, as quais não serão citadas como forma de proteger o conhecimento tradicional. As plantas Guarani serão obtidas

TEROA POÃ DY HOVY - PLANTAS QUE CURAM

— povo 

Guarani Mbya

terra indígena 

Ka Aguy Hovy

comunidade 

contato  iniciativa n

Ailton Garcia

(13) 9796 - 9331 o

  767 

Junto a isso se divulgará este conhecimento aos jovens da comunidade e também entre os não indígenas, buscando com isso aproximar mais a cultura indígena e a do não índio.

O objetivo da iniciativa é a manutenção do conhecimento ancestral sobre as plantas medicinais e o seu uso tradicional. As plantas estão relacionadas com os nomes das crianças, através da consulta aos mais antigos e sábios. O cacique, que também é agente de saúde, observou que a medicina tradicional vem aos poucos sendo substituída pela prática dos brancos. A partir daí, conversou com a comunidade e realizou um plantio de mudas de árvores consideradas sagradas para os Guarani. Dando continuidade a esta ação, esta iniciativa propõe a construção de um viveiro medicinal que servirá também como espaço para palestras e reuniões da comunidade. Essa iniciativa tem como objetivo incentivar uma maior utilização de plantas medicinais no dia a dia das pessoas, como ocorria antigamente.

37

Iguape - SP

proponente 

A água é de poço e de boa qualidade. Os impactos vêm da proximidade com os não índios e de sua agricultura, que utiliza fertilizantes e agrotóxicos nas plantações. A terra não dispõe de recursos para manutenção das práticas culturais, já que plantas medicinais, tintas naturais, madeira para artesanato e material para construção de casas típicas, como capim santa-fé, vêm de fora.

Jejy Ty

habitantes  local 

criando um espaço (e, futuramente espaços físicos, como um viveiro e uma casa), para o cultivo, armazenamento e manipulação das plantas. Visamos assim promover tanto o resgate do conhecimento da cultura indígena, em especial os conhecimentos da medicina tradicional, como viabilizar a sustentabilidade do uso de espécies botânicas articulado à medicina tradicional.

premiada

A comunidade fica na zona rural e ainda está em processo de identificação pela FUNAI. A situação ambiental da comunidade é privilegiada com uma razoável reserva florestal. O cacique e pajé da aldeia e sua companheira, são notadamente solicitados por indígenas e não indígenas de diversas localidades e aldeias da região para assistência espiritual por meio da cura tradicional – ervas e bendições. O objetivo desta iniciativa é preservar e promover este conhecimento acerca da medicina natural e espiritual, dando sustentabilidade e diversificando as espécies da área,

KERINGUE ARE XANHÃ FORTALECIMENTO DA SAÚDE DAS CRIANÇAS

— povo 

Guarani Mbya

terra indígena  comunidade 

Tekoa Jataity

Mbya Kuery

habitantes  local 

proponente  contato 

145

Porto Alegre - RS Jaime Valdir da Silva

gudacandrade@gmail.com / (51) 9174 - 4218 iniciativa no 

477

— A área é reconhecida e está um pouco preservada. Não tem animais de caça, mas a terra é boa para plantar.

— MEDICINA TRADICIONAL KAINGANG

213


214

povo Kaingang terra indígena  comunidades 

Cacique Doble

Campo Verde e Prata

habitantes  local  proponente 

930

Cacique Doble - RS

tradicional para a cultura indígena. Através desta iniciativa pretendemos realizar um levantamento das atividades de medicina tradicional na aldeia e também organizar um evento para transmissão de saberes.

Adilson Gar-Fej Manoel

Antonio Kaingang iniciativa nº 789 – Medicina Tradicional Kaingang

contato 

(54) 9938 - 2589 / 9645 - 4670 /

9986 - 5951 / 9919 - 7353 iniciativa n

o

  789

iniciativa nº 791 – Encontro de fortalecimento à medicina

tradicional kaingang

iniciativa nº 370 – Tchedjaryi Arandu

A situação ambiental de nossa comunidade é delicada, pois temos 30% de mata nativa, muito uso de agrotóxicos nas produções de agricultura, poluição nos rios, pouca caça e pesca. Temos poucas espécies de plantas para medicina tradicional e precisamos buscar em outras regiões. O objetivo desta iniciativa é o de proteger o conhecimento da medicina tradicional do povo Kaingang de Cacique Doble. O conhecimento é milenar, mas as pessoas mais velhas estavam morrendo e levavam consigo este conhecimento sem deixar para outros. A comunidade resolveu realizar esta iniciativa para preservar o conhecimento das pessoas mais velhas e não deixar morrer a cultura da aldeia. A maior dificuldade para realização desta iniciativa é a resistência de pessoas que usam a medicina convencional e a falta de interesse das pessoas mais novas em adquirir o conhecimento. Problemas estes que estamos resolvendo incentivando e conscientizando sobre a importância da preservação da medicina

ENCONTRO DE FORTALECIMENTO À MEDICINA TRADICIONAL KAINGANG

comunidades, dos pequenos aos mais velhos. O Kujà/Amã é o centro de uma ampla teia de praticantes e especialistas que integram o sistema xamânico kaingang. A medicina tradicional é nossa referência. É nela que está a essência da nossa vida. Por isso nós fazemos estes encontros: para lembrar nossos antepassados, comer nossas comidas, para nunca esquecer. Nesses encontros transmitimos os conhecimentos tradicionais dos mais velhos para as novas gerações, através da contação de histórias, dos cantos e danças tradicionais, das práticas de culinária, das conversas com as parteiras, os rezadores e os kujàs.

povo Kaingang terra indígena 

Tüpe Pën

habitantes  local 

contato 

120

Porto Alegre - RS

proponente 

Valdomiro Vergueiro

(51) 9610 - 7290 / 3311 - 0427

iniciativa n

o

ainda não reconhecida

aldeia 

  791 

premiada

— Nossa comunidade vive em área urbana, mas onde existem ainda espaços preservados de mata. A área está em reconhecimento pela FUNAI. Essa iniciativa pretende conseguir apoio para continuidade dos encontros que já acontecem há alguns anos entre nosso povo. A cada tempo, temos esse encontro para relembrar aquilo que nossos antepassados deixaram para nós. No encontro dos Kujàs fortalecemos nossa medicina tradicional e nosso sistema xamânico, para garantir a saúde de nossas

TCHEDJARYI ARANDU

— povo 

Guarani Nhandewa

terra indígena 

Mbiguaçu

Yynn Moroti Wera

aldeia 

habitantes  local  proponente 

148

Florianópolis - SC

Associação dos moradores

construção da BR-101, sendo que de um lado e de outro da rodovia existem famílias guarani e também áreas de roça. A área da aldeia é preservada, tem locais de mata, rios e cachoeira. O objetivo da iniciativa é continuar o processo de valorização das práticas culturais e espirituais realizadas na aldeia indígena. Em Mbiguaçu existem práticas espirituais realizadas quinzenalmente em cerimônias conduzidas pelo mais velho da aldeia. Nestas cerimônias são utilizadas medicinas nativas, danças e cantos guarani e sessões de cura. Além destas cerimonias, a aldeia realiza anualmente a chamada busca da visão – Kaa’guy Nhembo’e – aprendendo com a mata, uma cerimônia que ocorre durante todo mês de outubro. Queremos viabilizar a construção de mais espaços voltados especialmente para a troca de saberes entre as mulheres e sábias indígenas, revitalizando saberes ancestrais sobre parto, gestação, cuidados com as crianças, dietas e plantas medicinais que previnem e combatem males sofridos por mulheres e crianças.

Yynn Moroti Werá contato 

(48) 3285 - 1049

iniciativa no 

370

— A comunidade está localizada às margens da BR-101, trecho Norte, no município de Mbiguaçu, com 59 hectares. É uma Terra Indígena demarcada em 1996, e reconhecida pelo governo federal. É importante ressaltar que a comunidade foi dividida pela

A BUSCA PELA CURA

— povo Kaingang terra indígena  comunidade 

Toldo Pinhal

Toldo Pinhal

habitantes  local  proponente 

100

Chapecó - SC

João Maria dos Santos

contato 

(49) 8849 - 9592

iniciativa n

o

  775

— A Terra Indígena onde moramos se encontra na área rural e é bastante devastada. Nos últimos anos estamos recuperando a mata ciliar. Existem ainda animais para caçar e pescar. A terra é boa para plantação. A iniciativa visa o resgate do conhecimento, manuseio e cultivo das ervas medicinais, em um espaço próprio, que seria o horto medicinal, trazendo para a comunidade um resgate cultural que atenda aos anseios da mesma em relação à cura e prevenção de doenças. A iniciativa partiu de profissionais indígenas da área de saúde, como por exemplo, motoristas, enfermeiros, técnicos de enfermagem e agentes de saúde, devido às deficiências dos órgãos competentes na área de saúde. Por diversas vezes os indígenas buscavam medicamentos junto às redes municipais e a Secretaria Especial da Saúde Indígena/ SESAI, mas sem atendimento dos mesmos, partiam para busca de ervas medicinais. Toda a comunidade está mobilizada para dar sequência à iniciativa existente, propiciando a construção de um espaço próprio para o plantio e cultivo destas ervas. As mais utilizadas são marcela, cipó mil homens, arruda, camomila, gengibre e capim cidreira, além de espécies nativas, existentes na mata, que são de conhecimento próprio dos indígenas.

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217

— FESTAS, RITUAIS, CANTOS E DANÇAS —

Pankararu, PE / foto Renato Soares


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FESTAS, RITUAIS, CANTOS E DANÇAS —  121 INICIATIVAS INSCRITAS  —

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O FAZER DAS FESTAS: CONVIDADOS E ANFITRIÕES AMERÍNDIOS por André Drago

B

atismos, iniciações, casamentos, funerais, homenagens a líderes ou a parentes estimados, comemorações e manifestações relacionadas à luta pelos direitos indígenas, intercâmbios culturais, atividades de estudo, ensino e pesquisa, encontros de jovens, velhos ou xamãs, curas e pajelanças, rezas, benzimentos, sacrifícios, pescarias, caçadas, colheitas, refeições: eis uma amostra daquilo que reunimos sob o título “Festas, rituais, cantos e danças”. Conforme o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa1, festa é “reunião em que há regozijo”, “alegria”, ou seja, uma sorte coletiva de divertimento. Ritual, por sua vez, nomeia a “ordem prescrita das cerimônias que se pratica numa religião”, por extensão, o solene, o protocolar. Assim, o leitor poderia intuir tratar-se aqui de eventos públicos que, destacados do cotidiano, se distinguiriam, sobretudo, a partir da oposição profanosagrado: de um lado, alegres e espontâneos festejos, de outro, austeros e metódicos ritos – cantos e danças presentes, aqui e acolá, à guisa de elementos. Contudo, aquilo que os ameríndios designam ora como festa, ora como ritual, por vezes, de cerimônia, ou ainda, como jogo e brincadeira, é a um só tempo tudo isso e, por consequência, nada disso, nem confusão nem fusão, e sim um transbordamento das categorias com as quais segmentamos e organizamos nosso entendimento e nossas vidas – sagrado e profano, como já disse, mas também público e privado, trabalho e

1  www.priberam.pt/DLPO/

lazer, produção e consumo, mundano e sobrenatural, cotidiano e extraordinário etc. Nos mundos ameríndios os recortes – não é novidade – são outros; cumpre não sucumbir à familiaridade suscitada pelo processo de tradução: o que se encontra em pauta não é o que chamamos de festa e/ou ritual, mas o que eles chamam de festa/ritual/cerimônia/jogo/brincadeira etc. – questão em aberto e à qual, ao longo desse texto e através dos resumos que o seguem, dirijo o leitor. Já antevendo nossas dificuldades, os proponentes indígenas cuidam de instruir-nos. Folheando o catálogo, notar-se-á a distribuição temática de seu conteúdo; tal arranjo, conveniente para fins de exposição, procura, ademais, dialogar com os desafios aos quais os vários projetos submeteram nossas expectativas. No ato de inscrição, fornecemos aos autores uma lista de “temas contemplados por sua iniciativa” – correspondentes, grosso modo, àqueles que presidem as divisas deste volume. Nesse sentido, a especificidade dos materiais que compõem a presente seção parece consistir, instrutivamente, de sua completa inespecificidade: em boa parte dos projetos aqui reunidos e resumidos, todos os temas foram assinalados. Tal “característica” resulta, convém dizer, não de uma pretensa inépcia ameríndia na lide com noções e esquemas que lhes seriam alheios, mas, ao contrário, de consciencioso e bem fundamentado manuseio, destinado, precisamente, a inibir a intuição contra a qual nos precavemos logo acima. Cedo-lhes a palavra: segundo os caxinauá da comunidade de Mutum, “não é só uma coisa, é tudo”, “as cerimônias”, “o espiritual”, “o artesanato”,


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iniciativa nº 637 – Shiwo jäkä wänwanäje woowanoomanä:

Festejar para conhecer e aprender, Yekuana, RR

iniciativa nº 126 – Fortalecimento da Festa Tradicional e Cultural “Dasipsê”,

Xerente, TO

iniciativa nº 502 – Festival Katxa Nawá (força dos legumes), Huni Kuin, AC

“as plantas medicinais”, “os sonhos e as histórias” e até a construção de um “Centro Cultural”, “todos estes conhecimentos estão ligados, juntos na mesma tradição” (AC 807); “todo o cotidiano do nosso povo está relacionado aos rituais, desde o plantio e colheita dos alimentos até o nascimento e crescimento dos indivíduos, através das pinturas corporais, da arte, dos cantos, danças etc.” (MT 921); conforme os indígenas da aldeia de Massacará, nas festas, para as festas e como festa, são mobilizados e conjugados “todos os fazeres e saberes dos Kaimbé” (BA 374). Mesmo quando a marca recai sobre um só “tema”, digamos, “músicas, cantos e danças”, a multiplicidade que nos desafia transparece apenas deslocada: “a música manchineri está em muitos de nossos costumes: medicina, festas, histórias, rituais” (AC 756); “a música interage com a dança e trabalha todos os elementos da cultura pataxó, proporcionando rituais, confecção de artesanatos, adereços etc.” (BA 294); “ao cantar, trabalhamos não só a língua, mas também o conhecimento da coleta dos materiais usados para fazermos chocalhos. Na mata, quando se coleta, aproveitamos para trabalhar as plantas, os animais, os remédios etc. Para os Kaingang, muitas danças e músicas são rituais” (PR 882). Entre os ameríndios, dir-se-ia, de um tudo se faz festa e os festejos parecem realizar um impetuoso “tudo ao mesmo tempo agora”. Mas o que fazem suas festas? A nós, a pergunta desconcerta. Nossas festas, fins em si mesmos, consistem do nada fazer; pausas nas cadeias produtivas em que trabalhamos cotidianamente, são instâncias do lazer e do consumo que, no máximo, co-memoram, isto é, trazem à memória, feitos por definição pretéritos, consumados. Nesse tocante, o contraste não poderia ser mais forte. Os “batismos” ameríndios não se atêm ao mero reconhecimento social ou à consagração de um novo vivente humano e de laços de parentesco já dados na biologia do ato procriativo. Diversamente, trata-se de produzir por meio da nominação, e também mediante a agência de pinturas corporais, ornamentos, alimentos, cantos, danças etc., a transformação de um corpo

ainda adventício e indefinido num corpo “humano”, de parente. Tal processo de fabricação da pessoa se espraia vida adentro. Coisa bem distinta da simples expressão simbólica da cronologia ou fisiologia da puberdade e do amadurecimento, de uma solenização do desenvolvimento autônomo do indivíduo à idade adulta, os chamados “ritos iniciáticos”, recorrendo a procedimentos análogos àqueles há pouco mencionados, efetivamente adulteram meninos e meninas para torná-los homens e mulheres. Quanto ao funeral, não se reduz à constatação cultural da natureza indiferente e inelutável da morte, mas visa perfazer a comunidade dos vivos, isto é, suas vidas, e a dos mortos, bem como as diferenças que balizam as relações entre ambas. De certo modo, dá-se aqui o inverso daquilo que ocorre nos “batismos”: deve-se transformar o humano e parente cujo corpo, defunto, principia a convertê-lo noutra coisa, num Outro pleno – naquilo que somos tentados a designar como “espírito” ou “alma”. Preocupados com a devastação da Mata Atlântica, os Maxakali, ilustrando-nos com a potência de suas festas, asseguram que “a flora e a fauna tradicionais da região continuam existindo nos cantos-yãmiyã”, e que, portanto, para preservá-las e multiplicá-las é preciso cantar, pois, “na verdade”, “não são os recursos naturais que ajudam a manter as práticas culturais, mas, ao contrário, são nossas práticas que mantêm todo um ecossistema, uma geografia, uma sociabilidade” (MG 67). Ora, em mundos em que a condição humana pertence à ordem do feito e não do fato, o próprio mundo, a “natureza”, “não é um espaço inerte de exploração econômica, mas uma entidade viva” (RR 874), povoada de sujeitos “não humanos” com os quais, para reproduzirem-se os homens e seus mundos, é necessário festejar. Tudo isso pode parecer por demais exótico ao leitor, ou, pior, metafórico, mas, garanto-lhe, é realmente eficaz. Outros efeitos, aparentemente mais ordinários, também decorrem das/nas festas: o “repasse dos conhecimentos dos mais velhos para os mais jovens”, o “fortalecimento da luta pela demarcação de terras”, a

“geração de oportunidades de capacitação dos jovens”, a “sensibilização contra a discriminação sofrida pelas populações indígenas” etc. Dessa perspectiva, onde se lê, como em alguns resumos, a propósito do desempenho das festas na “revitalização/resgate/preservação” dos “costumes/tradições/identidade étnica/culturas”, trata-se, como lemos em outros, mais de “realizá-los”, “fortalecê-los”; em uma palavra, de “vivenciá-los”. Enfim, de um tudo as festas ameríndias fazem – relações, pessoas, grupos. Desnecessário, portanto, salientar-lhes a importância: “se nossos rituais enfraquecem, nós também enfraquecemos” (AL 1041); “são os rituais que asseguram a existência dos Enawenênawê” (MT 364). Assim, quando “etnogêneses” – a “ressurgência” de grupos indígenas cuja indianidade a “sociedade envolvente” e/ou o Estado brasileiro por décadas sustaram – “são acompanhadas da busca por uma ‘festa’ a distinguir o grupo, são propriamente ameríndios seus modos e motivos: é festa o princípio relacional distintivo e o que distingue um grupo é sempre apreendido com gente outra” (Perrone-Moisés, no prelo)2. Em um aspecto, nós e eles, convergimos: não se festeja sozinho. “É fundamental” (MT 707), “indispensável”, a participação “de parentes e convidados de outras aldeias e Terras Indígenas” (AL 1035), “o que gera muita amizade, união e fortalecimento cultural” (AC 259). É preciso receber, e bem receber – eis o fundamento de muitas das iniciativas apresentadas adiante. “A comunidade Santo André é que realiza a festa, mas vem o pessoal de fora, das aldeias Rio Negro, Tanajura, Bom Futuro; eles vêm preparados com as músicas deles, mas quem se preocupa com a caça e com a pesca para dar pra esse pessoal todo é a comunidade Santo André” (RO 713); “é preciso

2  Aproveito o ensejo para agradecer a autora pela cessão do texto ainda inédito e em elaboração. Ademais, para além do modesto tributo em que consiste a citação, gostaria de tornar clara e manifesta a dívida que com ela contraí ao apropriar-me tão amplamente de seu excelente trabalho na redação dessa apresentação.

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iniciativa nº 874 XAPIRI: Valorização do Xamanismo Yanomami, RR

oferecer comida em abundância” (TO 728) aos convidados, muito embora, devido aos desmatamentos e a outros problemas ambientais, faltem “recursos para a aquisição de alimentos” (TO 723) e também “matéria-prima para a produção de vestes e instrumentos sonoros utilizados na dança” (SC 778). Mas não só de banquetes se faz um anfitrião e sua festa: cabe-lhe, igualmente, “deslocar e acomodar os participantes que vêm de aldeias distantes” (AM 961) e, com frequência, “o transporte é caro e falta uma casa para hospedar” (AC 773) os visitantes e o próprio evento. Num artigo escrito em 1942, visando refutar o pretenso isolacionismo ameríndio e destacando importantes nexos “comerciais”, matrimoniais, cerimoniais etc. entre grupos, bem como o gosto vivo dos “selvagens” por indústrias estrangeiras, o antropólogo Claude Lévi-Strauss incorre numa formulação de interesse: “já assinalamos as trocas comerciais entre as tribos, que tomam muitas vezes a forma de jogo, tal como o jogo de leilões. Reuniões de luta esportiva têm também seu lugar entre os membros de diferentes grupos; as aldeias convidam-se reciprocamente na celebração de suas festas. Pode ser que estes convites não tenham somente o valor de um gesto de polidez ou de um apelo para a abertura de negociações comerciais, mas que apresentem uma verdadeira necessidade ritual. Certas cerimônias importantes, como os rituais de iniciação, parecem, com efeito, que só podem ser celebradas com a cooperação de um grupo vizinho” (Lévi-Strauss, 1942: 135). O ponto não era outro senão aquele pertinente ao papel constitutivo da alteridade – isto é, da diferença, do Outro – nos dispositivos ameríndios de subjetivação, na (re)produção de pessoas e grupos, de suas “identidades” e transformações. A mitologia ameríndia corrobora fartamente a ideia de que bens e práticas distintivos da(s) cultura(s) teriam sido adquiridos “de fora” – assim, por exemplo, o fogo roubado do jaguar, as plantas cultivadas doadas pela mulher-estrela, os nomes próprios apreendidos de uma tribo de inimigos canibais etc. Pois bem, a “história objetiva” desses

povos, o cotidiano – as festas inclusas –, representam, ou melhor, efetivam uma continuação desse processo voltado à obtenção de saberes e potências junto a outras gentes – animais, espíritos, antepassados, deuses, os brancos, grupos indígenas vizinhos etc. Disso, não carecemos de evidências: “a transmissão de nossos saberes ocorre nesses momentos de festa” (TO 1052), “trazemos velhos, pajés, cantores e pintores de outras aldeias apurinã, bem como parentes de modo geral, para passarem seus conhecimentos” (AM 576); “desejamos […] pesquisar com nossos parentes, os Manchineri do Peru, o povo Piro, detentor de grandes conhecimentos ancestrais ainda vivos em suas comunidades, trazendo alguns deles para nos visitar” (AC 756); “nossos parentes waura nos ensinarão a origem e o mito desta história do casamento [tradicional], a fazer e a tocar as flautas sagradas, a dançar ao som dos cânticos”, “então, realizaremos o primeiro ritual de festa de casamento em nossa aldeia” (MT 908); “os nomes mbyá devem ser revelados pelos Karaí e Kunhã Karaí, mas nem todos possuem essa habilidade espiritual. O auxílio do Prêmio possibilitará trazer os Karaí e Kunhã Karaí que possuem essa habilidade para que realizem essa cerimônia específica” (RS 164); “precisamos de estrutura, organizar as coisas para os txai convidados de outras aldeias e terras, Huni Kuin e não Huni Kuin. Nós temos de buscar os conhecimentos, correr atrás. Pegamos um pouquinho; ainda não deu pra gente pegar tudo”, “temos que juntar os txai, porque não é conhecimento de uma só pessoa” (AC 773). Agora podemos melhor ajuizar o semblante ritual dos festejos ameríndios, eventos nos quais, estendido o convite a sujeitos que qualificaríamos “não humanos”, se atualizam relações que, por conseguinte, teimamos designar “sobrenaturais”, localizando-as no domínio da crença, da religião. Todavia, em se tratando de diferença – e da produtividade das diferenças –, não é distinta a (sobre)natureza de estrangeiros “reais” e de “espíritos” de animais e plantas ou de “almas” de antepassados supostamente imaginários. A ambos, o

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iniciativa nº 194 – Produção Memorial Mebegokre, Povo Kayapó, subgrupo

Mekrangnotire, PA

iniciativa nº 847 – Construindo e resgatando valores étnicos, Sateré-Mawé, AM

iniciativa nº 917 – Revitalização das práticas culturais do Kadoety, Kurâdomodo,

Kurâ Bakairi, MT

anfitrião deve a mesma generosa hospitalidade: “no ritual Yaõkwa […] são consumidos mais de 30.000 quilos de peixe durante as oferendas aos espíritos Yakairiti” (MT 364). De ambos, espera-se apropriar saberes-capacidades aptos, por força de sua alteridade, a (re)produzir e alterar a vida social: “sempre nossa cultura chama o espírito dos legumes”, “nesta prática tão antiga e importante para nosso povo, fortalecemos nossa cultura pedindo a força dos yuxibus (forças da natureza, espíritos)” (AC 502). No já mencionado ritual maxakali kômãyxop, “legiões de espíritos”, “eles mesmos seres da natureza – animais, insetos, plantas etc. –”, vêm “comer e dançar nas aldeias”, “trazendo com eles uma infinidade de cantos-yãmiyã com os quais festejamos”. “Os yãmiyã [cantos-espíritos] têm ainda um poder curativo, ajudam os doentes, razão pela qual não podemos esquecê-los e deixar de recebê-los e alimentá-los” (MG 67). Enfim, ambos, todos, alegram-se conjuntamente no festejar. Até mesmo os brancos: “a luta pela terra deixou muitos da comunidade desanimados; por causa da guerra, o toré foi deixado de lado. Falta aquele toré forte para levantar todo mundo, para mostrar para o branco a força da nossa cultura. Aí, ele fica tranquilo na aldeia, sem falar muito, respeita nosso jeito”, “aí, o branco assiste e diz ‘nossa, é toré do milho mesmo, e não um torézinho’, ele sente os espíritos” (DF 520). Ora, nós, “os brancos”, nossos conhecimentos e aptidões, não são menos exógenos – e, muitos deles, desejáveis – que aqueles possuídos e praticados pelos espíritos yãmiyã maxakali ou pelos yuxibus caxinauá. Convidando-nos, aos ameríndios interessa, de um lado, “alegrar-nos”, apaziguar-nos por meio de suas festas – “esforços de conscientização e contra discriminação” (AL 605) –, e, de outro, “alegrarem-se”, adquirir “materiais que, devido ao contato com a população do entorno, tornaram-se necessários para realização dos amjëkin [festas tradicionais]” (TO 1052). Dos convivas yãmiyã esperam-se, em contrapartida, cantos e curas, dos yuxibus, vitalidade, dos brancos, ao que parece, espera-se, sobretudo, “tecnologia para

registrar os conhecimentos” (AC 773), equipamentos para a “gravação de DVDs e CDs” “contendo músicas e poesia tradicionais, depoimentos e pesquisas com os mais velhos”, “danças, brincadeiras, rituais, pinturas, artesanatos” (MG 963), além, claro, de “apoio financeiro para a compra de combustível e alimentação” (RO 713), de recursos para construção de “casas de reza” (SC 784) ou “de cultura” (MG 793) e, se possível, prêmios culturais. Ora, “as culturas são dinâmicas” (MT 364). Assim, no que diz respeito à verdadeira obsessão ameríndia por “registros audiovisuais” – a ser utilizado na “produção de material didático” (MT 915), “na divulgação de nossa cultura para fora” (AC 159), para que, “ao invés de brigar, falando para desligar a televisão”, os velhos guarani possam mostrar aos jovens “o filme de nossa cultura” (RJ 878), em suma, para “dar continuidade às culturas” (MT 919) –, não se deve remetê-la à antinomia tradição-inovação, pois, para eles, trata-se simplesmente de manter-se mutantes, de continuar “pegando” conhecimentos outros – a filmagem e as câmeras, por exemplo – que, transformando-os, lhes permitem seguir sendo si mesmos. A nós, cabe responder aos convites ameríndios com cortesia e reciprocidade; certos de que é ingênuo e insuficiente o intuito de “celebrar as diferenças”, festejemo-las.

— REFERÊNCIAS PERRONE-MOISÉS, Beatriz. “Festa e guerra” (no

prelo). LÉVI-STRAUSS, Claude. 1942 “Guerra e comércio entre os índios da América do Sul”. Revista do Arquivo Municipal de São Paulo, 8(87):131-146.

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"O MUNDO É UM MARACÁ" Entrevista com Getúlio Kruakrai Krahô

N

o dia 23 de abril de 2014, Valéria Macedo foi ao encontro de Getúlio Kruakrai com uma pauta repleta de perguntas sobre festas e cantorias krahô, mas ele preferiu falar sobre a vida num sentido mais amplo. Contou sobre suas andanças e reflexões sobre as relações entre os mehin e kupē, como os Krahô chamam a si mesmos e aos brancos, respectivamente. Estava em companhia de Olegário, senhor krahô morador de outra aldeia e reconhecido cantador. Ele referiu-se a Olegário e a si mesmo como bibliotecas dos krahô, a um só tempo equivalendo e contrastando os saberes kupē guardados nos livros e os saberes mehin, em que é pelos corpos que o conhecimento circula e se acumula. Mesmo que não fale só de festa, a narrativa de Getúlio traz os efeitos de uma festa. Quem ouve não quer por nada sair dali, ao mesmo tempo que vai sendo transportado para vários lugares e tempos. Getúlio faz uso da língua portuguesa como um território estrangeiro no qual experimenta a alteridade dos brancos, ao mesmo tempo que explora as possibilidades criativas desse encontro entre diferentes, como nas festas. Nessa direção, é plena de sentido sua afirmação de que a grande diferença entre kupē e mehin está no som.

Getúlio Kruakrai / foto: Valéria Macedo

— VALÉRIA  Antes de ouvir sobre as festas krahô, gostaríamos de saber um pouco sobre o senhor. GETÚLIO  Meu nome é Getúlio Kruakrai e moro na Terra Indígena Kraolandia. Eu sou Krahô, mas mamãe era Kanela encarnada, e começou a correr para cá com medo de uma briga com fazendeiro. Ela casou com filho de Xerente. Mas eu não sou nem Xerente nem Kanela, sou Krahô. Minha mulher é da família do Kanela também. Eu já rodei muito, já estudei até o segundo Mobral, com o padre. No tempo do Juscelino, eu fui até Brasília e caí fora da aldeia. Fui fazer visita lá no Apanyekra1, depois fui para a capital do Maranhão. De lá fui para o Ceará, e de lá para a Paraíba, e depois no Pernambuco. Aí eu fiquei no batalhão indígena. Eu tinha 12 anos, não tinha nada na minha mão, minha identidade era minha cara e meu cabelo, e o corpo. Eu fiquei no batalhão para poder servir

1  Povo Timbira, como os Krahô.

a polícia mehin. Mas o padre chegou e me ofereceu o colégio dele. Eu fui no colégio do padre, estudei um pouco. Aí o padre me convidou para fazer uma campanha para as crianças. Por causa de mim, o colégio foi movimentando na campanha, todo dia, toda noite a gente fazia aquela reza “Ave Maria, cheia de graça...”. Então comecei a adoecer, porque isso não é minha religião. Cada um de nós temos a nossa religião. O Pït 2 até hoje está me ouvindo, está percebendo a minha religião. Eu adoeci de tanta reza e campanha, fui para o hospital. Foi tanto os visitantes que chegaram... Um dia eu estava sentado e o konkó chegou... O passarinho começou a cantar: ‘Konkó, koã...’. Aí eu senti que estava perdido, longe da família, sem um GPS para poder indicar onde é que era meu lugar. Pensei: ‘Eu já estou perdendo meu idioma, as cantorias, os negócios dos pajés, aprendizado do português é mais avançado e eu não entendo, não conheço as burocracias no escrito, no papel. Não, não vou ficar aqui’. Depois que o doutor deu alta para mim, fui embora. Quatro anos que eu estava fora da aldeia, de 1960 a 63. Lá na escola do padre tinha etnia do Fulniô, e eu fiz os contatos com uma menina para poder eu casar. Mas o negócio dos casamentos é diferente do que é para a gente... ‘Eu vou apanhar depois do grande,

2  Pït é o principal herói mítico dos Krahô. É o Sol, companheiro e amigo formal de Lua (também do sexo masculino), chamado Pudluré. Os dois não criaram o mundo, que é algo dado, mas o modificaram, ao longo de sua aventuras [informação de Júlio Cesar Melatti].


eu não vou não!’. A mesma coisa aqui nos Krahô, eu fugi foi duas vezes por causa dos negócios de torão de batata...3 Eu comecei de fugir duas vezes, mas meu sogro correu atrás de mim e fui obrigado a casar. Eu casei e depois nós fomos para Belo Horizonte para poder ser da cavalaria. Ensinaram como a gente prende o criminoso, como é que a gente faz nossos trabalhos, nós aprendendo... Eu e Olegário entramos na Guarda Indígena, e o que foi que nós aprendemos? O governo entregou arma para um índio matar o outro, e assim o governo poder roubar a gente.

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V  Eu aprendi que os Krahô chamam as festas de amjikin, que significa ‘se alegrar’. Por que fazer festa é tão importante na vida dos Krahô? G  É muita coisa, Valéria, muita coisa! A tradição, a cultura, veio do céu por causa do Tïrkrē 4. Através do espiritual, como pajé aprendeu e ainda é assim, amjikin do Krahô é a imitação do Tïrkrē. Amjikin dos Krahô não morre não! Não é fácil de morrer! Tem o pembkahëk e o khetwaye para os novos, tem o põnhuprô (festa do milho), tem përti (festa da batata doce), tem khöigayu (do marreco), hëk (gavião), wïtï (moça ou moço homenageado)... O Tïrkrē deixou a imitação, e até hoje nós estamos imitando. O mundo é o maracá. A sementes que estão dentro do maracá fazem os movimentos, as respirações do ar. Não tem os furos do maraca? Então... isso, a imitação que o Tïrkrē deixou na história, do que ele começou, deixaram para nós. Eu,

3  Em referência a trocas de alimentos implicadas nos casamentos.

fotos: Valéria Macedo

4  Personagem de narrativas míticas que, picado no interior da orelha por uma formiga, foi levado ao céu pelos urubus para ser curado. Lá ganhou dos gaviões poderes xamânicos e aprendeu o rito de Pembkahëk. Voltou à terra como xamã e ensinou o dito rito. Ele aparece em outras histórias. A menção posterior à imitação deve-se ao modelo deixado por Tïrkrē para a festa de Pembkahëk e para o xamanismo. [informação de Júlio Cesar Melatti. A respeito de Tïrkrē, ver os seguintes artigos do autor: “O mito e o xamã” (http:// www.juliomelatti.pro.br/artigos/a-xama.pdf ) e “O julgamento dos mitos” (http://www.juliomelatti.pro.br/artigos/a-julgamito.pdf )].

Olegário e outros mais adultos somos a biblioteca dos mais novos. O livro não está na biblioteca? Nós somos a biblioteca dos Krahô. Hoje a biblioteca está fazendo seus movimentos de todas as maneiras, fazendo projeto, buscando ajuda. Você já estudou com Manuela? Por causa dos Krahô que a ensinaram, ela aprendeu e virou professora. Melatti também5. Então é importante a gente ver como pode trabalhar emparceirado. Já estou com 67 anos, já sou aposentado, já estou ganhando dinheiro do governo. Eu quero me aquietar. Eu e Olegário estamos articulando para lecionar na escola.

faz o paparuto de puba. Na minha vida eu nunca acostumo de comer arroz, na minha vida é somente puba. Arranca as mandiocas, joga dentro d’água, deixa amolecer, descasca, joga tudo na palha para poder enxugar bem, ficar bem sequinho. Coloca a mandioca no pilão, soca, soca, bota um pouco de água, joga na panela. Se quer comer mingau, come mingau, se quer, come o grolado. Bota o grolado na vasilha, deixa esfriar. Pode ter carne ou não precisa nem de carne, se não quiser. Não carece jogar pimenta, nem sal. Somente água e o grolado. Esse é costume meu, que eu aprendi.

V  Por que é importante ter convidados de outras aldeias nas festas? G  Isso nunca ninguém explicou, mas eu vou explicar. Sabe por quê? Por causa das moças! Tu é meu filho, nunca foi na aldeia do Olegário, não conhece a rapaziada de lá. Mas se convidarem para festa, nós vamos para a aldeia do Olegário. Meu filho vai poder participar da festa de lá e talvez até encontrar esposa. É por isso que todo mundo é cruzado, é unido. O problema é que hoje os meninos de 12 anos já estão entregando muito cedo! Não aprenderam a caçar, não aprenderam nada ainda e já estão casando. Aprendizado com kupē... Quando eu comecei a namorar com a minha mulher, eu nunca tinha dado beijo. No aprendizado dos novos hoje, já começa de beijar, de dar a língua, aprendizado dos brancos... Não tem mais respeito.

V  Além de as pessoas se encontrarem e as famílias se cruzarem, como as festas também transformam as pessoas, por exemplo fazendo da criança um adulto? G  Ikréré6 é aprendizado que Krahô perdeu, mas nós nos vamos recuperar. A rapaziada fica presa para poder crescer rápido. Toda hora a mãe, a família, dá o de comer. Tem que ter cana, banana, a batata, arroz, tem que ter favo, tem que ter a carne. Com 12 anos, passa três meses só se alimentando, cresce rápido. Isso que os Krahô perderam, mas nós vamos capacitar de volta. Os meninos de 12 anos, quando termina ikréré, já são homens, já pegam um peso de tora nas costas de 80 quilos, 100 quilos.

V  A comida, o paparuto nas festas, também é importante para esse cruzamento entre as famílias? G  Na festa das batatas, a noiva faz um paparuto de um metro e meio de comprimento e largura. Aí as famílias tomam conta. Se for a sua família, o paparuto vai chegar na porta do seu noivo. E o paparuto do seu noivo vai chegar na casa da sua família. A gente

5  Em referência aos antropólogos Manuela Carneiro da Cunha e Julio Cesar Melatti.

V  E como é a participação dos animais, ou dos espíritos, ou de outras gentes nas festas? G  Eu acho que amjikin já puxa a pessoa. As pessoas não são diferentes. Só por causa do ciúme que os povos vão se separando. No Krahô tem a festa com a metade do marreco, a metade do gavião, e tem outras... Deu vontade de ir para o mato e dar uma chamada para poder você ver como eu faço uma chamada e alguns bichos já respondem. A gente canta para poder chamar um passarinho bico de brasa, de fogo, canta assim... [entoa uma melodia]. Com isso

6  Ritual de iniciação à vida adulta.

229


ele responde logo. Se vai chamar um beija-florzinho, que é um portador, começa a cantar a chamada, e o portadorzinho já começa a cumprimentar. Então é por isso que os Krahô não querem entregar a cultura, largar tudo.

230

Olegário Krahô / foto: Valéria Macedo

OLEGÁRIO KRAHÔ:

"N

a nossa tradição, amjikin, as festas, eu sempre fui aprendendo com meu avô, explicando, contando. Estou retornando para o sobrinho, neto, criança, quem vai segurando para não esquecer nosso avô. Nós estamos gravando nossa vida, se interessando. Gravamos amjikin, passamos duas noites. Queremos fazer CD, DVD e livro para o professor ir explicando no livro dos kupē e dos mehin também. O dia que eu for deixando minha família, já foi tudo carregado, gravado. Meu estudo é este.”

V  O que é mais diferente entre os amjikin e as festas dos brancos? G  Importante mesmo é o amjikin. As festas dos brancos têm tantas coisas dentro: pinga, briga e som que quebra a cabeça da gente. Nas festas dos brancos os espíritos não chegam por causa do som. Esse negócio de som afeta muito. Kupē pensa que sabe o que é o espiritual, a festa, o de comer, mas não sabe. O kupē já tomou conta de todas as coisas dos índios. O chimarrão não é do índio? A maconha não é do índio? Português ensinou e os índios começaram a tomar bebida alcoólica. Quando Pedro Álvares invadiu, trouxe as doenças, os ladrões, trouxe a miséria toda. Naquela época, ninguém sabia falar português. Hoje não. O governo já está de olho em cima da terra dos Krahô. Barragem já está na frente, então enchente... eu fico preocupado. Enchente já dá no rio Tocantins, com as barragens que já tem. É um conflito muito grande. A terra do português já está muito invadida, não tem nem como viver mais. O português já está dentro do Brasil há mil e quinhentos anos, por isso a terra já está muito pesada. O Brasil só tem respeito por causa do quilombola e do índio. V  As festas krahô estão mudando? G  Está mudando porque os mais novos não querem saber de trabalhar, querem saber só de estudar. A mulher também ganha auxílio do Bolsa Família por causa dos filhos. Não planta, não caça, não pesca, não tece esteira. A essa hora, só quer saber de encher barriga com a comida do kupē, comprada no mercado. Português ensinou muitas coisas errado! A história de energia elétrica, de casas populares, o som, o forró, o perfume. As meninas da cidade falam ‘eu vou namorar com esse índio, esse índio é bonito e eu tenho

condição’. Os novos não se importam com nada, eles querem as meninas. Os brancos se interessam pelas índias também. Hoje já tudo misturado. Mas eu não quero criar os filhos dos brancos não! Quem quiser casar com os brancos, procure os seus caminhos, viva fora da aldeia. Se os brancos querem ficar, fica, mas não vamos atrapalhar. Como os brancos têm lei, nós temos lei também. Os brancos têm político, nos temos nossa política também. A aldeia é um círculo e bem no meio é nossa assembleia. Todas as coisas a gente conversa lá, que nem na assembleia do kupē. Amjikin, lá também, é khetwaye, pembkahëk, é përti... V  Qual a diferença mais importante entre mehin e kupē? G  Entre a gente tudo é igual, o corpo, o sangue, o umbigo, o calcanhar. Ninguém tem o nariz para trás, nem o calcanhar para a frente. A diferença é por causa do som, o som na fala e uso do plural, é isso que não se combina. A gente fica pelejando para tirar nossa identidade, mas primeiro não era essa identidade que nós tínhamos, o RG, o CPF. Por causa do RG e CPF nós somos cidadãos. Mas nós não somos cidadãos! Os cidadãos são kupē, nós somos mehin! O Krahô é muito paciente, nunca teve problema por quem está governando, quem está organizando, o kupē, que eu falo. Tantas etnias são mais avançadas na alfabetização do que o Krahô... Outras etnias já têm advogado, promotor, deputado, e os Krahô não têm. O Krahô é muito atrasado no idioma do português, mas tudo que aprendeu com o português foi má educação. Krahô aprendeu a comer os mantimentos com cebola, com coentro, temperado. Isso prejudica o corpo da gente, enfraquece. Mesma coisa a bebida alcoólica. A bebida alcoólica entrou e hoje cada vez mais está matando os Krahô, enfraquecendo. No tempo do Juscelino, quando ele foi chegando em Brasília, os índios eram isolados, não tinham contato com os portugueses. Os fazendeiros atacaram a aldeia, só sobreviveram 50 Krahô. Não sabiam falar português para poder defender a regra

dos índios. Hoje já é diferente. Hoje, 2014, já temos três mil e poucos Krahô. Mas como é que vai ser a vida dos novos? A terra é muito pequena e já tem 28 aldeias, quem sabe amanhã, mais pra frente, vai aumentar mais, então como é que cultura vai ficar? Como é que a vivência dos Krahô vai ficar? Vai virar os brancos? Eu acho que não vai.

231


232

— VIVÊNCIA E VALORIZAÇÃO DA CULTURA KOIUPANKÁ: RITOS DO PRAIÁ

INICIATIVAS FESTAS, RITUAIS, CANTOS E DANÇAS iniciativa nº 414 – Vivência e valorização da cultura

koiupanká: ritos do praiá

— povo Koiupanká terra indígena  aldeias 

não demarcada

Roçado (296 habitantes),

Baixa Fresca (74 habitantes) e

ritualizada. Com isso, procuramos promover a felicidade de nosso povo em sentir a vivência em comunidade da forma dos antigos, não deixando morrer nosso bem mais precioso. Proposta por seu líder religioso e abraçada pela comunidade, a iniciativa visa fortalecer os rituais sagrados através da renovação das vestes dos praiás, o que requer a extração e transporte de matérias-primas (maior dificuldade, dada a situação da Terra Indígena), a confecção de novas vestimentas rituais e a manutenção das antigas.

Baixa do Galo (191 habitantes) local  proponente  iniciativa nº 421 – Karuazu Fortalecido

Maria Jane Souza da Silva

contato 

Inhapi - AL

(82) 8118 - 3124 /

janekoiupanka@gmail.com iniciativa no 414 

premiada

— O povo Koiupanká vive em Terra Indígena não demarcada, num espaço insuficiente, assediado por construções domiciliares de não índios, derrubadas e queimadas da mata para criação de gado, canal do sertão etc. É difícil a cultura de alimentos, pois, para plantar, dependemos da boa vontade dos posseiros. Faltam reservas para extrair as matérias-primas necessárias para nossos rituais e temos que procurá-las em outras aldeias ou em terrenos de posseiros. Desde 2001, com o reconhecimento de nossa sociedade, tendo maior liberdade de expor nossa arte e confeccionar nossas indumentárias rituais, buscamos reavivar a memória de nosso povo através de nossas tradições falada, cantada e

KARUAZU FORTALECIDO

— povo Karuazu terra indígena 

Karuazu

comunidade Karuazu habitantes  local  proponente 

200 famílias

Pariconha - AL

Edvaldo Soares de Araújo

contato 

(82) 8130 - 5646 /

karuazu@gmail.com iniciativa no 421

— Vivemos em área não reconhecida pelo governo, boa parte dela desmatada, os animais extintos. Por meio desta iniciativa desejamos fortalecer a etnia, melhorar a crença, unir toda a comunidade e preservar nossas culturas e rituais. Nosso maior problema é a falta de dinheiro; queremos construir o Poró (oca) para reunir

233


melhor a comunidade, aproximar todos e fazer nossos rituais sagrados: o Ouricuri, o Praiá e o Toré.

234

— iniciativa nº 605 – Tobyran - Brilho do Amanhã

TOBYRAN BRILHO DO AMANHÃ

— povo Kariri-Xocó terra indígena 

Kariri-Xocó

pequenas e médias fazendas, fronteiriças ao território da comunidade; e do devastamento das áreas de mata que, dificultando a obtenção de caça, pesca e matérias-primas artesanais, obriga os índios a deslocar-se para as cidades, a situação atual, bastante precária, exige esforços de conscientização e contra discriminação, a valorização e reconhecimento da sociedade em relação à cultura dos índios Kariri-Xocó.

comunidade Kariri-Xocó habitantes  local 

Porto Real do Colégio - AL

proponente 

Grupo Indígena Dzubucuá

contato 

(82) 9984 - 0802 /

dzubucua@gmail.com / nawanaxk@hotmail.com iniciativa nº 1.042 – Nossos Praiás, fortalecimento e

garantia da vida e da cultura Katokinn

2.500

iniciativa no 605

— Dando continuidade ao projeto premiado na Edição Marçal Tupã-y do Prêmio Culturas Indígenas e a uma iniciativa que se desenvolve desde 2006, propomos disseminar o conhecimento sobre a cultura indígena kariri-xocó com apresentações de danças e cantos (Toré); exposições; oficinas de artesanato e pinturas corporais indígenas; palestras com representantes da comunidade; e montagem e exibição de barracas tradicionais (oca), com a função de cenário típico indígena – tudo a se realizar em escolas e praças públicas da região do Baixo São Francisco, nos municípios de Porto Real do Colégio e São Brás. Dado o problema da invasão de não índios em Terras Indígenas; da proximidade da BR 101 e de

OFICINA CULTURAL KARIRI-XOCÓ

para dar continuidade ou expandir este trabalho tão importante para nós. Falta amparo financeiro para as famílias dos índios que vêm para a cidade realizar esses trabalhos. Queremos saber se é possível conseguir apoio e divulgar nossa cultura, levando a ajuda para a comunidade.

— PRESERVAÇÃO DO RITUAL E DA MEMÓRIA DO POVO ACONÃ

— povo Aconã

povo Kariri-Xocó terra indígena 

terra indígena 

Kariri-Xocó

comunidade Aconã

comunidade Kariri-Xocó habitantes  local 

proponente 

Ednaldo Justino dos Santos

contato 

habitantes 

3.335

Porto Real do Colégio - AL (79) 8869 - 8466 /

ednaldodogremio@hotmail.com iniciativa no 645

— A comunidade entende que qualquer tipo de cultura deve ser divulgada para que haja uma transmissão de diferentes costumes, línguas e tradições entre povos indígenas e não indígenas. É feito um trabalho de apresentações (palestras, cantos e danças) levado para fora da comunidade, principalmente nas escolas, para divulgar nossa cultura para quem não conhece, cultura cantada e falada. Não temos recursos

Aconã

local  proponente  contato 

79

Traipu - AL

nossa comunidade e também aos parentes convidados de outras aldeias e Terras Indígenas, como os Kariri-Xocó e os Fulni-ô, cuja participação é indispensável. Queremos também publicar um livro contando as lutas vitoriosas de nosso cacique, José Saraiva. Tendo recebido de nossos espíritos encantados esta missão, nosso cacique participou do levantamento das aldeias dos Tingui-Botó e dos Aconã, conseguiu a criação de um Posto da Funai e obteve as terras onde vivemos e também a dos Tingui-Botó. Ao longo de muitos anos, o cacique reuniu vários documentos e registrou, por escrito, suas memórias. Precisamos organizar e publicar esse material. O trabalho vai ajudar na preservação e valorização de nossa memória, bem como na divulgação de nossa história junto a outros povos e parceiros.

Ubirajara Saraiva

(82) 9664 - 4060 / (79) 8863 - 1298 /

(79) 8871 - 1256 / ubirrajara@gmail.com iniciativa no 1.035

— Pretendemos fortalecer nossa tradição, melhorando as condições para a realização de nossos rituais e registrando as memórias de nosso cacique. O ritual do Ouricuri é uma decisão de nossos antepassados e espíritos sagrados, um compromisso assumido por todas as gerações. Durante sua realização, permanecemos várias semanas reclusos na mata, num local específico, e precisamos construir um galpão para lá abrigar

NOSSOS PRAIÁS, FORTALECIMENTO E GARANTIA DA VIDA E DA CULTURA KATOKINN

— povo Katokinn terra indígena  aldeia 

não demarcada

Alto do Pariconha

habitantes  local  proponente 

1.500

Pariconha - AL Associação dos Jovens

Indígenas Katokinn

contato 

(82) 3647 - 1009 / 8117 - 5217 /

rosikatokinn@hotmail.com iniciativa no 1.042

— Embora haja um processo em aberto na FUNAI, ainda não temos Terra Indígena reconhecida e a comunidade vive, principalmente, em área urbana. Enfrentamos vários problemas: não temos terra para plantar nem empregos adequados; há devastação por toda parte; como faltam recursos naturais, não temos os materiais necessários para fazer as vestes dos rituais ou as ervas para a prática de nossa medicina. Não foi a comunidade que se deslocou para a área urbana, e sim a cidade que se formou junto à aldeia e a incorporou. Mesmo diante de tantas ameaças, tentamos manter nossa religiosidade, nossa união e nossas tradições através dos nossos rituais e festas. Precisamos de apoio para a realização das nossas festas, do Umbu e do Cansanção, sobretudo para a obtenção dos caroá e de outros materiais necessários para as indumentárias dos rituais dos praiás e para a aquisição dos alimentos para o festejo. As lideranças da comunidade sempre afirmam que se nossos rituais enfraquecem, nós também enfraquecemos, e, dado que moramos praticamente dentro da cidade, numa situação cada vez mais difícil, precisamos fortalecer nossas raízes, nos unir através dos nossos costumes.

235


MÚSICA, CANTO E DANÇA

236

— povo Atikum terra indígena  iniciativa nº 374 – X Feira de cultura kaimbé

Reforma Agrária –

Comunidade de Benfica comunidade Atikum habitantes  local  proponente 

80

Angical - BA

Luciene Beatriz Jesus da Silva

contato 

(77) 9945 - 0330 /

lucienebeatrizjesus@hotmail.com iniciativa no 

82

— Trabalhamos a dança toré com os alunos indígenas; fazemos apresentações dentro e fora da comunidade; também trabalhamos com artesanato, dentro e fora da escola. Isto ajuda a fortalecer a comunidade, ajuda no interesse do povo pela cultura, no resgate de costumes deixados para trás. A comunidade necessita de apoio, pois, vivendo em um lugar precário, pouco fértil e devastado, temos que buscar muitos dos materiais em outras comunidades. Queremos melhorar as condições de vida dos homens e mulheres para que trabalhem a cultura sem ter vergonha do que os outros pensam.

— SUNYATAYRA HYWNATÃ CANTANDO NA DIREÇÃO DE JESUS

— povo Pataxó terra indígena  comunidade 

Pataxó Aldeia Velha

Pataxó Aldeia Velha

habitantes  local  proponente 

784

Porto Seguro - BA

Maricelia Meirelles Guedes

contato 

muito próxima à cidade e sofremos com sua influência cultural; a terra é insuficiente, está cansada e existem poucas plantações; faltam recursos financeiros. Por isso, que Niãmisu nos abençoe para que sejamos contemplados pelo Prêmio.

(73) 9927 - 7731 /

arnapataxo@gmail.com / arnapataxo@gmail.com (Facebook) / aldeiavelha.wordpress.com (site) iniciativa no 294

— Nossa língua, o patxohã, ficou adormecida. Através de estudos e pesquisas junto aos mais velhos, fazemos um trabalho de revitalização por meio dos cânticos. A música interage com a dança e trabalha todos os elementos da cultura pataxó, proporcionando rituais, confecção de artesanatos, adereços etc. Hoje, precisamos materializar nosso trabalho; queremos gravar um CD com os cânticos de nosso povo e um DVD com danças e depoimentos dos envolvidos para mantermos vivas histórias de conhecimentos de vida e contribuições de nossos anciões. O material será utilizado pelas crianças e jovens na escola e no dia a dia, em suas casas, e não só nos rituais, fortalecendo o patxohã. Outro objetivo é a distribuição desses materiais em outras aldeias pataxó da Bahia e de Minas Gerais. Também fazemos um trabalho de etnoturismo em nossas aldeias e, com a produção dos CDs, agregaremos valor e sustentabilidade ao nosso trabalho. Nossa situação é difícil: a comunidade fica

ARAGWAKSÃ

— povo Pataxó terra indígena  reserva 

Pataxó Coroa Vermelha

Pataxó da Jaqueira

habitantes  local  proponente  contato 

200

a Reserva Pataxó de Jaqueira ocupa mais da metade de nossa Terra Indígena. E, como na reserva só fazemos plantio de árvores para a recuperação de áreas degradadas e o solo destinado à agricultura é pobre, a renda proveniente do turismo é muito importante. Faltam recursos para a realização do evento, especialmente para o transporte e acolhimento dos parentes de outras aldeias e daqueles que, por causa do sofrimento e empobrecimento do nosso povo, agora moram na cidade. O Aragwaksã é hoje um dos maiores eventos do povo Pataxó e merece destaque junto à sociedade indígena e não indígena.

Porto Seguro - BA

Edvaldo Alves Carvalho

(73) 3995 - 8384 / 9832 - 3246 / aspectur@bol.com.br

iniciativa n

o

 296 

premiada

— Desde 1999, a Associação Pataxó de Ecoturismo/ASPECTUR promove a realização do Aragwaksã, festa tradicional em que reunimos mais de quinze aldeias para, através das danças e dos cantos, ao som do maracá, fortalecer nossa comunidade e o nosso espírito enquanto guerreiros. É um espaço aberto para a convivência e afirmação da identidade pataxó, para o compartilhamento dos conhecimentos indígenas e para prática de nossa língua. A festa também consolida e divulga o atrativo turístico cultural da região, desenvolvido pela ASPECTUR. Criada com o intuito de preservação ambiental e etnoecoturismo,

X FEIRA DE CULTURA KAIMBÉ

— povo Kaimbé terra indígena 

Massacará

forçada a omitir a própria identidade, pois os coronéis não aceitavam os índios, ao longo dos anos e com muita luta a comunidade kaimbé retomou suas terras. Desde 2000, visando o desenvolvimento cultural deste e de outros povos indígenas baianos, tentativas e experiências foram realizadas. Na organização das feiras, buscamos no íntimo dos mais velhos o valor de nossa cultura: rituais, medicina tradicional, artesanato, comidas típicas, cantos e danças, pinturas corporais; todos os fazeres e saberes dos Kaimbé. Realizamos apresentações, oficinas, exposição e venda de produtos artesanais e culinários, registros audiovisuais etc. A Feira proporciona, ainda, um intercâmbio de conhecimentos com outras etnias, indígenas e afro-brasileiras, divulgando e fortalecendo suas culturas. Dado o porte da feira, as dificuldades materiais são expressivas e necessitamos de apoio para dar continuidade a estas ações incentivadoras.

aldeia Massacará habitantes  local 

Euclides da Cunha - BA

proponente  contato 

1.086

Cirila Santos Gonçalves

(75) 3259 - 5011 / 9946 - 1172 /

cirilakaimbe@gmail.com / flaviokaimbe@yahoo.com.br iniciativa no 374

— Após as várias violências e discriminações que os indígenas baianos vivenciaram, é imperativo fortalecer e revitalizar as expressões culturais indígenas. Expulsa de suas terras e

REVITALIZAÇÃO DO PORÓ – RITUAIS SAGRADOS PANKARARÉ

— povo Pankararé terra indígena  aldeias 

Pankararé

Brejo do Burgo e Serrota

habitantes  local 

1.237

Glória - BA

237


238

proponente 

Associação Indígena Pankararé

da Comunidade da Aldeia Serrota contato 

(75) 3686 - 1045 /

povo Potiguara terra indígena 

dany.tuxa@hotmail.com iniciativa no 529

— iniciativa nº 529 – Revitalização do Poró -

Rituais Sagrados Pankararé

iniciativa nº 430 – Memória dos rituais sagrados na

construção da identidade dos Potyguaras do Semiárido

iniciativa nº 693 – Tradição e Memória dos Índios

Tremembé de Queimadas

O Poró é o local sagrado em que se realizam nossos rituais, danças, culto espiritual, comemorações e reuniões. Em virtude de conflitos com os não índios, este local foi por várias vezes destruído e reconstruído. Atualmente, encontra-se em situação precária, dificultando a realização de nossos rituais. Faltam sanitários, bebedouros, um espaço maior para as danças culturais; a estrutura precisa ser reconstruída. A assistência oferecida por instituições públicas é insuficiente e, como a mata nativa foi muito prejudicada pela retirada de madeira exercida por moradores do entorno da Terra Indígena, é preciso comprar material e equipamento. A revitalização do Poró é fundamental para resgatar a participação dos jovens e crianças no fortalecimento da cultura indígena.

— iniciativa nº 1.072 – Arte e cultura tabajara

MEMÓRIA DOS RITUAIS SAGRADOS NA CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE DOS POTYGUARAS DO SEMIÁRIDO

Mundo Novo/Viração

aldeia Jacinto habitantes  local 

150

Monsenhor Tabosa - CE

proponente 

Francisco Teodosio do

Nascimento contato 

para a obtenção de equipamentos para o registro audiovisual. Por isso elaboramos o projeto, para conscientizar crianças, jovens e adultos da importância da continuidade de nossas tradições culturais, para fortalecer nosso principal desenvolvimento, a luta pela demarcação de terra.

(88) 3696 - 1559 / 9495 - 7355 /

9687 - 1177 / edefmjugena@escola.ce.gov.br / jeanepotyguara@yahoo.com.br / glerisond+@hotmail.com (Facebook) iniciativa n

o

 430

— Nossa aldeia está situada em Terra Indígena ainda em processo de demarcação, próxima de estradas e de pequenas fazendas de não índios. Sofremos com a falta de empenho do Governo, com o preconceito, com o desmatamento e a poluição das nascentes; falta chuva em nosso semiárido. Com muita luta deu-se o reconhecimento e identificação indígenas e, ainda lutando, estamos conseguindo educação diferenciada, saúde indígena, cisternas e reservatórios de água, apoio para projetos e manifestações culturais etc. Ao longo dos anos, a aldeia se reuniu com suas lideranças, professores, rezadores, benzedores e pajés fazendo pesquisas, os idosos contando histórias, tentando revitalizar nossa língua materna e nossas práticas culturais, os rituais de morte, o toré, danças, comidas típicas etc. Falta espaço em nosso local sagrado para momentos de espiritualização, de festas e de reunião. Faltam também recursos

TRADIÇÃO E MEMÓRIA DOS ÍNDIOS TREMEMBÉ DE QUEIMADAS

— povo Tremembé terra indígena  aldeia 

Queimadas

Tremembé de Queimadas habitantes 

local  proponente 

218

Acaraú - CE

Conselho dos Índios Tremembé

parte da área indígena em demarcação. A aldeia sofre com as queimadas e com o uso de agrotóxicos nos lotes do DNOCS. Neste contexto, é necessário fortalecer as tradições de cura e espiritualidade, de manejo e conservação dos recursos naturais, além de incentivar a inserção dos jovens nas atividades da comunidade. Em reunião, foi decidido que o fortalecimento da dança tradicional do toré, do ritual do rezo e do Centro de Cura devem ser priorizados. Estas práticas estão perdendo espaço para eventos não indígenas. Ações de fortalecimento permitirão repassar as tradições para as próximas gerações, para não deixar morrer. A maior dificuldade é a falta de recursos para compra de equipamentos audiovisuais e instrumentos musicais, para a obtenção de material para confecção das roupas rituais e para a divulgação dos trabalhos em redes sociais.

de Queimadas (CITQ) contato 

(88) 9933 - 2459 / (85) 9937 - 6131 /

cit.queimadas@gmail.com / tremembedeacarau.blogspot.com.br (site) iniciativa no 693 

premiada

— Distante 35 quilômetros da sede do município de Acaraú, a comunidade encontra-se próxima ao Perímetro Irrigado do Baixo Acaraú, vinculado ao Departamento Nacional de Obras Contra as Secas/DNOCS. Os índios Tremembé travam uma luta contra o Estado, contra o DNOCS, que, em benefício dos lotes empresariais vizinhos, tenta desapropriar e já destruiu

ARTE E CULTURA TABAJARA

— povo 

Tabajara da Serra das Matas

terra indígena  aldeia 

Serra das Matas

Olho d’Água dos Canutos habitantes 

local 

proponente  contato 

76

Monsenhor Tabosa - CE

A comunidade encontra-se em área rural; sua terra, ainda em processo de demarcação, está quase toda devastada, desmatada, queimada e poluída. Disto resultam muitos problemas: falta de liberdade, de alimentos, de recursos financeiros e naturais para as práticas culturais da comunidade, falta de terra, falta de vida. Em 1989, formou-se um conjunto musical, inicialmente composto de índios e não índios e, depois de 1994, apenas de indígenas, dedicado ao fortalecimento e valorização da cultura do povo Tabajara e da cultura nordestina do forró pé-de-serra. Com esta iniciativa, visamos adquirir instrumentos musicais (sanfona, zabumba, triângulo etc.) e equipamentos para o registro audiovisual das apresentações do grupo indígena “Nativo do Forró”.

— ZABUMBA, O SOM DOS ANTEPASSADOS VIBRANDO HOJE!

— povo Kapinawá

terra indígena  aldeias 

Malhador (120 habitantes),

Serrota (215 habitantes) e Quiridalho (104 habitantes)

Sebastião Vieira da Silva

(88) 9971 - 6479 / 9997 - 3422 /

sebastiao_vieirasind@hotmail.com

habitantes local  proponente 

iniciativa no 1.072

Kapinawá

Ibimirim/Buíque - PE Maria do Socorro França de Siqueira

contato 

(87) 9638 - 2524 / 9614 - 2929 /

239


240

socorrokapinawa@gmail.com iniciativa n

o

 1.009

iniciativa nº 1.009 – Zabumba, o som dos antepassados

vibrando hoje!

iniciativa nº 212 – Ao nosso interesse pelo resgate cultural

No nosso povo há uma cultura que vem dos antepassados: a banda de pífano, formada por dois instrumentos de sopro feitos de tabocas de bambu e chamados de pífanos, uma zabumba e uma caixa feitas de madeira, corda e couro. Esses instrumentos são utilizados para tocar nos novenários durante os festejos dos padroeiros das comunidades; no passado, alegravam as festas tradicionais do povo. Essa tradição está adormecida. Hoje, só há uma banda de pífano em Kapinawá, mas não como antigamente: os pífanos são de PVC e também os demais instrumentos são de materiais industrializados. No passado, quase todas as comunidades tinham tocadores; hoje, os jovens não mostram interesse em aprender a tocar. Como ainda temos velhos que sabem confeccionar esses instrumentos à maneira antiga, pensamos fazer oficinas para que as pessoas interessadas aprendam a confeccionar e tocar os referidos instrumentos. A única dificuldade é a falta de recursos financeiros para a compra de ferramentas e para o custeio da alimentação e dos deslocamentos entre aldeias durante as oficinas. Com nossa banda de pífano, esperamos fortalecer e vivenciar a cultura dos nossos antepassados de forma calorosa e respeitosa.

TXIRIN: BATISMO DO GAVIÃO

— povo 

Huni Kuin (Kaxinawá)

terra indígena 

Baixo Rio Jordão (anfitriã),

Alto Rio Jordão (convidada), Seringal Independência (convidada), Rio Purus (convidada) aldeia 

Anfitriã: São Joaquim Centro de

Memória / Convidadas: Astro Luminoso, Boa Vista, Novo Natal, Três Fazendas, Paz do Senhor, Lago Lindo e Porto Rico habitantes 

183 (aldeia São Joaquim Centro

de Memória), 2.552 habitantes (população somada das Terras Indígenas convidadas) local  proponente 

Jordão - AC Osvaldo Manduca

Mateus Kaxinawá contato 

Agora queremos envolver outras aldeias para fortalecer os laços entre os Huni Kuin do Jordão e aproximar nossos conhecimentos. A sabedoria dos velhos sobre a nossa tradição é nossa maior riqueza; precisamos continuar o que nosso pajé Agostinho, falecido em 2011, nos ensinou. Em continuidade aos trabalhos de nosso Centro de Memória, pretendemos também registrar o ritual, utilizar o filme e o CD com as músicas para fortalecer os jovens, nas escolas indígenas e na divulgação de nossa cultura para fora, para não acabarem as identidades dos velhos. Com a festa e as gravações, cada pessoa vai adquirir mais conhecimentos.

(68) 8407 - 5597 /

isakahunikuin@hotmail.com / Isakahunikuin Mateus (Facebook) iniciativa no 159

— Vamos fazer a festa do Gavião, o Txirin; é uma iniciação sagrada, nosso batismo. Batizamos homens e mulheres jovens para que aprendam as músicas de nossas origens, para que possam cantar o Txirin e Meka (canto do nixi pae). Enfeitamos tudo com penas de gavião; o pajé canta e dança; fazemos dieta junto com os velhos, não comemos carne, sal ou açúcar; cantamos todos, dia e noite. Foi meu pai, nosso pajé da aldeia, Agostinho Ika Muru, que iniciou as festas do Gavião, em 2004; uma boa iniciativa, mas só nós, de São Joaquim, participamos.

AO NOSSO INTERESSE PELO RESGATE CULTURAL

— povo Kaxinawá

terra indígena  aldeias 

Alto Rio Purus

Novo Recreio (171 habitantes),

Morada Nova (155 habitantes), Nova Aliança (323 habitantes), Nova Família (348 habitantes), Nova Fortaleza (172 habitantes) local 

Santa Rosa do Purus - AC

proponente 

Armando Augusto Kaxinawá

contato 

(68) 9965 - 0348 /

armando.079@hotmail.com / armando.kaxinawa (Skype) / armando.079@hotmail.com (Facebook) iniciativa no 212

Em busca do resgate cultural de minha etnia, de tornar mais fácil de usar e mostrar para os jovens a cultura, para evitar que continue a se perder, pretendemos desenvolver uma pesquisa com o nosso velho mais antigo, que tem devida experiência do passado, para aprender aquilo que adquirimos antes da civilização, antes que ele acabe morrendo sem passar seus conhecimentos. Há dois anos venho planejando como deveria realizar este trabalho, mas, como faltava apoio e oportunidade e devido à distância entre as aldeias, era muito difícil. De repente apareceu este projeto e, por isso, me interessei para realizar este sonho. Em cada aldeia, gostaríamos de realizar uma palestra explicando como vai acontecer o evento de cultura, com cronogramas de trabalho, etapa por etapa, de cada tema: conhecimentos, costumes tradicionais, cantos, instrumentos, artes, comidas típicas, plantas medicinais, danças, festivais etc. Liderança, professores, agente de saúde, parteira, pajé, jovem, agente florestal etc., juntamos todos num só lugar e, através do conhecimento do mais antigo, esperamos colocar em prática esta ação de resgate em nosso dia a dia, para fortalecer esta importante cultura que nos pertence.

— VII FESTIVAL HUNIKUI DA TERRA INDÍGENA DO CAUCHO

— povo 

Hunikui (Kaxinawá)

terra indígena 

Kaxinawá do Igarapé

do Caucho aldeias 

Dezoito Praias, Caucho,

Nova Aldeia e Tamandaré habitantes  local  proponente 

800

Tarauacá - AC

Associação dos Produtores

e Agroextrativistas Hunikui do Caucho (APAHC) contato 

(68) 3462 - 1837 / 9974 - 8028 /

apahc.acre@gmail.com iniciativa no 259

— A despeito das dificuldades, em especial da falta de apoio para o custeio de viagens e hospedagens de parentes de regiões distantes, desde 2000 realizamos anualmente o evento e apresentação cultural. De iniciativa do cacique, o projeto começou como uma forma de comemorar os avanços na demarcação de nosso território. É um encontro de três dias com muitos convidados indígenas de outras terras, de todas as nossas aldeias e alguns não índios. Tem pajelança, fala, contação de história, canto. Confeccionamos chapéu de pena, sutiã e saia de palha, brincos etc. Preparamos pintura corporal e bastante alimento. Construímos Shubuã Kupixawa (barracão de palha) para danças e acomodações para os visitantes. O objetivo é comemorar: fortalecer nossa cultura, língua, tradição, identidade; fabricar e vender artesanato; repassar umas formas para nossos filhos jovens; mostrar para a sociedade envolvente

241


242

iniciativa nº 493 – Intercâmbio cultural Huni Kuå Hene

Nixia Namakia

que nossa cultura está viva; trocar experiências entre outros povos e a comunidade. É muito boa a vinda de índios de outras terras, o que gera muita amizade, união e fortalecimento cultural, coisa de que o índio mais precisa para resistir às ameaças da civilização e da devastação da natureza.

— INTERCÂMBIO CULTURAL HUNI KUÅ HENE NIXIA NAMAKIA

— povo 

iniciativa nº 502 – Festival Katxa Nawá (Força dos

Legumes)

Hunikui (Kaxinawá)

terra indígena 

Huni Kuĩ Hene Nixia

Namakia (Terra Kaxinawá do Seringal do Curralinho) aldeia 

Metxanaya (Boca do Grota) habitantes  local 

proponente 

140

(68) 9964 - 8572 /

txanahuya@gmail.com iniciativa nº 511 – Batismo tradicional nixpu pima

Feijó - AC

Antônio Carlos Alberto Nunes

contato 

ciência, a língua falada (hãtxakui), culinária, músicas, danças, jogos, religião, artesanato, contação de histórias etc. São convidados não indígenas e indígenas de outras terras. Esse intercâmbio é muito importante para nossa luta de resgate cultural. Mas é também muito difícil e custoso. Como nossa terra não é demarcada, sendo bastante vulnerável a invasões, são escassas a caça e a pesca e falta alimentação para o evento. Além disso, precisamos de recursos financeiros para viabilizar o transporte (barcos, motores, combustível etc.) entre as comunidades. Participando do festival, os jovens valorizam e respeitam os ensinamentos dos mais antigos e fortalecemos nossa língua, formas de tratamento, casamentos tradicionais e atividades culturais em geral.

iniciativa n

o

 493

— A comunidade vem realizando atividades coletivas em busca do fortalecimento da identidade cultural e dos costumes tradicionais do povo Hunikui da região e do Estado. De iniciativa das lideranças, sendo os professores os principais idealizadores, o festival é realizado, anualmente, desde 2010. Dura três dias e envolve a valorização de várias de nossas práticas e costumes: rituais (como a festa dos legumes katxanawa), nossa

FESTIVAL KATXA NAWÁ (FORÇA DOS LEGUMES)

— povo 

Huni Kuin (Kaxinawá)

terra indígena  aldeias 

Alto Rio Jordão

Novo Natal (60 habitantes),

Bari (50 habitantes), Canafista (75 habitantes), Nova Fortaleza (85 habitantes) e Boa Esperança (120 habitantes) local 

Jordão - AC

proponente  contato 

Ozelia Sales

(68) 8426 - 4893 /

adautobarbosahunikui@hotmail.com iniciativa no 502

Sempre nossa cultura chama o espírito dos legumes; chamando, estamos nos mantendo em harmonia com a natureza, com o espírito de nossa terra e dos nossos antigos. Rezamos e agradecemos à natureza, que germinou as sementes e nos proporciona todos estes alimentos. Nesta prática tão antiga e importante para nosso povo, fortalecemos nossa cultura pedindo a força dos yuxibus (forças da natureza, espíritos) e que continuem nos trazendo vida, fartura e alegria. Este ano, as lideranças propuseram reunir as aldeias próximas para que elas possam celebrar juntas, visitar os parentes. Não temos tido ajuda da FUNAI e, sem auxílio para o combustível, fica difícil transportar as pessoas. Falta apoio para a compra de materiais para melhorar o plantio e a colheita, pois, para a festa, é preciso legumes, plantar muito. É preciso também construir um kupixawa (casa tradicional) na Aldeia Novo Natal para receber os convidados. Isto é valorizar nossa cultura: plantar sementes e colher alegria, festa e continuidade de nossa tradição, compartilhamento de nossa religião/espiritualidade e maior integração entre as aldeias, alimentação que irá fortalecer nosso corpo e nosso povo.

— BATISMO TRADICIONAL NIXPU PIMA

— povo 

Huni Kuin (Kaxinawá)

terra indígena  aldeias 

Alto Rio Jordão

Novo Natal (60 habitantes),

Bari (50 habitantes), Canafista (75 habitantes), Nova Fortaleza (85 habitantes) e Boa Esperança (120 habitantes) local 

Jordão - AC

proponente  contato 

de juntar nossas aldeias começou em 2012. Existem dificuldades de transporte e espaço e não contamos com apoio do governo ou de outras instituições. Com o Prêmio, pretendemos prosseguir, fortalecer a nossa cultura e integrar nossas aldeias.

Ozelia Sales

(68) 8426 - 4893 /

adautobarbosahunikui@hotmail.com iniciativa no 511 

premiada

— O Nixpu Pima é o momento em que batizamos as crianças na verdade de nossa cultura, no espírito da floresta. Acontece na colheita do milho verde. São feitos cantos que chamam a força dos yuxibus (espíritos da natureza) para que protejam a aldeia e também para a pintura com jenipapo e urucum, enquanto as mestras de kene fazem os desenhos sagrados nos corpos das crianças. Os cantos explicam como os animais nos ensinaram a produzir filhos. Canta para a dança cansar muito o corpo das crianças; depois, elas deitam na rede durante três dias de dieta. As cozinheiras fazem as comidas próprias. Levantando, as crianças tomam um banho de ervas sagradas e seus dentes são pintados de preto com Nixpu. Aí, mais três dias de dieta, na rede. No final, recebem mais uma pajelança, a vacina tradicional do sapo. Miguel Macário Huni Kuin, o responsável pelo batizado, aprendeu com seu tio no Rio Purus. É uma prática antiga de nosso povo, mas a iniciativa

YINE SHIKALE – AS CORES DOS CANTOS DO OOVO DO INHARÉ (MANXINERU)

— povo 

Manxineru (Manchineri)

terra indígena  comunidades 

Mamoadate

Extrema (141 habitantes),

Lago Novo (68 habitantes), Santa Cruz (80 habitantes), Peri (92 habitantes), Jatobá (120 habitantes), Laranjeira (68 habitantes), Cumaru (40 habitantes) e Terra Alta local 

Assis Brasil - AC

proponente  contato 

Lucas Manxineru

(68) 9996 - 3644 / 8422 - 0674 / 8118 - 3760 /

lucasmanchineri@yahoo.com.br / pohtomanxineru@gmail.com / lucas.artur.manchineri (Skype) / lucasmanchineri.manchineri (Facebook) / @Lmanchineri (Twitter) iniciativa no 756

— O povo Manchineri é conhecido por estar sempre preocupado com a valorização da sua cultura. Este trabalho visa resgatar nossas tradições rituais e orais, onde a música é o tema

243


244

iniciativa nº 771 – Encontro cultural de batismo -

Nixpu Pima

iniciativa nº 773 – Encontro de Pajés Huni Kuin

principal. A música manchineri está em muitos de nossos costumes: medicina, festas, histórias, rituais. Através das relações que criamos com quem sabe as músicas ou com as histórias das músicas podemos vivenciar o conteúdo da prática cultural e conhecer o valor que está dentro da tradição. Esta tradição está enfraquecida; os velhos que sabem destas músicas estão morrendo e é preciso repassar o conhecimento deles para o restante da comunidade e para os pesquisadores indígenas. Para tanto, esperamos realizar pesquisas e oficinas e registrar o que será pesquisado num acervo comunitário. Desejamos também pesquisar com nossos parentes, os Manchineri do Peru, o povo Piro, detentores de grandes conhecimentos ancestrais ainda vivos em suas comunidades, trazendo alguns deles para nos visitar. Através desta iniciativa, poderemos fortalecer nossa cultura, os laços entre jovens e velhos e promover o intercâmbio cultural entre nossas aldeias, bem distantes uma das outras, e com os Manchineri do Peru.

— RESGATE, FORTALECIMENTO E VALORIZAÇÃO DA CULTURA E TRADIÇÃO SHANENAWA NUKÊ XIKARE YAMÃITI MUNUTI

— povo Shanenawa terra indígena  aldeia 

Katukina/Kaxinawa Nova Vida

habitantes  local  proponente  contato 

as pessoas sábias da aldeia, para a ampliação da casa do artesanato e para a compra de diversos materiais necessários para a realização da iniciativa.

138

Feijó - AC

José Luiz Yauanawa

(68) 9972 - 9640 / 9992 - 0962 /

marikayauanawa.fj@gmail.com iniciativa no 769

— O objetivo desta iniciativa é resgatar práticas culturais de nosso povo, reunir a comunidade e conscientizar as pessoas da importância de mantermos as tradições shanenawa. Nossa situação é preocupante: a comunidade corre risco de invasões e sofre com impacto ambiental provocado por estradas e fazendas; hoje, raramente se vê uma criança falando nosso idioma; algumas pessoas perderam o interesse por nossas práticas culturais. O motivo do enfraquecimento da língua e da cultura é a entrada da energia elétrica na aldeia, a utilização de aparelhos de som e de eletrodomésticos. Se tivermos apoio, entraremos com as seguintes iniciativas: realização de oficinas de artesanato; seleção de músicas e cantorias para certos tipos de caçada e pescaria; valorização dos conhecimentos, deveres e significados das ervas medicinais; exposição de nossos costumes para os povos não indígenas; contação de histórias pelas pessoas mais velhas; apresentações culturais de danças e brincadeiras; etc. Faltam recursos financeiros para oferecermos ajuda de custo para

ENCONTRO CULTURAL DE BATISMO – NIXPU PIMA

— povo 

Hunikui (Kaxinawá)

terra indígena  aldeias 

Kaxinawá do Rio Humaitá

Vigilante (80 habitantes),

Boa Sorte (50 habitantes), Boa Vista (30 habitantes), São Vicente (101 habitantes)

fazer jogos, festas, atividades culturais de vários tipos; registrar o batismo tradicional, as cantorias e as histórias, para os arquivos da escola indígena e para divulgar o conhecimento próprio hunikui entre os jovens. Para tanto, precisamos de apoio. A iniciativa irá fortalecer os conhecimentos tradicionais do povo Hunikui pelo mais velho para os jovens e alunos da escola.

— ENCONTRO DE PAJÉS HUNI KUIN

— povo 

terra indígena 

proponente  contato 

Tarauacá - AC

local 

— Realizada já há algum tempo, principalmente durante os festivais comemorativos da demarcação de nossas terras, a iniciativa visa fortalecer os costumes do povo Hunikui (língua, danças, cantos, comidas, pintura, artesanato, história, cerimônias etc.) e garantir a continuidade destas práticas entre as novas gerações. Desejamos ampliar o evento: construir um kupixawa para o local do nosso batismo; convidar os mais velhos e mais velhas e pajés hunikui de outras aldeias e outras Terras Indígenas, como a do Rio Jordão;

59

Tarauacá - AC

proponente 

Francisco de Assis

Mateus de Lima

amehunikui@yahoo.com.br iniciativa no 771

Novo Futuro

habitantes 

Manoel Jocenir de Paula Sabóia

(68) 9968 - 1276 / 4400 -7830 /

Kaxinawá do Rio Humaitá

aldeia 

e Novo Futuro (30 habitantes) local 

Huni Kuin (Kaxinawá)

contato 

renovando os pajés. Velho que não estava botando conhecimento para fora descobriu que sabia; isso abriu uma visão para o jovem. Agora, precisamos de estrutura, organizar as coisas para os txai convidados de outras aldeias e terras, Huni Kuin e não Huni Kuin. Nós temos de buscar os conhecimentos, correr atrás. Pegamos um pouquinho; ainda não deu para a gente pegar tudo: o transporte é caro e falta uma casa para hospedar os convidados. O pensamento maior desse projeto é criar uma escola da floresta, um Centro de Memória e Tradição com tecnologia para registrar os conhecimentos num arquivo do qual todos (nossos jovens, os professores indígenas e também os nawa, os brancos) possam aprender dos mais velhos. Para isso, temos que juntar os txai, porque não é conhecimento de uma só pessoa.

(68) 9973 - 1233 / 9925 - 3045 /

ninawapaidamata@gmail.com / Ninawa Hunikuin (Facebook) iniciativa no 773

— Lá, na Terra Indígena, não existiam mais pajés; os poucos que sabiam tinham medo de levar esse conhecimento para o mundo. A vivência da comunidade estava ficando diferente, distante do nosso jeito. Ninguém mais via as danças e rituais tradicionais. Desde 2000, a gente vem trabalhando nesta iniciativa de fortalecimento da espiritualidade, juntando os sábios para trocar experiências,

FONTE DE INTERCÂMBIO E CONHECIMENTOS TRADICIONAIS LUZ DA FLORESTA

— povo 

Huni Kuĩ (Kaxinawá)

terra indígena 

Kaxinawá do Rio Humaitá

aldeia  habitantes 

278 na Terra Indígena

local  proponente 

Boa Vista

Tarauacá - AC

Auricelio Mateus Kaxinawá

245


246

contato 

(68) 4400 - 7830 / 9939 - 9316 /

9910 - 7818 / auriceliotk@hotmail.com.br iniciativa n

o

 800

— iniciativa nº 807 – Centro Samakey - Valorização das

medicinas e do artesanato Yawanawa

Desde 2001, mesmo sem apoio, promovemos este evento de seis dias no qual se apresentam pajés com diferentes rituais. Visamos a valorização cultural e a participação dos jovens em nossas tradições (língua, alimentação, canto, danças etc.). Precisamos de apoio para o transporte e hospedagem de nossos convidados das aldeais de Boa Sorte, Vigilância, São Vicente e Novo Futuro. E também para obtenção dos materiais necessários para a gravação do evento.

— CENTRO SAMAKEY – VALORIZAÇÃO DAS MEDICINAS E DO ARTESANATO YAWANAWA

— povo Yawanawá terra indígena 

Yawanawá do Rio Gregório

aldeia Mutum habitantes 

Tarauacá - AC

local  proponente  contato 

100

Paulo Luis Yawanawa (68) 9904 - 6332 /

pauloluisyawanawa@yahoo.com.br / Paulo Luis Yawanawa (Facebook) iniciativa n

o

 807 

premiada

Queremos construir o Centro Cultural, uma casa que é o Shubu, um ponto de estudo para o espiritual, para o artesanato, para as plantas medicinais. Para nós, todos estes conhecimentos estão ligados, juntos na mesma tradição, no Shubu. Fazemos numa casinha, mas não é bom. As cerimônias e estudos que poderemos fazer no Shubu são importantes nos processos criativos relacionados às visões do uni (ayahuasca), aos kene, os desenhos sagrados feitos nos objetos e nas pinturas corporais. Fortalecendo o artesanato e, ao mesmo tempo, os kene, vêm junto a espiritualidade, os sonhos e as histórias que a gente recebe e tem na força do uni. Não é só uma coisa, é tudo. Por isso, tem que estudar com os velhos e com os pajés, fazer aprendizado e dieta, cerimônias. Então, nosso projeto é nosso Shubu, nele, vamos realizar oficinas para ensinar os jovens, registrar tudo para os que virão e fazer um material de divulgação. O espaço oferece também a possibilidade de chamar povos com culturas diferentes para fazer um estudo concentrado. A gente tem preocupação: alguns povos já perderam as suas línguas, os seus artesanatos, rituais; pensamos nessa iniciativa para não acabarem esses conhecimentos.

— BEYA XINA BENA – TRADIÇÃO COM NOVO PENSAMENTO

— povo 

Hunikui (Kaxinawá)

terra indígena 

Colônia 27

aldeia Pynuya habitantes  local  proponente 

aldeia 

164

Tarauacá - AC

Organização dos Agricultores

Marmelos IV

habitantes  local 

2.500

Humaitá/Manicoré - AM

proponente 

Associação do Povo Indígena

Tenharin-Mrogita contato 

(97) 8123 - 0145 /

sanamparo@gmail.com /

Kaxinawá da Terra Indígena Colônia 27 /

Sandoval Amparo (Skype) /

OAKAT 27

Mbotawa 2013 (Facebook) /

contato 

(68) 9966 - 3516 / 9964 - 3722 / 9988 - 9628 iniciativa no 813

— Com o objetivo de manter viva e fortalecer ainda mais nossa espiritualidade, desejamos realizar uma festa tradicional de três dias e com os seguintes rituais: Katxa (Dança do Mariri), Meka (Festa espiritual do Nixi Pae), Pakari (Reza tradicional hunikui). Essa iniciativa vem desde a geração antiga do povo Hunikui, mas, com o grande impacto causado pela convivência com o homem branco, houve um pouco de desvalorização. Queremos também gravar a festa em DVD e divulgar a existência de uma pequena Terra Indígena, de trezentos e cinco hectares, distante apenas quatro quilômetros da cidade de Tarauacá, impactada pela BR 364, mas com identidade, espiritualidade e costumes vivos.

— M'BOTAWA 2013

— povo Tenharin-Kagwahiwa terra indígena 

Tenharin-Marmelos

artemanifesto (Twitter) iniciativa no 237

— Principal ritual tenharin, o M’Botawa é o momento final do processo de iniciação dos jovens e aquele no qual se estabelecem as relações de compadrio e troca entre os clãs – Mutum e Taravé – nos quais se divide a comunidade. Tais grupos alternam-se, a cada ano, nas posições de anfitrião e convidado. Também a cada ano, o ritual ocorre numa aldeia diferente, tendo um homenageado diferente, sempre conforme o rodízio clânico. Este ano o homenageado é Zeca Tenharin, do clã Tavaré, da aldeia de Marmelos IV. Os Tenharin querem ampliar a festa, fazer dela não apenas um já consagrado ritual ancestral, mas também um fórum para o debate de ideias e projetos que respondam às dificuldades por eles enfrentadas: ação de garimpeiros e madeireiros ilegais e de outros invasores em suas terras, falta de políticas públicas adequadas ao desenvolvimento comunitário etc. Para tanto, será preciso apoio para o transporte e acomodação de convidados das

demais aldeias tenharin, bem como dos muitos convidados de outras etnias e não índios. Com a iniciativa, visamos fortalecer as poéticas kagwahiwa, suas formas de expressão, cantos, danças, histórias e tradições, registrando-os por meios audiovisuais.

— M'BOTAWA: A FESTA DA CELEBRAÇÃO

— povo Jiahui terra indígena 

Jiahui

Aldeias: Ju’í e Kwaiari habitantes  local  proponente 

104

Humaitá - AM

Associação do Povo Indígena Jiahui

contato 

(97) 3373 - 2365 / 8115 - 3306 /

8124 - 2369 / 8101 - 3918 / cleitonjiahui@gmail.com / apijiahui@gmail.com iniciativa no 277

— Todo ano, na época de início do plantio, os Kagwahiva, subgrupo linguístico tupi-guarani ao qual se filiam os Jiahui, preparam uma grande festa denominada M’Botawa, nome advindo da castanha. Fazemos caçadas e pescarias, pois, na nossa festa, há consumo de comidas tradicionais, como da carne de anta ou taiaho (queixada) cozida no leite da castanha; as mulheres confeccionam os artesanatos culturais usados na festa; as lideranças convidam

247


248

iniciativa nº 277 – M’Botawa: A festa da celebração

iniciativa nº 576 – Fortalecimento Cultural por meio da

realização do V Kenyry

os parceiros, outros povos que queiram participar. Esta festa vem se tornando cada vez mais forte e constitui um referencial identitário e político kagwahiva. Devido às dificuldades que enfrentamos, surgiu na comunidade a ideia de propor essa iniciativa, a realização da nossa Festa Tradicional. Nossa terra é cortada pela rodovia Transamazônica e sofre com constantes entradas ilegais, com a ocupação de fazendeiros e conflitos. Como na escola é ensinado apenas o português, corremos o risco gravíssimo de perder a língua materna. Muitos já não falam. Diante destes impactos em nossa cultura, entendemos que a realização e registro da festa fortalecerá nossa língua, os laços culturais e tradicionais junto aos outros parentes e as gerações futuras.

— PARTICIPAÇÃO DOS INDÍGENAS DO IGARAPÉ PRETO NO M'BOTAWA 2013

— povo Tenharin-Kagwahiwa terra indígena  comunidade 

Igarapé Preto

Igarapé Preto

habitantes  local 

120

Novo Aripuanã/Humaitá - AM

proponente 

Associação do Povo Indígena

Tenharin-Morogita contato 

(97) 3373 - 3566 / 8105 - 2298 /

sanamparo@gmail.com /

Sandoval Amparo (Skype) /Mbotawa 2013 (Facebook) / artemanifesto (Twitter) iniciativa no 295

— Principal ritual tenharin, o M’Botawa constitui o elo de contato entre a atualidade e a tradição, ou seja, é o momento que finaliza o processo de iniciação dos jovens, bem como aquele no qual se estabelecem relações de compadrio e troca entre os clãs que compõem a comunidade. O ritual é realizado anualmente, a cada ano numa aldeia diferente; em 2013 será organizado por nossos parentes da aldeia de Marmelos IV, Terra Indígena Tenharin-Marmelos, os quais, ainda sem apoio, já se encontram providenciando as estruturas necessárias para a festa. Os indígenas do Igarapé Preto sempre participam da atividade e precisam conseguir recursos para viabilizar o longo e custoso trajeto para o M’Botawa 2013. Desejamos participar do preparo dos artesanatos e da grande caçada que faz parte da festa; colaborar com os trabalhos de registro audiovisual e com a construção das Casas de Danças. Como Tenharin, queremos manter nossas tradições e resgatar a imagem e história de nossos antigos. Com esta iniciativa, visamos o fortalecimento da cultura por meio de canções, do artesanato, da transmissão de saberes entre jovens e adultos, do registro audiovisual e, sobretudo, através da promoção do uso da língua.

FORTALECIMENTO CULTURAL POR MEIO DA REALIZAÇÃO DO V KENYRY

— povo Apurinã terra indígena  aldeias 

Camicuã

Camicuã (372 hbitantes),

Centrin (34 habitantes), Catispero (23 habitantes) e Praia Nova (27 habitantes) local  proponente  contato 

Boca do Acre - AM

para expressar no corpo de quem vai dançar as malhas da cobra jiboia e da onça pintada; os artesãos produzem pássaros de madeira que são carregados na mão pelos que dançam; trazemos velhos, pajés, cantadores e pintores de outras aldeias apurinã, bem como parentes de modo geral, para passarem seus conhecimentos e para fortalecermos, juntos, a cultura apurinã. Apoios externos são funda-

teve seu cabelo cortado com dente de piranha; usou uma cobra jiboia como cinturão; sua roupa era feita de couro de onça pintada e seu corpo estava todo pintado de urucum, jenipapo e atykawa. Esse batismo transforma a pessoa num verdadeiro guerreiro, privilégio de poucos. Katãwyry, um dos poucos que guarda a memória de todo o processo de como fazer esse ritual sagrado, tem, hoje, sessenta

mentais para a realização e registro audiovisual do evento.

anos de idade; com o tempo vieram as doenças e o medo de morrer instigou ele a escrever esta proposta, pois teme que esse ritual tão importante para seu povo deixe de existir. Neste sentido, pretende resgatar esse ritual e repassar os valores tradicionais para as gerações futuras, para os jovens e para os anciões e convidados de outras aldeias, registrando, por meio do audiovisual, o batismo de seu neto Paulo Henrique (Yakama), obedecida toda uma linhagem clânica patrilinear.

Francisco Gonçalves de Lima

(68) 9981 - 4352 / (61) 8325 - 7135 / fr.apurina@gmail.com

francisco.apurina@ac.gov.br iniciativa n

o

  576  

premiada

— De acordo com os costumes apurinã herdados de suas ancestralidades, sobretudo de Tsora (Deus), sempre que morre uma liderança é necessário que se realize o Kenyry, ritual sagrado que simboliza a passagem do espírito para um lugar de descanso denominado de “terra sagrada”. Desde janeiro de 2012, articula-se uma homenagem a Juca Apurinã, respeitada liderança da aldeia Camicuã; foi o finado Juca que, em 2006, começou a iniciativa de fazer o Kenyry anualmente para promover o interesse dos jovens pela cultura tradicional e integrar as aldeias. Todos participam: as mulheres preparam biju, grolado, bebidas de banana, macaxeira, milho etc.; homens e mulheres caçam e pescam para que no dia tenha bastante comida; pessoas selecionadas pintam

RESSIGNIFICAÇÃO DO KAMATY

— povo Apurinã terra indígena 

Lurde/Cajueiro

aldeia Cajueiro local 

Boca do Acre - AM

proponente 

Raimundo Pinheiro

Cândido (Katãwyry) contato 

(68) 3248 - 6514 / 9964 - 7084 /

9981 - 4352 / francisco.apurina@ac.gov.br / fr.apurina@gmail.com iniciativa no 649

— O Kamaty faz parte do universo místico do povo Apurinã. É realizado, sobretudo, quando o filho de um importante Tuxaua é indicado para ser batizado dentro dos princípios étnicos e culturais do povo. Aos dois anos de idade, o ancião Katãwyry, responsável pelo projeto, foi batizado por seu avô, Raul (Yakama): Katãwyry

TOCANDO, DANÇANDO E CANTANDO A NOSSA MÚSICA INDÍGENA

— povos 

Arapaso, Desana, Hupda, Miriti-

-Tapuya, Piratapuya, Tariana, Tukano, Tuyuka terra indígena 

do Alto Rio Negro

comunidade Tarauacá habitantes 700 local 

São Gabriel da Cachoeira - AM

proponente 

Armando da Silva Menezes

249


250

contato 

(97) 3471 - 4020 /

armando.taracua@gmail.com iniciativa no 688

iniciativa nº 688 – Tocando, dançando e cantando a

nossa música indígena

iniciativa nº 847 – Construindo e resgatando valores étnicos

iniciativa nº 950 – Projeto música cultural Bunecü

O Alto Rio Negro sofre impacto cultural desde 1920, quando os missionários católicos, apoiados pelo Estado, ocuparam a região e impuseram aos nativos língua, religião e organização social diferentes. Segundo o físico Newton, toda ação tem reação. Estamos reagindo a essa invasão. Desde 2000, desenvolvemos atividades culturais junto aos jovens e crianças da Escola Estadual Indígena Sagrado Coração de Jesus. A partir deste ano, desejamos revitalizar a arte da música e dança tradicional, trabalhando para formar uma nova geração de mestres e dançarinos. Contudo, para conseguir os materiais necessários à confecção dos instrumentos musicais é preciso viajar até locais e comunidades distantes. Além disso, tem o problema de pagar o artesão; os instrumentos não são feitos por quaisquer pessoas, caso contrário, tornamse sem qualidade. Também encontramos dificuldades para remunerar os anciões que sabem os cantos, danças, festas etc. A Secretaria de Educação e o MEC não garantem verbas para este fim e qualquer pessoa que ensina precisa de recursos financeiros para sobreviver. Contamos com o apoio do Prêmio para que nossas crianças e jovens vivenciem e valorizem os conhecimentos indígenas.

SOM DE TAMBOR E CHOCALHO DE AVAÍ – TUTUGA RÜ'ARURE'EGA

instrumentos musicais e reformar o Centro Cultural onde serão feitas as apresentações, os ensaios e as aulas. Com isso, esperamos gerar oportunidades de capacitação e diversão para os jovens, integrar a comunidade e disseminar a cultura ticuna.

povo Ticuna terra indígena  comunidade 

Umariaçu I

habitantes 1.846 local  proponente  contato 

Umariaçu

Tabatinga - AM Valdir Araújo Mendes (97) 9151 - 7619 /

pisiiri@gmail.com iniciativa no 834

— Por estar muito próxima à cidade, a comunidade possui problemas: lixo; invasões de madeireiros e pescadores peruanos e colombianos que entram pela tríplice fronteira; pouco espaço para roças e para a coleta de matérias-primas para nossas manifestações culturais; problemas sociais como alcoolismo, crimes, narcotráfico, suicídio. Os jovens se encontram numa situação de maior vulnerabilidade, sofrendo com a falta de oportunidades de trabalho e entretenimento, e também com a discriminação por parte da sociedade. Em 2008, na gestão do Cacique Valdir Mendes, a comunidade começou a investir em atividades de valorização cultural e a utilizar os saberes ticuna sobre as músicas, teatro e rituais como forma de resgatar os jovens, para ter para quem repassar nossos conhecimentos. Faltam recursos financeiros. Seria preciso adquirir

CONSTRUINDO E RESGATANDO VALORES ÉTNICOS

— povo Sateré-Mawé

terra indígena 

não demarcada

aldeia I’apyrehyt habitantes 62 local  proponente  contato 

Manaus - AM

escola ensina só o português, fizemos nossa escola Wanhut’i, para o aprendizado da língua materna. Desde 2007, a comunidade desenvolve diversas atividades culturais: o ritual da Tucandeira, a produção de artesanatos, exposições e oficinas. Em 2012, fizemos um projeto para reformar o local adequado para nossas manifestações culturais, a Casa de Tupana, e para construir uma loja de artesanato. Mas não conseguimos financiamento e, como faltam recursos vegetais na comunidade (palha, madeira), é preciso comprar. Também gostaríamos de adquirir equipamentos audiovisuais para registrar nossos eventos. O objetivo é preservar a identidade cultural do povo Sateré-Mawé no contexto urbano de Manaus.

Suzy Ferreira de Souza

(92) 9489 - 8624 / 9496 - 0305

/ 3651 - 8688 / yapyrehyt@gmail.com / yapyrehyt@yahoo.com.br iniciativa n

o

 847

— Localizada em área urbana manauara, nossa aldeia, embora reconhecida como espaço indígena, não é uma Terra Indígena. Disto resultam dificuldades: preconceito; ausência de políticas diferenciadas de saúde e educação; falta de terras para o plantio ou para a extração de matérias-primas artesanais; degradação ambiental. No entanto, como o povo Sateré-Mawé é guerreiro, e como a coletividade é da cultura do indígena, todos contribuem para com o fortalecimento de nossa identidade cultural. Como a

PROJETO MÚSICA CULTURAL BUNECÜ

— povo Ticuna terra indígena  comunidade 

Éware I

Belém do Solimões

habitantes 9.025 local  proponente  contato 

Tabatinga - AM

valorização da cultura ticuna em todas as comunidades indígenas do Alto Solimões. Em andamento já há quatro anos, a iniciativa é de responsabilidade do Sr. Álvaro Rabelo Saldanha, dedicado professor que vem contribuindo com o ensino de música aos jovens sem cobrar pelos seus serviços. Também integram a iniciativa os músicos do Grupo Bunecü, que, também sem qualquer remuneração, divulgam e promovem a música cultural ticuna. O projeto enfrenta algumas dificuldades. Os músicos têm família e precisam exercer suas atividades de subsistência e, como mencionado, falta apoio para trabalho. Além disso, dada a dificuldade técnica em realizar, por conta própria, as gravações, é preciso deslocar os músicos e seus instrumentos para um estúdio em Manaus, garantir sua estadia e retorno a Belém do Solimões. Apesar de a língua ticuna ser muito falada no dia a dia, os Ticuna têm pouco acesso à música ticuna; o pouco que há gravado é de má qualidade. Com o CD profissional, será valorizada a importância da música ticuna, também das danças tradicionais e da cultura como um todo.

Álvaro Rabelo Saldanha

(97) 3413 - 1034 / 3413 - 1142 /

fortesparente@hotmail.com iniciativa no 950

— O objetivo desta iniciativa cultural é gravar um CD de música em língua ticuna para promover esta arte e a

MÚSICAS, CANTOS E DANÇAS

— povos 

Sateré-Mawé, Tukano, Desana e Baré terra indígena 

Beija-Flor I

251


252

comunidade Beija-Flor

Murutinga (572 habitantes), Guapenu (285

habitantes 232

habitantes), Capivara (154 habitantes),

local 

Rio Preto da Eva - AM

proponente 

Barnabé Campos Sampaio

contato 

(92) 9501 - 6822 /

faustosatere@yahoo.com.br iniciativa n

iniciativa nº 985 – Grupo Avivamento

o

 956

— A comunidade e os povos já vinham desenvolvendo a prática do ritual sagrado, principalmente, na época da festa da comunidade e também, como a aldeia é ponto turístico do município, sempre que recebe visitas. Desde 2000, por meio da associação da comunidade, desenvolvemos esse trabalho para valorizar e divulgar a língua materna e a cultura. Construímos maloca para a prática do ritual e produzimos artesanato. Com esta iniciativa, queremos obter os recursos para fortalecer nossas tradições (música, canto, dança e artesanato), gravar CDs e DVDs para uso nas escolas e para nossas crianças, para que nossa cultura se mantenha sempre viva. Esperamos também que esse trabalho melhore as atividades turísticas, tornando a comunidade mais conhecida e capaz de se sustentar.

— FESTIVAL DA CULTURA INDÍGENA MURA

— povo 

aldeias 

Mura de Autazes

Pantaleão (182 habitantes),

Natal (97 habitantes), São Félix (132 habitantes), Ciua (75 habitantes), Jauari (112 habitantes), Padre (22 habitantes), Josefa Miguel (247 habitantes), Muratuba (31 habitantes), Limão (49 habitantes), Ponciano (80 habitantes), Paracuuba e Terra Indígena

não querem mais ouvir. Fazemos o festival para fortalecer a cultura mura entre os jovens, propiciar perspectivas à juventude. Mas faltam apoiadores financeiros para podermos deslocar e acomodar os participantes que vêm de aldeias distantes e para a melhoria do local do evento.

do Trincheira (169 habitantes) local  proponente  contato 

Autazes - AM

Claudio Perreira Mura (92) 9505 - 4790 /

rosa.yakino@bol.com.br iniciativa no 961

— O Festival da Cultura Indígena Mura é um grande encontro intercultural entre jovens, adultos, crianças indígenas e a sociedade envolvente. São dois dias de pura manifestação cultural: bebidas e comidas típicas, danças, música e jogos tradicionais, exposição e venda de artesanato. Já há seis anos que desenvolvemos estas atividades visando fortalecer e difundir a cultura, revitalizar conhecimentos tradicionais e prover renda às comunidades indígenas. Não viemos para a cidade, mas a cidade chegou até nós. Nossas terras, demarcadas em pequenos lotes ou ainda em processo de demarcação, ficam muito próximas à cidade de Autazes e isto tem nos trazido grandes problemas: escassez de alimentos, fortes pressões sobre os recursos naturais, ameaças e invasões de fazendeiros etc. Grande parte dos jovens está se envolvendo com algo ilícito. Antes, os mais velhos sentavam e passavam seus conhecimentos para eles; hoje,

FESTIVAL CULTURAL MUNDURUKU

— povo Munduruku terra indígena 

Kwatá-Laranjal

comunidade Laranjal habitantes  local  proponente  contato 

200

com outras comunidades munduruku do Pará. Nós temos recursos naturais como caça, pesca e materiais para artesanato, que podem contribuir com a realização do Festival, mas eles não são suficientes para toda a população que vem. Além disso, precisamos de recursos financeiros para trazer as outras comunidades para o local e para um alojamento. Também será preciso reformar o Centro Cultural e as arquibancadas para continuar realizando o Festival de forma organizada e segura para os participantes. Com essa iniciativa, esperamos fortalecer a cultura munduruku, torná-la conhecida e transmiti-la para os mais jovens.

Nova Olinda - AM

Evaristo dos Santos Reis

(97) 9450 - 7750 / 9386 - 7647 /

evaristo1922@hotmail.com iniciativa no 965

— Desde 1998, o Festival Cultural Munduruku é realizado como alternativa de resgate da cultura munduruku, das histórias, danças, rituais, ancestrais míticos etc., que, hoje, apenas os velhos conhecem e que pretendemos ensinar aos mais jovens e às crianças, já distanciados da nossa língua e da nossa cultura. O Festival também tem por objetivo promover a interação e intercâmbio de informações entre as comunidades da Terra Indígena Kwatá-Laranjal, que participam da organização e realização do evento, e também

GRUPO AVIVAMENTO

— povo Ticuna terra indígena  comunidade 

habitantes  local 

3.652

Santo Antônio do Içá - AM

proponente  contato 

Betânia

Vila Betânia (Mecürane)

Jodilson Costódio Inácio

(97) 9161 - 7302 / 9156 - 5563 /

comunidades próximas para incentivar outros jovens. Queremos dar prosseguimento a este trabalho. No entanto, o grupo não possui uma estrutura adequada, instrumentos musicais ou aparelhos para a produção de registros audiovisuais. Faltam recursos financeiros, apoio. Por esse motivo, estamos colocando este projeto, para nosso desenvolvimento cultural, para valorizar a cultura do povo Ticuna. Isso é uma prioridade para nossa juventude, que sofre com os problemas do alcoolismo, das drogas e suicídio.

— PURUS INDÍGENA: SOMOS ÍNDIOS, SERES HUMANOS, GUARDIÕES DA FLORESTA, RICOS EM CULTURA E SABEDORIA MILENAR

— povos 

Jamamadi, Deni e Banawa terras indígenas 

iniciativa n

 985

— Nós, juventudes da comunidade ticuna, praticamos, no dia-a-dia, cantos e danças para fortalecer a cultura ticuna. Desde 2007, também promovemos pequenos eventos nas

Acimã, Apurinã

do Igarapé do Mucuim, Paumari do Lago Marahã, Sepatini, Jarawara-Jamamadi-

9146 - 5548 / iberson2@hotmail.com o

Paumari, Apurinã, Jarawara,

Kamamati e Caititu comunidades 

Mais de quarenta, localizadas

nas Terras Indígenas mencionadas acima habitantes  local 

3.169

Lábrea/Canutama/Tapauá - AM

proponente 

Federação das

Organizações e Comunidades Indígenas do Médio Purus / FOCIMP contato 

(97) 9153 - 9482 / 9474 - 5505 /

253


254

8117 - 0079 / focimp@yahoo.com.br / zebajagapurina@yahoo.com.br iniciativa n

o

 992 

premiada

— iniciativa nº 992 – Purus Indígena: Somos índios, seres humanos, guardiões da floresta, ricos em cultura e sabedoria milenar

iniciativa nº 999 – Piracema cultural -

Grupo Ritual Bayaroá

iniciativa nº 1049 – Pyhcop Cati Ji Jõ’amjõhquehn -

Festa Põõhyh’pry

iniciativa nº 1.050 – Ka’aiwar wazemono’onngaw -

Encontro de moradores da mata

Com o objetivo de promover e fortalecer a cultura dos povos indígenas do Purus, realizamos, anualmente, a “Semana dos Povos Indígenas”. Ocorrem jogos tradicionais, palestras em escolas e rádios e um desfile das etnias da região, mostrando suas pinturas e vestimentas. A maioria das atividades é realizada em praça pública, onde, por meio de um “telão”, são transmitidos vídeos e fotos que retratam a cultura dos povos indígenas. Realizamos também manifestações frente às sedes da Fundação Nacional do Índio/FUNAI, Secretaria Especial da Saúde Indígena/SESAI e prefeituras, chamando atenção para os graves problemas que enfrentamos (acesso precário à saúde e à educação; falta de fiscalização territorial e invasões; presença de missões religiosas que desestimulam as tradições culturais etc.). Com o evento, mantemos nossa cultura ativa e valorizada. Para a sociedade, é uma oportunidade de conhecer a cultura indígena, colaborando para a diminuição do preconceito. Para as instituições, é um momento de reflexão a respeito da necessidade de melhoria nos serviços oferecidos. Para prosseguirmos com essa iniciativa precisamos de apoio financeiro para o custeio da logística do evento, sobretudo, do deslocamento dos indígenas e da alimentação.

PIRACEMA CULTURAL – GRUPO RITUAL BAYAROÁ

povos 

Bará, Baré, Desana, Tariana,

Tukano, Tuyuka e Itano comunidade 

Indígena Bayaroá

habitantes  local  proponente 

180

Manaus - AM

Associação de Expressão

Natural do Grupo/AENGBA/MANAUS/ AM contato 

(92) 9338 - 0904 / 3228 - 9022 iniciativa n

o

 999

— A comunidade indígena Bayaroá fica localizada na zona rural de Manaus, no km 04 da BR 174, na antiga comunidade agrícola São João. As famílias indígenas que vivem aqui vieram há dezesseis anos do distrito de Taracuá que pertence ao município de São Gabriel da Cachoeira. Apesar de vivermos em uma área rural, temos dificuldade de acesso às áreas de floresta para caçar, para a extração de matérias-primas como arumãs, sementes de açaí, argila, colheita de frutas, nem rio para pescar. Elas pertencem aos fazendeiros e ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis/ IBAMA. Sobrevivemos com os materiais que extraímos ou compramos na cidade. A escola da comunidade funciona na sede da nossa associação. As famílias de nossa comunidade falam a língua tukano e o português. Atualmente as famílias voltaram a

ensinar a língua materna para os seus filhos. Através da escola estamos incentivando a fala das duas línguas, os conhecimentos tradicionais, as danças, as comidas e bebidas tradicionais e o artesanato. A associação também criou o Grupo Musical Indígena Bayaroá para incentivar o canto e a prática dos nossos rituais, e também para a geração de renda através de apresentações culturais em diversos locais. A nossa iniciativa cultural tem como objetivo realizar quatro festas tradicionais comunitárias, onde apresentaremos nossos rituais, cantos e danças, pinturas corporais, a culinária tradicional e o nosso artesanato. Com estas festas tradicionais pretendemos obter mais união entre as famílias da Comunidade Indígena Bayaroá e contribuir para que a sociedade reconheça que o indígena urbano tem a cultura e a tradição de seus antepassados.

— PYHCOP CATI JI JÕ'AMJÕHQUEHN FESTA PÕÕHYH'PRY

povo 

Pyhcop Cati Ji (Gavião/Maranhão)

terras indígenas  aldeias 

Governador e Krikati

Governador (129 habitantes),

Rubiácea (326 habitantes), Riachinho (125 habitantes), Água Viva (95 habitantes), Monte Alegre (75 habitantes), Aldeia Nova (103 habitantes) local 

Amarante do Maranhão - MA

proponente  contato 

Roberto Moreira

(99) 3532 - 2287 /

8406 - 2575 / pynheh@hotmail.com iniciativa n

o

 1.049

— O povo enfrenta grandes desafios. Feita às pressas, sob a pressão de grandes fazendeiros, a demarcação da Terra Indígena deixou de fora todos os lugares onde os antepassados caçavam, pescavam e buscavam matérias-primas artesanais. Tudo ficou dentro das fazendas. A proximidade e o crescimento da cidade de Amarante mudaram as condições ambientais: não chove na época certa; estão destruindo as nascentes e devastando; há invasões de madeireiros, caçadores, pescadores. Após 200 anos de resistência, a cultura e a organização social correm o risco de desaparecer. Os organizadores das festas estão se acabando, não estão organizando mais. Os jovens não sabem seus partidos, as pinturas, músicas, danças e comidas típicas. Então pretendemos pesquisar junto aos anciões o jeito certo de fazer as festas, documentando, entrevistando, gravando e anotando manualmente, as festas tradicionais (Wy’ty, Põhyh’pry, Cyjxut, Ejcrere, Rurut etc.), os conhecimentos do cacique, do líder de pátio, das lideranças, dos velhos e das velhas. É muito importante que os mais velhos ensinem os jovens e as crianças, que passem seu conhecimento. Isto desperta os mais novos para a valorização da sua própria cultura.

KA'AIWAR WAZEMONO'ONNGAW - ENCONTRO DE MORADORES DA MATA

— povo 

Guajajara da Terra Indígena Arariboia (Tenetehara) terra indígena 

aldeias 

habitantes  local 

Arariboia

137 em toda a Terra Indígena 12.460

Arame / Amarante do Maranhão / Bom Jesus das Selvas - MA

proponente 

Antoninho Providência Guajajara

contato 

(99) 3532 - 4741 / 8810 - 9431 /

9133 - 1042 / 3075 - 8770 / carlosguajajara@yahoo.com.br / abraceijos@hotmail.com iniciativa no 1.050 

premiada

— A Terra Indígena Arariboia, próxima a fazendas e estradas, sofre rotineiramente com invasões de posseiros, com a extração ilegal da madeira e com a influência assustadora de igrejas pentecostais. Desde 2010, com a criação da Comissão da Terra Indígena Arariboia, surgiu a preocupação com a perda dos costumes. Então, teve início uma série de discussões a este respeito, seguida da realização de rituais há muito não praticados. Como a situação está difícil, carecemos de colaboração externa para continuar. O objetivo é evitar o esquecimento das práticas rituais, dos cantos e danças a elas relacionados, e apoiar

255


256

iniciativa nº 126 – Fortalecimento da Festa Tradicional e

Cultural - Dasipsê

o repasse desses saberes para os jovens. Para tanto, promoveremos um encontro com cantores e jovens guajajara na aldeia Kari, a comunidade anfitriã. Realizaremos a Festa do Mel (zemuishi-ohaw), do Milho (awashirewehuhau) e do Moqueado, e também uma oficina sobre audiovisual, para que o encontro seja documentado. Esperamos assim fortalecer os laços entre o povo Guajajara de toda terra Arariboia, animar as famílias para a continuação dos ritos ancestrais e despertar na juventude o gosto pela cultura, costumes e tradições guajajara.

— KETWAJE NA ALDEIA NOVA

— povo Krahô terra indígena  aldeias 

Kraholandia

Rio Vermelho (288 habitantes),

Bacuri (6 habitantes), Mãkraré (33 habitantes) e Aldeia Nova (139 habitantes) local  proponente  contato 

Goiatins - TO

intercâmbio entre jovens, velhos, pessoal de outras aldeias é mais intenso. Os amjëkin relacionam-se também ao ciclo produtivo e à segurança alimentar de nosso povo, movimentando trabalhos familiares e coletivos para a abertura de roças, produção de alimentos, coleta de frutas, caçadas. Em 2013, decidimos fazer um Ketwaje envolvendo as quatro aldeias, pois há muitos jovens à espera. A principal dificuldade relaciona-se à aquisição de materiais que, devido ao contato com a população do entorno, se tornaram necessários para realização dos amjëkin. Dentre eles: miçangas e panos para a confecção dos enfeites tradicionais; combustível para o transporte dos convidados; carne de gado, que, diante da pressão no entorno da Terra Indígena e da diminuição de oferta dos animais, substitui a carne de caça no preparo do paparuto, alimento tradicional feito com mandioca e carne. A realização dos amjëkin depende, assim, de parcerias fora da aldeia.

Creuza Prum Kroi Krahô

(63) 9988 - 5302 / 3469 - 1035 /

(99) 3531 - 2343 / prumkraho@hotmail.com iniciativa no 1.052

— O Ketwaje, amjëkin (festa cultural) que marca a passagem dos meninos à vida adulta, tem grande importância no processo de fortalecimento de nossa cultura krahô: a transmissão de nossos saberes ocorre nesses momentos de festa, nos quais o

MURUTIWY Y HARA (O POVO DO BURITI CUPÚ)

povo 

Guajajara da Terra Indígena Arariboia (Tenetehara) terra indígena  aldeia 

Arariboia

Nova Viana

habitantes 

334

local 

Amarante do Maranhão - MA

proponente  contato 

José Viana Guajajara

o ajuntamento das pessoas, a harmonia e a alegria no encanto dos ritos.

(99) 3532 - 4741 / 8810 - 9431 /

abraceijos@hotmail.com / abraceijosbarros@gmail.com iniciativa n

o

 1.053

— A Terra Indígena Arariboia sofre diuturnamente graves problemas provocados pela extração ilegal de madeira e pela invasão de posseiros. Uma vez que existe facilidade para entrar na área, cercada por fazendas, é grande a influência de não indígenas nas aldeias, especialmente de igrejas pentecostais. Faltam recursos naturais para realização das festas tradicionais. Desde 2011, após nossa chegada à aldeia Nova Viana, surgiu uma preocupação com a continuidade dos costumes guajajara. No entanto, ainda não foi possível realizar uma grande festa. Com este projeto, desejamos fortalecer a cultura guajajara, seguir resgatando as tradições e passar, de pais para filhos, os ritos e os cantos. Na Aldeia Nova Viana, promoveremos um encontro para a contação da origem dos ritos e demonstração dos mesmos, com destaque para a importância das festas do moqueado, do trabalho das parteiras na comunidade e do trabalho do pajé para a coesão do povo Guajajara. Como nossa maior dificuldade é a falta de recursos, uma vez premiados, teremos condições de realizar esta iniciativa, promovendo

— povo Guajajara

Lagoa Comprida

aldeia Leite habitantes  local 

78

Jenipapo das Vieiras - MA

proponente  contato 

Samir Santana Silva

(99) 8423 - 1183 / 8431 - 1215 iniciativa no 1.055

— A cada dia que passa estamos perdendo a cultura e queremos resgatar isso. Com o objetivo de reforçar a cultura indígena, discutimos e planejamos a Festa do Moqueado. Nossa maior dificuldade é a falta de dinheiro e apoio de pessoas de fora para o custeio do enxoval das moças, do transporte e para adquirir filmadora e outros itens.

— FORTALECIMENTO DA FESTA TRADICIONAL E CULTURAL DASIPSÊ

— povo 

Xerente (Akwē)

terra indígena 

Cabeceira Verde, Brejo Novo, Brejo Verde

local 

RESGATE DA CULTURA

terra indígena 

Sangradouro, Riozinhos,

habitantes 

9133 - 1042 / 3075 - 8770 /

aldeias 

Xerente e Funil

comunidade Akwē-Xerente

proponente 

215 famílias

Tocantínia - TO

Paulo César Pereira Xerente

contato 

(63) 8463 - 4618 /

pcesarxerente@hotmail.com iniciativa no 126

— A atividade cultural que queremos realizar é a Grande Festa Tradicional Dasipsê. Nosso objetivo é a recuperação de algumas normas que poucos praticam atualmente. Muitos jovens e crianças ainda não viram essa festa tradicional. Chegando a energia e as tecnologias nas aldeias, os anciões ficaram preocupados e incentivaram as comunidades a preservar e valorizar esta prática cultural, pois é através da festa “Dasipsê” que ensinam os conhecimentos tradicionais e as regras da organização social para os jovens akwē. Para acontecer esta iniciativa todas as comunidades colaboraram com alimentos de suas roças. Mas falta apoio e dinheiro para complementar a alimentação dos participantes durante o evento, para custear o transporte das pessoas até o local escolhido para a festa e para equipamentos e materiais para o registro audiovisual. Junto aos professores indígenas, elaboramos uma solicitação para órgãos federais, estaduais e municipais mas ninguém atendeu ao pedido.

257


258

iniciativa nº 308 – Terra Indígena Xambioá:

comunidade, cultural, desenvolvimento e sustentabilidade

TERRA INDÍGENA XAMBIOÁ: COMUNIDADE, CULTURAL, DESENVOLVIMENTO E SUSTENTABILIDADE

— povo 

Karajá do Norte

terra indígena 

Xambioá

aldeia Xambioá habitantes  local 

250

Santa Fé do Araguaia - TO

proponente 

Aguimon Júnior da Silva

Santana Idiorarú Karajá contato 

ritualísticos envolvidos e difundidos como instrumentos terapêuticos no tratamento de doenças; sistematização da história documental e oral da região; seleção de espécies que apresentem maior evidência nos relatos da comunidade e uso coerente às doenças e sintomas; análise da possibilidade de aplicação de estratégias de manejo sustentado das espécies selecionadas segundo o modelo Far-

deslocou-se para o assentamento São João, do INCRA. Lutamos pela demarcação de nossa terra. A área que ocupamos é cercada por outros posseiros. Boa parte da área que ocupamos fica alagada durante o inverno. Ficamos cercados por um lado e pela água do Rio Formoso pelo outro. Não plantamos pois a terra que ocupamos não é boa para plantar. Pescamos no rio e lago próximo e

mácias Vivas do Ministério da Saúde; entre outras. Espera-se que esta iniciativa contribua para alavancar o desenvolvimento social, cultural e econômico da comunidade.

caçamos em áreas proibidas. Sobrevivemos com muita dificuldade. Algumas pessoas trabalham na cidade ou nas fazendas próximas. Não falamos mais nossa língua e não praticamos muitos de nossos costumes. As atividades escolares ocorrem num espaço improvisado debaixo de uma lona e as aulas são fornecidas por apenas um professor que é vinculado a uma escola da cidade. Mas, como nossa comunidade pertence à etnia Krahô, queremos recuperar tudo que perdemos e este é o principal objetivo de nosso projeto. A iniciativa que apresentamos é a de realizar um Encontro de Resgate da Cultura Krahô. Será um encontro entre duas aldeias: a nossa aldeia Takaywra e a Aldeia Manoel Alves Pequeno que fica localizada na Terra Indígena Kraholândia. Durante três dias nós faremos festas tradicionais, danças rituais e relatos de nossas histórias. Queremos que os parentes krahô que vierem participar do encontro nos ensinem o que perdemos. O nosso objetivo é saber que, depois desta iniciativa, somos verdadeiramente krahô. É falar diariamente a

(91) 8363 - 2861 / 8474 - 1122 /

ijyraru@hotmail.com / aixybiowa@yahoo.com.br / Ijyraru Karajá (Facebook) / @ijyrarukaraja (Twitter) iniciativa no 308

iniciativa nº 383 – Encontro cultura de resgate da cultura

krahô

O objetivo desta iniciativa é revitalizar práticas culturais que estão sendo abandonadas. Numa primeira etapa, a festa “Wabiowa mahãdu butena” (“encontro dos amigos”) será realizada a fim de incentivar a participação da comunidade e de aldeias vizinhas convidadas em jogos e brincadeiras. A segunda etapa consistirá de pesquisa bibliográfica e de campo sobre a cultura da comunidade karajá do norte, destacando-se a problemática das plantas medicinais utilizadas e as seguintes atividades: levantamento do uso tradicional de espécies vegetais, observando a inter-relação de possíveis efeitos medicinais, o aproveitamento nos hábitos alimentares e

ENCONTRO CULTURA DE RESGATE DA CULTURA KRAHÔ

— povo 

Krahô Kanela

terra indígena  comunidade 

área não demarcada

Indígena Takaywra –

Assentamento São Judas habitantes  local 

50

Lagoa da Confusão - TO

proponente 

Reginaldo Ribeiro Lima

contato 

(63) 9959 - 6833 /

9941 - 3850 (Davi) iniciativa no 383

— Nossa comunidade vivia numa Terra Indígena conhecida por Mata Alagada, demarcada pela FUNAI em 2006. Entretanto, por impasses ocorridos no passado, parte da comunidade

nossa língua e viver de acordo com nossas tradições.

— REALIZAÇÃO DO AMJËKIN DA ALDEIA PÉ DE COCO: "PRÔNĒRE PJÊCREHA HÊ KÃM XÀ" (FESTA DA SIRIEMA NO NINHO)

— povo Krahô terra indígena  aldeia  habitantes 

Kraholandia

Pé de Côco

48 pessoas (20 famílias) /

As aldeias Pedra Branca, Cachoeira e Rio Vermelho participarão como convidadas, totalizando 200 pessoas local  proponente  contato 

Itacajá - TO

Souza Wohoti Kraho (cacique)

(63) 3439 - 1107 / 8484 - 6390 /

julianobiologiari@hotmail.com iniciativa no 636

— A realização dos amjëkin (festas culturais) é fundamental para o fortalecimento e a valorização da cultura krahô, é durante as festas que são transmitidos os nossos saberes. Os preparativos que antecedem a festa incluem o cuidado com a roça, a confecção de artesanatos de sementes e miçangas, o preparo dos cortes de pano, o corte das toras de buriti que serão usadas nas corridas de tora e o ensinamento dos cantos aos jovens

cantores da comunidade. Nossas festas estão relacionadas aos ciclos produtivos e à segurança alimentar de nosso povo. No início dos anos 2000 nós começamos a recuperar algumas de nossas sementes tradicionais e a plantá-las em nossas roças. O retorno do cultivo nos estimulou a fazer as nossas festas. Faremos o prônēre pjêcreha hê kãm xà (festa da siriema no ninho) com a ajuda do Seu Olegário, um dos líderes mais velhos, profundo conhecedor da nossa cultura e a única pessoa da comunidade que sabe fazer a festa. Faremos o registro fotográfico e audiovisual da festa, com depoimentos das lideranças mais velhas, para utilizar como material didático nas escolas, contribuir para o acervo histórico do nosso povo e divulgá-lo para outras aldeias. Este projeto nos apoiará na aquisição de materiais e alimentos que não conseguimos produzir em quantidade suficiente na aldeia, como carne (devido à escassez de caça), panos, miçangas, tesouras (para corte de cabelo krahô que faz parte do amjëkin), para a contratação da equipe de filmagem, cantores, organizador do amjëkin e para transporte.

— FESTA TRADICIONAL DE ARUANÃ E HETOHOKY

povos 

Karajá e Javaé da aldeia Waotynã (Iny)

terra indígena 

Inãwebohonã

aldeia Waotynã

259


260

habitantes  proponente 

66

Associação Mata Virgem da

Ilha do Bananal da Comunidade Indígena da

e fluvial dos convidados de outras aldeias; faltam recursos financeiros e apoio.

Aldeia Waotynã contato 

iniciativa n

iniciativa nº 636 – Realização do amjëkin da Aldeia Pé

de Coco: “prônēre pjêcreha hê kãm xà” (festa da siriema no ninho)

iniciativa nº 720 – Festa Tradicional de Aruanã e Hetohoky

iniciativa nº 723 – Hôhô hã mēhkĩnh (ritual da Hôhô)

iniciativa nº 728 – Pàrkapê - o ritual da Tora Grande

(63) 9928 - 8411 / 9947 - 8068 o

 720

— O trabalho desenvolvido visa à valorização e ao fortalecimento das práticas culturais dos povos Javaé e Karajá. A intenção da comunidade é realizar o ritual Hetohoky, festa de iniciação dos meninos, e a festa do Aruanã (um conjunto de festas interligadas que acontecem dia a dia ao longo de dois ou três anos), fazendo registros audiovisuais dos eventos. Oferecido a uma família pelo grupo guerreiro, o Aruanã é planejado pelos homens e pelo pajé. O trabalho todo é secreto, com conhecimentos compartilhados só pelos homens especializados. Quando o trabalho é concluído, dá-se início às festas públicas com danças e cantorias de Aruanã, ainda só dos homens, responsáveis pelo preparo dos alimentos e pela confecção de enfeites. As mulheres dançam em separado, o contato com os aruanãs é expressamente proibido a elas. A cultura está ameaçada pela proximidade das cidades vizinhas e pela interferência dos costumes dos não índios na vida da comunidade; é preciso garantir a manutenção dos costumes tradicionais para as futuras gerações. Há dificuldades no acesso a equipamentos para filmagem e com o transporte terrestre

HÔHÔ HÃ MĒHKĨNH (RITUAL DA HÔHÔ)

— povo 

Pahnĩ (Apinajé)

terra indígena  comunidades 

Apinajé

Mariazinha, Mata Grande,

Barra do Dia, Botica, Olho D’Água, Bonito, Macaúba, Girassol, Riachinho, Formigão, Recanto, Cipozal e Brejão habitantes  local  proponente 

942

Tocantinópolis - TO

União das Aldeias Indígenas

mas, por falta de apoio, o ritual não está sendo realizado. Próxima a cidades, tangenciada por rodovias e ferrovias e assediada por invasores, a Terra Indígena Apinajé sofre com desmatamentos e com a escassez de caça e peixe. Faltam recursos para aquisição de alimentos para os parentes convidados; precisa ter batata, abóbora para que aconteçam os conhecimentos da cultura apinajé. O transporte dos convidados é outro desafio. Os anciões dizem que precisam fazer o ritual para o conhecimento não se perder. Espera-se que a iniciativa desperte o interesse dos mais jovens pelos rituais, músicas e festividades pahnĩ, garantindo a manutenção do laço que une as comunidades.

Apinajé – Pempxà contato 

(63) 3471 - 3347 / 3471 - 3806 /

secretario.pempxa@hotmail.com / uniaodasaldeiasapinaje.blogspot.com.br iniciativa no 723

— O objetivo desta iniciativa é a realização do ritual do Hôhô na aldeia Mariazinha com a participação das demais comunidades apinajé. Realizado pela última vez na década de 1970, esse ritual consiste em uma corrida de toras na qual competem os partidos Katàm e Waxmē, pintados de lama branca e de urucum, respectivamente; o primeiro a chegar é premiado com os utensílios e adereços do segundo. Realizam-se também festas, cantorias e, muitas vezes, as tias e os tios nomeiam as crianças. O pajé aprendeu as cantigas do Hôhô,

PÀRKAPÊ – O RITUAL DA TORA GRANDE

— povo 

Pahnĩ (Apinajé)

terras indígenas 

Apinajé e Krahô (a

comunidade de Pedra Branca na T.I. Krahô participará da iniciativa como convidada devido às relações de parentes entre as famílias organizadoras do Pàrkapê) comunidades 

Krĩnhĩnure (São José), Wôkrô

(Patizal), Pàhti (Palmeiras), Kwỳrnhĩkop (Boi Morto), Kaxware (Serrinha), Pikajakara (Areia Branca), Rômbô (Brejinho), Hakrôtixà (Bacaba), Kámêkrorê (Bacabinha), Rorkôti (Cocal Grande), Gãwtore (Prata), Kanuka (Furna Negra), Krĩkrĩre (Aldeinha), Kakranhĩ (Abacaxi) e Pedra Branca (T.I. Krahô) habitantes 

1173 habitantes. A comunidade

krahô de Pedra Branca conta com 450 habitantes, mas apenas cerca de 30 serão convidados local  proponente 

Tocantinópolis - TO

União das Aldeias Indígenas

Apinajé – Pempxà contato 

obrigações rituais com os parentes mortos, espera-se que a iniciativa desperte o interesse dos mais jovens pelos rituais, músicas e festividades pahnĩ, garantindo a manutenção do laço que une as comunidades.

(63) 3471 - 3347 / 3471 - 3806 /

secretario.pempxa@hotmail.com / uniaodasaldeiasapinaje.blogspot.com.br iniciativa no 728 

premiada

— Principal manifestação cultural apinajé, o ritual da Tora Grande é organizado por uma família da comunidade para homenagear um parente falecido. Depois de cortar a Tora Grande, os parentes do homenageado pintam e enfeitam duas toras, cada uma representando um dos partidos (Katàm e Wahmē) nos quais se divide a comunidade e seus convidados. Os dois partidos buscam as toras e correm com elas pelo pátio da aldeia até a casa dos organizadores do ritual. Esses oferecem comida, bolo de massa de mandioca aos convidados. Por fim, a tora é carregada para o local onde está enterrado o falecido. Próxima a cidades, tangenciada por rodovias e ferrovias e assediada por invasores, a Terra Indígena Apinajé sofre com desmatamentos e com a escassez de caça e peixe, sobretudo durante as festas culturais, quando é preciso oferecer comida em abundância para os parentes de outras comunidades. O transporte dos convidados é outra dificuldade. Enfim, é preciso apoio financeiro. Além de cumprir as

PRESERVAÇÃO DA DANÇA DO PARASOY

— povo Munduruku terra indígena  aldeia 

Munduruku

Missão São Francisco

habitantes  local  proponente 

650

Jacareacanga - PA Flávio Kaba Munduruku

contato 

(93) 9187 - 7241 /

mundurukuufopa@gmail.com iniciativa no 264

— A Dança do Parasoy é uma das principais características do povo Munduruku. Era sempre realizada nos momentos de festa, para expressar a alegria. Nos últimos anos, entraram em nossas aldeias músicas eletrônicas muito apreciadas pelos jovens. Muitos de nosso povo começaram a perder o interesse pela dança e pelos toques de flauta do Parasoy. Nossos tocadores já não tocam mais: estão muito velhos; os jovens não aprenderam. Com essa iniciativa, queremos incentivar os jovens a aprenderem a tocar as flautas, queremos que nossos filhos e netos tenham orgulho da nossa cultura. Para o ano de 2013,

261


262

iniciativa nº 264 – Preservação da Dança do Parasoy

pretendemos adquirir roçadeiras para aparar o mato e manter a aldeia bem limpa para as festas. Queremos também incentivar cada família a ter, em sua casa, os enfeites corporais de cada pessoa. Vamos realizar oficinas de pintura corporal, pois na dança do Parasoy é importante que todos estejam bem caracterizados e que a roda fique bem bonita. Pretendemos também incluir a dança e as músicas do Parasoy nas aulas de arte da escola para que as crianças aprendam desde cedo. Queremos também registrar os momentos de dança para guardar para as futuras gerações.

iniciativa nº 748 – Wuirá U´haw - Fortalecendo o nosso

povo, nossa luta e nossa identidade tenetehar

WUIRÁ U'HAW – FORTALECENDO O NOSSO POVO, NOSSA LUTA E NOSSA IDENTIDADE TENETEHAR

— iniciativa nº 656 – Raoni Metuktire - Muito Obrigado -

Rondônia Karitiana - Agradece

povo 

Tembé Tenetehar

terra indígena  aldeias 

Alto Rio Guamá

Já regularizada, nossa terra ainda se encontra ocupada por mais de 1.200 famílias não indígenas. Devido às ações de fazendeiros e madeireiros, nossas matas foram devastadas e nossos rios estão poluídos e assoreados; falta peixe e caça. O município de Nova Esperança ocupa quase metade de nossas terras e, como o espaço é insuficiente para nossas roças, temos de recorrer à compra de alimentos, sobretudo quando realizamos nossas festas. Em 2003, ao notar que o problema da terra trazia consequências para a vida cultural do povo Tembé, pois os invasores afirmavam que não existiam mais indígenas na área, a comunidade viu no fortalecimento cultural um ponto de apoio para a reconquista do território. Desde então, decidiu-se buscar parentes no Rio Gurupi para ensinar a língua e as tradições praticadas por lá e promover oficinas de artesanato, cantos, danças etc., bem como rituais, principalmente as festas do mingau e moqueado. Dada a situação da comunidade, buscamos recursos que possibilitem a compra dos alimentos e dos materiais necessários para a continuidade da iniciativa.

Ita Putyr, Frasqueira, Tawari,

Zawaru´u, São Pedro, Pirá, Jacaré, Iarapé habitantes  local  proponente 

397

Santa Luzia - PA

Associação Tembé das Aldeias

Frasqueira e Ita Putyr (ATAFI) contato  iniciativa nº 657 – 1ª Dança Cinta Larga com Metuktire

(91) 8701 - 6839 / 8837 - 4180 /

8133 - 4908 / 8728 - 1892 / turypar@hotmail.com iniciativa no 748

FESTA DO GOHV AKAE

— povo 

Gavião de Rondônia (Ikólóéhj)

terra indígena  aldeias 

Igarapé Lourdes

Ikolen 1, Ikolen 2, Cacoal,

Nova Esperança, Telerom, Maloca Grande,

Castanheira, Final da área, Cascalho, Igarapé Lourdes, Zé Antônio, Ingazeiro, Tucumã, Zezinho habitantes  local  proponente 

618

devido a percalços históricos – epidemias, influência missionária, desmatamento etc. Retomá-las é uma forma de manter viva a memória da cultura.

Ji-Paraná - RO

Associação Zavídjaj Diguhr

contato 

(69) 9991 - 8822 /

gaviao.josias@gmail.com iniciativa n

o

 425

— A temática do sacrifício animal evoca uma celebração das mais significativas para os povos Tupi-Mondé: a festa tradicional Gohv Akae. O dono da festa convida os guerreiros para matar seu próprio animal de criação, um porcão. Ornados e pintados, os convidados se aproximam do animal e disparam suas flechas. Após o sacrifício, os convidados oferecem suas flechas ao dono da festa, que retribui com makaloba (bebida tradicional) e com a carne do animal; colares, pulseiras, cintos, cocares são ofertados a sua esposa e filhas. Pretendemos fortalecer esse espaço de confraternização e de transmissão de saberes, envolvendo principalmente os jovens. Por isso, propomos oficinas de plantas medicinais, de elaboração de artesanato e de instrumentos musicais e também de registro audiovisual. Isto exigirá muitos esforços e recursos: gastos com o transporte de aldeia para aldeia, com alimentação, aquisição de equipamentos audiovisuais, construção de tapiris para abrigar os convidados etc. Havia uma grande diversidade de festas que foram perdendo espaço

RAONI METUKTIRE – MUITO OBRIGADO – RONDÔNIA KARITIANA – AGRADECE

— povos 

Karitiana (Akot Pytim’adnipa)

terras indígenas 

dos Povos Karitiana (Akot

Pytim’adnipa) comunidade  habitantes 

Akot Pytim’adnipa

270 na aldeia Karitiana

O objetivo desta iniciativa é realizar o Festival da Chicha, há muito tempo não realizado por falta de dinheiro. Entendo que esse festival valoriza e fortalece nossas práticas culturais. Em paralelo, queremos transformar nossa comunidade num ponto turístico ambiental para gerar renda para nossos parentes e para que as pessoas da cidade visitem nossa aldeia e aprendam com nossos costumes. Hoje, a renda que possuímos é insuficiente para uma boa alimentação diária; muitas vezes, ficamos sem carne. Precisamos melhorar o alimento de nossos filhos (e espantar os maus espíritos). Esperamos que a tradição da chicha fortaleça nossa comunidade e que o projeto de turismo crie uma forma de sustentabilidade para nossos filhos.

e 50 distribuídos pela cidade

de Porto Velho local  proponente 

Porto Velho - RO

Fernando Antônio Karitiana

contato 

(69) 9212 - 4554 /

grupo.karitiana@gmail.com iniciativa no 656

— A presença de hábitos da cultura do branco dificultou a manutenção de nossas práticas culturais; observo que os jovens encontram dificuldade para manter nossos costumes. Não se tem registros oficiais dos antigos festivais, mas me recordo que, após um festival do qual participei com minha família, todos estavam muito felizes, nossa comunidade se comunicava mais e até os jovens e crianças comentavam.

1a DANÇA CINTA LARGA COM METUKTIRE

— povo 

Cinta Larga

terras indígenas 

do leste de Rondônia

(Roosevelt) comunidades 

Cinta Larga Kabã, Cinta Larga

Kakin e Cinta Larga Mã habitantes  local  proponente 

1.567

Cacoal - RO

Maria Beleza Cinta Larga

contato 

(69) 9356 - 8959 /

larissa.cultural@gmail.com / mariaindia.india.7 (Facebook) iniciativa no 657

263


264

iniciativa nº 713 – Ca Toc Wa Pana (Festa da Chixa)

iniciativa nº 818 – Festa do Guerreiro

iniciativa nº 823 – Músicas, cantos, danças e rituais

tradicionais do povo Arara

Como há muitos diamantes e madeiras especiais em nossa terra, nós, Cinta-Larga, sempre temos problemas com garimpeiros e madeireiros. Antes tínhamos muita comida, hoje, com o desmatamento das cabeceiras dos rios, começa a faltar peixe e caça, bem como outros recursos naturais necessários para a manutenção das práticas culturais. Os jovens, vendo esses problemas, não querem mais permanecer nas aldeias, ficam distantes e perdem o interesse por nossos costumes e hábitos. Por meio desta iniciativa, queremos realizar uma grande dança indígena com chicha de cará, de batata, milho e macaxeira, fazendo a filmagem completa das canções tradicionais. Também desejamos incentivar a produção e venda de trabalhos artesanais cinta larga, fortalecendo a economia local. Pessoas da cidade de Cacoal e outros visitantes virão assistir nossa dança tradicional e, através dela, aumentaremos nossas vendas, garantindo renda e criando sustentabilidade para nossa comunidade. Com esta iniciativa, nossa comunidade cinta larga busca também chamar a atenção das autoridades para o cumprimento de acordos firmados nas áreas de saúde, educação e cultura.

— CA TOC WA PANA (FESTA DA CHIXA)

povos 

Oro Noo, Oro AT, Oro Mon, Surui,

Oro Ed, Oro Jawin, Makurap, Oro waram

terra indígena 

Rio Pacas Novos

Aldeia Santo André habitantes  local 

aí vai ficar muito legal para nós resgatarmos nossa cultura.

300

Guarajá Mirim - RO

proponente  contato 

Salomão Oro Nao

(69) 9985 - 2264

iniciativa no 713

— A comunidade teve pouco desmatamento; somos nós que cuidamos do mato e a área está preservada. Só é difícil de plantar: a terra boa é muito longe, mais de dez quilômetros; tem que buscar de carro. Também esse negócio do tucumã é difícil: tem que andar cinco quilômetros. Para pegar barro para fazer cerâmica são dois dias de viagem. Queremos fortalecer a troca entre os jovens e os mais velhos; até agora, não esquecemos a nossa cultura e não queremos esquecer. Por isso, vamos realizar este evento. Todos participam, ajudam a preparar o local, a chixa, a comida e os instrumentos de taboca. A comunidade Santo André é que realiza a festa, mas vem o pessoal de fora, das aldeias Rio Negro, Tanajura, Bom Futuro; eles vêm preparados com as músicas deles, mas quem se preocupa com a caça e com a pesca para dar para esse pessoal todo é a comunidade Santo André. A nossa dificuldade é a falta de apoio financeiro para a compra de combustível e alimentação; as distâncias são longas e, hoje, tem mais dificuldade de pesca e caça. A gente perde muito nosso futuro, a nossa criança não conhece os antigos, as músicas. Se aprovar esse projeto,

FESTA DO GUERREIRO

— povos 

Kanae, Tupari, Cujubim,

Macurapi, Jaboti, Kassupa, Ajuru, Oro Waram Xijem, Aruwat e Aritapu terra indígena  aldeia 

Rio Guaporé

Ricardo Franco

habitantes  local 

lado nossos costumes. Há alguns anos, promovemos o fortalecimento de práticas culturais arara, principalmente do artesanato. Agora, queremos trabalhar a festa do jacaré e o encontro de pajés. A festa do jacaré mostra toda nossa concepção de mundo, nossa relação com os espíritos; dançamos e cantamos, usamos muita pintura corporal, bebemos macaloba (bebi-

tem, nossos pais vão se lembrando do que falta. Mostrando o melhor da cultura de cada etnia, garanto que as crianças vão querer praticar.

da típica), os pajés fazem pajelança. No encontro de pajés, juntos, eles se sentem mais fortes e valorizados, contam histórias e mitos, ensinam cantos, fazem grandes curas. Queremos aproveitar esses dois eventos para registrar nossas músicas tradicionais num CD, para que os jovens possam ouvi-las no dia a dia. Queremos também gravar vídeos para divulgar nossas expressões culturais. Precisamos de apoio para os gastos com transporte, alimentação, equipamentos e materiais audiovisuais etc. Queremos que todas as pessoas arara valorizem nossas festas e os pajés; os jovens e as crianças precisam aprender nossas músicas, cantos, danças e histórias.

Guajará Mirim - RO

proponente  contato 

460

dificuldades, principalmente, quando se trata de artesanato tradicional: vamos precisar ter as roupas e algumas das palmeiras que nós não temos encontrado aqui vamos ter que buscar num lugar que tenha; aí tem custo. Também vamos precisar de combustível para trazer os parentes que vão participar. Vai ter que pagar o serviço das pessoas que vão trabalhar na filmagem. A gente mostrando o que

José Augusto Canoé

(69) 4400 - 7858 / 3541 - 2149 /

jose_22augusto@hotmail.com iniciativa no 818 

premiada

— Nosso objetivo é mostrar a cultura dessa região, da Terra Indígena Guaporé, onde moram várias etnias. Queremos mostrar para os índios e não índios deste e de outros estados que nós temos identidade. Queremos mostrar a festa, a alimentação cultural, os jogos tradicionais, a língua, os artesanatos etc. Sofremos muito no passado; os capangas que existiam naquela época impediam nosso povo de se expressar na sua própria cultura. Então, agora, a gente tenta resgatar o que foi perdido. Através desta iniciativa teremos a oportunidade de apresentar todo ano a festa, de envolver todas as etnias da terra e parentes de outras áreas, de conversar mais com os anciões. Vamos ter

MÚSICAS, CANTOS, DANÇAS E RITUAIS TRADICIONAIS DO POVO ARARA

— povo 

Arara (Karo)

terra indígena  aldeias 

Igarapé Lourdes

Pajgap, Cachoeirinha e Postinho habitantes  local 

proponente 

122

Ji-Paraná - RO

Associação Karo Pajgap

contato 

(69) 9253 - 1025

iniciativa no 823

— Sentimos que os costumes dos não índios vêm com muita força para dentro das nossas aldeias, especialmente através da TV e da interferência dos crentes; isso faz com que muitos jovens deixem de

— SHIWO JÄKÄ WÄNWANÄJE WOOWANOOMANÄ: FESTEJAR PARA CONHECER E APRENDER

265


266

povo Yekuana terra indígena 

Yanomami

comunidade Fuduuwaduinha habitantes  local  proponente 

287

Boa Vista - RR

Reinaldo Wadeyuna Luiz Rocha

iniciativa nº 637 – Shiwo jäkä wänwanäje woowanoomanä: Festejar para conhecer e aprender

contato 

musicais, cantos e danças etc. Necessitamos de apoio para a compra dos materiais necessários para a realização e documentação audiovisual da festa e das oficinas. Esperamos que os jovens aprendam os conhecimentos e práticas relacionadas à festa Tanöökö, fortalecendo nossa cultura ye’kuana.

(95) 9143 - 1008 / 9147 - 6332 /

davidyekuana@bol.com.br / castroyekuana@gmail.com / majoi.gongora@gmail.com / Wedunejuudu Ye’kuana (Facebook) iniciativa no 637

— iniciativa nº 874 – Xapiri: valorização do xamanismo

yanomami

iniciativa nº 520 – Malti-Lyá - Toré do milho

iniciativa nº 125 – Projeto Hipekuluta

O aumento populacional na região habitada pela comunidade de Fuduuwaduinha tem contribuído para a diminuição de recursos naturais, tais como caça e pesca, solos férteis, matérias-primas artesanais etc. Esta escassez prejudica nossas práticas culturais. Por falta de caça, uma das festas mais importantes para nós, Tanöökö, festa do caçador, não é realizada há mais de dez anos. O objetivo desta iniciativa é criar um contexto de aprendizado de conhecimentos e práticas rituais relacionadas à festa Tanöökö. Em 2003, quando a realizamos pela última vez, muitos jovens não participaram; foi uma festa de demonstração que não trouxe muito conhecimento. Desta vez, antes da festa teremos “oficinas de formação” para os jovens professores e lideranças. Os conhecedores tradicionais vão ensinar todas as etapas para a realização da festa: coleta dos recursos naturais, fabricação e uso de instrumentos

XAPIRI: VALORIZAÇÃO DO XAMANISMO YANOMAMI

— povos 

Yanomami e Ye’kuana

terra indígena  comunidades 

Terra Yanomami

Watoriki, Raxasi,

Maraxipora, Apiahiki, Piaú, Wanapiú, Aracá, Auaris, Wakathaú, Novo Demini, Waputa, Papiu, Xitei, Surucucu, Ericó, Alto Mucajaí, Parawaú, Hawarihixapope, Hakoma, Homoxi, Mauxiu, Parafuri, Xikawa, Cachoeirinha, Apiaú habitantes  local  proponente 

6.010

Boa Vista - RR

cosmológica dos xapiri thëpë (xamãs) sobre a crise ecológica mundial elaborada durante os dois encontros visava sustentar a mobilização política dos Yanomami contra o desenvolvimento predatório dos brancos. Para os Yanomami, urihi, a terra-floresta, não é um espaço inerte de exploração econômica, mas uma entidade viva, inserida numa complexa dinâmica cosmológica de intercâmbios entre humanos e não humanos. Outro objetivo foi consolidar a transmissão dos saberes e rituais xamânicos tradicionais para as novas gerações. Hoje, os jovens, muito interessados pelas coisas dos brancos, participam pouco de práticas culturais yanomami; a iniciativa procura reverter essa situação. No ano de 2013, realizaremos mais um encontro, desta vez na região do Ajarani/Apiaú, aquela que mais sofre com invasões de fazendeiros. Devido à grande distância entre aldeias, é preciso apoio para os gastos com transporte. Com o fortalecimento dos xamãs, esperamos que seja possível conter os efeitos devastadores das mudanças climáticas.

Hutukara Associação

Yanomami (HAY) contato 

(95) 3224 - 6767 /

hutukara@yahoo.com.br / www.hutukara.org (site) iniciativa no 874

— Em 2011 e no ano seguinte, na aldeia Watoriki e a convite do xamã e líder yanomami Davi Kopenawa, foram realizados o 1º e o 2º Encontro de Xamãs Yanomami. A reflexão

MALTI-LYÁ – TORÉ DO MILHO

— povos 

Fulni-Ô, Wapichana,

Tupinambá e Tenetehá terra indígena 

Santuário Tapuya dos Pajés

comunidade Tapuya/Fulni-Ô habitantes 

27 (além de uma família

tupinambá e outra wapichana)

local  proponente 

Brasília - DF

Albani Torres da Hora

Veríssimo Machado contato 

(61) 8343 - 7936 / 8252 - 3496 /

8236 - 1115 / santuariodospajes@gmail.com iniciativa n

o

 520

— O Malti-Lya é um ritual tradicional do milho, do seu espírito. As estrelas falam para o pajé quando vai ter festa; o pajé sonha, vê a chuva, vai à roça e olha, aí ele reza: vai ter caxiri, o espírito do milho está pedindo. Então fazemos a colheita, preparamos o caxiri, a pamonha, o curau, o milho assado; todos participam, cantando felizes. Convida parentes de outras etnias e até os brancos. Vem todo mundo para fazer o toré e dançar para o espírito do milho. A festa começou com os antigos, mas muitos se esqueceram. A luta pela terra deixou muitos da comunidade desanimados; por causa da guerra, o toré foi deixado de lado. Falta aquele toré forte para levantar todo mundo, para mostrar para o branco a força da nossa cultura. Aí, ele fica tranquilo na aldeia, sem falar muito, respeita nosso jeito. Fazemos nossos projetos mobilizando a aldeia, mas quando a gente tem uma ajudinha de apoiadores fica melhor. Aí, o branco assiste e diz “nossa, é toré do milho mesmo, e não um torézinho”, ele sente os espíritos; o dono do milho chega e diz “nossa, é toré do milho”, o dono veio! Então, tem que ter ajuda para as festas tradicionais não acabarem.

PROJETO HIPEKULUTA

— povo Yawalapiti terra indígena 

Parque Nacional do Xingu

aldeia Yawalapiti habitantes  local 

proponente  contato 

380

Canarana - MT Anuiá Yawalapiti

(66) 9697 - 0361 /

anuia.xingu@gmail.com iniciativa no 125

— As flautas são de fundamental importância na cultura dos indígenas do Parque Nacional do Xingu; são os principais instrumentos utilizados tanto em momentos cotidianos, tais como festas que marcam passagens entre plantio e colheita, fases da vida e homenagens, quanto nos rituais sagrados. No entanto, a cultura dos cantos com flautas está ameaçada. Os mestres-cantores que dominam os instrumentos e os cantos vocais estão falecendo e os jovens, obrigados a deixar a aldeia para estudar ou seduzidos pela modernidade, estão deixando de aprender a cultura tradicional. Na aldeia Yawalapiti, o último mestre-flautista, Finako Kuikuro, faleceu em 2011. Apesar de seu falecimento, ainda há tempo para se resgatar a cultura da flauta por meio de mestres de aldeias vizinhas waura, kalapalo, kuikuro, meynako etc. Com a ajuda do Prêmio, a comunidade deseja trazer para a aldeia mestresflautistas e mestres-cantores de etnias vizinhas, com as quais os Yawalapiti têm laços de parentesco e identidade

267


cultural, para que, através da realização de oficinas, eles ensinem a cultura da flauta. Tudo será gravado em mídias digitais, visando à composição de um acervo da etnia.

268

— iniciativa nº 176 – Xema’eãwã pe mi ma’e ma’e apaga

arakwaãp apyãwa mõ - o resgate de nosso saber

iniciativa nº 251 – Memy Biô - Festa do Homem

XEMA'EÃWÃ PE MI MA'E MA'E APAGA ARAKWAÃP APYÃWA MÕ – O RESGATE DE NOSSO SABER

terra indígena 

Tapirapé/Karajá

comunidade Mãjtyritãwa habitantes  local  proponente 

73

Associação O Povo Indígena da

Nação Unida Tapirapé (66) 8422 - 5919 /

xako77@yahoo.com.br iniciativa n

o

 176

iniciativa nº 364 – Yaõkwa, Lerohi e Kateoko

os jovens aprendam e se sintam parte dos rituais de seu povo.

suficiente, o cacique decide iniciar a festa. A maior dificuldade que temos relaciona-se à alimentação, porque, como ficamos três meses trabalhando para a festa, não podemos cuidar de nossas roças nem caçar para nossas famílias. Outro problema é a compra de miçangas e linhas de nylon para a confecção dos adornos. Esperamos que essa iniciativa desperte em toda comunidade o interesse de preservar a cultura mebengokrê, principalmente o dos jovens.

— MEMY BIÔ – FESTA DO HOMEM

Santa Terezinha - MT

contato 

Bororo de Meri Ore Eda

festa. Para a realização desta iniciativa, um homem, com o aval da comunidade, escolhe um menino que está se tornando adulto para homenagear e vai conversar com seus pais. Então, durante três meses a comunidade aprende e ensaia com os anciões aquilo que faremos na festa. Depois que todos tiverem aprendido, as mulheres fazem adornos de miçanga e os homens vão caçar. Quando há alimento

— povo Tapirapé

iniciativa nº 297 – Revitalização da Cultura Boe -

do projeto da escola, conseguimos trazer o povo Tapirapé de Urubu Branco para Mãjtyritãwa e construir a Takarã, espaço físico específico e exclusivo para determinados rituais. A vinda dos Tapirapé de Urubu Branco demanda esforço das famílias para conseguir transporte e acomodação. Com o incentivo do Prêmio, almejamos garantir a continuidade de nossos costumes, fazer com que as crianças e

É um apelo constante da comunidade de Mãjtyritãwa que as crianças aprendam os cânticos, as danças, as cerimônias, a arte, enfim, todos os procedimentos e instrumentos que fazem parte dos rituais do povo Tapirapé. A maior parte da população tapirapé se mudou para a Terra Indígena Urubu Branco, no município de Confresa (MT), e nossa aldeia ficou com poucos moradores, o que dificulta a realização das cerimônias. Nos anos de 2008 e 2009, através

povo Kayapó terra indígena  aldeia 

Capoto/Jarina

Kremoro (antiga aldeia Capoto) habitantes  local 

Colider - MT

proponente  contato 

517

Weneti Tapayuna

(66) 3541 - 3588 /

wenetitapayuna@hotmail.com iniciativa n

o

 251

— Memy Biô é a festa mais importante de nossa aldeia. Quando soubemos do Prêmio, os velhos, conversando na Casa do Homem, gostaram da ideia de contar a história dessa festa antiga, de lembrar como se faz cada coisa (músicas, brincadeiras, adornos etc.) e ensinar aos jovens, juntar toda a comunidade, convidar os nossos parentes mebengokrê e fazer uma grande

REVITALIZAÇÃO DA CULTURA BOE – BORORO DE MERI ORE EDA

— povo 

Boé Bororo

terra indígena  aldeia 

Meri Ore Eda

habitantes  local 

Meruri 34

General Carneiro - MT

proponente 

Projeto Equipe Meri Ore (PEMO)

contato 

(66) 3416 - 1172 /

meritororeu@gmail.com / meritorororeu.10 (Skype) iniciativa no 297 

premiada

— O prato predileto do povo Bororo é o peixe. Os Bororo são famosos por seu funeral e, em todos eles, é preciso de peixe para fazer o banquete espiritual. Temos também, desde os tempos primórdios, a festa do peixe, Kare Paru, de cunho religioso, na qual reunimos todas as aldeias da reserva de Meruri, pescamos, trocamos alimento entre clãs de metades opostas e as mulheres preparam os pratos tradicionais para a refeição das almas. Devido à pesca predatória realizada por cidades e fazendeiros vizinhos e à poluição dos rios, nosso pescado está em extinção. Esta escassez, bem como outros impactos negativos, ameaçam nossos rituais sagrados. Por isso, criamos a associação PEMO e, em 2009, estabelecemos parcerias com o Ministério da Pesca e, três anos depois, com a Brazil Foundation para o desenvolvimento de um projeto de piscicultura. Agora tentamos obter auxílio do Prêmio. Além de assegurar a alimentação do povo Bororo e fornecer, por meio da produção e venda de excedentes, recursos para promover a autonomia da comunidade, um dos objetivos da associação e do projeto é incentivar e apoiar a cultura bororo, fazer a festa do peixe conforme os ritos milenares.

YAÕKWA, LEROHI E KATEOKO

— povo Enawenê-nawê terra indígena 

Enawenê-nawê

aldeia Halataikwa habitantes  local  proponente  contato 

680

Juína - MT

Daliyamase Enawene (66) 3566 - 6115 /

jrarqueo@gmail.com / renanspessatto@hotmail.com iniciativa no 364 

premiada

— Apesar de vivermos em área preservada, impactos causados pela construção de hidrelétricas e pela poluição dos rios têm provocado uma escassez de peixes, nossa principal fonte de proteína e nosso alimento sagrado. O peixe é largamente utilizado nos rituais enawenê-nawê, nas pescarias do Lerohi, no ritual das mulheres, o Kateoko, e no Yaõkwa. No ritual Yaõkwa, por exemplo, são consumidos mais de 30.000 quilos de peixe durante as oferendas aos espíritos Yakairiti. O objetivo desta inciativa é manter os rituais sagrados do povo EnawenêNawê conforme as dinâmicas culturais e as necessidades existentes. Tais necessidades consistem de demandas econômicas envolvidas na realização dos rituais, pois, como as culturas são dinâmicas e progressivas, incorporamos vários elementos não indígenas e, agora, para manter essa nova matriz cultural, auxílios de projetos e mesmo do governo são fundamentais. Assim,

269


para a realização dos três rituais citados, é preciso ajuda na compra de pescado e também com obtenção da gasolina necessária para chegarmos até os pontos rituais de pesca. Sem peixe e sem movimento não há ritual. São os rituais que asseguram a existência dos Enawenê-Nawê.

270

iniciativa nº 402 – Ritual de Aruanã

— RITUAL DE ARUANÃ

— povo 

Karajá (Iny)

terra indígena 

São Domingos

aldeia Krehawa habitantes  iniciativa nº 698 – Festa de corte de cabelos das moças

local  proponente 

176

com boa pesca, boa terra e alguns animais. Não há interferências de fora: a fazenda e a cidade mais próximas ficam a setenta quilômetros de distância. Na cidade, a gente usa o português, mas nós somos Mêbêngôkre e usamos nossa língua no dia-a-dia; não vamos perder a nossa língua nem nossas tradições. Principalmente, eu proponho a realização desta iniciativa de valorização de

nitária para o ritual de aruanã e também para promovermos a segurança alimentar e a autonomia da aldeia de Krehawa. Teremos condições para revitalizar nossa cultura milenar, de viver com saúde, liberdade e em harmonia com a natureza.

práticas culturais. Achei muito interessante, para a comunidade, concorrer ao Prêmio Culturas Indígenas. Não falta dinheiro e não há pessoas de fora que atrapalhem o trabalho; não falta apoio das outras pessoas; nós mesmos nos responsabilizamos dentro da iniciativa. Nós, os Mêbêngôkre, não queremos que pessoas de fora participem juntamente com a comunidade. Isso não é o melhor para nós. Todos os serviços para a realização deste projeto que a gente fez foram voluntários. Os materiais necessários são só um gravador e uma fita virgem; com esses materiais a gente faz o projeto.

Luciara - MT

Instituto Krehawa-Inkre

contato 

(66) 98452 - 3107 /

celiokawina@yahoo.com.br iniciativa n

o

 402

— iniciativa nº 901 – Casa de Adolescentes (Hö)

O indígena Celio Kawina propõe esta iniciativa com o objetivo de manter a cultura iny-karajá e evitar interferências externas junto aos jovens, que já participam pouco. Atualmente, a maioria das comunidades indígenas karajá passa necessidade devido à introdução do monocultivo e à falta de renda. Se a comunidade for contemplada pela premiação, nós vamos fazer uma grande roça comu-

A vida ritual iny-karajá, de caráter acentuadamente religioso, ocorre em festividades como o aruanã. O aruanã é um ritual longo, durando de três meses a um ano, e requer uma grande roça ou recursos para obter alimentos em abundância. O pajé traz o aruanã para dançar e alegrar e avisa que o aruanã está chegando. O cacique reúne os homens para limpar o pátio onde se vai construir a casa de aruanã; os homens tiram madeira e palha para a construção. Todas as famílias, inclusive parentes de outras aldeias, são convidadas a participar e trazem alimentos rituais.

FESTA DE CORTE DE CABELOS DAS MOÇAS

— povo Mêbêngôkre

terra indígena 

Kapôto-Jarina

aldeia Kremoro habitantes  local 

Peixoto de Azevedo - MT

proponente  contato 

720

Tekreranti Metuktire (66) 3541 - 3588 /

nina_floresta@hotmail.com /

DANÇA LELE HEVE

www.institutoraoni.com.br (site) iniciativa no 698 

premiada

— A comunidade vive em área rural reconhecida como Terra Indígena pelo governo. A região é boa, preservada,

povo Terena terra indígena  aldeia 

Gleba de Iriri Novo

Inamaty Poke’e

habitantes  local 

Peixoto de Azevedo - MT

proponente  contato 

40

Eziel Borobó Rondon

(66) 9631 - 7760 / 3575 - 1950 /

borobo2008@hotmail.com / borobo2013@hotmail.com iniciativa no 

707

CASA DE ADOLESCENTES (HÖ)

— povo 

Xavante (A´uwe uptabi)

No ano de 2006, o cacique da dança convidou os demais guerreiros para lhes ensinar o canto e os passos da dança Lele Heve, a dança da chuva. Era meio-dia, todos dançavam e a chuva não demorou a cair; todos se admiraram. Nesse mesmo ano, a dança foi apresentada no casamento de um guerreiro na aldeia Kopenoty. Logo em seguida, o cacique da dança faleceu e deixou a tarefa de continuarmos com essa prática. Essa iniciativa incentivou os jovens a praticar a língua terena, pouco usada no dia a dia. Também a confecção de adornos para a dança estimulou a prática do artesanato. É preciso retomar esse trabalho. Demarcada em 2007, nossa terra era ocupada por fazendeiros que a desmataram. Hoje, quase não temos buritizais e, portanto, falta matéria-prima para a produção artesanal. Temos de pedir o material aos fazendeiros vizinhos ou viajar até pontos afastados para obtê-lo, o que implica gastos com combustível. Além disso, a realização desta iniciativa é dificultada pela distância de outras aldeias terena, cuja participação é fundamental. Faltam recursos financeiros que permitam tais deslocamentos e também para a compra de equipamentos para registro audiovisual do processo.

O Mato Grosso é um dos estados culturalmente mais ricos do Brasil, mas nem sempre essa diversidade de culturas é devidamente visualizada. O objetivo principal desta iniciativa de fortalecimento e valorização cultural é apresentar a riqueza da cultura xavante. Nossa proposta é um projeto de difusão que coloque os Xavante à frente de um processo de demonstração das características de nossa etnia para a sociedade não indígena. A apresentação de atividades culturais é de importância central para a comunidade indígena xavante e, com certeza, despertará interesse de grande público nacional e internacional. Para realizarmos esta iniciativa, precisamos de recursos financeiros para a compra de tecnologia que permita a documentação dos eventos e também para a construção da Casa de Adolescentes (Hö).

terra indígena  aldeia 

São Marcos

habitantes  local  proponente 

São Marcos 1.800

Barro do Garças - MT

Associação de Proteção Social

Indígena e Recuperação Ecológica contato 

(66) 3479 - 1150 / 9244 - 2176 /

caetanomoritu@bol.com.br iniciativa no 901 

premiada

271


DANÇA DE YUKAPKATAN

272

— povo 

Arara do Rio Branco

terra indígena  aldeias 

Arara do Rio Branco

Laguinho (18 habitantes) e Volta Grande (30 habitantes)

iniciativa nº 902 – Dança de Yukapkatan

local  proponente 

Aripuanã - MT

Associação Indígena Marupá

iniciativa, pretendemos apoiar essas práticas, fortalecer nossa identidade indígena. Para tanto, precisamos de recursos, sobretudo, para o custeio dos deslocamentos entre aldeias. Muitos “brancos” do município onde se localiza nossa terra têm preconceitos, dizem que não somos mais índios. Queremos mostrar a eles a riqueza de nossa cultura.

(AIM) contato 

marupamt@hotmail.com / angel_mtaripuana@hotmail.com iniciativa n

o

 902 

premiada

— iniciativa nº 910 – Menire Bij’ôk (Festa das Mulheres)

iniciativa nº 915 – Menire Bij’ôk (Festa das Mulheres)

(66) 9237 - 2073 /

A comunidade teme que alguns costumes se percam; por isso, junto à indígena anciã Anita, nosso elo com a história de nosso povo, buscamos conhecer, lembrar, entender e transmitir os costumes antigos às novas gerações. Dentre eles, a dança é o que mais fascina os jovens. Quando a comunidade está reunida em torno de uma ocasião especial, fazemos os adornos de folha de coqueiro e penas e a tinta de jenipapo e urucum para a pintura corporal e, então, de noite, dançamos. Já iniciamos o resgate das seguintes danças: dança do homem – é a dança de batalha, hoje feita para relembrar nossos antepassados ou para representar a luta pelos direitos dos povos indígenas; dança da chicha – feita apenas pelas mulheres, ocorre ao redor de uma fogueira; dança do gavião e do macaco – toda comunidade pode participar, simboliza o mito da origem do povo Arara. Com esta

INTERCÂMBIO NANAGO (ARCO-ÍRIS)

— povo Bakairi terra indígena 

Bakairi

nossa cultura junto aos parentes indígenas do povo Waura do Xingu, no município de Feliz Natal (MT). Viajaremos até lá e nossos parentes waura nos ensinarão a origem e o mito desta história do casamento, a fazer e a tocar as flautas sagradas, a dançar ao som dos cânticos. Então, realizaremos o primeiro ritual de festa de casamento em nossa aldeia. Queremos também adquirir equipamentos para mostrar

comunidade para os preparativos da cerimônia, para a expedição de caça e para o preparo e consumo dos alimentos tradicionais, assados no forno de pedra, o Ki. De responsabilidade das mulheres, o Ki é parte integrante da vida dos Kayapó e não se pode imaginar uma aldeia sem ele. A iniciativa partiu do cacique. Ele falou dos anciões que reclamam muito, principalmente, da alimentação.

todo o processo para a comunidade, para ter um registro. A maior dificuldade é a falta de recursos financeiros para as despesas com o deslocamento para Xingu e com a estadia lá. Depois de realizar essa iniciativa, esperamos que o casamento do povo Bakairi não seja mais da forma dos brancos.

Hoje, compramos muitos produtos de supermercado e os velhos não gostam de comida do homem branco. Pensando na geração dos mais jovens, que não conhecem tudo sobre a Menire Bij’ôk, a comunidade foi se envolvendo com a ideia, se entusiasmando. Inscrevemos esta iniciativa pensando nos problemas que teríamos para comprar matéria-prima artesanal e nas viagens que teríamos de fazer para obter o jenipapo para as pinturas corporais. Esperamos que a realização de um Menire Bij’ôk na aldeia Metuktire incentive o artesanato e as pinturas corporais tradicionais. Outro resultado que esperamos é a valorização de nossa alimentação tradicional, muito mais saudável.

aldeia Aturua

habitantes 200 local  proponente 

Paranatinga - MT

Wellinton Kayalaby Apauaca

contato 

(66) 8422 - 6856

iniciativa no 908

— Nossos avôs contam histórias de como eram nossos casamentos do passado; eram comemorados com danças nas quais utilizávamos várias flautas compridas. Perdemos esse ritual; hoje, casamos como os brancos. Os anciões vêm pedindo muito às lideranças para que resgatemos essa importante prática. Quando estamos reunidos em nossa comunidade, de repente os velhos se lembram da história dos nossos casamentos antigos e falam forte com os de mais idade, cobrando. Nosso objetivo é buscar essa parte perdida de

MENIRE BIJ'ÔK (FESTA DAS MULHERES)

— povo 

Mebengokre (Kayapó)

terra indígena 

Kapoto/Jarina

aldeia Metuktire habitantes 292 local  proponente  contato 

Colíder - MT

Bekangaranhy Metuktire

(66) 3541 - 3588 / 9983 - 2696 /

beprometuktire@hotmail.com iniciativa n

o

 910 

premiada

— A realização da festa Menire Bij’ôk tem como objetivo fortalecer ainda mais nossa cultura. Tem os aspectos cerimoniais: a união de toda a

— MENIRE BIJ'ÔK (FESTA DAS MULHERES)

— povo Bakairi terra indígena 

Bakairi

aldeia Aturua habitantes 200

local 

Paranatinga - MT

proponente 

Eduardo Maiawai

Koni Tawanre contato 

(66) 8447 - 4831 /

porohomaiawai@hotmail.com iniciativa no 915

— O projeto visa preservar e valorizar as práticas culturais bakairi através da realização de oficinas nas quais os mais velhos ensinarão os mais jovens a confeccionar artesanato de maneira tradicional, a fazer pinturas corporais e a compreender os seus significados dentro da sociedade bakairi. A comunidade como um todo será incentivada a realizar rituais (que já começam a cair em desuso), pois tal é o contexto propício à transmissão dos conhecimentos tradicionais do povo Bakairi. Serão documentados em vídeos os rituais, as histórias, as pinturas corporais, o artesanato, enfim, tudo o que for ensinado nas oficinas. As gravações poderão servir de base para a produção de material didático em língua materna. Tentaremos também realizar palestras e apresentações culturais junto à população não indígena local. Buscamos incentivos para a realização desta iniciativa; falta apoio para o custeio de despesas com transporte, com a obtenção da matéria-prima artesanal indisponível em nossa área indígena (afetada pelo desmatamento e pelo plantio extensivo de soja), para a reforma do centro cultural que abrigará as oficinas etc.

273


RIKBAKTSA SAKIBAZIK BABA – OS CANTOS E MÚSICAS VERDADEIROS DO POVO RIKBAKTSA

274

iniciativa nº 919 – Rikbaktsa Sakibazik baba -

Os cantos e músicas verdadeiros do povo Rikbaktsa

povo Rikbatsa terra indígena 

realizar essa inciativa de fortalecer as danças, toques de flauta e cantos em língua materna. Não queremos perder as nossas tradições e, com a gravação de DVDs e CDs, vamos conseguir incentivar os mais jovens e dar continuidade às culturas rikbaktsa. Se não registrar, o nosso povo fica sem canto, sem dança e sem festa.

Rikbaktsa, Japuíra,

Escondido aldeias 

Pedra Bonita, Aldeia Velha,

Santa Rita, Seringal 1 e Bacaval habitantes 330 local 

Brasnorte / Juara / Cotriguaçú - MT

proponente  contato 

Nicolau Apytsae Rikbaktsa

iniciativa nº 921 – Tarykato - Ritual verdadeiro: com

alegria, saúde, amizade, fartura e companherismo)

iniciativa nº 932 – Valorização da dança tradicional do

povo Chiquitano

(66) 3566 - 6115; funai@gmail.com

iniciativa n

iniciativa nº 920 – Niorsch Haukina - Semente Nativa

NIORSCH HAUKINA SEMENTE NATIVA

o

 919 

premiada

— A comunidade rikbaktsa vive em área demarcada e reconhecida pelo governo. Mas, mesmo assim, estamos rodeados de fazendas que contaminam os rios com agrotóxicos. A terra é boa e fazemos as nossas roças todo ano, mas, devido ao desmatamento, estamos com pouca caça. Já existem PCHs (Pequena Central Hidrelétrica) no rio Juruena; nos córregos, muito pequenos, não têm mais peixinhos. Faltam recursos naturais para as práticas culturais da comunidade: flautas para as festas, taquaras para as flechas, ervas utilizadas na medicina tradicional etc.; temos que ir buscar muito longe e o combustível é caro. Epidemias, massacres e a influência missionária fizeram muitos deixarem de falar a própria língua. Por causa de tudo isso, a comunidade decidiu

povo Chiquitano terra indígena 

Portal do Encantado

aldeia Acorizal habitantes 144 local  proponente 

Porto Esperidião - MT

Associação de Jovens Niorsch

Haukina (Semente Nativa) contato 

e nem pensar em dançar, fazer artesanato e seus rituais; era proibido. Assim, foi perdendo; esta cultura e este povo ficaram escondidos por muito tempo. Desde 2007, quando realizamos um encontro de mulheres com outros povos, começamos a amadurecer a ideia da comunidade e fomos realizando reuniões, festas e trabalhos em grupo. A comunidade estava sendo individualista, fazendo briga interna. Criando a associação e trabalhando em grupo, a comunidade se junta, fica forte. Nessa nova geração, já temos pessoas da aldeia formadas que estão ajudando a buscar mais informação sobre a nossa cultura. Queremos dar continuidade aos trabalhos já em andamento. Esperamos trabalhar todos juntos pela realização de um sonho: trazer alegria para cada rosto de cada um da comunidade.

(65) 9935 - 8187 / 9608 - 4670 /

niorsch.haukina@gmail.com / alexandramendes37@hotmail.com iniciativa no 920

— O lugar onde vivemos é rural, a área é reconhecida pelo governo, mas falta respeito dos não índios. Próxima à divisa com a Bolívia, a Terra Indígena Portal do Encantado é atravessada por estradas e rodeada de fazendas. Enfrentamos problemas como a invasão de posseiros e o desmatamento. A língua chiquitano é falada mais pelos velhos; os jovens não sabem. A religião e o exército não deixavam o povo falar na língua

TARYKATO - RITUAL VERDADEIRO: COM ALEGRIA, SAÚDE, AMIZADE, FARTURA E COMPANHEIRISMO)

— povo 

Tapirapé (Apyãwa)

terra indígena  aldeias 

Urubu Branco

Akara´ytãwa, Tapi’itãwa,

Tapiparanytãwa, Towajaatãwa, Wiriaotãwa, Myryxitãwa habitantes 850 local 

Confresa - MT

proponente 

Associação Ikaika Parepy (AIP)

contato 

(66) 3564 - 1721 /

xaopokoi@gmail.com iniciativa no 921

— Em 1993, depois de muita luta com grileiros, conseguimos retomar nosso território. Porém, a terra havia se transformado: a mata virou pastagem; as nascentes estavam poluídas com agrotóxicos; havia pouca caça e pesca. Ainda hoje, invasores continuam desmatando e causando problemas. Devido à destruição da área, faltam recursos naturais para a manutenção das práticas culturais e dos hábitos alimentares. O objetivo desta iniciativa é resgatar e fortalecer os rituais tapirapé. Todo o cotidiano do nosso povo está relacionado aos rituais, desde o plantio e colheita dos alimentos até o nascimento e crescimento dos indivíduos, através das pinturas corporais, da arte, dos cantos, danças etc.; essa é a base que sustenta nossos costumes, nossa saúde e nossa espiritualidade. Com o apoio do Prêmio, iremos preparar uma grande roça (ka) para a produção de alimentos tradicionais e construir a Takara (casa dos homens), onde realizaremos os vários rituais e festas dos espíritos que trazem junto a alegria. Envolvendo toda a comunidade, principalmente os jovens e crianças, evitaremos a desestruturação social da nossa comunidade.

VALORIZAÇÃO DA DANÇA TRADICIONAL DO POVO CHIQUITANO

— povo Chiquitano

terra indígena 

Portal do Encantado

aldeia Central habitantes 130 local  proponente  contato 

Porto Esperidião - MT José Antonio Paravá Ramos

(65) 9805 - 1906 / 9284 - 6246 /

9318 - 0911 / antoniochiquitano@hotmail. com iniciativa no 932

— O objetivo desta inciativa é fortalecer a cultura chiquitana através da dança. Nossos jovens não conhecem mais todas as tradições, mas querem aprender e repassar este conhecimento. Pretendemos ensinar todos os passos para a formação de um grupo jovem de danças chiquitanas; começaremos pela colheita da fibra do buriti, depois ensinaremos a fazer as vestes tradicionais e, quando todos tiverem aprendido, começaremos os ensaios e as apresentações para divulgar e fortalecer nossa cultura. Homologada em 2010, embora ainda não demarcada, nossa área sofreu e ainda sofre com a ocupação de fazendeiros e com o desmatamento. Recursos naturais como o indaiá e o buriti, utilizados para fazer o vestuário da dança chiquitana, tornaram-se escassos. Por causa dos conflitos, os fazendeiros próximos não permitem

275


276

iniciativa nº 92 – Kipa’e - Dança da Ema

a coleta; é preciso buscar esses materiais em fazendas distantes e faltam recursos para financiar os gastos com combustível. Também falta apoio para o custeio das viagens para os municípios de Porto Esperidião e Cuiabá, onde faremos exposições e apresentações culturais para sensibilizar as pessoas com nossa luta, para que entendam a importância da demarcação de nossa terra.

— KIPA'E – DANÇA DA EMA iniciativa nº 391 – 3º JOINPA - Jogos Indígenas do

Panambizinho

— povo Terena

terras indígenas  aldeias 

Taunay e Ipegue

Bananal, Ipegue e Colônia Nova habitantes 1.520

local  proponente  contato 

Aquidauana - MS

Em momentos especiais, como no Dia do Índio, nas posses de caciques e na inauguração de obras, é realizada a Dança da Ema, que representa a participação do povo Terena na guerra do Paraguai. Pouca gente sabe da participação do povo Terena no embate, na defesa do território brasileiro. Pela importância desta manifestação cultural, pelo seu significado e, principalmente, para que as gerações vindouras possam também valorizar a prática, esta iniciativa visa à preservação da dança. A comunidade entendeu que o Prêmio facilitará a confecção de vestimentas, ajudando, sobretudo, na compra de penas de avestruz e ema, aves que, pela lei ambiental, não podemos sacrificar, e também na construção de uma Oca para a concentração do grupo de dançarinos e na aquisição de equipamentos para registro audiovisual.

Cezar Francelino Fialho

(67) 9659 - 3996 / 3241 - 1489 /

cezarterena@hotmail.com / cezar.terena (Skype) iniciativa no 92

— Localizadas em área rural e reconhecidas pelo governo, as Terras Indígenas Taunay e Ipegue oferecem poucas opções de pesca e caça. Desmatamentos e assoreamento de mananciais por parte de fazendeiros próximos e o aumento populacional, diminuindo a proporção entre o espaço e os recursos naturais, impactam diretamente sobre a preservação das práticas culturais.

PROJETO JAKAIRÁ (MILHO MAIS TRADICIONAL DOS GUARANI)

— povos 

Guarani Kaiowá e Guarani Nhandeva terra indígena  aldeias 

Dourados

Jaguapiru e Bororó

habitantes 10.000 local  proponente 

Dourados - MS

Centro Organizacional

da Cultura Tradicional da Etnia Kaiowá de Dourados

contato 

(67) 9901 - 5546 /

nhanderugetulio@gmail.com iniciativa no 350

— Localizada a 10 quilômetros da cidade de Dourados e cercada por grandes propriedades agrícolas, a Terra Indígena Dourados sofre com o desgaste de seus recursos naturais: com o desmatamento e a poluição dos rios, com a escassez de plantas, pássaros e mamíferos necessários ao exercício da caça e da coleta e utilizados para a produção de ornamentos rituais. Em 1990, o Sr. Getúlio Juca, pertencente a uma antiga linhagem de rezadores, coordenou a construção da primeira casa de reza para promover as tradições e orientar as crianças e os jovens na sabedoria ancestral. Além de sua importância religiosa, a casa de reza funciona como ponto de resistência e encontro da cultura indígena no qual se estabelecem relações políticas, afetivas e de transmissão de conhecimentos. Em 2002, um incêndio criminoso destruiu a casa de reza. Esta iniciativa visa dinamizar o processo de reconstrução e financiar as atividades que serão realizadas após a inauguração do espaço, tais como danças, orações, cânticos, oficinas de artesanato etc. A comunidade visa o fortalecimento e retomada da cultura tradicional, afastar os jovens dos caminhos da violência e dos vícios que vêm atingindo a população guarani.

3o JOINPA – JOGOS INDÍGENAS DO PANAMBIZINHO

— povo 

Guarani Kaiowá

terra indígena 

Panambizinho

habitantes 400 local  proponente 

PROJETO UNIÃO DOS POVOS GUARANI M'BYA, KAIOWÁ E TERENA

— povo 

Dourados - MS (67) 9929 - 7634 /

laucidioterena@hotmail.com iniciativa no 391

— A comunidade vive em situação precária, em área há muito desmatada pelo grande cultivo da monocultura. Diretamente afetadas, a fauna e a flora já não suficientes para a manutenção das práticas culturais. São altos os índices de pobreza, suicídio, alcoolismo. Faltam políticas públicas comprometidas com a causa indígena e que combatam o preconceito racial e cultural. Em 2011, na semana dos povos indígenas, iniciou-se esta iniciativa de promover jogos e atividades culturais visando ao fortalecimento das tradições locais, à elevação da autoestima dos jovens e à minimização da violência, do alcoolismo e dos suicídios. Como faltam recursos, a comunidade precisa de auxílio para a divulgação, montagem e execução do projeto.

Dourados

aldeia Bororó

Laucidio Ribeiro Flores

contato 

Guarani Kaiowá e Terena

terra indígena 

habitantes 10.720 local  proponente  contato 

Dourados - MS

Priscila Maciel Duarte Lopes

(67) 9843 - 3812 / 9699 - 5929 /

priscilakaiowa@gmail.com iniciativa no 459

— A Terra Indígena Dourados tem uma densidade populacional bastante elevada e está bem próxima à área urbana, não havendo, portanto, matas e recursos hídricos que possibilitem a coleta, a caça e a pesca significativas. As reservas onde eram coletados remédios, sementes, material para confecção de artesanatos e artigos religiosos e para a construção de casas estão cada vez menores. O objetivo desta iniciativa, proposta por Dona Priscila, reputada rezadora e tecelã, é a construção de uma casa de reza onde possam ser praticados rituais como chicha, o guaxire, o guahu e outras danças dos povos Guarani Kaiowá e Terena. O barracão deve funcionar também como sede do grupo de mulheres que funciona no local, onde são praticados o artesanato e a tecelagem, ao mesmo tempo em que são dadas orientações sobre a saúde da mulher, das crianças, vacinação etc. Tentamos superar a falta de recursos

277


através da cooperação, rezando para Deus e fazendo parcerias. Com esta iniciativa, pretendemos transmitir e fortalecer a cultura, ocupar e orientar os jovens dentro de sua tradição e gerar renda através da comercialização do artesanato.

278

iniciativa nº 650 – Kaxéna Vayui - “Dia da nossa festa”

— KAXÉNA VAYUI – "DIA DA NOSSA FESTA"

— povo Terena iniciativa nº 987 – Kixoku Oxeokono ne Kipae -

Maneiras de tocar a flauta

terra indígena 

Região do Buriti

aldeia Lagoinha habitantes 300 local 

Sidrolândia - MS

proponente  contato 

Basílio Jorge

(67) 9805 - 6850 /

mobiliza; todo mundo se movimenta. Mas o problema é dinheiro. As fazendas e plantações que cercam a aldeia degradaram o meio ambiente. Não dá mais para encontrar os recursos naturais que usamos para fazer os trajes típicos. Para resolver, procuramos parceiros que possam colaborar. Precisa resgatar as coisas que hoje já não se fazem mais. Sem os costumes, as danças, a língua, não somos índios.

— KIXOKU OXEOKONO NE KIPAE – MANEIRAS DE TOCAR A FLAUTA

povo 

Terena, Guarani Kaiowá, Kadiwéu Aldeia urbana Água Bonita

jackeline.martini@hotmail.com iniciativa n

iniciativa nº 991 – Jogos e brincadeiras: Esporte

o

 650

— Desde 2000, quando a Aldeia Lagoinha foi emancipada da Aldeia de Córrego do Meio, realizamos anualmente esta iniciativa. A festa é para fazer coisas que não fazemos mais. As mulheres fazem comidas que não se faz mais. Mostramos para as crianças brincadeiras, jogos, danças, roupas. Os mais velhos mostram as plantas que servem para remédio. Este ano, vamos ter um desfile das meninas para eleger a mais bonita. Todas as apresentações são feitas na língua para que as pessoas saibam o porquê de cada coisa. Vêm pessoas de fora ver a festa. A comunidade é unida e se

habitantes 346 local 

Campo Grande - MS

proponente  contato 

Eliseu Lili

Esta iniciativa tem como objetivo fortalecer as culturas e tradições indígenas. O relógio, as bijuterias, o tênis, a calça apertadinha, enfim, as atrações da cidade levam os jovens a perder interesse por seus valores culturais. É essa a preocupação do cacique Nito Nelson, pois, se isso não for revertido em tempo, a tendência é a perda total das tradições por aqueles que nascem em aldeias urbanas. Desde os anos oitenta, quando inauguramos a Feira Indígena na Praça Oshiro Takemori, em frente ao mercado municipal, tentamos mobilizar e conscientizar os jovens através de músicas e danças tradicionais. Agora, junto ao Prêmio, queremos ampliar estes trabalhos, mostrando e registrando a execução da dança da Ema, feita pelos homens, e o Siputrena, a dança das mulheres, assim como o Hino Nacional brasileiro cantado em terena.

(67) 3363 - 3986 / 9926 - 7872 / eliseu.lili (Facebook) iniciativa no 987

— A comunidade Água Bonita é um bairro de Campo Grande. Existe pouca vegetação, não há caça ou terra para cultivo nem rios para a pesca. Faltam recursos naturais para a manutenção das práticas culturais, principalmente para a confecção de artesanatos. Os índios buscam tais materiais em suas aldeias de origem, mas, devido ao custo do transporte, é difícil.

— povo Terena

Taunay

aldeia Moinho habitantes 250 local 

Aquidauana - MS

proponente  contato 

FORTALECIMENTO DOS CANTOS E CULTURA TRADICIONAL GUARANI

— Guarani Nhandewa

terra indígena 

JOGOS E BRINCADEIRAS: ESPORTE

terra indígena 

povo 

lilieliseu@yahoo.com.br /

Ainda em processo de demarcação, nossa terra encontra-se rodeada de fazendas, o que dificulta a caça e a pesca. Por iniciativa das lideranças da comunidade, decidimos fortalecer a cultura indígena através do esporte e do lazer para amenizar os problemas dos nossos jovens com a bebida e com a falta de ocupação. Não temos apoio nem dinheiro para realizar projetos; precisamos de uniformes, bolas, grama, chuteiras, alambrado, apitos, redes, travas etc.

Bernardino Paulino (67) 3258 - 1040

iniciativa no 991

aldeia 

Tupiniquim-Guarani

Boapy Pindó (Três Palmeiras) habitantes 150 local 

proponente 

Aracruz - ES

sobretudo, conseguir recursos para os deslocamentos entre aldeias. Os Guarani estão espalhados por mais de cem municípios brasileiros e, na nossa cultura, é costume visitar os parentes, os pajés e curandeiros de outras aldeias para trocar informações e para a realização de cerimônias culturais. Mas enfrentamos dificuldades. A comunidade vive encravada em área urbana e grande parte da Terra Indígena foi e ainda é devastada por empresas que exploraram a fabricação de carvão e, hoje, por aquelas que exploram a plantação de eucalipto. Os animais e plantas usados para alimentação e artesanato praticamente desapareceram. A comunidade vive basicamente da venda de artesanato, sem ocupação ou renda permanente. A assistência oferecida pelo Governo é péssima: nossa escola não é diferenciada; falta medicamento no posto de saúde; não recebemos apoio para o comércio de artesanato. Enfim, faltam recursos para a vida das comunidades, para nosso coral, para promover nossa cultura guarani e fortalecer nossos costumes e tradições.

Cacique Nelson Carvalho dos

Santos contato 

(27) 9698 - 0552 /

associacaoguaraniaig@gmail.com iniciativa n

o

 852

— Queremos manter o Coral Guarani cantando, fazer roupas para as apresentações, dar apoio aos mestres e aprendizes, adquirir instrumentos musicais e máquina de vídeo e,

KÕMÃYXOP – CANTOS XAMÂNICOS MAXAKALI-TÅKMŨ'ŨM

— povo Maxakali

terra indígena  aldeia 

Maxakali do Pradinho

Maravilha – Apné Hitup Xexka’ habitantes 300

279


280

local 

Bertópolis - MG

proponente  contato 

Toninho Maxakali

infinidade de cantos-yãmiyã com os quais festejamos.

(31) 3654 - 9907 /

rexnfoid@yahoo.com.br / piresrosse@yahoo.com.br iniciativa no 67 

iniciativa nº 67 – Kõmãyxop - cantos xamânicos

maxakali-tåkmũ’ũm

iniciativa nº 409 – Ocyê Xucuru Kariri

premiada

— Em nossa terra, a Mata Atlântica, organicamente ligada ao modo de vida maxakali, foi devastada por projetos agropecuários coloniais. Apesar disso, a flora e a fauna tradicionais da região continuam existindo nos cantos-yãmiyã, legiões de espíritos que vêm cantar, comer e dançar nas aldeias. Os yãmiyã são eles mesmos seres da floresta – animais, insetos, plantas etc. – e, graças a eles, a memória de centenas de espécies da Mata Atlântica, algumas extintas, continua viva. Na verdade, hoje, não são os recursos naturais que ajudam a manter as práticas culturais, mas, ao contrário, são nossas práticas que mantêm todo um ecossistema, uma geografia, uma sociabilidade. Os yãmiyã têm ainda um poder curativo, ajudam os doentes, razão pela qual não podemos esquecê-los e deixar de recebê-los e alimentá-los. Buscamos potencializar as condições de promoção e rememoração dos nossos cantos yãmiyã e, ao mesmo tempo, sensibilizar os não índios em relação a este patrimônio. Complementando outras iniciativas, o objetivo é produzir um vídeo-documentário sobre o ritual kômãyxop, onde estas personagens míticas vêm à aldeia trazendo com elas uma

OCYÊ XUCURU KARIRI

— povo  terra indígena 

Xucuru Kariri Xucuru Kariri – Fazenda

as ocas acaba rápido; por isso, queremos construir uma oca de alvenaria. Como não temos recursos próprios para a construção, tivemos a iniciativa de participar do Prêmio. O Ouricuri assegura nossos pensamentos, enriquece os pedidos que fazemos ao grande Deus, preserva nossa cultura e nossos costumes. Com a construção da oca, o espaço reservado para a tradição ficará fortalecido.

Boa Vista aldeia 

habitantes 117 local  proponente 

Caldas - MG

Cacique José Sátiro do

Nascimento contato 

Xucuru Kariri

(35) 98449 - 3350 / 99163 - 1020 /

AVANÇO NA CULTURA XACRIABÁ

renatanmelo@yahoo.com.br iniciativa no 409

— Dentro da mata é onde nasce o conhecimento das plantas medicinais, a cura dos indígenas, é onde nasce o nosso ritual, o Ouricuri, quando ficamos três dias longe do não índio, só mantendo contato com as árvores, caças, pássaros e companheiros sagrados que não podemos revelar. Nesse lugar sagrado, foram construídas três ocas de madeira para acomodar 117 pessoas, o que tem sido uma dificuldade. Homens e mulheres estão ficando juntos, o que a tradição não permite. Existe um segredo que só os homens sabem e, por isso, pedimos a construção de uma oca (ocyê) para abrigar separadamente as mulheres e as crianças. Como chove muito na região de Caldas, o capim que cobre

povo Xakriabá terra indígena  comunidade 

Xakriabá

Embaúba I

habitantes 250 local 

São João das Missões - MG

proponente 

Claudinei Gomes Farias

contato 

(38) 9817 - 5002 /

claudineixakriaba@yahoo.com.br iniciativa no 575

— Devido ao recente aumento populacional, a Terra Indígena onde a comunidade vive está um pouco devastada: os animais para caça estão em extinção; não existe pesca; a água que consumimos não é de boa qualidade; a seca prejudica os rios e o cultivo; faltam madeira, sementes e outros recursos naturais para as práticas culturais. A língua indígena está um pouco adormecida. Desde que se iniciou a escola indígena,

realizamos algumas atividades culturais, tais como a confecção de artesanatos, danças, trabalhos de resgate da língua, contação de histórias, brincadeiras etc. O objetivo desta iniciativa é conseguir recursos para a construção de um espaço físico que abrigue as reuniões da comunidade e suas atividades de fortalecimento e valorização cultural.

— TATAKOX – O POVO – LAGARTA – ESPÍRITO

— povo Maxakali

terra indígena  aldeia 

Maxakali

Maravilha (176 habitantes) e

e divulgar o ritual de iniciação dos garotos, o Tatakox. Surge um buraco no chão e um índio assobia; desponta um som semelhante ao do berrante. Vários índios com pinturas corporais e folhas no rosto surgem e passam a escavar o buraco. Quando a abertura aumenta, um deles retira, de dentro do buraco, os meninos pintados com suas cabeças cobertas por uma espécie de tecido e seus corpos forrados de penugens brancas. Aparentemente debilitados, eles são carregados para a aldeia e, em seguida, levados de suas mães pelos espíritos para ficar na casa dos homens, Kuxex, e aprender. Falta apoio de instituições para obtermos uma filmadora e também para a construção de um local apropriado para reuniões, rituais, festas etc.

Cachoeira (170 habitantes) local 

proponente  contato 

Santa Helena de Minas - MG Reginaldo Maxakali

(33) 8851 - 0908 / 8849 - 6701 /

marcioyankym@yahoo.com.br iniciativa no 588

— No passado, fazendeiros ocuparam e devastaram nossa terra, transformando-a quase toda em pasto; hoje, os Maxakali têm apenas 0,5% de mata. A caça e pesca são incipientes; os rios estão assoreados; faltam recursos naturais para a sobrevivência, para práticas rituais e para o artesanato. Através da religião e da recomposição das matas, buscamos a ajuda dos espíritos para transpor este imenso desafio. Visando o fortalecimento de nossa cultura, pretendemos valorizar

CASA DE CULTURA REVITALIZANDO OS CONHECIMENTOS XACRIABÁ

— povo Xakriabá terra indígena  aldeias 

Xakriabá

Brejo Mata Fome (1.200 habitantes)

e Imbaúba II (500 habitantes) local 

São João das Missões - MG

proponente  contato 

Idelino Ferreira da Gama

(38) 9969 - 2344 / 9804 - 4603 /

zoikonxakriaba@yahoo.com.br iniciativa no 793

281


282

iniciativa nº 588 – Tatakox - O povo - Lagarta - Espírito

Este projeto busca fortalecer ainda mais a cultura xakriabá. Nenhuma das comunidades envolvidas possui uma casa de cultura, ou seja, um espaço apropriado para a realização de atividades culturais, tais como toré, rituais, cantos, danças etc. Devido ao desmatamento e à contaminação dos rios por uso de agrotóxicos, os recursos naturais tornaram-se escassos e a comunidade precisa de apoio para realizar esta iniciativa. Com a construção da casa de cultura, jovens e crianças vão se envolver mais nos trabalhos coletivos e de valorização dos conhecimentos tradicionais.

— povo Xakriabá

Xakriabá

Brejo Mata Fome (1.200 habitantes)

e Imbaúba II (500 habitantes) local 

São João das Missões - MG

proponente  contato 

Idelino Ferreira da Gama

(38) 9969 - 2344 / 9804 - 4603 /

zoikonxakriaba@yahoo.com.br iniciativa n

o

CENTRO CULTURAL COMUNITÁRIO XAKRIABÁ

— povo Xakriabá

terra indígena 

Xakriabá

Terra Preta

habitantes 100

CASA DE CULTURA VIVENDO NOSSO COSTUME XAKRIABÁ

aldeias 

aldeia 

terra indígena 

buscando os conhecimentos dos nossos ancestrais para a realização de festas tradicionais, rituais, reuniões etc. Falta dinheiro, apoio. A construção da casa de cultura irá fortalecer nossa cultura presente.

 809

— A comunidade é carente, vive em péssimas condições ambientais. A área está devastada: há pouca caça e pescado; a terra não está boa para plantar. O objetivo desta iniciativa é construir um espaço para continuarmos

local 

comunidade (artesanatos, pinturas, músicas, danças, brincadeiras etc.). Falta um espaço adequado para a realização desses trabalhos e precisamos de recursos para iniciar a construção. Com esta iniciativa, pretendemos fortalecer nossos costumes e, divulgando a cultura do nosso povo, combater a discriminação dos não índios; conhecendo e entendendo nossas tradições, talvez eles comecem a respeitar.

O objetivo desta iniciativa é a construção de um centro de referência para a realização de reuniões comunitárias e de atividades culturais. Com a construção desse espaço, pretendemos fortalecer a cultura indígena xacriabá de Rancharia, nossas músicas, cantos, danças, festas tradicionais, arquitetura etc.; vamos fazer com que os jovens pratiquem nossa cultura e que valorizem a identidade indígena.

só capim; aqui tem mato. Depois que a gente mudou para cá, os Maxakali voltaram a fazer muito ritual. Para os Maxakali, os yamiy (espíritos) vivem no mato, no meio das árvores. Ficam dentro do cabelo também; o cabelo é igual mato. Toda religião fica dentro do mato. Um ritual que faz muito na aldeia é o Yamiyhex (ritual das mulheres). Na Aldeia Verde tem madeira para

ESPAÇO CULTURAL XACRIABÁ

Como em nossa terra faltam materiais necessários para a construção, especialmente madeira e palha de buriti, precisamos de recursos financeiros para resolver essas dificuldades.

fazer o mimanam (pau de religião) de muitos yamiy (rituais) diferentes. Tem o pau para fazer o ritual Yamiyhex, que é fino e comprido. As mulheres levam ele para o terreiro da kuxex (casa de religião) e cada mãe de mulher manda um vestido. Cada uma usa chapéu diferente na cabeça. A mulher é mãe da língua e a gente tem que mostrar que cada uma usa um vestido diferente. Muda a cor. Mas não são só as mulheres que usam vestido, espírito também usa. É esse ritual que a gente quer filmar; tem que ensinar na escola a cultura do povo Maxakali para os ugtok (crianças) e a gente precisa de material. Mas não tem recurso nem equipamento. A gente não quer fazer só para o vídeo; tem que ser de verdade. Vai ser muito importante.

São João das Missões - MG

proponente 

Nilson Gomes de Oliveira

contato 

(38) 9957 - 0467 /

povo Xacriabá terra indígena  comunidade 

eeindigenabukimuju@yahoo.com.br iniciativa n

o

 820

— Embora reconhecida, a área onde vive a comunidade está devastada: existem poucos animais de caça; faltam rios e lagoas para pescar; a terra é boa, mas há problemas com queimadas, desmatamento e falta de chuva. Nossa língua está no processo de colonização de grileiros e fazendeiros, mas ainda hoje tentamos ensinar nosso dialeto xakriabá. Quando começou a escola indígena, o cacique e liderança, juntamente com a comunidade, preocupados com a perda da língua, dos costumes e tradições, decidiram resgatar, valorizar e fortalecer as práticas culturais da

Xacriabá de Rancharia/Tenda da aldeia Rancharia/Tenda

habitantes 945 local 

São João das Missões - MG

proponente 

Júlio Cesar Lopes de Oliveira

contato 

(38) 9903 - 2284 /

julioxacriaba@gmail.com /

KUNOX YIXUX PUKNÔG: OS VESTIDOS DE COR DIFERENTE

juliocesarlopes53@yahoo.com.br iniciativa no 842

— Quando recebemos a Terra Indígena Xacriabá de Rancharia das mãos de fazendeiros, em 2001, o local já se encontrava bastante degradado. Hoje, devido ao desmatamento, animais para a caça e materiais importantes para nós são difíceis de conseguir. Há também cidades próximas cuja interferência provoca problemas, tais como o alcoolismo, drogas, doenças, violência etc.

povo Maxakali terra indígena 

Aldeia Verde

(não demarcada) aldeia Verde habitantes 360 local 

Ladainha - MG

proponente  contato 

Sueli Maxakali

(33) 9905 - 8569 / 8825 - 6105 / 9966 - 7821 iniciativa no 931

— Nós vivemos em uma área rural. Ainda não é Terra Indígena, mas é bay (boa). Onde a gente vivia tinha

— INICIATIVA DA CULTURA DE HOJE E O FUTURO DE AMANHÃ

283


284

povo Xakriabá terra indígena  aldeia 

Xakriabá

Sumaré III

crianças e jovens que, apreendendo a tocar para dar continuidade às práticas culturais, vão fortalecer nossos costumes e conhecimentos.

habitantes 232 local 

proponente  iniciativa nº 958 – Iniciativa da cultura de hoje e o

futuro de amanhã

contato 

Eusébio Ferreira de Oliveira

(38) 9930 - 4845 / 9808 - 5269 /

lenaxacriaba@yahoo.com.br iniciativa n

o

 958

— iniciativa nº 144 – Projeto Guarani Mbya

iniciativa nº 392 – Nhemongarai: Karai opita va´e kuéry

omboaty haguã

São João das Missões - MG

A comunidade vive na Zona Rural, em área reconhecida pelo governo desde 1988. O espaço é insuficiente: são muitas pessoas para pouca terra, para morar, para praticar atividades econômicas, sociais e culturais. Embora boa parte do cerrado e da mata se encontrem preservados, devido à ocupação, diminuiu a caça e, como não temos acesso a rios ou lagoas, não dá para pescar. Há ameaças: a terra fica em divisa com fazendas e cidades e é atravessada por estradas; queimadas e desmatamentos são recorrentes. Em 2007, com a entrada dos professores de cultura nas escolas indígenas, ou seja, pessoas mais velhas detentoras de conhecimentos tradicionais, teve início um trabalho de valorização da prática de tocar instrumentos em rituais. Faltam instrumentos musicais e espaço adequados para essa transmissão de conhecimentos. O objetivo da iniciativa é criar um centro de resgaste da tradição xakriabá e adquirir instrumentos para tocar em rituais e festejos de casamento, de reis, de alvorada, em noites culturais, rezas etc. No centro, reuniremos

PONTO DE CULTURA

— povo Xakriabá terra indígena  aldeia 

Xacriabá

Pretendemos resolver esses problemas com a elaboração deste projeto.

— PROJETO GUARANI MBYA

— povo 

Brejo Mata Fome

local 

São João das Missões - MG

proponente  contato 

Dario Lopo de Oliveira

(38) 9924 - 0507 / 9914 - 3618 /

dariololopo@yahoo.com.br iniciativa no 963

— O objetivo do Ponto de Cultura é documentar e registrar as práticas culturais da comunidade, facilitando o resgate e valorização de nossas crenças e de nossos costumes. Pela falta destes registros, muitos conhecimentos tradicionais vão se perdendo. Queremos gravar um CD contendo músicas e poesia tradicionais, depoimentos e pesquisas com os mais velhos; queremos filmar e fotografar danças, brincadeiras, rituais, pinturas, artesanatos e outros vestígios de nossos antepassados. Faltam recursos (dinheiro) e apoio para a compra dos equipamentos (computadores, filmadoras, câmeras fotográficas, gravador de áudio etc.) e para a realização de oficinas de capacitação das pessoas que forem realizar o trabalho de registro.

local  proponente  contato 

povo 

Ronaldo Mariano Rodrigues

(24) 3371 - 4047 / 9850 - 2323 / roguarani@gmail.com iniciativa no 144

— Percebemos que as crianças e os jovens têm vontade de tocar, de aprender violão e violino, de praticar as danças e os cantos. Os mais velhos gostam de ver a dança e o canto das crianças e jovens, a dança do xondaro (dança do guerreiro). Mas a comunidade não tem instrumentos suficientes; temos apenas um violão e dois violinos, um deles sem cordas. Queremos ouvir as crianças e os jovens tocando todos os dias, praticando e ensaiando, aprendendo com os velhos sobre nossa cultura, principalmente, do canto, da música, da dança e da religião. Vontade e apoio da comunidade não faltam; falta só comprar instrumentos novos e também equipamentos para registro de som e imagem.

Araponga

aldeia Araponga

Paraty-Mirim Itaxim

Paraty - RJ

Guarani Mbya

terra indígena 

reza. Diante disso, nossa iniciativa visa dar apoio à realização do nhemongarai e também ao encontro de pajés que, há algum tempo, ocorre paralelamente à cerimônia. Para tanto, precisamos de recursos para custear o transporte, alimentação e acomodação dos convidados, sobretudo dos pajés, que, já muito idosos, requerem cuidados especiais.

habitantes 38

Indígena Guarani Mbya habitantes 124

habitantes 1.230

Guarani Mbya

terra indígena  aldeia 

NHEMONGARAI: KARAI OPITA VA´E KUÉRY OMBOATY HAGUÃ

local  proponente  contato 

Paraty - RJ

Augustinho da Silva

(24) 9925 - 6980 / 9989 - 1379 /

nhemongarai@gmail.com iniciativa no 392 

premiada

— O Nhemongarai é uma cerimônia que acontece duas vezes por ano, nos meses de janeiro e julho. Relacionada à colheita do milho e à coleta do mel, seu objetivo é dar nome às crianças nascidas no último ano e aos adultos que por alguma razão ainda não o receberam. Entre nós, não são os pais que escolhem o nome da criança, e sim o pajé, que, encontrando o nome durante a noite, revela-o aos pais. Isso é muito importante, pois é pelo nome que o nhe’ë (espírito) de cada pessoa se fortalece e encontra a alegria de continuar a viver entre nós. A cerimônia se estende por três dias e reúne famílias de várias aldeias da região e também de São Paulo, Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul. Durante o ritual, as crianças escutam os velhos falando sobre os nossos costumes e nossa vida de antigamente; as pessoas se reúnem e, juntas, se fortalecem na

JEXARA'U TENONDERÃ – SONHAR PRO FUTURO

— povo 

Guarani Mbya

terra indígena 

Bracuí

aldeia Sapukai habitantes 432 local  proponente 

Angra dos Reis - RJ Associação Comunitária

Indígena de Bracuhy (ACIBRA) contato 

(24) 9926 - 4263 /

aldo_fernandes40@yahoo.com.br / lucasxunu@gmail.com iniciativa no 878

— A gente não sabe a origem do Xondaro; o jovem não consegue mais entender e a gente não consegue explicar. Na prática, não acontece mais. Nosso pensamento é resgatar essa dança e também as músicas. Isso está se perdendo: tem futebol, novela, televisão e, por causa disso, a gente não consegue mais contar história. O jovem vê uns trechos e, para ele, isso

285


286

iniciativa nº 80 – Opy’i: a nossa casa de reza

iniciativa nº 366 – Coral Ara Ovy (Céu Azul)

já é a história, mas não é. O Sr. João vem, conversa, mostra alguma dança; vai para São Paulo e para o Sul, e lá ele faz. Ele quer que a gente faça e, aqui, a gente não faz. Então, queremos fazer um trabalho com ele e com outros velhos, reunir todos para junto com o jovem trocar ideia, contar história. Para envolver os mais jovens, a gente está pensando em fazer registro, usar tecnologia, os próprios jovens gravando e editando. Aí, ao invés de assistir coisa que não serve, eles podem assistir um DVD guarani; ao invés de brigar, falando para desligar a televisão, você leva e mostra o filme da nossa cultura. Isso vai servir para as escolas também, para a formação de lideranças. Para manter nossa cultura, a gente precisa de recurso; antigamente, não precisava. Tem que comprar fita, bateria, câmara, computador etc.

— iniciativa nº 410 – Centro Cultural Ywy Pyau

— Guarani Mbya

terra indígena 

6º Encontro dos Povos Indígenas de Guarulhos 2013

CORAL ARA OVY (CÉU AZUL)

Aguapeu

Guarani Mbya

terra indígena  aldeia 

Barragem

Tenondé Porã

habitantes 1.100 local  proponente  contato 

São Paulo - SP

Maria Filomena de Souza

habitantes 70

Maja Goddart (Skype) /

contato 

Mongaguá - SP Sergio Marins da Silva (13) 9147 - 4245 /

popyind@gmail.com / Sergio Martins (Facebook) iniciativa no 80

guarani continua sendo guarani. Quando morrer, vai morrer com sangue guarani. O objetivo desta iniciativa é disseminar a cultura indígena através da tradição oral, do canto, da dança e da música, dentro e fora da aldeia. Com a ajuda do Sr. Rabetti, conseguimos um estúdio e foi possível gravar um CD do Coral Ara Ovy; agora, precisamos de apoio e recursos para a impressão de cópias. Com esta iniciativa, esperamos preservar e fortalecer a cultura indígena e também, com a venda dos CDs, resolver a questão do sustento e da melhoria da qualidade de vida das famílias, da falta de dinheiro para compra de alimentação e utensílios domésticos.

filomenapaulista@yahoo.com.br / majaprodartisticas@yahoo.com.br /

proponente 

manter sempre suas tradições, cultura, religião e língua. Mesmo depois de 500 anos de contato com juruá (não indígena) e morando na cidade de São Paulo, o povo Guarani procura manter seus costumes e seus saberes. Mesmo assistindo TV no apartamento ou falando ao celular, mesmo faltando caça, pesca e terra para cultivo, comendo produtos e bebidas industrializados, o indígena

(11) 99733 - 6603 / 5563 - 5658 /

aldeia Aguapeu

local  iniciativa nº 589 – Opy - Rituais e Cultura Indígena no

povo 

OPY'I: A NOSSA CASA DE REZA povo 

Nossa casa de reza está precisando de uma nova construção. Falta dinheiro para podermos comprar ferramentas para cortar os materiais de construção e para alimentar as pessoas nos dias de mutirão. Todos da comunidade e até os parentes de aldeias próximas vão participar. A casa de reza é um lugar de fortalecimento da cultura e de transmissão de conhecimentos, é lá que acontecem os rituais, os cantos, as danças e as práticas sagradas dos pajés. Esta iniciativa é muito importante para nossa cultura guarani mbya, para dar continuidade aos nossos costumes e tradições.

mariafilomena.desouza (Facebook) / MajaEventos (Twitter) iniciativa no 366

— Há um pacto entre os indígenas da aldeia guarani Tenondé Porã de

CENTRO CULTURAL YWY PYAU

— povo 

Tupi Guarani

terra indígena 

Piaçagüera

aldeia Piaçagüera habitantes 109

local  proponente  contato 

São Paulo - SP

João Paulo dos Santos Dias

(13) 9602 - 6977 / 9151 - 5168 /

joaopaulopiacaguera@gmail.com iniciativa no 410

— Na escola, em uma aula de cultura, o professor pediu que as crianças imaginassem e desenhassem um espaço que gostariam de ter na aldeia. Juntas, elas pensaram num local onde pudessem ensaiar seus cantos e danças, num ambiente em que o grupo musical da comunidade pudesse tocar seus instrumentos. Ali, a comunidade poderia realizar reuniões, encontros e festas. Os professores poderiam dar aulas de cultura, ensinar a confecção de artesanato e a língua tupi guarani, convidar os mais velhos para conversas. Nosso “Centro Cultural”, feito de modo tradicional, seria mais confortável e apropriado para essas atividades culturais do que a escola de alvenaria. O professor apresentou o desenho para a comunidade e nos envolvemos. Contudo, faltam recursos: a área onde vive a comunidade foi devastada por uma antiga mineradora e não há materiais para a confecção de artesanato e das casas tradicionais. Alguns homens da comunidade pescam com rede, no mar, mas isso mal garante a subsistência das famílias. Com o apoio do Prêmio, construiremos nosso “Centro Cultural”, promovendo a união da comunidade e o fortalecimento de nossa cultura.

OPY – RITUAIS E CULTURA INDÍGENA NO 6o ENCONTRO DOS POVOS INDÍGENAS DE GUARULHOS – 2013

— povos 

Pankararé, Pankararu, Pataxó,

Tupi-Guarani, Tupinambá, Wassu-Cocal e Xukuru do Ororubá terras indígenas 

as comunidades vivem em

diferentes bairros do município de Guarulhos – região do Jardim São João e Ponta Alta (comunidade pankararé e pankararu); Sítio São Francisco, Bairro dos Pimentas e Parque São Miguel (comunidade Wassu-Cocal, Tupinambá e Pataxó); Jardim Presidente Dutra, Inocoop (comunidade Tupi-Guarani) habitantes 

305 pessoas de diferentes etnias

(representadas pela Associação Arte Nativa) local  proponente  contato 

Guarulhos - SP

Associação Arte Nativa Indígena

(11) 2922 - 8440 / 96939 - 8815 /

artenativaindigena@yahoo.com.br / Guarulhos Indígena (Facebook) / anispfilhosdaterra.blogspot.com (site) iniciativa no 589

— As comunidades vivem em bairros urbanos periféricos. Viemos para a cidade em busca de trabalho e de meios de vida. Mas, aqui, não temos espaço para nossas práticas culturais; religiões não indígenas interferem em nossa espiritualidade e há muita discriminação. A maioria das pessoas acha que os índios têm que estar na mata, que a cidade não é o lugar deles.

287


288

iniciativa nº 516 – Kanhgág ág jagfy - Em favor da

cultura indígena

Desde 2008, realizamos anualmente o Encontro dos Povos Indígenas de Guarulhos visando fortalecer as culturas indígenas na cidade, bem como nas aldeias do Estado de São Paulo. Por meio desses encontros, nos integramos ao movimento de luta pela garantia de nossos direitos e buscamos propor políticas públicas que atendam as demandas indígenas. Também divulgamos e demonstramos a diversidade cultural e espiritual dos povos indígenas do estado, tentando dialogar com a sociedade não indígena e combater o preconceito. Falta apoio financeiro para alimentação, hospedagem, transporte, segurança e para o registro audiovisual do evento. No encontro deste ano, pretendemos entregar para o governo municipal nosso projeto “Terra Sagrada”, solicitando um pedaço de mata em Guarulhos no qual será construída uma aldeia indígena multiétnica.

— RESGATE DE CULTURA PANKARARÉ

— povo Pankararé

terra indígena 

bairro Anita Garibaldi da

cidade de Guarulhos (não demarcada) comunidade 

Pankararé de Guarulhos

habitantes 80 local  proponente  contato 

Guarulhos - SP

Maria Anita Granjeiro dos Reis

(11) 2438 - 3964 / 96544 - 3150 /

premioculturasindigenas@gmail.com iniciativa n

o

 596

— Lá, na Bahia, não tinha emprego e as condições de vida eram precárias; por isso, a comunidade se deslocou para Guarulhos (SP). Aqui, os problemas continuam os mesmos: dificuldade de acesso a serviços de saúde e educação, falta de emprego, discriminação e preconceito. A iniciativa visa o fortalecimento da cultura pankararé e o resgate de saberes tradicionais. A primeira etapa será minha ida para a aldeia pankararé Brejo do Burgo, no município de Nova Glória (BA), para o aprendizado e registro audiovisual de cantos e danças rituais (Praiá, Toré) e também da confecção de roupas (saias, praiás), cocares, maracás, pulseiras etc. A comunidade de Brejo do Burgo também disponibilizará os materiais (sementes, penachos, fibras etc.) usados na produção dos artesanatos tradicionais. A segunda etapa será a realização de oficinas de artesanato e de cantos e danças nas quais serão exibidos os vídeos gravados na Bahia. Quando todos tiverem aprendido e os artesanatos estiverem prontos, serão feitos e registrados o Praiá e o Toré em nossa comunidade. Por fim, todo artesanato produzido durante as oficinas será comercializado em feiras da região para melhor a situação e gerar renda para as famílias.

KANHGÁG ÁG JAGFY – EM FAVOR DA CULTURA INDÍGENA

grupo, levá-lo para realizar apresentações nas escolas do município, promovendo, assim, o conhecimento da cultura indígena em Clevelândia.

aldeia 

Alto do Pinhal

habitantes 90 local  proponente 

Clevelândia - PR

Associação de Pais, Mestres

e Funcionários (APMF) da Escola Estadual Indígena Nitótu – EIEF contato 

(46) 3252 - 1750 /

escolanitotu@ymail.com iniciativa n

o

 516

— A Aldeia Alto Pinhal é uma aldeia urbana. A comunidade cultiva plantas medicinais, hortaliças, árvores frutíferas, plantas para a retirada de matéria-prima artesanal etc. Contudo, faltam recursos naturais para as práticas culturais da comunidade e também para confecção de artesanato destinado à venda, principal fonte de renda de grande parte dos indígenas. Com esta iniciativa, buscamos apoiar um grupo cultural kaingang que, desde 2007, promove apresentações e atividades visando o fortalecimento e resgate dos costumes antigos, da língua, danças e cantos. O dinheiro será investido na compra de materiais de registro e divulgação audiovisual, na construção de um espaço específico para as apresentações e na confecção de instrumentos e artesanatos para serem utilizados pelo grupo cultural. Além disso, é preciso expandir as atividades do

— Kaingang e Guarani

terras indígenas  aldeia  habitantes 

Palmas

Vila Nova Guarani

1.000 nas Terras Indígenas de

Palmas / 20 na aldeira Vila Nova Guarani local 

Palmas - PR

proponente  contato 

terra indígena  comunidade 

local 

GA KÓSIN AG OS FILHOS DA TERRA povos 

povo Kaingang

Mangueirinha Passo Liso

habitantes 395

povo Kaingang

Claudecir Viri

(46) 9138 - 3824 / 9118 - 8626 iniciativa no 881

— O objetivo desta iniciativa é manter e fortalecer a cultura e a identidade dos povos Guarani e Kaingang, promovendo as línguas indígenas, danças, cantos, conhecimentos e alimentação tradicionais. Os recursos obtidos serão investidos no grupo cultural para a compra de material de registro e divulgação audiovisual e na confecção dos instrumentos utilizados em atividades e apresentações feitas pelo grupo.

— GRUPO DE CANTO E DANÇA TOPE PĨR UM ÚNICO DEUS

proponente  contato 

Chopinzinho - PR

Valfride Carneiro Cipriano

(46) 9107 - 5533 / 8401 - 3570 /

9128 - 6523 / tatipatel@hotmail.com iniciativa no 882 

premiada

— A escola é uma grande aliada da comunidade, um instrumento que contribui para a recuperação de sua memória histórica e na reafirmação de sua identidade étnica, no estudo e valorização de sua cultura e, principalmente, de sua língua. Os mais antigos contam que eram impedidos de falar a língua indígena; os brancos achavam que tramariam fugas e guerras, queriam inserir os índios na sociedade envolvente. Hoje, a língua está incluída na Matriz Curricular e, desde 2011, junto à escola e com a participação da comunidade, buscamos fortalecer e divulgar os costumes e tradições kaingang através dos cantos e das danças. Ao cantar, trabalhamos não só a língua, mas também o conhecimento da coleta de materiais usados para fazermos chocalhos. Na mata, quando se coleta, aproveitamos para trabalhar as plantas, os animais, os remédios etc. Para os Kaingang, muitas danças e músicas são rituais. Por meio desta iniciativa, visamos adquirir violões, roupas, equipamentos para registro audiovisual e materiais para confeccionar adereços

289


e chocalhos para as apresentações do grupo de música e dança. Queremos fortalecer e propagar nossa cultura dentro da comunidade e também para os não indígenas.

290

iniciativa nº 882 – Grupo de Canto e Dança Tope Pĩr -

Um único Deus

MBORAI PORÃ (CANTO SAGRADO)

— povo 

Guarani Mbya

terra indígena  comunidade 

Kuaray Haxa

Kuaray Haxa

habitantes 30 local  iniciativa nº 164 – Nhemongaraí

proponente  contato 

Guaraqueçaba - PR Rivelino Gabriel de Castro

(41) 8813 - 2425 / 9198 - 0562 /

gqkuarayguatapora@seed.pr.gov.br iniciativa no 884

iniciativa nº 273 – O futuro de uma criança e o presente e

futuro de um jovem

Acreditamos em Nhanderu, Deus único, pai de nós todos. Queremos construir uma nova casa de reza para nossas práticas culturais, para a realização de rituais e de trabalhos de cura, para fortalecer nosso povo. Com o crescimento da comunidade, o espaço que temos tornou-se precário, necessita de ampliação. Como estamos em área de preservação ambiental, numa reserva biológica do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade/ICMBio, não podemos retirar madeira ou outros materiais da mata e precisamos de apoio financeiro para comprá-los.

NHEMONGARAÍ

— povo  terras indígenas 

Guarani Mbya Tekoá Pindó Mirim (Terra

Indígena de Itapuã – 100 habitantes), Tekoá Jata’ity (Terra Indígena do Cantagalo – 160 habitantes) e Tekoá Pindó Poty (Aldeia Guarani do Lami – 25 habitantes) local  proponente 

Viamão - RS

constituição da pessoa mbyá, é uma referência divina que a guia dentro de seus objetivos de vida. Os nomes mbyá devem ser revelados pelos Karaí ou Kunhã Karaí, mas nem todos possuem essa habilidade espiritual. O auxílio do Prêmio possibilitará trazer os Karaí e Kunhã Karaí que possuem essa habilidade para que realizem essa cerimônia específica.

Vherá Poty Benites da Silva

contato 

(51) 9702 - 4848 /

jepovera@yahoo.com.br / vherapoty (Facebook e Twitter) iniciativa n

o

 164

— Embora vivamos em áreas situadas na região metropolitana de Porto Alegre, num contexto de crescente urbanização e degradação ambiental, e ainda enfrentemos problemas com a demarcação, ampliação e invasão de nossas terras, atualmente, nossa grande preocupação é com o fortalecimento espiritual dos Mbya. Por muito tempo, tivemos que nos adaptar às condições materiais e garantir a nossa sobrevivência; a espiritualidade foi deixada em segundo plano. Agora que já estamos minimamente adaptados, precisamos resgatar a espiritualidade mbyá. Por meio desta iniciativa, buscamos apoio para a construção de duas casas cerimoniais (opy) – uma na Tekoá Pindó Poty e outra na Tekoá Pindó Mirim – e para a realização de cerimônias de purificação das sementes e de revelação dos nomes das crianças (Nhemongaraí). O nome é fundamental para a

O FUTURO DE UMA CRIANÇA E O PRESENTE E FUTURO DE UM JOVEM

— povo 

Guarani Mbya

terra indígena  aldeia 

Mato Preto

Tekoa Arandu Vera

habitantes  local 

80

Getúlio Vargas - RS

proponente  contato 

Joel Pereira

pé de árvore além daqueles plantados pela própria comunidade. Falta moradia, faltam elementos para a subsistência. A comunidade tem se esforçado para não perder as práticas culturais. Desde 2011, realizamos reuniões com os jovens, crianças e pais, promovendo práticas de canto e dança. O objetivo desta iniciativa é construir uma Opy (casa de reza), ponto estratégico para a valorização e o fortalecimento da cultura. A maior dificuldade é a falta de madeira e taquara em nossa terra; será preciso obter todo esse material em outras aldeias e trazer de caminhão. Faltam também os principais instrumentos musicais: o mbaraka (violão), a ravé (rabeca) e o angu’a pu (tambor). Esperamos que, por meio dessa iniciativa, as crianças e os jovens tenham coragem e orgulho de dizer “eu sou índio, eu sou da etnia guarani, falo na minha língua, canto e danço, sei a história do meu povo”.

(54) 9203 - 1929 /

joelkuaray@yahoo.com.br / joelkuaray@gmail.com iniciativa no 273

— Recentemente declarada pelo Ministério da Justiça, nossa terra não é reconhecida pelo Governo do Estado. A comunidade vive em um acampamento próximo a uma rodovia e a uma ferrovia desativada, cortado por linhas de transmissão telefônica e de eletricidade. A área é totalmente devastada: não há um só

REVITALIZANDO A CULTURA MBYA GUARANI

— povo 

Guarani Mbya

terra indígena  comunidade 

Guarita

Tekoá Ka´gua Porã

aldeia Gengibre habitantes  local 

201

Erval Seco - RS

proponente 

Aldonês Mariano

contato 

(55) 9684 - 1539 /

aldonesmarianos@yahoo.com.br / cominasa@redemeganet.com.br iniciativa no 288

— Em parceria com o Conselho de Missão entre Indígenas (COMIN), desde 2005, a comunidade desenvolve um conjunto de ações com o objetivo de revitalizar e fortalecer elementos indispensáveis à vida da comunidade, tais como: publicações e seminários que divulgam concepções e valores da cultura indígena para a sociedade não indígena; construção, já finalizada, da casa de reza (Opy), espaço em que acontecem cerimoniais muito importantes e no qual o Karaí recebe de Nhanderu (Deus) a verdadeira sabedoria, a vontade dos deuses para o presente e futuro da aldeia; constituição do Grupo de Canto e Dança Nhamandu Jexaka e realização de apresentações dentro e fora da comunidade; trabalhos com a medicina e culinária guarani, incluindo o plantio de uma horta medicinal, oficinas de artesanato, atividades de registro audiovisual, entre outras. São ações simples, porém ricas e fundamentais, porque fortalecem a identidade, a autonomia, a história, a religiosidade, enfim, a cultura mbyá guarani. A iniciativa apresentada ao Prêmio Culturas Indígenas visa obter o apoio financeiro necessário para dar continuidade a estas e outras práticas.

291


TEKO NHEMOMBARAETE RÁ – FORTALECIMENTO DE SUA CULTURA

292

— povo 

iniciativa nº 288 – Revitalizando a cultura Mbya

Guarani

Guarani Mbya

terra indígena  comunidade 

Tekoa Nhundy

Tekoa Nhundy

habitantes  local  proponente  contato 

130

Viamão - RS

Tarcisio Gomes (vice-cacique)

comunidade terá uma colheita condizente com suas necessidades; com a compra de matéria-prima e a organização de uma tenda de vendas para seu artesanato irão se capitalizar para suas necessidades básicas; com a construção de sua Opyi fortalecerão suas crenças; com o registro documental estarão com visibilidade para o mundo e irão perpetuar sua cultura, usos e costumes, elevando

de reza, de participar das cerimônias; eles têm mais interesse por televisão, novela, filme, jogo de videogame, pela tecnologia. Os velhos se preocupam com a questão da cultura, com a influência de fora. O objetivo desta iniciativa é incentivar o jovem a voltar para os rituais, valorizar os cantos, danças e rezas através dos quais os mais velhos passam os conhecimentos da cultura. É também através dos

dos materiais usados na produção de artesanato e na manutenção de atividades culturais essenciais para a vida do povo Kaingang. As pessoas dependem de programas sociais do governo para sobreviver. Em 2002, com a implantação da escola na aldeia, a comunidade, através do plano pedagógico, decidiu priorizar o fortalecimento da cultura como forma de promover o resgate de

encontram-se ameaçados por empreendimentos hidrelétricos e pela contaminação por dejetos de suínos lançados por criadouros da região. Os recursos naturais são insuficientes para a sobrevivência. Hoje, somente os mais velhos falam a língua indígena; a comunidade, junto com a escola, faz um trabalho de resgate com os jovens. Desde 2010, em parceria com a igreja católica, a comuni-

sua autoestima.

rituais que os pajés passam os nomes das crianças guarani. Por isso, é muito importante que esse trabalho continue sendo feito, mas, no momento, a comunidade precisa de incentivos financeiros, de apoio com os custos de alimentação, transporte, registro e divulgação audiovisual.

atividades culturais e para dar identidade ao grupo, fortalecendo a luta pela demarcação e homologação do território tradicional. Como não há recursos naturais disponíveis em nossa terra, a maior dificuldade é a falta de matéria-prima para a produção de vestes e instrumentos sonoros utilizados na dança.

dade mobiliza-se para realizar ações de preservação e valorização das práticas religiosas antigas. Mas falta um espaço físico específico para os encontros religiosos da comunidade. Faltam recursos próprios da comunidade para resolver essa dificuldade. Surgiu, então, a ideia de, através do Prêmio Culturas Indígenas, obter apoio para a construção da casa de reza. A construção de uma casa de reza na comunidade fará com que a mesma dê sequência nas atividades religiosas e que fortaleça ainda mais a cultura indígena. Será possível reunir a comunidade num local apropriado e até mesmo convidar rezadores e pajés de outras aldeias.

(51) 9741 - 5028 / 8446 - 3854 /

eloirxondaro@yahoo.com.br / simonepaula15@gmail.com / eloir.oliveira (Facebook) iniciativa nº 659 – Teko nhemombaraete rá -

Fortalecimento de sua cultura

iniciativa nº 381 – Rituais mbya guarani

iniciativa nº 778 – Canto sagrado

iniciativa n

o

 659

— A comunidade vive em assentamento cedido pela prefeitura de Viamão. A área é preservada, mas faltam alguns itens que é preciso buscar em cidades próximas, principalmente grãos para o plantio e material para o artesanato. Eles têm dificuldades para construir seu centro de reza (Opyi), espaço sagrado e local adequado para os rituais; por isso, o Cacique Eloir Oliveira e o Conselho Estadual dos Povos Indígenas tiveram essa inciativa de participar do Prêmio Culturas Indígenas. Eles também querem fazer um registro documental do seu dia a dia, sua língua, sua culinária, seu artesanato e suas crenças. Pretendem ainda adquirir um estoque maior de grãos e matéria-prima artesanal para que possam viver com mais dignidade. Com um bom estoque de grãos, a

RITUAIS MBYA GUARANI

— povo 

Guarani Mbya

terra indígena  aldeia 

Mymba roká (Amaral) habitantes 

local 

contato 

75

Biguaçu - SC

proponente 

Mymba roká

Jose Benites

(48) 9910 - 1870 /

povo Kaingang

jokabe4@gmail.com / karai.tataendy (Skype) /

terra indígena 

jokabe tataendy (Facebook) /

comunidade 

Jose Benites (Twitter) iniciativa n

o

 381

— O trabalho que está sendo feito é para a valorização dos rituais do nosso povo Mbya Guarani; isso está sendo feito porque a nossa comunidade é recente, faz só cinco anos que a gente está nesta área, e porque as pessoas da nossa comunidade são muito jovens, há poucos velhos. Os jovens estão deixando de frequentar a casa

CANTO SAGRADO

proponente  contato 

Toldo Imbu

Toldo Imbu

habitantes  local 

TOPĒÅN

200

povo Kaingang terra indígena  comunidade 

Abelardo Luz - SC

iniciativa no 778

— A comunidade está localizada em terra que, doada pela prefeitura, já se encontra demarcada, faltando homologação. Próxima à cidade, a terra possui um solo muito pedregoso, carecendo de mata e, portanto,

Toldo Pinhal

habitantes 

Valmor de Paula Mendes

(49) 9173 - 2092 / 9956 - 5041

Toldo Pinhal

local  proponente  contato 

100

Seara - SC

João Maria dos Santos

(49) 8897 - 6656 / 8849 - 9592 /

aafidelis@hotmail.com iniciativa no 784 

premiada

— A comunidade vive numa terra com caça e pesca, com água boa, mas cuja área própria para cultivo é pequena. O rio Ariranha e o córrego Cipó

293


294

295

— LÍNGUAS —

Guarani, ES / foto: Renato Soares


296

LÍNGUAS —  40 INICIATIVAS INSCRITAS  —

297

A ESPERANÇA EQUILIBRISTA: AÇÕES LOCAIS PARA A VALORIZAÇÃO DAS LÍNGUAS NO BRASIL por Lilian Abram dos Santos

A

existência e coexistência, no Brasil, de muitas e diversas línguas poderiam ser presumidas a partir da própria diversidade cultural de nosso país, que é moradia de muitos povos indígenas e muitas comunidades de imigrantes de diferentes origens. No entanto, não é isso o que ocorre. Paradoxalmente à diversidade cultural facilmente constatada, a imagem do país segue sendo, equivocadamente, a de um país monolíngue cuja totalidade de brasileiros é falante, desde o berço, da língua portuguesa. Onde estaria, então, o plurilinguismo que acompanha e sustenta a diversidade cultural tão enunciada nas propagandas do Brasil? Ele está em todos os lugares, mas somos poucos os que já paramos para ouvi-lo. O multilinguismo brasileiro só será ouvido quando ouvirmos os falantes das mais de duzentas línguas indígenas e de imigrantes que são faladas cotidianamente por nossos conterrâneos, em todas as regiões do país. Na tentativa de se fazerem ouvir, aproximadamente cinquenta povos indígenas enviaram projetos para esta Edição do Prêmio das Culturas Indígenas, que tinham como iniciativa principal a valorização de suas línguas maternas. Iniciativas de valorização, fortalecimento, manutenção e resgate de línguas indígenas foram arquitetadas cuidadosamente por seus falantes com o objetivo de permanecerem resistindo aos avanços históricos da língua portuguesa sobre os espaços de uso das línguas indígenas.

Historicamente, o Brasil é um país que promove políticas em direção ao monolinguismo. Os povos indígenas vivenciaram o apagamento de suas línguas em diferentes contextos políticos. Como exemplo, podemos retomar dois casos de promoção do monolinguismo sempre muito citados nos estudos de formação sociolinguística do Brasil. Um deles é a adoção das duas línguas gerais durante os três primeiros séculos da colonização. As línguas gerais, a paulista e a amazônica, foram línguas de comunicação usadas por brasileiros, portugueses, índios e escravos em contextos complexos de relações e interações étnicas. Elas surgiram das interações entre falantes de línguas diferentes no espaço da costa brasileira. A base das línguas gerais foi, provavelmente, o Tupinambá, língua da costa brasileira, com grande número de falantes. As línguas gerais foram amplamente usadas em quase todas as situações comunicativas necessárias ao projeto de colonização que Portugal tinha para com o Brasil. Na adoção das línguas gerais como língua de comunicação, todas as outras línguas indígenas deixaram de receber atenção, ou seja, durante a formação linguística do Brasil, as línguas gerais se sobrepuseram às mais de mil outras línguas indígenas que também existiam. O outro caso sempre citado se dá no século XVIII, com o Diretório dos Índios, que demarca a chegada de uma nova concepção de Estado. A partir dessa lei, o uso das línguas gerais – na catequese e na comunicação diária – é coibido em favor do uso


298

iniciativa nº 949 – Reaprendendo a língua Akwê, Xacriabá, MG

iniciativa nº 120 – Língua indígena, povos Guajajara, Guarani, Awa Guajá, MA

majoritário da língua portuguesa que, a partir de então, passa a ser um dos instrumentos na construção de uma identidade nacional. Esses dois exemplos, expostos de modo muito breve diante de sua grande complexidade, procuram ilustrar o papel sempre central das línguas na construção de identidades, nacionais ou não. Devido à consciência desse papel, as pessoas agem politicamente sobre as línguas, tendo como escopo da ação uma nação, um povo, uma comunidade ou uma família. Já mais recentemente, o Estado brasileiro, na Constituição de 1988, reconhece a diversidade linguística brasileira e afirma o direito à escolarização bilíngue aos povos indígenas. Leis nacionais são também ações sobre as línguas. Intervenções sobre as línguas são mais comuns do que pensamos. Elas podem ser propostas por leis nacionais e igualmente por pais de família. O que vemos na área de línguas desta edição do Prêmio das Culturas Indígenas são projetos de políticas linguísticas locais, levados a cabo por falantes de línguas com diferentes graus de vitalidade. Embora varie bastante a situação sociocultural dos falantes das línguas contempladas, há em comum a todos os projetos a certeza de que é preciso fazer intervenções planejadas sobre as línguas indígenas brasileiras, pois, sem nenhuma exceção, são línguas que disputam espaços de uso com o português, em diversos domínios sociais. Dessa forma, os índios estão agindo sobre a totalidade das línguas, que seja um contexto bi ou multilíngue – e não somente sobre suas línguas maternas, pois o contato implicará sempre numa disputa pela ampliação de espaços linguísticos; no nosso caso, essa disputa se dá entre duas ou mais línguas indígenas ou entre línguas indígenas e o português. Na condição de línguas minorizadas, as línguas indígenas oferecem resistência e seguem disputando seus espaços de uso com o português. Ainda que tardiamente, como é o caso das iniciativas que retratam um contexto real ou iminente de monolinguismo em português sobre o qual se intenta uma mudança na

ordem linguística estabelecida. Os Terena, da aldeia Turi Puku, em Mato Grosso, por exemplo, são falantes do português. Segundo seus relatos, a intensa luta pela conquista, reconhecimento e posse de terra foi o principal motivo que levou os adultos, jovens e crianças dessa aldeia a não mais falarem a língua Terena atualmente. A falta de um espaço para as práticas culturais interrompeu a transmissão linguística, como podemos ler no relato abaixo: Com o processo de adquirir um território numa luta de 20 anos no estado do Mato Grosso, os Terena não tinham uma estratégia de como ensinar as crianças na aprendizagem da língua, os pais de família, os avós estavam focados na sobrevivência de seus filhos. O povo terena não tinha um lugar fixo para as práticas culturais porque cada período o governo mudava nosso povo de um lugar para outro, não tínhamos nossa terra definitiva, isso acarretou muito sofrimento para nosso povo. Foi através dessa situação que o povo terena também sofreu na aprendizagem da língua materna em Mato Grosso. (Projeto “Revitalização da língua terena” – MT 916) Se, há 20 anos, o contexto de luta não possibilitou estratégias para a manutenção linguística, é a percepção da possibilidade de intervenção na situação sociolinguística atual que faz com que os Terena de Turi Puku proponham um intercâmbio cultural (notem, cultural e não linguístico!) com os Terena do Mato Grosso do Sul, bilíngues em português e Terena. A ideia é que alguns moradores da aldeia de Mato Grosso passem um período no Mato Grosso do Sul e, depois, um professor bilíngue vá ensinar terena por um ano em Turi Puku. O intercâmbio cultural não foi uma proposta exclusiva dos Terena de Mato Grosso. Outros povos também conceberam o intercâmbio como uma possibilidade de reaprendizagem da língua indígena, como foi o caso dos Tembé do Pará em relação aos

seus parentes bilíngues do Maranhão. Na compreensão dos Tembé, os casamentos entre moradores do Maranhão, bilíngues, e do Pará, monolíngues em português, são também ações sobre as línguas (Projeto “O ensino da língua Tenetehara entre os Tembé das aldeias Sede, Ituaçu, Pinoá e Ipydhõ”) (PA 547). A contratação de professores bilíngues moradores de outras aldeias também foi uma solução encontrada para que jovens e crianças aprendessem o idioma de seus ancestrais que ou não é mais falado naquela comunidade ou é falado somente por poucos indivíduos mais velhos. Essa é a iniciativa apresentada pelos Apurinã, da aldeia Copaíba. O objetivo da contratação do professor falante de Apurinã vai além da ampliação do número de falantes: Nosso objetivo é a contratação de um professor de Apurinã para ensinar a língua para os moradores da aldeia e para nos ajudar a revitalizar as práticas tradicionais de produção de artesanato que dependem do conhecimento da língua para serem transmitidas. (Projeto “Pupikari Sãkiri: resgate da língua e artesanato do povo Apurinã” – AM 1011) O trecho acima confirma que a elaboração de políticas linguísticas raramente se restringe a intervenções somente sobre a língua. Podemos lembrar ainda dos Xacriabá da Aldeia Brejo Mata Fome que elaboraram um projeto de pesquisa e registro de léxico da língua Xacriabá. Os moradores dessa aldeia avaliaram que o Xacriabá é pouco falado e que era preciso reunir esforços para valorizá-lo novamente. Para tanto, em 2008, começaram uma pesquisa linguística com o intuito de elaborarem um dicionário e materiais de ensino porque acreditam que se há registros de vocábulos de uma língua, ela não está completamente morta (Projeto Resgate e fortalecimento da língua Xacriabá) (MG 602). O ensino formal da língua indígena foi proposto por povos com línguas menos ou mais ameaçadas. Quando uma língua entra em novos domínios

299


300

iniciativa nº 826 – Normatização da escrita da língua Paiter Suruí, RO

iniciativa nº 491 – Uyeeserukonpî senkaman: Fortalecendo as Tradições Culturais dos

Povos Macu1i e Wapichana na comunidade Raimundão 1, Macuxi e Wapichana, RR

iniciativa nº 624 – Bayda’aptan Paradkary: gramática intercultural e bilingue

Wapichana- Português, Macuzi, Wapichana e Aturady, RR

sociais, como a escola, por exemplo, é preciso ampliar seu corpus. Muitos projetos tiveram como objetivo o estudo da própria língua, a criação de materiais didáticos e a produção de livros em línguas indígenas. Nas aldeias Campinas e Vila Nova, na Terra Indígena Alto Rio Negro, há um contexto multilíngue no qual coexistem cinco línguas indígenas e o português. Werekena é a língua minoritária nessas aldeias, embora seja predominante o número de indivíduos dessa etnia. A língua Werekena disputa espaços com o Nheengatu e com o português, que são ensinados nas escolas das aldeias. Em 2009, os Werekena deram início ao processo de fortalecimento de sua língua, a partir de encontros, eventos e oficinas de estudo. Um dos objetivos do projeto que enviaram para esta edição do Prêmio é justamente a produção de materiais escritos com finalidades pedagógicas, pois entendem que sua língua também deve ser ensinada na escola, ao lado do português e do Nheengatu (Projeto “Wapolliota pyty wawayané werekena: valorizando a língua Werekena” – AM 1029). O ensino formal da língua certamente contribuirá para aumentar o número de falantes, mas a presença da língua na escola é, ela própria, uma estratégia para sua valorização dentro da comunidade multilíngue. Em outro contexto multilíngue, os Tariana, também do Alto Rio Negro, propuseram a realização de oficinas para a continuidade do estudo e descrição da língua Tariana e a produção de materiais didáticos para a escola das aldeias. Os Tariana vivem em um contexto trilíngue. Jovens e crianças falam o português e o Tukano; os mais velhos falam Tariana. Diante da constatação de um contexto de perda linguística, os Tariana estão procurando aumentar o status de sua língua a partir da ampliação do número de falantes e de seu fortalecimento na escola. De acordo com a estratégia planejada, precisarão equipar sua língua para utilizá-la na escola. A língua Tariana como língua de instrução na escola é uma função nova e, por isso, necessita de intervenções específicas de seus falantes, como ampliação

de vocabulário e tradução de palavras do português próprias da esfera pedagógica (Projeto “Resgate e revitalização da língua indígena Tariana” – AM 968). Os Tupari de Rondônia propuseram oficinas para dar continuidade ao estudo da língua e para a produção de registros escritos de narrativas, e audiovisuais de diferentes práticas culturais. Acreditam que, mesmo sua língua sendo forte e amplamente utilizada, é preciso cuidar desse patrimônio: A língua Tupari é majoritária. Esta é falada e entendida por quase todos os membros. A língua materna é falada em casa e em quase todos os espaços sociais das aldeias, mas usam também a língua portuguesa para se comunicar com outros povos. Logo percebemos a língua tupari forte; mas mesmo assim temos grande preocupação porque a língua portuguesa cada vez mais vem ocupando os espaços. (Projeto “ÕPUOP MA’Â KIPUOP’ ORAPKE TUPARI EMA´ EMA´ÊRE” – RO 660) Os Xacriabá, assim como os Kaingang, os Guarani, os Tembé, os Apiaká, os Waurá, os Karajá e muitos outros povos consideram a pesquisa linguística como etapa fundamental de suas ações de valorização e fortalecimento de suas línguas. Normalmente nesses casos, a pesquisa é realizada pelos próprios falantes, com ou sem a colaboração de um linguista profissional. E isso é bastante proveitoso também para os não índios, pois suas línguas carregam consigo estruturas linguísticas pouco conhecidas que, quando descritas, somarão ao conhecimento linguístico que se pretende ser sempre mais amplo. Os Kaingang de São Paulo, por exemplo, propuseram um estudo sociolinguístico do Kaingang porque julgam que o dialeto paulista é diferente de outras variedades regionais dessa língua. Pretendem ter como produto dessa pesquisa já iniciada um “vocabulário do dialeto kaingang paulista” (Projeto “Vocabulário do dialeto kaingang paulista” – SP 223). Surpreendentemente, um dos projetos trouxe como iniciativa a realização de oficinas para discutir

questões de política linguística em um território multilíngue. Os índios das etnias Kaxinawá, Ashaninka, Yawanawá, Shawãdawa e Poyanawa, vislumbrando uma situação em que o multilinguismo pode não estar agindo pró-manutenção das línguas indígenas, propuseram uma discussão coletiva para a criação de uma política linguística para todo o Acre indígena (Projeto “Oficina de valorização e sensibilização dos costumes tradicionais para a preservação e difusão das línguas indígenas”- AC 794). Como pode ser atestado pelos projetos enviados para esta edição do Prêmio – e por muitos linguistas e antropólogos também – muitas das línguas autóctones se encontram em estado de vulnerabilidade. Essa condição das línguas significa que elas podem, num curto espaço de tempo, deixar de ser usadas por aqueles que ainda as têm como línguas maternas. Se olharmos essa situação pela perspectiva da valorização da diversidade, veremos que a morte de qualquer língua é uma grande perda para toda a humanidade e não somente para seus falantes, pois uma língua é a criação de um mundo. Histórias, receitas, conversas, músicas, piadas, conhecimentos são construídos na e pela língua, então, quando uma língua morre ou seu uso se restringe a um número reduzido de pessoas o que está morrendo é um repertório de saberes continuamente (re)construído por um coletivo humano. A morte de línguas não se resume a um conjunto de palavras que nunca mais serão ditas. A morte de línguas não é a morte de palavras, mas, sim, o silenciamento de um modo particular de conhecer, explicar, entender e dizer o mundo. E os índios autores dos projetos enviados sabem muito bem disso. As iniciativas inscritas no Prêmio revelam uma concepção de língua bastante interessante e destoante de muitas concepções expressas nos discursos científicos. Para os autores dos projetos enviados, língua não é uma entidade separada de cultura. A língua é criação e manifestação das práticas culturais. A

301


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iniciativa nº 968 – Resgate e Revitalização da língua indígena Tariana, AM

língua só está viva se ela está em uso. E se é preciso reaprender, fortalecer ou valorizar uma língua, isso somente poderá ser feito levando-se em conta a fugacidade de seu uso cotidiano e ritualístico. É a partir dessa compreensão do que é língua que muitos projetos foram elaborados com o objetivo de se reverter uma situação linguística vigente e desfavorável às línguas indígenas. Foram muitas as iniciativas que propuseram a realização de eventos para que músicas, danças, festas, histórias, pinturas corporais, conversas fossem compartilhadas pelos moradores das aldeias e por convidados de outras comunidades. Afinal, a língua existe nessas manifestações cotidianas da vida de todos nós. Os Kokama vivem uma situação sociolinguística em que o português é a língua majoritária em sua comunidade. Eles intencionam construir uma casa comunitária na aldeia em que moram para funcionar como um espaço para a realização de suas práticas culturais que são feitas em língua Kokama e não em português. A presença desse espaço na aldeia já seria uma lembrança do que eles não querem perder, como podemos ler em um trecho do projeto:

iniciativa nº 875 – Yanomae thëphë utupë: imagem dos Yanomami, RR

A comunidade decidiu realizar essa iniciativa para não perder nossos costumes [...] e assim valorizar mais nossa língua materna. Quem propôs essa iniciativa foram as lideranças da comunidade e os moradores. (Projeto “Uri piata wepe uka – casa comunitária” – AM 662) Os Krenjê Timbira, do assentamento Campo São Francisco, também pretender usar danças, cantos e outras práticas para a manutenção linguística, pois são nesses domínios sociolinguísticos que a língua indígena ainda resiste ao português: Nosso objetivo é fortalecer nossa cultura e adquirir nosso direito de terra. Com trabalho desenvolvido para valorizar nossa cultura, nós temos exercido nossa língua (ainda que escassa) em reuniões, cânti-

cos, danças, na unidade familiar. (Projeto “Clareando a mente do povo Krenjê para o amor, igualdade e paz”- MA 1047) Conscientes da importância do uso cerimonial da língua para o fortalecimento de suas línguas, muitos povos elaboraram projetos de registro audiovisual de práticas culturais. Foi esse o caso dos Kaxinawá, da Aldeia Boa Vista, que propuseram a realização de um evento destinado à apresentação de danças, músicas, artes, pinturas para que tudo possa ser registrado. O evento, na opinião de seu proponente, além de ser a condição para o registro dessas práticas, também será um contraponto à discriminação de nossa identidade cultural pelos não índios. (Projeto “Fortalecendo a língua indígena Hunikuĩ. Olhando o passado, descobrindo o presente e pensando no futuro. A Festa do Novo Dia (A festa da Caiçuma)” – AC 798). Todos os projetos enviados retratam e reafirmam um contexto sociolinguístico nacional complexo e conflitante. Os índios não estão desatentos aos riscos que suas línguas correm. Eles estão atentos e permanecem resistindo. Os povos indígenas que enviaram projetos para esta edição do Prêmio propuseram políticas linguísticas locais com um mesmo objetivo: o fortalecimento de suas línguas maternas no contato compulsório com o português. Como escreveu um índio Xacriabá a língua, ela é parte da cultura, das danças, das músicas, dos rituais. Os projetos retratam um país de muitas línguas. Vamos ouvi-las então...

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"O PROFESSOR CONVERSAVA COMIGO E EU NÃO ENTENDIA..." Entrevista com Andila Belfort Kaingang

A

entrevista com Andila Inácio Belfort foi realizada por Maurício Fonseca, no dia 16 de setembro de 2014, em Brasília, no prédio da Secretaria da Cidadania e Diversidade Cultural/SCDC do Ministério da Cultura. Nascida na aldeia Carreteiro, município de Água Santa, RS, Andila é reconhecida como educadora e pelo trabalho que desenvolve como coordenadora do Ponto de Cultura Kanhgág Kanhro (Saber Kaingang). Sua entrevista relata sua experiência como educadora bilíngue. Na década de 70 participou, como monitora bilíngue, do projeto de alfabetização e educação escolar promovido pelo Summer Institute of Linguistics realizado em parceria com a FUNAI. Este projeto era claramente integrador e evangelizador. Posteriormente, sobretudo após 1988, participou do processo de implantação de uma educação

escolar específica, diferenciada, intercultural e bilíngue. Preocupada com o fortalecimento da língua kaingang, relata os desafios que os professores indígenas enfrentam para implantar uma escola diferenciada que atenda aos interesses estratégicos das comunidades Kaingang. Problemas como a estruturação dos currículos, o calendário escolar, a deficiência de materiais didáticos apropriados e bilíngues, a formação dos professores indígenas, a dificuldade de a legislação que regulamenta o funcionamento das escolas ser respeitada e praticada, o despreparo das instituições estaduais responsáveis pela gestão da educação escolar indígena, o distanciamento entre as atividades escolares e as práticas próprias de transmissão da cultura kaingang são questões levantadas na entrevista e entendidos por Andila como desafios a serem enfrentados para fortalecer a língua, a cultura e a identidade do povo Kaingang.

Andila Belfort Kaingang

— MAURÍCIO  Você pode se apresentar e falar sobre o trabalho que você desenvolve na sua aldeia? ANDILA  Meu nome é Andila, em Kaingang é Ñivygsãnh, eu sou do povo Kaingang, Rio Grande do Sul. Moro na Aldeia Serrinha, no município de Ronda Alta, no Rio Grande do Sul. Lá eu trabalho com o Ponto de Cultura, então eu sou reconhecida pelo meu povo. Sou professora aposentada pela FUNAI, por isso também sou reconhecida por eles como educadora, como professora. M  Gostaria que você falasse um pouco sobre sua experiência como educadora. A  Eu sempre falo para as minhas filhas que, como elas não tiveram o direito de escolher uma profissão, eu também não tive, porque eu tinha uns 14 ou 15 anos e foi determinado pelos meus pais que eu tinha que fazer um curso numa outra aldeia do Rio Grande do Sul, que é a Reserva de Guaripe, Tenente Portela, onde eu ia dar prosseguimento aos meus estudos. Eu tinha feito na época o que hoje é parte do ensino fundamental, ou até a quinta série do primeiro grau. Então, eu tinha que dar prosseguimento aos meus estudos num colégio interno, isso para nós era uma novidade, eu não sabia o que era,

o meu pai ficou muito preocupado com isso, até porque naquela época a gente não andava assim, hoje é tão comum nós andarmos pelas aldeias lá do Rio Grande do Sul, parece que é a nossa casa. Naquela época tínhamos dificuldade de locomoção. Então numa aldeia como essa de Tenente Portela, que ficava a 200km da minha aldeia era impossível ir. E foi lá que a FUNAI, junto com a Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil haviam feito um convênio para fazer a formação de professores, de monitores bilíngues, que na época foi pensada para fazer alfabetização das crianças kaingang. As lideranças não foram ouvidas, isso foi assim, uma determinação, um projeto pensado pela FUNAI e provavelmente pela igreja, porque tanto FUNAI como a Igreja tinham o interesse de que o ensino avançasse nas nossas aldeias e não estava avançando. M  O ensino da cultura deles? A  Exatamente, que seria no caso, a evangelização, e a FUNAI no caso, a integração. Inviabilizava porque as nossas crianças falavam kaingang e os professores eram não indígenas e só falavam português. Então quer dizer, inviabilizava qualquer tipo de aprendizado. Então eles pensaram que usando os índios mesmo para fazer uma escola onde a alfabetização seria feita na nossa língua e posteriormente, oralmente, nós mesmos, professores indígenas, íamos ensinando a língua portuguesa até que a gente pudesse fazer esse período de transição para os professores não indígenas. E aí depois era


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com eles, tanto que nós fomos chamados, não de professores, nós éramos considerados monitores bilíngues. Monitor tem uma função, depois ele é preparado para isso e deu. Então foi nesse período que a gente começou a trabalhar dentro das escolas. Não foi pensando que a gente tinha que ensinar a língua, a nossa língua para fortalecer ela, para nós mesmos, não só fortalecer como preservar. Não foi pensando nisso. Hoje eu tenho clareza de que foi pensando na integração, e no caso da igreja, na evangelização do Kaingang.

dentro das nossas famílias, mas já com uma certa preocupação de que a gente tinha que aprender a falar o português. Para poder conversar com o pessoal fora, que era proibida a nossa língua. Então ela passou a ser discriminada, não só discriminada como negada pelo próprio povo. Meu pai mesmo dizia assim, vocês têm que aprender a falar português, vocês não podem aprender a fazer artesanato, balaio, cestaria, vocês precisam estudar. Hoje eu entendo ele, que era um momento histórico daquela época, por causa das perseguições que o povo indígena sofria.

M  Eles usaram o acesso à língua, para acessar a mente e identidade de vocês, para incluir a partir daí outra identidade? A  Então, é muito interessante porque isso foi um processo de que fomos participando sem saber de nada, tanto que quando nós chegamos lá naquele local, nós não sabíamos o que é que estávamos fazendo ali, ninguém falava para nós. Era um processo que ia acontecendo e quando começamos a preparar material didático, aí foi ficando claro que íamos ensinar as crianças, com a nossa língua, aprender a falar, aprender a escrever a nossa língua, aprender a digitar nessas máquinas de datilografia, aí fazia jornal, falava na nossa língua. Então para nós foi muito interessante, eu nunca tinha visto a nossa língua escrita. Mas nós não sabíamos que historicamente a gente estava preservando a nossa língua, não só a nossa língua, como a nossa cultura. Porque naquela época, nos anos 60, 70, a nossa cultura foi muito proibida, nós éramos proibidos de falar Kaingang nas nossas escolas, nem em repartição pública, dentro da FUNAI, enfim, a nossa língua foi proibida.

M  Se a pessoa falasse a língua, continuasse insistindo em conversar na língua, nos ambientes da FUNAI, ou da escola, o que acontecia? A  Eles chamavam a atenção de que não podia, de que ali era proibido. Eu mesma, quando comecei a frequentar a escola, eu não falava português. Então, meu pai me deixou lá, eu até escrevo sobre isso no livro que estou escrevendo. Já fiz muitos escritos sobre isso, mas é muito triste, por isso que eu sou uma educadora que defende o ensino bilíngue nas nossas escolas, pelo menos na primeira infância, aquela coisa toda que a criança fala, tem criança que só fala kaingang. Então o começo da minha formação foi traumático, porque o professor conversava comigo e eu não entendia. Eu entendia que ele estava brigando comigo. Aí parei de estudar, só voltei depois que eu tinha dez anos, quase onze, quando comecei a falar algumas coisas em português. Daí voltei para a escola. Hoje nós temos crianças que são alfabetizadas, com cinco ou seis anos, eles estão todos alfabetizados na nossa língua. Então, quer dizer, o processo de aprendizagem era tão eficiente quanto em outras escolas. Na época os indígenas, os Kaingang, eram tachados como pessoas incapazes, que não aprendiam, mas não podiam mesmo aprender, como é que você vai aprender, como é que vai alfabetizar uma criança que não fala uma língua? É impossível isso, como é que você vai ensinar uma coisa diferente, uma coisa que ele não sabe numa língua estranha?

M  Quem proibia era a FUNAI? A  A FUNAI e todas as pessoas, os não índios que trabalhavam junto aos povos indígenas. Claro, porque se a gente falasse em Kaingang eles não iam saber. Então nós éramos obrigados a falar em português, isso era uma imposição. A língua continua sendo falada

M  Além da proibição da língua, havia outras manifestações culturais que vocês praticavam no cotidiano e que também foram cerceadas? A  Sim. Dentro deste regime de internato, ali foi um choque cultural muito grande, porque primeiro estávamos acostumados com o fogo de chão, no inverno. Aí chegamos lá, aqueles beliches, aqueles quartos frios, sem fogo, aquela coisa. E a alimentação totalmente diferente, os nossos vegetais, as nossas verduras eram diferentes, não era repolho, nem era tomate, nem era alface, eram tudo verduras do mato. Das verduras tradicionais nós temos um tipo de urtigão, temos tipo de caraguatá que nós comemos e que é da beira d’água, temos também várias folhas que dão dentro do mato. Tem uma que dá depois que faz a lavoura, nós chamamos de fuá. Os índios faziam aquela lavoura e depois da colheita, quando tira o milho, ele vem naturalmente. A próxima colheita é só a verdura, é essa folha que se chama fuá. Esse fuá, inclusive, na época que nós estávamos no internato, fugimos do colégio interno e como a mata era pertinho dali fomos colher nossas verduras e tiramos esse fuá para fazer. Pedimos que eles nos deixassem cozinhar e eles não deixaram. Não deixaram e sumiram com o fuá. Só que eles pegaram essas folhas e levaram para análise. E aí descobriram que esse fuá, o valor nutritivo dele era superior ao espinafre de vocês. Aí eles voltaram para nos perguntar, onde é que a gente tinha colhido e se dava semente. E aí a gente falou que não era todo ano que dava, nem assim em determinada época e nem em determinados lugares. A questão da alimentação eu lembro bem que a diretora sentava perto de mim e dizia assim: “Agora você vai comer verdura, se você quiser comer o feijão e o arroz depois”, e aí muitas vezes eu acabava não comendo as verduras, ficava sem comer. Então quer dizer, a questão dos hábitos foi um choque muito grande, a questão de horário por exemplo. Nós não tínhamos horário para comer, assim, café-da-manhã, almoço e jantar, não, toda hora para nós era hora de estar comendo alguma

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coisinha, quando está com fome, come. E lá eram rígidos os horários e estranhávamos muito isso. Nossas correspondências também que escrevíamos, eu escrevia para o meu pai para ele me buscar e nunca chegaram essas correspondências, porque a intenção deles era de que a gente ficasse ali. O que sofremos ali dentro foi uma verdadeira lavagem cerebral. Eu tive acesso a um relatório feito pela coordenação desse curso, provavelmente tinha gente de fora do Brasil que apoiava financeiramente esse projeto. Então, esse documento foi feito para mandar para a Inglaterra, parece que um negócio assim, falando dos resultados dessa formação, da década de 70 lá na Terra Indígena Guarita no Rio Grande do Sul. Nesse relatório eu pude ver a barbaridade que foi o que vivemos ali dentro. A relatora fala assim, tão claramente, que o que eles estavam fazendo ali, eles estavam conseguindo tirar nossa identidade kaingang, que estavam conseguindo devagarinho tirar aquela identidade que estava arraigada, kaingang dentro da gente, estavam conseguindo colocar uma mentalidade diferente, uma visão diferente das coisas, uma maneira de pensar, isso é uma lavagem cerebral. Eu percebi atrocidades naquele relatório, e eu não ia ter acesso a ele, quando eu comecei a trabalhar com os professores. M  Quando você teve acesso a este relatório? A  Eu tive já em 94 por aí, 95, que um colega passou esse relatório pra mim. Ele me disse assim: “Às vezes eu vejo você falando sobre a questão política que vocês vivenciaram, toda essa trajetória, eu tenho um relatório para te passar, para você se encontrar melhor”. Daí eu fui ler esse relatório, tem umas 12 páginas eu acho, mas aquilo me deu uma crise de choro, sabe? Eu não aceitava, depois eu fui me entendendo melhor por que que eu era assim, por que eu pensava assim, e aí eu fui podendo sistematizar tudo, processar tudo isso, e me entender melhor.

M  Foi o Summer1 que coordenou isso? A  Isso, foi o Summer que coordenou, exatamente, através de uma linguista, a Dra. Úrsula, que é considerada a mãe da escrita kaingang, ela falava a nossa língua, então ela que coordenou. E foi assim que fizemos a formação dos monitores para trabalhar com as escolas. Nós íamos para a escola como monitores para alfabetizar em kaingang e daí começar a introduzir o português oralmente. E daí depois quando as crianças tinham domínio da língua portuguesa a gente passava para os professores não indígenas que faziam a formação. Daí a gente facilitava também. A escola bilíngue daquela época era integradora. Estávamos a serviço da integração. M  E hoje você consegue avaliar o impacto que isso trouxe sobre a presença da língua no cotidiano das comunidades kaingang? A  A avaliação que eu faço hoje, é que esse processo foi pensado para a evangelização pela igreja luterana e a integração pela FUNAI, mas eles não pensaram também que ao escrever a nossa língua, que já estava desaparecendo por uma questão de que o Kaingang mesmo já não queria mais falar, poderia ajudar preservar. Como escrevemos ela, acabamos perpetuando ela. Hoje eu avalio assim, nós passamos por isso, nós pagamos o preço, mas valeu a pena, foi fundamental essa formação que tivemos, a escrita da nossa língua, na preservação da nossa língua, porque se ela não tivesse sido escrita naquela época, na década de 70, a gente não falava mais kaingang, ela já teria desaparecido, certamente. Hoje houve toda uma mobilização dos povos indígenas para garantir a nossa língua, para as nossas escolas e isso nós conseguimos em 1988, então a Constituição reconhece isso, mas infelizmente ela não acontece a contento nas nossas escolas.

M  Como é que está hoje, depois que surgiu a nova escola, a escola indígena bilíngue, intercultural, como é que vocês estão vivenciando e construindo esse processo nas escolas kaingang no sul? A  A nossa maior dificuldade é a formação de professores, formação específica, porque nem todos têm a facilidade de fazer uma graduação convencional e depois fazer essa tradução numa outra cultura, numa outra língua. Principalmente o professor que precisa lidar com material didático, pedagógico, para facilitar o aprendizado da criança, nós precisamos de uma formação específica. Eu fiz a minha no Mato Grosso, na UNEMAT2, junto com 200 professores, embora não tenha sido uma formação específica, como nós estamos sonhando de fazer com a nossa Universidade Kaingang. Hoje estamos aqui para isso, com essa audiência agora daqui a pouco com a Ministra da Cultura, é exatamente sobre isso, porque nós não podemos, na nossa concepção, trabalhar com o MEC3 e não trabalhar com o MinC4, esses dois ministérios para nós eles estão juntos, eles precisam estar juntos para garantir que a formação que aconteça, de qualquer área de conhecimento, que ela seja baseada, alicerçada, na nossa cultura, seja a agricultura, seja alimentar, a educação, todos os saberes, ela precisa ter esse diferencial. Ontem mesmo perguntaram: “Vocês vão falar de universidade com o MinC? Eu acho que vocês marcaram errado, eu acho que era com o MEC que vocês tinham que ter marcado. Não, não é com o MEC, com o MEC nós já estivemos”. A nossa proposta é construir uma universidade específica, uma universidade indígena, então a gente não pode trabalhar só com o MEC, nós precisamos envolver o Ministério da Cultura, porque educação, formação, para nós tem que estar contemplada, a lei diz isso, é um direito que nós temos.

2  Universidade Estadual do Mato Grosso/UNEMAT  3  Ministério da Educação/MEC 1  Summer Institute of Linguistics. 

4  Ministério da Cultura/MinC 

M  Fale um pouco mais dessa transição da escola integracionista e voltada para a questão do ensino religioso, para essa escola indígena hoje. O que é que você vê de avanços em relação a essa situação anterior? A  Eu vou fazer uma retrospectiva do impacto, quando a gente se formou, por exemplo, estávamos com nossas aldeias, nossas lideranças, pensando naquela época que nós tínhamos que esquecer a nossa língua e nós estávamos lá fazendo uma formação para escrever. Então como é que nós chegamos para entrar numa sala de aula e ensinar as nossas crianças a escrever a nossa língua? Foi muito difícil, porque os pais não queriam, queriam professor branco mesmo, tinha que ir lá professor branco mesmo. Para eles nós não tínhamos o que ensinar, não tínhamos nada para ensinar, está entendendo? Então a primeira coisa que os professores bilíngues tiveram que fazer foi um trabalho com as famílias, um trabalho de conscientização com as famílias da importância de escrever a nossa língua, da importância de continuar sendo índio, embora a política daquela outra época não era bem isso, mas nós tínhamos que conseguir. M  A intenção de vocês naquele momento era mais conseguir os alunos? A  É, era conseguir os alunos. Isso não era claro para nós. Nós tínhamos que conseguir alunos. Só uns 10 anos depois fomos ver que estávamos trabalhando contra, com um resultado que víamos dentro das escolas, percebemos que estávamos a serviço da destruição da nossa cultura, ajudando a matar, porque nós estávamos sendo usados para ajudar a destruir a nossa cultura e acabar o povo indígena. Aí começamos fazer outra luta, que é a luta dos professores indígenas, pedindo por essa escola que respeitasse a nossa cultura, que a nossa língua fosse falada ali dentro, que o nosso processo próprio de ensino e aprendizado pudesse fazer parte da política de educação escolar do nosso povo. Não foi fácil.

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Isso foi no ano 89, quando criamos a Associação dos Professores Indígenas. Aí na época de 90 a gente já tinha bem claro para nós, os professores indígenas, que tinha que mudar, inclusive demos uma parada no processo de ensino das nossas crianças, propositadamente, porque vimos o que estava acontecendo. Paramos para fazer esse fortalecimento de uma escola diferente. Daí montamos a nossa associação, registramos ela. O pessoal não apoiava, de jeito nenhum. Nós tínhamos um antropólogo na FUNAI, na época em Porto Alegre, que dizia: “Mas porque vocês querem fazer uma associação? Não há necessidade. O que vocês querem enfim com essa associação?” A gente tinha que ter bem claro o que nós queríamos e ainda não era bem claro o que nós queríamos. Nós queríamos uma escola diferente, que nos respeitasse e isso foi ficando claro para nós no caminhar da carroça. Então, a nossa luta começou ali, a nossa associação como instrumento de luta mesmo, de conhecimento diferenciado. Mas hoje em dia, apesar de termos avançado na legislação para garantir isso, essa escola diferenciada, vimos que na prática ela é muito difícil de fazer, de implantar lá dentro. M  E quais são os desafios que vocês estão tendo para implantar essas novas escolas? A  A própria estrutura da educação nos Estados, ela barra. A impressão que eu tenho é que o pessoal não aceita que seja uma legislação específica, tudo eles querem fazer como as outras escolas. Então, para você ser professor você tem que ter uma formação, para ser diretor você tem que ter não sei quantos anos de carreira e é aquela coisa toda, eles não percebem que a legislação sobre educação escolar indígena garante para nós o diferenciado, que é para garantir o protagonismo indígena. Isso é muito difícil nós conseguirmos, tanto é que todas as nossas diretoras até agora são não indígenas. E isso dificulta muito você trabalhar a cultura lá dentro, porque elas têm a cabeça formatada, aquelas tantas horas/aula, tanta carga horária e outras coisas que inviabilizam o tempo para

trabalhar a questão da cultura, realmente do ensino diferenciado, porque é a nossa cultura que faz a educação diferenciada. M  Dentro do currículo, qual é tempo que é disponibilizado para o ensino da língua kaingang e para o ensino de outras matérias na língua materna? Como é que está organizado o currículo? A  Como a gente tem muito mais professores não indígenas ainda dentro de sala de aula, o que está se fazendo em termos de kaingang, no Rio Grande do Sul, eu falo pelo meu Estado, é porque eu trabalho e conheço a realidade de todas as aldeias. Então o que acontece? A única coisa diferente que está acontecendo lá é a alfabetização na língua materna. Agora foi aprovado o ensino infantil, então eles entram a partir de quatro anos de idade. Estamos batalhando para que sejam garantidos professores falantes da nossa língua, porque nós temos escolas no Rio Grande do Sul em que os professores não indígenas estão fazendo alfabetização de crianças. Por que isso acontece? Porque as nossas crianças hoje falam as duas línguas, então já passa o professor para ocupar mais carga horária para não indígenas. Mas não é só porque a gente quer mais horas/aula para professor indígena não, nós queremos garantir a presença do professor bilíngue, porque nós temos crianças inclusive que entram e não sabem falar a língua kaingang, nós precisamos garantir isso, se o professor é kaingang, se é bilíngue, é nessa idade que a criança fala, qualquer outra língua, ela tem facilidade de aprendizado, então estamos nessa luta para garantir isso agora. Mas ela não é uma escola diferenciada ensinando só a escrever e ler a nossa língua, não. Tem que ter toda aquela parte cultural, realmente das nossas histórias, da concepção de mundo que o Kaingang tem, isso precisa estar lá dentro das escolas, presente no nosso currículo, na nossa proposta pedagógica. Sem contudo, prejudicar a criança em todas as áreas de conhecimento, porque ela precisa estar aprendendo, em todas as outras disciplinas. Ela não deve ser prejudicada, porque daqui a pouco ela entra numa

universidade. Principalmente nós, que temos nossos territórios minúsculos, precisamos pensar que temos que fazer uma formação dos nossos jovens. Nós precisamos preparar esses jovens para sair lá no ensino médio prontos para ingressar em qualquer universidade e não se sentirem envergonhados de falar sobre a sua cultura, ou de não saber ou de não conhecer. É isso o que nós precisamos. M  Em todas as comunidades indígenas a língua é aprendida na casa, na família, hoje você pode afirmar, a maioria ou a minoria das comunidades fala no cotidiano a língua kaingang ou tem falado mais o português? A  Temos algumas reservas que falam 100% kaingang, só falam português com quem não fala kaingang, agora nós temos reservas que 70% das pessoas é falante de português, que só fala português, fala kaingang aqui e ali, e tem outras com 50%, 30% de falantes da língua. Nós realmente estamos muito preocupados com a questão da língua. Porque ela corre risco, até pela UNESCO é uma língua que está em risco, então essa é uma preocupação muito grande que temos. M  Vocês teriam então que formar na universidade indígena professores que vão falar nas matérias que existem, adotar o conteúdo que tem a ver com a cultura de vocês, com a concepção de mundo de vocês. E como é que fica essa questão dos mais velhos que são os portadores dos conhecimentos da cultura kaingang e a relação deles com a escola? A  Então, nós temos um ponto de cultura e começamos a trabalhar com o ponto de cultura dentro das escolas. Nós já tínhamos um grupo de velhos que trabalhavam com a gente. Para começar novamente aquele processo de ouvir a história contada pelos velhos, contação de história, canto, dança, essas coisas, começamos a trabalhar já com o ponto de cultura. E como trabalhamos com os professores fomos fazendo essa formação com os professores, fomos escrevendo as histórias que os velhos contavam e estamos

construindo a nossa proposta política pedagógica, calcada realmente em como é o processo próprio de ensino e aprendizado kaingang. Quando não tinha escola, quem é que fazia essa transmissão de conhecimento? Quem fazia, como fazia e onde fazia? É isso que a gente precisa descobrir, então é o que estamos fazendo com os velhos, e não só isso, como também levar os nossos cantos, as nossas danças, nossas pinturas corporais novamente para dentro das escolas. Isso a gente está conseguindo fazer. M  Quando foi criado o ponto de cultura de vocês? A  O nosso ponto de cultura na verdade não nasceu como um ponto de cultura indígena, hoje tem, já foram criados pontos de cultura indígena, mas na época que foi em 2005, a gente concorreu com todos os pontos de cultura no Brasil e como nós temos uma organização indígena, gerida só por indígenas, ela se transformou num ponto de cultura indígena, dentro de uma comunidade indígena. Como eu sou coordenadora desse ponto de cultura, conhecendo as dificuldades que temos como professores indígenas: falta de material didático, ninguém trabalhando essa parte específica de educação diferenciada, pensamos em voltar todo o trabalho desse ponto de cultura para a formação, trabalho com educação e cultura. Começamos a trabalhar com os velhos, para ver por onde começar, de que maneira vamos começar, o que é que os velhos achavam sobre isso. Foi isso o que nós fizemos. M  E vocês já produziram algum material? A  Já. Nós temos vários documentários, temos um livro publicado, foi um trabalho direcionado pelos nossos velhos, eles escolheram começar pelos nossos grafismos. Eu jamais enquanto professora ia pensar assim em começar pelos grafismos, cestarias aquela coisa, eu não sei se eu começaria por lá, mas depois eu entendi porque é que eles fizeram isso, é porque os nossos grafismos não são apenas desenhos que enfeitam as nossas cestarias. Eles têm significado,

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significados culturais, onde está permeando toda uma estrutura social do nosso povo. Trabalhando com os grafismos, nós estaríamos trabalhando de forma integral a questão da cultura indígena. Foi muito bem pensado por eles. E temos um trabalho já bem avançado nesse sentido, porque isso aqui é referência no sul, nós temos universidades que visitam lá, universidades que são parceiras, nós abrimos o ponto de cultura em determinadas épocas do ano para a visitação de escolas e palestras, documentários, é de referência aquilo ali. Fazemos formação com professores indígenas, embora não tenhamos uma universidade, estamos fazendo o trabalho de formação de professores na cultura. M  Dentro dessa luta, o que é necessário para que aconteça uma escola realmente diferenciada, que seja uma escola que fortaleça a identidade e a cultura do povo Kaingang? A  Na verdade o cumprimento da legislação, porque a legislação garante para nós tudo isso, só que lá na base não funciona como tal, precisava fazer a formação dos professores, formação continuada, garantir o protagonismo indígena dentro das nossas escolas. Nós pensamos que essa formação poderia ser acadêmica, mas também ter um tempo com os nossos velhos, com os nossos mestres, que seria como uma pós-graduação pra eles, uma preparação que fosse feita pelos nossos velhos, pelos nossos anciãos, que são eles que vão dar toda essa especificidade. Sem essa pós-graduação com os nossos velhos, com os nossos mestres, a gente não vai conseguir fazer esse processo, construir essa proposta política pedagógica calcada na cultura do nosso povo, precisamos fazer essa formação. Hoje por exemplo a gestão da escola não é kaingang, isso fere a legislação, porque o protagonismo indígena não tem que ser só um discurso, tem que acontecer na prática. A legislação garante que a nossa escola é diferenciada, portanto ela é toda diferenciada, não diz assim que para você ser um professor, para ser um diretor de uma escola indígena você

precisa ter isso ou aquilo. Ela é aberta, o professor vai ser professor, vai garantir a continuidade do seu estudo concomitantemente, vai fazer a sua formação em trabalho, juntamente, para que se garanta isso. Então, para ser um diretor de uma escola eu preciso ter um mestrado, por exemplo? Não, a legislação não diz isso. Então, é possível sim, só que os governos aceitem e cumpram o que está na legislação para nós. Não é ficar comparando ou fazendo igual as outras escolas, então não é uma escola diferenciada. Só falta que os governantes respeitem e façam acontecer, e permitam que isso aconteça, que nós queremos mudar isso, mas a estrutura é tão fechada que não é fácil a gente conseguir esses espaços, não está sendo fácil. M  Estávamos conversando sobre a situação e os desafios que as línguas indígenas vivem hoje no Brasil para se manter como forma de expressão de cada povo. Que desafios são esses que você vê, tanto para preservar e fortalecer, tanto a língua kaingang quanto as línguas indígenas que hoje são mais de 180, mas de acordo com os próprios povos e vários especialistas, hoje muitas delas correm o risco de desaparecimento? A  É, a língua kaingang, que é a nossa língua mãe, é uma das línguas em risco de se perder, então essa é uma preocupação muito grande que nós temos enquanto educadores, de poder trabalhar na preservação da nossa língua dentro da escola, porque é um direito das nossas escolas, das nossas crianças, de estar priorizando aquilo que para nós é cultural. A língua é fundamental numa cultura, nós expressamos melhor a nossa cultura na nossa própria língua. Então precisamos revolucionar a escola que está aí e fazer valer os nossos direitos e fazer de uma vez por todas este ensino diferenciado que só é um discurso e na verdade na prática não acontece, nós precisamos fazer isso senão a extinção da língua kaingang é uma realidade em questão de pouco tempo. Nós precisamos fazer com que aconteça o ensino diferenciado e deixe de ser apenas um discurso o ensino diferenciado, ser

na prática. Por exemplo, o Instituto Kaingang, que é a nossa instituição, entrou com um processo contra o governo do estado por causa disso, com o Ministério Público, alegando que queríamos que acontecesse o ensino diferenciado dentro das nossas escolas e não estava acontecendo. O Secretário de Educação respondeu para o Procurador dizendo que devia certamente estar havendo um equívoco, que o ensino diferenciado estava sim acontecendo, que o governo estava pagando professores indígenas. Mas não é só isso, não é só pagar o salário do professor, tem que fazer formação específica diferenciada, fazer valer os conhecimentos tradicionais dos nossos mestres dentro das nossas escolas, trabalhar com cultura é muito mais do que escrever a língua kaingang. Então é isso que precisa se fazer, buscar a nossas raízes, os nossos processos próprios de aprendizagem e levar para dentro da escola, para embasar o projeto político pedagógico. É isso que precisa se fazer, que não existe hoje. Os projetos políticos pedagógicos das escolas kaingang hoje ainda são muito brancos, eles não têm cara de kaingang, o que está acontecendo lá é o ensino da língua kaingang e não é só isso que nós queremos. Cada disciplina e cada área de conhecimento pode estar fortalecendo a cultura kaingang, se ela for trabalhada dentro da cultura. E isso não está acontecendo. M  Você acha que a preservação da língua cabe na escola? A  Eu não estou falando que só a escola tenha que fazer esse trabalho para preservar a língua, ele vem da família, é como eu estava te dizendo antes, que além de fortalecer a escola, é preciso fazer um trabalho com as famílias para que a língua kaingang seja falada com a criança, coisa que por causa da pressão externa acabou sendo deixada, como eu estava colocando antes, que o índio não queria mais que seu filho falasse a língua kaingang. Hoje essa questão não continua da mesma forma, mas é muito difícil para as pessoas que já falam português, tem algumas que nem falam mais kaingang, voltarem a falar com as crianças. Então, nós

precisamos garantir que essas crianças vão ter acesso a aula de kaingang, que é a sua origem. Estamos pensando em preservar aqueles que falam, para escrever, valorizar, para usar nossa língua realmente como uma identidade nossa, como parte da nossa identidade que é a nossa cultura. E para fazer isso nós precisamos garantir o protagonismo do professor indígena. M  Antes de existir a escola formal havia um jeito próprio que os Kaingang tinham de ensinar, por gerações e gerações a sua sabedoria, a sua forma de vida, seus conhecimentos e a sua língua. Como é que está hoje essa esta forma tradicional de transmissão de conhecimentos? Quais as diferenças entre esses modos kaingang de ensino e o ensino escolar formal? A  Os conhecimentos têm coisas que só eram transmitidas pelos velhos. Por exemplo, as nossas histórias, alguns valores. Eram passados ao redor da fogueira, debaixo das árvores, então ali eles reuniam as crianças para contar as histórias sobre a nossa mitologia, essas coisas. E também valores do nosso povo. Agora, alguns conhecimentos eram passados no dia a dia, no cotidiano mesmo. Então, se uma criança já tem condições de estar fazendo uma trancinha de três fios, por exemplo, três coisas de taquara ou de cipó, ele faz, se ele já puder fazer com quatro ele faz, com cinco, seis, daqui a pouco ele já consegue fazer a parte de baixo de uma cestinha. E aí ele vai indo e a gente vai assessorando. E esse aprendizado acontece naturalmente. À medida que ele vai amadurecendo, fazendo um pouquinho mais, ele vai fazendo, uma hora ele faz. Não vai ficar muito bem mas o segundo que ele faz vai ficar melhor, o terceiro mais ainda, e é assim, sem pressão. A criança vai amadurecendo, ela tem o tempo dela de amadurecer, de aprender, de fazer, diferente de lá da escola que fica tudo, meu Deus do céu, já está com tal idade, você já precisava estar lendo, aquela pressão desde o começo, da sociedade não indígena, para aprender determinadas coisas.

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E é por isso também que a gente não tem problema nessa adolescência, não, é tudo muito tranquilo. Eu acho, eu estou tirando cá minhas conclusões, eu penso que seja por isso, essa é a diferença do aprendizado do kaingang, não tem pressão. Eu mesma, não quis mais ir pra escola porque eu só falava kaingang e o pessoal falava português. Eu só fui quando eu já falava algumas palavras em português e ninguém me obrigou pra isso, eu só fui quando eu mesma resolvi ir e estava todo mundo indo também. Então não tem essa pressão, você precisa ir agora. Então eu acho que por causa disso não existe essa adolescência traumática, é muito tranquilo. M  Vocês pensam num modo curricular kaingang, que possa dialogar com outras formas de aprendizagem? Uma escola que quebre as paredes e vá para os espaços da vida cotidiana? A  Sim, nós já trabalhamos uma proposta político pedagógica, um regimento geral para as escolas do Rio Grande do Sul, as escolas indígenas. Então a gente pensou algumas coisas para essa escola diferenciada. Lá nós colocamos isso, o nosso calendário é flexível, ele pode por exemplo, nós moramos numa região que em determinada época do ano é muito fria e segundo o calendário letivo do não índio, das outras escolas não indígenas, ela segue um curso que para nós é muito ruim, por exemplo, na época dos meses de inverno rigoroso a criança kaingang quer ficar perto do fogo, aquecer no fogo, e nessa época as escolas estão em pleno vapor, então a gente colocou ali que queremos flexibilidade, agora é muito frio e nós queremos dar um tempo. Já por exemplo, final de ano, janeiro, fevereiro, tem as festas, carnaval, que para nós não representam nada, então a gente pode estudar numa época em que não é frio. Isso tudo faz com que essa escola seja diferenciada também no calendário e também extrapolar o local de ensino além das paredes da escola, porque muitas vezes a criança está aprendendo muito mais lá do lado de fora, da nossa cultura. Nós temos essa liberdade, nós temos isso garantido na legislação, que ela possa

diferente, nós precisamos construir, nós precisamos dizer como é que tem que ser essa escola, ninguém vai poder fazer isso para nós. Então, essa escola diferenciada que tanto se fala é uma falácia. A Secretaria de Educação vai dizer assim: “Os Kaingang têm que fazer assim a educação escolar indígena deles.” Não é uma construção, então os professores indígenas precisam ter essa consciência de começar a caminhar, nós vamos dar alguns passos errados? Vamos. Mas é um momento de ir melhorando, se qualificando, é uma caminhada, então nós temos que construir essa caminhada. E nós não queremos que ninguém faça para nós. Nós temos que caminhar, nós queremos que o governo nos dê essa oportunidade, por exemplo, os professores fazer a sua formação com os próprios mestres do saber tradicional nosso, não com pessoas que não sabem nem o que vão ensinar para nós. Nós temos uma coordenadoria de educação que foi fazer formação de professores, que é aquela formação obrigatória dentro dos dias letivos da escola, os professores têm uma quantidade de dias para fazerem a sua formação, então pega esses dois, três dias de formação e vamos pensar uma formação com professores indígenas, vamos levar lá no ponto de cultura, lá tem onde botar o pessoal para dormir, tem os parentes, nós temos local, então vamos pra lá. Nós temos pessoas qualificadas, com experiência de educação, temos nossos velhos, nossos mestres dos saberes e vamos ouvir essas pessoas, vamos começar a caminhar, eu sempre falo para os professores, se eu for sentar e escrever sobre a educação kaingang eu faço, só que eu não quero fazer, eu quero que os professores sentem comigo e que façam, que pensem junto, que a gente possa construir, caminhar junto, para que ele seja legitimado, seja uma luta conjunta, não um pensar individual, tem que ser pensado na coletividade. M  E como está sendo realizado este trabalho de formação no ponto de cultura? A  Com os nossos mestres do saber kaingang, eles, junto com os professores. Porque como trabalhamos com um ponto de cultura apenas, é muito pouco para

a demanda, nós somos o terceiro maior povo indígena do país, são em torno de quase de 80 mil índios. Então não podemos trazer todos os professores para um ponto de cultura fazer formação, daí trabalhamos com multiplicadores. Nós trazemos esse pessoal e vamos ouvir os nossos velhos contar as nossas histórias, fazer essas perguntas para eles. Como é que era feito? Para então os professores escreverem, escreverem as nossas histórias, nossa mitologia, nossas lendas, tudo. Nós estamos trabalhando dentro das escolas trazendo para dentro das escolas as nossas histórias, quem não conseguiu levar os nossos velhos lá dentro mas já está com a história escrita, o professor falando, então o professor conta a história, não está contando a história lá de Porto Alegre, lá de Passo Fundo, está contando a nossa história mesmo, que é de reivindicação de terra, perda de território, porque a criança indígena precisa saber, para que ela se entenda, para que ela se encontre, encontre a sua identidade e se fortaleça enquanto indígena. M  E como é que está sendo o uso das tecnologias de comunicação na sala de aula ou fora da sala de aula? A  Nós estamos fazendo mais cultura na escola, então a gente já tem máquina filmadora e eles têm paixão por isso, esse negócio de computador, é um povo de uma cultura oral, mas eles fazem parte da cultura digital, eles têm muito interesse nisso, não precisa nem perguntar. Precisa fazer um projeto para adolescentes, para aprender a usar celular, máquina filmador, e também para fazer pequenos vídeos, para fazer documentário. Estamos pensando em encaminhar algum projeto que possa estar subsidiando essas necessidades deles e aí podemos aproveitar esse trabalho. Eu vejo no face os professores indígenas, é bem interessante no face, eles não querem que o pessoal saiba o que eles estão falando, aqui de Santa Catarina fazendo graduação, se comunicando com o pessoal da UBES, todas essas universidades que têm índios, estão no face lá, escrevendo em kaingang, e eu lá respondendo também. Tem muita coisa que a gente pode lançar mão para ajudar na preservação

da língua. Por exemplo, essa universidade que a gente está buscando, essa universidade para nós vai ser a salvação da língua, não só da língua como do povo Kaingang. A universidade vai falar a nossa língua, nós vamos poder fazer cursos de extensão da língua kaingang, nós somos muitos professores kaingang que não sabem falar a língua, eles querem aprender, mas não temos um lugar onde eles podem fazer um curso intensivo, lá a gente pode abrir isso pra eles nas férias. M  A senhora acredita então que a língua continua, não vai acabar? A  Continua. A maior prova disso foi quando começamos a trabalhar com os velhos, o primeiro dia que íamos entrar na escola com os nossos velhos para eles trabalharem com uma turma de nono ano, que são tudo rapazinhos já, e um dia antes eu passando na escola, eu vi um grupo que é uma banda musical que tem lá e eles estavam passando pela reserva, eles iam em outro município tocar um baile. Eles passaram e as meninas conheciam tudo: “canta aqui pra gente!” e eles tocando lá para elas no pátio da escola mesmo, uma musiquinha para elas. Eu fiquei pensando assim, como será, e era com eles que íamos trabalhar no outro dia, e aí chegamos com os nossos velhos, começamos a conversar com eles, falamos sobre o trabalho do ponto de cultura, da questão da revitalização da nossa cultura, da perda da nossa língua, do território. E depois passamos para a parte mais cultural, música, nossos cantos, e daí os velhos cantaram para eles e eles ficaram assim olhando... e daí depois os velhos dançaram também para eles, e eles todos se olhando. Me perguntei, como será que vai ser? Será que eles vão aceitar? Será que não vão? Aquela para mim era uma expectativa muito grande, era ali que ia dar a resposta se ainda era possível. Dali a pouco um dos meninos, de uns 14, 15 anos veio e falou assim, para um dos nossos velhos: “você podia ensinar a gente a dançar?” Daí ele disse assim: “Claro, mas vocês podem dançar comigo.” E a sala era grande, tipo um auditoriozinho. Daí ele: “Vocês vêm aqui perto da gente,

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dali a pouco estavam todos eles dançando junto e cantando com eles.” Ali eu pude perceber que ainda havia esperança, que ainda tinha a esperança de nós trabalharmos a culturalidade deles, de fazer com que a autoestima deles ainda flua, de ele não ter vergonha de ser kaingang, pelo contrário, ele tem uma história que conta porque nós somos assim hoje. Então eu acredito muito sim, por experiência própria mesmo. M  Eu queria então perguntar para a senhora mais uma questão, onde se originou, como é que foi a história de origem da língua kaingang? A  No nosso mito de origem o Kaingang sai de uma montanha, os irmãos gêmeos, eles saem, o grande criador coloca uma semente no seio de uma montanha e daí essa montanha foi gestando essa semente, e mais tarde nascem os gêmeos, dois gêmeos no meio dessa montanha. Eles foram crescendo e saíram de lá, eles precisavam encontrar o rio mais próximo, um escolheu para um lado e outro escolheu outro lado, pra ver quem que encontrava primeiro o rio, e daí eles foram descendo a montanha. O lado que um desceu era um terreno de muita pedra, muita pedra e espinho, então foi muito difícil a descida dele. E o outro desceu por um terreno de mata, de vegetais, terra fofa, não tinha pedra nem espinho, então ele desceu rapidamente e chegou na beira do rio. Ele se torna então o dono das águas. Ele se tornou o dono das águas, que é no caso uma das nossas metades, que chama Kanhru, o Kanhru chegou primeiro. E o Kamē, que ficou lá porque o terreno era mais difícil de descer, ele desceu do outro lado da montanha e quando ele chegou lá ele não encontrou água, daí os animais receberam ele e falaram para ele: “você está procurando água?” Não é deste lado, é lá do outro lado. Aí eles levaram ele lá, quando ele chegou ele queria tomar água. Eles falaram: “você não pode tomar água, você precisa pedir para o dono das águas, que é o Kanhru.” Daí ele diz: “mas quem é esse que eu já vou pedir pra ele?” E o Kamē era forte, ele se tornou forte porque ele teve que lutar muito para descer da montanha, as mãos, ele

ficou forte e grande. Ele disse: “eu já vou pedir pra ele porque eu preciso tomar água.” E aí eles falaram assim: “nós vamos te levar lá.” Aí levaram e quando ele chegou lá era o irmão dele. Eles se abraçaram, festejaram, e eles foram viver juntos na mesma aldeia, que era uma aldeia kaingang, ali que surge o povo Kaingang, dividido em duas metades tribais, duas metades exogâmicas. O Kamē, que era forte, fazia o trabalho que o Kanhru não fazia, de proteger o território, fazer caças, coisa grosseira. E o outro, que era mais espiritual, era um sábio, ele era kuiã, que era um pajé, era o conselheiro. Nossa história de origem é assim. Saímos de uma montanha e a língua é instituída ali, no nascer dos gêmeos. M  Existem variações na língua kaingang entre as diferentes comunidades? A  Sim, são dialetos falados em determinadas regiões onde os Kaingang moram. Por exemplo, no Paraná, o dialeto é diferente. No Rio Grande do Sul é diferente de Tenente Portela, por exemplo, que fica a cento e poucos quilômetros dali, tem uma forma de falar um pouco diferente. Nós professores indígenas fomos ensinados a trabalhar qualquer dialeto, porque de repente a gente pode ter uma criança dentro de uma sala de aula que fala um dialeto diferente, então eu preciso entender e unificar também a escrita. A escrita é de uma forma só, cada um lê como fala, mas a escrita é de uma forma só e o professor precisa ter essa flexibilidade de entender os diferentes dialetos da língua kaingang. Os dialetos incluem formas diferentes de falar, por exemplo, em Altó por exemplo, urubu alguns falam inheté, quequé, cocó, mas o professor já tem essa, então a gente não tem dificuldade de trabalhar ela, até porque para escrever só escrevemos de uma forma. M  Então vocês trabalharam já com o Summer orientando? A  Sim com o Summer, com o Summer. M  Na unificação da língua, foram desconsiderando essas particularidades?

A  Isso, exatamente. Senão seria muito confuso, ia dar muita confusão. Nós escrevemos ela de uma forma. Isso já é convencionado entre todos os professores. M  Teria mais algo importante que você gostaria de falar sobre esse tema que nós conversamos? A  Uma das coisas mais importantes que estamos batalhando agora é pelo reconhecimento tradicional dos nossos mestres. Por exemplo, porque é que não podemos ter nessa universidade, o nosso ponto de cultura ser um local, em que possamos abrir um curso de pós-graduação? Ouvir os nossos velhos e que eles possam estar ganhando alguma coisa com isso? Onde nós fizemos nossa pós-graduação sobre educação, por exemplo, era uma pós-graduação em educação convencional, mas todos os temas trabalhados nós fizemos um paralelo. Como é que era na sociedade nacional? Então nós fazíamos um paralelo de como era na sociedade kaingang. Então na verdade ela trabalhou os dois, nossos professores tiveram acesso a todos esses conhecimentos. Nessa universidade, eles dão curso de pós-graduação nessa área. Porque que esse saber tradicional que vem lá dos nossos velhos, porque que eles mesmos não podem repassar esses conhecimentos? Principalmente para os nossos professores. Mas não tem validade, daí eu falo assim pra eles, a pós-graduação que vocês precisam fazer não está em universidade nenhuma, está lá no saber dos nossos velhos. É isso que precisamos mudar também, para fazer respeitar, porque existe um saber que não é reconhecido. No momento que esse saber for reconhecido, nós não precisamos ter uma universidade para fazer um trabalho desse, o pessoal vai lá dentro, faz pesquisa, ou nós mesmos vamos lá entregar para eles, porque nós também precisamos fazer esse trabalho, eles aprendem com a gente, daí depois fazem os cursos de pós-graduação, dos nossos conhecimentos. Precisamos valorizar nossos velhos, nós Kaingang ainda temos os nossos kuiã, nossa espiritualidade. Nosso kuiã existe, ele é kanhru, ele faz parte do lado que desceu a montanha, onde não tinha pedra, ele se

tornou sábio. Todo kuiã vai ser dessa metade, ele geralmente é todo pequenininho, franzino, é tranquilo, calmo, ele trabalha essa parte espiritual. Existe ainda, você quer ver, uma vez, um dos meus netos, que está com quatorze anos agora, quando ele era menor, nós andávamos por aí viajando e dormindo no hotel. E daí quando nós voltamos o piá só chorava, chorava e eu não sabia o que ele tinha, e aparentemente não tinha nada. Daí eu levei ele lá para o nosso kuiã. Ele disse: você fica aí com ele que eu já venho. E entrou ali para uma sala dele, do lado assim, dali a pouco ele voltou de lá e ele disse assim: Olha, você esqueceu dele, você não chamou ele lá. Onde é que você dormiu, onde é que você dormiu com ele nessas últimas noites? Ele está lá, num lugar assim, assim. Ele falou tudo como é que era o quarto do hotel. Ele disse: Ele ficou lá. Por isso que você tem que chamar, o nome kaingang das nossas crianças, um dos pontos fundamentais é isso, para que a gente viaje com eles, se eu durmo em algum lugar, quando eu levantar de lá eu tenho que chamar ele pelo nome. Levar o espírito junto. Se eu não fizer isso ele pode ficar, dito e feito. Ele disse: agora você pode ir com ele que ele vai dormir agora, era duas horas da madrugada e o piá não tinha dormido. Aí voltamos e ele dormiu tranquilo. Existe até hoje sim a nossa parte espiritual, só que ela está ficando de lado por causa do atendimento convencional, é médico, enfermeiro, remédio, químico, está ficando de lado também a nossa medicina tradicional. Isso está tudo requerendo assim, essa universidade, um campus lá dentro que é pra gente poder começar a trabalhar isso. Então a gente está querendo assim, que esses saberes dos nossos velhos passem a ser reconhecidos, para que eles possam fazer esse trabalho. Você precisa ver a alegria deles quando eles começaram a trabalhar com as crianças, um deles de 97 anos, que é vivo ainda, ele disse assim, ele disse em kaingang: “Como é bom estar trabalhando com as crianças novamente! Ensinando para as crianças, que era a forma tradicional”.

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— REVITALIZAÇÃO DA LÍNGUA DOS TUPINAMBÁ DO CARAMURU

INICIATIVAS LÍNGUAS

— povo  terra indígena 

Hã Hã Hãe

Caramuru Catarina Paraguaçu

comunidade 

Pataxó Hã Hã Hãe

habitantes  iniciativa nº 1.057 – Ressignificação do idioma

Kipeá Kariri

local  proponente  contato 

3.400

Pau Brasil - BA

em processo de revitalização linguística a partir da aprendizagem da língua Tupinambá, a única de todas as línguas faladas originalmente por nossos povos que conta com material escrito. Nossa intenção é promover um encontro de três dias, em que discutiremos os seguintes temas: importância da conquista territorial no processo de revitalização da língua; socialização das práticas e resultados obtidos ao longo desse processo de revitalização e conhecimentos tradicionais, tais como músicas, contos, pinturas e rituais.

Luzineth Muniz Pataxó

(73) 8130 - 7222 / 8207 - 0091 /

(71) 3369 - 3583 / luzineth1@hotmail.com iniciativa no 

205 

premiada

— A Reserva Indígena Caramuru-Paraguaçu teve seu processo de desintrusão dos fazendeiros de gado e cacau no ano de 2012. Os recursos ambientais variam dentro da Reserva. Em alguns pontos não existe água potável, e apenas em algumas partes a caça, a pesca, o plantio e a coleta de alimentos ainda vigoram porque o solo ficou muito prejudicado pela pecuária. Grande parte da Reserva precisa de reflorestamento, sobretudo nas regiões de mananciais. A Reserva é entrecortada por estradas. Nosso povo é composto pelas etnias Tupinambá, Baenã, Kariri-Sapuiá, Camacan, Kiriri e Guerém e nossa língua é o português. Nossa iniciativa tem como objetivo um intercâmbio entre os Pataxó Hã-hã-hãe, os Tupinambá de Olivença e Pataxó de outras aldeias que estão

RESSIGNIFICAÇÃO DO IDIOMA KIPEÁ KARIRI

— povo 

Kiriri

terra indígena  aldeias 

Kiriri

Cajazeira, Lagoa Grande, Segredo,

Araças, Baixa da Cangalha, Canta Galo, Baixa do Juá e Alta da Boa Vista habitantes  local  proponente  contato 

1.586

Banzaê - BA

Dernival dos Santos

(75) 9807 - 7583 / 9806 - 8829 /

dernivakiriri@gmail.com iniciativa no 

1.057

— A Terra Indígena Kariri está situada na zona de transição entre o agreste e o sertão. Sua homologação ocorreu na década de 1990, mas, até hoje, encontra-se sob a intrusão de

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320

iniciativa nº 943 – Tapeba Povo que Dança, Povo que

Canta, Povo que Produz e Vive Cultura

aproximadamente 6 mil posseiros. Devido à sua localização, a situação ambiental de nossas aldeias é muito precária, sobretudo por causa da seca. Além disso, nossa terra sofreu com o desmatamento e com a construção da rodovia o que acarretou um trânsito muito grande de não índios por nossas aldeias. Nosso idioma foi praticamente extinto, no entanto, após algumas iniciativas de nossos jovens, estamos conseguindo recuperar parte do léxico da língua kariri kipeá. Ainda assim, o português é a língua mais utilizada por todos os Kariri, exceto por alguns poucos anciãos. Muitos dos maiores conhecedores da nossa língua morreram na Guerra de Canudos ou foram veladamente proibidos de falar kariri. Nossa iniciativa tem como objetivo dar continuidade ao processo de ressignificação do uso da língua kariri que consiste na retomada do vocabulário e de frases de nossa língua junto aos velhos. Queremos registrar, por áudio e vídeo, as histórias e as falas de nossos anciãos e fazer pesquisas bibliográficas sobre nossa língua; com isso, estaremos fortalecendo o grupo de jovens pesquisadores kariri.

— TAPEBA: POVO QUE DANÇA, POVO QUE CANTA. POVO QUE PRODUZ E VIVE CULTURA

— povo 

Tapeba

terras indígenas  comunidades 

habitantes  local  proponente 

Tapeba

Aldeia Lagoa dos Tapeba 1.200

Caucaia - CE

Associação das Comunidades

dos Índios Tapeba de Caucaia - ACITA contato 

produzidos. Nossa intenção é fortalecer e incentivar o grupo de jovens para que continuem suas ações de valorização da cultura e identidade tapeba.

(85) 8851 - 1380 / 9705 - 1804 /

gabrieltapeba@gmail.com / weibetapeba@yahoo.com.br iniciativa no 

943

— A Aldeia Lagoa dos Tapeba é a maior aldeia da etnia Tapeba, a regularização fundiária do nosso território permanece indefinida e a comunidade enfrenta diversos conflitos com posseiros e proprietários dentro da Terra Indígena, além de problemas como o desmatamento, queimadas e poluição dos rios. Realizamos em nossa aldeia as principais atividades e festividades culturais tapeba. O objetivo dessa iniciativa é apoiar o grupo de apresentações culturais de jovens e adolescentes da Aldeia Lagoa dos Tapeba, com a participação de jovens da Comunidade do Trilho. O grupo possui cerca de 45 pessoas e realiza apresentações da Dança do Toré e da Dança Guerreira. Faremos a produção de um documentário sobre a atuação dos jovens na luta tapeba e a produção de um CD com as principais canções indígenas dos rituais tapeba, que serão distribuídos nas escolas indígenas e não indígenas e outras instituições. Ao final do trabalho organizaremos um evento de lançamento dos materiais

YAKTOWA

— povo 

Fulniô

terra indígena 

Fulniô

comunidade

Fulniô

habitantes 

4.000

local  proponente 

Águas Belas - PE

Escola Indígena Bilíngue

Antônio José Moreira contato 

(87) 9617 - 9601 /

awassury@hotmail.com / suryaraujosa@gmail.com iniciativa no 

447

— Nossa terra é reconhecida como de domínio indígena pelo governo. Sua localização é na região de caatinga, sem recursos hídricos e sem animais para caçar e pescar. A maior dificuldade que enfrentamos em relação à manutenção de nossas práticas culturais é motivada pelo uso crescente da língua portuguesa em detrimento de nossa língua yaathe. O objetivo de nossa iniciativa é desenvolver pesquisas sobre nossa língua, buscar estudos que já foram feitos, elaborar métodos que fortaleçam a oralidade da língua, a partir da ampliação de seu uso e de seus falantes. Pretendemos aproximar os não falantes aos falantes nativos e, sobretudo, almejamos que

o trabalho de pesquisa possa auxiliar o ensino da língua yaathe nas escolas. Organizaremos um grupo de “pioneiros de pesquisa”, que serão falantes bilíngues, para receber capacitação e formação adequada para formarem um novo grupo de falantes do yaathe e acompanharem os resultados desse processo de ensino-aprendizagem. Pretendemos contar também com dois assessores externos, um linguista e um matemático.

— OFICINA DE VALORIZAÇÃO E SENSIBILIZAÇÃO DOS COSTUMES TRADICIONAIS PARA A PRESERVAÇÃO E DIFUSÃO DAS LÍNGUAS INDÍGENAS

— povos 

Kaxinawá, Ashaninka, Yawanawá, Shawãdawa e Poyanawa

terras indígenas 

Poyanawa, Arara do

Igarapé Humaitá, Kampa do Rio Amônia, Rio Gregório, Kaxinawá do Rio Humaitá, Kaxinawá do Igarapé Caucho habitantes  local  proponente 

4.473

Rio Branco - AC

Organização dos Professores

Indígenas do Acre - OPIAC contato 

(68) 9983 - 6468 / 3225 - 1952 / opiac@uol.com.br iniciativa no 

794

Todas as Terras Indígenas são demarcadas e regularizadas. Os recursos naturais são suficientes para a manutenção das práticas culturais. Desmatamentos e empreendimentos do governo, tais como estudo de petróleo e criação de estradas e assentamentos, vêm ameaçando a situação socioambiental das comunidades. As línguas shawãdawa, yawanawá e kaxinawá de três regiões estão correndo risco de desvitalização. Para conter esse processo, os professores estão incentivando os velhos que ainda falam as línguas a falarem com seus filhos. Em quase todas as escolas os professores também promovem a leitura, a escrita e a pesquisa nas línguas indígenas. O objetivo do projeto é o desenvolvimento de uma Oficina para discutir política linguística no contexto de multilinguismo dos povos indígenas do Acre. A oficina terá a participação de cinco mestres indígenas, quinze pessoas da comunidade, entre professores e outros, que serão os multiplicadores e um mediador de fora especializado na questão linguística. A partir das discussões e resultados da Oficina, serão feitos cartazes pedagógicos para serem distribuídos para instituições indígenas e parceiras.

— FORTALECENDO A LÍNGUA INDÍGENA HUNIKUĨ. OLHANDO O PASSADO, DESCOBRINDO

321


O PRESENTE E PENSANDO NO FUTURO. A FESTA DO NOVO DIA (A FESTA DA CAIÇUMA)

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iniciativa nº 944 – Revitalização da língua Tikuna do

bairro Santa Etelvina do município de Amaturá Amajari

— povo  terra indígena 

Aldeia Boa Vista

habitantes  local 

contato 

Kaxinawá

Kaxinawá do Rio Humaitá

comunidade

proponente 

interculturais e receberá convidados de outras comunidades e também pessoas de fora. A iniciativa surgiu a partir de vários problemas enfrentados pela comunidade por causa da discriminação de nossa identidade cultural pelos não índios.

80

Tarauacá - AC

José Nilson Kaxinawá de Lima

(68) 9967 - 2619 / 4400 - 7830 /

URI PIATA WEPE UKA – CASA COMUNITÁRIA

9967 - 2619 iniciativa no 

798

— A Terra Indígena é homologada e tem boas condições de recursos naturais que possibilitam a feitura de roça, a boa alimentação, a caça e a pesca e a manutenção de nossas práticas culturais. A aldeia fica bastante distante da cidade, o que mais ameaça nosso território são os fazendeiros, até hoje muito comuns na região. Os fazendeiros causam grandes impactos na floresta e o desmatamento facilita invasões de nossa Terra Indígena por madeireiros e caçadores. Na comunidade, nós falamos nossa própria língua e também o português, mas a língua indígena é mais falada pelos mais velhos. Nosso projeto tem o objetivo de registrar artes, rituais, festas, pinturas, desenhos que serão apresentados em uma oficina com duração de três ou quatro dias. A oficina terá várias atrações culturais e

povo  terra indígena 

Kokama

São Gabriel/São Salvador

habitantes  local 

233

Santo Antônio do Içá - AM

proponente 

Comunidade Indígena Kokama de São Salvador

contato 

(97) 9169 - 1924 / com.koc@gmail. com iniciativa no 

662

— A Terra Indígena está em processo de identificação e reconhecimento e está localizada próxima ao município de Santo Antônio do Içá. Os recursos naturais do território possibilitam caça, pesca e o cultivo de vários alimentos. A água na comunidade não é de boa qualidade. Não há invasões, nem garimpeiros ou madeireiros. A comunidade é atendida por alguns programas do Governo Federal. Não há escolas e nem recebemos cestas básicas. Há um posto de saúde. A língua mais falada é o português. Nossa língua materna é falada somente

pelos mais velhos e não é uma língua forte em nossa comunidade. O objetivo da iniciativa é a construção de uma casa comunitária para a realização de eventos culturais, palestras e festas tradicionais para mostrar a importância da nossa língua kokama aos jovens e crianças do nosso povo que não conhecem nossa cultura e também para os não índios nos valorizarem.

— CONSTRUÇÃO E CONHECIMENTO DA POLÍTICA E FORTALECIMENTO DA IDENTIDADE TUYUKA DAS COMUNIDADES

— povos 

Tuyuka, Tukano, Bará, Yuhupde

terra indígena  comunidade

Alto Rio Negro

Onça Igarapé, Guadalupe e

Morro de Acutivaia habitantes  local 

90

São Gabriel da Cachoeira - AM

proponente 

Alexandre Azevedo Rezende

contato 

(97) 3471 - 1156

iniciativa no 

844

— A Terra Indígena Alto Rio Negro foi demarcada pelo governo em 1998. Suas condições ambientais são boas e permitem caça, pesca e o cultivo e a coleta de alimentos. As comunidades envolvidas com a iniciativa estão situadas longe da cidade e por isso não

há ameaças socioambientais. O único problema que estamos enfrentando atualmente é a erosão na margem do igarapé. Nas três comunidades há postos de saúde e, em uma delas, há uma escola. A língua mais falada é a língua paterna, tuyuka. O tukano e o português são as duas outras línguas mais faladas. O objetivo da iniciativa é o fortalecimento de nossa língua, rituais e festas. Nós estamos pedindo apoio para convidar as pessoas que conhecem melhor nossa tradição, como dança, benzimentos e o modo de benzer ayauasca para ter melhores mirações, e repassar para toda a comunidade em encontros coletivos que serão divididos em três fases. A primeira será sobre os lugares sagrados e a casa de transformações; a segunda é o aprofundamento do conhecimento sobre encantações xamânicas e a terceira será dedicada a festas e rituais, em que todo o conhecimento anterior é utilizado. Todo o conhecimento tradicional será transmitido na língua tuyuka.

— REVITALIZAÇÃO DA LÍNGUA TIKUNA DO BAIRRO SANTA ETELVINA, DO MUNICÍPIO DE AMATURÁ

— povo 

Tikuna

terra indígena 

Zona urbana do município

de Amaturá comunidade

Yo´i Arü Duüügü

habitantes  local  proponente 

600

Amaturá - AM

Adair Faustino Maurício

contato 

(97) 8122 - 4706 /

ozinobpamt@hotmail.com iniciativa no 

944

— A comunidade está localizada em área urbana, sem reconhecimento pelo Governo. Não recebemos apoio ou assistência, apenas o programa Bolsa Família. A comunidade carece de saneamento básico, coleta de lixo, tratamento de esgoto e água potável. Os principais problemas, além das dificuldades de viver em área urbana, são a discriminação e manipulação das pessoas da comunidade. Não temos terra própria para caçar, pescar e plantar, mas plantamos, na terra dos outros, mandioca, banana, abacaxi, cará e cana. Nossa língua materna é menos usada do que o português e corre o risco de deixar de ser falada. Não há escola específica, nem professor indígena e falta espaço adequado para ensinar nossas crianças a falarem a língua tikuna. O objetivo desta iniciativa é o resgate da língua materna do povo Tikuna que vive no Bairro Santa Etelvina porque nossas crianças e jovens não valorizam a cultura tikuna. Queremos organizar eventos para fortalecer nossas práticas culturais, nos quais teremos jogos, festas, pinturas corporais, histórias e músicas. Nossa intenção é mobilizar toda a comunidade,

323


principalmente crianças e jovens, para fortalecer nossa cultura.

324

— iniciativa nº 968 – Resgate e Revitalização da Língua

Indígena Tariana

TAGA E MEETCHI´U – LÍNGUA BOA

— povo  terra indígena 

Tikuna Ilha do Camaleão

comunidade

Éware

habitantes  local  proponente  contato 

175

Anamã - AM

moradias, as crianças não conhecem bem nossas tradições. A língua tikuna é muito falada pelos mais velhos, mas o português é a língua mais falada pelo restante da comunidade. Na escola, a língua ensinada é o português. Os caciques e a comunidade tiveram várias conversas e perceberam que era preciso uma iniciativa para o fortalecimento da língua e da cultura tikuna, para isso, estamos propondo a criação de um espaço para reviver a língua, os mitos e as demais práticas culturais.

Carlos Nunes Peres Filho

(92) 3305 - 2404 / 3305 - 2420 /

3305 - 2400 / rafa_tikuna@hotmail.com iniciativa no 

959

— A Terra Indígena Ilha do Camaleão está localizada em uma ilha que vem sofrendo um processo de erosão que faz com que seu território diminua gradativamente, por esse motivo, muitas famílias da comunidade estão se mudando para outras localidades. Ambientalmente, nossa terra é boa para a plantação, mas caçadores e pescadores não índios acabaram com boa parte dos recursos, assim como os serradores que entram em busca de madeira de lei, muito comum antigamente em nossa terra. A seca do rio Solimões também afeta nossa situação socioambiental. Atualmente, os recursos naturais não são suficientes para a manutenção de nossas práticas culturais. Embora ainda haja matéria prima para a produção de nossos utensílios e

RESGATE E REVITALIZAÇÃO DA LÍNGUA INDÍGENA TARIANA

— povo 

Taliaseni Enu Irine Idakine (Tariana)

terra indígena  comunidade

Alto Rio Negro I

Yawisa, Paphaka, Nerikuana,

Ãpiakuli, Bayawali, Kerekere habitantes  local  proponente  contato 

972

Iauaretê - AM

Francisco Júnior Maia Brito

(97) 3475 - 1120 / 8114 - 3063 /

severali@yahoo.com.br / rbseverali@gmail. com iniciativa n

o

  968 

premiada

— A Terra Indígena Alto Rio Negro I é homologada e suas condições ambientais permitem caça, pesca, feitura de roça e coleta de alimentos. Em nossa

terra não há ameaças externas, mas existe uma base militar instalada. Há posto de saúde e escola que oferece o Ensino Fundamental e Médio Tecnológico. Nossa maior dificuldade está na questão linguística porque apenas os velhos falam a língua tariana; os mais jovens e as crianças falam tukano e português. Diante desse contexto de perda linguística, nós construímos uma escola diferenciada para o ensino e pesquisa da língua tariana. Essa iniciativa tem como objetivo dar continuidade ao nosso trabalho que teve início em 2000. Nossa intenção é realizar cursos de aperfeiçoamento da língua tariana e oficinas de elaboração de material pedagógico na língua para uso escolar. Nós também queremos apoio para fazer registros de eventos tradicionais e dos lugares sagrados do nosso povo que irão compor o acervo da nossa escola. Até agora nós já realizamos oficinas pedagógicas e de cartografia, cursos de língua e viagens para registrar nossos lugares sagrados. O próximo passo é conseguir recursos financeiros para prosseguir fazendo nosso trabalho.

— MERENÃA – LÍNGUA TICUNA

— povo  terra indígena  comunidade

Ticuna Ilha do Camaleão

contato 

(97) 9250 - 9619 o

  974

proponente 

João Fernandes Prado Barbosa

contato 

(97) 3471-1632 (FOIRN)

iniciativa no 

983 

premiada

A comunidade Ilha do Camaleão está localizada na margem do Alto Solimões. A situação ambiental permite caça, pesca e o cultivo de muitos alimentos. Não sofremos nenhuma ameaça externa, somente a água que do rio que não é boa para beber e causa diarreia e vômitos nas pessoas. Na comunidade, a língua mais utilizada é o português, inclusive essa é a língua ensinada na escola. Nossos jovens e crianças não falam mais a língua materna e por isso nós estamos propondo esse projeto para pedir apoio para a contratação de um professor de língua ticuna. Nossa iniciativa pretende ser um passo para resgatar a língua materna de nossa comunidade e valorizar nossa cultura.

Nossa terra está localizada próxima a um afluente do Rio Tiquié. Vivemos de caça, pesca e demais cultivares. Não há influências externas que ameaçam nossa situação socioambiental. Nas três comunidades, a língua yeba masã é mais falada pelos velhos. Muito jovens e crianças não falam mais a língua indígena. Esta iniciativa tem como objetivo o registro da língua yeba masã, que é a base dos mitos, danças, cerimônias e nosso modo de ser. Nossa língua nunca foi registrada, por isso, em 2009, começamos a nos reunir para pensar nos modos de fortalecer nossa língua e nossa cultura enquanto seus conhecedores ainda estão vivos. Essa iniciativa tem como objetivo realizar oficinas para o registro de textos na língua yeba masã e para o registro audiovisual de nossos conhecimentos.

— VALORIZAÇÃO E FORTALECIMENTO DA IDENTIDADE CULTURAL DOS POVOS YEBA MASÃ

— povos 

Yeba Masã, Tukano e Hupda

terra indígena  comunidades

Alto Rio Negro

São Felipe, Guadalupe e

Morro de Cutivaia

141

Anamã - AM

Gutemberg Custódio

iniciativa n

Ilha do Camaleão

habitantes  local 

proponente 

habitantes  local 

95

São Gabriel da Cachoeira - AM

— EDUCAÇÃO E PROCESSOS PRÓPRIOS DE TRANSMISSÃO DE CONHECIMENTO

— povo 

Cambeba ou Omágua

terra indígena  comunidade

Área urbana Amaturá

habitantes 

1.250

325


326

local 

Amaturá -AM

proponente  contato 

Aikma Curumawa

(97) 8101 - 4990 / 9176 - 7504 iniciativa no 

989

— iniciativa nº 989 – Educação e processos próprios de

transmissão de conhecimentos

iniciativa nº 1.011 – Pupikari Sãkiri resgate da língua e

artesanato do Povo Apurinã

iniciativa nº 1.026 – Jogos e Brincadeiras - Povo Amaturá

A comunidade está localizada em área urbana, no município de Amaturá, onde moramos em diferentes bairros. Nossa terra não é demarcada, nem reconhecida. Recebemos água de poços artesianos e não há saneamento básico na cidade. A área em que moramos está devastada, mas cultivamos alguns alimentos em uma terra próxima. No espaço em que vivemos, os recursos naturais não são suficientes para a manutenção de nossas práticas culturais e existe a distância para colher a maior parte desses recursos. Além dos problemas que enfrentamos por morar em área urbana, nossa comunidade lida com o problema das drogas. Nossa língua está quase desaparecendo. No dia a dia usamos somente a língua portuguesa. Essa iniciativa teve início quando os mais velhos sentiram a necessidade de repassar seus conhecimentos para os mais novos e seu objetivo é a contratação de um professor, por um período de seis meses, para o ensino da língua e elaboração de materiais escritos. No passado, já foi realizado um curso para ensino da língua com uma professora que fazia parte de um projeto do Ministério da Cultura. Nossa maior intenção é conseguir ampliar o número de falantes da língua.

PUPIKARI SÃKIRI: RESGATE DA LÍNGUA E ARTESANATO DO POVO APURINÃ

— povo 

Indígena. A descrição da gramática da língua já está bem avançada. Será preciso ainda fazer as revisões do texto, junto com a comunidade, e fazer a identificação dos grafismos indígenas que farão parte dos livros.

JOGOS E BRINCADEIRAS

WAPOLLIOTA PYTY WAWAYANÉ WEREKENA – VALORIZANDO A LÍNGUA WEREKENA

Pupikari (Apurinã)

terra indígena  comunidades

Caititu

Aldeia Copaíba

habitantes  local  proponente 

professor de apurinã para ensinar a língua para os moradores da aldeia e para nos ajudar a revitalizar as práticas tradicionais de produção de artesanato que dependem do conhecimento da língua para serem transmitidas.

56

Lábrea - AM

Marcilio Batalha da Silva

contato 

(97) 9181 - 9240 /

marcilio.batalha@hotmail.com iniciativa no 

1.011 

premiada

— A aldeia Copaíba é uma das 20 aldeias da Terra Indígena Caititu, homologada na década de 1980. Em nossa aldeia, a caça e o peixe estão escassos, mas cultivamos e coletamos muitos alimentos. A proximidade com a cidade de Lábrea aumenta o número de ameaças externas que sofremos, tais como a entrada de gaioleiros e madeireiros e o uso crescente de drogas e bebidas alcoólicas. Os recursos naturais são limitados, o que interfere diretamente na manutenção de nossas práticas culturais. A palmeira de buriti, por exemplo, que é a base para a realização da Festa do Xingané, está praticamente escassa. Em nossa aldeia, são poucos os que sabem falar e entender o apurinã. A língua falada pela maioria das pessoas é o português. Na escola Kukúwe, o português é a língua de alfabetização, de instrução e dos materiais didáticos. Nosso objetivo é a contratação de um

povo 

Ticuna

terra indígena  comunidade

Wui Uatain

Bom Pastor

habitantes  local  proponente  contato 

258

Amaturá - AM

9146 - 7852 / damiaocna@yahoo.com.br iniciativa n

o

A Terra Indígena Wui Uatain é homologada e se localiza em zona rural, pertencente ao município de Amaturá. Nossa área é preservada, existem caça, pesca e terra boa para o cultivo de plantas. Também é possível coletar produtos na mata. Por nossa aldeia ficar perto da estrada, um dos problemas que afetam nossa vida é o alcoolismo entre os jovens. Na Terra Indígena há escola, merenda e posto de saúde. Velhos, jovens e crianças falam entre si a língua ticuna. Nosso projeto, que já está em andamento desde 2010, tem por objetivo a produção de livro didático da língua ticuna, para ser usado nas escolas da Terra

Baniwa e Kuripaco terra indígena  comunidades

  1.026

e cantos e incentivarão os mais novos a falarem o werekena e os professores a ensinarem na escola. Produziremos também diferentes materiais escritos na língua werekena, tais como cartazes, cartilhas e livros de histórias.

Baré, Werekena, Tukano,

povos 

Ozimo Benedito Pedro

(97) 3465 - 1115 / 8109 - 2257 /

aulas são ministradas em nheengatu e português. Nosso projeto de revitalização e fortalecimento da língua werekena começou em 2009, quando fizemos três oficinas de resgate da nossa língua. Para essa iniciativa estamos planejando dar continuidade ao nosso trabalho, realizando oficinas e encontros em que falaremos sobre a importância da nossa língua. Os mais velhos mostrarão seus conhecimentos sobre a língua, mitos

Alto Rio Negro

Campinas e Vila Nova

habitantes  local 

258

São Gabriel da Cachoeira - AM

proponente  contato 

René Eduardo Waroya

(97) 3471 - 1632 (FOIRN) / foirn@foirn.org.br

iniciativa n

o

LÍNGUA INDÍGENA

— povos 

Guajajara, Timbira, Guarani e Guaja

terra indígena  aldeias

Piçarra Preta, Guaja, Januária, Areão,

  1.029

— As comunidades estão localizadas em Terra Indígena homologada e localizada às margens do Rio Xié. A situação ambiental de nossa terra é boa e os recursos naturais são fartos, apenas caça e pesca que estão se tornando mais escassas. O maior número de pessoas nas duas comunidades é Werekena, mas também há pessoas dos povos Baré, Baniwa, Tukano e Kuripaco. A língua werekena é minoritária. A grande maioria fala nheengatu. Na escola, as

Pindaré e Maçaranduba

Novo Planeta habitantes  local  proponente  contato 

500

Bom Jardim - MA Daniel Viana Guajajara

(98) 3653 - 3464 / 9120 - 1700 /

8769 - 7085 / mrc_potyguara@gmail.com / dan.guajajara@gmail.com iniciativa no 

120

— Nossa terra é homologada e seus recursos naturais estão relativamente preservados, mas enfrentamos problemas com invasores fazendeiros, madeireiros e posseiros. Nossa área é cortada

327


328

iniciativa nº 120 – Língua Indígena

por uma rodovia federal e está cercada por cidades e fazendas. Nossa língua está praticamente extinta, pois é falada somente por poucos idosos. A maior parte fala somente o português. Nós temos consciência do significado da perda de nossa língua e, por isso, nossa iniciativa tem como objetivo promover a valorização de nossos costumes, principalmente nossos cantos e danças.

— iniciativa nº 1.047 – Clareando a mente do povo Krenjê

para o amor, igualdade e paz

iniciativa nº 660 – Õpuop ma’â kipuop’ orapke tupari

ema’ema’êre

CLAREANDO A MENTE DO POVO KRENJÊ PARA O AMOR, IGUALDADE E PAZ

— povo 

Krenjê Timbira

terra indígena 

Assentamento Campo

São Francisco comunidade

Campo São Francisco

habitantes  local 

Ronys Araújo da

Silva Timbiras (99) 8105 - 3704 / 8425 - 5566 iniciativa n

o

39

Barra do Corda - MA

proponente 

contato 

de alimentos. Nossa região é totalmente desmatada. Ainda assim, conseguimos plantar feijão, fava, mandioca, inhame e milho. Utilizamos água trazida por carro pipa. Atualmente, estamos avaliando um modo de comercialização de artesanato para auxiliar na renda da comunidade que não recebe nenhum tipo de apoio do governo. Crianças, jovens e adultos não falam mais a nossa língua. Somente alguns velhos ainda falam. Nossos jovens e crianças estudam na cidade e o ensino na escola é realizado em português. Nossa iniciativa tem como objetivo valorizar nossos costumes, tais como danças, cânticos e pinturas corporais a fim de estimular em nossos jovens o desejo de manter esses costumes. Queremos dar continuidade ao registro dessas manifestações bem como contar com a colaboração de um professor bilíngue.

  1.047

— Nós moramos em um assentamento, de 1 hectare, localizado na zona rural, a 50 km da cidade Barra do Corda. Alguns de nossos parentes moram na periferia da cidade. Nosso território não é reconhecido pelo governo. Não temos terra boa para plantio, não há caça, nem pesca, nem mata para coleta

O ENSINO DA LÍNGUA TENETEHARA ENTRE OS TEMBÉ DAS ALDEIAS SEDE, ITUAÇU, PINOÁ E IPYDHÕ (PA)

— povos  terra indígena  aldeias

Tembé Alto Rio Guamá

Sede, Ituaçu, Pinoá e Ipydhõ habitantes 

local 

206

Santa Luzia - PA

proponente 

AGITASI – Associação do

grupo Tembé das aldeias Sede e Ituaçu contato 

(91) 9325 - 5262 /

turypar@hotmail.com iniciativa no 

547 

premiada

— A Terra Indígena Alto Rio Guamá é homologada, mas ainda hoje 1.200 famílias de invasores permanecem na região, além de fazendeiros e madeireiros. Devido à ação dos invasores, o território tem grandes partes devastadas, mas, ainda assim, há recursos naturais disponíveis para caça, pesca e coleta de alimentos, bem como espaço para o feitio de roças. A nossa língua tenetehara é pouco falada em nossa terra, fala-se predominantemente o português. Na região do Gurupi (MA), onde vivem nossos parentes tembé e com quem estamos realizando casamentos, o tenetehara é bastante falado por todas as gerações. O objetivo de nossa iniciativa é fortalecer nossa cultura a partir do ensino sistemático da língua tenetehara em nossas escolas; para isso, precisaremos contratar um professor bilíngue do Gurupi. Nosso projeto de ensino da língua teve início com a intensificação do intercâmbio entre os Tembé do Guamá e do Gurupi o que ressaltou as questões identitárias relacionadas ao uso da língua indígena. Nossa estimativa é que aproximadamente 200 pessoas poderão aprender nossa língua com a permanência de um professor do Gurupi em nossas aldeias.

ÕPUOP MA'Â KIPUOP' ORAPKE TUPARI EMA' EMA'ÊRE

— povos 

Arikapu, Aruá, Kampé, Makurap e Tupari

terra indígena  aldeias

Rio Branco

Trindade, Colorado, Cajui e Nova Esperança habitantes  local 

450

Alta Floresta - RO

proponente  contato 

estão passando. Diante dessa preocupação, nossa iniciativa tem como objetivo valorizar a cultura e a língua tupari a partir do aprofundamento de seu estudo e da produção de material impresso e audiovisual. Nossa intenção é dar continuidade ao trabalho de estudo da língua iniciado na década de 1990, para isso precisamos de recursos para revisar, sistematizar e registrar tudo o que já foi pesquisado em oficinas com professores, assessores e demais membros das aldeias.

Raul Pat´awre Tupari

(69) 9981 - 1030 /

rtupari@gmail.com iniciativa no 

660 

premiada

— A Terra Indígena Rio Branco tem seus recursos ambientais preservados e conservados, mas convive com ameaças externas constantes de invasão de fazendeiros, madeireiros, garimpeiros, além da construção das Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCNs) que estão causando forte impacto ambiental, como a diminuição dos peixes de rios e igarapés, a dificuldade para navegar e a interferência no ciclo de reprodução dos tracajás. Em todas as quatro aldeias que participam desta iniciativa, a língua majoritária é o tupari, falada também por membros dos demais povos que nelas habitam. Mesmo a língua tupari sendo forte, nossa preocupação é com o uso crescente do português em vários contextos sociais. Se não tomarmos cuidado, poderemos passar pelo mesmo processo de perda linguística que muitos outros povos

NORMATIZAÇÃO DA ESCRITA DA LÍNGUA PAITER SURUÍ

— povo 

Paiter Suruí

ALDEIA  Gãbgir habitantes  local  proponente 

210

Cacoal - RO

Associação Gãgbir do Povo

Indígena Paiter Suruí contato 

(69) 9930 - 5349 /

gabgirsurui@yahoo.com.br iniciativa no 

826

— A área da comunidade está preservada embora a fixação em aldeias provoque uma pressão sobre os recursos naturais ano a ano, além da degradação ambiental resultante da ação de madeireiros e do desmatamento dos colonos que invadiram a área para monocultura e pastagens. Na aldeia

329


330

iniciativa nº 826 – Normatização da escrita da língua

Paiter Suruí

iniciativa nº 491 – Fortalecendo as Tradições Culturais dos

Povos Macuxi e Wapichana na Comunidade Raimundão

iniciativa nº 624 – Bayda’aptan Paradkary gramática

intercultural e bilíngue Wapichana- Português

a terra é boa para plantação e são cultivados pequenos roçados de mandioca, cará, café, banana, milho, etc. O rio que corta a comunidade vem da terra dos colonos, que usam agrotóxico em suas plantações poluindo a água. Para consumo é utilizada água de poço artesiano. O objetivo desta iniciativa é dar continuidade à construção da escrita da língua paiter suruí, por meio do registro dos conhecimentos da cultura paiter. A comunidade resolveu fazer este projeto porque está acabando o hábito das pessoas se reunirem em volta dos mais velhos para ouvir as histórias, mitos e músicas. Os jovens estão mais interessados em ouvir músicas dos não índios ou então assistir programas de televisão. Ficamos preocupados, pois não tem mais compositores (os Suruí eram cantores natos). Então ao perceber que a escola era mais um espaço para aprendizagem da cultura dos não índios, foi decidido que iremos introduzir os conhecimentos suruí nas escolas, começando pela normatização e criação de regras para a escrita paiter.

— UYEESERUKONPÎ SENKAMAN: FORTALECENDO AS TRADIÇÕES CULTURAIS DOS POVOS MACUXI E WAPICHANA

NA COMUNIDADE RAIMUNDÃO 1

— povos 

Macuxi e Wapixana

terra indígena  aldeia

Raimundão

Raimundão 1

habitantes  local 

Alto Alegre - RR

proponente  contato 

410

na comunidade pretendemos realizar cursos de língua e cultura wapichana, de língua e cultura macuxi, de artesanato, de dança Parichara e rodas de história. Pretendemos fazer o registro audiovisual destes cursos. Queremos também participar da Festa das Panelas de Barro na comunidade Raposa.

Matilde da Silva

(95) 8402 - 9068 /

thildemaiwa4@gmail.com iniciativa n

o

  491

— A população tem aumentado a cada ano em nossa Terra Indígena. Ainda há caça e pesca, mas não o suficiente para suprir nossas necessidades. A terra é arenosa e pouco fértil para plantação. Plantamos mandioca, milho, melancia, macaxeira, cana, banana. Na mata coletamos buriti, açaí, bacaba, patoa, mirici. Pescamos nos lagos e igarapés locais. A pesca é prejudicada pela poluição causada pelas fazendas localizadas no entorno da Terra Indígena. Adquirimos produtos industrializados em Alto Alegre, município próximo da Terra Indígena e o mau uso das embalagens aumenta a poluição na comunidade. Dispomos de produtos naturais para as nossas práticas culturais como fibras de buriti, sementes de frutas do mato, cipó titica, curawa, algodão, madeira, urucum, jenipapo e outros produtos. Os mais velhos falam a língua Macuxi ou Wapichana e os jovens e crianças falam apenas o português. Para revitalizar a prática de nossa cultura

BAYDA'APTAN PARADKARY: GRAMÁTICA INTERCULTURAL E BILÍNGUE WAPICHANAPORTUGUÊS

— povos 

Macuxi, Wapichana e Aturady

terras indígenas 

Malacacheta, Manoa

Pium, Moscou, Muriru, Jacamim, Tabalascada, Canauani, Alto Arraia, Jabuti e Bom Jesus aldeias

Malacacheta, Pium, Moscou, Muriru,

Manoa, Jacamim, Alto Arraia, Novo Paraiso, Jabuti, São Domingos, Água Boa, Wapun, Marupá, Tabalascada, Canauani, Laje, Cachoerinha do Sapo, São João, Bom Jesus, Jacaminzinho habitantes 

8.000 (na região das aldeias onde o projeto acontece)

local 

Cantá e Bonfim - RR

proponente  contato 

Odamir de Oliveira

(95) 9169 - 6271 / 9167 - 3880 /

odamirxaburu@hotmail.com / nizuaba@hotmail.com iniciativa no 

624

Vivemos numa área rural. Algumas famílias vivem nos centros das comunidades e outras em regiões mais afastadas. Em nosso território temos áreas com predomínio de mata e outras destinadas ao plantio. Cultivamos macaxeira, cana, cará, batata, milho, abóbora, pimenta, arroz, banana, abacaxi, melancia. Há pouca caça e pesca. Os rios e igarapés têm água de boa qualidade, mas a maioria não tem acesso à água encanada. As terras das comunidades são cercadas pela monocultura de acácias. Em relação ao uso da língua materna, nossas comunidades vivem situações diferentes. Enquanto em uma parte das comunidades a língua materna é falada por mais de 90% das pessoas, em outras ela é falada por menos de 40% dos indígenas. O número de falantes vem diminuindo na região. Muitos jovens não valorizam e estão deixando de aprender a língua materna. Os objetivos do projeto são mobilizar os jovens para aprenderem a língua wapichana; melhorar a qualidade das aulas de língua nas escolas indígenas; promover encontros dos professores de língua wapichana e publicar materiais didáticos escritos nesta língua.

— ENNAPÎKÎ UMAIMU – VOLTE MINHA LÍNGUA

— povo 

Macuxi

terra indígena 

São Marcos

comunidade

Cachoeirinha

habitantes  local 

Pacaraima - RR

proponente  contato 

59

Elias João da Silva

eliasjoaodasilva5@gmail.com iniciativa no 

865

— A nossa terra se encontra em estado de preservação. O relevo é formado por planalto, planície e matas ciliares, encontradas na margem do rio e igarapés. O solo tem mistura de argila e é bom para o plantio de mandioca no verão, além de termos barro para confeccionar panelas. Tem animais como tatu, anta, caititu, jabuti, veado, tamanduá bandeira, onça pintada, arara vermelha, curica, gavião vermelho, gavião preto entre outros. A comunidade cachoeirinha faz seu planejamento semanal nos dias de domingo após o culto e realiza suas atividades cotidianas de segunda a sábado. As famílias têm suas roças individuais, mas trabalham coletivamente, no sistema de rodízio e ajuri organizados pelos donos das roças. Os produtos mais plantados são macaxeiras de vários tipos, milho, batata doce, batata roxa, feijão, abóbora, cana, mamão, abacaxi, banana sapo e banana comprida, e vários tipos de pimentas. A fala na nossa língua está quase extinta desde a introdução da língua portuguesa, mas pensamos que é importante o português permanecer entre nós, então estamos tentando equilibrar as duas línguas. O objetivo desta iniciativa é fortalecer a nossa língua, desenvolver este

331


332

iniciativa nº 72

Projeto de documentação da língua Karajá

meio de comunicação. Para isso decidimos que a comunidade se envolvesse no trabalho, fazendo parte da educação escolar. Nas aulas de aprendizado da língua primeiramente começamos com o alfabeto da nossa língua, em seguida trabalhamos os cumprimentos, apresentações e despedidas na língua macuxi. Com essa iniciativa esperamos que todos os membros da comunidade falem a sua língua materna.

— iniciativa nº 250 – Fortalecimento de Cultura Tradicional

PROJETO DE DOCUMENTAÇÃO DA LÍNGUA INDÍGENA KARAJÁ

— povo  terra indígena  comunidade

Karajá (Iny) Terra Karajá de Aruanã

Aldeia Santa Isabel do Morro habitantes 

local 

600

São Félix do Araguaia - MT

proponente  contato 

álcool. Em nossa aldeia nós falamos predominantemente o karajá, que nós chamamos de iny rybe. Nossa iniciativa tem como objetivo o fortalecimento da nossa língua e a sua inclusão, de modo sistemático, na escola da aldeia. Nosso objetivo principal é constituir uma ampla base de dados digitalizada sobre nossa língua e cultura a partir de material já existente e da produção contínua de novos materiais audiovisuais. Iremos gravar músicas e histórias cantadas e narradas pelos sábios da aldeia e também as mulheres ceramistas. Pretendemos, a partir dessa base de dados, produzir materiais didáticos em nossa língua materna porque, atualmente, não existe nenhum material escrito em karajá que possa ser usado na escola. Como nossa iniciativa prevê a produção de registros audiovisuais, nós pretendemos, também, formar jovens cinegrafistas.

Katawaki Karajá

(66) 8435 - 4057 / 8444 - 0642 /

katawaki@hotmail.com iniciativa no 

72

— Os Karajá da aldeia Santa Isabel do Morro vivem às margens do Rio Araguaia e a situação ambiental de nosso território permite a prática da caça, da pesca e o plantio de roças. Embora nossa aldeia esteja localizada na Ilha do Bananal, ela está próxima da cidade o que gera influências negativas, como, por exemplo, o consumo excessivo de

FORTALECIMENTO DE CULTURA TRADICIONAL

— povo 

Juruna (Yudja)

terra indígena  aldeia

Kapoto Jarina

Pakaya

habitantes  local 

São José do Xingu - MT

proponente  contato 

130

Matudjo Metuktire

(66) 8118 - 9761 / 8101 - 4841

/ 3568 - 1142 / matudjo@hotmail.com /

secretariaindigena@hotmail.com iniciativa n

o

  250

— A situação ambiental de nossa aldeia é boa para o plantio. Plantamos muitos alimentos e podemos fazer nossa farinha de puba. No entanto, devido à Rodovia MT-322 que passa em nossa terra, não existem mais muitos animais de caça. A presença da rodovia nos preocupa muito porque ela facilita o trânsito para a cidade, para a compra de alimentos, roupas e outros itens. A situação socioambiental de nossa aldeia nos possibilita manter nossas práticas culturais. Em nossa aldeia, todos falam a língua Juruna. O português é falado pelos homens adultos e somente com os não índios. Esta iniciativa tem como objetivo o registro audiovisual de algumas de nossas práticas culturais como via de fortalecimento de nossa cultura, sobretudo para que nossos jovens possam se envolver nesse processo e se sentirem incentivados a continuar nossos costumes.

— WAUJA OHATAKOJA TAKU UPAPITSANA – DICIONÁRIO LINGUÍSTICOCULTURAL WAURÁ

— povo  terra indígena 

comunidade indígena 

Waurá

Parque Indígena do Xingu

habitantes  local 

420

Gaucha do Norte - MT

proponente  contato 

Waurá

Arapawa Waurá

(66) 9672 - 8188 / 8449 - 0497 / renhere@gmail.com /

CARTILHA DA LÍNGUA TRADICIONAL APIAKÁ

arapawawaura@yahoo.com.br iniciativa no 

479

— Nós moramos na beira do lago Pyilaga, no Parque Indígena do Xingu. No Parque, os recursos naturais estão preservados, mas nosso maior problema é a produção de soja , que cerca praticamente todo o Parque Indígena e polui nossos rios. Outro problema que enfrentamos é a mudança no regime das águas provocada pela barragem que fizeram no Rio Culuene. Nossa comunidade praticamente não fala o português. Nossa língua é muito forte porque todos os Waurá falam a língua waurá. Nossa preocupação é que nossa língua se enfraqueça como vem ocorrendo com outros povos que moram no Parque. Esta iniciativa tem como objetivo a elaboração de um dicionário linguístico-cultural no qual cada palavra, além de seu significado, viria acompanhada de seus principais contextos de uso. O projeto teve início em 2008, quando comecei a trabalhar semanalmente na sua construção com o apoio de toda a comunidade e de três antropólogos. Nossa intenção é que o projeto seja concluído, publicado e distribuído para outras comunidades indígenas.

povo  terra indígena 

Apiaká

Apiaká do Pontal e Isolados

aldeias 

Mayrowi e Pontal

habitantes  local  proponente  contato 

250

Colíder - MT

Rainon Panhum Dathê

(66) 3541 - 1171 / 3541 - 2285 /

3541 - 4561 / 3541 - 4715 / jcfunai@gmail.com / joao.godoy@funai.gov.br iniciativa no 

900 

premiada

— Nossa terra está identificada e já foi reconhecida como Terra Indígena, no entanto há sobreposição com o Parque Nacional do Juruena possibilitando a identificação dos limites do nosso território. Por vivermos dentro de um parque nacional, temos muito conflitos para abrir novas roças, caçar e pescar, embora os recursos naturais sejam preservados. Sofremos também a interferência das hidrelétricas que estão na calha do rio Teles Pires e dos garimpos, muitos dos quais muitos já foram desativados pela Operação Eldorado. Nossa língua corre sério risco de deixar de existir porque há somente poucos falantes. A maioria das pessoas fala o português, por isso, em nossas escolas, implantamos o ensino da língua apiaká. Nós entendemos que o resgate de nossa língua é um modo de fortalecer nossa cultura expressa por meio de

333


334

iniciativa nº 1.012 – Fortalecimento e Revitalização da

cultura Terena através da confecção de materiais didáticos interdisciplinares na língua terena

música e narrativas que são cantadas e contadas, só que poucos conhecem seu significado. Esta iniciativa tem como objetivo realizar oficinas para o estudo da língua e das tradições apiaká e para a elaboração de novas cartilhas e materiais contendo músicas, brincadeiras e histórias tradicionais de nosso povo. Conforme os estudos forem avançando, pretendemos realizar festas e encontros para que o conhecimento tradicional vá se fortalecendo.

— REVITALIZAÇÃO DA LÍNGUA MATERNA TERENA

— povo  terras indígenas 

Terena

Terena Gleba Iriri Novo

(MT) e Buriti (MS) aldeias  habitantes  local 

Turi Puku e Buriti

60 (Turi Puku) e 820 (Buriti)

Peixoto de Azevedo - MT

proponente  contato 

Micael Turi Rondon

(66) 3575 - 1950 / 9631 - 7760 /

9999 - 7892 / micaelrondon@hotmail.com /

grandes áreas e usam muito agrotóxico, o que contamina o solo, os rios e igarapés. A situação socioambiental de nossas aldeias é parcialmente suficiente para a manutenção de nossas práticas já que a maior questão que enfrentamos está relacionada ao uso da língua materna. Durante um período de mais de 20 anos, em que lutávamos pela conquista de um território, nossa língua foi sendo praticamente substituída pelo português. A luta pela conquista de um território enfraqueceu nossa língua porque nós não tínhamos um lugar fixo para a manutenção de nossas práticas culturais, pois o governo mudava nosso povo de um lugar para o outro. O mesmo não aconteceu com nossos parentes Terena do Mato Grosso do Sul. Agora que temos uma área reservada, mesmo não sendo uma terra de origem Terena, estamos retomando nossas práticas culturais e esta iniciativa objetiva a revitalização de nossa língua materna, a partir de intercâmbios com os Terena da aldeia Buriti (MS) e da contratação de um professor, falante da língua terena, para ensinar a língua para nossos jovens e crianças.

triboturipuku@gmail.com iniciativa no 

916

— Nossa terra conta com recursos naturais que possibilitam a caça, a pesca, a coleta e o plantio de alimentos. No entanto, sofremos as consequências das plantações de soja, que estão substituindo as grandes áreas de pastagem. Os fazendeiros da soja desmatam

FORTALECIMENTO E REVITALIZAÇÃO DA CULTURA TERENA

— povo 

Terena Varakákoe

terra indígena 

Taunay/Ipegue

aldeias 

Ipegue, Bananal, Água Branca,

Colônia Nova, Lagoinha, Imbirussú e Morrinho habitantes  local  proponente 

4.884

Aquidauana - MS

Organização dos professores

indígenas Terena da Terra Indígena Taunay/ Ipegue - Ho’unevo Ihikaxotihiko Terenoe Opittit contato 

(67) 9903 - 5451 / 9951 - 4292 /

cultural tem o objetivo de fortalecer os conhecimentos tradicionais e a língua terena, confeccionando materiais didáticos na língua indígena, que serão utilizados em processos de alfabetização, manutenção e revitalização da língua terena, e na formação continuada dos professores indígenas para uso do material.

preta_terena@yahoo.com.br iniciativa no 

1.012 

premiada

— O povo Terena Varakákoe vive na Terra Indígena Taunay/Ipegue, já reconhecida e homologada pelo governo. As comunidades enfrentam diversos conflitos ambientais, como a escassez de recursos naturais, devido ao crescimento das áreas de pasto e a pressão das fazendas do entorno. A terra é insuficiente para o plantio, algumas plantas nativas estão se extinguindo, animais que antes serviam de alimento não existem mais, para pescar precisamos de autorização e pagamos uma taxa para os fazendeiros. Muitos materiais que usamos para fazer artesanato, cestos, roupas e casas não existem mais em fartura. Nas escolas das Aldeias Bananal, Lagoinha, Morrinho e Água Branca as escolas indígenas alfabetizam em língua materna durante a educação infantil, e a partir do segundo ano do ensino fundamental inicia-se a transposição para a língua portuguesa. Nas aldeias Ipegue, Colônia Nova e Imbirussú as práticas culturais encontram-se enfraquecidas e língua materna é o português. A iniciativa

MEU POVO, MINHA LÍNGUA – XE RETAMA, XE NHEENGA

— povo 

Tupiniquim

terra indígena  aldeia

Tupiniquim

proponente  contato 

tupi. Para isso, precisaremos de apoio para contratar um professor de tupi de nossa comunidade e para construir duas casas: uma para ser um centro de estudos e outra para ser um centro cultural e turístico, com guias mirins. Gostaríamos que a língua tupi fosse, em breve, tão falada por nós quanto a língua portuguesa.

Pau Brasil

habitantes  local 

Somos falantes do português, mas nas escolas locais há um projeto de ensino da língua tupi para nossas crianças. Esta iniciativa tem como objetivo dar continuidade ao ensino de língua Tupi para os Tupiniquim realizado por professores da própria comunidade. Iremos selecionar dez crianças em idade de alfabetização, de dez famílias distintas, para oferecer o estudo sistemático da língua

506

Aracruz - ES

Wesley Ribeiro Vieira

(27) 9910 - 5016 / 9886 - 1872 /

3250 - 1845 / 3256 - 3183 / rv.wesley@gmail.com iniciativa no 

BACUMUXÁ – ÁRVORE SAGRADA

843

— A Terra Indígena Tupiniquim foi homologada em 2010 e sua situação ambiental é bastante problemática porque, durante anos, a região foi destinada à plantação de eucaliptos por uma empresa de papel e celulose, o que causou o empobrecimento da terra, desmatamento e poluição dos rios. Nossos recursos naturais são escassos e insuficientes para a manutenção de nossas práticas culturais.

povo  terra indígena  aldeia 

Pataxó Fazenda Guarani

Retirinho – Módulo II habitantes 

local  proponente  contato 

65

Carmésia - MG Macarí Alves Ferreira (31) 9949 - 85215 /

taryparaxo@hotmail.com iniciativa no 

313 

premiada

— Nós moramos em uma terra homologada, com pequenas áreas de mata preservada. A terra é boa para

335


336

iniciativa nº 313 – Bacumuxá (Árvore Sagrada)

iniciativa nº 602 – Resgate e fortalecimento da Língua

Xacriabá

iniciativa nº 949 – Reaprendendo a Língua Akwê

plantar, há animais, nascentes e água de boa qualidade. Perto da aldeia tem estrada e fazendas. A estrada traz assoreamento dos córregos causado pela erosão e as queimadas causadas pelos fazendeiros geram poluição das águas dos córregos que vêm das fazendas. O espaço que temos e os recursos naturais não são suficientes para mantermos nossas práticas culturais, por exemplo, muitas matérias-primas para a realização dos jogos e das festas estão escassas e é preciso buscá-las em outros municípios. A língua de nossa comunidade é o português, mas estamos em um processo de recuperação da língua pataxó, a partir da tentativa de ampliar o número de falantes e de material escrito. Essa iniciativa tem como objetivo a elaboração de um livro de narrativas bilíngues pataxó-português que terá como uma de suas finalidades a função de material didático na escola. Toda a comunidade está envolvida, mas são os professores os responsáveis pela escrita das histórias. Queremos contratar um artista gráfico para nos ajudar no projeto e ensinar uma pessoa da comunidade. Nossa ideia nasceu em 1998 e já temos narrativas escritas e ilustrações, precisamos de apoio para dar continuidade ao nosso projeto.

— RESGATE E FORTALECIMENTO DA LÍNGUA XACRIABÁ

— povo 

Xacriabá

terra indígena  aldeia

habitantes  local 

Xacriabá

Brejo Mata Fome 680

do material didático e edição dos vídeos. Nós acreditamos que se há registro das palavras, a língua não está totalmente morta. Queremos nos fortalecer espiritualmente.

São João das Missões - MG

proponente 

(38) 9924 - 0507 /

hayxacriaba@yahoo.com.br iniciativa n

o

  602

— Nossa terra, que foi homologada pelo governo, está parcialmente devastada. Existem poucos locais para caça, pesca e plantio. O espaço e os recursos naturais não são suficientes para a manutenção de nossas práticas culturais. A língua mais usada em nossa aldeia é o português. O Xacriabá é pouco falado, mas está passando, atualmente, por um processo de revitalização motivado pelo estudo e pesquisa que estamos desenvolvendo com a língua. Nosso povo sempre foi muito discriminado por não falar uma língua indígena, no entanto nós usamos muitas palavras que fazem parte da língua xacriabá, por isso demos início em 2008 ao registro desses vocábulos com a intenção de criarmos um dicionário. Nós já temos o registro de muitas palavras, pequenos vídeos gravados e também já fizemos intercâmbio com os Xerente, que falam uma língua da mesma família. Nossa iniciativa objetiva conseguir apoio para os próximos passos de nosso projeto: escrita e revisão linguística do vocabulário coletado, elaboração

— Xacriabá

terra indígena  aldeia

local 

1.000

São João das Missões - MG

proponente  contato 

Xacriabá

Riacho do Brejo

habitantes 

Adailton Cavalcanti Bizerra

(38) 3613 - 9700 / 9801 - 9063 /

hayxacriaba@yahoo.com.br iniciativa no 

716

— Nossa terra é homologada. Embora ela esteja relativamente preservada e seja possível caçar, pescar e plantar, o espaço e os recursos naturais não são suficientes para a manutenção de nossas práticas culturais. Para lidar com esse problema, nós organizamos a forma de manejar os recursos. Em nossa aldeia, a língua mais falada é o português e estamos propondo esta iniciativa como uma tentativa de valorização da nossa cultura a partir do resgate de palavras de nossa língua que são usadas durante a confecção de artesanatos.

povo 

aldeia

ARTESANATO E CULTURA INDÍGENA povo 

— terra indígena 

Rônilson Pinheiro de Abreu

contato 

REAPRENDENDO A LÍNGUA AKWEM Xacriabá Xacriabá Rancharia Rancharia

habitantes  local 

São João das Missões - MG

proponente  contato 

945

já havia sido produzido sobre nossa língua. Nossa iniciativa, que tem como objetivo a elaboração de um dicionário e de materiais didáticos, pretende dar continuidade a esse trabalho de registro e pesquisa, bibliográfica e junto aos Xerente, povo falante de uma língua da mesma família que o Xacriabá.

Reginaldo Gomes de Oliveira

(38) 9985 - 6482 / 9999 - 1501 / 9822 - 9840 iniciativa n

o

  949

— Nossa terra foi homologada em 2001 e sua situação já era bastante degradada devido à ocupação contínua de posseiros e fazendeiros. Há pequenas áreas de mata nativa. O solo é bom para cultivo de alimentos, mas caça e pesca estão escassas. Nossa aldeia faz divisa com uma comunidade não indígena, o que acarreta aumento no consumo de bebidas alcoólicas principalmente entre nossos jovens. Os recursos naturais de nossa terra não são suficientes para a manutenção de nossas práticas culturais. A escassez de materiais para a produção de colares, saias e maracás já é uma preocupação em nossas comunidades porque ela afeta diretamente a ritualização de nossas vidas. No cotidiano, a língua mais falada é o português. Os velhos ainda sabem um pouco da língua Xacriabá e os jovens e crianças conhecem apenas algum vocabulário. Desde 2006, membros da comunidade e professores xacriabá discutem sobre a importância da língua materna e iniciaram uma pesquisa sobre o que

CENTRO DE REFERÊNCIA DAS CULTURAS DOS POVOS ORIGINÁRIOS

— povos 

Krikati, Guajajara, Pataxó,

Apurinã, Puri, Baré, Tukano, Potiguara, Sateré Mawé, Tupinambá, Kaingang, Kaiapó, Guarani, Fulni-ô, Ashaninka e Kalapalo terra indígena 

área urbana, no entorno

do Estádio do Maracanã, RJ habitantes  local  proponentes  contato 

60

Rio de Janeiro - RJ

Carmel Puri e Michael Baré

(21) 8681 - 0754 / 9541 - 9675 /

carmel.farias@gmail.com / anaje74@yahoo.com.br iniciativa no 

876

— A Aldeia Maracanã, antigo Museu do Índio do Rio de Janeiro, é uma aldeia de passagem para todos os parentes que vêm ao Rio de Janeiro. Ela está localizada em área urbana, no entorno do Estádio do Maracanã, e o imóvel está em processo de legalização. Suas condições são precárias e nós estamos

337


338

iniciativa nº 876 – Centro de Referência das Culturas dos

Povos Indígenas Originários

iniciativa nº 877 – Grupo Puri, Busca das origens e

tradições

sofrendo as consequências da reforma do Estádio para a Copa de 2014 e Olimpíadas 2016. Mesmo diante dessas condições, temos uma horta comunitária e realizamos eventos culturais. A Aldeia Maracanã pode ser considerada um espaço multicultural e multilinguístico. A língua portuguesa é usada como língua de comunicação, mas ao mesmo tempo, as diferentes línguas indígenas são também faladas nesse mesmo espaço. Esta iniciativa tem como objetivo o fortalecimento da Aldeia Maracanã como um espaço cultural que ofereça cursos de línguas indígenas, contação de histórias, oficinas de culinária, de pintura corporal, de brincadeiras indígenas, rodas de cantos e danças e outras atividades artísticas. Dessa forma, pretendemos que a Aldeia Maracanã continue sendo um centro de referência para todos os povos que transitam pelo Rio de Janeiro.

iniciativa nº 223 – Vocabulário do Dialeto Kaingang

Paulista

GRUPO PURI, BUSCA DAS ORIGENS E TRADIÇÕES

— povo  terra indígena  comunidades

Puri

área urbana e rural

casas individuais em área

urbana e rural habitantes  local 

40

Rio de Janeiro - RJ

proponente 

Carmel Farias Puri e

Emerson Gonçalves Puri

contato 

(21) 8681 - 0754 / 8817 - 3264 /

7222 - 2716 / 8368 - 8132 / carmel.farias@gmail.com / blog: puropuriart´s iniciativa no 

877

— Atualmente, aproximadamente 40 pessoas se reconhecem como pertencentes ao povo Puri. Nós estamos em processo de ressurgimento e, somente agora, estamos nos reunindo como um grupo coeso que tem redescoberto sua identidade cultural independente de uma unidade territorial reconhecida, já que nossas terras foram desapropriadas no século XIX. Como moramos em casas, em área urbana, somos um grupo que se reúne para o estudo de nossa cultura. Quando estamos juntos, relembramos a memória de nossos antepassados e usamos a música para nos ajudar a guardar as palavras da língua puri. Nosso objetivo com esta iniciativa é o levantamento e estudo da bibliografia sobre o povo Puri, sobretudo o vocabulário e os estudos sobre os Puri de Minas Gerais. Também faz parte de nosso projeto realizar visitas aos Puri de outras regiões, como Araponga (MG), onde tivemos contato com a música puri e dança de caboclos. Nossa iniciativa também quer contemplar a implementação da confecção de artesanato produzido por nosso grupo. Esperamos, com essa iniciativa, ampliar e manter o contato de todos aqueles que estão assumindo seu pertencimento ao povo Puri.

VOCABULÁRIO DO DIALETO KAINGANG PAULISTA

— povos 

Kaingang, Krenak e Terena

terra indígena  aldeias  habitantes 

contato 

Vanuire e Icatu

230 (Vanuire) e 218 (Icatu)

local  proponente 

Vanuire e Icatu

Arco-íris - SP

Valdenice Cardoso Soares Vaiti

(14) 9779 - 2443 / 9759 - 7563 /

nice_cvaiti@hotmail.com iniciativa no 

223 

premiada

— Nossas Terras Indígenas são homologadas, mas estão cercadas de fazendas de cana o que afeta a situação ambiental de nossas aldeias. Há somente pequenas áreas de mata nativa preservada; caça e pesca são escassas; a terra é arenosa e temos somente um córrego, cuja nascente está dentro de uma fazenda, e um açude artificial. Sofremos diretamente as consequências do desmatamento e do uso de agrotóxicos nas fazendas. Nós vivemos uma situação de multilinguismo em que o português é a língua predominante. Na aldeia Vanuíre, a língua Krenak é a mais falada depois do português. Na aldeia Icatu, fala-se mais o Terena. Esta iniciativa tem como objetivo principal a continuação do nosso projeto de elaboração de um vocabulário do dialeto kaingang paulista desenvolvido pela Escola Estadual Indígena Índia Vanuíre. O falar

kaingang paulista apresenta algumas diferenças lexicais em relação aos falares de outras regiões e por isso consideramos importante elaborar um vocabulário do kaingang falado no Estado de São Paulo relacionado à produção de artefatos. Nosso projeto consiste na gravação de dois idosos de cada aldeia falando sobre a confecção de artesanato; a listagem e escrita das palavras do domínio do artesanato; a revisão e tradução para o português das mesmas e a elaboração do boneco do dicionário, que será ilustrado com desenhos feitos por crianças durante todas as oficinas do projeto.

— PLANTAS MEDICINAIS

— povos 

Kaingang e Guarani

terra indígena  aldeias

Mangueirinha

Passo Liso e Palmeirinha

habitantes 

1.300 (Passo Liso)

e 1.200 (Palmeirinha) local 

Chopinzinho - PR

proponente  contato 

Alcir de Souza

(47) 9205 - 5742 / 9107 - 5533 /

alcir_ale@hotmail.com iniciativa no 

143

— Nossa terra está sobreposta a uma reserva ambiental e seus recursos naturais encontram-se preservados. Em nossa terra moram pessoas de duas etnias e essa iniciativa contempla os Kaingang e os Guarani. Em relação aos Kaingang, nossa iniciativa tem

como objetivo principal a ampliação no número de falantes da língua kaingang a partir de seu ensino formal. Em nossas aldeias nossa língua quase já não é mais falada pelos jovens e pelas crianças, mas temos professores bilíngues que ensinarão o kaingang para todos aqueles que quiserem aprender. Em relação aos Guarani, o objetivo da iniciativa é dar continuidade no processo de fortalecimento da cultura guarani, através de eventos que divulguem as danças rituais guarani. Nossa maior intenção com esta iniciativa é o fortalecimento das nossas culturas para que nossos jovens possam se sentir valorizados sendo índios e sofrer menos preconceito.

339


340

341

— MODOS DE SABER —

Xavante, MT / foto: Renato Soares


342

MODOS DE SABER —  107 INICIATIVAS INSCRITAS  —

343

APRENDER A APRENDER, APRENDER A ENSINAR por Leonardo Viana Braga

Q

uando se fala em modos de contar e transmitir saberes, em processos de ensino-aprendizagem, deparamo-nos com o interessante problema das conexões entre formas de fazer e pensar específicos e diferentes entre si. Os imbróglios que emergem dessas relações certamente se dão devido às peculiaridades dos contextos locais em que elas se desenvolvem, como se pode verificar em todas as sessões desse Catálogo. Dessa forma, é imperativo que pensemos, por um lado, o caráter específico desses contextos e, por outro, as consequências das relações entre diferentes saberes que hoje já são possíveis de observar. Como podemos ver, com base nos projetos aqui apresentados, as conexões de saberes distintos compreendem dois movimentos distintos: de um lado, a articulação entre resgate e registro de saberes e/ou de elementos da cultura; de outro lado, a relação entre as possibilidades de apropriação de espaços que outrora não existiam no cotidiano indígena – como a escola – com as possibilidades de desenvolvimento autônomo de modos próprios de aprender e ensinar. Antes de discorrermos sobre esses dois níveis da experiência que envolve as relações entre saberes é preciso, contudo, pontuarmos alguns vieses no entendimento sobre o que seja o saber e a cultura. Essas duas noções de certa forma se confundem, não só nas concepções indígenas sobre elas, mas também nas nossas próprias concepções. Nos projetos aqui apresentados, saberes e cultura aparecem como coisas muito diversas: como

jeitos de cultivar mandioca (SP 158), como tradição oral e musicalidade (MT 689), como representação teatral de mitos (AM 976), como práticas turísticas (AM 982), como jogos e brincadeiras indígenas em oposição a práticas esportivas não indígenas, ou como variantes destas últimas (RS 473), etc.. Algo que por si nos revela a dificuldade em definir o que é saber e o que é cultura. Entretanto, essa dificuldade talvez apareça não tanto pela impossibilidade de obter respostas, mas pelo modo como se colocam as perguntas. Mais do que querer saber o que é saber e/ ou cultura, talvez seria mais interessante atentarmos para como eles se fazem e refazem. A entrevista com Jera Poty Mirï traz exemplos muito interessantes para ilustrarmos essa atenção aos modos como saberes e cultura são transmitidos e aprendidos. Vejamos como Jera caracteriza três fatores importantes a respeito do ensino-aprendizagem guarani. Primeiro, a importância de estar junto, sobretudo na infância: “Não tem creche nem escola como no mundo do jurua, e então tudo se aprende, tudo se sente com a família, na casa, na vivência” Segundo, a importância do que Jera chama de cópia, algo diretamente relacionado ao silêncio, ao privilégio da observação em detrimento da fala: “A mãe do lado não falava ‘é assim!’, ou ‘não, não é assim!’. A criança ficava em silêncio, só observando


como que desce a madeira, como que mexe o milho na cuia, no pilão pra lá, pra cá. O Guarani aprende vendo, assim...”

344

Por fim, a importância da atenção dispendida na infância como algo fundamental para a vida adulta, isto é, a ideia de que as crianças já têm um conhecimento importante a ser valorizado

iniciativa nº 311 – Retomando o território tradicional, povo Juma, RO

“Desde pequenininha, a menina observa a sua mãe fazendo as coisas, a irmã mais velha, as tias, então na passagem da vida de criança para a vida adulta ela já tem um pré-conhecimento muito grande das coisas. O que acontece no momento da primeira menstruação da menina é que esse conhecimento é reforçado, e aí sim é que chega a parte de ensinar na prática e de falar também, o que eu acho muito bonito... Só nesse momento se mostra e se fala” “As crianças são pessoinhas que já chegaram na escola com seus conhecimentos, mas que entram em contato com vários outros conhecimentos e que são afetadas por eles”.

iniciativa nº 851 – Construindo o Projeto Político Pedagógico do Ensino Médio

Presencial Indígena Mura, AM

iniciativa nº 722 – Semana Cultural, Galibi Marworno, AP

Estas características apontadas por Jera – a prática de estar junto, a imitação e a importância da atenção durante a infância – marcam uma ideia fundamental para o entendimento do caráter do saber e da cultura para os indígenas: os saberes e a cultura mais do que coisas que são transmitidas são relações a serem reproduzidas e transformadas. O ensino-aprendizado depende de vínculos específicos entre pessoas específicas, e da manutenção desses vínculos. O parentesco, e a proximidade entre os parentes, são assim de primeira importância. O que se aprende depende de como o aprendiz e os parentes seguem prescrições básicas para o desenvolvimento daquele aprendiz. Isto está posto no exemplo da realização de resguardos na primeira menstruação da menina, como lembra Jera. O que se sabe é, portanto, inteiramente dependente

do modo como se reproduz ou deixa de reproduzir determinadas relações. Ou seja, os saberes estão diretamente imbricados com seus regimes de transmissão, com as relações interpessoais que compõem esses regimes. Desse modo, se nos projetos vemos que a ideia de cultura pode abarcar a língua, os mitos, as lendas, as histórias, os cânticos, não se negligencia nesses contextos, por exemplo, a importância de velhos e anciãos, que são os detentores por excelência dos modos de transmissão do saber, conhecedores da boa maneira de se criar relações, de se tornar um e/ou comportar como parente, etc. Em alguns projetos, cultura é a forma de expressão de um povo, e são os anciãos as referências para a reprodução dessa forma de expressão. Como veremos a seguir, por esse e outros motivos é que a importância desses sábios está diretamente ligada às ideias de resgate e registro da cultura. As ideias de resgate e de registro da cultura condensam nos projetos – e para além deles – diversas outras expressões que resumem um mesmo intuito: valorização, revitalização, etc.. Resgate é mais uma ideia complexa contida nas práticas de ensino-aprendizagem de saberes e de culturas específicas. Essa complexidade se dá, mais uma vez, pelo imperativo das conexões entre modos de fazer e pensar distintos. É do difícil encontro com modos ditos ocidentais de produção e sistematização de saberes que surge a necessidade de resgate. Os saberes ocidentais são pautados fortemente no viés de uma ciência progressiva que, por sua vez, é referência para as políticas públicas de valorização dos saberes indígenas. Hoje ainda há grandes dificuldades nas políticas públicas voltadas a valorização das culturas indígenas. Dificuldades devidas a uma falta de compreensão de que saberes e culturas, indígenas ou não, estão sempre em transformação, e que o que está em jogo nas relações entre regimes de saberes distintos são as possibilidades de aprendizagem mútua. Isto é, de reprodução de formas de expressão peculiares

pelo povo a quem se oferece tal política. Dito de outra forma: as políticas de resgate deveriam estar mais preocupadas em perceber os efeitos do resgate – como, por exemplo, a reaproximação entre jovens e seus ascendentes – do que se preocupar com a manutenção intacta de seus conteúdos. Por exemplo: saber contar um mito mais do que decorar perfeitamente o conteúdo de uma historinha. São vários os projetos que apontam para este lugar do resgate da cultura para os povos indígenas. O lugar do resgate (como também do registro, algo que mostra a relação direta entre essa sessão e a sessão 10 desse Catálogo) é o da necessidade dos mais jovens se engajarem e se disporem a aprender os saberes de seus antepassados – aprenderem a aprender. Para em seguida serem capazes de ensinar possíveis maneiras de se travar diálogos entre saberes distintos, não só aos seus descendentes, mas principalmente aos não indígenas – aprender a ensinar. É nesses dois momentos do processo de ensino-aprendizagem, decorrentes de contextos de relação entre saberes distintos, que algo do caráter do saber e da cultura se revela: eles são antes de tudo definidos por sua transformação, algo que independe do contato com os não indígenas, mas que obviamente acontece também nesse encontro. E, por sua vez, esse caráter transformacional aponta para a necessidade de aprender saberes que vêm de outros (outros indígenas, outros não indígenas, outros seres que vivem na floresta, nos rios, nas roças, na morada dos mortos, etc.). Essa necessidade é latente nos regimes de saberes indígenas, daí o grande valor dado àqueles que possuem habilidades xamânicas, conhecedores por excelência dos caminhos que levam até esses múltiplos outros. Além da reaproximação entre gerações, outro efeito das políticas de resgate percebidas pelos indígenas, como pode ser visto nos projetos, é a evitação da degradação social e da saúde de indígenas que cada vez mais vêm se aproximando de perigos das cidades, como por exemplo, os problemas do

345


346

iniciativa nº 1.050 – Ka`Aiwar Wazemono`Ongaw - Encontro dos Moradores da Mata,

Guajajara, MA

iniciativa nº 958 – Cultura de Hoje e o Futuro do Amanhã, Xacriabá, MG

alcoolismo, que aparecem no projeto Aldeia Tekoa Mbo’yty – Aldeia das Sementes de Portas Abertas (RJ 509). São vários os exemplos de migrações em massa de indígenas em busca de emprego nas cidades e na zona rural em trabalhos ofertados pelo agronegócio. Empregos que surgem como alternativa imposta muita vezes pelo próprio agronegócio, e suas apropriações indevidas dos territórios indígenas, além de provocar degradação de florestas, rios, etc. Por fim, um terceiro efeito das políticas de resgate está relacionado com a crescente busca por entrada nas universidades do país por jovens indígenas. É claro que a entrada de indígenas nas universidades inicialmente era devida, principalmente, a esse tipo de demanda mencionado acima, busca por emprego, e por alternativas à vida nas aldeias. Aliás, essa busca ainda continua sendo o principal interesse dos indígenas quando entram nas universidades. Mas os últimos anos têm mostrado que a universidade se torna paulatinamente um lugar a ser apropriado por indígenas em busca de valorização de outros regimes de saber que não os ocidentais e/ou científicos. Esta apropriação está diretamente relacionada, por sua vez, com as chamadas políticas de interculturalidade. De maneira resumida, a interculturalidade pode ser entendida como a maneira de se fazer relacionar culturas e saberes distintos, de modo que possa haver nessas conexões certa autonomia nas formas de expressão manifestadas de parte a parte. De um lado as culturas indígenas e saberes tradicionais e de outro as culturas não indígenas e saberes científicos. O resgate das culturas indígenas, ou simplesmente sua valorização, tornam-se o mote da ação política dos chamados acadêmicos indígenas. O resgate está embutido tanto na busca por emprego quanto por demandas mais práticas, como a luta por aumento nas ações afirmativas universitárias (que incluem entre outras coisas: política de cotas, reserva de vagas em vestibular ou pós-graduação, e apoio financeiro para a permanência nas universidades durante o período do curso). De um lado, as exigências

347

iniciativa nº 887 – Dia do ēmĩ, Kaingang, PR


348

iniciativa nº 577 – Pawe Rebiaporã: O trabalho artesanal Guarani, Guarani

Nhandewa, RJ

iniciativa nº 713 – Ca Toc Wa Pana (Festa da Chixa), povos Oro Nao’, Oro At, Oro

Mon, Suruí, Oro Ed, Oro Jowin, Oro Waram, RO

iniciativa nº 803 – Teko Reguá - Conhecimento e cultura: experiência na construção

de duas casas, Guarani Mbya, RS

de oferecimento de políticas de valorização da cultura pelas universidades e, de outro, as exigências de ação política por parte dos próprios indígenas no intuito de valorizar sua cultura (que está diretamente ligado à ideia de que seja necessário fazer pesquisa sobre a própria cultura, algo que aparece em vários projetos), exigências que se confundem com essas demandas mais práticas. Mas se hoje as contingências apontam para o protagonismo que acadêmicos indígenas assumem quando se trata de políticas de resgate e experiências de interculturalidade, não se pode esquecer que estas políticas já eram largamente discutidas ao se tratar das escolas indígenas e escolas diferenciadas. O tema da escola também é recorrente nos projetos, e traz algumas questões importantes para serem discutidas quando se trata dos modos de contar, transmitir e aprender. A primeira delas diz respeito às concepções sobre o tipo de saber que se aprende na escola em oposição aos saberes indígenas. Tomemos como exemplo o projeto U’ridi Dahöimanadz (MT 209). Neste, a escola aparece em oposição ao modo xavante de aprendizagem, a primeira como aprendizado formal, e o segundo como informal. É claro que tal afirmação aponta mais para certa linguagem usada nesses contextos referentes à escola diferenciada do que propriamente para uma desvalorização do saber indígena frente à escola. Ela aponta para um ponto que já mencionamos acima, da importância dos regimes de transmissão do saber, para além de seus conteúdos. Estes regimes falam sobre os caminhos possíveis da transmissão, algo que está recheado de formalidade e regras específicas de acordo com o povo indígena em questão. Nem todo saber pode ser passado para qualquer pessoa; há, por exemplo, saberes que só devem circular entre os homens, outros entre mulheres, outros apenas no seu círculo de parentes, e assim por diante. Uma segunda questão versa sobre o uso e apropriação da escola pelos indígenas, qual o caráter

que esse uso pode tomar frente à valorização ou não dos saberes indígenas. E esse ponto pode gerar divergências se tomamos como base os projetos aqui apresentados. No projeto Pave Nhemba’e Apo (Para o bem de todos) (RS 197) a escola é vista como lugar de aprender o saber indígena: “A escola ensina a arte de viver como um Mbya Guarani e faz a conscientização”. Por outro lado, Jera Poty manifesta sua insatisfação com a escola e, sobretudo, com a concepção de diferenciada, e da dificuldade de aplicação dessa diferença como alternativa a falta de autonomia dos saberes indígenas dentro da escola ocidental: “Hoje a gente tem essa situação da escola na aldeia, e mesmo quando ela é dita como diferenciada, ela não é muito, na verdade. [...] Mesmo ela tendo essa função diferenciada, você tem que estudar a cultura guarani e a cultura do jurua, e elas nunca, de fato, se casam. É muito difícil fazer esse casamento”. Esse problema da dificuldade deste casamento (que fala de outra forma sobre a dificuldade da interculturalidade mencionada acima) é, portanto, um entre tantos problemas que provêm da escola. Podemos citar também, lembrando mais uma vez a fala de Jera, o distanciamento de gerações que revela a dificuldade de comunicação entre jovens letrados e velhos que não leem ou escrevem; também a desvalorização de um conhecimento prévio já aprendido na infância; e a característica individualista dos saberes e da forma como se aprendem os saberes nas escolas (e também na universidade), diferentemente do interesse coletivo predominante no ensino-aprendizado indígena. Em suma, os projetos aqui apresentados remetem a questões latentes que envolvem hoje os saberes indígenas, suas formas de transmissão e circulação, e as conexões entre saberes, pauta cada vez mais urgente para as políticas públicas nacionais. Falar hoje em saberes indígenas exige que pensemos sem dúvida o lugar da escola, da universidade, das políticas

de interculturalidade e de resgate. Mas também para o lugar das formas específicas como os indígenas se apropriam localmente dessas políticas e instituições. É preciso, sobretudo, levar em consideração que, definidos pela sua característica sempre inovadora, e também por regimes de produção relações que seguem formalidades peculiares, os saberes e as culturas indígenas podem ensinar maneiras frutíferas de abertura ao diálogo com outros saberes.

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A ESCOLA COMO PONTE E COMO OBSTÁCULO NOS CAMINHOS DO CONHECIMENTO Entrevista com Jera Poty Mirï

N

a véspera desta conversa, Jera Poty Mirï completara 32 anos de vida, celebrados em uma aldeia recentemente formada dentro da área reivindicada para ampliação da Terra Indígena Tenonde Porã, no extremo sul da cidade de São Paulo. A demanda por ampliação da terra, atualmente com apenas 25 hectares, é antiga e tem sido mote de manifestações dos Guarani na capital paulista, unindose a lutas por terras e direitos em outras aldeias. Jera é reconhecida como uma importante liderança guarani, atuando na linha de frente das relações com os jurua [não indígenas] em São Paulo. Foi professora na aldeia por muitos anos e hoje é vice-diretora da escola, além de estar envolvida em muitos projetos de fortalecimento cultural e luta política. “Com um pé na aldeia e outro na cidade”, como ela diz, Jera tem atuado e refletido sobre a produção e circulação de conhecimentos nas aldeias e sobre o lugar da escola nessas travessias. Esse foi o principal tema desta entrevista, realizada por Alice Haibara, Joana Cabral e Valéria Macedo em 18 de dezembro de 2013.

As fotos desta entrevista foram feitas por Alice Haibara e por crianças Guarani Mbya da Aldeia Tenonde Porã durante oficina de ajaka (cestaria) em 2011.

Jera Poty Mirï

— ENTREVISTADORAS  Gostaríamos de iniciar essa conversa com você se apresentando. JERA  O meu nome é Jera Poty Mirï. Tem nome em português também, que é Giselda Pires de Lima, mas ninguém me chama por esse nome! Sou do povo Guarani Mbya e moro na aldeia Tenonde Porã há 32 anos. Faço parte de uma coisa nova na Tenonde Porã, que é o conselho guarani. Hoje tem cacique, vice-cacique e tem o conselho, que não é uma realidade de todas as aldeias. Por isso sou uma liderança guarani na aldeia e vice-diretora da escola. E  Quais aspectos você identifica como mais importantes nos modos de conhecer nas aldeias guarani mbya? J  Como no mundo indígena de um modo geral, as famílias guarani têm seus filhos e esses filhos sempre ficam com os pais. Não tem creche nem escola como no mundo do jurua, e então tudo se aprende, tudo se sente com a família, na casa, na vivência. As crianças são pessoas que vão copiando as outras pessoas mais adultas do seu lado. Quando fui em uma aldeia do Guarani Mbya lá no Paraguai, vi uma coisa que já não vejo mais aqui na Tenonde e é uma coisa muito especial, muito especial mesmo. As mulheres mais

velhas tinham o yrupē’i, que é um tipo de peneira, onde se coloca o milho depois de socado, e então vai mexendo, assopra... As mulheres adultas tinham um pilão grande e as meninas pequenininhas tinham cada qual sua peneira pequenininha, sua madeira pequenininha e seu pilão pequenininho. Elas faziam exatamente o que a mãe fazia. A mãe do lado não falava ‘é assim!’, ou ‘não, não é assim!’. A criança ficava em silêncio, só observando como que desce a madeira, como que mexe o milho na cuia, no pilão pra lá, pra cá. O Guarani aprende vendo, assim... Eu mesmo, com 32 anos, aprendo coisas novas quase todos os dias, coisas importantes, coisas mais comuns, vou aprendendo. Também tem os cuidados com a alimentação, que vêm desde quando a mulher está grávida. Tudo o que você come vai para o seu filho. Quando a criança nasce tem o resguardo, com regras do que se pode e do que se não pode comer. Tem algumas restrições de como fazer as coisas para não influenciar na gestação e no corpo da criança. O pai não pode pegar certas coisas, amarrar as coisas, não pode carregar objetos que sejam muito diferentes do que a mãe pode ficar olhando, isso pode prejudicar a criança. Por exemplo, a gente vai para o mato, pega um pouco de lenha e amarra, e a criança pode nascer com umbigo amarrado no corpo. Minha mãe falou que eu nasci com três voltas no pescoço, ela nunca tinha visto aquilo! Minha avó cortou meu umbigo e falou para o meu padrinho: ‘vocês ficam amarrando a lenha, não era para ter


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Xeramõi Bastião fazendo ajaka (cestaria)

Preparação da fogueira

amarrado... Sua filha nasceu com as cordas que você amarrou’. Os pais têm que ter cuidado para fazer as coisas porque o espírito da criança está perto do corpo e acompanha o pai ou a mãe na gestação. O Guarani nasce para o pai ou para a mãe, nunca é para os dois. Tanto pode ser menino ou menina... A criança pode ter nascido para fortalecer o pai, para ficar com o pai de uma forma mais forte, e aí então ela vai ficar o tempo inteiro com o pai. Se ele faz nos primeiros meses coisas pesadas, a criança pode adoecer porque o espírito está junto e vai tentar fazer igual o pai dele, se carregar madeira pesada a criança vai querer carregar também, e então vai ficar fraca. Tem que fazer tudo mais devagar. Depois, conforme a criança vai crescendo, tem os remedinhos de plantas para o menino ser um bom caçador, ou não se perder no mato com facilidade, ou para ser forte. Pode colocar algumas coisas no corpo também que vai fortalecer os braços, as perninhas. Para a batata da perna ficar forte, coloca o colarzinho de uma semente bem pretinha que em português se chama rosário. Põe nos dois bracinhos, perninhas, em cima ou embaixo do joelho, para fortalecer essas partes do corpo. Quando é menino, os pais sabem que ele pode ser um xondaro [guerreiro, guardião] e se encontrar em situações de desavenças com um outro no futuro. Por isso eles precisam receber alguns tipos de cuidado para se protegerem, e daí tem os remedinhos de alguns animais que deixam o corpo dele mais liso na hora de algum perigo, então ele pode se esquivar, se salvar com mais agilidade. Para as meninas é diferente, elas tendem a ser mais calmas, não podem entrar no conflito de força. Meu pai deu para mim uma larvinha, assim pequenininha, de uma palmeira, quando eu tinha 10 para 11 anos. Ele falou para eu comer crua, e eu falei: ‘não quero comer crua, tem que assar, pai!’. Daí ele falou: ‘não, tem que comer crua porque ela é docinha e daí o seu caminho vai ser doce...’. Muitas aldeias ainda têm esses alimentos,

mas nas aldeias da capital de São Paulo estão cada vez mais deixando esses costumes. E  E como é na passagem da infância para a vida adulta nas aldeias guarani? J  Desde pequenininha, a menina observa a sua mãe fazendo as coisas, a irmã mais velha, as tias, então na passagem da vida de criança para a vida adulta ela já tem um pré-conhecimento muito grande das coisas. O que acontece no momento da primeira menstruação da menina é que esse conhecimento é reforçado, e aí sim é que chega a parte de ensinar na prática e de falar também, o que eu acho muito bonito... Só nesse momento se mostra e se fala. Se é uma menina mais comportadinha, obediente, corta o cabelo dela no ombro. Se é um pouco mais rebelde, tem problemas de comportamento, então o cabelo é mais cortado, às vezes bem baixinho. Para o povo Guarani o cabelo é uma coisa muito forte no corpo, ele tem muito do seu corpo, fica nascendo o tempo inteiro, crescendo. Então, se você tem comportamentos ruins, melhor cortar. Ou mesmo quando adoece, quando você corta o cabelo tudo vai embora, e aí o cabelo pode ser jogado na água corrente ou pode ser usado para ser trançado. Só as mais velhas podem usar essa trança, normalmente a avó da menina. Depois disso, ela entra em reclusão. O tempo que ela vai ficar lá está relacionado a como era o seu comportamento. Algumas ficam um mês, quinze dias ou três meses até. Nesse momento, a menina se torna uma pessoa muito muito especial na família. Ela tem a atenção de todo mundo, dos tios, das tias, da mãe, do pai... As pessoas mais velhas da aldeia, que não necessariamente são da família, podem se disponibilizar a dar alguns ensinamentos também. Um dos primeiros ensinamentos, que eu acho muito lindo e que não pode faltar na comunidade guarani, é a generosidade, as pessoas saberem dividir o que é seu com seus parentes. Os pais juntam todos os parentes em volta do fogo e dão uma espiga de milho para a menina. Ela tem que assar a espiga

e tem que calcular para aquele milho chegar para todo mundo, não pode faltar a ninguém. Nunca ela pode comer e faltar para alguém que está ali com ela. Nesse momento se fala sobre o princípio da generosidade, do quanto é importante para o dia a dia das pessoas na aldeia. Então ela está passando para a vida adulta, vai se casar, constituir sua família, e escuta que tem que cuidar melhor primeiro do seu filho, e viver do que sobra. Depois disso tem coisas comuns que se aprende para ser mulher, cozinhar, lavar roupa, cuidar das crianças, da casa, como é que se conversa com os pais, com as mães, com as pessoas mais velhas, com as crianças. A menina fica só em torno da casa, até porque seu corpo está soltando fluidos que podem chamar a atenção de outros seres da mata, tem esse perigo. Se ela sai muito longe das casas, um bicho pode sentir seu cheiro. Como meninos não soltam esse fluido, eles são mais levados para outros lugares. Eles têm que aprender vendo e também ouvindo as coisas que os pais fazem, como caçar, a época de caçar, como os bichinhos têm filhos. Nesse momento é ensinado que o Guarani não pode matar um animal de grande porte mais de uma vez por ano. Se matar mais de uma anta por ano, por exemplo, o espírito do parente da pessoa – os filhos, se já tiver – pode ser trocado pelo animal que foi morto. A anta é um animal grande e é muito sagrado, para matar tem que pedir licença, só muito tempo depois pode rodear de novo. Junto com a caça, vêm os ensinamentos sobre o plantio, o que que pode plantar junto, ou não, quando plantar... Então, na passagem para a vida adulta se fala sobre os alimentos, de onde vêm, como eles são, quanto tempo leva para a colheita e quais são as regras básicas para lidar com o plantio, a preparação da semente. Você tem que estar sempre falando com Nhanderu para ter uma boa colheita, e depois tem uma preparação para abençoá-la, mesmo quando está fora da época de Nhemongarai, das consagrações. Os primeiros plantios dos meninos que viraram homens têm que ser trazidos para a casa de reza, daí

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tem que fazer uma consagração com a fumaça do petÿgua [cachimbo]. Há também os ensinamentos sobre a construção das casas. As mulheres podem participar um pouco, mas o aprendizado é voltado para os homens que deixaram de ser meninos. Eles têm que aprender a localizar um pássaro na frente da porta, que tem que ficar para a direção de onde Nhamandu [a divindade solar] vai vir, o nosso Nhanderu. Tem que receber Nhamandu de frente, a sua casa nunca pode estar virada contra Nhamandu, para poder receber bem. Nesse momento é ensinado uma coisa que eu acho muito bonita e vejo muito nas casas, principalmente das pessoas mais velhas, que o seu quintal tem sempre que estar muito limpo, porque é uma ofensa receber Nhamandu na sujeira. Eu sempre vejo isso na Tenonde. Na aldeia do Jaraguá [na região noroeste da capital paulista], as casas dos mais velhos também sempre estão muito limpinhas. Os jovens já perderam um pouco disso...

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Xejaryie fumando petÿgua (cachimbo) e descascando avaxi (milho)

Petÿgua (cachimbo) e avaxi (milho)

E  E os conhecimentos na vida adulta, após o casamento? J  Aos jovens que se casam, os mais velhos falam que no período ainda sem filhos pode parecer que a vida é só de alegrias. Mas antes mesmo dos filhos pode vir o dono do ciúme, que é um espírito que pode sondar o casal, assim como pode vir o dono da braveza, da raiva. Eles falam: ‘se vocês se entregarem para o dono do ciúme, ele faz vocês sentirem, ouvirem, verem coisas que para vocês vão ser verdade, mesmo que a família ou a comunidade inteira digam que não é verdade’. Eles falam sobre como lidar com os sentimentos ruins que fazem parte da nossa vida. Depois, quando vêm os filhos, é lembrado tudo aquilo que foi ensinado na passagem da vida da criança para vida adulta, do quanto você tem que cuidar bem porque Nhanderu está mandando espírito para você, então esse seu filho vai fortalecer a mãe ou o pai, e ele precisa de muito cuidado. Quando os guaranis se casam e vão pra outras aldeias, ou se casam em núcleos diferentes

da mesma aldeia, sempre se juntam onde já tem pessoas, então a gente está sempre muito interligado. Se está acontecendo alguma coisa ruim, todo mundo começa a pensar como intervir nessa situação, que eu particularmente acho às vezes complicado, mas faz parte da cultura guarani. Se alguém está tendo problemas no casamento, pode vir a tia do outro lado, ou a irmã do outro lado... e perguntar o que está acontecendo. Todo mundo interfere, se quiser. Os aconselhamentos podem sempre estar acontecendo. Você fica sentado, na beira do fogo, com petyngua ou com a erva mate, em um momento de concentração. Entre aqueles que aconselham, é costume falar muito suave sobre o que está acontecendo, fazer uma intervenção muito suave. Mas às vezes, apesar do aconselhamento, não dá para ir contra algo que é mais forte, individual por vezes. Eu sou um pouco diferente, mas não é porque tenho um pé na cidade e um pé na aldeia, e saí para estudar fora. Desde de pequenininha tem coisas diferentes que acontecem comigo. O Pedro Vicente, uma das pessoas que me ensina muito, sempre fala sobre isso especificamente comigo, e eu concordo bastante. Ele fala que cada um já nasceu com um dom, tem pessoa que é xeramõi, xejaryie, xondaro, parteira, o que faz remédio, o que faz uma comida melhor do que todo mundo... Quando não é dom, também pode ser desenvolvido, as pessoas podem se encontrar nesse caminho. Pedro Vicente fala: ‘é importante aprender sobre ajaka (cesto) tradicional, mas não é todo mundo que nasceu para fazer ajaka. Tem gente que nasceu para fazer o arco e flecha, nasceu para lidar só com plantinha porque tem uma mão boa, pode plantar qualquer coisa que vai brotar e vai colher, e algumas outras pessoas têm mão boa para uma coisa só e para outra não tem, então planta milho e tem uma boa colheita, e aí planta batata doce porque o milho deu certo e a batata doce não dá nada’.

E  Quais seriam os seus dons? J  A parte do artesanato, de confeccionar as coisas, eu acho que tenho dom, mas tem outra parte que é muito complexa e para mim é muito especial, das pessoas que sabem lidar com os remédios, sabem olhar e ir para o mato trazer remédio específico para certas situações. As parteiras também são uma parte muito especial, elas aprenderam na prática. Nas aldeias guarani, não se ia pro hospital quando as mulheres iam ganhar neném, era tudo em casa, com as parteiras. A maioria das mulheres mais velhas sabe um pouco como sentir a criança, perceber qual a posição que está, se está tudo bem. A minha mãe, por exemplo, é parteira, já fez mais de cem partos... Daí ela tentou me encaminhar pra essa função, mas não deu certo... [risos] Para os guaranis, a questão dos sonhos também é importante. Às vezes você sonha algumas coisas ruins e isso te faz acordar pensando nesse sonho, tentando traduzir aquilo quando você não tem um xeramõi mais perto que possa te falar desse sonho. Às vezes você sonha e sente medo, acorda suado, gelado, arrepiado, com seu coração batendo, ou chorando... Esses sonhos mais fortes são muito significativos para o seu amanhecer. Se um guarani sonha que aconteceu coisas ruins, que foi picado por uma cobra, por exemplo, aí ele não vai para o mato... Os sonhos são um aviso mesmo, você tem que dar atenção. Na aldeia diversas vezes se escuta falar: ‘hoje eu não sonhei bem’. Se acontece coisas ruins com a pessoa que sonhou, daí fala: ‘ah, se tivesse pensado mais no meu sonho, se tivesse dado importância a ele, talvez não tivesse acontecido’... Os sonhos não são só avisos, os sonhos são também estão muito ligados com o aprendizado. Eu não tenho uma sabedoria muito grande para isso, mas o que é dito e eu acredito é que às vezes os guaranis descobrem remédios por conhecimentos trazidos pelos sonhos, pelos Nhanderu kuery, pelos espíritos dos Nhanderu enviados e que mostram nos seus sonhos o que que é essa planta, para que que ela serve. Como na aldeia em Ubatuba, no ano passado,

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Vista da opy (casa de reza) da Aldeia Tenonde Porã

Rapaz raspando taquara para preparar ajaka (cesto)

Marisa preparando tipá (tipo de pão guarani)

meu tio trouxe uma planta que eu sempre vejo na Mata Atlântica, mas nunca tinha pensado nela como remédio, achava só bonita... Ele falou: ‘ah, essa aqui eu descobri quando uma filha minha estava com muita dor de dente, sofrendo muito, e no meu sonho eu vi essa plantinha’. Daí me deu um pedacinho e pediu pra eu mastigar, e depois não conseguia falar..., anestesiou minha boca, não sentia nada! [risos] Os cantos vêm pelos sonhos, enviados pelos Nhanderu kuery. O Cláudio, aqui na Tenonde, fez várias músicas assim: ‘ah, espera aí que eu sonhei uma música, eu acho que era assim... não, não era assim...’, e ele fala: ‘ah, tenho uma música nova, que Nhanderu iluminou pra mim...’. Ele solta tudo de uma vez, é muito especial...

Quando o jurua faz faculdade, por exemplo, não quer dividir aquele conhecimento com os parentes. As pessoas querem crescer na vida, ter um emprego melhor e depois ter a sua família. Mas essa família é um pontinho só, sabe, não tem uma coisa mais aberta, mais ampla. Mesmo assim, eu não costumo generalizar, conheço muitas pessoas que têm um outro pensamento, e vejo jurua kuery que sabem de primeiros socorros, eu acho bonito, as pessoas que vêm socorrer alguém que passou mal no ônibus ou na rua, principalmente nos bairros mais afastados. Então jurua kuery já tiveram muito essa parte do sentido do coletivo, de ficar de prontidão para ajudar o outro, mas no geral acho que isso se perdeu bastante. No mundo guarani é diferente, se aprende para todo mundo.

E  Quais as principais diferenças nesses modos de conhecer com os modos não indígenas? J  Para mim é muito fácil falar sobre as diferenças dos jurua, eu sinto bastante. Na aldeia tudo o que eu aprendo é sempre para o coletivo, não é um aprendizado para mim. Mesmo se aprendi a fazer um remédio para curar uma doença muito específica e muito ruim, eu não posso sair contando para todo mundo, é preciso criar uma relação afetiva e muito respeitosa com essa planta, sabe... não se pode colocar ela na mesa para todo mundo... essa planta viu gente. Assim como no plantio, você também recebeu esse dom, essa permissão para ter essa relação com essa planta... Como no plantio, não é todo mundo que vai ter uma mão boa. As outras pessoas podem aprender a fazer igualzinho, como ferver e quantas folhas colocar, mas não vai funcionar para todo mundo... Se eu sei desse remédio, então tenho que ficar de prontidão, se souber de alguma pessoa que está doente, que precisa ajudar, tem que fortalecer sempre essa sabedoria e isso está muito ligado ao seu comportamento, ao seu respeito à vida guarani. O que eu vejo é que cada um no mundo do jurua aprende, ou estuda, ou aprimora os seus conhecimentos muito só para eles, não é para a família toda.

E  Como a escola nas aldeias lida com os conhecimentos guarani e dos jurua? J  O mundo guarani, quando nasci, era muito diferente do que ele é hoje pra mim. Não tinha luz, a vida das pessoas era muito diferente. Para vocês terem uma ideia, com dez, onze, doze anos, eu não falava nada em português, e aí o sentido das coisas era muito diferente do que é hoje. Tudo que se aprendia era muito mais tranquilo, acontecia de forma mais natural. Hoje a gente tem essa situação da escola na aldeia, e mesmo quando ela é dita como diferenciada, ela não é muito, na verdade. Isso às vezes me deixa muito, muito, muito frustrada. Já faz alguns anos que eu estou em crise com isso, por algo que não é seu, mas que entrou na aldeia e que você não consegue se livrar. A escola parece ser uma coisa inocente às vezes, mas ela está destruindo muito o aprendizado tradicional guarani. Mesmo ela tendo essa função diferenciada, você tem que estudar a cultura guarani e a cultura do jurua, e elas nunca, de fato, se casam. É muito difícil fazer esse casamento. As crianças são pessoinhas que já chegaram na escola com seus conhecimentos, mas que entram em contato com vários outros conhecimentos e que são afetadas por eles. A criança pode ficar muito agitada,

ou copiar certos comportamentos errados. Isso traz um problema para a casa, e o xeramõi Bastião fala muito disso: ‘Meus filhos eram desse jeito antes de ir pra escola, daí agora eles estão desse outro jeito, muito ruim’. Isso é muito dolorido pra mim. Quando falamos: ‘a gente tem que fortalecer a cultura guarani na escola também’, e levamos os alunos para fazer uma oficina de culinária, ou uma roda de história, dizemos que é a escola que está promovendo isso, mas aí se coloca a questão de estar “escolarizando” a cultura, sabe... Na Tenonde, o conflito é muito grande pra mim, porque, diante de tantas influências, se a escola não faz uma busca de fortalecimento cultural, a gente sabe que nas casas também não está acontecendo muito. Mas me pergunto até onde é válido interferir. E  Como seria possível evitar a “escolarização da cultura”? J  Na aldeia, eu faço assim: do mesmo jeito que nem todo mundo nasceu pra fazer ajaka, não é todo mundo que nasceu para ir na escola, isso pra mim é muito claro. Às vezes, me deparo com pais e mães que estão aflitos porque querem que seus filhos vão para a escola, aprendam a escrever e a ler, porque tem que seguir esse mundo novo e tal. Mas o filho não quer ir, não se sente bem na escola, não quer escrever, não quer ler, tem um monte desses casos. Tem um rapaz, por exemplo, que mesmo estando na sala de aula sempre se sentiu muito distante da escola. O pai ia achando ruim isso... Mas quando o rapaz está fora da escola, ele faz coisas especiais, como caçar, fazer armadilhas, sempre em contato com a mata. Um guarani não tem arma de fogo para caçar, ele costuma fazer armadilha, então ele tem que aprender a fazer. Algumas vezes, cheguei na casa desse rapaz que não gosta de escola e tinha lá tatu grande, lagarto grande. Então eu falei para o pai dele: “seu filho, na verdade, é uma pessoa muito especial para o nosso mundo, por ter o conhecimento da caça, e você também é uma pessoa importante

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na cultura, de modo que ele pode ser um sucessor seu. Não tem que vir para a escola, tem que ver que ele está aprendendo outra coisa muito especial.” Acho que o pai dele entendeu isso, e hoje ele tem mais liberdade, não vai mais pra escola. Eu sempre falo para todos os alunos, principalmente longe dos pais [risos]: ‘se quiserem vir pra escola, vocês podem vir, vocês comem na escola, depois, se quiserem, podem ir embora’. Só que não pode ir embora e ficar na frente da televisão, ou ficar na internet o dia inteiro. Cada um tem que procurar sentir qual é a sua função na aldeia, se nasceu pra aprender a caçar, para fazer artesanato, ou para seguir outra sabedoria da nossa cultura. E se a pessoa acha que não é importante ou não quer aprender a ler e escrever, pra mim, está beleza! [risos] De fato, a escola nas aldeias pode ser uma arma letal contra a cultura guarani, porque atrapalha o aprendizado nas famílias. Aí uma coisa grave acontece, está acontecendo cada vez mais, que é as pessoas mais velhas da aldeia se sentirem inferiores àqueles que sabem ler e escrever. Eu trocaria tudo, tudo, tudo que tenho por uma sabedoria de saber curar uma doença que os médicos jurua não sabem curar. Ler e escrever é uma coisa, na verdade, muito fácil. Difícil é saber entrar na mata, conhecer os remédios, saber fazer os remédios, saber tratar dos problemas que acontecem na aldeia, saber o quanto é importante ser generoso e saber cuidar das pessoas. Isso não se aprende escrevendo! Aprende vivendo, assim...

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Kyringue, crianças guarani mbya da aldeia Tenonde Porã

E  Em vez da “escolarização da cultura”, seria possível uma “guaranização da escola”? J  A chegada da escola em algumas aldeias Guarani Mbya do estado de São Paulo começou em 1994. Alguns estudavam fora da aldeia, e isso era muito difícil porque eram poucos guarani num grupo grande só de jurua, que não fumam cachimbo, que não têm casa de reza, e você tem que aprender um monte de coisas numa língua que você não conhece. As lideranças,

vivendo muito fortemente essa influência da cultura do jurua e precisando lutar pelos seus direitos, começaram a pensar que as pessoas da aldeia tinham que aprender melhor a língua jurua, tinham que aprender a decodificar essa cultura em papel, por exemplo. Para isso, tem que aprender a ler e escrever. Teve então um movimento muito grande das lideranças para que isso fosse ensinado na própria aldeia, pelos próprios Guarani que sabiam, e se não sabiam, que fossem formados pra isso. As lideranças mais velhas batalharam muito para criar uma escola na aldeia, mas depois não teve mais conversas de como isso ia ser gerido e como iria influenciar a comunidade. Aí a gente acaba desrespeitando muitas coisas. Os pais não dão uma atenção mais especial nos momentos da passagem para a vida adulta, por exemplo, a menina que menstrua e podia ficar todo dia em casa, agora não pode, porque tem que ir para a escola... Outro exemplo: na cultura guarani a gente tem o tempo novo e tempo velho, e só no velho se pode caçar. Isso significa que guarani tradicionalmente não deveria comer carne todos os dias. Mas, tendo a escola, como o Estado fornece a comida, mesmo quando as famílias não têm mistura, carne em casa, elas comem carne todos os dias, e de péssima qualidade... Agora ficar sem escola não dá mais. Então a gente está nesse processo de reflexão. Na Conferência Estadual de Educação Indígena no ano passado, deixei todo mundo alvoroçado, assim, bravo [risos]. A primeira questão, ponto crucial pra mim, é por que tem que alfabetizar a kyringue [criança] em português, uma língua que ela não fala, que ela não conhece, que não é importante na vida das crianças de seis anos? Tem que alfabetizar na língua que ela pronuncia, com o som que ela está acostumada. Pedagogicamente falando, isso é muito mais rápido, acontece de forma mais natural. A gente que é professor guarani tem essa função comunitária de cuidar de todos, e não deixar a escola cada vez mais ir acabando com a nossa cultura. Isso

acontece muito, se você vai pra escola, significa que você quer que o seu filho (e o seu filho às vezes acaba pensando assim também) estude para crescer na vida, depois ter emprego, salário, um carro. Tudo isso é da cultura do jurua, não é nossa. Então a gente precisa se perguntar o que a gente quer ser. A maioria dos professores são muito jovenzinhos. Na cultura guarani, quanto mais jovem, menos você sabe das coisas. Como você vai fortalecer sua cultura se você também está em processo de formação? Esse professor que vai de segunda a sexta-feira na escola não tem mais tempo pra sentar na beira do fogo para tomar erva-mate, para falar das histórias, para falar do sonho. Ele está deixando de aprender as coisas da cultura que tem essa função de fortalecer, então está tudo errado! [risos] Na Tenonde, eu já tentei várias vezes, em reuniões oficiais, por exemplo, determinar que as crianças sejam alfabetizadas em guarani, só que isso parece muito difícil porque a maioria dos professores guarani foi alfabetizada em português. Como vou letrar a criança em guarani, como vou ensinar matemática em guarani, como ensinar geografia em guarani? Na Tenonde já está muito, muito forte a cultura do jurua, então a escola acaba entrando para fortalecer a cultura guarani, o que tinha que acontecer naturalmente, sem ser pela escola. Nessa aldeia nova que a gente está construindo, se der tudo certo, a ideia é fazer um plano de política pedagógica que respeite as particularidades do aprendizado da cultura guarani. Um espaço, que não necessariamente seja sala de aula, será destinado para aprender a ler e escrever em guarani, e só depois em português. A gente é guarani, estamos na aldeia, temos a sabedoria dos Nhanderu kuery, então temos que viver isso.

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— CULTURA CIRCULAR

INICIATIVAS

MODOS DE SABER

povo 

Kariri-Xocó

terra indígena  comunidade  iniciativa nº 113 – Cultura Circular

Kariri-Xocó

Kariri-Xocó

habitantes  local 

Associação Comunitária

Indígena Bonsucesso Kariri-Xocó-ASCIB-KX contato 

(82) 8847 - 0481 / 9656 - 5560 /

kawran123@gmail.com iniciativa n

2.222

Porto Real do Colégio - AL

proponente 

ambiente. O projeto pretende resgatar esta memória coletiva multiplicando os encontros entre os indivíduos, incentivando os jovens a se apropriar dos saberes tradicionais e apoiando com meios técnicos e financeiros a produção e difusão cultural.

o

  113

— A área onde vivemos é reconhecida como Terra Indígena pelo governo, mas o espaço é insuficiente pelo alto índice populacional, 699 hectares para 2222 habitantes. O projeto que enviamos para o edital visa o desenvolvimento das atividades tradicionais da nação kariri-xocó, fortalecendo a cultura indígena e assegurando a auto sustentabilidade dos seus membros. Ele integra em simultâneo a criação de arquivos, vídeos, reportagens fotográficas que serão utilizados para promover o autoconhecimento, bem como para dotar a comunidade de novos meios de divulgação das suas práticas de organização interna tribal e das comunidades circunvizinhas microrregionais. O patrimônio cultural dos Kariri-Xocó revela-se no artesanato, na agricultura e pesca tradicional, na visão comunitária do trabalho e na visão do seu meio

NOSSA CULTURA NOSSA VIDA

— povo 

Xucuru Kariri

terra indígena  comunidade 

Palmeira dos Índios Mata da Cafurna

habitantes  local  proponente 

600

Palmeira dos Índios-AL Associação Indígena do Grupo

Wpyra Swpirá (AIGWS) contato 

koramxama@yahoo.com.br / (82) 9965 - 3692 iniciativa no 

161

— A comunidade vive em área rural, reconhecida como Terra Indígena pelo governo (é terra da União). Porém, a aldeia é muito próxima da cidade e a cultura do não índio interfere no comportamento dos jovens indígenas, muitas vezes os levando a esquecerem da própria cultura, que é o que os mantém vivos. Temos 117 hectares de mata nativa com um açude, o qual já não possui peixe suficiente para a alimentação do povo. O objetivo é colher dos mais velhos ensinamentos das ciências e sabedoria milenar, as quais nos

361


362

iniciativa nº 121 – Ponto de Memória Museu Indígena

Kanindé

iniciativa nº 373 – Permanecer forte e Viva a Nossa

Cuitura

mantêm vivos. Praticar o que só eles sabem praticar, os nossos cantos, as nossas danças (o toré) as nossas comidas, os nossos artesanatos, os nossos remédios (meizinhas). A iniciativa se deu quando as professoras, o grupo de funcionários e alguns voluntários viram a comunidade perdendo suas práticas culturais a cada dia, desvalorizando-se e vendo jovens sem identidade, sem vida, se transformando em roqueiros sem saberes. Daí pedimos apoio ao grupo Wpyra Supirá e construímos um projeto didático de intervenção onde a comunidade se envolveu, porque é bom continuar sendo diferente e preservando nossa cultura, praticando o que nos foi imposto pela divina mão de Deus.

— PONTO DE MEMÓRIA: MUSEU INDÍGENA KANINDÉ - FORMAÇÃO, PESQUISA E GARANTIA DAS AÇÕES EM PATRIMÔNIO E MEMÓRIA

— povo 

Kanindé

terra indígena 

Kanindé

comunidade indígena  habitantes  local  proponente 

Fernandes

840

Aratuba - CE

Suzenalson da Silva Santos

contato 

mkindio@gmail.com /

(85) 8663 - 6412 iniciativa no 

121 

premiada

— A comunidade indígena Fernandes está situada em área reconhecida pelo governo como Terra Indígena, mas os tramites de conclusão de demarcação da Terra Indígena kanindé ainda não começaram. Muitas são as dificuldades enfrentadas pelos Kanindé em relevância a demarcação de suas terras. A comunidade indígena Fernandes do povo Kanindé apresenta-se preservada, embora em alguns trechos de seu bioma original (mata atlântica), apresente alterações provocadas pelas plantações de lavouras de subsistência implantada pela comunidade em anos anteriores. O objetivo geral desse projeto é capacitar uma equipe técnica responsável pela gestão e funcionamento do Museu dos Kanindé, a partir das funções básicas de uma instituição museológica: salvaguarda, pesquisa e comunicação. Procura-se envolver a Escola Indígena Manoel Francisco dos Santos no processo de formação da equipe técnica do Museu dos Kanindé, a partir da inserção efetiva do Museu no currículo diferenciado e do direcionamento de estudantes e professores para o Núcleo Gestor do Museu, a partir dos cursos de capacitação realizados. Possibilitar a continuidade e ampliação das ações de preservação, pesquisa e divulgação da memória

e do patrimônio cultural empreendidas pelo Museu dos Kanindé, na Aldeia Fernandes e fora dela.

— O FORTALECIMENTO DA CULTURA E ÉTNICO DO POVO TABAJARA DE QUITERIANÓPOLIS

— povo 

Tabajara

aldeia 

Fidélis

habitantes  local  proponente  contato 

187

Quiterianópolis - CE Maria Lira de Sousa Araújo

tabajarace@hotmail.com /

(88) 3657 - 5000 / 9921 - 6516 iniciativa no 

no dia a dia da comunidade o respeito às nossas diversidades, o nosso jeito de sermos culturalmente, que ao realizarmos essa atividade de fortalecimento da cultura sejamos reconhecidos pelo município, porque ainda estão resistentes. Que possamos ser vistos com um povo de cultura própria e cidadão munícipe, aceitando a educação escolar indígena e que parem de tirar os nossos índios de sua escola.

— PERMANECER FORTE E VIVA A NOSSA CULTURA

940

— A comunidade vive em área rural não reconhecida como Terra Indígena. Pretendemos apresentar nessa iniciativa a nossa dança cultural, pois é ela que valoriza e fortalece muito a cultura do povo Tabajara e é através dela que somos vistos como um povo de cultura própria, o que vem nos fortalecendo e nos fazendo ser reconhecidos etnicamente. Nosso objetivo é fazer com que os nossos jovens interajam com a sociedade envolvente, que eles mostrem para a sociedade o seu papel dentro e fora da aldeia tanto na educação escola quanto cidadão que está inserido. Esperamos que mude

povo 

Potiguara

terra indígena  aldeia 

Potiguara

Forte

habitantes  local  proponente 

500

voltadas para as crianças e adolescentes da nossa comunidade.

— SEMINÁRIOS CULTURAIS – FORTALECENDO A RELAÇÃO DOS JOVENS PANKARARU E O SEU TERRITÓRIO

Baía da Traição - PB

Associação Cultural Indígena

Potiguara (Toré Forte) contato 

encanada e esgoto sanitário em algumas residências. O objetivo desta iniciativa é dar continuidade às práticas culturais que já vêm sendo executadas pela comunidade, valorizando, além de tudo a cultura do povo Potiguara através de eventos dos nossos costumes e tradição. Com esta iniciativa esperamos dar continuidade aos trabalhos e alcançar mais atividades

povo 

terra indígena  comunidade 

valdeluciapotiguara@hotmail.com

/ (83) 8623 - 2553 / 8721 - 5875 iniciativa n

o

  373

— A comunidade fica em área rural. É reconhecida pelo governo como Terra Indígena Potiguara da Paraíba. A comunidade fica numa área próxima da cidade, mas ainda se planta para subsistência (agricultura familiar). Existe a prática da pesca no rio e no mar, a caça é proibida. Temos água

Pankararu

habitantes  local  proponente  contato 

Pankararu

Brejo dos Padres 3.000

Tacaratu - PE

União da Juventude Pankararu lafaete2008@yahoo.com.br / (87) 8108 - 5249 iniciativa no 

75

— A comunidade está localizada em zona rural, em território indígena já demarcado, homologado e em processo de desintrusão. A área não é considerada preservada, visto que

363


364

iniciativa nº 213 – Recontando nossa história através

das artes

iniciativa nº 646 – Ação Fowá-Fulniô - Desenvolvimento

cultural e socioeducativo

iniciativa nº 973 – Minha Dança, Minha Pisada

Pankararu

ocorre muito desmatamento por parte do próprio governo, em virtude das construções de barragens e redes de transmissão. O objetivo é realizar uma troca de experiência entre os membros da comunidade, enriquecendo os conhecimentos, almejando uma maior conscientização dos jovens e idosos. Essa troca de experiência culminará em um grande seminário discutindo a importância das práticas culturais na identidade do povo indígena. A juventude indígena está cada vez mais afastada das práticas culturais, sendo um alvo fácil para o consumo do álcool e outras drogas. Dessa forma, esse projeto visa apresentar à juventude maiores oportunidades de conhecimentos, melhorando a sua perspectiva de vida. Além disso, o resultado esperado é o envolvimento dos mais velhos nessas atividades, uma vez que os mesmos não estão se sentindo mais úteis à comunidade, se isolando e se afastando das questões fundamentais para o povo indígena. Por fim, se espera também um maior conhecimento de todos sobre a cultura indígena.

— RECONTANDO NOSSA HISTÓRIA ATRAVÉS DAS ARTES

— povo 

Truká

terra indígena 

Truká

aldeias 

Porto Apolônio Salles, Ilha da

Tapera e Ilha São Felix habitantes  local  proponente  contato 

280

Oroco - PE

Edna Bezerra Pajeu

ednatruka@hotmail.com /

(87) 3887 - 1384 / 9939 - 7167 iniciativa no 

213

— A terra do povo Truká é de 6.790 hectares nas três ilhas e 68 ilhotas. Somos banhados e abençoados com o Rio São Francisco. O rio é a nossa maior fonte de sobrevivência para o ritual, lazer, agricultura e também nossa vida. Esta iniciativa visa preparar as crianças, os jovens e os adolescentes indígenas truká da tapera, através da nossa cultura e dos nossos saberes. Entendemos que a resistência cultural é uma importante estratégia nessa luta e para isso é necessário repassar para as crianças e jovens os saberes, costumes, crenças e as personagens das lendas e mitos do nosso povo. Através da criação de grupos musicais, teatrais e dança indígena, no intuito de fortalecer o movimento dos jovens na aldeia, promovendo oportunidades, inclusão social, trocas de experiências e sabedoria. Esperamos fortalecer as nossas crianças e jovens com os saberes dos mais velhos, os trabalhos de arte, o teatro e assim fortalecer mais e mais a nossa luta.

AÇÃO FOWÁFULNI-Ô – DESENVOLVIMENTO CULTURAL E SOCIOEDUCATIVO

— povo  terra indígena 

Fulni-ô

Reserva Federal Indígena Fulni-ô

aldeia 

Fulni-ô

habitantes  local  proponente  contato 

de desmistificar a figura do índio como um ser lúdico ou um personagem de filme ou desenho; e valorizar o cidadão brasileiro e indígena que somos. Queremos buscar cada vez mais aproximar nossa cultura à cultura do branco da cidade e assim promover uma vivência intercultural entre nós e o povo urbano. O trabalho baseia-se em uma série de oficinas para as escolas.

6.500

Águas Belas - PE

José Henrique Ribeiro de Sá

henriquefulnio@gmail.com /

(87) 9621 - 0394 / 9992 - 5460 iniciativa no 

646

— A comunidade é urbana e colada com a cidade de Águas Belas. A área é reconhecida pelo Governo Federal. O território da aldeia do “ouricuri” está preservado e o território da aldeia urbana está completamente devastado. Nosso objetivo maior com esta iniciativa é propagar e multiplicar a cultura indígena Fulni-ô na área da educação, ou seja, propagar em escolas de Educação Infantil, Ensino Fundamental, Ensino Médio e Ensino Superior. Oferecer as oficinas para todas as faixas etárias de alunos e promover a formação em cultura indígena Fulni-ô para educadores da rede pública. Nossa intenção é valorizar o educador indígena capaz de passar conhecimento e sabedoria fulni-ô para povos da cidade, com o objetivo

MINHA DANÇA, MINHA PISADA PANKARARU

— povo  terra indígena 

Pankararu

Entre-Serras Pankararu

Lagoinha, Mundo Novo,

comunidades 

Piancó e Logradouro habitantes  local  proponente 

186 famílias

Petrolândia - PE

Ubirajara Fernandes Barbosa

contato 

bira.f.b@gmail.com /

(87) 3851 - 1183 / 9957 - 0169 / 9945 - 6116 iniciativa no 

973

— A comunidade vive em área rural, em uma área que é demarcada e homologada pelo Governo Federal. A área pankararu está localizada no bioma caatinga, onde nós temos 60% da área preservada, existem alguns animais para caçar que resistem à seca, a área é boa, porém pode ser difícil para se plantar, pois

a estiagem de nossa região é praticamente o ano todo. O projeto Minha Dança, Minha Pisada Pankararu tem como objetivo básico fortalecer e incentivar a cultura Pankararu, desenvolvendo atividades com 3 turmas de 20 jovens da etnia Pankararu, na faixa etária de 19 a 29 anos. Sendo executado por meio de oficinas de danças, acompanhada de cantos, instrumentos e figurinos tradicionais e oficinas de artesanato, essa iniciativa incentivará o reconhecimento e a valorização da nossa cultura entre os nossos jovens. Queremos uma maior expansão do conhecimento de nossas tradições e costumes pelos jovens de nossas comunidades, o desenvolvimento de práticas culturais com a participação ativa de jovens, uma alternativa de fonte de renda para os jovens com as oficinas de artesanatos e a diminuição do índice de violência, alcoolismo e prostituição.

— JOVENS ÍNDIOS: FORTALECENDO A IDENTIDADE ÉTNICA DO POVO KAMBIWÁ ATRAVÉS DA ARTE E DA CULTURA

— povo 

Kambiwá

terra indígena  aldeia 

Kambiwá

Nazário

365


366

habitantes  local  proponente 

390

Ibimirim - PE

Associação Grupo Jovens

Indígenas Nazário Kambiwá (G.J.N.I.K.) contato 

ssilvacarvalho@gmail.com /

(87) 3842 - 1808 / 8828 - 9709 iniciativa no 

iniciativa nº 986 – Jovens Índios Fortalecendo a Identidade

Étnica do Povo Kambiwá

iniciativa nº 333 – Jepuruvõ Arandú: Utilizando Sabedoria

- Despertando o índio nas escolas do Rio Grande do Norte

986 

premiada

— As nossas terras estão localizadas nos municípios de Ibimirim, Inajá e Floresta (zona rural), a extensão territorial é de 31.495.3123 hectares. São ocupadas por 8 aldeias.

Nosso objetivo é buscar o fortalecimento das atividades já existentes do grupo de teatro. Pois um dos maiores problemas encontrados pelo grupo é a falta de patrocinadores para essa atividade. Esta iniciativa parte do interesse e necessidade de buscar alternativas de preservação do patrimônio cultural do povo Kambiwá, a inclusão social dos jovens e das famílias dos envolvidos com o projeto, como também a divulgação da identidade étnica dos povos indígenas em Pernambuco, localizados na mesorregião do Moxotó. Tudo isso possibilitará o fortalecimento da identidade étnica do Povo Kambiwá e trará para as pessoas não índias o reconhecimento real da luta do povo indígena pela terra, a busca por uma educação diferenciada e reafirmação dos valores pessoais e culturais.

RESGATE DA ZABUMBA E DO PÍFANO NO POVO KAPINAWÁ

— povo 

Kapinawá

terra indígena  aldeias 

Kapinawá

Mina Grande, Ponta da Várzea e Pau Ferro Grosso habitantes  local 

proponente  contato 

2.144

Buíque - PE

Maria Beserra da Silva

s.freire@hotmail.com /

(87) 9609 - 8318 / 9929 - 8746 / 9908 - 6232 / 9909 - 7440 iniciativa n

o

  1.013

— O povo Kapinawá vive em área rural de três municípios: Buíque, Tupanatinga e Ibimirim. Os mais velhos sempre contam o que viam e o que ouviam seus pais falarem. Contam que na Urna Sagrada se ouviam sempre zabumbas tocarem sem que houvesse ninguém lá dentro. A zabumba era muito usada nas festas religiosas. Havia pessoas especializadas para a confecção tanto da zabumba quanto do pífano. O resgate desses instrumentos para o nosso povo é de grande valia. Um povo sem passado não pode conhecer o seu presente daí a necessidade de pesquisar a confecção. Partindo desse pressuposto se faz necessário o repasse desses conhecimentos aos mais jovens com a maior urgência, porque os mais velhos que ainda detêm esses conhecimentos já

estão idosos. Também prevemos com essa iniciativa a construção do Centro Cultural Kapinawá.

— JEPURUVÕ ARANDÚ: UTILIZANDO SABEDORIA DESPERTANDO O ÍNDIO NAS ESCOLAS DO RIO GRANDE DO NORTE

— Potiguara e Tatuyo

povos  comunidades 

Mendonça-Amarelão, Sagi,

Eleotério do Catu-Canguaretama-Goianinha, Tapará-Macaíba, Caboclos de Açu habitantes  local  proponente 

3.870

João Câmara - RN Associação Comunitária Amarelão

contato 

para atrair o turismo. A do Tapará tem não índios morando dentro da comunidade. A dos Caboclos não tem terras. O objetivo dessa iniciativa é valorizar e divulgar a realidade etnocultural e indígena nas escolas e secretarias municipais do Estado (Lei 11.645-2008; LDB-1996), onde estão inseridas as comunidades indígenas, por meio de uma ampla divulgação de informações que trabalhem diretamente com professores e alunos, além dos gestores das secretarias municipais. O intuito é oferecer subsídios para a conscientização e para o desenvolvimento de práticas pedagógicas voltadas para o combate ao preconceito, aos estereótipos, bem como desenvolver atividades que possibilitem a descriminalização étnica em sala de aula e fora delas, e que estejam de acordo com a realidade diferenciada das comunidades indígenas.

ivoneideaca@hotmail.com /

tayse.potiguararn@hotmail.com / (84) 9103 - 3044 / 9180 - 3589 iniciativa no 

333 

premiada

— As comunidades referidas estão em diferentes municípios do Estado. Todas as comunidades vivem em área rural e nenhuma foi reconhecida como Terra Indígena. As comunidades do Amarelão e Catu tiveram suas Terras Invadidas e ocupadas por posseiros. A do Sagi enfrenta processo judicial em suas terras devido à especulação que quer transformar o local em um resort

UM ÍNDIO CONTA A SUA HISTÓRIA

— povo  terra indígena 

Xokó

Ilha de São Pedro

comunidade indígena  habitantes  local 

350

Porto da Folha - SE

proponente  contato 

Xokó

Yatan Lima dos Santos

apolonioxoko@gmail.com / (79) 9155 - 2282 iniciativa no 

349

As condições na comunidade são boas. Está em área rural demarcada pela FUNAI como território indígena. A área é preservada, com alguns animais para caça e pouca pesca. A terra é boa para plantação, cultivo de diversas ervas como samba citá, capim santo, cidreira, pau cachorro, etc. É também possível buscar produtos na mata, e a água é boa, pois temos o rio São Francisco, lagoas, riachos e açudes. Nossa proposta se iniciou em 1978, quando começamos a brigar pela retomada de nossas terras. Queremos realizar a publicação de um livro e um seminário para seu lançamento. Assim, a comunidade terá um bom conhecimento da sua história e através de leituras vamos conseguir perpetuar nossa memória, transmitir para o nosso povo e para as futuras gerações a verdadeira história do povo Xokó, contada pelos índios Xokó. Temos dificuldade com a contratação de profissionais para elaboração do projeto e execução, que será resolvida pela participação nesse edital. Pretendemos, então, contratar profissionais para elaboração do projeto do livro, para sua digitação, diagramação, revisão e conclusão.

— NOKE TXIRITI NOSSA MÚSICA

— povo  terra indígena 

Katukina

Campinas / Katukina

aldeia 

Varinawa

367


368

habitantes  local 

143

Cruzeiro do Sul - AC

proponente 

acabem porque hoje sobraram poucos cantores tradicionais.

Marcelino Rosa da

Silva Katuquina contato 

(68) 3322 - 2763 /

marcelinokatukina40@hotmail.com iniciativa no 

iniciativa nº 240 – Noke Txiriti (Nossa Música)

240

— Vivemos em uma área que é cortada por uma rodovia federal (BR-364). Nossa terra é reconhecida como Terra Indígena. São constantes as invasões de caçadores e pescadores não indígenas. A área está preservada, mas existem poucos animais para caçar ou pescar. A terra é boa para plantar macaxeira, banana, batata doce, milho, arroz, biribá, manga, graviola e coco. Buscamos na mata açaí, patoá, bacaba, buriti, pupunha, mel de abelha. Temos um igarapé e uma cacimba com água limpa, boa para beber. Temos pouca caça e peixe e, com o aumento da população, nos vemos forçados a comprar produtos da cidade. O objetivo da iniciativa é fazer registro de canções tradicionais infantis para uso nas escolas das comunidades. Estamos preocupados porque a energia elétrica chegou à aldeia e as crianças estão começando a cantar as músicas do rádio e da novela. Queremos trabalhar para que a cultura se mantenha forte através da língua, dos cantos e das brincadeiras tradicionais. Queremos que as crianças e os adultos aprendam com esses cantos para ensinar para os filhos no futuro e evitar que os cantores

DE VOLTA ÀS RAÍZES: A UNIÃO E A EDUCAÇÃO DE TODOS MANCHINERI DE XAPURI ATRAVÉS DO USO DA AYAHUASCA

— povo 

Manchineri (Yine Manxineru) Manchineri de Xapuri

terra indígena  comunidade 

Manchineri Onça Pintada

habitantes  local  proponente  contato 

58

Xapuri - AC

Cirlene Souza Maia

ericathinry@yahoo.com.br /

cirlenemaia@ibest.com.br / (68) 9971 - 6384

todos esses traços pra ensinar para nossos filhos, que por conta da educação da cidade, pouco sabem sobre nossa cultura. Como muitos indígenas por motivos do ciclo da borracha foram obrigados a trabalhar como mateiros e seringueiros na extração do látex no primeiro e segundo ciclo da borracha, isto fez com que vários saíssem de suas terras de origem, como foi nosso caso. Decidimos nos unir para que aos poucos pudéssemos retomar nossas tradições. O que conseguimos resgatar de nossa cultura foi por conta do uso da ayahuasca, que nos fortalece como grupo e nos ensina muitas coisas de nossa ancestralidade. Por este motivo queremos trazer os grandes sábios de nossa aldeia para nos ensinar algumas tradições com que já não temos contato, como artesanatos, tecelagem e pajelança.

/ 9283 - 9919 / (16) 9290 - 6935 iniciativa no 

785

— A comunidade dispõe de uma área de seis hectares e meio, não possui água encanada, nem rede de esgoto, também não conta com energia elétrica. A comunidade vive em área rural. A área não é reconhecida pelo governo como Terra Indígena. A área da terra foi devastada, mas como já fazia muito tempo que ninguém morava nessa terra, a floresta se regenerou. Nossos pais, por conta do preconceito da cidade, não nos ensinaram tudo o que era de nossa cultura, por conta disso, não temos

FLORESTA SAGRADA – NI INHUM XIBU

— povos 

Huni Kui, Arara Shawãdawa,

Ashaninka, Katukina, Kuntanawa, Poyanawa, Yawanawa, Manchineri e Nukini habitantes  local  proponente 

3.000

Jordão - AC

Associação do Movimento dos

Agentes Agroflorestais do Acre (AMAAIAC) contato 

manaunicui@yahoo.com.br /

(68) 9962 - 2408 / 8423 - 3073 iniciativa no 

814

A comunidade vive em área rural na floresta. Nossa área é reconhecida como Terra Indígena pelo governo. A situação ambiental da comunidade é preservada. Possuímos animais para caça e pesca. Nossa terra é boa para a alimentação. Achamos que é muito importante estarmos valorizando nossa cultura junto com os velhos, os jovens e estar valorizando para não acabar. Chamando o espírito forte, chamando uma força da natureza para sobrevivermos, para garantirmos nosso futuro. É muito importante realizarmos o nosso Mariri, nosso batismo, a nossa história. Achamos que os nossos conhecimentos tradicionais são a nossa semente, a sobrevivência do nosso povo. Relembrando também o nosso costume através da maloca, através do trabalho que a gente vem realizando na construção de artesanato, cerâmica. Acho que é muito bom resgatar a nossa cultura tanto os homens quanto as mulheres e passar para os jovens que estão crescendo. Queremos fortalecer, cada vez mais, o conhecimento tradicional do povo. É importante para nós trabalharmos de acordo com as nossas próprias lideranças. Trocando experiência, trocando cada tipo de trabalho de valorização, repassando essas informações, buscando mais informações. Aí nos entendemos para podermos trabalhar em continuidade.

ENCONTRO COM A MEMÓRIA VIVA HUNIKUĨ

— povos 

Kaxinawá (Hunikuĩ), Shawenawa e Katuquina

terra indígena  aldeias 

Katukina/ Kaxinawá

Novo Futuro/Pupunha (Mãe Xinã

Bena), Paroá, Belo Monte, Morada Viva, Nova Olinda, Boca da Grota e Formoso habitantes  local  proponente  contato 

801

Feijó - AC

Elisomar de Lima B. Kaxinawa

elisomar.barbosa@bol.com.br /

(68) 9954 - 0161 / 9907 - 0492 / 9904 - 4107 iniciativa no 

815

— A comunidade onde vivemos fica às margens do Rio Envira. É uma área rural indígena. A floresta é preservada por nós e protegida pela União. Não existem muitos animais devido à invasão de caçadores perto da aldeia. Cultivamos nossa produção, pois a terra é boa de plantar. Os produtos que pegamos na mata são o coco aricuri, jaci, jarina (palha), ervas medicinais e outros. Nosso objetivo é preservar a identidade cultural do povo Hunikuĩ, valorizando o que é nosso, organizando de modo tradicional as nossas práticas, como: língua hunikuĩ (hãtxa kuĩ), festa (Katxanawa), alimentação (pite xarabu), história (miyui), pintura corporal (kene), artesanato, que são costumes e tradição e rituais hunikuĩ (bebida sagrada nixipae), ou santo

369


370

iniciativa nº 300 – Si’risê Basasê (Bebidas tradicionais e

Danças indígenas)

daime, conhecido pelos não índios. É o encontro com a memória viva hunikuĩ . Nesse trabalho o incentivo é também a unificação do povo Hunikuĩ do Alto e Baixo Rio Envira. A ideia do nosso projeto foi de um jovem (Txana) Isakawati, conhecido como Elisomar de Lima Barbosa Kaxinawá. No sentido de ajudar as práticas e fortalecer a cultura hunikuĩ, com a preocupação de a comunidade ficar próxima ao município de Feijó, devido à influência do não índio na aldeia, como o alcoolismo, droga, língua portuguesa e catequização.

iniciativa nº 310 – Territorialização e educação escolar

indígena diferenciada

O TRILHO HUNIKUĨ NA VALORIZAÇÃO DA EDUCAÇÃO PRÓPRIA

— povo 

Hunikuĩ (Kaxinawá)

terra indígena  aldeias 

Praia do Carapanã

Segredo do Artesão, Morada Nova,

Água Viva, Cocameira, Goiana, Nova Vida, Carapanã, Povo Junto e Mucuripe habitantes  local  proponente 

600

Tarauacá - AC

Associação dos Produtores e

Criadores Kaxinawá da Praia do Carapanã ASKPA contato 

(68) 9964 - 7195 / 9905 - 9255 /

4400 - 7849 / benekaxinaw@hotmail.com iniciativa no 

827

— A nossa comunidade vive em Terra Indígena reconhecida pelo governo,

estamos divididos em nove aldeias. A terra é preservada, existe caça e peixe, o solo é bom para o plantio, cultivamos diversos tipos de plantas de sementes tradicionais e coletamos frutas nativas na floresta. Em todas as aldeias os agentes agroflorestais indígenas fazem um trabalho de fiscalização das terras e conscientização ambiental. Todas as comunidades têm escola e o ensino nos anos iniciais é feito principalmente na língua hãtxakuĩ. O objetivo desta iniciativa é fortalecer as práticas culturais do povo Hunikuĩ e valorizar os conhecimentos dos idosos, como a língua, história, mitos, lendas, músicas e danças. Este projeto pertence e dá continuidade ao projeto de organização Bai Nashtei (limpar, roçar ou abrir caminho para trilharmos todos juntos) e ao projeto político pedagógico hunikuĩ, frutos de um longo processo de construção e diálogo entre as comunidades, professores indígenas e a Secretaria de Educação do Estado do Acre. Realizaremos um curso de formação de professores em hãtxakuĩ, durante o qual serão realizados registros em áudio, audiovisual, imagem e texto, para a organização de um livro ilustrado e a edição de um filme.

— SI'RISÊ BASASÊ – BEBIDAS TRADICIONAIS E DANÇAS INDÍGENAS

— povos 

Arapaso, Baré, Desana, Karapanã,

Piratapuya, Tariana, Tukano e Tuyuka habitantes  local  proponente 

205

Manaus - AM

Associação das Mulheres

Indígenas do Alto Rio Negro - AMARN contato 

amarn_am@yahoo.com.br /

(92) 3644 - 2480 / 8161 - 9255 iniciativa no 

300

— A sede da Associação das Mulheres Indígenas do Alto Rio Negro/ AMARN está localiza na área urbana de Manaus, porém as associadas moram de aluguel e em áreas de risco próximo aos igarapés e nas invasões. A princípio a associação foi criada com a intenção de resgatar o direito da mulher indígena, combater a discriminação indígena na sociedade não indígena e o trabalho escravo como doméstica. As associadas trabalham confeccionando os artesanatos para vender nas feiras e nas bancas da AMARN, assim conseguem ter uma renda com seus produtos além de contribuir para o funcionamento da associação. São várias situações de problemas com habitação, mas isso não tira o entusiasmo das mesmas de ajudar a AMARN na preservação da cultura tradicional. O objetivo da iniciativa é fortalecer e valorizar a cultura Indígena do Alto Rio Negro, através de confecção de artesanatos indígenas, como meio de ajudar na renda familiar. Queremos a valorização das

danças indígenas e bebidas tradicionais para revitalização da cultura indígena. Na associação há o espaço cultural onde é ensinada a língua materna (fala, escrita e leitura) para as crianças e adultos que desejem aprender. Além de danças e histórias dos povos indígenas do Alto Rio Negro. Também é ensinada a confecção de artesanatos indígenas.

— TERRITORIALIZAÇÃO E EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA DIFERENCIADA DOS POVOS INDÍGENAS KARAPÃNA, BARÉ

— povos 

Baré, Hexkaryana, Karapanã e Piratapuya

terra indígena  aldeia 

Cuieiras

Kuanã

habitantes  local  proponente  contato 

42

Manaus - AM

Joilson da Silva Paulino

indiokarapanas@gmail.com /

wirawasu@gmail.com / joilsonkarapana@hotmail.com / (92) 9187 - 8299 / 3302 - 2605 / 9335 - 3996 / 9150 - 6744 / 9153 - 4171 iniciativa n

o

  310

— A aldeia Indígena Kuanã está situada na margem esquerda do rio Cuieiras (zona rural). Por se situar nas proximidades de Manaus e

Novo Airão é uma região que sempre se caracterizou predominantemente pela exploração turística, de barcos pesqueiros, da derrubada das árvores para venda de madeira, de areia do leito do rio Cuieiras, estimulada para abastecer o mercado de Manaus em virtude das instalações de obras na capital Manaus. Com a iniciativa desta publicação, visamos trazer à tona e promover o debate sobre o direito universal à educação e territorialização indígena da aldeia Kuanã, numa situação extrema em que isso só é possível se igualmente – e ao mesmo tempo – forem respeitados os direitos à identidade e à cultura dos povos indígenas. Os estudos aqui reunidos procuram fazer o elo entre o passado e o futuro dos remanescentes de povos indígenas no Brasil, tendo a educação escolar como fio condutor. A iniciativa de pesquisa e aprendizagem tem por finalidade pesquisar sobre os fatores determinantes da cultura e linguística carapanã e nheengatu, adotado pelos povos Karapanã, Baré e Piratapuia, no Rio Negro e Cuieiras.

— CANTO CULTURAL MATSÉS

— povo 

Mayoruna

terra indígena  aldeia 

Vale do Javari

José Meireles

habitantes 

90

371


372

local  proponente 

Atalaia do Norte - AM

Associação dos Matsés do Alto

Jaquirana (AMAJA) contato 

gerações de hoje e as que virão, inovando cada vez mais, para que não fiquem no esquecimento.

mayurunagaucho@hotmail.com /

rosicastro2001@hotmail.com / (97) 9183 - 1713 / 9157 - 4866 iniciativa n

iniciativa nº 443 – Canto Cultural Matsés

iniciativa nº 851 – Construindo o Projeto Político

Pedagógico do Ensino Médio Presencial Indígena Mura

o

  443 

premiada

— A comunidade está situada em área rural, é uma aldeia dentro da reserva indígena, esse território é reconhecido pelo governo. Nesse território existem rios, lagos de onde o povo retira sua alimentação através da pesca para a sobrevivência. A floresta é pouco explorada por terceiros, por isso a usam para retirar frutos, caçar e ainda retirar dela sua medicina tradicional e outros recursos necessários. Nosso objetivo é contribuir para o reconhecimento e fortalecimento da importância dos cantos culturais do povo Matsés, garantindo essa ação principalmente como fonte de material pedagógico para o professor. Decidimos realizar essa iniciativa a partir do momento em que percebemos que os jovens matsés em geral vem se envolvendo mais com a cultura do branco surgiu nossa preocupação de chamar atenção deles de alguma forma para as nossas práticas que estão ficando esquecidas, como os cantos e histórias tradicionais. Diante disso nossa intenção é preparar um tipo de material com ajuda de mídias para chamar atenção, com algo novo a fim de transmitir esses conhecimentos tradicionais às

INTERCÂMBIO CULTURAL ENTRE OS APURINÃS DA ALDEIA CAMAPÃ E HUNI KUIN DA TI COLÔNIA 27

— povos 

Apurinã e Kaxinawá

terras indígenas 

Apurinã do Km124 da

BR317 e Kaxinawá da Colônia 27 aldeia 

Camapã

habitantes  local 

246

Município de Boca do Acre - AM

proponente  contato 

Leôncio Miguel de Lima

waldircruzjunior@gmail.com /

(68) 3226 - 3985 / 3226 - 3854 iniciativa no 

574

— Os Huni Kuin da Terra Indígena (TI) Colônia 27 residem na Terra Indígena com menor extensão territorial no Estado do Acre, dispondo de pouco mais de 20% de cobertura vegetal, mas que possui uma ampla experiência no setor produtivo, destacando-se inclusive, em nível regional como um exemplo de melhoria de qualidade de vida da comunidade sem aumentar as pressões sobre o meio ambiente. As TIs incluídas neste projeto possuem um cenário semelhante no que tange às pressões sofridas pelo entorno, por

se encontrarem em áreas de impacto de grandes empreendimentos, no caso, a rodovia BR364 na TI Colônia 27, e a rodovia BR317, na TI Apurinã do município de Boca do Acre. Ambas são cercadas por áreas de pastagem e ficam próximas à sede dos municípios, além disso, a TI Apurinã sofre constantes invasões de madeireiros e caçadores. O objetivo específico do projeto é possibilitar a troca de experiência entre os atores comunitários sobre resgate e fortalecimento da cultura tradicional, combate ao alcoolismo e outras influências que têm erodido a língua, a medicina e as práticas tradicionais, promovendo também a troca de novas práticas e técnicas de manejo e criação de pequenos animais, reflorestamento de áreas degradadas, enriquecimento de roçados e ainda fomentar reflexões acerca de uma filosofia de trabalho pautada na agroecologia baseada em Sistemas Agroflorestais (SAFs).

— AÑURO EKATIKAWESE: O BEM VIVER COM A CULTURA INDÍGENA TUKANO

— povos 

Tukano (Dahsea), Desana (Wirã), Tuyuka (Diikharã) e Bará

terra indígena  comunidades 

Alto Rio Negro

Sopori Bua (São José), Bote

Puri Bua (São José II) habitantes  local 

110

São Gabriel da Cachoeira - AM

proponente  contato 

Dario Alves Azevedo

comunidades ou até mesmo enviados para outras cidades. A confecção de cerâmicas, das quais só se faziam trempes, voltou a ser feita.

(97) 3471 - 1632 / 3471 - 1156 iniciativa no 

832

— As nossas comunidades estão localizadas em área rural, fazem parte do distrito de Pari Cachoeira, dentro da Terra Indígena Alto Rio Negro, que foi demarcada no ano de 1996. O objetivo da nossa iniciativa de fortalecimento e valorização da cultura é vivenciar práticas de nossa cultura que vinham sendo esquecidas, e registrar essas práticas. Dentro da vivência das práticas culturais decidimos construir a maloca e incentivar a realização destas diversas práticas. Crianças e jovens que nunca tinham tido contato com as canções e danças cariçu (flauta de pã) começaram a aprender a tocar e dançar. A dança dos velhos (Kahpiwaia), que não era dançada por gerações (desde que os missionários proibiram a realização dessas danças) começou a ser retomada e hoje nossos jovens dominam os passos e as letras das canções que sustentam essa dança. Os rostos e corpos começaram a ser pintados com carajuru e jenipapo nas festas, pinturas faciais e corporais foram lembrados. Bancos (especialmente tukano) que há tempos não eram mais feitos e valorizados, voltaram a ser feitos e trocados com parentes por outros objetos, ou vendidos para brancos que passam nas

CONSTRUINDO O PROJETO POLÍTICO PEDAGÓGICO DO ENSINO MÉDIO PRESENCIAL INDÍGENA MURA

— povo  terras indígenas 

Mura

Mura de Autazes, São

Félix, Trincheira, Iguapenu, Murutinga, Josefa, Miguel, Paracuuba, Pantaleão/Multirão, Natal, Capivara, Igarapé-Açu, Jawary, Moiray, Padre, São Pedro, Cuia, Ferro Quente, Karanai, Muratuba, Sampaio, Soares, Tawary, Tucuxi comunidades 

São Félix, Trincheira, Iguapenu,

Murutinga, Josefa, Miguel, Paracuuba, Pantaleão/Multirão, Natal, Capivara, IgarapéAçu, Jawary, Moiray, Padre, São Pedro, Cuia, Ferro Quente, Karanai, Muratuba, Sampaio, Soares, Tawary, Tucuxi e outras em processo de demarcação habitantes 

9.000 aproximadamente

local  proponente 

Autazes - AM

Organização dos Professores

Indígenas Mura/OPIM contato 

buxuhay@yahoo.com.br /

(92) 8149 - 8864 / 9492 - 9145 iniciativa no 

851

— As comunidades que serão contempladas por esta iniciativa

373


374

iniciativa nº 964 – Grupo de Prevenção povo indígena -

O futuro sem violência e drogas

iniciativa nº 976 – Rywy Wato Rayrurap, uma

experiência de teatro

através da escola vivem na área rural indígena. Algumas delas já são reconhecidas, outras estão em processo de demarcação. O objetivo dessa iniciativa é termos recursos para a complementação e realização de fóruns e reuniões com as aldeias elencadas: lideranças, professores, agentes de saúde indígena, parteiras, benzedores(as) e rezadores, pais e alunos e representantes das nossas organizações Mura, para discutirmos e construirmos as Diretrizes e o Projeto Político Pedagógico do Ensino Médio Indígena Mura. A nossa proposta advém da expectativa de nossas lideranças que têm consciência das necessidades dos alunos Mura em permanecer na própria aldeia estudando. Pois a experiência que temos, dos jovens que saem da aldeia para estudar fora, não é muito boa. Além de sofrerem com o preconceito e descaso, sem condições financeiras para se manterem nas aldeias, longe de convívio familiar e cultural, os que conseguem lograr êxito nos estudos, não voltam para suas comunidades. A ideia é que esses jovens indígenas possam ser úteis para seu próprio povo, se possível, na sua própria comunidade.

— RESGATE DA CULTURA PAUMARI

— povo  terra indígena 

Paumari

Paumari do Lago Marahã

aldeia 

Estirão

habitantes  local 

48

Cidade de Lábrea - AM

proponente 

e por fim, a criação da cartilha como complemento didático no ensino das crianças, jovens e adultos.

Alves Rodrigues de

Lima Paumari contato 

focimp@yahoo.com.br /

(97) 9158 - 9141 iniciativa no 

951

— A nossa comunidade está localizada na área rural em uma Terra Indígena demarcada. Ela está localizada numa área de vargem e fica próxima das margens do rio. A área da comunidade é preservada, temos à disposição caça e peixe, assim como uma terra fértil para plantação na qual cultivamos roça, batatas, banana, milho, melancia e outras frutas e legumes. O objetivo principal desta iniciativa visa o resgate cultural relacionado às narrativas simbólicas e históricas do povo Paumari, como a criação do mundo, a grande enchente etc. Enviamos este projeto porque a comunidade está preocupada com a perda das histórias e costumes culturais que estão associados aos costumes do povo Paumari e para que as novas gerações possam manter esses rituais vivos passando de geração a geração, uma vez que os Paumari têm uma história de contato antiga com a sociedade envolvente que os prejudicou historicamente em relação à sua cultura como um todo. Queremos que a cultura interna da comunidade venha a ser resgatada e fortalecida, que desperte nos jovens e crianças um maior interesse pela valorização da cultura

GRUPO DE PREVENÇÃO POVO INDÍGENA – O FUTURO SEM VIOLÊNCIA E DROGAS

— povo 

Mura

terra indígena  comunidade 

Paracuúba

Paracuúba

habitantes  local 

Autazes - AM

proponente  contato 

245

Desenvolver atividades comunitárias esportivas e recreativas coletivas, e dinâmicas em grupo nos espaços sociais comunitários e das escolas indígenas objetivando ocupar o tempo ocioso e fortalecer as relações de afetividade entre as crianças e adolescentes indígenas. Articular parcerias com a Organização dos Professores Indígenas/OPIM, Organização Religiosa/Igrejas Batistas, lideranças e comunidades em geral. Nosso objetivo é fortalecer a identidade indígena Mura, a vivência e costumes socioculturais e educacionais das comunidades indígenas Mura, resgatando a histórica, vida comunitária harmoniosa e saudável em que vivia o povo Mura.

Enoch Vale Neto

vale_neto76@hotmail.com /

(92) 8244 - 5958 / 9494 - 3702 iniciativa no 

964

— Nosso objetivo é realizar nas comunidades-alvo eventos socioculturais e educacionais em que serão aplicadas palestras orientadoras especializadas de prevenção à violência e drogas, voltadas especialmente à redução de crianças e adolescentes indígenas envolvidas com o submundo das drogas. Pretendemos intensificar as ações da iniciativa na aldeia Paracuúba a fim de transformá-la em aldeia base referencial. Queremos apresentar conteúdos produzidos em multimídias com metodologia a partir da utilização de equipamentos tecnológicos de última geração.

EDUCAÇÃO E PROCESSOS PRÓPRIOS DE TRANSMISSÃO DE CONHECIMENTOS

— povo 

Kokama Tupi-Guarani

terra indígena  comunidade 

Bom Ramal

Acma-tuyuca

habitantes  local  proponente  contato 

1.361

Amaturá - AM

Glauton Ramos Morais

A nossa comunidade está localizada na proximidade da cidade. A área não é reconhecida como Terra Indígena pelo governo. Nossa área está preservada e a comunidade é conscientizada, o trabalho na roça se dá somente para o autossustento. O projeto que enviamos para o edital visa resgatar a língua materna, arte e cultura do povo Kokama do município de Amaturá, garantindo a prática do ritual sagrado. Nossa comunidade decidiu tomar esta iniciativa, pois se percebe que o povo Kokama vem aos poucos deixando de lado sua cultura, como a língua, a arte e tradição, devido à falta de iniciativa governamental. Pretendemos unir os povos indígenas do município para fortalecer o município e também manter a identidade de cada etnia.

— RYWY WATO RAYRURAP: UMA EXPERIÊNCIA INDÍGENA DE TEATRO INDÍGENA

— povo 

terra indígena  comunidade 

glauton61@hotmail.com.br /

glauton2012@hotmail.com / (97) 8118 - 8770 iniciativa no 

971

Sateré-Mawé Sahu-Apé

Sahu-Apé

habitantes  local  proponente 

60

Iranduba - AM

Hellington de Souza Nogueira

contato 

sahuape@ig.com.br /

sahu_freitas@hotmail.com /

375


376

(92) 8189 - 5114 / 8176 - 0025 iniciativa n

o

  976

— iniciativa nº 982 – Educação, um olhar sobre o nosso

futuro. Aldeia Sahu Apé

iniciativa nº 1.010 – Puracüpata’ü

iniciativa nº 1.016 – Uyumbuesaraita Tamuraki -

Trabalho dos alunos

iniciativa nº 1.028 – Yü’üpataü

EDUCAÇÃO, UM OLHAR SOBRE NOSSO FUTURO. ALDEIA SAHU-APÉ

PURACÜPATA'Ü

— povo 

Tikuna

Vivemos na zona rural, mas sofremos invasão dos madeireiros para corte de madeira e essa é a nossa preocupação. Perto da comunidade está o rio Paranã do Ariaú, afluente do rio Solimões, junto com o rio Negro. Lá ainda podemos pescar porque é farto de peixes. Para caçar temos que atravessar o Paranã do Ariaú, pegar a terra firme, porque lá ainda tem animais como tatu e paca, que servem de alimento para a aldeia. O nosso objetivo é interpretar a nossa própria história sateré-mawé, os mitos e rituais, e assim valorizar ainda mais a nossa história. Ensinar para as crianças. Acreditamos que por meio de teatro elas não vão esquecer mais as nossas histórias, pois se já não esquecem lendo, escutando, imagine vivendo aquele personagem, fazendo aquele papel de teatro. Assim, as crianças poderiam contracenar com seus coleguinhas e isso seria mais vantajoso para aprender a história e também a imagem sateré. É importante perceber que as crianças sabem todas as histórias que passam no desenho do Pica-Pau, mas não sabem as histórias sateré e que nem estão aprendendo a falar a nossa língua. Já que o desenho chama a atenção delas, pode ser que uma brincadeira também chame e elas aprendam com isso.

Nosso objetivo é não depender do ensino fora da aldeia e também garantir que o conteúdo das aulas priorizaria a cultura sateré-mawé. Na escola formal isso não acontece. Também pretendemos fortalecer a nossa comunidade, tornando-a autossuficiente. Nosso objetivo é o fortalecimento: para que se possa viver a cultura, viver a realidade sateré, fortalecer atividades turísticas que são o carro-chefe da aldeia, porque quanto mais valorizamos e fortalecemos a cultura, mais estaremos contribuindo para o fortalecimento do turismo. A comunidade toda produz artesanato e recepciona os turistas que vêm a procura de conhecer o povo Sateré, e temos que mostrar a língua forte, artesanato forte, mostrar nossos costumes e formas de alimentação.

A comunidade Barreira da Missão de Cima está localizada em área demarcada pela FUNAI. O objetivo desta nossa iniciativa é fortalecer a cultura dos nossos povos, da nossa comunidade. Em termos de resgatar a cultura tradicional, como a língua materna, fortalecer a dança cultural, como a festa da moça nova, a dança do jurupari e a dança do pássaro. Nosso objetivo é valorizar a prática de confeccionar artesanatos indígenas e construir uma casa cultural para apresentação cultural na comunidade. Nós queremos principalmente conscientizar as lideranças, crianças, jovens e adultos para reviver a nossa língua materna, costume tradicional que ficou escondido devido à vergonha dos indígenas de falar na sua língua nativa. Queremos realizar danças dos nossos povos; isso faz com que todas as pessoas se unam para fortalecer a pratica cultural.

— povo 

Sateré-Mawé

terra indígena  comunidade 

Sahu-Apé

Sahu-Apé

habitantes  local  proponente  contato 

60

Iranduba - AM João da Silva Freitas

joao-freitas@hotmail.com /

sahupe@ig.com.br / (92) 8176 - 0025 iniciativa no 

982

terra indígena  aldeia 

Barreira das Missões

UYUMBUESARAITA TAMURAKÍ

— povos 

Tucano e Baré

Barreira da Missão de Cima habitantes  local 

proponente  contato 

298

Tefé - AM

terra indígena  comunidade 

Manoel Ribeiro da Silva

tchimaucu@riseup.net /

(97) 9169 - 0598 iniciativa no 

1.010

Baniwa, Kuripaco, Tariano, Alto Rio Negro Bitíro Ponto

habitantes  local 

380

além disso, este livro vai incentivar a produção de materiais nas outras escolas da região, com outros alunos e outras realidades. Ter estes materiais em mãos, numa região com tanta diversidade linguística, contribui para a continuação das culturas e línguas indígenas do país, principalmente na região Amazônica.

São Gabriel da Cachoeira - AM

proponente  contato 

Miguel Carlos Piloto

miguelpiloto22@hotmail.com /

(97) 3295 - 4800 / 3295 - 4811 iniciativa n

o

  1.016

— A comunidade vive em área rural, reconhecida como Terra Indígena pelo Governo. A área está preservada. Existem animais para caçar e terra boa para o plantio de mandioca. Este projeto tem como objetivo principal a publicação de um trabalho que tem sido desenvolvido há alguns anos pelos professores, alunos e comunidade de Nossa Senhora de Assunção, do rio Içana, com aulas de pesquisa e escrita das histórias, lendas e mitos do povo Baniwa da região. A realização deste livro com as nossas histórias, nas nossas línguas, vai valorizar aquilo que a gente tem nas comunidades, o nosso modo de vida e os conhecimentos dos antigos. Os alunos ficarão orgulhosos em ver os seus trabalhos na forma de livro e toda a comunidade vai gostar, pois quando os alunos apresentam as suas pesquisas, toda a comunidade vai até a escola para ouvir sobre os resultados e as histórias coletadas pelos jovens,

YÜ'ÜPATAÜ

— povos 

Tikuna, Kokama e Kambeba

terra indígena  aldeia 

Barreira das Missões

Barreira da Missão do Meio habitantes  local 

proponente  contato 

234

Tefé - AM

Raimundo Boaventura

tchimaucu@riseup.net /

(97) 9169 - 0598 iniciativa no 

1.028

— A comunidade Barreira da Missão do Meio está localizada em área demarcada pela FUNAI. Estamos preservando a nossa terra, ainda temos matas suficientes para a manutenção de práticas culturais, assim como temos caça de pequenos animais, criação de abelhas, roçado para roça familiar e outros. O objetivo desta nossa iniciativa é fortalecer a cultura dos povos da nossa comunidade em termos de resgatar a cultura tradicional, como por exemplo falar em língua materna, fortalecer a dança cultural como a festa da moça nova, a dança do

377


378

iniciativa nº 1.032 – Waiyuripau’u

jurupari e a dança do pássaro. Além de valorizar prática de confeccionar artesanatos indígenas. Também queremos construir uma casa cultural para apresentação cultural na comunidade. Decidimos realizar essa iniciativa para apoiar a valorização e fortalecimento da nossa aldeia. Queremos que nossos jovens tenham os seus equipamentos exclusivos para prática cultural durante os eventos na comunidade e que possam ter intercâmbios de cultura com outras etnias e com os não indígenas na cidade, o que valoriza a força dos nossos jovens, faz com que se sintam apoiados e incentivados.

iniciativa nº 722 – Projeto Semana Cultural

— WAIYURIPAÜ'Ü

— povo  terra indígena  aldeia 

Tikuna

Barreira da Missão de Cima

Barreira da Missão de Cima habitantes 

iniciativa nº 727 – Projeto Wiwato -aprendendo os

valores através da dança

local  proponente  contato 

298

Tefé - AM

Silvio Almeida Bastos

tchimaucu@riseup.net /

(97) 9169 - 0598 / 3343 - 3444 iniciativa no 

1.032

— A nossa comunidade está localizada em área demarcada pela FUNAI desde 1991, graças à luta de todas as lideranças da aldeia. O objetivo desta nossa iniciativa é fortalecer a cultura dos povos da nossa comunidade em termos de

resgatar a cultura tradicional como, por exemplo, valorizar a língua materna da etnia Tikuna, fortalecer canto na língua, as danças culturais, as festas comemorativas da comunidade e as apresentações de teatro cultural. Nosso objetivo é incentivar as práticas de confecção de artesanatos indígenas, cerâmica e tecelagem. Queremos que nossos jovens tenham os seus equipamentos exclusivos para prática cultural durante os eventos na comunidade e que possam ter intercâmbios de cultura com outras etnias e com os não indígenas na cidade, o que valoriza a força dos nossos jovens, faz com que se sintam apoiados e incentivados. Nós queremos alcançar nosso objetivo, que é principalmente de conscientizar as lideranças, crianças, jovens e adultos para reviver a nossa língua materna, os costumes tradicionais que ficaram escondidos devido à vergonha de falar na língua nativa e a realização das danças dos nossos povos.

— UMA PESQUISA COLETIVA DE JOVENS E DE SÁBIOS WAJÃPI SOBRE O COMEÇO DO MUNDO

— povo 

Wajãpi

terra indígena  habitantes 

Wajãpi

1.004

local  proponente 

Macapá - AP

Associação Wajãpi Terra,

origem, as transformações, a história dos povos e das pessoas.

Ambiente e Cultura - Awatac contato 

awatac@hotmail.com /

conselho@apina.org.br / (96) 3224 - 2113 / 8138 - 0201 iniciativa n

o

  433

— Os Wajãpi vivem em área rural, na TI Wajãpi/TIW, homologada em 1996 e com extensão de 6.070,17 km2, localizada nos municípios de Pedra Branca do Amapari e Laranjal do Jarí, no estado do Amapá. Estamos distribuídos entre 48 pequenas aldeias. Precisamos aprofundar a valorização dos conhecimentos tradicionais wajãpi nas aldeias. Daqui a 10 anos, os jovens de 15 anos devem saber fazer alguns tipos de festas, fazer roças, construir alguns tipos de casas, pescar e caçar, saber como escolher lugar para mudar de aldeia, saber fazer alguns tipos de utensílios (tipiti, matura...), respeitar as lógicas e regras de resguardo (da moça, dos filhos recém-nascidos e pessoas doentes), cursar a 8ª série, no ensino diferenciado, nas escolas das aldeias (e não na cidade), controlar a bebida alcoólica na cidade, usar computador, pilotar motor, saber comparar o conhecimento Wajãpi e karaikõ, saber escolher alimentação saudável. Como resultado vai haver publicações e vídeos na língua wajãpi e em português, mas o mais importante é o envolvimento dos jovens e dos adultos em torno do trabalho de registro de nossos saberes sobre a

SEMANA CULTURAL

— Karipuna e Galibi Marworno

povos 

terra indígena  comunidades 

Uaça

Santa Izabel, Pakapuá,

Taminã e Txipidõ habitantes  local 

desenvolvendo essas atividades de fortalecimento cultural.

Oiapoque - AP

proponente  contato 

410

situação, resolveram introduzir efetivamente as danças, cantos e ritmos do povo Karipuna nas festividades escolares, e incorporam no calendário escolar indígena a “Semana Cultural”, que é o momento de repassar os conhecimentos tradicionais para as crianças e jovens das comunidades envolvidas. Portanto, a Semana Cultural é o caminho para manutenção das tradições, para continuarem

Glaucia dos Santos

fabriciokaripuna@gmail.com /

(96) 3521 - 3114 / 3521 - 3293 / 8803 - 5002 iniciativa n

o

  722

— A Terra Indígena Uaça, habitada pelos povos Galibi Marworno, Karipuna e Palikur, está demarcada e homologada pelo decreto 298 (Diário Oficial da União de 30/10/91). Toda sua área é bastante farta no que se refere à fauna e flora. Este projeto tem como finalidade apoiar e incentivar o fortalecimento cultural, da comunidade indígena de Santa Izabel em ensinar crianças e jovens a confeccionar objetos usados no cotidiano e incentivá-los a valorizar nossas tradições culturais, como meio de fortalecer ainda mais nossa identidade indígena. Devido ao contato com a cidade de Oiapoque, os indígenas adquiriram muitos hábitos dos não índios, e, em razão disso estão esquecendo parte de suas tradições. Preocupados com essa

WIWATO: APRENDENDO OS VALORES ATRAVÉS DA DANÇA – CONSTRUÇÃO DA CASA CERIMONIAL NA BOCA DO MARAPI

— povo  terra indígena 

Tiriyó

Parque Indígena do

Tumucumaque aldeia 

Boca do Marapi

habitantes  local  proponente  contato 

60

Macapá - AP Diakui Sora Tiriyo

tiriyosora@hotmail.com /

(96) 3222 - 3589 / 9110 - 7551 iniciativa no 

727

— A terra onde vive a comunidade tiriyó que está propondo essa iniciativa é denominada de Parque

379


380

iniciativa nº 454 – A língua Txapacura viva na história

Indígena do Tumucumaque. Foi identificada e demarcada porque nós lutamos pelo reconhecimento do nosso território original. O objetivo desta iniciativa é valorizar o fortalecimento de práticas culturais da comunidade da aldeia Boca do Marapi. Quanto mais valorizarmos, mais difícil será para perdermos nossa identidade, e pretendemos realizar um trabalho relacionado com a proteção desses valores. Com essa iniciativa é que vamos aprender a valorizar os valores através da dança, por isso demos o nome de Wiwato. Com esse projeto nós queremos construir uma casa de encontros comunitários e culturais, onde toda a aldeia vai se reunir. Se reunir para as festas e reuniões políticas, para discutir problemas, para dançar e festejar. Queremos que os jovens se interessem mais pela nossa cultura, acompanhando os velhos, os sabedores. Por isso, nós vamos fazer a casa, e vamos fazer uma festa tradicional para inaugurá-la, para os jovens verem como é que é ser feliz na própria cultura, na tradição. Se não for assim, a identidade acaba.

— PROJETO TURUPERE MENURU: CONHECIMENTO DAS CULTURAS TRADICIONAIS WAIANA APALAI

— povos 

Waiana e Apalai

terras indígenas 

Parque do Tumucumaque

e Paru D’Este aldeias 

Bona, Parapará, Pururé e Itapeky habitantes  local 

proponente 

355

Macapá - AP

Associação dos Povos Indígenas

Waiana Apalai (APIWA) contato 

apiwa2010@gmail.com /

aldeias para discutir o que está sendo esquecido e não está mais sendo praticado, garantir a participação dos jovens em aprender sobre tecelagem, plumagem, cerâmica, festas, rituais e outros conhecimentos relacionados com isso, preparar um material para usar nas escolas, de leitura, escrito na língua pelos professores usarem com seus alunos.

(96) 8116 - 9057 iniciativa no 

729 

premiada

— Os povos Waiana e Apalai vivem na área rural, na Terra indígena do Parque do Tumucumaque e Terra Indígena Paru D’Este. As terras são reconhecidas e homologadas desde 1997. Os Apalai e Waiana, principalmente os jovens junto com professores indígenas, devem dar iniciativa em documentar, registrar e catalogar as suas próprias diversidades dos seus ancestrais, que se encontram somente na memória dos idosos. Através da escola, dos professores é que serão transmitidos os conhecimentos culturais registrados e resgatados. De acordo com a realidade e necessidade dos povos Waiana e Apalai, podemos buscar através do Projeto Turupere Menuru (pintura da cobra grande), a origem de diversas perspectivas da arte e pintura que surgiram há alguns séculos atrás. O nosso objetivo é discutir através das reuniões os anseios das comunidades, nas aldeias, coordenar e participar de reuniões com velhos, professores e interessados, mobilizar reuniões nas

WY'TY-CATÊ. A GRANDE FESTA DO POVO KRIKATI

— povo 

Krikati

terra indígena  aldeias 

Krikati

Arraias, Campo Alegre, Raiz,

Recanto dos Cocais e São José habitantes  local  proponente  contato 

1.100

Montes Altos - MA Artur Junior Milhomem

pinturas, artesanatos e ritos. É uma festa que dura de 08 meses a um ano, durante o qual todos participam, sendo uma forma de repassar os conhecimentos e práticas culturais do povo Krikati, através de nossos anciões para a geração presente e as gerações futuras, fortalecendo nossa identidade e língua. Além de realizarmos a festa estaremos promovendo dois tipos de oficinas, as duas voltadas para os jovens do povo Krikati. Esperamos primeiramente a realização da festa, que simboliza a harmonia e a união do povo Krikati em uma grande congregação, como também despertar o interesse e o aprendizado dos nossos jovens e a vontade dos anciões de ensinar. Com a produção audiovisual esperamos registrar nossas festas para mostrar, para que as próximas gerações possam fazer pesquisas e iniciar um acervo do povo Krikati, que começará a partir do material audiovisual produzido pelos alunos, transformado em DVD pelo editor de imagem.

caxiicwyj@hotmail.com /

xajaca@yahoo.com.br / (99) 8410 - 6646 / 8404 - 4697 / 3525 - 1762 iniciativa no 

1.058

— As comunidades das aldeias São José, Arraia, Campo Grande, Recanto dos Cocais, Raiz e Nova Jerusalém estão em área rural e são legalmente reconhecidas como Terra Indígena. O objetivo desta iniciativa é realizar e registrar festa de Wy’ty-catê, a maior festa do povo Krikati e de todos os Timbiras. Nessa festa temos cantos,

A LÍNGUA TXAPAKURA VIVA NA HISTÓRIA

— povos 

Oro Waram Xijein, Oro Waram, Oro Mon e Oro Nao’ terra indígena  aldeia 

Igarapé Lage

Lage Novo

habitantes  local 

300

Guajará Mirim - RO

proponente 

Arão wao hara ororam xijiein

contato 

araoxijein@gmail.com /

(69) 9935 - 8845 / 8494 - 0895 iniciativa no 

454

— A comunidade se localiza na área rural. A Terra Indígena é demarcada e homologada pelo governo. Mesmo assim enfrentamos problemas com invasões de madeireiros e garimpeiros. No dia a dia a comunidade fala só a língua materna, mas em algumas frases entram palavras em português, para complementar a fala, porque existem alguns objetos que não têm nome na língua materna. Na escola o professor(a) indígena alfabetiza primeiro na língua materna, depois na língua portuguesa. A língua de instrução é a língua indígena, mas todo o material didático está em português, exceto os livros que construímos. O objetivo